EU ACHO …

LIMPAR A CENA?

Remover estátuas não resolve o problema. É preciso mover as ideias

O assassinato de George Floyd, em 25 de maio, por um policial branco em Minneapolis provocou grande comoção. Além dos Estados Unidos, as manifestações de rua contra o racismo espalharam-se mundo afora, em particular em cidades europeias em que as tensões étnico-raciais também existem, herança do passado colonial e da pobreza e desigualdade contemporâneos. Em meio aos protestos, estátuas de personagens históricos que promoveram ou simbolizaram o racismo e o colonialismo foram alvo das ruas em revolta.

Em Richmond, capital da Virgínia, o governador anunciou que retiraria a estátua do general Robert E. Lee depois que ela foi pichada. Lee foi um dos principais comandantes das tropas confederadas durante a Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), lutando pelo Sul escravista. A supressão dos símbolos confederados está na agenda pública dos EUA faz tempo.

Em 7 de junho, manifestantes derrubaram e jogaram no Rio Avon a estátua de Edward Colston, mercador de escravos do século XVII e grande benemérito da cidade de Bristol, na Inglaterra. Nos Estados Unidos, figuras de Cristóvão Colombo foram decapitadas ou pichadas. Em Antuérpia, Bélgica, a estátua de Leopoldo II, rei que liderou a exploração e massacres na África, em fins do século XIX, no chamado Congo Belga, foi alvo de ataques. Acabou recolhida pelo governo da cidade para ser restaurada, e não se pretende colocá-la de volta no lugar em que estava. À luz do conhecimento histórico e dos direitos humanos, e no contexto em que se deram, a supressão desses monumentos dos espaços públicos pode ser considerada um ato de justiça pleno de legitimidade. Mas nem sempre é assim tão pacífico o debate sobre memória, sociedade e patrimônio.

No Brasil, o assassinato de George Floyd e os protestos contra o racismo também repercutiram. Como as cidades brasileiras mantêm em suas ruas estátuas de personagens históricos que, como seus congêneres citados acima, representam sistemas de exploração humana e violência extrema, as discussões sobre a derrubada e ataques às estátuas ganhou espaço. Nas redes sociais, como sempre, encontrava-se de tudo, mas a reflexão de qualidade e respeitosa apareceu. Destaco as colocações de Laurentino Gomes e Cynara Menezes na web e, na televisão fechada, o debate na CNN Brasil entre o jornalista e escritor Oswaldo Faustino e o professor de Direito Constitucional e Internacional Ricardo Macau.

Um argumento defendido foi o de que as estátuas e monumentos controversos deveriam permanecer em exposição, pois registram uma história incômoda e podem ajudar a sociedade a repensá-la. Tirar as estátuas e manter antigas formas de pensar não seria muito transformador no fim das contas. Além disso, em alguns casos, há o valor artístico. E trata-se de patrimônio público. É possível dizer ainda que para alguns indivíduos e grupos o convívio com os monumentos faz com que surjam vínculos afetivos menos com as grandes narrativas e identidades que o monumento pretende expressar e mais com o cotidiano e a vida de cada um. Muita gente nem tem ideia de quem está sendo homenageado, inclusive. Em contraposição, ressaltou-se que a permanência de estátuas e monumentos que exaltam o racismo e a exploração reafirma uma versão da história que não mais se sustenta nem epistemológica nem eticamente. Por isso devem cair, como tem sido comum na história. Outro ponto importante foi a questão sobre a ação direta nas ruas. Ela tem legitimidade ou é preciso valer-se de outras formas para realizar a mudança cultural que parece demorar? E se as ruas forem tomadas por levas de ignorantes e intolerantes? No Brasil atual não tem sido algo raro. Parece que esse receio estava subjacente às análises que pediam uma certa prudência na ação.

As estátuas dos bandeirantes na cidade de São Paulo, em sua versão idealizada pelas classes dominantes no século XX, que colocam em posição subalterna, de uma só vez, indígenas, afrodescendentes e imigrantes, evidentemente foram lembradas. Faz tempo que essa representação foi demolida pela pesquisa histórica e pela crítica, mas as estátuas dos bandeirantes permanecem onde estão. Por que isso acontece? O que fazer com elas? O debate está aberto.

O professor Nabil Bonduki, em sua coluna na Folha de S. Paulo, lembrou que, quando exercia mandato de vereador, em 2001, apresentou um projeto de resolução para suprimir uma “referência ufanista aos bandeirantes e ultrajante aos índios”, que fica no mármore da parede externa da Câmara Municipal paulistana:”…São Paulo, a Vila de Anchieta e Nóbrega, (…) cresceu, expandiu-se à mercê dos aventurosos bandeirantes à busca do ouro, índios e diamantes, e dilatou as fronteiras da pátria”. O projeto foi vetado pela Comissão de Justiça do Legislativo sob o argumento de que uma homenagem do passado não podia ser revista a posteriori.

Em São Paulo, a relação da cidade com seus monumentos, estátuas e nomes de logradouros públicos que fazem referência a fatos e personagens históricos é tensa. A Rua do Rosário, onde ficava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída no século XVIII, tornou-se a Rua da Imperatriz na época do Império e, depois, XV de Novembro com a República. A própria igreja foi transferida de lugar no início do século XX, quando a região central foi elitizada. O Elevado Costa e Silva, sobrenome de um dos generais-ditadores, teve o nome alterado em 2016 para João Goulart, ecoando as comissões da verdade que aconteceram em 2014.

O monumento “Heróis da Travessia do Atlântico”, como o próprio site da Prefeitura de São Paulo indica, causou muita polêmica ao longo do tempo. Instalado em 1929 nas margens da Represa de Guarapiranga, foi transferido para a Praça Nossa Senhora do Brasil, área rica da cidade, pelo prefeito Jânio Quadros, quando este voltou a governar São Paulo nos anos 1980. Um movimento de moradores da Zona Sul da capital lutou pelo seu retorno ao lugar original. Foram bem-sucedidos em 2010. O monumento foi alvo de protestos ao longo do tempo, bem como de depredação e furto de suas partes, como geralmente ocorre na cidade com as obras de arte públicas.

Vê-se, então, mais uma vez, como o passado importa para o presente, e como estátuas, monumentos e nomes de logradouros públicos são instrumentos para essa relação acontecer nas cidades. Daí o porquê de serem tão perigosas as propostas obscurantistas que pretendem suprimir o ensino de história ou depredar as instituições públicas que lidam com a memória e o patrimônio. Com as eleições para vereadores e prefeitos a se aproximarem, urge que os candidatos apresentem suas propostas para a área da cultura, da memória e do patrimônio. A crítica às versões falsificadas ou simplificadoras da história faz-se com pesquisa de qualidade e, para isso, arquivos públicos organizados são fundamentais. Bibliotecas, museus e centros culturais auxiliam grupos sociais a dialogar, promovendo os valores democráticos, abrindo espaço para vozes silenciadas, como é o caso da população negra ou indígena. Secretarias de Cultura e conselhos podem ajudar os municípios a tratar a questão da memória de maneira sistémica e transformadora. Para mudar estátuas e ideias que não têm lugar em um mundo justo é preciso que você se movimente. Todos nós.

**JANES JORGE – Professor do Departamento de História da Unifesp

OUTROS OLHARES

A FESTA DAS BICICLETAS

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, quer que os cidadãos possam trabalhar, ir às compras ou passear sem usar carros ou transporte público e sem perder mais do que 15 minutos no percurso. O plano ganhou força após a pandemia

A imagem da Champs-Elysees, a mais famosa avenida de Paris, cheia de bicicletas para lá e para cá — não só aos domingos, mas durante a semana inteira — vem se tornando cada vez mais real. Especialmente depois da reeleição da socialista Anne Hidalgo para o cargo de prefeita, no final de junho. Seu ousado plano, avalizado pelos eleitores, inclui transformar a capital francesa em uma cidade de apenas 15 minutos. É o tempo considerado necessário no deslocamento para ir às compras, trabalhar ou passear. E tudo em cima de uma bicicleta, claro. O que antes era apenas um plano de sustentabilidade para combater o efeito estufa, ganha força agora diante da reabertura econômica no pós-pandemia, com a necessidade de distanciamento social e redução de aglomeração no transporte público.

Em seu primeiro mandato, iniciado em 2014, Anne conseguiu ampliar o número de ciclovias em 1.000 quilômetros, o que já permite atravessar a cidade intercalando trechos às margens do rio Sena, faixas em avenidas largas e também percursos em ruas mais estreitas. Tudo isso, inclusive, se mostrou muito útil durante a greve dos transportes em dezembro, e ganhou ainda mais relevância como solução de mobilidade por causa da Covid-19. Neste período, foram instaladas até mesmo faixas temporárias para as bikes que agora devem se tornar permanentes. Além disso, foi criada uma linha de empréstimo no valor de 400 euros (R$ 2,5 mil) para incentivar a aquisição de bicicletas elétricas, que custam mais de 1.000 euros. Mas Anne quer ir além. Planeja abrir espaços por todas as ruas da cidade, aptas a receber bicicletas, retirando 72% das vagas de estacionamento. Está nos planos ainda a redução da velocidade dos automóveis, ampliando a segurança dos ciclistas. A meta é trocar ruas engarrafadas por uma cidade onde se consegue circular de forma rápida, fácil e segura.

Segundo a cicloativista Renata Falzoni, o que Paris está fazendo é pensar efetivamente na mobilidade de uma grande cidade, onde mais de 60% das pessoas se movimentam de forma ativa, ou seja, a pé, bicicleta ou transporte público. Com o forte compromisso de tornar-se cada vez mais sustentável, vários países da Europa já buscam soluções para o transporte, o que inclui o incentivo ao uso da bicicleta. Depois da disseminação da Covid-19, as bikes ganharam um novo apelo e vem se firmando como a grande alternativa à lotação do transporte público. “Talvez a pandemia traga isso de bom para toda a sociedade”, afirma Falzoni, frisando que São Paulo poderia também levar isso em consideração. “Aqui, toda vez que se pensa em transporte, se concentram no carro, que é usado por uma minoria”, acrescenta.

Ao que tudo indica, a própria sociedade já está começando a se mexer nesse sentido, mesmo sem decisão do poder público. Um site de compra e venda de bicicletas e acessórios para ciclistas, o Semexe, disse recentemente que viu seu faturamento surpreendentemente subir 223% entre março e maio deste ano. A pandemia teria levado muitas pessoas a buscar os produtos como forma de fugir do transporte público e, ao mesmo tempo, praticar exercícios físicos de forma mais segura. A Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), que reúne empresas e membros da sociedade, lançou até um manifesto pedindo que haja ampliação de ciclovias, redução de impostos sobre bicicletas, além de criar um programa de fortalecimento da economia verde. Talvez seja este o melhor momento, antes de uma eleição municipal, para que gestores percebam que está na hora de mudar o foco na questão da mobilidade, incluindo de vez as bicicletas nos planos de transporte e mobilidade urbana. Seguir o exemplo de Paris pode ser interessante para qualquer grande cidade do mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE JULHO

SUANDO SANGUE NO GETSÊMANI

… E aconteceu que seu suor se tornou como gotas de sangue… (Lucas 22.44b).

Jesus travou a mais sangrenta batalha da humanidade no jardim do Getsêmani. Os horrores do inferno bafejavam a alma do Filho de Deus. Prostrado com o rosto em terra, Jesus orou três vezes, enfrentando uma angústia de morte. Seus discípulos dormiam enquanto Jesus erguia aos céus seu clamor regado de lágrimas. Naquela fatídica noite, as autoridades judaicas tramavam contra Jesus, urdindo planos recheados de mentira e violência, enquanto ele suava sangue no Getsêmani. Capitaneados por Judas Iscariotes, soldados do templo armados até os dentes entraram no jardim para prender Jesus, mas este, consolado pelo anjo e fortalecido pelo Pai, se entregou nas mãos dos pecadores. Foi esbordoado, cuspido e ultrajado, mas caminhou para a cruz como um rei caminha para a coroação. A angústia de Jesus não era por temer o sofrimento físico, mas por saber que, na cruz, assumiria o nosso lugar, carregaria em seu corpo os nossos pecados e seria feito maldição para nos resgatar do pecado e da morte. Jesus não foi à cruz porque Judas o traiu gananciosamente, nem porque os judeus o entregaram invejosamente, nem mesmo porque Pilatos o sentenciou covardemente. Foi à cruz por amor, voluntariamente. A cruz não foi a causa do amor de Deus por nós, mas sua prova mais eloquente!

GESTÃO E CARREIRA

APPS EM XEQUE

A pandemia da covid-19 expõe a fragilidade da relação entre entregadores e plataformas de delivery. Manifestações pressionam por regulamentação

Há quatro anos, quando começou a prestar serviços para aplicativos de delivery, o moto frentista Rosalvo Brito de Fonte, de 42 anos, afirma que ganhava, em média, 1.300 reais por semana, trabalhando diariamente das 7 às 18 horas, com uma pausa no horário do almoço. Porém, desde o início da pandemia da covid-19, o entregador paulista teve de aumentar sua jornada de trabalho – mas passou a ganhar menos. Segundo ele, o motivo foi o bloqueio, sem justificativa, por parte da Loggi, uma das empresas com a qual trabalhava. “Era a que proporcionava a maior renda. Hoje, trabalho até as 23 horas e, mesmo assim, não consigo fazer mais de 800 reais por semana”, diz. Trabalhar mais e ganhar cada vez menos se tornou uma realidade para diversos entregadores de aplicativos durante o surto de coronavírus. Isso porque, embora as medidas de isolamento social tenham elevado a demanda por delivery – de acordo com declarações da Rappi, o número de pedidos aumentou 30% durante a quarentena -, isso não se traduziu em maior renda para os trabalhadores dessas plataformas.

Segundo uma pesquisa da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizada com 298 entregadores das cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Curitiba, entre os dias 13 e 27 de abril, 59% deles tiveram queda nos ganhos durante a pandemia. O estudo ainda mostrou que 62% dos entregadores passaram a trabalhar mais de nove horas por dia – antes da crise sanitária esse percentual era de 57%.

A combinação dessas questões com o maior risco de contaminação pelo coronavírus – uma vez que as entregas foram classificadas como serviço essencial, mas há reclamações quanto à falta de kits de higiene, como máscaras e álcool em gel – expôs (mais uma vez) a fragilidade da relação entre os trabalhadores de plataformas digitais e as startups de delivery. Como resultado, diversas manifestações de ciclistas e motoqueiros começaram a acontecer país afora. Uma das maiores ocorreu no dia 1 de julho, quando os entregadores de aplicativos corno iFood, Rappi, Uber Eats, Loggi e James Delivery marcaram urna paralisação nacional reivindicando aumento no pagamento das corridas e maior distribuição de equipamentos de proteção individual (EPIs). Houve protestos em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Salvador e Recife.

MAIS CORRIDAS E MAIS ACIDENTES

Entre as justificativas para a diminuição do valor pago aos motociclistas, mesmo fazendo mais entregas, está o aumento no número de pessoas desempregadas que recorreram às plataformas para sobreviver durante a crise.

Dados consolidados pela consultoria Análise Econômica mostram que, do total de trabalhadores informais no Brasil, os que prestam serviço para aplicativos de entrega de refeições saltaram de 250.000 pessoas em 2019 para mais de 645.000 em junho de 2020. Um crescimento de, aproximadamente, 158%. De acordo com Franklin Lacerda, diretor da consultoria Análise Econômica, existe um conjunto de fatores que explicam por que essas plataformas se tornaram uma alternativa em meio ao desemprego. “Porém, o principal é que se trata de uma opção que conta com um investimento inicial baixo e é acessível para um grupo cada vez maior”, afirma Franklin.

Embora não existam dados sobre a quantidade de entregadores contaminados e mortos pela covicl-19, uma das consequências do aumento no volume de pedidos e de moto frentistas circulando é visível: mais acidentes. Segundo informações do governo de São Paulo, entre abril e maio de 2020, 39 motoboys morreram durante o trabalho. O número é quase o dobro dos registrados no mesmo período de 2019 e de 2018, quando 21 e 22 vieram a óbito, respectivamente. “O aumento dos acidentes é reflexo da falta de capacitação dos entregadores”, diz Edgar Francisco da Silva, presidente da Associação Brasileira dos Moto frentistas (AMABR). Ele salienta que, embora algumas cidades, como São Paulo, tenham legislações que regulamentam a profissão de moto frentista, com uma série de exigências (como a realização de cursos, autorizações municipais e uso de equipamentos de segurança), os aplicativos vêm cadastrando há algum tempo profissionais que não são regulamentados.

A falta de legislação, seja quanto aos profissionais, seja quanto à relação entre os entregadores e as startups de entrega, é um problema que volta e meia vem à tona desde o surgimento das empresas da chamada gig economy, ou economia dos bicos. As primeiras startups do tipo surgiram com a crise de 2008, nos Estados Unidos e entraram com mais força no mercado brasileiro em 2014. “Os perigos relacionados à pandemia, como o risco de contágio e a falta de assistência por parte das empresas, são apenas problemas mais visíveis de uma relação trabalhista que já nasceu desigual. A lógica dessas plataformas é diminuir o custo da operação e, para isso, elas pressionam a empresa parceira e o entregador, que tem menor poder de negociação”, afirma o economista Wilson Aparecido Costa de Amorim, professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP).

E a falta de clareza começa na forma como os entregadores são remunerados pelas plataformas. “Não consigo precisar sequer quanto recebo de cada aplicativo, porque não existe transparência sobre nossos direitos e deveres. Quando os contratos são atualizados, muitos assinam sem sequer ler as regras, porque precisam continuar recebendo pedidos”, explica Edgar, da AMABR.

O OUTRO LADO

Procurada, a Rappi respondeu, em nota, que passou a oferecer seguro de vida e a distribuir, semanalmente, máscaras e álcool em gel para os entregadores. A empresa colombiana também afirmou que disponibilizou um botão para que os trabalhadores notifiquem sintomas da covid-19 e, em caso de confirmação do diagnóstico, recebam orientações. Segundo a nota, a Rappi criou um fundo que apoiará financeiramente os entregadores que tiverem de parar de trabalhar por causa do coronavírus. A startup afirmou também que, entre fevereiro e junho de 2020, a empresa identificou um aumento de 238% no valor médio das gorjetas e que as quantias pagas são integralmente repassadas aos trabalhadores.

Já o iFood, também em nota, afirmou que atendeu quase todas as reivindicações do movimento dos entregadores. Entre as ações, a startup citou que, desde o final de 2019, oferece aos trabalhadores o seguro de acidentes pessoais, cobrindo desde despesas médicas e odontológicas até uma garantia financeira para a família em caso de acidente. A companhia também disse que não houve alteração dos valores pagos pelas entregas durante a pandemia e que a startup se baseia em fatores como distância, cidade e modalidade da entrega para definir os preços. Hoje, segundo a empresa, toda rota tem uma taxa mínima de entrega de 5 reais, porém a média é de 8 ou 9 reais. No próprio aplicativo, ainda de acordo com o iFood, os entregadores podem conferir o valor de cada serviço antes de aceitar o chamado.

O iFood também explicou que destinou mais de 25 milhões de reais a iniciativas voltadas para os ciclistas e moto frentistas e que, desde o início da pandemia, distribuiu mais de 800.000 itens, como máscaras reutilizáveis e álcool em gel. A empresa reconheceu que poderia melhorar a distribuição dos kits de higiene e, por isso, desde o dia 1° de julho paga aos entregadores 30 reais para que adquiram materiais de proteção.

O iFood ainda salientou que disponibilizou gratuitamente um plano de benefícios em serviços de saúde da empresa Avus, aumentou o valor das gorjetas, repassadas integralmente aos entregadores, e, além disso, desenvolveu a modalidade de entrega sem contato.

A startup negou que tenha um sistema de pontuação dos entregadores, reafirmou que possui regras claras de desativação de cadastros e que os processos não são revisados de forma automática. A Loggi e o Uber Eats não quiseram falar com a reportagem.

FALTAM LEIS, SOBRAM EMBATES

As manifestações dos entregadores acontecerem justamente durante a pandemia do coronavírus não é sem razão. Isso porque a crise da covicl-19 evidenciou como nunca as desigualdades e a responsabilidade social das organizações e colocou a manutenção dos negócios em embate direto com a preocupação com as pessoas. “Certamente, ainda há muito o que se discutir sobre a atuação das empresas do setor de tecnologia no Brasil e no mundo. A pandemia da covid-19 apenas acelerou esse processo, por causa da adoção em massa dos aplicativos”, afirma Franklin, da Análise Econômica. É inegável que as plataformas como Uber, Rappi e iFood já mudaram totalmente os hábitos de consumo de milhares de pessoas e vieram para ficar – principalmente por atacarem nichos carentes em eficiência. Para que o setor seja sustentável, trabalhadores e startups terão que se acertar. E talvez só a demanda social ajude a fazer isso, como explica Fábio Mariano Borges, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Hoje em dia, a maior parte desses trabalhadores é entendida, juridicamente, como profissionais autônomos e está desassistida pela legislação”, explica. “A pressão da sociedade é fundamental para uma equiparação de direitos entre os entregadores e as empresas.”

QUEM SÃO OS ENTREGADORES

Conheça o perfil e o dia a dia dos trabalhadores que atuam junto às plataformas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRANHEZA E COMPAIXÃO

Border é um filme que une conteúdo e diversos gêneros ao mesmo tempo. Apresenta personagens estranhos com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense

O filme implacavelmente expõe o que é o medonho, o terror. Quem atua no roubo e na mutilação de bebês e crianças? Homens ou monstros? Seriam o ódio e o rancor dos que foram excluídos da sociedade e da humanidade, dos que sofrem impiedosamente a falta de respeito, bem como dos que perderam o amor e o reconhecimento, e daqueles que foram e são tratados sem nenhuma compaixão, explorados até a última gota de sangue que engendram o mal? Ou simplesmente, sem motivo algum, a pulsão de destruição surge e toma conta dos homens? Seja como for, por sofrimento e/ou por gosto, não nos enganemos, pois ambos anunciam com imenso gozo destrutivo o fim do mundo, o eterno fim da nossa civilização. Border, a fronteira entre vida e morte, entre amor e destruição, entre bem e mal. O embrião do fim do mundo foi anunciado, não sabemos como exatamente identificar de onde surge o aniquilamento e como sepropaga, mas não podemos negá-1o. É preciso investigar, conhecer o mal e lutar até dizimá-lo.

A protagonista Tina trabalha como policial nas docas de Estocolmo. É guarda de fronteira, tem como atribuição fiscalizar bagagens e passageiros. Sua aparência é estranha, principalmente pelos traços grosseiros, que muitas vezes torna indistinguível a diferenciação entre os gêneros. Atingida por um raio na infância – reza a lenda familiar -, desenvolveu uma espécie de sexto sentido, que a torna capaz de “ler as pessoas”, e de detectar mentiras apenas pelo olhar e pelo olfato – o que sempre representa vantagem na sua profissão. Suas suspeitas se mostram invariavelmente corretas após a investigação.

Até que Tina identifica um criminoso em potencial, mas não consegue achar provas para justificar sua intuição e passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada pelo suspeito. Ela precisa descobrir qual o segredo de Vore. Inexplicavelmente, ambos possuem características fisionômicas semelhantes e que causam estranheza. A câmera, próxima dos personagens, percorre ângulos incomuns e revela lentamente aspectos um pouco animal dos protagonistas que lembram os extintos neanderthais.

DOLOROSA CAMINHADA

A investigação de Tina resulta em uma jornada, um caminho de descoberta de si mesma, autoconhecimento, e também de Vore. Dolorosa e curiosa caminhada rumo a segredos e verdades – a exemplo do trabalho analítico -, na qual a policial se fortalece no processo de investigação e, ao mesmo tempo, se torna mais empática aos sofrimentos humanos. No interior dessa trama há ainda outra em curso, paralela, da qual Tina é peça fundamental. Trata-se de desvendar uma possível quadrilha de vendedores e/ou abusadores sexuais de crianças e bebés. O prodigioso faro da guarda de fronteiras é recurso fundamental para apanhar os criminosos e descobrir como os crimes são realizados.

Border é um filme que une conteúdo e forma de maneira exemplar. Somos apresentados a   personagens estranhos, quase que deformados, com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense. Aparentemente, o único prazer de Tina é “farejar” os maus elementos e os segredos que passam pela fiscalização de passageiros e bagagens. Tina parece ser, em muitos momentos, fria, distante e indiferente. Do tipo que cumpre suas obrigações com rigor, mas nada sente. Poderíamos dizer dela o mesmo que Freud disse, há mais de um século, das histéricas “belas indiferentes”. Entretanto, beleza não é a palavra para designar as rudes feições da policial.

No início da trama somos apresentados à sua vida doméstica. Um marido autocentrado, preocupado apenas com seus cachorros e prazeres. A relação entre eles é de falsa intimidade. Nenhuma atração ou sexo. É como se Tina tivesse desistido de querer, desejar, amar, e estivesse conformada com as agressões e solidão a dois. A casa mal cuidada, quase suja, precária, transmite sensação incômoda de abandono e falta de amor. É, por sinal, a mesma sensação que temos quando a câmera a escrutina: abandono. Além da feiura evidente, há estranheza. Faltam peças. Algo não se encaixa. Sobra mistério. Há também o pai, vivendo num asilo, de quem ela cuida com carinho ainda que com certa formalidade.

Ao longo do filme descobrimos que ela foi adotada. E Tina irá também buscar a verdade sobre sua adoção. A mentira sobre seu nascimento e adoção nunca havia sido questionada.

POTENCIAL DE PRAZER

Border narra um o percurso que vai do conformismo desafetado à autonomia e responsabilidade pela própria vida. A transformação da guarda de fronteiras se dá na relação com Vore. Desse encontro sexual e amoroso – do qual ela continua intrigada – surgem amor-próprio, autoconfiança e um saudável questionamento sobre sua origem familiar. Erotismo e paladar se desenvolvem lado a lado. Um mundo novo se revela. Tina parece estar feliz e se sentir livre pela primeira vez. Ela se delicia com as texturas do corpo, com as potencialidades de prazer que a vida erótica proporciona, com a descoberta de novos alimentos e com a integração à natureza, como se voltasse ao habitat natural. Tina desabrocha, apodera-se de seu desejo e dispensa o antigo relacionamento.

O encontro amoroso com um novo parceiro é, antes, um encontro com si mesma. Desse encontro surge o descobrimento de suas capacidades, independência e autonomia. A apropriação erótica do corpo á leva a uma posição mais ativa no mundo. O repertório pessoal da personagem se expande. A repressão afrouxada provoca novos questionamentos. O filme pode ser visto como metáfora do trabalho psicanalítico. Quanto mais nos conhecemos, mais fortes e livres nos tornamos, e também mais capazes de incomodar e de questionar o status quo. Esse é o movimento de Tina que o diretor nos convida a acompanhar de perto com deslumbre e emoção.

Observa-se, também, o movimento natural dos amantes em direção ao isolamento, decorrente da fantasia universal dos apaixonados que subjaz na crença infantil de serem feitos de matéria especial, diferentes dos demais da espécie humana. Feitos um para o outro, somente. A fusão os torna especiais. Os amantes vivem nas bordas da realidade, são únicos. Tal estado de apaixonamento é descrito por Freud ao tratar do narcisismo. Border, qual a fronteira do amor? Quem amamos quando amamos alguém? O amor ao outro é também amor a si mesmo. Border, na paixão, o eu e o outro se confundem.

Sustentar as próprias verdades tem voz e autonomia, percorrer caminho paralelo com a investigação edípica. Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou? Que família é essa? Pertenço ou não pertenço ao meu grupo? Perguntas que crianças e adultos saudáveis se fazem durante a existência sem ter necessariamente respostas. Tina foi adotada e quer respostas sobre suaorigem, sobre as marcas em seu corpo e sobre as diferenças entre ela e sua família, diferenças que antes passavam despercebidas pois eram negadas.

A curiosidade da policial também se dirige ao amante e à estranheza excitante que ela causa. Ele tem muito a ensinar e algo a dizer.

SEGUEIRA PULSIONAL

Haverá uma revelação inquietante e assustadora no fim do filme. O mistério é a emoção que impregna Border do começo ao fim. A presença de Vore potencializa o mistério. Homem feio, transgressor, que vive de acordo com suas próprias regras, muito diferente de Tina. E que a leva às perguntas fundamentais nos relacionamentos: Quem é você/ O que quer de mim? São os eternos questionamentos, ainda que inconscientes, sobre nossos primeiros vínculos de amor. Procuramos desvendar o enigma de nossos pais ou o pensamento sucumbe. Caso a capacidade de pensar e perguntar não seja solapada, o impulso para o conhecimento, a curiosidade da criança pequena sobre seus pais e sobre a sexualidade poderão se transferir por amplos aspectos de sua vida. Ou não, a depender dos processos de familiarização e da dor originada em tais processos. O processo de familiarização, de aculturação a que todos somos submetidos desde o nascimento é sempre estranho, violento e bizarro. Implica em cegueira, renúncia e restrição às forças pulsionais. De fato, nascemos num “hospício” e aprendemos suas regras. Tais regras se assemelham a muitas normas culturais que nos rodeiam. Para uma boa parte dos humanos o mundo parece como dado e não pode ser questionado, é assim e pronto. Alguns percebem o “hospício” dos outros. Sempre é mais fácil ver a loucura das regras familiares e culturais fora de nós. Dessa forma, Tina sofreu, como todos nós, uma espécie de “lavagem cerebral” até se tornar mulher adulta, filha carinhosa e esposa submissa. Tal “lavagem” irremediavelmente, todos sofremos, desde o nascimento, pois em nosso desamparo inicial dependemos inteiramente do outro para nos apresentar à viela e o mundo. Border, na fronteira entre instinto animal e pulsão. Entre ser e não ser.

Em relação à forma, o filme rompe com os tradicionais gêneros cinematográficos por reunir quase todos os gêneros ao mesmo tempo. Drama, tragédia, comédia, suspense, policial, terror, jornada, autoconhecimento, erotismo e sexualidade. São infinitas as possibilidades de leitura, de camadas de sentido sobrepostas, compostas, condensadas e justapostas que o jovem diretor, Ali Abassi, é capaz de produzir em quase todas as cenas. Além da permanente sensação de estranhamento ao transitar entre a fantasias, o realismo fantástico e o realismo sem se fixar em uma categoria. Border, na fronteira dos vários gêneros consagrados pelo cinema.

CATEGORIA INQUALIFICÁVEL

Já assistimos a filmes sobre monstros, sobre frankensteins, vampiros, zumbis, king kongs ou até mesmo filmes com heróis mais disformes e indefesos como O Corcunda de Notre Dame. Border, embora traga ali o de monstruoso e incômodo pela feiura e esquisitice de seus personagens, vai além. Os personagens principais são inqualificáveis, não há categoria para eles, assim como não há categoria para o próprio filme. Não fica difícil estender o mesmo raciocínio para todos nós. Basta olhar de perto, da forma como a câmera faz. Como os psicanalistas fazem diariamente em seus consultórios, para saber que cada ser humano é uma categoria inqualificável, insubstituível, única, singular. Somos mistura, sempre estranha aos outros, de tantas qualidades, características, histórias, dores, detalhes e em constante metamorfose. E Abassi insiste em nos mostrar de perto tais características e suas transformações. Como se apelasse ao público pelo reconhecimento de humanidade naquilo que é quase não humano. E. dessa maneira, provoca um jogo sagaz de identificação e desidentificação no espectador. Viver e ser diferente da norma. Border subverte padrões de comportamento, gênero, biologia e sexualidade em cenas que, algumas vezes, até causam certa aversão.

Ao assistir Border nos permitimos a feiura, vestimos a pele do bizarro e experimentamos como  vivem os que sofrem por preconceitos em nossa sociedade: homossexuais, obesos, transgêneros,  miseráveis, negros, orientais, hermafroditas, refugiados – todos aqueles que são diariamente excluídos e aviltados, para quem não há compaixão. O filme também nos desperta para inquietante questionamento sobre fronteiras. Qual a distância, se é que existe, entre humano e animal? Entre feroz e terno? Homem e mulher? Fronteiras móveis questionam padrões. Border expõe muitas fronteiras pouco delimitadas. O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam, principalmente, sobre nós, os humanos. Essa espécie em cuja fragilidade e ignomínia Border lança luz.

O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam. Principalmente, sobre nós, os humanos.

Tina: eu não vejo razão no mal.

Vore: então, você quer ser humana?

Tina: eu não quero machucar ninguém.

É humano pensar assim?

Essa espécie cuja fragilidade e ignomínia “Border” lança luz. Como se perguntasse, implacavelmente, e com argumentos, o que é o belo? O que é humano? Como e onde encontrar o amor e, afinal, é possível o amor permanecer, resistir, mesmo com tanto sofrimento e brutalidade?  A personagem Tina tem a resposta, e é redentora. Não será possível julgá-la pela aparência o amor é sua maior beleza, como é também o esforço que a humanidade faz, diariamente, para perpetuar a vida.

AUTOACUSAÇÕES

No ensaio O Mal-estar da Civilização, Freud (1929) afirmava que o progresso civilizatório e tecnológico exigia alto preço do indivíduo. Cobrava renunciar à sexualidade e, principalmente, à agressividade – como esforço necessário ao desenvolvimento civilizador. Um dos caminhos apontados para dar continuidade à civilização seria formado pela internalização da força agressiva, voltada para dentro, que agrediria o eu, em forma de autoacusações inconscientes, no lugar de se lançar contra o outro, para fora. O preço a pagar na tentativa de evitar a destruição dos homens e da sociedade, era se tornar refém do sentimento de culpa inconsciente e, portanto, de constante mal-estar, ambos impeditivos da fruição da felicidade.

Freud deixou para os futuros psicanalistas o questionamento relativo aos sofrimentos que surgiriam no futuro pelo fato de a civilização – em constante transformação – impor de maneira permanente ao homem múltiplas coerções pulsionais, estilos de vida e diferentes formas de pensar e adoecer. Embora, ao destacar a pulsão de morte, força destruidora por excelência, o psicanalista tenha se tornado um tanto cético e desalentado. Afinal, civilizações nascem e morrem, em geral, por conta própria, por medidas, ações e escolhas que as mesmas fazem – nem sempre um inimigo é a causada destruição.

 O mal-estar, o sofrimento e a destruição estão presentes em todas as formas de cultura, não apenas na civilização judaico-cristã. Em cada cultura adquirem características peculiares. Na nossa, em função de sua impermanência e movimentação, o mal-estar costuma ser acompanhado por questionamentos. A maior qualidade de nossa cultura é a liberdade de poder questionar seus limites, de interrogar os processos que nos fazem ser como somos, a ponto de expor, até os últimos limites a construção, o absurdo e a farsa que é ser humano.

Border, o filme, ao entrelaçar expressões culturais, sofrimentos individuais, manifestações sociais e produções artísticas, responde de quais maneiras o mal-estar, a força de destruição e o sofrimento estão presentes no homem, nas artes e na sociedade neste início de século XXI. A compaixão pode atravessar as fronteiras e, quem sabe, possibilitar a permanência da nossa civilização. No momento, desconhecemos o desfecho.

LUCIANA SADDI – é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica, Coordenadora do Ciclo de Cinema e Psicanálise: “Mal-estar na Civilização e Sofrimentos Contemporâneos”, no Museu da Imagem e do Som (MIS), com apoio da Folha de S. Paulo.

EU ACHO …

WWW.ATUALIZAR.COM

A pandemia tornou mais urgente se manter antenado na tecnologia

Imaginem. Eu sou da época da máquina de escrever. Datilografava página por página. Tec, tec, tec. Já não era novinho quando surgiu o computador doméstico. Foi fantástico – os vizinhos não reclamavam mais quando eu escrevia à noite. Eu sei. A vida sem internet parece inacreditável hoje. Juro: já existiu um mundo sem internet e nem faz tanto tempo assim. Os primeiros celulares pareciam tijolos. Se caíssem no pé, podiam machucar. Durante a maior parte do tempo, eles nem davam linha. Hoje, viver sem um celular parece impossível.

A pandemia tornou a tecnologia mais obrigatória que nunca. Tenho de aprender aquilo que nunca pensei em saber. Reunião por Zoom, por exemplo. Ou Google Meet. São programas de videoconferência. É assim que se realizam as reuniões de trabalho atualmente. Fui fazer uma por Zoom. Tudo parecia muito simples. Enviaram um link, que acessei. Em um instante, eu estava cercado por autores e diretores. Vi o rostinho de todos eles. Mas de mim só apareciam as orelhas. Tentei erguer a cadeira. Estava quebrada, é obvio. Cadeiras sempre quebram nessas horas. Corri pegar quatro almofadas e me equilibrei precariamente. Meu rosto apareceu na tela. Verde. Um diretor disse para eu apagar a luz atrás de mim. Apaguei, voltei ao normal e fiquei no escuro como uma coruja. Foi somente a primeira reunião. Tornou-se normal. Estou revendo meu inglês e francês, em aulas semanais por Zoom. Já tive sessão de terapia através de um programa médico, no qual o profissional armazena meus dados. Ainda me assusto com a inteligência artificial. Outro dia recebi dois anexos pelo meu Gmail. Respondi: “Obrigado pelos anexos”. Imediatamente, o computador reclamou: “Você esqueceu de adicionar os dois anexos”. Tive a impressão de que estava sendo espionado! Se quero enviar e-mail para alguém, a inteligência acrescenta dois ou três nomes, para quem já enviei mensagem antes. Se me distraio, vai um texto íntimo para a pessoa errada! Meu celular, de repente, liga para alguém. Às vezes, uma pessoa que não vejo há muito tempo. Tenho de explicar que foi erro, mas que bom voltar a se falar etc., etc.

Há peças de teatro apresentadas pelo Instagram. É uma outra linguagem! Todos os dias boto um aplicativo de meditação e relaxo, aprendendo a respirar, descansando… Já escolhi um aplicativo de ioga, para fazer pelo celular. Mas ainda estou ensaiando começar… E cada vez há mais um novo aplicativo para desvendar, uma plataforma para conhecer. Eu, que cheguei a ter aula de caligrafia com caneta tinteiro, vejam só! Tenho uma jaqueira no quintal. Esta semana vou preparar carne de jaca. É só procurar na internet. Tranquilo. Em outros tempos, onde aprenderia?

Às vezes, acho que não sou mais um indivíduo, e que me tornei um aplicativo. Estou em upload, em contínua transferência de dados. Vivo em modo de atualização. Aceitei esse novo jeito de viver. Este admirável mundo novo já se incorporou à minha rotina diária. As novidades de hoje serão passado amanhã. O mundo acelerou tecnologicamente. Eu e você também temos de seguir o ritmo.

** WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

APERTEM OS CINTOS…O PILOTO SUMIU

O avanço tecnológico dos automóveis depende mais do que nunca dos gigantes da tecnologia – já não é o jogo das montadoras tradicionais

Em 2009, naquele outro mundo no qual vivíamos, o Google provocou espanto ao anunciar que estava desenvolvendo em seu quartel-general no Vale do Silício, na Califórnia, um veículo de passeio cuja principal característica seria a capacidade de percorrer “sozinho” ruas e avenidas bem sinalizadas.

Desde então, a corrida para saber quem apresentaria o primeiro carro autônomo de uso maciço ganhou mais participantes, vindos tanto da indústria automotiva tradicional, naturalmente, quanto do inovador setor de tecnologia. Um desses novos personagens, o histriônico sul-africano Elon Musk, dono da montadora de veículos elétricos Tesla, disse na semana passada ter tomado a dianteira da disputa. “Estou confiante, teremos a funcionalidade básica do nível 5 de autonomia ainda neste ano”, afirmou o visionário, também orgulhoso proprietário da SpaceX, empresa que há dois meses fez o primeiro voo privado com tripulação da história da exploração espacial. “Temos de solucionar apenas alguns problemas e, não são desafios fundamentais.”

O tal “nível 5 de autonomia” a que se refere Musk é quase uma senha, um abre-te sésamo para um portal de vastas possibilidades – é o estágio no qual o computador de bordo consegue conduzir o carro em todas as situações possíveis, dispensando a necessidade de um motorista “de plantão”. O padrão foi estabelecido por uma entidade internacional, a Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE), que criou um código de fácil compreensão para o público identificar o avanço tecnológico de cada automóvel, de zero a cinco. O nível zero seria aquele carro totalmente analógico, sem assistência computadorizada alguma, no qual o motorista deve manter o controle do veículo a todo o momento – atualmente, no mercado existem modelos mais sofisticados, caso dos sedãs de luxo Audi e Mercedes-Benz (e dos Tesla, claro), equipados com tecnologia de nível 3.

A aposta de Musk, portanto, é corajosa ao antecipar o futuro para hoje. As principais consultorias apontavam a chegada ao patamar máximo de automação apenas em 2050. Mesmo que tenha de fato a tecnologia a sua disposição, dificilmente a Tesla deve liberá­la em breve. Afinal, é necessária a homologação da novidade por parte das autoridades de trânsito de cada país. E, neste caso, no qual a inovação terá em mãos a segurança de vidas humanas, a burocracia é obrigatória.

Os projetos de carros sem motoristas pareciam fadados à gaveta das principais montadoras globais. A recessão e econômica provocada pela pandemia trouxe incerteza até mesmo para os grandes conglomerados do setor. Por essa razão, hoje, mais do que nunca, o avanço desse tipo de tecnologia, que soa supérflua entre tantas necessidades mais urgentes, depende das empresas que não tiveram de queimar (tanto) caixa para sobreviver. É o caso do pioneiro Google, sem dúvida, mas também da Amazon. A companhia de Jeff Bezos anunciou no fim de junho a compra da startup de mobilidade Zoox, cujo principal atrativo é seu protótipo de automóvel sem motorista –   a Amazon também se tornou sócia da Rivian, uma montadora de picapes movidas a bateria. Elon Musk, fanfarrão como sempre, fez uma provocação ao rival Bezos, chamando-o de “copycat” (algo como imitador, em tradução livre do inglês). Mas há algo que a maior varejista do mundo domina como ninguém, a logística, e por isso a compra da Zoox chamou atenção: ela pode significar atalho para a chamada “última milha”, o trajeto final de uma encomenda ao endereço do cliente.

Saber a hora de entrar em um novo negócio, mesmo quando parece ser prematuro, e um tantinho futurista demais, é segredo do sucesso de grandes companhias. Foi o que aconteceu com a IBM nos anos 1990 e com o próprio Google, o precursor dos automóveis sem motorista, depois do estouro da bolha da internet, em 2000. Não é à toa, portanto, que o valor de mercado da Tesla tenha subido tanto nos últimos tempos. As ações da fábtica de carros elétricos de Musk superaram a casa dos 1.200 dólares no mês passado – elas valiam cerca de 200 em maio de 2019. Tal valorização fez a companhia superar em valor de mercado a Toyota, a maior montadora do planeta, que põe todo ano nas ruas cerca de 10 milhões de novos carros, capacidade de produção 27 vezes superior à da Tesla. Muitas vezes a movimentação do mercado é exagerada, há recuos, mas o interesse pelos automóveis sem seres humanos ao volante parece ser irreversível.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE JULHO

UM PAI QUE ORA PELOS FILHOS

… chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles… (Jó 1.5b).

Jó era o homem mais rico do Oriente. Tinha uma agenda disputada, mas encontrava tempo para orar pelos filhos, que eram alvo de suas petições toda madrugada. Jó sabia que sucesso financeiro sem vida com Deus é fracasso consumado. Jó entendia que riqueza terrena sem salvação é pobreza. Os filhos de Jó eram ricos, mas isso não era tudo. Eles precisavam da graça de Deus. Ainda hoje nós precisamos de pais que encontrem tempo para orarem pelos filhos. Pais convertidos aos filhos. Pais que não provoquem os filhos à ira nem os deixem desanimados. Pais que criem seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor. Precisamos de pais que ensinem os filhos no caminho, e não apenas o caminho. Pais que amem a Deus e inculquem as verdades eternas na mente dos filhos. Precisamos de pais que sejam reparadores de brechas, intercessores fervorosos, e que não abram mão de seus filhos. Precisamos de pais parecidos com Jó, que orem pelos filhos e sejam exemplo para eles; pais que cultivem a amizade entre os filhos e os apresentem a Deus.

GESTÃO E CARREIRA

A TRANSFORMAÇÃO DOS ESCRITÓRIOS

À espera da volta dos funcionários, empresas mudam instalações para atender recomendações de saúde e se preparam para nova dinâmica de trabalho pós-pandemia

A chegada do coronavírus abalou não só a saúde das pessoas, mas chacoalhou todas as certezas econômicas e a rotina profissional. A pandemia acelerou mudanças que vinham sendo anunciadas, mas que nunca se concretizavam, especialmente sobre o trabalho remoto. Mas o que era impensável antes, agora se tornou realidade. Empresas gigantes que resistiam em colocar funcionários trabalhando à distância descobriram, na marra, que a solução emergencial se mostrou mais eficiente do que se pensava. Por isso, muitas companhias já anunciam que vão estender o home office até o final do ano ou indefinidamente. Uma decisão que já começa a ter impacto no mercado imobiliário, revertendo a tendência anterior de residências pequenas e escritórios grandes. Cada vez mais especialistas dizem que as pessoas vão optar por espaços mais confortáveis em casa e os escritórios se tornarão lugares mais colaborativos para troca de experiências e informações, em moldes parecidos aos dos coworkings popularizados pelas startups.

Há duas palavras-chave no mercado neste momento: flexibilidade e cautela. Assim, o funcionário, junto com o empregador, pode decidir ficar em casa ou no escritório, ou parcialmente em cada um desses locais, dependendo das demandas. “Estamos trabalhado com várias possibilidades e ouvimos os funcionários para estabelecer até mesmo idas ao escritório sem horário fixo, para evitar horários de pico”, explica o vice-presidente global de Gente e Cultura do Grupo Stefanini, Rodrigo Pádua. Segundo ele, 90% dos 14 mil funcionários estão trabalhando em casa e, ao contrário do que se imaginava, o serviço remoto não reduziu o engajamento do pessoal. Pelo contrário. A produtividade subiu até 10%, sem as perdas de tempo com deslocamentos. Por isso, a empresa se prepara para ter 50% do seu pessoal em home office.

NOVAS ROTINAS

O mesmo caminho é seguido por outras corporações. Nesta semana, a Petrobras anunciou que vai manter metade da equipe em casa permanentemente, mostrando que vai repensar o conceito de escritório. Desde março, a petroleira mandou para casa até 90% de seus 21 mil funcionários da área administrativa, diante da pandemia. Segundo a empresa, a experiência se mostrou bem sucedida em termos de produtividade e revelou oportunidade de economia com escritórios.

Com tantas corporações mudando seus planos, a demanda por reformas em escritórios cresceu na Athie Wohnrath. A empresa de arquitetura preparou até uma cartilha para organizar a volta, de forma gradual. Para isso, estão previstas modificações de layouts e até de mobiliários, com mesas mais distantes e até com rodinhas para permitir várias configurações. “Enquanto não surgir a vacina, o afastamento tem de ser respeitado. Por isso, muitos não cogitam ter mais do que 50% do pessoal de volta”, diz o CEO Ivo Wohnrath. A diretora de Projetos e Consultoria do Hospital Albert Einstein, Anarita Buffe, confirma que o distanciamento é mesmo um dos aspectos mais importantes em um plano de volta ao trabalho. Segundo ela, há muitas variáveis que precisam ser consideradas desde a natureza do negócio (se é uma indústria ou um escritório) até a estrutura. “A abordagem precisa ser ampla para garantir a segurança”, explica.

Diante de tantas exigências, a multinacional de seguros AON resolveu não só colocar seus 1,5 mil funcionários em home office como também rever seus espaços e chegou à conclusão de que, para garantir segurança e flexibilidade, a saída seria mudar de escritório. O objetivo foi chegar a um ambiente que ampliasse a cultura de colaboração sem deixar de lado as questões de saúde. “Buscamos um equilíbrio, sempre ouvindo o desejo do pessoal. Por isso, chegamos a um ambiente híbrido”, diz o presidente da AON no Brasil, Marcelo Homburguer. Para conseguir isso, a seguradora trocou um escritório de 600 m2 por um de 2,6 mil m2 para evitar aglomerações. “Vamos voltar em ondas, porque existe muita incerteza”, diz. Incerteza e insegurança são as marcas destes tempos de pandemia. E o desafio é entender como será o novo normal.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

FELICIDADE SOB HOLOFOTES

Como os estudos sobre felicidade têm ganhado relevância e oferecido novas perspectivas em tempos de crise e aumento da infelicidade global

Instabilidade e crises econômicas de efeitos nefastos têm sido uma constante em todo o mundo nos últimos anos. Paralelamente, contrariando o senso comum, tem ganhado destaque certa percepção de que nem tudo se resume a dinheiro e poder aquisitivo, e assim a felicidade tomou o centro do palco na comunidade global. Ao reconhecer a necessidade de mais ênfase nesse aspecto, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 20 de março o Dia Internacional da Felicidade. visando promover a ideia de que a felicidade é um direito humano universal a ser comemorado por milhões de pessoas em todo o mundo.

Toda essa preocupação também diz respeito, por outro lado, ao aumento da infelicidade em todo o mundo, impulsionado pela desconfiança em líderes políticos e pelo uso intenso das redes sociais. De acordo com o Relatório Mundial da Felicidade 2019, elaborado pelo Instituto Gallup em parceria com a ONU, o Brasil, cuja fama internacional é de uma das nações mais felizes do mundo. caiu 16 posições no ranking global entre 2015 e 2019, ocupando a 32ª posição entre 156 nações.

De fato, celebrar e pesquisar a felicidade em tempos de infelicidade em alta parece ser uma tarefa urgente. A felicidade tem um papel muito importante e um enorme impacto na maneira como vivemos. Embora os pesquisadores ainda não tenham chegado a uma definição ou a uma estrutura acordada, muito tem sido estudado nesse campo.

Desde a Antiguidade a felicidade vem sendo objeto de estudos. Para Aristóteles, encontramos a felicidade quando usamos nossos talentos na potencialidade máxima e satisfazemos nossos valores. É por isso que a felicidade é tão diferente para cada pessoa. Todos nós temos talentos diferentes, valorizamos coisas diferentes e adotamos prioridades diversas.

No século XXI, a felicidade passou a ser assunto de pesquisadores que descobriram sua importância para um desenvolvimento humano positivo. O termo sempre teve muitos significados. Segundo Martin Seligman, um dos líderes da psicologia positiva, em um de seus livros mais célebres, Felicidade Autêntica, a felicidade está relacionada à compreensão dos sentimentos positivos e à busca pelo seu desenvolvimento.

Frequentemente a felicidade é referida por outro nome na pesquisa em psicologia positiva: bem-estar subjetivo, ou subjective well being (SWB). Alguns acreditam que a felicidade é um dos componentes principais do SWB, enquanto outros creem que a felicidade é o SWB. Independentemente disso, o SWB também tem sido usado como abreviação para a felicidade na literatura. Tudo isso faz parte de um campo que tem sido denominado como “ciência da felicidade”,

Nesse sentido, a psicologia positiva pode ser considerada um subconjunto dentro do campo mais amplo dessa ciência, que se estende tanto às ciências naturais quanto às sociais. Por exemplo, a psicologia positiva é amplamente focada no estudo de emoções positivas e das chamadas “forças de assinatura”, mas a ciência da felicidade se estende, por exemplo, a áreas como o impacto do exercício físico no bem-estar psicológico ou o efeito das mídias sociais na felicidade.

De forma geral, existem muitas teorias diferentes sobre a felicidade, mas elas geralmente se enquadram em uma de duas categorias, com base em como elas conceituam a felicidade (ou o bem-estar):

FELICIDADE / BEM-ESTAR HEDÔNICO é felicidade conceituada como a experiência de mais prazer e menos dor: composta por um componente afetivo (alto afeto positivo e baixo afeto negativo) e um componente cognitivo (satisfação com a vida). Já FELICIDADE / BEM-ESTAR EUDAIMÔNICO conceitua a felicidade como resultado da busca e realização do propósito de vida, significado, desafio e crescimento pessoal; aqui a felicidade se baseia em atingir o potencial total e operar em pleno funcionamento.

POR QUE A FELICIDADE É IMPORTANTE?

Nas últimas três décadas, psicólogos e pesquisadores desenvolveram centenas de estudos e muitos deles chegaram à mesma conclusão: nossos antepassados estavam certos. Vale a pena se preocupar com a felicidade.

De acordo com pesquisas, pessoas felizes e satisfeitas são menos suscetíveis a males como hipertensão, doença cardíaca, diabetes, resfriados e infecções respiratórias. Já as pessoas insatisfeitas podem ter depressão e aumentar o impacto de uma ampla gama de doenças.

No contexto do trabalho, trabalhadores felizes são mais produtivos. Thomas Wright, professor de comportamento organizacional na Universidade de Nevada, estima que o nível de felicidade dos funcionários leva à variação entre 10% e 15% do desempenho entre os trabalhadores. Em uma semana de 40 horas, isso pode significar até 75% de perda de produtividade.

Por fim, pessoas felizes são mais persistentes para resolver problemas e são mais solidárias. Elas trabalham em tarefas complicadas por mais tempo do que as pessoas que são infelizes e têm mais empatia com os necessitados, são mais generosas e menos focadas em si mesmas.

Qual é o segredo, afinal? De acordo com Seligman, são as variáveis voluntárias ou intencionais que fazem alguém afirmar que é feliz. Isto é, depende de você querer ser feliz, dar significado à sua vida e entrar em ação para que isso aconteça. Aproveite, então, o 20 de março e reflita: o que é felicidade para você?

FLORA VICTÓRIA – é presidente da SBCoachng Training, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência, ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoaching Social.

EU ACHO …

POR QUE TANTA GENTE BOA INSISTE EM NEGAR OS FATOS

A comunidade científica ficou perplexa com a reabertura prematura das atividades econômicas em pleno avanço da pandemia. Não deveria. Asteorias estapafúrdias em torno do novo coronavírus, os poderes milagrosos da cloroquina, a defesa de uma certa “estratégia sueca” – cujos próprios autores reconhecem ter dado errado – seduzem não apenas Jair Bolsonaro, Donald Trump e acólitos, mas também prefeitos, governadores, empresários, banqueiros e gente de perfil intelectual bem mais sofisticado.

Do papel humano no aquecimento global às vacinas, da pandemia à economia, da política à religião, o negacionismo se espraia como uma praga a minar o conhecimento e a política. Entender suas raízes e mecanismos é um desafio essencial para preservar o planeta, a vida e a civilização.

Não se trata de problema novo. Em 1927, a revista médica britânica The Lancet já publicava editorial contra a crença de que “a vacinação é uma fraude gigantesca perpetuada apenas para garantir lucros”. Absurdos como o terraplanismo ou o criacionismo têm mais chance de prosperar em sociedades ignorantes. Caso do Brasil ou dos Estados Unidos, onde mais da metade da população ignora que a Terra leva um ano para orbitar o Sol e quase três quartos contestam a evolução das espécies pela seleção natural. Mas não é um problema restrito aos pouco cultivados. Os mais empedernidos negacionistas de que a atividade humana seja responsável pelas mudanças no clima são cientificamente letrados, têm acesso a informação de qualidade, entendem os mecanismos climáticos e defendem suas teses por meio de raciocínios embasados em gráficos precisos e conhecimentos avançados de astrofísica ou geofísica. São tudo, menos ignorantes. “A negação é um problema humano, não apenas um problema dos pouco instruídos ou pouco sofisticados”, escreve o filósofo Adrian Bardon em The truth about denial (A verdade sobre a negação). Trata-se, nas palavras dele, de uma “resolução emocionalmente satisfatória da dissonância entre como gostaríamos que o mundo fosse e a forma como ele de fato se apresenta”.

Bardon inventaria os debates contemporâneos sobre o tema não só na ciência. Navega pela política e pela economia (onde por vezes derrapa). Não se furta a explorar (com rara competência) o terreno minado da religião. Apresenta o significado preciso do negacionismo e ensina sua relação com parentes próximos, como dissonância cognitiva, raciocínio motivado, pensamento desiderativo, viés de confirmação ou ideologia. Negação não é mentira. É uma mentira com sabor de verdade, uma falsidade que satisfaz aos instintos – aquilo que o comediante Stephen Colbert definiu como “verdadice” (“truthiness”). “A negação envolve a rejeição (ou adoção) motivada emocionalmente de uma afirmação factual, mesmo diante de fortes evidências contrárias”, diz Bardon. “O negacionismo é um a expansão, uma intensificação da negação. Na raiz, ambos são apenas um subconjunto das formas como os humanos desenvolveram a linguagem para enganar os outros ou a si mesmos.” E pratos cheios para manipulação política e campanhas de desinformação.

Nem o conhecimento dos fatos nem a capacidade intelectual nos vacinam contra o negacionismo. “Nossa capacidade de raciocínio motivado diante de evidência contrária é impressionante”, diz Bardon. “É conveniente, reconfortante e ocasionalmente até útil, mas também solapa nossa capacidade de enfrentar questões urgentes de política pública, portanto obstrui o caminho de mudanças sociais, políticas e econômicas.” É o que vemos no enfrentamento do aquecimento global ou da pandemia. Nem as calotas polares nem o coronavírus dão a mínima para nós. Bardon tenta, no final, levantar estratégias para enfrentar o negacionismo científico. Discutíveis, é verdade, mas até por isso cientistas fariam bem em ouvi-lo.

**HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

A CIÊNCIA PODE NOS SALVAR

A humanidade deseja se livrar do coronavírus, mas até agora não há um remédio que acabe com a doença. Dezenas de vacinas estão sendo testadas no mundo e todas só ficarão prontas no final do ano. Uma delas, porém, feita nos Estados Unidos, está mais avançada e pessoas já ficaram imunes à Covid-19.

O desafio global para a produção de uma vacina contra a Covid-19, se coloca como prioridade. A primeira notícia positiva nesse sentido vem dos EUA, onde a empresa de biotecnologia Moderna divulgou que está realizando testes preliminares em seres humanos de uma vacina que pode imunizar as pessoas contra a doença. A empresa recebeu US$ 580 milhões do governo do EUA porque Donald Trump, que quer assegurar que 300 milhões de doses sejam disponibilizadas para os americanos. O método da pesquisa consiste em levar informação de RNAm (RNA mensageiro) da Covid-19 para dentro das células e induzir o próprio organismo a produzir uma defesa. Oito dos quarenta e cinco voluntários que participaram do estudo, apresentaram anticorpos. Para Akira Homma, assessor científico da Bio-Manguinho/Fiocruz, a pesquisa é confiável, mas deve ser vista com cautela, pois está prevista a realização de estudos ainda nas fases dois e três, com maior número de voluntários. “Eles estão utilizando o processo de “fast track”, ou seja, processo acelerado de desenvolvimento tecnológico”. A possibilidade de termos uma arma segura e eficaz contra a pandemia pode reduzir o número de mortes pela pandemia.

TESTE GENÉTICO

No Brasil, também há estudos em desenvolvimento, alguns em parcerias com instituições do exterior. “Como os países desenvolvidos estão investindo mais teremos uma vacina pronta primeiramente lá fora”, afirma Homma. O País também enfrenta dificuldades para saber quem está de fato contaminado. O atual sistema demora 14 dias, após a infecção, para apresentar os resultados. Uma iniciativa positiva foi desenvolvida pelo Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Ele produziu o primeiro teste do mundo de diagnóstico para coronavírus, baseado em Sequenciamento de Nova Geração. Esse exame permite a realização simultânea de até 1536 amostras, volume 16 vezes maior do que o possível por processamento na análise pelo método RT-PCR convencional. Com esse novo teste, é possível identificar a presença do vírus desde o primeiro dia de infecção.

Na corrida para a obtenção da vacina contra o Sars-Cov-2, há 115 pesquisas relevantes ao redor do mundo, entre elas de oito a dez com promissoras chances de sucesso. Já realizam testes em humanos a Universidade de Oxford, em conjunto com a Astra Zeneca, a chinesa CanSino Biologics, com o apoio do governo chinês e caminha para a segunda etapa de testes com maior número de participantes a russa Biocard, que recebeu US$ 20 milhões do governo daquele país. O obstáculo que está posto para que os países pobres recebam o produto futuramente é a Proteção à Propriedade Intelectual, já que a possibilidade de lucro pela descoberta é incomensurável. Com a intenção de se antecipar à obtenção da vaciana, a OMS criou uma resolução na qual determina que um eventual imunisante contra o coronavírus seja considerada um bem público mundial. Somente a descoberta de uma vacina de forma mais rápida pode permitir que a humanidade sobreviva.

Na corrida para a obtenção da vacina contra o Sars-Cov-2, há 115 pesquisas relevantes ao redor do mundo, entre elas de oito a dez com promissoras chances de sucesso. Já realizam testes em humanos a Universidade de Oxford, em conjunto com a Astra Zeneca, a chinesa CanSino Biologics, com o apoio do governo chinês e caminha para a segunda etapa de testes com maior número de participantes a russa Biocard, que recebeu US$ 20 milhões do governo daquele país. O obstáculo que está posto para que os países pobres recebam o produto futuramente é a Proteção à Propriedade Intelectual, já que a possibilidade de lucro pela descoberta é incomensurável. Com a intenção de se antecipar à obtenção da vaciana, a OMS criou uma resolução na qual determina que um eventual imunisante contra o coronavírus seja considerada um bem público mundial. Somente a descoberta de uma vacina de forma mais rápida pode permitir que a humanidade sobreviva.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE JULHO

TEMPO DE RECOMEÇAR

Então, se dispôs ela com as suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o SENHOR se lembrara do seu povo, dando-lhe pão (Rute 1.6).

Rute, a moabita que se tornou bisavó do rei Davi e membro da linhagem do Messias, tem uma dramática, porém belíssima história. Casou-se com Malom, filho de Elimeleque e Noemi, para em seguida ficar viúva e sem filhos. Em vez de retornar a seu povo e seus deuses em Moabe, decidiu recomeçar sua vida, seguindo Noemi, sua sogra, para Belém. Não que Noemi tivesse alguma vantagem a lhe apresentar; ao contrário, Noemi era estrangeira, idosa, viúva, pobre e desamparada. Rute teve de aprender a lidar com as perdas. Agora, porém, aprenderá a lidar com o recomeço. Para isso, dispõe-se a amar sua sogra incondicionalmente. Também toma a decisão de confiar seu futuro às mãos do Deus de Israel. Rute agiu com coragem e humildade. Deus providenciou para ela um marido nobre, um lar feliz e um filho promissor. De sua descendência nasceram reis e o próprio Filho de Deus. O cenário cinzento das perdas foi transformado num horizonte multicolorido de conquistas maravilhosas. Tudo isso, porque Rute se dispôs a recomeçar. É tempo de você também deixar o passado no passado e colocar os pés na estrada da esperança. A crise não durará para sempre. A dor que assola sua alma passará, e um tempo de refrigério virá sobre sua vida. Não levante monumento à sua dor; olhe para frente, olhe para cima, olhe para Deus, e saiba que ele também pode conduzir sua vida em triunfo.

GESTÃO E CARREIRA

AS GERAÇÕES E O FUTURO DO TRABALHO

O aumento da expectativa de vida dos brasileiros e as mudanças no mercado tornam urgente o debate sobre a inclusão etária

À medida que o debate sobre diversidade e inclusão amadurece, novos temas surgem na lista de preocupações do meio empresarial. Em 2020, devemos testemunhar o avanço de algumas pautas diretamente relacionadas aos desafios enfrentados por nossa sociedade: a questão geracional e as discussões sobre o futuro do trabalho.

São ambos assuntos urgentes e que dialogam diretamente com as necessidades do país. Estão, porém, cada um a seu modo, cercados de desinformação e de um oba-oba pouco crítico, que dificulta o aprofundamento da conversa.

Vejamos o exemplo do tópico “gerações”. Durante muito tempo, o mercado dizia ter interesse pela temática, mas, na verdade, demonstrava quase uma obsessão apenas pelos millennials. A geração que cresceu nos anos 2000 foi o xodó das empresas, que só agora começam a perceber a extensão do desafio que temos pela frente.

Numa ponta da pirâmide etária, pensando nos jovens entre 18 e 24 anos, o desemprego passa dos 24% e a precarização do trabalho avança. No outro extremo, entre aqueles com mais de 50, predomina o preconceito contra quem tem mais experiência – sem falar no aumento da expectativa de vida e no impacto da reforma da Previdência sobre os planos dos mais velhos.

No meio disso tudo, está o ritmo acelerado de mudanças nos modelos de produção. Estudos apontam que um terço das ocupações poderá ser substituído por robôs até 2030. Otimistas dizem que, no lugar desses trabalhos, haverá outros mais qualificados – mas a realidade brasileira teima em confrontar essa visão.

Afinal, num país que patina nos rankings de educação e cujo governo parece incapaz de enfrentar os desafios estruturais nessa área, quem terá a qualificação necessária para os empregos que virão? Na prática, para ficar em apenas um exemplo, o que se observa é o aumento do desemprego entre pessoas que, por falta de opção, historicamente desempenharam funções operacionais e agora se veem substituídas pela automação. Futuro do trabalho para quem? Como se vê, são discussões importantes e que merecem mais atenção. Por isso, estamos lançando uma iniciativa institucional e sem fins lucrativos para endereçar esses e outros temas. Trata-se do Fórum de Gerações e Futuro do Trabalho, que vem sendo gestado há quase um ano e que ganhou as ruas no início de maio.

A iniciativa, pioneira na América Latina, nasce com o apoio de Itaú, Grupo Boticário, EDP, PwC e Chubb, mas pretende articular todo o meio empresarial brasileiro em torno de uma agenda que contemple encaminhamentos para alguns dos dilemas mencionados anteriormente.

O Fórum de Gerações e Futuro do Trabalho pretende ser um espaço de produção de conhecimento, troca de experiências e protagonismo das empresas para o debate sobre diversidade e inclusão. Quer trazer sua companhia para o grupo? Escreva para mim no e-mail abaixo e terei prazer em compartilhar mais informações.

RICARDO SALES – é sócio da consultoria Mais Diversidade, professor na Fundação Dom Cabral e pesquisador na Universidade de São Paulo

ricardo@maisdiversidade.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BARIÁTRICA – CIRURGIA ALTERA CÉREBRO, MAS NÃO APLACA ANGÚSTIA

Relação com o alimento pode sofrer mudanças no nível neurológico, mas, se conflito que leva à compulsão não for tratado, sintomas aparecem de outras maneiras. Muitas vezes, surgem ou se agravam quadros psiquiátricos como ansiedade, compulsão e depressão – apesar do corpo magro tão almejado

Muita gente deve ter se olhado no espelho hoje e pensado que emagrecer (ainda que à custa de uma cirurgia bariátrica) seria uma excelente solução para terminar de vez com a luta contra a balança – e, talvez, ajudasse a resolver problemas emocionais e de autoestima. De fato, existe uma cultura forte que associa padrões físicos de magreza considerados “ideais” a felicidade e sucesso. Em junho de 2016, várias organizações internacionais voltadas para o estudo da diabetes ratificaram novas orientações, bastante provocativas, sugerindo que os clínicos deveriam considerar a cirurgia bariátrica para um leque mais amplo de diabéticos, passando a incluir aqueles com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 – e não somente aqueles com IMC igual ou superior a 40. A base para essa argumentação está em pesquisas: estudos mostram que a cirurgia para perda de peso ajuda os pacientes a alcançar níveis de glicose no sangue melhores do que daqueles que emagrecem com mudança de dieta e exercícios físicos. Um estudo recente realizado com ratos sugere que a eficácia da cirurgia bariátrica pode estar associada, pelo menos em parte, às mudanças que provoca no cérebro.

Segundo artigo publicado no International Journal of Obesity, a cirurgia bariátrica deflagra a hiperativação de uma rota neural que parte dos neurônios sensitivos do estômago no tronco encefálico, passa pelo núcleo parabraquial lateral (uma área no mesencéfalo que recebe informações sensoriais do corpo) e então chega à amígdala, que funciona como o centro cerebral do processamento da emoção e medo. Os ratos obesos foram submetidos a um processo chamado derivação gástrica em Y-de-Roux, em que os cirurgiões removem a maior parte do estômago, deixando somente uma pequena bolsa conectada ao intestino delgado. Pouco depois da cirurgia, quando os ratos passaram a ingerir porções mais reduzidas, mostrando preferência por alimentos menos gordurosos, os cientistas detectaram uma ativação crescente nessa rota neural. Foi detectado também que os animais começaram a secretar níveis mais elevados de hormônios de saciedade. Padrões comportamentais e hormonais semelhantes são encontrados em seres humanos após a cirurgia bariátrica, sugerindo que as alterações no cérebro possam ser semelhantes. Os autores do estudo reconhecem, porém, que observar esse circuito por meio de imageamento cerebral é difícil e podem ocorrer distorções por causa da falta de resolução. Segundo o neurocientista Hans-Rudolf Berthoud, do Centro Pennington de Pesquisas Biomédicas da Universidade do Estado da Louisiana (LSU), principal autor do estudo, a alteração da atividade cerebral é provavelmente causada pelo contato inédito e repentino do alimento não digerido (em vez da mistura pré-digerida que costuma vir do estômago) ao atingir o intestino delgado. “Basicamente, esses pacientes têm de reaprender a se alimentar; estavam acostumados a ingerir grandes porções de alimento e isso proporcionava sensação que lhes parecia agradável, mas, se o fizerem após a cirurgia, isso vai causar desconforto”, diz Berthoud. As áreas cerebrais que se o tornaram hiperativas pela cirurgia provavelmente refletem esse feedback negativo, que é uma ferramenta poderosa de aprendizado.

“Em poucas semanas, a rota pela qual passava o alimento não era mais hiperativa nos ratos, talvez indicando que o cérebro havia recrutado outros processos para sustentar a ingestão reduzida”, diz Berthoud. Segundo ele, essa constatação provavelmente constitui somente uma peça do quebra-cabeça. Estudos passados sugerem que a cirurgia bariátrica afeta também o sistema de recompensas do cérebro, tornando os alimentos gordurosos menos agradáveis. Uma questão que permanece é por que pessoas que passaram pela cirurgia bariátrica têm o metabolismo mais acelerado, em comparação com as que fizeram mudança de hábitos e do estilo de vida com o objetivo de perder peso. Em um estudo divulgado no começo do ano passado, pesquisadores constataram que os competidores de um programa de televisão americano, The Biggest Loser, ainda apresentavam um metabolismo letárgico seis anos após a enorme perda de peso. Estudos semelhantes mostram que grande parte dos pacientes bariátricos alcança um metabolismo estável e normalizado no prazo de um ano – mas não todos. Além disso, especialistas alertam para os riscos e efeitos colaterais da cirurgia bariátrica.

Psicólogos e psiquiatras chamam atenção para uma questão complexa: mais que um quadro em si, muitas vezes a alimentação desregrada ou compulsiva – bem como a obesidade decorrente desses comportamentos – na realidade é um sintoma que pode estar vinculado a transtornos como depressão e ansiedade. O problema é que, quando se vê o excesso de peso como um fenômeno que se esgota em si mesmo, se deixa de lado o fato de que essa situação está intimamente associada a processos psíquicos que envolvem relações consigo mesmo e com os outros, afetos, experiências e até traumas. E o tratamento, obviamente, não pode se restringir a uma cirurgia tão delicada. E talvez o mais importante: se a angústia que está por trás do sintoma não for resolvida, ele tende a reaparecer, ainda que se manifeste de outra forma.

Várias pesquisas realizadas nos últimos dez anos revelam que grande parte dos pacientes que se submetem à cirurgia bariátrica apresenta comportamentos compulsivos, depressão e chegam mesmo a cometer suicídio, ainda que tenham alcançado o corpo magro que tanto almejaram.

Uma pesquisa desenvolvida com esses pacientes do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que grande parte das pessoas apresentou melhora efetiva das condições clínicas e funcionais, como menos risco de morrer por doenças cardiovasculares (em 56% dos casos), câncer (60%) e diabetes (até 92%). Considerando que, segundo estimativas da literatura científica internacional, em 2030, de cada três pessoas de países ocidentais, uma será obesa, a importância da cirurgia bariátrica não pode ser desprezada. Apesar disso, as complicações psicológicas devem ser levadas em conta.

Hoje, médicos reconhecem que há grande risco de que quadros psiquiátricos que já existiam se agravem ou até mesmo apareçam novas patologias após a cirurgia. “Sabemos que muitas pessoas utilizam o alimento como forma de aliviar a tensão e quando não podem fazer isso recorrem a outros comportamentos de forma patológica, como sexo, consumo de álcool e drogas, jogo e compras”, diz o psiquiatra Paulo Sallet, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Segundo ele, em muitos casos, esses novos sintomas resultam de fatores como necessidade de adaptação psicossocial à nova condição e de alterações psíquicas decorrentes de déficit nutricional. Ele explica que alguns são mais susceptíveis a processos específicos deflagrados pela cirurgia, como a produção de neuropeptídios, que efeitos anoréxicos, por exemplo, e ao invés de comer de forma compulsiva, o paciente passa a evitar o alimento.

“Estimamos com base na literatura médica que mais de 90% das pessoas que se submetem à cirurgia bariátrica se beneficiem do procedimento, mas há um percentual de indivíduos, em geral pessoas que já apresentavam algum quadro psiquiátrico, que enfrentam problemas mais graves após a operação”, afirma Sallet. Segundo ele, nesse grupo o índice de suicídio pode ser de quatro a oito vezes maior que o da população em geral. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) orienta que as pessoas que desejam se submeter a cirurgia não apenas façam os exames pré-operatórios, que incluem avaliação nutricional, cardiológica e endocrinológica, mas também sejam submetidas a uma avaliação psicológica. Embora não seja obrigatório, o acompanhamento psicológico anterior e posterior é de grande importância.

ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO NO TRATAMENTO BARIÁTRICO*

Do ponto de vista orgânico, a obesidade pode ser definida como alteração de processos biológicos (envolvendo basicamente genética e metabolismo) em interação com fatores psíquicos e ambientais, cujo resultado é o aumento do peso sob a forma de acúmulo de gordura. A maioria dos pacientes obesos tem uma longa história de tratamentos anteriores, com reduções de peso seguidas de reaquisição. Tais resultados parecem decorrer do enfoque excessivo na consequência (o peso), em detrimento do tratamento e modificação de suas causas.

Outro aspecto característico é a interrupção precoce dos tratamentos. Em diversos países, as técnicas bariátricas e cirúrgicas têm apresentado bons resultados em termos de redução de peso, melhora da qualidade de vida e satisfação global dos pacientes.

Isso se deve não somente a que tais procedimentos reduzem a ingestão calórica sem o desconforto de uma privação alimentar excessiva por parte do paciente, mas também ao fato de que a maioria dos centros aborda o tratamento de uma forma multidisciplinar.

Grande parte dos pacientes obesos apresenta transtornos alimentares caracterizados pela compulsão alimentar relacionada à ansiedade e estados de humor depressivo. Sabe-se que tais pessoas tendem a “adaptar” seu padrão de alimentação compulsivo após os tratamentos bariátricos (por exemplo, “beliscando” carboidratos continuamente, ingerindo grandes quantidades de alimentos líquidos hipercalóricos etc.), o que acaba comprometendo os resultados. Sabe-se também que a (em geral drástica) mudança na forma e imagem corporais que se segue a tais procedimentos traz consigo a emergência de conflitos psicológicos e necessidades de adaptação à nova condição. Em linhas gerais, esses são os motivos pelos quais a avaliação e o acompanhamento psiquiátricos são importantes no tratamento da obesidade.

Na prática, o acompanhamento psiquiátrico ou psicológico do paciente obeso que se submete ao tratamento bariátrico segue uma abordagem multidisciplinar, um modelo que envolve profissionais de diferentes áreas e tem sido empregado nos diversos centros de referência para tratamento da obesidade em todo o mundo. A função do psiquiatra começa com uma avaliação inicial do paciente com indicações clínicas para o tratamento cirúrgico da obesidade. Nessa avaliação são explorados não só os aspectos relacionados com a história de vida (história da obesidade, o sofrimento físico e psíquico a ela relacionado, história de problemas psíquicos prévios etc.), como também uma série de aspectos pertinentes ao tratamento proposto, tais como:

1. Grau de motivação para cumprir os cuidados necessários

2. Tomada de consciência de estar se engajando em um projeto em longo prazo

3. Riscos envolvidos

4. Adesão do paciente a atividades físicas regulares e ao programa adequado de alimentação

5. Expectativas do paciente em termos de resultado estético e controle do peso etc.

São fundamentais a identificação e o tratamento de problemas que possam interferir de modo negativo no resultado do tratamento. Condições psiquiátricas como abuso de álcool ou outras drogas, transtornos psicóticos (doenças em que podem ocorrer crises que causem prejuízo grave na apreciação realista dos fatos), transtornos de humor (depressões e/ou euforia) ou ansiedade e, sobretudo, alterações do comportamento alimentar são particularmente importantes e necessitam de uma avaliação criteriosa, que por vezes pode até contraindicar a intervenção cirúrgica naquele momento.  A ideia não é “selecionar” pacientes que possam ou não ser operados, mas identificar e tratar problemas com potencial interferência negativa no processo.

É importante não passar a ideia de que o paciente tenha algum perfil psicológico ou clínico típico da obesidade e deva ser tratado de modo homogêneo. Entretanto, as pesquisas e a experiência clínica demonstram que as pessoas com obesidade apresentam diferentes graus de sofrimento psíquico decorrente do seu padecimento.

Em geral, sofrem discriminação e preconceito de diversos matizes, que por sua vez podem ser introjetados ao longo da vida, deixando marcas profundas.

Para uma avaliação mais objetiva e economia de tempo, podem ser utilizados questionários a que o paciente pode responder em casa. Esse material é um instrumento de avaliação diagnóstica, de grande ajuda no planejamento terapêutico para cada paciente, como de resto também fornece informações importantes para o tratamento desses problemas com base científica. O acompanhamento psiquiátrico ao longo do tratamento depende, em parte, dessa avaliação inicial. É compreensível que a presença de condições psiquiátricas que possam comprometer aspectos de ordem prática (atividade física e adequação à dieta) ou o bem-estar psicossocial requeiram acompanhamento com consultas mais constantes, eventualmente com o uso concomitante de medicamentos e de psicoterapia para o aprofundamento das questões psíquicas e comportamentais.

(*) Informações fornecidas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

REAPRENDENDO A VIVER

A psicóloga Marlene Monteiro da Silva, coordenadora do curso de transtornos alimentares e obesidade do Hospital das Clínicas (HC), compara o período pós-operatório dos pacientes às fases de desenvolvimento psicossexual na infância, segundo o modelo proposto por Sigmund Freud. “Nos três primeiros meses podemos fazer um paralelo com a fase oral: assim como acontece com o bebê, a maior preocupação da pessoa nesse momento é com a comida; o paciente só pode alimentar-se de sopas e papinhas, em geral fica emocionalmente regredido, alguns choram com muita frequência, e sente-se dependente.”

A partir do quarto mês há uma espécie de “retorno” à fase anal, a pessoa começa a descobrir novas maneiras de encarar o próprio corpo e se relacionar com ele. Nesse momento, alguns chegam a ter 20 quilos a menos e sentem-se mais expostos. O paciente depara-se com uma agressividade da qual nem sempre se dá conta, tem medo da mudança de identidade e já não há a possibilidade de recorrer à comida para aliviar as angústias.

“Por volta do sétimo mês, começa o que pode ser visto como um paralelo com a fase pré-genital, uma espécie de adolescência emocional”, compara. Com o corpo bastante modificado, 50 ou 70 quilos a menos, muitos desses pacientes passam a querer aproveitar tudo, muitas vezes de forma inconsequente. É nesse momento que correm o risco de se tornar alcoólatras, dependentes de drogas, viver relações promíscuas e se colocar em situações de risco. Em geral, os casos de bulimia e anorexia costumam aparecer depois de dez meses, segundo a psicóloga.

“Algo que agrava a situação é tentar ‘esquecer’ que ainda é preciso fazer cirurgias plásticas, negam cortes e cicatrizes tanto físicas quanto emocionais. Se as pessoas não derem atenção à “feridas emocionais” que precisam ser cuidadas, é possível que depois de dois ou três anos após a intervenção, estejam sujeitas ao aumento das compulsões, depressão ou ao risco de voltar a engordar, mesmo com o estômago reduzido. “Não se pode ignorar que, muitas vezes, é um desafio assumir o papel de adulto, retornar ao trabalho, se haver com os desejos (tanto os próprios quanto os dos outros) e mudanças na vida sexual e afetiva”, diz Silva. “Aí as pessoas se dão conta de que o problema não era só o excesso de peso, de que há sempre faltas e que é preciso conviver com elas.” Justamente pela complexidade dos fenômenos psíquicos envolvidos são tão importantes a avaliação psicológica antes da cirurgia e o acompanhamento depois dela.

EU ACHO …

O VÍRUS DO PRECONCEITO

O discurso do ódio e da intolerância, base para o sectarismo nas sociedades, se dissemina junto com a pandemia, distorcendo a própria história. É urgente criar mecanismos para coibir isso

Libelos de que a covid-19 seria causada por um “vírus chinês” ou que Israel e os judeus estariam espalhando o Sars-CoV-2 pelo mundo aparecem, com indesejável frequência, em posts e falsas notícias em vários países, muitas vezes associados a chavões clássicos, como “isso tudo está acontecendo por causa dos interesses dos Rothschild ou de George Soros”, que seriam donos de laboratórios, prontos para tirar proveito da crise, produzindo remédios e vacinas. A única reação que esses ataques não provocam é surpresa.

A intolerância de toda natureza e contra vários povos acompanha a história da humanidade. Nem seria preciso lembrar, por exemplo, das atrocidades cometidas contra os judeus ao longo dos tempos, quase sempre sem punição e que, justamente pela impunidade, culminaram na maior de todas elas – o Holocausto: 6 milhões de inocentes, ao lado de outras minorias, foram exterminados no coração da Europa, em pleno século XX. Pessoas que nada fizeram para ter esse destino, além de ter nascido em uma determinada família ou localidade. Em decorrência dessas circunstâncias, as comunidades judaicas ao redor do mundo tornaram-se especialistas em ser alvo do discurso do ódio e das fake news. Hoje, está bem claro que esse tipo de praga que grassa no ambiente virtual causa imensos danos, não raramente desaguando em violência física na vida real.

O principal condutor dessas correntes são as plataformas de comunicação digitais. Turbinadas por exércitos de robôs e protegidas pelo anonimato, as redes sociais aglutinaram, revigoraram e empoderaram os extremistas de forma inédita e com elevado grau de eficiência. O racismo e qualquer espécie de sectarismo encontraram na tecnologia um motor. Alguns ataques contra sinagogas e mesquitas, com dezenas de mortes, tiveram seu início com transmissões ao vivo, nas redes. Há anos se fala disso, sem que a intolerância tenha sido efetivamente freada. Em razão do curso dos acontecimentos, é necessário que as redes sociais sejam capazes de evitar a propagação do ódio, com suas terríveis consequências. É uma tarefa árdua, mas inescapável. Empresas como Twitter e Facebook, entre outras, já alcançaram capacidade financeira e grau de maturidade tecnológica suficientes para restringir, por meio de inteligência artificial, conteúdos discriminatórios, como faz o YouTube no combate à violência extrema e à pornografia infantil.

E que não se diga que coibir a intolerância, através dos mecanismos que a disseminam, seja censura. Não queremos combater a diversidade de ideias. Mas é preciso lembrar que a liberdade de expressão, conquista democrática inscrita na Constituição de 1988, não se confunde com o discurso do ódio ou com a pregação da violência, como já vem decidindo há anos o Supremo Tribunal Federal. O rádio e o cinema eram as novas tecnologias nos anos 1930, e os nazistas exploraram esses meios com eficiência letal. O poder das redes neste século XXI é muitas vezes maior que o daquelas plataformas. Atuam praticamente sem controle social, diferentemente do que ocorre com as mídias tradicionais.

Mesmo antes de o novo coronavírus se tornar o último pretexto para comportamentos racistas, ataques de ódio já vinham crescendo neste planeta polarizado. Lideranças judaicas e de outras religiões, em todo o mundo, têm se esforçado em denunciar e combater essa ressurgente onda de intolerância, em que a realidade se desenrola sob uma óptica maniqueísta e distorcida. Mas muitos não querem ver, não querem ouvir, ocupados que estão em estigmatizar adversários.

É frustrante observar como atores políticos, especialmente em nosso país, usam e abusam de comparações equivocadas com as perseguições da época do nazismo, apenas para conquistar posições em disputas, sem nenhuma relação com o que tragicamente ocorreu na Europa no século passado. Isso é feito por políticos de todo espectro, seja o ex-presidente Lula, que em 2014 comparou adversários políticos a nazistas, seja o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que viu absurdas semelhanças entre uma decisão do STF e as perseguições da chamada “Noite dos Cristais”. Não há relação possível. A começar pelo fato evidente deque vivemos em um estado democrático de direito, no qual as liberdades e garantias estão asseguradas, e prosseguindo pela evidência de que não há nada hoje entre nós daquela perseguição – étnica ou nacional – vigente no regime hitlerista. Assistimos à vulgarização de um evento único em suas características que, reforço, não deve se prestar a instrumento de luta política. Deixem os judeus fora disso.

Não cabe à Conib tomar partido no cenário político atual ou em qualquer outro momento, mas sim defender valores e princípios. Não temos partido, mas certamente temos lado. E o nosso lado é aquele onde prevalecem o respeito às diferenças, o pluralismo, a democracia e os direitos humanos. Fazer parte de uma minoria no século XXI não é fácil. E está ficando mais complicado. Da extrema esquerda à extrema direita, passando pelo extremismo islâmico, intolerantes de todos os matizes sentem-se cada vez mais à vontade para atacar grupos minoritários. Essa luta contra a intolerância e a propagação do ódio não está circunscrita às religiões. O assassinato de George Floyd, em Minneapolis, mostra quanto o racismo contra os negros ainda está presente na sociedade americana. Como vítimas preferenciais também do preconceito e da violência racista, temos a obrigação de lutar pela promoção do entendimento e pelo firme combate ao ódio e à intolerância.

**FERNANDO LOTTENBERG é advogado e presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

OUTROS OLHARES

DE OLHOS BEM PUXADOS

A maquiagem chamada de foxy eyes (olhos de raposa), que alonga os olhos com traços fortes, faz sucesso, mas vira alvo de crítica nas redes sociais

Mesmo em tempo de rostos cobertos por máscaras, a maquiagem (fora o batom, claro) não perde espaço entre as mulheres. E, por razões evidentes, as mais criativas são as que destacam os olhos. Nenhuma tem feito mais sucesso nas redes sociais do que a chamada de Foxy eyes, ou olhos de raposa. Trata-se de alongar a expressão com a combinação elaborada de traços desenhados com sombra, delineador e cílios postiços.

O modismo é uma versão repaginada do antigo efeito “gatinho”, marca registrada da atriz francesa Brigitte Bardot na década de 60. Há pouco tempo, a americana Bella Hadid, eleita “modelo do ano” pela premiação Model of the Year Awards, ressurgiu com traços semelhantes, mas bem mais carregados e sensuais, e o estilo renasceu ruidosamente. Mas, como nada hoje é apenas prazeroso, veio junto uma acalorada discussão.                                                           

Nas últimas semanas, o efeito passou a ser alvo de críticas de grupos de mulheres orientais, que denunciaram uma suposta “apropriação cultural”. Ou seja: o foxy eyes estaria utilizando traços raciais, como os olhos puxados, para angariar likes em fotos. Polêmicas dessa ordem são comuns. Denúncias semelhantes foram direcionadas recentemente a mulheres brancas que usavam turbante ou tranças enraizadas, que remetem à cultura africana.

E, no entanto, nunca é tarde para lembrar, a aplicação de delineadores para alongar os olhos nasceu como uma prática absolutamente funcional nos tempos de Cleópatra, rainha do Egito, compartilhada por ambos os sexos, como modo de proteção dos raios solares. Diz o professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), João Braga: “Divulgar belezas diferentes, independentemente da raça, não deve ser discriminado, mas celebrado”. Viva a diversidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE JULHO

LAR, DOCE LAR

Tua esposa, no interior de tua casa, será como a videira frutífera; teus filhos, como rebentos da oliveira, à roda da tua mesa (Salmos 128.3).

O lar foi planejado por Deus para ser um lugar de abrigo, uma fonte no ermo, um oásis no deserto, um pomar de frutos deliciosos para saciar nossa fome de afeto. No lar, encontramos intimidade e somos amados não por causa de nossas virtudes, mas apesar de nossos defeitos. No lar, nós nos despimos das nossas vaidades e, apesar das nossas cicatrizes emocionais, somos aceitos e perdoados. O lar é tanto um campo de treinamento como uma clínica de recuperação. É no território da família que travamos as maiores batalhas e é nessa arena que somos carregados nos braços quando tombamos por um golpe da vida. O lar é a nossa cidade de refúgio, para onde corremos quando somos acossados pelo inimigo de sangue. No lar, encontramos uma mesa posta, uma cama quentinha, um abraço carinhoso e um sorriso acolhedor. No lar, refazemos as nossas forças para a caminhada da vida e é ali também que levantamos nossa voz para chorar. No lar, celebramos a alegria do nascimento e choramos de saudade na hora da morte. No lar, nascemos, crescemos e morremos. O lar é nossa casa, nosso chão, nossa herança. O lar pode ser rico ou pobre, mas é o melhor lugar do mundo para viver, quando nele trescala o perfume do amor.

GESTÃO E CARREIRA

ESCOLHAS DIFÍCEIS

Com demissões e reduções salariais abruptas, brasileiros são obrigados a tomar decisões duras para lidar com a nova realidade financeira

Thais Gonçalves Galli, de 32 anos, trabalha como coordenadora de eventos em um hotel da capital paulista. Com o segmento completamente parado por causa do coronavírus, ela recebeu em abril a notícia de que teria o contrato suspenso por dois meses. O salário caiu pela metade. Seu noivo, Marcelo Nogueira Batista, de 37 anos, que trabalha como supervisor de banquetes em outro hotel, teve o mesmo destino. De uma hora para outra, o casal – que tem um financiamento imobiliário – se viu obrigado a baixar drasticamente o padrão de vida.

O revés vivido pelos dois profissionais ilustra a realidade de milhões de brasileiros. Nos últimos três meses, segundo o IBGE, 4,9 milhões de postos de trabalho formais e informais foram fechados no país. Além disso, só em abril, mais de 2,5 milhões de pessoas tiveram seus contratos suspensos ou salários diminuídos. A situação é crítica. De acordo com levantamento do Instituto Locomotiva, especializado em pesquisas, 51% dos entrevistados já tiveram queda efetiva na renda desde que a doença se instalou no país, em meados de março. O estudo mostra também que 53% ainda esperam ter os rendimentos familiares prejudicados e que apenas 6% devem manter o mesmo patamar financeiro de antes da crise de covid-19.

Como ninguém consegue prever com exatidão quanto tempo a paralisia econômica vai durar, especialistas dizem que as decisões financeiras devem ser duras e enérgicas. “No desespero, é comum não querer enfrentar o problema para evitar angústia. Só que, neste momento, é muito importante levantar todos os gastos e dívidas imaginando o pior cenário”, diz Flávia Ávila, especialista em economia comportamental e fundadora da consultoria InBehavior Lab.

Ainda que a renda seja suficiente para pagar todas as contas, é primordial fazer um diagnóstico minucioso das finanças. O primeiro passo para isso é enumerar em uma planilha – ou no papel, se preferir – despesas fixas, variáveis e compromissos futuros. Com o mapeamento em mãos, comece a analisar o que pode ser excluído de sua vida sem prejuízo, priorizando as escolhas domésticas, mais fáceis.

Questione-se: será que preciso ligar a máquina de lavar roupas cinco vezes por semana? Meu banho pode ficar mais curto? As luzes estão sendo apagadas como deveriam nesta quarentena? “O supermercado é outro ponto de atenção. Pesquise por itens mais baratos e que tragam o mesmo benefício da marca líder. Faça todas as substituições possíveis”, diz Marco Harbich, planejador financeiro da Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros.

Depois passe para aquilo que não é essencial. Negocie descontos e carências, sobretudo em serviços interrompidos na quarentena, como academia e transporte escolar, e barganhe soluções em planos de internet, TV e celular. Foi o que fizeram os noivos Thais e Marcelo. Assim que soube que teria o contrato suspenso, ela entrou em contato com a TV por assinatura em busca de algum alívio. “Expliquei que tive uma redução de salário e precisava negociar. Consegui reduzir a mensalidade de 205 para 170 reais, sem sofrer alterações no pacote.” Outra iniciativa foi conversar com a operadora de telefonia celular em busca de um plano mais econômico. ”A empresa fez uma contraproposta para aumentar a velocidade da internet mantendo o valor. Aceitamos, porque precisávamos de uma conexão melhor.” O casal também dispensou a faxineira e eliminou a compra de itens supérfluos, como vinhos.

Complicado mesmo, segundo a coordenadora de eventos, foi decidir o que fazer com o financiamento imobiliário, a dívida mais alta que possuem. Após negociação, o banco acabou suspendendo o pagamento das parcelas por quatro meses, que será retomado só em agosto. Com as medidas, os dois reduziram os gastos mensais em 3.000 reais. Arthur Igreja, especialista em finanças e professor convidado na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, ressalta que, antes de cortar, vale buscar negociações para minimizar os impactos na qualidade de vida. As instituições, diz ele, estão abertas a isso. “Mudanças drásticas de padrão podem levar à depressão. Não saia cortando tudo desesperadamente logo de cara sem fazer uma avaliação de sua condição. Demonstre interesse em honrar a dívida e dialogue. O fornecedor tem interesse em receber.”

Agora, se você possui empréstimos e financiamentos, há dois caminhos: negociar uma pausa provisória no pagamento das parcelas – grandes bancos, como Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander passaram a oferecer essa opção a quem está com as contas em dia – ou barateá-las. Verifique se o contrato tem como indexador a taxa básica de juros, Selic, hoje no menor patamar: 3% ao ano. “Se a dívida foi contratada quando a Selic estava em 10%, por exemplo, você consegue um bom argumento para renegociar os juros. Mas isso o banco nunca irá fazer; é o cliente que precisa correr atrás”, afirma Arthur Igreja.

DEVO, NÃO NEGO, PAGO QUANDO PUDER

Se após tomar essas iniciativas ainda assim a receita familiar for insuficiente, contas essenciais, como água, luz, gás, internet e até mesmo o aluguel, podem ser deixadas em segundo plano. O corte de serviços e despejos estão proibidos durante a pandemia. Além disso, a Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), representante de Serasa, SPC Brasil e outros birôs de crédito, prorrogou de 10 para 45 dias o prazo para o devedor ter o nome negativado. Mas lembre-se de que as dívidas não serão extintas. Por isso, qualquer sobra deve ir para saná-las, priorizando as maiores.

Agora, se não há perspectiva de entrada de receita em breve, a opção é tomar dinheiro emprestado. Nesse caso, por mais difícil que seja, tente primeiro com familiares e amigos ­ apresentando, claro, um plano de pagamento com sugestão de taxa de juros. “Recomendo a busca por alguém próximo, porque se uma pessoa sem renda pedir uma linha de crédito mais barata precisará informar ao banco que está sem renda e, consequentemente, não terá o valor aprovado. E a tendência desse cliente será contratar o que já está disponível, como cheque especial e cartão de crédito [que registram taxas de juros anuais de 132% e 259%, respectivamente].”

A empreendedora Juliana Luiz, de 44 anos, proprietária da JLS, microempresa que organiza eventos culturais de dança e música na cidade de Cubatão (SP), sabe bem disso. Depois que a pandemia paralisou as atividades culturais, o faturamento de seu negócio caiu a zero. Para enfrentar o dilema, ela precisou recorrer aos parentes. Como mora com a mãe e dois irmãos, conversou com eles sobre o que poderia ser feito. Sua reserva financeira deve durar até agosto e não será suficiente para arcar com todos os custos. Hoje, ela paga internet, supermercado e a diarista. Paralelamente, arca com contas particulares, como plano de saúde, seguro do carro e cartão de crédito. “Até as coisas normalizarem, não vou ajudar nas despesas da casa. Como minha mãe é pensionista, decidiu arcar com minha parte por enquanto”, diz Juliana. “Só vou continuar honrando minhas contas pessoais porque tive esse respaldo. Mas sei que nem todos têm a mesma oportunidade.” Se não houver outra saída, Luciana Ikedo, assessora de investimentos, orienta buscar modalidades de crédito mais baratas. Se você perdeu o emprego, mas outro membro da família não, conversem para entender quem pode tomar o empréstimo mais vantajoso, como o consignado ou aqueles que solicitam garantias reais, como antecipação de décimo terceiro, restituição de imposto de renda ou bens como imóvel e carro. Se você possui alguma gordura financeira para queimar, não saia pagando todas as dívidas com esse dinheiro. “Existe a tendência de querer usar a reserva para liquidar todos os compromissos de uma vez. Mas essa não é uma boa escolha. Estamos dirigindo em uma estrada com neblina. Não está claro se daqui a dois ou três meses será preciso usar esse recurso”, alerta Luciana. A orientação é manter o valor que será usado no mês na conta- corrente e dividir a quantia restante entre aplicações com liquidez, como Tesouro Selic, título da dívida do governo indexado à taxa básica de juros, e Fundo DI, que tem a maior parte dos ativos atrelada aos títulos federais. “Mantenha o investimento e faça o resgate à medida que for necessário. E anote o valor que deve a si mesmo para repor a reserva de emergência quando possível.”

MENTE BLINDADA

Nesse processo, é preciso cuidar do psicológico. A neuropsicóloga Adriana Foz, autora do livro Frustração: Como Treinar Suas Competências Emocionais para Enfrentar os Desafios da Vida Pessoal e Profissional, explica que oscilações emocionais prejudicam – e muito – a tornada de decisão. Para enfrentar dificuldades e acalmar a mente diante da inviabilidade de pagar as contas e fazer novas compras, procure se reorganizar com aquilo que já tem. “Dar soluções diferentes para as mesmas situações é um exercício bacana para a mente e para a saúde mental. É uma forma de treinar o cérebro para deixá-lo mais fortalecido.” Outra dica para evitar que o desespero reine é forçar pensamentos positivos, relembrando as conquistas que teve e os desafios que superou. Pode parecer bobagem, mas esse tipo de atitude mental gera confiança, equilíbrio e a certeza de que, apesar de os tempos serem complexos, sobreviveremos a eles.

CUIDADO COM AS PROMOÇÕES

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que o impacto na renda e o medo do desemprego levaram 77% dos consumidores a reduzir a compra de diversos itens durante a pandemia. Ou seja, de cada quatro brasileiros, três reduziram gastos. Isso tem levado marcas a fazer promoções online agressivas. Mesmo que sua renda não tenha sido afetada, especialistas recomendam fugir das tentações, que podem ser ainda maiores no isolamento. Quando estamos em casa, começamos a notar várias coisas que não temos e gostaríamos de ter: um liquidificador novo, uma batedeira mais potente. São necessidades que podem parecer urgentes, mas não são. “Administrar o desejo de consumo é essencial, porque não existe clareza sobre quando haverá retomada da atividade econômica”, diz a assessora de investimentos Luciana lkedo. Marco Harbich, da Planejar, recomenda a metodologia dos “Ps”: “Preciso? Posso?”. Primeiro, reflita se realmente necessita do produto e, depois, se o orçamento permite comprá-lo com tranquilidade. Essas duas indagações são essenciais para fazer escolhas de consumo.

PLANO DE CONTINGÊNCIA

1 – Se ficou sem salário e não possui reservas, busque maneiras rápidas de reduzir despesas do dia a dia e priorize itens básicos, como alimentos e medicamentos. Contas consideradas essenciais, como luz, água e gás, podem ser suspensas.

2 – Se tiver reservas financeiras, tente preservá-las ao máximo. Nada de sair por aí quitando todas as pendências (como as parcelas do financiamento do carro e do imóvel), porque você não sabe se precisará do dinheiro nos próximos meses.                                                                                            

3 -Antes de cortar serviços como internet, tv a cabo e celular, negocie com os fornecedores. você pode conseguir descontos sem optar pelo cancelamento. Por outro lado, se ficou sem renda, cancele supérfluos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A SÍNDROME DO CORAÇÃO PARTIDO

A doença é causada sobretudo pelo estresse, potencializado atualmente pela Covid. Coloca em alto risco o funcionamento cardíaco e pode matar

que se vive sob o pavor e o estresse do novo coronavírus. “Grandes tragédias, como a Covid-19, causam estresse e dele decorre graves problemas no coração”, diz o cardiologista Sergio Timerman, do Instituto do Coração de São Paulo e integrante da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Nessa enfermidade os sintomas são os mesmos do infarto agudo — dores no peito e muita dificuldade para respirar —, só que acrescidos de uma inflamação do ventrículo esquerdo do coração, o que dá ao órgão o formato da armadilha citada no início desse texto. “A diferença é que essa síndrome não causa obstrução das artérias, mas, sim, uma alteração no músculo do coração”, diz Timerman.

A situação de exacerbado estresse induz a produção demasiada de substâncias estimulantes no organismo, sobretudo a adrenalina, que leva tal órgão a trabalhar mais rapidamente e com maior vigor. Até aí tudo bem, não fosse o fato de que tal rapidez e tal energia ocorrem em excesso. Esse é o mecanismo biológico que enquadra uma pessoa no diagnóstico de Síndrome do Coração Partido. “As cotecolaminas, hormônios que estão presentes em nosso organismo, são imprescindíveis para o funcionamento do mecanismo biológico que, diante de uma adversidade, nos leva a lutar ou a fugir”, diz Antônio Eduardo Pesadro, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

De volta ao estudo da americana Cleveland Clinic, foram analisados 1.914 pacientes por cinco momentos diferentes e durante dois meses. Desmontou-se um mito: aquele de que a enfermidade ocorria sobretudo em mulheres no período pós-menopausa. No Brasil, estima-se que quatorze milhões de pessoas sofram de males cardíacos, traduzindo-se em 30% de todas as mortes no País — são 30 mil óbitos por ano. Esse é o principal motivo que levou a Sociedade Brasileia de Cardiologia a iniciar um estudo de quantos episódios de Coração Partido estão incluídos nesses trágicos números.

EXAME ESPECÍFICO

O médico assistente do Instituto do Coração Roque Marcos Savioli, doutor em Cardiologia pela USP, conta que, em um de seus plantões, atendeu uma senhora de 80 anos em situação de emergência cardíaca. Ele só descobriu que se tratava de um caso de Síndrome do Coração Partido ao realizar um cateterismo: “Nos outros exames, a situação da paciente estava normal. Só depois do cateterismo vimos a imagem de Takotsubo”. Na verdade, há tantas doenças ao todo, que existe um esforço internacional para melhor compreendê-las. Tanto é assim, que o Centro Nacional de Pesquisa Médica em Cardiologia da Rússia juntou pesquisadores americanos e europeus e realizaram uma videoconferência sobre esse vasto universo médico. Um dos temas priorizados foi justamente a Síndrome do Coração Partido.

EU ACHO …

VOCÊ SENTE SAUDADE DE QUÊ?

Quero abraçar, pisar na areia, jogar vôlei. Mas ainda não é hora

Dia desses, eu caminhava pela Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, e entrava por uma porta, à esquerda. Diante de mim, prateleiras enormes de livros, pessoas folheando exemplares nas gôndolas principais. No ambiente, um burburinho de café no 2 piso. Comecei eu mesmo a folhear alguns lançamentos, conferindo a quarta capa e as orelhas para saber mais da história ou abrindo numa página aleatória para ler um trecho. Fiz isso por alguns minutos. Então, acordei. E logo me estapeou a realidade: estamos em junho e faz meses que não visito uma livraria.

Mesmo que eu esteja em casa, com minha biblioteca, nada substitui o prazer de visitar uma livraria e descobrir obras nas estantes, como um desbravador. Comecei minha vida de leitor – e, claro, de escritor- nos clubes do livro do sebo Baratos da Ribeiro, que ficava em Copacabana e agora está em Botafogo, a poucos quarteirões da loja com que acabei sonhando, a Travessa de Botafogo.

Outras tantas livrarias fazem parte da minha vida: a Saraiva do Shopping Riosul, onde lancei meu primeiro livro; as demais Travessas e Saraivas, a Blooks de Botafogo, a Argumento do Leblon e a Da Vinci no Centro. Aliás, nestes tempos difíceis, cabe a nós incentivar as livrarias locais, pequenas, que precisam de leitores apaixonados para atravessar a tempestade. A maioria delas tem feito entregas on-line, com anúncios e promoções nas redes sociais. Não deixe de buscar a sua favorita e realizar uma compra, livros são boas companhias na quarentena.

Sem dúvida, outra saudade enorme é ir ao cinema. Aúltima sessão em que estive foi em meados de março, no cine Roxy, o meu favorito, que agora tem sua existência ameaçada. O mesmo acontece com as salas do grupo Estação, que acaba de lançar uma campanha de financiamento coletivo no site Benfeitoria para seguir em funcionamento quando a pandemia terminar. Tenho visto filmes nos streamings, mas nada substitui o cheiro de pipoca, o apagar das luzes, o telão gigante diante de nossos olhos. Quando poderei ir ao cinema de novo? Ainexistência de uma data final é o pior de tudo.

Para os cariocas, a “banalização da violência” já faz parte da rotina: absurdamente, nós nos acostumamos a frases como “não vá pela Avenida Brasil que está tendo tiroteio”, ou “soube que ontem deram facadas num cara na esquina?”, ou “mataram dois bandidos aqui no bairro”.

Agora, existe uma espécie de “banalização do fim”. Quando o coronavírus começou, nos horrorizamos com os números de mortes que chegavam da Itália: 700, 800… Neste momento, no Brasil, os números estão por volta de 1.500 mortos por dia, com projeções de chegar a 3.000, 5.000, e parece que boa parte da população não despertou para a gravidade do que estamos vivendo: no Rio, os calçadões estão cheios; bares, restaurantes e comércios funcionam de vento em popa. Para essas pessoas, respaldadas no presidente lunático, a quarentena nunca começou. Enquanto isso, daqui, as saudades se avolumam: quero abraçar meus amigos, pisar na areia da praia, sair para um bar, fazer um churrasco, jogar vôlei. Mas ainda não é hora. Por enquanto, vou continuar sonhando.

**RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

DEU EM PIZZA, QUE BOM!

Nenhuma comida faz mais sucesso na quarentena do que a criação napolitana que virou símbolo paulistano e se espalhou pelo Brasil. O próximo passo: o delivery pelo ar

A pizza virou o prato forte dos brasileiros que moram nas grandes cidades e se protegem contra a pandemia, ficando em casa e pedindo comida fora. A popularidade do serviço de delivery já era enorme. Agora, alcançou êxito inesperado. Segundo a Associação Pizzarias Unidas do Brasil, desde o começo da pandemia, em abril, o faturamento de suas filiadas aumentou em até 30%, conforme a região do país. Iniciado o confinamento da população, as pizzarias com salão para receber clientes se voltaram 100% para a entrega em domicílio, associando-se às que a realizavam exclusivamente. Precisavam contornar os prejuízos. Afinal, suas portas foram cerradas. O sucesso foi tanto que, mesmo com a reabertura, pretendem continuar preparando comida para viagem.

Muitas pizzarias tiveram de se reinventar nos primeiros dias do fechamento. A Castelões, de São Paulo, é o maior exemplo. Aberta em 1924, no bairro do Brás, jamais apostou na entrega. Para não apagar o forno a lenha, a mais antiga pizzaria do país se rendeu ao serviço. Foi em abril, quando completou 96 anos de idade.

A pizza chegou ao Brasil entre o fim do século XIX e início de 1900. Veio com os 80.000 imigrantes de Nápoles e comunidades vizinhas da região da Campânia. Eles se instalaram em São Paulo, nos bairros do Brás, Mooca, Belenzinho e Bixiga. Acabou se tornando prato nosso. Há hoje 40.000 pizzarias no país. Só na cidade de São Paulo funcionam entre 4.500 e 6.000. Calcula-se que a metade seja exclusivamente delivery.

A operação de entregar a pizza no endereço do cliente requer eficiência. Para manter a qualidade, ela deve chegar rapidamente ao destino. Cerca de quarenta minutos depois de sair do forno, esfria e perde a crocância. “Daí adotarmos uma embalagem aluminizada e só fazermos entregas até uma distância de no máximo dez quilômetros”, diz Arri Coser, dono da rede Maremonti, de São Paulo, que pôs três restaurantes no delivery. A cadeia paulistana Ráscal fez outra opção em sete casas. Passou a despachar a pizza pré-assada e congelada; ou com a cobertura à parte, para a montagem. “O cliente termina de assá-la em casa e fica ótima”, garante Luísa Bielawski, sócia da Ráscal.

Os pedidos do delivery chegam por meio de aplicativos, de plataformas como iFood, Rappi e Uber Eats, de sites, WhatsApp e telefone. Hoje, como se sabe, a pizza é entregue por moto­boys. Profetiza-se que o serviço logo contará com drones, muito mais velozes. Testes com essas aeronaves pilotadas remotamente estão sendo feitos pela americana Domino’s, a maior rede de entregas de pizzas do mundo. Há duas semanas, ela atendeu a um cliente enviando um drone até a Praia de Zandvoort, na Holanda. No Brasil, a pizzaria Vero Verde de Santo André, na Grande São Paulo, realizou teste parecido em 2014, esbarrando na falta de licença das autoridades oficiais.

O namoro com a inovação enriquece uma bela história. No início da vida em São Paulo, os imigrantes italianos moravam mal, muitos em cortiços. Para reforçar o orçamento, os napolitanos e patrícios da Campânia começaram a fazer pizza em casa para vender. Os que não dispunham de forno a lenha levavam a redonda, como a chamavam, para assar em padarias de portugueses. A seguir, saíam oferecendo nas ruas, em pedaços.

Transportavam a pizza em um tambor de metal, em cuja parte inferior ardia carvão em brasa. Tinha massa grossa e borda alta; na cobertura, molho de tomate e mussarela; ou filezinhos de aliche com ou sem queijo; reunindo os dois ingredientes, virava mezzo a mezzo. Hoje, as variações são ilimitadas. Nos últimos dois anos, conforme a associação de pizzarias, as mais pedidas nos restaurantes e deliveries do país são, pela ordem, a pizza de linguiça calabresa, a portuguesa e a frango com catupiry. As três receitas nasceram em São Paulo. Campeã absoluta, a calabresa passou a ser preparada no fim da década de 30, depois que um açougue paulistano produziu a linguiça do mesmo nome, até então caseira. A portuguesa surgiu entre as décadas de 50 e 60, em homenagem aos padeiros que cediam o forno aos imigrantes. Já a frango com catupiry é da década de 70, quando um vendedor da fábrica de laticínios sugeriu a um pizzaiolo que testasse seu requeijão em uma redonda.

Acredita-se que a pizzaria número 1 do Brasil foi a Santa Genoveva, de São Paulo, aberta em 1910 e fechada em 1940, no Brás. O dono era D. Carmino Corvino, italiano de Salerno, perto de Nápoles. Começou vendendo pizza na rua. Juntando dinheiro, inaugurou a Santa Genoveva. Portanto, como instituição, a pizzaria brasileira faz aniversário: completa 110 anos em 2020. Pode-se imaginar a perplexidade de D. Carmino Corvino se ressuscitasse, fosse morar em um apartamento e aparecesse um drone com uma pizza quentinha na sacada. Mas talvez se sentisse aliviado ao desfrutar do conforto de não precisar descer até a portaria com uma máscara cobrindo a boca e o nariz, para enfrentar a pandemia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE JULHO

PÁSCOA: CHOCOLATE OU SANGUE?

Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue… (Romanos 5.9a).

A sociedade secularizada trocou não apenas o cordeiro pelo coelho, mas também o sangue pelo chocolate. O sangue nos causa repulsa, mas o chocolate é doce ao paladar. O chocolate nos agrada e nos dá prazer, mas o sangue nos deixa constrangidos e atônitos. Porém, o que o chocolate tem que ver com a Páscoa? Absolutamente nada! Essa é a religião secularizada. Cria símbolos que agradam ao gosto do homem, mas afastam as pessoas do caminho de Deus. A redenção do cativeiro não aconteceu por causa do chocolate, mas por causa do sangue. Não o nosso próprio sangue, mas o sangue de um cordeiro substituto. Aquele cordeiro sem defeito, imolado em favor de cada família, era um tipo de Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não somos salvos pelas nossas obras; somos salvos pelo sangue de Cristo. Ele é o nosso Cordeiro pascal. É pela sua morte que temos vida. É pelo seu sangue que somos libertos e purificados de todo o pecado. O chocolate é bom e agradável, mas não como símbolo da Páscoa. As nossas obras podem ser úteis, mas não para a nossa redenção. Não são as nossas obras que nos justificam, mas a obra de Cristo na cruz por nós.

GESTÃO E CARREIRA

WHATSAPP QUER SER SEU NOVO BANCO

Aplicativo anuncia ferramenta de pagamentos e transferências para usuários do Brasil e gera empolgação para uns e desconfiança em outros.

O WhatsApp começou como um simples aplicativo de mensagens. Tornou-se um dos principais serviços de transmissão de notícias. Também é usado como ferramenta para divulgar produtos e serviços. E ganhou o mundo. São 2 bilhões de usuários em 180 países. E agora, 11 anos após ser criado, entra no mercado financeiro ao permitir pagamentos e transferências entre usuários. “Estamos facilitando o envio e o recebimento de dinheiro assim como o compartilhamento de fotos”, disse Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, dona do WhatsApp, na segunda-feira (15), em anúncio que gerou um misto de empolgação e desconfiança no Brasil, primeiro país a receber a atualização do sistema.

A novidade já começou a ser liberada para algumas pessoas, tanto para o sistema IOS quanto para o Android. O acesso ao recurso será aos poucos. A opção ‘pagamento’ será incluída no menu de ações. Inicialmente, a parceria prevê transações com cartões de débito ou crédito de Banco do Brasil, Nubank e Sicredi, das bandeiras Mastercard e Visa. A processadora é a Cielo.

O serviço pode ser usado por pessoas físicas e jurídicas. Usuários poderão transferir dinheiro para outras pessoas, como pagar a mensalidade do aluguel da quadra de futebol com amigos e passar valores a familiares, além de quitar compras sem cobranças adicionais. Já as pequenas e médias empresas, que utilizam o WhatsApp Business (versão corporativa do app), pagarão taxa fixa de 3,99% do valor de cada transação para receber os pagamentos de clientes. Assim, o WhatsApp incrementa sua monetização como provedor de receita do grupo Facebook – que também inclui o Instagram e outras redes –, que faturou globalmente US$ 70,7 bilhões em 2019.

CICLO DE VENDA

O lançamento do WhatsApp Pay mexeu com o mercado brasileiro. Afinal, são 130 milhões de usuários no País, sendo cada vez mais utilizado para divulgar e gerar negócios. A ferramenta completa o ciclo de venda dentro da plataforma, de maneira fácil e ágil, o que entusiasmou alguns setores. O principal deles relacionado a vendas diretas. Segundo pesquisa nacional de perfil desenvolvida por uma consultoria independente a pedido da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), o WhatsApp é o principal canal de vendas de 84,7% dos empreendedores independentes do setor, formado por 4 milhões de empreendedores, que comercializaram 2,5 bilhões de itens (produtos e serviços) em 2019 e geraram um volume de negócios de R$ 45 bilhões. Os dados foram coletados em janeiro e fevereiro e, portanto, não captam a aceleração digital ocasionada pela pandemia. O aplicativo, que já era uma das principais alternativas de vendas antes do isolamento social, tornou-se ainda mais importante e foi adotado, inclusive, por grandes redes varejistas.

“É um divisor de águas. Ajuda na recuperação da economia neste momento de crise causada pela Covid-19”, diz Renato Mendes, mentor da Endeavor Brasil, especialista em startups e empreendedorismo. “A nova função de pagamentos só ajudará os comerciantes a se adaptarem à economia digital, ao ‘novo normal’. Mais uma vez vemos na tecnologia uma saída para o crescimento e a recuperação financeira”, afirma Ricardo Zanlorenzi, CEO da Nexcore, especializada em soluções em atendimento e comunicação omnichannel para empresas otimizarem e personalizarem o relacionamento com clientes. “É uma experiência de uso interessante”, diz Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de tecnologia voltada para o mercado financeiro, fintechs e gestão de risco.

CICLO DE VENDA

O lançamento do WhatsApp Pay mexeu com o mercado brasileiro. Afinal, são 130 milhões de usuários no País, sendo cada vez mais utilizado para divulgar e gerar negócios. A ferramenta completa o ciclo de venda dentro da plataforma, de maneira fácil e ágil, o que entusiasmou alguns setores. O principal deles relacionado a vendas diretas. Segundo pesquisa nacional de perfil desenvolvida por uma consultoria independente a pedido da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), o WhatsApp é o principal canal de vendas de 84,7% dos empreendedores independentes do setor, formado por 4 milhões de empreendedores, que comercializaram 2,5 bilhões de itens (produtos e serviços) em 2019 e geraram um volume de negócios de R$ 45 bilhões. Os dados foram coletados em janeiro e fevereiro e, portanto, não captam a aceleração digital ocasionada pela pandemia. O aplicativo, que já era uma das principais alternativas de vendas antes do isolamento social, tornou-se ainda mais importante e foi adotado, inclusive, por grandes redes varejistas.

“É um divisor de águas. Ajuda na recuperação da economia neste momento de crise causada pela Covid-19”, diz Renato Mendes, mentor da Endeavor Brasil, especialista em startups e empreendedorismo. “A nova função de pagamentos só ajudará os comerciantes a se adaptarem à economia digital, ao ‘novo normal’. Mais uma vez vemos na tecnologia uma saída para o crescimento e a recuperação financeira”, afirma Ricardo Zanlorenzi, CEO da Nexcore, especializada em soluções em atendimento e comunicação omnichannel para empresas otimizarem e personalizarem o relacionamento com clientes. “É uma experiência de uso interessante”, diz Carlos Netto, CEO da Matera, empresa de tecnologia voltada para o mercado financeiro, fintechs e gestão de risco.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEUS COLEGAS ESTÃO BEM?

Os problemas psicológicos estão crescendo durante a pandemia da covid-19, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Conversar abertamente com o pessoal do trabalho pode ajudar a aliviar o problema

Isolamento social, medo de contágio, perda de membros da família e insegurança em relação ao emprego são fatores que fizeram a Organização Mundial da Saúde (OMS) identificar, em relatório publicado em maio, um impacto preocupante no bem-estar psíquico durante a pandemia da covid-19. Doenças mentais como depressão, ansiedade, burnout, entre outras, não são novidade. Em 2017, a OMS já havia avaliado que mais de 300 milhões de pessoas tinham depressão e 260 milhões enfrentavam transtorno de ansiedade, sendo que a maioria sofria de ambos. Mas a  pesquisa feita por causa da crise do coronavírus mostrou que pessoas que antes estavam com equilíbrio psicológico passaram a não estar tão bem; outras que haviam tido alguns episódios de ansiedade e estresse tiveram mais casos; e as que já possuíam efetivamente doenças mentais em estado contínuo tiveram uma piora no quadro e redução da funcionalidade.

PARTE DA SOLUÇÃO

É importante entender que nem sempre quem está com problemas desse tipo consegue identificá-los ou se sente encorajado a pedir ajuda. Por isso os colegas têm um papel tão importante: podem notar se pares, subordinados ou chefes estão sofrendo psicologicamente e oferecer ajuda.

De acordo com especialistas, os sinais podem ser identificados até na rotina do home office. Comportamentos como dificuldade para acompanhar reuniões, desorganização, problemas de memória, desânimo e apatia são indicativos de que algo não vai bem. Também é preciso ficar de olho em mudanças de atitude, como alguém que era calmo e se tornou mais agressivo ou alguém que vivia animado e perdeu toda a disposição.

A ajuda começa quando alguém se coloca à disposição para escutar os colegas. Assim, cria-se um espaço seguro para compreender como está a saúde mental deles. “Conte uma história de sua própria vida e fale o que fez para lidar com aquela situação. Assim você não está invadindo, não está impondo nada nem sendo autoritário. Está se colocando disponível, sem tentar resolver o problema do outro”, diz Cristiana Wadt, psicóloga analítica sistêmica. Foi o que fez o publicitário Dico Barbosa, de 33 anos, que, no começo do isolamento, teve crises de ansiedade. “Depois disso comecei a perguntar com mais frequência a meus colegas se eles estavam bem, e isso abriu espaço para começarem a me procurar e a desabafar sobre as ansiedades que também estavam sofrendo”, afirma. Com os bate-papos, ele notou que havia um alto nível de estresse, causado pela própria pressão no trabalho, somado com pressão em casa, tensão ao ler notícias, entre outras coisas. “Nessas conversas informais passei a tentar dar mais apoio a eles”, diz o publicitário.

CUIDADO COM AS PALAVRAS

No intuito de ajudar, muitos podem fazer afirmações que invalidam os sentimentos alheios – o que só atrapalha. “Não tente motivar alguém com frases de lugar-comum, como ‘você não tem motivos para se sentir assim’. Isso aumenta o sentimento de culpa de quem tem depressão. Prefira mostrar compreensão e encorajá-lo a buscar soluções médicas”, explica Wagner Gattaz, professor titular de psiquiatria na Universidade de São Paulo e CEO da Gattaz Health & Results.

Isso aconteceu com a consultora de restaurantes e bares Lívia Stefaneli, de 31 anos, no início de sua carreira, quando tinha apenas 18 anos. Na época, uma colega de trabalho notou uma mudança em seu comportamento e, na tentativa de ajudar, a abordou pontuando que ela estaria com depressão. Misturando a imaturidade e o tabu em torno da doença, Lívia entrou, de fato, em depressão. “Na verdade, eu estava com sintomas de burnout: fazia faculdade, estágio, exercícios e, quando ela disse isso, fiquei com a sensação de que havia falhado”, diz Lívia. “Foram três anos de terapia e tratamento para entender isso, mas que também foram bons para compreender muitas outras coisas.”

LÍDERES, ATENÇÃO!

O medo de perder o emprego, que acaba sendo potencializado pela crise econômica que todo o mundo vive, faz com que as pessoas se sintam inseguras para pedir ajuda ou mesmo precisar se afastar. Embora algumas empresas estigmatizem profissionais com problemas desse tipo, para Ricardo Basaglia, diretor-geral da empresa de recrutamento Page Group, o risco de demissão está mais relacionado, para além deste momento, com a história que foi construída na empresa.

“É muito improvável que alguém nessa situação não tenha nenhum tipo de problema. Mas cada um tem um perfil e reage de uma forma. Não há demérito nenhum em enfrentar problemas relacionados à saúde mental.”

O gestor precisa escutar e criar uma relação de empatia em que o funcionário se sinta à vontade para se expor – e, quando o próprio chefe demonstra vulnerabilidade, isso fica mais fácil. “A maior parte dos profissionais tem ‘síndrome do super-homem’, o que reforça o medo de expor suas fraquezas. Mas, quando falamos de seres humanos, é muito difícil ter controle e potência ao mesmo tempo”, diz Ricardo. A empatia foi importante para a bancária Denise Muramatsu, de 38 anos, retornar à empresa depois de um período de cinco meses de afastamento por causa de questões de saúde mental. Seu chefe havia passado por uma situação semelhante e a acolheu. “Ele era muito bom com gestão de pessoas e sabia o que estava acontecendo comigo. Recebi bastante suporte dele e da equipe, que preparou um café da manhã quando voltei.” Denise relata que o estopim para receber o diagnóstico foi uma crise de pânico no meio do ambiente de trabalho. “Eu senti que estava para ter uma crise, algo que já vinha sentindo em densidades menores, e pedi para uma colega me ajudar a ir ao ambulatório. Porém, no meio do caminho, eu desabei e passei muito mal. A área toda parou, preocupada com o que estava acontecendo”, recorda. A médica da empresa foi incisiva e falou que só iria liberá-la se ela tivesse uma consulta marcada com um psiquiatra ainda naquela tarde.

“Àquela altura, já não adiantaria mais o tratamento com um psicólogo. Eu tinha de iniciar o uso de medicamentos. “O que aconteceu com a bancária não foi de um dia para outro. Havia condições psicológicas preexistentes que, somadas ao estresse do trabalho, culminaram em um diagnóstico de síndrome do pânico, ansiedade e depressão. “Hoje, sinto-me muito segura quanto à minha saúde mental. Eu não faço mais o tratamento com remédios, continuo na terapia e sei que a qualquer sintoma posso recorrer a esse tipo de ajuda.” Para a surpresa de Denise, a experiência fez com que outros colegas a procurassem e se abrissem sobre estar passando ou ter passado por problemas semelhantes. “Até a minha crise, meus colegas não entendiam a saúde mental como um problema palpável. Nem eu”, diz a bancária.

HORA DE DESMISTIFICAR

Para o médico Wagner Gattaz, o tabu em torno das doenças psicológicas atrapalha o diagnóstico. Ele afirma que leva, em média, cinco anos entre os primeiros sintomas e o início do tratamento. E, em casos graves, a doença pode destruir famílias e carreiras. ”Tive um paciente que levou dez anos para ter o diagnóstico e encontrar o tratamento adequado. Nisso, ele acabou perdendo tudo: se separou, perdeu o escritório e se perguntava se àquela altura ainda fazia algum sentido se tratar”, diz Wagner. Por isso é importante entender que doenças mentais são como quaisquer outras – demandam tratamento e naturalidade para falar sobre o assunto. “É como diabetes, hipertireoidismo, pressão alta. As empresas devem compreender que, quando um profissional é afastado precocemente por tais problemas, o retorno costuma ser rápido com o tratamento, entre três e quatro semanas’, explica Wagner. E talvez este momento de pandemia, quando todo mundo está em contato com ansiedades e inseguranças, seja um divisor de águas para que as empresas compreendam a necessidade de disseminar noções de qualidade de vida mental. A psicóloga Desirée Cassado, que também é professora na The School of Life, explica: “É um momento único, em que o trabalho entra no ambiente doméstico. Conhecer a vulnerabilidade do outro pode gerar cumplicidade para cada um se abrir mais sobre esses assuntos”.

RESCALDO DA PANDEMIA

Relatório da Organização Mundial da Saúde mapeou quais são as principais consequências da crise do coronavírus para a saúde mental

1. Medo de se infectar, de morrer, de perder pessoas queridas e/ou de ficar desempregado

2. Ansiedade por estar há um longo tempo afastado do convívio com amigos e familiares

3. Alto estresse por causa da quantidade de informações erradas sobre o vírus e sobre as medidas de prevenção

4. Risco de haver alta no número de suicídios entre os jovens, assim como ocorreu durante a crise econômica americana de 2008

5. Crescimento de comportamentos viciantes, como abuso de álcool e de outras substâncias, compulsão alimentar e excesso de jogos online

EU ACHO …

QUANDO A PANDEMIA NOS DEIXA SOZINHOS, ANSIOSOS E DEPRIMIDOS

Estamos em uma crise dupla, de saúde física e mental. Mas existem formas de evitar o colapso

Por quase 30 anos – a maior parte da minha vida adulta – eu lutei contra a depressão e a ansiedade. Apesar de nunca me sentir sozinho em tais aflições cotidianas – o segredo de família que todos compartilham -, agora eu descubro que tenho mais colegas de sofrimento do que jamais pude imaginar.

Em uma questão de semanas, os sintomas familiares da doença mental se tornaram uma realidade universal. Uma nova pesquisa da Kaiser Family Foundation observou que quase metade dos entrevistados disse que sua sanidade está sendo afetada pela pandemia do novo coronavírus. Praticamente todo mundo que eu conheço foi catapultado para diferentes graus de angústia, pânico, desesperança e medo paralisante. Se você disser “Estou tão aterrorizado que mal consigo dormir”, as pessoas podem responder “Quem, em sã consciência, não está?”.

Mas essa resposta pode nos levar a perder a dimensão da perigosa crise secundária que se desdobra ao lado daquela mais óbvia: uma escalada de doenças mentais, no curto e no longo prazo, que pode durar décadas depois do fim da pandemia. Enquanto todo mundo relata estar sentindo depressão e ansiedade, problemas mentais raros, de ordem médica, podem passar despercebidos.

Enquanto governos nacionais e locais (alguns preocupantemente mais lentos do que outros) reagiram à propagação do coronavírus de formas objetivas, o reconhecimento dos riscos à saúde mental tem sido superficial. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, que até agora recrutou mais de 8 mil profissionais de saúde mental para ajudar os nova-iorquinos em apuros, é uma honrosa exceção.

O governo da China mandou psicólogos e psiquiatras para a cidade de Wuhan, durante o primeiro estágio de quarentena. Nenhuma medida comparável foi tomada até agora pelo governo americano.

A diferença de postura em relação aos dois tipos de saúde – física e mental – é coerente com a atual falta de consideração da nossa sociedade com a estabilidade psicológica. Os convênios não oferecem a real paridade de cobertura, e o tratamento para desordens de comportamento é geralmente considerado um luxo. Mas estamos em uma dupla crise de saúde física e mental, e aqueles enfrentando desafios psiquiátricos merecem tanto reconhecimento quanto tratamento.

As ramificações da pandemia na saúde mental foram identificadas há muito tempo, mas sistematicamente ignoradas pelo governo. Um estudo após o surto de H1N1 em 2013 disse: “Porque as pandemias são tragédias singulares e não incluem locais de congregação para suporte e recuperação prolongados, elas exigem estratégias de resposta especificas para garantir as necessidades comportamentais de saúde de crianças e famílias. Os planos de combate a pandemias devem contemplar essas necessidades”. Outro estudo afirmou: “Embora as informações para os aspectos médicos das epidemias estejam cada vez mais disponíveis, há pouca orientação para os centros de saúde sobre como gerenciar os aspectos psicológicos de desastres em larga escala, que podem envolver um surto de vítimas psicológicas”.

Existem mais ou menos quatro respostas à crise do coronavírus e ao seu consequente isolamento social. Algumas pessoas aceitam tudo com tranquilidade e contam com uma base de inabalável estabilidade psíquica. Outros são os preocupados, que precisam apenas de um pouco de primeiros socorros psicológicos. Um terceiro grupo, que ainda não experimentou esses distúrbios, está sendo catapultado para eles. Por fim, muitos que já saíram de um transtorno depressivo maior tiveram sua condição exacerbada, desenvolvendo o que os médicos chamam de “depressão dupla”, na qual um transtorno depressivo persistente é sobreposto por um episódio de dor insuportável.

O isolamento social gera pelo menos tanto aumento de casos de doença mental quanto o medo do próprio vírus. Julianne Holt-Lunstad, psicóloga, descobriu que o isolamento social é duas vezes mais prejudicial à saúde física de uma pessoa do que a obesidade. O confinamento solitário nos sistemas prisionais causa ataques de pânico e alucinações, entre outros sintomas. O isolamento pode até tornar as pessoas mais vulneráveis à doença que se tenta prevenir: os pesquisadores determinaram que “o sistema imunológico de uma pessoa solitária responde diferentemente ao combate aos vírus, aumentando a probabilidade de desenvolver uma doença”.

A crença de que as coisas não estão bem é razoável; a crença de que nada voltará a ficar bem parece indicar uma condição clínica. Um ajuste gradual à nossa circunstância incomum é a trajetória apropriada; a sensação de que a cada dia isso se torna mais insuportável é patológica. Existe a mais fina das membranas entre a ansiedade sensível e a irracional, em uma espiral. Eu sei que tenho as duas, mas tentar separá-las é como desfazer o nó górdio.

Temos dois gatilhos para a doença mental na crise atual: tristeza, quando tememos por nossas vidas, e estresse, quando nossos apegos emocionais diminuem como resultado do isolamento social. Como país, não tomamos as medidas adequadas para lidar com nenhuma dessas crises, e falhamos especialmente na segunda.

A propagação do vírus não pode ser atenuada por enquanto, mas o medo antecipado que ele instiga pode ser atenuado pelas tradicionais formas de intensificar os medicamentos e o contato com os terapeutas. Buscar tais apoios não é uma fraqueza ou um fracasso. Faça o que for preciso para não ter um colapso. É muito mais fácil prevenir do que reparar, e temos boas ferramentas para evitar a sobrecarga psíquica.

O isolamento também tem remédios. As confraternizações com Zoom e FaceTime não servem adequadamente para muitas pessoas. Devemos observar caso a caso quando os benefícios para a saúde mental de ver alguém que você ama (mesmo fora e a um metro e meio de distância) são maiores que os perigos que um encontro pessoal pode trazer para a saúde.

O medo do contágio levou as pessoas a um comportamento que agrava a depressão e a ansiedade e, portanto, pode levar ao suicídio – aumentando a mortalidade da covid-19 entre as pessoas que nem a têm. Pessoas solitárias podem sucumbir à “privação de contato” e precisam ser abraçadas. Tiffany Field, diretora do Instituto de Pesquisa de Toque da Miller School of Medicine da Universidade de Miami, afirma que a privação de toque exacerba a depressão e enfraquece o sistema imunológico; o toque positivo estimula o nervo vago e reduz o cortisol, um hormônio do estresse que pode prejudicar a resposta imune. Deveríamos descobrir quando e como as pessoas privadas de contato podem obter o contato físico necessário, com a maior segurança possível. Não será completamente seguro – mas a privação também não o é. Se a pessoa está morrendo de vontade de tocar, toque, por mais regulamentado que seja. Torna-se um remédio necessário. Não é caro nem complicado.

Essas são as maneiras de transcender a patologia. Como alguém que já tinha depressão e ansiedade, eu não queria encarar um curso intensivo de empatia, mas já tive um. Sinto-me singularmente bem posicionado para confortar aqueles que estão em seu primeiro mergulho na depressão, e diariamente alcanço aqueles que precisam de contato, psicológico ou físico. Tornou-se um chamado para mim.

Eu posso ajudá-los a avaliar o que é patológico e remediável. Conheço esses becos indesejáveis – e os caminhos de saída deles – como a palma da minha mão. Não é que um antidepressivo vai deixar as pessoas sem medo desse vírus misterioso e terrível, nem que um único abraço vai atenuar a profunda solidão. Mas podem ajudar.

Outro dia, nosso filho, em idade de quinta série, disse trêmulo: “Quanto tempo vai levar para eu ver meus amigos novamente? O que vamos fazer se eles cancelarem o acampamento?”. E então ele perguntou, mais trêmulo: “E se você e papai morrerem? 0 que vai acontecer comigo?”. Ele estava mostrando algumas das minhas tendências depressivas ou estava apenas assustado e triste? Ele saiu rapidamente e não voltou ao assunto, embora eu tenha deixado claro que ele pode. É meu projeto de galvanização manter uma cara boa diante dele. Ser forçado a negar a depressão pode ser uma tirania social perigosa, mas a escolha de derrotar os sinais externos em alguém mais vulnerável me motiva. Em parte, por causa dele, ajustei meus remédios e estou em contato com meu terapeuta, e me empenho em abraçá-lo e abraçar meu marido, sabendo que nós três salvamos um ao outro.

Faço uma caminhada diária na natureza com meu filho e nosso cachorro. Às vezes, ele e eu pulamos num trampolim, que, apesar de dar um tranco nas costas, é imensamente reconfortante. Meu marido, meu filho e eu nos juntamos para assistir a um filme todas as noites; meu marido também está lendo obsessivamente livros sobre epidemias, da peste negra à pandemia de gripe espanhola, e aprendendo português pela internet. Todos nós encontramos conforto de maneira curiosa.

As autoridades continuam dizendo que a covid-19 passará como a gripe para a maioria das pessoas que a contraem, mas é mais provável que seja fatal para as pessoas mais velhas e para as pessoas com complicações prévias. O grupo de risco deve, no entanto, incluir a depressão gerada por medo, solidão ou tristeza. Devemos reconhecer que, para uma grande parte das pessoas, a medicação não é uma indulgência e o contato físico não é um luxo. Para muitos de nós, o protocolo de álcool em gel e máscaras inadequadas não é nada, comparados à tarefa diária de desinfetar a própria mente.

*Este artigo foi publicado originalmente no Jornal americano The New York Times

***ANDREW SOLOMON – Professor de psicologia clínica na Columbia University Medical Center e autor de Longe da Árvore, O Demônio do Meio-Dia e Lugares Distantes.

OUTROS OLHARES

ANTIVIRAL E FASHION

Fabricantes lançam roupas que seriam imunes à contaminação pelo coronavírus. A tendência ganhou tração e deve levar a uma nova era de inovação no setor

O tão esperado novo normal ganhou uma faceta mais estilosa. Como forma de oferecer proteção contra a Covid-19, algumas marcas de roupa lançaram nos últimos dias tecidos que, segundo garantem, são capazes de neutralizar o novo coronavírus. Por ser um dos países com maior incidência da doença, o Brasil tem recebido ampla oferta de peças supostamente imunes. Na maioria dos casos, o tecido é comprado da empresa suíça HeiQ, que alega que o material utilizado na confecção foi exaustivamente testado por cientistas. Entre as empresas brasileiras que fizeram negócio com a HeiQ está a multinacional Vicunha, que nos próximos dias apresentará ao mercado seus jeans antivirais e antibacterianos. “Nosso objetivo é atender aos anseios do novo consumidor em um mundo em transformação”, afirma German Alejandro, diretor de marketing e vendas da Vicunha. Outro caso é o da marca catarinense Malwee, que lançou há algumas semanas camisetas e máscaras também teoricamente à prova do coronavírus.

Desde que os primeiros casos surgiram na China, diversas empresas largaram em uma corrida para desenvolver produtos capazes de bloquear a ação do vírus. Criada em 2004 por estudantes de iniciação científica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Nanox especializou-se em nanotecnologia e usou sua experiência na área para criar um tecido feito a partir de micropartículas de prata. Segundo a empresa, isso é suficiente para eliminar, em três minutos, quase 100% do vírus da Covid-19 que entrar em contato com a roupa. Uma das maiores indústrias químicas do mundo, a Rhodia desenvolveu no Brasil um fio de poliamida que, conforme assegura a companhia, possui propriedades antivirais e antibacterianas. A substância pode ser aplicada em vestimentas e bancos de veículos, na forma de capas protetoras. A Rhodia diz que a tecnologia é também uma forma de tornar o transporte público mais seguro, pelo menos enquanto não sair uma vacina. Fabricado no Brasil, o tecido já está sendo exportado para a Itália, além de ser vendido para algumas marcas nacionais. Entre os clientes da Rhodia está a Lupo, gigante nacional de moda íntima que produziu 2 milhões de máscaras feitas com o fio de poliamida.

Não foram apenas os fabricantes de jeans e camisetas convencionais – os chamados modelos básicos – que aderiram ao movimento. A marca brasileira fashion J. Boggo+ lançou uma coleção inteira de vestidos, túnicas, calças e blusas feita com tecidos antivirais. Nos Estados Unidos, a grife Vollebak confeccionou jaquetas revestidas com um tipo de cobre que, de acordo com pesquisas feitas pela empresa, mata vírus e bactérias. Grandes varejistas brasileiras como Riachuelo e Renner estão atentas a esse novo mercado e não descartam investir em linhas próprias de peças que seriam capazes de aniquilar a Covid-19 e outros vírus, embora não forneçam informações sobre o tema. Segundo especialistas, a tendência veio para ficar e a busca por inovações nessa área deverá ser uma obsessão das empresas a partir de agora. Diante da tecnologia necessária para a produção dessas peças, é de imaginar que o preço das roupas seja salgado. Não é ocaso. As camisetas vendidas pela Malwee custam 49,90 reais, o mesmo de um modelo convencional. Há uma explicação para isso. Os baixos valores se devem ao desgaste rápido das roupas. Em todas as peças antivirais, os componentes químicos presentes nas vestimentas, responsáveis por torná-las aparentemente imunes ao coronavírus, são enfraquecidos cada vez que a peça vai para a lavadora. Na maioria dos casos, a propriedade antiviral das roupas só é garantida até a trigésima lavagem, o que reduz bastante a vida útil das peças. Outro aspecto que merece atenção especial dos consumidores diz respeito à serventia das roupas no combate a doenças. Elas entregam o que prometem? “Tecidos antivirais são, sim, eficazes “, afirma João Prats, infectologista do Hospital Beneficência Portuguesa. “No entanto, não sabemos se esses modelos são realmente úteis no caso do coronavírus. De forma geral, a Covid-19 dura pouco tempo em tecidos e é raro que roupas sejam grandes fontes de contaminação.” Os consumidores parecem confiar nas alegações das empresas. Apenas 72 horas após o lançamento da linha antiviral, todas as 40.000 máscaras da Malwee desapareceram dos estoques. Pelo visto, não vai demorar muito para as peças antivirais entrarem definitivamente na moda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE JULHO

TRIUNFO CONSTANTE

Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo… (2Coríntios 2.14a).

A vida cristã é uma carreira triunfante, mesmo constituindo-se em uma jornada por caminhos crivados de espinhos. Podemos ter um otimismo indestrutível não em virtude das facilidades da peregrinação, mas apesar das agruras da caminhada. Não porque pisamos em tapetes aveludados, mas apesar de cruzarmos desertos causticantes. Nosso entusiasmo não provém das circunstâncias, mas do Deus que controla as circunstâncias. Nosso sucesso não vem de nós mesmos, vem de Deus. Não vem de dentro, vem de cima. Não é fruto da autoajuda, mas da ajuda do alto. É Deus quem nos conduz em triunfo. E isso não por causa de nossos dons e talentos, mas pelo triunfo de Cristo. Todas as bênçãos que temos, nós as recebemos de Deus por meio de Cristo. Não é uma questão de mérito, mas uma expressão de graça. Triunfamos não porque somos fortes, mas apesar de sermos fracos. Não porque somos sábios, mas apesar de sermos limitados. Não porque somos ricos, mas apesar de sermos pobres. O triunfo não é conquista, é dádiva. Não o recebemos como prêmio, mas como presente imerecido. Na verdade, tudo provém de Deus, para que toda a glória seja dada a ele. Deus, e não o homem, é a origem de todas as coisas. Deus, e não o homem, é o agente de todas as coisas. Deus, e não o homem, é o fim de todas as coisas. Porque de Deus, por meio de Deus e para de Deus são todas as coisas. A Deus, pois, seja a glória pelos séculos dos séculos!

GESTÃO E CARREIRA

A FEBRE DAS MARMITAS

Para economizar ou se alimentar melhor, as pessoas estão consumindo comidas prontas saudáveis. Tocar um negócio nesse segmento exige mais do que que preparar uma refeição bem temperada

Os brasileiros que não têm oportunidade de cozinhar e que, ao mesmo tempo, estão em busca de pratos mais saudáveis a um preço acessível têm enxergado na compra de marmitas caseiras uma alternativa para o dia a dia. Esse mercado ganhou mais espaço nos últimos cinco anos. A explicação vem da crise econômica que deixou mais de 12 milhões de pessoas sem emprego. “Muita gente parou de consumir refeições em restaurantes e recorreu às tradicionais marmitas, que, em geral, são mais baratas. Foi quando vimos brotar vários negócios, principalmente de microempreendedores individuais, os MEIs”, explica Karyna Muniz, consultora do Sebrae São Paulo. Dados do Ministério da Economia apontam que o número de empresários do ramo de alimentação para consumo domiciliar (o que inclui os marmiteiros) cresceu muito nos últimos anos. Em 2014, eram 102.100. Em 2020, são 247.700 – um salto de 142%.

MAIS DO QUE BOM TEMPERO

Em geral, a necessidade de urna renda imediata é o que atrai empreendedores para esse ramo. Embora à primeira vista possa parecer um segmento fácil de atuar, já que muita gente começa a preparar as refeições na cozinha de casa, há diversas normas sanitárias a serem seguidas. A resolução federal da Anvisa RDC 216, de 1999, que trata sobre as Boas Práticas para Serviços de Alimentação, é uma das mais importantes. O documento recomenda, por exemplo, que a área onde serão produzidas as marmitas seja segregada do restante da residência – não é uma lei, mas uma sugestão para quem quer se profissionalizar no setor. “Qualquer um pode começar a empreender dentro de casa, mas, quando a gente fala de transformação de insumos que serão ingeridos por humanos, deve-se seguir mais à risca as legislações, mesmo que seja no ambiente doméstico”, diz Karyna. É fundamental saber, especialmente, a forma correta de manusear e armazenar os alimentos. A especialista do Sebrae explica, por exemplo, que para congelar um alimento de forma segura é preciso submetê-lo a uma temperatura de, no máximo, 12 graus negativos, o que não é garantido por um freezer doméstico. O que aparenta ser um mero detalhe pode tornar a refeição imprópria para o consumo e, como consequência, desencadear problemas de saúde entre os clientes – e sérios prejuízos para o empreendedor. “Ele pode responder legalmente e criminalmente se algum consumidor tiver urna intoxicação alimentar”, explica. Por isso a profissionalização do segmento é tão necessária. Para o empreendedor que tem uma verba disponível, vale a pena investir, desde já, na adequação de um espaço exclusivo para o preparo dos pratos. Será necessário desembolsar, em média, 30.000 reais. A adequação deve incluir colocação de piso antiderrapante; bancada de inox; pia exclusiva para lavar as mãos; instalação de telas nas janelas para evitar a entrada de insetos; lixeiras com pedal; além de aparelhos eletrodomésticos que  devem ser usados exclusivamente para o preparo dos pratos que serão comercializados  (como freezer, fogão, geladeira e forno). “Atendendo a esses requisitos, o empresário terá mais chances de evitar a incidência de contaminação cruzada e a proliferação de bactérias”, diz Karyna.

Se não tiver verba suficiente para montar uma estrutura conforme manda a lei, o empreendedor pode recorrer às cozinhas compartilhadas, como é o caso da Oficina na Mesa e do Hub Foodservice, localizados em São Paulo e que funcionam como uma espécie de coworking voltado para o ramo de alimentação. “O usuário paga por hora para usar equipamentos industriais próprios para a produção de pratos em maior escala”, diz Karyna. Depois de escolher o local é importante definir um cardápio semanal para comprar com inteligência os ingredientes que serão usados no preparo das marmitas.

CAMINHO DAS PEDRAS

Muitos se assustam com isso, mas formalizar o negócio traz vantagens. Quando se torna uma pessoa jurídica, o empreendedor tem acesso a benefícios como a possibilidade de barganhar preços menores na compra de ingredientes. “Sem CNPJ, ele vai ter de comprar insumos no varejo, que são mais caros do que os vendidos por distribuidores ou atacados, que só vendem para empresas”, diz a especialista do Sebrae. Para quem acabou de abrir o próprio negócio, a orientação é se cadastrar como Microempreendedor Individual no Portal do Empreendedor. A modalidade é indicada para empresas que faturam até 81.000 reais por ano e têm até um empregado.

Além disso, para quem es tá começando, a dica é receber os pedidos com pelo menos 24 horas de antecedência e, com isso, evitar entregar as marmitas com atraso. Quanto ao armazenamento, é imprescindível que as refeições sejam colocadas em embalagens certificadas. Outra orientação refere-se ao cadastro em aplicativos de entrega. O empreendedor que, logo de cara, opta pelo app para comercializar os pratos, pode acabar se enrolando com a demanda. “Não dá para saber a quantidade de pedidos que serão feitos, e ele poderá não dar conta. O ideal, portanto, é migrar para as plataformas só depois de ter uma produção estruturada”, acrescenta Karyna. No começo, a orientação é usar o próprio carro para fazer a entrega ou oferecer ao cliente a opção de retirar o pedido no local.

COMO SE DESTACAR

Quem quer empreender no ramo de marmitas deve encontrar um diferencial competitivo – só assim o negócio irá parar de pé. Para isso, é fundamental entender que existem dois grandes guarda-chuvas nesse mercado. O primeiro deles inclui a produção de pratos tradicionais. “Nesse caso, o principal apelo é oferecer uma refeição que tenha preço acessível e que contenha elementos de comfortfood, ou seja, com gosto de comida de casa, como a mãe da gente fazia”, explica Sérgio Molinari, sócio da Food Consulting, consultoria especializada em alimentação.

Foi justamente pensando em atender às necessidades dessas pessoas que o publicitário Nelson Andreatta, de 39 anos, fundou, em 2018, a Eats For You, plataforma que conecta pessoas que gostam de cozinhar a consumidores que estão à procura de uma refeição caseira para almoçar. A ideia surgiu em 2016 quando o empreendedor, que ainda administrava sua agência de publicidade e propaganda em Cuiabá, em Mato Grosso, se cansou das opções de refeições oferecidas ao redor do escritório. “Um dia tivemos uma reunião que terminou próximo ao horário do almoço e meu sócio perguntou onde iríamos comer. Me lembrei de todos os restaurantes da redondeza e não tive vontade de ir a nenhum deles. O que eu queria era uma comida caseira”, diz Nelson.

Ao olhar pela janela do escritório, imaginou quantas pessoas estavam em casa, naquele momento, preparando o próprio almoço. Assim, vislumbrou a oportunidade de lançar sua startup. O empreendedor e sua sócia, Ester Scheffer, investiram 150.000 reais de capital próprio para desenvolver a plataforma, que demorou cerca de um ano para ficar pronta. “O objetivo era formar uma rede de conexão de cozinheiros e cozinheiras, levando a produção de refeições a uma escala industrial, mas de forma artesanal, além de proporcionar geração de renda para essas pessoas”, explica Nelson. Porém, em vez de Cuiabá, o destino escolhido para operar o negócio foi São Paulo. “Quando chegamos à conclusão de que a ideia era original, precisávamos marcar território e ir para um grande mercado.”

Mas para driblar o atraso na entrega na hora do almoço, que é comum – seja pelo excesso de pedidos, seja pelo trânsito intenso dos centros urbanos -, o empresário optou por um novo modelo. Em vez do tradicional delivery, estabeleceu pontos para o cliente retirar pessoalmente sua comida: foodbikes que armazenam as refeições. Ao todo, são 17 espalhadas por bairros localizados nas cidades de São Paulo, Barueri (SP), e Curitiba (PR). Funciona assim: o consumidor compra as refeições por meio do aplicativo e retira seu pedido no ponto mais próximo. “Como as pessoas têm 1 hora de intervalo, se o motoboy atrasa, o cliente pode ficar sem tempo para fazer a refeição”, diz Nelson.

Mas esse modelo teve de ser revisto durante a pandemia de coronavírus, que fez com que as cidades implementassem o isolamento social e as empresas adotassem o home office. Sem os pontos de retirada, as vendas da Eats For You chegaram a zero, e a alternativa foi aderir ao delivery – algo que deve ser mantido quando a crise passar. A startup também está incentivando clientes e empresas a doar marmitas para instituições que atendem moradores de rua – mais uma forma de manter a renda dos cozinheiros da plataforma. “Muita gente depende do nosso trabalho. Era um compromisso moral manter a engrenagem funcionando”, diz Nelson. A empresa não quis revelar o faturamento, mas cresceu 205% em 2019 e emprega, atualmente, 20 funcionários diretos. Em 2019, a Eats For You anunciou uma rodada de investimentos no valor de 767.500 reais, com a participação dos fundos Bossa Nova Investimentos – que já havia investido na plataforma anteriormente – e GVAngels, grupo de investidores-anjo formado por ex-alunos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A rodada de investimentos segue aberta e, até o fim do primeiro trimestre de 2020, a startup recebeu 1,5 milhão de reais.

A BUSCA POR UM NICHO

Além das comidas caseiras, outro nicho de atuação é o de pratos especializados, que se fortalece pela vontade dos clientes de consumir opções orgânicas e saudáveis. Nesse caso, de acordo com Sérgio, da Food Consulting, o chamariz é o benefício proporcionado pela comida. Em geral, o cliente que opta por esse tipo de cardápio está disposto a pagar mais. O especialista orienta o pequeno empreendedor a se abrigar nesse espaço e fugir da guerra de preços – uma vez que o mercado mais acessível já foi conquistado por grandes empresas, que conseguem produzir em larga escala e, portanto, reduzir o valor para o consumidor final. “Com o passar do tempo, se o pequeno empreendedor não tiver nenhum diferencial além do preço, como um produto bacana, uma embalagem bem tratada ou uma entrega especial, ele será esmagado por forças maiores”, explica. Por isso, a dica do especialista é ficar de olho em nichos para atuar.

Foi justamente o que fez a nutricionista Fernanda Casstillo Amparo, de 38 anos, que vende marmitas saudáveis para empresas e hospitais. A paulista, que é diabética, sempre levou para o hospital em que trabalhava a própria refeição, preparada pela mãe, Maria Margherita do Amparo. O cheiro da comida caseira aguçava a vontade dos colegas, o que fez Fernanda enxergar uma oportunidade. Como ela não queria abandonar o emprego estável, convenceu a mãe (até então dona de casa) a preparar refeições para ser vendidas aos colegas do hospital. Em 2016, nasceu a Naturale Marmitaria. “Ao ver meus pais envelhecendo, comecei a pensar em ter uma empresa familiar para complementar a renda, pois uma hora eles iriam depender somente de aposentadoria”, diz Fernanda.

Paralelamente ao trabalho no hospital, Fernanda se inscreveu como MEI e foi estudar finanças e marketing para aprender mais sobre a jornada empreendedora. Com o boca a boca e a distribuição de panfletos em estabelecimentos comerciais, as vendas se intensificaram. Um ano e meio depois, a cozinha da casa dos pais não era mais suficiente para atender aos pedidos. Em 2018, Fernanda usou parte do dinheiro da venda de um apartamento para reformar o salão de festas no fundo da residência e montou uma nova cozinha. A reforma, que custou cerca de 20.000 reais, incluiu a troca de pisos e azulejos, além da compra de utensílios como freezer, fogão industrial e coifa. Foi nessa época que Fernanda – que até então atuava com a venda de marmitas para pessoas físicas – decidiu ampliar seu foco de atuação. Além de atender o público em geral, a Naturale passou a oferecer refeições para o segmento corporativo. A estratégia ajudou a enfrentar a alta concorrência que o segmento ganhou nos últimos anos. O faturamento mensal saltou de 25.000 (em 2018) para 80.000 reais. Com seu negócio a pleno vapor, Fernanda pediu, em abril de 2019, um afastamento não remunerado do hospital em que era concursada. “Os últimos dois anos foram de crise, e muita gente começou a trabalhar com marmita. Foi quando decidimos nos reinventar e atender esse nicho de pessoas jurídicas.” A Naturale, que tem atualmente dez funcionários, vende, em média, 8.000 marmitas por mês. O preço varia de 16 a 23 reais. E a empresa tem contrato assinado com sete companhias, com prazos de prestação de serviço que variam entre um e três anos. Com a covid-19, que colocou muitos funcionários em home office, Fernanda inovou: disponibilizou vouchers para que os funcionários de seus clientes pudessem pedir as refeições de casa.

PEQUENOS PRODUTORES

A Liv Up, startup que vende pratos congelados, saladas, snacks e sucos, tenta se diferenciar pelo uso dos ingredientes: as matérias-primas das marmitinhas são orgânicas e fornecidas por pequenos produtores rurais. A plataforma, lançada em 2016, surgiu de uma insatisfação dos sócios Victor Santos e Henrique Castellani, ambos com 31 anos, que tinham dificuldade para encontrar alimentos saudáveis, práticos e com preços acessíveis no dia a dia de trabalho. Os dois atuavam no mercado financeiro e não tinham relação nenhuma com o universo da gastronomia. Porém, o fato de Henrique ser de uma família de pequenos produtores ajudou a dupla a dar o pontapé inicial no negócio. “Começamos a pesquisar sobre tecnologias que poderiam auxiliar a garantir essa entrega de comidas práticas, saudáveis e saborosas, até que conhecemos a técnica de ultracongelamento com a qual trabalhamos e que é um de nossos diferenciais hoje”, reitera Victor. Do planejamento à abertura das portas foram quatro meses. O investimento inicial no projeto foi de aproximadamente 1 milhão de reais (300.000 reais em economias próprias e o restante formado por aportes feitos por amigos e parentes). Atualmente, 25 produtores familiares de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina abastecem a Liv Up com alimentos orgânicos. “Os diferentes locais nos ajudam a contornar questões como sazonal idade e clima.” A empresa, que opera em 40 cidades e tem mais de 500 funcionários, chega a vender cerca de 300.000 refeições por mês. Embora não divulgue o faturamento, a startup estima triplicar de tamanho até o fim de 2020. O resultado deve ser impulsionado, principalmente, pelas novas unidades de negócios inauguradas no início do ano: o Liv Up station, para atender o mercado corporativo, e a cloud kitchen, um serviço de delivery especializado em saladas.

MARGEM APERTADA

Veja qual é a porcentagem do faturamento que deve ser reinvestida na empresa

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA DROGA CHAMADA PAIXÃO

Avanços das neurociências e da psicologia nos ajudam a compreender os mecanismos biológicos do amor

Quem já se apaixonou sabe: quando vivemos essa experiência nos transformamos. O amor é capaz de nos levar ao desespero ou ao êxtase. E talvez até à guerra, se considerarmos a história do rapto de Helena e à campanha contra Tróia. Hoje, graças aos progressos das neurociências e da psicologia comportamental, começamos a compreender as bases biológicas profundas e os mecanismos subjacentes ao que se passa em nós quando experimentamos sentimentos de paixão, afeto ou contentamento. As descobertas revelam algumas pequenas surpresas. Examinados do ponto de vista biológico, muitos dos véus românticos que recobrem o fenômeno do amor desprendem-se facilmente. No entanto, um permanece: o do desejo sexual. Quando buscam sua origem, os cientistas logo esbarram numa série de enigmas. Por que desejamos uma pessoa específica? A que se deve o fato de sentirmos paixão ou desejo?

Em primeiro lugar, há que se fazer uma observação. Existe uma diferença fundamental entre o prazer por alguma coisa e o prazer em alguma coisa – ou seja, entre as sensações que temos quando almejamos algo e o que sentimos ao obtê-lo. Especialistas diferenciam aqui o prazer ou desejo apetitivo (por algo) do consumado (em algo). Além disso, desejo e amor não constituem um fim em si mesmos: têm metas biológicas palpáveis e concretas.

O prazer sexual não se desenvolveu visando a satisfação pessoal, mas para encorajar a reprodução. Tampouco as sensações profundas comumente etiquetadas como “amor” podem negar seu pano de fundo biológico: auxiliam no estabelecimento e na manutenção de um vínculo entre parceiros. Esses mecanismos são comandados por estruturas cerebrais particulares e por neurotransmissores. Prazer e amor são, portanto, essencialmente produzidos no cérebro e determinam nosso comportamento em função de um objetivo.

Quando se trata de considerar quem nos desperta a libido, um aspecto fundamental se impõe: orientação sexual depende em primeiro lugar da nossa própria sexualidade. O interesse por uma pessoa não se define apenas pelas características do corpo do outro, mas principalmente por aspectos psíquicos e cerebrais de quem sente a atração. Fundamental importância têm aí os hormônios, e sobretudo os sexuais. Muito antes da puberdade, eles encaminham o desenvolvimento não apenas de nossos órgãos genitais, mas também de partes do cérebro rumo ao masculino ou feminino.

Antes mesmo do nascimento, começam a atuar. Num feto geneticamente masculino, pequenas quantidades do hormônio sexual testosterona chegam ao cérebro no último terço da gravidez, influenciando seu desenvolvimento. Receptores sensíveis a esses hormônios sexuais encontram-se em numerosas regiões cerebrais. Pela determinação do sexo respondem sobretudo receptores hormonais situados no hipotálamo. Quando a testosterona exerce sua influência durante a fase pré-natal crítica, o cérebro será masculino. Na ausência desse hormônio, feminino.

Curiosamente, porém, não é a testosterona em si que surte efeito nesse processo: antes, ela é transformada em estrogênio, em geral conhecido pelos leigos como o hormônio sexual feminino. Fetos geneticamente femininos se protegem dessa ação específica do estrogênio auxiliados pela alfafetoproteína. Durante o desenvolvimento do cérebro, a testosterona interfere num processo natural fazendo com que células nervosas supérfluas sejam descartadas. Graças a essa interferência, morrem menos neurônios, razão pela qual a área frontal do hipotálamo dos mamíferos de sexo masculino é bem maior e mais rica em neurônios. Nos humanos, porém, essa diferença é menor do que, por exemplo, nas ratazanas.

PREFERÊNCIA SEXUAL

O hipotálamo é de especial importância na orientação e no comportamento sexual. Isso se evidencia no fato de as células nervosas do hipotálamo anterior exibirem intensa atividade quando um animal macho se aproxima de um parceiro sexual ou quando copula. Se essa região estiver lesada, o comportamento sexual dos machos no tocante à cópula será prejudicado, ainda que mantenham o interesse em fêmeas.

Certas experiências durante a gravidez também podem influenciar a orientação sexual dos descendentes. Dentre elas, sobretudo o stress parece desempenhar papel importante. Se uma ratazana em gestação for exposta a stress, o cérebro de seus rebentos machos terá em média menos características masculinas.

Além disso, eles apresentarão com frequência orientação homossexual e exibirão comportamento mais maternal. O motivo é que, por causa do stress, a testosterona se apresentou cedo demais no cérebro. Os descendentes “feminilizados” nem sempre são homossexuais: se criados com fêmeas sexualmente ativas, em geral desenvolvem orientação heterossexual. Isso mostra de forma clara que o comportamento sexual não pode ser explicado apenas pelos hormônios. Ao contrário: fatores hereditários, influências hormonais e experiências individuais e a interação com os outros membros do grupo atuam aí em estreita vinculação.

Como pode, porém, o stress atuar sobre cérebros masculinos, preferência sexual e conservação da espécie? Para a sociobiologia, sob condições de vida difíceis, a feminilização dos cérebros reduziria a taxa de natalidade em uma comunidade, o que possibilitaria oferecer cuidado maior aos raros descendentes.

Essa explicação bem poderia se aplicar aos seres humanos, que têm comportamento sexual em parte desvinculado da meta da reprodução e voltado à obtenção do prazer. Pesquisas realizadas até agora com humanos confirmam as descobertas oriundas dos modelos animais. Também no nosso caso o hipotálamo anterior desempenha papel decisivo no tocante à preferência sexual. Os homossexuais do sexo masculino possuem menos neurônios nessa região do cérebro que os heterossexuais, exibindo, sob esse aspecto, uma estrutura cerebral mais aparentada à feminina. Além disso, também nos seres humanos o stress pré-natal parece conduzir com mais frequência descendentes do sexo masculino à orientação homossexual. Até o momento, no entanto, os conhecimentos adquiridos em relação ao ser humano são escassos e, em boa parte, indiretos. Não admira que suscitem controvérsia – ou mesmo completa rejeição, baseada no argumento de que, nesse âmbito, os resultados de experiências com animais não seriam transferíveis à esfera humana.

Entre tanto, admite-se cada vez mais que existem bases biológicas na preferência por um parceiro de mesmo sexo ou do sexo oposto. Está claro que a formação individual do cérebro desempenha papel tão importante quanto a educação ou a sociedade, e a definição do caminho a trilhar parece ocorrer nos primeiros estágios do desenvolvimento.

DO FLERTE À CÓPULA

Sexo e desejo decerto não são tudo na vida. Para a maioria dos seres humanos, a qualidade do relacionamento com o parceiro possui, no mínimo, importância equivalente. De resto, a atração sexual e o vínculo com o parceiro atendem ao mesmo propósito biológico: assegurar a reprodução da espécie. Um rápido exame de nossos parentes mais próximos nos mostra a multiplicidade de relacionamentos possíveis. Os orangotangos, por exemplo, só se unem para a fecundação e vivem o resto do tempo como eremitas, os gibões são monogâmicos, os gorilas formam haréns e os chimpanzés vivem trocando de parceiro. Entre humanos, encontramos todas essas variações, embora a tendência à monogamia seja predominante. A variedade de tipos de relacionamento aponta para o fato de que o vínculo com o parceiro está sujeito a fortes influências culturais e sociais.

Bases biológicas da monogamia foram encontradas em pequenos roedores que vivem nas pradarias dos Estados Unidos. Estritamente monogâmicos, esses animais preocupam-se bastante com seus descendentes. Mas seus vizinhos que habitam as Montanhas Rochosas, ao contrário, trocam de parceiro com frequência e logo abandonam a prole à própria sorte. A semelhança física e genética entre essas duas espécies é muito grande. Mas dois hormônios presentes no hipotálamo, a vasopressina e a oxitocina, revelam diferenças notáveis entre elas. O roedor monogâmico tem no cérebro um número bem maior de receptores para aqueles hormônios que seu parente promíscuo.

Em geral, a concentração sanguínea desses hormônios aumenta claramente durante a cópula, de acordo com o sexo do animal: nos machos, sobe o nível de vasopressina; nas fêmeas, o de oxitocina. Também nos humanos esses dois hormônios parecem importantes na estimulação sexual, na ereção e na capacidade de orgasmo. Nos homens, o nível de vasopressina no sangue aumenta durante a expectativa sexual, e o de oxitocina, durante o orgasmo. Na mulher, acreditam alguns pesquisadores, a vasopressina reduziria o desejo sexual, e a oxitocina desempenharia seu papel tanto durante a fase do flerte quanto da cópula. Contudo, essas são apenas transposições de resultados experimentais obtidos com animais. As normas sociais, a educação, as expectativas podem prevalecer sobre a influência exercida por um hormônio específico.

Mas e quanto ao vínculo entre os parceiros? De fato, no caso dos roedores, os dois hormônios desempenham papéis importantes também nesse âmbito. O macho das pradarias, de cérebro rico em vasopressina, apresenta vínculo mais forte com sua parceira e se preocupa mais com a prole, ao passo que, nas fêmeas, é antes a oxitocina que estimula o cuidado com a cria. É de supor que o nível hormonal elevado durante o acasalamento ajude a fortalecer o vínculo entre parceiros. Também entre humanos a vasopressina e a oxitocina parecem ter, ao menos em parte, as mesmas funções. Considerando-se o amor como vínculo entre parceiros, teríamos dado aí um primeiro passo para a compreensão biológica desse fenômeno.

Como se articulam, então, o amor e as funções cerebrais? Existem centros de prazer ou neurotransmissores da felicidade? Nesse contexto, o ano de 1954 representa um marco para a pesquisa. Nesse ano, os neurocientistas americanos James Olds e Peter Milner implantaram no cérebro de ratos pequenos eletrodos que transmitiam estímulos elétricos. Os animais gostaram tanto que se detinham constantemente nos lugares em que os cientistas realizavam a estimulação.

Além disso, aprenderam por conta própria a pressionar uma alavanca que lhes proporcionava tais estímulos. O resultado foi que passaram a se estimular milhares de vezes por hora, negligenciando até mesmo suas necessidades naturais – um comportamento que lembra a forte dependência de drogas ou, em certo sentido, o de um ser humano muito apaixonado. A suposição óbvia a que isso conduziu foi que o estímulo elétrico ativava no cérebro um centro de recompensa ou mesmo de prazer.

Muitas regiões do cérebro são sensíveis à estimulação elétrica, mas apenas em poucas áreas o estímulo conduziu os animais ao excesso, o que se verificou sobretudo na lateral do hipotálamo. Não se encontrou aí o suposto centro do prazer: na verdade, a estimulação instigava também feixes de nervos que percorriam toda a região estimulada. Logo um sistema de células nervosas ocupou o centro das atenções – um sistema que se origina no mesencéfalo, percorre a lateral do hipotálamo e abastece com o neurotransmissor dopamina grande parte do prosencéfalo.

Com isso, aumentou o interesse dos cientistas nas funções desempenhadas pela dopamina, que os pesquisadores viam, em parte, como uma espécie de sinal de prazer. Basearam essa conclusão na observação de que sua atividade aumenta quando da prática de todo tipo de ação vinculada a sensações agradáveis-seja quando os animais se autoestimulam com a eletricidade, quando ingerem comida saborosa, quando da copulação ou estão sob a influência de drogas, corno a cocaína, a anfetamina, a heroína ou a nicotina.

Assim como aprendem a se autoestimular, os animais descobrem corno administrar por conta própria essas substâncias, sobretudo quando são injetadas diretamente no sistema de células dopaminérgicas do cérebro. Se esse sistema é experimentalmente desativado, recompensas elétricas, químicas ou naturais deixam de surtir efeito – corno se não existissem sensações de prazer pelas quais os animais seguem repetindo determinada tarefa. Não está claro, porém, se os ratos são de fato capazes de experimentar o prazer na forma como nós o concebemos. Ainda que sejam, isso significaria dizer que os pesquisadores encontraram um centro do prazer, bem como neurotransmissores do prazer? Não é bem assim. Na verdade, a estimulação elétrica do hipotálamo lateral conduz a uma continuada atividade das vias nervosas e simula, assim, antes o prazer – apetitivo – por alguma coisa do que o prazer – consumado – na obtenção do que se queria. Além disso, a dopamina faz com que, já durante as fases de expectativa e de preparação, o organismo oriente seu comportamento para as metas almejadas, aprendendo a utilizar novas informações que prenunciam a viabilidade de alcançá-las.

ORGASMO POR ELETRODOS?

A implantação de eletrodos no cérebro de humanos só é admitida quando da necessidade de intervenção médica, razão pela qual são poucas as pesquisas existentes nessa área. Pacientes que sofreram estimulação elétrica do hipotálamo lateral relatam “sensações difíceis de descrever, como se algo de interessante e excitante fosse acontecer”. Sensações agradáveis verificaram-se também na estimulação de outras regiões do cérebro, como, por exemplo, do septo lateral. As experiências vividas nesses casos foram descritas como um prazer semelhante ao orgasmo. Se um paciente podia se autoestimular nessa região, ele o fazia em grande medida, sem, contudo, atingir o orgasmo de fato.

ATÉ A LOUCURA

Nos últimos anos, com o auxílio dos métodos de diagnóstico por imagem, como a tomografia nuclear ou por emissão de pósitrons, cientistas puderam verificar reações em seres humanos e expandir muitos dos conhecimentos adquiridos em experiências com animais. O estudo dessas imagens identificou uma série de regiões cerebrais que, diante de emoções diversas, revelam intensa atividade. Uma mesma estrutura cerebral pode, no entanto, ser estimulada tanto por sensações agradáveis como por sentimentos indesejados, como o medo. A existência de centros específicos de prazer não pôde até o momento ser comprovada de modo inequívoco.

Experiências com pessoas sexualmente excitadas mediante a contemplação de imagens ou cenas eróticas ou pornográficas revelam fortes mudanças de atividade em diversos pontos do cérebro, especialmente em sua extremidade anterior. O padrão dessas mudanças de atividade é bastante semelhante em mulheres e homens. É de supor que os cérebros masculino e feminino processem sensações de prazer de forma parecida.

Os estímulos e situ ações capazes de provocar em nós sensações de prazer são bastante diversos e variados: um pôr-do-sol, a presença da pessoa amada, o prêmio da loteria, uma boa refeição, sexo ou drogas. Isso propõe tarefas difíceis a nosso cérebro: devemos reconhecer e avaliar as diversas situações, talvez associá-las a alguma lembrança e, então, reagir – com ações, por exemplo. As demandas ao cérebro podem ser, portanto, bastante diferenciadas. Seria de esperar, pois, que também as mudanças de atividade nas diversas áreas do cérebro apresentassem forte diferenciação de um caso a outro. Mas certas regiões cerebrais permanecem ativas durante as situações emocionais mais variadas, o que significa que respondem pelo processamento de sensações de todo tipo.

Aos olhos dos psiquiatras, os tormentos mentais experimentados pelos amantes se aproximam do transtorno obsessivo. Os pensamentos dos apaixonados costumam ser incessantemente dirigidos para o mesmo objeto, uma única preocupação – os amantes não sossegam enquanto o desejo não é saciado.

Interpretaremos aqui essa obsessão usando uma nova perspectiva, propiciada por estudos recentes: biólogos mediram a concentração de substâncias que refletem o funcionamento cerebral e concluíram que elas são alteradas da mesma forma nos amantes e nas pessoas que sofrem de transtornos obsessivos. Amar como um louco, portanto, não seria uma mera figura de linguagem.

A pesquisadora Donatella Marazziti e seus colegas da Universidade de Pisa, Itália, testaram a hipótese de que do amor à obsessão e ao delírio haveria apenas um passo medindo a concentração do chamado transportador de serotonina. Essa proteína está presente no sangue e também no cérebro, onde regula a concentração de serotonina, neurotransmissor que influi no humor e no comportamento. Três grupos de voluntários foram examinados: “normais”, apaixonados há pouco tempo e pessoas com transtornos compulsivos. A constatação: o transportador de serotonina variou de forma análoga nos apaixonados e nos pacientes obsessivo-compulsivos. Como interpretar essa constatação? A serotonina participa da regulação de funções instintivas, como apetite, sono, dor, temperatura corporal e sexualidade. A substância está ligada a transtornos, como dependência, impulsividade e ansiedade, e modula a atividade de conjuntos de neurônios no cérebro, agindo sobre o comportamento do indivíduo. Mediante uma modificação do sistema serotoninérgico a imagem do ser amado transforma-se em obsessão.

No transtorno obsessivo-compulsivo, há preocupação constante. Acreditando, por exemplo, que a porta está mal fechada, a pessoa verifica-a incessantemente. Em neurobiologia, a “crença na porta mal fechada” baseia-se na atividade de grupos de neurônios que são ativados de forma repetida e descontrolada. Suspeita-se que uma cadeia de retroação passando pelo córtex e tálamo reative permanentemente a atividade nervosa do mesmo grupo de neurônios. O papel da serotonina nessa atividade ainda não foi demonstrado, mas, se de fato existir, o caráter obsessivo da paixão seguiria a lógica do eterno retorno das imagens obsessivas.

Entretanto, os pensamentos lancinantes do apaixonado e os transtornos obsessivos se distinguem pelo “grau de certeza” experimentado e pela capa cidade da pessoa de aceder a seus próprios estados psíquicos. No transtorno obsessivo predominam a dúvida (o paciente não se convence de que a porta está fechada) e a introspecção (tem consciência do absurdo de suas ideias obsessivas e sabe que emanam de sua mente). Em certas formas de delírio prevalecem, ao contrário, a certeza (a pessoa está convencida de que alguém a quer mal) e a perturbação das capacidades de introspecção (prevalece a convicção de que tem razão e de que os outros estão errados).

A paixão evoluiria assim entre a obsessão e o delírio: o apaixonado está convencido do valor do ser amado e de seu sentimento, mas sabe que essa ideia é um produto de seu psiquismo. As ideias delirantes se distinguiriam das dos apaixonados pelo fato de que o amante tem consciência de seu tormento: escravo de seu desejo, está consciente disso. A biologia endossa a concepção de que o sentimento amoroso situa-se entre a obsessão livremente consentida e o delírio. 

A associação entre obsessão e paixão é confirmada por uma observação fisiológica: a atividade cerebral das pessoas que sofrem de transtornos obsessivo-compulsivos caracteriza-se pela hiperatividade de uma região chamada núcleo caudal, a mesma que é ativada quando os apaixonados pensam no ser amado. Trata-se, portanto, de um novo índice fornecido pelo imageamento cerebral em favor da semelhança entre os dois estados.

Sabemos que o amor também proporciona felicidade e intensa satisfação, ao passo que o transtorno obsessivo é um sofrimento. Onde situar a fronteira? Marazziti e seus colegas estudaram a fase precoce do amor, definida por Stendhal como uma paixão não consumada, restringindo a pesquisa a pessoas perdidamente apaixonadas, mas que ainda não tiveram relações sexuais com o ser amado.

ANTES DO SEXO

Nessa fase de expectativa, a concentração no transportador de serotonina sofre as modificações características dos pacientes obsessivos. Um ano depois (prazo considerado suficiente para a consumação do caso), a medição mostrou que as taxas de transportador de serotonina voltavam a seu nível inicial e a obsessão desaparecia. O amor insano seria uma “patologia” que curamos ao saciá-lo. O paciente obsessivo, ao contrário, jamais se tranquiliza quando a porta é fechada.

Do ponto de vista hormonal, na primeira fase do amor, a obsessiva, são acionados circuitos de neurônios que utilizam a serotonina. Estudos genéticos sugerem que estas redes têm papel inibidor do comportamento, suscitando nos apaixonados formas de amor duráveis e românticas, marcadas pela timidez e caracterizadas por preocupações quase obsessivas em relação ao parceiro, com um envolvimento e uma fidelidade mais acentuadas.

Quando o amado é conquistado, porém, a serotonina cede lugar à dopamina, o “hormônio do prazer”. Os grupos de neurônios que utilizam a dopamina intervêm nos componentes ligados ao prazer e até mesmo naqueles ligados à dependência. Pesquisas evidenciaram um sistema dopaminérgico particular em pessoas que buscam permanentemente aventuras sexuais. Elas têm frequentes variações cíclicas do humor, o que as torna versáteis. Assim um funcionamento que oscila entre esses dois sistemas cerebrais, o da serotonina e o da dopamina, teria o dom de tornar a pessoa intensamente apaixonada e, depois, calmamente satisfeita.

EU ACHO …

A EROSÃO DA VERDADE

A imprensa tradicional pode contribuir para reduzir a polarização e seu próprio declínio. E ajudar a democracia

As guerras e as pandemias mudam o mundo. As mudanças chegam em ritmo acelerado, trazendo enormes desafios, especialmente em um mundo polarizado e conectado. As medidas de resgate econômico tomadas pelo governo e os danos causados pela paralisação econômica nos colocaram em uma estrada árdua, ainda mais íngreme e que requer a colaboração de toda a sociedade. Mais do que nunca, o esforço conjunto é necessário e é importante uma autoavaliação crítica, para não repetirmos os erros e contribuirmos como deveríamos.

Nesse processo, a contribuição da imprensa é fundamental – amplificando e dando ressonância às pautas da nação, questionando políticas públicas, denunciando erros, apontando inconsistências de maneira isenta, ressaltando fatos e análises. Temo que, sem a devida atenção ao fenômeno da erosão da verdade, estudado pela pesquisadora Jennifer Kavanagh, da Rand Corporation, e autora do livro Truth Decay, será difícil para a imprensa cumprir o fundamental papel que lhe cabe.

Em meio a toda essa cacofonia cognitiva, é quase impossível identificar causas, estabelecer diagnósticos e remédios num ambiente de constante guerra de narrativas, em que opiniões e fatos têm fronteiras tênues ou inexistentes. Na guerra de narrativas, a imprensa tradicional foi pega no meio de uma aguda crise financeira, com seu modelo de negócios em xeque, suas receitas diminuindo, a migração para o modelo digital acontecendo e o pânico causado pelas incertezas.

Para lidar com o imenso fluxo de informações gerado pela internet, a solução encontrada pela imprensa tradicional foi se concentrar em interpretações e opiniões, afastando-se de seu papel de provedora de fatos e análises. À medida que perdia credibilidade, seus problemas financeiros se agravaram, e um círculo vicioso se criou. Na guerra de narrativas, a imprensa tradicional teve sua credibilidade abalada, e sem isso é difícil atrair clientes dispostos a pagar por um conteúdo de qualidade.

Em seu livro Davi e Golias, o jornalista Malcolm Gladwell aborda de maneira brilhante como adversários descomprometidos com o statu quo podem desenvolver estratégias e táticas de guerra criativas, que deixam o inimigo completamente impotente, por não perceber que as regras mudaram e que o jogo mudou.

Aconteceu em 2016 na eleição de Donald Trump. A imprensa tradicional foi pega de surpresa e não entendeu que o candidato Trump havia rasgado o manual das campanhas ao ir contra cada regra estabelecida e, ao contrário do que se esperava, aumentava sua visibilidade e seu apoio junto aos descontentes. Após incontáveis denúncias de todos os tipos, Trump chegou a dizer que poderia atirar em alguém na Sa Avenida e sua popularidade não seria abalada. A imprensa tradicional reagia com indignação, como se isso fosse suficiente para frear o candidato. Seria… sob as regras antigas, mas o jogo tinha mudado e Trump havia definido as novas regras.

Em seu livro, Gladwell cita como os ingleses ficavam indignados com o ataque a seus oficiais, algo proibido pelo acordo feito entre as grandes potências europeias e solenemente desconsiderado pelos revolucionários americanos, que os abatiam como patos num lago.

As regras mudaram e, a meu ver, a imprensa tradicional ainda não entendeu isso e tende a repetir seus erros na guerra de narrativas. Há 20 anos, uma autoridade ser pega em uma mentira seria embaraçoso e isso teria um alto custo. Hoje, com o exército de robôs a disseminar narrativas conflitantes, dúvidas são plantadas e, como há mais opiniões do que fatos e análises, é uma questão de tempo para o efeito da denúncia se diluir.

Como os revolucionários americanos, que simplesmente desconsideravam as regras do Velho Mundo, os políticos atuais se defendem com campanhas de contrainformação. A indignação da imprensa tradicional só aumenta a exposição deles e abre espaço para contra-ataques mais virulentos, aumentando o ruído.

É quase impossível extinguir esse círculo vicioso quando não existe um consenso sobre os fatos mais básicos. A imprensa tradicional pode (e deve) combater a erosão da verdade, comprometendo-se e promovendo fatos e análises, deixando claro quando sua posição reflete opinião e definindo claramente a fronteira entre uma coisa e outra. Ciente de que seus leitores são impactados pelo próprio viés de confirmação, ou seja, pela busca seletiva de informações que atestem a própria crença, não existe remédio além de fatos e análises, fatos e análises, repetidos como um mantra!

A guerra de narrativas cria um denominador comum muito baixo, empobrece as discussões, quase elimina a busca por soluções racionais, baseadas em dados e na ciência, provocando uma paralisia política que agrava nossos problemas. Não podemos esquecer que somos um país que lê pouco. E, sem leitura, educação e senso crítico, temos um ambiente fértil para a erosão da verdade.

O ressurgimento do Washington Post com foco no jornalismo investigativo e de qualidade, e com um apego ferrenho aos fatos e análises, mostra que é esse o caminho a seguir. Com ele, o populismo mostra os pés de barro, e a imprensa tradicional, além de atrair clientes que paguem por conteúdo de qualidade, cumpre seu papel como um dos pilares da democracia.

SÉRGIO CAVALCANTI – CEO e fundador da NationSoft Tecnologia

OUTROS OLHARES

BOICOTE AO FACEBOOK

Resistente a qualquer tipo de controle de conteúdos em sua plataforma, mesmo aqueles que incitam ao ódio e à violência, a rede social perdeu mais de US$ 70 bilhões em valor com a debandada de mais de 500 anunciantes mundiais

Pressionado desde a última eleição norte-americana, em 2016, o Facebook chega agora a uma encruzilhada difícil de escapar, com o crescimento do boicote de grandes anunciantes acertando em cheio o caixa da empresa. Mais de 500 companhias mundiais de peso como Unilever, Coca-Cola, Starbucks, Microsoft, entre outras, anunciaram nesta semana a retirada de propagandas enquanto a rede social não tomar medidas para coibir a disseminação de discurso de ódio pela plataforma. A discussão não é nova. Começou com a explosão do caso da Cambridge Analytica, após a vitória de Donald Trump, que analisava os dados pessoais dos usuários do Facebook para manipulação. Mas Mark Zuckerberg resistia a qualquer controle do conteúdo por não querer assumir o que chamava de “postura de árbitro da verdade”. No entanto, o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, em maio, trouxe o problema à tona de novo e os discursos racistas deixaram o nervo exposto, mostrando que o Facebook não mudou nada em quatro anos.

E a reação não demorou, surgindo com força através do movimento #stophateforprofit (Pare o ódio pelo lucro), que prevê o boicote em resposta à falta de compromisso da plataforma. E Zuckerberg sentiu no bolso o reflexo do movimento. A empresa chegou a perder até US$ 70 bilhões em valor na bolsa. Como os anúncios representam quase 90% do seu faturamento, ela se viu sem saída e decidiu rever sua posição. Diz que, agora, vai começar a fiscalizar mensagens violentas.

A preocupação com as redes sociais vem crescendo no mundo todo, especialmente nos EUA, com a aproximação de novas eleições. Em junho, o Twitter, a rede preferida de Trump, interferiu no conteúdo do presidente, que havia publicado a frase “quando os saques começam, os tiros começam”, repetindo uma afirmação racista dita por um policial segregacionista nos anos 1960. Enquanto o Twitter se posicionava, o Facebook continuava se negando em nome da liberdade de expressão. O fato é que o Facebook é hoje a segunda maior plataforma de anúncios do mundo, atrás apenas do Google, com receita anual de US$ 69,7 bilhões. Mas os anúncios são bem pulverizados, sendo que as grandes empresas representam 6% do faturamento. O boicote, porém, chega num momento crucial, em que muitas empresas reduziram campanhas devido à pandemia. Dona de marcas como Dove, Omo e Rexona, a Unilever diz que vai fazer mudanças para gerar transparência nas plataformas digitais. Já a Coca-Cola informa que vai parar os anúncios por 30 dias para rever as políticas digitais da empresa. O Facebook respondeu que investe bilhões para manter a segurança e que já baniu 250 organizações supremacistas brancas, tanto do Facebook, como do Instagram. Mas a resposta não convenceu.

Para especialistas, o impacto financeiro pode não ser tão grande, mas é impossível ignorar o efeito da perda da Unilever, segundo maior anunciante mundial, ou da Coca-Cola. A questão, no entanto, vai além do dinheiro, batendo na reputação, indicando que há problemas de controle e que o ponto central são os algorítmos, que usam inteligência artificial para manter o usuário por mais tempo na rede vendo anúncios. Estes sistemas aprendem o que o usuário gosta, passando a oferecer conteúdos relacionados. Eles também sabem que os conteúdos que provocam indignação são chaves para manter a atenção. Segundo Cris Camargo, CEO do Interactive Advertising Bureau (IAB) no Brasil, as redes sociais sempre apostaram na liberdade de expressão. Mas isso acabou trombando com princípios sociais básicos. Por isso, a entidade, presente em mais de 40 países e criada para parametrização da publicidade digital, treina há sete anos profissionais da área para que conheçam as ferramentas e, principalmente, usem filtros da chamada “brand safe”, que define critérios de onde o anúncio pode entrar. “Mas talvez seja bom essa parada para que a publicidade programática evolua”, diz. Ela cita a ferramenta de retargeting que permite ao anunciante “seguir” o internauta quando ele clica em um produto, por todas as páginas que ele abrir, mesmo que seja de violência ou pornografia. Apesar disso, Cris não acha que a publicidade digital vai perder espaço. “Será temporário, porque não se pode discriminar a tecnologia”, diz.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE JULHO

SALVO NA ÚLTIMA HORA

Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto (Isaias 55.6).

Era sexta-feira da Páscoa em Jerusalém. Às 9 horas da manhã, os soldados romanos ergueram três cruzes no topo do monte da Caveira, o conhecido Gólgota. Na cruz do centro estava Jesus, o Nazareno, e de cada lado seu, dois ladrões. No sopé da cruz, o vozerio da multidão proferindo palavras de blasfêmia tornava o quadro ainda mais sombrio. Em meio às agruras do sofrimento, o ladrão da direita foi tocado pela palavra de Jesus proferida na cruz e arrependeu-se de seus pecados. Reconheceu que era culpado e que Jesus era Salvador e Rei. Clamou por misericórdia e, a despeito de ter vivido até o portal da morte como um fora da lei, foi perdoado e salvo. O ladrão arrependido clamou: Jesus, lembra-te de mim, quando vieres no teu reino. Jesus lhe assegurou: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso (Lucas 23.42,43). Não há casos perdidos para Jesus. Não há vida irrecuperável para o Filho de Deus. Não há situação irremediável quando se recorre ao Salvador. O ladrão crucificado à direita de Jesus reconheceu seu pecado e o confessou. Reconheceu que só Jesus salva e a ele clamou. Encontrou perdão na última hora. Recebeu a garantia do céu nos instantes finais de sua vida. Sua salvação não foi fruto de merecimento, mas de graça. O paraíso de Deus lhe foi dado não porque ele o mereceu por suas obras, mas foi um presente imerecido. A graça é maior do que o pecado!

GESTÃO E CARREIRA

ADEUS ÀS IMOBILIARIAS?

O número de startups do setor imobiliário e de construção quase triplicou nos últimos três anos. Esse crescimento abre as portas para empreendedores e demanda novos profissionais

Há alguns anos, alugar ou comprar um imóvel poderia ser um verdadeiro teste de paciência. Horas pesquisando em anúncios com poucas informações e imagens de baixa qualidade (que quase nunca correspondiam à realidade) e idas e vindas a cartórios eram rotina, sem contar a busca por um fiador – drama à parte para os locatários.

Mas o avanço da tecnologia não tardou a chegar ao mercado imobiliário. Atualmente, potenciais compradores ou locatários conseguem avaliar dezenas de imóveis em alguns minutos, fazem tours virtuais e compram ou alugam casas ou apartamentos totalmente de forma digital. “O mercado imobiliário tinha de se adaptar a essa nova realidade. Não era uma questão de escolha, mas de sobrevivência”, afirma Claudio Hermolin, vice-presidente de intermediação imobiliária e marketing do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP).

UM NOVO MERCADO

Embora a experiência de comprar ou alugar imóveis tenha melhorado nos últimos anos, ainda há muito o que avançar. Um exemplo disso é que, segundo estimativas do setor, uma pessoa leva, em média, mais de um ano para fechar um negócio de compra ou venda de uma propriedade.

Diante de um mercado que movimenta cerca de 200 bilhões por ano e conta com tantas dores à espera de solução, para usar o jargão dos empreendedores, não é à toa que o setor imobiliário viu explodir o surgimento de startups especializadas no ramo. De acordo com dados da Terracotta Ventures, fundo de investimentos focado em startups de construção, venda e aluguel de imóveis, o número de novas empresas no segmento quase triplicou, passando de 250 para 700 de 2017 a 2020.

O crescimento é tanto que elas ganharam até nome: proptechs. O termo é usado para definir startups que oferecem soluções ou modelos de negócios inovadores para locatários, compradores e vendedores de propriedades. “O surgimento dessas companhias faz parte de um cenário maior, de transformação digital no setor, mas a crise financeira, que impactou duramente o mercado imobiliário entre 2014 e 2017, também contribuiu, já que obrigou empresas a inovar”, afirma Bruno Loreto, sócio diretor da Terracotta Ventures.

De olho no potencial desse mercado, os engenheiros cariocas Gustavo Vaz, de 31 anos, e Lucas Cardozo, de 37 anos, fundaram o marketplace de venda de imóveis EmCasa, em 2017. Filho de uma corretora de imóveis e com passagens por empresas do setor imobiliário, Gustavo percebeu que havia espaço para melhorar a experiência dos clientes. “Para muitas pessoas, comprar a casa própria é a transação mais importante da vida, porém, também era um dos processos mais burocráticos e complicados”, diz.

A startup tem tours virtuais em 3D e usa um algoritmo para avaliar o valor das propriedades. Com isso, a aquisição de um imóvel costuma ocorrer em cerca de 24 dias. “Também desempenhamos um papel ativo nas negociações para que ambas as partes [proprietário e comprador] tenham uma jornada mais eficiente”, diz Gustavo.

Com apenas dois anos de atuação, a EmCasa, que começou na cidade do Rio de Janeiro, já expandiu para São Paulo e aumentou de 15 para 90 o número de funcionários. Ao todo, mais de 300 imóveis foram vendidos por meio da plataforma.

Entre os próximos passos da startup está a ampliação dos serviços para outras capitais, além do lançamento de uma área de consórcios. Segundo Gustavo, a criação de soluções financeiras atreladas ao setor, inclusive, é um nicho promissor. “Esse tipo de serviço é pouco maduro no Brasil, se comparado a outros mercados, como Europa e Estados Unidos”, diz.

PARA NÃO FICAR ATRÁS

Com o avanço das startups, as imobiliárias e construtoras tradicionais são obrigadas a mudar. A mineira MRV, uma das maiores incorporadoras e construtoras da América Latina no segmento de empreendimentos residenciais e econômicos, é um exemplo. Somente nos últimos cinco anos, a empresa investiu mais de 250 milhões de reais em projetos de transformação digital.

Um deles é uma plataforma de vendas online, lançada no começo de 2020, que permite adquirir um imóvel pela internet. Todo o processo é digital: desde a simulação e a análise de crédito até visitas e a assinatura de contratos. Com a crise do coronavírus, a ferramenta, que estava disponível apenas para Belo Horizonte, foi ampliada e passou a operar em 160 cidades de 22 estados brasileiros. Por enquanto, o site não está disponível apenas em Rondônia, Pará, Roraima, Acre e Amapá.

E para competir no ramo de locação, que nos últimos anos viu fatias enormes ser abocanhadas pela startup unicórnio Quinto Andar, a MRV decidiu criar a própria proptech de aluguel de imóveis. A Luggo, lançada em 2018, loca imóveis de forma totalmente online, sem a exigência de fiador – assim como o Quinto Andar. O diferencial é que as habitações disponíveis são construídas e administradas pela própria MRV.

Atualmente, a Luggo está presente em Belo Horizonte e Curitiba e conta com três prédios residenciais, que somam 332 apartamentos. No primeiro trimestre do ano, a taxa de ocupação dos imóveis lançados foi de 95%. Até 2021, a empresa pretende expandir seus serviços para São Paulo, grande Salvador, Campinas e Porto Alegre.

“Com esses investimentos, nosso objetivo é nos consolidar como uma construtech [startup que oferece soluções tecnológicas para a cadeia produtiva da construção civil]”, afirma Rodrigo Resende, diretor de marketing da MRV. De acordo com ele, hoje a construtora aluga uma propriedade em apenas duas horas – há cinco anos, demorava, em média, uma semana. Além disso, atualmente 66% das vendas mensais da MRV são realizadas totalmente pela internet. O esforço da companhia para acompanhar os novos tempos já rendeu bons frutos. Em 2019, por exemplo, a empresa registrou o melhor primeiro trimestre de sua história, com lucro líquido de 189 milhões, um aumento de 18% se comparado ao mesmo período do ano anterior.

SERÁ O FIM DOS CORRETORES?

O movimento de modernização no mercado imobiliário não abre oportunidades apenas para empreendedores. A área de transformação digital da MRV, por exemplo, conta com 100 funcionários. “A maior parte é da área de tecnologia, mas também existem pessoas que atuam no comercial, marketing, jurídico, relacionamento com cliente e inteligência de mercado”, afirma Rodrigo.

Além de profissionais tradicionais da área de TI, como desenvolvedores de realidade virtual e de chatbots e especialistas em user experience (UX), a digitalização do ramo cria novas carreiras. Uma delas é a de gestor de propriedades urbanas, uma espécie de síndico profissional, que pode chegar a ganhar 6.000 reais por mês. Ele é responsável por melhorar a experiência de moradia dos clientes, auxiliando na utilização de serviços disponíveis nos prédios – hoje em dia, alguns condomínios mais modernos contam até com coworking, por exemplo -, além de intermediar eventuais problemas e reparos.

Porém, ao passo que surgem novas profissões e tecnologias no mercado imobiliário, muito se fala sobre a possibilidade de a carreira de corretor de imóveis desaparecer. Um levantamento da consultoria EY de 2016 chegou a cravar que a função sumiria até 2025. Entretanto, especialistas vão contra essa crença e são unânimes em afirmar que a profissão não está com os dias contados.

“As pessoas valorizam a ajuda de alguém que tenha mais experiência para tomar a decisão. O início da jornada de um locatário ou comprador pode até ser self-service, mas, na hora de bater o martelo, ter uma orientação profissional faz toda a diferença”, afirma Claudio, do Secovi-SP. Uma prova disso é que a EmCasa internalizou o time de vendas – ao contrário da maioria das startups do ramo, que utiliza corretores autônomos. Além disso, a empresa optou por recrutar funcionários de fora do mercado imobiliário. Hoje, por exemplo, o departamento comercial conta com 30 pessoas que vieram de setores como varejo e tecnologia ou de outras startups. “Estávamos em busca de profissionais que prestassem um excelente atendimento para nossos clientes, mais do que se fossem especialistas na área de imóveis”, afirma Gustavo.

A escolha da startup tem razão de ser. Por muitos anos, a profissão de corretor era vista como uma carreira que não exigia muita qualificação. Era comum, inclusive, aprender o oficio na prática, sem treinamentos formais. Porém, com o aumento da competitividade no setor, até mesmo corretores com anos de experiência no ramo estão se reinventando.

Esse é o caso do paulistano Walter Tito Bruno, de 50 anos, que trabalha como corretor há quase três décadas. Ciente de que teria de se adaptar, realizou cursos e aprendeu a usar ferramentas de marketing digital e redes sociais. Também mudou a abordagem de seu atendimento. “Hoje meu trabalho é prestar consultoria aos clientes e, de fato, entender quais são suas necessidades”, diz.

Além de usar sites como Loft, Quinto Andar e Viva Real, Walter recorre às plataformas Órulo e Tegra Parcerias, que disponibilizam tabelas de preços e promoções sobre lançamentos imobiliários. “As informações sobre os empreendimentos ficaram mais objetivas e fáceis de ser acessadas e, com isso, ficou mais rápido fechar os negócios”, afirma Walter.

E, embora a pandemia do coronavírus tenha minado as expectativas dos especialistas, que esperavam uma retomada do setor imobiliário, é certo que a tecnologia veio para ficar. A tendência é que a adoção de ferramentas digitais seja intensificada, uma vez que imobiliárias de todos os tamanhos têm recorrido ao online para continuar com os negócios durante o isolamento. Considerando que, mesmo após o surto, o novo normal será marcado por videochamadas, máscaras e distanciamento, o aperto de mãos para fechar a compra da casa nova também ficará para depois.

RAIO X DAS PROPTECHS E CONSTRUTECHS NO BRASIL

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PSICOLOGIA NOS TRIBUNAIS

É muito comum em processos em Vara de Família ver filhos de pais em litígio ou divorciados sofrerem alienação parental por parte de um deles

Atualmente tem se discutido com regularidade sobre o fenómeno da alienação parental, que, longe de ser uma fantasia criada, é algo que surge no âmbito familiar em muitos casos de separação litigiosa e divórcios. Acontece quando um dos genitores, ou ainda quem tem a guarda ou a tutela da criança, faz pressão para que ela tome partido de um lado, destruindo a imagem do outro e causando angústia e insegurança.

Embora a alienação parental seja encontrada anteriormente ao divórcio ou separação litigiosa, ou até mesmo em crianças que não tiveram um par parental em matrimônio, o objetivo do texto é discutir sobre esse fenômeno quando existe disputa de guarda da criança ou do adolescente por um dos genitores ou família extensa.

Os efeitos psicológicos da alienação parental têm sido material de discussão e preocupação entre os saberes da Psicologia e do Direito, justamente porque os riscos são muitos. A criança que cresce sendo objeto de disputa e tendo que escolher emocionalmente seu cuidador pode apresentar uma série de dificuldades emocionais.

É importante mencionar que a alienação parental pode ser experimentada pela mãe ou pelo pai, e não somente pelo pai (homem), embora seja mais observável. Sabe-se que pai e mãe são o primeiro suporte emocional para toda criança, e como tal insubstituíveis. Sendo assim a família é considerada núcleo básico essencial e estruturante do sujeito. Como fica isso para a criança em meio a à disputa judicial?

BURACOS EMOCIONAIS

No Brasil, desde agosto de 2010, a alienação parental é definida por lei (n° 12.318, agosto/ 2010). No art.2° da lei, “Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou o adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou a manutenção de vínculos”. Observamos tanto na experiência clinica quanto nas avaliações para o Judiciário uma série de buracos emocionais no mundo psíquico dessas crianças e jovens; em uma época de suas vidas em que a estabilidade emocional oferecida pelas funções parentais deveria estar presente como alicerce, mas não está.

A perícia psicológica é um exame delicado que se desenrola através da investigação clínica da personalidade associada à análise dos fatos concomitante à dos sujeitos com base nos aspectos psíquicos e subjetivos, iluminando pontos conscientes e inconscientes do funcionamento mental dentro da dinâmica emocional, experimentada nas relações entre as pessoas.

Atualmente, e cada vez mais, é uma realidade o fato de a equipe multidisciplinar trabalhar de forma cooperativa para o deslinde de um processo. Desse modo, os juízes, os psicólogos, os assistentes sociais, os promotores, compartilham, buscam entender e estudar, com o objetivo de esclarecer e encontrar novas alternativas ao sofrimento experimentado pelos envolvidos no processo. É um trabalho árduo, e o maior propósito é que se faça valer o melhor interesse da criança e do adolescente, isso significa preservá-los.

O psicólogo perito deverá exercer seu papel pautado fundamentalmente nas bases das distinções do seu trabalho, que é exercido na clínica com fins terapêuticos e na justiça com fins de contribuir efetivamente ao campo do Direito.

PROTEÇÃO À CRIANÇA

O que se observa em estudos periciais ou em atendimentos de crianças em processo de guarda é que na medida em que os pais conseguem diminuir as desavenças entre eles, e passam a respeitar a criança como tal, a própria criança começa a apresentar uma melhora emocional significativa. O que quero dizer é que o estado emocional da criança vai depender e muito do modo como os pais manejam a separação conjugal.

Em situações em que através de uma perícia a alienação parental fica comprovada, medidas deverão ser tomadas pelo magistrado a fim de proteger e fazer valer o melhor interesse da criança. Essas medidas podem ser variadas, desde o encaminhamento para atendimento psicológico, ao manejo da convivência com o alienado, até a perda da guarda da criança. Cada caso será avaliado individualmente e essa avaliação precisa ser criteriosa, cautelosa e muito séria para que os danos para a família não sejam ainda maiores.

ALIENAÇÃO ACONTECE TAMBÉM NO CASAMENTO

A título de esclarecimento, é relevante explicitar que a alienação parental pode ser observada também em situações em que o casal não está separado, mas nesse caso pode não ficar tão evidente ou pouco se falar a respeito. uma vez que todos ainda convivem sob o mesmo teto. Em situações como essa, a alienação parental não é deflagrada ou discutida porque a criança ainda não é objetivamente ou legalmente objeto de disputa entre os pais, ou seja, as brigas ainda estão no domínio doméstico do casal. Comalguma frequência se percebe ao analisar através dos estudos periciais os casos de separação litigiosa ou divórcio que aquela queixa atual de que um dos cônjuges promove alienação parental já poderia ter sido observada anteriormente, mas não havia na ocasião essa percepção. Ou seja, na reconstrução da história pregressa daquela família através da perícia se observa que a queixa é atual, mas o problema é antigo: o modo como a família convivia já demonstrava sinais disfuncionais. E que no momento da ruptura conjugal isso se deflagrou.

EU ACHO …

O PESADELO DA TECNOLOGIA

Sempre considerei o telefone celular um mal – necessário, mas um mal – e quando deixei o jornalismo diário há cinco anos e não era mais imprescindível usá-lo, simplesmente larguei meu celular, levando ao desespero minha mulher e meus filhos. Não quero ninguém me rastreando ou me monitorando – nem um governo e muito menos uma empresa gigante que pretende ou lucrar com os dados colhidos ou tentar insistentemente me vender bugigangas de que não preciso. Quero ser o dono do meu próprio nariz, e não um boneco manipulado. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, estamos lidando com múltiplas crises ao mesmo tempo, e pelo bem ou pelo mal – ou melhor dito, para o bem e para o mal – a tecnologia de ponta está intimamente envolvida nas soluções. Só que a tecnologia atua de uma maneira que deve deixa todo mundo preocupado sobre o futuro da privacidade. O que estamos vendo agora é mais um passo na direção do Panóptico, o pesadelo de controle total e vigilância onipresente que se originou no século XVIII.

Por exemplo, no combate à Covid-19. Fiquei atônito quando soube que os governos estaduais aqui nos Estado Unidos conseguem identificar os lugares onde as pessoas não estão obedecendo a quarentena ou o distanciamento social, tudo isso por meio de metadados obtidos de celulares. Com os mesmos dados, o New York Times consegui mostrar que 5% da população da cidade fugiu para outro lugar, com o maior número de desertores saindo dos bairros mais ricos para se refugiar em suas casas de veraneio. Tudo bem gerar essas informações durante uma pandemia, quando são de grande utilidade pública. Mas seria muito fácil empregar as mesmas técnicas para fins políticos nefastos, como observar a formação de multidões de opositores de um governo autocrático no Irã, Síria ou Egito, e mandar tropas ou agentes à paisana infiltrar ou dispersar a aglomeração. Tenho certeza de que alguns governos já tiraram a lição e estão planejando ações desse tipo para lidar com futuros protestos. Juntar isso com dado das câmeras já ubíquas em metrópoles como Londres, Nova York e Xangai é um perigo.

A pandemia também está fortalecendo ainda mais o oligopólio do Vale do Silício. Com as pessoas recolhidas em casa, surgiram novas oportunidades para as empresas dominantes. Ninguém quer ir ao mercado comprar alimentos ou ao shopping recém-reaberto buscar máscaras ou desinfetantes, mas é fácil achar tudo na Amazon. Com os escritórios ainda fechados, as únicas opções de comunicação entre funcionários (ou entre amigos) são do tipo FaceTime, WhatsApp, Google Meet, WeChat, Zoom. Temo que esses novos hábitos vão virar permanentes e acabar com a muralha entre casa e trabalho e também com o pequeno comércio.

Por questão de princípios, nunca chamei um Uber ou um de seus rivais. Acho o modelo empresarial deles conveniente, mas inerentemente vampírico, sugando dinheiro e vida de motoristas mal pagos. Com Uber Eats e seus muitos concorrentes, minha atitude é a mesma. Tenho duas sobrinhas que dirigem um restaurante, e antes da pandemia elas pagavam entre 25% e 33% de comissão aos aplicativos de entrega. Agora, a taxa subiu para 40%. O entregador não fica com isso, claro: a parte do leão fica com alguém que não faz parte da cadeia produtiva. Será que os restaurantes vão sobreviver?

Vejo a mesma faca de dois gumes na questão das manifestações contra o racismo que vêm crescendo aqui nos Estados Unidos. Os policiais sempre foram brutais, sempre maltrataram e até mataram cidadãos, especialmente negros e latinos. E sempre mentiam nos relatórios e julgamentos. Agora, porém, o público tem a capacidade de filmar os abusos em tempo real, e ninguém pode duvidar dos fatos. As provas estão visíveis e contundentes. Mas os policiais também estão filmando tudo, e acumulando dados sobre a população.

Tenho idade suficiente para lembrar nitidamente que nos anos 1990 visionários e idealistas como John Perry Barlow aqui nos Estados Unidos e Gilberto Gil no Brasil imaginavam que a internet, “a onda luminosa”, seria uma ferramenta para a liberação do ser humano, que não ia se converter em apenas mais um instrumento para estimular o consumo e dominar o povo. Gil, aliás, tentou implementar programas para estimular a imaginação e o pensamento quando era ministro da Cultura. Mas em 2020 acho que temos de reconhecer uma verdade preocupante: sim, a tecnologia é uma faca afiada dos dois lados. Mas cuidado. Podemos nos confundir e nos cortar.

LARRY ROHTER – é jornalista e escritor, ex- correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

OUTROS OLHARES

CAOS NA EDUCAÇÃO

O Brasil vive uma das situações mais críticas de sua história na área do ensino, com escolas fechando as portas, faculdades demitindo e alunos sem aulas — até mesmo as virtuais. Tudo isso coloca em risco não apenas as gerações do amanhã, mas o próprio desenvolvimento do País

No campo da educação, 2020 é um ano praticamente encerrado — e perdido no tempo. Uma combinação de fatores não lhe poderia ter sido mais nociva, alguns deles decorrentes uns dos outros, já os demais fixados pelas mais diversas razões: pandemia, caos econômico, crise política, desgoverno total do País. Junte-se a isso uma gestão federal que olha o setor educacional como inimigo e tenta ideologicamente o seu aparelhamento — estratégia típica de regimes autoritários. Ilustra a desimportância que o presidente Jair Bolsonaro dá à educação o fato de que o Brasil já vai para mais de duas semanas sem um ministro para esse setor — e, até agora, somando-se os três que passaram pela pasta (o último, o das mentiras, sequer tomou posse) o resultado é zero. O primeiro foi um pândego, o segundo trocava Franz Kafka por Kafta e o último sofre de mitomania. Não é apenas a educação que sai lesada, mas, também, o próprio desenvolvimento do País.

O apagão começa no ensino infantil particular. Sem conseguir refinanciar dívidas e com a perda de quase metade dos alunos, a única saída para muitas escolas de pequeno porte foi fechar as portas. A falta de aderência ao ensino à distância por parte de crianças (o que é mais que normal) e a desistência de muitos pais desempregados levaram a uma situação insustentável. Estima-se que até 10% dos alunos deixaram as escolas privadas de ensino fundamental em todo o País, mas a evasão em escolas que atendem crianças de zero a três anos pode chegar até 80%. A situação pode ser exemplificada pela carioca Ednalva Maria dos Santos, mãe da garotinha Alice, de três anos de idade. Ela retirou a menina da escolinha no bairro de Cavalcante, na zona Norte do Rio de Janeiro. Ednalva é a única que ainda tem emprego na família. “A escola até reduziu a mensalidade, mas a minha situação financeira está desesperadora”, diz ela. Além do monstro da miséria, há outro monstro, esse invisível e que se chama coronavírus. Juntamente à falta de dinheiro, aí vem o medo de morrer, esse generalizado em todo o mundo: “não vou ter coragem de levar minha filha quando as aulas voltarem porque o risco ainda é grande”.

Estima-se que até 300 mil docentes podem ter perdido seus empregos em todo o País. Em São Paulo, das 11 mil escolas que atendem desde o ensino infantil até o técnico, 80% possuem menos de 500 alunos, segundo o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp). A expectativa é de que essas instituições tenham perdido o equivalente a uma receita mensal completa, de acordo com o presidente da entidade, Benjamin Ribeiro da Silva. Com isso, cerca de 30% dos berçários, que atendem crianças de zero a três anos, não sobreviverão: alunos das primeiras séries do ensino fundamental deverão migrar para as escolas públicas, que poderão não absorver tanta demanda. No ensino médio, que historicamente tem dificuldade de evitar a evasão de jovens entre 15 e 17 anos, três em cada dez alunos já pensa em abandonar os estudos — aumento significativo, uma vez que anteriormente o nível de abandono era de 11,8%. Ou seja: lamentavelmente, de um patamar já alto passou-se a outro mais elevado ainda. Isso coloca em risco o futuro de gerações e o desenvolvimento da Nação.

No ensino superior particular, a inadimplência atingiu níveis recordes e, em maio, 23,9% dos estudantes não conseguiram pagar suas mensalidades. Cerca de 32,5% dos alunos acabaram trancando a matrícula ou desistiram do curso em abril. E aí entra diretamente a pandemia: a implantação de novas tecnologias e a possibilidade de reduzir estruturas físicas e, consequentemente, os custos, colocou na berlinda o corpo docente. Mais de 800 professores universitários foram demitidos no final do semestre, quando as faculdades passaram a montar salas com 200 ou até 300 alunos conectados numa única aula. A decorrência inevitável foi a redução do número de professores e, em média, houve o corte geral de quase 30% do corpo docente. Professor em de mestrado de educação, em São Paulo, Ricardo Casco estava encerrando os trabalhos do semestre após a adaptação de aulas ao ambiente virtual. No final de junho, quando foi inserir as notas dos alunos no sistema, não conseguiu mais acesso. Seu e-mail também havia sido bloqueado. Quando ligou para a faculdade só disseram que receberia um telegrama. “Fui demitido sumariamente sem nem saber o porquê”, diz ele. No ensino superior público, a crise é ainda maior, já que muitas faculdades não conseguiram sequer implantar ensino remoto, deixando alunos sem aulas o primeiro semestre inteiro. Amanda Minet, por exemplo, que estuda arquitetura, nem teve a chance de aulas virtuais. Até a semana passada ela aguardava uma decisão de sua faculdade para saber como será a continuação do curso. “Fiquei perdida”, diz a universitária.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE JULHO

OS FILHOS SÃO MUITO PRECIOSOS

Os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre é a sua recompensa (Salmos 127.3).

No Salmo 127 lemos que os filhos são herança de Deus e flecha nas mãos do guerreiro. Essas duas figuras são preciosas. A primeira mostra que nossa herança não é prata e ouro. Não são os bens que armazenamos no cofre, mas os filhos que agasalhamos nos braços. Nossa herança não é a fortuna que granjeamos e retemos nas mãos, mas os filhos que Deus nos dá. Nossos filhos são nossa maior riqueza. As coisas não podem satisfazer-nos. Não podem preencher-nos. Não podem perpetuar nossa memória, nem nossa descendência. Precisamos usar as coisas e amar os nossos filhos em vez de amar as coisas e esquecer-nos dos nossos filhos. A segunda figura mostra que os filhos são como flechas na mão do guerreiro. Um guerreiro carrega suas flechas nas costas. Os pais carregam os filhos no coração, no ventre, no bolso, na alma. Depois, o guerreiro lança essas flechas para longe. Não criamos filhos para nós mesmos, mas para Deus. Não criamos filhos para realizar nossos próprios sonhos, mas para cumprir os propósitos divinos. Finalmente, um guerreiro não desperdiça suas flechas. Lança-as num alvo definido. Assim são os pais. Eles devem criar seus filhos para a glória de Deus, na disciplina e na admoestação do Senhor, ensinando-os a guardar as sagradas letras, inculcando em sua mente as mesmas verdades benditas que habitam seu coração.

GESTÃO E CARREIRA

CERTIDÃO DE NASCIMENTO

Como o país de origem de uma companhia influencia diretamente o ritmo de seus processos, a postura de seus líderes e o clima organizacional

O endereço da matriz diz muito sobre o DNA de uma empresa. Dependendo do país de origem, a companhia pode ser informal ou rígida; transparente ou mais reservada; ágil nas relações interpessoais ou hierárquica. E entender essas assimetrias, atitude que requer flexibilidade e curiosidade, é a chave para se destacar em uma multinacional. Referência nesse assunto, o psicólogo holandês Geert Hofstede defende que a origem de uma organização influencia muito seu jeito de gerir times e negócios. Após estudar as diferenças de gestão entre as nações usando seis parâmetros – aversão à incerteza, individualismo versus coletivismo, distância do poder ( hierarquia), masculinidade versus feminilidade, orientação de longo ou de curto prazo e indulgência -, ele concluiu que os asiáticos são hierárquicos, possuem forte senso coletivo e lidam bem com as incertezas. Já os franceses, os espanhóis e os italianos, além de rígidos na subordinação, têm aversão ao risco e alto individualismo.

E isso tem a ver com a história, os hábitos e os valores de cada país. Por exemplo, quanto mais valorizada é a autoridade em determinada nação, mais os líderes participam dos processos decisórios na companhia. Já quando o peso do governo é menor, os chefes são abertos e buscam o consenso cm suas equipes – caso de escandinavos, holandeses, alemães e americanos, cujos países buscam um padrão de vida mais igualitário. Isso significa que, em companhias dessas nacionalidades, o gestor espera que o funcionário seja independente.

Nos Estados Unidos, onde há forte tradição de respeito às liberdades individuais, a autonomia é estimulada e o foco é total no resultado – não à toa, urna das expressões mais famosas no país é “time is money”, ou seja, “tempo é dinheiro”. Já o estilo alemão é atento aos processos, que devem ser bem planejados e executados à risca por todos. “Um líder alemão tende a não supervisionar sua equipe tão de perto quanto um típico chefe brasileiro”, diz Fernando Lanzer, consultor de empresas em assuntos de cultura e autor do livro Cruzando Culturas sem Ser Atropelado. Isso acontece porque o gestor germânico confia que as pessoas seguirão o processo, muito bem desenhado. Já para o subordinado brasileiro, pode ser difícil lidar com isso, interpretando a atitude como distanciamento, descaso ou falta de interesse. “Um empregado brasileiro tende a esperar orientações do chefe, algo que talvez não aconteça numa companhia de origem alemã”, afirma. De acordo com Fernando, esses tipos de desencontros dificultam bastante a convivência. Por isso, quando um funcionário migra de uma multinacional para outra, é essencial que ele conduza esse período de acomodação com inteligência e disposição genuína para entender a cultura do lugar.

FRATURA EXPOSTA

Maria Tereza Leme Fleury, coordenadora do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas da Fundação Getúlio Vargas, pontua que as diferenças culturais ficam evidentes e se acentuam quando há fusões ou aquisições. E, no ano passado, o Brasil bateu o recorde desse tipo de transação. Segundo levantamento da consultoria KPMG, foram 1.231 fusões e aquisições em 2019, ante 967 em 2018 – um crescimento de 27%. Desse total, 374 aquisições foram feitas por empresas estrangeiras. “Esses processos evidenciam as diferenças de cultura organizacional e há choques de estilos de gestão e de liderança”, afirma Maria Tereza. Além disso, nessas situações, uma das culturas tende a predominar sobre a outra, sendo que o ideal é destacar o melhor de cada uma, o que na prática nem sempre acontece. Um estudo feito pela PwC em 2018 mostrou o tamanho do desafio. Ao ouvir 600 executivos que vivenciaram fusões e aquisições, a consultoria concluiu que 65% das operações registraram dificuldade em criar valor (crescimento do negócio, melhora de processos ou redução de custos operacionais) por causa de disparidades de crenças, hábitos e costumes.

Quando analisou empresas que perderam valor de mercado depois da aquisição, por exemplo, a PwC descobriu que 100% delas tiveram problemas relativos à cultura. E as diferenças impactaram negativamente aspectos fundamentais, como liderança, gestão e comunicação.

Isso acontece porque as organizações ficam tão preocupadas com questões financeiras e operacionais, que se esquecem de cuidar das pessoas. Para evitar essa armadilha é primordial colocar a nova cultura no “coração” do negócio, mantendo-a no centro de todo o planejamento. “Falhar nisso corrói significativamente o valor criado na operação”, diz o relatório da PwC.

Formada em administração de empresas, Lilian Guimarães, de 59 anos, conhece de perto o desafio. Ela assumiu a vice-presidência de RH do Santander no Brasil em 2008, depois que a instituição comprou o banco holandês ABN Amro. E experimentou a colisão entre as culturas holandesa e espanhola. De acordo com ela, os holandeses mantinham relações pouco hierárquicas e um clima informal na companhia. Já os espanhóis trouxeram formalidade nas relações, maior objetividade nas conversas e mais hierarquia. “O presidente do banco espanhol era tratado como idolo, e aquilo era algo novo para nós, acostumados a um valor forte de igualdade que vinha da Holanda.” Ainda de acordo com Lilian, na cultura holandesa é desejável que os profissionais sejam questionadores, enquanto na espanhola se espera maior acatamento das ideias da alta cúpula.

Depois que a parte legal da aquisição foi concluída, Lilian conta que o banco desenhou a missão, o compromisso e o novo modelo de atuação, preservando o foco no cliente do ABN e trazendo a visão de custos e eficiência do Santander. “Definimos o mais rápido possível as políticas de RH, unificamos tabelas salariais, programas de compensação, planos de saúde e todos os demais benefícios, para minimizar aquele clima de ‘nós contra eles’, comum em aquisições.”

Para se adaptar à situação, Lilian mantinha conversas com uma colega que trabalhava na Telefónica, também espanhola. Uma dica importante que ela recebeu de sua amiga foi fortalecer ainda mais a área de gestão orçamentária dentro de sua diretoria. “A cultura espanhola era muito focada em eficiência, custo e resultado, o que nos fez aprender bastante nesse sentido”, diz Lilian, que deixou o banco em 2013 e hoje é conselheira de empresas e mentora de profissionais.

ATENÇÃO AOS DETALHES

Quem faz uma transição para uma multinacional deve ter em mente que esbarrará em valores diversos, a depender da origem da companhia. Ao deixar uma startup nascida no Vale do Silício para ocupar uma vaga em uma companhia chinesa, ainda que de tecnologia, o profissional vai lidar com um ambiente bem diferente, mais formal e hierárquico, por exemplo. Como, entre 2009 e 2019, os chineses investiram quase 60 bilhões de dólares no Brasil, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, comprando inúmeras companhias por aqui, entender dessa cultura é importante.

Segundo especialistas, analisar o contexto de cada nacionalidade é algo que deve acontecer antes mesmo da entrevista de emprego. “Isso significa ser proativo para se informar sobre as normas culturais e manter uma postura vigilante”, afirma Tatiana lwai, professora de comportamento organizacional e liderança no lnsper.

Foi exatamente o que fez o advogado José Ricardo dos Santos Luz Júnior, de 39 anos. Interessado pela cultura chinesa desde jovem e estudante de mandarim há 15 anos, em 2007 ele teve a oportunidade de representar o escritório de advocacia em que trabalhava na China.

Sua missão era auxiliar organizações chinesas que desejassem estabelecer conexões com o Brasil. Embora tivesse algum conhecimento sobre a cultura local, tornou-se um observador atento dos protocolos sociais do país. Na hora de brindar, por exemplo, percebeu que tinha de deixar o copo da outra pessoa mais alto do que o seu para demonstrar respeito à hierarquia. Também descobriu que jamais deveria abrir um embrulho na frente da pessoa que o presenteou. Dividir a conta, nem pensar. Na China, quem convidou paga – e isso deve ser feito de forma discreta, sem chamar o garçom à mesa. “Cometi muitas gafes”, conta o advogado, que viveu cinco anos na cidade de Pequim.

Ao fazer um MBA na Universidade de Pequim, José Ricardo notou ainda que as pessoas costumavam se apresentar falando sobre a empresa em que trabalhavam, não sobre si. Na comunicação, percebeu que os chineses falavam menos e ouviam mais. E tinham paciência para longas negociações. “É um povo negociador, com 5.000 anos de história, enquanto nós temos 500. Eles sabem escutar e entender o cenário”, compara.” Já tive negociações de 3 horas para corrigir apenas uma cláusula de contrato.” De acordo com ele, os chineses tendem a ser muito delicados na comunicação para evitar constrangimentos. Outra marca chinesa é o guanxi, termo que define a maneira local de se relacionar. ”Na China, você envolve toda a sua rede de relacionamentos nos negócios, e o guanxi é essencial”, conta. Hoje, José Ricardo viaja ao país de três a cinco vezes por ano como gerente institucional do escritório de advocacia BNZ Advogados e como CEO do Lide China, grupo de líderes empresariais. E também dá aulas sobre a cultura local a empresários.

BUSQUE CONHECIMENTO

Procurar informações em livros e sites e conversar com pessoas que já tenham trabalhado com colegas do país são recomendações importantes para quem deseja navegar bem em uma nova realidade. “Informar-se é a melhor maneira de se preparar para lidar com a situação sem sofrer choque cultural”, afirma Tatiana, professora no lnsper.

Além de entender como os valores de determinada nacionalidade influenciam no estilo de liderança, na forma de comunicação e nas relações interpessoais, é fundamental considerar aspectos como o fuso horário. Quando a diferença é muito grande, há uma série de desencontros em reuniões e trocas de mensagens, o que pode causar excesso de trabalho e atrasos na tomada de decisão.

Para alinhar expectativas e evitar frustrações, é necessário ter autoconhecimento. Assim, você vai entender os próprios limites e saber o que deseja. “Não pense que seu jeito de fazer as coisas é o jeito certo. É importante ser flexível e estar aberto”, destaca Maria Tereza, professora na FGV. Tendo morado nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, no Japão e na Coreia, a pesquisadora alerta para o perigo dos estereótipos. Afinal, nem todos os cidadãos nascidos no mesmo país agem e pensam igual. Os modelos de cultura, portanto, não devem ser usados como forma de prever como as pessoas vão se comportar e tomar decisões. Essa postura de rotular pode gerar indiscrições, atitudes desrespeitosas e, no limite, até mesmo o fracasso de um negócio promissor.

CADA PAÍS, UM ESTILO

Veja os seis principais tipos de cultura e como se comportam

IGUALITÁRIAS E DESCENTRALIZADAS

ESTILO DE GESTÃO: Competição

PAÍSES: Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Nova Zelândia, Austrália e Canadá.

CARACTERÍSTICAS: Baixa hierarquia, alto individualismo, autonomia, ambição, descentralização, gosto pelo risco e alta masculinidade. São empresas motivadas pelo desafio, que valorizam a autoconfiança.

ESTILO DE GESTÃO: Engrenagem

PAÍSES: Suíça alemã, Alemanha, Suíça e Áustria.

CARACTERÍSTICAS: Baixa hierarquia, alta aversão ao risco, previsibilidade e regras objetivas. Essas companhias valorizam os especialistas, 0 currículo e o passado acadêmico.

ESTILO DE GESTÃO: Rede

PAÍSES: Suécia, Holanda, Noruega, Finlândia e Dinamarca.

CARACTERÍSTICAS: Baixa hierarquia, cooperação, consenso, ética social e bem-estar. Essas organizações não gostam de arrogância e valorizam as perguntas.

HIERÁRQUICAS E CENTRALIZADAS

ESTILO DE GESTÃO: Pirâmide Social

PAÍSES: Brasil, Rússia, Portugal e Nações Africanas.

CARACTERÍSTICAS: Alta hierarquia, alta aversão à incerteza e alto coletivismo. A presença do chefe é valorizada e os funcionários esperam ser direcionados pela liderança.

ESTILO DE GESTÃO: Sistema Solar

PAÍSES: França, Bélgica, Itália, Espanha, Polônia e Suíça francesa

CARACTERÍSTICAS: Alta hierarquia, aversão à incerteza, formalismo e individualismo. São parecidos com os brasileiros, mas a comunicação é mais direta e objetiva.

ESTILO DE GESTÃO: Família

PAÍSES: China, Índia, Hong Kong, Tailândia e Singapura.

CARACTERÍSTICAS: Alta hierarquia, baixa aversão à incerteza, alto coletivismo, lealdade. Há dedicação total à empresa.

FORA DA CURVA: O Japão não se enquadra no grupo de asiáticos, pois apresenta uma combinação única de alta hierarquia, alto coletivismo, alto controle da incerteza e visão de longo prazo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HISTÓRIAS DE ABANDONO

adoção e desistência são palavras que muitas crianças ouvem e sentem na pele com frequência, o que pode trazer consequências gravíssimas sob o ponto de vista emocional

Antes que façamos qualquer juízo de valor sobre a situação que envolve a desistência da adoção e a possibilidade de indenização pelos danos causados, trago à reflexão um caso verídico:

Ana é fruto de uma família totalmente desestruturada, não assumida pelo pai, filha de mãe alcoólatra e drogadicta. Aos 2 anos, foi vítima de uma agressão física desmedida perpetrada por sua genitora, que resultou na fratura de sua coluna. Ana ficou paraplégica. Por conta desse gravíssimo fato, a mãe perdeu o poder familiar e ainda respondeu a processo criminal. Então, Ana foi colocada numa instituição de acolhimento, por não possuir nenhum outro familiar que pudesse assumir sua guarda.

A menor, diante da gravidade dosferimentos sofridos, necessitava de uma cadeira de rodas para se locomover, o que não podia ser fornecido pela instituição onde se encontrava abrigada, por total ausência de condições financeiras do local. Sendo assim, a única maneira de locomoção de Ana era se rastejando.

Quando Ana contava com quase 4 anos de idade, conheceu João, que foi ao abrigo auxiliar as crianças em seu tempo livre. Ele já era pai de uma menina de 10 anos, fruto de adoção.

João era casado com Maria e, após algumas visitas ao abrigo, se apaixonou pela pequena Ana e convidou sua mulher a conhecê-la. Ambos passaram a conviver com Ana com mais frequência e a cogitar a possibilidade de aumentar a família, por meio de sua adoção, cientes de suas limitações físicas e de seu déficit cognitivo.

Pois bem, quando Ana tinha 4 anos, João e Maria deram entrada no processo de adoção, levando-a para morar com eles. Ocorre que diante da lentidão do Judiciário, da necessidade da realização de diversas avaliações em razão da condição especial da menor, o procedimento levou quatro anos até chegar às etapas finais.

Nesse ínterim, o casal adaptou sua casa para que a menor vivesse com maior conforto e organizou a vida para recebê-la. A partir daí, a família seria composta por quatro integrantes: pai, mãe e as duas menores.

A rotina da família passou a girar em torno dos estudos das duas menores e do trabalho dos genitores, com todos os membros adaptados e integrantes daquele núcleo.

E assim viveram durante quatro anos. Nesse período a mãe das menores finalizou seu curso de pós-graduação em educação de crianças especiais e dedicou o trabalho de fim de curso à Ana.

No curso do processo foram realizadas algumas avaliações psicossociais que comprovaram o vínculo familiar estabelecido entre Ana e os membros da família, demonstrando a construção de afeto verdadeiro e o vínculo filial da menor pelos pais, referindo-se a eles sempre como pai e mãe e apresentando perfeita conexão fraternal com a irmã.

Os estudos ainda concluíram que para Ana era dispensado, por João e Maria, o lugar legítimo de filha, após os quatro anos de convivência. Ambos os genitores compareceram espontaneamente a todos os atos processuais e, principalmente, à audiência, momento em que disseram estar certos e convictos do desejo de adotar a pequena Ana.

E qual não foi a surpresa de todos quando, às vésperas da prolação da sentença, Maria desistiu da adoção da menor, alegando simplesmente que não havia criado vínculo materno com esta, o que gerou a discórdia do casal e, consequentemente, seu divórcio.

No entanto, apesar da atitude de Maria, João permanecia firme em seu propósito de adotar a menor, pois sua relação paterno filial já estava consolidada.

A família ainda residia sob o mesmo teto quando Maria passou a ignorar a menor Ana em sua condição de filha. Obrigou a menor, a partir daquele momento, a chamá-la de tia e não mais prestou qualquer auxílio à criança que era, e continua sendo, absolutamente dependente cm seus cuidados básicos, como banhar-se, trocar fralda e se locomover.

A partir desse momento, providências práticas sobre as questões familiares precisaram ser tomadas. O imóvel onde residiam os quatro membros era o único da família e estava completamente adaptado para as necessidades da menor, sem contar com uma questão mais importante: a segurança espacial de crianças anteriormente acolhidas em instituições.

Em tais situações, crianças e adolescentes costumam apresentar resistências na criação de vínculos pessoais, institucionais e, principalmente, em relação ao espaço físico que ocupam.

METODOLOGIA

Importante frisar que é de conhecimento da criança acolhida que a instituição é um local provisório em sua vida, até que uma família possa assumir os seus cuidados, recebendo-a como um membro do núcleo familiar. Essa é uma metodologia utilizada justamente para que aqueles que se encontram acolhidos não criem vinculo institucional e segurança espacial, pois dificultaria, ou até mesmo impossibilitaria, o processo de adoção. E após quatro anos a menor, mais uma vez, foi abandonada, rejeitada e revitimizada.

Tirar uma criança com os problemas físicos e cognitivos que Ana apresenta do local onde residia, havia quatro anos, não era uma opção para João, pois contribuiria de forma absoluta para um retrocesso psicossocial de Ana, bem como para sua perda de confiança (já tão limitada), diminuindo, ainda mais, sua capacidade de construção de novas relações afetivas, vez que passaria a entender que ela, Ana, era descartável.

Ao mesmo tempo, a irmã de Ana, também adotada anos antes, passou a ter um sentimento de que se sua mãe era capaz de “descartar” a irmã mais nova, poderia igualmente e a qualquer momento desistir dela, mesmo que isso não fosse possível legalmente, uma vez que a adoção é ato irrevogável após o trânsito em julgado da sentença. Mas o imaginário de crianças e adolescentes é bastante fértil.

Apresentaram-se, assim, dois graves problemas para João: o primeiro, o emocional das duas filhas menores, como lidar com a rejeição e o abandono de Maria uma delas, e o segundo, patrimonial. Maria não queria deixar o lar comum, único bem imóvel do casal, e, ao mesmo tempo, não queria mais Ana para ser sua filha.

Sendo assim, não restou outra alternativa a João senão requerer judicialmente o afastamento de Maria do lar comum, para que Ana pudesse permanecer no imóvel da família em sua companhia, visando resguardar o máximo possível seus hábitos e sua rotina. E assim foi feito. Em rápida e justa decisão judicial foi determinado que Maria deixasse a casa. A partir daí, somente João e as suas menores passaram a residir no imóvel.

Diante da situação grave pela qual Ana mais uma vez passava, foi intensificado seu tratamento psicoterápico, assim como os demais que pudessem lhe trazer mais segurança naquele momento, o que vem sendo feito até a data atual por seu pai. Este é o retrato de uma situação real, que nos faz analisar e refletir a questão por vários ângulos.

O que pretendemos com o presente trabalho é trazer uma reflexão sobre as nefastas e desastrosas consequências da desistência da adoção para uma criança menor, submetendo-a a um processo de revitimização por novo abandono e a possibilidade do ressarcimento de parte desse sofrimento através de indenização pecuniária.

Inicialmente, importante que algumas considerações técnicas sobre a realização do processo de adoção e seusrequisitos básicos sejam feitas.

O PROCESSO

Adoção é um ato de amor regido por regras legais rígidas e estabelecidas em nosso ordenamento jurídico, dentre elas:

1) atribuir a condição de filho ao adotado com todos seus direitos e deveres, inclusive os sucessórios, desligando-o de todos os vínculos com pais e parentes biológicos, ressalvando, somente, os impedimentos matrimoniais;

2) É necessário o consentimento dos pais biológicos, a não ser em casos onde estes sejam desconhecidos ou tenham sido destituídos do poder parental;

3) No caso de um dos cônjuges adotar o filho do outro, os vínculos de filiação emrelação ao pai/ mãe biológico permanecem intocados.

Outros princípios devem ainda ser respeitados, como, por exemplo, entre adotante e adotado deve haver uma diferença de idade mínima de 16 anos; a adoção pode ser deferida mesmo em caso de falecimento do adotante no curso do processo, após sua manifestação inequívoca de vontade; e mais, o processo de adoção de crianças com deficiência ou doenças crônicas possui prioridade em sua tramitação, entre outros mais. Para que os candidatos a adotantes preencham todos os requisitos capacitantes para a participação do processo, faz-se necessária a passagem por período de preparação, o que se dá juntamente com as equipes técnicas das varas da Infância e Adolescência, onde serão abordadas todas as questões jurídicas e psicossociais que envolvem o procedimento de adoção em si eas questões relativas aos menores.

Pois bem, obedecidas as regras legais, inicia-se o estágio de convivência. Esse é o momento em que as partes (adotantes e adotado) iniciam seu contato, estreitam laços e se adaptam uns aos outros. Importante frisar que, em alguns casos específicos, esse período pode ser dispensado, como por exemplo quando o adotando já se encontrar sob a tutela ou a guarda legal do adotante durante tempo suficiente para a constituição do vínculo afetivo.

ESTÁGIO DE CONVIVÊNCIA

Uma das questões mais discutidas a ser considerada é o melhor interesse do menor e sua adaptação ao lar, onde doravante será inserido e passará a integrar como membro daquela família. O período denominado de estágio de convivência é aquele considerado como o de adaptação das partes envolvidas, momento de verificar a integração com o intuito de estabelecer raízes para a construção de um relacionamento sólido, harmônico e duradouro entre as partes.

Importante ainda lembrar que a Lei nº 13.509, de 22 de novembro de 2017, que alterou a Lei nº 8.069/ 90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), determina o prazo de 90 dias, prorrogáveis por igual prazo, para a realização do estágio de convivência, ou seja, tornou, a princípio, mais célere o processo.

Vale ressaltar que no caso de crianças menores, e de tenra idade, a adaptação se faz de modo mais fácil, diferentemente do caso de adoção de adolescentes, aqueles considerados entre 12 e 18 anos, e que já trazem consigo um sem-número de experiências de abandono, vivências de frustrações ou agressões, o que dificulta a interação e a formação de laços afetivos.

Por essas razões, esse período de conhecimento e adaptação mútuos entre as partes envolvidas deve ser acompanhado de muito perto pelos peritos designados pela Justiça, com a realização de avaliações e pareceres técnicos que auxiliem o juiz na decisão pelo deferimento ou não da adoção requerida.

Devemos sempre ter em mente que em casos que envolvem crianças não há como tratá-los de forma genérica, sendo certo que elas são únicas com situações exclusivas e particulares.

Cada criança é um ser humano em formação e possui uma gama de experiências e sentimentos próprios, o que faz de cada ser um caso único a ser avaliado, trazendo sempre o entendimento de que “cada caso é um caso” e deve ser analisado com suas peculiaridades.

Pois bem, considerando que o processo de adoção tem dois lodos, o do adotado e o dos adotantes, faz-se necessário que a questão seja examinada por ambos os ângulos.

Ao determinar a existência de um período de convivência entre as partes, antes da decisão final do processo de adoção, acompanhada de perto pela equipe multidisciplinar, o legislador teve dois objetivos importantes:

1 – Preservar o princípio constitucional do melhor interesse da criança, verificando se a família candidata à adoção está apta a acolher aquele menor como membro de seu núcleo; e

2- Trazer maior segurança aos adotantes que, ao invocar a tutela jurisdicional, necessitam dirimir suas incertezas e inseguranças, sem, contudo, dificultar, prejudicar ou impedir todas as avaliações necessárias para a concretização do procedimento.

Resta claro que é imprescindível, nesse momento, a atuação e o acompanhamento interdisciplinar da equipe do Juízo, normalmente composta por psicólogos e assistentes sociais, pois não são raros os casos em que famílias que, inicialmente, parecem perfeitas para receber aquela criança apresentem questões intransponíveis, como: instabilidade nas relações, ausência de afeto ou outros problemas mais graves que poderão ser detectados por meio das avaliações.

Levando em consideração as avaliações desses profissionais capacitados, o juiz decidirá pela concessão ou não da adoção requerida com base no princípio da proteção integral ao direito da criança e do adolescente.

Verifica-se, então, que algumas das mais importantes questões legais que envolvem o processo e o procedimento da adoção foram acima abordadas, na tentativa de ofertar ao leitor uma breve introdução no assunto.

No entanto, o que pretendemos abordar é uma questão delicada e extremamente dolorosa: a devolução dos menores aos abrigos, em razão da desistência dos adotantes no curso do processo, e suas consequências legais e psicológicas.

As crianças e adolescentes que estão em situação de adoção são, sem dúvida alguma, a parte mais frágil dessa equação, pois já passaram por ao menos uma situação primária de abandono afetivo por parte de seus pais biológicos, e uma segunda rejeição, ocasionada pela desistência da adoção, trazendo mais uma vez os sentimentos relacionados ao novo abandono.

A devolução de uma criança adotada, ou em processo de adoção, segundo a psicóloga Maria Luiza Ghirardi, se apresenta, aos olhos dessa criança, como uma reedição do abandono ocorrido por sua família biológica, o que pode intensificar as consequências em relação aos sentimentos de rejeição, abandono e desamparo.

E o que ocorre com essa criança mais uma vez abandonada, mais uma vez rejeitada? Qual o entendimento de nossos julgadores com relação a essa questão tão sensível?

Para que se entenda quais comportamentos são passíveis de indenização, alguns conceitos básicos devem ser esclarecidos.

Que tipo de conduta é passível de punição ou pode ser objeto de indenização?

Toda ação ou omissão que ofenda, prejudique e/ou agrida direito fundamental de criança ou adolescente é considerada conduta ilícita e passível de punição.

O simples ato de causar sofrimento a uma criança é considerado conduta ilícita, que pode ser punida tanto na seara criminal como na seara cível, através de indenizações pecuniárias.

SEM DIFERENCIAÇÃO

Registre-se que, no entendimento atual, onde não há qualquer diferenciação entre a filiação biológica ou advinda de adoção, o conceito acima se aplica a ambos os casos, como se verifica no Julgado de nosso Superior Tribunal de Justiça, cujo brilhante e emocionante voto da ministra Nancy Andrighi se transcreve em parte abaixo: “Aqui não se fala ou se discute o amar e, sim, a imposição biológica e legal de cuidar, que é dever jurídico, corolário da liberdade das pessoas de gerarem ou adotarem filhos.

O amor diz respeito à motivação, questão que refoge os lindes legais, situando-se, pela sua subjetividade e impossibilidade de precisa materialização, no universo meta-jurídico da Filosofia, da Psicologia ou da Religião.

O cuidado, distintamente, é tisnado por elementos objetivos, distinguindo-se do amar pela possibilidade de verificação e comprovação de seu cumprimento, que exsurge da avaliação de ações concretas: presença; contatos, mesmo que não presenciais; ações voluntárias em favor da   prole; comparações entre o tratamento dado aos demais filhos – quando existirem -, entre outras fórmulas possíveis que serão trazidas à apreciação do julgador, pelas partes. Em suma, amar é faculdade, cuidar é dever”. (Resp. 1159242/ SP – 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, 5/20l2).

DEVER DE INDENIZAR

Não são poucas as decisões dos tribunais, que determinam o pagamento de indenização pecuniária a menores, cujos pais desistem da adoção.

A mais recente determinou o pagamento de 100 salários mínimos, a título de danos morais, para duas irmãs menores que conviveram com os pais adotivos durante três anos. A sentença que condenou os pais foi mantida pelo tribuno), sob a alegação de que: “É incontestável que a situação trouxe sensação de abandono para os infantes que, após três anos vivenciando uma rotina familiar, criaram mais que uma expectativa de vida em família, elas desenvolveram um senso de segurança e um vínculo afetivo com o casal recorrente”.

Dessa forma, seguindo o entendimento da ministra Nancy Andrighi, membro do nosso Superior Tribunal de Justiça, “amar é faculdade, cuidar é dever”, independentemente de o vínculo ser biológico ou não.

PAPEL DO PSICÓLOGO

Nesse cenário de dor e incerteza, gerado por um grande trauma na vida da criança, entra o trabalho árduo a ser desenvolvido pelo psicólogo na tentativa de minimizar as consequências geradas pelo evento e diminuir os riscosde um comprometimento futuro no desenvolvimento do menor, já que não restam dúvidas de que a dor do abandono afetivo é considerada uma das maiores enfrentadas pelo ser humano, podendo causar danos psicológicos gravíssimos em crianças, mormente àquelas que já sofreram em tenra idade a rejeição de sua família de origem.

E a desistência da função parental é, sem sombra de qualquer dúvida, uma das maiores formas de abandono sofridas por uma criança e um grande desafio para o profissional de Psicologia, que terá como objetivo minimizar os danos causados por esse trauma, fazendo com que, no futuro, esse serem formação consiga elaborar as funções materna e paterna, a fim de não reproduzir os modelos aprendidos e apreendidos.

EU ACHO …

NÚMEROS DO PRECONCEITO

O brutal assassinato de George Floyd em Minnesota, nos Estados Unidos, pela polícia colocou, mais uma vez, a questão do racismo em evidência. Passeatas e manifestações de repúdio ao episódio explodiram no mundo inteiro, revelando que há motivo para esperanças e que podemos -e devemos – acreditar que o sonho de Martin Luther King se tornará realidade. Que as pessoas um dia não serão julgadas pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter. Houve avanços? Sim, sem dúvida. Mas uma série de indicadores deixa evidente que ainda há muito a ser feito.

No informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, o IBGE indica que entre 2012 e 2017 foram registradas 255 mil mortes de negros por assassinato no país. Em termos de proporção, os negros têm 2,7 mais chances de se tornarem vítimas de homicídio do que os brancos. O Atlas da Violência de 2019, estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, confirmou essa tendência ao mostrar que, no ano passado, 75,5% das pessoas assassinadas no país eram negras – a maior proporção da última década.

O preconceito também é perceptível no mercado de trabalho. Em 2018, os trabalhadores brancos ganhavam, em média,73,9% a mais do que os trabalhadores pretos ou pardos. E recebiam, em média, 27,1% a mais do que as mulheres. Esse cenário foi identificado pelo IBGE na pesquisa Síntese de Indicadores Sociais – Uma Análise das Condições de Vida da População Brasileira: 2019, lançada em novembro passado. De acordo com dados divulgados em fevereiro deste ano, a taxa de desocupação da população autodeclarada negra em 2019 ficou acima da média nacional (11%), alcançando 26,1%. Os dados constam da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE.

O contingente de negros sem emprego era então de 13,5%, entre pretos, e de 12,6%, entre pardos. Outro indicador preocupante: dos 2,6 milhões de estudantes de ensino fundamental ou médio reprovados em 2018, 48,41% eram negros (pretos ou pardos). Segundo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o número de reprovados nesse grupo é duas vezes maior que o de brancos, somando, em 2018, mais de 1,2 milhão de estudantes reprovados. Não podemos nos acostumar com esses dados. Não podemos perdera capacidade de nos indignarmos com a desigualdade. Essa indignação não pode existir apenas quando um homem negro é asfixiado até a morte. Chega de asfixia.

**CRISTIANO NORONHA

OUTROS OLHARES

AS REDES SOCIAIS TÊM CONSERTO?

A profusão de notícias falsas e de conteúdos que incitam a violência coloca em xeque a ideia de que as redes sociais estimulam uma livre discussão saudável. Mas como fiscalizar o que é publicado?

No final de maio, um embate entre Jack Dorsey, presidente do Twitter, e Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, começou a tomar forma. O presidente americano, Donald Trump, escreveu no Twitter duas mensagens. Em uma delas, dizia que as caixas de correio seriam roubadas e as cédulas de votação, usadas na eleição presidencial, seriam fraudadas. Em outra, Trump atacou Gavin Newsom, governador da Califórnia, dizendo que o político estaria enviando cédulas a milhões de pessoas. As duas mensagens foram sinalizadas pelo Twitter como duvidosas, e pela primeira vez os tuítes de um presidente americano receberam um selo de alerta. A iniciativa gerou discórdia entre os gigantes do mercado de tecnologia. De um lado, Dorsey, do Twitter, adotou uma postura mais ativa na mediação do que é publicado. De outro, Zuckerberg discordou da atitude do concorrente e afirmou que o Facebook não deveria se posicionar como um ”árbitro da verdade” do que é dito e compartilhado pelas pessoas.

A discordância entre o Twitter e o Facebook revela visões cada vez mais divergentes a respeito do papel das redes sociais. Por um lado, há quem diga que as plataformas devam ser espaços de livre discussão para as pessoas publicarem o que bem entenderem. Por outro, especialistas defendem que as redes sociais precisam assumir a responsabilidade sobre o conteúdo. Quando as plataformas foram criadas nos anos 2000, elas tinham o objetivo de conectar pessoas. Porém, mais do que isso, acabaram se tornando um espaço de discussão de ideias. Do movimento Occupy Wall Street ao #BlackLivesMatter, as redes sociais amplificaram as novas demandas da sociedade. No entanto, junto com o novo canal de comunicação cresceu a disseminação de notícias falsas. Um estudo realizado por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) analisou mais de 126.000 boatos que circularam no Twitter de 2006 a 2017 e mostrou que as fake news se espalham mais rapidamente e alcançam até 100 vezes mais pessoas do que as notícias reais. O problema só se aprofundou nos últimos anos, e as redes sociais chegaram a um ponto de inflexão. Para especialistas, fica cada vez mais evidente que as plataformas precisam de uma reforma para privilegiar conteúdos verdadeiros e promover um debate saudável. ”Se as redes fossem um ambiente em que cada um publica suas ideias e elas fossem espalhadas igualmente a todos, a responsabilidade das empresas seria menor. Como há um algoritmo ajustando o que cada um vê, visando elevar o tempo de permanência para aumentar a receita com anúncios, a rede social precisa checar as informações que lá veiculam”, diz André Miceli, coordenador do MBA em marketing digital da Fundação Getúlio Vargas.

Encontrar uma solução não é simples. Como os serviços são usados por mais de 1 bilhão de usuários todos os dias, é como se fosse preciso trocar o pneu de um veículo em movimento. Algumas mudanças estão sendo encabeçadas pelas empresas. O Twitter começou a testar uma ferramenta que pergunta se o usuário leu uma mensagem antes de ser republicada. E a plataforma tem agido de forma mais dura contra a desinformação. A empresa chegou a apagar dois tuítes do presidente Jair Bolsonaro em março que estimulavam o uso da hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra a covid-19. Já o Facebook, em uma das frentes, trabalha com agências de checagem de fatos desde 2016 para verificar a veracidade de posts publicados na plataforma. Quando um conteúdo falso é identificado, a publicação recebe um selo. Porém, a postagem não é removida como no Twitter. Ela apenas tem seu alcance reduzido. Com a pandemia de covid-19, a checagem foi intensificada. O aplicativo WhatsApp também entrou nessa guerra contra as fake news. Em abril, a companhia, que pertence ao Facebook, passou a limitar a apenas um contato o encaminhamento de mensagens já compartilhadas diversas vezes. Antes o limite era de cinco contatos de uma só vez. De acordo com a empresa, houve redução de 70% na quantidade de mensagens encaminhadas no aplicativo. ”As fake news e a desinformação são problemas para as próprias plataformas, uma vez que impactam a confiança de seus usuários”, afrrma Kate O’Neill, autora e consultora no setor de tecnologia. ”Mas as redes sociais não agirão de forma assertiva se tudo for deixado nas mãos delas.”

Apesar de bem-vindas, as iniciativas nem sempre são suficientes. Por isso, em todo o mundo, os países discutem saídas legais para reduzir a disseminação de conteúdo falso e discriminatório. A Alemanha é um dos que aprovaram uma legislação que obriga as plataformas a tirar do ar conteúdo com discurso de ódio. A multa aos gigantes de tecnologia pode chegar a 50 milhões de euros caso descumpram o prazo repetidas vezes. A lei, de 2017, foi criada às pressas para conter a ascensão do neonazismo em um país marcado por regras duras contra qualquer discurso de ódio. O texto, contudo, é criticado por organizações que defendem a liberdade de expressão. Essas instituições temem a adoção de um modelo do tipo ”retire primeiro, pergunte depois”, afetando inclusive publicações legítimas. ”As companhias não existem para interpretar a lei. O Estado está entregando a fiscalização para as empresas, o que é perigoso. Pode se tornar uma espécie de ‘censura privada”’, diz Barbora Bukovská, diretora sênior para políticas e legislação da organização britânica Artigo 19, defensora da liberdade de expressão na internet e crítica da legislação alemã. Outro exemplo vem da França, que aprovou em junho uma legislação similar, que inclui o racismo, a pornografia e outros tipos de conteúdo entre os que devem ser retirados das plataformas. A legislação francesa é vista como mais positiva por especialistas da região. Há ainda outras regras em estudo no Reino Unido e na União Europeia. O desafio é fazer uma lei que equilibre o papel da Justiça e o das plataformas.

Na contramão da discussão europeia, os Estados Unidos, onde estão sediadas as principais empresas de internet, têm uma das legislações mais permissivas do globo. Boa parte da argumentação tem como base a Primeira Emenda da Constituição americana, que assegura a liberdade de expressão. A internet bebe desse princípio jurídico criado no século 18. Não que a liberdade de expressão não esteja presente na Constituição de outros países, mas, nos Estados Unidos, marcados por um histórico calvinista, liberal e individualista, qualquer interferência de governos é vista com maus olhos. Outra lei, de 1996, chamada de Lei da Decência das Comunicações, reassegura que a liberdade de expressão seja cumprida também na internet e isenta as plataformas de responsabilidade pelo que seus usuários publicam.

Os americanos têm um ponto: em muitos países, sobretudo onde há governos autoritários, pode haver pressão para que conteúdos legítimos sejam censurados. Elettra Bietti, pesquisadora do Berkman Klein Center, instituto da Faculdade de Direito de Harvard, especializado em pesquisas sobre legislação e internet, afirma que as leis de liberdade de expressão foram elaboradas numa era pré-internet com o objetivo de evitar a interferência estatal. Mas o mundo evoluiu e precisa de mais regulação. ”Não devemos olhar como uma dicotomia, de governos sendo maus e plataformas sendo as salvadoras, ou vice-versa. É uma discussão que tem muitos atores”, afirma a pesquisadora.

No Brasil, as tentativas de controlar a disseminação de fake news desembocaram na política. Tramita no Senado e na Câmara o Projeto de Lei no 3.063, de 2020, de autoria dos deputados Tábata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES). O texto, criticado por não ter sido debatido com a sociedade civil, estava prestes a ser votado pelo Senado quando esta reportagem foi finalizada. A lei prevê que empresas especializadas na produção e na disseminação de notícias falsas na internet sejam investigadas pela Polícia Federal e isenta as redes sociais de responsabilidade sobre o conteúdo, sem exigir que seja apagado. Outro ponto do projeto prevê que plataformas como Twitter, Facebook e Instagram deixem claro aos usuários por que apagaram as postagens e deem às pessoas a possibilidade de contestar quando um conteúdo tiver sido retirado. O papel de cada usuário não é o foco da legislação – o alvo são as empresas que produzem conteúdo falso. Para o deputado Felipe Rigoni, as fake news prejudicam a democracia. ”Elas estão para a liberdade de expressão e para a democracia assim como a corda está para o pescoço enforcado. Com mais mentiras, temos menos democracia”, diz. Um estudo da empresa de pesquisas francesa Ipsos realizado em 2018 aponta que 62% dos brasileiros já tinham acreditado em uma mentira vista nas redes sociais. Na época, 37% acreditavam que as plataformas fossem responsáveis por enganar a população.

Os assuntos favoritos de quem produz conteúdo enganoso e também de quem os compartilha estão ligados à política. ”As notícias falsas começaram a ser mais direcionadas nos últimos anos”, afirma Gilmar Lopes, fundador do site eFarsas, uma das primeiras plataformas brasileiras criadas, ainda em 2002, para desmentir lendas urbanas que circulavam na internet e em correntes de e-mail. A combinação de polarização política com o advento das redes sociais tornou a tarefa bem mais trabalhosa. Em 2002, o eFarsas publicava, em média, um texto a cada dez ou 15 dias. Agora o site precisa desmentir diariamente cinco rumores, em média. Eles envolvem desde temas como corrupção até o uso de medicamentos milagrosos. ”Eu não imaginava que isso se tornaria um problema tão grande, que as notícias falsas se tornariam a pauta do momento”, afirma Lopes.

A questão não se limita apenas ao Facebook, ao Twitter e ao WhatsApp. Outras redes sociais têm de lidar também com a disseminação de conteúdo falso ou violento em suas plataformas. Um exemplo é o aplicativo americano de fotos instantâneas Snapchat, que tem 229 milhões de usuários, a maior parte nos Estados Unidos. Para se distanciar do discurso de ódio, a companhia parou de promover a conta do presidente Donald Trump em seu espaço voltado para notícias. O motivo foram as publicações do presidente no Twitter incitando a violência e o racismo. ”Não existem áreas cinzentas quando o assunto é racismo, violência e injustiça”, escreveu Evan Spiegel, fundador e presidente executivo da Snap (empresa dona do Snapchat), em uma postagem no blog oficial da companhia. ”Não podemos promover contas nos Estados Unidos que estejam ligadas a pessoas que incitem a violência racial, seja isso feito ou não em nossa plataforma.”

Outro aplicativo que adotou uma nova postura é o chinês TikTok, que caiu no gosto dos jovens ao redor do mundo e foi o terceiro mais baixado no ano passado. A empresa, que tem como foco vídeos curtos produzidos pelos usuários, tem tomado medidas para evitar a disseminação de conteúdos falsos, em especial ligados à pandemia de covid-19. A companhia fez uma parceria com órgãos internacionais para dar orientações de saúde. ”Entidades como a Organização Mundial da Saúde e a Cruz Vermelha, além das Nações Unidas, estão usando o TikTok para educar seus usuários e fornecer incentivo durante este período desafiador”, diz Rodrigo Barbosa, gerente de comunidade do TikTok no Brasil. Segundo ele, todo conteúdo considerado falso é retirado do ar imediatamente. ”O conteúdo destinado a enganar ou a induzir a erro coloca em risco nossa comunidade, que é baseada na confiança. Não permitimos esse tipo de conteúdo em nossa plataforma”, afirma. No ano passado, a empresa foi criticada por apagar publicações sobre os protestos em Hong Kong que desagradaram ao governo chinês. Na China, onde algumas redes sociais, como o Twitter e o Facebook, são proibidas, a máquina de censura governamental controla todo o conteúdo publicado online.

O que as empresas pretendem evitar é seu envolvimento em escândalos, como o que ocorreu com o Facebook em 2018 no caso da empresa de marketing político Cambridge Analytica, que coletou indevidamente os dados de 87 milhões de usuários da rede social. A revelação gerou um prejuízo de imagem sem precedentes para o Facebook e colocou em debate o próprio modelo de negócios das plataformas. Mais de 90% do faturamento de empresas como o Google e o Facebook vem de anúncios. Em 2019, foram investidos mais de 300 bilhões de dólares em publicidade online no mundo, segundo a consultoria de marketing digital eMarketer. E, pela primeira vez, a propaganda na internet ultrapassou os anúncios em meios offline nos Estados Unidos. A forma como o debate digital se estrutura influencia, portanto, o modelo de fazer negócio não só das empresas na internet, mas também de todas as companhias que anunciam seus produtos online.

No Brasil, anunciantes viraram o centro da atenção no mês de maio com a criação de uma versão brasileira da página americana Sleeping Giants, de 2016. A página marca as empresas em seus perfis nas redes sociais e mostra a elas que seus anúncios são exibidos em sites de conteúdo falso. O debate envolveu mais de 150 empresas, entre elas marcas como Deli, Brastemp, Samsung e Natura, que foram citadas e decidiram retirar seus anúncios desses sites. A base do problema está na chamada mídia programática: as empresas compram espaço publicitário por meio de intermediários, que, então, posicionam os anúncios em centenas de milhares de páginas. Os anunciantes nem sempre escolhem cada um dos sites em que vão anunciar, nem monitoram onde os anúncios são veiculados. Para Cristiane Camargo, presidente executiva do Interactive Advertising Bureau (IAB) Brasil, uma associação do setor de publicidade digital, não se pode ”criminalizar” plataformas por distribuir os anúncios. ”O debate é positivo. Pode fazer com que todo o ecossistema aprimore suas práticas, inclusive nas empresas anunciantes”, diz.

De todo modo, o tema é complexo. De um lado, existe uma questão ética e operacional em controlar o que mais de 1 bilhão de pessoas publicam em uma plataforma. De outro, estão os efeitos devastadores que uma notícia falsa pode causar na sociedade. Para especialistas, além das redes sociais, os próprios usuários que cometem crimes também precisam ser responsabilizados. ”Uma notícia falsa não deixa de ser uma difamação. Quem está compartilhando material pratica o mesmo delito de quem criou o conteúdo, mas em uma esfera menor”, diz Gisele Truzzi, advogada especializada em direito digital. Há possibilidade de ação judicial nas esferas cível e criminal e o acusado pode ser denunciado por crimes contra a honra, que envolvem calúnia, difamação, injúria, entre outros. A pena para esses casos é de multa e detenção, além da obrigação de realizar uma retratação para a pessoa ou a organização lesada pelo conteúdo. ”O direito de expressão existe até o limite que você não ofenda o direito de terceiro”, afirma Truzzi. Forçar a rede social a remover o conteúdo é outra história e abrange novamente a questão da liberdade de expressão.

Para além desse debate sobre remover ou não conteúdo, a busca por um ambiente digital mais saudável passa por uma reorganização dos algoritmos que definem quais publicações serão mais exibidas e também por uma maior transparência das plataformas. O Google, líder nos serviços de buscas, anúncios digitais e vídeos online com o YouTube, afirma que já retirou do ar – ou reduziu o alcance nas buscas – milhões de vídeos e páginas que violam suas políticas internas. A empresa diz ainda que calibra seu algoritmo para dar relevância a conteúdos oficiais e ao jornalismo profissional e faz parceria com agências de checagem. Com a crise do coronavírus, a exibição de conteúdo oficial subiu mais de 70º/o. ”Às vezes escutamos que a internet é uma terra sem lei, mas não é verdade”, diz Marcelo Lacerda, diretor de relações governamentais e políticas públicas do Google Brasil.

Com a proximidade das eleições presidenciais nos Estados Unidos e da eleição municipal no Brasil, o debate sobre o papel das redes sociais tende a ganhar ainda mais importância. O uso de estratégias de – desinformação é uma arma política relevante nas campanhas eleitorais nos últimos anos e o radicalismo ganhou um espaço excessivo. Para Cesar Calejon, um dos autores do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI, as redes sociais precisam atuar de maneira cuidadosa para não assumir uma postura partidária. ”A dinâmica das redes sociais favorece discursos polêmicos ou exacerbados. Os candidatos que se comportam desse modo ganham mais ressonância na cultura popular. Por isso, há uma crença na política de que é preciso ser ultrajante nas redes sociais e fora dela para se destacar”, afirma Calejon. Para o autor, seria importante criminalizar a disseminação de notícias falsas de forma recorrente para reduzir a veiculação desse tipo de conteúdo. Resta saber se tanto os governos quanto as redes sociais aprenderam com os equívocos do passado. A hora de consertar suas falhas é agora.

REDES DE INTRIGAS

Polêmicas recentes envolvendo as principais redes sociais da atualidade mostram que é preciso haver um debate sobre os riscos dessas plataformas para a sociedade.

CAMBRIDGE ANALYTICA – (2018)

O Facebook e o Twitter foram envolvidos em um escândalo de uso indevido de dados de mais de 80 milhões de pessoas pela consultoria britânica Cambridge Analytica com o objetivo de influenciar as eleições americanas e o referendo do Brexit.

DISPAROS DE WHATSAPP NAS ELEIÇÕES (2018)

Nas eleições presidenciais, denúncias levantaram a suspeita sobre o disparo de mensagens em grupos de WhatsApp, muitas delas com conteúdo falso, para favorecer o então candidato Jair Bolsonaro. Há suspeita de que a campanha tenha sido financiada ilegalmente por empresários

GENOCÍDIO EM MIANMAR (2018)

O Facebook reconheceu a responsabilidade sobre um genocídio em Mianmar depois de a rede social ter sido usada livremente para transmitir discursos islamofóbicos contra refugiados muçulmanos de origem rohingya, motivando um massacre que deixou mais de 25.000 mortos.

VAZAMENTO DE DADOS (2019)

Dados de 419 milhões de usuários do Facebook e de 49 milhões de usuários do Instagram foram expostos indevidamente na internet por uma falha de segurança da empresa. Entre as informações era possível obter o número de telefone de cada internauta.

FAKE NEWS POLÍTICAS (2020)

Neste ano, o Facebook causou polêmica ao afirmar que, ao contrário de outros conteúdos, não realiza a checagem da veracidade de informações veiculadas na plataforma nos anúncios de campanhas políticas, o que permite a veiculação de fake news na rede social.

PRÁTICAS RACISTAS (2020)

Ex-funcionários do Snapchat afirmaram recentemente que, entre 2015 e 2018, profissionais da equipe editorial da empresa tinham práticas racistas. Em um dos casos, um editor declarou que publicações de artistas negros eram um nicho.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE JULHO

PROSPERANDO NO DESERTO

Semeou Isaque naquela terra e, no mesmo ano, recolheu cento por um, porque o SENHOR o abençoava (Genesis 26.12).

Isaque, filho de Abraão e pai de Esaú e Jacó, foi um homem manso. Não gostava de brigar. Abria mão de seus direitos para não entrar numa confusão. Prosperou na terra de Gerar. Desenterrou os poços antigos cavados por seu pai Abraão e abriu outros novos. Por isso, semeou naquele deserto e colheu a cento por um. Prosperou e tornou-se riquíssimo. Seu sucesso, porém, foi visto com maus olhos pelo povo daquela terra. Os filisteus resolveram entulhar seus poços. Em vez de brigar, Isaque seguia em frente e cavava novos poços. Água brotava das entranhas da terra, e os filisteus, movidos pela inveja, vinham e enchiam de entulho os poços. Isaque avançava em seu projeto de abrir poços, e os filisteus avançavam em seu intento de enchê-los de terra. Quando a situação se tornou insustentável, Isaque saiu daquela terra e, por onde ia, cavava novos poços e Deus o fazia prosperar. Mais tarde, seus inimigos reconheceram que ele era um abençoado do Senhor e o procuraram. Isaque não retaliou; antes, recebeu-os com honras e bênçãos. A maior prosperidade não é aquela que acumulamos, mas a que distribuímos. Somos abençoados quando, tendo a oportunidade de vingança, perdoamos; quando tendo o direito de defesa, abrimos mão e entregamos nossa causa a Deus. Dessa forma, Deus reconcilia conosco nossos inimigos e nos abre novas portas de oportunidade.

GESTÃO E CARREIRA

A INTELIGÊNCIA DE GÊNERO

Conheça a competência que ajuda as organizações a compreender melhor as diferenças entre homens e mulheres

Quando tratamos de equidade de gênero na liderança é comum pensarmos que essa é uma causa apenas das mulheres. Mas os homens têm um papel fundamental nesse processo, atuando como agentes de transformação. Isso porque será a partir de mudanças fundamentais na alta gestão que conseguiremos transformar o cenário das corporações em ambientes mais diversos e inclusivos.

Um dos pontos críticos a ser trabalhados nessa mudança são as associações mentais referentes às características esperadas de uma pessoa em posição de liderança. Diversas pesquisas científicas apontam que, enquanto os homens são associados a características como competência, assertividade, autoconfiança e racionalidade, as mulheres são consideradas atenciosas, amigáveis, colaborativas, intuitivas, compreensivas e emocionais. Todos esses traços femininos são importantes – ainda mais quando falamos de liderança inclusiva. O problema é que apenas as características masculinas têm sido pontuadas como positivas pelo mercado. Devemos considerar também que os padrões exigidos das mulheres no mercado de trabalho são mais altos do que os dos homens, o que faz com que elas tenham de se esforçar mais para provar sua competência. É comum que os homens sejam contratados com base em seu potencial futuro, pois já é assumido que eles possuem as características, competências e habilidades de líderes.

Para construir um novo panorama, é preciso criar um ambiente inclusivo nas empresas, com relações profissionais saudáveis e baseadas na confiança. Por isso, é importante saber que homens e mulheres pensam e agem de formas diferentes, se comunicam, resolvem conflitos e lidam com a emoção e com o estresse de maneiras diversas. Esse conhecimento se chama inteligência de gênero – e é fundamental para aumentar o senso de pertencimento, a harmonia, a produtividade e a rentabilidade das empresas.

Os questionamentos são um exemplo de como homens e mulheres agem de modos diferentes e de como pode haver interpretações equivocadas. No geral, as mulheres adoram fazer perguntas. Do ponto de vista delas, a pergunta é uma forma de gerar engajamento e colaboração, além de dar espaço para novas ideias. Já os homens têm tendência a considerar as perguntas sinais de dúvida e de falta de confiança das mulheres.

Outra diferença importante está na solução de problemas. Uma das principais competências dos líderes é a capacidade de resolver um desafio ele maneira rápida. Os homens têm a vantagem de focar os fatos e conseguir ser ágeis. Por outro lado, as mulheres têm tendência a ver os problemas em um contexto maior, com múltiplas soluções.

A inteligência de gênero está justamente em juntar o que cada um tem ele melhor, entendendo e valorizando as distinções. É preciso um esforço de consciência e de empatia para que as diferenças e os pontos cegos entre homens e mulheres se tornem pontos fortes. Assim, o caminho para a equidade de gênero se tornará mais curto.

CRIS KERR – é CEO da CKZ Diversidade, mestra em sustentabilidade e professora de diversidade na Fundação Dom Cabral

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O BOM DA VIDA

Verdades e mitos sobre a longevidade

Quando sua filha nasceu, Mata Zaraska estava decidida a dar-lhe apenas o melhor. “Frutinhas goji, sementes de chia, couve… Eu ficava louca vasculhando as lojas em busca dos alimentos mais saudáveis”, diz. “Todas as coisas que eu tinha certeza que a fariam viver até os 100 anos.” Então, ela pensou que o modo como levamos a vida talvez seja mais importante que o último alimento milagroso ou aparelho de ginástica. Mas, por ser uma jornalista científica com treinamento em direito, ela queria provas.

Começou a examinar centenas de trabalhos acadêmicos e a entrevistar dezenas de pesquisadores sobre experimentos radicais com ratos e macacos, e fenômenos biológicos assustadores como células zumbi (chamadas células senescentes, a matéria inchada e não totalmente morta que se acumula à medida que envelhecemos, expelindo toxinas e transformando outras células em zumbis). Sua pesquisa expandiu-se além da ciência, incluindo um campo de treinamento de longevidade português, um salão de abraços polonês e uma sessão de prensagem de flores para octogenários japoneses, antes de retornar à França, lar da mais antiga centenária certificada do mundo. Sua curiosidade resultou no livro Growing Young: How Friendship, Optimism, and Kindness Can Help You Live to 100, editora Robinson – sem previsão de lançamento no Brasil.

Quando Jeanne Calment morreu, em um lar de idosos em Arles, em 4 de agosto de 1997, com 122 anos e 164 dias, havia se tornado uma garota-propaganda da longevidade (embora alguns tenham contestado por quanto tempo ela viveu). Ela afirmou que conheceu Van Gogh e encantou os jornalistas com histórias de que fumava e bebia. “Mas eram mentiras”, escreve Zaraska. Calment só fumou durante dois anos, bem depois de completar 110. Zaraska alerta sobre as histórias de longevidade, muitas das quais podem ser produto da fantasia.

Como testemunhei o declínio de vários parentes idosos, digo a ela que tenho quase certeza de que não quero viver até os 100. Mas ela me diz que a importância de Calment não é simplesmente a sua idade, mas o fato de ter gozado de boa saúde até semanas antes de morrer: “Os estudos mostram que quanto mais você vive maior a probabilidade de permanecer em perfeita forma e morrer enquanto faz jardinagem ou patina pelo mundo”. Enquanto um ser humano médio passa quase 18% da vida em luta contra doenças, para um super centenário essa proporção cai para 5%. Embora os registros públicos mostrem que Calment veio de uma linhagem longeva, Zaraska diz que “quanto tempo vivemos é apenas de 20% a 25% hereditário”. Uma gerontologista que conhecia Calment e pesquisou seu caso afirmou que seu amor por entrevistas, e até por suas mentiras (ela admitiu que dizia aos jornalistas o que eles queriam ouvir), pode ter sido fundamental. “Ela era forte, rebelde, curiosa sobre o mundo e ferozmente independente. “Basicamente, uma otimista.

Então, quais são as suas chances, sevocê não é nada disso? Não é novidade que infelizes geralmente não vivem tanto quanto os felizes. Zaraska afirma, entretanto, que uma das formas mais prejudiciais de infelicidade é a solidão. Tudo remonta ao nosso passado de caçadores­ coletores e às diferentes estratégias necessárias para nos protegermos. A sensação de solidão sinalizava o tipo de isolamento que colocava os primeiros humanos sob risco de ataque de animais. A falta de leões, hoje isso gera um estresse constante, em fogo baixo, que pode levar à inflamação crônica, que está associada a tudo, desde câncer e artrite reumatoide a diabetes e Alzheimer.

As estatísticas que Zaraska descobriu para apoiar sua tese são surpreendentes. Adotar adieta mediterrânea, rica em frutas e legumes, azeite no lugar de manteiga, pode reduzir em 21% a probabilidade de morte prematura. Ter uma grande rede de amigos, entretanto, a reduzirá em 45%. Ter um casamento feliz reduz pela metade.

Coloque tudo junto, diz, e você pode até chegar ao “efeito Roseto”. No início dos anos 1960, os habitantes de Roseto, na Pensilvânia (EUA), apresentavam taxas muito baixas de doenças cardíacas, apesar de fumarem, beberem e adorarem salsichas cozidas em banha de porco (o excesso de peso não é, estatisticamente, um obstáculo à vida longa, desde que seu IMC não tenda à obesidade grave). O fenômeno foi atribuído à extrema sociabilidade de uma comunidade de imigrantes italianos que tinham esquecido completamente a dieta mediterrânea, mas não o estilo de vida que a acompanhava. Se eles abandonassem seus hábitos de vizinhança, alertou um médico local, sua saúde se deterioraria. E assim foi. No fim dos anos 1970, escreve Zaraska, os moradores de Roseta sucumbiram ao sonho norte-americano de casas maiores e mais afastadas, alcançadas de carro e não a pé – e tiveram uma taxa de mortalidade semelhante à de outros lugares nos Estados Unidos.

Os extrovertidos tendem a viver mais do que os introvertidos, diz Zaraska, citando pesquisas de Japão, Suécia e Holanda e Estados Unidos. Um estudo holandês afirmou que cada indivíduo a mais em uma rede de interações regulares reduzia em 2% o risco de morrer em cinco anos. Mas, mesmo que você seja muito introvertido, há coisas que pode fazer para melhorar suas perspectivas. Quais? “Não se preocupe com a falta de um amplo grupo de amigos. Cuide bem dos poucos amigos íntimos que você tem.”

Felizmente, os atributos de personalidade não são imutáveis. Eles são uma combinação de falhas e comportamentos que aumentam com o tempo e podem ser combatidos por meio de terapia, meditação e autodisciplina, embora alguns sejam mais difíceis de mudar que outros. “Se você escolher um traço de personalidade para trabalhar, a fim de aumentar suas chances, escolha a consciência”, diz ela. Conforme os atributos, é relativamente fácil mudar. “Mantenha seu escritório arrumado, organize sua gaveta de meias, prepare suas roupas na noite anterior.”

Como alguém que sempre foi um pouco desleixado no departamento de gavetas de meias, acho isso alarmante. Como a organização extrema se encaixa na ideia de uma vida familiar harmoniosa – ou de se tornar um centenário? Os conscientes são mais propensos a fazer coisas boas para eles. “Investimos tanto dinheiro em ensaios clínicos caros que prometem terapias extravagantes para reverter o envelhecimento”, ela escreve. “Mas talvez devêssemos fazer coisas que são conhecidas por funcionar, como voluntariado, fazer amigos e aprender otimismo. Se investirmos mais em ser gentis, conscientes e atenciosos, é mais provável que melhoremos as condições em que todos vivemos.”

EU ACHO …

JUÍZO DE VALOR

A economia é uma disciplina que nasceu da filosofia moral e ética. Em A teoria dos sentimentos morais, Adam Smith delineou os pilares éticos, comportamentais e metodológicos que influenciariam toda a sua obra, inclusive A riqueza das nações. Deste seu livro nasceu a economia política, que muito mais tarde passaria a ser apenas “economia”. Hoje uma ciência social aplicada, a economia tem, assim, um longo histórico intelectual que elabora sobre sua dimensão normativa e não sobrepõe a ela nem a dimensão positiva nem as práticas positivistas adotadas em seu ensino atual. Alunos de economia, há muito, não são estimulados a pensar sobre valores, nem a formular e pôr em debate seus próprios juízos quando confrontados com diferentes escolhas de política econômica. Por esse motivo, as gerações mais novas de economistas costumam se ater aos métodos estritamente quantitativos, às análises rígidas de custo-benefício quando discutem a política econômica. A crise humanitária decorrente da pandemia põe em evidência essa grave deficiência da economia moderna.

É comum ver economistas – não apenas no Brasil – dizerem que não cabe à profissão trazer questões normativas para a discussão. O que é correto, o que é justo, o que é desejável é negligenciado em prol de análises do tipo: “vale a pena ou não?”, “quanto custa?”, “qual o ganho?”, entendendo-se por “ganho” uma recompensa estritamente monetária. Essa maneira de tratar a disciplina a empobrece e a torna enfadonha. Não economistas – que compõem a maior parte da sociedade, um alívio – costumam perguntar se algo que leem nas páginas dos jornais é justo ou correto. “É justo que o valor de minha aposentaria seja reduzido?” “É correto que eu tenha de trabalhar mais tempo para poder me aposentar?” “É desejável que empregos sejam mantidos à custa de reduções de salários?” Economistas não só não costumam ter respostas para essas perguntas, como muitas vezes se mostram refratários a elas. Tal postura, naturalmente, afasta a economia da vida das pessoas, ainda que a economia esteja o tempo todo presente nela.

Dia desses, em uma discussão sobre a renda básica, economistas deram a entender que não cabia um julgamento sobre se esses programas são ou não justos, posto que sua natureza redistributiva encerra uma questão de justiça e deve ser, por isso, arbitrada pela política, pelo Congresso Nacional. É claro que muitas políticas públicas devem ser arbitradas pelo Poder Legislativo: é como funcionam nossos sistemas democráticos. Contudo, essa constatação não exime o economista de explicitar o juízo de valor que ele efetivamente faz sobre a renda básica. É perfeitamente razoável, diria até que esperado, que o ou a economista expliquem à sociedade, sobretudo no papel de intelectuais públicos, por que a renda básica é justa, correta, desejável. Ou, caso tenham a visão contrária, por que ela não é nada disso. Neste momento, em que as pessoas estão buscando respostas que vão além daquilo que é mensurável, recolocar valores não quantificáveis no debate econômico é importante não apenas para orientar quem busca orientação, mas para tornar a economia relevante do ponto de vista de quem é por ela afetado ou afetada.

Essa fragilidade no pensamento econômico moderno não é compartilhada por alguns economistas de outras gerações. Em sua extensa obra sobre desigualdade, pobreza e desenvolvimento econômico, o grande professor Amartya Sen, vencedor do Nobel de Economia em 1998, debruçou-se sobre seus aspectos normativos, entendendo que eles não eram separáveis desses objetos de estudo. Albert Hirschman, outro grande economista e cientista social, também escrevia seus ensaios com um olhar sobre a ética e os valores de políticas públicas desenhadas para promover o desenvolvimento dos países. Não à toa, a obra desses pensadores é instigante, provocadora e resistente a tentativas reducionistas.

A crise humanitária apresenta um enorme desafio para a economia como ciência e disciplina prática. Mas também lhe oferece a oportunidade de voltar a suas origens e aproximar-se novamente das pessoas – seu objeto de estudo, afinal. É um desperdício insistir em reduzi-la a uma linguagem inútil e de uso restrito apenas aos tecnocratas, em descrédito mundo afora.

MONICA DE BOLLE é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da universidade Johns Hopkins.

OUTROS OLHARES

O QUE DIZEM AS VÍTIMAS

Um levantamento inédito mostra o perfil dos brasileiros que perderam a vida em maior número por causa da pandemia. Em comum, eles têm a cor, a idade e a falta de oportunidades

Aos 67 anos, diabético, Adelson José da Silva continuava dando expediente no trabalho do qual sempre se orgulhou, apesar da pandemia. Era motorista socorrista do Samu, em Cubatão, São Paulo, e sentia que cumpria a missão de sua vida ao ajudar a transportar pessoas em risco de morte até o hospital municipal da cidade. Logo na chegada do novo coronavirus ao país, em março, perdera seu melhor amigo para a doença. Isso fez com que sua família se preocupasse com sua saúde e requeresse seu recolhimento, por ser considerado do grupo de risco. Mas o Samu não podia prescindir de seu trabalho num período de tamanha demanda. Sem saber que estava com a doença, Adelson Silva chegou a trabalhar infectado, quando os sintomas ainda eram leves. Deu entrada no pronto-socorro em 16 de abril, com tosse e dificuldade para respirar. Em mais de 40 anos como socorrista, foi sua terceira falta Ficou 19 dias internado. Catorze, em decorrência da Covid-19. Os últimos cinco, para tratar-se da pneumonia que contraiu no hospital. Despediu-se em 5 de maio, 17 dias antes de seu aniversário.

Adelson era pardo, havia cursado até o ensino médio e vivia em área urbana. Essas características, somadas à idade e à presença de ao menos uma comorbidade, diabetes, o colocam no grupo em que, segundo dados coletados no Sistema Sivep ­ Gripe, do OpenDataSUS, mantido pelo Sistema Único de Saúde, está a vítima- padrão da Covid-19 no Brasil. Um levantamento exclusivo encomendado à consultoria Lagom Data, em que foram analisados dados de 54.488 vítimas, mostra o que dizem os mortos sobre a pandemia no Brasil. A conclusão é que, por razões socioeconômicas e sociodemográficas, a doença matou mais pobres e pardos, mais homens que mulheres e mais jovens do que em outros países onde a pandemia inviabilizou sistemas de saúde, como na Itália e na Espanha.

Esses dados, que revelam informações sobre os mortos por síndrome respiratória aguda grave (Srag) decorrente da Covid-19, deixaram de ser publicados pelo Ministério da Saúde no início de junho, logo após a última mudança de gestão, em que assumiu o general Eduardo Pazuello. No dia 16 do mesmo mês, diante da má repercussão do apagão, eles voltaram ao site, com atualização semanal. Os números do SUS são obtidos graças à inserção obrigatória das fichas de todos os pacientes (de hospitais públicos e privados) na base de dados do sistema. Por meio dessa ferramenta, é possível ler o que cada profissional da saúde escreveu na ficha de cada paciente infectado pelo novo coronavírus no Brasil. A inserção tem uma certa defasagem: na terça-feira 30, última coleta feita pela reportagem, eram contabilizadas 54.488 mortes, enquanto os números do Ministério da Saúde estavam em 60 mil.

Sexo, idade e localização são as informações mais completas nas fichas pesquisadas. Com isso, é possível saber que 96% dos pacientes que morreram de Covid-19 após serem internados no Brasil viviam em zonas urbanas e quase seis em cada dez eram homens. A cor da pele é preenchida em cerca de dois terços das fichas e, apesar das lacunas, os números evidenciam o impacto da desigualdade. Das vítimas cuja cor foi identificada, 61% constam como pardas e pretas, enquanto, segundo o IBGE, os pardos e pretos no pais representam 54%. No Norte, 86% das vítimas eram pardas e pretas, um número proporcionalmente maior do que a desses fenótipos na população da região – que é de 76%. No Nordeste, eram 82% dos mortos, mesmo sendo apenas 70% da população, de acordo com o IBGE.

Os dados também ajudam a dar um panorama mais detalhado de como a pandemia afetou as populações indígenas. Foram 218 mortos registrados, 40 apenas em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, considerado o município com maior proporção de índios no país e mais próximo da reserva ianomâmi. A média de idade e o sexo das vítimas não difere muito do padrão nacional: 66 anos e majoritariamente homens. Mesmo assim, a doença afetou os mais jovens e 11 vítimas foram bebês indígenas com idade entre 3 dias e 11 meses de vida. A recém-nascida, da etnia pipipã, morreu de insuficiência respiratória associada à Covid-19 no município de Floresta, no sertão de Pernambuco.

Ao analisar a média de idade das vítimas, o levantamento mostra importantes oscilações entre os estados – em Mato Grosso, 40% dos mortos tinham menos de 60 anos, enquanto no Rio Grande do Sul apenas 21% estavam nessa faixa -, e também que os brasileiros morreram mais jovens na comparação internacional. No Brasil, a média para mulheres é de 70 anos e para os homens de 67. Mas, quando se observa as idades por categorias, há maior percentual de vítimas mais jovens do que a média de países europeus. No Brasil, cerca de 6% das vítimas tinham entre 40 e 49 anos, enquanto em países como Itália, Espanha e Suécia, esse porcentual não passou de 1%. Já entre 50 e 59 anos, os brasileiros que morreram em decorrência da pandemia superavam 10% do total. Nos três países europeus, as vítimas nessa faixa etária eram menos de 5%. Na Espanha e na Itália, 40% das vítimas tinham entre 80 e 90 anos. No Brasil, essa faixa correspondia a cerca de 20% dos mortos. Nos Estados Unidos, 19% dos mortos tinham menos de 65 anos. No Brasil, 26% tinham menos de 60 anos.

O epidemiologista Guilherme Werneck, professor da Universidadedo Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da UniversidadeFederal do Rio de Janeiro (UFRJ), não advoga por comparações entre países, argumentando que a população brasileira é, na essência, mais jovem do que a europeia e a americana. Mas ele aponta outros fatores, além da demografia, que ajudam a explicar a vulnerabilidade dos mais novos no Brasil. Um deles é o fato de brasileiros sofrerem de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, mais precocemente do que outras populações. Por trás disso estão hábitos pouco saudáveis, como o consumo de comida industrializada, ainda mais frequente entre as camadas mais pobres da população. “Tudo nos leva para uma população economicamente e socialmente mais vulnerável. Escolaridade reflete mais do que o conhecimento,  reflete oportunidades de emprego, renda, ocupação – que geralmente levam à informalidade, com péssimas condições de trabalho e maior exposição neste momento. É uma carga que vai se redobrando sobre essas populações, e a Covid-19 não deixaria de revelar a desigualdade que já temos” , disse.

A maior incidência das mortes decorrentes da Covid-19 em homens – 56% das vítimas são do sexo masculino, mas há estados, como Mato Grosso, em que esse percentual vai a 70% – também pode ser explicada, em determinados aspectos, por fatores sociais. “Há várias teorias para isso. Uma delas diz respeito a comorbidades não tratadas: os dois podem ter hipertensão, mas a das mulheres tende a estar mais controlada. De forma geral, sabemos que as mulheres aderem mais à medicação, procuram mais rapidamente o serviço de saúde e têm maior cuidado com a saúde do que os homens. Elas também costumam seguir mais as recomendações preventivas, no caso lavar a mão, usar a máscara, fazer distanciamento. Em geral, os homens se cuidam menos”, disse Werneck.

Ainda que os dados contenham enormes lacunas na inserção de informações socioeconôrnicas, como escolaridade e profissão, é possível aferir, com o que se tem disponível hoje, a relação entre a mortalidade do vírus e a renda, resultando na constatação atroz de que os mais pobres, seja por precariedade da saúde, da moradia, do trabalho ou do acesso à rede hospitalar, foram as maiores vítimas da Covid-19 no país. Segundo Marcelo Gomes, pesquisador que coordena o projeto InfoGripe, da Fiocruz, a falta de oportunidade é escancarada nos aspectos mais básicos da vida em sociedade, que é o acesso à água tratada, importante fator para a multiplicação do coronavírus. Água limpa e esgoto tratado são serviços escassos na Região Norte, no sertão nordestino e nas periferias das grandes cidades, o que dificulta a prática de medidas profiláticas simples, como a lavagem das mãos. “Temos uma realidade bastante peculiar em termos de vulnerabilidade socio­ econômica e sociodemográfica, muito distinta em relação à dos países desenvolvidos”, disse o pesquisador. “Nossas zonas mais pobres têm um adensamento maior, mais gente no mesmo espaço, o que aumenta a velocidade de transmissão.”

O retrato desse cenário de desalento pode ser percebido nos números. Entre as mais de 50 mil vílimas analisadas na pesquisa, foi informada a escolaridade de 13.300 (e quase dois terços delas tinham, no máximo, o ensino fundamental completo). A baixa escolaridade, em si, não é a slntese do problema sanitário trazido pela Covid-19, mas ajuda a explicar a falta de desenvolvimento nas áreas mais afetadas – o que acaba impactan do todas as esferas de vulnerabilidade de uma população. Um índice para medir o impacto de características socioeconômicas na saúde foi criado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital Israelita Albert Einstein, em parceria com o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS). Esse indicador, batizado de GeoSES, já mostra que, quanto maior o percentual de pobreza de um município, maior o risco relativo de mortalidade pelo coronavírus. Outro estudo, feito pelo site Medida SP, em que foram cmzados os dados de mais de 3 mil mortos por Covid-19 na Grande São Paulo com seus CEPs, constatou que 66% das vítimas viviam em bairros em que a renda média estava abaixo de R$ 3 mil. Nas regiões com renda superior a R$ 19 mil, foi registrado pouco mais de 1% das mortes.

O preenchimento das informações sobre comorbidades dos pacientes é mais raro nos prontuários do SUS – está em apenas um terço das fichas -, o que sugere a precariedade do atendimento, agravada pelo fato de, em muitos casos, o próprio enfermeiro que preenche a primeira ficha ser o mesmo que prestará o atendimento imediato a doentes, geralmente, em estado grave. Cardiopatia era a doença mais recorrente nas fichas: constava em 70% dos documentos preenchidos com comorbidades. Diabetes, em 60%. Obesidade, em 10%. E asma, em 5%.

Gomes, da Fiocruz, se refere ao método de obtenção dos dados como “arcaico”. Ele explica que, ainda que o país tenha um sistema nacional de saúde, o que é uma vantagem em comparação com outros países, o preenchimento de doenças de notificação compulsória, como síndromes respiratórias, é feito manualmente em fichas de papel. “Isso divide a atenção do profissional entre as tarefas de atendimento e essa ficha que é à parte do prontuário”, disse Gomes. Tais lacunas tornam impossível, segundo ele, tirar conclusões epidemiológicas sólidas no campo da ciência, ainda que possam apontar caminhos e tendências.

Epidemiologista da USP, Paulo Lotufo argumenta que as falhas em dados, diante das condições, são compreensíveis, considerando o estresse do momento e da falta de profissionais da saúde. Mas argumenta que isso não impedirá que, mais para a frente, pesquisadores consigam ter um retrato fiel e chancelado pela ciência sobre o que dizem os mortos da pandemia no Brasil. “No momento, esquece. Isso é um projeto de pesquisa, vamos pegar amostragem, prontuário, tudo. Mas, agora, não dá. As equipes médicas estão arrebentadas, estafadas. Pandemia é pandemia, depois nós vamos analisar”, disse.

No Reino Unido, em que o sistema de saúde é único e há disponibilidade de dados mais detalhados sobre as vítimas, uma associação, a OpenSAFELY Collaborative, publicou um preprint (estudo inicialmente sem revisão feita por pares) com uma análise dos prontuários eletrônicos de 17 milhões de pacientes adultos do país. O estudo foi coordenado por Ben Goldacre, pesquisador sênior do Centro para a Medicina Baseada em Evidências de Oxford, e indica que mesmo esses dados muito mais completos do que os brasileiros falham em captar variáveis que podem ser cruciais, como a exposição ao vírus no trabalho e condições de moradia da vítima.

Segundo a pesquisa, os maiores riscos de morte associados ao novo coronavírus (com base em 5.683 mortes ocorridas até 16 de abril) estavam relacionados a algum destes fatores: ser homem, ser idoso e pobre, ter diabetes descontrolado e sofrer de asma severa. Negros e asiáticos, no Reino Unido, apresentavam maior risco de morte hospitalar do que brancos. Contudo, os pesquisadores se esquivam, ainda, de traçar qualquer paralelo socioeconômico com o perfil das vítimas. Parte dessa preocupação se deve ao fato de a saúde no país ser pública e igual para toda a população, independentemente da renda ou condição social. “Ao contrário de especulações anteriores, isto é apenas parcialmente atribuível a fatores de risco preexistentes ou à pobreza”, diz o estudo.

Até chegar a seu suado posto de motorista socorrista, Adelson Silva passou por alguns percalços na vida. O primeiro deles foi sobreviver, ao migrar com os pais e 14 irmãos de Pernambuco para São Paulo, quando criança, em busca de uma vida melhor. Tornou-se motorista de ambulância e só depois fez cursos para socorrista. Casou-se e permaneceu por 45 anos com a mesma mulher. Teve dois filhos, criados graças a seu soldo no Samu, que lhe deram três netos. No dia de sua morte, em maio, foi aplaudido pelos funcionários do lado de fora do pronto-socorro enquanto seu corpo passava pela via a caminho do cemitério. Ambulâncias acompanharam o carro fúnebre em homenagem ao colega. Adelson Silva foi enterrado com o uniforme de trabalho, que ele tinha orgulho de vestir, como lembra sua filha Amanda, que já passou Natal e Ano-Novo na porta do pronto-socorro vendo o pai de plantão. Evangélico, ele tocava baixo, piano e violão nos cultos. Era um assíduo participante dos projetos sociais da igreja.

Nos últimos dias de vida, quando Adelson Silva chegou a esboçar alguma melhora, pôde receber uma visita da filha. Chorou quando ouviu que seus netos estavam com saudade. Em fevereiro, quando um deles completou 18 anos, deu o primeiro pedaço de bolo para o avô. Ele sempre dava para a avó. Mas, neste ano, foi diferente.

NEGROS MORREM MAIS

Regiões brasileiras apresentam diferenças na composição racial dos mortos pela Covid-19

O SEXO FRÁGIL DA COVID

Estados do Norte do Brasil têm mais registros de pacientes do sexo masculino entre os óbitos

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ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE JULHO

O PRIVILÉGIO DE SOCORRER OS NECESSITADOS

Quem se compadece do pobre ao SENHOR empresta, e este lhe paga o seu benefício (Provérbios 19.17).

A ganância e a avareza são características de uma sociedade materialista. Muitos pensam que a felicidade consiste em acumular para si mesmos o máximo que puderem amealhar. Para isso, tomam de assalto até mesmo o que pertence ao próximo. Surripiam o alheio. A Bíblia diz, porém, que feliz é o homem que acode ao necessitado, e não o avarento. Aquele que se compadece do pobre, Deus lhe assiste em sua aflição e lhe afofa a cama na hora da enfermidade. A generosidade é o caminho mais curto para uma vida feliz. A felicidade não é governada pelo egoísmo, mas pelo altruísmo. Não encontramos a felicidade quando retemos tudo em nossas mãos, mas quando repartimos com os necessitados o que temos nas mãos. Os generosos emprestam a Deus, que a ninguém fica devendo. Os generosos fazem uma semeadura bendita e colhem com abundância os frutos benditos dessa semeadura. Deus mesmo multiplica sua sementeira, para continuar semeando com mãos dadivosas. Quando socorremos os necessitados, Deus nos assiste em nossa aflição. Quando aliviamos o sofrimento do pobre, Deus afofa a nossa cama na hora da dor. Quando abrimos o nosso coração, as nossas mãos e o nosso bolso para repartir um pouco do que Deus nos deu, encontramos nesse gesto grande privilégio e verdadeira felicidade.

GESTÃO E CARREIRA

A SAÍDA É A PARCERIA

Marcas como Nokia e Xiaomi se aliam a fabricantes nacionais para buscar espaço no mercado de celulares brasileiro

O Brasil é desafiador até para empresas que se destacam mundo afora. Por isso, fabricantes internacionais de celulares têm buscado parceiros locais para lidar com as dificuldades de um país de dimensão continental. Esse é o caso da finlandesa HMD Global, empresa responsável pelo retorno da marca Nokia ao mercado de celulares. A companhia acabou de se aliar à brasileira Multilaser para trazer ao país seu novo smartphone, o Nokia 2.3. ”Trabalhar com uma empresa local séria e bem estabelecida é uma estratégia interessante para distribuir produtos de forma eficiente e evitar armadilhas”, diz Alexandre Ostrowiecki, presidente da Multilaser. Florian Seiche, presidente mundial da HMD Global, afirma que, mesmo num momento econômico desfavorável como agora, o mercado brasileiro é prioridade para a empresa. ”O Brasil é um mercado globalmente estratégico com enorme potencial para nós e o único país importante onde ainda não estávamos presentes. No Brasil, a Nokia ainda é reconhecida como uma das marcas de celular da mais alta qualidade”, diz. Há um ano, outra empresa fazia o mesmo movimento: a chinesa Xiaomi. A companhia é a quarta fabricante que mais vende celulares no mundo, pouco atrás da Apple. A aliada em sua segunda incursão no Brasil é a mineira DL. ”Além de conhecer o mercado, é preciso conhecer o consumidor brasileiro. Às vezes, uma cor específica ajuda um produto a ser mais vendido”, diz Luciano Neto, chefe da operação da Xiaomi no Brasil. Apuramos que a Xiaomi tinha O,7% do mercado de smartphones no quarto trimestre de 2019. A Positivo Tecnologia também representa empresas internacionais, como a companhia de acessórios Anker e a marca japonesa de notebooks Vaio. Para Renato Meireles, analista sênior da consultoria IDC, as empresas brasileiras locais auxiliam as fabricantes internacionais a competir no país. ”As companhias brasileiras têm presença forte no varejo e ajudam as multinacionais a entender a cadeia de vendas do país. E, em alguns casos, a parceria de montagem local também ajuda a praticar preços menores ao consumidor”, afirma Meireles.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O MELHOR AMIGO DAS CRIANÇAS

Pesquisa científica mostra que, além de fonte de amor, cachorros de estimação são aliados no desenvolvimento emocional de jovens entre 2 e 5 anos

Pais e mães, preparem-se: as crianças ganharam um forte aliado da ciência para argumentar que ter um cachorro é, sim, de extrema importância para a família – mas, acima de tudo, para elas próprias. Um estudo realizado por cientistas da University of Western Australia (UWA) provou que jovens que convivem com cães apresentam melhor desenvolvimento emocional do que aqueles que não tiveram essa oportunidade. Em outras palavras: o cachorro da família pode ser um parceiro indispensável na criação dos filhos. De acordo com a pesquisa, crianças de 2 a 5 anos que mantêm fortes conexões com bichos de estimação demonstram menos problemas de comportamento do que seus pares. Entre outras conclusões, o estudo mostrou que elas têm 34% mais chance de apresentar comportamento pró-social. Além disso, levar o animal peludo para passear e brincar são atividades que estimulam habilidades sociais positivas e contribuem para a saúde física das crianças. Segundo o estudo australiano, os mais novos que saíram para passear com o cachorro da família acumularam, em média, 29 minutos a mais de atividades físicas por semana do que as crianças sem pet. Trata-se de uma excelente notícia para milhões de brasileiros: com 54,2milhões de caninos, o país tem a quarta maior população pet do mundo.

Para a terapeuta ocupacional Juliana Lacerda, a pesquisa chama atenção por se concentrar em uma faixa etária bastante específica. “A investigação aconteceu no pico do desenvolvimento da cognição social”, diz a especialista. “Quando a criança interage com alguém da mesma idade, ela aprende a desenvolver estratégia, se o cachorro entra como um recurso para aprimorar essas habilidades.” As vantagens, porém, não se restringem às experiências vividas na fase pré-escolar. A convivência com cães pode trazer benefícios que serão úteis também na vida adulta. “O melhor desenvolvimento da cognição na infância diminui a possibilidade de comportamento de risco, como abuso de substâncias químicas, e aumenta o sucesso em relacionamentos pessoais e de trabalho”, afirma Juliana. Outro estudo científico realizado recentemente evidenciou que a convivência intensa entre crianças a partir dos 8 anos e animais de estimação gera efeitos benéficos que se alastram pelo menos até a fase da pré-adolescência. Também há pesquisas sérias que concluíram que a competência social na vida adulta e a autoestima elevada estão associadas à presença canina antes dos 6 anos de idade ou após os 12.

A pesquisa da University of Western Australia avança ao mostrar os impactos dos cães na vida das crianças em uma fase em que elasestão desenvolvendo atributos que ficam para sempre – desde habilidades motoras, conquistadas inclusive na interação física com os animais, até emocionais. O curioso é que o estudo trata especificamente de cachorros. Gatos não foram avaliados, embora outras pesquisas tenham detectado que os bichanos ajudam no desenvolvimento de noções de responsabilidade. Em geral, estudos científicos nessa área priorizam cães por uma razão simples: graças à sua personalidade, eles costumam interagir mais com os humanos. Para Elisa Leão, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre Desenvolvimento Humano da Universidade Mackenzie, a fase entre 2 e 5 anos é a ideal para o primeiro contato com os animais de estimação. “A maturidade motora surge quando a criança aprende a se equilibrar e a reconhecer o animal como um integrante da família”, diz Elisa. “A interação é positiva, porque as crianças acabam desenvolvendo empatia nesse processo.” Em um mundo cada vez mais polarizado e intolerante, ter empatia é uma qualidade que pode ser bastante rara.

Ao mesmo tempo que a convivência com um animal de estimação é repleta de vantagens, há o outro lado da moeda que não deve ser desprezado. “Quando os bichos desaparecem ou morrem, eles contribuem para o primeiro contato com o luto”, explica a especialista do Mackenzie. ‘Isso pode ser o gatilho para o surgimento de doenças como ansiedade ou depressão.” Casos raros de agressão praticada por cachorros, como ataques e mordidas, desencadeiam fobias em pessoas mais sensíveis. Relatos mostram que traumas negativos provocados por cães às vezes duram até a vida adulta. Por isso, a convivência com os animais deve ter como base o equilíbrio – não deixar a criança ser dependente demais do ponto de vista afetivo nem permitir a construção de uma relação baseada no medo. “O cão é excelente companhia, mas trata-se de um animal e é preciso impor limites”, avisa Elisa. Isso, inclusive, ajuda no aprendizado das crianças, que passam a entender que nem tudo na vida é permitido. Outro aspecto a ser considerado na relação entre homens e bichos de estimação é a responsabilidade que as pessoas assumem ao ficar com um pet. Cachorros são fofos, mas dão trabalho, consomem recursos, precisam ser levados com frequência ao veterinário. Crianças devem entender desde cedo que brincar com os companheiros de quatro patas é bom, mas cuidar corretamente deles também é fundamental.

EU ACHO …

ASSIM, NEM A LEI DA GRAVIDADE ESCAPA

A simplificação de complexidades históricas distorce a visão

Pode alguém ser visceralmente contra o racismo e também abominar a retirada ou derrubada de estátuas de personagens históricos? Não só pode como a maioria das pessoas pensa assim, segundo mostram pesquisas de opinião pública na Inglaterra e nos Estados Unidos, os países onde a recente onda de iconoclastia formou um tsunami.

Isso deixa um problema em aberto: como manter os monumentos que outros tantos consideram ofensivos? Talvez um passeio pela Praça de Westminster, o espaço de alta concentração de estátuas no coração de Londres, nos ajude a entender as complexidades históricas e as personalidades que as escreveram – algumas literalmente, como Winston Churchill, que disse que pretendia deixar escrito seu próprio lugar na história. Disse e fez, magnificamente. O envoltório de laminado plástico que deixou a estátua de Churchill na praça parecida com um banheiro químico incendiou o debate. A estátua foi embrulhada depois de ser pichada com a frase “Era racista”. Para protegê-la, mas também num gesto simbólico de rendição à versão britânica do Black Lives Matter, que já tem uma lista de estátuas e placas comemorativas a ser varridas do espaço público com 93 nomes. O homem que salvou a Inglaterra de se dobrar ao nazismo era, com certeza, racista, imperialista e islamofóbico. Alcoólatra também, se julgado pela quantidade de bebida que era capaz de ingerir todos os dias, iniciados com uma taça de champanhe Pol Roger no café da manhã.

Com a praça esvaziada de pedestres e turistas pelo vírus, talvez dê para ouvir as estátuas conversando. O que diria Churchill a Mahatma Gandhi, seu companheiro de praça e de empacotamento. Em vida, quando a Índia já caminhava para a independência – e o desmoronamento do império britânico -, ele criticava Gandhi por ser um advogado típico da City londrina “posando de faquir e andando seminu”. Pode ser que agora se entendam melhor. Ambos foram capazes de praticar a grandiosidade. Agora, dividem o embrulhamento. Gandhi empacotado? Pois o indiano disse e escreveu palavras de cunho racista sobre os negros da África do Sul, onde viveu.

O mesmo país também poderia protagonizar outro diálogo imaginário na praça: Nelson Mandela, igualmente encaixotado, com seu sorriso beatífico, e o segregacionista reformado Jan Smuts. Como os dois sul-africanos foram acabar na mesma praça resume o arco histórico dos últimos setenta anos. Não faltaria assunto para Smuts, ex- primeiro-ministro e líder da minoria branca que acabou rejeitando o apartheid, e Mandela, o homem que o enterrou. Quanto mais recentes, mais pavorosas vão ficando as estátuas. Dá até pena da feiura da versão de bronze da sufragista Millicent Fawcett. E ela que não se sinta livre de ser julgada por padrões morais contemporâneos. A única mulher da praça, inaugurada em 2018, era uma apaixonada pelo império britânico. Se alguém, a caminho de lá, passar por Isaac Newton na frente da Biblioteca Britânica, deixe um aviso. O mais prodigioso entre tantos prodígios da ciência tinha ações da South Sea Company, a parceria público-privada que dominou o tráfico de escravos no século XVIII. O Newton nu e bombadão, versão de pedra da gravura de William Blake, que se cuide. Até a lei da gravitação universal pode acabar derrogada.

**VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

LUZ, CÂMERA, REUNIÃO

As chamadas por vídeo em home office criaram um novo estilo de roupa de trabalho, em que só a parte de cima importa. Embaixo da mesa, a regra é o conforto

Já virou rotina: antes de iniciar uma das muitas videoconferências impostas por seu cotidiano de trabalho em casa, o publicitário alagoano Davi Pradines escolhe entre as duas camisetas que compõem seu figurino quarentena, a preta com estampa e a toda amarela. Assim vestido ele conversa com fornecedores, participa de reuniões e assiste às aulas de pós-graduação. “Alterno uma e outra todos os dias. Ninguém nunca percebeu a repetição”, afirma Pradines, 30 anos, que reserva as camisas sociais e blazers para os encontros virtuais mais sérios, com clientes ou acionistas da startup em que atua no Recife. “Mulheres e homens têm escolhido repetir peças no home office. Não vejo problema nenhum. Acho, inclusive, uma opção sustentável e responsável”, diz a consultora de moda Lilian Pacce. É verdade, mas quem, antes da pandemia, passaria a semana alternando duas camisetas? A proliferação das chamadas de vídeo instituiu um novo modo de se vestir para trabalhar, que privilegia o conforto, foge do rebuscado e elimina o ritual matinal de combinar roupa, sapato e acessórios com a temperatura lá fora.

Já que a roupa de reuniões domésticas só aparece da cintura para cima, as marcas investem em propaganda de blusas, camisas polo e camisetas – no Brasil, o termo “blusa” atingiu seu pico de buscas dos últimos doze meses no Google justamente no fim de maio, de acordo com o Google Trends. “Os varejistas buscam oferecer aos clientes um meio-termo, roupas confortáveis para usar em casa, mas que passem uma imagem apropriada”, define Maria Carolina Melo, especialista do mercado de moda e diretora da consultoria Tropic Consulting. O empresário Marcos Morrone, 64 anos, dono de um escritório de design para varejo em São Paulo e que antes da quarentena circulava com o clássico trio jeans-camisa social-paletó, agora é adepto convicto da “moda Zoom”. “Do tronco para baixo, passo o dia de bermuda e chinelo. Faz três meses que não sei o que é usar uma calça ou sapato fechado”, relata. De manhã, com funcionários, é ainda mais radical: aparece com traje de fazer esteira. “Não sou só eu. Todos com quem converso por vídeo adotaram o estilo despojado e confortável”, afirma. Convenhamos: uniforme de correr na esteira é radical. Mas o outro lado também é verdadeiro – seriedade, para quem está obviamente sentado à mesa de jantar da casa, é demais.

O manual do bem-vestir em home office recomenda evitar cores fortes, maquiagem pesada e acessórios gritantes, tudo duplamente ressaltado naquela telinha que não mostra o conjunto inteiro. Nas mulheres, decotes são um convite à distração, por óbvias questões de enquadramento. “No ambiente virtual, qualquer coisa que passe do tom é como se você estivesse gritando para a câmera, mesmo estando em silêncio”, ensina Lilian. Vaidosas que se arrepiam com roupas simplesinhas costumam apelar para echarpes, lenços e brincos, muitos brincos. A joalheria Vivara registrou em junho aumento de 13% nas vendas deles em uma de suas coleções em relação ao mesmo mês do ano passado, avanço maior do que o consumo de anéis e outros itens. Para a administradora Sandra Speyer, da área de tecnologia, se vestir da cabeça aos pés, como fazia todos os dias antes da pandemia, é uma forma de entrar no ritmo mesmo estando dentro de casa. Ela é grande adepta das echarpes e xales em volta do pescoço, mesmo tendo adaptado a parte de baixo do traje. “Troquei o salto pela rasteirinha e a maquiagem mais forte por um batom cor de boca e um rímel”, diz. “Também abandonei as pulseiras e anéis, até por motivo de higiene.”

Nos Estados Unidos, as lojas on-line de roupa masculina oferecem a Zoom shirt, uma camisa curinga de tom neutro que não amassa nem compromete. Lá são comuns os relatos de profissionais que colocam a “camisa Zoom” na cadeira, ao lado do laptop – eles põem no momento da videoconferência, tiram ou trocam pelo pijama assim que acaba. Detalhe: a mesma camiseta, dias seguidos. De novo, ninguém nota. No caso das mulheres, a peça que fica a mão é o sutiã, não para trocar pelo que estão usando, mas porque abriram mão dele na temporada de isolamento. A moda pandemia vai durar? “É comum que se crie um novo padrão estético após grandes crises da humanidade. Neste momento, valoriza-se o conforto. Mas a previsão é de uma volta à sofisticação assim que a economia se estabilizar”, diz João Braga, professor de história da moda da Fundação Armando Alvares Penteado, de São Paulo. Vai ser a hora de tirar o pó dos ternos e do salto alto.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE JULHO

DEPRESSÃO, A MASMORRA DA ALMA

Tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao teu nome… (Salmos 142.7a).

A depressão é uma doença que atinge mais de 10% da população mundial. É a principal causa de suicídio e a razão de muitas outras doenças graves. A depressão enfia seus tentáculos em todo tipo de gente, sem se importar com a cor da pele, o grau cultural ou as cifras da conta bancária. A depressão é como um parasita que suga nossas energias e rouba nossos sonhos. É como um corredor sem janelas, um túnel sem luz, um poço sem respiradouro. Estar em depressão é como vestir uma roupa de madeira. É como engolir o próprio funeral duas vezes por dia. As pessoas que enfrentam esse drama muitas vezes perdem o entusiasmo pela vida e flertam com a morte. Não que elas queiram morrer; é que a vida se torna um fardo tão pesado, que preferem morrer. A morte, contudo, não alivia essa dor que pulsa na alma. Por isso, é preciso dizer em alto e bom som que há solução para o problema da depressão. Seu ciclo passará. A luz voltará a brilhar. A carranca da morte será desfeita e a vida sorrirá novamente. O salmista orou ao Senhor: Tira a minha alma do cárcere. Por mais escura que seja essa masmorra e por mais fortes que sejam os grilhões, Deus é poderoso para iluminar o recinto e quebrar nossas cadeias. Em Deus encontramos alívio para a dor que assola o nosso peito, libertação para os dramas que afligem a nossa alma, cura para a depressão. Jesus veio para nos dar vida, e vida em abundância!

GESTÃO E CARREIRA

BOTÃO DE EMERGÊNCIA

Como ficam economia, empregos, investimentos e planos pessoais diante da pandemia de coronavírus que ameaça o planeta

“Fique em casa.” Essa foi a recomendação mais repetida nas últimas semanas para boa parte dos habitantes do planeta. Até o fechamento desta reportagem, o novo coronavírus já havia contaminado mais de 2.000.000 de pessoas ao redor do mundo, levando à morte mais de 100.000 delas, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, os números oficiais também apontavam milhares de infectados e centenas de vidas ceifadas pela covid-19.

Para evitar o alastramento da doença, governos tiraram sociedades e economias da tomada, em um cenário de filme de ficção: aulas suspensas, shows cancelados, bares e lojas proibidos de operar. Transportes foram reduzidos, ruas esvaziadas, voos restritos e fronteiras bloqueadas. Países inteiros – como a Índia, com mais de 1,3 bilhão de pessoas se viram obrigados a entrar em quarentena. E até os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para 2021.

Se nos doentes o novo vírus causa febre, tosse seca e dificuldade para respirar, na economia o estrago também é grande: atividades comerciais desaceleraram e bolsas de valores derreteram. No Brasil, o dólar chegou a bater a marca de 5,80 reais. Por aqui, aliás, a previsão de crescimento do PIB, segundo o próprio governo, não passará de 0,02% em 2020. A expectativa em todo o mundo é de recessão. Roberto Azevedo, presidente da Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, acredita que o crescimento global deverá ser o menor dos últimos 30 anos.

Diante deste cenário caótico, preparamos um guia para ajudá-lo a entender de que maneira essa pandemia pode afetar seu bolso.

O QUE ESPERAR DA ECONOMIA?

Com mais de 81.000 pessoas infectadas, a China teve suas atividades seriamente afetadas. Segunda maior economia do mundo, a participação do país no PIB global é de 16%. Isso significa que qualquer desaceleração ali gera um efeito dominó, que impacta o Brasil. Segundo dados da plataforma de análise Economatica, apenas 50% das grandes empresas do país têm caixa para suportar três meses sem faturar. Outro número, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aponta que 70% das indústrias nacionais já tiveram queda no faturamento e 49% pedidos cancelados. “Tudo indica que ou teremos crescimento muito baixo, ou entraremos em recessão. A China começa a se recuperar, mas até tudo voltar ao normal leva tempo”, diz Rodrigo de Lasso, professor titular do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP). E o que acontece até lá? Na opinião de especialistas, por enquanto, não há risco de inflação, tampouco de desabastecimento nas prateleiras de supermercados e farmácias. Isso só deve acontecer se as pessoas entrarem em pânico. “Não há necessidade de fazer estoques em casa. Se todo mundo comprar ao mesmo tempo, aí, sim, poderá faltar, diz Renan de Pieri, professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV- Eaesp). Outro efeito previsto do surto de coronavírus é a redução do valor da gasolina. Isso porque a procura global por petróleo caiu, derrubando o preço do barril em 56%. Embora a baixa no preço ainda não esteja sendo sentida nas bombas dos postos de combustível, a tendência é sim de queda. Na visão dos pesquisadores, o momento é de apertar os cintos, já que a atual crise sanitária impactará na retomada econômica e na geração de empregos. Diversos setores terão problemas graves pela diminuição da demanda, e empresas pequenas irão falir. Por isso, medidas governamentais são fundamentais”, diz Renan, da FGV.

ATÉ ONDE VAI O DÓLAR?

Desde o dia 26 de fevereiro, quando o Brasil teve o primeiro caso de contaminação confirmado, o dólar valorizou 27% em relação ao real. No ano, a moeda já acumula alta de 29%. Isso acontece porque, em momentos de incerteza sobre o crescimento da economia e das empresas, a percepção de risco aumenta e os investidores tiram suas aplicações de nações emergentes. O professor Renan explica o fenômeno: “O dinheiro foge de países como o Brasil e corre para os Estados Unidos, pois os títulos do tesouro americano são o investimento mais seguro do mundo. Essa saída diminui a oferta de dólares, e o preço da moeda sobe”. Por aqui, a escalada tem consequências graves: pressiona o preço dos importados e de produtos que dependem de matérias-primas de fora, como remédios, fertilizantes, insumos da indústria petroquímica e automobilística, componentes eletrônicos e até mesmo o trigo usado no pãozinho. E dá para ganhar algum dinheiro com a alta do dólar? Se você comprou a moeda a menos de 4 reais, agora talvez seja a hora de vender para obter lucro. Estamos em um momento de alta volatilidade e incerteza, então é difícil fazer qualquer previsão. Mas acredito que a cotação não vá subir muito mais do que isso”, afirma Rodrigo, da USP.

DEVO CANCELAR VIAGENS E OUTRAS PROGRAMAÇÕES?

De acordo como diretor executivo do Procon, Fernando Capez, o Código de Defesa do Consumidor garante o direito das pessoas de não viajar neste momento, pois há risco para a saúde e a segurança. “É possível remarcar ou cancelar e ter o dinheiro devolvido, sem que haja retenção do valor pago ou cobrança de taxa ou multa”, afirma. Foi o que aconteceu coma especialista em web analytics Roberta lto, de30 anos, que trabalha no escritório do Greenpeace em São Pauto e tinha uma viagem marcada para Amsterdã no dia 14 de março, onde faria treinamento na sede da ONG. No primeiro momento, a companhia aérea até tentou cobrar taxa de cancelamento. “Mas acabou voltando atrás após alegarmos o risco de viajar neste momento”, diz.

Já o engenheiro de produção Fernando Betarelli, de 40 anos, que viajaria para Cancún com a esposa em julho, ainda está na luta pelo cancelamento do passeio. “Paguei a viagem à vista. O resort aceitou numa boa, mas ainda estou tentando cancelar as passagens aéreas. Em último caso, remarcarei para janeiro.”

Fernando Capez, do Procon, explica que estão ocorrendo cancelamentos em massa. Por isso, a entidade tem feito acordos coletivos com companhias aéreas e agências de turismo. “É melhor negociar, mesmo abrindo mão de alguma coisa, em prol de uma solução mais rápida. Se levar a questão para o Judiciário, pode demorar muito. Segundo ele, no caso de eventos, shows e espetáculos já comprados, o princípio é o mesmo. Alunos de escolas particulares devem aguardar a reposição das aulas e, no caso de cursos de curta duração e academias, o consumidor tem o direito de suspender o pagamento. “Nossa orientação, no entanto, é tentar reagendar o serviço contratado, substituir por outro equivalente ou transformar em créditos para ser consumidos na mesma empresa.”

MEU EMPREGO ESTÁ AMEAÇADO?

Junto com o balde de água fria na economia vem o temor das demissões. Mas o advogado trabalhista Júlio Cesar de Almeida, do Viseu Advogados, diz que essa não é sempre a primeira opção. As indústrias costumam recorrer primeiramente às férias coletivas, à queima de bancos de horas e até mesmo à dispensa com compensação futura. “Evitam-se as demissões, que custam caro”, afirma. Outras opções são a antecipação de feriados ou das férias regulares dos trabalhadores. Dependendo da duração da crise, outra alternativa prevista em lei é a redução da jornada de trabalho, juntamente com a do salário, se houver negociação com o sindicato e acordo coletivo. “Os setores mais afetados serão os de turismo, aviação, varejo, comércio, indústrias que dependem de insumos importados e eletrônicos, devido à dependência da China”, diz o professor Renan, da FGV. Ele afirma também que os trabalhadores informais, 41% da mão de obra no país, sofrerão mais por não ter garantias legais. “Quem atua com aplicativos de transporte, comércio de rua e pequenos negócios será muito afetado. Acredito que o BNDES deva injetar dinheiro na economia, comprando ações ou participações em empresas, e disponibilizando crédito mais barato. Para os trabalhadores informais, que não podem ficar parados, o governo deve apostar em um programa de renda básica.” Outra consequência da atual crise sanitária, dessa vez menos apocalíptica, é a disseminação do teletrabalho. “Depois dessa pandemia, o home office deve ganhar espaço e ser adotado por mais empresas, que vão perceber suas vantagens”, diz Renan. Embora a reforma trabalhista tenha regulamentado a modalidade, é importante firmar um aditivo ao contrato se esse se tornar o modelo de trabalho definitivo. O contrato precisa estabelecer as novas condições, como jornada, fornecimento de materiais, ajuda de custo com internet e tudo o que for pertinente. Outro ponto importante é que, durante o período atual, o empregador permanecerá responsável pelo cumprimento das regras de segurança e saúde do trabalho. “Conforme a CLT, a empresa deve instruir os empregados sobre as precauções para evitar doenças e acidentes de trabalho, e o empregado tem de assinar um termo de responsabilidade comprometendo-se a seguir essas orientações”, afirma Júlio Cesar. Para quem contrai covid-19, a lei assegura que as ausências decorrentes do isolamento, desde que atestadas por um médico, são faltas justificadas e a organização deve arcar com a licença remunerada nos primeiros 15 dias. Depois disso, se necessário, o trabalhador recebe auxílio-doença do INSS.

COMO DEVO CONDUZIR MEUS INVESTIMENTOS?

Primeiro, tenha muita calma nesta hora. Economistas reforçam que, nos momentos de crise, é essencial evitar decisões precipitadas para não perder dinheiro. Os mais conservadores possuem alternativas de renda fixa, como fundos OI e Tesouro Selic, do Tesouro Direto. Apesar de o rendimento ser baixo com a taxa de juros a 2,75% ao ano, essas opções são seguras e têm liquidez caso o investidor precise se desfazer delas numa emergência. Para quem tem mais recursos e tolera riscos, Rafael Panonko, analista chefe da Toro Investimentos, recomenda um portfólio diversificado, alocando recursos em fundos cambiais e de renda variável por meio de fundos multimercados, imobiliários ou ações.

Mesmo assim, tenha cautela. “É melhor ir comprando ações que estejam baratas aos poucos para fazer um preço médio, porque ainda não sabemos se a bolsa vai cair mais”, diz o especialista. O lbovespa, índice formado pela média das ações mais negociadas na bolsa de valores brasileira, já caiu 42% em 2020. O tombo arranhou a valorização do ano anterior, de 32%. O administrador de empresas Adilson Zampirolli, de  55 anos, enxerga esse tipo de situação como oportunidade. “Antes da crise, eu tinha cerca de 40% do meu dinheiro investido em renda variável, e o restante em renda fixa e no Tesouro Direto. Com a recente desvalorização, perdi mais de 30% do que estava na renda variável e, em vez de sair da bolsa, mexi em recursos da renda fixa e comprei mais ações, porque os preços caíram e surgiram ótimas ofertas”. Ao contrário do que possa parecer, Adilson não é imprudente. Primeiro, porque o montante que ele investe em ações representa apenas 5% de seu patrimônio total. Segundo, porque ele acompanha o mercado financeiro e sabe que comprar ações só dá retornos futuros. “O valor aplicado é para a construção de patrimônio, coisa que você não vai conseguir na renda fixa. Já passamos por várias crises e vimos que, no longo prazo, a tendência da bolsa é de crescimento e recuperação”, explica Rafael, da Toro Investimentos, que indica títulos da Magalu, Petrobras, ltaúsa, Via Varejo e dos setores de energia elétrica, bancos e educação. Já aplicações como ouro e dólar valorizaram muito nas últimas semanas, pois são o porto seguro nos momentos de crise. Por isso, não é hora de comprar, porque o preço está nas alturas. Aqueles que têm uma parte do dinheiro aplicada em fundos multimercados ou em ações e estão apreensivos devem respirar fundo. O melhor é aguardar alguns meses até que os fundos ou as ações se recuperem.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PAUSA PARA O BANHO

Por que as melhores ideias surgem no chuveiro? Momentos de descanso, assim como férias e hobbies, são essenciais para estimular a criatividade

“Nada melhor do que não fazer nada.” Mesmo fora de contexto, a frase da música de Rita Lee revela uma sabedoria que muitos pesquisadores de gestão de tempo se desdobram para demonstrar: se você quer ser mais feliz, precisa saber priorizar seu tempo, ainda que seja para reservar alguns minutos para não fazer nada. Nós lutamos contra as horas, tentando arranjar momentos, entre o trabalho e outras responsabilidades, que possam ser dedicados ao lazer. No final, não parece haver solução simples, uma vez que não existem horas extras no dia, mas mesmo assim é importante criar um espaço para assar um pão. Ou tricotar, fazer uma caminhada, ler um livro. Pode parecer um conselho contraprodutivo, mas ter um hobby estruturado na rotina para fugir da correria, na verdade, ajuda a acalmar a sensação de falta de tempo — e a relaxar no geral. “­Hobbies são uma ótima forma de gastar o tempo. E não apenas pela diversão. É que, se você passa 2 horas na semana montando um quebra-cabeça, criando um projeto de marcenaria ou fazendo crochê, é muito difícil falar para si mesmo que está faminto por tempo. E esse senso de abundância de tempo ajuda a se sentir mais relaxado”, explica Laura Vanderkam, escritora de livros sobre gestão de tempo e produtividade, incluindo Off the Clock: Feel Less Busy While Getting More Done (“Fora do relógio: sinta-se menos ocupado enquanto faz mais”, numa tradução livre).

Nada contra quem resolveu desenvolver habilidades culinárias durante a quarentena, mas o escritor Alexandre Teixeira, autor de Rotinas Criativas e Felicidade S.A., defende que até algo simples, como um longo banho, já traz benefícios para o bem-estar, para a saúde mental e, em conse­quên­cia, para o trabalho. Em vez de hobby apenas, ele prefere nomear a prática como “escapada”. “Um ­hobby pressupõe algo a que dedicamos tempo, carinho e paixão, que pode ser uma atividade esportiva ou cultural. A escapada abrange mais coisas. Por exemplo, algumas pessoas falam do banho. Soa esquisito, mas é uma escapada, porque é um momento pequeno de descompressão”, explica Teixeira. A ideia de dar um tempo para seu cérebro combater o estresse também é defendida pelo pesquisador Tal Ben-Shahar, que ficou famoso como o “professor da felicidade”. Ben-Shahar é um estudioso da psicologia positiva e fala que uma forma de lidar com o estresse é dar-se um tempo para a recuperação, de uma maneira muito parecida com o período de descanso dado a um músculo após um treinamento intenso.

Enquanto Ben-Shahar delimita três tempos de desconexão, de pausas curtas ao longo do dia, fins de semana e férias longas ou um ano sabático, Teixeira coloca as escapadas como atividades que se encaixam no dia a dia e as classifica em categorias próprias, distribuídas pelos efeitos positivos que proporcionam. A mais importante é a fuga criativa: “Funciona como o coração, sem ser piegas. É como o músculo, que tem a sístole e a diástole, aperta e solta. Quando a gente está trabalhando, fica mais tenso. Essa compressão, a sístole, precisa depois do oposto, a diástole. Se você quiser estimular a criatividade, precisa parar de pensar naquela tarefa. Por isso muita gente fala que tem as melhores ideias no banho”, diz o autor. Depois existem as fugas defensiva e educativa. Segundo Teixeira, a defesa serve de vacina contra o esgotamento profissional, a síndrome de burnout, sendo uma higiene mental dos infinitos estímulos e informações que recebemos de notícias, e-mails e mensagens de Whats­App. A leitura de um bom livro ou passar um tempo de qualidade com a família e os amigos ajudam nessa limpeza. E, se uma das necessidades para um profissional se manter relevante no futuro do trabalho é o aprendizado contínuo, encontrar prazer em aprender novas habilidades entra em seu saldo positivo de bem-estar.

Cultivar um hobby torna-se um recurso que pode acabar com esses três tipos de desconexão de uma vez só. Uma atividade prazerosa estimula partes diferentes de seu cérebro das usadas em um dia de trabalho, abrindo novas possibilidades de aprendizado, ajudando na criatividade e promovendo um equilíbrio maior na rotina. No entanto, o especialista em inteligência emocional Carlos Aldan, CEO da consultoria Kronberg, comenta que, para tirar o melhor dessas práticas, é preciso que a pessoa as aborde de forma consciente. Um hobby não pode ser visto como uma tarefa, mas pensar no momento de lazer como um depósito de energia positiva contribui para manter o equilíbrio mental. No longo prazo, Aldan afirma que um passatempo aumenta não só nossa capacidade cognitiva como também a emocional. “Um hobby, independentemente de qual seja, traz um sentimento de controle mesmo quando não temos nenhum. Ele entra como um ­ritual e também como um exercício de mindfulness, durante o qual você suspende julgamentos e pode viver o momento presente na totalidade. Na hora do lazer, você deixa a mente divagar”, conta ele. Em perío­dos de crise, manter esse ritual ajuda na resiliência ao ativar circuitos neurais que permitem enxergar melhor o futuro, criando mais possibilidades e afastando, assim, o pessimismo diante de um cenário incerto.

Não se trata apenas de um truque para ver o lado bom da vida. Em uma palestra TEDx, o neurocientista canadense Max Cynader explica que o cérebro pode ser exercitado para ter mais plasticidade, ou maior capacidade de adaptação, o que afeta a memória e o aprendizado. Num estudo do Centro pela Saúde do Cérebro, do qual ele faz parte, pesquisadores descobriram que exercícios físicos ajudam na criação de conexões neurais mais fortes. Aprender a tocar um instrumento musical favorece o desenvolvimento de diversas habilidades, como solução de problemas, porque estimula capacidades diferentes do cérebro, como a memória, a visual, a motora e, claro, a auditiva.

De acordo com Thais Gameiro, doutora em neurociên­cia e fundadora da Nêmesis, empresa de soluções na área de neurociência organizacional, um hobby que envolva aprender uma nova habilidade é uma fonte de motivação e de desafios. Mais importante ainda: pode nos tirar da zona de conforto e estimular uma mentalidade de iniciante. “Quando a gente fala de executivos, ou de pessoas bem-sucedidas que avançaram na carreira, existe pouco espaço para o erro no trabalho. E eles perdem a beleza do desenvolvimento, correndo o risco de acreditar que não têm mais nada a aprender. Fazer uma coisa nova e permitir-se não saber a resposta cria essa oportunidade. A postura de aluno traz humildade e empatia. E o profissional fica mais tranquilo para dizer que não sabe algo”, explica Gameiro.

Mesmo com tantas vantagens, ainda falta tempo para nos dedicarmos às atividades de lazer. Afinal, esse é o recurso que usamos como moe­­da de troca para tudo na vida. É por isso que a professora assistente na Harvard Business School Ashley Whillans acredita que a maioria das pessoas seja pobre de tempo. Segundo seu estudo, 80% dos americanos dizem que falta tempo na vida deles. Porém, existem também os que usufruem a riqueza de tempo. A diferença entre os grupos é a abordagem das pes­soas ao tomar decisões sobre como usam suas horas. Em seu primeiro livro, Time Smart, Whillans compartilha suas descobertas como pesquisadora sobre as estratégias desse tipo de riqueza. Com outras pesquisadoras, ela acompanhou durante anos alunos na tomada de decisões de carreira, considerando quem priorizava o tempo ou o dinheiro nessas escolhas. A conclusão foi que estudantes que sempre focaram o tempo, como trabalhar menos horas e gastar dinheiro para economizar tempo, tinham mais satisfação com a vida e com o trabalho, assim como declaravam ser mais felizes. Uma das razões para isso é que esses jovens profissionais, independentemente de suas escolhas, foram movidos por um propósito, e não por um dever.

Mudar essa mentalidade é essencial para melhorar a relação com o tempo e abrir um espaço na rotina para interesses pessoais. A dica de ouro para promover essa mudança é integrar o lazer à agenda. “A chave para encontrar tempo para atividades prazerosas é planejá-las. Se você faz planos para encontrar seus amigos, você deve então planejar seu trabalho para finalizá-lo na hora certa. Se não tiver nada esperando por você, é fácil sentir que precisa continuar trabalhando e que não tem tempo para a diversão”, afirma a escritora Laura Vanderkam. Em uma palestra, Whillans alerta para os minutos perdidos checando e-mails e redes sociais. Tirando fora as grandes escolhas de vida, quem tem abundância de tempo mantém uma lista mental de tarefas rápidas que podem ser realizadas nos minutos do dia em que estão na fila do banco ou depois do almoço.

Para Alexandre Teixeira, a pessoa precisa real­mente estar disposta a limitar seu tempo no trabalho, respeitando a parcela do dia que reservou para a vida fora do horário de expediente. A partir daí, deve encontrar seu ritmo na nova rotina, otimizando as janelas que tem durante o dia para domar esses períodos a seu favor. Teixeira, por exemplo, gosta de reservar a manhã para a rotina criativa, começando com atividade física, meditação e um banho frio. Depois inicia o trabalho, sempre priorizando a tarefa mais relevante. No caso dele, a escrita.

EU ACHO …

NOVO NORMAL É UMA BAITA FAKE NEWS

Surtos epidêmicos aceleram a adoção de tecnologias e tecem hábitos. A obesidade, uma pandemia, foi moldada por hábitos ligados aos sapatos e cadeiras. Por volta do ano 1300, médicos prescreveram sapatos para combater a Peste Negra. Nunca mais saíram de cena. Pés deformados ou doloridos tornaram a cadeira útil e popular. Máscaras serão comuns como sapatos? A necessidade de preservar a vida não muda, só a maneira de fazer isso. Hábitos podem ficar, mas não são novo normal. Cozinhamos há 1,9 milhão de anos. Assar, fritar ou usar o micro-ondas não muda hábito e nem necessidade. O micro-ondas não refundou o sistema de recompensa cerebral que funciona por gatilhos de utilidade, sobrevivência e adaptação. E não somos mais novos ou mais normais por usá-lo.

Vivemos tempos líquidos, dizia Zygmunt Bauman, filósofo polonês. Tudo muda rapidamente e o individualismo nos acena. É filosoficamente impossível definir novo e normal, porque só existem em fantasias morais. O que há é uma enxurrada de desprezo ao jornalismo, negação à ciência e ódio em redes sociais. Precisar de um novo normal é sentir necessidade de algo que não sabemos o que é. Queremos abraço, mas não toleramos diferenças. O sexo virtual então reina em uma internet que abriga celebridades efêmeras, tuítes e muita gente geralmente descolada da razão, pura ameaça à democracia. Terreno fértil para fake news como esse novo normal.

Pandemias bagunçam as emoções. Isolados socialmente, potencializamos uma guerra de narrativas perigosas, uma sucessão de fenômenos cotidianos com suas crises e polarizações fundamentalistas. Mas o isolamento não tem o poder de recriar necessidades humanas, novo consumidor, novo marketing ou novo qualquer coisa. Usamos ferramentas por utilidade, como fizemos com a pedra lascada e o sapato e colocamos de escanteio o Blu-ray e o iPod. Para o bem ou para o mal, neurônios estão a nosso favor. A parte do nosso cérebro responsável pelos hábitos fica separada daquela que guarda a memória. Memória é diferente de hábito e temos memória curta.

Por conta da sequência-de-coisas-que-nunca-ficam guardamos o que é recorrente ou conveniente e isso nos distancia perigosamente da História. Novo normal é distração de curta duração. Não podemos defendê-lo se não somos capazes de defini-lo. O novo normal é mais uma cria de bots, da indústria de notícias falsas e dos algoritmos que levam ao obscurantismo e à manipulação. A própria indefinição do novo normal é sua face mais perigosa, porque aquilo que nada é pode ser qualquer coisa nas mãos de qualquer um. Ele pode pressupor que somos filhos de Adão e Eva, que negros e gays são raça inferior ou que a ditadura é o melhor para um povo. Para a grande massa de população, novo normal pode ser apenas o cumprimento de regras sanitárias no futuro próximo. E disciplina, diferentemente do Oriente, não é lá o nosso forte. Mas isso nem é novo normal. É civilidade. Pena que já nos esquecemos disso.

EDMAR BULLA é CEO do Grupo Croma

OUTROS OLHARES

A FEBRE DA TELEMEDICINA

O atendimento remoto se populariza com o distanciamento social, mas ainda gera polêmica entre parte dos médicos

Recuperado da Covid-19 após 30 dias de internação, dos quais dez na UTI, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, o empresário Antônio Eduardo Garieri recebeu alta no dia 8 de junho e uma orientação específica: levaria para sua cidade, Araçatuba, a cerca de 500 quilômetros de São Paulo, um oxímetro, aparelho responsável por medir a saturação do pulmão em tempo real. Já instalado em casa, Garieri passou a dormir com o equipamento preso à ponta do dedo indicador e próximo ao telefone celular, responsável por repassar os dados a seu pneumologista.

Um dos efeitos colaterais do novo coronavírus foi ter dado um impulso inédito à telemedicina por todo o país. O ponto de partida foi em março, quando o Ministério da Saúde regulamentou atendimentos médicos à distância durante a pandemia. O texto autorizou a emissão de atestados ou receitas em meio eletrônico para atender à demanda de pacientes com suspeita de infecção por coronavírus, dos convalescentes de Covid-19, como o empresário de Araçatuba, e também de milhões de brasileiros com outros sintomas que, nos últimos quatro meses, passaram a ter receio de sair de casa para uma consulta médica ou ir ao hospital.

Esse foi o caso do programador de computadores Amaury Souza, de 30 anos. Praticamente fechado em sua casa na Vila Mariana, na Zona Sul da capital paulista, onde trabalha remotamente desde o início da pandemia, Souza foi acometido por uma dor de ouvido no final da noite do dia 18 de junho. Passava das 22h30 quando entrou no aplicativo de seu plano de saúde e não hesitou em solicitar atendimento por telemedicina. Respondeu a algumas perguntas e, em cerca de 5 minutos, estava em contato com um médico por meio de vídeo. Antes da meia-noite já tinha sido diagnosticado (otite, uma infecção no ouvido) e recebido por SMS a receita do antibiótico para começar o tratamento. O médico que o atendeu estava em Cascavel, no Paraná, e a consulta levou menos de dez minutos. “A imagem não estava totalmente nítida, mas não atrapalhou a comunicação”, disse Souza. “O médico perguntou sobre meus sintomas, se eu tinha secreção no ouvido e se havia odor, por exemplo. Eu confirmei. Foi conveniente e poupou meu tempo”, completou.

Uma das vantagens da telemedicina comprovada nos últimos meses é ampliar o atendimento de populações que se encontram longe dos grandes centros. Rodeada por suas gatas em seu apartamento em São Paulo, a médica capixaba Geovana Amaral Huber, de 31 anos, trabalha para uma plataforma on-line. Ela chega a atender 60 pacientes e supervisiona outros 15 colegas ao longo de uma jornada de trabalho média de 12 horas. “Desde que me formei, em 2016, nunca trabalhei tanto”, disse.

No último dia 31, Huber atendeu por chamada de áudio um paciente jovem com quadro de sintomas gripais em Tapauá, no interior do Amazonas. Com 17 mil habitantes, o município está nas últimas posições do índice de Desenvolvimento Humano (IDH), utilizado pela ONU para medir a qualidade de vida. O paciente não apresentava sintomas como falta de ar e febre, que são sinais de alerta para a Covid-19, mas segue monitorado e passa bem. “A gente resolve cerca de 80 % dos casos por telefone, já que muitos são simples, como uma micose no braço”, afirmou Huber.

O Brasil é um dos países onde a distribuição de médicos por habitantes é mais desigual. Na média a situação parece boa. Segundo um levantamento recente do Conselho Federal de Medicina, o país tem 2,5 médicos por 1.000 habitantes, o que supera a proporção registrada na Coreia do Sul (2,3), na Polônia (2,4), no Japão (2,4) e no México (2,4). O problema é a distribuição geográfica. Em estados das regiões Norte e Nordeste, esse índice cai pela metade. É justamente por isso que o exemplo de uma médica radicada em São Paulo atendendo um jovem de um lugar a três dias de barco de Manaus parece promissor.

Em São Paulo, o projeto Tele- UTI ajuda a rede pública de saúde em casos de síndrome respiratória aguda grave por Covid-19. A iniciativa funciona no Instituto do Coração (Incor), onde um posto de telemedicina atende a consultas de intensivistas de dez hospitais públicos por videoconferência. Os médicos discutem a evolução dos casos graves de internados numa tentativa de aprender, juntos, sobre uma doença desconhecida que exige manobras especiais dos fisioterapeutas e operações específicas dos respiradores mecânicos. “Até agora, mais de 500 profissionais de saúde foram treinados e 1.500 atendimentos prestados”, disseo pneumologista do Incor Carlos Carvalho, um dos idealizadores do projeto e também chefe do Centro de Contingência do Coronavírus, em São Paulo.

Entre os médicos, a novidade já conquistou o apoio de figuras renomadas. Uma delas é Roberto Kalil Filho, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês, também conhecido como o “médico dos presidentes” por já ter atendido José Sarney, Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. Kalil começou a usar a telemedicina por causa da pandemia, especialmente para atender pessoas de outros estados. “A telemedicina veio para ficar. É uma ferramenta que facilita muito o cuidado com o paciente. É um ótimo exemplo de como a tecnologia evoluiu em favor da saúde”, opinou.

O entusiasmo despertado pela novidade tem provocado uma reação contrária quase na mesma medida. Parte das críticas tem origem no corporativismo médico. Muitos na categoria ainda insistem em dizer que 100% dos atendimentos aos pacientes devem ser presenciais, algo que já não fazia sentido muito antes da popularização da internet e da comunicação em vídeo (qual o pai ou mãe que nunca ligou para o pediatra quando um filho ficou com febre?). Mas, descartando esses argumentos mais extremos, é certo que existem várias questões que deverão ser debatidas no período pós-pandemia. “Tem exames que só por foto ou por imagem não é possível fazer, como a medida da pressão do olho”, disse José Beniz, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Luiz Henrique Mandetta, o ex-ministro da Saúde responsável pela liberação da telemedicina durante a pandemia, reconhece que existem desafios pela frente. Após a portaria do ministério ainda sob seu comando, o Congresso passou uma lei sobre o assunto, que foi adotada com vetos pelo presidente Jair Bolsonaro – o principal deles foi tirar do Conselho Federal de Medicina o papel de fazer a regulamentação desse novo mercado. Na opinião do governo, o debate terá de voltar ao Congresso e uma nova legislação terá de ser aprovada. “A lei que temos hoje não dá conta de tudo. Não consegue estabelecer, por exemplo, se a primeira consulta tem de ser presencial. Temos agora o mercado de telemedicina e a questão salarial. É muito difícil sustentar essa discussão sem cair numa polêmica”, explicou Mandetta.

Uma das grandes preocupações das entidades médicas é o risco de a categoria sofrer um processo de uberização. Profissionais reclamam de um achatamento dos valores pagos nas consultas por telemedicina. Conselhos regionais de medicina e sindicatos defendem que os pagamentos de consultas por telefone ou pela internet devem ser iguais ao do atendimento presencial, conforme preconiza a Agência Nacional de Saúde (ANS). “O que deve ser pago é o ato médico. O que se remunera é o conhecimento e o tempo do médico. Mas as operadoras de saúde estão preocupadas em reduzir custo e pagam a metade do valor. Está certo isso?”, perguntou Claudio Moura de Andrade Júnior, membro do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj).

No setor empresarial, a liberação da telemedicina deu início a uma espécie de corrida pelo ouro. Diversas empresas que atuam na área de saúde e até hospitais renomados como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês passaram a oferecer esse serviço. De modo geral, a aposta é que as arestas serão sanadas e os serviços continuarão mesmo depois de passada a pandemia. Com atuação em 130 países, a americana Teladoc é uma das maiores plataformas do ramo no Brasil. A empresa afirma fazer mais de 70 mil atendimentos mensais. Segundo Jean Marc Nieto, o diretor-geral, a companhia cuida de mais de “5milhões de vidas”, termo usado para descrever o número potencial de clientes que pode atender por meio de parcerias e contratos com planos de saúde e empresas privadas. “É um caminho sem volta. Em termos de clientes, potencialmente é toda a população brasileira”, disse Nieto, que tem 700 médicos cadastrados em sua plataforma e pretende chegar a 5 mil em seis meses.

Uma das companhias que quer ampliar suas atividades nesse mercado é o grupo Iron, que hoje diz atender mais de 700 mil pessoas no país por meio de telemedicina – a maior parte do público é da Cassi, que administra os planos de saúde dos funcionários do Banco do Brasil. Jorge Ferro, presidente da Iron, contou que a companhia, cuja atuação mais forte é em Portugal, lançou uma nova plataforma on-line no Brasil no mês passado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE JULHO

MEDO, UM SENTIMENTO AVASSALADOR

Dá-te pressa, SENHOR, em responder-me; o espírito me desfalece… (Salmos 143.7a).

O medo pode ser bom ou ruim. Pode livrar-nos de grandes perigos ou pode paralisar-nos. O medo é um freio que nos impede de cair em profundos abismos ou uma muralha que inibe a nossa caminhada. Quero destacar aqui esse medo paralisante, que nos faz encolher. O apóstolo Paulo escreve a seu filho Timóteo: Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação (2Timóteo 1.7). O medo é mais que um sentimento, é um espírito. Esse espírito atormenta muitas pessoas, deixando-as prisioneiras e impotentes. Há indivíduos que têm medo da vida, e outros que têm medo da morte. Há os que temem ficar solteiros e outros que temem casar. Há pessoas que sofrem de agorafobia, medo de lugares públicos, e outras que sofrem de claustrofobia, medo de lugares fechados. Há quem tem medo da luz e quem temo medo da escuridão. Há até alguns que têm medo de ter medo. A Palavra de Deus diz que o amor lança fora todo o medo (1 João 4.18). A ordem mais repetida na Bíblia é: Não temas. Deus nos criou e nos conhece. Conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó. Por isso, exorta-nos a não termos medo. Em vez de olharmos para nossos sentimentos ou para as circunstâncias, devemos olhar para Deus, sabendo que ele nos criou, nos formou, nos remiu, nos chamou e está conosco em todas as circunstâncias!

GESTÃO E CARREIRA

A MODA É DESACELERAR

A indústria fashion é a segunda que mais polui o meio ambiente – só fica atrás do setor de petróleo. Por isso, surge um movimento que prega o consumo consciente de roupas e acessórios

Quando criaram a marca Coletivo de Dois, em 2014, os estilistas Hugo Mor, de 33 anos, de Goiás, e o paulista ­ no Daniel Barranco, de 42, queriam fazer roupas diferentes das que existiam no mercado. A ideia da dupla era criar usando materiais baratos, como sobras e tiras de tecido. Com isso na cabeça, eles juntaram 500 reais em retalhos e uma máquina de costura e criaram a primeira coleção, com 127 peças. “Enchemos uma mala e nos mudamos de Goiânia para São Paulo para participar de feiras e eventos”, afirma Hugo.

Na época, ambos sequer tinham ouvido falar na expressão slowfashion – tendência que aplica os conceitos de sustentabilidade e reutilização de materiais no mundo da moda. “foi apenas quando aparecemos em uma reportagem sobre o movimento que percebemos que a marca se encaixava”, afirma Daniel. De lá para cá, o Coletivo de Dois abriu uma loja no centro de São Paulo e já produziu mais de3.000 peças, reaproveitando, por ano, 150 quilos de tecido. Segundo os empresários, quase 1 tonelada de sobras deixou de ser descartada.

O slow fashion (ou “moda lenta”, numa tradução literal) não é uma tendência exatamente nova. A expressão surgiu ainda na década de 1990, na Itália, e deriva de outro movimento, o slowfood, que propõe uma forma mais consciente de se alimentar. Assim como o irmão da culinária, o slowfashion, está atrelado a hábitos de consumo responsáveis, valorização de produtores locais e produção de itens com mais qualidade e durabilidade. “A tendência é um contraponto ao conceito de fast fashion, que dominou as décadas anteriores e consiste em grandes lojas de departamento produzindo coleções novas a cada semana”, diz José Luís de Andrade, professor de moda no Centro Universitário Senac, em São Paulo.

NECESSIDADE LATENTE

O fortalecimento desse conceito não é à toa. No mundo todo, a fabricação de peças de poliéster, criadas com fibras sintéticas, requer 70 milhões de barris de petróleo todos os anos. Quando jogadas no lixo, as roupas de poliéster continuam poluindo, pois levam mais de 200 milhões de anos para se decompor. Nem materiais naturais, como o algodão, passam incólumes: uma simples camiseta exige 2.700 litros de água para ser produzida.

Esse contexto, aliado à filosofia de consumo e descarte rápido impulsionada pelos preços baixos de grandes redes, como Forever 21 e GAP, fez com que a moda se tornasse a segunda indústria que mais polui o planeta, ficando atrás apenas da petroquímica. De acordo com a Organização das Nações Unidas, a emissão de carbono pelo segmento fashion é maior até do que a dos setores de transporte aéreo e marítimo juntos. “Cerca de 30% de todas as roupas produzidas no mundo nunca serão vendidas. Assim, as pessoas vêm se conscientizando de que é necessário comprar menos e melhor, investindo em itens com melhor design e funcionalidade”, afirma Mariana Santiloni, diretora de serviços ao cliente da consultoria de tendências WGSN.

OPORTUNIDADES À VISTA

E o potencial dos negócios sustentáveis ligados à moda é grande. Um exemplo disso é que, segundo um estudo publicado pela Bloomberg em janeiro deste ano, se a indústria têxtil rever suas práticas em relação ao descarte de resíduos e ao consumo de água, energia e produtos químicos, o setor poderá aumentar seu lucro em cerca de 110 bilhões de euros por ano. Atualmente, o mercado fatura 1,2 trilhão de dólares anuais. Cientes disso, grandes redes do setor de fast fashion, como Zara e H&M, têm investido em ações mais sustentáveis, como estimular os clientes a devolver roupas danificadas ou doar as que não usam mais para a reciclagem. “Esse é o futuro dessas lojas. Por causa da estrutura, elas são as mais preparadas para se adequar aos requisitos ecológicos”, afirma André Carvalhal, estilista e autor do livro Moda com Propósito: Manifesto pela Grande Virada.

Foi de olho nessa tendência que a jorna lista Andrezza Duarte, de 36 anos, fundou a marca de biquínis para crianças Água com Sal, em 2015. Na época, insatisfeita com a carreira, a profissional havia decidido largar o cargo de jornalista em uma grande editora e empreender. “Cheguei a pensar em abrir negócios no mercado de noivas e no de pets, mas tive a ideia de investir no ramo infantil durante uma viagem de férias. Olhando as crianças brincando na praia, notei que os trajes de banho eram todos iguais e sem personalidade”, diz.

Depois de estudar o mercado de moda, Andrezza percebeu que criar um negócio seguindo o conceito de slow fashion era o caminho ideal para sua proposta. “Buscava um empreendimento sustentável e que tivesse um viés exclusivo”, diz. Reuniu 80.000 reais em economias e fundou a marca Água com Sal, que até o ano passado, antes da inauguração de uma loja física na capital paulista, funcionava apenas online.

“Utilizamos tecidos biodegradáveis, sem produtos tóxicos, e alguns são produzidos com água de reuso. Para ter o mínimo de desperdício possível, também não trabalhamos com estoque. Se uma cliente quiser alguma peça que não esteja disponível, precisará encomendar”, diz Andrezza.

Além da preocupação com a sustentabilidade das peças, a empreendedora também deu atenção especial à contratação da mão de obra para a confecção dos itens. Por isso, conta com uma equipe de nove pessoas, todas mulheres, na produção. “Nas outras áreas, como comercial, marketing e vendas, também optamos por profissionais do sexo feminino”, afirma.

A valorização da mão de obra dos profissionais envolvidos na confecção das peças é outro pilar do movimento slow fashion. Isso porque, quando o assunto é exploração de trabalhadores, a indústria da moda também apresenta índices que são motivo de vergonha. Segundo urna pesquisa da instituição internacional Walk Free, voltada para a promoção de direitos humanos, em 2018 existiam cerca de 40 milhões de pessoas em situação de escravidão moderna no mundo, das quais 71% eram mulheres. E a moda está em segundo lugar no ranking das indústrias que mais exploram o trabalho forçado (a primeira é o setor de tecnologia). “Por isso, além de materiais recicláveis, o slow fashion opta por mão de obra local e valoriza o trabalho artesanal, muitas vezes formando cooperativas”, afirma Larissa Moreira, analista de negócios do Sebrae em São Paulo.

ALÉM DO LUCRO

Segundo especialistas, os estilistas e designers de moda são alguns dos profissionais que podem pegar carona no movimento slow fashion.

O mercado também abre portas para empreendedores, principalmente aqueles que queiram vender roupas e acessórios de fabricação própria. Entretanto, o estilista André Carvalhal salienta que, além de adquirir conhecimento técnico sobre o ramo, quem quiser atuar com a tendência também precisará entender de questões relacionadas ao meio ambiente, como descarte de resíduos e economia circular. “São vários temas novos no mercado, e muitos ainda não constam no currículo das universidades. A alternativa, então, é buscar cursos livres e até de outras áreas”, diz.

Outro ponto é se esforçar para, de fato, ser um negócio sustentável, e não apenas embarcar no modismo, visando exclusivamente o lucro. “É necessário ser comprometido e engajado com a sustentabilidade e a cidadania, porque é um segmento que exige que as pessoas vejam verdade em seus valores. Sem contar que é preciso bastante propósito – diferentemente de outras áreas da moda, não há glamour nenhum em encarar uma pilha de retalhos”, afirma Daniel, do Coletivo de Dois.

Os números comprovam essa crença. De acordo com dados preliminares ele uma pesquisa realizada pela consultoria de inteligência de mercado Lemi com 1.300 consumidores, divulgada no final de abril, cerca de 60% deles deixariam de comprar de sua marca preferida se ela estivesse envolvida em algum escândalo social ou ambiental “Nesse cenário, torna-se cada vez mais difícil sustentar negócios que preguem o slow fashion de forma oportunista. As pessoas estão buscando transparência e coerência das marcas, que daqui para a frente serão ainda mais fiscalizadas e cobradas”, diz André. Se continuarmos nesse caminho, o planeta – e as próximas gerações – agradecerão.

OS NÚMEROS DA SLOW FASHION

***500.000 Toneladas de microfibras sintéticas são liberadas nos oceanos todos os anos por causa da produção de roupas

***70 Milhões de barris de petróleo são usados anualmente para a confecção de peças de poliéster

***2.700 Litros de água são necessários para a fabricação de apenas uma camiseta de algodão

***85% do vestuário que os americanos consomem é enviado para aterros sanitários como resíduos sólidos

***500 bilhões de dólares são perdidos anualmente com o descarte de roupas que não são recicladas

LINHA DO TEMPO

Um século de transformação

DÉCADA DE 1940 – O período que corresponde à segunda guerra mundial faz o homem pensar em reaproveitamento. Por isso, grande parte do vestuário fabricada com sobras de uniformes militares

DÉCADA DE 1950 – Depois da recessão, presenciamos o retorno do gasto com tecidos luxuosos e caros. Christian Dior, Yves Saint Laurent e Valentino, entre outros costureiros, surgem e ficam famosos mundialmente.

DÉCADA DE 1960 – Os estilistas percebem a necessidade de olhar para o público jovem e de classe média e se reinventam com o Pret.- a- Porter. Nasce a roupa esporte, para o cotidiano. os hippies ganham as ruas e as butiques internacionais. Surge também a figura do estilista industrial

DÉCADA DE 1970 – São considerados os anos loucos da moda, uma época de formas e estampas chamativas. As grandes discussões mundiais chegam às metrópoles e a moda abraça o estilo rebelde dos punks

DÉCADA DE 1980 – 0 Streetwear ganha espaço. a moda é vista como um supermercado de estilos – ou como estações de metrô, em que cada viajante para, desce, incorpora e renova sua maneira de se vestir.

DÉCADA DE 1990 – As roupas são desmontadas e transformadas, e tendências como o Upcycling (ou reutilização criativa) dão o pontapé para iniciativas sustentáveis. ao mesmo tempo, os yuppies escancaram o consumismo. marcas como Louis Vuitton, Giorgio Armani, Gianni Versace, Prada e Gucci são ícones e objetos de desejo.

INÍCIO DOS ANOS 2000 – As maiores preocupações são o indivíduo, o bem-estar e o conforto. De um lado, Vivienne Westwood lidera a corrente sustentável e ecologicamente correta das grandes semanas de moda. Do outro, redes de varejo como Forever 21, Gap e Zara popularizam o conceito de Fast Fashion.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE O REAL E O VIRTUAL

A solidão é um problema psicossocial prevalente na sociedade moderna. Entretanto, com a hiperconectividade se tornando um hábito cada vez mais comum, até que ponto estamos mesmo tão solitários?

O ser humano é um ser social e relacional. Pesquisas da Universidade de Harvard comprovaram que o indivíduo é mais feliz quanto mais ele constrói relações íntimas e verdadeiras. No entanto, desenvolver relações afetuosas tem o seu preço. O mundo capitalista gera sempre um conjunto enorme de desejos e expectativas. Não estamos nunca satisfeitos. Queremos mais tempo, sucesso, status, casamento maravilhoso, filhos muito bem educados, corpo perfeito, um hobby, etc. Nosso grau de exigência conosco mesmo é altíssimo. Qual é o resultado dessa busca insana por ser multitarefas, dar conta de tudo ao mesmo tempo e não descansar nunca? O esgotamento e a perda da saúde mental. Isso porque estamos, no fundo, aprisionados em nossos medos, em pensamentos negativos e destrutivos, em compulsões, em dependências afetivas ou materiais. Sofremos traumas e guardamos um estoque de memórias ruins que não elaboramos ainda no processo terapêutico. Nós nos perdemos de nós mesmos. Portanto, como falar em sociedade sustentável se não conseguimos sustentar a nós mesmos? Acolher as nossas dores, as nossas falhas, aceitar que somos humanos? Muitos de nós viraram uns verdadeiros super heróis. E contaram para a gente que é possível dar conta de todas as funções que viemos acumulando nas últimas décadas.

Uma dessas dores muito conhecida nos dias de hoje é a solidão, um problema psicossocial prevalente na sociedade moderna. De acordo com as psicólogas Maria Amélia Penido e Kátia Teles, “a solidão é uma experiência universa comum, um sentimento de não pertencimento e desconexão social. Mesmo rodeado de pessoas é possível se sentir solitário, pois este é um estado subjetivo. A solidão é apontada como um fator que interfere na felicidade, maior solidão leva a maior isolamento social e a felicidade está associada à sensação de pertencimento e conexão com outros”.

Graças à tecnologia, a solidão se esconde na ilusão da rede em que milhões de pessoas em todo o mundo podem usufruir da companhia virtual do outro em chamadas de videoconferência com familiares, colegas de trabalho e amigos através dos celulares, notebooks, tablets e muita banda larga! Então a pergunta na verdade é estamos ou não estamos sós?

Essa é uma fantasia da nossa mente. Você está com você, com todo o seu passado e futuro com os inúmeros autores que pode ler?” diz a Monja Cohen.

A vida moderna nos proporcionou o uso da internet para o trabalho remoto e o convívio virtual mais intenso. A globalização, ao mesmo tempo que uniu povos, distanciou pessoas que foram morar longe, por exemplo. Se o uso dos meios digitais pode ser um mecanismo de fibra das interações sociais do mundo real, imaginem como a Internet tem sido um bom recurso para manter boa parte de produtividade do sistema econômico e aliviar as dores emocionais de quem está afastado de pessoas queridos e usa o recurso da conexão virtual para matar a saudade.

É inevitável que adquirimos novos hábitos durante uma intensa convivência digital. O convite para a nossa reflexão é: qual o legado que o uso da Internet deixa para os indivíduos e qual o impacto disso para a saúde mental de todos? Segundo a psicóloga clínica Brigitta Júlia Lang, especialista em stress pós-traumático, a questão do mundo digital não tem uma única vertente. “Toda moeda tem dois lados, ou seja, terão aqueles que por obrigação ficarão tanto tempo conectados , que vão querer voltar com toda carga em contatos pessoais presenciais e, haverá o outro grupo que, de tão habituado permanecerá prisioneiro da comunicação e eletrônica, comenta.

Especialistas alertam para os casos de novos hábitos que podem ser destrutivos a curto e longo prazo: “fazem uso excessivo, preocupam-se com a internet e ficam mais tempo on-line que o planejado. Utilizam a internet para escapar da própria vida e apresentam sintomas de estresse e depressão, além de irritação ao ter de deixar a internet”, alertam Kátia e Maria Amélia em “Relacionamentos Amorosos na Era Digital” (Editora dos Editores) organizado por Adriana Nunes e Maria Amélia Penido.

Há várias formas de desconectar-se de forma saudável. Técnicas de respiração podem ajudar a diminuir a ansiedade gerada pela falta de conexão. Para a psicóloga Andrea Perroni, que também é formada em massagem de som pela Academia Peter Hess Brasil, uma das alternativas é a meditação sonora. A técnica propõe uma paisagem sonora por meio de instrumentos terapêuticos como gongos, taças tibetanas e de cristal. “Estes sons favorecem uma pausa com qualidade meditativa e regenerativa podendo nos levar a insights, aumentar nossa capacidade de concentração, ajudar no controle da ansiedade, além de um relaxamento profundo da nossa saúde integral, física, mental e emocional, ativando nosso potencial de autocura”.

Na era da hiperconectividade, há coisas que você só vê quando desacelera. Depende muito de como lidamos com nós mesmos, se somos ou não a nossa melhor companhia. É preciso despertar a consciência e percebermos se estamos grávidos de medos e quais os gatilhos desses sentimentos. Finalmente, aprecie e sinta prazer na sua própria existência. Nutra o seu corpo e sua mente com amor. Não tire férias de si mesmo.

FLÁVIA RIBEIRO – é jornalista formada pela PUC-Rio, especialista em Marketing (ESPM). Cursou MBA em Sustentabilidade pela UFRJ. É especialista em textos sobre Psicologia.

EU ACHO …

OS LEGADOS DA QUARENTENA

Por que o momento que vivemos pode fortalecer nosso senso de coletivo e transformar o mundo em um lugar melhor no futuro

Como pesquisadora de cenários futuros, uma das perguntas que mais me fizeram durante esses últimos dias em que vivemos sob a crise da covid-19 foi sobre o legado da quarentena. Desafiador responder sobre isso, uma vez que cenários futuros são construídos por meio de sinais fortes e fracos do presente, e nosso presente está mais cheio de incertezas do que de indícios. Mas já podemos pontuar alguns sinais do senso comum:

  • Existirá um impacto sem precedentes na saúde física e emocional das pessoas
  • Existirá um impacto econômico gigantesco do qual ainda não temos real dimensão
  • Existirá um impacto tecnológico, principalmente no âmbito da adoção massiva de soluções digitais, em uma parcela da população do globo.

No entanto, há um legado sutil que acontece quase nas entrelinhas desta quarentena. É o despertar para o senso coletivo. Nunca havíamos vivido isso de maneira tão massiva quanto vivemos hoje. Essa grande herança surgirá como fruto do acesso tecnológico, da educação e do tempo para exercitar consciência social.

E, como cada consciência produz uma visão que se concretiza numa ação, teremos muitas formas de viver esse senso coletivo:

  •  Sair da caixa, das bolhas, dos ecossistemas e das organizações vendo o mundo como um território de infinitas possibilidades
  •  Apoderar-se do protagonismo, não se colocando mais em posições passivas ou de vítima
  •  Exercitar a sensibilidade e a capacidade de lidar bem com os próprios sentimentos, colaborando criativamente em vez de competir
  •  Desejar viver de acordo com suas verdades, e não apenas existir em um sistema de coisas que não faz mais sentido
  •  Lidar positiva mente com opiniões diferentes das suas, sabendo ouvir com presença, mas sem gerar conflito

Com todas essas questões, minha visão é que a principal herança desta quarentena estará mais conectada às novas formas de ser do que de fazer. Ou seja, vamos nos transformar pessoalmente, e não apenas realizar nossas tarefas de outra maneira. Acredito que, entre os excessos que serão removidos e o acessos que serão promovidos, a tendência natural será nos tornarmos versões melhores de nós mesmos.

E, como me disse esta semana minha querida amiga, a jornalista Ana Paula Padrão: “Ninguém sairá igual e muitos sairão melhores. Os radicais polarizadores, para ambos os lados, perderão força para um grande coletivo mais atento e solidário.”

LIGIA ZOTINI – é pensadora e pesquisadora de futuro, é fundadora do Voicers, tem uma carreira de 15 anos em tecnologia e de 20 anos em educação. ligia@voicers.com.br

OUTROS OLHARES

ASTROS ENGAJADOS

Do rapper Kanye West ao piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, nomes importantes do esporte e do entretenimento levantam a voz contra o racismo em todo o mundo

Em todo o mundo, mais do que nunca, as vidas negras importam. O ano de 2020 já pode ser considerado um marco contra o racismo. O brutal assassinato do americano George Floyd, morto por um policial branco em Minneapolis, nos EUA, em maio deste ano, foi o estopim para que o movimento ganhasse proporções mundiais como não acontecia desde o movimento pelos Direitos Civis liderado por Martin Luther King nos anos 1960.

O movimento chegou até a um universo que sempre pareceu alheio aos problemas externos, fora das pistas. No último domingo, 5, o GP da Áustria marcou o reinício da Fórmula 1 e foi palco de uma manifestação promovida pelo pentacampeão da competição e um dos únicos negros na história da categoria, o inglês Lewis Hamilton. Os 20 pilotos usaram camisas com mensagens anti-racismo — antes do início da corrida, 14 deles se ajoelharam, gesto que simbolizou o apoio à causa. Com mais de 28 milhões de fãs na internet, Hamilton usa sua influência para promover a campanha ‘We Race as One’ (Nós Corremos Como Um). Entre novembro de 2019 e janeiro de 2020, o jogador Mario Balotelli foi vítima de episódios de racismo no campeonato italiano, com torcedores da Lazio e do Hellas Verona imitando sons de macaco. As ofensas vieram até do próprio presidente do Brescia, clube do craque. “Ele é negro, o que devo dizer? Está trabalhando para se clarear, mas está com dificuldades”, ironizou Massimo Cellion em uma coletiva de imprensa.

Um grupo formado por jogadores italianos negros protestou e a liga emitiu uma nota, se desculpando. “Sem justiça, sem paz”, publicou Balotelli em uma rede social. O jogador de basquete LeBron James é um ídolo dentro e fora das quadras da NBA, a liga americana. Com cerca de 137 milhões de seguidores nas redes sociais, assumiu o papel de líder de uma geração de esportistas. O camisa 23 do Los Angeles Lakers é símbolo da luta contra o racismo dentro de um campeonato onde há mais de 70% de jogadores negros. Em 2018, foi atacado pela apresentadora de TV Laura Ingraham, da Fox News, após opinar sobre ações do presidente Donald Trump. “LeBron deveria calar a boca e apenas jogar basquete”, disse a âncora. Inspirado por Colin Kaepernick, ex-jogador de futebol americano da NFL que se ajoelhou durante o hino nacional para protestar contra a violência policial que atingia os negros no país, LeBron respondeu a ofensa criando a campanha “Eu sou mais que um atleta”. Hoje, o movimento conta com nomes como a tenista Serena Williams e o jogador Kylian Mbappé. A representatividade é apontada como fator fundamental para a mudança, segundo especialistas. “Quando estrelas do esporte ou artistas se posicionam politicamente, atingem grupos que não acompanham política, o que gera reflexões e pensamentos sobre esses temas”, afirma Rosane Borges, pesquisadora e pós-doutorada em Ciências da Comunicação. Para amplificar o poder de sua voz, Lebron James acaba de negociar o investimento de US$ 100 milhões para a criação de uma empresa de mídia com o objetivo de dar voz aos menos favorecidos e exaltar a comunidade negra. Além disso, através da ONG “Fundação da Família LeBron James”, criou a instituição de ensino “Eu prometo”, escola com suporte gratuito para mais de 200 crianças carentes em Akron, Ohio, seu estado natal.

FAMA E ATIVISMO

Surpreendendo até seus fãs, Kanye West, rapper e empresário norte-americano, afirmou que vai concorrer ao cargo de Presidente dos Estados Unidos em 2020. Depois de Barack Obama, o músico e produtor sonha em ser o segundo representante negro no mais alto cargo político no país. A data do anúncio de sua candidatura foi simbólica: 4 de julho, Dia da Independência dos EUA.

O apoio do cantor a Donald Trump chocou a comunidade negra americana. Acostumado a polêmicas, o artista garante agora que rompeu com o presidente e, embora guarde afinidades com o partido republicano, afirmou que será um candidato independente.

Mesmo sem a candidatura 100% confirmada, Kanye já possui apoio dos fãs e até de bilionários como o empresário Elon Musk. “Os influenciadores digitais negros iniciam micro-revoluções em seus canais de mídia ou lugares de fala, e esse movimento viraliza”, aponta Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta e empresária de sucesso no Brasil. “As pessoas querem ser como seus ídolos”, completa Rosane Borges. Conhecida mundialmente, a cantora Beyoncé é um símbolo de empoderamento para seus mais de 100 milhões de seguidores. Em 2016 durante a final do Super Bowl 50, assistido por mais de 112 milhões de telespectadores, ela apresentou a música “Formation”, cuja letra retrata as mazelas do racismo nos EUA. Vestida de preto e com uma coreografia em forma de “X” , referência ao ativista Malcolm X, foi a maneira que Beyoncé encontrou para espalhar uma mensagem cada vez mais universal: o mundo não aceita mais o racismo.

MUHAMMAD ALI, GIGANTE DA POLÍTICA

Considerado um dos maiores nomes da história do Boxe, Muhammad Ali não era um gigante apenas nos ringues. Batizado como Cassius Marcellus Clay Jr, o norte-americano tornou-se campeão olímpico com apenas 18 anos, em 1960. Mesmo sendo um atleta de elite e acumulando vitórias em seu cartel, Clay não conseguiu se esquivar do racismo. Aos 22 anos, converteu-se ao islamismo e mudou seu nome de batismo, defendendo que era “seu nome de escravo”, para Muhammad Ali. Em 1967, Ali se recusou a servir ao exército para lutar na Guerra do Vietnã, afirmando que combater o racismo nos EUA era mais importante. O gesto custou sua licença como lutador, mas o tornou um símbolo na luta racial. Três anos depois de seu afastamento, voltou aos ringues, ganhou títulos mundiais e cravou seu nome como ativista e um dos maiores atletas da história.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE JULHO

RIOS DE ÁGUA VIVA!

… Se alguém tem sede, venha a mim e beba (João 7.37b).

Jerusalém estava em festa. Era a Festa dos Tabernáculos. O povo vinha de todas as partes da nação e vivia em cabanas durante uma semana, relembrando a jornada dos quarenta anos pelo deserto e agradecendo pela providência de Deus. Ao mesmo tempo, o povo nutria a esperança da chegada do Messias, o Pão vivo que desceu do céu, a fonte da água da vida. Todos os dias havia uma cerimônia na qual o sacerdote tirava água do poço de Siloé e a derramava sobre o altar do templo. Com isso, eles aguardavam o cumprimento da promessa acerca do Messias, que lhes traria água da vida. Foi no clímax dessa festa que Jesus se levantou e disse: Se alguém tem sede venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água (João 7.37,38). Há aqui um convite e uma promessa. O convite é pessoal e universal. Um convite para uma experiência individual com Cristo. Um convite condicional, dirigido àqueles que têm sede. Quem atende ao convite recebe a promessa. A promessa é de uma vida pura e abundante. Jesus não fala sobre águas paradas e lodacentas, mas de água viva. Não fala sobre uma porção limitada, mas sobre rios de água viva. A vida que Cristo oferece é abundante, maiúscula e superlativa. Como se recebe essa vida? Crendo em Cristo, como diz a Escritura. Não é crer em Cristo como diz a igreja, mas como diz a Escritura!

GESTÃO E CARREIRA

A GUERRA DAS GÔNDOLAS

O crescimento das compras de supermercado feitas pela internet e por aplicativos atrai startups e gigantes do varejo que brigam pelo mercado

Um dos efeitos mais evidentes do avanço tecnológico é como as novas ferramentas digitais fazem as pessoas repensar a forma como consomem produtos e serviços no dia a dia. Hábitos comuns, como pedir um táxi na rua, praticamente desapareceram depois do surgimento dos aplicativos de transporte, por exemplo. Nos últimos anos, outro questionamento tem ganhado força nas grandes cidades: será que ainda faz sentido pegar o carro -— ou o transporte público, a bicicleta etc. —, passar até 1 hora ou mais num supermercado procurando e escolhendo produtos nas prateleiras e depois ainda enfrentar fila no caixa só para abastecer a casa com alimentos, bebidas, além de produtos de limpeza e higiene? Para muita gente, a resposta tem sido não. Melhor: tem sido resolver tudo por meio de um aplicativo e receber os produtos em casa, especialmente os itens que são comprados todos os meses.

Fundada em 2015, a startup colombiana Rappi não deu o pontapé inicial nas vendas de supermercados pela internet no Brasil, mas fez crescer um segmento que era quase inexistente. Com mais de 1,4 bilhão de dólares de investimentos de fundos como SoftBank, DST Global e Sequoia Capital, a startup dona de um aplicativo para a entrega de pedidos feitos a restaurantes, farmácias, petshops, entre outros estabelecimentos, ganhou terreno a partir de 2017 por intermédio de uma parceria com o GPA. O negócio permitia que a rede varejista terceirizasse a chamada “última milha”, a etapa final da entrega de um item ao consumidor. O aplicativo fica responsável pela exposição dos produtos, pelo pagamento e pela logística da operação. Em troca, recebe um percentual de cada compra. As empresas não revelam os números, mas analistas entrevistados estimam que a porcentagem fique entre 10% e 14% do valor.

Com presença em sete países (Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai) e um volume de entregas que somou 70 milhões de pedidos entre junho de 2018 e junho de 2019, a companhia cresce em torno de 30% ao mês. Sem o GPA, que deixou a plataforma em 2019 após a compra do aplicativo concorrente James Delivery, a Rappi buscou no Carrefour sua grande parceria nos supermercados. “A venda de alimentos pela internet é a última barreira do e-commerce”, diz Paula Cardoso, presidente do Carrefour eBusiness, unidade dedicada ao varejo online do grupo.

Para manter a operação digital, o Carrefour conta com 12 side stores, lojas acopladas aos hipermercados que servem apenas para a retirada de itens comprados pela internet. As side stores foram responsáveis por 25% das vendas online do Carrefour no quarto trimestre do ano passado. O restante é abastecido por hipermercados e centros de distribuição. A varejista não revela dados específicos da parceria com a Rappi, mas informa em seu balanço financeiro um crescimento de 10% nas vendas da operação brasileira em 2019 e um faturamento bruto de 62,2 bilhões de reais. “Não é só um empurrãozinho. Em alguns casos, a venda por meio de aplicativos chega a representar 10% do faturamento de certas lojas”, diz Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo.

O negócio digital é interessante também por causa de outros aspectos. O primeiro é a conquista de um público que não era cliente da empresa. De acordo com o Carrefour, 63% dos consumidores do e-commerce não faziam compras na rede antes. O segundo ponto diz respeito à chamada “economia dos dados”. O acordo com a Rappi permite ao Carrefour saber que produtos cada cliente comprou pelo aplicativo. Em um mercado em que as experiências personalizadas contam muito, deter esse tipo de informação é quase obrigatório para poder competir.

Se o Carrefour aposta suas fichas na Rappi, o Grupo Pão de Açúcar preferiu ter um aplicativo próprio. Comprada em dezembro de 2018, a startup curitibana James Delivery permite a entrega de encomendas de farmácias, restaurantes, floriculturas, além, é claro, de supermercados. Desde a venda ao GPA, a operação foi multiplicada por 15. “Dobramos de tamanho a cada 70 dias”, diz Lucas Ceschin, cofundador do aplicativo. Em um ano, a área de atuação foi expandida de duas para 18 cidades e a previsão é terminar 2020 com presença em 25 municípios. “As empresas não têm tempo para fazer tudo. Elas não serão melhores em tudo e precisam de parceiros”, diz Rodrigo Pimentel, diretor da área de e-commerce alimentar do GPA.

Mais do que realizar entregas rápidas, a compra da startup curitibana teve como objetivo intensificar uma operação online iniciada ainda em 1995, nos primórdios da internet brasileira. O negócio virtual só foi impulsionado de fato nos últimos cinco anos, quando a companhia aumentou sua capacidade operacional para atender à demanda digital crescente. Em 2019, o comércio eletrônico do Pão de Açúcar teve alta de 40% e a estimativa é que haja um crescimento de 50% em 2020 graças à expansão da operação física para atender clientes virtuais. Está prevista a inauguração de quatro “minicentros de distribuição” e 70 shipment stores, lojas físicas que atendem entregadores. Hoje são 130 estabelecimentos desse tipo e dois centros de distribuição.

Na esteira da Rappi e do James Delivery está o iFood. O aplicativo fundado em 2011 e que pertence ao grupo de tecnologia Movile entrou nessa briga em junho de 2019, aproveitando sua grande base de consumidores. Com crescimento de 20% por semana, seu serviço de entrega de supermercados atende mais de 400 estabelecimentos em 80 cidades do país. Entre eles está a rede BIG (ex-Walmart), que passou a fazer parte da operação em janeiro. “A conta fecha porque o tíquete médio das compras é muito superior ao dos restaurantes”, diz Lucas Passos, diretor de desenvolvimento de negócios do iFood. A meta para 2020 é chegar a 200 cidades e a 1.000 supermercados cadastrados.

A competição será acirrada. Em janeiro, a B2W, empresa dona das lojas online Submarino, Americanas.com e Shoptime, adquiriu a startup SupermercadoNow, serviço de compras de supermercado pela internet, por um valor não revelado. Fundada em 2015, a empresa paulista tem mais de 200.000 usuários ativos e opera com mais de 30 redes, como Hirota e Lopes Supermercados. A B2W afirma que o negócio permitirá à empresa “expandir sua presença na categoria de supermercado, abrindo uma nova frente de crescimento”.

O movimento da B2W é semelhante ao da Uber, que comprou em 2019 uma participação majoritária na startup chilena Cornershop, que faz entregas de supermercado. O serviço já opera no Brasil, no México, no Peru e no Canadá e ajudará a Uber a incluir a nova categoria de alimentos e bebidas no serviço Uber Eats. “Seja para fazer uma viagem, seja para pedir comida no restaurante favorito ou, muito em breve, para receber compras em casa, queremos que a Uber seja o sistema operacional de seu dia a dia”, disse, na época, o presidente da empresa, Dara Khosrowshahi.

O mercado também conta com start-ups que ainda buscam um lugar ao sol com estratégias diferentes. A HomeRefill, por exemplo, opera desde 2016 e aposta em um nicho. Em vez oferecer entregas rápidas e com poucos itens, a startup paulista quer que os clientes usem a plataforma para fazer “a grande compra do mês”. Por não trabalhar com produtos perecíveis, a startup compra os alimentos no atacado por um preço mais baixo. Nesse caso, o frete pode sair de graça. Essa é a mesma estratégia da concorrente Shopper, também de São Paulo. “Como compramos dos fabricantes, é possível ter uma margem de lucro saudável e ainda ter preços, em média, 12% mais baixos”, diz Fábio Rodas, presidente e cofundador da Shopper. Atualmente, são 700 bairros em oito cidades atendidas na Grande São Paulo. Segundo Rodas, a empresa dobra de tamanho a cada quatro meses. 

O objetivo de todos os serviços de supermercado online é crescer num mercado que ainda engatinha no Brasil. Segundo dados da consultoria Ebit/Nielsen, as vendas de itens de supermercados representam menos de 1% do varejo online. Os números de 2019 ainda não foram calculados, mas houve uma alta de 12% nas vendas no primeiro semestre. O desafio para aumentar a participação não é apenas logístico ou tecnológico, mas também cultural. Dados de uma pesquisa da Associação Paulista de Supermercados com o Ibope mostram que apenas 15% dos brasileiros já realizaram compras de supermercado pela internet.

Nos Estados Unidos, onde a Amazon e o Walmart travam uma disputa acirrada no segmento, os números são maiores. A previsão é de um crescimento de 66% no número de consumidores de supermercados online até 2022, que deve chegar a 30 milhões. O faturamento deverá saltar de 24 bilhões para 49 bilhões de dólares, segundo dados consolidados pela empresa de pesquisas Statista. A Amazon, aliás, já vende alimentos em seu site no Brasil. É possível adquirir massas, grãos, arroz, óleo, café, bolachas, entre outros produtos não perecíveis. Mas a oferta ainda é limitada. Já nos Estados Unidos a Amazon tem intensificado sua operação de supermercado desde a compra da rede WholeFoods,- em 2017, por 13,7 bilhões de dólares, e a criação da subsidiária de entregas de alimentos Amazon Fresh. Enquanto a ameaça da Amazon não se concretiza por aqui, os aplicativos e as redes varejistas correm para encher os carrinhos virtuais de seus consumidores. 

CARRINHO VIRTUAL

Uma das últimas fronteiras do e-commerce , os supermercados estão de olho no varejo virtual

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TERAPIAS DE CHOQUE

Receber descargas elétricas no corpo e no rosto para ficar em forma e mais jovem. Essa é a mais nova (e dolorida) promessa da indústria da beleza

Você estaria disposto a treinar com um colete que libera correntes elétricas nos músculos para entrar em forma ou a receber descargas elétricas no rosto para ficar mais jovem?

Acredite, cada vez mais brasileiros estão dizendo sim a esses procedimentos. As primeiras marcas de EMS, ou eletroestimulação muscular, a desembarcar no Brasil foram as alemãs Miha e XBody, há cerca de quatro anos, com uma promessa atraente: 300 músculos acionados — tanto os mais superficiais quanto os mais profundos — em apenas 20 minutos de atividade física com os eletrodos, o que seria equivalente a 3 horas de malhação convencional.

Além de curtos, os treinos devem ser realizados apenas de uma a ­duas vezes por semana. A contrapartida? Embora nenhuma das marcas utilize essa palavra, é preciso treinar recebendo pequenos choques. Talvez esse detalhe tenha feito com que o negócio demorasse a engrenar. Em 2016, a Les Cinq Gym, academia-butique nos Jardins, bairro paulistano, era a única a operar o XBody­ no Brasil.

“Desde o início tive certeza que agradaria aos alunos por ser um tipo de treino versátil. É ótimo para potencializar os resultados, para trabalhar áreas específicas do corpo que a pessoa tem dificuldade em exercitar ou tem limitação de movimento, para mudar o estímulo em quem treina há muito tempo e até para aqueles alunos com pouco tempo disponível”, explica Rodrigo Sangion, personal trainer e sócio da Les Cinq.

Caso você esteja se perguntando quão dolorosos são esses 20 minutos, nós testamos e respondemos: nem tanto. Para começo de conversa, você é equipado com uma roupa especial bem justa ao corpo (que auxilia a condução de energia), colete e cintas com eletrodos, tudo umidificado. O profissional responsável por operar o aparelho faz, então, testes de potência e de limite da dor para adaptar a carga elétrica ao condicionamento de cada um.

O aluno começa a receber as descargas enquanto realiza a série de exercícios funcionais adaptados a seu objetivo — existem protocolos metabólicos para queima de gordura e tonificação muscular. O estímulo é diferente de tudo que você já experimentou. Você vai suar, ficar exausto, terá algum desconforto, mas as sensações (algo mais próximo de uma quase cãibra do que de dor) são suportáveis e, com o tempo, é possível até se acostumar com os choques.

Tantos se convenceram de que o benefício é maior do que o custo físico e financeiro — cada sessão custa cerca de 160 reais — que hoje a XBody e a Miha, juntas, já estão em mais de 300 estabelecimentos, entre estúdios de EMS, academias e clínicas médicas. Em 2020, as duas marcas alemãs vão disputar espaço com uma terceira concorrente, a espanhola Wiemspro, primeira a ter sistema wireless, ou seja, o aluno não precisará ficar conectado a cabos para receber os choques.

O CEO da Wiemspro, Xavier Iglesias, explica que, para se diferenciar, a marca apostará num formato de negócio voltado, além do fitness, para atletas amadores e de alto desempenho. “Queremos conquistar o mercado de esporte com treinos que misturem técnicas de funcional, luta, força e estímulo metabólico”, explica Iglesias.

No esporte profissional, nomes como o tenista espanhol Rafael Nadal, o atleta americano Usain Bolt e o jogador Gabriel Barbosa, o Gabigol, já se renderam ao método, uma vez que é possível reproduzir o gesto motor de cada esporte com a potência extra do aparelho para prevenir lesões.

No fim de 2019, outra academia paulistana apostou na eletroestimulação para atrair clientes, mas, dessa vez, os interessados em tonificar o rosto em vez do corpo.  A Academia da Face, que abriu as portas no Shopping Villa Lobos, em São Paulo, no fim de 2019, utiliza a EMS para promover a contração seriada dos mais de 40 músculos do rosto.

“Quase ninguém lembra que os músculos faciais também envelhecem e precisam ser exercitados”, diz Alberto Cordeiro, dermatologista e proprietário da Academia da Face. Ele garante que protocolos como o Electric Face, que associa eletroestimulação dos músculos, manobras de drenagem linfática e aparelhos para hidratação, podem proporcionar resultados parecidos com o de um lifting sem agulhas, realizados uma vez por semana. Por 279 reais, você se submete a uma sessão de limpeza de pele, massagens e outros preparos, além dos choques, é claro.

Aqui, o treino é mais passivo do que na EMS para o corpo: a terapeuta utiliza uma ponteira com dois polos elétricos para que a musculação da face aconteça. A sensação de formigamento generalizado, as contrações involuntárias de boca e olhos e as dores em pontos específicos do rosto podem desanimar os vaidosos de plantão. Mas o resultado de rosto menos inchado e pele mais firme, de até cinco dias, compensa. Com as clínicas e academias reabrindo devido ao surto de coronavírus, os choques são promessa de dor e recompensa para o futuro.

EU ACHO …

UMA NARRATIVA ASSUSTADORAMENTE REAL – E IRRESISTÍVEL

Daniel Defoe (Um diário do ano da peste), Albert Camus (A peste) e Philip Roth (Nêmesis) são exceções no panteão das letras. Além dos três, pouquíssimos escritores se aventuraram a transformar epidemias em literatura. Basta lembrar que a maior pandemia da história, a Gripe Espanhola de 1918, exerceu um efeito amortecedor na criatividade da geração que passou por ela. Com raras exceções – como a novela Pale horse, pale rider, de Katherine Anne Porter, ou as memórias de Pedro Nava -, quase ninguém se inspirou no morticínio para produzir obras literárias.

Via best-sellers como Zona quente, de Richard Preston, ou filmes como Epidemia e Contágio. Histórias nanadas em ritmo veloz, cujos heróis são cientistas combatendo uma nova ameaça letal à humanidade. Ainda que não venha a engrandecer a literatura, o novo coronavírus já traz um novo ímpeto a esse gênero literário-cinematográfico. O primeiro a se aproveitar da onda é o americano Lawrence Wright, no recém-lançado The end of october (O final de outubro).

Literariamente, não dá para comparar Wright a Defoe, Camus, Roth, Porter ou Nava. Mas ele tem algo que o distingue dos demais: faro jornalístico e senso de oportunidade. Seu livro ficou pronto no final do ano passado, quando ninguém imaginava que uma pandemia devastaria o planeta. Ninguém? Não. Só aqueles que, ao contrário dele, não estivessem mergulhados no assunto. Qualquer um que leia seu livro ficará surpreso com a semelhança entre a ficção e os fatos dos últimos meses. Wright soube usar informações públicas para transformar a angústia que antes afetava poucos numa narrativa que se tornou assustadoramente real – e num thriller irresistível.

A história começa (onde mais?) na Organização Mundial da Saúde em Genebra. O virologista americano Henry Parsons sai correndo de uma reunião para inspecionar o campo de Kongoli, abrigo de homossexuais muçulmanos na Indonésia, atingido por um vírus que provoca uma febre hemorrágica. Chegando lá, a devastação é absoluta. Até os médicos que cuidavam do surto estão mortos. Parsons comete o erro de deixar entrar o taxista no campo contaminado. Faz uma autópsia que o obrigará a perder o aniversário do filho. Absorto na investigação, nem pensa em isolamento. Quando se dá conta, o vírus já está em peregrinação a Meca no corpo do taxista. É a senha para a misteriosa doença, que mata 70% dos infectados, se espalhar de Kongoli pelo planeta. Parsons parte à caça do vírus na Arábia Saudita. A tentativa frustrada de isolar Meca resultará na pandemia. Parsons foge num submarino, onde improvisa um soro imunizador em pássaros. O Oriente Médio entra em guerra. Os Estados Unidos, devastados por saques e protestos, enfrentam a Rússia, misteriosamente poupada pelo vírus.

O livro segue em velocidade cinematográfica (a ideia nasceu como roteiro de filme, por sugestão do cineasta Ridley Scott). Programas secretos de armas biológicas na Amazônia. Ecoterrorismo. Um vilão de cabelo platinado com pinta de nazista vaticina: “Na guerra do homem contra a natureza, não estou do nosso lado”. Pesquisas genéticas com vírus de mamutes. Um culto diabólico que mata fiéis. Uma tentativa de estupro contra uma menina de 12 anos. Crianças que enterram os pais. Gangues de órfãos. Um menino da etnia cinta-larga, com presença de espírito incrível para empunhar uma arma. Parsons resume assim sua filosofia: “Ficamos arrogantes depois de todas as vitórias sobre infecções no século XX. Mas a natureza não é uma força estável. Evolui, muda, nunca se torna complacente. Não temos tempo ou recursos agora para fazer outra coisa além de lutar contra essa doença. Cada nação na face da Terra precisa estar envolvida, quer você pense nela como amiga ou inimiga. Se vamos salvar a civilização, devemos lutar juntos, não uns contra os outros”. Quem quer saber de alta literatura numa hora dessas?

**HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

A REDENÇÃO DO PLÁSTICO

Após anos de campanhas para reduzir o uso do material descartável, o produto voltou com tudo como forma de proteção contra o coronavírus

Desde agosto de 2015, quando viralizou um vídeo de pesquisadores removendo um canudo da narina de uma tartaruga, não houve material que sofreu maior escárnio público do que o plástico. Em meia década, as campanhas de conscientização sobre os efeitos perversos da poluição – extremamente necessárias em um cenário de sujeira descontrolada – surtiram efeito. Diversas cidades, em diferentes lugares do mundo, incluindo as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, aprovaram legislações específicas para banir o plástico de uso único, a exemplo de canudos e talheres descartáveis. Mas o cenário mudou. Com o avanço da pandemia da Covid-19, o material ressurgiu em variados formatos, mas agora como estratégia de proteção. Barreiras físicas em supermercados, protetores faciais, coberturas em máquinas de pagamentos e vedação em pratos de comida, entre muitos outros usos, tornaram o plástico onipresente na crise do coronavírus. Em questão de meses, a população preparada para eliminar um dos vilões dos oceanos se viu, quase literalmente, embrulhada pelo material.

Todos os anos, 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos. Cerca de 700 espécies que vivem no mar já foram contaminadas pela poluição e quase todas as aves marinhas ingeriram algum material plástico. Os microplásticos, pedaços que se quebram até ficarem com menos de 5milímetros, foram encontrados na água potável, no ar e nos alimentos, e estão presentes em todos os continentes, até na Antártica. Não à toa, o material foi tratado como praga que deve ser combatida com tenacidade. A pandemia, porém, deu uma trégua à busca obsessiva por eliminá-lo. Estima-se que, apenas nos Estados Unidos, a produção de uso único aumente entre 250% e 300% em 2020, de acordo com a Associação Internacional de Resíduos Sólidos. O avanço será puxado por produtos de proteção individual, como máscaras, viseiras e luvas. Os plásticos são essenciais para algumas atividades e precisam ser pensados para ter vida útil longa – ou seja, na contramão dos descartáveis. “O material não pode ser tratado como vilão”, diz o urbanista especializado em gestão ambiental Carlos Henrique Andrade de Oliveira. “Ao mesmo tempo, as empresas devem oferecer opções mais sustentáveis e os consumidores precisam ter hábitos críticos.”

No surto, quando o que está em jogo é a vida humana, a avaliação pode ser mais difícil. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), em maio houve um aumento de 28% na coleta de resíduos recicláveis, como plástico e papelão, no lixo doméstico. Mas não significa que a reciclagem aconteça – no Brasil, menos de 2% do plástico produzido é recuperado. Para o biólogo e gerente nacional da The Nature Conservancy (TNC) Brasil, Samuel Barreto, é essencial que haja investimento em políticas públicas. “Não adianta exagerar em camadas de embalagens se quem as manuseia pode estar contaminado”, diz. “O vírus está em todos os lugares e sobrevive nas superfícies.”

O novo desafio é redescobrir em quais situações o material é bem-vindo e as ocasiões em que será, mais uma vez, empregado em demasia. Para a cientista marinha da ONG Oceana, Lara Iwanicki, a pandemia trará a discussão sobre separar a importância para fins sanitários e de saúde daquilo que é evitável. “O material vai fazer parte da vida pós-pandemia e o momento reforça a necessidade de redução de produção”, diz a especialista. “Coma paralisação dos trabalhadores de reciclagem, por exemplo, o sistema entra em colapso.” No momento em que cidades planejam a reabertura e permitem a reaproximação, o plástico tem sido um aliado. Um exemplo é o caso de idosos que puderam sentir o conforto de um abraço após o distanciamento social graças à proteção que o material é capaz de proporcionar. O plástico pode ser nocivo para o planeta, mas agora descobre-se também que ele ajuda a proteger a vida.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE JULHO

COMUNICAÇÃO: VIDA OU MORTE NO RELACIONAMENTO

A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto (Provérbios 18.21).

A comunicação produz a vida ou a morte nos relacionamentos. A Bíblia diz que a morte e a vida estão no poder da língua; quem bem a utiliza comerá dos seus frutos. Podemos avivar ou matar os relacionamentos, dependendo de como nos comunicamos. Nossa língua deve ser medicina que cura, não veneno que mata. Deve ser bálsamo que restaura, não fogo que destrói. A Bíblia diz que as nossas palavras precisam ter temperadas com sal. Devemos falar a verdade em amor. Da nossa boca não devem sair palavras torpes, mas unicamente as que forem boas para a edificação, conforme a necessidade, transmitindo graça aos que ouvem. Devemos ser pródigos nos elogios e cautelosos nas críticas. Devemos estar prontos para ouvir e ser tardios para falar. Quem muito fala, muito erra. Quem fala sem refletir acaba sendo açoitado pelo próprio azorrague da língua. A comunicação é vital para construirmos relacionamentos saudáveis no casamento e na família. Vivemos no século da comunicação virtual, mas assistimos à decadência da comunicação real. Somos a geração que entabula animadas conversas pelas mídias sociais, mas não consegue assentar-se em torno de uma mesa para uma refeição familiar. Precisamos investir na comunicação em nossa família.

GESTÃO E CARREIRA

CRISE SÓ DA PORTA PARA FORA

Com 1.500 funcionários e crescimento acelerado, a Locaweb segue expandindo, mesmo com a pandemia de coronavírus

Em 1998, a Locaweb se tornou a primeira empresa brasileira de hospedagem de sites. Hoje, é líder do segmento no país, com mais de 350.000 clientes, 1.500 funcionários e um portfólio que inclui seis companhias: Cluster2Go (de data center), Ali iNMarketing Cloud (de marketing digital de relacionamento com o cliente), Tray (de criação de lojas digitais), Yapay (de pagamento para e-commerce), Delivery Direto (de desenvolvimento de aplicativos para restaurantes) e KingHost (de hospedagem de sites por computação na nuvem). “A diversidade dos serviços que oferecemos permite a perpetuidade dos negócios sem grandes perdas nesta crise”, diz Simony Morais, diretora de gente e gestão. No primeiro trimestre de 2020, o crescimento foi de 23,6%, com receita líquida de 104,5 milhões de reais. Recém-chegada à Bolsa de Valores, num IPO que levantou 1 bilhão de reais, a Locaweb seguirá expandindo seus negócios. Segundo a executiva, o plano da empresa é comprar mais duas startups até o final deste ano.

1 – NOVO HOME OFFICE

Antes da quarentena, o trabalho remoto era liberado só para alguns cargos de tecnologia. hoje, 97% da empresa se encontra nesse regime. E o sucesso na adaptação já faz a diretoria rever sua política e avaliar a flexibilização. O plano é ter um programa estruturado de um ou dois dias por semana de home office no retorno ao escritório.

2 – SEM PRESSÃO

Os horários para início e finalização da jornada são flexíveis. “Desde que se respeite a carga total e as entregas, os funcionários podem entrar a qualquer hora do dia. Não temos restrições nesse sentido”, diz Simony.

3 – AJUDA NA CRISE

A empresa não oferece vale-refeição nem alimentação, mas conta com restaurante em sua sede. Neste momento, cestas básicas estão sendo enviadas às residências. E uma ajuda de custo foi acrescida aos salários para pagamento de energia e internet.

4 – ATENÇÃO ÀS MAMÃES

Além da licença-maternidade de quatro meses, as mulheres que voltam ao trabalho recebem uma placa de amamentação que lhes permite usar qualquer sala para retirar leite. Elas também possuem geladeira para conservação do alimento e isenção na coparticipação do convênio por doze meses a partir da licença.

5 – SEM ESTRESSE

Em seu ambiente de descompressão, a Locaweb oferece sinuca, tênis de mesa, pebolim, videogame, quick massage e manicure – as duas últimas gratuitamente e com agendamento prévio. Outros benefícios são gym­pass e ginástica laboral

6 – DE OLHO NAS MINORIAS

Seis frentes: Mulheres, Negros, Cultura, PCDs, LGBT e Gerações. Cada grupo tem um líder e um vice-líder, que participam mensalmente das reuniões de diretoria para levar pautas e sugestões de projetos.

7 – SEM PAUSA NO DESENVOLVIMENTO

Todos os treinamentos que a empresa oferece, como os de liderança, os de trainees e os de atualização de desenvolvedores foram transferidos para o ambiente on-line. “A participação está maior. Como não temos a barreira de estados, o resultado é mais integração”, diz Simony.

8 – DESIGUALDADES

Apenas 20% da liderança é feminina. O número baixo preocupa o RH, que começou a tomar providências por meio do comitê de diversidade. Entre as ações estão o treinamento de vieses inconscientes para toda a companhia e a parceria com instituições especializadas em recrutar desenvolvedoras.

9 – MIGRANDO DE ÁREA

A Universidade Corporativa oferece uma trilha chamada academia de sistemas, voltada para os funcionários do atendimento que tenham interesse em crescer na carreira e migrar para a área de TI: 72 pessoas já fizeram a movimentação interna.

10 – CAFÉ COM CEO

A cada dois meses, funcionários são convidados para participar de um café da manhã com o CEO – que se tornou virtual enquanto dura a pandemia.

COMPETÊNCIAS

A companhia busca pessoas que pensem em novas formas de gerar valor para os clientes, com criatividade, trabalho em equipe e foco nos resultados.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MASCULINO E FEMININO NA PERVERSÃO

O perverso reconhece as normas sociais e a lei, mas, as burla: origens das estruturas de personalidade estão na infância

Pensar sobre possíveis diferenças entre o homem e a mulher, para além dos estereótipos ou das generalidades difundidas pelo senso comum é um exercício arriscado. Especialmente porque é bastante comum considerarmos a questão de maneira antagônica ou de maneira hierarquizada, estabelecendo gradação de valores que vai do ruim ao bom, do negativo ao positivo, do pior ao melhor – ou, ainda, do perigoso ao inofensivo.

Condicionados a essas percepções e contaminados por esse imaginário que parece esgotar o assunto, seria razoável deduzir que necessitamos alterar significativamente essa lógica, evitando reproduzir hipóteses, suposições e opiniões que conduzem a um olhar questionável sobre alteridade e sobre distinções e possam ser aprendidas quando falamos de homens e mulheres.

Contribuindo para esse esforço de resignificação, a psicanálise aponta a existência de sutilezas e nuances que dizem muito do que seja um homem e uma mulher, para além da anatomia, do corpo definido pela biologia. É nesse terreno movediço que adentramos, partindo da obra de Sigmund Freud e chegando a um de seus mais interessantes representantes, o psicanalista francês Jacques Lacan, responsável pelo avanço dessa teoria de maneira bastante original.

No texto Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre sexos, de 1925, Freud envereda por caminhos que se iniciam, fundamentalmente, por um conceito muito específico da psicanálise: o complexo de Édipo. É nesse momento mítico que o bebê (e não importa se tenha nascido com pênis ou vagina) fará uma “escolha” – visceral, poderíamos dizer – acerca de um dos genitores, que será alvo de toda sua afeição e investimento de energia, ou da libido, para sermos mais rigorosos. Freud levanta a hipótese de que o menino, ao ser cuidado pela mãe, amamentado e tornado como algo muito especial, invariavelmente a elege como seu objeto do desejo. Assim, rivaliza com o pai, considerando-o como um adversário que atrapalha seus planos de conjunção definitiva, sua fantasia de habitar um paraíso no qual viveriam somente ele e sua mãe e nada faltaria, pois um completaria o outro, sem grandes tensões.

OUTRA MULHER

Esse drama mobiliza o menino de forma muito intensa, tornando-se para ele praticamente uma razão de viver e estabelecendo condições para a irrupção de uma outra questão, radicalmente importante: a castração, que impulsiona o sujeito a se posicionar subjetivamente. Há três possibilidades de estruturação psíquica: pela neurose, pela psicose e pela perversão.

Na neurose, o menino é confrontado com a autoridade do pai (que, na visão da criança, toma para si o lugar da lei, impedindo o filho de manter com a mãe uma ligação simbiótica, uma célula narcísica). O garoto sente-se, assim, impedido de desfrutar do corpo materno e é “incentivado” a escolher outra mulher, que não sua mãe.

Outra possibilidade é a psicose, na qual a ligação entre mãe e filho é extremamente intensa na fantasia inconsciente da criança e não na interdição paterna. Nessa estruturação distinta da neurose, o menino permanece para sempre preso na relação com a mãe, afastando-se  das outras pessoas, desenvolvendo laços sociais com alguma dificuldade e, sobretudo, de formas muito particulares – especialmente se levarmos em consideração que vivemos num mundo que favorece certos tipos de vínculo mais característicos da neurose, aproximando-se de um modelo de pretensa “normalidade”.

Na terceira possibilidade temos a perversão, uma estrutura na qual se destaca, essencialmente, a relação do menino com a lei simbólica imposta pelo pai, que aponta para qualquer outra mulher. Grosso modo, poderíamos dizer que o perverso se interessa por burlar a lei, ou ainda, em termos mais contundentes, é como se a lei o atraísse mais que a mulher, de fato.

E no caso das meninas? Os fenômenos se processam exatamente da mesma forma no psiquismo feminino? Naquele mesmo texto, Freud dizia que não. Segundo ele, o menino demonstra, especialmente nos casos de neurose, uma maneira específica de lidar com a castração, apaixonando-se pela mãe e nutrindo o secreto desejo de gerar um filho nela, submete-se à lei do pai e, de acordo com suas possibilidades subjetivas, desloca esse interesse para outra mulher, amando-a e procriando, alcançando a paternidade.

CASTRAÇÃO

Já a questão feminina é mais complexa, embora esse processo ocorra de forma parecida. Inicialmente, a menina privilegia a mãe e considera o pai como rival. Num segundo momento, altera essa posição e elege o pai como alvo de seu interesse, passando a competir com a mãe pelo amor e pela atenção dele.

Um leitor desavisado se surpreenderia ao perceber que nesse processo surgem as condições para o estabelecimento de sentimentos afetuosos muito intensos, tanto de amor quanto de ódio. Na estruturação da personalidade há influências das relações estabelecidas (ou fantasiadas) entre o bebê e sua mãe, dos impedimentos da lei paterna (um operador simbólico que Lacan chama de Nome-do-Pai) e das formas como a criança responde à castração. Esses elementos estão presentes no cenário que serve de pano de fundo para o complexo de Édipo.

A saída desse complexo – se é que, algum dia, efetivamente se sai dele – foi imaginada por Freud como única para o homem: apaixonar-se pela mãe na infância e, na idade adulta, buscar outra mulher que restitua a ele as mesmas sensações prazerosas que obtinha com a figura materna. Já no caso da mulher há três possibilidades, encontrar um homem que substitua seu pai, dando a ela um filho; permanecer infantilmente ligada à mãe, fixada num momento anterior ao “giro” que a faria se apaixonar pelo pai e, finalmente, rivalizar com os homens, nutrindo o que Freud chama de “inveja do pênis”, um aspecto regularmente presente na economia psíquica de grande parte das mulheres.

Alguns psicanalistas consideram que a mulher, diferentemente do homem, não poderia estar no campo da perversão, pois se relacionaria de uma forma distinta com a lei simbolicamente imposta pelo pai. Ao falar de estruturas (termo lacaniano), vale ressaltar a ideia de falo como elemento relacionado à questão da castração. Na perversão, ao perceber a ausência do pênis na mãe (e vê-la, portanto, castrada) o menino angustia-se e, para aplacar esse desconforto, “cria” um substituto – um objeto que podemos qualificar como fetiche, como algo que tampona a falta da mãe, amenizando de alguma forma a sensação desconfortável que, em última instância, o remete à sua própria castração. Com isso, inúmeras consequências podem advir, mas fundamentalmente, o perverso extrai prazer das coisas de uma forma muito particular, em geral de maneira distante daquela que se convenciona chamar de “normal”.

No imaginário popular, os perversos gozam batendo, causando dor, mentindo, enganando, confrontando a lei, tomando o outro como objeto (a ser usado), praticando atrocidades, agindo de forma despótica quando está no poder, enfim, cometendo uma série de atos e adotando posturas que nitidamente se opõem ao que costumamos chamar de ” bons costumes” ou “moralmente correto”. As aspas são necessárias, pois para a psicanálise não se trata de abordar o que é supostamente certo ou errado, mas sim da ordem do desejo de um sujeito – seja ele psicótico, neurótico ou perverso – e sua possibilidade de consecução frente à cultura e a si mesmo.

Tomado como indústria cultural e também como um meio poderoso de difusão de imagens, ideias, concepções e ideologias, o cinema nos oferece rico material para abordar a questão da perversão. É o caso de Secretária, de Steve Shainberg, que pode nos ajudar a tentar desvendar as misteriosas particularidades do âmbito da perversão, com ênfase na questão do feminino e do masculino. A obra recebeu, em 2002, o Prêmio Especial de Originalidade do Festival de Sundance. Um dos aspectos que mais chama a atenção no filme é que, num primeiro olhar, o espectador tem a sensação de que nos defrontamos com um caso de perversão feminina, pois o fio condutor do filme está centrado em uma relação entre o advogado Edward e sua funcionária Holloway, com nuances clássicos de sadomasoquismo (bater e apanhar são elementos presentes; a dor tem destaque e há rigidez no modo de amar).

Para Freud, todo modo de obtenção de prazer que se fixa – não permitindo variações e de alguma forma limitando o sujeito – poderia ser compreendido como perversão. É isso justamente que encontramos em Holloway e Edward, um relacionamento sem limites, mas intensamente repetitivo, num circuito em que o novo parece não encontrar espaço.

No início do filme Holloway é apresentada como uma jovem em busca de uma relação afetiva na qual possa sentir algo “mais excitante”, que destoe qualitativamente da relação que mantinha até então com o namorado, Peter, um amigo de infância. Um dia, ao observar uma prosaica placa de “precisa-se de secretária”, acaba por ser admitida pelo escritório de Edward, um advogado “excêntrico”, daquele tipo de chefe que nenhuma secretária suporta, dono de um escritório no qual a rotatividade de funcionárias é recorrente.

PRAZER E DOR

Holloway, que acabara de sair de uma internação num hospital psiquiátrico, mantém uma caixa com instrumentos cortantes e é adepta do cuting, prática que consiste em infligir-se dor, cortando na própria carne e, com esse ato, supostamente, obtém um tipo de prazer que não é alcançado na vida cotidiana. No caso de Holloway e Edward, a dor parece exercer papéis sutilmente distintos: enquanto para ela a dor, de alguma forma, encerra um circuito, uma equação que se finda na sensação intensa, para ele, infligir a dor e mostrar-se no “comando” da situação o excita. Ao perceber que a moça é adepta do cuting, Edward afirma que não será mais preciso que ela recorra a essa prática e que ele, a partir daquele momento, cuidaria dela.

O que soaria romântico – afinal, cuidar de uma mulher que sofre é um ato altamente sedutor, tanto para ela quanto para o homem – é, na verdade, sinal de que Holloway deveria ocupar, a partir de então, um lugar de humilhação, sendo punida a cada erro que cometia na datilografia, nas redações dos memorandos e em outras tarefas cotidianas. Algo de muito intenso começa a se desenrolar nesse momento do filme, ambos se envolvem em uma relação de completude, de sustentação de um prazer que acaba por fazer o espectador perder o fôlego e possivelmente se perguntar: será isso possível?

Como esse filme nos ajuda a pensar a questão da diferença entre um homem e uma mulher no campo da perversão? Para responder a isso precisamos recorrer novamente a Lacan, que muito nos ajudará com as noções de gozo e objeto necessárias para sofisticarmos um pouco a análise do que ocorre nessa ficção. Contudo, iniciemos com Freud, baseando-nos em um de seus mais comentados textos, Análise terminável e interminável, de 1937. Ele problematiza as dificuldades que se apresentam para o analista no final de um longo processo analítico, que pode levar anos. Ele identificou “posturas subjetivas” como feminina e masculina. Para o criador da psicanálise, a primeira está ligada ao que podemos qualificar como uma posição passiva, enquanto a masculina está vinculada a uma postura ativa.

ESTRATÉGIA DO FALO

Freud percebeu que, na verdade, homens e mulheres, não importando sua anatomia, privilegiam estar sempre na posição masculina (ativa) e que a posição passiva, na verdade, é apenas a expressão de um semblante usado “estrategicamente” pelo sujeito, frente ao que verdadeiramente tenciona, em termos inconscientes. Traçando uma analogia com o filme, poderíamos estabelecer como hipótese que a suposta passividade de Holloway frente ao advogado nada mais era que uma tentativa de seduzi-lo, fazendo-se de objeto que o capturaria – ou, como Lacan provavelmente diria, ter o falo é uma coisa, ser o falo é outra. Acrescentaríamos ainda, fazer-se de falo para o outro, numa posição supostamente passiva, talvez seja a essência da posição feminina e isso ultrapassa a anatomia, pois se observarmos crianças pequenas, veremos que tanto meninos quanto meninas fazem isso com maestria.

Em outras palavras, de maneira até mais simplista, seria curioso nos perguntarmos o que seria do sádico sem um masoquista que o complementasse. Afinal, Holloway tornou-se fundamental para Edward, acabou por ocupar o lugar de instrumento privilegiado de seu gozo, aquilo que lacanianamente convenciona-se chamar de objeto, de causa do desejo. Uma estratégia histérica, portanto, da ordem da neurose.

Aqui residiria uma provável resolução para a hipótese inicial: a mulher pode ser considerada perversa? Em nossa concepção, muito dificilmente, pois as possibilidades de gozo, de causar desejo no outro e, com isso, marcar a castração desse outro, afastando-se assim do confronto com a própria frustração, permite-nos dizer que a perversão, fundamentalmente marcada pela confrontação com a lei simbólica do pai, não alcança nem favorece a estruturação das mulheres da mesma forma que os homens – daí a extrema dificuldade dos  psicanalistas em diagnosticar uma mulher perversa. Novamente a mulher põe a psicanálise em xeque, fazendo-a trabalhar.

EU ACHO …

PENSANDO DENTRO E FORA DA CAIXA

Precisamos evitar o despertar lento e inconsistente da economia

Caso seja mantida a abordagem “meio barro, meio tijolo” no combate do problema econômico gerado pela Covid-19, o Brasil não sairá da pandemia de forma rápida nem intensa. É claro que alguns setores podem despertar fortes e dinâmicos na cena pós-pandemia. Uns serão seriamente atingidos e outros, devastados. Mas, no geral, o cenário aponta para um despertar lento e inconsistente se nada for feito.

O que limita a intensidade da nossa retomada? Dois fatos são claros. O primeiro se refere às escolhas que estamos fazendo, que revelam que o Brasil ainda não acordou para a gravidade do problema. As medidas adotadas podem, no máximo, reduzir a intensidade da queda, mas não propiciam uma retomada. Principalmente pelo tamanho dos problemas que já existiam antes da pandemia. O segundo fato refere-se à contaminação das expectativas pela crise política, aliada à ausência de uma comunicação estratégica com a sociedade por parte das autoridades.

O que fazer? As medidas adotadas, algumas louváveis, como o “coronavoucher”, devem ser gradualmente substituídas por programas de geração de emprego. Recursos devem ser alocados para garantir o crédito necessário aos investidores. Apesar de o governo não gostar da expressão Plano Marshall, vamos precisar de um plano, e algumas vertentes dele são cristalinas. Temos mais de 14.000 obras públicas paradas em todo o país. Temos um programa de saneamento de amplitude nacional a ser implantado e diversas concessões e privatizações a ser realizadas. Podemos, ainda, investir na urbanização de favelas e comunidades. Tudo gerando emprego, renda e impostos. São medidas que fazem a economia girar e voltar a funcionar, além de diminuir o desemprego. A prometida desburocratização do sistema tributário ainda não aconteceu. Com ela a economia poderia ganhar vitalidade.

A preocupação da maioria no mercado é com relação ao aumento da dívida pública e, consequentemente, à perenidade dos gastos públicos. Na verdade, o mercado deveria se preocupar com a intensidade da crise econômica, que pode destruir instituições e abalar a própria democracia.

A existência da nossa democracia também está ligada à qualidade das nossas expectativas. Esse é o outro fato que devemos considerar. Infelizmente, o noticiário está sendo poluído por notícias que refletem crises relevantes. E crises de narrativas alimentam novas crises. Está havendo uma perversa dinâmica “retroalimentadora” de crises a partir de problemas reais e de conflitos periféricos para o momento.

O noticiário reflete também uma guerra cultural declarada desde as eleições e que envolve conflitos institucionais — governo versus imprensa — e disputas entre poderes. Para alguns, dentro e fora do governo, a guerra cultural é mais importante que a guerra contra o novo coronavírus e contra os efeitos dramáticos da crise econômica que já estamos vivendo.

O Brasil, lamentavelmente e até agora, está cumprindo o que disse Roberto Campos: não desperdiçamos a oportunidade de perder oportunidades. A crise representa um desafio e uma oportunidade e exige que se pense dentro e fora da caixa. Até agora estamos pensando mal dentro das nossas caixinhas, o que não atende aos nossos interesses maiores.

**MURILLO DE ARAGÃO

OUTROS OLHARES

O BRASIL NA MISÉRIA

O ciclo de empobrecimento do País, que começou há cinco anos, se intensifica com a pandemia e torna as perspectivas de futuro cada vez mais sombrias. A tendência é de piora na distribuição de renda

A principal mazela brasileira, a desigualdade, vem se intensificando nos últimos cinco anos e tende a se tornar ainda mais cruel por causa da pandemia do coronavírus. Se a distribuição de renda no País já era sofrível, a expectativa é que piore daqui para frente. Os fatores imediatos que contribuem para a deterioração do quadro social são o aumento do desemprego e do número de desalentados, gente que desistiu de procurar uma nova ocupação, e a impossibilidade de atuação de milhões de trabalhadores informais, impedidos de exercer sua atividade. O isolamento social tornou impossível para muitas pessoas buscarem o pão de cada dia e criou um ambiente de incerteza que afeta principalmente a parte baixa da pirâmide e não deve se dissipar nos próximos meses. Os últimos dados do Banco Mundial, divulgados em abril, revelam que o número de brasileiros vivendo com menos de US$ 3,20 (R$ 17,00) por dia passou de 14,3 milhões para 19,2 milhões entre 2017 e 2018. Um estudo publicado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que, entre 2012 e 2019, a renda da metade mais pobre da população caiu 18%, enquanto o 1% mais rico teve um aumento de quase 10% no seu poder de compra.

AJUDA EMERGENCIAL

O cenário é nebuloso, com o aprofundamento da crise econômica, e aponta para um encolhimento do mercado de trabalho. O tempo para recolocação das pessoas que estão perdendo o emprego agora será dilatado porque a recuperação da atividade será lenta. A ajuda emergencial de R$ 600, concedida pelo governo federal para a população desassistida, deverá amenizar os efeitos econômicos da pandemia e impedir uma explosão da miséria, mas não será suficiente para reverter o ciclo de empobrecimento, já que seus benefícios são de curto prazo. Se o governo não prolongar a ajuda e não fizer mudanças estruturais, a tendência é que, passado o período de isolamento, a penúria se alastre. “A pandemia fez todo mundo ganhar menos ao mesmo tempo e mostrou que o custo da desigualdade é maior do que se imaginava”, diz o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Pedro Ferreira de Souza, autor do livro “Uma história da desigualdade: a concentração de renda entre os ricos, 1926-2013”. “Todo mundo já estava acostumado com a desigualdade no cotidiano, mas o coronavírus está mostrando seu lado mais trágico e perverso”.

“O governo parou no dever de casa número 1, que é o socorro emergencial”, diz o economista Paulo Rabello de Castro, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para quem a pandemia encolheu consideravelmente a base do mercado de trabalho. “Deveria haver também um segundo grande programa de apoio ao empreendedorismo e uma modificação radical do contrato de trabalho que alterasse seus fundamentos fiscais”. Segundo Castro, na sua falta de estratégia para enfrentar a crise, o governo de Jair Bolsonaro se esqueceu do setor produtivo e abandonou as micro e pequenas empresas ao seu próprio destino. Só no final de junho, depois de mais de cem dias de pandemia, foi colocado em prática o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), que garantirá uma linha de crédito para financiamento da folha de salários das empresas por dois meses. Além disso, ele acredita que a ajuda emergencial de R$ 600 pode colocar muita gente na “armadilha do conforto provisório” e desmotivar a pessoa a procurar um trabalho ou iniciar um empreendimento. “Um garçom que perdeu o emprego, por exemplo, não vai encontrar outra porta aberta rapidamente”, afirma. “Hoje o que temos é o famoso governo ao deus-dará”.

Neste momento, muitos brasileiros pararam de procurar emprego e se tornaram indisponíveis para trabalhar por terem sido contaminados pelo coronavírus ou porque precisam cuidar de algum doente. De acordo com os últimos dados do IBGE, obtidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), o desemprego atingiu 12,7 milhões de pessoas entre março e maio deste ano. No período, quando houve o agravamento da crise sanitária, 7,8 milhões de pessoas perderam o emprego. Só em maio, 1 milhão de brasileiros ficaram sem contrato de trabalho. A taxa de desocupação, que era de 11,6% no trimestre anterior, atingiu 12,9%. O maior problema, porém, é que a população que estava fora do mercado, sem trabalho ou procurando emprego, aumentou em 9 milhões de um trimestre para o outro e atingiu o recorde de 75 milhões de pessoas. Além disso, o número de desalentados, que desistiram de procurar trabalho porque não acreditam que conseguirão vaga, aumentou em 718 mil e atingiu 5,4 milhões de pessoas. Os analistas do mercado acreditam que a taxa de desemprego alcançará 15,5% em setembro.

Embora os efeitos definitivos da pandemia ainda não possam ser medidos, inclusive pelo impacto que a ajuda emergencial terá sobre a atividade econômica, neste momento tudo aponta para o crescimento da desigualdade. Além daqueles que recebem menos de US$ 3,20 por dia, há um contingente de 41,7 milhões de brasileiros vivendo no limite da pobreza, segundo estudo do Banco Mundial, que tem uma renda inferior a US$ 5,50 (R$ 30,00) por dia. Esse é um grupo que tem crescido consideravelmente nos últimos anos – 5,8 milhões de pessoas entraram nessa faixa –, em função da deterioração da economia e da concentração de renda nas mãos dos mais ricos. E que tende a aumentar ainda mais nos próximos tempos por causa da falta de estratégia do governo para rearticular o sistema produtivo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE JULHO

O PODER TERAPÊUTICO DA AFETIVIDADE

Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam (Atos 20.38).

O apóstolo Paulo se despedia dos presbíteros de Éfeso no porto de Mileto. Naquele encontro, o veterano apóstolo dá suas últimas instruções aos líderes da igreja. Relembra como fora seu procedimento entre eles e os exorta a cuidarem do rebanho de Deus com fidelidade. Depois, despede-se dos anciãos e viaja rumo a Jerusalém. Nessa despedida, houve abraços, beijos e lágrimas. Havia entre aqueles homens profunda amizade, cálida comunhão e sincera afetividade. Embora fossem homens maduros, não hesitaram em externar suas emoções. Não represaram na alma seus sentimentos nem reprimiram seus gestos de amor. O amor precisa ser demonstrado. A afetividade precisa transbordar em nossas atitudes. Gente precisa de Deus, mas gente também precisa de gente. A afetividade é essencial para vivermos de forma saudável. Certa feita, uma mulher me disse à porta da igreja: “Pastor, valorizo muito o seu abraço depois do culto, pois é o único que recebo na semana”. De outra feita, uma senhora me ligou para dizer que estava frequentando uma igreja mais próxima de sua casa, pois isso seria mais cômodo para ela. Eu lhe respondi ao telefone: “O problema é que você é uma pessoa tão amada e tão especial para nós que não podemos abrir mão da sua presença”. Essa mulher desatou a chorar do outro lado da linha e confessou: “Pastor, eu não queria sair da igreja; só precisava ouvir isso do senhor”. Demonstre amor! Diga para as pessoas que você as ama. Mostre quão importantes elas são para você. Isso tem um poder terapêutico!

GESTÃO E CARREIRA

DEVOLVENDO À SOCIEDADE

Embora não seja uma atividade comum no Brasil, a filantropia tem crescido por causa da pandemia do coronavírus. Mas ainda é preciso muito trabalho para que o país tenha uma mentalidade filantrópica – que nada tem a ver com caridade ou assistencialismo

Cerca de 2.000 pessoas são mais ricas do que 60% da população mundial. Esse dado, que mostra o tamanho do abismo entre os bilionários e o restante dos indivíduos, foi apurado em janeiro de 2020 pela Oxfam, ONG especializada em desigualdade social. A instituição ainda revelou outro número: o 1% dos mais abastados do planeta detém mais do que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas. Mas alguns deles procuram devolver parte de sua fortuna para a sociedade por meio da filantropia e assim podem apoiar a cultura, a educação, a ciência, a saúde e as questões sociais. Fazem parte desse grupo empresários e investidores abastados, como Warren Buffett, George Soros, Michael Bloomberg e Bill Gates – este último, aliás, doou em fevereiro deste ano 100 milhões de dólares para a pesquisa e o tratamento contra o coronavírus por meio da Fundação Bill e Melinda Gates, criada pelo fundador da Microsoft e por sua esposa. O valor dessa doação específica pode até parecer alto, mas é apenas uma gota do oceano da filantropia americana. Em 2018, pessoas físicas, fundações e empresas doaram cerca de 427 bilhões de dólares para instituições de caridade e projetos filantrópicos, de acordo com dados da organização Giving USA Foundation. O montante equivale a cerca de 2% do PIB dos Estados Unidos.

Por aqui, o cenário é bem diferente. Segundo o último índice Global de Solidariedade, de 2018, o Brasil teve seu pior desempenho de doações já registrado: ocupou o 1;222º lugar no ranking geral, que lista 146 países. Em 2017, o Brasil estava na 75ª posição. O levantamento é feito pela Charities Aid Foundation (CAF), instituição britânica que se de dica ao investimento social e privado, e leva em conta o número de pessoas que no ano anterior ao da pesquisa doaram dinheiro para uma organização da sociedade civil, ajudaram um estranho ou fizeram trabalho voluntário. O Brasil está logo atrás de Equador, Hungria e Bielorrússia e muito distante dos cinco primeiros colocados: Indonésia, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e Irlanda. Não é à toa que uma pesquisa feita em 2015 pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), parceiro da CAF no Brasil, mostrou que a filantropia representa apenas 0,23% do PIB brasileiro – algo em torno de 13,7 bilhões de reais.

Quem segura as pontas da filantropia no Brasil são as empresas. O relatório Global Philanthropy Report de 2018, realizado pela Harvard Kennedy School, identificou que mais de 90% das instituições filantrópicas do planeta são fundações independentes ou familiares. Mas o Brasil vai contra a corrente. Por aqui, 64% das fundações são ligadas a corporações. As companhias estão investindo cada vez mais em seus setores de responsabilidade social, não apenas por incentivos fiscais, mas porque as novas gerações de consumidores estão de olho no posicionamento das organizações. Uma pesquisa de 2019 feita pela consultoria Deloitte indicou que 38% dos jovens da geração Z deixariam de comprar de marcas envolvidas em escândalos relacionados a questões sociais e de sustentabilidade.

“Esse papel das empresas está sendo discutido em todo o mundo. As organizações com maior sucesso não são mais aquelas que só pensam em dinheiro, mas as humanistas. Atuações fortes são bem-vistas pelo público, não só de consumidores e investidores, mas de profissionais. Há atração e retenção de talentos maiores, assim como uma alta taxa de engajamento”, diz Edgard Barki, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV Eaesp).

DE QUEM É A RESPONSABILIDADE?

As explicações para a falta de uma cultura filantrópica de pessoas físicas no Brasil passam pela formação histórica do país, de acordo com Fernando Schüler, cientista político e professor na escola de negócios lnsper. “Nós temos uma presença forte do Estado em áreas como saúde, educação e cultura. Com isso, a sociedade civil se retrai e delega ao governo o controle dessas áreas. Quando precisa de um hospital em um bairro, por exemplo, ninguém pensa em se organizar e buscar recursos; o que as pessoas fazem é se voltar para o governo. E, na verdade, a essência da filantropia é a autorregulação social”, explica. Por esse motivo, a ideia filantrópica no país está ligada ao conceito de assistencialismo. Só que isso é um equívoco: mais do que boas ações isoladas ou caridade, a filantropia busca realizar mudanças estratégicas, efetivas e de longo prazo que promovam desenvolvimento econômico e social. Outros fatores que interferem na criação dessa mentalidade são a alta carga tributária e a burocracia. A história de José Mindlin, bibliófilo e empresário fundador da fabricante de autopeças Metal Leve, ilustra bem essas questões. Mindlin começou a colecionar livros raros aos 13 anos e, durante sua vida, reuniu uma coleção de cerca de 32.000 títulos, correspondentes a 60.000 volumes – entre eles estão pérolas como a primeira edição de O Guarani, de José de Alencar (de 1807), o original de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e a revisão do manuscrito de Grande Sertão: Veredas, com anotações de Guimarães Rosa.

Em 2002, Mindlin se reuniu a István Jancsó, então diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo, para construir uma biblioteca que abrigaria sua própria coleção, além do acervo do IEB, formado pelos arquivos e livros de Sérgio Buarque de Holanda. Mas algumas pedras apareceram no caminho até a inauguração da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em 2013. A primeira foi o fato de que, para doar seus livros à USP, o bibliófilo teria de pagar um imposto de 15% da diferença entre o valor declarado das obras e o de mercado. A alternativa para não haver essa cobrança seria criar uma fundação. Mesmo assim, Mindlin precisaria desembolsar 4% de imposto sobre o valor das obras para transferir seus livros para sua própria fundação. O imbróglio foi resolvido em 2006, quando a coleção foi, finalmente, doada. Mindlin faleceu três anos antes da abertura de sua biblioteca e não pôde ver sua tarefa finalizada. “Temos um sistema tributário que não promove a doação individual. As empresas ainda têm incentivo fiscal, mas para pessoas físicas é mais difícil”, diz Paula Fabiani, diretora presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). Ela explica que o imposto sobre transmissão causa mortis e doação (ITCMD) varia de 2% a 8%, dependendo do estado brasileiro. “Isso é um absurdo. É óbvio que é um pouco de desculpa para não doar, mas, dependendo do valor, pode se tornar um empecilho. Antes de estimular a filantropia, a gente tem de repensar essa tributação.”

Além da burocracia, a filantropia pode ser prejudicada pela percepção de que o privado e o público não podem se misturar. Um caso que exemplifica isso também acontece u na USP. Em 2009, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco recebeu uma doação de 1 milhão de reais da família do banqueiro Pedro Conde para a reforma de um auditório. Em contrapartida, a sala seria batizada com o nome do empresário. No entanto, no ano seguinte, após a troca da reitoria e protestos de alunos e professores (que alegavam que a instituição não deveria homenagear pessoas de fora da academia), a placa foi retirada. Em 2012, a Justiça determinou que a universidade devolvesse o valor recebido por não ter cumprido o acordo com a família.

SEQUELAS DA NEGLIGÊNCIA

Um país sem a cultura filantrópica também sai perdendo em guerras comerciais. Afinal, as doações para pesquisas acadêmicas, ciência e tecnologia podem fazer muita diferença na economia. “É interessante quanto esse tipo de investimento pode ser estratégico para posicionar o Brasil quando o assunto é tecnologia, novos negócios e saúde, mas ao mesmo tempo os casos de doações para esses segmentos são baixos”, diz Paula, do Idis. Os dados da CAF mostram que causas voltadas para animais e crianças ganham destaque: 39% das doações são destinadas para esses dois grupos. E apenas 8% vão para a saúde. Investimento filantrópico em ciência se torna ainda mais importante porque o governo brasileiro tem falhado em colocar dinheiro na área. De acordo com o mais recente relatório Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação, de 2018, os aportes em pesquisa e desenvolvimento vêm caindo desde 2016. No ano passado, 42% das despesas de investimento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações foram congeladas.

A crise do coronavírus está evidenciando a necessidade de apoiar as ciências de saúde e gerou uma explosão de doações. Até o dia 25 de maio, os brasileiros tinham doado mais de 5,3 bilhões de reais para o combate à covid-19 – seja para a compra de equipamentos médicos, seja para a pesquisa -, segundo a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), que criou um monitor de doações durante a pandemia. Grande parte desse montante é proveniente de companhias privadas, e uma delas se destaca: o Itaú Unibanco doou 1 bilhão de reais. “Esta tragédia vai produzir uma mudança da estrutura da filantropia brasileira. O terceiro setor é mais ágil, consegue correr riscos em uma velocidade que o governo e as empresas não conseguem ou não têm interesse”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.

Mas, antes de a covid-19 se espalhar pelo Brasil, havia uma instituição privada sem fins lucrativos pioneira em incentivar a ciência e a divulgação científica no país. Trata­ se do Instituto Serrapilheira, fundado em 2017 por João Moreira Salles, documentarista, idealizador da revista Piauí e filho de Walther Moreira Salles, fundador do Unibanco, e por sua esposa, Branca Vianna. Para criar o instituto, o casal doou 350 milhões de reais oriundos de um fundo patrimonial criado em 2016. João Moreira Salles e seus três irmãos têm a fortuna estimada em 3,1 bilhões de dólares e estão em sétimo lugar entre os brasileiros mais ricos, de acordo com ranking da revista Forbes de 2019.

Admirador das ciências exatas e biológicas, João teve a ideia de apoiar a área de maneira estruturada depois de conversas com o matemático Jacob Palis, pesquisador emérito do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) do Rio de Janeiro, e da aproximação com Artur Àvila, matemático ganhador da Medalha Fields, a maior honraria da disciplina, que foi entrevistado por João para um perfil na Piauí.

Desde sua criação, a organização já auxiliou mais de 90 cientistas investindo mais de 25 milhões de reais. A seleção dos pesquisadores é feita por meio de chamadas públicas voltadas para estudiosos de matemática, ciências físicas, ciências da vida e engenharia. Cada selecionado recebe um financiamento anual de 100.000 reais. Após esse período, os projetos são reavaliados para receber mais investimento. Até três deles podem receber até 1 milhão de reais – 700.000 reais são concedidos de forma incondicional e os outros 300.000 reais são para a integração e a formação de pesquisadores.

“A ciência é a solução para vários problemas brasileiros em diversas áreas, e ter uma ciência forte é uma questão de segurança nacional. Mas isso não está claro para os tomadores de decisão”, diz Hugo Aguilaniu, diretor presidente do Instituto Serrapilheira. Ele explica que a pesquisa e a produção científica têm custo alto e retornos pequenos. “Mas criam uma base da qual podem emergir tecnologias, produtos e cura de doenças.” Para Hugo, as empresas investem no assunto, só que não de forma desinteressada como na filantropia. “Até 70% dos recursos para pesquisa e desenvolvimento no Brasil vêm do setor privado, mas a iniciativa não é sustentável porque não dá lucro, e o investimento pode ser cortado a qualquer momento.”

Existe também a necessidade de haver divulgação dos projetos científicos. Sem isso, fica difícil criar uma rede de especialistas que sejam reconhecidos por seus feitos – o que estimularia o interesse da sociedade no assunto. “O brasileiro não dá valor para a ciência porque quase não temos cientistas famosos. Quanto mais as pessoas se interessam, é natural que o governo se sensibilize com a pauta.” Para mudar esse cenário, o Serrapilheira oferece workshops e recursos para cientistas que queiram comunicar sobre seus trabalhos.

NÃO É ASSISTENCIALISMO

Outra área que costuma ser deixada de lado nas doações é a de direitos humanos: somente 9% dos valores arrecadados são destinados a organizações voltadas para essa questão, de acordo com a CAF. “Os trabalhos sociais de direitos humanos ainda sofrem com uma imagem de assistencialismo e com a ideia de que ‘não se dá o peixe, ensina-se a pescar’. Mas as pessoas esquecem que há muita gente que não tem nem acesso ao rio para aprender a pescar”, afirma Paula, do ldis.

A falta de recursos das organizações não governamentais que atuam com direitos humanos foi o que chamou a atenção da família Lafer – cujo patriarca, Miguel Lafer, foi um dos fundadores da fabricante de papel e celulose Klabin, na qual os herdeiros têm hoje participação. Em 2011, os Lafer criaram o Instituto Betty & Jacob Lafer como uma forma de organizar os recursos da família para fazer um trabalho filantrópico mais estruturado. “Procuramos por uma área que tivesse a ver com o interesse e os valores da família. Percebemos que os direitos humanos contam com ONGs que fazem trabalhos importantes, mas são carentes de recursos”, diz Inês Mindlin Lafer, diretora do instituto. “Em vez de criar novas ações, optamos por financiar as já existentes.” Em seus quase dez anos de atuação, a instituição já destinou mais de 10 milhões de reais para 40 organizações diferentes. Além disso, ajuda a aprimorar os projetos, realizar pesquisas, veicular informações e desenhar estratégias para a implementação de políticas públicas. “A filantropia não substitui o poder público, mas é capaz de realizar ações que fazem diferença na sociedade”, diz Inês. Ela acredita que todos, independentemente da renda, podem se envolver com a filantropia de alguma maneira. Por isso, idealizou o Confluentes, um programa que conecta pessoas físicas a projetos filantrópicos pré-selecionados que atuam em temas como segurança pública, igualdade de gênero e meio ambiente, entre outros. As faixas de doação partem de 5.000 reais por ano. “Muitos acham que só porque não estão entre o 1% mais rico não podem doar. O programa é voltado para essa pessoa que quer fazer a diferença”, diz Inês. ”Muitas vezes a gente reclama do governo e se sente impotente, mas há coisas que estão ao nosso alcance e não sabemos.”

A FORÇA DA PROFISSIONALIZAÇÃO

Para garantir o sucesso filantrópico, um dos segredos está na profissionalização da área. De acordo com Custódio Pereira, presidente do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas (Fonif), esse é um dos motivos pelos quais os Estados Unidos são referência no assunto. “Os americanos profissionalizaram a figura do captador de recursos e desenvolveram métodos de arrecadação. Quando você vai estruturar uma causa, precisa ter cientificidade: saber quanto de dinheiro é necessário, por quanto tempo, quais serão as ações, quantas pessoas serão beneficiadas. Tudo isso aumenta a credibilidade do projeto, que recebe cada vez mais doações”, explica Custódio. Um método muito utilizado no exterior e que está ganhando espaço no Brasil é o de fundos endowment – também conhecidos como fundos patrimoniais (os mesmos usados por João Moreira Salles no Instituto Serrapilheira). Eles são voltados para a arrecadação, gestão e destinação de doações para programas de interesse público. No início do ano passado, o governo brasileiro sancionou a Lei nº13.800, que autoriza a administração pública a firmar parcerias com gestoras de fundos patrimoniais.

Qualquer tipo de projeto filantrópico pode se beneficiar desse financiamento, mas ele é mais comum na administração de museus e organizações de apoio à cultura – a lei, inclusive, passou a ser discutida após o incêndio que destruiu, em 2018, o Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Fora do país, a maioria dos museus tem fundos desse tipo. Isso é muito vantajoso, porque garante a perpetuidade das instituições e, ao mesmo tempo, a administração não fica dependente de doações de curto prazo ou de auxílio do governo”, afirma Fernando Schüler, do Insper. Um exemplo de museu brasileiro que seguiu os passos de instituições corno o Museu de Arte Moderna (MoMa), de Nova York, e o Instituto Smithsonian, de Washington, é o Masp. Em 2013, o museu símbolo da cidade de São Paulo se viu no meio de uma dívida de 12 milhões de reais, além de uma pendência de 10 milhões de reais com a Previdência Social. O jogo virou depois que Heitor Martins – que também é colecionador de arte e sócio da consultoria McKinsey – assumiu o cargo de diretor presidente do Masp em 2014. O executivo assumiu a cadeira do museu paulistano depois de uma experiência bem-sucedida como presidente da Fundação Bienal, de São Paulo, entre 2009 e 2012, período em que foi responsável por profissionalizar a instituição, que tinha um rombo de 2,8 milhões de reais quando ele assumiu e corria o risco de não realizar a exposição de 2010. No Masp, Heitor se uniu a um grupo de executivos liderado por Alfredo Setúbal, CEO do Itaúsa, para desenhar um plano de reestruturação do museu. No projeto, havia a criação de um fundo patrimonial. “A gente se espelhou nos museus americanos, que são privados, mas têm apoio da sociedade civil. O endowment é uma forma de arrecadação, mas também temos outros modelos de doações e parcerias”, explica Heitor.

Só no ano passado, o Masp contou com a contribuição de 47 empresas que ajudaram com 22 milhões de reais. Já as doações de pessoas físicas, companhias e organizações do setor privado   somaram 31 milhões de reais. O fundo patrimonial, que foi lançado em 2017 e ainda se encontra na fase de acumulação primitiva, conta está com 15,2 milhões de reais – a meta é atingir 40 milhões de reais em até cinco anos, que é o suficiente para bancar o funcionamento do museu durante um ano caso acabem todos os seus recursos. Como base de comparação, o Metropolitan Museum of Art, de Nova York, o mais importante dos Estados Unidos, tem, em 2020, um fundo de 3,6 bilhões de dólares.

O que tem feito a diferença no Masp é o fato de conselheiros e diretores do museu precisarem fazer urna contribuição anual mínima de 25.000 reais para o endowment. “Precisávamos de ações que fossem transparentes financeiramente e dialogassem com as pessoas. Por isso, nós criamos uma área de relações institucionais que controla o dinheiro arrecadado e comprova que ele está sendo gasto de uma maneira séria”, diz Heitor. A transparência, aliás, é o pilar da filantropia. Sem ela, os doadores se afastam por não saberem se os montantes estão mesmo sendo utilizados para o que foi acordado. E não importa se a doação é de 1 real ou de 1 milhão de reais. Uma cultura filantrópica nasce da confiança.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS BOLHAS DA QUARENTENA

Com a pandemia ainda em alta, grupos de amigos criam regras para socializar-se presencialmente, mas só entre eles. A saúde mental agradece

No princípio era o pânico. Asmática e por isso incluída no grupo de risco para o novo coronavírus, a relações-públicas Rubia Prado se autoimpôs um período de reclusão uma semana antes da quarentena decretada pelo governo de São Paulo. Na companhia do marido, o empresário Patrick Cartolano, isolou­ se no apartamento do casal na capital e passou a arredar pé de casa só para ir ao térreo exercitar-se. Com a rápida escalada de casos de covid-19 no país, riscou da lista até as atividades ao ar livre – compras, apenas pelo delivery. Voltou a pisar na rua só 70 dias depois. Fim do isolamento? Não exatamente. Ela trocou a quarentena a dois por outra na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, na companhia de mais dois casais, um deles com um bebê de 8 meses.

A princípio, o plano é passar três meses na casa alugada, que dispõe de quatro suítes e distrações como piscina e churrasqueira. ”Estávamos todos em regime de home office, cumprindo à risca as determinações das autoridades de saúde e angustiados com a falta de convivência com outras pessoas. Por que não nos juntarmos?” Não se trata de férias na praia. O grupo acordou que ninguém pode se encontrar com pessoas de fora do círculo, caminhadas à beira-mar não são permitidas nos fins de semana, quando há muita gente, e quem se candidata a ir ao mercado precisa higienizar cada item depois e correr para o banho em seguida. Também estabeleceu que a TV não precisa ficar ligada o tempo todo, bombardeando com notícias angustiantes, e que as refeições devem ser feitas à mesa, em conjunto. ”A atenção aos riscos do novo coronavírus continua, mas os dias ficaram mais leves, sem a neurose nem a ansiedade de antes”, resume Prado.

O grupo está vivendo numa bolha. Uma bolha para a quarentena, melhor dizendo, que epidemiologistas e profissionais da saúde mental têm apontado como um caminho eficaz para preservar a sanidade sem comprometer a batalha contra o surto viral. Em geral, é formada por duas ou três famílias que concordam em socializar-se ao vivo e em cores – e com mais ninguém. Dentro da bolha, abre-se mão do uso de máscaras e do distanciamento de 1,8 metro recomendado pela OMS para diminuir os riscos de contágio. Fora dela, as orientações para conter a pandemia são obedecidas com rigor redobrado.

”Isso só funciona para famílias extremamente conscientes da responsabilidade que estão assumindo e que confiam umas nas outras”, alerta a psicanalista Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP. ”Quem descumprir o combinado, encontrando alguém de fora, por exemplo, estará colocando todo o grupo em risco.” Observadas as ressalvas, Iaconelli é favorável à ideia. E diz que é chegada a hora de encarar o fato de que a pandemia está longe do fim e é preciso adaptar-se à nova realidade – com prazo de validade, espera-se. ”É o que tem para hoje. O que nos resta é reduzir os danos com base no que aprendemos com a quarentena até aqui”, afirma. ”Tire o que é prejudicial, como happy hours diárias, e invista no que traz bem-estar. Com o isolamento, muita gente está sendo tragada pela ansiedade e pela depressão. A saúde mental, portanto, deve ser prioritária.”

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) serve de termômetro para o tamanho do problema. Aproximadamente 90% dos médicos associados notaram o agravamento do estado de pacientes em razão da pandemia e quase 68% viram a clientela aumentar com o isolamento. Os transtornos mais diagnosticados: depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Na visão de especialistas da área, a escalada da covid-19 desencadeou duas outras ondas. A segunda envolve as doenças que não foram tratadas durante a pandemia, em geral porque não se buscou atendimento médico. E a terceira agrupa as moléstias crônicas, agravadas por ter sido deixadas de lado.

O governo da Bélgica encampou a ideia das bolhas sociais em maio. Autorizou cada família a receber até quatro pessoas, cujas casas pode frequentar – desde que mais ninguém faça parte do círculo. Recomenda também o uso de áreas externas para os encontros e deixar beijos e abraços para quando vier a vacina. ”A separação física daqueles que amamos se tornou, em alguns casos, insuportável”, justificou Sophie Wilmês, primeira-ministra do país. Inicialmente apelidada de ”quebra-cabeça de quatro pessoas”, a recomendação foi afrouxada e já ampliou o círculo para 15 pessoas. O primeiro país que implementou uma ideia similar foi a Nova Zelândia, mas é bom ressaltar que, com seus 4,8 milhões de habitantes, ali o isolamento já faz parte da paisagem. A do Reino Unido é chamada de bolha de apoio e prevê regras parecidas.

Quem você chamaria para sua bolha? Uma escolha óbvia entre casais com filhos é eleger amigos na mesma situação. Caso os participantes sejam substituídos, é prudente aguardar duas semanas entre cada configuração, o tempo máximo de incubação do novo coronavírus, pelo que se sabe – é fundamental que nenhum dos envolvidos apresente sintomas da doença que assola o mundo. ”É importante que todos tenham gostos parecidos”, diz a dermatologista Vera Rebelo. Moradora de um condomínio horizontal em Alphaville, na Grande São Paulo, ela formou sua bolha com as duas filhas, com quem divide a casa, e com dois casais de amigos de longa data que moram na vizinhança. ”Não sabemos quando tudo isso vai acabar, por isso nos reunimos toda semana para festejar, mas sem pôr ninguém em risco.”

EU ACHO …

TAMBÉM NA INTERNET A LUZ DO SOL É O MELHOR DESINFETANTE

Em breve estará em pauta a votação no Senado do PL 2630/20, que institui a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Trocando em miúdos, trata-se de uma lei para lidar com a propagação de fake news nas redes sociais e aplicativos de mensagem.

O momento para lidar com o assunto não poderia ser mais quente. Além da ação do STF contra empresários e influenciadores digitais bolsonaristas, o presidente americano Donald Trump entrou em guerra com o Twitter, depois que a plataforma sinalizou dois de seus posts como tendo informações falsas sobre a votação pelo correio, uma prática adotada nos Estados Unidos.

Já escrevi neste espaço que as fake news representam um problema “diabolicamente difícil” para as democracias.  O objetivo legítimo de coibir a propagação de mentiras, calúnias e discursos de ódio tem de ser equacionado com o princípio da liberdade de expressão, sem o qual uma sociedade aberta não funciona.

Não há dúvida que informações falsas que prejudicam indivíduos (“Fulano é pedófilo”) ou coletividades (“É bom tomar cloroquina contra o coronavírus”) podem e devem ser punidos. Mas isso deve ser resultado de processos legais cuidadosos, que asseguram que a má fé está sendo castigada, e não a liberdade de expressão.

Acredito que o PL brasileiro vai na direção correta. Ele orienta as redes sociais a adotar mecanismos de checagem de informações e alertar sobre mensagens que considerem “fake”, sem no entanto derrubá-las.

As medidas mais robustas, porém, vão no sentido de combater as contas inautênticas, os robôs e as redes de difusão clandestinos, e os conteúdos patrocinados que não são identificados como tal. Em outras palavras, o propósito é ampliar a transparência e impedir pessoas ou grupos de manipular e falsificar informações a partir das sombras.

Como diz o bordão, a luz do sol é o melhor desinfetante. Saber quem está por trás de uma mensagem ajuda a interpretar o conteúdo. Está de acordo com o princípio constitucional que proíbe o anonimato no Brasil. E não transforma empresas, comitês gestores ou algum outro tipo de órgão em tribunal sumário daquilo que as pessoas devem ou não devem ver nas redes sociais.

Algumas leis sobre fake news já foram aprovadas no mundo, e nenhuma passou pelo crivo defensoras da liberdade de expressão. Leis de países com governos linha dura, como Rússia, Singapura e Venezuela são vistas como tentativas mal disfarçadas de calar opositores. Mas a precursora de todas as iniciativas para restringir a circulação de fake news, a lei alemã que entrou em vigor no início de 2018, também é vista como falha, apesar de ter sido aprovada em um país democrático.

A lei alemã obriga plataformas como Facebook e Twitter a eliminar postagens que se encaixem numa lista com 22 tipos conteúdo ilegal, sob pena de multa de até 50 milhões de euros. A lista cobre desde ameaças concretas de violência até insultos dirigidos contra ocupantes de cargos públicos.

O estatuto é criticado por transformar as empresas de tecnologia em árbitros do que seria conteúdo adequado, muito embora a fronteira entre o legal e o ilegal nem sempre seja fácil de estabelecer. Além disso, ele não oferecer um mecanismo rápido de contestação para quem achar que seu direito de livre expressão foi atingido.

O papel das plataformas sociais também está no centro da disputa entre Trump e Twitter. Ofendido com o carimbo de “falso” aplicado pelos Twitter a seus posts, o presidente americano passou a dizer que empresas de tecnologia estão querendo censurar o discurso dos usuários. Em retaliação, derrubou uma norma existente desde os anos 1990, que diz que as plataformas não podem ser responsabilizadas pelo conteúdo publicado nelas.

Até agora, se um sujeito caluniasse outro em um tuíte, o serviço de mensagens não pode ser considerado cúmplice nos Estados Unidos. Com a revogação da regra por Trump, as gigantes de tecnologia podem acabar arrastadas para um sem número de batalhas judiciais custosas. Na contramão do que deseja Trump, podem também baixar regras de uso draconianas, justamente para se eximir de co-responsabilidade por mensagens que venham a ser tidas como criminosas. Haveria uma transformação profunda no sistema das redes sociais como é conhecido hoje.

Alguns legisladores brasileiros também acham que as redes sociais devem ser responsabilizadas pela disseminação de fake news. Empresas de TI e entidades como a Coalizão Direitos na Rede, que reúne 38 organizações da sociedade civil, acreditam que essa responsabilização já está embutida no projeto de lei do Senado, e vão tentar alterá-lo. É um debate acirrado e por causa dele é bem provável que a votação acabe sendo adiada.

Mas a proposta brasileira é boa. Bem melhor que a alemã. Mantido o seu espírito, deve ser aprovada o quanto antes, pois vai dificultar a existência presente ou futura de gabinetes do ódio.

**CARLOS GRAIEB tem trinta anos de experiência como jornalista e executivo de mídia. Foi secretário de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo (2017-2018)

OUTROS OLHARES

DEPOIS DAQUELE VÍRUS

Terminada a batalha contra a Covid-19, pacientes e médicos têm de lidar com as sequelas físicas, neurológicas e psicológicas que ainda persistem

No dia 16 de abril, o médico Márcio Ananias teve alta depois de passar dez dias internado com Covid-19 em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O que, para os leigos, seria o fim de um calvário, era o início de um longo e difícil período de recuperação. Ao chegar em casa, sem poder subir um pequeno lance de escadas, sua mulher questionou se já estava mesmo curado ou se seria melhor voltar ao hospital. Era apenas uma das intercorrências com as quais ele vem lidando de lá para cá.

Além das sequelas provocadas pela nova doença, como uma intensa fraqueza muscular e a fibrose pulmonar, uma espécie de cicatriz que afeta a respiração e requer fisioterapia, uma parte dos pacientes acometidos pelo novo coronavírus tem deparado com a síndrome pós-UTI, um conjunto de alterações físicas , neurológicas e psicológicas que atinge aqueles que passam muitos dias sob cuidados intensivos. O quadro já é conhecido pelos médicos intensivistas e vem recebendo tratamento cada vez mais específico, mas a Covid-19 colocou o mal em maior evidência. Com mais pessoas internadas em situação grave, também cresceu o número de pacientes que requerem o tratamento para a síndrome. Especialistas estimam que, no Brasil, cerca de 25% dos pacientes que passaram por internação em UTI sofrem da síndrome.

“Eu me canso muito mais facilmente do que antes, falta disposição para atividades simples e tudo que faço vem acompanhado de frequência cardíaca muito alta. Ainda estou na fase de reabilitação, perdi 10% de meu peso. Outra sequela é a psicológica. Fiquei muito inseguro de que realmente estava curado, pensava que podia ter uma recaída, ficava neurótico vendo se estava com febre, medindo oximetria”, contou Ananias, que é intensivista e já voltou a trabalhar no hospital, por enquanto, por meio período.

O médico não precisou ser entubado e sabe que todo o processo poderia ter sido pior. A maior parte das pessoas que vai para o respirador fica muito tempo, de 12 a 14 dias, e recebe sedativos e bloqueadores musculares. Esses procedimentos causam sequelas como atrofia muscular, maior risco de feridas na pele, problemas nas cordas vocais e na traqueia. “A gente tem pacientes que ficam muito tempo, mas o problema é o surto: eram dois, três pacientes. Deuma hora para outra, todos ficam assim”, disse.

Atualmente, os médicos intensivistas tratam o paciente já pensando em como será sua vida depois da internação, tentando diminuir sequelas comuns naqueles que passam muito tempo sob sedação. “Existem curativos moderníssimos para evitar lesões de pele, evitar escaras, a mudança do decúbito (jargão médico para se referir à forma de repouso do corpo), que deve mudar a cada duas ou três horas para evitar que o mesmo lado fique apoiado. Estamos selecionando remédios sedativos, para evitar aqueles que causam delírio, e nos preocupamos mais precocemente com a necessidade de alimentação”, disse o médico. Roselaine Pinheiro de Oliveira, chefe do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, explicou que hoje, mais do que evitar a morte, é preciso pensar no dia seguinte. “Estamos estudando qual preço as pessoas pagam por uma internação prolongada”

Além do tempo passado na UTI, os fatores de risco para que as sequelas se convertam em síndrome são a idade do paciente, se teve delírios, se já sofreu alteração da função cerebral e se tem doenças prévias, como problemas cardíacos. As alterações físicas mais comuns em quem desenvolve a síndrome (com ou sem Covid-19) são perda muscular, fraqueza, dificuldade para desempenhar tarefas simples, como comer sozinho, escovar os dentes, ir ao banheiro, caminhar.  Há ainda possíveis problemas pulmonares, cardíacos e renais. Em geral, cerca de 40% das pessoas internadas em tratamento intensivo precisam de hemodiálise, que consiste em uma máquina realizar o trabalho de filtragem do sangue. Já as alterações psiquiátricas são depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Há ainda casos de síndrome do pânico sendo notados em pessoas curadas da Covid-19. “O paciente se viu diante de uma doença com mortalidade alta, com enorme carga de informações sobre o risco. Tinha um paciente que não queria ver TV, não conseguia ouvir notícias. Há também o impacto de se saber doente e de estar sozinho, em isolamento. Todo mundo paramentado, vestido de azul ou branco, o paciente não vê um sorriso, um olhar fraterno, há o próprio medo da equipe, é um ambiente de medo e de solidão”, disse Antônio Eduardo Neto, intensivista do Hospital Badim, no Rio de Janeiro.

Os médicos também têm de lidar com as expectativas dos pacientes. Muitos acreditam que, pelo fato de terem alta, recuperarão imediatamente a saúde que tinham antes do vírus. Por isso, são aconselhados a entender que o processo de recuperação tem etapas e que podem vir a sofrer da síndrome pós-UTI. “O paciente sai da alta complexidade e vai para média complexidade. Ainda está doente. Mesmo depois da alta, está convalescente e tem de adotar uma série de medidas”, afirmou Neto. No caso específico da Covid-19, é difícil precisar o tempo de recuperação necessário. “É tudo novo, não conhecemos ninguém com seis meses pós-doença, não há estudos que mostrem o que pode acontecer e qual o tempo de recuperação, porque os pacientes respondem de forma diferente”, disse o intensivista. Em 23 de abril, Pedro Meirelles, de 31 anos, foi ao hospital com a mãe achando que estava com uma crise de asma. Foi direto para a UTI, com 50% dos pulmões comprometidos, e passou quase um mês hospitalizado. “Todo tempo perguntava por meus pais, estava muito preocupado com eles. Criei formas de conter a ansiedade devido aos anos de acompanhamento psicológico, mas, quando pensava em meu pai e minha mãe, muitas vezes chorava escondido”, contou.

Meirelles foi entubado. Mas a sedação e todo o processo de combate ao vírus deixaram sequelas neurológicas nas primeiras semanas de recuperação. “Tomei muitos remédios fortes. Quando fui para o quarto, não sabia o que era realidade e o que era fantasia. Na primeira vez que falei com meus pais pelo telefone, estava revoltado, dizia que não sabia o que tinham feito comigo, que não conseguiria voltar para casa. Mesmo depois que tive alta e cheguei em casa, ainda fiquei uma semana perguntando se tinha ouvido vozes. Achava que tinha visto meus pais pelo vidro. Foi difícil aceitar que tinha sido coisa de minha cabeça e que realmente estava atordoado”, relembrou.

Trata-se de um sintoma clássico da síndrome pós-UTI. Um mês depois da alta, ele ainda tem dificuldades para descer um pequeno lance de escadas. ” Nunca tinha estado em uma UTI. Foi uma barra. Perdi 15 quilos, senti muita fraqueza. A primeira vez que pisei no chão fiquei em êxtase. Agora só posso fazer dez minutos de bicicleta ergométrica e devagar. Sei que vai levar ainda um tempo para tudo voltar ao normal.”

No Reino Unido, onde o sistema de saúde é público e unificado e onde mais de 300 mil pessoas foram infectadas, as autoridades estimam que 45% dos pacientes que deixaram o tratamento intensivo precisarão de cuidados médicos, 4% terão de fazer reabilitação e 1% precisará receber cuidados permanentes por tempo indeterminado. Nos próximos 18 meses, pesquisadores do King’s College, de Londres, vão usar os dados disponíveis da pandemia para averiguar se é possível prever que tipo de paciente está mais propenso a desenvolver intercorrências pós­ Covid. Ainda não é possível aferir se essas sequelas têm características únicas, que as diferenciem de outras doenças pós-internação intensiva. Mas pesquisadores britânicos querem estabelecer o nome de “síndrome pós­ Covid” para facilitar seu reconhecimento e impedir que as complicações se agravem.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE JULHO

FERVOR ESPIRITUAL

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! (Apocalipse 3.15).

De todas as igrejas da Ásia Menor, Laodiceia, a mais rica, foi a única que recebeu de Cristo apenas censuras, nenhum elogio. Aquela igreja não tinha problemas de heresia. Nenhuma falsa doutrina nela se infiltrara. O problema não era heresia, mas apatia. Aquela igreja não enfrentava nenhum tipo de perseguição. Havia ortodoxia interna e também paz nas fronteiras. Aquela igreja não lidava com nenhum pecado moral. Não havia escândalos entre seus membros. Aquela igreja não lidava com pobreza. Ao contrário, era rica e abastada. Jesus, porém, diagnosticou falta de fervor e falta de discernimento. Aquela igreja não era quente como as águas termais de Hierápolis nem fria como as águas terapêuticas de Colossos. Pelo contrário, era uma igreja morna, tépida, como as águas que chegavam à cidade pelos aquedutos. O que faltava à igreja de Laodiceia era fervor espiritual. Por isso, em vez de ser o deleite de Cristo, aquela igreja provocava náuseas no Filho de Deus. Jesus também nos sonda. Investiga nossa alma e conhece o que está em nosso coração. Ele não se satisfaz apenas com ortodoxia e moralidade. Não basta ter apenas prosperidade material. Jesus busca em nossa vida fervor. Uma vida morna provoca náuseas em Jesus. Apesar de nossa falta de fervor, Jesus não desiste de nós. Ele nos exorta e nos disciplina, porque nos ama. Ele bate à nossa porta porque quer ter comunhão conosco.

GESTÃO E CARREIRA

ACABOU A BATERIA

Após fiasco de vendas e problemas de segurança, a Segway aposenta seu patinete, um símbolo de modernidade. Na nova era tecnológica, fracassos são cada vez mais comuns

O engenheiro americano Dean Kamen tem 440 patentes registradas em seu nome, mas nenhuma delas provocou tanto alarido quanto o patinete elétrico Segway. Com duas rodas paralelas, o dispositivo “seria para o carro o que o carro foi para os cavalos e carruagens”, segundo disse o inventor ao lançar o produto, em 2001. De fato, muita gente acreditou que o novo veículo mudaria o transporte urbano para sempre. Era, afinal, ágil para a locomoção nas grandes cidades e poderia ser usado em diversas situações, como por agentes de segurança em shoppings, funcionários de redes de supermercados ou em atividades de lazer. Mas deu errado. O patinete esquisitão não apenas deixou de cumprir a proposta de melhorar a mobilidade urbana como apresentou falhas de funcionamento que comprometeram a sua adoção em larga escala. O resultado não poderia ter sido pior.

Com a crescente desconfiança dos consumidores, as vendas empacaram e as perdas financeiras se sucederam. Há alguns dias veio o tombo definitivo: a Segway Corporation anunciou que deixará de fabricar o patinete.

Os fracassos são parte indissociável do mundo corporativo. É raro, para não dizer impossível, encontrar uma grande corporação que não tenha tropeçado ao longo do caminho. “O que distingue as firmas verdadeiramente excelentes, em contraste até mesmo com aquelas meramente bem­ sucedidas, não é a ausência de dificuldades, mas a capacidade de sair das quedas”, escreveu o guru da administração Jim Collins no best-seller Como as Gigantes Caem. Símbolo máximo da era digital, o Google não se deixou abater por erros retumbantes. O maior deles talvez tenha sido o Google Glass, os desajeitados óculos de realidade aumentada que permitiriam aos usuários tirar fotos, enviar mensagens e realizar videoconferências. Lançado em 2013, o gadget não emplacou por uma razão que, analisada a distância, parece óbvia: o aparelho não oferecia quase nada que um smartphone já não fizesse. Mesmo assim, o Google insistiu no projeto. Estima-se que as vendas dos tais óculos tenham rendido 10 milhões de dólares, uma ninharia perto das centenas de milhões de dólares que a empresa desembolsou no seu desenvolvimento. A produção do Google Glass foi suspensa em 2015, mas retomada em 2017. Uma nova edição foi lançada no ano passado, ainda sem gerar entusiasmo entre o público.

Diversos motivos explicam um revés dessa natureza. Muitas vezes, as empresas falham por não identificar os anseios de quem realmente importa – o cliente. “Não se pode priorizar a tecnologia em si e esquecer o comportamento e as vontades do consumidor”, diz Helton Haddad Silva, professor de marketing da Fundação Getúlio Vargas. O Blu-Ray é um caso clássico da falta de sensibilidade dos fabricantes. Ele foi desenvolvido em conjunto por empresas como LG, Panasonic, Philips, Pioneer, Samsung e Sony, que imaginaram que seria suficiente criar um aparelho capaz de reproduzir vídeos com qualidade de imagem superior à dos tradicionais DVDs. O problema é que o Blu-Ray custava caro demais, em geral o dobro de seu concorrente mais modesto, e os consumidores se incomodaram com isso. Para piorar, logo surgiriam os serviços de streaming, que o enterraram de vez. “A velocidade do desenvolvimento tecnológico tornou os fracassos mais comuns”, diz Fabio Kon, cientista da computação e professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo.

Ou seja: uma inovação que hoje é considerada extraordinária será substituída amanhã por outra ainda melhor.

O patinete da Segway reuniu todos os requisitos para um produto naufragar. Vendido por 5.000 dólares (cerca de 26.500 reais), custava o equivalente a um carro usado e mais do que uma bicicleta convencional. Esbarrou também na falta de regulamentação: sua estrutura era robusta para as calçadas apertadas dos grandes centros urbanos, ocupando um espaço que deveria ser dos pedestres. O grande entrave, porém, foi a questão da segurança. Em 2003, o então presidente americano George W. Bush caiu enquanto testava o veículo e o corredor jamaicano Usain Bolt foi atropelado por um cinegrafista após vencer uma prova no Mundial de Pequim, em 2015. O caso mais grave ocorreu em 2010. Um ano depois de o empresário James Heselden comprar a Segway Corporation, ele despencou de um penhasco ao perder o controle de seu patinete e morreu. Tragédias como essa mostram que o veículo demorou tempo demais para ser retirado definitivamente do mercado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO A ORDEM DO NASCIMENTO NOS MOLDA?

Mais velho, do meio ou caçula? Isso pode determinar por que você e seus irmãos são tão diferentes.

A ordem do nascimento e sua influência sobre como levamos a vida é tema de fascínio há mais de um século para pesquisadores, psicólogos, terapeutas e todos os interessados na dinâmica familiar. “As pessoas usam a ordem do nascimento como um modo poderoso de entender a vida”, diz Frank Sulloway, professor-adjunto do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley. Sulloway é um dos principais pesquisadores do assunto. Ele diz que os irmãos têm em comum apenas cerca de metade dos genes, o que nos deixa uma combinação de genes não idênticos e influências ambientais para explicar as diferenças de personalidade. “E a ordem do nascimento ainda está entre as maiores diferenças que fomos capazes de documentar”; destaca ele. Na verdade, a diferença na ordem do nascimento tem papel quase tão importante quanto a diferença de gênero.

Supomos que os irmãos nascem exatamente na mesma família, mas não é bem assim. Os primogênitos chegam a um ambiente de adultos e, tipicamente, recebem muita atenção de pais inexperientes, fascinados com cada marco e apavorados com cada contratempo. Os filhos do meio nunca terão os pais só para si e são ofuscados pelos irmãos mais velhos, que correm, escalam e falam antes deles; depois, espera-se que deem o exemplo para os mais novos. O caçula da família chega a uma casa movimentada, com pais menos tensos, e logo aprende a trocar encanto por atenção. Em consequência, os primogênitos são condicionados a realizar bem as coisas, os do meio, a negociar e os caçulas, a agradar.

Embora explique que a ordem do nascimento não causa diretamente certos traços, Marion Balla, terapeuta e educadora de Ottawa, no Canadá, acredita que “esse é um dos fatores mais determinantes do desenvolvimento da personalidade”. Ela é presidente do Grupo Adleriano de Orientação e Assessoramento, que recebe o nome de Alfred Adler, psicoterapeuta austríaco que, no início dos anos 1900, foi o primeiro a ligar a ordem do nascimento à personalidade. Balla diz: “Durante quarenta anos, venho usando a ordem do nascimento para ajudar as pessoas a entenderem o modo como se veem e como isso pode influenciar seus relacionamentos”.

Então, o que isso de fato significa?

MAIS VELHOS: GRANDES REALIZADORES

Pesquisas do mundo inteiro indicam que os primogênitos costumam ter mais em comum entre si do que com os próprios irmãos. Os filhos mais velhos logo aprendem a agradar os pais e se tornam conscienciosos, organizados, confiáveis e minipais dos irmãos mais novos. São grandes realizadores e escolhem profissões sólidas e estabelecidas, como direito, medicina, educação ou contabilidade, chegando a cargos de liderança.

Isso não surpreende o psicólogo Kevin Leman, de Tucson, do estado americano do Arizona, autor de uma série de livros como Mais velho, do meio ou caçula: A ordem do nascimento revela quem você é. “Os primogênitos sempre mandarão”, revela ele. Vários estudos mostraram que sua probabilidade de se tornarem presidentes executivos de empresas é duas ou três vezes maior do que a dos caçulas. E um estudo norueguês clássico de 2007 constatou que os primogênitos têm um Q.I. cerca de três pontos mais alto do que o irmão seguinte. Pode ser que os pais ofereçam mais estímulos mentais ao primeiro filho.

“O tempo disponível para ler para o primeiro filho, para lhe explicar coisas, é maior”, afirma Meri Wallace, terapeuta de crianças e famílias de Nova York e autora do livro Birth Order Blues (A melancolia da ordem de nascimento). Por exemplo, diz ela, o pai pode perguntar ao filho numa caminhada: “Por que você acha que o céu é azul?” Assim, os filhos mais velhos desenvolvem mais habilidade analítica e pensamento conceituai. Talvez por isso 21 dos primeiros 23 astronautas da NASA foram primogênitos. Albert Einstein e Winston Churchill eram primogênitos também.

No entanto, eles sentem mais pressão para fazer tudo bem-feito e podem se tornar perfeccionistas. E, por acreditar que só há um jeito certo de fazer as coisas, os primogênitos criticam os outros jeitos. Leman diz que quem nasce depois – os filhos do meio e os mais novos – tende a observar isso nas reuniões familiares. “Você pode ter criado quatro filhos, mas agora sua irmã mais velha vem lhe dizer como cozinhar”.

FILHOS DO MEIO: NÃO CONVENCIONAIS

Enquanto os primogênitos querem fazer tudo certo, os do meio preferem fazer diferente. O segundo filho observa com atenção a posição que o mais velho ocupa e depois cria um nicho distinto. Se o primeiro brilha em matemática, tênis e violino, o segundo pode buscar desenho, violão e skate. No mundo dos prêmios Nobel, os primogênitos são super-representados na ciência; os filhos do meio, na literatura. Em termos históricos, os filhos do meio é que foram responsáveis por mudanças sociais, que lutaram por igualdade, liberdade de expressão, liberdade de culto e abolição da escravatura, diz Sulloway. Madre Teresa, Darwin, Nelson Mandela e Gandhi foram todos filhos do meio.

A chegada de um terceiro filho cria o filho do meio, e é difícil classificá-lo; para ele, tudo bem, pois evita ativamente as classificações. Em geral, os filhos do meio se tornam pacificadores dos irmãos e são ótimos árbitros e negociadores. Um estudo mostrou que os filhos do meio têm melhor desempenho em situações grupais do que os filhos mais velhos ou os caçulas. “Eles tendem a se relacionar bem com os outros e acalmar situações”, explica Wallace. “Conseguem ver as coisas de vários ângulos.”

Os filhos do meio, seja o segundo de três, o segundo e o terceiro de quatro ou os cinco intermediários de sete, costumam aparecer em menos fotos nos álbuns da família. Por terem menos tempo de exclusividade com os pais, os filhos do meio formam apegos com os colegas e, em geral, desenvolvem extensas redes de amizade. Em- hora possam amar profundamente a família, têm mais chance de se mudar para longe, menos probabilidade de se preocupar com genealogia e são mais preparados para as vicissitudes da vida.

Os filhos do meio são os mais monógamos e têm os relacionamentos mais felizes, de acordo com uma pesquisa israelense sobre felicidade. Katrin Schumann, coautora de The Secret Power of Middle Children (O poder secreto dos filhos do meio), diz que eles têm a mente mais aberta e são mais aventurosos no sexo, e sua probabilidade de trair nos relacionamentos é menor do que a dos irmãos. Também têm menos probabilidade de fazer terapia e, de acordo com um estudo espanhol de 2013, menos probabilidade de receber diagnóstico de transtornos emocionais. Isso pode se dever ao companheirismo constante dos irmãos.

CAÇULAS: CAÇADORES DE ATENÇÃO

O menorzinho da família tende a receber menos castigos, menos responsabilidades e mais público. Embora raramente sua opinião seja consultada ou respeitada, os caçulas logo aprendem que ser engraçado e adorável é muito útil para conquistar atenção e aprovação. Não admira que muitos comediantes sejam caçulas: Jim Carrey, Tina Fey, Robin Williams, Steve Carell e Billy Crystal, para citar alguns.

Também são mais empreendedores; um estudo de 2016 feito no Reino Unido constatou que os caçulas de famílias não empreendedoras têm probabilidade muito maior de abrir empresas próprias do que os outros irmãos. Essa característica afeita aos riscos tem seus pontos negativos: o caçula é o mais vulnerável a hábitos viciantes, de acordo com a Dra. Sue Varma, psiquiatra de Nova York. É mais provável que comecem a fazer sexo e a fumar cigarros mais jovens do que os irmãos. Um estudo feito com adultos suecos mostrou que os que nascem por último têm mais probabilidade de morrer de câncer do aparelho respiratório do que os irmãos mais velhos. Os pesquisadores desconfiam que é porque começam a fumar mais cedo, o que pode promover um hábito de longo prazo.

Mas há boas notícias no campo da saúde: num estudo japonês apresentado em 2011, com mais de 13 mil crianças entre 7 e 15 anos, os irmãos mais novos tinham menos chance de apresentar febre e alergia alimentar do que os mais velhos. Uma explicação possível: os filhos mais velhos são superprotegidos de micróbios em comparação com os demais, expostos aos germes que os irmãos maiores trazem da escola. Além disso, quando os mais novos nascem, os pais talvez tenham relaxado a limpeza impecável da casa, o que pode estimular o sistema imunológico dos menores.

O EFEITO DA DIFERENÇA DE IDADE

Não se identificar com a descrição de sua ordem de nascimento não é raro, como explica Jennifer Campbell, psicóloga e pesquisadora do assunto na Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos: “Só 60% das pessoas se identificam com sua ordem cronológica de nascimento”. Há muitas variáveis que podem alterar o efeito da ordem, inclusive o gênero. Quando um menino nasce depois de uma ou mais meninas (ou uma menina depois de um ou mais meninos), essa criança pode ser criada como “primogênito funcional” – o primeiro filho ou filha da família. Se o espaço entre os irmãos for de cinco anos ou mais, o efeito da ordem de nascimento se reduz. Divórcio, incapacidade física ou morte de qualquer membro da família também altera o efeito.

As famílias menores de hoje provocam um excesso de primogênitos e filhos únicos e déficit de filhos do meio. “Com famílias menores, corremos o risco de ter mais crianças decididas e perfeccionistas’; adverte Leman.

E as crianças sem irmãos? O filho único recebe toda a atenção dos pais pelo resto da vida, o que tem prós e contras. “Você é o primeiro e o caçula, por isso tem uma mistura de experiências”, diz Wallace. Embora possa ser um grande realizador, também é infantilizado. Ao mesmo tempo, “os filhos únicos são como miniadultos, porque vivem num mundo de adultos”, explica Campbell. Mas não é preciso ter pena dos filhos únicos: um estudo do Reino Unido constatou que são mais felizes porque não têm de enfrentar a rivalidade entre irmãos. Ao contrário do pensamento popular, a análise mostra que os filhos únicos não são solitários. Os recursos que os pais podem lhes dedicar costumam levá-los ao sucesso.

Uma última nota: Leman alerta que, seja qual for a ordem de seu nascimento, provavelmente você acha que seus irmãos tiveram um quinhão melhor. Se for o caçula, acha que o irmão mais velho recebeu primeiro o que havia de melhor da família; se for primogênito, inveja o filho do meio que tem a liberdade de escolher um caminho independente; e todos reclamam que o caçula sempre se dá bem em tudo. Basta lembrar que a ordem do nascimento é só uma influência, não um destino.

MAIS VELHOS: PERSONALIDADE PROVAVEL

  • Sua filosofia é: “Vou fazer isso direito, e você também deveria.” Você é consciencioso, confiável, sério, voltado para metas, organizado e analítico. Evita a imprevisibilidade.
  • As pessoas o veem como líder, solucionador de problemas e defensor da tradição, mas podem se incomodar com sua visão crítica, falta de perdão e mania de mandar.
  • As carreiras prováveis são engenharia, direito, medicina, educação, enfermagem, contabilidade ou administração.
  • Nos relacionamentos românticos, você espera tanto dos outros quanto de si, o que pode provocar decepções. O casamento entre dois primogênitos pode provocar atrito, diz Leman, porque ambos se esforçam para ser o líder. A melhor combinação é com um caçula ou filho do meio.

FILHOS DO MEIO:  PERSONALIDADE PROVÁVEL

  • Sua filosofia é: “Vamos olhar isso de um jeito diferente. “Você é sociável, flexível, tem a mente aberta, o espírito livre, é inventivo, agradável e, às vezes, rebelde. As pessoas o veem como construtor de consensos, pacificador, defensor dos fracos e oprimidos e rebelde contra injustiças.]
  • Você evita confrontos e classificações, e as pessoas podem se incomodar com seu sigilo, indecisão e indisposição de revelar seus sentimentos.
  • Entre as carreiras prováveis estão mediação, diplomacia, serviço social, ensino e atividades autônomas.
  • Nos relacionamentos românticos, você é fiel. Às vezes, você cede ao parceiro em nome da cooperação e ignora seus próprios sentimentos. Num casamento entre dois filhos do meio, ambos podem evitar abordar problemas e se comunicar mal, diz Balla. A melhor combinação é com um primogênito ou caçula.

CAÇULAS: PERSONALIDADE PROVÁVEL

  • Sua filosofia é:” Parece divertido. Vamos lá!” Você é encantador, impetuoso, divertido, afetuoso, convincente, sentimental, inseguro e aventuroso. Tem fome de atenção e respeito e evita responsabilidades.
  • As pessoas podem vê-lo como a alma da festa, amante de riscos e inovador, mas podem se incomodar com suas outras características: você pode ser desatento, autocentrado ou manipulador.
  • Entre as carreiras prováveis estão teatro, comédia, música, artes plásticas, esportes, vendas e marketing.
  • Nos relacionamentos românticos, você é adorável, mas tende a querer muita atenção. É impaciente com coisas como pagar contas ou marcar consultas e talvez deixe essas responsabilidades para o cônjuge. O casamento entre dois caçulas pode se concentrar na diversão à custa da responsabilidade. A melhor combinação é com um primogênito ou filho único. Leman diz que os caçulas precisam dos primogênitos para endireitá-los, e os primogênitos precisam dos caçulas para ficarem mais leves.

EU ACHO …

GOLPES DA INTERNET

Na quarentena, criminosos on-line inventam ainda mais artimanhas

Abro meu e-mail. Vejo uma mensagem espantosa. Segundo afirmam, decifraram minha senha. Arrepio. É quase exata. Ameaçam destruir minha vida, me fazer passar vergonha publicamente. Como? Garantem ter capturado imagens pornográficas de que sou protagonista. Chantagem. Pagamento em bitcoins. Só que nunca fiz um nude sequer na minha vida (sei que sou antiquado, porque muita gente já usa nude de cartão de visita). Estavam jogando verde. Provavelmente mandam ameaças semelhantes a outras pessoas, e muitas caem. Mas tive de passar uma tarde mudando todas as minhas senhas.

É somente um dos golpes que rolam pelo mundo wi-fi. Nestes tempos de quarentena eles aumentaram em quantidade. Todo mundo está on-line, é o paraíso para os hackers. Também, é obvio clonaram meu cartão. Na última fatura havia dois pedidos de comida pelo Uber Eats. Nunca usei esse serviço, embora falem muito bem dele. Tinha viagens também de Uber, sendo que não saio de casa. Compras que não fiz. Denunciei. Meu cartão foi bloqueado. E me deram um novo. Só que, com o correio, demorou um pouco para chegar. Imaginem ficar na quarentena sem cartão! Dias depois, minha prima também foi clonada. E outros amigos também, e outros, e outros…

Outro golpe é pelo celular. Já rolava antes, mas continua. Ligam convidando para um evento (sempre de pessoa conhecida), adiado pela quarentena, mas remarcado para dali a um mês. A tendência é o convidado dizer que aceita, Em seguida, dão um código para digitar como registro da confirmação, pois se trata de um evento exclusivo. Se alguém digita o código, imediatamente eles se apossam de seu WhatsApp. Entram na lista de amigos e pedem dinheiro em nome do clonado (empréstimos, causas beneficentes…). Muita gente já caiu. É um drama! Há outras formas de clonar, isso não tem fim! E, depois, muitas vezes mandam mensagem a alguém da lista de amigos dizendo que estão com um problema, precisam de um depósito urgente. Prometem pagar amanhã! O amigo socorre na confiança. E lá se foi a grana.

Fui vítima de um golpe cuja finalidade não entendo. Tentei comprar on­line na Nike. Ao me cadastrar, veio o aviso de que eu já era cliente. Estranhei. Nunca comprei na Nike virtual. Quis mudar a senha, informaram que enviariam um código de segurança ao meu e-mail. Mas quem deu o truque alastrou outro. O código não chega. O mesmo aconteceu em outros sites. É fácil usar o CPF de alguém. Mas para quê, já que não paguei a compra? Se tento ligar e pedir novo cadastro, não há com quem falar. Estou cadastrado falsamente em praticamente todos os sites de vendas. Só sobraram as livrarias, ainda bem! Mas agora, nesse mundo on-line, ficar sem compra digital é como ficar sem combustível.

Tentaram também obter um cartão digital com meu CPF. Consegui impedir, graças à Serasa, que me consultou. Qual a próxima? A imaginação dos malandros não tem fim, é melhor que a de um escritor de novela como eu. É questão de tempo para inventarem um golpe em que eu ou você, algum de nós, certamente vai cair.

**WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

TRAIÇÃO DRIVE-THRU

Encontros em postos de gasolina e estacionamento de supermercados: como a quarentena mexeu com os casos extraconjugais e a economia do prazer

Em um dia não muito distante, o marido avisa à mulher que precisa furar a quarentena. Ele tem de resolver pendências financeiras no banco e a negociação com o gerente poderá demorar porque a encrenca é grande. Diz que pode aproveitar a saída para comprar o que está faltando na despensa de casa. Tudo certo. Ele segue então direto para o estacionamento de um supermercado a mais de 10 quilômetros de distância. Lá o espera a ex­ namorada, que entra rapidamente no carro e os dois trocam beijos e carícias. A cena, que durou noventa minutos dentro do estacionamento, ocorreu em São Paulo há menos de um mês e foi flagrada pela detetive Daniele Martins, dona de um dos maiores escritórios na capital, a pedido da esposa traída. Sim, a quarentena mexeu não só com a educação, a economia e a saúde dos brasileiros, mas também com a forma de trair.

Homens e mulheres infiéis precisaram se adaptar ao tão badalado “novo normal”. As desculpas para acobertar as escapadas, como longas reuniões e viagens a trabalho, tornaram-se impraticáveis. Os encontros conjugais que podiam durar horas em motéis passaram a ocorrer em postos de gasolina, ruas vazias, no calçadão das praias nas cidades litorâneas e entre carros do lado de fora do supermercado, como se deu no exemplo relatado pela detetive. Dito de outro modo: o restaurante romântico foi substituído pelo drive-thru.

Como tudo na vida, a mudança de comportamento pode ser medida em cifras econômicas. Os motéis, apesar de terem se mantido abertos durante todo o período do isolamento social, sofreram uma queda de 70% no movimento desde março. As vendas totais de preservativos caíram 20%, índice inédito nesse mercado. Mas há otimismo. Diz Erh Ray, CEO da agência BETC/Havas, responsável pela publicidade das principais marcas de camisinha do país: “Existe a crise, mas com a reabertura haverá muita vontade de retomar o cotidiano”. E como nem tudo é dificuldade, há um ramo de negócios que cresceu enormemente em razão das traições. Muitos casais limitaram os encontros às telas dos smartphones, e nesse cenário os aplicativos para encontrar um parceiro extraconjugal apresentaram uma movimentação fora do comum desde o estabelecimento da clausura. No website Ashley Madison, um dos mais conhecidos, por exemplo, houve recorde de 17.000 novos usuários noviços a cada 24 horas desde o começo do isolamento social nos Estados Unidos.

Traição não é novidade, evidentemente, e não cabe julgamento moral para além dos envolvidos nela. No entanto, pode-se afirmar que, em parte, ela seja alimentada, no aqui e agora, pelo excesso de convivência do lar transformado em escritório, com as crianças dentro de casa. Há quem conviva muito bem com esse ambiente, mas é comum que os conflitos domésticos desabrochem – e os advogados de família já sentem a movimentação. Um levantamento feito com os principais escritórios especializados em direito de família de São Paulo mostrou que o número de novos processos de separação cresceu 20% desde o começo da quarentena, comparado ao mesmo período do ano passado. O fenômeno é mundial. Pesquisa realizada em abril pelo site americano para planejamento de cerimônias de casamentos TheKnot com 1.000 homens e mulheres comprometidos revelou que 82% deles estão insatisfeitos na quarentena. E a maior fonte de conflito é a baixa frequência sexual do casal (ou a falta dela). Contudo, ainda que a pandemia seja aceleradora de crises em diversas relações, os especialistas afirmam que atribuir a traição exclusivamente a este período é simplório. “A quarentena tem sido um fator para acelerar o que já era pensado e desejado. É improvável que alguém se torne um traidor durante este isolamento sem ter cogitado essa possibilidade antes”, avalia o psicólogo Rossandro Klinjey. Não há, convenhamos, nada de novo aí – é o antiquíssimo normal.

A NOVA INFIDELIDADE

O impacto das mudanças nas relações extraconjugais e sexuais entre março e junho de 2020 em comparação ao mesmo período do ano passado

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE JULHO

CUIDADO COM A MÁGOA

… nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados (Hebreus 12.15b).

A mágoa é uma espécie de autofagia. Guardar mágoa no coração é a mesma coisa de beber um copo de veneno pensando que é o outro quem vai morrer. A mágoa é uma prisão. Quem não perdoa não é livre nem tem paz. A Bíblia fala de Absalão, filho de Davi. Embora seu nome signifique “pai da paz”, e não obstante ter sido ele o campeão de beleza em todo o Israel, seu coração estava dominado pela mágoa. É que Amnom havia abusado de sua irmã Tamar para depois rejeitá-la como um trapo imundo. Por dois anos, Absalão maquinou em seu coração matar Amnom. A mágoa foi crescendo como um parasita até dominar completamente seu coração. Em vez de confrontar Amnom, repreendê-lo e depois perdoar-lhe, Absalão engendrou astuciosamente um plano para matá-lo. A mágoa no coração de Absalão às vezes transbordava, a ponto de algumas pessoas mais atentas lerem isso em seu semblante. Num dia de festa em sua casa, Absalão ordenou que seus capatazes matassem Amnom. O sentimento transformou-se em ação. O ódio desembocou em assassinato. Um abismo chamou outro abismo. Em vez de solucionar o problema, Absalão criou outros tantos: precisou fugir de Israel, perdeu a comunhão com o pai, e um silêncio gelado se estabeleceu entre eles. Após vários anos de estremecimento, Absalão resolveu conspirar contra seu pai, a fim de matá-lo e tomar-lhe o trono. Nessa inglória empreitada, Absalão morreu e Davi chorou copiosamente. A mágoa é um veneno letal, uma erva mortífera. Mantenha-se longe dela!

GESTÃO E CARREIRA

FILA DE BANCO PARA QUÊ?

A crise bancarizou milhões de brasileiros — só no Nubank 530.000 receberam auxílio. Simplicidade e autonomia vieram para ficar

Crises podem ser grandes aceleradoras de mudanças de comportamento. As restrições da covid-19, somadas às facilidades das tecnologias digitais de hoje, têm potencial para mudar significativamente a maneira como vivemos. Nossa vida financeira, em especial, também experimentará um ”novo normal”. Pagar, receber, transferir, emprestar, investir – nada será como antes.

Desde que a pandemia começou, o brasileiro está fazendo mais compras online, usando mais cartões – contactless e aprendendo a fazer diversas transações pela internet. Uma pesquisa realizada pela consultoria Kantar em junho deste ano mostra que 75% dos brasileiros fizeram mais pagamentos digitais durante a quarentena. Usando seus aplicativos no celular, 72% dos pesquisados realizaram transferências, 68% pagaram contas e 75% consultaram extratos ou saldos.

Outro estudo, elaborado pela Mastercard em abril, revelou que 69% dos brasileiros se sentiram encorajados a utilizar pagamentos por aproximação após a pandemia. No Brasil, 63% reduziram significativamente a utilização de dinheiro vivo desde que a crise teve início. No Nubank as compras com o cartão virtual cresceram desde o começo do isolamento social no país e já representam 30% de todas as transações de nossos cartões de crédito. Também realizado em abril, um levantamento da consultoria Bain mostra que quase metade dos brasileiros ficou mais disposta a usar cartões e celular para fazer pagamentos depois da pandemia. Entre o grupo de baixa renda, esse percentual é de 55%.

Com a crise, muitos dos que não tinham conta bancária acabaram abrindo contas digitais por aplicativo do celular devido a uma questão de força maior: receber o auxílio emergencial do governo. As pessoas que não conseguiram transferir os recursos para bancos digitais ou outras instituições, em alguns momentos, ficaram impossibilitadas de movimentar o dinheiro pelo aplicativo do governo. Resultado: tiveram de se aglomerar em filas na porta dos bancos para poder sacar o recurso.

Quase metade dos brasileiros que obtiveram o auxílio – cerca de 23 milhões – não possuía uma conta bancária até aquele momento, conforme dados da Caixa Econômica Federal. Em outras palavras: muita gente no país se bancarizou com a crise. Só no Nubank mais de meio milhão de pessoas recebeu os 600 reais até o mês de junho. Até 2019 aproximadamente 45 milhões de pessoas eram desbancarizadas no Brasil. Trata-se de cidadãos que construíam sua renda, compravam, vendiam e emprestavam o equivalente a 817 bilhões de reais por ano – sem que nem um centavo passasse até então por uma conta bancária, segundo números do Instituto Locomotiva. Agora eles estão acessando serviços financeiros pela primeira vez, e já com meios digitais. Nesse contexto, muitos se perguntam: fazem sentido o constrangimento para passar pela porta giratória, as filas quilométricas para ser atendido, o cafezinho com o gerente do banco?

No Brasil, um quarto das pessoas já acredita que as agências bancárias serão extintas até o fim da década, como indica uma sondagem recente da Kantar feita a pedido da Mastercard. Sempre se pensou na figura do cliente de mais idade indo até a agência para bater um papo e sair de casa, mas em época de pandemia esse é outro hábito que está fadado ao esquecimento. Além de esse cliente despender um tempo que poderia ser empregado em algo mais útil, ele corre um risco desnecessário em termos de saúde. Quase 70.000 pessoas com mais de 60 anos passaram a ser clientes do Nubank entre março e maio, durante a pandemia. E inclusive milhares dessas contas foram abertas por clientes com mais de 90 anos. Esse é um caminho sem volta.

Essas transformações estão desafiando estruturas culturais em diversas partes do mundo. Na Alemanha, por exemplo, onde – por razões ligadas ao trauma do pós-guerra – há um apego ao dinheiro vivo, estudos preliminares já apontam para um aumento de quase 60% no uso de cartões em relação ao período pré-pandemia. Não é à toa que os bancos digitais estão assumindo a liderança da inclusão financeira – eles oferecem um produto fácil de usar, na palma da mão, com atendimento digno e sem tarifas escondidas.

A burocracia, os altos custos e a dificuldade de acesso físico a uma agência mantiveram milhões de brasileiros à margem do sistema bancário. Até o fim de 2019, cerca de 17 milhões de brasileiros viviam em cidades sem agências bancárias. Dados da Ipsos do ano passado, levantados a pedido do Nubank, mostram que três em cada cinco brasileiros precisavam dirigir-se a uma agência para pagar contas. E metade dos entrevistados ainda tinha necessidade de ir ao banco para resolver problemas. Isso acontece porque muitas vezes as ferramentas online disponibilizadas pelos bancos não funcionam.

Na prática, para muitos brasileiros, isso significa ter de andar quilômetros para resolver questões que poderiam ser solucionadas facilmente por telefone ou celular. Afinal, 70% dos brasileiros estão conectados à internet e há mais de 220 milhões de dispositivos móveis no país. Com tecnologia de ponta e estrutura flexível, os bancos digitais têm capilaridade para chegar a todos os municípios do Brasil e oferecer às pessoas aquilo de que precisam e o que merecem: simplicidade e autonomia para administrar seu dinheiro da forma que bem entenderem.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OLHOS QUE FALAM

As bocas agora estão cobertas por máscaras. Na pandemia do coronavírus, aprender a usar outros recursos de comunicação torna-se essencial

Em tempos de coronavírus, o uso da máscara facial, que cobre boca e nariz, evidenciou nossos olhos, seja por força de lei, seja por recomendação, seja por bom senso mesmo. Com essa restrição, fica mais difícil enxergar expressões faciais importantes para criar afinidade, como o sorriso. São incômodos necessários em prol de um bem comum, a saúde, mas que exigem jogo de cintura no dia a dia, pois olhar também é se colocar no lugar do outro.

No contexto da pandemia da covid-19, palavras como ”segurança”, ”resiliência” e ”empatia” passaram a figurar no dicionário social. ”Temos de treinar o olhar, a escuta atenta e a paciência”, diz Rachel Jordan, presidente da Associação Internacional de Consultores de Imagem (Aici) Chapter Brasil. Em casa, no trabalho, no supermercado, em qualquer ambiente onde haja interação, enfim, saber se expressar com clareza e cordialidade é essencial. O risco agora é perder o rumo e naufragar em meio ao desespero e às tensões que transbordam em períodos tempestuosos. ”Uma pitada de otimismo é sempre bem­ vinda”, defende o especialista em comportamento humano Georg Frey.

A regra de ouro vale inclusive para as reuniões por videoconferência, que se tornaram comuns no ambiente corporativo e educacional. ”O ato de falar e depois calar-se para ouvir e responder voltou a ser um hábito”, acrescenta Frey. E atenção: a mentira tem as pernas curtas, mesmo à distância. Segundo Frey, autor do livro Eu Sei Que Você Mente! Aprenda a Detectar Mentiras, há indícios de meias-verdades ou mentiras completas em muitos gestos e sinais, até mesmo pela tela numa videoconferência.

O desafio da comunicação hoje é ainda maior para quem tem alguma limitação. Surda desde os 2 anos por complicações de uma meningite, a designer gráfica Teresa Caeiro participa de reuniões de trabalho online pelo menos duas vezes por semana com seus colegas da consultoria EY do Brasil. ”É cansativo se todos falam ao mesmo tempo”, reconhece a profissional, que faz leitura labial. Nestes dias mascarados, quando precisa sair ou receber alguma entrega em casa, Caeiro usa máscara com abertura transparente na região da boca. Ela bem sabe da importância das expressões para compreender o que é dito.

As barreiras à acessibilidade na comunicação, no entanto, vão muito além de um tecido cobrindo a boca. Caeiro participa da campanha #QueremosLegenda, idealizada pela escritora e palestrante Paula Pfeifer. A ação pede que programas de TV, vídeos e lives tragam legendas para dar acessibilidade e inclusão aos surdos, já que nem todos dominam a língua brasileira de sinais, ou Libras. ”Há muita diversidade dentro da própria surdez”, disse Caeiro, por videochamada.

Se a virtualidade possibilita a interação, estar junto no mesmo espaço potencializa o florescimento humano e legitima diferenças, segundo o doutor em educação e pedagogo no Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) Tiago Ribeiro. ”A relação no ambiente físico da escola demanda o corpo como fonte de linguagem, e as crianças precisam disso para se tornarem sujeitos no mundo. Embora tenha suas vantagens, a virtualidade afeta a dimensão da presença corporal”, avalia Ribeiro.

Com base nas conversas com os especialistas citados nesta reportagem, elaboramos algumas orientações práticas para ajudar na comunicação neste mundo de pandemia.

OLHO NO OLHO

O contato visual aumenta a conexão e indica atenção ao que a outra pessoa diz. Aproveite para sorrir. Um apreço genuíno pelo interlocutor se reflete nos olhos, que sorriem junto, transmitindo positividade. As pupilas se dilatam quando há interesse e, aqui, o gestual da cabeça é um complemento: incliná-la é um potencial sinal de afinidade. Molduras dos olhos, as sobrancelhas também falam. Um design mais curvo transmite personalidade mais acessível do que linhas mais retas e diagonais.

POSTURA RECEPTIVA

Manter o corpo virado para a pessoa com quem se fala é tão importante quanto o contato visual. Isso denota interesse e receptividade. Evite cruzar os braços, atitude que indica o oposto. Dependendo da situação, a postura ereta passa a ideia de autoconfiança e respeito, mas também pode mostrar rigidez e pouca flexibilidade. Lembre-se: a meta é buscar um clima de bem-estar nos encontros, não importa quão desafiadores pareçam. Como o sorriso, a postura pode abrir portas quando bem empregada.

MÃOS E PÉS

Cuidado para não enfiar os pés pelas mãos. Os gestos podem ser nossos aliados ou inimigos. Um discurso alinhado com movimentos naturais e sem excessos tende a ser mais atraente e menos entediante. Mãos em sincronia com a fala enfatizam ideias e emoções. Cuidado com manias e tiques nervosos: estalar ou apertar os dedos transmite ansiedade e até pode dar a impressão de estar mentindo. Pés e pernas orientados para o interlocutor denotam interesse, mas, se virados para outra direção, podem indicar desejo de fuga.

ENTONAÇÃO DA VOZ

Para driblar a barreira da máscara, falar em alto e bom som ajuda a transmitir a mensagem de forma clara e segura. Pronuncie as palavras com tranquilidade e energia, principalmente ao expor ideias, planos ou projetos numa reunião profissional. A pressa e a ansiedade são inimigas nessa hora. A não ser que você seja tímido e tenha medo de falar em público (o que pode ser trabalhado), tropeçar nas sílabas ou gaguejar pode deixar sua audiência desconectada ou, pior, desconfiada de que esteja mentindo.

EU ACHO …

O NOVO TURISTA PÓS-COVID-19

Era 1918 quando a gripe espanhola assolou o mundo, matando quase 100 milhões de pessoas e deixando outros milhões de indivíduos por meses em Lockdown. Talvez por isso, 1920 tenha sido marcado pelas maiores descobertas e realizações. Época em que se superou a dicotomia de pensamento dos conservadores e na qual se caiu na estrada — todos atrás de seus sonhos. Havia uma pressa em alcançar o tempo enclausurado misturado com a alegria de estar vivo para poder vivê-lo.

Voltando para os nossos (coincidências à parte) anos 20, depois de mais de dois meses de confinamento por conta da pandemia da Covid-19 surgem relatórios de empresas como a Trip.com, divulgando que o mercado de turismo da China já está ganhando força com as atrações turísticas naturais esgotadas para o ano todo. Ou a pesquisa recente da Skift Research que constatou que um terço dos americanos esperam viajar logo após a liberação total da quarentena.
É possível traçar, a partir daí, um perfil de viajantes mais imediatistas em busca de experiências que vão além do Resort e da Torre Eiffel. A procura será por aquele canto inexplorado, longe da massa. Sabemos que as viagens internacionais levarão mais tempo para se recuperar e que os países “se reabrirão” em diversos momentos, porém essa reabertura escalonada será confusa e pouco permissiva, exigindo documentação e exames de saúde mais rigorosos. Nesse caso, as road trips pelo Brasil irão aumentar e os viajantes terão a necessidade de se sentirem mais emocionalmente conectados ao destino.

O turismo de luxo não será mais ligado à ostentação e sim às experiências que envolvem o bem-estar físico e mental. Acostumem-se com novos vocabulários e modelos de viagens, como, por exemplo, o Couchsurfing: uma rede que põe em contato viajantes de turismo imersivo com anfitriões dispostos a abrir as portas das suas casas para recebê-los. O guia turístico será visto como na comunidade Rent a local friend, onde pessoas que amam viajar partilham o seu modo de vida e lugares favoritos da sua cidade com novos amigos. Ou, ainda, o que era antigo transfer será ao estilo Beep Me que conecta pessoas interessadas em encontrar caronas de longa e curta distância pelo mundo.

E se não for para compartilhar cultura e conhecimento em uma viagem tão sociável, os hotéis terão de se readaptar. Esqueçam o exagero. Pensem em autenticidade e percebam que o novo “5 estrelas” estará mais ligado a um serviço de experiências únicas, e, claro, com as readaptações das novas normas de saúde. A percepção dos fornecedores de serviços turísticos terão de sacar essa nova demanda e fazer com que a viagem fique na memória dos seus clientes para sempre. Só torcemos para que isso comece logo.

**FLÁVIA VITORINO

OUTROS OLHARES

A REVOLTA DOS ENTREGADORES

Essenciais na pandemia, eles fazem greve contra os baixos ganhos e para abrir a caixa-preta dos critérios das empresas de aplicativo de entregas

Durante semanas, eles foram os donos das ruas desertas. Enquanto quem podia se escondia em suas casas e apartamentos, protegido por hectolitros de álcool em gel, milhares de entregadores percorriam dezenas de quilômetros todos os dias em motos e bicicletas para levar comidas, remédios, bebidas e o que mais estivesse ao alcance de um clique de aplicativo de celular. Como a Geni da música, em vez da gratidão diante do horror, muitos desses profissionais relatam uma rotina de medo, ressentimento, pagamentos miseráveis e desconfiança. “As pessoas que já eram meio receosas com entregadores ficaram piores durante a pandemia. Tem gente que abre só uma fresta da porta para pegar o pedido e nem dá boa tarde. Cheguei a ser todo borrifado de álcool na entrada de um condomínio. As pessoas dentro de casa estão se sentindo protegidas, mas a gente, que está na rua, arrisca a própria pele e nem é recompensado por isso”, desabafou Ronald, de 29 anos, morador de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que pediu que seu nome completo não fosse divulgado por medo de retaliações dos aplicativos – pior do que tudo isso que ele relata, é sua conta ser suspensa e não conseguir ganhar nada.

Agora, no momento em que muitas cidades começam a reabrir, a conta chegou. Em um movimento inédito, na quarta-feira 1º de julho centenas de entregadores ligados a aplicativos decidiram cruzar os braços e encostar as mochilas, num protesto contra o tratamento que recebem das plataformas e a baixa remuneração em troca do trabalho muitas vezes extenuante e perigoso. “Na pandemia, cheguei a trabalhar das 8 da manhã às 7 da noite, e fazer apenas uma entrega. Voltei para casa com RS 8,90 e tive de tirar toda a roupa, jogar em cima da laje e tomar um banho por causa do coronavírus. Tenho quatro filhas, uma delas de 6 anos, e tenho medo de pegar a doença e passar para elas”, contou Robson, de 39 anos, morador do Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo, que também pediu para seu nome não ser publicado, pelos mesmos motivos do colega carioca.

Os rendimentos dos aplicativos de entrega são sua principal fonte de renda. Como muitos outros, o motoboy viu nas plataformas uma oportunidade de ganhar mais e ter mais flexibilidade, e abandonou os empregos de motorista e instalador de aparelhos de gás. Uma reclamação comum é que, na crise profunda da pandemia, muitos outros seguiram o mesmo caminho, e a explosão de oferta fez os ganhos despencar. “Recebi um pedido para percorrer 26 quilômetros que ia pagar só R$ 6. Essetipo de coisa começou a gerar revolta. Por isso começamos a nos movimentar. No início éramos apenas cinco, mas o grupo cresceu rápido porque muitos já estavam com a mesma intenção”, disse Robson, um dos líderes do movimento em São Paulo.

O que começou há cerca de três meses como trocas dereclamações empontos de reunião de entregadores se transformou em uma revolta de razoáveis proporções, mas num movimento ainda descentralizado. Segundo entregadores ouvidos, ao todo, são cerca de 20 grupos de WhatsApp, com quase 300 integrantes cada um – um número expressivo, mas uma fatia ínfima de um grupo estimado em centenas de milhares no país todo. Articuladores apontam como o “marco zero” da revolta uma cena corriqueira ocorrida em frente ao shopping Plaza Sul, na Zona Sul de São Paulo, um ponto de concentração de entregadores que ficam à espera de pedidos. “A gente estava conversando e de repente caiu um pedido para um entregador que trabalha de bicicleta. Ele precisaria fazer 9 quilômetros para ganhar RS 16. A gente pensou: ‘Está ficando cada vez pior”, lembrou Mineiro, um dos motoboys na linha de frente da paralisação.

Foi naquele dia que os entregadores da região criaram um grupo de WhatsApp para discutir condições de trabalho. O número de participantes do grupo foi crescendo até atingir o limite máximo de participantes, e então novos grupos surgiram. A primeira paralisação, no dia 11 de abril, em São Paulo, teve adesão baixa: 480 apareceram, com seusindefectíveis bagageiros coloridos com os nomes das empresas. No protesto de julho, a estimativa é que o número tenha sido dez vezes maior.

O principal motivo da discórdia entre aplicativos como iFood, Rappi e Uber Eats e os entregadores é a remuneração, um cálculo tão obscuro quanto os mais intrincados algoritmos que parecem adivinhar o que queremos jantar naquele dia. O valor do frete varia de acordo com a empresa, mas pode incluir questões como o clima (em dias chuvosos, por exemplo, paga-se mais), o dia da semana, o horário, a zona de entrega, a distância percorrida, o veículo do transportador e a complexidade do pedido. Enquanto os profissionais nas ruas multiplicam os relatos de dezenas de quilômetros pedalados em troca de poucos reais, as principais empresas apresentam dados para contar outra história. A Rappi, por exemplo, afirma que cerca de 75% dos cadastrados em seu aplicativo ganham mais de R$ 18 por hora rodada. O iFood diz que os seus recebem quase RS 22, mas não especifica quanto tempo cada um deles precisa ficar parado e conectado para conseguir fazer uma corrida. “Pela lógica do modelo de negócios da economia compartilhada, o entregador não ganha pela hora logada”, disse Diego Barreto, vice-presidente de estratégia e financeiro do iFood.

Uma das demandas dos entregadores é justamente mais transparência nos cálculos, que segundo eles mudam a toda hora, sem maiores explicações. Em média, dizem os articuladores do movimento, as empresas de aplicativos pagam menos de RS 1 por quilômetro rodado, quando descontados alguns custos. Outro ponto de atrito é o valor mínimo recebido por entrega. Algumas empresas passaram a estabelecer um patamar mínimo de RS 5, mas os profissionais cobram que o piso seja fixado no dobro disso.

Como pano de fundo desse confronto, existe a disputa mais ampla da chamada “gig economy”, ou economia dos aplicativos, para fixar qual a relação desses trabalhadores com as empresas. De um lado, as companhias defendem que são prestadores de serviço, com pouco ou nenhum vínculo formal, como medida para minimizar seus custos e maximizar seus ganhos. Trabalha quem quer, quando quer e na hora que quer, em uma situação ganha-ganha, argumentam. É verdade que a escolha de se conectar no app é do entregador, mas, na prática, eles não têm tanta opção. Mais de 44 mil entregadores do iFood ficam cinco ou mais horas por dia logados emseu aplicativo. As empresas parecem esquecer que são elas que determinam onde os entregadores devempegar a comida, onde devem entregá­la e a rota a seguir.

Governos e juízes têm atribuído cada vez mais responsabilidades às companhias, em busca de um equilíbrio que não iniba a força desse setor, mas não jogue os trabalhadores na incerteza total. Ações na Justiça brasileira já tentaram estabelecer vínculo empregatício entre colaboradores e as empresas de aplicativo, mas o tema gerou entendimentos divergentes e jurisprudência distinta. Para citar dois exemplos: em dezembro de 2019, a juíza Lávia Lacerda Menendez, da 8ª Vara do Trabalho de São Paulo, julgou que existia, sim, vínculo empregatício entre os entregadores da Loggi e a empresa. Na ocasião, a decisão foi provocada por ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho e, além de determinar o reconhecimento de vínculo, multou a empresa em R$ 30 milhões. Já em janeiro deste ano uma decisão da juíza Shirley Aparecida de Souza Lobo Escobar, da 37ª Vara do Trabalho de São Paulo, julgou improcedente uma ação civil pública que pedia o reconhecimento de vínculo empregatício entre o iFood e os entregadores. A cada nova ação, é reaceso o debate.

Para o procurador do Ministério Público do Trabalho e professor de Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Carelli, a articulação dos entregadores tende a crescer. “A organização vai se fortalecer, até o momento em que haja uma mudança”, disse ele, que critica a falta de clareza nos algoritmos dos aplicativos.

Um debate forte nos Estados Unidos, e que começa a chegar por aqui, é o do papel de quem recebe essas encomendas no conforto do lar. “Os americanos estão dispostos a gastar quantias extravagantes em seus smartphones. Agora chegou a hora de eles pagarem um pouquinho a mais também pelo trabalho artificialmente mal pago que esses telefones tornaram possível”, disse em editorial o New York Times. E não é só aquela gorjeta generosa no dia de chuva, para aliviar a consciência diante do entregador ensopado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE JULHO

A HUMILHAÇÃO DE JESUS

A si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz (Filipenses 2.8).

A encarnação do Filho de Deus é um dos maiores mistérios da história. Há um só Deus, que subsiste em três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esses três são da mesma substância, de tal maneira que o Filho é coigual, coeterno e consubstancial com o Pai e o Espírito Santo. Porém, para realizar a nossa redenção, o Deus Filho se fez carne, esvaziou-se da sua glória e, na plenitude dos tempos, nasceu de mulher, sob a lei, para ser nosso fiador e substituto. Sendo Deus, fez-se homem; sendo rico, fez-se pobre; sendo Senhor, fez-se servo. O Pai da eternidade entrou no tempo e vestiu pele humana. Humilhou-se até a morte, e morte de cruz. Mesmo diante das mais severas aflições, não retrocedeu em seu propósito de nos salvar. Mesmo perseguido, cuspido e esbordoado pela fúria dos pecadores, amou-os até o fim. Mesmo pregado na cruz, rogou ao Pai para perdoar seus algozes. Mesmo cravejado pelas setas da morte, matou a morte com sua própria morte e triunfou sobre ela em sua gloriosa ressurreição. Em sua humilhação extrema, abriu-nos o caminho do paraíso. Porque Cristo se humilhou, nós poderemos ser exaltados. Porque Cristo morreu, nós poderemos viver eternamente. Porque Cristo sofreu dor atroz, nós poderemos ser consolados para sempre. Porque Cristo foi abandonado, nós poderemos ser aceitos. A humilhação de Cristo abriu-nos o caminho de volta para Deus.

GESTÃO E CARREIRA

O TRABALHO DEPOIS DA PANDEMIA

A crise da covid-19 está influenciando a maneira como profissionais de todo o mundo lidam com a carreira. Descubra quais serão as grandes mudanças que devem ocorrer quando a quarentena terminar.

Na segunda quinzena de março, quem passava pela região da Avenida Faria Lima não reconhecia o centro financeiro e empresarial mais movimentado da cidade de São Paulo. Não estavam mais ali os onipresentes carros, patinetes e profissionais que trabalham em empresas famosas daquela área (como Klabin, PiTelli, Google, XP e Microsoft, para citar só algumas) e transformam o local num vaivém frenético durante o horário comercial. Só sobraram os motoboys de delivery. Tanto que, no dia 17 de março, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou somente 31 quilômetros de congestionamento às 19 horas. A média do horário é de 89 quilômetros.

As ruas desertas em São Paulo – e em tantas outras cidades – são um reflexo da pandemia do coronavírus, que colocou o mundo inteiro em quarentena. E, quando dizemos o mundo, é o mundo mesmo. Um levantamento feito pela agência de notícias AFP mostrou que, no começo de abril, quase 4 bilhões de pessoas estavam em casa devido às restrições de mobilidade. Isso significa que metade da população do planeta ficou sem botar o pé na rua.

O isolamento social é fundamental para que a curva de contágio da covid-19 seja mais lenta, o que minimiza o impacto nos sistemas de saúde, que poderiam colapsar caso todos ficassem doentes ao mesmo tempo. Mas essa medida, importante para salvar vidas, naturalmente desacelera a economia. Ao opor duas necessidades básicas humanas, a sobrevivência física e a sobrevivência financeira, esta crise se torna uma das mais complexas da história. E as consequências econômicas já são sentidas. O Brasil, que não estava no melhor dos cenários antes do coronavírus aterrissar em território nacional, já começa a sentir o baque. De acordo com o IBGE, o produto interno bruto (PIB) do primeiro trimestre caiu 1,5% e a expectativa do governo é que, até o fim do ano, a queda seja de 4,7%. A estimativa dos analistas do banco Goldman Sachs é ainda mais pessimista e projeta uma retração de 7,7%. Para os trabalhadores, a conta chegou.

A Medida Provisória nº 936, que deu às empresas a oportunidade de suspender contratos e reduzir salários e carga horária temporariamente sem precisar de acordos coletivos em vários casos, fez com que 7 milhões de profissionais com carteira assinada vissem seus holerites diminuir de uma hora para outra. Além disso, o país perdeu 1,1 milhão de vagas CLT entre março e abril, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Só em abril, quando mais de 860 .000 postos foram fechados, as demissões cresceram 17% e as admissões caíram 56,5% em comparação ao mesmo mês em 2019. Esses foram os piores resultados de abril na série histórica, que começou a ser medida em 1992.

Com esses índices, não é de estranhar que ansiedade, preocupação e insegurança sejam sensações que acometem todos os profissionais – mesmo os que ainda estão empregados ou conseguindo manter seus negócios de alguma maneira. Uma pesquisa feita pelo Datafolha em maio exemplifica o desalento: 69% das pessoas acreditam que a pandemia do coronavirus irá impactar a atividade produtiva por muito tempo. O que mais se ouve no mercado é que, mesmo quando a pandemia passar, o mundo nunca mais será como antes. E o que isso significa para o trabalho? A resposta não é simples. Mas já existem alguns indícios de como o trabalho será no pós-coronavírus. E alguns aspectos são bem complicados para a ponta mais fraca da cadeia – o trabalhador. Nas próximas páginas, respondemos a cinco grandes questionamentos.

AS RELAÇÕES PROFISSIONAIS SERÃO PRECARIZADAS?

Um dos grandes temores dos profissionais é que, com a crise, a precarização das relações de trabalho se aprofunde. Existem alguns indícios que mostram que essa preocupação pode ser válida. Um deles é o fato de que as negociações individuais entre patrão e empregado devem se tornar padrão. Isso já estava previsto na reforma trabalhista de 2017, mas veio à tona com força por causa da MP nº 936, que permitia que quem ganhasse mais de 12.202,12 reais ou menos de 3.135 reais negociasse redução salarial e suspensão de contrato diretamente com a empresa. A MP passou por votação na Câmara, que diminuiu a faixa para 2.090 reais, e agora segue para o Senado.

O problema desse tipo de negociação é que ela não é equilibrada: um dos lados (o do funcionário) é mais fraco e se sente pressionado a ceder, mesmo contra sua vontade. “A pandemia acentuou alguns processos. De março para cá está ficando muito claro o que pode acontecer quando o empregado fica refém da negociação individual. Ele aceita qualquer coisa, pois precisa sobreviver, precisa do salário”, diz Flávio Roberto Batista, professor de direito do trabalho e seguridade social da faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Os acordos individuais fazem com que as relações de trabalho deixem de ser um conjunto de regras gerais, o que cria uma imprevisibilidade. Afinal, não há mais um parâmetro global regendo todas as questões. “Isso gera o que alguns autores chamam de “uberização do trabalho”, o que pode até aumentar a jornada”, diz o antropólogo Michel Alcoforado, sócio do Grupo Consumoteca, que atua com transformações culturais e comportamento.

Outro ponto importante vem do home office forçado: as empresas compreenderam que a produtividade não precisa ser focada nas cargas horárias, mas nas entregas – e isso pode abrir uma avenida para a substituição dos empregados integrais por trabalhadores freelancers ou terceirizados. “Em um contexto de imprevisibilidade em relação ao futuro, os chamados contratos sob demanda ganham força e o CLT começa a fazer menos sentido, o que gera mais insegurança no trabalhador”, afirma Michel. O advogado Cristóvão Macedo Soares, sócio do escritório Bosisio Advogados, complementa: “As tecnologias que existem hoje permitem a contratação de pessoas para demandas ou projetos específicos, com foco apenas na entrega do resultado esperado. Por isso, serão necessárias garantias básicas e representação sindical, o que só será possível com mudanças legislativas e apoio do Estado”.

NOVA ROTINA

Pesquisa feita pelo grupo Consumoteca com 2.000 pessoas de todo o Brasil e divulgada com exclusividade, mostra quais são as percepções sobre o trabalho na pandemia

COMO VOCÊ GOSTARIA DE TRABALHAR?

43% – Preferem mesclar o escritório com o home office

31% – Querem teletrabalho como rotina oficial

Os jovens da geração z não se adaptaram a trabalhar de casa. Apenas 27% querem fazer isso de maneira integral

VOCÊ TERÁ NOVOS HÁBITOS DE TRABALHO APÓS A PANDEMIA?

GERAÇÃO Z ……………………… 62%

GERAÇÃO Y ……………………… 55%

GERAÇÃO X ……………………… 45%

QUE NOVIDADES EXPERIMENTOU NO TRABALHO DURANTE A QUARENTENA?

53% – GERAÇÃO Z – Usou ferramentas pessoais para trabalho pela primeira vez

28% – GERAÇÃO Y – Usou uma nova ferramenta de comunicação de equipe pela primeira vez

48% – GERAÇÃO X – Fez uma videochamada pela primeira vez

A ROTINA MUDARÁ DEPOIS DA PANDEMIA?

57% SIM – CLASSE A       

52% SIM – CLASSE B        

52% SIM – CLASSE C

O HOME OFFICE SE TORNARÁ IMPOSIÇÃO?

Em meados de maio, Mark Zuckerberg conduziu uma video­conferência com os funcionários do Facebook. Em pauta estava o comunicado de que o home office continuará até dezembro de 2020 para quem preferir trabalhar de casa. E ele fez uma previsão: daqui a dez anos, 50% dos funcionários do Facebook deverão exercer suas atividades remotamente. Mas, para o fundador da rede social, isso não significa que tudo ficará como antes para os funcionários. Pelo contrário. Zuckerberg afirmou que a partir de janeiro de 2021 haverá ajustes salariais para os empregados que trabalharem de locais com o custo de vida mais baixo do que a cara. Mento Park, na Califórnia (nos Estados Unidos), onde fica a sede do Facebook. De acordo com ele, os funcionários precisarão informar e comprovar onde sua casa fica e, dependendo da região, terão os ganhos reajustados para baixo. Quem mentir sobre a localização terá sérias penalidades, disse o empreendedor. A decisão de Zuckerberg é extrema, mas demonstra uma das consequências do home office: economia de custos para as empresas. Sem a circulação total dos funcionários, os escritórios tendem a ficar menores, o que diminui gastos com aluguel, manutenção predial, água, luz e energia elétrica, por exemplo. No entanto, algumas empresas estão oferecendo benefícios de home office, como auxílio para pagamento de internet, luz, telefone e mobiliário ergonomicamente adequado. Mas isso vem da vontade da companhia, pois não existe uma lei que determine o que deve ser oferecido aos empregados remotos. A reforma trabalhista de 2017 estabeleceu que funcionários e empresas devem firmar um contrato individual com os termos do teletrabalho. “Teremos ainda anos de discussões judiciais em torno disso. De maneira prática, se houver a necessidade de reforçar o pacote de internet para ter mais velocidade, quem vai bancar a diferença de preço? O empregador é quem deve arcar com os riscos da atividade econômica dele”, diz Flávio, da USP.

Fato é que o home office veio para ficar no Brasil. Segundo uma pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral, 86% das empresas devem manter o trabalho remoto após a pandemia. E existe, também, vontade de parte dos funcionários de continuar nesse esquema – mesmo que o desejo tenha diminuído durante a quarentena. Isso fica claro numa pesquisa da Gallup que mostra que, em abril, 53% dos americanos gostariam de permanecer em home office a maior parte do tempo possível; no início do isolamento o índice era de 62%.

Entre os brasileiros, o desejo é o meio-termo. Segundo um levantamento do Grupo Consumoteca, feito com 2.000 pessoas de todo o Brasil e de diversas gerações e classes sociais, 41% preferem intercalar home office com idas ao escritório, e só 31% querem ficar em casa o tempo todo quando a quarentena passar. “Um dos maiores legados da pandemia é a capacidade de tornar os profissionais híbridos. Quanto mais as companhias se conscientizarem de que o home office não é motivo de medo, nem de falta de controle ou de baixa produtividade, mais a flexibilidade ganhará força”, diz Ligia Zotini, pesquisadora de futuros e fundadora da consultoria Voicers.

Mas, para que esse futuro híbrido dê certo, será preciso atentar para alguns aspectos. O antropólogo Michel, do Grupo Consumoteca, elenca três deles: a desmaterialização, movimento de levar tudo o que é físico para as plataformas de gestão digital; a assepsia, zelo por limpeza, segurança e readaptação de ambientes; e a descontextualização, em que se perde a noção dos dias e se trabalha mais. “É possível notar isso observando as pessoas em home office. A maioria está trabalhando mais do que no escritório”, afirma Michel. E está mesmo. Segundo uma pesquisa do Centro de Inovação da FGV Eaesp, 46% dos profissionais relataram aumento na carga de atividades no teletrabalho.

Por isso, caberá às companhias criar mecanismos de controle de horas a distância e estimular que ninguém trabalhe além da conta – com o exemplo partindo das Lideranças. Também é necessário possibilitar que empregados que prefiram ir para o escritório tenham essa opção pelo menos durante alguns dias da semana. Afinal, cada um tem suas particularidades, e o home office pode ser complicado para alguns empregados – existem pessoas sem espaço físico em casa para preparar um local voltado para o trabalho ou profissionais que têm dificuldades em conciliar o próprio trabalho com as atividades de parentes ou cônjuges, por exemplo. E isso pode gerar ansiedade, como demonstra uma pesquisa feita pelo LinkedIn com 2.000 profissionais que mostra que 62% estão mais ansiosos no home office. A batalha para se desconectar das atividades profissionais será árdua e exigirá que os empregados tenham disciplina – e criem rituais próprios – para desconectar, mesmo com os equipamentos da empresa 24 horas à disposição.

HABILIDADES IMPORTANTES

Duas atitudes que serão cruciais para sobreviver no mundo pós-covid-19, de acordo com Rafael Souto, CEO da Produtive

AMBILIDADE

Trata-se da junção entre ambição e humildade, competência essencial para o século 21 segundo o consultor Bill Taylor. Isso quer dizer que aquela máxima de que ser líder é ter todas as respostas não existe mais. é preciso não ter medo de mostrar vulnerabilidade em situações desconhecidas, ter capacidade de construir um ambiente colaborativo e estar aberto a aprender sempre. o momento é de incerteza e imprevisibilidade, e ninguém sabe, de fato, o que vai acontecer. “É essencial ter a humildade de dizer “não sei, vamos construir juntos”. não há espaço para profissionais ambiciosos e prepotentes”, diz Rafael.

TRABALHABILIDADE

O modelo baseado em apenas um empregador pode se tornar frágil. por isso, os profissionais precisarão transformar seus conhecimentos em diferentes fontes de geração de renda. Segundo Rafael, a segurança dos profissionais não está mais em ter um emprego, e sim em ter suas habilidades bem claras e encontrar maneiras de gerar valor. “A instabilidade dos negócios vai ser cada vez maior e é arriscado apostar todas as fichas da carreira apenas no trabalho formal. todos devem ter um plano b”, diz Rafael.

O JEITO DE FAZER CARREIRA VAI MUDAR?

Existem vários tipos de carreira possíveis hoje, mas a trajetória mais tradicional – de entrar numa companhia e ir crescendo aos poucos, ano a ano – parece estar em xeque. Com a crise da covid-19, ficou claro para muitos que não se pode jogar todas as fichas na estabilidade da empresa em que se trabalha. “Está ficando menos confortável e seguro depositar toda a confiança em apenas um empregador. E a pandemia deixou isso ainda mais claro com o volume de demissões”, diz Leandro Herrera, fundador da Tera, escola que desenvolve habilidades digitais. Rafael Souto, CEO da consultoria Produtive, complementa: “Há alguns anos defendo o conceito de trabalhabilidade, a capacidade de o indivíduo produzir e gerar renda. Muito além do emprego tradicional, os profissionais terão de encontrar outras alternativas”.

Por isso, surge um movimento de pessoas buscando, por necessidade, a mescla entre o modelo CLT e o de freelancer, o que é legal, desde que o profissional preste atenção em algumas questões. “A lei só proíbe ter mais de um trabalho se a atividade concorrer com a da empresa CLT ou se atrapalhar o andamento das tarefas”,