EU ACHO …

A HUMANIDADE, SIM, TEM SIDO O GRANDE VÍRUS

Em texto inédito, Rita Lee fala da pandemia “voodoo”, da decisão de levar a vida em confinamento voluntário e da percepção de sempre ter pertencido ao chamado “grupo de risco”

Fazer parte do rupo de risco por eu ter 73 anos pode ser uma chatice, mas não para mim. Não vou morrer desse vírus voodoo e peço ao Universo que minha morte seja rápida indolor, de preferência dormindo sonhando que estou com minha família numa praia do 0Caribe.

É sequência natural que velhos morram antes de jovens e crianças, mas não precisava ser nesta situação apocalíptica de fim do mundo, apavorando vovôs e vovós. Os milhares de corpos que temos visto empilhados em cemitérios precários, caminhões frigoríficos expõem os humanos a mais um perigo, contaminando o solo por sei lá quanto tempo com um vírus cuja consequência é desconhecida. Não seria melhor uma nova lei para organizar uma cremação desses corpos? Há séculos o fazem na Índia e com o maior respeito, tudo diante de um fogo sagrado que transforma o defunto em cinzas e higieniza o planeta Terra.

Pensando bem, eu sempre fui considerada grupo de risco. Desde que entrei para o mundo da música fui a artista mais censurada na época da ditadura no país por ser tida como uma mulher perigosa para os bons costumes da família brasileira.

Fui grupo de risco no colégio, quando me arrisquei tascando fogo no cenário do teatro por ter sido rejeitada para fazer o papel de Julieta.

Sou grupo de risco desde que luto contra donos do poder declarando meu repúdio aos maus-tratos de animais em rodeios, circos, aviários, matadouros, zoológicos, touradas, vaquejadas, ao contrabando de bichos silvestres, aos criadores gananciosos, às rinhas de galo e cachorros e a zilhões de outras barbaridades cometidas pela raça humana, que trata animais como objetos.

Desde que deixei o palco, há oito anos vivo confinada na minha toca numa casinha no meio do mato cercada de bicho e plantas, só saindo para ir ao dentista, fazer supermercado, comprar ração para meus animais e, eventualmente, visitar meus netos. Hoje, faço tudo pela internet e rezo para não quebrar um dente. Sou parte de um grupo de risco saudável e esperançoso por acreditar que esta pandemia faz parte de um propósito Divino para conscientizar a raça humana a respeitar nossa Nave Mãe Terra de toda a destruição que vem sofrendo, em todas as suas formas de vida. E revelando que a humanidade, sim é que tem sido o grande vírus, fazendo o Jardim do Éden nossa Mamãe Natureza, virar o maior grupo de risco.

Desejo a todos, saúde física, mental, psicológica e espiritual.

P.S.: aproveite a quarentena e adote um bichinho. O melhor amigo.

OUTROS OLHARES

UMA DISTÂNCIA QUE SÓ AUMENTA

A pandemia escancarou a desigualdade social ao ceifar muito mais vidas e tirar muito mais empregos dos pobres e vulneráveis – um fosso visível inclusive nos países ricos

Desde que o mundo é mundo, uns têm mais e outros têm menos, e a parcela dos que têm menos é infinitamente maior. O desnível fica mais ou menos exposto conforme a riqueza de cada país e vem à tona, com toda a sua carga de injustiça e sofrimento, cada vez que um desastre desaba em uma população e o grosso da conta recai justamente sobre sua fatia vulnerável. A pandemia de agora, planetária e simultânea, abriu uma janela inédita para a desigualdade social, defeito atávico da humanidade. O novo coronavírus ataca sem distinção, mas a imensa parte das pessoas infectadas será aquela que não tem recursos para fugir de aglomerações, receber salário trabalhando em casa e prover a despensa com compras on-­line. Uma parcela dos que se contaminaram vai morrer, mas, na lista de fatalidades, a maioria será gente que só chegou a uma UTI, quando chegou, em algum precário hospital da rede pública. A paralisação das atividades atingiu as empresas em geral, mas a enorme massa de desempregados é composta principalmente de mão de obra menos qualificada e mais mal remunerada. “A desigualdade torna a sociedade ainda mais despreparada para lidar tanto com a pandemia quanto com a recessão que ela desencadeou”, diz o Nobel de economia Amartya Sen, professor da Universidade Harvard.

Além de expor e agravar a desigualdade, a crise que mergulhou 2020 em um mundo novo deixou mais claro do que nunca que o fosso também é fundo nos países ricos. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, morrem quatro vezes mais negros do que brancos de Covid-19 não por causa de fatores genéticos, mas devido às piores condições de vida (veja no quadro abaixo). Entre a população britânica, as fatalidades nas comunidades de imigrantes asiáticos são o dobro da média geral. Os municípios americanos de maioria negra concentram 58% das mortes no país. Dois terços dos hispânicos, como são chamados os descendentes de latino-americanos, ou estão desempregados, ou tiveram a renda drasticamente reduzida. Parte dos 150.000 sem-teto da Califórnia foi acomodada em avenidas com lugares demarcados no chão. Em Paris, o subúrbio de Seine-Saint-Denis, onde um em cada três moradores vive abaixo da linha de pobreza, registrou 62% mais mortes do que o normal para o mês de março. A causa, evidentemente, é o novo coronavírus — lá se encontra o menor número de médicos per capita da França.

Na América Latina, onde ficam oito dos vinte países mais desiguais do mundo, e, nesse time, o Brasil está sempre no topo, a disseminação do vírus se dá em conjuntura por si só explosiva: enquanto 3% da população está na faixa de alta renda, três quartos se situam nas classes baixa ou média baixa. A concentração de recursos se reflete no mercado de trabalho, que tem 60% de sua força na informalidade — um gigantesco contingente que se viu sem amparo quando a pandemia parou as economias. A OCDE, organização dos países avançados, calcula que 22 milhões de latino-americanos mergulhem na miséria se confirmadas as estimativas de queda de 5% na renda média da região. A privação, é claro, se estende a outros cantos do globo assolados pela desigualdade. Na África do Sul, 9 milhões de crianças estão sem alimentação regular desde o fechamento das escolas — uma questão que permeia os países menos desenvolvidos, mas que a pandemia, sempre ela, também fez aflorar nos Estados Unidos. Isso mesmo: na nação mais rica do mundo, 30 milhões de crianças deixaram de se beneficiar de um programa de almoço na escola de graça ou a baixo custo.

Estudo da ONU em parceria com a King’s College, de Londres, estima que a recessão trazida pelo novo coronavírus possa anular trinta anos de queda contínua da pobreza no mundo, ao empurrar 500 milhões de pessoas para a penúria. “É um tsunami de miséria”, alerta o economista Andy Sumner, coautor da pesquisa. Outro levantamento da ONU calcula em 265 milhões o número de pessoas que possam vir a passar fome em futuro próximo, mais do que o dobro de 2019, o saudoso ano em que ainda se achava que não ter nada para comer caminhava para ser obstáculo vencido. Sempre por culpa dos efeitos colaterais da Covid-19, o Banco Mundial prevê que o índice de Gini, usado para medir a desigualdade social, suba até 1% em todo o planeta, em um movimento sincronizado sem precedentes capaz de afundar entre 40 milhões e 60 milhões de pessoas na extrema pobreza. “O vírus é perigoso para ricos e pobres, mas o choque econômico que ele produz é muito pior na base da pirâmide”, diz Torsten Bell, da Resolution Foundation, entidade voltada para políticas públicas sediada em Londres.

A maioria dos especialistas considera que existem recursos à mão para reduzir os impactos sociais da pandemia e, por tabela, a desigualdade em geral — um ponto positivo que, insistem, não pode ser desperdiçado. “Esta crise ilustra tanto a violência da desigualdade quanto a necessidade de um sistema econômico diferente”, diz o francês Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI, que defende um novo sistema tributário que taxe os mais ricos e use os recursos para sustentar uma rede de proteção social sólida, capaz de prevenir o caos em tempos adversos. Um plano de crescimento conjunto da França e Alemanha tem como ponta de lança o desenvolvimento sustentável, através de um projeto de 500 bilhões de euros financiado pela taxação da emissão de gases do efeito estufa para incentivar tecnologias verdes.

Outra providência que ganha força no mundo é a renda mínima básica garantida pelo governo a todo e qualquer cidadão. A distribuição de dinheiro e alimentos nesses moldes já está sendo feita em 108 países, em caráter temporário. “Em circunstâncias tão adversas, a renda básica se mostrou crucial”, diz Lauren Graham, da Universidade de Joanesburgo. Bertrand Badie, professor de política social da Universidade Sciences Po, em Paris, recomenda a retomada urgente “da regulação do mercado, do multilateralismo e da solidariedade, três eixos abandonados do desenvolvimento”. As ideias estão aí, prontas para ser enlaçadas no esforço para sair do fundo do poço — e, se possível, emergir em um mundo melhor e um pouco mais justo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 03 DE JUNHO

O PODER DO EVANGELHO

… o evangelho é o poder de Deus para a salvação… (Romanos 1.16b).

O apóstolo Paulo, na carta aos Romanos, seu maior tratado teológico, fala sobre o poder do evangelho: Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego. Por que Paulo se envergonharia do evangelho na capital do império? Porque o evangelho fala sobre o Messias que foi crucificado e morto numa cruz! Isso era uma vergonha para os romanos. Paulo, porém, diz que o evangelho é a boa-nova sobre a vida, a morte, a ressurreição, a ascensão e o senhorio de Cristo. O evangelho não é sinal de fraqueza; é sinal do poder de Deus. O evangelho é tão poderoso quanto seu autor. O evangelho não é um poder qualquer nem um poder destruidor; é o poder de Deus para a salvação. Nenhum outro poder no céu ou na terra pode salvar o homem da ira vindoura senão o evangelho. Mas o evangelho estabelece um limite: é o poder de Deus para a salvação somente dos que creem. O evangelho não traz salvação para os incrédulos, mas somente para aqueles que confiam em Cristo. Esse evangelho não faz acepção de pessoas. A salvação está disponível a todos, judeus e gregos, de igual forma. A condição para a salvação de ambos, porém, é a mesma: a fé em Cristo. O evangelho é universal: alcança a todos sem acepção, mas não a todos sem exceção, uma vez que somente os que creem é que são salvos.

GESTÃO E CARREIRA

O DURO EXERCÍCIO DA RESILIÊNCIA

Se há um setor no Brasil que, literalmente, tem suado frio para conseguir enfrentar a crise gerada pela pandemia e pelo necessário isolamento social, esse é o de academias. Com as 76 unidades instaladas em 30 cidades de portas fechadas, a Bluefit, segunda maior rede do Brasil, com faturamento de R$ 135 milhões no ano passado, retardou o plano de expansão que levaria ao número de 100 unidades, entre próprias e franquias, até o fim do ano. Pelo menos dez devem ficar para 2021. Boa parte dos 2 mil funcionários tiveram seus contratos de trabalho suspensos por 60 dias, após um mês de férias coletivas. O sócio-fundador da rede Fernando Nero afirma que foi indispensável reinventar o modelo nesse período para atender parte dos 220 mil clientes e oferecer aulas on-line. “O modelo físico é muito importante, mas vamos criar uma plataforma para que o aluno possa agregar esse sistema em seu ritmo de exercícios nas nossas unidades”, diz. Com as propostas de retomada das atividades em boa parte dos estados, Nero acredita na volta gradual das bicicletas e das esteiras, com equipamentos mais distantes uns dos outros e medidas como uso de máscaras, álcool em gel e aferição de temperatura. “Quando tudo estiver mais tranquilo, as pessoas vão querer cuidar da saúde, se exercitar e buscar o melhor custo-benefício para treinar”, afirma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUEM MANDA AQUI?

Pesquisadores americanos conseguiram controlar decisões de macacos rhesus utilizando um método que pode ser replicado em humanos. O receio agora é o uso que poderá ser feito disso

“É a vontade que faz o homem grande ou pequeno”, observou o escritor alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Não é de estranhar, portanto, que a simples ideia de tê-la sequestrada por alguém cause um desconforto indescritível – algo próximo do pavor. Não foi com esse propósito, é claro, mas uma experiência científica recém-divulgada trouxe à tona, mais um a vez, o receio de que todo   empenho para que se consiga controlar integralmente os centros de comando da mente não seja algo destinado a só trazer benefícios, como a libertação de um vício, por exemplo – vale dizer, reacendeu o temor de que o emprego de tal conquista não tenha por objetivo fazer apenas homens grandes.

Em um artigo publicado na revista Cience Advance, pesquisadores da Universidade de Utah (EUA) revelaram que, trabalhando com macacos rhesus, desenvolveram uma técnica capaz de controlar partes do cérebro para que as ações dos animais fossem pré-determinadas. No experimento, dois símios foram condicionados a olhar uma sequência de pontos que apareciam numa tela –   eles ganhavam diferentes recompensas toda vez que seguiam corretamente o treinamento. Numa segunda etapa os cientistas submeteram regiões cerebrais das cobaias responsáveis pela atenção e pelo movimento voluntário dos olhos a pulsos de ondas sonoras agudas. Isso fez com que os macacos olhassem em uma direção que não aquela para a qual tinham sido condicionados, influenciados pelas rajadas ultrassônicas.

Os pesquisadores acreditam que a experiência possibilite o tratamento de distúrbios como a drogadição ou a compulsão alimentar. “Ficou evidente que não há trauma físico quando se induzem decisões por meio desse procedimento, porém, em um possível uso do método em pessoas, submeter-se a ele partirá sempre de uma escolha”, disse o neurocientista Jan Kubanek, autor da pesquisa. Seria aí o próximo do que ocorre com o protagonista de Laranja Mecânica (1971), filme de Stanley Kubrick (1928 -1999) baseado no livro de Anthony Burgess? Nele, o personagem aceita ter seu comportamento violento reprogramado. Inúmeros experimentos com foco na psique, e que, no início, eram fruto de boas intenções, foram abandonados após ser submetidos à sociedade e provados como violações de direitos humanos, afirma o psicólogo Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj. A alteração artificial de decisões, como propõe o novo estudo, deve chegar a esse ponto de discussão ética.