OUTROS OLHARES

PAIS CONTRA O CAOS

Com isolamento, ficou mais difícil — em alguns casos até impossível — controlar o tempo das crianças diante das telas e substituir a tecnologia por atividades não virtuais

Se a pandemia do novo coronavírus transformou os dilemas das famílias da porta para fora, trazendo distanciamento social e isolamento, as transformações dentro de casa não foram menos dramáticas, já que os lares passaram a ocupar o espaço de todo um mundo exterior. Para pais que têm de lidar com o home office ao mesmo tempo que mantêm os filhos trancafiados, educando-os e os entretendo, o desafio ganha ares hercúleos. Sobretudo porque, para muitas dessas atividades, a tecnologia é a única saída possível — o que impõe novos questionamentos ao ato de educar. Existe um limite ideal entre utilizar a tecnologia como aliada para entreter as crianças e abdicar do controle das telas para mitigar as dores do isolamento? Tudo bem liberar o desenho favorito do fim de semana às 9 horas de uma terça-feira ou aumentar o tempo destinado para os games?

As dúvidas e inquietações deixaram o ambiente doméstico e passaram a aparecer em sessões virtuais e consultas informais com psicólogos, pediatras e pedagogos, que identificam uma sensação generalizada de aumento de demandas e tarefas aliada à culpa de não dar atenção suficiente para os filhos ou de relaxar regras preestabelecidas na rotina da casa. Levando-se em conta as especificidades de cada família, do número de filhos à idade de cada um deles, os especialistas coincidem no entendimento de que é necessário entender a excepcionalidade da pandemia e que o momento requer menos cobranças e mais diálogo. “É preciso ter a noção de que estamos vivendo um tempo historicamente marcante, até para que possamos nos adaptar. Não dá para agir como se não fosse um momento excepcional. Tentar manter de pé estruturas que não existem agora demanda um esforço e um tempo enorme, que podem ser melhor utilizados para construir essa adaptabilidade”, ressaltou o pediatra, palestrante e escritor Daniel Becker.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças de até 1 ano e meio de idade não tenham nenhum contato com telas e que aquelas entre essa idade e 5 anos estejam expostas menos de uma hora ao dia a aparelhos eletrônicos. Mas tudo isso leva em consideração o contexto normal de atividades de uma família. Nos Estados Unidos, a Associação Americana de Pediatria divulgou um comunicado no início da pandemia reconhecendo que o tempo em frente às telas aumentaria, mas recomendou que pais, mesmo diante da nova rotina, mantivessem algum limite. Canais infantis de TV e no YouTube já mostram esse aumento do uso. Segundo uma pesquisa feita pela Kantar Ibope, canais infantis da TV a cabo tiveram aumento de 9% de audiência em março. Na internet, o canal da Galinha Pintadinha, favorito das crianças na primeira infância, teve um salto de 34% nas visualizações diárias desde que a pandemia começou.

Na prática, o cotidiano da quarentena ainda traz desafios diários às famílias, mesmo após mais de dois meses de suspensão das aulas presenciais e da adoção de conteúdos on-line, em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Alunos da ECO — Escola de Educação Comunitária, no bairro do Grajaú, Zona Norte do Rio, os gêmeos Isadora e Igor Tavares, de 11 anos, se revezam no laptop e no celular para acompanhar as aulas e fazer as avaliações do sexto ano do ensino fundamental. “Em casa, a concentração fica mais dispersa, tanto a deles quanto a nossa. A gente tenta manter uma rotina, mas não dá para fazer tudo como era antes. Eles acabam passando mais um pouco de tempo no celular ou comendo uma besteira a mais. Essa folga é necessária”, disse a servidora Agláia Tavares, que está em quarentena com os filhos e o marido.

O fato de o filho ainda não ter atividades escolares não diminui a carga da advogada Luciana Nahid Pacca, mãe de Henrique, de 1 ano e 4 meses. Tendo de sair semanalmente para reuniões externas com clientes, ela se reveza com o marido, o empresário Bruno Pacca, nos cuidados com o filho. O apoio da mãe, que, como ela, mora na Barra da Tijuca, foi suspenso em razão do risco de contaminação. A solução foi buscar bons conteúdos na TV e na internet para conseguir entreter Henrique durante o home office e o tempo dedicado às tarefas domésticas. “São coisas que o mantêm entretido por uma hora e meia, duas horas. No tempo que passo com ele, fico 100% dedicada, sem celular ou computador. Mas não dá para dar conta da demanda dele e das necessidades da casa e do trabalho”, disse a advogada. “A creche também ofereceu uma programação on-line, mas seria mais um tempo de tela. Consegui fazer um bom esquema de revezamento com meu marido, mas ainda assim tem horas que recorremos ao eletrônico”, afirmou.

Também com uma criança em idade pré-escolar, o fotógrafo Thiago Facina teve crises de ansiedade, com falta de ar e insônia, que acabaram por inspirá-lo a criar uma série de fotos no Instagram chamada “Confinamento”. Nela, Facina se veste com equipamentos de proteção individual (EPI). Sem poder lutar contra as telas, incorporou a vivência a seu cotidiano. Tanto a mulher, a atriz Lola Borges, quanto o filho, Antônio, de 2 anos e 10 meses, participam da atividade, que é feita diariamente. “Nos primeiros 15 dias ainda havia uma novidade, nós viemos para a casa da minha sogra, que tem mais espaço aberto para ele poder brincar. Nosso repertório de criatividade é colocado à prova o tempo todo, fica impossível não se render mais à TV do que a gente gostaria”, relatou Facina. “A série de fotos veio como uma ideia de ocupar este tempo que a ansiedade estava consumindo. A roupa traz uma sensação de ficção científica, reforça essa distopia que passamos a viver.”

A aflição de muitos pais levou a psicóloga e professora da Universidade de Brasília (UnB) Juliana Lopes a criar a série de vídeos curtos, Ju, me tira uma dúvida?, em seu canal no YouTube. Neles, a psicóloga, que é especializada em autismo e dificuldades de aprendizagem, dá dicas para os pais conciliarem o trabalho em casa com as demandas dos filhos ou ideias de atividades para que eles se entretenham sozinhos. Para ela, uma boa forma de lidar com o natural aumento do tempo diante das telas é distribuí-lo ao longo do dia. Caso não seja possível, o melhor é combinar com os filhos o tempo exato a ser dedicado aos eletrônicos, para manter a noção de limite. “A gente precisa entender que isso vai acontecer neste momento e que está tudo bem. O pior é impor que a criança troque a tela por outra atividade, como a leitura, que para ela vai ser entendida como um castigo, e não um prazer”, destacou Lopes. “Até para ter um momento de qualidade com os filhos, os pais também têm de ter um tempo para si. Que muitas vezes era o tempo do deslocamento para o trabalho, do cafezinho na empresa, de buscar os filhos na escola, e que agora não existe mais. É preciso que eles entendam que os adultos não só precisam desse tempo, mas que eles também o querem. Que é importante ver um filme que não seja infantil, entrar num chat com os amigos, fazer uma atividade que não envolva os filhos.”

Criadora do site “Papo de Mãe” com Roberta Manreza, que, desde 2009, virou programa na TV Cultura apresentado pelas duas, Mariana Kotscho viu as questões da quarentena se acumular no trabalho e em casa. Mãe de Laura (17 anos), Isabel (14 anos) e André (13 anos), a jornalista entrevista remotamente especialistas na área, com dúvidas enviadas pelo público para as redes sociais do programa. Muitas dessas inquietações também vêm de amigos pais e da própria vivência da quarentena. “No início tentei estabelecer uma rotina, colei uma lista de tarefas na geladeira, mas durou só umas duas semanas. Vi que teríamos de afrouxar um pouco as regras da casa, não tem como dar conta de tudo neste período”, contou Kotscho. “O mais importante foi evitar um esquema de férias. Mesmo que eles não precisem acordar tão cedo, dou uma controlada nos horários de sono. Também fazemos um rodízio na arrumação da casa, para que ninguém fique sobrecarregado. É preciso entender os altos e baixos de cada um nesse processo, que é natural ficar um dia mais quieto ou passar um pouco de tempo a mais no celular.”

Para Daniel Becker, mais importante que a atenção ao tempo dedicado às telas é a qualidade do conteúdo visto: “A internet tem um cardápio gigante, com muita coisa ótima, mas também muita porcaria. É bom acompanhar o que as crianças veem, para não deixá-las só com youtubers sem conteúdo ou submetê-las a um excesso de propaganda infantil. Programas de qualidade ou filmes que transmitam bons valores viram bons aliados dos pais neste momento”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOILO PARA A ALMA

DIA 29 DE JUNHO

O CORDEIRO MUDO

Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca… (Isaias 53.7a).

O profeta Isaías anunciou Jesus, de forma incomparável, setecentos anos antes de seu nascimento, como o cordeiro mudo que foi levado ao matadouro e não abriu a sua boca. O Filho de Deus foi traspassado pelas nossas iniquidades e moído pelas nossas transgressões. Ele foi ferido, mas pelas suas pisaduras nós fomos sarados. Ele foi ultrajado, mas não revidou ultraje com ultraje. Ele foi levado para a cruz debaixo das vaias de uma multidão sedenta de sangue, mas não proferiu nenhuma palavra de maldição. Tal qual um cordeiro mudo, ofereceu-se como sacrifício pelo nosso pecado. Pacientemente suportou zombaria, escárnio e açoites. Foi humilhado até a morte, e morte de cruz. Bravamente marchou sob a algazarra de uma multidão tresloucada, rumo às agruras do Calvário. Mesmo padecendo sofrimento atroz, não levou em conta a vergonha da cruz, pela alegria que lhe estava proposta. Mesmo sendo obediente até o fim, suportou o duro golpe da lei que violamos. Mesmo sendo bendito eternamente, foi feito maldição por nós, ao assumir o nosso lugar. Carregou em seu corpo os nossos pecados e verteu seu sangue para nos redimir do cativeiro e da morte. Seu padecimento nos trouxe alívio. Sua morte nos trouxe vida. Ali no Calvário, Jesus abriu para nós a fonte inesgotável da salvação.

GESTÃO E CARREIRA

NÃO PARE NA PISTA

O crescimento do comércio eletrônico no Brasil devido à pandemia do novo coronavírus criou novas soluções em transportes

A covid-19 está forçando o setor de logística a se tornar mais ágil, eficiente e digital. Com lojas fechadas e várias indústrias paralisadas, a demanda por frete rodoviário caiu 17,5°/o em abril em relação a março, segundo a Repom, que oferece soluções de gestão e pagamento de despesas para frota própria e terceirizada. O setor vem buscando mais segurança e eficiência. No lugar de ficar aguardando uma chamada no centro de distribuição, o caminhoneiro está usando plataformas que conectam a carga ao motorista. ”É muito mais conveniente”, diz Bruno Hacad, diretor de operações da FreteBras, plataforma de transporte de cargas que viu o número de cadastros crescer 118°/o entre janeiro e abril em comparação ao mesmo período do ano passado, chegando a 400.000 motoristas. O comércio eletrônico ajudou a mitigar parte dessa queda, impulsionando empresas de logística voltadas para a entrega de última milha, por exemplo. As lojas físicas de grandes redes, como Magazine Luiza, transformaram-se em centros de distribuição para o comércio eletrônico. Esse avanço não tem volta.

NOVOS CAMINHOS

Com o crescimento do comércio eletrônico nos últimos meses, as empresas precisaram ajustar sua logística. Varejistas, transportadoras e plataformas para entregadores estão mais digitais para dar conta do aumento da demanda:

EU ACHO …

UM RENOVAR-SE DE ESPERANÇAS

Para viver um grande amor, inspirem-se em Vinicius

Os amores líquidos de que nos fala Zygmunt Bauman estão de quarentena. O filósofo polonês fez sucesso com a defesa da ideia de que os tempos modernos favorecem relações pessoais menos duradouras. O amor contemporâneo, na sua observação, estaria mais para o acúmulo de experiências do que para a profundidade de um relacionamento, mais para descompromisso casual do que para vínculo afetivo. O barco dos encontros eventuais, no entanto, está fazendo água, para usar uma imagem próxima ao universo do pensador mais citado do momento, morto há dois anos.

O distanciamento social para combater o coronavírus nos põe cara a cara com nós mesmos. É uma oportunidade de experimentarmos novas possibilidades de trocas de sentimentos com pessoas que, mesmo a distância, talvez estejam vivendo um momento parecido, também com desejo de construir algo que vá além da superficialidade.

O impulso de viver um grande amor é contrabalançado quando se é responsável, pelo receio de contrair a Covid-19. Antes da pandemia, feliz de quem tinha um companheiro com quem pudesse passar o Dia dos Namorados. Hoje, ter um companheiro não garante um jantar romântico (e, para os que puderem desfrutar esse momento, recomendo frugalidade – não vamos perder o foco).

Nem todos estarão de mãos entrelaçadas, mas isso não é decisivo. Ouço muitos relatos de casais que estão passando a quarentena cada um em seu canto porque um dos dois trabalha com serviços essenciais ou está na linha de frente do combate à doença. Ainda assim, eles se fazem presentes, por meio de mensagens carinhosas, conversas em vídeo ou um buquê de flores por delivery. O que estão fazendo, na realidade, é transformar a ausência física em prova de amor.

Dificuldade maior enfrentam aqueles que a nova ordem mundial pegou num momento em que não dividiam as delicias do amor com ninguém em particular. Mas acredito que obstáculos existem para ser superados. É bonito ver casais se conhecendo por mensagens, construindo confiança mútua e estabelecendo pactos antes de se encontrarem pessoalmente. Começar um namoro virtual não é possibilidade que deva ser descartada. Quando menos, a postergação do contato físico traz uma carga de emoção que pode ser recompensadora tanto no encontro próximo como no futuro mais longínquo, quando a lembrança do platonismo imposto pelas circunstâncias ajudar a alimentar o amor de uma vida inteira.

Gosto de pensar que a ausência temporária pode esfriar as paixões pequenas, mas esquenta os grandes amores. Faz com os sentimentos o que o vento faz com o fogo: se apaga um fosforo, alimenta uma fogueira. No Dia dos Namorados, é bom podermos contar com Vinicius de Moraes. Hoje estamos preocupados com nossa saúde. Sem uma vacina, ainda em desenvolvimento, qual será o impacto no futuro das relações afetivas? O poeta tem a resposta: “Amai, porque nada melhor para a saúde do que um amor correspondido”. E, em meio a tatas agruras descritas em O Dia da Criação, ele registra uma confiança no porvir – “Há um renovar-se de esperanças” – que nos reconforta.

**LUCILIA DINIZ

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IDENTIDADE E SENTIDO PARA A ALMA

O arquétipo trickster pode ser definido como um elemento que integra o inconsciente coletivo, representado por personagens da mitologia, do folclore, da literatura, da poesia, do teatro e do cinema

“O que nos reserva o futuro?” É com essa indagação que Carl Gustav Jung inaugura as linhas de Presente e Futuro (Jung, O. C., Vol. X/I§488). O pensador de Zurique lembra que, em momentos de profundas interrogações políticas e incertezas econômicas e espirituais, como o atual, o ser humano volta seus olhos para o futuro. Como Zaratustra, com seu “desejo de eternidade”, vive-se o impulso, resgatado pela poesia de Rimbaud, de “atravessar o limiar de uma consciência ordinária, a fim de atingirmos o tesouro cuja existência pressentimos no fundo”.

A importância de se trazer a contribuição do arquétipo do trickster para, a partir dele, falar sobre subversão não violenta, mediação de opostos, identidade e sentido no âmbito da cura da alma brasileira diz respeito ao diálogo que esse arquétipo propõe com todas as estruturas narrativas, as formas de socialização e os modos de subjetivar que, mesmo esgotados e reduzidos a estereótipos, ainda guardam, em sua essência, o gérmen do novo e a possibilidade do recomeço.

O trickster é uma das “pessoas psicológicas” que compõem o inconsciente coletivo, encarnado por personagens de inúmeras histórias da mitologia, do folclore, da literatura, presente na poesia, no teatro, no cinema e nas produções da cultura criativa em geral. A essas imagens pode-se chamar arquetípicas, posto que elas remetem às “representações simbólicas da psique total, entidade maior e mais ampla que supre o ego da força que lhe falta”. É importante salientar que, para Jung, toda afirmação sobre o arquétipo deve ser feita a partir da riqueza polissêmica das metáforas e dos símbolos, já que os arquétipos “pertencem à autocontradição interna e à duplicidade das metáforas míticas […]; são incognoscíveis econhecíveis através de imagens”. Assim, o que se conhece do arquétipo é o seu numen, isto é, a energia emanada do arquétipo que o atravessa e a consequente modificação fruto de seu impacto sobre a consciência.

Nesse ponto depara-se com uma importante sensibilidade poética e um giro epistemológico notável por parte de Jung. É importante lembrar que o pensador suíço lida com as fantasias arquetípicas do inconsciente coletivo já em seu cotidiano psiquiátrico no hospital de Burghölzli, na Suíça, validando assim seu percurso teórico com pacientes esquizofrênicos e, desse modo, evidenciando uma de suas maiores contribuições à chamada Psicologia Analítica, qual sejam, o caráter e a concepção estética e criadora de imagens que caracterizam a atividade da psique. A possibilidade de socialização dos pacientes psiquiátricos, na visão de Jung, estava baseada em uma ética do cuidado que favorecesse a comunicação e o acolhimento dessas fantasias e delírios, em relação com a cultura e sociedade.

Ao desenvolver a noção de arquétipo, inspirada nessas possibilidades “poiéticas” e mitológicas percebidas em seus pacientes de Burghölzli, Jung definiu o termo como um substrato psicológico comum a toda humanidade, procurando assim confrontar e ressignificar o já estabelecido literalismo e o consequente estigma da loucura que ele ativa. Suas premissas teóricas estão fundamentadas na experiência empírica e inspiradas em consistentes categorias filosóficas, mas ganham profundidade e potência quando sentidas a partir da realidade poética, simbólica e metafórica da psique.

Além dessa concepção mitopoética, prospectiva e homeostática da psique, também é importante frisar que, para a Psicologia Analítica, os arquétipos pertencem à esfera da psique objetiva (inconsciente coletivo), enquanto os complexos são representações mentais unidas por experiências afetivas de intensa carga emocional para o indivíduo, fazendo parte da psique subjetiva, isto é, do inconsciente pessoal.

INTERSECÇÃO

Há aqui um ponto de encontro interessante, entre o complexo e a possibilidade de análise de características culturais e intersubjetivas de um grupo ou país, já que “a origem do complexo é frequentemente o que se chama de trauma, um choque emocional ou algo parecido, através do que uma parcela da psique é ‘encapsulada’ ou se cinde”. Abre-se então a possibilidade hermenêutica de pensar acerca de alguns fenômenos em termos de complexos culturais, estando sua gênese relacionada a traumas coletivos e situações que ainda não foram reparadas socialmente ou psicologicamente elaboradas. No caso, no Brasil, podemos falar dos miasmas gerados pela colonização, a escravidão e os traumas impostos à formação da identidade cultural brasileira, constituída a partir do preconceito tomado como norma, do etnocentrismo como imposição da verdade do colonizador, do jeitinho do colonizado como resposta que improvisa saídas tanto quanto perpetua a corrupção como modus vivendi e operandi. Alguns exemplos dos traumas persistem constelados, atuando como poderosos complexos culturais na psique coletiva brasileira.

Dessa forma, deve-se evocar uma leitura simbólica do arquétipo do trickster baseada fundamentalmente nas contribuições de Carl Gustav Jung e seus continuadores, propondo assim um movimento subversivo-criativo, uma reflexão construtivo-destrutiva, necessários para reparar o tecido da relação europeu/índio/negro cristalizada e verticalizada no Brasil, e também para que afirme uma identidade cultural e uma cidadania plena e responsável, para além do “jeitinho brasileiro”. A essência da subversão aqui proposta, figurada pelo arquétipo do trickster, relaciona-se com a necessidade de amadurecer uma consciência comunitária, baseada na preservação -inovação criativa de nossas qualidades mestiças. Desse modo, seriam ressignificados os aspectos seculares de nossa psique coletiva, por meio de uma proposição que equilibre os aspectos polares, desde sempre dissociados pelos dualismos reducionistas da realidade. O pragmático em diálogo com o lúdico, o místico com o heroico, o lógico com o mágico, o cômico com o trágico instaurariam uma trajetividade que poria em movimento o cotidiano, o qual seria assim inseminado com uma visão de mundo muito própria dos ritos, tradições festivas e folclóricas do Brasil, na busca de um imaginário de superação e reparação.

O trickster é um personagem que, no contexto das narrativas em que irrompe como elemento de mediação, não aceita submissão, tampouco o culto ao cinismo convencional, muito menos investe na manutenção das personas sociais, do indivíduo entregue ao dissimular-se em aparências ou discursos puramente retóricos. Falar desse arquétipo é estar alinhado com o seu numen de mudança, baseado em autenticidade, autonomia, integridade e liberdade. As características muito próprias do trickster são sistematicamente banidas das sociedades totalitárias em geral, por serem elementos de forte questionamento da sujeição do indivíduo ao coletivo, da homogeneização dos discursos e práticas. O humor, característica essencial do trickster, é sumamente malvisto nesse modelo de sociedade rigorosa, séria, unilateral, paranoica e produtiva. Como escreve Todorov, “uma das tarefas mais difíceis (nesse modelo social) é manter o senso de humor – sinal de distância com relação à autoridade e, portanto, de autonomia”. 

ROMPIMENTO

O trickster é retratado, nas histórias tradicionais, como um personagem capaz de romper automatismos alienantes e de promover insights profundos que conduzem à mudança significativa. Em muitas narrativas da mitologia universal, ele é representado por personagens zoomórficos, tais como corvo, coiote, lebre ou hiena, isto é, animais cujas qualidades não são a força ou a ferocidade ou violência, mas a mobilidade, a astúcia e a leveza. No Brasil, ele aparece representado por personagens bem conhecidos, como os folclóricos Saci Pererê e Pedro Malasartes. O trickster é essencialmente um questionador, um outsider que, dotado de muita energia e dinamismo, sempre convida os personagens mais convencionais à desnaturalização de suas condutas e à sensibilização quanto a temas estabelecidos a priori. Mesmo a incoerência de um momento histórico é explicitada por tricksters sumamente famosos, como o Carlitos, de Charles Chaplin, o Macunaíma, de Mário de Andrade, e a dupla João Grilo e Chicó, de Ariano Suassuna. Sua função psicológica na narrativa também é a de conscientizar egos inflados e fixados na pobreza do literalismo conceitual, a exemplo da personagem do conto dos Irmãos Grimm, que se sente livre para afirmar, contra todo o senso comum, que “o rei está nu”. As trapalhadas e confusões que emergem desse personagem marginal e questionador são derivadas de seu caráter mediador e, por isso, seu movimento é filho da revelação imaginativa e do erro propositivo, sendo, em última instância, de caráter restaurador. Como linha de força desse arquétipo, movendo-se para além das percepções racionais do ego heroico, pode-se dizer que seu maior compromisso seja o de revelar o sentido real das coisas, para além das representações, oportunismos, dualismos e estratégias de manipulação.

O alívio que esse personagem promove nas narrativas que descortinam contextos emocionalmente engessados ou estéreis relaciona-se com sua habilidade de oferecer, pela via do lúdico, do inusual e do cômico, uma resposta de transformação adequada, porém, muitas vezes imprevista e brusca, embora raramente violenta, já que esse anti-herói sombrio está intimamente ligado ao discurso desviante e anti-hegemônico, com o flanar de asas que nos leva para longe de conexões esgotadas e das verdades consagradas.

A importância do estudo dos mitos, artes, religiões, filosofia e disciplinas ascéticas para a Psicologia Analítica é que, além de configurarem linguagens próprias da totalidade psíquica, estes são instrumentos que ajudam o “indivíduo a ultrapassar os horizontes que o limitam e a alcançar esferas de percepção em permanente crescimento”. Ao resgatar a função primária da mitologia e dos símbolos, a Psicologia Analítica oferece a plataforma para atingir o tesouro mencionado, enquanto auxílio arquetípico efetivo e impulso para tirar da potência os atos que ainda aprisionam em estruturas titânicas de dominação, repressão, unilateralismo, literalismo e poder. É preciso liberar o presente para ser vivido aqui e agora e, somente a partir da experiência, imaginar outros futuros. Assim como também é preciso trazer à tona os tensionamentos, de modo a gerar revisões e subversões criativas a temas cristalizados, permitindo assim que o cotidiano seja renovado a partir de energias ainda não experimentadas e de motivações mais profundas e coesivas.

A poesia do trickster é sua destruição. Como Shiva, o terceiro deus de trimurte hindu, ele está sempre se dissolvendo, recomeçando e fluindo. No trickster, nada engessa ou cristaliza, tudo se movimenta e se revela num continuum que é a própria vida. Em resposta ao saber fálico e hierárquico das compreensões unilaterais, o arquétipo do trickster convida para outras, nem sempre novas, mas sempre renovadoras, perspectivas e olhares: eis a autorização de um saber que experimenta, inova, articula e regride, quando necessário, superando a insistência num saber que analisa, abstrai e teoriza e num pensar compulsivo e autorreferente, que atrofia as demais funções psíquicas da consciência. Cabe lembrar do “samurai malandro”, o poeta Paulo Leminski, que encarnou um trickster pulsante, na roupagem mista, mestiça e não polarizada de sua “tropicalidade-zen”. Ele que não excluiu nenhum dos opostos, muito menos fixou a consciência nos extremos radicalizantes que o ego impõe como visão de mundo. Esse poeta soube seguir “sem demagogia, com amor e humor, talento e lucidez […], abrindo caminhos na selva selvagem da linguagem, no repertório caótico de nossas cabeças cortadas […]”.

Captando o empobrecimento da vida interior do homem contemporâneo, Jung assevera que a readaptação da existência humana a novas demandas éticas e existenciais deve ser baseada em uma cosmovisão que restaure os símbolos genuínos do desenvolvimento humano, além de integrar e direcionar os fluxos da energia instintiva, superando os pressupostos teóricos que impõem uma compreensão unilateral do homem.

Sugere Leon Bonaventure, na introdução de As Conferências de Tavistock, que Carl Gustav Jung estava assentado sobre uma sólida tradição filosófica e mística, subvertendo o caminho da Psiquiatria convencional da explicação do normal pelo patológico e por outro lado afirmando uma Psicologia fundamentada pelo arquétipo do centro, baseada numa atitude fenomenológica de descrição das realidades fundamentais da alma humana e na experiência viva e empírica do processo de individuação. Bonaventure destaca ainda que Jung pode ser facilmente considerado como um continuador da tradição humanista de pensamento, aquela que é comprometida com o Mysterium Animae, o mistério da alma.

TRADIÇÃO SÓLIDA

Deve-se a inúmeros continuadores do pensamento de Jung a articulação da abordagem junguiana com os acontecimentos históricos e culturais do Brasil. Entre eles estão Roberto Gambini e Eliana Atihé, ambos em busca de compreender e afirmar que o cerne vivo de uma nação é seu manancial imaginário e o acervo simbólico ativo e dinâmico de sua cultura. Disso emerge a compreensão de que a consciência mítica não é um epifenômeno de representações sociais, mas sim a pedra angular de qualquer grupo social ou país. Resguardada como possibilidade de encontro com essa “alma do mundo” revitalizadora, a ressonância poética dos nossos símbolos genuínos e das imagens arquetípicas que eles figuram serve como fator de equilibração psicossocial e também como forças de reparação da alma de um povo, de um país, de um mundo.

Esses e outros pensadores ajudam na difícil missão de ressignificar a história para, ao colocar o “Brasil no divã” ou subverter as narrativas, despertar a alma individual para a reemergência de um modo mais integrado de conhecimento e experiência, em que razão e intuição dialoguem em favor da totalidade. Desse modo, buscando compreender os movimentos da alma brasileira em seus sofrimentos, conflitos e dificuldades, bem como suas alegrias e prazeres, com a sombra e a luz sempre entrelaçadas, espera-se ativar algumas das possibilidades criativas e prospectivas que encaminhem para a superação das contradições que imobilizam, no sentido de viver o paradoxo que verdadeiramente todos somos.

A irreverência do arquétipo do trickster revela um modo de evidenciar aquilo que poucos observam, criticando os valores, os radicalismos e excessos que impedem o estabelecimento de uma ordem moral, cultural e política que sirva, de fato, à união dos opostos com vista à totalidade e não à dissociação, ao conflito crônico e à desintegração, por outro lado propiciando a “libertação da consciência do fascínio do mal, não sendo mais obrigada a vivê-lo compulsivamente”.

Eis afinal o trickster como o arcano sem número do Tarot, inspirando dissoluções sem retorno, destruindo para possibilitar a reconstrução a partir de outras soluções e alternativas, apagando velhos caminhos e abrindo novos. O arquétipo da delação premiada, da indignação política, da reunião dos opostos aparentemente inconciliáveis, aquele que convoca, com sua astúcia, com sua inteligência não racional, com sua visão bilateral e com os esculachos que ridicularizam os poderosos de todas as lateralidades possíveis, a força para transformar e as oportunidades para ampliar a consciência, no sentido de integrar a sombra excluída que parasita a todos. Afinal, para o trickster, a mudança é só uma grande brincadeira.