EU ACHO …

A ERA DO NETWORK]

Os líderes políticos, em cada momento da história, foram emergindo de diversas classes e estratos sociais de acordo com a importância específica que cada um desses grupos de pessoas teve ao longo da história. Primeiro os Nobres, com a bênção de Deus, donos da terra; depois a burguesia que emprestou dinheiro à Nobreza que assim perdeu as terras; depois, de novo a burguesia desta vez pegando tudo, em nome do povo. Logo que o dinheiro saiu do bom metal e chegou ao vil papel — as fake news não são só de hoje — ficou mais fácil compreender o mundo, o poder e sobretudo os políticos.

Na Europa isso foi bem claro imediatamente a seguir à revolução francesa. Depois que as cabeças começaram a cair dentro de cestos e a Líberté se juntou com a egalité e a franernité, e seu Luís Dezesseis e a menina Antoinette sucumbiram à força dos trabalhadores sans-culottes, tudo se jogou no trio eletrizante da democracia. Nunca mais a realeza teve poder de fato, se tornou apenas uma gente decorativa. Hoje nenhum rei ou rainha chega perto do poder que Jô Soares teve durante décadas na Globo. De Isabel de Inglaterra até Felipe de Espanha, para falar apenas das maiores casas reinantes europeias, que monarcas — homens e mulheres — são apenas símbolo e identidade convenientes. Nada mais. Resumindo, assim que a revolução industrial jogou o povo na rua deixou de ser possível recorrer para os tribunais de Deus, em todas as nações da terra as corporações tomaram conta do poder. Para sempre.

O Brasil não foi exceção e desde que a Constituição se instalou na Quinta da Boa Vista e os senhores do café inviabilizaram o regresso do imperador, foram sempre as profissões a mandar. Existiu um tempo café com leite e um tempo de coronéis; uma era de banqueiros e outra de sindicalistas; um tempo para demagogos e outro para sonhadores. Houve tempos de engenheiros, de economistas, moleques, garotinhos, generais e muitos marqueteiros.
Então, nas duas últimas décadas, vivíamos nem aí, felizes servidores daquela ditadura que (nem) pensávamos ser a última: os inovadores. Uma gente capaz de transformar ideias em dinheiro mudando a sociedade a cada instante, acabando com o homem do meio, e mudando tudo. Até Deus. Estava escrito que era dos aplicativos seria a última na cadeia do progresso. Mas nos enganámos. Antes que Zuckerberg ou Bezos pudessem se candidatar à Casa Branca, um vírus misterioso zerou tudo e a próxima geração a exercer o Poder será aquela capaz de articular as anteriores. Será a era do network.

A revolução industrial jogou o povo na rua, sem poder recorrer aos tribunais de Deus. Em todas as nações as corporações tomaram conta do poder. Para sempre

JOSÉ MANUEL DIOGO – é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence, gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.

OUTROS OLHARES

COM QUE ROUPA?

Se existe um traço comum no vestuário da quarentena é a informalidade. Mas, passada a pandemia, a elegância deve voltar à cena – mesmo com as máscaras

Definitivamente, nestes dias de pandemia, preocupar-se com o vestuário anda, digamos assim, fora de moda. Não era para menos. Há problemas milhões de vezes mais graves com que se alarmar – o número de mortos e infectados pela Covid-19 (no Brasil e em outros países), a demora na descoberta de um tratamento que derrote o vírus, a devastação dos empregos. Para não falar da preservação da própria saúde e da do próximo. Mas existe outro motivo pelo qual milhões de pessoas mundo afora deixaram de se esmerar na escolha dos seus trajes: por que fazer isso se a jornada de trabalho é cumprida em regime de home office e passear está reduzido a ir ao supermercado ou à farmácia? Se há hoje um traje comum no guarda-roupa “informalidade” (para usar vá lá, uma palavra elegante).

Adeus, ternos bem cortados, gravatas listradas, barras italianas. Adeus, sapatos de salto, blusas de seda, tailleurs de grife. Como e todos os dias fossem domingo, e todos os domingos fossem de parque, tomaram a cena, com força, as camisetas os moletons, os chinelos. E quem tem de sair, por menor que seja a trajetória, não abre mão de um acessório que jamais foi tão demandado: a máscara. Eis as novas normas. No entanto, quando tudo isso passar, garantem os especialistas em indumentária, as roupas “despojadas” também passarão – e a moda vistosa voltará à moda (com o perdão da redundância).

Esse vislumbre do futuro se norteia pelo passado. É verdade que, diante do surto de cólera, o temor de germes e afins encurtou a bainha dos vestidos na Inglaterra do século XIX – usemos aqui exemplos femininos, o que não significa que os homens não se importem com seus trajes -, impulsionando uma tendência que sobreviveria à intenção higiênica inicial. Porém, a moda criada durante a epidemia de gripe espanhola, em 1918, que difundiu os chapéus de aba largas utilizados com um lenço para cobrir parte do rosto, não foi longe. E, com o fim da II Guerra, em 1945, o estilista francês Christian Dior (1905-1957) criou uma nova linha de roupas que se opunha diametralmente à austeridade que predominou no período do conflito. Batizada de New Look, ela consagrou uma forma feminina luxuosa de se vestir.

Costura-se uma retomada para o futuro breve. De acordo com um levantamento feito pela consultoria inglesa Opinium Research, cerca de 25% dos americanos – mulheres e homens – entre 18 e 34 anos de idade pretendem gastar mais dinheiro com roupas após o surto epidêmico. ‘Imagino que, depois da pandemia, possa haver uma exacerbação da própria moda”, diz o historiador dessa área João Braga, professor da disciplina na Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo. “Tal tendência surgiria em contraste com os trajes mais sóbrios que têm sido usados”, acredita ele.

Contudo, há uma questão que poderia pôr em xeque a disposição de apostar outra vez em um guarda-roupa mais sofisticado. A OMS recomenda às pessoas que lavem as roupas utilizadas para sair tão logo retornem à residência. Sem remédio e sem vacina contra o novo coronavírus, é legítimo supor que a orientação continue sendo seguida depois do surto, devido ao receio de que as vestimentas possam estar infectadas. Estariam? ‘O Sars-CoV-2 pode se manter vivo nos tecidos de 72 a 96 horas”, explica a infectologista Raquel Muarrek, da Rede D’Or. “Entretanto, o risco de contaminação é pequeno. As partículas de vírus expelidas no ambiente ficam seguindo as massas de ar. Ao caminharmos, empurramos essas massas junto com os patógenos, que, por isso, não se prendem aos trajes, aos cabelos. Agora, se alguém tossir ou espirrar perto de você, é indicado lavar as roupas e tomar banho ao chegar em casa”, ressalta ela.

Em alguns países europeus, o isolamento social vai ficando para trás, e a população começa a reocupar as ruas. A lembrança destes tempos difíceis se materializa nas máscaras que escondem quase todas as faces. Sim: essa é a peça que deverá ficar como legado da Covid-19. No vestuário, quem sabe até transmitindo uma aura de elegância a quem a usar. Tomara. “Qualquer pessoa é capaz de ficar alegre e de bom humor quando está bem-vestida”, observou o escritor inglês Charles Dickens (1812-1870). Mas que a alegria não volte à moda no planeta só por causa – perdão de novo pela redundância – da moda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE JUNHO

CUIDADO COM AS PAIXÕES INFAMES

Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação (Levítico 18.22).

O homem e a mulher foram criados por Deus, à sua imagem e semelhança. Deus os uniu numa relação de amor e fidelidade. Homem e mulher, pelo casamento, tornam-se uma só carne. O casamento estabelecido por Deus, em Gênesis 2.24, como uma relação heterossexual, monogâmica e monossomática. O casamento não é a relação de um homem com outro homem, nem de uma mulher com outra mulher. Não é a relação de um homem com mais de uma mulher, nem de uma mulher com mais de um homem. O perverso coração humano, porém, rebelado contra Deus, recusa-se a obedecer aos preceitos divinos. Por isso, relações ilícitas são inventadas e uniões abomináveis são firmadas para substituir o que Deus estabeleceu desde o princípio. Uma dessas relações abomináveis é a prática sexual com pessoas do mesmo gênero. A Palavra de Deus diz: Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação. O apóstolo Paulo afirma que o homossexualismo, ou seja, a relação entre homem e homem, ou entre mulher e mulher, é uma expressão do juízo divino a uma geração que rejeitou o conhecimento de Deus.  Essa relação homossexual é tratada pelo apóstolo como uma disposição mental reprovável, um erro, uma imundícia, uma desonra, uma torpeza, algo contrário à natureza (Romanos 1.24-28). Por mais que a sociedade contemporânea aprove e torne legal o “casamento homossexual”, aos olhos de Deus continua sendo abominação. Devemos, portanto, ter muito cuidado com as paixões infames!

GESTÃO E CARREIRA

O APETITE DA TYSON FOODS PELO BRASIL

Empresa americana compra 40% do frigorífico gaúcho “Vibra”, coloca um pé no mercado doméstico e passa a ter acesso ao suprimento de aves para reforçar o abastecimento de clientes em mercados externos.

A Tyson Foods, gigante americana do setor de alimentos, vem acelerando seus planos de internacionalização nos últimos anos – em ritmo semelhante ao de concorrentes como JBS, BRF e Marfrig. Chegou a vez de o Brasil entrar no cardápio da estratégia de expansão da companhia. Neste mês, com a aquisição de 40% da divisão de alimentos do grupo brasileiro Vibra, do Rio Grande do Sul, produtora e exportadora de produtos avícolas, os americanos colocam um pé no mercado brasileiro e passam a ter acesso ao suprimento de aves no País para atender parte de suas operações globais. Além disso, existe a possibilidade de distribuição de produtos Tyson no varejo brasileiro.

Proprietária de marcas conhecidas nos Estados Unidos, muitas delas no segmento de hambúrgueres e carnes processadas, a Tyson faturou US$ 42 bilhões no ano passado e possui 121 mil empregados. Seus executivos estimam que nos próximos cinco anos 98% do crescimento do consumo de proteínas acontecerá fora dos Estados Unidos. Daí a importância de expandir as operações para mercados variados. No ano passado a Tyson Foods comprou as operações de aves na Tailândia e Europa da também brasileira BRF. Mas, ainda assim, foi um negócio fora do território doméstico. Entrar no mercado brasileiro dará mais flexibilidade à companhia. “Este investimento na Vibra nos permitirá atender clientes brasileiros e de mercados de demanda prioritária na Ásia, Europa e Oriente Médio”, disse o presidente da área internacional da Tyson Foods, Donnie King, em nota. A Tyson já esteve no Brasil com marca própria, mas não teve sucesso e vendeu as operações para a JBS por US$ 175 milhões em 2014. O investimento na Vibra representa um retorno mais seguro, dentro de uma operação já estruturada.

O economista e consultor de agronegócio Marcos Fava enxerga como positiva a chegada da Tyson Foods ao mercado brasileiro. As expectativas de crescimento da economia, aliadas à alta competitividade do setor no Brasil, são fatores preponderantes para a decisão ter sido tomada. “O Brasil é hoje o País mais competitivo no segmento de frangos. Operando por aqui, a Tyson terá mais facilidade para abastecer seus clientes em outros continentes. Eu acredito que ela também tenha interesse em ampliar a atuação no mercado brasileiro, que deve crescer cerca de 2,5%”, disse Fava. “Em que ritmo ela pretende explorar o mercado nacional é uma variável que não sabemos.”

Com sede no município gaúcho de Montenegro, a Vibra tem 4 mil funcionários e 14 unidades de produção espalhadas pelo Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais. No mercado nacional atende principalmente as regiões Sul e Sudeste. Mas sua força maior está nas exportações. As vendas realizadas para cerca de 50 países contribuíram com 60% do faturamento de R$ 1,4 bilhão em 2019. A empresa gaúcha fornece anualmente cerca de 170 mil toneladas de carne de frango e pretende faturar em 2020 em torno de R$ 1,6 bilhão com abatimento de 200 mil toneladas. Hoje são abatidas cerca de 520 mil cabeças por dia. O Oriente Médio representa 50% de suas vendas externas, mas Europa e Ásia também são mercados importantes.

A relação da Vibra com a Tyson Foods não é recente. Há dois anos, ambas são parceiras em sistema de “copacking”, em que a brasileira produz e embala, por demanda, produtos com a marca Tyson, que vão para países do Oriente Médio. “Eles gostaram do nosso desempenho e forma de trabalhar e aceitaram ampliar a parceria por meio dessa operação que na prática foi uma capitalização da Vibra”, explica o CEO, Gerson Luís Muller.

EXPANSÃO

Com os recursos dessa capitalização – que não tiveram os valores revelados – a Vibra poderá crescer organicamente e atingir a meta traçada para os próximos cinco anos, de aumentar em 70% o abate de aves. Muller não descarta adquirir concorrentes, mas isso não deve ocorrer de imediato. “Não é o momento de comprar. Os valores estão altos. Vamos aguardar as oportunidades surgirem.”

Para a Vibra, o negócio também possibilita acessar mais mercados consumidores por meio da estrutura comercial da Tyson Foods, além da oportunidade de absorver know how comercial, tecnológico e compartilhar escritórios mundo afora. “A Tyson fornece para redes de fast food e tem laboratórios que desenvolvem produtos específicos para seus clientes. Acho que podemos absorver conhecimento e expandir nossa área de atuação através da estrutura deles”, diz o executivo, que afirma não haver no contrato cláusula que preveja a venda da Vibra à Tyson Foods. “Se houver interesse, a gente conversa.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ARQUITETURA DA DIVERSIDADE

Tratamentos para depressão e esquizofrenia podem ser específicos para cada sexo, já que eles têm estrutura e funcionamento diferentes

Num dia cinzento de janeiro, Lawrence Summers – o presidente da Universidade Harvard – sugeriu que diferenças inatas na estrutura do cérebro masculino e do feminino poderiam ser um fator determinante para a relativa escassez de mulheres na ciência. As declarações reacenderam um debate que se desenrola há um século, desde que os cientistas que mediam a dimensão do cérebro de ambos os sexos começaram a sustentar a ideia, baseados em sua principal conclusão – a de que o cérebro feminino tende a ser menor -, de que as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens.

Até hoje ninguém conseguiu nenhuma evidência de que as diferenças anatômicas tornem as mulheres incapazes de obter distinção acadêmica para matemática, física ou engenharia. E o cérebro de homens e mulheres comprovou ser muito semelhante em vários aspectos. Por outro lado, ao longo da última década, pesquisadores que estudam questões diversas, do processamento da linguagem à navegação, passando pela gravação de memórias emocionais, também revelaram uma série impressionante de variações estruturais, químicas e funcionais entre o cérebro do homem e o da mulher.

Essas divergências não são apenas idiossincrasias curiosas para explicar por que os homens gostam mais dos Três Patetas do que as mulheres. Elas suscitam a possibilidade de precisarmos desenvolver tratamentos específicos de acordo com o sexo para problemas como depressão, vício, esquizofrenia e transtorno do stress pós-traumático. Estudiosos da estrutura e do funcionamento do cérebro devem levar em consideração o sexo de seus objetos de pesquisa ao analisar dados – e incluir tanto homens quanto mulheres em estudos futuros, para evitar resultados enganosos.

ESCULTURA CEREBRAL

Até não muito tempo atrás, os neurocientistas acreditavam que as diferenças no cérebro de sexos diferentes se limitavam às regiões responsáveis pelo comportamento de acasalamento. Em um artigo da Scientific American de 1966, intitulado “Sex differences in the brain” (Diferenças sexuais no cérebro), Seymour Levine, da Universidade Stanford, descreveu como os hormônios sexuais ajudam a comandar comportamentos reprodutivos diferentes em camundongos: os machos ficam preocupados em montar enquanto as fêmeas elevam as nádegas para atrair pretendentes. Levine só mencionava uma região do cérebro em sua análise: o hipotálamo, pequena estrutura na base do cérebro envolvida na regulação da produção de hormônios e no controle de comportamentos básicos como comer, beber e fazer sexo. Uma geração inteira de neurocientistas amadureceu acreditando que as “diferenças sexuais no cérebro” diziam respeito apenas aos hormônios sexuais e ao hipotálamo.

Essa visão foi posta de lado por uma onda de descobertas que ressaltam a influência do gênero em várias áreas da cognição e do comportamento, incluindo memória, emoção, visão, audição, processamento de rostos e resposta do cérebro aos hormônios do stress. Esse avanço se acelerou nos últimos dez anos com o uso de técnicas de imageamento sofisticadas e não-invasivas, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a ressonância magnética funcional (RMf), com as quais é possível observar o cérebro em ação.

Tais experimentos com imagens revelam que as variações anatômicas ocorrem em uma série de regiões do cérebro. Jill M. Goldstein, da Faculdade de Medicina de Harvard, e colegas, por exemplo, usaram a ressonância magnética para medir áreas corticais e sub corticais. Os pesquisadores descobriram que determinadas partes do córtex frontal – envolvido em muitas funções cognitivas importantes – são proporcionalmente mais volumosas em mulheres do que em homens, assim como partes do córtex límbico, envolvido nas reações emocionais. Em homens, por outro lado, partes do córtex parietal, ligado à percepção espacial, são maiores do que nas mulheres, assim como a amígdala, estrutura em forma de amêndoa que reage a informações que despertam emoções – qualquer coisa que faça o coração disparar e a adrenalina fluir pelo corpo.

Normalmente, acredita-se que as diferenças no tamanho das estruturas cerebrais reflitam sua importância relativa para o animal. Por exemplo, os primatas usam mais a visão do que o olfato; nos camundongos, ocorre o contrário. Em consequência, o cérebro dos primatas possui regiões proporcionalmente maiores dedicadas à visão, e os camundongos devotam mais espaço ao olfato. A existência de disparidades anatômicas disseminadas entre homens e mulheres sugere, portanto, que o sexo realmente tenha influência no funcionamento do cérebro.

Outras pesquisas estão encontrando diferenças anatômicas ligadas ao sexo no nível celular. Sandra Witelson, da Universidade McMaster, por exemplo, descobriu que as mulheres possuem densidade maior de neurônios em áreas do córtex do lobo temporal associadas ao processamento e à compreensão da linguagem. Ao contar os neurônios de amostras de autópsias, os pesquisadores notaram que, das seis camadas do córtex, duas apresentavam mais neurônios por unidade de volume em mulheres do que em homens. Descobertas semelhantes foram registradas posteriormente no lobo frontal. De posse dessas informações, os neurocientistas podem agora analisar se as diferenças sexuais no número de neurônios correspondem a diferenças na capacidade cognitiva – examinando, por exemplo, se o aumento na densidade do córtex auditivo feminino está relacionada ao melhor desempenho em testes de fluência verbal.

INFLUÊNCIA HORMONAL

Essa diversidade anatômica pode ser causada, em grande parte, pela atividade dos hormônios sexuais que banham o cérebro do feto. Esses esteroides ajudam a coordenar a organização e as conexões cerebrais durante o desenvolvimento, e influenciam a estrutura e a densidade neuronal de várias regiões. Curiosamente, as áreas cerebrais que Goldstein descobriu diferirem entre homens e mulheres são aquelas em que os animais concentram o maior número de receptores de hormônios sexuais durante o desenvolvimento. A correspondência entre o tamanho da região do cérebro em adultos e a ação de esteroides sexuais no útero indica que pelo menos algumas das diferenças sexuais não resultam de influências sociais ou de alterações hormonais relacionadas à puberdade. Elas estão ali desde o nascimento.

Vários estudos comportamentais contribuem para aumentar as evidências de que algumas das diferenças sexuais no cérebro surgem antes mesmo que o bebê comece a respirar. Ao longo dos anos, cientistas demonstraram que, quando escolhem brinquedos, meninas e meninos tomam rumos diferentes. Os meninos tendem a gravitar em torno de bolas ou carrinhos, enquanto as meninas normalmente pegam bonecas. Mas ninguém sabia dizer com certeza se essas preferências eram determinadas pela cultura ou pela biologia cerebral inata.

Para tratar dessa questão, Melissa Hines, da Universidade da Cidade de Londres, e Gerianne M. Alexander, da Universidade A&M do Texas, recorreram aos macacos, nossos primos animais mais próximos. As pesquisadoras apresentaram uma variedade de brinquedos a um grupo de macacos verver, incluindo bonecas de pano, caminhões e alguns itens neutros como livros ilustrados. Elas observaram que os macacos machos passaram mais tempo brincando com “brinquedos de menino” do que as fêmeas, e que as macacas passaram mais tempo interagindo com os que as meninas costumam preferir.

Ambos passaram o mesmo período de tempo mexendo nos livros e em outros brinquedos unissex.

Como é pouco provável que os macacos vervet sejam influenciados pelas pressões sociais da cultura humana, os resultados significam que a preferência das crianças por certos brinquedos é consequência, pelo menos em parte, de diferenças biológicas inatas. Supõe-se que a divergência, como todas as diferenças anatômicas do cérebro entre machos e fêmeas, tenha se originado de pressões seletivas durante a evolução. No caso do estudo com brinquedos, os machos tanto humanos quanto macacos preferem brinquedos que possam se locomover no espaço e que proporcionem brincadeiras mais brutas. É razoável especular que essas características podem estar relacionadas a comportamentos úteis para a caça ou para conseguir uma parceira. Da mesma maneira, também é possível acreditar na hipótese de que as fêmeas escolham os brinquedos que lhes permitam treinar as habilidades de que um dia precisarão para criar sua prole.

SOB STRESS

Em muitos casos, a diferença sexual na química e na constituição do cérebro influencia o modo como machos e fêmeas reagem ao ambiente ou a acontecimentos estressantes – e se lembram deles. Vejamos, por exemplo, a amígdala, estrutura cerebral proporcionalmente maior nas fêmeas. Para analisar se as amígdalas de homens e mulheres realmente respondem de modo diferente ao stress, Katharina Braun, da Universidade Otto von Guericke, em Magdeburgo, Alemanha, afastou por um curto período uma ninhada de filhotes de degu da mãe. Para esses roedores que vivem em grandes colônias, uma separação temporária é bastante desagradável. Os pesquisadores então mediram a concentração de receptores de serotonina, um neurotransmissor essencial para a mediação do comportamento emotivo em várias regiões do cérebro.

A equipe fez com que os filhotes ouvissem o chamado da mãe durante o período de separação, e descobriu que essa informação auditiva elevou a concentração de receptores de serotonina na amígdala dos machos, mas a reduziu nas fêmeas. Embora seja difícil tirar conclusões desse estudo para o comportamento humano, ele observa que, se algo semelhante acontecer com as crianças, a ansiedade da separação pode afetar de forma diferente meninos e meninas. Experiências como essas são necessárias se quisermos entender por que, por exemplo, os transtornos de ansiedade são de longe mais prevalentes em meninas do que em meninos.

Outra região do cérebro que hoje sabemos diferir entre os sexos em termos de anatomia e em sua resposta ao stress é o hipocampo, estrutura essencial para o armazenamento de lembranças e para o mapeamento espacial do ambiente.

As técnicas de imagem demonstram de maneira consistente que o hipocampo é maior nas mulheres do que nos homens. Essas divergências anatômicas podem muito bem estar ligadas de alguma forma à diferença no modo como homens e mulheres se orientam. Vários estudos sugerem que os homens tendem a se orientar estimando a distância e sua posição no espaço, enquanto as mulheres se orientam observando pontos de referência. Curiosamente, existe uma diferença entre os sexos parecida nos camundongos. Os machos tendem a atravessar labirintos utilizando dados direcionais e posicionais, enquanto as fêmeas percorrem os mesmos labirintos usando pontos de referência disponíveis. Os pesquisadores ainda não conseguiram comprovar, porém, que os camundongos machos são menos propensos a “parar para pedir informações”. Mas os roedores machos às vezes aprendem mesmo melhor sob stress.

Tracey J. Shors, da Universidade Rutgers, observou que uma breve exposição a choques de um segundo na cauda melhorou a execução de uma tarefa aprendida e reduziu a densidade das conexões dendríticas a outros neurônios em machos. Nas fêmeas, o choque prejudicou a performance e reduziu a densidade das conexões. Descobertas como essas têm implicações sociais interessantes. Quanto mais descobrimos como os mecanismos de aprendizado diferem entre os sexos, maior a probabilidade de que tenhamos de levar em conta que os ambientes de aprendizado ideais possam ser diferentes para meninos e meninas.

Pesquisas mostram que embora o hipocampo do camundongo fêmea demonstre um decréscimo na resposta ao stress agudo, ele parece ser mais resistente do que seu correspondente masculino diante do crônico. Cheryl D. Conrad, da Universidade do Estado do Arizona, confinou camundongos em uma gaiola por seis horas – situação perturbadora para os roedores. Os pesquisadores analisaram então quão vulneráveis seus neurônios do hipocampo eram ao ataque mortal de uma neurotoxina – uma medida padrão do efeito do stress nessas células. Eles notaram que o confinamento crônico tornou as células hipocampais dos machos mais suscetíveis à toxina, mas não teve nenhum efeito sobre a vulnerabilidade das fêmeas. Essas conclusões, e outras similares, sugerem que, nos casos de dano cerebral, as fêmeas estão mais bem equipadas do que os machos para tolerar o stress crônico.

LEMBRANÇAS E EMOÇÃO

Pesquisando como o cérebro lida com situações estressantes e se lembra delas, meus colegas e eu descobrimos que homens e mulheres diferem na maneira como armazenam as lembranças de incidentes que despertam emoções – um processo que envolve a ativação da amígdala. Em um de nossos primeiros experimentos, mostramos a voluntários uma série de filmes de violência explícita, enquanto medimos sua atividade cerebral por tomografia PET. Algumas semanas depois, demos a eles um questionário para saber do que se lembravam.

Descobrimos que o número de filmes dos quais conseguiam se lembrar estava relacionado a quão ativa estava a amígdala durante a exibição. Trabalhos posteriores feitos por nosso laboratório e por outros confirmaram essa conclusão geral. Mas então percebi algo estranho. A ativação da amígdala, em alguns estudos, envolvia apenas o hemisfério direito, e em outros envolvia somente o hemisfério esquerdo. Percebi então que os experimentos em que a amígdala direita se ativou foram aqueles que utilizavam apenas homens; aqueles em que só a amígdala esquerda se ativou foram feitos com mulheres. Desde então, três estudos subsequentes confirmaram essa diferença, de como homens e mulheres lidam com lembranças emotivas.

Para tentar descobrir o significado dessa disparidade, recorremos a uma teoria de um século de idade, segundo a qual o hemisfério direito tende a processar os aspectos básicos de uma situação, enquanto o esquerdo processa os detalhes. Se essa concepção for verdadeira, argumentamos, uma droga que prejudique a atividade da amígdala deveria reduzir a capacidade do homem lembrar da essência de um acontecimento emotivo (ao entorpecer a amígdala direita), enquanto, nas mulheres, afetaria sua capacidade de recordar detalhes específicos (ao entorpecer a amígdala esquerda).

Essa droga é o propanolol, da classe dos betabloqueadores. Demos a substância a homens e mulheres antes que assistissem a uma curta exibição de slides sobre um garotinho que sofre um terrível acidente ao caminhar ao lado da mãe. Uma semana depois, testamos a memória deles. Os resultados mostraram que o propanolol tornou mais difícil para os homens lembrar os aspectos mais gerais, ou a essência da história – que o menino tinha sido atropelado por um carro, por exemplo. Nas mulheres, o propanolol fez o oposto, atrapalhando as lembranças de detalhes periféricos que o menino estava carregando uma bola de futebol.

Em pesquisas mais recentes, descobrimos que podemos detectar quase imediatamente uma diferença de hemisfério entre os sexos em resposta a material emotivo. Voluntários que observam fotografias emocionalmente desagradáveis reagem em 300 milissegundos resposta que se apresenta como um pico no registro da atividade elétrica do cérebro, antes de qualquer interpretação consciente da imagem. Com Antonella Casbarri, da Universidade de L”Aquila, na Itália, descobrimos que, nos homens, esse rápido pico (denominado resposta P300) é mais exacerbado no hemisfério direito; nas mulheres, é maior no esquerdo.

Essas descobertas podem ter repercussões no tratamento do transtorno de stress pós-traumático. Pesquisas anteriores feitas por Gustav Schelling e seus colaboradores, da Universidade Ludwig Maximilian, na Alemanha, já tinham estabelecido que drogas como o propanolol reduzem a lembrança de situações traumáticas quando administradas junto com os tratamentos normais nas unidades de terapia intensiva. Estimulados por nossas conclusões, eles descobriram que, pelo menos nessas unidades, os betabloqueadores reduzem as lembranças de fatos traumáticos em mulheres, mas não em homens. Mesmo na UTI, portanto, os médicos podem ter de levar em conta o sexo dos pacientes ao prescrever medicamentos.

O stress pós-traumático não é o único distúrbio que parece agir de maneira diferente entre homens e mulheres. Um estudo com PET feito por Mirko Diksic, na Universidade McGill, mostrou que a produção de serotonina é 52% maior em homens do que em mulheres. Isso pode ajudar a explicar por que elas estão mais sujeitas à depressão – problema normalmente tratado com drogas que elevam a concentração de serotonina.

Situação parecida pode ocorrer com a dependência. Nesse caso, o neurotransmissor em questão é a dopamina – substância envolvida na sensação de prazer associada ao uso de drogas. Em estudo com camundongos, Jill B. Becker e pesquisadores da Universidade de Michigan em Ann Arbor descobriram que, nas fêmeas, o estrógeno faz aumentar a liberação de dopamina em áreas do cérebro importantes na regulação do comportamento de procura pela droga. Além disso, o efeito do hormônio é de longa duração, tornando as fêmeas propensas a buscar cocaína semanas depois de ter recebido a droga. Essas diferenças podem explicar por que as mulheres se viciam com mais rapidez do que os homens.

Determinadas anomalias no cérebro que estão por trás da esquizofrenia também parecem diferir em homens e mulheres. Ruben e Raquel Cur, da Universidade da Pensilvânia, mediram o tamanho do córtex orbitofrontal, região relacionada ao controle das emoções, e o compararam à dimensão da amígdala, mais envolvida nas reações emocionais. Descobriram que, nas mulheres, a proporção orbitofrontal/amígdala é maior do que nos homens. Essa conclusão pode dar margem a especulações de que as mulheres talvez sejam, em média, mais capazes de controlar suas reações emocionais.

VARIÁVEL BÁSICA

Em outros experimentos, pesquisadores descobriram que esse “equilíbro” está alterado na esquizofrenia, embora de forma não idêntica em homens e mulheres. As mulheres com esquizofrenia têm proporção orbitofrontal/amígdala menor do que as saudáveis. Mas, estranhamente, os homens esquizofrênicos têm essa mesma proporção aumentada em comparação com os saudáveis, o que pode significar a necessidade de tratamento diferenciado do das mulheres.

Em abrangente relatório de 2001 sobre diferenças sexuais na saúde humana, a Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos reconheceu que o gênero faz diferença. “O fato de ser macho ou fêmea é uma variável básica humana importante, que deve ser levada em conta ao projetar e analisar estudos em todas as áreas e em todos os níveis de pesquisas biomédicas e relacionadas à saúde.”

Os neurocientistas ainda estão longe de identificar todas as diferenças ligadas ao sexo no cérebro e sua influência no processo cognitivo e na propensão a problemas cerebrais. De qualquer maneira, as pesquisas realizadas até hoje demonstram com certeza que as especificidades vão muito além do hipotálamo e do comportamento ligado ao acasalamento. Cientistas e clínicos nem sempre sabem exatamente qual é o melhor meio de avançar para decifrar toda a influência do sexo no cérebro, no comportamento e na resposta a medicamentos. Mas, um número cada vez maior de neurocientistas concorda que avaliar um sexo apenas e aprender sobre ambos já não é mais opção.