EU ACHO …

O AJUSTE NO PROTOCOLO

A falta de capacidade em adaptar descobertas científicas às políticas públicas tem sido fatal, mas ainda há tempo de mudar a abordagem no tratamento da Covid-19 e salvar vidas

O combate à pandemia causada pelo coronavírus vai entrar para a história como um dos grandes fracassos da sociedade moderna. Quando olharmos para trás para enxergar este período, veremos o enfrentamento de outras duas doenças tão graves quanto a infecção: a irracionalidade que vem da psicologia de massas das mídias sociais e o vácuo de lideranças que dominou as ações no planeta, com raras exceções. A radicalização que vem de uma e a politização que vem de outra impediram o enfrentamento eficaz da Covid-19. Faltaram análises pragmáticas, ações que permitissem o contraditório, provas e contraprovas, teses e antíteses. Com um outro tipo de abordagem, milhares de pessoas que estão morrendo em casa ou chegando virtualmente mortos aos hospitais poderiam sobreviver à doença. No Brasil, não é diferente, exceto por parte da sociedade civil em campanhas de solidariedade para conter a fome e iniciativas heroicas dos profissionais de saúde e líderes das comunidades vulneráveis.

Falta uma aliança entre os governos federal, estaduais e municipais que mobilize esforços para, de forma coordenada, suprir as carências do sistema de saúde. Falta a elaboração de uma estratégia consolidada, considerando o aspecto continental do país e suas diferenças regionais. Falta um plano de ação que ataque a carência na infraestrutura, com investimento em pesquisa para adaptação das políticas públicas aos achados científicos mais recentes, uma vez que a literatura está sendo escrita “ao vivo”, à medida que a pandemia se desenrola. Mas o que, de fato, angustia quem acompanha a evolução da pandemia no front é que, a rigor, medidas simples poderiam ter impacto significativo no destino de muitas pessoas. Desde abril o Instituto Estáter identificou uma tendência alarmante e que teimava em ser ignorada pelo noticiário e por autoridades. Interpretando dados da Itália e dos EUA, constatamos que um número superior a 70% das mortes aconteceu sem que os pacientes passassem pelas UTIs. Com ajuda de Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, acessamos hospitais e médicos nos EUA, Reino Unido e Itália. Para nossa surpresa, nenhum deles conseguiu explicar esse fenômeno. Levamos os dados para um grupo de especialistas que apoia o Instituto. Esper Kallás, infectologista do Hospital das Clínicas, e Carlos Carvalho, pneumologista do Incor, identificaram vários pacientes que chegavam ao hospital com o nível de saturação de oxigênio muito baixo. Alguns morriam na ambulância enquanto outros chegavam colapsados à beira da morte. Estes, ou morriam rapidamente ou levavam de duas a três semanas para se recuperar nas UTIs. A hipóxia silenciosa (mecanismo que leva à perda do nível de saturação do oxigênio sem que o paciente perceba) matou mais gente nos asilos, em casa ou a caminho do hospital, do que aqueles internados nas UTIs. Isso porque, de acordo com o consenso de protocolo, os infectados só deveriam procurar um hospital no caso de falta de ar. Hoje vemos que foi um erro.

O Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, atua como uma bomba-relógio. Os especialistas constataram que a perda da saturação de oxigênio começa entre o quinto e o sétimo dia, período em que o paciente ainda está acamado e prostrado e não percebe essa queda na oximetria. Quando sente falta de ar, em muitos casos é tarde demais. A saída para evitar essas mortes trágicas desassistidas é acompanhar a saturação de oxigênio e ir ao hospital no primeiro indício de queda abaixo do limite. Mas se os hospitais estão lotados, qual a alternativa? Há aqui o paradoxo das hospitalizações. O protocolo atual faz com que uma parcela relevante dos pacientes seja internada diretamente nas UTIs. Enquanto isso, as enfermarias estão com ociosidade entre 35% e 45%. Por outro lado, a experiência tem mostrado que pacientes com a perda de oximetria constatada precocemente podem ser submetidos a métodos alternativos de oxigenação simples, como cateteres e outros que serão ministrados nos leitos comuns. Parte deles pode se recuperar depois de alguns dias com esse tratamento. O outro estágio é a ventilação mecânica não invasiva. Somente aqueles que não se recuperarem seriam submetidos à intubação – a experiência das equipes de frente também tem mostrado uma recuperação mais rápida desses pacientes do que dos submetidos à intubação em estágio avançado de baixa saturação. A conclusão é que o acompanhamento da oximetria, principalmente de pessoas do grupo de risco, pode permitir um alívio no uso de UTIs, além de salvar vidas.

Há iniciativas sendo testadas para criar controle do nível de oxigênio nas populações mais vulneráveis. Uma delas, em Paraisópolis, conta com oxímetros conectados a um aplicativo no celular que registra na nuvem o nível de saturação do oxigênio e dispara sinal de alerta quando atinge níveis de atenção. Outra, desenvolvida por uma ONG, treina motociclistas, paramentados com EPIs, para medir a oximetria de moradores do grupo de risco que não possuem condições de ter o aparelho. O acompanhamento é feito por mapas de controles e por aplicativos de telemedicina. A sociedade e as lideranças comunitárias têm se organizado, porém é necessário ampliar a divulgação para conscientizar grande parte da população mais vulnerável. O combate da Covid-19 é um fracasso global. Mas ainda há tempo para salvar muitas vidas. Para isso, o protocolo precisa ser ajustado.

**PÉRCIO DE SOUZA, engenheiro, é um dos fundadores do Instituto Estáter

OUTROS OLHARES

A CONTRAOFENSIVA DA VERDADE

Após anos de inação e tibieza, democracias centram fogo na responsabilidade das redes sociais para conter o poder corrosivo das Fake News

Antes da pandemia, antes de Donald Trump e Jair Bolsonaro serem presidentes, antes de o Reino Unido cogitar sair da União Europeia, antes da avalanche a abalar os alicerces da política planetária, antes de tudo houve Mandalai. Era julho de 2014 quando a violência irrompeu na cidade de Mianmar, imortalizada no Ocidente como lugar onde “o melhor é igual ao pior, não há Dez Mandamentos e um homem pode aguçar a sede”, versos de Rudyard Kipling que ganhavam sabor de exotismo quando cantados por Frank Sinatra ou recendiam a racismo quando recitados nos clubes fechados da elite britânica. Quanto aos eventos daquela noite de julho, nem o lorde Mountbatten que declama o poema na última temporada da série The crown nem o Boris Johnson que cometeu a gafe de arriscar algumas estrofes em visita oficial a Mianmar podem ser considerados culpados de nada. Foram centenas de birmaneses que invadiram a casa de chá de um muçulmano, acusado de ter estuprado uma funcionária budista. A mentira publicada num blog, compartilhada por ultranacionalistas que queriam se ver livres dos muçulmanos, se alastrou pelo Facebook. Não era a primeira vez. Não seria a última. Daquela, a polícia foi incapaz de conter a revolta popular, os saques, as gangues armadas com paus e facões que aterrorizaram a cidade por dias e deixaram um saldo de dois mortos e 20 feridos, num prenúncio do que aconteceria nos meses seguintes aos muçulmanos da minoria rohingya dos estados vizinhos.

Em 2018, depois de pelo menos 10 mil mortos e mais de 650 mil forçados ao exílio, os investigadores das Nações Unidas afirmaram que os eventos em Mianmar “carregam as marcas de genocídio”. Constataram o óbvio: as redes sociais “contribuíram substantivamente para o nível de ressentimento”. O genocídio em Mianmar demonstra que os riscos da desinformação não se restringem aos trolls da ultradireita, às invasões de hackers russos, à alquimia psicográfica dos marqueteiros da Cambridge Analytica, aos grupos de tiozões do WhatsApp ou ao inquérito que investiga, no Supremo Tribunal Federal (STF), a disseminação de “fake news” pelas milícias digitais bolsonaristas. Há algo de mais profundo e insidioso em ação. Uma força corrosiva ameaça a própria essência da democracia: a resolução pacífica dos conflitos humanos. DeMianmar ao estado indiano de Tamil Nadu, de Hong Kong às Filipinas, da Catalunha à Catânia, da Turíngia alemã à Charlottesville americana, de Santiago a Minneapolis, das charnecas inglesas aos cercadinhos no Palácio da Alvorada, “a dança é a mesma aonde quer que você vá”, na descrição certeira de Ryan Broderick, jornalista que, ao longo da última década, cobriu a radicalização on-line em pelo menos 22 países dos seis continentes.

Os últimos passos dessa “dança” se assemelham ao cerco a aves rebeldes num galinheiro. Enquanto os governos têm tentado mudar as leis, as redes sociais se esgueiram e batem asas desesperadamente, tentando escapar. As iniciativas de autorregulação geram algazarra, mas têm sido inúteispara fazê-las alçar voo para longe das garras do Estado. O Twitter passou a incluir mais advertências em tuítes depolíticos – eatingiu o próprio Trump. O Facebook instaurou um conselho externo para disciplinar seu próprio conteúdo. Nos Estados Unidos, a reação foi imediata: Trump baixou um decreto que torna as redes responsáveis pelo conteúdo que fazem circular. No Brasil, depois que a Polícia federal desbaratou o esquema de desinformação bolsonarista, o Senado está prestes a votar um projeto de lei semelhante. Aqui como lá – e por todo o planeta -, dois fatos já se tornaram cristalinos. Primeiro, a primazia das redes sociais na disseminação de qualquer discurso e na mobilização política. Segundo, a ameaça que a balbúrdia digital tem representado aos caminhos institucionais de toda democracia que se preze.

” Em campanhas recentes mundo afora, o candidato com a maior e mais engajada comunidade no Facebook emgeral venceu”, escreveu o historiador americano Siva Vaidhyanathan, da Universidade da Virgínia, em Antisocial media (Mídia antissocial), livro essencial para entender a música e os passos da “dança” das redes sociais – animada, nas palavras dele, por “boas intenções, espírito missionário e uma ideologia que vê o código de computador como solução universal para todos os problemas humanos”. Elas se tornaram o principal meio de comunicação e propaganda neste início de século, papel antes ocupado pelo rádio e pela televisão. “Se você quisesse construir uma máquina para distribuir propaganda a bilhões de pessoas, distraí-las das questões importantes, insuflar o ódio e o fanatismo, erodir a confiança social, solapar o jornalismo, instigar dúvidas sobre a ciência e promover vigilância em massa, tudo ao mesmo tempo, criaria algo muito parecido com o Facebook”, afirmou. “Quer chamemos o fenômeno de ‘fake news’, ‘propaganda’, ‘lixo’ ou ‘desinformação’, o resultado é o mesmo: o enfraquecimento constante e alarmante da confiança pública na especialização, na possibilidade de deliberação racional e de debate.”

A maior evidência é a profusão de curandeirices travestidas de ciência que tomaram conta da internet na pandemia. Mentiras sobre isolamento social, cloroquina e até detergente ganharam apoio político nos mais altos escalões. Um sentimento comum une autocratas, terroristas, trapaceiros, charlatães e milícias digitais: todos desprezam a verdade. Ninguém resumiu os riscos diante da humanidade tão bem quanto o humorista britânico Sacha Baron Cohen, falando a sério em novembro passado. “É chocante como é fácil transformar teorias da conspiração em violência”, disse. “Imaginem o que Joseph Goebbels, o ministro de Adolf Hitler responsável pela propaganda nazista, poderia ter feito com o Facebook”

Dez anos atrás, nos tempos da Primavera Árabe, as redes sociais eram saudadas como força que traria liberdade edemocracia a países sob o tacão de regimes autoritários. Hoje já ficou evidente não apenas o fracasso daquela promessa, mas o risco de que elas sirvam, ao contrário, de veículo para o retrocesso. para que o autoritarismo tome conta até mesmo de democracias consolidadas. “O mais duro para mim foi enxergar que a mesma ferramenta que nos uniu acabou servindo para nos separar”, disse numa conferência um desiludido Wael Ghonim, dono da página do Facebook que serviu de semente aos protestos no Egito em 2011. O plebiscito do Brexit e a eleição de Trump, em 2016, desmascararam a hipocrisia da pregação messiânica do Vale do Silício.

Em vez de promover um salto incomparável de produtividade na economia, a tecnologia digital serviu, sob o álibi da “disrupção”, de pretexto para os bancos centrais inflarem duas bolhas financeiras, cujo estouro lançou o planeta na maior depressão desde a crise de 1929 até a emergência do novo coronavírus. No lugar da aurora da liberdade e da apoteose da democracia, renasceu o nativismo chauvinista, sumiram os freios contra todo tipo de idiotice tacanha ou pseudociência – do negacionismo climático ao charlatanismo médico, da falsificação da História ao terraplanismo epidemiológico. Instaurou-se no meio digital uma espécie de vale-tudo da informação. A expressão “fake news”, usada pelo jornalista Craig Silverman numa reportagem para descrever o que acontecia na campanha de 2016 nos Estados Unidos, depois adotada por Trump e seus êmulos para atacar a imprensa profissional, se tornou um rótulo conveniente para encerrar qualquer debate.

Nas eleições deste ano no Brasil e nos Estados Unidos, a desinformação traz riscos evidentes. Para os americanos, os principais desafios, na análise de Paul Barrett, da Universidade de Nova York, são: vídeos capazes de representar candidatos dizendo ou fazendo o que jamais disseram ou fizeram, conhecidos como “deepfake” (a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, já foi vítima de uma fraude do tipo); uso do Instagram e do WhatsApp, mais que do Facebook, para disseminar conteúdos falsos e provocar radicalização; interferência digital não apenas da Rússia, mas de Irã, China e, principalmente, empresas americanas contratadas para gerar desinformação; novas tentativas de mobilização para protestos falsos e de evitar o comparecimento às urnas de minorias (tática conhecida como “supressão de voto”).

No Brasil, a preocupação se multiplica pelos 5.570 municípios, cada um com panorama político próprio, todos sujeitos a campanhas de manipulação. “A Justiça Eleitoral vê as eleições municipais como de execução mais complexa, porque preponderam circunstâncias locais”, dizia meses atrás o juiz Ricardo Fioreze, coordenador do programa de enfrentamento à desinformação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Isso nos permite prever que será mais difícil enfrentar a desinformação.” O TSE já cassou o mandato de senadora da juíza Selma Arruda (Podemos-MT), cuja campanha foi condenada, entre outros motivos, por não declarar gastos com publicidade digital. Acusação idêntica pesa sobre a campanha de Bolsonaro, em processo que deverá ganhar novo fôlego nas próximas semanas a partir do inquérito das fake news.

A maior fonte de inquietação por aqui, como em 2018, é o WhatsApp. Basta lembrar o caso recente da jornalista Patrícia Campos Mello. Responsável por reportagens sobre a rede de desinformação bolsonarista pelo WhatsApp nas últimas eleições, ela própria foi vítima de uma campanha difamatória. Inicialmente disseminados também no WhatsApp, memes agressivos e calúnias ganharam repercussão no Twitter, sem que a rede social tirasse do ar as contas responsáveis por difamá-la e ofendê-la. Oficialmente, a resposta do Twitter foi de dever cumprido. “Foram tomadas medidas sobre tuítes e contas que violaram as regras”, afirmou em comunicado. “O Twitter condena comportamentos que intimidem ou tentem silenciar vozes, e o trabalho para evitar que isso ocorra está em constante aprimoramento.” É verdade que a empresa não está parada. Tanto que incluiu, nos tuítes recentes sobre os protestos em Minneapolis contra o racismo da polícia, uma advertência afirmando que Trump violou regras sobre “enaltecimento à violência”.

Mesmo assim, as medidas têm sido tímidas e hesitantes. O WhatsApp informa que, depois das denúncias em 2018, limitou o tamanho de grupos, as listas de transmissão e o reencaminhamento das mensagens. A despeito da tecnologia de comunicação segura para preservar a privacidade, passou a usar dados de localização e o número de telefone dos usuários para tentar coibir abusos (no Brasil, com mais de 120 milhões de aplicativos instalados, o reenvio caiu 30% e, na campanha de 2018, 400 mil contas foram suspensas). A eficácia dessas medidas foi, contudo, posta em xeque por um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com grupos no Brasil, na Índia e na Indonésia durante o período eleitoral (aqui, também durante a greve dos caminhoneiros). Nas mensagens com imagens, eles constataram que a desinformação alcança mais grupos e é distribuída mais rápido – em 60% dos casos, menos de duas horas depois da primeira aparição. Mensagens falsas de texto também circulam por mais tempo, metade delas mais de dez dias. É, portanto, crítico o tempo de reação, tanto das autoridades quanto das redes sociais. “No calor da eleição, precisamos intensificar a checagem para monitorar o que circula da forma mais ágil possível”, disse Fioreze. Ele não descartou a possibilidade de que, mais perto da eleição, o próprio WhatsApp impusesse mais restrições ao repasse de mensagens. No final do ano passado, o pesquisador brasileiro Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP), dizia que havia pouquíssimo tempo para agir a tempo das eleições. Não há mais. “Somos o segundo maior mercado depois da Índia em uso do WhatsApp. Se alguém pode regular o uso de modo sensato, é o Brasil.” O Facebook, dono do WhatsApp, vê na comunicação privada a vocação da plataforma e defende a tecnologia usada para manter as mensagens secretas. Isso não impede, porém a implantação de sistemas de monitoramento capazes de detectar violações nas imagens ou vídeos compartilhados, armazenados em servidores para facilitar o carregamento. Também não impede o uso de técnicas de inteligência artificial para disparar alarmes sobre usos suspeitos.

Seria injusto deixar de reconhecer os esforços do Facebook para tentar controlar a desinformação em suas redes. É fato que algo mudou depois das declarações desastradas do criador da rede social, Mark Zuckerberg, quando vieram à tona as primeiras evidências da interferência de russos na campanha americana em 2016. Além das mudanças implementadas no WhatsApp, a empresa fez parcerias com agências de checagem de fatos para rotular conteúdos falsos, passou a banir o que pudesse gerar violência ou representar risco à saúde pública, estabeleceu forças- tarefas para combater a desinformação em tempo real durante períodos eleitorais, adotou normas de transparência nos anúncios políticos, instaurou um conselho externo para supervisão do conteúdo e afirma contar hoje com 35 mil funcionários destinados a manter a “integridade da plataforma” (15 mil deles, moderadores com o poder de tirar do ar conteúdos mediante um dique).

Um jornalista que visita os escritórios do Facebook num prédio envidraçado da região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, parece embarcar numa espaçonave rumo a outro planeta. Recebe um crachá de cor diferente dos demais (vermelho) e, entre a comida gratuita, os estofados coloridos e o ambiente descontraído das empresas digitais, encontra funcionários articulados e engajados, capazes de debater a fundo a tensão entre a liberdade de expressão e a qualidade da informação, até mesmo de defender a insistência ridícula de Zuckerberg em garantir aos políticos o direito de mentir em seus anúncios, repetindo o mantra “não podemos ser árbitros da verdade”. Ouve histórias épicas sobre como o Facebook desbaratou redes subterrâneas de desinformação, ocultas atrás de perfis anônimos (uma delas, ligada ao Movimento Brasil Livre). Descobre que a televisão e a imprensa profissional continuam imbatíveis em influência (o pico de posts sobre Bolsonaro na campanha eleitoral foi durante a entrevista ao Jornal Nacional). Espanta-se que o Facebook tenha contratado um professor de ciência política para lidar com o uso de suas plataformas no Brasil e na América Latina (só nas últimas eleições argentinas, mais de 80 funcionários se envolveram no combate à informação falsa). Admira-se com a constatação de que, desde a vitória de Trump, houve eleições nas duas maiores democracias do planeta (Índia e União Europeia) sem registro de abusos graves. Confirma que há urna disposição genuína em colaborar com autoridades eleitorais locais (o próprio TSE corrobora tal fato). E, ainda assim, não sai convencido de que as mudanças tenham lá muito valor.

“Não há dúvida de que estão promovendo mudanças, mas é o mínimo suficiente para afastar a ameaça de regulação”, afirmou o acadêmico Dipayan Ghosh, que pesquisa a interação entre tecnologia e política no Shorenstein Center da Universidade Harvard. “Não acho que a mentalidade deles tenha mudado. Não tenho evidência direta disso e, qualquer que seja a abordagem adotada, no final a bola vai parar em Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg (diretora de operações do Facebook e braço direito de Zuckerberg).” Ghosh sabe bem do que fala. Ex­ conselheiro da Casa Branca para assuntos digitais no governo Barack Obama, ele trabalhou no Facebook até pouco depois da campanha de 2016. Chocado com a manipulação, decidiu trocá-lo pela academia. Tornou-se, nos últimos três anos, um dos maisrespeitados dissidentes do Vale do Silício, coautor de estudos que esmiúçam o desafio das redes sociais no universo político, intitulados Digital deceit (Logro digital).

Ficam a cada dia mais evidentes os riscos da apatia e da indiferença diante da desinformação – atitudes que parecem definir cada nova entrevista ou depoimento de Zuckerberg. Em contrapartida, aquilo que não passava de um movimento incipiente de refuseniks digitais como Ghosh passou a contar com adesões de maior relevo no mundo dos negócios, maior consistência acadêmica e maior apoio político. Dez dias antes da eleição de 2016, diante do que passava por sua frente no Facebook, o investidor Roger McNamce, um dos entusiastas da rede social desde o início, escreveu num e-mail a Zuckerberg: “Estou decepcionado. Estou envergonhado. Estou sem jeito. O Facebook fez recentemente coisas horríveis, e não posso mais desculpar seu comportamento. Está ajudando pessoas a fazer o mal. Tem o poder de parar esse mal. O que falta é incentivo”. Com o conhecimento de causa de quem foi um insider, McNamee se tornou outra voz eloquente nas críticas às gigantes digitais, elaboradas na forma de memórias em Zucked, publicado em 2019. Seu livro nem foi a maior bomba disparada por uma celebridade do Vale do Silício contra o Facebook. Em maio, Chris Hughes, cofundador da empresa e ex-colega de quarto de Zuckerberg na faculdade, assino uma revista do jornal The New York Times um artigo sem meias-palavras. “A influência de Mark é impressionante, muito além de qualquer um no setor privado ou no governo”, escreveu. “Ele controla as três plataformas de comunicação – Facebook, Instagram e WhatsApp – que bilhões usam todo dia. Estou decepcionado comigo mesmo e com a equipe pioneira do Facebook.” Hughes concluía com um alerta: “O governo deve disciplinar Mark”.

A ideia de quebrar empresas como Google, Amazon ou Facebook entrou na campanha eleitoral americana – e, naturalmente, gerou reação. Em outubro, Zuckerberg compareceu a um jantar reservado com Trump na Casa Branca, acompanhado do investidor Peter Thiel, integrante do conselho de administração do Facebook, defensor dos monopólios digitais e, exceção no Vale do Silício, trumpista de primeira hora. Além de ter mantido dois encontros com o presidente, Zuck abriu a agenda a personalidades da direita americana, fez acenos ao público conservador e tentou dissociar sua imagem dos democratas, majoritários no Vale e em toda a Califórnia. “Acredito que deva haver regulação de conteúdo nocivo, a questão é o tipo de modelo a adotar”, afirmou no início do ano. Citou dois modelos como referência: o dos jornais, responsáveis por tudo que publicam, e o das empresas de telecomunicações, que não respondem pelo que alguém diz nas linhas telefônicas. “Deveríamos estar num lugar intermediário”, afirmou Zuckerberg. Apesar da operação de relações públicas, foi atingido em cheio pelo decreto de Trump, que põe as redes no mesmo papel dos jornais. O estopim foi o Twitter, mas o alvo era o Facebook. Principal beneficiário do statu quo, que lhe permite mentir quanto quiser sem sanção, Trump está incomodado com os movimentos das redes para regular o discurso. Baixar um decreto que vai contra seu próprio interesse é uma forma de forçar Zuckerberg a voltar a repetir que “o Facebook não pode ser árbitro da verdade” e a recuar em qualquer movimento para tolhê-lo. Quando irromperam os protestos contra o assassinato de George Floyd, Zuck falou ao telefone com Trump e, ao contrário do Twitter, decidiu não intervir nos posts dele. A decisão chocou lideranças do movimento pelos direitos civis e até funcionários do Facebook. Na academia, o debate sobre a regulação reuniu polos antes antagônicos. A divergência está mais na natureza do que na necessidade de mais rigor. A solução radical seria quebrar as gigantes digitais em empresas menores, como os americanos fizeram com a Standard Oil em 2011 ou com a AT&T em 1982. O Facebook naturalmente é contra. “Cindir as empresas não resolverá temas como privacidade, interferência em eleições e conteúdo nocivo”, afirmou a empresa. “Separar diferentes serviços reduziria nossa habilidade e escala para lidar com desafios que enfrentamos.” Partidários da cisão, como o jurista Tim Wu, da Universidade Columbia, contestam o entendimento jurídico formulado por Richard Posner, da Universidade de Chicago, adotado em tribunais americanos desde os anos 1970. A essência da visão de Chicago é preservar a integridade de corporações monopolistas, desde que não haja dano comprovado ao consumidor, em particular aumento de preços (serviços digitais costumam ser grátis). Como Wu explica em The curse of bigness (A maldição do tamanho), a falta de competição gera outro dano: inibe inovações que trariam benefícios ainda desconhecidos. Voltar a separar Instagram e WhatsApp do Facebook permitiria aos usuários escolher entre serviços rivais.

Do outro lado, há quem, como Ghosh, discorde de Wu. No entender dele, as redes sociais podem representar aquilo que os economistas classificam como “monopólio natural”. Assim como não faz sentido construir outra rede de distribuição de água ou de eletricidade numa cidade, não faria sentido econômico ter dois fornecedores do serviço de rede social. Para evitar a concentração de poder, Ghosh afirmou que o recomendado não é necessariamente quebrar as empresas, mas antes submetê-las a normas rígidas de regulação e fiscalização.

É esse o espírito da nova lei que entrou em vigor no início do ano na Califórnia, baseada num princípio já adotado no Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados da União Europeia (RGPD) e no Marco Civil da Internet do Brasil: a garantia da privacidade e transparência na coleta e no acesso a dados pessoais. Impor restrições às corporações digitais em defesa dos cidadãos é hoje uma exigência até mesmo de liberais da Universidade de Chicago, como o economista Luigi Zingales. A extensão das restrições, contudo, ainda desperta controvérsia. Ghosh defende regular três áreas:

1) TRANSPARÊNCIA – acesso em tempo real e armazenamento de informações sobre anúncios políticos (como no rádio e televisão); identificação de robôs e contas ciborgues (medida apelidada “Lei Blade Runner”); atribuição de responsabilidade por decisões tomadas por sistemas automáticos de inteligência artificial;

2) PRIVACIDADE – controle de acesso e remoção dos próprios dados nas mãos dos consumidores; transparência sobre o uso de tais dados; estabelecimento de uma autoridade reguladora com recursos para criar regras e fiscalizar;

3) CONCORRÊNCIA – supervisão robusta de fusões e aquisições das empresas digitais; reforma na legislação antitruste para garantir a regulação ágil para inovações digitais; garantia de portabilidade e interoperabilidade de dados entre serviços.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE JUNHO

O MILAGRE DA ENCARNAÇÃO DO VERBO

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1.14).

A palavra “Trindade” não aparece na Bíblia, mas sua realidade sim. Deus é uno e trino ao mesmo tempo. Há um só Deus que subsiste em três Pessoas da mesma substância: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Jesus é Deus. Ele não passou a existir quando se fez carne. Ele existe desde os tempos eternos; é o Pai da eternidade. O apóstolo João diz: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (v. 1). Jesus é o Verbo de Deus, e o Verbo é pessoal, eterno e divino. Esse mesmo Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. Aquele que nem os céus dos céus pode conter, esse se esvaziou e foi concebido pelo Espírito Santo no ventre de Maria. Nasceu numa manjedoura, foi enfaixado em panos e cresceu em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens. O eterno entrou no tempo, o infinito tornou-se finito e o Deus transcendente vestiu-se de pele humana e desceu até nós, para nos resgatar da escravidão do pecado. Jesus desceu da glória, nasceu numa manjedoura, andou por toda a parte fazendo o bem, morreu numa cruz, mas ressuscitou e está assentado à direita de Deus Pai, de onde há de vir para julgar o mundo com justiça.

GESTÃO E CARREIRA

MAIS ESPAÇO E MAIS LAZER

Depois da quarentena, o perfil dos imóveis buscados não será o mesmo com o aumento da demanda por espaços maiores e home office

A experiência de trabalhar em casa e passar mais tempo na própria residência durante o período de quarentena já tem provocado mudanças no mercado imobiliário. Nos últimos meses, os clientes que buscam apartamentos para morar começaram a procurar outro perfil de imóvel na capital paulista e no Rio de Janeiro. Em vez de estúdios compactos, as pessoas passaram a dar preferência a imóveis com uma metragem maior e que tenham um quarto extra ou um espaço que possa ser transformado em home office. Além disso, cozinhas amplas – de preferência abertas para a sala, no estilo cozinha americana – também estão sendo mais buscadas do que antes.

É o que identificou uma pesquisa inédita da startup Loft feita com pouco mais de 1.300 clientes de sua plataforma online de vendas de imóveis. Segundo Mate Pencz, copresidente e fundador da Loft, a mudança nas preferências dos compradores faz parte de uma tendência de valorizar mais o lar e o bairro onde se vive, algo que tende a continuar depois da quarentena. ”Da mesma forma que houve um certo boom de apartamentos muito pequenos e de estúdios, haverá uma tendência na contramão, com apartamentos mais flexíveis, com home office, cozinhas abertas. A mudança vai ser relativamente rápida”, diz Pencz, que nasceu na Hungria, cresceu na Alemanha e se mudou para o Brasil em 2011 para empreender junto com o sócio Florian Hagenbuch.

De acordo com a pesquisa da empresa, 45% dos clientes entrevistados agora têm interesse em morar em um apartamento maior e 70% notaram a importância de ter espaço para um home office em casa. Praças e espaços de lazer no entorno dos prédios também estão sendo mais valorizados. Outro movimento, de acordo com Pencz, é a tendência de as pessoas terem mais liberdade para procurar um lugar para morar nos bairros de sua preferência, ainda que sejam mais afastados. Nesse sentido, a distância até o local de trabalho deixa de ser um fator determinante e outras características passam a pesar mais na decisão de compra. ”Depois da pandemia, vejo que as pessoas vão procurar os bairros que proporcionam uma qualidade de vida que faça sentido para elas naquele momento. Porque simplesmente o trajeto até o trabalho vai ser menos relevante”, afirma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS (DOIS) CAMIMHOS PARA O BEM-ESTAR

Conhecer mais de uma direção melhora nossas chances de êxito quanto ao destino. Para a busca do bem-estar existem dois caminhos. Você os conhece?

Talvez seja um efeito desta época do ano, mas tenho pensando bastante nas transformações da maturidade. As ruins, sempre aos berros por atenção, obrigam-me ao olhar apreciativo na busca pelos benefícios, por aquilo que se conquista com o passar dos anos e que se situa para muito além dos espelhos. É como se a cada ano um novo aspecto positivo da maturidade me fosse revelado, despertando ainda mais meu interesse pela vida e, sobretudo, pelo que ela me reserva.

Foi nessa atmosfera que comecei a refletir sobre caminhos. Caminhos que se cruzam, se fecham, se abrem, se revelam e que, acima de tudo, se sobrepõem. Houve um tempo em que eu acreditei que os caminhos eram únicos. Quanto sofrimento vivido na tentativa de descobrir o “correto, o exato, o que me protegeria dos percalços, dos enganos, o que me conduziria num atalho rumo à verdade”.

Acreditar na existência de um caminho único é condenar-se a um mundo preto e branco no qual o erro se esconde à espreita de cada acerto descuidado que nos leva à ilusão do conhecimento.

Minha vida profissional foi repleta de escolhas por caminhos que julguei únicos e que, ao longo dos anos, revelaram-se a mim como meras possibilidades em direção a um mesmo fim: psicanálise ou terapia cognitiva? Situação clínica ou organizacional? E, mais recentemente, emoções positivas ou negativas?

É comum, por exemplo, que, a partir do discurso da Psicologia Positiva, acreditemos na promoção das coisas boas (emoções, atitudes etc.) como forma de melhorar o bem-estar. Mas se esse é um   caminho verdadeiro, vale dizer que ele não é o único. Talvez no início da Psicologia Positiva o fato de enfatizar esse caminho tenha sido apenas uma estratégia de marketing ou uma forma eficaz de se contrapor a uma então chamada “psicologia convencional” que promovia a eliminação da dor como forma de promover esse mesmo bem-estar. Mas, afinal, quando o assunto é a promoção do bem-estar, qual dos dois é o melhor caminho? A eliminação daquilo que não queremos em nossas   vidas ou a busca por aquilo que desejamos? Ambos. Ainda que sob a ótica da Psicologia Positiva, não é possível negarmos a necessidade de combatermos aquilo que nos faz mal: uma emoção, uma dor, um comportamento, um velho hábito, todos eles são uma espécie de “furo no casco” do barco que é a nossa própria vida. Nesse sentido, a metáfora do barco me parece bastante interessante.  Afinal, se a nossa vida fosse um barco, colocar uma jacuzzi nesse barco a fim de torná-lo mais agradável não teria sentido se, ao mesmo tempo, ignorássemos aquele furo no casco por meio do qual litros e litros d’água nos deixassem molhados até as canelas.

Não, não existe um caminho único. E quando o assunto é a promoção do bem-estar, podemos tanto combater aquilo que nos incomoda quanto promover aquilo que desejamos, de uma simples emoção positiva a uma nova atitude perante a vida.

A maturidade tem me ensinado sobre a multiplicidade dos caminhos. Ainda assim nem todos eles    são iguais: alguns são floridos, outros, cheios de espinhos. Alguns mais curtos, outros mais longos.  Mas se é bem verdade que os dois caminhos que aqui apresentei podem levá-lo à melhoria de seu bem-estar, recomendo que tome o mais curto – e florido – que é o da positividade.

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

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