EU ACHO …

O ESPELHO DO ADOECIMENTO

Atualmente é praticamente impossível refletirmos a relação humana distante do âmbito da cibercultura, pois o que antes era considerado possibilidade de conexões, agora é a estrutura de sociedade na qual estamos mergulhados

Redes sociais. O que pode ser compreendido em relação a essas duas palavras? O primeiro pensamento que possivelmente surge na mente do leitor é a relação com a internet. Instagram.   WhatsApp, Facebook. Essas três redes sociais, cujo dono é o mesmo, são as principais mencionadas nos consultórios de Psicologia. Porém existem diversas outras que crescem constantemente em   diversos campos: música, fotografia, empreendedorismo, trânsito, dentre outras. Porém, qual o papel dessas redes? E quais as preocupações da Psicologia Clínica em relação a elas?

Inicialmente é relevante mencionar que cada vez mais evidências na literatura científica demonstram que o mau uso desses recursos tecnológicos está atrelado ao campo psicopatológico, especialmente no grupo de adolescentes. A grande parcela dos pacientes que chegam aos consultórios de psicoterapeutas, com a queixa inicial relacionada ao uso de tecnologia, apresenta problemas vinculados ao excesso na utilização de redes sociais. Considera-se que essas redes são indispensáveis, porém, além do uso excessivo, muitas vezes esses jovens utilizam diversas redes sociais de forma simultânea. Estudo realizado em Hong Kong com 384 estudantes demonstrou essa   relação problemática entre redes sociais e desempenho acadêmico. Nessa pesquisa foi demonstrado que utilizar as redes sociais para fins acadêmicos não causa prejuízos nas notas, mas usá-las para outros fins está diretamente relacionado a um mau desempenho acadêmico. A grande questão é: qual é o quantitativo, no Brasil, de jovens que utilizam essas redes para a aprendizagem e quantos as usam como diversão ou escapismo de problemas do cotidiano? Utilizando a experiência de consultório, os dados seriam inevitavelmente trágicos.

Outro estudo relacionado ao uso das redes sociais verificou, em uma amostra de 253 estudantes que utilizam Instagram e Snapchat, que os usuários que mais usufruem dessas redes apresentam sintomas mais predominantes de solidão. Esse tipo de informação ressalta aquilo que constantemente é mencionado nesta coluna: a nova configuração social de pessoas que estão se transformando em ilhas. Essa informação é preocupante, pois em alguns momentos a impressão  que fica é que mesmo conscientes das problemáticas relacionadas a esse uso nocivo, os jovens  ainda não estão considerando mudar suas atitudes, comumente justificando com os pensamentos  a seguir: “meus colegas fazem o mesmo”, “não terei um mau desempenho acadêmico devido ao   uso das redes sociais”, “não há nada mais interessante para fazer” ou “se eu não ficar nas redes  sociais estarei desligado do mundo”. Apesar do crescente número de estudos que sugerem uma reflexão sobre o tema, ainda não é perceptível uma real mudança nesse uso excessivo de tecnologia. Dessa forma, surge uma pergunta: qual seria a melhor estratégia para reverter esse comportamento disfuncional? A resposta mais óbvia pode ser a psicoterapia, porém nem todos conseguem alcançar os consultórios, o que é preocupante.

Pesquisadores sugerem que com o aumento de tempo despendido nas redes sociais há, concomitantemente, um aumento da ocorrência de transtorno depressivo maior e ansiedade nessa população. As checagens constantes e o usufruto relacionado ao escapismo, associados a uma autoestima comprometida, são os fatores etiológicos mais discutidos.

Os autores desse estudo afirmam que quanto mais redes sociais os participantes possuem, maior o nível de ansiedade; alguns utilizam ao menos onze redes distintas, o que é um número expressivo. Preocupados com esse fenômeno, pesquisadores desenvolveram a The Social Media Disorder Scale, um instrumento de mensuração de uso patológico de redes sociais. Essa escala de nove itens foi testada em uma amostra de 2.198 adolescentes holandeses, entre 10 e 17 anos, apresentando uma validade estrutural sólida, consistência interna adequada e boa estabilidade no teste-reteste. Instrumentos relacionados a esse fenômeno são úteis na avaliação de pacientes que chegam em consultório com essa queixa.

Por fim, deixo algumas questões para reflexão: como está o seu uso de redes sociais? É perceptível um aumento na utilização? Existe, na sua opinião, algum tipo de situação de que tenta escapar através do uso dessas redes? O primeiro ponto para a modificação de padrões cognitivos disfuncionais é estar ciente deles.

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com

OUTROS OLHARES

O INIMIGO MORA AO LADO

Com todos os moradores passando dia e noite dentro dos prédios, o que era simples chateação virou um grande incômodo, com sucessivas brigas entre vizinhos

Som alto, reformas, crianças correndo, pessoas batendo papo na varanda são situações que sempre incomodaram quem mora em prédio. Mas uma coisa é ter de aguentar o incômodo durante um fim de semana. Outra, muito diferente, é passar o dia inteiro com ele. Prédios, pela própria definição – várias famílias morando sob uma mesma laje, pertinho umas das outras -, foram planejados para gente que sai de manhã e volta à tarde, cortando pela metade a convivência cotidiana. Quando a quarentena imposta pelo novo coronavírus juntou todo mundo em casa 24 horas por dia, sem poder sequer relaxar na piscina e no playground, o que era terreno pacífico (ou quase) virou zona de conflito. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, as reclamações entre vizinhos chegaram a triplicar nos últimos três meses, segundo dados coletados pela Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC) e pela carioca Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi). Para o antropólogo Roberto DaMatta, a agravante maior das irritações é o fato de moradores que antes apenas se esbarravam nos corredores e elevadores agora perceberem ativamente a presença uns dos outros – e os supostos defeitos de parte a parte. “Discordar é uma arte que se pratica aprendendo a conversar com gente que não conhecemos bem”, filosofa.

A grande maioria das queixas registradas pelas administradoras de prédios é, como se sabe, relacionada ao barulho em geral e a obras não essenciais em particular. Mais típicas da vida em pandemia são as reclamações de circulação sem máscara em áreas comuns e das aglomerações na forma de festas e pequenas reuniões. Além dos sapatos no corredor – o hábito de removê-los antes de entrar no apartamento, para não carregar o vírus junto, resulta em fileiras de calçados do lado de fora da porta, para desgosto de muitos. No caso da professora Andrea Muner, de 43 anos, o mote para a discussão com uma vizinha foi ela querer entrar sem máscara no elevador do seu prédio no Parque São Domingos, Zona Norte de São Paulo. “Ela não gostou, mas deixei claro que estava errada e puxei a porta”, conta Andrea, que estava acompanhada da filha de 9 anos. Informado sobre o caso, o síndico implantou multa para quem circular com o rosto descoberto nas quatro torres do condomínio. “Agora todos estão obedecendo, mas é uma pena que precise haver esse desgaste todo”, diz Andrea.

O melhor a fazer para desatar nós entre vizinhos é buscar um acordo na base do diálogo, sem precisar envolver a administração dos edifícios – este um caminho certo para que o perrengue se eternize. Pelo mesmo motivo, chamar a polícia ou autoridades da saúde, só em último caso. “Os conflitos durante a pandemia mudaram. Vemos agora uma série de pequenas irritações que podem ser resolvidas com um ajuste fino”, afirma o advogado especialista em condomínios Márcio Rachkorsky, síndico profissional de mais de 200 condomínios. A vida, que já era dura, complicou ainda mais. A publicitária Raquel Esper, de 29 anos, se mantém quietinha até agora, mas está tendo de se controlar para conciliar o home office com os barulhos do dia a dia no prédio no bairro Funcionários, em Belo Horizonte. “Encontre algumas soluções próprias, como tampão de ouvido, ouvir música e deixar tarefas que requerem mais concentração para o fim da tarde e noite” explica, ao resumir o que já virou chavão: o “novo normal”.

Nem sempre, porém, o jogo de cintura resolve. O som do barulho do cachorro correndo no andar de cima, que nunca atrapalhou, vira tortura quando tem de ser ouvido o dia todo – mas vai convencer a dona do bichinho, praticamente parte da família, a prendê-lo na área de serviço. A administradora de empresas Lara Camargo, de 26 anos, preferiu escrever uma reclamação formal à direção de seu prédio, na Vila Buarque, no centro da capital paulista, quando o vizinho de porta passou a realizar encontros com amigos no apartamento todo fim de semana. “O pior era o risco de ter estranhos circulando nos corredores. Muitos idosos moram aqui. Mas não quis entrar em conflito com pessoas que vejo constantemente”, diz.

A organização de festas e reuniões com convidados é desaconselhada durante a quarentena, para evitar aglomerações desnecessárias. No Guarujá, litoral de São Paulo, caso semelhante foi parar na Justiça e rendeu uma rara sentença de despejo aos responsáveis. Inquilinos de dois apartamentos de um condomínio na Praia da Enseada Foram expulsos por promover festas, às vezes com mais de trinta pessoas e, usar áreas sociais interditadas, como a piscina. O caos no Condomínio Golden Sun resultou em quase três meses de reclamações constantes, notificações, aplicação de multas e até mesmo intervenção policial. “Além da música alta, eles gritavam e atacavam os funcionários que repassavam as queixas”, diz Sebastião Saar, vizinho dos encrenqueiros. “Quando as ações contra os inquilinos não funcionaram, o proprietário dos imóveis acabou responsabilizado. “Foi ele quem deu início ao processo”, conta o advogado responsável pela acusação, Caio Mário Fiorini Barbosa. Fica o alerta: nestes tempos de quarentena, em briga de vizinho todo mundo se mete. O melhor mesmo é respirar fundo e evitar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE JUNHO

UM RAMO FRUTÍFERO JUNTO À FONTE

José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus galhos se estendem sobre o muro (Genesis 49.22).

José era filho de Jacó e neto de Abraão, tipo de Cristo. Foi íntegro na adversidade e na prosperidade. Andou com Deus nas sombras espessas do sofrimento e na luz aurifulgente da notoriedade. Sua vida foi resumida de forma magistral: José é um… ramo frutífero junto à fonte; seus galhos se estendem sobre os muros. Três verdades são destacadas aqui. Em primeiro lugar, José tinha uma vida abençoadora. Ele era um ramo frutífero. Sua vida não era estéril; dava frutos com abundância. Sua presença era abençoadora como escravo e como príncipe. Segundo, José tinha uma vida de intimidade com Deus. Ele era um ramo frutífero junto à fonte. O poder que impactava as pessoas não vinha dele próprio, mas de Deus. Era um homem influenciador, porque se abastecia da fonte, que é Deus. Era um abençoador, porque vivia em comunhão com Deus, a fonte de toda bênção. Finalmente, José tinha uma vida de larga influência. Ele era um ramo frutífero que estendia seus ramos para além dos muros. Era bênção dentro e fora de casa, em seu país e no estrangeiro, como escravo e como governador. Não eram as circunstâncias que determinavam sua vida. Não era influenciado pelo meio, mas influenciava o meio. Mesmo sendo alvo de injustiças e perseguições, ele se manteve íntegro. Mesmo passando treze anos de sua juventude como escravo e prisioneiro, conservou-se fiel. Mesmo quando elevado à posição de governador do Egito, persistiu em humildade.

GESTÃO E CARREIRA

A NOVA CARA DA B3

A bolsa de valores tem crescido com a chegada de investidores mais jovens, com menos recursos para aplicar e sem medo da volatilidade. Juros baixos e plataformas de investimento acessíveis explicam o fenômeno que levou ao recorde de 2 milhões de pessoas físicas a participar do mercado de ações.

Morador do município de Arujá, na Grande São Paulo, Matheus Martinez, 22 anos, está alguns passos à frente da maior parte dos jovens da sua idade.

Engenheiro formado pelo Instituto Mauá de Tecnologia, ele tem investido desde março uma parte de seus recursos na bolsa de valores, a B3. A escolha de Martinez ilustra um fenômeno que se acelerou recentemente: o aumento do número de pessoas físicas investindo em ações. Somente no mês de março, 300 mil indivíduos chegaram ao mercado de capitais. Desse total, 220 mil investiram pela primeira vez na vida em ações.

O restante já havia feito aportes em algum momento e retornou às negociações.

Esse movimento coincidiu com o período de maior pânico, com queda acentuada dos preços dos papéis e o acionamento por seis vezes do circuit breaker — a parada temporária das transações que ocorre quando o Ibovespa cai 10% em um dia. Com isso, a B3, que havia alcançado em julho do ano passado a marca de 1 milhão de investidores, passou a ter, desde abril deste ano, precisamente o dobro: 2 milhões de pessoas físicas detentoras de produtos de renda variável. Desse total, cerca de 60% têm entre 19 e 39 anos.

O aumento na quantidade de investidores trouxe, assim como mudanças no perfil etário e social de quem aplica seu dinheiro na B3, alterações em alguns dados estatísticos desse mercado.

Em 2017, os investidores pessoas físicas somavam R$ 203 bilhões na bolsa. Hoje, o volume é quase 30% maior: de R$ 260 bilhões. Em contrapartida, o valor médio investido apresentou queda. Em 2011, as carteiras com até R$ 10 mil respondiam por 44% dos integrantes. Em março deste ano, o percentual alcançou 54%. Dos 220 mil investidores que entraram na renda variável há dois meses, 30% aplicaram menos de R$ 500. Isso ajuda a explicar o aumento do percentual de pessoas com saldos relativamente baixos. “Isso é positivo. As pessoas colocam pouco dinheiro por uma questão de segurança”, diz Tarcísio Morelli, diretor de inteligência de mercado da B3. “Esse pessoal está experimentando a renda variável.” O executivo afirma que, diferentemente do que se poderia imaginar, esses novos investidores não ficaram assustados com a elevada volatilidade do mercado.

Na crise, os novos investidores viram seus recursos diminuírem, mas não zeraram as aplicações. “Os dias de maior estresse, com circuit breaker, foram aqueles em que as pessoas físicas mais investiram”, diz Morelli. E o movimento de novos entrantes continua alto. Em abril, mais 140 mil pessoas aportaram investimentos. Se, como disse o especialista, esses novos investidores tiveram sangue frio no pior momento da crise, agora começarão a colher os frutos da recuperação do mercado.

O Ibovespa, que pouco antes da pandemia havia chegado aos 120 mil pontos, em março caiu para quase a metade (63 mil). Com dois meses seguidos de alta, o índice fechou a quarta-feira 3 a 93 mil pontos. O fluxo de investimentos feitos pelas pessoas físicas, até o dia 28 de maio, somava R$ 1,26 bilhão, elevando o total do ano a R$ 34,7 bilhões. “Esse comportamento também depende de outros fatores macroeconômicos. O momento é muito diferente do que estamos acostumados”, afirma Morelli. “As consequências da pandemia ainda serão dimensionadas. O que temos visto é que as pessoas continuaram a investir e esperamos que continue assim”.

Em fevereiro, Martinez saiu da poupança para o Tesouro Direto e, na terceira semana de março, com apoio de corretores, aplicou em três fundos distintos. “Estar bem informado me ajudou a manter minhas posições. Agora que o pior já passou, vejo tudo com mais tranquilidade ainda”, declara ele, que manteve parte do seu dinheiro em renda fixa, caso tenha alguma necessidade imediata. Se houver contratempos em momentos de baixa, ele terá liquidez garantida e sem perdas.

Atualmente, a taxa da Selic está em 3% ao ano com viés de baixa, um nível de juros que nunca esteve tão baixo na história brasileira. Isso causa impacto negativo em todos produtos de renda fixa, o que serve como estímulo na busca por ativos mais rentáveis. Segundo Rodrigo Marcatti, sócio da Veedha Investimentos, quase a metade da população dos Estados Unidos investe em bolsa, mas isso ocorre porque há muitos anos a renda fixa oferece remunerações extremamente baixas. Por aqui, ao contrário, os juros giraram acima de 13% nos últimos 25 anos. Era o que possibilitava ganhos expressivos sem a necessidade de tomar riscos. “No Brasil, o cara investia na bolsa, perdia dinheiro e saía”, explica Marcatti. “Se a política atual de juro baixo for mantida, mais e mais pessoas migrarão para a bolsa.”

EDUCAÇÃO

A procura pelo capital de risco, no entanto, não pode ser vista como uma bala de prata usada pelos investidores para manter ganhos mais expressivos. Laio Santos, CEO da corretora Rico, entende que o movimento atual é consistente e está conectado com um trabalho de educação realizado pelos agentes do mercado, que envolve abordagens presenciais e mais recentemente apoiadas na internet e nas redes sociais. As corretoras passaram estrategicamente a gerar conteúdo financeiro todos os dias. A cobertura se ampliou. Há também os influenciadores nas salas digitais que desenvolvem um papel importante para atrair mais investidores, principalmente jovens. Para Santos, esses jovens, aos poucos, vão percebendo que, quando a bolsa cai, surgem oportunidades.

Desde 2016, a gestora Claritas, em parceria com a entidade Junior Achievement São Paulo, mantém um projeto batizado Claritas Solidária. O objetivo é levar educação financeira para estudantes de ensino médio de escolas públicas paulistas. “A educação financeira é uma forma de contribuir para a mobilidade social. Já impactamos 4 mil estudantes”, diz Ernesto Leme, diretor comercial da gestora de fundos. Na internet, a Claritas oferece um game que estimula a pessoa a investir etapa por etapa, desde a tomada de decisões básicas.

Essa mesma tecnologia, que tem levado educação financeira a potenciais investidores, também contribuiu para a democratização do investimento na B3. Se antes isso parecia uma operação burocrática, com taxas que inviabilizavam o investimento de pequenas quantias e de acesso difícil, agora o processo todo se tornou bastante mais simples. Em especial depois do surgimento de plataformas como a da XP Investimentos e a da Easynvest, que possibilitam a qualquer um com acesso a internet ter contato com os mais diversos produtos financeiros, corretores e agentes autônomos. Isso implica em mais gente procurando empresas especializadas, como acontece com a corretora Clear, que registra desempenho semelhante ao da própria B3. “De janeiro a maio, tivemos crescimento de 103% de investidores na faixa etária entre 25 e 34 anos, e de 234% entre 18 e 24 anos, se compararmos com o mesmo período de 2019”, afirma Roberto Indech, estrategista–chefe da empresa.

Outro ponto destacado pelo estudo da B3 se refere à diversificação dos investimentos. Em 2016, apenas 26% da base possuíam cinco ou mais empresas em carteira. Hoje, esse percentual é de 48%. No mesmo período, 78% detinham apenas ações, índice que caiu para 54%. No fim de 2019, 640 mil pessoas investiram em fundos imobiliários. Em março, já eram 790 mil. “Muita gente vem preferindo investir na Bolsa por meio de fundos diversos. Em parte, porque é uma boa solução para quem tem pouco tempo e precisa de um gestor profissional, que toma decisões de forma racional”, afirma Rodrigo Marcatti, da Veedha Investimentos. “Implica em custo mais alto, mas com o tempo isso se reverte em retorno acima da média.” São Paulo é o estado com o maior número de investidores. Eram 549 mil em dezembro de 2019 e, em março, já somava 729 mil (alta de 33%). O Rio de Janeiro vem na sequência, com 214 mil em março (26% a mais) e Minas Gerais em terceiro, com 180 mil (39%).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CAMINHOS ALTERNATIVOS

Medicina complementar ainda encontra resistência na comunidade científica, que enfatiza necessidade de mais estudos clínicos

Um sem-número de terapias com efeito sobre a psique humana está à disposição de quem busca alívio emocional. Entre as chamadas alternativas, há algumas já bem conhecidas e até aceitas pela comunidade científica, como a Acupuntura e a Bioenergética. Outras nem tanto; como os Florais de Bach, a Iridologia e a Terapia Regressiva. Se por um lado tais opções arrebanham cada vezmais adeptos, por outro, encontram resistência por parte da comunidade médica e dos psicólogos, embora o próprio Sistema Único de Saúde (SUS) já esteja regulamentando alguns procedimentos.

Os cientistas intensificam seus esforços tentando identificar os tratamentos realmente eficazes e compreender as maneiras com que estes agem no corpo humano. Positivos ou negativos, os resultados são frequentemente contestados em função do (suposto) olhar por demais objetivo e generalizante da ciência que os produziu. O método científico moderno – influenciado por um cartesianismo renitente – segundo adeptos de tais terapias, não seria capaz de mensurar os reais benefícios de técnicas que compreenderiam o homem como um ser único e em sua integralidade: corpo, mente e espírito.

Uma das principais discussões sobre as terapias alternativas recai justamente sobre sua real eficácia. Não raros, os resultados de pesquisas sobre uma mesma terapia utilizada em uma determinada situação parecem ser diametralmente opostos. Na opinião de Nicola Robinson, da Faculdade de Saúde e Ciências Humanas da Thames Valley University (Londres), em uma sociedade que se baseia fundamentalmente em evidências e que exige provas científicas de eficácia de qualquer tipo de intervenção, a pesquisa sobre a medicina complementar ainda enfrenta dificuldades, apesar dos avanços.

Em artigo publicado recentemente na revista Complementary Therapies in Clinical Practice, a pesquisadora afirma que o padrão ouro tradicional nessa busca de evidências científicas, o ensaio controlado aleatório (RCT- estudo randomizado), está no centro do debate sobre as terapias alternativas e muitos profissionais de saúde defendem que o indivíduo não é levado em consideração nessa metodologia. O RCT seria baseado em certas suposições sobre saúde e doença nas quais os indivíduos seriam essencialmente os mesmos, com tratamentos e pessoas sendo tratados homogeneamente.

“Os sistemas curativos (healing systems) partem de suposições diferentes, de que nós somos todos únicos e que embora as pessoas tenham as mesmas doenças, elas vão reagir diferentemente e apresentar respostas a distintas abordagens terapêuticas”, defende Nicola. Para ela, não haveria acordo universal sobre o que constitui uma evidência, no entanto, os praticantes das terapias alternativas não podem prescindir da medicina baseada em evidências. “O receio de que profissionais de saúde treinados no Ocidente dominem aqueles tratamentos complementares vistos como efetivos é o contrário da situação atual observada em Hong Kong”, exemplifica.

Na mesma linha, S. Ziaei e L. Hajipur, da Faculdade de Ciência Médica da Tarbiac Modarres University, no Irã, investigaram os efeitos da Acupuntura no trabalho de parto e citam entre as dificuldades relacionadas ao método de pesquisa a diversidade de formas que a terapia pode assumir, a individualidade do tratamento, a seleção de objetivos primários (end points) adequados, a não-identificação prévia dos pacientes (que seria o estudo cego) e a escolha apropriada de pacientes para comparação (que seria o grupo controle). “No presente estudo, a Acupuntura não apresentou efeitos sobre a intensidade da dor ou o grau de relaxamento”, afirmam em artigo publicado na International Journal of Gynecology and Obstetrics.

Ao todo, foram analisadas 90 mulheres, submetidas aleatoriamente à Acupuntura (30), a uma simulação da técnica (30) ou a nenhuma intervenção (30). Eles ressaltam, entretanto, que escudos adicionais, com um maior número, são necessários para determinar os efeitos neste caso – em consonância com determinação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que menciona a Acupuntura como um método não-farmacológico a ser utilizado durante o trabalho de parto e enfatiza a necessidade de estudos clínicos.

DESAFIOS

Na opinião de Suely Gevertz, psicanalista e coordenadora da Comissão de Mídia da Associação Brasileira de Psicoterapia (Abrap), é preciso diferenciar a ciência exata da psicológica. Segundo ela, na última, não há possibilidade de repetição, que é uma condição sine qua non da ciência tradicional. “Na ciência psicológica não há como fazer um experimento onde se controle variáveis e onde haja repetição. Também não é possível fazer uma análise estatística, apenas qualitativa”, explica. A pesquisadora, que é também docente no Curso de Psicoterapia de Orientação Psicanalítica do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta, no entanto, que este é um desafio das ciências humanas em geral.

Para Luciano da Fonseca Lins, psicanalista e professor adjunto da Universidade de Pernambuco (UPE), apesar dos avanços, ainda existe cena resistência vinculada à ciência tradicional. “Nós carregamos muito o ranço da visão cartesiana e positivista. A própria Física tem derrubado tais posições”. Lins, que trabalha no Núcleo de Apoio Psicossocial da Secretaria de Saúde de Pernambuco, acredita que cada vez mais esses paradigmas serão quebrados.

Os defensores das terapias ditas alternativas criticam que o acesso da população em geral está longe de ser o ideal – e não só no Brasil. Estudo italiano inédito, a ser publicado na revista Complementary Therapies in Clinical Practice, avaliou  o  uso da medicina complementar pelos serviços de saúde do País, especificamente na dependência ao álcool. Os dados obtidos, referentes aos 312 entrevistados mostram que apenas 16,5% utilizaram alguma terapia alternativa. Neste grupo, constatou-se que a Acupuntura é a mais utilizada (71,45%), seguida pela Fitoterapia (10,08%) e pela Homeopatia (9,74%).

“De fato, os serviços de saúde que usam a medicina complementar corno método principal foram um evento raro em nosso estudo (1%). Ela desempenha um papel integrado com as formas tradicionais de tratamento do alcoolismo na Itália e pode ser útil para reduzir recaídas e aumentar a aderência aos tratamentos”, acreditam Gabriele Bardazzi e equipe, autores do artigo, do grupo de pesquisa em medicina complementar e álcool, ligado à ltalian Society for Alcohol Studies. Nesse sentido, os pesquisadores defendem que tais terapias “oferecem vantagens que não devem ser ignoradas, como baixo custo e nenhum, ou mínimos, efeitos colaterais” – este último não aplicável somente ao caso da Fitoterapia.

AUMENTA A PROCURA

Em todo o mundo, cada vez mais pessoas têm procurado diferentes formas de terapias alternativas. Analisando o contexto ocidental, mais especificamente, países desenvolvidos – onde a oferta e a qualidade dos serviços de saúde convencional são superiores – tal tendência suscita um questionamento: por que, tendo à disposição os recursos da medicina contemporânea, as pessoas optam por tais terapias?

Em um dos poucos estudos sobre o assunto, John A. Astin do centro científico tradicional Center for Research in Disease Prevention, ligado à escola de medicina da Stanford University (EUA), procurou verificar três hipóteses para explicar a tendência: insatisfação com o tratamento convencional; visão de que os tratamentos alternativos ofereceriam mais autonomia pessoal e controle sobre o atendimento; ou uma maior compatibilidade com os valores, visão de mundo e crenças em relação à natureza e à compreensão de saúde e doença.

Ao analisar os dados, Astin constatou que usuários da medicina alternativa, em geral, tendem a apresentar alguns traços em comum como, por exemplo, terem uma orientação filosófica sobre saúde que poderia ser descrita como holística (integração entre corpo e mente). Além disso, eles têm uma probabilidade maior de já terem passado por uma experiência transformacional que tenha mudado sua visão de mundo significativamente.

“Além de apresentarem maior escolaridade e relatarem estado de saúde pior, a maioria dos usuários parece não ter insatisfação com a medicina convencional, apenas veem nestes cuidados alternativos mais congruência com seus próprios valores, crenças e orientações filosóficas sobre a saúde e a vida”, concluiu Astin em artigo no The Journal of the American Medical Association. Na amostra analisada, os problemas de saúde tratados por métodos alternativos mais frequentes foram dor crônica, ansiedade, síndrome de fadiga crônica, adição, artrite e dor de cabeça.

Para Fátima Rodrigues, terapeuta regressiva, psicóloga e diretora do Instituto Brasileiro de Pesquisa em Terapia Regressiva (IbrapeTR), a busca crescente por terapias como a regressiva tem a ver com certa insatisfação do paciente junco à medicina. “Os pacientes percebem que só buscar o médico pra trabalhar o físico não está sendo suficiente”, aponta, discordando em parte do pesquisador de Stanford. Para ela, o aspecto clínico de uma doença deve abordar a plenitude do indivíduo fundamentado pela Terapia Transpessoal. “Quando uma pessoa busca tratamento com um especialista que trabalhe com essa abordagem, vai procurar pelo entendimento não só do que provoca, por exemplo, sua dor no estômago, mas o que está por trás dela. Se eu não trabalhar em cima do psicológico, o remédio receitado pelo médico vai aplacar a gastrite momentaneamente – depois ela pode voltar a existir, porque sua origem está nas disposições mentais negativas, nas emoções conturbadas”, exemplifica.

CRENÇA OU PSICOTERAPIA?

Uma das grandes polêmicas em relação à terapia regressiva é sua proximidade com conceituações religiosas. Na opinião de Fátima Rodrigues, isso dificulta sua aceitação no ambiente científico e, principalmente, no Conselho Federal de Psicologia (CFP). “Eles associam o trabalho no nível espiritual necessariamente com a religiosidade. O que pensamos, porém, é que é possível ter o entendimento de um ser permanente, infinito, e não necessariamente estar dentro de uma religião”.

A despeito da polêmica em torno da terapia junto ao CFP, que não reconhece a prática, o curso de Especialização em Terapia Regressiva ministrado no Ibrape TR assume a prerrogativa de admitir somente psicólogos, psiquiatras e médicos com formação psicoterapêutica. De acordo com Fátima, tal exigência se faz necessária, pois, “dentro da área de saúde, o Ibrape defende que esses profissionais têm mais instrumentos e habilidade para lidar com os aspectos emocionais abordados na terapia regressiva”. Noelly Heredia complementa: “o curso vai além de ministrar uma técnica de regressão. Na verdade, pretende ensinar um processo de terapia psicoterápica que envolve procedimentos éticos, próprios da formação psi”.

Fátima salienta que se deve ter cautela em usar a titulação de psicólogo junto à prática terapêutica regressiva. ”Não aconselhamos a divulgação do registro profissional junto a essa prática. Apesar de ser psicóloga, intitulo-me terapeuta regressiva para trabalhar com essa abordagem. No entanto, acho que o psicólogo é, atualmente, um dos profissionais mais preparados para atuar na técnica”, defende.

A regulamentação da prática contudo; vem sendo buscada não somente junto no CFP, mas também pela comunidade científica como um todo. A modificação do nome terapia de vidas passadas – para a atual terapia regressiva faz parte desse processo. “É para que a prática não se resumia a uma visão reducionista. Não se trabalha só o conteúdo da vida passada; aborda-se também o presente e seu conteúdo passado”, pontua Nodly. A psicanalista Suely Gevertz critica a prática.

Para ela todo método psicoterápico é fundado em uma teoria, que é baseada, por sua vez, em dados observáveis – o que seria um entrave para a terapia regressiva. “Há, por trás, a crença de que a pessoa reencarna, e a Psicologia não lida com crenças. Pode-se até estudar, do ponto de vista psicodinâmico, a manutenção de algumas crenças – sejam estas institucionalizadas ou individuais – mas o instrumental teórico utilizado não é baseado em crenças”. Para Ana Maria Pereira Lopes, conselheira do CFP, ainda não há acúmulo suficiente de dados para que a prática possa ser regulamentada.

CONSELHO É CONTRA

Apesar do número crescente de adeptos – tanto por parte de usuários como de profissionais – a maioria das terapias alternativas não são reconhecidas pelos Conselhos federais brasileiros, responsáveis pela regulamentação e fiscalização da atuação dos profissionais de saúde do País. No caso específico do Conselho Federal de Psicologia (CFP), por exemplo, uma resolução de 1997 (10/97) determina critérios para o exercício profissional do psicólogo associado a práticas que “não estejam de acordo com os critérios científicos estabelecidos no campo da Psicologia”.

Segundo essa resolução, terapias só podem ser utilizadas como recursos complementares à clínica e devem estar em processo de pesquisa conforme os critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde (resolução 196/96). Além disso, o psicólogo tem que dispor de meios para comprovar junto ao CFP que possui habilitação adequada para desenvolver a técnica em questão e seu cliente deve declarar expressamente “ter conhecimento do caráter experimental da técnica e da prática utilizadas” – sempre em acordo com o Código de Ética.

Conforme explica Ana Maria Lopes, conselheira e secretária de orientação e ética do CFP, a regulamentação de uma prática pressupõe, em primeiro lugar, o respeito ao princípio da dignidade, o que muitas práticas místicas talvez não alcancem. “Quando a terapia envolve questões relativas à crença, muitas vezes estabelece-se uma relação de submissão do paciente pelo profissional”, afirma.

A regulamentação depende de amplo debate entre o Conselho, os profissionais e os pesquisadores, baseado em pesquisas científicas, cuja validade depende, segundo Ana Maria, “da ampla divulgação dos resultados, derivados de experimentação e reconhecimento da comunidade científica, e não apenas da conclusão das pesquisas”, como pontua a resolução 011/97 do CFP.

Nesse contexto – frequentemente confuso – Suely Gevertz afirma que é fundamental que a pessoa em busca de uma terapia tenha em mente o que ela realmente espera em termos de resultados – o que evitaria a “armadilha das soluções rápidas”. “Um indivíduo que tenha medo de avião, por exemplo, pode optar por fazer uma psicoterapia mais breve e, nesse caso, vai conseguir viajar de avião, concretamente. Se esse mesmo indivíduo levar em consideração que o medo de avião está inserido em algo mais amplo de sua personalidade e quiser aproveitar para se tratar a partir dessa visão, a psicanálise seria mais indicada, pois o avião é tomado como símbolo de ideias e emoções”, exemplifica. Ela ainda defende que “o fundamental é que o psicoterapeuta, independentemente da linha que ele adote, seja muito bem formado – o que envolve um trabalho pessoal, muita supervisão “dos atendimentos clínicos e estudo da teoria”.