EU ACHO …

RACISMO À BRASILEIRA

Menos explícita, não menos perversa, a discriminação no país exibe a secular força dos senhores

O assassinato de George Floyd em Minneapolis serviu de gatilho para um a série de protestos em cidades dos EUA. Anos atrás, a morte do jovem negro Michael Brown, de apenas 18 anos, atingido em plena luz do dia por seis tiros disparados por um policial branco da cidade de Ferguson, no estado do Missouri, também tomou o país, transformando-o em um grande palco da luta racial.

Os protestos, na oportunidade, foram similares aos que acontecem agora, tendo início no local em que ocorreu a violência policial e ampliando-se para outras dezenas de cidades e estados dos Estados Unidos, causando grande repercussão internacional. Enquanto isso, no Brasil, um conjunto de outros casos semelhantes, como o do garoto João Pedro, de 14 anos, baleado no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro, não cria tamanha revolta popular, restringindo manifestações a grupos de ativistas e mantendo silenciosa a maioria absoluta da sociedade.

O que leva essas manifestações a acontecerem com tanta potência por lá e não alcançarem aqui a mesma comoção? Em princípio, é preciso pontuar as diferenças sociais entre os dois países, principalmente a forma de manifestação do racismo nas duas sociedades e a construção histórica desses formatos de discriminação.

Nos Estados Unidos, as violências raciais apresentam-se de formas muito mais diretas e contundentes – embora lá haja mais “permissões” do racismo sistêmico para que negros alcancem maiores níveis econômicos, marcadamente na música ou no esporte. Aqui, apesar de não ser menos violento o racismo, ele se apresenta de formas engenhosas, menos explícitas, adotando feições que o fazem ser escamoteado.

No geral, nas metrópoles brasileiras, o racismo dificilmente será manifestado com xingamentos violentos, como pode ocorrer em Nova York. Contudo, excluirá negros e negras da educação, do direito à saúde, à moradia, às terras e a uma série de instrumentos de bem-estar social. Fará com que sofram restrições, estejam em posições subalternizadas e os destinará à pobreza. Percurso inverso dos brancos brasileiros.

A abolição formal e inacabada do escravismo no Brasil fincou-se no abandono socioeconômico da população negra “liberta”. Parlamentares abolicionistas, entre eles o engenheiro negro André Rebouças, pautaram à época que, juntamente com a proibição do trabalho escravo, ocorresse reforma agrária em reparação à população negra, o que, como sabemos, não ocorreu até hoje, 132 anos após o “fim” da escravatura. A ausência de terra enquanto sinônimo de riqueza monetizada, apartou a população negra dos benefícios econômicos gerados pelo próprio trabalho.

Essa negação à ascensão econômica e social, que inclui todos os direitos aviltados dessa população, mitiga a capacidade do negro brasileiro em ecoar e comunicar o “racismo à brasileira”. Essa menor reverberação do racismo ocorrido no Brasil sinaliza que o capital branco-burguês opera de forma potente e perversa para silenciar os crimes por ele cometido – muito embora as estatísticas indiquem diferenças inversas em relação à dicotomia racista brasileira e estadunidense.

Os autores Frank Edwards, Hedwig Lee e Michael Esposito demonstram que a possibilidade de um homem negro ser atingido pela polícia, nos Estado Unidos, é 2,5 vezes maior daquela de um homem branco. No Brasil, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública informam que esse risco é cinco vezes maior. Esses números demonstram a importância de assinalar que o racismo é um conceito atrelado a uma relação de poder. Cria cenários sociais de constrangimentos e vulnerabilidades para os negros e de poder e segurança para os brancos. Ao passo que vivemos um processo de sistemática Negação do racismo, considerando que, por aqui, convencionou-se tratar as desigualdades raciais como uma questão social, estratégia que dá conta de ilustrar a fina sofisticação do racismo no Brasil. A disseminada ideia do racismo cordial e da miscigenação das raças dilacera a perspectiva identitária racial no País.

Do outro lado dessa dicotomia, nos Estados Unidos, devemos lembrar que, logo após a Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana, as tropas federais estacionaram nos estados do Sul para que a aristocracia branca não voltasse a escravizar os negros, até que se oficializasse a decisão de implantar o sistema de Apartheid, momento que fundou parte da identidade e da ideia de unidade nacional estadunidense, pois a oficialização da segregação racial permitiu unificar os brancos do Norte e do Sul.

Na sequência, em 1896, no caso Plessy vs. Ferguson, a Suprema Corte tomou uma decisão que originou a doutrina jurídica da lei constitucional dos Estados Unidos, denominada “Separados, mas “iguais”, que permitiu a segregação racial naquele país, desde que não se configurasse violação da 14ª Emenda, que garantia proteção e direitos civis iguais a todos os seus cidadãos.

No Brasil, os adventos da República e do “fim” da escravidão foram marcados por uma elite nacional usando de desfaçatez e ocultamento para tratar a questão dos libertos, manipulando a construção de conceitos de brasilidade, cordialidade e miscigenação, que ocultavam princípios de eugenia ancorados no que se viu elaborado, depois, como racismo científico. Tudo isso foi estratégia para mudar o regime de escravatura, mantendo a opressão sobre corpos negros. Além disso, o citado pós-abolicionismo sem garantias de direitos criou um abismo entre a população negra e a igualdade, que a democracia deveria garantir como básico.

A herança escravocrata vem se perpetuando pela história, sem reestruturação ou reparação. A fragilidade de nossas instituições tem raiz no período colonial, quando eram fortes apenas na metrópole. Nossa história foi sempre contada a partir das referências europeias. O Brasil nunca existiu enquanto nação. Somos apenas um esboço não terminado. A população negra, nesse contexto, é a base de exploração do capitalismo. Nossos corpos valem tanto quanto uma peça de máquina de fábrica. Se quebrar, o patrão repõe por outra, sem se importar em descartar a usada.

Por fim, o racismo em países do capitalismo periférico tem ainda mais força justamente pela forma cheia de desfaçatez que se apresenta. E aqui “a vida valerá sempre menos”. Logo, a morte de um brasileiro constitui-se como um “crime perfeito” e valerá sempre menos que a de um norte-americano ou europeu, mesmo que ele seja preto. Somos periferia, enquanto projeto de nação.

MARCOS REZENDE – é historiador, mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela UFBA e coordenador do Coletivo de Entidades Negras (CEN)

OUTROS OLHARES

FALÊNCIA DAS ESCOLAS

A redução nas receitas vira um desafio para as escolas públicas e privadas. Alunos e pais também são prejudicados com menos conteúdo e mensalidades que não diminuíram

O impacto da Covid-19 nas finanças de escolas privadas e públicas revela a fragilidade do sistema de ensino brasileiro, mostram diferentes pesquisas. Estudo da ONG Todos pela Educação e do Instituto Unibanco sobre despesas e receitas em 22 redes de educação estaduais — compreendendo 95% das unidades do País — revela perda estimada em até R$ 28 bilhões neste ano. O montante vai depender do resultado da arrecadação de tributos vinculados à manutenção e ao desenvolvimento da Educação, basicamente ICMS e ISS, além de fundos municipais e estaduais. Além disso, os gastos adicionais com adaptação das unidades ao ensino à distância já somam quase R$ 2 bilhões.

Outro estudo, feito pela startup de análise de dados Explora, mostra que 50% das famílias com filhos matriculados em instituições privadas de pequeno e médio porte não serão capazes de manter seus filhos na escola se a situação atual de pandemia permanecer. “Metade das crianças matriculadas deixarão de estudar em escolas privadas e buscarão uma vaga no ensino público”, avalia Tadeu da Ponte, professor do Insper e criador da Explora. “A escola pública não tem como absorver os novos alunos. Já seria uma situação incompatível mesmo sem a perda na arrecadação”, alerta. Alguns pais se queixam que precisam manter as despesas altas com educação mesmo que as aulas dos filhos tenham se tornado virtuais e com carga horária reduzida. Os alunos também vivem um momento de incerteza, já que precisam se adaptar e não sabem como se concluirá o ciclo escolar. E as escolas também vivem um desafio. Entre as 482 escolas privadas de pequeno e médio porte pesquisadas pela Explora, em 83 cidades do País, a receita média caiu 52% com a pandemia. “Estamos usando recursos próprios para sobreviver e mantendo uma relação aberta e clara com as famílias, negociando tudo que é possível”, disse Renata Leone, dona e diretora da Criar-Te, berçário e escola de educação infantil. Há 28 anos na capital paulista, a instituição perdeu apenas três alunos, mas luta contra as despesas que não diminuíram. “Famílias e escolas não são inimigas, ambas somos vítimas dessa situação”, avalia Renata.

SEM DIÁLOGO

No Rio, a ADM Máster, escola tradicional do Méier, já pediu empréstimo ao BNDES para honrar a folha de pagamento dos professores e funcionários. “Estamos todos com problemas, então seria um tiro no pé dizer ‘não’ aos pais que buscam descontos nas mensalidades”, disse a diretora pedagógica Adriana Leite Silveira. “Passamos 24 horas por dia renegociando.” Um consultor do setor imobiliário, que pediu para não ser identificado, entrou na Justiça contra a escola do filho, uma instituição tradicional em São Paulo. “Como perdi renda, solicitei um desconto, mas eles se recusam a conversar. Falta bom senso. Uma coisa é não querer pagar, outra é não poder pagar.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE JUNHO

O FULGOR DA NOVA JERUSALÉM

… Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro (Apocalipse 21.9b).

O apóstolo João foi chamado para ver a Noiva do Cordeiro, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém. A figura da noiva e da cidade se inter-relacionam. Essa cidade gloriosa tem características singulares. Primeiro, é bonita por fora, pois a glória de Deus esparge sua luz sobre ela. Segundo, é bonita por dentro, pois no seu fundamento há doze tipos de pedras preciosas. Terceiro, é edificada sobre o fundamento dos apóstolos, ou seja, sua estrutura repousa sobre a verdade de Deus. Quarto, sua praça é de ouro puro, como de cristal transparente, ou seja, nela não há nada poluído. Quinto, é uma cidade aberta a todos, pois há portas desobstruídas para o norte e para o sul, para o leste e para o oeste. Na cidade santa entrarão aqueles que procedem de toda a tribo, povo, língua e nação. Sexto, não é uma cidade aberta a tudo, pois nela não entrará nada contaminado. Os pecadores remidos pelo sangue do Cordeiro entrarão por suas portas, mas o pecado não terá acesso a ela. Mui frequentemente, as igrejas de hoje são abertas a tudo, mas não a todos. Franqueiam suas portas ao pecado e fecham-nas aos pecadores. Sétimo, é suficientemente espaçosa para abrigar todos os que creem. As dimensões dessa cidade são únicas. Ela mede 2.400 km tanto de comprimento, quanto de largura e de altura. Mesmo sendo essas medidas tomadas de forma simbólica, descrevem que na Casa do Pai há muitas moradas, suficientes para abrigar todos aqueles que creram em Jesus.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER DA LINGUAGEM

Não há dúvida nenhuma quanto à importância do processo comunicativo dentro das instituições. uma falha nesse processo pode gerar sérias consequências

Um ambiente que deveria ser totalmente à prova de erros na comunicação é o da saúde. Quando um profissional de saúde comete um erro de entendimento de alguma comunicação sobre procedimentos com os usuários, o resultado final pode ser fatal.

Clarificar a comunicação é a regra geral e deve ocorrer de duas formas:

1) DA PARTE DO RECEPTOR DA MENSAGEM: o que não foi entendido deve ser perguntado ao interlocutor;

2) DA PARTE DO EMISSOR DA MENSAGEM: se não tem certeza de que o outro entendeu, peça para ele repetir o que foi dito. Simples e fácil. O grande dilema é que as pessoas que não são habituadas à clarificação temem serem taxadas de burras ou incompetentes pelos seus companheiros de equipe. Para diminuir essa rejeição comportamental e ampliar a adesão aos protocolos de uma comunicação segura, é necessário um bom investimento em treinamentos com dinâmicas de impacto.

Alguns setores levam esses procedimentos bem a sério e, mesmo assim, falhas ocorrem. Os controladores de voo, por exemplo, possuem verdadeira obsessão por uma comunicação bem estruturada. Afinal, pior ainda que no ambiente da saúde, falhas desses profissionais podem resultar em catástrofes monumentais com centenas de vítimas fatais.

Nos diversos perfis de atendimento ao cliente, uma regra também é geral: todos querem ser bem atendidos em qualquer que seja o ramo de atuação ou tipo de relacionamento. Assim, usar de estratégias na condução das palavras faz toda diferença nas trocas que ocorrem entre as partes envolvidas no processo. Saber conduzir o outro com uma boa estrutura frasal é algo exigido de todo e qualquer elemento que deseje alcançar sucesso em sua atividade.

O dr. Milton Erickson, atuante na década de 1970, pai da hipnose ericksoniana, traz esse processo comunicacional a um nível capaz de moldar uma sessão psicoterápica tornando-a única para cada paciente. Na modernidade, várias personalidades elaboraram influentes textos sobre esse mecanismo fantástico que, quando incluído no cabedal linguístico, pode transformar as fortes emoções reinantes em conflitos numa tranquila conversa entre duas pessoas.

Steve Allen, autor de vários livros sobre persuasão, explora esse tema em seu livro Persuasão e Influência. A forma como o emissor estrutura o conteúdo, como conduz as palavras positivamente, pode auxiliar de maneira significativa a interpretação do receptor, tocando-o em nível subliminar e causando grande empatia. Muitas vezes conduzindo a pessoa a efetuar uma ação, indicada pelo emissor, sem que o mesmo se dê conta disso. A condução ao resultado esperado, de forma estrategicamente feita, não é um truque ou ato ilegal, trata-se de uma comunicação de excelência que sintetiza a real intenção da organização. Ninguém fará nada ou adotará posicionamentos contra sua vontade, mas, com uma conversação plena de conteúdos significativos para o receptor, o resultado sempre é melhor para os envolvidos.

Não são palavras mágicas ou encantamentos, apenas uma forma quase artística de colocar a argumentação em um tom mais aceitável para o outro em meio aos conflitos que podem existir quando ocorrem posicionamentos antagônicos. Vejamos alguns exemplos:

1- COMEÇAR A FRASE QUE SOLICITA UMA AÇÃO COM: “O senhor poderia…?”. Um pedido que, na verdade, indica o que deve ser feito. No entanto, a frase em tom respeitoso ainda deixa uma breve possibilidade para a negação, o que dá certa liberdade ao receptor.

2- CASO SEJA UMA NEGAÇÃO A UMA POSSÍVEL AÇÃO FUTURA DO OUTRO: “O senhor não deveria…”; “Não é necessário que…”. Sem impedir diretamente a possível ação futura do outro, esse início de argumentação não causa um conflito direto. O emissor deve sempre apresentar uma outra possibilidade alternativa para a possível atitude que o receptor deseja adotar.

3- CRIAR PROSPECÇÃO DE UM CENÁRIO POSSÍVEL: “Como seria se..?.”. Provocar a criação de um cenário imaginado com uma solução à demanda apresentada traz alívio imediato ao conflito em curso. Mesmo se essa solução ainda não for possível, trazer o outro a um nível mais confortável ajuda na elaboração de soluções reais e plausíveis.

4- DEVOLUÇÃO DA PERGUNTA EM NOVO TOM: “De que forma acha que deve ser feito…?”. Coloque a construção da solução para o conflito na responsabilidade do outro. Assim, por pior que possa se apresentar a finalização solicitada por ele, você ganha tempo para pensar ou, se for o caso, adequar a proposta apresentada por ele para uma realidade possível.

As empresas que investem nesse singular perfil de treinamento com seus atendentes possuem   uma forte aderência de seus usuários. Uma vez adquirida a capacidade de usar as palavras certas, direcionando o interlocutor para uma solução confiável, mesmo que em tempo incerto, elas   ganham respeito e confiança. Sempre colocando a ética em primeiro plano e respeitando as legislações vigentes – Código do Consumidor – qualquer perfil de empreendimento só tem a ganhar com uma comunicação estruturada.

JOÃO OLIVEIRA – é Doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções!; Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UM ALERTA SOBRE O ESTRESSE

Com o ritmo imposto pela vida moderna cada vez mais as pressões psicológicas geram desequilíbrio emocional e oferecem risco de doenças físicas que acabam afetando a saúde

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está alertando há algum tempo sobre como o estresse dos tempos modernos tem alterado o bem-estar geral da população. Em dados atuais, a doença depressiva passou da quarta para a segunda posição entre os problemas que retiraram a capacidade de trabalho das pessoas no ano de 2016. Antes, ela vinha atrás das doenças cardíacas, câncer e acidentes. Contudo, a previsão é que seja a primeira da fila em 2030.

A depressão tem sido, assim, um grande fator que contribui para uma vida sem qualidade, de aumento de doenças autoimunes, bem como para o câncer. Infelizmente, é uma realidade dura.

O fato é que as pessoas lutam cada dia mais para ganhar seu dinheiro e sustentarem suas casas. Afinal, as mudanças no mundo têm gerado mais e mais insegurança financeira e, com ela, têm arrastado a população a um verdadeiro colapso de tanto trabalhar, estudar, cuidar de filhos e se desdobrar para ter sucesso nessa vida maluca e atribulada.

Foi-se o tempo em que as pessoas iam para casa almoçar e descansavam após o almoço, tirando uma soneca gostosa. O expediente terminava pontualmente às seis da tarde. Hoje, o que se vê? Uma correria desenfreada atrás de mais habilidades, mais trabalho, mais dinheiro e tantas outras coisas.

Já não se sabe por que se trabalha: porque é preciso pagar contas e ter o que comer? Ou porque o consumismo provoca o acúmulo de contas que faz com que se trabalhe mais? Essa pressão acaba gerando um desequilíbrio emocional muito grande. Um corpo sob pressão, sob estresse emocional, gera a produção de neurorreguladores prejudiciais: a noradrenalina e o cortisol. Sendo liberados em quantidades muito maiores do que deveriam, essas substâncias desencadeiam desgaste físico e pioram o estado emocional. Assim, cria-se uma bola de neve.

Vale a pena repetir: quanto mais as pessoas se esforçam e desenvolvem atividades além do possível, mais elas vão produzir noradrenalina, que diz ao cérebro e ao corpo que se está em perigo. O corpo, então, aumenta a produção do cortisol e aí começa o desgaste físico maior. As doenças aparecem, a imunidade diminui.

No cérebro, o aviso dado pela noradrenalina provoca mais estresse nas pessoas, desequilibrando a liberação dos outros neurotransmissores, o que deixa os indivíduos ainda mais nervosos, deprimidos ou tensos. Uns terão compulsão alimentar, ou vícios em drogas; outros ficarão mais irritados com os seus familiares ou no trabalho. A bagunça geral se instala.

Como alguém pode gerar uma vida equilibrada vivendo assim? Como alguém pode ganhar seu dia e seu dinheiro estando esgotado, tenso e perdendo a alegria de viver? O que fazer?

Aprender que o menos faz mais! Sim, essa é uma verdade. Uma cabeça descansada consegue aprender melhor, ter mais criatividade e até render mais no trabalho. Muitos estudos nessas áreas vêm sendo feitos pelos pesquisadores da Psicologia Positiva.

O mais interessante que descobriram é que aquele tempo que se gasta com uma distração ou interrupção desnecessária toma, em média, de cinco a sete minutos para se recuperar o tempo perdido e se engajar no mesmo ritmo anterior. Isso vale para o tempo gasto em navegar pela internet, ver e-mails toda hora, responder WhatsApp o tempo todo, olhar coisas no Instagram ou mesmo telefone, conversas fora de hora. Que horror, não é mesmo?

Será que a maioria das pessoas já pensou nisso? Quanto tempo se perde num dia por ficar olhando mídias sociais ou e-mails no celular ou no computador a toda hora? É muito! Com isso, perdem-se horas de lazer, de brincar com o filho, de ir ao cinema ou de bater um papo ao vivo, em tempo real, com um amigo. Essas são coisas que verdadeiramente agem em benefício da saúde física e mental.

LONGEVIDADE

Psicologia Positiva estudou as pessoas mais felizes e otimistas e viu que elas são, em média, oito anos mais longevas. Que têm relacionamentos mais duradouros, que são mais criativas e fazem mais sucesso em seu trabalho.

Nesse momento, cabe a pergunta: será que as pessoas não querem ter mais saúde, ser mais longevas, ter bons relacionamentos e fazer muito mais sucesso? A grande pegada está em fazer o que as pessoas mais felizes e positivas fazem. São premissas tão simples. Mas, geralmente, alguns as tomam como coisas tão triviais que não prestam atenção no quanto são importantes.

Um dos principais exemplos disso é ser grato. A gratidão tem sido um tema insistentemente incentivado na mídia e na autoajuda nos últimos tempos. Faz todo sentido, porque é uma verdade. As pessoas mais agradecidas têm a capacidade de focar no que funciona, no que é melhor, no belo.

Aqui vão duas dicas importantes. A primeira é seja grato por tudo o que acontecer em sua vida, mesmo que sejam obstáculos, sofrimentos e perdas. No sofrimento, a vida nos ensina a valorizar as mínimas coisas. Assim, após passar por situações dolorosas, as pessoas que são mais positivas saem mais fortalecidas e agradecem o fato de terem que lutar para ver exatamente o que havia de bom em suas vidas. Descobrem que são apreciadores das pequenas coisas, das maravilhas que o universo oferece.

A segunda dica é: fazer um diário de gratidão. Quando a pessoa começar a colocar no papel, todos os dias, algumas coisas boas que aconteceram naquele dia, certamente passará a olhar mais para os pontos positivos que rodeiam seu dia. A ideia é focar no que funciona e apreciar o belo nas pequenas coisas. Ficar mais generoso, mais feliz, mais calmo. Então, a ordem é se animar. Começar a ampliar o positivo que está em volta. Ver nos detalhes quantas coisas boas acontecem diariamente.

Outro fator importante é o exercício físico. Certamente, todos já tomaram contato com a informação de que quem faz exercício físico, além de ter mais longevidade e melhor saúde, torna-se uma pessoa mais alegre e mais calma. Além disso, exercitar-se previne demências, AVC, ataques cardíacos, osteoporose e doenças crônicas autoimunes. Então, não há desculpa para não se animar.

Em troca de todos esses ganhos, a pessoa só precisa se levantar do sofá e sair fazendo. E, claro, agradecer por ter saúde ainda para fazer isso, pois pode perdê-la em breve. Ao fazer o exercício físico, o indivíduo abre mais arteríolas por todo seu organismo. Com isso, melhora a irrigação de todos os tecidos.

É imprescindível pensar nisso. É um bom negócio: garantir a saúde por poucas horas de treinamento. Se não der conta, a pessoa deve apenas aprender a sair andando por aí, que sejam 20 minutos a pé, observando o bairro, observando a vida.

Rituais também são importantes. Se a pessoa quiser mesmo ter uma vida mais saudável, precisa se habituar com uma vida com regras. Comer bem e saudavelmente, ter hora para se exercitar ou caminhar. Nada como criar pequenos rituais. Aos poucos, o indivíduo se acostuma com eles e vai ganhando autonomia.

Adotando rituais, todos conseguem fazer o tempo render em muitas atividades saudáveis que passam a fazer parte do dia naturalmente. A dica aqui é começar devagar, um novo ritual por mês.

Que tal começar dormindo meia hora mais cedo? Ou comendo de três em três horas? E, depois, que tal colocar um exercício bem tranquilo duas a três vezes na semana? Tudo aos poucos.

Dormir mais cedo é muito simples de fazer. A pessoa deve tentar dormir meia hora antes por mês. Infelizmente, a cada dia, dorme-se mais tarde para ler um e-mail, ou para ver seu grupo numa rede social, ou para fazer mais um trabalho e ganhar um dinheiro extra. Será que vale a pena? O ser humano produz serotonina, importante neurorregulador cerebral, apenas durante o sono da noite, no escuro. Quem deixa para dormir de madrugada poderá se deprimir em breve, pois não vai fabricar a quantidade de serotonina necessária. Depressão, nervosismo, irritabilidade são consequências de noites mal dormidas. Depois virão consequências maiores, como doenças graves e crônicas.

Mais uma dica é trabalhar menos e produzir mais de forma bem focada, utilizando a regra 80/20: utilizar 20% do seu tempo, em sua hora mais produtiva do dia, para fazer 80% do seu trabalho. Ou seja: o seu melhor, na sua melhor hora, em menos tempo. Essa é famosa regra Pareto, derivada do estudo de que apenas 20% da população estudada concentravam 80% das riquezas.

Aplica-se essa regra, 80/20, por exemplo, à produtividade no trabalho. Muitas empresas vêm adotando um sistema em que seus funcionários podem escolher seu melhor horário de desempenho para ir trabalhar. Outras liberam os funcionários para que trabalhem em casa em seu melhor horário. E muitas já estão mandando seus funcionários trabalharem apenas em casa, de forma “remota”, pois ficam mais criativos e rendem muito mais. Estando felizes, criam melhor. Dividem melhor seu tempo, trabalham mais focados.

Aqui se encontra um ótimo remédio para males da mente e do corpo. A cada dia, mais pessoas se tornam adeptas da meditação e da yoga como práticas saudáveis que conduzem ao equilíbrio da razão e da emoção. Simples de entender! Pesquisas feitas com monges budistas que meditam diariamente e pessoas que fazem yoga mostraram que eles têm maior atividade cerebral no lobo pré-frontal esquerdo, área da razão e da calma, enquanto aquelas pessoas mais ansiosas ou deprimidas têm seu lado direito pré-frontal mais ativado.

PRÁTICAS QUE AJUDAM

Após um experimento fazendo meditações com pessoas depressivas ou ansiosas, viu-se que elas tiverem diminuída a atividade do lado direito (emocional) e aumentada a atividade do lobo pré-frontal esquerdo que comanda a razão e o equilíbrio emocional. Espero que todos queiram meditar a partir de agora. E, caso a pessoa seja do tipo que diz que não consegue meditar sozinha, é aconselhável procurar uma aula de yoga.

Seja qual for o jeito do indivíduo, é fundamental que ele medite. Buscar formas de meditar todos os dias. Pode começar aos poucos, cinco a dez minutos por dia. Há tantas maneiras de meditar. Não é preciso ficar em posição de yoga, com pernas cruzadas. Pode fazer apreciando a natureza, respirando fundo, deitado, assentado, vendo uma bela vista ou somente fechando olhos. Não é preciso repetir mantras que muitos acham monótonos. Apenas deve respirar, parar e apreciar o momento presente. Ficar parado, deixando a respiração levar a pessoa, observar cada detalhe e se deixar ficar.

Agora, vale lembrar sobre os questionamentos sobre o significado de vida. Se há um fator desencadeante de estresse e desequilíbrio mental é obrigar alguém a fazer aquilo de que não gosta ou para o qual não tem aptidão. É preciso descobrir o que se gosta de fazer, o que se tem a habilidade maior, o talento. Unindo essas duas forças – o que se faz bem-feito com o que se gosta de fazer – uma pessoa pode trabalhar por horas sem perceber, se deixando levar junto com o que faz, totalmente engajada. Isso se chama fluir.

Por isso, dar um propósito à vida seria trabalhar de forma a se sentir uno com o que faz. A pessoa se sente feliz e trabalha melhor. Traz alegria, criatividade e bem-estar. Então, o que é mesmo que faz alguém mais saudável? Ter paz, ter alegrias. O trabalho tem seus obstáculos e dificuldades. Mas se o indivíduo trabalhar com um significado de vida, se trabalhar com prazer usando o respectivo talento, terá mais chances de ter uma vida mais equilibrada e de lidar melhor com o estresse.

Depois disso, uma vez que a pessoa já tem um sentido para viver, precisa estabelecer metas que possam ser atingidas. Muitas pessoas se estressam porque querem dar conta de muito mais do que podem. Ou impõem para si metas inatingíveis. Por isso, sofrem e muito. O ideal é pensar na possibilidade de alcançar o sonho, atingindo pequenas metas e construindo o desejo aos poucos.

Um sonho pode ser realizado se for bem dimensionado e dividido em metas realizáveis. Isso retira da pessoa muito estresse e desequilíbrio. E, ainda, deve-se permitir fazer aos poucos. Melhor é estar feito do que muito bem feito! Começa aqui uma nova meta, fazer o que se dá conta. Nada de querer que tudo seja perfeito, isso só traz mais estresse e procrastinação, quando não mais frustração.

Outra dica relevante é a permissão para ser humano. É fundamental permitir-se ser humano e até mesmo fracassar algumas vezes. Isso é normal. Permitir-se sentir tudo, até raiva, tristeza e medo. Todos são seres humanos, sofrem também. Mas não é para cultivar sentimentos negativos! Simplesmente deve-se parar e observar. Se ficar só pensando no negativo, a pessoa está alimentando raiva, tristeza e medo. O importante é apenas sentir e deixe ir.

Relembrando, é preciso aprender a meditar, se limpando dos sentimentos com os quais não pode lidar agora. Raiva faz muito mal. Aumenta a produção de cortisol, que leva muitas horas para se desfazer. Cortisol ativado diminui a imunidade e acarreta mais doenças físicas.

Todos já devem ter ouvido falar que falhar faz parte de ser humano e faz parte do aprendizado da vida. Quem nunca errou, mas depois acertou, exatamente porque houve um erro e com ele aprendeu muito? Então, é preciso observar de perto os respectivos erros e analisar o que aprendeu com eles.

Fazer é o verbo da saúde e da alegria. Quem quiser ficar mais alegre deve fazer. Fazer tudo o que estiver programado. Esforçar-se para colocar a vida em dia. “Fazer” é o verbo que coloca a pessoa em ação. E quando, então, se começa a colocar a vida em dia, a tendência é ficar mais alegre e cheio de energia. A criatividade aumenta. Dessa forma, a pessoa observa que dá conta e cria mais energia a cada passo dado na direção do fazer. Um sonho realizado foi algo realmente feito.

PAUSA

Chega o momento em que a saúde pede pausa e alegria. Pois é!

Assim, depois do dever cumprido, todos precisam da pausa, do descanso, do brincar. Por isso é necessário gastar tempo em família e com as pessoas de quem se gosta. Rir juntos, viajar juntos, ter almoços de família, de amigos. Tudo isso faz parte de uma vida saudável.

Mas o que tem acontecido hoje em dia? Pais não têm tempo, pois trabalham até sábado e domingo ou até muito tarde. Quando chega o fim de semana, estão exaustos e se deitam no sofá. Triste! É preciso prestar atenção e ver se todos estão mesmo tendo tempo de descansar.

Pois bem. A conclusão é que é imprescindível ter uma vida mais equilibrada e saudável, pautada em fazer as coisas mais simples por mais tempo na vida. É preciso parar, pensar e se autoquestionar: Está muito cansado? Está dormindo mal? Está nervoso com as pessoas que mais ama? Cuidado! É fundamental dar-se tempo, diminuir a quantidade de horas de trabalho, divertir-se mais, fazer exercícios físicos e permitir-se realmente viver, não apenas sobreviver.