EU ACHO …

A FÉ NÃO IMUNIZA

Os líderes evangélicos precisam assimilar a importância da ciência: já se foi o tempo em que ela rivalizava com a religião

Sobram profetas anunciando que o coronavírus é uma praga apocalíptica e a Covid-19, um juízo de Deus contra a maneira irresponsável e predatória como a humanidade vive no universo. Há também quem pregou que um grande jejum comunitário e compartilhado nas redes sociais pudesse ser o remédio contra o problema. Antes de entrar nos pormenores de cada questão, é preciso entender historicamente a longa e complicada relação da religião com a ciência. Associar os fenômenos sociais e naturais a causas espirituais e sobrenaturais é próprio de todo sistema religioso. É importante ressaltar que a religião encara o mundo como um mistério que exige explicação e sabe que não é a ciência que pode revelar o que está oculto por trás do aparente. Essa compreensão da religião, entretanto, abre um fosso de distanciamento que coloca a fé e as crenças de um lado e a razão e a ciência no extremo oposto. Um abismo perigoso e que não precisa ser tão profundo.

Em sua obra As Formas Elementares da Vida Religiosa, o sociólogo francês Émile Durkheim esclarece que a religião se ocupa da “ordem de coisas que ultrapassa o alcance de nosso entendimento, o sobrenatural, o mundo do mistério, do incompreensível. A religião seria, portanto, uma espécie de especulação sobre tudo o que escapa à ciência e, de maneira mais geral, ao pensamento claro”.

Explicar a ordem do universo natural a partir dos mistérios da sobrenaturalidade pode fazer alguma diferença em contexto de baixo desenvolvimento científico. Houve um tempo no qual as rupturas da ordem natural — períodos de seca quando se esperava chuva ou chuvas torrenciais fora do padrão, colheita escassa frustrando a expectativa de fartura, ou ter de lidar com pragas e pestes que destruíam os campos e as sociedades — podiam ser explicadas como ação dos deuses, ou mesmo de Deus, descarregando sua ira sobre o mundo. A mentalidade religiosa perdeu lugar à medida que o conhecimento científico foi domesticando a natureza. Para uma boa safra é melhor se fiar na tecnologia agrícola que no humor dos deuses. Contra pestes e pragas, Albert Sabin (que desenvolveu a vacina contra a poliomielite) e Alexander Fleming (descobridor da penicilina) ajudaram mais que rezas e quebrantos.

A noção de que a religião trata do que escapa à lógica racional e científica e explica aquilo de que a inteligência humana não dá conta sugere outro abismo perigoso — aquele que separa o racional do irracional. O passo seguinte é a condenação da religião como superstição de gente ignorante. Em termos simples, quanto mais ciência, menos religião; quanto mais esclarecimento, menos necessidade de fé; quanto mais iluminado ou ilustrado o mundo, menos supersticioso ele é, em tese.

Os profetas contemporâneos e os pastores que insistem em negar a voz da ciência em nome da fé prestam, portanto, grande desserviço à sua crença. Comprometidas em resguardar o papel da religião num mundo que o teórico social Max Weber chamou de desencantado, onde Deus é tido como hipótese desnecessária, as lideranças religiosas que pretendem combater o vírus com vigílias, orações e jejuns conseguem apenas reforçar a noção secular de que a experiência religiosa é mesmo para incultos e fanáticos.

Pastores que, apesar de todas as recomendações e orientações das autoridades competentes, insistem em manter seus templos abertos e dar continuidade a seus eventos e cultos expressam não apenas ignorância, como também atuam de maneira irresponsável e cruel, expondo seus fiéis e a própria sociedade à disseminação de um vírus que já se provou letal. A necropolítica encontra em líderes religiosos de caráter duvidoso, ou mal esclarecidos, sua face mais nefasta, pois é promovida em nome de Deus, em franca oposição às palavras de Jesus, que dizia: “Eu vim para que tenham vida”.

Paralelo parecido pode ser feito quando o assunto é a convocação para um jejum nacional no Brasil, ideia admirada por uns, rechaçada por tantos outros. Aos que desconhecem o hábito, tal convocação encontra contexto na Israel bíblica, quando um rei, que governava em um Estado teocrático e sob a autoridade religiosa dos sacerdotes, usava o período de abstinência de alimentos e de sacrifícios para apresentar a Deus seu arrependimento, livrando o povo, assim, de seu juízo. Falta a muitos religiosos, porém, um olhar atual sobre hábitos específicos do período registrado no Antigo Testamento da Bíblia. O Brasil não é um Estado teocrático, é um Estado democrático de direito. O Brasil não tem rei sob autoridade religiosa, mas um presidente eleito democraticamente, que governa sob a autoridade do pacto social expresso na Constituição. Como já dito, o flagelo que abate o Brasil e o mundo não é juízo de Deus contra a idolatria de seu povo. No Novo Testamento, o hábito do jejum foi ressignificado por Jesus como um ato de devoção íntima e pessoal, praticado no anonimato, e não com publicações nas redes sociais. Como diz o texto bíblico, o Pai (Deus), ao ver a oração íntima, recompensa aos seus — enquanto quem se vangloria de sua religiosidade busca somente o aplauso de homens. Reforço aqui: o caminho para a superação da pandemia passa pela submissão à autoridade da ciência e pelo rigor na observação das orientações e recomendações dos profissionais da saúde.

A cisão entre fé e ciência reflete mais ignorância que piedade. Atender às recomendações das autoridades governamentais, notadamente aquelas orientadas pelos profissionais da saúde, os especialistas e infectologistas, é uma expressão de sensatez e também uma forma de honrar a Deus. Pois, como bem disse Louis Pasteur, “um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”.

A religião não rivaliza com a ciência: assim como a fé não imuniza, também não existe vacina contra o preconceito, o egoísmo e a crueldade. Se é verdade, e assim creio, que o coronavírus deve ser enfrentado com boa medicina, e a superação da Covid-19 será inclusive uma conquista da ciência, também é verdadeiro que os suplementos de empatia, solidariedade, compaixão e misericórdia, necessários e heroicamente demonstrados por todos aqueles que se expõem ao risco para prover cuidado aos enfermos e vulneráveis, são qualidades que se encontram no coração dos que creem (ou intuem) que a vida descansa nos mistérios e virtudes do espírito humano e do Espírito divino. Assim é a fé saudável: não se fabrica em laboratórios nem se compra em farmácias.

ED RENÉ KIVITZ, teólogo, é mestre em ciências da religião e pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.

OUTROS OLHARES

PENDURANDO O PALETÓ

Com o isolamento social, terno e gravata deixaram de ser o figurino oficial dos executivos. Há quem já nem pense em tirá-los do armário. Mas o traje social também precisa de cuidados para sobreviver.

A pandemia inaugurou uma fase em que home office e reuniões por videoconferência passaram a fazer parte do já aborrecido “novo normal”. Profissionais que passavam o dia no escritório, visitando clientes ou em reuniões externas, agora despendem seus dias trabalhando no próprio lar. Com isso, mudou também o dress code. Para todos. Especialmente, para quem precisava usar terno e gravata. Nesse contexto, surge uma preocupação: como cuidar dessas peças nos dias atuais, em que elas têm ficado muito mais tempo dentro de armários e guarda-roupas? E uma preocupação inédita com a higienização que esse tipo de roupa exige quando é usada.

Essas questões têm ocupado a mente de empresários e executivos das mais diversas áreas. Sócio da Lean IT, empresa especializada em consultoria e treinamentos, com sede em São Paulo, Rodrigo Aquino é um deles. Acostumado a usar ternos e paletós “quase todos os dias”, ele passou a adotar uma prática simples e eficiente, seguindo recomendações de autoridades da saúde. “Uma vez por semana, coloco alguns ternos na sacada, para que tomem um pouco de sol e vento”, disse Aquino. Mas ele sabe que isso é apenas o básico. Para se proteger do coronavírus e manter a qualidade das roupas sociais, Aquino decidiu comprar um equipamento que passa e lava as peças a seco. “Será um excelente investimento nesses dias de pandemia”.

Com o cargo de CSO da companhia de tecnologia Depp Center, o executivo Maurício Tinoco ainda não pensa em adquirir algo do tipo, mas também sentiu os efeitos da pandemia sobre seus ternos. Antes da Covid-19, Tinoco costumava usar um conjunto para cada dia da semana. Durante a pandemia, chegou a ficar 90 dias sem vesti-los. “Foi a primeira vez, nos últimos 20 anos, que passei tanto tempo sem usar terno”, afirmou. Agora, com a reabertura gradual de algumas empresas, Tinoco voltou a participar de reuniões presenciais e a fazer visitas a clientes em São Paulo, onde fica a empresa.  “Não está como antes, mas já estou usando os ternos duas vezes por semana”. Ao chegar em casa, deixa as peças por dois dias tomando sol na varanda. “E orientei nossa secretária a escovar e passar os ternos a ferro antes de guardá-los”. A recomendação está de acordo com estudos científicos, segundo os quais as altas temperatura otimizam a higienização e ajudam a combater o coronavírus.

ELES GOSTAM DE PASSEAR

Cada um à sua maneira, quem usa terno tem encontrado a melhor forma de cuidar das roupas durante a pandemia. É pouco provável, porém, que algum executivo utilize estratégia tão curiosa quanto a do advogado Jamerson Marra, sócio do escritório Ferreira & Marra, em Belo Horizonte. Com treze ternos no guarda-roupas, ele gosta tanto das peças que as trata com carinho admirável, como se fossem pets. “Os ternos precisam respirar. Não posso deixá-los confinados”, disse. “Tenho peças de R$ 15 mil. Elas merecem ser bem cuidadas”. Além de lavar a seco os ternos e de mandar passá-los logo após o uso, a solução que Marra encontrou foi usá-los mesmo sem necessidade, como em reuniões por video-conferência. “O pessoal do escritório tira onda quando eu apareço de terno em pleno home-office. Mas quero usar minhas roupas e sei que é bom tirá-las do armário”. Ele já chegou ao ponto de vestir as peças apenas para dar uma volta na rua. “Como nós, os ternos gostam de passear. Faz bem a eles”.

Um dos nomes mais respeitados do universo da moda no Brasil, o estilista e empresário Ricardo Almeida reforça a importância de todas as recomendações das autoridades de saúde, mas dá dicas específicas em relação ao armazenamento dos ternos. Com ou sem pandemia. “Independentemente do período que estamos vivendo, é essencial armazenar as peças da forma adequada, para garantir a boa conservação. Principalmente se o terno é feito a partir de fibras naturais, de origem animal ou vegetal”, afirmou. Segundo Ricardo Almeida, o local de armazenamento deve ser seco e arejado, prevenindo o desenvolvimento de bactérias. “É importante evitar guardar os ternos dentro de capas plásticas, como as de lavanderia, pois prejudicam a qualidade do tecido, já que o plástico pode sufocá-lo”. Com essas dicas e seguindo as orientações médicas, seus ternos estarão sempre bem-cuidados e sua saúde, protegida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 09 DE SETEMBRO

A CASA DE DEUS, DELEITE DA ALMA

Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvam-te perpetuamente (Salmos 84.4).

Jesus tinha o costume de frequentar a sinagoga; tinha o hábito de ir à Casa de Deus. Os filhos de Coré dizem que um dia nos átrios da Casa do Senhor vale mais que mil dias nas tendas da perversidade. O salmista declara: Alegrei-me quando me disseram: vamos à Casa do Senhor (122.1). Na Casa de Deus temos três encontros importantes: com Deus, com nossos irmãos e também conosco mesmos. Quando entramos nos átrios da Casa de Deus, pisamos o terreno da felicidade, pois ali ouvimos palavras de vida. Ali contemplamos o Senhor na beleza da sua santidade. Ali temos uma compreensão da feiura do nosso pecado e da beleza do perdão divino. É na Casa de Deus que temos uma compreensão mais clara da transitoriedade da vida e da necessidade da graça. É na presença de Deus que temos plenitude de alegria e é na sua destra que desfrutamos de delícias perpetuamente. O salmista diz: Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvam-te perpetuamente. Você se deleita em ir à casa de Deus? Como o salmista, pode dizer que se alegra quando o convidam a ir à Casa do Senhor? Você tem orado a Deus como Davi: Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo (Salmos 27.4)?

GESTÃO E CARREIRA

CONSUMO NA PALMA DA MÃO

O e-commerce ganha cada vez mais espaço entre os brasileiros e se torna um grande aliado dos negócios

Que o universo digital ganha cada vez mais espaço não é mais novidade. Fato é ainda que a busca por agilidade e praticidade em todos os processos tornou a população brasileira cada vez mais adepta das ferramentas que facilitam sua vida, incluindo nesta lista uma série de aplicativos, principalmente aqueles em que você pode comprar com um clique e receber seu produto no conforto do lar.

Não à toa, dados do Compre &Confie, da ClearSale, apontam um crescimento de 23% nas compras pela internet em relação a 2018 até o momento. No começo do ano, um estudo da Ebit Nielsen já previa um crescimento de 15% no setor de e-commerce em 2019, dando destaque para as categorias de cosméticos e moda, com um faturamento estimado em R$61,2 bilhões.

No fim do ano passado, uma pesquisa da SBVC com apoio técnico da BTR­Educação e Consultoria, Varese Retail e Centro de Estudo e Pesquisa do Varejo (CEPEV – USP) trouxe as “50 Maiores Empresas do E-Commerce Brasileiro”, que apontava nos três primeiros lugares B2W Digital, Via Varejo e Magazine Luiza Em 2017, elas somaram um total de R$36,2 bilhões – esse número corresponde a 75,89% das vendas totais do comércio eletrônico (calculadas pelo Ebit em R$47,7 bilhões). Somente as dez maiores somam R$29,91 bilhões em vendas, o equivalente a 62,7% do comércio eletrônico no País. Confira quais são na tabela “Posição das Empresas no Universo Digital”.

BEM-VINDO AO DIGITAL

Com dez anos de mercado nacional, a Privalia – outlet digital de moda – observou, no início, um ímpeto muito grande no crescimento acelerado de vendas e base de clientes, com pouca preocupação na sustentabilidade do negócio, tanto do ponto de vista operacional quanto financeiro. “De alguns anos para cá, após algumas empresas ficarem pelo caminho, eu vejo que as que mais rapidamente observaram a importância de uma operação bem estruturada e um negócio consistentemente rentável e bem administrado passaram a se destacar e ter sucesso”, explica o country manager da Privalia, plataforma que entrou no décimo lugar do ranking, Fernando Boscolo.

De acordo com ele, o mercado brasileiro passou por uma fase em que as empresas que conseguiram sobreviver, hoje estão se organizando e se capacitando, e agora podem fazer de forma mais madura um novo ciclo de crescimento, agora muito mais sustentável.

A outlet digital foi fundada em 2006, na Espanha, e chegou ao mercado brasileiro em 2009. Hoje, como parte do grupo francês criador do conceito flash sale, Vente Privee, está presente em 14 países e possui uma base fiel de 11 milhões de usuários ativos, além de 1,3 milhão de visitantes mensais e 150 mil consumidores por mês, totalizando uma média de 320 mil pedidos por mês, com cerca de 970 mil itens vendidos. Além do site, a Privalia conta com aplicativo, que atualmente representa mais de 83% da origem de receita.

O chef de marketing officer do Peixe Urbano e do Groupon da América Latina, Adalberto Da Pieve, avalia também que o crescimento desse mercado foi grande por conta da profissionalização do setor e da rápida adoção de internet e de compras on-line pelo brasileiro. “Hoje, temos um grande número de profissionais muito qualificados trabalhando no mercado. Houve um amadurecimento do e-commerce brasileiro com respeito à necessidade de lucratividade. A tecnologia também influenciou bastante. Vimos a chegada dos smartphones, da tecnologia móvel e das redes sociais digitais”, diz.

A declaração faz ainda mais sentido quando levado em conta que o brasileiro é campeão de tempo conectado na internet, com 9 horas e 14 minutos diários de acesso, segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil divulgou em 2018. Isso sem falar que 49% desses internautas o fazem apenas pelo celular, sendo que outros 47% usam celular e computador.

Esses dados são bons indicadores do perfil do brasileiro que está on-line no celular e pronto para receber o impacto da sua venda on-line: geralmente são das classes D e E – visto que A e B possuem ainda outros tipos de dispositivos – e os pertencentes a regiões rurais ou ao Norte e Nordeste, onde a internet não chega com facilidade e os dados do aparelho ajudam a conexão.

O brasileiro é um early adapter e heavy user de todas as coisas de internet. Mais conectado do que a maior parte dos povos, o brasileiro usa a tecnologia de maneira intensiva e muito criativa. Passa mais tempo do que a grande maioria em redes sociais, conecta-se, comunica-se de forma muito veloz. “Isso aumenta muito nosso desafio como profissionais da área, mas também nos impulsiona. É muito difícil tentar preencher os desejos e necessidades do público brasileiro no que tange ao e-commerce”, completa Adalberto Da Pieve.

O diretor de operações do Olist – empresa que ajuda varejistas e marcas a conquistarem mais clientes e vendas -, Leonardo Dabague, conta também que ir para o mundo on-line quebra barreiras geográficas e permite que seu produto seja visto e adquirido por um mercado muito mais amplo do que o varejo tradicional. Assim como no comércio tradicional, é importante ter um bom sortimento, preços competitivos, estoques adequados. O que o e-commerce tem de bastante diferente do off-line é a necessidade de um excelente cadastro (boas fotos, bom título, descrição informativa e organizada) e uma operação ágil para receber pedidos e despachá-los no mesmo dia”, destaca lembrando como uma boa apresentação dos produtos e uma logística bem organizada podem ser o grande diferencial.

Segundo ele, o e-commerce atingiu R$133 bilhões em 2018. Em relação aos perfis de compra, independentemente do dispositivo usado para isso, ele conta que é bastante balanceado entre mulheres e homens e têm uma grande concentração nas regiões Sudeste e Sul. Mesmo assim, o celular ainda é a ferramenta mais utilizada e o meio de pagamento predominante é o cartão de crédito.

OS PRIMEIROS PASSOS

Como se destacar? “Uma cultura muito forte, disciplina, simplicidade, orientação aos clientes e parceiros, e claro, time” – é o que aconselha Fernando Boscolo, que passou por outras empresas grandes antes da Privalia, como a Natura Cosméticos, Jequiti e Água de Cheiro. Sobre as tendências para o setor, ele acredita que as marcas vão passar a entender o e-commerce muito mais como um complemento ao comércio físico do que, de fato, um canal concorrente dele. “Pense em como ser relevantepara os seus clientes em primeiro lugar. Não tente crescer para depois se tornar rentável. É importante ser rentável desde o começo e não menosprezar a importância de uma área de operações bem estruturada! O e-commerce de verdade acontece por trás do site”, aconselha.

No caso da Privalia, o atendimento ao cliente também é crucial. Dessa forma, a empresa busca adotar formas de comunicação que sejam mais aderentes às necessidades dos consumidores – e-mail, telefone, WhatsApp, chat e aplicativo.

Apesar de o Brasil ser um exemplo no volume e utilização de mídias sociais, ainda há um número grande de brasileiros que nunca fizeram uma compra por meio de um e-commerce. O country manager da Privalia acredita que isso está mudando dia após dia; uma vez que todos os clientes que já tiverem acesso à oportunidade de consumo pela internet, falarão para outros, que também se tornarão consumidores futuramente.

Contudo, é fundamental manter o espírito de startup: estar sempre testando coisas novas, sem medo de errar, e adaptando rapidamente ações. É justamente essa capacidade de se adaptar ao mercado que ajuda ele mesmo a evoluir. É algo que está profundamente enraizado na própria cultura brasileira. “Nos reinventamos várias vezes no passado e vamos continuar nos reinventando. O futuro se impõe. O consumidor está cada vez mais informado e exigente. A comparação da qualidade da experiência de consumo não se dá apenas entre empresas que atuam no mesmo setor – o consumidor compara um e-commerce com um aplicativo de entregas com outro de viagens, e exige que a experiência seja similar às melhores experiências que ele enxerga através de todas essas plataformas. É um comportamento um tanto novo, mas que veio para ficar”, completa Adalberto Da Pieve.

USE AS FERRAMENTAS A SEU FAVOR

Ferramentas são importantes, usamos as que nos parecem melhores para nosso momento, mas seguimos sempre provando novas tecnologias e adaptando-as à nossa realidade. “O mais importante é a cultura da empresa – de entender que o cliente está mesmo no centro de tudo, que estamos trabalhando para o cliente, e isso não é apenas um chavão. E o cliente, no nosso caso, são dois: o cliente que compra nossos produtos e serviços e nosso parceiro que fornece os produtos e serviços. Temos dois clientes e precisamos sempre pensar no que é melhor para eles, a fim de garantir uma parceria boa para todos e duradoura”, ressalta o chief de marketing officer do Peixe Urbano e do Groupon da América Latina.

Claro que não existe fórmula mágica para dar certo, mas um bom planejamento, divulgação pensando na aproximação com o potencial consumidor e um atendimento eficiente são pontos de partida que podem fazer toda a diferença no mercado. Um fator em comum entre as empresas de maior sucesso é o fato de acompanharem constantemente o mercado, concorrentes e fornecedores. Estar de olho em tudo isso é essencial, sem esquecer datas promocionais e questões sazonais, que podem gerar oportunidades ou prejuízos se não forem bem aproveitadas.

Outra tendência que vem chegando são os pagamentos simplificados, que podem variar desde o básico cartão de crédito até ferramentas como boletos bancários e inserção de saldo por meio de Paypal ou Mercado Pago, por exemplo.

Além disso, se a pessoa busca rapidez na hora de comprar, ela espera o mesmo da entrega do produto. Por isso, organize uma logística prática e inteligente. Por fim, no exterior já tem crescido a opção de compras por assistente de voz e é algo a ser pensado para o seu negócio. Acredito que existem incontáveis ferramentas para auxiliar empreendedores durante toda a caminhada. Desde os mais generalistas, como Sebrae e Endeavor, até organizadores de tarefa, como Asana e Evernote. Para quem planeja operar no varejo off-line, recomendamos ferramentas que facilitem a gestão, como ERPs e faturadores. Já quem for para o varejo on-line, recomendo visitar o site do Olist”, aconselha Leonardo Dabague.

QUEM NÃO SE MOSTRA NÃO É VISTO

Leonardo Dabague diz que é preciso vender, antes mesmo de ter o produto/serviço, ou seja, garanta que existam pessoas dispostas a pagar por eles. Muita gente quer desenvolver o produto, comprar ferramentas e soluções caras para viabilizar um negócio com um “palpite” de que existam pessoas dispostas a comprar. Mas é preciso simplificar e, antes de grandes investimentos, garantir que você consiga vender protótipos. “Claro que não existe receita de bolo, mas eu diria que a maior parte dos negócios pode ser iniciada em uma escala reduzida, ajustada, otimizada e só então realmente escalada. Treine o ‘pitch’ da sua empresa, do seu modelo de negócio e de como sua empresa ganhará dinheiro. Se não estiver claro para você, não espere que fique claro para o mercado”, ressalta Leonardo.

Com tudo isso bem claro e organizado, é hora de contar para as pessoas que você existe. É neste momento que o marketing tem que ser intenso e bem assertivo.

O empreendedor, influenciador e mentor em estratégias de marketing digital para empresas e palestrante de marketing digital e empreendedorismo, Thiago Regis, destaca como primeiro ponto que as marcas devem ser e agir de forma diferente da sua concorrência. “Não adianta ter um e-commerce e ficar brigando por preço, por desconto. Não funciona, pois seu produto vai se desvalorizando e ficando abaixo do mercado, com a margem de lucro lá embaixo. Deve-se apostar no diferencial, criando valor e empatia pela sua marca ou seu produto”, avalia.

Para fazer isso, ele aconselha a criar estratégias diferentes do que a maioria está fazendo. Por exemplo, o cliente comprou um vinho, mande uma carta personalizada junto com o produto, dê um saca-rolha sem ele esperar, isso vai fazer com que ele tire uma foto, poste no Instagram e marque a empresa. Essa atitude vai gerar mais seguidores para a marca. Outra coisa é montar um site bacana, bem estruturado, com as configurações certas de análise do Google. Todos esses são pontos importantes a serem trabalhados.

Comercializar um produto sem cuidar da imagem e identidade visual pode levar as vendas morro abaixo. Quando o consumidor não pode tocar o que tem na prateleira, ele precisa ser convencido pelas fotos. Outra dica interessante neste sentido é fazer algumas interações ao vivo para apresentar o produto e suas características, além de criar promoções que gerem engajamento. Gerar conteúdo de qualidade vai fazer toda a diferença para sua marca, já que as pessoas buscam nas compras cada vez mais conexão e empatia em detrimento da simples marca ou usabilidade.

Transforme-se em um personagem. Humanizar o nome da sua empresa pode trazer resultados muito maiores em conversão do que atuar como um robô falando a um público. “O negócio do novo empreendedor será destaque se houver a personificação dele. Além de dar descontos exorbitantes, trate os clientes como trataria seus amigos e outros. O importante é pensar completamente fora da caixa, criar experiências – o consumidor deixou de sentir-se atraído pelo mais do mesmo”, lembra Thiago Regis. Apesar de ter o elemento intuitivo nesse tipo de ação, lembre-se de usar os dados. Eles estão em todas as plataformas e vão determinar a melhor maneira de tratar o seu consumidor.

São essas métricas que também vão auxiliar um aspecto importante do e-commerce – a conexão dele com o Google. Faça isso trabalhando muito bem o título das páginas e as metas description delas. Isso significa pesquisar as palavras-chave com maior engajamento dentro do seu setor e colocá-las de maneira que faça sentido nesses lugares de destaque. Além disso, lembre-se de ter um setor de tecnologia da informação bastante envolvido, que trabalhe com certificados de segurança, SSL e HTTPS para que os links de seu site não sejam bloqueados ou percam relevância em buscas.

O site também precisa ser responsivo ou mobile, ou seja, com um layout adaptável para os diferentes dispositivos e que facilite a navegação. Por fim, lembre-se de colocar a descrição mais detalhada possível do produto e, se viável, inserir um blog na loja virtual, com dicas e novidades relacionadas ao seu segmento. “Achar que vai colocar a loja virtual no ar e ela vai começar a vender amanhã é um erro. Isso é o que faz a internet ser pulverizada de negócios que não funcionam e não dão certo. Começar sem estratégias não vai dar certo. É preciso estudar e afiar o machado antes de derrubar a árvore. Ou seja, estudar, analisar, entender, pesquisar, olhar para o lado e observar o que o concorrente está fazendo, o que está dando certo ou errado e achar onde você deve se diferenciar para dar o primeiro passo. Pensar muito antes de agir!”, conclui Régis.

Tenha em mente também que o boca a boca ainda é uma ótima divulgação. O consumidor acredita em indicações, seja de um familiar, seja de um influenciador no qual confia. Ele segue blogueiros, usa descontos de grandes marcas e é alcançado por cupons de Stories do Instagram. Faça parcerias planejadas e gere ainda mais engajamento dentro do seu planejamento.

ERROS E ACERTOS

•  Estude, aprenda e adapte. Não é preciso reinventar a roda, mas usar o que existe de maneira construtiva.

•  Contrate as melhores pessoas que puder, de preferência diferentes de você, especialistas em suas áreas, e deixe-as fazerem seu trabalho.

•  Tenha alguém competente para auxiliar no entendimento da dinâmica econômica e financeira da empresa.

•  Entenda o comportamento do seu segmento on-line e os valores que seu público-alvo procura.

•  Pesquise quais são os principais canais e peculiaridades do seu segmento.

•  Invista em um bom marketing de engajamento.

•  Leia sobre ou assista a vídeos de ERP, CRM e o que mais facilitar a gestão e operação da sua empresa.

ATENÇÃO AOS DETALHES

•  Escolhas que você precisa prever: modelo de negócios, plataforma, jurídico, financeiro, atendimento, posicionamento, marca, investimento, expectativa de retorno. Tenha ajuda especializada em cada uma dessas e de todas as outras áreas.

•  Não são apenas os profissionais contratados que vão lhe dar um termômetro de mercado. Observe negócios que deram certo, converse com os amigos, leia as pesquisas. Desenvolva suas metas e baseie seu planejamento de atuação nessa ampla pesquisa de campo.

•  Nunca se esqueça da importância administrativo­ financeira. É importante ter quem crie o produto, quem venda e quem receba o dinheiro. Muito cuidado com a “confiança” total. Ainda que você busque assessoria contábil e jurídica, dedique­ se a entender e a se comunicar com as pessoas do meio.

•  Compliance, controladoria, ouvidoria e outros mecanismos também podem se tornar importantes à medida que sua empresa cresce. Tenha sempre isso em mente.

•  Cuidado com a lei, principalmente no que diz respeito à propriedade intelectual, open- source e outros.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SONO DOS JUSTOS

A ciência começa a desvendar a propensão genética para dormir ou permanecer em vigília. É uma revolução na crença de um padrão universal de descanso

Quem dorme pouco, menos de seis horas por noite, e ao acordar desperta vivíssimo, pronto para uma longa jornada, costuma celebrar essa invejável capacidade. O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, o empresário Elon Musk e o governador de São Paulo, João Doria, não perdem a chance de informar a meio mundo que, por se entregarem pouco tempo aos braços de Orfeu, trabalham mais. Relatos históricos mostram que Leonardo da Vinci e Benjamin Franklin eram dados a sair da cama com o dia escuro. Não há estatística confiável do tamanho da parcela da humanidade afeita a seguir nessa toada, distante das oito ou nove horas indicadas para a idade adulta (veja o quadro abaixo) – a novidade é que a ciência começa a entender, mais detalhadamente, o funcionamento do sono curto.

Recentes pesquisas demonstram que, desafiando o lugar-comum, não existe um padrão universal e pode haver propensão genética. Ou seja: cada pessoa tem seu tique-taque interno próprio, um relógio biológico único, intransferível – por isso umas precisam de mais tempo na horizontal e outras, de menos. É descoberta fascinante, que ajuda a responder a uma indagação permanente: por que alguns dormem tão pouco e acordam tão bem e muitos brigam para manter os olhos abertos durante o dia?

Um casal de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, os neurologistas Louis Ptacek e sua mulher, Ying-Hui Fu, parecem ter encaminhado a resposta. Eles identificaram genes atrelados a essa turma para a qual a vigília é a norma. Há uma década, Fu identificou o primeiro marcador genético ligado ao sono curto, mutação que permitia ao cidadão obter em escassas seis horas de sono os mesmos benefícios para a saúde de quem dormia oito horas, sem alteração genômica. Em 2019, Fu e Ptacek descobriram mais dois genes, e acabam de enviar para publicação evidências de uma quarta alteração. Os indivíduos que dormem pouco apresentam sinais evidentes de impulsividade e motivação por recompensas, ferramentas que contribuem, supostamente, para o sucesso profissional. Mas há um ponto ainda intrigante: saber qual o tamanho da população afeita a essa “vantagem competitiva”. Estudos preliminares indicam ser apenas 1% – é, pouco, mas um atalho para vastos campos de avanços em uma área da medicina pouco conhecida, misteriosa.

O que se sabe: dormir muito pouco é sinônimo de problemas de saúde, como o risco de obesidade, distúrbios psiquiátricos, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer. Contudo, insista-se, é uma generalização que começa a ser desmontada. “Há um parâmetro saudável individual”, diz a bióloga Claudia Moreno, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono. “É uma condição que pode ser avaliada de maneira muito objetiva, pela sensação de bem-estar de cada pessoa depois de uma noite de sono, independentemente da quantidade de horas e do período do dia.” Algumas são matutinas, com mais energia no início do dia; outras, vespertinas e gostam de ficar acordadas até tarde. São padrões regulados pelo chamado ritmo circadiano, um ciclo de 24 horas que faz parte do cronômetro interno do corpo – cada qual tem o seu, regido geneticamente, como se verifica agora, mas influenciado por estímulos externos, como luminosidade, clima e temperatura. O marcador de tempo biológico é que dita a liberação de hormônios, como a melatonina e outras substâncias químicas que afetam o sono e a vigília. Muitas das queixas de dificuldade para dormir vêm de pessoas que lutam contra a própria natureza. Na verdade, podem não ter nenhum problema, apenas a expectativa de que precisam repousar por um determinado período de tempo.

Há poucas certezas absolutas – como a de que adolescentes precisam dormir mais tempo (em razão da imensa energia demandada pelo crescimento) e idosos podem dormir menos (um agrupamento neurológico associado aos padrões de sono é “desligado” com o avançar da idade). De resto, há sombras, que começam agora a ser clareadas pela genética do sono. É área em que se debruçam os especialistas, porque dormir é vital e a dificuldade de relaxar, incômodo monumental. No Brasil, 45% dos cidadãos afirmaram, em levantamento recente da Associação Brasileira do Sono, ter tido algum problema relacionado ao sono, sobretudo insônia e apneia. Foi sempre assim e ainda mais durante a pandemia, dado o volume de temores. Não há dúvida, como diz a biomédica Monica Andersen, diretora do Instituto do Sono, de São Paulo: “O sono é o principal termômetro de um cotidiano feliz”. E valerá sempre a frase do escritor Mário de Andrade (1893-1945): “Que coisa misteriosa o sono!… Só aproxima a gente da morte, para nos estabelecer melhor dentro da vida”.

O RELÓGIO QUE AINDA VALE

O tempo necessário, por faixa etária, para o total restabelecimento — embora os cientistas comecem a enxergar predisposições genéticas, evitando generalizações