EU ACHO …

O VALOR DA INTUIÇÃO

Seríamos nós mais marcados pela determinação do que imaginamos? Somado à filosofia e à literatura, o conceito de intuição de Henri Bergson nos remete à construção da liberdade, criatividade e inventividade

O século XIX é reconhecido como aquele em que ocorreram amplas transformações, principalmente nas ciências.

Foi no século XIX o grande acontecimento da invenção da fotografia que daria continuidade à reprodutibilidade técnica. Grandes movimentos artísticos e literários potencializaram, mais do que nunca, os movimentos de vanguarda que aconteceriam nas primeiras décadas do século XX.

No entanto, na área das ciências, o século XIX foi marcado por uma atmosfera determinista por inúmeros caminhos. Bergson, Freud, Marx e tantos outros pensadores importantes devem ser, entre outras coisas, vistos como aqueles que deram aberturas tão necessárias aos espaços do indeterminado, e com isso os ventos de uma liberdade sopram, finalmente, por todos os lados.

Henri Bergson (1859-1941) foi um pensador que buscou, de todas as maneiras, um profundo diálogo entre a filosofia, as ciências e a literatura. Sua vasta e profunda produção é composta de conceitos muito importantes. Na verdade, determinantes para que possamos entender melhor este vasto universo que habitamos. E mais importante do que isso: Bergson é o filósofo das paixões alegres, por lembrar Espinoza. O filósofo francês é aquele pensador que potencializa o ser humano. Que acredita no pensamento inventivo e criativo. E até que somos seres inesgotáveis em busca de objetivos que realmente tragam uma atmosfera menos asfixiante para este mundo tão cheio de conflitos, inclusive, os existenciais.

EXISTÊNCIA DO TODO

Um dos conceitos mais importantes propostos por Bergson é o da intuição. Intuição para Bergson não é o de senso comum. Ou seja, ligada a um vago pressentimento ou coisa parecida. Intuição para Bergson é, sobretudo, duração. Duração tem a ver com a fundação ontológica do ser. Está ligada à memória e temporalidade. Intuição faz parte do processo de raciocínio que, realmente, nos leva a pensar no que existe de mais profundo. Intuição significa, para Bergson, liberdade. E como ele fundamenta tudo isso?

Bergson é um metafísico que, no entanto, não oferece certezas. Mas, como bom pensador, nos coloca perspectivas possíveis para serem refletidas e questionadas. Um ponto importante que diz respeito à intuição é a sua concepção de cosmologia. Aquela, na realidade, que antecede qualquer proposição. Para Bergson existe um todo. O todo está dado. No entanto ele é aberto! O que isso significa? Que, segundo ele, habitamos um universo cheio de determinações por, necessariamente, nos lembrarmos de Peirce. Ou seja, somos seres muito mais marcados pela de­ terminação do que imaginamos, assim como os elementos que nos cercam.

Quando nascemos, muitas coisas já estão determinadas sem que tenhamos, conscientemente, interferido. Um elefante hoje continuará, tudo indica, a ser um elefante no dia de amanhã. Uma flor não se transformará em uma abelha. O mundo que nos permeia precisa das constantes e das invariáveis. Enfim, se prestarmos atenção veremos que o universo é muito mais determinado do que imaginamos. Um mundo sem determinações seria totalmente caótico! No entanto, de acordo com Bergson, existem as indeterminações. Ou seja, os espaços em que podemos construir nossa liberdade, criatividade e inventividade.

TEMPO DAS MULTIPLICIDADES

Mas afinal como Bergson fundamenta a intuição? Nas felizes reflexões de Deleuze, inseparável das leituras de que possamos fazer de Bergson, intuição é uma espécie de método que ele aplica à sua própria filosofia. Tem como fundamento a duração. Duração refere-se, primordialmente, ao tempo subjetivo. Incomensurável. Tempo qualitativo. A duração diz respeito a um tempo que o ser humano não tem como medir. O tempo dos relógios é implacável, obedece a uma cronologia. O tempo enquanto duração é o tempo das multiplicidades, embora seja indivisível. Atravessa o ser humano de acordo com suas experiências e sensações plenamente individuais.

Nas palavras de Bergson: “A verdade é que a filosofia não é uma síntese das ciências particulares e que se ela muitas vezes se coloca no terreno da ciência, às vezes abarca em uma visão mais simples os objetos de que a ciência se ocupa, não o faz intensificando a ciência, não o faz levando os resultados da ciência a um grau mais alto de generalidade. Não haveria lugar para dois modos de conhecer, filosofia e ciência, se a experiência não se apresentasse a nós sob dois aspectos diferentes: por um lado, sob forma de fatos que se justapõem a fatos, que se repetem aproximadamente, que se medem aproximadamente, que se desenrolam enfim no sentido da multiplicidade distinta e da espacialidade, e, por outro lado, sob forma de uma penetração recíproca que é pura duração, refratária à lei e à mensuração”.

Veja-se que Bergson coloca em xeque o quanto as ciências desprezam as relações humanas em face de algum objeto. Não somente um objeto de pesquisa. Mas tantos outros. Justamente porque as ciências jamais foram capazes de nos dar algo em si mesmo. Escapou às ciências a interioridade humana. O grande argumento de Bergson é mostrar, pelo conceito de duração, que somos seres separados das coisas. Na verdade, rigorosamente falando, somos exilados de nós mesmos. Visto que somos existencialmente interiores ao tempo, por lembrarmos as condições a priori de Kant. O conceito de duração busca mostrar que jamais temos uma relação direta com o que quer que seja. Escapamos de nós mesmos pelo tempo.

CONSTRUTORES DE LIBERDADE

Por sua vez, os grandes escritores, destacadamente, Proust, vai ao encontro do conceito de duração de Bergson quando mostra que nosso passado é inseparável de nós e ao mesmo tempo é ele que nos identifica pela memória. Na verdade, se comparados com um cavalo que galopa senhor absoluto de sua liberdade sob um presente não desdobrável e consegue flutuar pelos ares, perceberemos o quanto a condição humana é paradoxal. Somos seres condenados, permanentemente, a construir nossa liberdade, como diria o bom e velho Sartre!

ANA MARIA HADDAD BAPTISTA – é graduada em Letras. Possui mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pós-doutoramento em História da Ciência pela Universidade de Lisboa e PUC/ SP. Autora de diversos livros publicados no Brasil e no exterior. Atualmente é pesquisadora e professora da Universidade Nove de Julho em São Paulo.

OUTROS OLHARES

DIVERSÃO DO ASSUSTA GIGANTES

Vídeos curtos e engraçados levam aplicativo chinês a ascensão meteórica no concorrido mercado das redes sociais e tem tirado o sono dos executivos de Facebook e Google.

Quem nunca pegou uma vassoura para imaginariamente transformá-la em uma guitarra e começou a imitar seus ídolos da música, com caras e bocas, cantando suas letras favoritas? Uma diversão que ficou na memória de quem tem acima de 30 anos, na chamada Geração Y. Atualmente, para a Geração Z (entre 10 e 25 anos), esse mesmo passatempo é gravado na câmera do celular, potencializado com recursos tecnológicos e colocado em redes sociais. Será visto e comentado por milhões de pessoas ao redor do mundo. A brincadeira ficou séria e virou negócio. Principalmente com o surgimento do TikTok, aplicativo chinês de edição, publicação e compartilhamento de vídeos de até 15 segundos, com dublagem de músicas, esquetes de comédia, memes e desafios.

O app da rede criada em 2016 bateu a marca de 2 bilhões de downloads em todo o mundo. Uma diversão que assusta gigantes como Facebook, dona do Instagram e do WhatsApp, e Google/Alphabet, proprietária do Youtube, líderes do mercado de entretenimento na internet. “Sempre há algo novo e surpreendente que encanta os usuários”, afirma Rodrigo Barbosa, community manager do TikTok no Brasil. “Nossa plataforma oferece muitas oportunidades de negócios interessantes, tanto para marcas, como criadores.”

Ao analisar os números globais do TikTok é que se tem a noção de por que o aplicativo tem tirado o sono de Mark Zuckerberg e Sundar Pichai. Em 2019, foi o segundo mais baixado do planeta, com 738 milhões de downloads, segundo a consultoria Sensor Tower, atrás apenas do WhatsApp. No primeiro trimestre deste ano, já com o isolamento causado pela pandemia de Covid-19, foi instalado 315 milhões de vezes em smartphones, recorde para um período de 90 dias em todos os tempos, de todos os aplicativos. Dos 2 bilhões de downloads totais, quase metade é de usuários ativos, sendo 40% de jovens entre 16 e 24 anos. O que deixa o TikTok como quarta rede social mais usada, atrás de Facebook (2,2 bilhões), YouTube (1,9 bilhão) e Instagram (1 bilhão), segundo relatório da We Are Social.

Se os líderes das colossais americanas estão com dificuldades para dormir por martelar o TikTok em suas cabeças, Zhang Yiming é só alegria. Aos 37 anos, o fundador e diretor-executivo da ByteDance, um conglomerado de tecnologia que inclui o TikTok, comemora o crescimento meteórico. A companhia terminou o ano passado com valor de US$ 75 bilhões e recentemente, com transações privadas de ações, ultrapassou US$ 100 bilhões, de acordo com informações divulgadas pela agência Bloomberg. O faturamento anual estaria em torno de US$ 2,5 bilhões.

A insônia provocada pela ascensão do aplicativo chinês faz os concorrentes trabalharem para não ficar para trás. O YouTube promove testes de um recurso similar, o Shorts, que segue a mesma temática, de criar e editar vídeos de curta duração. E o Instagram lançou a função Cenas (Reels) para também criar vídeos curtos com músicas e postá-los diretamente nos Stories.

DE OLHO NO BRASIL

Já a estratégia do TikTok é, por enquanto, de preocupação mais geográfica. Com grande penetração nos principais países do Oriente, como China e Índia, e evolução gradual nos Estados Unidos (onde passou por polêmica após suspeita, não confirmada, de vazamento de dados de usuários ao governo chinês), os olhos do aplicativo estão voltados para a América do Sul, principalmente o Brasil, onde seus competidores têm presença consolidada. A cobiça pelo mercado nacional, onde a empresa instalou escritório em 2018, ocorre por diversos fatores: tamanho, estrutura econômica e empresarial, potencial de consumo e a própria característica do internauta, que passa 3h45 minutos, em média, por dia, conectado em redes sociais, segundo pesquisa da GlobalWebIndex. O País é vice-campeão nesse quesito, perdendo apenas para as Filipinas, onde os usuários passam 4h01 nesses canais. “Existe um enorme potencial para o TikTok permitir que mais usuários no Brasil e na América Latina mostrem seus talentos a um público novo e global”, afirma Barbosa.

E, para escalar esse mercado, o app tem usado os rivais. Primeiro ao contratar fenômenos de popularidade de outras plataformas, como o comediante e youtuber Whindersson Nunes e o ator e apresentador Fábio Porchat, para estrelarem suas campanhas. Segundo porque os vídeos produzidos, editados e publicados no TikTok são divulgados pelos usuários também por meio do WhatsApp, Facebook e Instagram, onde viralizam com um selo do logotipo do aplicativo chinês. Ou seja, os concorrentes fazem propaganda gratuita para ele. Outro diferencial da rede social asiática é o algoritmo usado para distribuir os conteúdos. Não há possibilidade de impulsionar as postagens de forma paga para obter melhores resultados, pois a empresa ainda não está interessada nessa forma de monetização. “A disputa neste momento é pelo tempo do usuário”, diz Isabela Ventura, CEO da Squid, especializada em marketing de influência. No primeiro trimestre deste ano, comparado com o último trimestre de 2019, a Squid registrou aumento de 600% nas propostas comerciais que envolvem campanhas no TikTok para as marcas.

CURADORIA

Marcas como Havaianas e Guaraná Antarctica estão entre as primeiras a promover ações publicitárias em parceria com o aplicativo no Brasil, no intuito de se aproximar do público jovem. A marca de refrigerantes usou curadoria do TikTok para buscar criadores para produzir conteúdos adequados à plataforma. Foram feitas 27 latinhas temáticas e um QR Code, que redirecionava para o perfil de Guaraná Antarctica no app. Pelo mundo, projetos conjuntos envolvem grifes como Calvin Klein e Sephora, além de corporações esportivas como a NFL (do futebol americano) e a La Liga (campeonato espanhol de futebol.

Ainda em solo tupiniquim, o TikTok mostra-se plural e democrático, tornando anônimos em famosos rapidamente. O fotógrafo e designer Vincynite, de 24 anos, foi o primeiro a ter um vídeo viral na rede. Em uma música autoral – conhecida como “Me diz seu nome” –, ele convoca os usuários a responder perguntas, como nome, idade, altura, cidade onde mora, roupa preferida. Outros tiktokers completam essas informações em seu próprio vídeo, com uma edição fácil, disponível no app, imitando a coreografia de Vincy. Entre os 600 mil perfis que participaram do desafio estão celebridades como Mariana Ruy Barbosa. Ao todo, são 10 milhões de views da criação, o que fez Vincy torna-se popular e ter hoje 1,4 milhão de seguidores na rede. “Gosto de vídeos rápidos, de coisas espontâneas e diferentes”, diz o agora famoso creator, que já produziu conteúdos para marcas como McDonalds, Santander e Trident.

Especialista em marketing digital e performance, André Salles, consultor técnico da YZ Media para a América Latina, diz que o TikTok é um caso de sucesso, tem se tornado uma válvula de escape para as pessoas durante a pandemia, o que aumenta a importância do aplicativo. Mas faz um alerta. “É difícil prever se é uma onda passageira.” OK, como tudo na internet. O fato é que por enquanto, para os gigantes americanos da tecnologia, tem sido um tsunami.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE JUNHO

O DRAMA DA MALEDICÊNCIA

Pois quem quer amar a vida e ver dias felizes refreie a língua do mal e evite que os seus lábios falem dolosamente (1Pedro 3.10).

A maneira mais indigna de alguém se promover é falar mal dos outros. A língua mata mais que a espada e destrói mais que o fogo. A maledicência é uma espada afiada que sangra suas vítimas. A língua é fonte de vida ou cova de morte. É árvore frutífera que alimenta ou espinheiro que fere; é medicina que cura ou veneno que mata. Como o leme de um navio, pode dirigir você em segurança pelos mares da vida ou lançá-lo sobre os rochedos das intrigas. A língua é como uma fagulha que incendeia toda uma floresta. Fazer um comentário maledicente é como lançar um saco de penas do alto de uma montanha. É impossível recolhê-las. O maledicente espalha contendas entre os irmãos, e esse é o pecado que Deus mais abomina. Há muitas pessoas prisioneiras da língua solta. Há muitos relacionamentos quebrados e muitos lares feridos por causa da maledicência. A Bíblia fala de Doegue, o fofoqueiro, o homem que incitou o rei Saul a cometer uma chacina na cidade de Nobe. A Palavra de Deus reiteradas vezes diz que aquele que domina a sua língua domina também todo o seu corpo. Quem refreia a sua língua abre largas avenidas para uma vida feliz. Nossas palavras precisam ser verdadeiras, agradáveis e proveitosas. Precisam transmitir graça aos que as ouvem. Nossas palavras precisam glorificar a Deus e edificar o próximo.

GESTÃO E CARREIRA

O ESPAÇO É PRIVATIZADO

Com a missão tripulada bem-sucedida do foguete Falcon 9, Elon Musk sai na frente na corrida espacial privada. Os bilionários Richard Branson e Jeff Bezos, da Amazon, também estão nessa disputa

O fascínio do homem pelo espaço tem desafiado os esforços de países, cientistas e empreendedores. A corrida pela conquista espacial começou com a disputa entre União Soviética e Estados Unidos, durante a Guerra Fria, ainda nos anos 1950. Alternadamente, as duas potências econômicas e bélicas mostraram todo seu poderio já nos anos 60, com êxito em suas expedições. Além da rivalidade ideológica e política, a quebra dos limites tecnológicos inspirou, na sequência, a indústria cinematográfica. O imaginário das pessoas foi trabalhado durante décadas e muitas crianças sonhavam com a profissão de astronauta. Alguns, muito poucos, se tornaram bilionários e conseguiram até virar donos de naves espaciais — como o sul-africano Elon Musk.

No dia 30 de maio, ele conseguiu inaugurar uma nova etapa na história da corrida espacial, quebrando meio século de monopólio das nações. Sua companhia SpaceX foi responsável pela viagem do foguete Falcon 9 para a Estação Espacial Internacional, uma jornada que durou 19 horas e percorreu 400 km. Ela partiu do Centro Espacial Kennedy (Flórida/EUA) com dois tripulantes – os astronautas Bob Behnken, 49 anos, e Doug Hurley, 53 anos –, e se atracou na estação com precisão, completando com sucesso a primeira viagem tripulada de uma empresa particular. Com ela, o espaço começou a ser privatizado.

As interrogações sobre o potencial de retorno de uma empresa privada no setor logo foram respondidas. Com o anúncio do lançamento do foguete, somente a Tesla, a montadora pioneira de carros elétricos de Musk, viu, em um mês, suas ações aumentarem 18% na bolsa Nasdaq. Mas o investimento público foi essencial para a Space X. A Nasa, desde 2011, concedeu aporte de US$ 3 bilhões para o lançamento da Falcon 9. A companhia ainda tem um contrato de US$ 500 milhões para construir uma rede de microssatélites de conexão à internet. Entusiasta da vida fora do planeta e embaixador das viagens espaciais para civis, Musk já fechou negócio com o turismo em órbita. Em 2018, garantiu uma passagem para outro bilionário, o japonês Yasaku Maezawa, em um voo ao redor da Lua — dessa vez, será no foguete Big Falcon. Os valores não foram revelados, mas Musk afirmou que estaria recebendo muito dinheiro pela viagem.

DOS DISCOS AO ESPAÇO

O britânico Richard Branson segue os passos de Musk na corrida espacial privada. O empreendedor iniciou sua trajetória profissional com uma loja de discos nos anos 70. O sucesso fez a Virgin Records crescer muito e virar uma gravadora. Nos anos 2000, o agora multimilionário Branson criou a Virgin Galatic, um braço da Virgin Group que reúne companhias aéreas e ferroviárias, uma operadora móvel e empresas de mídia. Em 2014, um acidente fez o projeto ser desacelerado. A nave Enterprise explodiu após separar seus módulos e causou a morte do astronauta Michael Alsbury. Em 2018, A Virgin Galactic fez uma viagem de teste de altitude com 80 quilômetros de distância e dois pilotos. O que não foi suficiente para chegar à órbita, mas reposicionou Branson na disputa. O empresário se destaca por pensar no espaço como um lugar a ser explorado por turistas. Diferente dos negócios de Elon Musk, o britânico quer contar com turistas que invistam cerca de R$ 250 milhões para dar um passeio despretensioso pela órbita da Terra.

O MAIS RICO DO MUNDO

O americano Jeff Bezos é o terceiro bilionário da corrida. Homem mais rico do mundo, tem uma fortuna avaliada em US$ 148 bilhões. CEO da Amazon, segunda companhia do mundo a superar o valor de US$ 1 trilhão de mercado, ele garante que em 2021 a sua nave Blue Origin vai triunfar no espaço. Bezos diz que investiu US$ 2,5 bilhões na nave New Glen, com 300 metros de altura, que promete ser reutilizável. O empresário desconsiderava o aporte de recursos do governo americano no início da empreitada, mas desde 2018 mudou de posição. Atualmente, participa de concorrências para oferecer produtos espaciais.

NOVO MUNDO

A corrida espacial inaugurou um novo mundo. As cifras envolvidas estavam além da capacidade de investimento das empresas. Essa barreira, agora, começa a ser superada por empreendedores visionários e multimilionários. Ainda é bem cedo para avaliar quanto tempo será necessário para que tripulações de civis tenham acesso ao serviço. Talvez, nem mesmo seja essa a intenção. O fato é que a iniciativa privada agora é a dona da bola. A Nasa, que conseguiu levar o homem à lua em 1969, continua sendo uma importante instituição do governo norte-americano, mas parece que tem futuro muito mais próximo de uma agência reguladora do que de uma concorrente tecnológica. Os custos envolvidos apontam que é mais barato desenvolver projetos no campo privado. A utilização do marketing a serviço das empresas promete ser uma grande arma para a arrecadação de recursos. A disputa, no final, será daqueles meninos que um dia sonharam em ser muito mais do que astronautas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOLOGIA DAS NAÇÕES

Lima Barreto, em “O homem que sabia javanês”, nos apresenta um país sem leis e sem preocupação com a verdade, sob a égide dos favores e minado pela desordem. Talvez não fique tão longe daqui

Desejos de suplantar as dificuldades pessoais e controlar o destino por meio do misticismo são os ingredientes para se descobrir e se nutrir um trapaceiro. A reflexão dos homens pode ser aprisionada às suas emoções e, com isso, eles podem legitimar as ações e mentiras de um malandro. Essa é a essência de um conto que Lima Barreto escreveu em 1911 intitulado “O homem que sabia javanês”.

O conto começa com Castelo relatando ao seu amigo Castro como soube levar vantagem em tudo na vida com a postura de um malandro carismático. Esvaziando copos de cervejas, relatou, como se fosse um assunto banal, “as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver”. Uma dessas “partidas” foi tornar-se professor de javanês sem conhecer a língua. Orgulhava-se de sua esperteza como a sorrir dos ingênuos que foram enganados. Aprendeu que o reconhecimento social nada tem a ver com verdades, e sim com a habilidade política de enganar.

Contava Castelo que morava em pensões e se mudava frequentemente, de uma para outra, por falta de pagamento. O trabalho com horários a cumprir não lhe era aprazível. Um dia viu um anúncio no jornal que procurava por um professor de javanês. Intuiu que não teria concorrência e que estava diante de uma oportunidade para usar os seus dotes tapeadores e se inscreveu. Sua função era ler um misterioso calhamaço em língua javanesa para um velho supersticioso, o barão de Jacuecanga.

Castelo empenhou-se na valorização de sua aparência para sentir-se seguro em enganar. Relatava ao amigo, de forma irônica, como se aproveitou da ingenuidade e estupidez daqueles que nele acreditavam para conduzir a sua sorte para onde queria. Ao constatar a tolice alheia, a luta entre a ambição e a honestidade, tão logo iniciou, cedeu lugar à ganância.

Numa dessas ocasiões em que sua farsa foi desafiada, foi convidado a participar de um congresso, em Paris, com os sábios da língua. Por engano, recebeu o convite para se apresentar na seção de tupi-guarani. A situação foi muito proveitosa e, como em muitas outras vezes, a sorte, aliada à sua autoconfiança, o fez voltar consagrado pelos jornais europeus, que mencionaram o banquete a ele “oferecido”, o qual ele mesmo financiou. Dos mestres ficou o retrato do ridículo, pois não foram capazes de desmascarar um espertalhão impostor.

O barão de Jacuecanga escutava as histórias inventadas por Castelo, como se ele estivesse lendo o calhamaço escrito em javanês. A sorte, sempre aliada à fé em si mesmo que o malandro tinha, fez com que, nesse ínterim, o barão recebesse uma herança inesperada. Convencido de que a leitura desse livro traria ventura à sua família, o barão admitiu o quão importante era esse homem que sabia javanês. O barão e seu genro conheciam o visconde de Caruru, que conseguiu colocar Castelo na carreira diplomática e, desse modo, ele se tornou cônsul do Brasil.

Até se tornar esse impostor que fingia ler o javanês, o mundo de Castelo era o das ruas de pensões pobres, onde aprendera a se especializar na malandragem. Saiu desse mundo dos bondes lotados para viver nos reconfortantes lugares frequentados pela burguesia bem-sucedida. Em todas as situações em que Castelo poderia ser desmascarado, o universo conspirou a seu favor. E todos os que se convenceram da sua notoriedade legitimaram suas ações e mentiras. O malandro está sempre preparado para alterar a percepção do outro sobre si mesmo. Tem firmeza no que faz e diz, e isso impressiona. Na ocasião da Segunda Guerra, Walt Disney criou um personagem para representar o Brasil e deu o nome de Zé Carioca. Era um papagaio desajeitado, pobre, preguiçoso, capaz de aprender tudo rápido e muito criativo para enganar e lucrar explorando os outros.

A obra denuncia o espaço que tem um farsante que, com a sua sorte, consegue enganar pessoas, as quais, no lugar de usarem a racionalidade, usam dogmas e encaminham-se para o fanatismo para, dessa forma, ninguém poder apontar e dizer “o rei está nu”.

Criamos ídolos para compensar nosso sentimento de incompletude. Esses ídolos não podem ter imperfeições para não comprometerem nossa autoestima já cambaleante. Um líder carismático que promete a felicidade a qualquer preço passa a ser uma figura sedutora para uma massa   desacreditada que vive o desemprego, a fome e a escassez de alimentos. Os fatos sucumbem ao fanatismo, e a adesão é cega. Não podemos enxergar aquilo que foge ao que esperamos para que nossas fraquezas não sejam denunciadas. Torna-se difícil conseguir um nível de consciência crítica suficiente para perceber a diferença entre o falso e o autêntico, pois essas pessoas, ao se unirem a seus pares, deixam de usar a razão e se aprisionam no fosso fundo das emoções.

Reduzir nossos ídolos a um malandro é tão doloroso que mergulhamos em nosso campo cego e encontramos explicações suficientes para apaziguarmos nosso espírito e continuarmos a defendê-lo. Nesse ponto, as mentiras dos “castelos” vão ficando consagradas a ponto de todos os atos deles que aparecem como imperfeições tornarem-se invisíveis, pois estas são nossas próprias imperfeições, que temos dificuldades em aceitar. Jung nos alerta que somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a se transformar a psicologia das nações.

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br/www.ijba.com.br