EU ACHO …

ELOGIO, ASSÉDIO E O PRÓXIMO ELEVADOR

Elogio, assédio e o próximo elevador

Uma amiga psicanalista que mora há alguns anos nos Estados Unidos conta que já ouviu, de mais de um homem, um relato curioso: eles evitam entrar no elevador com uma mulher que esteja sozinha. Esperam pelo próximo, com medo de que uma palavra, um gesto ou um olhar mal colocado naquele curtíssimo espaço de tempo entre o andar A e o andar B possa ser confundido com assédio.

É um exagero, sim (e bem americano…). Mas em um mundo de fronteiras cada vez mais borradas, não é difícil entender que os homens estejam confusos sobre o comportamento adequado diante de uma mulher, em especial nos ambientes de trabalho, em que a revolução de costumes é profunda e continua acontecendo. Muitos se explicam dizendo que não sabem mais sequer como elogiar uma colega, não importa onde cada um esteja no organograma. E, mesmo com todos os cuidados, acham sempre que estão errando.

Olhar de perto um caso que movimentou o LinkedIn na semana passada pode ajudar a entender onde.

Uma mulher que trocou de emprego resolveu fazer o que se faz normalmente nessa rede social dedicada às conexões profissionais: disparou vários convites para aumentar sua rede de contatos, o tal network. Um dos novos colegas aceitou o convite enviado, cumprimentou a mulher pela troca e arrematou a mensagem com uma frase bastante entusiasmada sobre a beleza dos olhos dela, que viu apenas na foto do perfil (eles não se conheciam pessoalmente, mas isso também é normal nas redes sociais).

Como não era a primeira vez que acontecia, a mulher decidiu reagir. Em um longo e incisivo post, preservou a identidade do homem mas explicou publicamente a ele que “LinkedIn não é Tinder” (ou seja, não é o lugar para ser abordada dessa maneira, nem ela está ali para isso). Disse ainda que preferia ser elogiada por atributos profissionais num ambiente idem.

E porque esse assunto está na pauta, em dois dias o post já tinha quase 1.000 comentários e 7.000 reações. Com um pouco de tudo, incluindo os radicalismos – de um lado, ela foi chamada de “feminista azeda” por “rejeitar elogios”; de outro, recebeu a sugestão de buscar um advogado para fazer “valer seus direitos” e denunciar o “assédio”.

Isolando esses extremos, no batalhão dos ponderados muitas outras mulheres relataram já ter passado pelo desconforto de ouvir um elogio esquisito em seu ambiente de trabalho. De se perguntar se aquilo era “cantada” ou assédio, e até se havia sido provocado por algum comportamento inadequado dela mesma. Quem um dia já precisou adotar o sorriso amarelo como escudo numa conversa profissional sabe do que elas estão falando.

Porque esses relatos, e um bocado de pesquisas nos ambientes de trabalho, mostram que é bem comum uma mulher receber elogios nebulosos quanto à intenção (no caso em questão, aliás, era elogio ou “cantada”?). E não raramente, quando protesta, ainda precisa ouvir que o problema não estava na intenção nebulosa do outro, mas na sua cabeça. (Sim, esse comentário também apareceu no post do LinkedIn.)

Essas abordagens incluem quase sempre considerações sobre a aparência física da mulher. Ainda que entusiasmadas, e positivas, não deixam de ser inconvenientes. E se vierem acompanhadas de insistência, criam o cenário perigoso: mesmo em um mundo de fronteiras borradas, um simples “não” já deveria servir para estabelecer a fronteira final. Passar dela é ingressar no território do assédio.

Não é difícil entender – basta uma dose de boa vontade para rever comportamentos normalizados, e mudar. Como aconteceu nesse caso. Depois de ler os argumentos enfileirados no post e em boa parte dos comentários, o homem acabou enviando uma mensagem de desculpas que a mulher aceitou e publicou junto do seu texto, encerrando o assunto. Cada um cedeu um pouco, e ambos certamente aprenderam muito.

Quem acha que isso é impossível tem mesmo é que ficar esperando o próximo elevador.

 

JUNIA NOGUEIRA DE SÁ – é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à Women Corporate Directors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.

OUTROS OLHARES

COMEÇOU O FUTURO

Voos reduzidos, uso de máscara: eis o “novo normal” dos, digamos assim, passageiros da pandemia. A expectativa é que tudo isso será mantido no período pós-surto

Começou o futuro

É como se o verbo viajar tivesse sido sequestrado do dicionário da realidade. Nestes dias em que, para bilhões de pessoas mundo afora, sair de casa se tornou sinônimo de ir no máximo até o supermercado ou à farmácia, os aeroportos, por exemplo, se tornaram verdadeiros desertos – sem nenhum oásis. Quem, por motivos inadiáveis, é forçado a embarcar em um voo de carreira frequentemente vê reproduzido dentro das aeronaves um cenário semelhante: quase ninguém nos assentos, tampouco nos corredores. E atenção, senhores passageiros: esse é apenas um dos aspectos que se desenham no horizonte para o pós-pandemia, o “novo normal” que deverá se estabelecer a partir das lições – muitas amargas – que serão deixadas pelo surto de Covid-19. Dito de outra forma: o futuro, no âmbito do turismo, já começou. Está no presente.

Tudo se inicia em terra, com a adoção de medidas para preservar o distanciamento físico entre os viajantes. Dentro dos aviões, os novos protocolos das companhias impõem reforço na higienização, com o uso de mais desinfetantes, aumento da filtragem do ar e uma distribuição na ocupação dos assentos a fim de permitir que os passageiros não fiquem próximos – o que, convenhamos, não tem sido difícil com os aviões vazios (há voos saindo dos Estados Unidos com apenas dezessete pessoas a bordo). Além disso, em um número crescente de empresas aéreas, os viajantes vêm sendo obrigados a usar máscara – algo que havia sido determinado antes para toda a tripulação.

Em tempos de crise, pode-se recorrer ao passado para enxergar de que maneira o presente começa a funcionar como um rascunho, por assim dizer, do futuro. Logo após os atentados terroristas ao World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001, as normas de segurança das viagens aéreas foram radicalmente modificadas. A inspeção dos passageiros tornou­ se muito mais rígida, o que resultou em enormes filas no raio x; restringiu-se bastante o que pode ser levado na bagagem de mão; a porta da cabine dos pilotos passou a ser à prova de balas. Depois de quase duas décadas, praticamente ninguém se lembra de como eram as coisas antes. Tudo passou a ser perfeitamente aceitável. A expectativa do setor de viagens é que o mesmo ocorra com as medidas de precaução de agora.

Por enquanto, para tentar reverter o inacreditável tombo provocado pela eclosão da Covid-19 – só no Brasil o número de voos caiu 90% desde o começo da pandemia do novo coronavírus -, as empresas aéreas vêm lançando mão de uma série de estratégias. Há, por aqui, promoções que podem fazer o preço de um bilhete internacional ficar até 60% mais barato. Numa medida acertada, algumas companhias também decidiram simplesmente não cobrar taxas para a remarcação de passagens. E para quem está preocupado com o vencimento de suas milhas – que talvez demore muito até que possam ser utilizadas – a notícia é boa. Grande parte das empresas, que voam para os diferentes continentes, optou pela renovação dos seus programas de fidelidade – alguns deles até janeiro de 2022.

Nada mau – sobretudo considerando que, dada a reviravolta do mercado, os viajantes do período pós-pandemia não possam esperar somente céu de brigadeiro. Com a redução no número de passageiros, devido à limitação da ocupação de assentos, não se descarta a possibilidade de que o valor das passagens aéreas chegue mesmo a dobrar. Os embarques, que neste momento de campanha cerrada pela quarentena se tornaram rapidíssimos, poderão demorar até quatro horas, ao longo das quais os viajantes serão submetidos à checagem de saúde, incluindo testes de sangue (e não meramente a tomada de temperatura, feita hoje em dia em vários locais). Ainda assim, após experimentar tamanho confinamento; depois de só poder ir até o supermercado ou à farmácia –  ah, isso será o de menos.

Começou o futuro. 2

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE MAIO

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ÁGUAS AMARGAS SE TORNAM DOCES

Então, Moisés clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou uma árvore; lançou-a Moisés nas  águas e as águas se tornaram doces (Êxodo 15.25a).

 

O povo de Israel acabara de atravessar o mar Vermelho de forma milagrosa. O mar tornou-se caminho aberto para os hebreus e sepultura para seus inimigos. Agora, o povo tem pela frente o deserto de Sur. Depois de três dias de caminhada, eles não encontraram água. Enfim, chegaram a Mara, mas ali não puderam beber as águas, porque eram amargas. O povo murmura contra Moisés, e Moisés clama a Deus, que lhe aponta uma solução: lançar uma árvore sobre as águas de Mara. Ali Deus provou o povo e lhe deu estatutos. Deus prometeu ao povo que, se eles andassem em obediência, as enfermidades que vieram sobre os egípcios não os alcançariam. Ali Deus se revela ao povo com um novo nome, Jeová Rafá, o SENHOR que te sara (v. 26). Ao saíram de Mara, chegaram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras. Ali acamparam junto às águas. As águas amargas de Mara são um símbolo da vida antes da conversão. Não há nada neste mundo que nos possa satisfazer. Porém, quando a cruz de Cristo é colocada nessas águas amargas, elas se tornam doces. Quando Cristo entra em nossa vida, somos transformados, restaurados e transformados em instrumentos de vida e não de morte, de deleite e não de tormento, de alívio e não de pesar. É pela cruz de Cristo que essa transformação acontece. Nenhum poder na terra nem no céu pode mudar a nossa vida, a nossa sorte e o nosso futuro a não ser Cristo, e este crucificado. Temos vida pela sua morte, temos cura pela sua cruz!

 

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE QUE VENDE

Brinquedos como a boneca Barbie levam às prateleiras o respeito às diversas identidades e levantam o debate sobre o consumo consciente

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Não é novidade que a publicidade infantil instigue o desejo consumista das crianças. Ela anuncia o que os pequenos precisam e eles desejam o objeto idealizado. Mas também é antiga a discussão sobre os limites das ações publicitárias dirigidas aos mais jovens: são legais ou ilegais? Atualmente, esse debate tem ganhado novos contornos. Há mudanças importantes acontecendo para valorizar o respeito às diferenças e à inclusão. Um exemplo é a gigante dos brinquedos Mattel: a companhia acaba de lançar uma nova linha de Barbie em que as bonecas representam a diversidade cultural, étnica e trazem doenças de pele e deficiências físicas. São 176 novos modelos da linha chamada Barbie Fashionista, que tem nove tipos de corpos, 35 tons de pele e 94 diferentes cabelos. A Hasbro, fabricante da boneca Baby Alive, também criou bebês com a pele negra. Na linha LoL Suprise, da MGA Entertainment, há opções que fogem do padrão “branco e loiro”.

COM A CARA DA AVÓ

“O brinquedo passou a ser um negócio. Não podemos ter o olhar ingênuo de achar que a indústria faz isso apenas para acolher e reconhecer”, explica Raquel Franzim, coordenadora de educação do Instituto Alana. O cenário no qual a criança se desenvolve é mais importante do que o objeto com o qual ela brinca. A Barbie representa apenas uma parcela da identificação.

Raquel questiona: “É o brinquedo que faz a criança brincar ou precisamos cuidar do próprio ato de brincar das crianças?”
Indiferentes às considerações éticas e ideológicas, as crianças aproveitam. A pequena Theodora, quatro anos, sorri com o seu presente de natal: uma Barbie negra, com os cabelos raspados e descoloridos. Quando ela abriu o embrulho, automaticamente associou o objeto à avó, que possui as mesmas características físicas da boneca. A hoteleira Dilane Lopes Moreira, mãe de Theodora, conta que sempre valorizou a convivência da filha com produtos com os quais ela pudesse se identificar. “Todos são bonitos do jeito que são”, é o mantra da casa. Para ela, a Barbie nova está sendo apenas um complemento para a construção da identidade da filha.

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CORPO E A CULTURA

Hoje já se reconhece a influência social sobre o comportamento, a cognição e o desenvolvimento das habilidades motoras

O corpo e a cultura

Mas seria possível afirmar que meninas e meninos demonstram preferências, competências e atributos de personalidade originalmente configurados conforme o sexo? Será verdade o que aprendemos sobre as justificativas biológicas para as habilidades distintas de garotas e garotos?

Em ampla investigação sobre as construções sexuais e do corpo sexuado, Anne Fausto-Sterling, professora de biologia e estudos do gênero do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e Celular da Universidade Brown, em Rhode lsland (EUA), cita inúmeras pesquisas que atestam a existência de uma anatomia cerebral específica para cada sexo. Daí viria a base para atribuir às mulheres, a intuição, a falta de aptidão para exatas, a ampla habilidade verbal e o uso simultâneo de ambos os hemisférios cerebrais. Aos homens, em geral, confere-se melhor desempenho espaço-visual, matemático e científico. Articulando biologia, medicina e ciências sociais, a bióloga revela ainda como essas pesquisas usam as relações sociais para estruturar a Natureza e, ao mesmo tempo, reduzem o mundo social a ela. Em outras palavras, passam da discussão das diferenças externas e do ambiente social para as diferenças internas do organismo biológico e quais os efeitos do que se entende por masculinidade e feminilidade.

Refletir sobre os fundamentos dessas afirmações no que se refere à educação, e mais especificamente à sociologia da educação, exige o questionamento de suas origens e do peso do caráter biológico na construção das diferenças. Isso pressupõe, por exemplo, indagar sobre a interferência e sobre o papel da cultura no processo de socialização e educação de meninas e meninos desde suas primeiras experiências de vida na família e na educação infantil.

No âmbito dos modelos cognitivos, é possível comprovar que as diferenças no desempenho em matemática ou na capacidade de linguagem resultam de diferenças cerebrais de cada sexo tidas como inatas? No campo das relações e comportamentos infantis, podemos mesmo supor que elas necessariamente preferem as bonecas e eles, os carrinhos? Elas foram feitas para brincar de roda e eles, de futebol?

A perspectiva sociocultural permite centrarmos o olhar nas formas de controle do corpo infantil, processo este social e culturalmente determinado, que muitas vezes nem sequer percebemos. Poderíamos dizer que as características tidas como masculinas ou femininas resultam de esforços diversos para distinguir corpos, comportamentos e habilidades de meninas e meninos. A influência da socialização e da cultura sobre a cognição, o comportamento e as habilidades motoras de garotos e garotas vem sendo reconhecida por pesquisadores de várias áreas.

A educação infantil não só cuida do corpo da criança como o educa: ele é o primeiro lugar marcado pelo adulto, que impõe à sua conduta limites sociais e psicológicos.

 Nosso corpo, nossos gestos e as imagens corporais que sustentamos são frutos de nossa cultura, dos traços e dos valores sociais por ela apreciados. O corpo é, portanto, uma construção social produzida, moldada, modificada, adornada segundo parâmetros culturais.

Torna-se, portanto, indispensável pensar sobre práticas, habilidades e configurações corporais infantis, assim como sobre os modelos cognitivos nelas referenciados, como configurações de gênero, processadas, reconhecidas e valorizadas na e pela cultura na qual se inserem. É importante perguntar como esses mecanismos sociais se fazem presentes na educação de meninas e meninos, como são inscritos em seus corpos, como disciplinam, regulam e controlam seu comportamento, posturas, verdades e saberes.

 DESEMPENHO ESCOLAR

Homens e mulheres adultos educam crianças definindo diferenças de gênero. As características físicas e os comportamentos esperados para meninos e meninas são reforçados, às vezes de forma inconsciente, nos pequenos gestos e práticas do dia a dia na educação infantil. A forma como a família ou a professora conversa com a menina, elogiando sua meiguice, ou justificando a atividade sem capricho do menino; o fato de pedir para uma menina ajudar na limpeza e ao menino para carregar algo demonstram como as expectativas são diferenciadas para cada sexo. O que é valorizado para a menina não é, muitas vezes, apreciado para o menino e vice-versa.

Meninos e meninas desenvolvem seu comportamento e potencialidades a fim de corresponder às expectativas de um modelo singular e unívoco de masculinidade e feminilidade em nossa sociedade. Muitas vezes família e escola orientam e reforçam habilidades específicas para cada sexo, transmitindo expectativas quanto ao tipo de desempenho intelectual considerado “mais adequado”, manipulando recompensas e sanções sempre que tais expectativas são ou não satisfeitas. Meninas e meninos são educados de forma muito diferente, sejam irmãos de uma mesma família, sejam alunos sentados na mesma sala, a ler os mesmos livros ou a ouvir o mesmo professor. A diferença está nas formas nem sempre explícitas com que membros da família e educadores interagem com as crianças.

Pesquisas apontam que as justificativas para as diferenças de desempenho escolar entre meninas e meninos no ensino fundamental estão relacionadas às representações e às expectativas dos educadores quanto à caracterização dos comportamentos: as meninas são apontadas como mais responsáveis, dedicadas, comunicativas, estudiosas, interessadas, sensíveis, atentas, enquanto meninos são considerados displicentes com os estudos, ausentes, dispersivos, agitados, desatentos, ainda que mais inteligentes.

As diferenças podem ser percebidas, mas não são fixadas na característica biológica apresentada ao nascer. Os significados de gênero – habilidades, identidades e modos de ser – vão sendo socialmente configurados, impressos no corpo de meninos e meninas de acordo com as expectativas de uma determinada sociedade.

 EXPRESSÕES BLOQUEADAS

Se, por um lado, é possível perceber o controle da agressividade na menina, o menino sofre processo semelhante, mas em outra direção: nele são bloqueadas expressões de sentimentos como ternura, sensibilidade e carinho. Não se questiona o caráter desse processo, afirmando-se tratar de fato natural ligado ao sexo biológico. As exceções que se apresentam são consideradas exceções, e assim o preconceito não chega nem a ser arranhado.

As preferências não são meras características oriundas do corpo biológico, são construções sociais e históricas. Portanto, não é mais possível compreender as diferenças entre meninos e meninas com explicações fundadas no determinismo biológico. A teoria do determinismo biológico busca na anatomia e na fisiologia justificativas anatômicas para as relações e identidades de gênero na sociedade moderna. Se acreditarmos nessa explicação natural sobre as diferenças entre os sexos, será inviável uma política social igualitária para a formação de homens e mulheres em áreas como a engenharia e a física.

A desigualdade de gênero ainda presente em nossa sociedade afeta até mesmo as pesquisas sobre o desempenho e o desenvolvimento cognitivo de meninas e meninos. No entanto, afirmações biológicas sobre diferenças sociais nem sempre são válidas do ponto de vista científico, pois esse conhecimento também é socialmente construído. Ultrapassar a desigualdade de gênero implica compreender o caráter social de sua produção, o modo como nossa sociedade opõe, hierarquiza e naturaliza as diferenças entre os sexos, reduzindo-as às características físicas tidas como naturais e, portanto, imutáveis. Implica perceber que esse modo único e difundido de compreensão é reforçado pelas explicações oriundas das ciências biológicas e também pelas instituições sociais, como a família e a escola, que omitem ser essas preferências construídas socialmente e passíveis de transformação.

Ao buscar as causas sociais e culturais das diferenças entre meninos e meninas, encontraremos suas origens em pequenos gestos cotidianos, em reações automáticas, cujos motivos e objetivos nos escapam, as quais repetimos sem ter consciência do seu significado, porque as interiorizamos no processo educacional. São preconceitos que não resistem à razão e que continuamos a considerar como verdades intocáveis, nos costumes e nas regras inflexíveis. Diante da opressão que vêm sofrendo, meninos e meninas deixam de experimentar, de inventar e de criar.

O modo como estão sendo educados pode contribuir para se tornarem mais completos e/ou para limitar suas iniciativas e suas aspirações. Sem uma plena equidade social, jamais poderemos saber quais são essas possibilidades.

O corpo e a cultura. 2

DIDÁTICA DOS GESTOS, EDUCAÇÃO DO CORPO

É possível propor um projeto educativo que rompa a dicotomia cognitivo-afetiva da prática educativa cotidiana e a hierarquia de valores a ela ligada, enfatizando o entrelaçamento entre o cognitivo e o emocional na evolução do processo de simbolização. Egle Becchi, professora de filosofia da Faculdade de Letras e Filosofia de Pavia, Itália, fala de uma “linguagem dos gestos”: gestos ligados ao dia-a-dia, gestos do ato de brincar, gestos do corpo nos movimentos corpóreos de aproximação, contato e exploração. Para a autora italiana, multo ainda deve ser estudado sobre linguagem gestual, uma “didática dos gestos” que penetra e caracteriza a pedagogia: o uso do corpo acariciado ou punido, as estratégias de voz: o tom, o canto, o grito. A experiência de meninas e meninos na educação infantil pode ser considerada um rito de passagem contemporâneo que antecipa a escolarização, por meio da qual se produzem habilidades.

O minucioso processo de feminilização e masculinização dos corpos, presente no controle dos sentimentos, no movimento corporal, no desenvolvimento das habilidades e dos modelos cognitivos de meninos e meninas está relacionado à força das expectativas que sociedade e cultura carregam. Esse processo se reflete em brinquedos com os quais as crianças “aprendem”, de uma maneira muito prazerosa e mascarada, a se comportar como “verdadeiros” meninos e meninas.

Homens e mulheres educam crianças marcando diferenças bem concretas entre elas. A educação diferenciada exige formas diferentes de vestir; conta histórias em que os papéis dos personagens homens e mulheres são sempre muito diversos, mas a diferenciação com base nos sexos é evidente nos brinquedos Infantis. De acordo com Elena Belotti, ao adulto não basta escolher o brinquedo pela criança: quando presenteia uma menina com uma boneca, não se contenta em simplesmente dar, mas também mostra como se segura nos braços e como se acalenta. É bastante curioso observar como os meninos da mesma idade, não ensinados como as meninas, seguram as mesmas bonecas de maneira muito mais despreocupada, por exemplo, mantendo-as em pé e não à vontade, passando-lhes um braço em volta do pescoço, apertando-as ou mesmo esmagando-lhes a cabeça. Em todos os casos, acalentar a boneca está quase sempre ausente.

A criança, ao brincar, está trabalhando suas contradições, ambiguidades e valores sociais: é na relação com o outro que ela constitui sua identidade. Fica difícil, por exemplo, continuar sustentando a importância de um menino não brincar de boneca, em nossa sociedade atual, na qual cada vez mais o pai assume comportamentos de cuidado com suas próprias crianças.

Ao refletir sobre os primeiros contatos Infantis com os brinquedos no âmbito da educação familiar, é possível perceber que a forma como são guardados e oferecidos pode consistir em uma manipulação da brincadeira, uma pedagogia do gesto e da vontade, configurando, assim, uma “educação do corpo”.

O corpo e a cultura. 3

CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS SEXOS

Desde muito cedo, até mesmo antes de nascer, a identidade de gênero vai se delineando segundo expectativas manifestadas de acordo com o sexo do bebê. Os ditados e crenças populares são exemplos de como os comportamentos e sinais da mãe são associados ao sexo do bebê: se a face da mãe estiver rosada, nascerá um menino, se estiver pálida, será menina; se o bebê estiver agitado e der muitos pontapés, certamente será menino, se estiver mais calmo e a mãe com muito sono, menina.

É clara a construção social das diferenças entre os sexos até mesmo antes do nascimento. A socióloga Dulce Whitaker chamou a esse fenômeno “didática da gravidez”, ou seja, a maior valorização do bebê do sexo masculino e a diminuição da auto estima das meninas, atribuídas às crianças no útero materno. Ao nascer, menina e menino já têm sua educação, de certa forma, direcionada: pais e mães já delineiam mentalmente o modelo a seguir. Crianças ainda pequenas construirão um corpo, mas não assexuado; um corpo, um modo de andar, de falar, de agir masculino ou feminino.

O corpo de meninas e meninos também passa, desde muito cedo, por um processo de feminilização e masculinização, responsável por torná-los “mocinhas” ou “capetas”. Esse minucioso processo se repete, até que a violência e a agressividade da menina desapareçam, até que ela comece a se comportar como uma “verdadeira” menina, delicada, organizada e quieta, reprimindo sua agressividade e ressaltando sua meiguice e obediência.

Já para o menino, esse processo se dá ao contrário: na atribuição de tarefas dinâmicas e extrovertidas e, em especial, com a privação da afetividade, não lhe sendo permitido, por exemplo, expressar­ se pelo choro. A masculinidade está calcada na coragem física, no trabalho, na perseverança, na competitividade e no sucesso, elementos entendidos como os mais importantes para sua constituição, considerada hegemônica: a coragem, diretamente relacionada à força física, à energia, à ousadia, à virilidade.

Crianças de ambos os sexos são agressivas, mas nesse processo a agressão, no sentido de satisfazer necessidades, é estimulada para apenas um dos sexos, restando ao outro a passividade.

O corpo e a cultura. 4

O CONCEITO DE GÊNERO

A denúncia do pretenso caráter fixo e binário de categorias como feminino e masculino, contido nas explicações biológicas para as diferenças cognitivas entre os sexos, tem no conceito de gênero parte do reconhecimento do caráter social e historicamente construído das desigualdades fundamentadas sobre as diferenças físicas e biológicas.

Nos dicionários brasileiros o termo gênero é definido como uma forma de classificação e como o modo de expressão, real ou imaginário dos seres. A partir da década de 80, o conceito de gênero foi incorporado pela sociologia como referência à organização social da relação – entre os sexos. A elaboração desse conceito ainda recebe forte influência de áreas como linguística, psicanálise, psicologia, história e antropologia, responsáveis por demonstrar a variabilidade cultural dos comportamentos, aquisições e habilidades consideradas femininas e masculinas. Isso significa que masculinidades e feminilidades plurais são configuradas fundamentalmente pela cultura.

Na década de 90, os estudos da historiadora americana Joan Scott tiveram influência significativa nos estudos brasileiros de gênero, nas reflexões críticas sobre educação, bem como sobre o saber produzido acerca das diferenças sexuais e dos vários significados que esse conhecimento adquire nos distintos espaços de socialização, entre os quais as instituições responsáveis pela educação.

A adoção da perspectiva de gênero, seja em estudos acadêmicos, seja nos espaços de construção de socialização variados, requer o reconhecimento de que mulheres e homens não são iguais, as relações que estabelecem são assimétricas, não há um único modelo de masculinidade ou de feminilidade e as relações de poder perpassam também os relacionamentos entre as mulheres e entre os homens.

Gênero remete então à dinâmica da trans formação social, aos significados que vão além dos corpos e do sexo biológico e que subsidiam noções, ideias e valores nas distintas áreas da organização social: podemos encontrá-los nos símbolos culturalmente disponíveis sobre masculinidade e feminilidade, heterossexualidade e homossexualidade; na elaboração de conceitos normativos referentes aos campos científico, político, jurídico; na formulação de políticas públicas implantadas em creches e escolas; nas identidades subjetivas e coletivas. Ele permite reconhecer a tendência à naturalização das relações sociais baseadas na fisiologia dos corpos e enxergá-los como signos impressos por uma sociedade e por uma cultura.

EU ACHO …

O “NOVO NORMAL” E O (RE)PROPÓSITO DA CASA

A expressão “novo normal” vem sendo exaustivamente usada, nos últimos meses, quando se percebeu que o Coronavírus havia impactado de forma indefectível a sociedade global. A origem do termo não é recente e há muito debate em torno de quem a cunhou. É certo, contudo, que sempre foi vinculada ao período de readequação da sociedade, após uma grande crise, como a primeira grande guerra mundial.

Vários estudos e artigos vêm apontando as principais tendências sociais para o nosso novo normal. Dentre elas, a tão proclamada democratização do digital e a consequente hiperconectividade – que acabou sendo impulsionada por uma doença, não por um gigante da tecnologia.

Categorias demográficas que, antes, por limitação econômica ou temporal, resistiam à virtualização de seu cotidiano, foram ineludivelmente convertidas. Recentemente, presenciei uma centenária exultante no aniversário do bisneto, por Zoom, afirmando que a primeira coisa que fará após a quarentena é trocar o computador e o celular. Ela percebeu que essa é a forma mais fácil de acompanhar a vida dos seus familiares. O que nos leva à outra tendência – as reconexões afetivas.

A privação de contatos com o mundo externo nos mostrou o quanto somos seres sociais. Como já disse um conhecido antropólogo brasileiro, é a rede de relações sociais que dá realidade aos membros da sociedade. Em nome dos laços de amizade e parentesco, dos amores, somos impelidos à rua, a frequentar locais e encontrar pessoas. Ao sermos impedidos de fazermos isso, por determinação legal ou medo, percebemos o valor das conexões que, por hora, são contornadas pela conectividade tecnológica ou pela intensificação das poucas relações presenciais possíveis no momento. Estamos nos conectando com pessoas que não falamos há anos, mas que eram afetivamente significativas – telefone, e-mail, WhatsApp… – tudo vale a pena, quando o afeto não é pequeno.

Outro aspecto que vem sendo muito destacado é a valorização do “local”. Quanto mais vizinho e mais conhecido melhor, tirando preço do eterno topo da lista das prioridades dos compradores – não que este ainda não seja importante. Pelo risco de contaminação, quanto menos deslocamento para as poucas coisas inevitáveis à sobrevivência, melhor. E, de quebra, ajudamos o comércio próximo a passar por uma das maiores crises econômicas do pais, sem fechar suas portas (consumo consciente).

São muitas tendências projetadas ao “novo normal”, mas gostaria de me dirigir, agora, a uma das que me chama atenção: a ressignificação da casa. A casa vem assumindo um papel diferente na vida das pessoas e impactando nossos rituais e consumos. Recentemente, por exemplo, numa “live”, uma consultoria apontou o crescimento na venda de ingredientes para fazer o pão – fermentos, farinhas, etc. – e imediatamente me lembrei que realmente não havia encontrado trigo integral para comprar, justamente, para fazer uma receita de pão.

Ou seja, não é teoria, é prática. E isso é uma nova aventura, um novo patamar culinário, sem precedentes na família. Sem empregados domésticos – também em quarentena – relembramos o caminho do fogão e da lavanderia. Num primeiro momento forçados, mas, aos poucos, começamos a tirar aprendizados e prazeres dessas experiências. O ritual culinário, agora, se mistura com o gastronômico, que para muitos, antes, se restringia aos restaurantes.

O consumo de conteúdos também assumiu outro patamar. De repente, percebemos que aquela televisão, que andava meio esquecida, estava com seu prazo de validade vencido; e uma smart TV se transformou num artigo de primeira necessidade. O Netflix é o rei, com todas suas séries e filmes a um clique, mas também satura. E novos hábitos são adquiridos e, provavelmente, não serão esquecidos após a quarentena. O entretenimento doméstico e familiar ganhou uma importância que, há tempos, inexistia. Eu, que tenho o privilégio de morar em casa numa metrópole, redescobri o jardim, a mesa de ping-pong e o colchonete empoeirado, agora, namorando com os halteres e o Nike Training.

Os rituais de beleza também surpreenderam. Com cabeleireiros fechados, só nos restou aprender a pintar o cabelo em casa – descobrindo que se compra todo o necessário, mesmo importados, por comércio eletrônico, com entrega em poucos dias. Cortar o cabelo também virou diversão para as crianças. E o que parecia complicadíssimo, provou-se relativamente fácil. Novas práticas, novos consumos.
O trabalho, finalmente, ganhou a licença que precisava para adentrar a casa sem timidez. Tivemos de encontrar seu lugar ideal – já que são vários em home-office e home schooling, simultâneos, em lives e webconferências – e, de repente, sons e backgrounds domésticos começaram a invadir o universo externo (e vice-versa) embaralhando seus códigos de ética e rituais. Daí surgem novos pactos familiares e profissionais, além de compras de produtos que nos ajudem a equacionar essa nova realidade. Em casa, foram fones e mobiliários, por exemplo.

Em geral, a casa e a rua se complementam e disputam espaço na vida de cada um. Nesse “novo normal” a casa nos fez encontrar, nela, as respostas para demandas que buscávamos em lugares, sem saber que estavam ali mesmo, em casa.

CECÍLIA ANDREUCCI – é conselheira de administração, mestre em consumo e doutora em comunicação.

OUTROS OLHARES

EM QUARENTENA COM O AGRESSOR

Antes da pandemia chegar, a violência doméstica e o abuso sexual infantil já eram recorrentes em todo o mundo. Saiba por que o isolamento intensifica esses crimes

A violência contra a mulher e também a violência sexual infantil vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Cresce ainda mais agora em meio à imprescindível quarentena para o combate eficaz ao coronavírus. Os motivos são claros: mulher e marido violentos, mães e pais que habitualmente agridem filhos, todos estão nesse momento mais tempo juntos e em um lugar fechado — os seus lares. Somente os mal intencionados responsabilizariam o distanciamento social e a quarentena pelo aumento nesses crimes. Com ou sem isolamento, quem é violento é violento e ponto final. A restrição à circulação surge, assim, apenas como o dedo para um gatilho psíquico que já compõe o temperamento de algumas pessoas. “O que está ocorrendo, e é inegável que de fato está acontecendo, é a intensificação desse quadro”, diz Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os dados do Fórum mostram que a violência contra a mulher é uma “epidemia” – que, como o vírus, saltou para uma “pandemia”. Em março de 2018, havia o registro de 6.775 ocorrências de violência doméstica. Agora, também em março, o índice de agressão à mulher subiu 20%, traduzidos em 9.817 casos. O Ministério Público aponta o acréscimo de 51% nas prisões em flagrante em decorrência de violência doméstica contra a mulher. São Paulo, epicentro da doença dos ataques de coronavírus, não está isolado nesse trágico fenômeno. Em outra análise, agora feita pelo software SEMrush, no qual foram analisadas pesquisas na internet, a busca no Google por “Lei Maria da Penha” apresenta o estratosférico salto de 238% em Pernambuco, seguido por Rio de Janeiro, com 124%. E não é diferente a situação em outros países. Na Europa, por exemplo, 33% das mulheres sofreram algum tipo de violência física, emocional ou sexual durante a quarentena.

Aos 44 anos, A.F (preserva-se aqui o nome da vítima) levou dias para conseguir falar sobre a violência que sofreu do marido sem cortar palavras com choro. “A gente vai tolerando, relativizando, até porque ninguém é violento vinte e quatro horas por dia”, diz ela. “Só percebemos a gravidade quando estamos com olhos roxos e braços quebrados”. Sem suportar seus próprios conflitos interiores, o agressor os projeta em outra pessoa. Dentro de um lar, sob a tensão da pandemia e numa forçada convivência (o que não justifica comportamentos abusivos), dá para imaginar em quem a pessoa projetiva descarregará o seu curto-circuito emocional: na parte fisicamente mais fraca, ou seja, na mulher. “Eles trazem em sua psique inúmeras inseguranças”, explica a conceituada psicóloga Mariete Duarte, integrante da Clínica Maia e especializada em psiquiatria pela Universidade de São Paulo. “Para mascarar seus conflitos, agressores costumam usar drogas lícitas como o álcool, e isso pode liberar comportamentos reprimidos sob a forma de agressividade física”. Não é sem razão, portanto, que a OMS recomendou a diminuição do consumo de bebidas alcoólicas em todos os países, enquanto durarem seus respectivos distanciamentos sociais. É preciso evitar o vírus e é igualmente preciso evitar a saturação emocional de pessoas vivendo vinte e quatro horas juntas e durante dias. Apesar da recomendação da OMS, no Brasil, infelizmente, empresas de delivery registraram um aumento de 50% no pedido de bebidas alcoólicas.

A violência contra a mulher e também a violência sexual infantil vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Cresce ainda mais agora em meio à imprescindível quarentena para o combate

O PREDADOR E A MUTAÇÃO

Não só de marido e mulher forma-se uma família. Dentro de lares há também filhos, filhas, enteados, padrastos, madrastas e inúmeras possibilidades de formações parentais. Se no caso de violência doméstica há números e projeções, como saber o que acontece com crianças se confinadas com seus agressores? “Quando você fala de uma criança de cinco ou seis anos, ela nem sabe a violência pela qual está passando”, diz Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta. A consequência de abuso sexual de crianças durante o período de isolamento transforma o futuro em um lugar ainda mais perigoso. A quarentena reforça a existência de um problema recorrente em todo o mundo: o do ser humano como predador do próprio ser humano, ainda que haja uma outra predadora, terrível e invisível, como é a Covid-19. A violência, no entanto, não nasce com a mutação do vírus. A pandemia só evidencia agressores que podem morar sob o mesmo teto.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE MAIO

SALVOS PELO SANGUE

O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós… (Êxodo 12.13a).

A Páscoa foi celebrada na noite em que Deus libertou os hebreus da escravidão no Egito. A resistência de Faraó chegou ao fim, quando a morte visitou todos os primogênitos daquela terra milenar. Um cordeiro sem defeito foi morto para cada família, e seu sangue foi passado nos batentes das portas. Quando o anjo passou naquela noite fatídica e viu o sangue aspergido nas portas, não feriu ali o primogênito. O que salvou os hebreus da morte não foi o cordeiro, mas o sangue do cordeiro aspergido nas vergas das portas. O que livrou os hebreus não foi alguma virtude que eles pudessem ostentar, nem mesmo o sofrimento e as injustiças por eles sofridas na escravidão. A única diferença entre os hebreus e os egípcios naquela noite foi o sangue do cordeiro. É assim ainda hoje. Só há dois grupos de pessoas: os que estão debaixo do sangue de Cristo e os que ainda não estão. Não se trata de pertencer a essa ou àquela igreja. Não se trata de obras ou méritos. A única coisa que conta aos olhos de Deus é se estamos debaixo do sangue do Cordeiro imaculado ou não. Quando Deus vê o sangue, não aplica ali o juízo. Aquele sangue do Cordeiro nos batentes das portas era um símbolo do sangue de Cristo vertido na cruz. Somente o sangue de Cristo pode purificar-nos de todo o pecado. Somente pelo sangue de Cristo somos remidos dos nossos pecados. Somente pelo sangue de Cristo temos paz com Deus. Somente pelo sangue de Cristo somos salvos da morte eterna e do juízo vindouro.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER FOI PARA A PONTA

O mercado brasileiro de franquias está cada vez mais concentrado em operadores com diversas unidades de uma OLI mais marcas. São os multifranqueados, que já atraem até o interesse de fundos de investimento

Todos os anos, no mês de março ou abril, um grupo de empreendedores brasileiros embarca para Las Vegas, nos Estados Unidos, para a feira mundial de multifranqueados. O aumento do tamanho da turma revela uma evolução no mercado brasileiro de franquias. Em 2017, foram seis participantes; em 2019, 18. Multifranqueados são empreendedores que têm várias unidades de franquias, de uma ou mais marcas. Nos Estados Unidos, alguns operadores têm mais de 1.000 lojas. No Brasil, a tendência é mais recente, mas cresce em ritmo acelerado. Em empresas como a fabricante de cosméticos O Boticário, alguns franqueados chegam a ter uma centena de lojas. O empreendedor Mauro Nomura, dono do Grupo Nomura, é exemplo desse novo tipo de empreendedorismo. Com 31 lojas de calçados Adidas, Arezzo e Schutz, em Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro, Nomura deve faturar 230 milhões de reais neste ano, 33% mais do que em 2019. Em 2010, eran11 lojas, com receita total de 35 milhões de reais. “Há cinco anos, ninguém sabia direito o que era um multifranqueado”, diz Nomura.

Iniciativas como essa têm se tornado cada vez mais frequentes – e muitas vezes incluem até planejamentos de expansão feitos sob medida para os bons operadores. A Domino’s, do Grupo Trigo, vendido ao fundo Vinci Partners em 2018 por cerca de 300 milhões de reais, acabou de fechar um plano minucioso de abertura de dez lojas na Região Sul. O trabalho foi feito especialmente para um dos multifranqueados. “Trata-se de um deste Lot e os gestores da marca chegaram à conclusão de que valia à pena aprofundar a relação. “Lot é um excelente operador, com conhecimento do negócio e capacidade para nos ajudar na expansão”, diz Marcelo Cordovil, diretor de expansão da franqueadora. A loja de Brasília tem sido um sucesso, com 13.000 clientes em dezembro.

Empreendedores como Nomura e Lot são expoentes de uma sofisticação no mercado brasileiro de franquias. Os grandes franqueadores preferiam diluir os riscos com a contratação de dezenas ou centenas de franqueados, numa estratégia de expansão definida na matriz. Ao franqueado cabia executar o já definido. Mas a crise econômica dos últimos anos acelerou uma mudança que, na visão de especialistas do setor, seria inevitável. A dificuldade financeira de algumas lojas fez com que as franqueadoras acelerassem a busca por franqueados experientes, dispostos a assumir mais responsabilidade. “Os pequenos franqueados, que tinham só uma loja, tiveram mais dificuldade para enfrentar a perda de clientes”, diz o consultor de franquias Marcelo Cherto, presidente do Grupo Cherto.

Na rede Mania de Churrasco, que faturou 224 milhões de reais em 2019, o dobro de 2017, hoje 70% dos franqueados têm mais de uma loja. Há quatro anos eram apenas 30%. Na Domino’s, os multifranqueados têm metade das 224 franquias no país. Com uma estrutura operacional mais robusta, os multifranqueados em geral conseguem baixar custos, como gastos com energia elétrica e água e também com insumos básicos. Tudo isso ajuda a elevar a rentabilidade do negócio, mantém mais dinheiro em caixa e facilita o ganho de escala. Alguns multifranqueados têm inovado também no pós-venda. O carioca Leonardo Sobral, franqueado de 24 lojas das redes de roupas Levi’s e Hering e da rede de cosméticos O Boticário, criou uma estratégia para tornar fiel a clientela. Os funcionários de sua empresa, a Sfera Multifranquias telefonam para os consumidores para saber se gostaram do produto que compraram. Quando há alguma insatisfação com o produto, um funcionário da Sfera visita os clientes para entender os motivos da reclamação e procurar uma solução. “Convidamos o cliente para ir à loja e oferecemos um atendimento especial”, diz Sobral. Com iniciativas dessa natureza, o valor médio de cada venda da Sfera aumentou 12% no ano passado. “Para as marcas, é um passaporte para o crescimento sustentável”, afirma Alberto Oyama, diretor da unidade de multifranqueados na Associação Brasileira de Franchising.

Os bons resultados dos multifranqueados começaram a chamar a atenção até de fundos de investimento. Segundo apuramos, o Vinci Partners e o americano H.I.G. Capital, com 35 bilhões de dólares em ativos, estudam investimentos. A tendência de ganho de escala dos multifranqueados, a resiliência perante a crise econômica e o aumento da procura por alimentação fora do lar estão entre os fatores de atração. Nomura vem conversando com vários desses fundos. “Provavelmente, em 2021 receberemos algum aporte”, afirma ele. Seria um divisor de águas no setor de franquias, um importante motor da economia. No ano passado, esse mercado movimentou quase 187 bilhões de reais, ante 175 bilhões em 2018. De 2014 a 2018, no auge da queda do consumo das famílias; o setor cresceu cerca de 30%. “ó mercado ainda pode amadurecer mais, com a chegada de novas marcas e o fortalecimento cada vez maior dos bons operadores, como já acontece em outros países”, diz Oyama. A referência é o mercado americano. Mais da metade dos franqueados por lá tem mais de uma loja. O Flynn Restaurant Group, que opera 1.245 restaurantes das marcas de fastfood Aplebee’s, Taco Bell e Arby’s e da rede de padarias Panera Bread, faturou 2 bilhões de dólares em 2019. O grupo recebeu em 2014 investimentos da ordem de 300 milhões de dólares do Ontario’s Teacher’s Pension Plan, um dos maiores fundos de pensão canadenses. O NPC International não fica muito atrás, com 25.000 funcionários e mais de 1.000 lojas de Pizza Hut e Wendy’s, e um faturamento de mais de 1 bilhão de dólares. Já o grupo mexicano Alsea, criado em 1997, opera mais de 3.000 restaurantes de Burger King, Starbucks, Domino’s, P.F Chang’s e Cheescake Factory. As lojas estão distribuídas por México, Chile, Argentina, Colômbia, Espanha e França. A empresa faturou 12,6 bilhões de dólares em 2018 e abriu o capital no México há seis anos. Neste ano, deve abrir na Espanha. “O mercado brasileiro está no caminho certo para chegar ao ponto de maturidade de outros países”, diz Cheito. O risco dessa concentração é desvirtuar o próprio conceito de franquia, que proporciona à dona da marca o controle das decisões – e royalties livres de risco. Uma gestão descentralizada tende a reduzir margens, que passam do franqueador para o franqueado. Para empresas como Domino’s, O Boticário e Arezzo, parece que vale a pena apostar.

CONCENTROU E CRESCEU

As redes de franchising expandiram a receita em 44% desde 2014, mantendo quase o mesmo número de unidades

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE IGUAIS

Mecanismos que atuam na vida intrauterina e na puberdade podem determinar a base das preferências sexuais

Já pensou ser discriminado por exibir alguma característica determinada biologicamente, como a cor dos olhos, ainda que você se sinta bem com isso e não consiga imaginá-los de outra cor? Imagine também se dezenas de teóricos e grupos militantes escrevessem livros inteiros explicando como, por influência dos pais, para agradar aos amigos ou por causa das más companhias, você “escolheu” tê-los assim. Além de tentarem convencê-lo disso, exigem que você mude a cor deles. Soa angustiante? Ao que tudo indica, isso é o que vem acontecendo com muitos de nós – não em relação à cor dos olhos, claro, mas quanto à preferência sexual.

Esqueça aquelas pequenas e contestadas diferenças nas habilidades espaciais, verbais e cognitivas entre homens e mulheres. Do ponto de vista cerebral, o que os distingue mesmo é tão óbvio que acaba sendo esquecido: a preferência sexual. A partir da adolescência, a maioria dos rapazes (cerca de 90% a 95%, dependendo de quem conta) sente-se atraída sexualmente por garotas. Para a alegria deles – e a continuidade da espécie – a recíproca é verdadeira: a grande maioria delas sente atração sexual por garotos.

A única razão que explica a heterossexualidade como preferência normal da nossa espécie é o simples fato de ela ser encontrada na maioria da população. O termo “normal” se refere a uma curva característica que descreve, em grandes populações, a distribuição de parâmetros como estatura ou massa corporal. Como a maioria das pessoas mede em torno de 1,70 metro, e cerca de nove entre dez medem entre 1,5 0 metro e 1,90 metro, diz-se que tem altura normal quem cair dentro desse grupo. Que dizer, então, daqueles que escapam à normalidade por serem altos ou baixos demais? Para a medicina, não se enquadrar, estatisticamente, não significa ser doente. É claro que estaturas anormais podem resultar de alterações do funcionamento do organismo. É o caso, por exemplo, do gigantismo, causado por distúrbios hormonais. No entanto, muitas vezes um parâmetro foge à normalidade em razão da herança genética ou de outros fatores biológicos que não perturbam em nada o bem-estar do indivíduo. Além disso, o que é normal em uma população pode ser anormal em outra.

NORMALIDADE RELATIVA

Considere, por exemplo, a distribuição da cor dos olhos. No Brasil é normal tê-los escuros. Já na Suécia isso é exceção, pois lá a regra é ter olhos azuis. Incluir-se na norma ou não, nesse caso, obviamente não afeta a saúde. É por isso que se diz que a característica fora do normal e que não prejudica a saúde é uma variação. Assim, ter olhos castanhos no Brasil é normal; na Suécia é uma variante. Os brasileiros de olhos castanhos que moram na Suécia não são considerados doentes por isso, nem são coagidos a ocultá-los atrás de incômodas lentes de contato.

Quando se entendem as definições de normalidade e de variação, torna-se natural aceitar que a distribuição de características determinadas biologicamente não é uma questão de escolha. Daí o hoje disseminado repúdio ao racismo e as tentativas legais de proteger da discriminação pessoas negras, idosas ou portadoras de necessidades especiais. Os homossexuais são alvo de preconceito em grande parte por causa de décadas de teorias e lobbies políticos e religiosos para que a homossexualidade fosse considerada doença, ou ao menos uma opção inconveniente a ser revertida. No entanto, todas as evidências indicam o contrário: a preferência sexual é determinada biologicamente e ainda no útero – o que faz da homossexualidade uma variação, já que a maioria da população é heterossexual. Para desespero daqueles que acham que podem “consertar” a sexualidade dos outros, as neurociências apontam para a origem biológica da preferência sexual humana. Para infelicidade de muitos religiosos, políticos e psicoterapeutas, não há nenhuma evidência de que fatores sociais a influenciem. Cerca de 10 % da população (masculina e feminina) procuram preferencialmente parceiros do mesmo sexo. E esse número não muda entre os que foram criados por pai e mãe heterossexuais, por dois pais gays, por duas mães lésbicas, com ou sem religião.

RASTRO SEXUAL

Entretanto, há uma coisa em comum aos que preferem se relacionar com homens (mulheres hétero e homens homo), que é diferente naqueles que se sentem atraídos por mulheres (homens hétero e mulheres homo): a maneira como o cérebro de um e outro reage aos feromônios.

Sexo é um assunto tão importante, biológica e evolutivamente (afinal é o que torna possível a continuidade das espécies), que existem regiões do cérebro dedicadas exclusivamente a ele. Várias ficam no hipotálamo, estrutura responsável pela regulação de muitas funções do organismo, como frequência cardíaca, pressão arterial e comportamentos mais complexos como aproximação sexual e cópula. Situadas no hipotálamo ou não, todas as estruturas cerebrais relacionadas ao sexo respondem aos feromônios.

Essas substâncias são usadas por inúmeras espécies – leve duras, javalis e humanos – com a finalidade última de reproduzir-se. As alterações fisiológicas e comportamentais que elas produzem são sempre de cunho social. Cada indivíduo fabrica o feromônio característico de sua espécie, na versão “macho” ou “fêmea”, e o efeito no cérebro de seus pares do sexo oposto é avassalador. Quando tudo dá certo, o resultado é um filhote.

Muito voláteis, os feromônios entram pelo nariz, onde são detectados pelo órgão vomeronasal – e não pelo epitélio olfativo, razão pela qual são inodoros. Em seguida a informação é encaminhada para o hipotálamo. O comportamento desencadeado depende radicalmente de como essa região é ativada. O hipotálamo dos homens heterossexuais responde fortemente ao feromônio feminino EST (estra-1,3,5(10),16 -terrae-3-nol), um derivado do hormônio estrogênio (estrógeno), produzido durante o ciclo menstrual. A mesma região do cérebro das mulheres heterossexuais reage ao feromônio masculino ANO (4,16-androestadie -3-nona), que deriva de hormônios sexuais masculinos e é encontrado no suor, na pele e nos pelos axilares dos varões. Como era de esperar, o ANO aumenta a excitação das mulheres e diminui a dos homens quando ambos são heterossexuais.

Depois da detecção segue-se uma cascata de eventos em outras regiões do cérebro (como amígdala, córtex cerebral e sistema de recompensa) que provoca excitação sexual e faz com que se busque o dono ou a dona do feromônio em questão. Embora sejam inodoras, parece que essas substâncias são um dos principais determinantes do interesse e da aproximação sexual. Elas fazem com que 90% dos homens prefiram se aproximar delas e vice-versa, sem que ninguém saiba que tudo começa pelo nariz.

As estruturas que respondem aos feromônios e regem o comportamento sexual são as mesmas em homens e mulheres. Suspeitou-se, porém, que elas pudessem ser diferentes entre os sexos, de modo a garantir que o cérebro deles e delas reagisse de forma diferente a feromônios femininos e masculinos. Esse dimorfismo sexual de fato existe e está diretamente relacionado ao comportamento diferenciado que garotos e garotas passam a exibir a partir da adolescência, quando as estruturas cerebrais envolvidas amadurecem e tornam-se sensíveis aos feromônios.

As diferenças começam já na porta de entrada: no órgão vomeronasal (ver ilustração abaixo). Desse ponto em diante, em todas as estruturas da chamada via vomeronasal, os homens têm mais neurônios que as mulheres para processar os sinais gerados pela detecção dos feromônios. O tamanho de algumas estruturas também é maior neles, como o bulbo olfativo acessório (que recebe os sinais do órgão vomeronasal) e as próximas estações de processamento: núcleo póstero-dorsal da amígdala medial (pd MEA), núcleo intersticial da estria terminal (BST) e área pré-óptica medial do hipotálamo. Como esse dimorfismo depende da ação de hormônios sexuais masculinos, ele se manifesta apenas a partir da adolescência.

A importância da via vomeronasal para o comportamento sexual fica evidente quando ela é alterada experimentalmente. O bloqueio da síntese de um único receptor para hormônios femininos em uma área específica do hipotálamo, por exemplo, é suficiente para abolir o comportamento sexual de fêmeas de camundongo. Com o hipotálamo insensível ao estrogênio, elas não só deixam de aceitar as investidas dos machos como passam a rejeitá-los – simplesmente porque um único gene, o responsável pela síntese do receptor, foi silenciado.

A tomografia por emissão de pósitrons revelou que o cérebro de mulheres homossexuais (M-homo) responde aos deromônios de forma diferente do de mulheres heterossexuais (H-hétero). A área pré-optica do hipotálamo de M-homo não é ativada pelo feromônio masculino AND, como ocorre nas M-hétero. A exposição ao feromônio feminino EST ativa, tanto nas M-homo quanto nos H-hétero, as regiões dorsomedial e paraventricular do hipotálamo. Experimentos semelhantes com homens homossexuais chegaram a resultados parecidos.

NA GESTAÇÃO

A ativação da via vomeronasal em resposta aos feromônios de um(a) parceiro(a) em potencial é possível apenas na presença dos hormônios sexuais. Entretanto, não adianta inundar o cérebro infantil com eles para que o interesse sexual seja despertado: é preciso que ele passe pela puberdade para poder responder a essas substâncias. É verdade que o primeiro contato do sistema nervoso com os hormônios sexuais ocorre durante a gestação, pois é o pico de testosterona que determina a masculinização do feto e faz com que todas as estruturas da via vomeronasal produzam aromatase, a enzima que tornará possível, na adolescência, a ação do hormônio masculino sobre o sistema nervoso. É também na puberdade que a testosterona induz o crescimento de várias estruturas da via vomeronasal, como pdMEA e BST, no cérebro dos homens. A sensibilização dos neurônios ao longo dela – condição necessária para o interesse sexual – é estimulada tanto pela testosterona quanto pelo estrogênio.

Assim, o comportamento sexual resulta de ações inicialmente organizadoras, e, mais tarde permissivas, desencadeadas pelos hormônios sexuais. A atração que se sente pelo outro, seja este de que sexo for, é resultado da influência de genes e hormônios durante a formação, ainda no útero, de determinadas regiões cerebrais. Estas, por sua vez, determinarão mais tarde, depois de amadurecidas na adolescência, a preferência sexual pelo sexo oposto na maioria das pessoas ou pelo mesmo sexo em algumas. Revelada quando o cérebro adolescente expressa o caminho que tomou ainda na gestação, a preferência sexual não se escolhe: descobre-se.

Quando surgiram nos anos 80 as primeiras evidências de que a sexualidade é determinada biologicamente, militantes do movimento gay manifestaram-se tanto contra como a favor. Alguns grupos acolheram as descobertas como prova de que a homossexualidade não é doença nem opção, e sim biologia inevitável. Outros, ao contrário, sentiram-se lesados em seu direito de optar por essa forma de expressar sua sexualidade.

De lá para cá, um número cada vez maior de estudos mostram que a preferência sexual está associada a diferenças no hipotálamo. O neurocientista (e homossexual assumido) Simon LeVay mostrou, no início dos anos 90, que os homens têm mais neurônios em um pequeno núcleo hipotalâmico, chamado INAH-3, quando comparado à mesma região do cérebro das mulheres. Em homens homossexuais, essa quantidade foi intermediária.

Pesquisas recentes revelam que o hipotálamo de homo e de heterossexuais do mesmo sexo tem características diversas. Pesquisadores suecos mostraram, em 2006, que nem todo hipotálamo masculino responde a feromônios femininos e vice-versa. Usando ressonância magnética funcional, eles observaram que o padrão de respostados neurônios hipotalâmicos correlaciona-se não com o sexo do indivíduo, mas com sua preferência sexual. Assim, homens e mulheres que gostam de mulheres respondem ao feromônio feminino EST; já as mulheres e os homens que se sentem atraídos por homens têm o hipotálamo sensível ao feromônio masculino AND.

O que faz com que o hipotálamo responda diferentemente aos feromônios masculinos e femininos parece ser uma combinação de herança genética com fatore s hormonais durante a gestação. Há fortes evidências de que a exposição a quantidades exageradas de testosterona na vida intrauterina masculiniza a programação biológica de fetos femininos. Consequentemente, essas meninas passam a expressar, a partir da adolescência, o padrão masculino da via vomeronasal e de resposta aos feromônios. Da mesma forma, a homossexualidade masculina está associada a níveis mais baixos de testosterona durante o período fetal, o que parece influenciar o desenvolvimento da via vomeronasal depois da puberdade.

O ser humano não é a única espécie animal da qual alguns indivíduos demonstram preferência sexual pelo mesmo gênero. Diferenças nas estruturas que respondem aos feromônios são encontradas também em carneiros. De 8% a 10 % dos machos avançam insistente e exclusivamente sobre outros machos. Não há nenhum fator social ovino conhecido que poderia tê-los tornado homossexuais. Por outro lado, há uma diferença cerebral importante entre esses animais e seus companheiros hétero: o tamanho de um núcleo localizado numa área do hipotálamo chamada pré-óptica. A região é maior nos carneiros heterossexuais e menor nas fêmeas e nos machos homossexuais. Evidentemente, sempre existe a possibilidade teórica de a base biológica responsável pela preferência sexual mudar em consequência do comportamento homossexual, tanto de homens como de carneiros. No entanto, isso é muito pouco provável pelo que se sabe sobre a dificuldade de “converter” homossexuais em heterossexuais e vice-versa, sobre a indiferença da sexualidade a influências sociais e sobre a existência de padrões semelhantes de comportamento homossexual em outras espécies.

SEXO “ERRADO”

Até algo tão fundamental como sentir-se homem ou mulher parece ser determinado pela biologia do cérebro. Ao examinar, em 2000, um grupo de 42 pessoas composto de homens e mulheres hétero, homo e transexuais, pesquisadores holandeses observaram um número duas vezes maior de neurônios num dos núcleos da via vomeronasal (o BST) nas pessoas que se identificavam como homens em comparação às que se identificavam como mulheres – independentemente do sexo biológico, da preferência sexual e do fato de terem sido ou não tratadas com hormônios sexuais.

Graças a esse tipo de estudo, a atração por pessoas do mesmo sexo ou a sensação de ter nascido do sexo “errado” não podem mais ser consideradas aberrações psicológicas ou frutos de uma educação “equivocada”, familiar ou escolar. Trata-se de variações determinadas biologicamente. E como todo fenômeno biológico, a determinação da identidade e da preferência sexual está sujeita a influências químicas e genéticas nem sempre bem compreendidas. Aliás, seria surpresa para um biólogo se todos fossem perfeitamente iguais, sem nenhuma variação na cor dos olhos ou na preferência sexual. A descoberta de que é o cérebro, e não os hormônios sexuais nem a genitália, que define a identidade ou a preferência sexual é uma das lições das neurociências de maior impacto em nossa vida cotidiana. A atração por um ou outro sexo é inata, não opcional. Por isso as tentativas de convencer pessoas ou outros animais a mudar suas preferências sexuais nunca deram certo.

A ciência é frequentemente criticada por “reduzir” a questão da homossexualidade aos domínios da biologia. Isso deixa transparecer a incrível dificuldade que o ser humano tem de aceitar-se como animal. Gostamos de assistir aos documentários sobre macacos ou leões, mas custa-nos admitir que a Natureza pode ter influência – muitas vezes determinante – também sobre nosso comportamento.

O comportamento sexual não pode ser explicado exclusivamente pela biologia. As pessoas têm sim a opção de fazer o que bem entendem com sua preferência sexual, ainda que lamentavelmente o preconceito e a discriminação tragam complicações psicológicas.

A Natureza não reina sozinha. De fato, é possível optar pelo comportamento heterossexual, contra a preferência biológica ou a favor dela. Nesse caso a família e a sociedade certamente exercem um papel importante. Mas o cérebro é capa de fazer melhor; pode até mudar crenças, teorias e preconceitos, felizmente. Se 100 % da população tem preferência sexual inata e biologicamente determinada, somos todos iguais nesse quesito – mesmo que o cérebro da maioria responda a feromônios do sexo oposto. Tentar mudá-la é como insistir que uma pessoa troque a cor da pele, torne-se menos alta ou mude a cor dos olhos. É inútil, inviável e injusto.

EU ACHO …

QUANDO UMA JANELA SE FECHA…

Reflexões sobre os dias arrastados no isolamento social

Peço desculpas antecipadamente: esta matéria será perturbadora para os cientistas (incluindo os da minha família, mas, felizmente, nenhum deles lê o que eu escrevo). As regras do mundo físico parecem estar nos abandonando. O vírus age como nenhum outro patógeno. Hoje, 2 metros é uma distância totalmente subjetiva, expandindo-se e contraindo-se conforme a necessidade. O tempo não é newtoniano como a farinha de milho que você provavelmente recorreu se tiver filhos. pequenos para distrair, rígida e fluida ao mesmo tempo. Os números basicamente não têm sentido: na matemática pandêmica, um número como 413 mortes – uma catástrofe inimaginável em qualquer outra época, – é animador, causa certo otimismo. As antigas certezas estão desgastadas, mas, escondidos em nossos casulos de isolamento, surgem novas leis físicas para esse modo de vida. A ciência está em suas etapas iniciais, mas, empiricamente, alguns fatos importantes foram observados. Como alguém sem a menor compreensão de ciência de qualquer tipo, sou sua guia perfeita para eles.

1 – Sempre que você quiser estar em seu espaço de lockdown, alguma outra pessoa precisará urgentemente estar lá. Sim, agora mesmo. No meu espaço, essa pessoa estará sempre empunhando um martelo. Acho que foi Tchekhov quem disse: Não coloque um martelo no primeiro ato, se você não for martelar como um maluco nos atos 2 a 4”, e esse princípio dramático é respeitado aqui.

2 – Janelas. O tanto que você se aprecia é o oposto de quanto seus colegas de internação as aprovam. Agora, sua vida é apenas uma guerra de atritos baseada em janelas. Foi assim que surgiu o novo provérbio: “Quando uma janela se abre, outra janela se fecha”.

3 – Como agora somos todos ruminantes, constantemente pastando, desenvolvemos um estômago extra para acomodar o nosso lanche preferido, para atenuar o isolamento quando estivermos cheios de outros alimentos. Agora eu tenho um estômago de salgadinho de queijo e cebola. Não discuta com a ciência.

4 – Falando em comida, sabe aquela guloseima que você vem cobiçando, guardando obcecadamente? Alguém a comeu. Nem sequer aproveitou! Estava só matando o tempo. Podem até ter deixado um pouco no lixo para você encontrar.

5 – Sobre o tema lixo, a síndrome de percepção do lixo, embora não seja novidade para a ciência, estaria exacerbando-se durante a crise do coronavírus. A síndrome manifesta-se de duas maneiras : ou os afetados não conseguem mais enxergar a lata, mesmo quando está cercada de moscas e sendo escavada por um cachorro oportunista, ou eles só veem a lata, que percebem como vasta, pulsante, ocupando toda a sua consciência.

6 –  Frações – para qualquer tentativa de assistir alguma coisa “em família”, ou outra unidade de isolamento coletivo, aplicam-se as seguintes proporções: um quarto dorme; um quarto afirmou que queria assistir, mas agora está mexendo em seu celular; um quarto nunca fingiu que faria qualquer coisa além de mexer no celular; e um quarto critica em voz alta e odeia  todos os momentos, mas na verdade é o único que realmente está olhando para a tela.

7 – Se você trabalha oito horas seguidas, tirando apenas pausas de dez minutos, e mencionou claramente que está ocupado e que é necessário que não seja perturbado, a única hora em que alguém o incomodará será durante aqueles intervalos de dez minutos, quando você estará vendo um vídeo de um cavalo com um bigode enorme ou tentando plantar bananeira. Você não terá sucesso na bananeira quando for interrompido: estará caído como uma tartaruga de pernas para o ar.

8 – O predador máximo em todo novo sistema multipresa urbano é a gaivota. Esse é outro motivo excelente para não ir lá fora: sem restos de frango frito descartados para se banquetear, elas estão mais famintas e nervosas do que nunca.

9 – Os biólogos também observaram que está surgindo uma nova superespécie de cão doméstico, muito magra, graças a caminhadas frequentes e longas feitas pelos integrantes do casulo para livrar-se dos outros integrantes, usando o cachorro como desculpa. O casulo está criando um problema para si mesmo após o lockdown: o supercão exigirá, no mínimo, quatro horas diárias de exercício.

10 – A incidência de podcasts feitos pela população em geral é de 0,08%. Nos homens de 28 a 50 anos em isolamento chega a 79%. Eles costumavam dizer que você nunca está mais de 1,80 metros de um rato, mas agora você nunca estará mais de duas casas de um homem com opiniões e um microfone.

11 – Todas as conversas seguem uma fórmula mista que um amigo meu chamou de “fita de coronamóbius”, que se repete indefinidamente. Nada acontecerá com nenhum de nós (se tivermos sorte), mas precisamos expressar isso várias vezes.

12 – Há uma quantidade fixa de moral em um espaço de isolamento. Ela não aumenta nem diminui, simplesmente passa entre os indivíduos no espaço. O lado bom disso é que você pode reenquadrar seus maus humores como um ato de altruísmo em relação aos outros integrantes do casulo.

OUTROS OLHARES

APOSTE NO BICHO

Há um atalho para tentar evitar novos surtos e desenvolver vacinas – entender como os coronavírus vieram dos animais para nós, frágeis seres humanos

De todas as bobagens ditas por Donald Trump sobre a pandemia, nenhuma superou a afirmação de que o vírus que provoca a Covid-19 teve origem em um laboratório de Wuhan, epicentro dos primeiro caso da doença, no fim de dezembro do ano passado – um documento da inteligência alemã foi o que melhor definiu o comportamento do presidente americano, modo de ”desviar a atenção do seu próprio erro e redirecionar a raiva para a China”.

Pesquisas minuciosas e já amplamente divulgadas, confirmam: o Sars-CoV-2, o novo coronavírus, teria sido transmitido ao ser humano a partir de um hospedeiro intermediário, o pangolim, mamífero muito comum em zona tropical da Ásia e da África, contaminado pelo hospedeiro natural, o morcego. É muito possível, portanto, que, longe de tubos de ensaio e pipetas, a origem do surto tenha o carimbo dos mercados de bichos (vivos) do Oriente – não porque produtores e consumidores tenham tido mirabolantes ideias laboratoriais e tampouco porque desejassem provocar a ruína global, intencionalmente, como faz querer parecer o presidente dos Estados Unidos. Os animais, enfim, são o passo zero da transmissão – mapear os vírus que circulam entre eles e que podem infectar a nós, frágeis humanos, é a maneira cientificamente mais adequada de evitar outros assustadores e mortais medos coletivos.

A exploração desenfreada de florestas ricas em biodiversidade, marca indelével de nosso tempo, empurra os animais selvagens para perto do homem. Na China e em parte do sudoeste asiático esse comportamento é comum, associado a práticas cruéis e insalubres envolvidas na captura, abate, comércio e transporte da fauna – embora, ressalve-se, a onda de modernidade impostas por exigência de autoridades locais e pressão de regras internacionais, comecem a provocar boas mudanças. Mas os mercados de bichos vivos existem e um deles, o Huanan, em1 Wuhan, temporariamente fechado, hoje é tristemente conhecido como o ponto de largada da pandemia – mas pode representar o começo do fim do consumo de animais selvagens.

Para tentar frear a próxima contaminação, há um caminho: rastrear a gênese dos vírus existentes na natureza, identificar os que são perigosos e agir rapidamente. Em outras palavras: convém apostar nos bichos e buscar as pessoas que se aproximaram deles. Uma das organizações mais atuantes nessa área é a EcoHealth Alliance, que há quinze anos reúne profissionais que saem a campo colhendo amostra de sangue ou de células da boca ou do nariz de animais e de pessoas – para catalogar os vírus e decodificar o genoma deles. Quanto mais perto do Homo sapiens na escala evolutiva estiver o hospedeiro, maior a chance de os vírus dele nos infectarem também (por isso não há busca de resíduo em jacarés, por exemplo).

“Insistimos numa tecla, permanentemente: o comércio de animais selvagens traz enorme risco de novas pandemias”, diz o zoólogo e parasitologista inglês Peter Daszak, presidente da EcoHealth. A ONG faz parte de um grupo maior, o Global Virome Project. Criado em 2018, e constantemente fustigado por Trump (que promove sucessivos ataques contra os trabalhos científicos, já que verdades não lhe interessam), o projeto é orçado em 1,2 bilhão de dólares e tem como objetivo seminal identificar ao longo de dez anos pelo menos 70% dos estimados 1,6 milhão de vírus que existem no planeta – uma parcela muito pequena dessa turma pode provocar danos, como ocorre com alguns coronavírus, mas quando explodem, em rápida disseminação, tendem a ser catastróficos. Daí a importância, também, das vacinas universais – que agem contra uma família viral inteira.

“Conseguir a vacina universal é perfeitamente factível, mas para isso precisamos de dinheiro e dedicação”, diz Daszak. A imunização contra o Sars-CoV-2 não deve sair antes de um ou dois anos, mas será crucial na busca pela versão universal contra todos os coronavírus. Depois do levantar da quarentena, depois de vacinados, precisaremos aprender a respeitar um pouco mais o meio ambiente. Essa é a regra do jogo, o legado pedagógico e vital da Covid-19.

O CAMINHO DO VÍRUS

Somente entre morcegos encontrados na China já foram descobertos e catalogados cerca de 500 coronavírus diferentes. Eles saltam do hospedeiro natural para hospedeiros intermediários, e dali para seres humanos, como ocorreu em outras epidemias recentes

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE MAIO

A FELICIDADE DE TER UM CORAÇÃO PURO

Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Mateus 5.8).

Jesus disse que felizes são os puros de coração, porque estes verão a Deus. Enganam-se aqueles que pensam que a felicidade está nas iguarias do mundo. A felicidade está exatamente em abster-se desse banquete. Os licores do pecado podem ser doces ao paladar, mas são amargos no estômago. Podem dar prazer por um momento, mas não satisfazem o coração para sempre. Não são aqueles que curtem as aventuras da vida que são felizes, mas os que se mantêm castos. Não são aqueles que se entregam à volúpia que encontram a felicidade, mas os que guardam puro o coração. A felicidade não está no banquete do pecado, mas na festa da santidade. A felicidade não está nas aventuras crepitantes do sexo ilícito, mas na vida regida pela pureza. Só os puros de coração verão a Deus. Só os puros de coração se deleitam em Deus e se sentirão em casa na Casa do Pai. Uma pessoa impura não se sentiria bem no céu, pois lá não entra nada contaminado. Aqueles que se alimentam de impureza passarão toda a eternidade recebendo o que sempre desejaram: a impureza. Aqueles que semearam a impureza no tempo colherão a impureza na eternidade. Aqueles que buscaram a santidade, porém, verão a Deus e se deleitarão nele pelo desdobrar dos séculos sem fim.

GESTÃO E CARREIRA

CAUTELA COM OS DADOS

Regras mais rígidas sobre informações de clientes coletadas por empresas se espalham pelo mundo. No Brasil, as companhias ainda correm para se adaptar

Gigantes de tecnologia, como Facebook e Google, entraram na rotina diária de milhões de pessoas em todo o mundo de uma forma quase simbiótica. Enquanto avançam na capacidade de monitorar cada passo de seus usuários no mundo real ou virtual, essas empresas ajudaram a elevar a discussão sobre privacidade de dados a um dos temas mais críticos da atualidade.

É notável que, desde janeiro, a primeira lei americana dedicada a garantir o sigilo de dados de consumidores tenha entrado em vigor na Califórnia, berço de algumas das principais companhias de tecnologia do mundo. Desde o primeiro dia do ano, passou a valer o California Consumer Privacy Act, legislação estadual que regulamenta a coleta e o uso de dados pessoais de consumidores californianos pelas empresas instaladas na região.

As multas por vazamento de dados podem variar de 2.500 a 7.500 dólares por informação vazada — valor considerável quando a empresa lida com um grande volume de dados. A lei chega pouco mais de um ano depois do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), legislação que segue a mesma linha rigorosa implementada em 2018 pela União Europeia. No Brasil, o tratamento de dados caminha na mesma direção com a criação da Lei Geral de Proteção de Dados (LOPD), que, sancionada em 2018, passará a valer em agosto.

Um ponto comum une as novas regras nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil: o grau de rigor não apenas em relação às exigências, mas também às punições previstas. Assim como na lei europeia, as sanções administrativas no Brasil poderão chegar a 2% do faturamento da empresa no ano anterior, com o limite de 50 milhões de reais por infração. O trabalho de fiscalização ficaria a cargo de uma nova agência, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, ainda sem data para sair do papel. “Desde as discussões sobre o Marco Civil da Internet em 2007, já havia, no Brasil, a intenção de regulamentar o tratamento de dados”, diz a advogada Marcela de Oliveira Santos, do escritório Duarte Garcia, que colaborou na elaboração da LGPD.

“O sistema de responsabilização ficou muito mais sofisticado, e isso demandará trabalho intenso e multidisciplinar dentro das empresas.” Há indícios de que boa parte dessa preparação só começou. Uma pesquisa concluída em novembro de 2019 pela consultoria de compliance ICTS Protiviti mostra que 84% das companhias no país admitiam não estar preparadas para atender a todas as novas exigências.

Se até agora as empresas se concentravam em acumular dados sobre os consumidores, daqui para a frente o foco também estará voltado para organização, monitoramento e uso responsável dessas informações. Não é uma mudança trivial. Parte das alterações exige uma adaptação mais simples, como na rotina de cadastramento dos clientes. Hoje as empresas têm liberdade para propor cadastros extensos. A partir de agosto, cada dado pedido deverá ser justificado. Pode não fazer sentido, por exemplo, perguntar o estado civil do cliente para realizar um cadastro antes de uma simples compra.

Existe, também, uma classificação de dados pessoais sensíveis, que envolvem informações sobre origem étnica, convicções religiosas, opiniões políticas e questões de saúde, entre outras. Para a captação desses dados, será necessário consentimento prévio e claro do titular, algo que não ocorre na obtenção de dados comuns. Outras novidades da lei demandam uma reorganização mais complexa. Numa medida comum às leis europeia e californiana, por exemplo, qualquer pessoa poderá solicitar a exclusão de todas as suas informações registradas na base de dados de uma companhia. “Do início de 2018 em diante, a Europa viu uma correria frenética das empresas para se adaptar à nova lei”, diz Geert Aalbers, sócio da consultoria Control Risks, especializada em análise de riscos. “Um dos grandes desafios foi o mapeamento de dados: eles estavam tão dispersos que as empresas nem sequer sabiam onde eram armazenados. Essa é uma dificuldade que as empresas brasileiras também devem enfrentar.”

Mapear os caminhos percorridos pelos dados após sua captação é o primeiro movimento de adaptação das organizações. Especialmente influenciado pelas regras europeias, o braço do supermercadista francês Carrefour no Brasil finaliza o mapeamento nas empresas do grupo e acerta os detalhes do plano de ação. “Enviamos formulários à pessoas-chave da organização e fizemos entrevistas para entender como os dados circulam”, diz Ana Luísa Hieaux, diretora jurídica do Carrefour. “Agora, estamos prestes a formalizar a estrutura da área de proteção de dados, com foco em e-commerce, varejo, banco Carrefour e Atacadão.” Segundo ela, a empresa prevê a instauração de um comitê de privacidade para deliberar sobre os temas relacionados à LGPD e à criação de um cargo de liderança em cada unidade da rede de lojas, que deverá responder ao encarregado de dados — cargo compulsório dentro da nova legislação (veja reportagem ao lado), ainda a ser nomeado. O processo de adaptação à lei está sendo feito a quatro mãos: ao lado de Ana Luísa está o diretor de segurança da informação, Renã Santos, responsável pela parte técnica.

A situação é mais complexa quando as empresas têm o intermédio de terceiros na relação com os clientes. É o caso da construtora mineira MRV, cujo processo de vendas é mediado por corretores terceirizados que precisam de acesso aos dados para abordar os clientes. “O compartilhamento de informações deve continuar, mas os corretores terão acesso apenas ao que é necessário para o contato”, diz Guilherme Freitas, diretor jurídico da MRV. Lá, os movimentos para a adaptação começaram quando a lei foi publicada. A empresa montou um time de sete pessoas das áreas jurídica, de tecnologia, de auditoria e de compliance para cuidar do processo. O grupo faz relatórios mensais a um comitê, que reúne diretores das quatro áreas.

Outra questão crítica está relacionada à segurança das informações. A maior multa aplicada na Europa com base na nova lei, no valor equivalente a 230 milhões de dólares, tem a ver justamente com um caso de fraude. Segundo o Escritório do Comissário de Informação, órgão que regula a proteção de dados no Reino Unido, uma brecha no site da companhia aérea British Airways levou usuários a uma página fraudulenta, por meio da qual foram captadas informações pessoais de cerca de 500.000 clientes, como número de cartão de crédito, nome e endereço. No Brasil, um dos casos mais recentes é o da operadora de telefonia Vivo, que admitiu uma brecha de segurança que expôs dados como nome, endereço, CPF e e-mails de um número não divulgado de clientes. Após o vazamento dos dados, a Vivo foi notificada pelo Procon e respondeu ao órgão, que analisa o caso. A expectativa é que a decisão sobre a autuação saia ainda no primeiro trimestre do ano, com possibilidade de recurso pela organização. A multa a ser aplicada poderá chegar a 10,3 milhões de reais, que é o teto de punições administrativas do órgão. A empresa está há mais de um ano mapeando processos e sistemas com o apoio de uma consultoria e de uma equipe interna. Além disso, já designou uma executiva da casa para assumir as funções de encarregada de dados.

O tamanho do trabalho decorrente da nova regulação pegou de surpresa os próprios reguladores europeus. Com receio das multas, as empresas preventivamente passaram a enviar a eles uma avalanche de notificações, antecipando qualquer movimento que pudesse ser considerado fora da curva. A Holanda liderou a lista de países em número de notificações: foram mais de 20.000 em 2019. Em alguns países, há a perspectiva de aumentar a equipe para analisar tantas informações. No Brasil, não há uma data estipulada para a criação da agência reguladora. Especialistas são unânimes em apontar que o novo órgão vai ditar o ritmo de adoção das novas regras na prática. Apesar dessa incógnita, não há dúvida de que viver sob o domínio de regras cada vez mais rígidas nessa seara é um caminho sem volta. 

NOVAS REGRAS, NOVO CARGO

A lei brasileira obriga a criação de um cargo inédito: o executivo responsável pela proteção de dados de clientes.

Para que o tratamento mais cauteloso de dados pessoais seja possível, a Lei Geral de Proteção de Dados destaca, em seu texto, três figuras responsáveis pelas informações captadas pelas empresas: o controlador, o operador e um responsável geral pelo tema, de interlocução direta com o comando da companhia, o encarregado de dados. Enquanto os dois primeiros já existem em algumas organizações, e são os profissionais que manipulam as informações dos clientes, a citação do último marca o início de um novo caminho profissional, com demanda em alta.

Algumas empresas já nomearam um DPO (data protection officer), que, segundo a lei, deve atuar como o principal responsável pela implementação da estratégia interna de proteção de dados. Além disso, esse profissional deverá ser o canal de comunicação entre a companhia, os titulares dos dados e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a ser criada. “Se antes a área de dados tinha uma ou duas pessoas e integrava um setor maior, o aumento da demanda e a sofisticação tecnológica trouxeram mais importância ao tema”, diz Ricardo Basaglia, diretor-geral da consultoria de contratação Michael Page. “Agora, além de técnicos, o tratamento de dados exige pessoas com habilidades em gestão e estratégia, principalmente quando existe impacto direto no modelo de negócios.” No Brasil, o cargo era praticamente inexistente — e começou a ganhar impulso dentro da contagem regressiva para que a nova lei entre em vigor. Segundo a Michael Page, a demanda teve aumento de 1 000% no último ano. “A tendência é que a procura aqueça ainda mais neste ano”, afirma Basaglia.

As empresas que têm seus modelos de negócios mais atrelados à gestão de dados estão em um estágio mais maduro em relação ao cargo de executivo de dados. É o caso da Marketdata, que usa informações de consumidores para oferecer serviços estratégicos de marketing e análise de dados. Em agosto de 2018, quando a lei foi sancionada, a empresa contratou o executivo Claudinei Vieira para implementar as mudanças necessárias. “Não existe forma de proteger totalmente uma empresa do risco de vazamento de dados”, diz Vieira, que foi executivo de compliance e segurança da informação por mais de 15 anos na consultoria PwC Brasil. “A organização sempre tem um grau de exposição ao risco e deve trazer essa exposição a um nível adequado ao direcionamento dos negócios e ao apetite de seus executivos ao risco.”

A operadora de telefonia Vivo optou por preparar uma executiva da casa para o cargo. Atualmente diretora de compliance, Andrea Mattos vai acumular a função de executiva de proteção de dados a partir de agosto, quando a lei começar a valer.

Segundo as consultorias contatadas, a escassez de profissionais com as competências necessárias para a tarefa será um grande desafio nos primeiros anos. “O mercado deve levar tempo inclusive para entender o perfil ideal desse profissional, que pode variar de empresa para empresa”, diz Ana Carla Guimarães, gerente de recrutamento da consultoria Robert Half. “Sabe-se que o profissional deve ter noções de base jurídica e da parte tecnológica, mas as principais características só serão esclarecidas na prática.”

AS NOVAS REGRAS DO JOGO

Com previsão para entrar em vigor en1 agosto de 20 20, a Lei Geral de Proteção de Dados impõe novas obrigações a empresas de todos os portes. Veja algumas delas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENGRENAGENS DO CÉREBRO MASCULINO

O pensamento do homem se organiza como um sistema que o faz ver o mundo como um conjunto de elementos interligados

Meninos e meninas costumam brincar de jeitos diferentes. Ainda pequenos, os garotos frequentemente se interessam por aviões, carros, caminhões e armas; gostam do ronco dos motores, dos estampidos e das sirenes. Por volta dos 2 anos já demonstram forte interesse por blocos de construção e brinquedos mecânicos, enquanto as meninas preferem brincar com bonecas e vestir roupas e experimentar acessórios.

A criança vai crescendo e o padrão se mantém: eles dedicam mais tempo do que elas aos brinquedos mecânicos (miniaturas de veículos, por exemplo) e de construção (como blocos para empilhar). Parecem adorar as montagens e constroem torres e cidades. Com frequência, sentam-se, admiram a obra construída para, em seguida, desmanchar tudo. Eles gostam também de brinquedos cujas funções sejam óbvias – com botões que possam pressionar, luzes que se acendam e aparatos que movimentem outros objetos. Ou seja: meninos adoram sistemas. Podemos entender a sistematização como o impulso de compreender e construir conjuntos de elementos materiais ou ideais relacionados entre si.

Embora seja possível imaginar que isso só vale para garotos da sociedade tecnológica ocidental, registros históricos revelam que o mesmo padrão já era encontrado em comunidades pré-industriais. Nos dias de hoje, esse funcionamento é encontrado no ambiente profissional. Algumas ocupações são quase inteiram ente masculinas, como metalurgia e a fabricação de armas e de instrumentos musicais. Ou a construção e fabricação de embarcações. Não se pode dizer que esse fato seja reflexo da maior força física dos homens, já que em muitas dessas tarefas – como a fabricação de facas ou de violinos – a força não é importante; o foco são os sistemas de construção.

Como estabelecer uma ligação entre as observações de brincadeiras de bebês e crianças e o funcionamento neurológico e cognitivo de adultos? Um elo possível está no fato de que a atenção de homens e mulheres é atraída, desde cedo, por diferentes aspectos do ambiente. Em um teste fascinante, replicado inúmeras vezes nos últimos anos nos Estados Unidos, é mostrada a homens e mulheres uma série de figuras humanas e de objetos mecânicos. Foi utilizado equipamento que permite que imagens da figura humana e de objetos apareçam simultaneamente na mesma área do campo visual – o que provoca uma “competição” entre os dois estímulos pela atenção do observador. Invariavelmente, em todas as edições do teste, os homens perceberam mais sistemas mecânicos do que pessoas, enquanto as mulheres garantiram ter visto mais pessoas do que objetos.

No mundo industrializado, profissões ligadas ao estudo da matemática, da física e da engenharia exigem alta capacidade de sistematização. Podemos até pensar que essas áreas de conhecimento são equivalentes, nos adultos, às brincadeiras infantis com objetos mecânicos e blocos de construção. Na fabricação de instrumentos de precisão, porém, se um detalhe for modificado nos dados de entrada do sistema ou se for alterada a operação, o resultado pode ser radicalmente afetado. Mude um número da fórmula ou a largura do equipamento e todo o sistema deixará de funcionar.

Todas as ciências utilizam como base a sistematização e, em geral, são dominadas por homens. É quase inevitável a observação de que apenas três dos 170 ganhadores vivos do Prêmio Nobel são mulheres. Nos anos 70, a proporção de homens e mulheres atuantes nos campos de matemática, física e engenharia era de nove para um – e assim continua até hoje. O mesmo acontece nas áreas em que se aplica o modelo matemático em relação à economia e à estatística.

A diferença é significativa, mesmo se levarmos em conta fatores culturais e sociais que afastaram representantes do sexo feminino de determinados campos. O padrão observado em diferentes ciências, porém, sugere algo mais sutil. Pesquisa feita nos Estados Unidos pela National Science Foundation revelou que apenas 23% dos cientistas que atuam no ramo da biologia são mulheres – a percentagem cai para 5% em física e 3% em engenharia. Em outros países, foi encontrado o mesmo padrão, embora não haja evidência de que essas duas últimas escolhas ofereceriam carreiras profissionais menos favoráveis.

LÓGICA E NÚMEROS

Uma explicação possível para a diferença de representantes homens e mulheres nessas áreas é que o processo de seleção para esses cursos seria tendencioso por utilizar métodos de raciocínio matemático. Tal critério não deixa de ser razoável, já que a habilidade com números e lógica é um bom recurso para previsão do sucesso nesses campos. No entanto, pode ser que a matemática desequilibre a proporção entre homens e mulheres em física e engenharia. Confirmando esses indícios, temos a proporção de dez homens para uma mulher que se situam na faixa mais alta de pontuação no Scholastic Aptitude Math Test (SAT-M), um teste de aptidão matemática aplicado nos Estados Unidos a todos os candidatos às universidades.

Outra explicação possível é que não haveria nenhuma orientação tendenciosa externa nas seleções; homens e mulheres estariam simplesmente escolhendo áreas da ciência nas quais têm mais interesse ou maior aptidão. Neste caso, “escolha” é um termo impreciso (pelo menos se não considerarmos as opções pautadas nos determinantes inconscientes, a respeito dos quais não discutiremos neste texto) – já que nossas ocupações nem sempre são resultado de uma opção consciente, mas simplesmente das oportunidades que se apresentaram. Emprego a palavra “interesse” porque a escolha da ocupação pode ser guiada não somente pela facilidade de desempenhar determinada tarefa, mas também por nossas preferências.

O pesquisador Johnny Lawson, doutor em psicologia pela Universidade de Cambrige, utilizou um teste que chamou de Physical Prediction Questionnaire (Questionário de Previsão Física) para verificar se homens e mulheres compreendem de maneiras diferentes o processo de uso de alavancas (dados de entrada) ligadas a diferentes mecanismos (rodas dentadas encaixadas de várias maneiras) para afetar o movimento de algumas barras (resultado). As barras subiriam ou desceriam. Os homens se saíram melhor na tarefa de prever os resultados, o que não pode ser relacionado a nenhum viés eventualmente provocado por um entrevistador sexista, já que o questionário foi enviado por e-mail e respondido pelos voluntários.

Portanto, sem negar a existência de possíveis fatores sociais na criação de desigualdades entre cientistas homens e mulheres, acredito que devemos continuar abertos à possibilidade de que pessoas de ambos os sexos se sintam mais atraídas por determinadas atividades.

Vamosolhar a matemática com atenção. Com muita frequência, na escola, os meninos tiram notas mais baixas do que as meninas em matemática. Isso parece contrariar a afirmativa de que o cérebro masculino seja melhor sistematizador. No entanto, embora marquem menos pontos pela precisão, os garotos se saem melhor nos testes de habilidade matemática. Apesar de os trabalhos escolares dos meninos serem menos organizados, eles tendem a encontrar soluções mais rapidamente.

EM TODO O MUNDO

As garotas, porém, se destacam em determinados aspectos da habilidade matemática. Durante os anos de estudo, elas se saem melhor em testes de sentenças matemáticas e de raciocínio como o cálculo. Supõe-se que a razão para isso é que para essas tarefas seja mais fácil usar estratégias verbais e a facilidade nesse quesito é uma qualidade principalmente feminina. Quando se trata de tarefas nas quais as estratégias verbais são menos úteis – como geometria, probabilidades e estatística – as garotas costumam ter notas mais baixas.

Essas diferenças na área foram documentadas em crianças de sete anos. A psicóloga Doreen Kimura lembra que o mesmo professor ensina cálculo (em que as garotas se saem melhor) e solução de problemas (em que os garotos apresentam melhor rendimento); assim, fica difícil atribuir ao estilo e às expectativas gerais do profissional a responsabilidade pelos padrões de desempenho diferentes em meninos e meninas. O mesmo argumento pode ser aplicado aos pais. Estudos multiculturais sugerem que, na idade pré-escolar, podemos dizer que não há diferenças entre meninos e meninas nas habilidades matemáticas primárias, como contagem básica, numerosidade (ideia de mais e menos), ordinalidade (sucessão dos números) e aritmética simples (adição e subtração). As diferenças entre os sexos só surgem em domínios mais avançados, como geometria, com os quais as crianças só terão contato nos anos mais adiantados da formação escolar. Podemos até ceder à tentação de concluir que esse cenário demonstra o papel exercido pela cultura e pela educação na geração de diferenças, mas estudos multiculturais revelam o mesmo padrão variável entre os sexos no mundo todo. Em culturas tão diversas quanto as de países como Estados Unidos, China, Japão e Tailândia as garotas se saem melhor com cálculos e no estudo de componentes de computação; garotos se destacam na resolução de problemas. No teste de aptidão para a matemática SAT-M, rapazes marcam, em média, 50 pontos a mais do que as moças. Quando os resultados são separados em faixas, ocorre algo interessante: as diferenças aparecem de forma ainda mais marcante nas faixas superiores de desempenho. Entre os participantes que marcaram mais de 500 pontos, encontra ­se uma relação entre masculino e feminino de 2 para 1; acima de 600, a relação sobe para 6 para 1 e, acima de 700 pontos, chega a 13 para 1.

Um panorama semelhante se desenha na Olimpíada Internacional de Matemática, em que competem os melhores matemáticos do mundo. Durante a competição, 85 países apresentam seus seis melhores matemáticos, selecionados em concursos nacionais. A relação dos vencedores está na internet e os que tiverem a curiosidade de consultar verão, pelos nomes – Sanjay, David, Sergei e Adam, por exemplo – que quase todos são do sexo masculino.

NÍVEL DA ÁGUA

Essa tendência se manteve em todos os países e em todos os anos em que houve o torneio. Interessante: a China sempre consegue incluir uma mulher na equipe. No entanto, pelas médias de grupo para os dois sexos, é muito mais provável que os melhores matemáticos sejam homens. O panorama geral sugere que os homens superam as mulheres nesse campo (isento de qualquer componente verbal) desde a escola até os níveis mais altos de escolarização.

Algumas técnicas psicológicas podem ajudar a compreender as diferentes maneiras de homens e mulheres enxergar o mundo e trabalhar com informações que apreendem. O teste tarefa do nível da água (Water levei task), criado pelo educador e psicólogo infantil suíço Jean Piaget, é uma delas. Ele propôs que fosse apresentada aos participantes uma garrafa inclinada em um determinado ângulo e que se pedisse a eles que estimassem o nível do líquido dentro do recipiente. As mulheres, com mais frequência, deduzem que a água deve estar alinhada com a inclinação da garrafa, mas a resposta certa é que, qualquer que seja a inclinação, o nível será sempre horizontal.

A mesma vantagem masculina é observada em um teste similar, o da haste e da moldura. O voluntário vai para uma sala escurecida e lhe é apresentado um modelo em terceira dimensão de um retângulo luminoso (a moldura) com uma haste luminosa dentro dele. A figura é girada em diferentes direções e pede-se à pessoa que posicione a haste de modo que fique em posição vertical. Comprovadamente, alterar a inclinação da moldura não afeta a posição da haste. Se a ideia de verticalidade for influenciada pela inclinação da moldura, diz-se que a pessoa é “dependente do campo”: seu julgamento é facilmente alterado pelos (irrelevantes) dados de entrada do contexto. Se o participante não se deixar influenciar pela inclinação da moldura, podemos dizer que é “independente do campo”: a compreensão só leva em conta os fatores relevantes intrínsecos ao sistema. Segundo a maioria dos estudos, as mulheres são mais dependentes do campo: tendem a se distrair por aspectos irrelevantes, em vez de considerar o sistema. Elas costumam dizer, erroneamente, que a haste fica em posição vertical quando em alinhamento com a moldura.

ESPAÇO E FOCO

Já no teste das figuras encaixadas pede-se ao indivíduo que olhe para uma figura simples (o objeto) e a identifique dentro dele um padrão mais complexo (onde seu fundo se encaixa). Homens costumam ser mais rápidos e precisos em suas respostas. Este pode ser considerado um exercício de sistematização, já que a forma do objeto só permite o encaixe em uma posição e em lugar determinado. Em outras palavras: existe uma regra que descreve essa relação. Se pensarmos no padrão complexo do fundo como um motor de carro, por exemplo, e no objeto como uma das peças, esta só pode ser colocada no motor em uma determinada posição para completar o sistema.

Os homens também são capazes de aprender um caminho em um número menor de tentativas, com o auxílio do mapa, lembrando corretamente mais detalhes sobre direção e distância. Em estudos que tive a oportunidade de acompanhar, pedimos a alguns meninos que fizessem um mapa de uma área que só visitaram uma vez e seu trabalho foi bastante preciso, mostrando, por exemplo, qual a paisagem a sudeste de uma estrada. Se levarmos em conta a organização e apresentação desse material, porém, o risco de termos uma tarefa considerada “insatisfatória” é bastante grande. Já as meninas mostraram a tendência de organizar melhor o trabalho, mas produziram mapas com maior quantidade de erros de localização de pontos importantes.

Os meninos tendem a enfatizar direções, rotas ou sentido de direção, enquanto elas dão ênfase a pontos específicos – a loja da esquina, por exemplo. Essas duas estratégias, marcação de direções versus destaque para pontos específicos, têm sido bastante estudadas. A estratégia direcional é um exemplo de compreensão do espaço como um sistema geométrico e o foco em caminhos revela a consideração do ambiente como sistema.

Em outro estudo, foi mostrado aos voluntários o mapa de um a cidade fictícia. A tarefa era aprender determinado caminho. Os homens cumpriram a tarefa em menos tempo, com menor número de tentativas e de erros. Mais uma vez, as mulheres se lembravam principalmente da paisagem, enquanto eles tinham melhor compreensão direcional do mapa. Outros estudos do tipo costumam chegar a resultados similares. Algumas experiências podem ser realizadas de maneira informal. Por exemplo: leve um grupo de crianças com idades em torno de oito anos a um local desconhecido, dê a elas um mapa e depois peça que desenhem a área. As meninas incluem mais elementos da paisagem e os meninos, mais caminhos. Se a experiência for repetida com um segundo grupo com o mapa e o passeio pelo local reduzidos à metade, para dificultar um pouco a tarefa, os meninos ainda assim se lembram melhor das posições relativas dos lugares. O cérebro masculino “arruma” os elementos em um sistema geométrico ou de rede; o feminino marca os elementos descritivamente.

TALENTOS E ESTEREÓTIPOS

Um novo estudo sobre gênero, desenvolvido pela professora de psicologia Janet Shibley Hyde, da Universidade de Wisconsin, em Madison, revela que as diferenças entre homens e mulheres talvez não sejam tão marcantes como muitos pesquisadores acreditam. Para chegar a essa conclusão, Hyde realizou a revisão dos 46 estudos sobre gênero mais importantes dos últimos 20 anos.

“Claro que há diferenças emocionais e cognitivas entre os sexos. Os homens, de fato, são mais agressivos fisicamente”, observa. Já os problemas de auto estima na adolescência, geralmente associados ao comportamento feminino, afetam igualmente os rapazes. Mas para a psicóloga, o estudo mostra que tendemos a nos concentrar mais nas diferenças do que nas similaridades e exageramos qualquer descoberta científica que aponte pequenos contrastes.

“Se aceitamos que os homens não se comunicam bem, quais as implicações disso para o casamento? Por que um a mulher tentaria conversar com seu marido para resolverem seus problemas se ele fosse incapaz de compreendê-la?”, questiona. “Se temos certeza de que os meninos são melhores em matemática, ignoramos o talento matemático de muitas meninas.” Isso implica limitação das oportunidades profissionais das mulheres em áreas tecnológicas e científicas. “Em vez de continuarmos a acreditar em psicólogos de programas de auditório, precisamos dar ouvidos a dados científicos que nos dizem quando estamos nos aferrando a falsos estereótipos”, sugere Hyde.

EU ACHO …

A DERROTA DA FICÇÃO

No atual momento, está difícil competir com a realidade

Nos últimos tempos, a realidade tem solapado a ficção. Nem nos meus sonhos mais macabros, imaginei que veria a Secretária de Cultura, Regina Duarte, minimizar a gravidade da tortura na ditadura militar, debochar das mortes crescentes por coronavírus e se esquivar de prestar homenagem aos grande artista que perdemos nesse período, como Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Sérgio Sant’Anna, Daisy Lúcidi, Moraes Moreira e Aldir Blanc.  

Na verdade, o bizarro começou a imperar antes: nem meus devaneios mais sombrios foram capazes de pintar a possibilidade de um discurso como o feito pelo ex-secretário Roberto Alvim, num vídeo cafona e perigoso, com fala semelhante à de Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler durante o governo nazista na Alemanha. E olha que escrevo histórias de terror. Se um roteirista criasse quaisquer desses cenários, sofreria críticas severas pela inverossimilhança. A realidade brasileira deixa O Conto da Aia no chinelo.

Daqui, tenho refletido sobre como tudo isso incide na ficção. Não tenho dúvidas de que o momento atual vai alterar nossa maneira de contar história. Que dramas continuam a ter pertinência? Que livros, filmes e séries serão feitos e consumidos no pós-pandemia? Que tipo de teledramaturgia o povo brasileiro vai querer ver? Não sei as respostas, é claro, mas tenho estudado cenário e possibilidades.

Curiosamente, na quarentena, venho lendo mais biografias e consumindo mais documentários, como se aceitasse resignadamente a derrota da ficção. Nos últimos anos, minhas séries favoritas têm sido todas documentais e contêm incômoda ressonância na realidade. De início, foi Making a Murderer, a história de um sujeito preso injustamente, revelando a corrupção das autoridades para alterar o rumo de investigações e encobrir crimes. Depois veio Wild Country, sobre a força e os perigos do fanatismo, da opção cega por um líder supremo.

Nesta semana, devorei Tiger King, cujo protagonista é Joe Exotic, um colecionador de grandes felinos que entra em conflito com Carole Baskin, protetora de animais. Joe é egocêntrico, paranoico, vaidoso, amoral e, por isso, tão perigosamente imprevisível; sempre tem prazer de ver “o parquinho pegar fogo”. Em sua cafonice cruel, guarda estreita semelhança com nosso presidente. Joe Exotic é Jair Bolsonaro. Não à toa, em determinado episódio, Joe decide se candidatar a governador. Fosse hoje, era bem capaz de vencer. Parece até piada… de mau gosto, sem dúvida.

Qual é o futuro da ficção? volto a perguntar. Acredito que o prazer de ler um bom suspense ou viajar numa aventura de ficção cientifica continuará a existir depois da pandemia. Mas, por enquanto tenho a impressão de que Hollywood, a ótima nova série de Ryan Murphy para a Netflix, esteja mais próxima da resposta. Ao retratar os anos 40 na famosa indústria do cinema, Murphy imagina um cenário no qual gays, mulheres, negros e asiáticos têm voz e conseguem contar as próprias histórias. Uma ”dreamland” para tornar tudo mais palatável. A realidade está simplesmente dura demais.

* RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

SUBIU À CABEÇA

Sem poderem sair de casa para arrumar o cabelo, as pessoas estão cortando e colorindo por conta própria – e postando o resultado, nem sempre tão bom, nas redes

Viver preso dentro de casa, mesmo em espaços agradáveis e confortáveis, não tem sido fácil. E fica mais difícil ainda quando o “quarentener”, apelido concebido nas redes sociais se olha no espelho e depara com um cabelo que não vê salão há muitas semanas. Não por acaso, reabrir cabeleireiros e barbearia tem sido uma das primeiras medidas em lugares prontos para relaxar o confinamento – e não pronto também, como o Estado americano da Geórgia e, há poucos dias, o Brasil, por decreto de Jair Bolsonaro (embora a decisão final esteja nas mãos de cada governador). A experiência tem mostrado que muita gente, mesmo podendo ir, permanece ressabiada de frequentar um local onde distanciamento, a prevenção número 1 contra o novo coronavírus, é praticamente impossível. O resultado é um grande contingente de anônimos e famosos que se aventuram nas tesouras e nas tinturas, arriscando soluções caseiras nem sempre bem-sucedidas, mas ainda assim exibidas, é claro, no Instagram de cada dia – como o cabelo verde renegado com uma careta pela atriz Hilary Duff.

Quem não sabe como cortar o cabelo vai ao Google ou pede lições para os amigos mais afeitos a soluções domésticas. E não é só o cuidado estético que leva uma pessoa a mudar o visual, mesmo que isso esteja além das suas habilidades. Pintar o cabelo de cores estapafúrdias, como o tom “vermelho paixão” postado por um desgostoso cantor Ricky Martin, serve também como válvula de escape para o tédio, a inquietação e a instabilidade provocados pelo isolamento social. “As pessoas buscam formas de controlar e mudar o próprio corpo, já que não podem modificar o que está ao redor”, diz o psicólogo Cloves Amorim, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Além disso, a ausência da pressão do trabalho estimula a criatividade.”

Elas por tédio (e raízes brancas), eles por necessidade, todo mundo está dando um jeito no cabelo em casa. A professora Paula Miranda França, de 40 anos experimentou um momento de impulsividade no fim de março: depois de cortar o cabelo do filho Miguel, de 11 anos, decidiu passar máquina 2 nas suas madeixas, que iam até os ombros. ”Eu me sentia aprisionada e resolvi: se vou ficar em casa, posso ser mais livre e fazer o que eu quiser”, justifica Paula, que felizmente gostou do resultado e pensa em manter o visual até o fim da quarentena. Já o alagoano Arthur Toledo, de 31 anos, raspou por necessidade, vítima de uma grande falha na parte de trás da cabeça, causada pela máquina manuseada pela mulher na fazenda onde o casal mora, na zona rural de Bauru (SP). “Fiquei tão diferente que algumas pessoas não me reconheceram. Está tudo bem, vai crescer de novo”, conforma-se, bem-humorado.

Corte malfeitos viraram mania no TikTok, o aplicativo de vídeos rápidos que faz muito sucesso entre os jovens, com uma infinidade de filminhos de vias tortuosas desbravada por tesoura na mão de amadores. Mais convencional, Bruno Gagliasso postou no Instagram o caminho de rato desenhado nas laterais da sua cabeça em um momento de criatividade dos filhos Titi, de 6 anos, e Bless, de 5. A atriz Claudia Raia depositou nas mãos do marido, Jarbas Homem de Mello, a tarefa de retocar suas raízes. “A gente se reinventa. Vambora, todo mundo tem de saber fazer tudo”, brincou.

Há que tomar cuidado, porém, com o tamanho do desastre (veja no quadro abaixo). “A imagem abalada pode deixar algumas pessoas deprimidas”, alerta o cabeleireiro Abner Matias, de São Paulo, que está cobrando 200 reais por um pacote de instruções que inclui um cronograma de cuidado capilar e recomendações sobre como hidratar e colorir o cabelo. Matias diz que as visualizações de seu canal no YouTube dobraram desde que o isolamento começou. “Apesar das brincadeiras, a maioria quer cuidar bem dos fios, e não estragá-los”, afirma. Conselho sempre repetido por ele e pelos colegas: pense muito antes de manejar a tesoura na direção de uma mudança extravagante. A quarentena está demorando para acabar, mas não vai durar para sempre.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE MAIO

CONSOLO PARA O LUTO

Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores! (Lucas 7.13).

O luto é uma das aflições mais profundas da vida. Ninguém passa por esse vale com sorriso nos lábios ou festas na alma. É um cálice amargo, e não uma iguaria fina. A morte é o rei dos terrores. Arranca de nossos braços aqueles a quem amamos. O apóstolo Paulo, porém, nos diz: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É ele quem nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus (2Coríntios 1.3,4). Há três verdades consoladoras aqui. Em primeiro lugar, Deus é a fonte do consolo. Podemos receber seu socorro nas horas mais amargas da vida. O vale do luto é escuro e profundo, mas não o atravessamos sozinhos. Deus caminha conosco, acolhendo-nos em seus braços eternos, pois ele é o Deus e Pai de toda consolação. Em segundo lugar, Deus não desperdiça sofrimento na vida de seus filhos. Ninguém é consolado a menos que esteja passando por um sofrimento. Deus nos conforta para sermos consoladores. Quando enfrentamos a dor do luto, Deus nos equipa para sermos instrumentos de consolo na vida de outros enlutados. Em terceiro lugar, Deus nos capacita para sermos consoladores e consoladores com as mesmas consolações com que somos consolados. Repartimos aquilo que recebemos. Repartimos na mesma proporção que recebemos. Tornamo-nos não apenas receptáculos do sofrimento, mas sobretudo instrumentos do consolo.

GESTÃO E CARREIRA

SALVAÇÃO OU ARMADILHA?

Quem abre um negócio por necessidade costuma sofrer com a alta carga emocional e com o despreparo para gerir uma empresa. Saiba como se preparar para empreender com segurança

Quando Kelli Carretoni, de 36 anos, e o marido, Marcos Senise, de 35, decidiram sair de Sidrolândia (MS) para recomeçar a vida em Florianópolis (SC) imaginaram que seria fácil abrir um food truck e se sustentar vendendo lanches. Desempregados, eles estavam morando de favor com a família havia seis meses quando decidiram arrumar as malas em agosto de 2018. Como já haviam visitado a ilha catarinense durante as férias de verão, pensaram que a multidão de turistas significaria sucesso garantido.

Mas a realidade do inverno em que chegaram à cidade foi bem diferente. Além de custos com locação e manutenção do trailer, o casal teria de arcar com alvará de funcionamento – e, também, com o aluguel de apartamento e todos os outros custos de vida. As contas não fechavam. “Decidimos recuar do nosso projeto inicial. Ficamos apavorados, pois tínhamos muitas despesas, o dinheiro estava indo embora e o desespero bateu”, diz Kelli. O sonho de ter um food truck durou apenas dois dias. Marcos começou a procurar emprego em lojas e restaurantes de Florianópolis. Apesar de carregar um diploma universitário de agronomia, ele não teve sucesso em sua área. Para piorar a situação, Kelli passou por um problema na coluna que exigiu repouso, internação e medicamentos – o que tornou a situação financeira do casal ainda mais preocupante. Foi então que tiveram a ideia de fazer bolos no pote para vender no comércio e na praia. Advogada de formação, Kelli sempre gostou de preparar doces e ficou encarregada. da produção, enquanto Marcos cuidava das vendas. Ele havia conseguido um emprego de vendedor durante o horário comercial e saía para vender bolos após o expediente. Depois de dez meses empregado, Marcos foi demitido e passou a se dedicar integralmente ao negócio. Com muito esforço, saíram do vermelho e hoje conseguem pagar todas as contas com os doces. A história poderia ter terminado mal, mas eles tiveram sorte. Em seu segundo verão na ilha, o casal está se preparando para formalizar a empresa e já sonha em abrir uma loja própria.

PURA NECESSIDADE

Histórias como a desse casal estão se tornando cada vez mais comuns no Brasil – e não é porque o brasileiro se descobriu como empreendedor. O enfraquecimento da atividade econômica e o avanço do desemprego nos últimos anos são dois dos fatores que têm levado cada vez mais pessoas a abrir um negócio por necessidade.

Uma pesquisa realizada pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostrou que a taxa de empreendedorismo no Brasil está crescendo rapidamente, chegando a 38% em 2018, o equivalente a 52 milhões de pessoas. E, dos que abriram um negócio, 37,5% o fizeram por necessidade. A abertura de empresas que se enquadram no MEI (microempreendedor individual) também é um indicativo dessa tendência: de janeiro a outubro de 2019, o Brasil ganhou 1,5 milhão de novos microempreendedores, alcançando um total de 9,2 milhões. Com o registro, os empresários cujo faturamento chega a até 81.000 reais por ano podem ter CNPJ e emitir notas fiscais, além de ter acesso a direitos previdenciários e a auxílio-maternidade. “Há muita gente que não tem opção no trabalho formal e consegue no MEI um caminho para se formalizar e estar no mercado de trabalho”, afirma o presidente do Sebrae, Carlos Melles.

COM EMOÇÃO

Se empreender por oportunidade já é desafiador, empreender por necessidade é ainda pior. Segundo especialistas, quem abre um negócio por não encontrar uma alternativa de renda costuma sofrer mais riscos de fracassar porque a carga emocional é muito mais intensa e tende a impactar a qualidade das decisões. “São muitas camadas de emoção envolvidas junto com um nível de conhecimento quase zero. As pessoas nessa situação ficam desesperadas porque o dinheiro nem sempre vem rápido”, afirma Marina Proença, especialista em marketing e criadora do curso Empreenda Simples.

Ao mesmo tempo, não há as mesmas garantias oferecidas por um emprego de carteira assinada, como fundo de garantia, férias remuneradas e 13º salário. Segundo Sandro Magaldi, fundador da startup Meu­ sucesso.com, que atua com educação empreendedora, a instabilidade dos rendimentos aliada a essas condições é um dos fatores mais desafiadores. “Empreender é sinônimo de risco. A segurança não é a mesma quando se tem uma ocupação formal”, afirma.

Outro ponto de atenção é a pressa para retirar uma renda de seu negócio, o que não permite que a empresa receba os investimentos necessários ao longo do tempo. “Esses ingredientes formam um bolo perigoso”, afirma Rubens Massa, professor no Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV Eaesp.

Em muitos casos, é preciso encontrar alternativas de renda até o negócio começar a dar certo. Foi o que fez Kênia Nazaro, de 33 anos. Formada em arquitetura, ela teve dificuldade para encontrar um emprego na área quando se formou em 2014. “O Brasil já estava em crise e meu mercado tinha quase chegado ao fundo do poço”, diz. Em vez de esperar por uma vaga, ela decidiu entrar em ação e começar a atuar por conta própria. “Precisava de dinheiro e também valorizar a graduação que eu fiz”, afirma. Com a marca Nazario Arquitetura, criou um perfil no Facebook com seu portfólio e, com dinheiro emprestado de sua mãe, imprimiu 5.000 panfletos para divulgar o negócio. Alguns meses depois, conseguiu o primeiro cliente. “Ele sabia que eu era inexperiente, mas decidiu arriscar”, diz. A clientela demorou a crescer e, até o início de 2018, Kênia precisou diversificar seu leque de atuação. Além de projetos de arquitetura, ela locava equipamentos recreativos para festas infantis. “Eu ficava por meses sem clientes e, para poder pagar as contas, comecei a alugar esses brinquedos”, diz. Agora, graças ao forte trabalho de divulgação nas redes sociais e na internet, Kênia conseguiu consolidar seu negócio de arquitetura. “O Instagram e o Facebook me dão clientes. Cheguei a um ponto em que eu não preciso mais ficar pagando para fazer propaganda porque os próprios clientes me indicam a outros”, diz a arquiteta, que está pensando em contratar um estagiário para ajudá-la.

PLANEJAMENTO É A CHAVE

Para quem está pensando em empreender por não encontrar mais nenhuma opção, a dica é buscar informação e pla11ejar o máximo possível antes de começar. Cursos gratuitos do Sebrae e informações disponíveis na internet são uma ótima alternativa para quem não tem dinheiro para investir em capacitação. Estar em contato com outros empreendedores também é uma boa ideia, seja por meio da internet, seja em feiras e eventos.

É essencial formular um modelo de negócios levando em conta o que a empresa vai fazer, quem será o cliente, como será o relacionamento com esse público, quais serão as principais atividades e os parceiros, assim como custos e receitas. “É preciso dar um primeiro passo e pesquisar”, diz Marina. Caso contrário, o risco de trabalhar muito e não ganhar dinheiro é alto. Também é importante considerar como seu negócio vai se diferenciar da concorrência, oferecendo produtos inovadores ou lançando mão de campanhas de marketing originais. “Se não souber responder qual dor você cura, nem comece”, afirma Pedro Superti, especialista em marketing de diferenciação.

Esse planejamento faz parte da história de Beatriz Carvalho, de 27 anos. Jornalista que nunca conseguiu atuar na área, ela criou, em 2017, o projeto Mulheres de Frente, que tem como objetivo usar a internet como ferramenta de empoderamento de mulheres da periferia da cidade do Rio de Janeiro. A ideia é ensiná-las a usar as redes sociais como ferramenta de trabalho. “As mulheres da favela são muito estigmatizadas pelo machismo e pelo racismo, e isso me incomodava muito”, diz. Para ajudar a mudar essa realidade, Beatriz oferece consultoria em mídias sociais, produção de eventos e também realiza workshops e oficinas presenciais em áreas carentes. Com isso, ela ajuda empreendedoras a divulgar seus produtos e serviços na internet de forma positiva, servindo de inspiração para outras mulheres.

Para tirar o negócio do papel, Beatriz precisou criar uma rede de contatos na região metropolitana do Rio. Sua principal fonte de negócio são as organizações não governamentais (ONGs) que atuam nessa região. “Procuro oferecer ajuda para eventos que elas realizam, e assim vou criando uma rede de contatos”, conta. Grupos de mensagens e participação em coletivos feministas também têm ajudado Beatriz em sua jornada empreendedora.

Em meados de 2017, o projeto foi mapeado pela Rede Favela Sustentável, da ONG Comunidades Catalisadoras. Em 2019, passou a fazer parte de uma incubadora de outra ONG, a Asplande. Na incubadora, Beatriz está aprendendo sobre modelo de negócios, marketing digital e gestão de negócios. “Esse mapeamento tem me dado mais visibilidade e um networking muito importante”, conta. No mesmo ano, ela se registrou como MEI para poder emitir notas fiscais. No longo prazo, sua intenção é levar o Mulheres de Frente para outros estados do Brasil e até para o exterior. Da necessidade pode ter surgido um grande projeto de vida.

POR QUE SER O PRÓPRIO PATRÃO?

A abertura de uma empresa é baseada na oportunidade ou na pura necessidade de conseguir renda. Veja como andaram essas duas motivações ao longo dos últimos anos

10 CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR DE SUCESSO

1. É atento a mercado e aposta em inovação

2. Dedica tempo ao planejamento

3. É resiliente e focado

4. Consegue manter a calma apesar das turbulências

5. Procura maneiras de se diferenciar da concorrência

6. Sabe quem é seu público-alvo

7. Tem clareza de receitas e custos

8. Entende que empreender é um processo

9. Não desiste se a primeira ideia não der certo

10. Gosta de aprender

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HORMÔNIOS PODEROSOS

Diversidade de padrões comportamentais e cognitivos reflete influências da química cerebral

Homens e mulheres diferem não apenas em atributos físicos e função reprodutiva, mas também em características como o modo de resolver problemas intelectuais. Nas últimas décadas, a tendência ideológica insistia que estas diferenças comportamentais seriam mínimas e consequência da diversidade de experiências durante o desenvolvimento antes e depois da adolescência. Evidências acumuladas recentemente, entretanto, sugerem que os efeitos dos hormônios sexuais na organização cerebral ocorrem tão precocemente na vida que, desde o início, o meio age sobre cérebros organizados de forma diferente em meninos e meninas. Esses efeitos tornam difícil, se não duvidosa, a avaliação do papel que a experiência desempenha, independentemente da predisposição fisiológica. As bases biológicas das diferenças sexuais no cérebro e no comportamento ficaram melhor conhecidas graças ao número cada vez maior de estudos comportamentais, neurológicos e endocrinológicos.

Sabemos, por exemplo, pela observação tanto de humanos quanto de não humanos, que os machos são mais agressivos e, quando jovens, fazem brincadeiras mais violentas que as fêmeas. Já estas destacam-se pelos comportamentos maternais. Sabemos também que, em geral, os homens são melhores em tarefas que envolvem orientação e navegação no espaço. Qual a origem dessas e outras diferenças entre os sexos? Boa parte de nossas informações e ideias sobre como ocorre a diferenciação sexual é fornecida por pesquisas com animais. Talvez o fator mais importante na diferenciação entre machos e fêmeas, e sem dúvida na diferenciação de indivíduos do mesmo sexo, seja o nível de exposição a vários hormônios sexuais no início da vida. Na maioria dos mamíferos, incluindo os humanos, o organismo em desenvolvimento tem potencial para ser macho ou fêmea. A produção de um macho é um processo complexo. Quando um cromossomo Y está presente, formam-se testículos ou gônadas masculinas. Quando não existe cromossomo Y, formam-se ovários.

PADRÃO FEMININO

Os testículos produzem hormônios masculinos ou androgênios (principalmente testosterona), responsáveis pela transformação dos genitais em órgãos masculinos, e também pela organização, no início da vida, dos comportamentos masculinos correspondentes. Quanto à formação da genitália, os estudos pioneiros de Robert W. Coy, da University of Wisconsin, mostraram que a tendência intrínseca, na ausência de influência hormonal masculina, é que se desenvolvam estruturas genitais e comportamento femininos. Portanto, a anatomia feminina e, provavelmente, a maior parte do comportamento associado às fêmeas são o modelo padrão na ausência de androgênios.

Se um roedor com genitais masculinos funcionais for privado dos androgênios imediatamente após o nascimento (por castração ou pela administração de um composto que bloqueie os hormônios), o comportamento sexual masculino, como montar durante a cópula, será reduzido, e aumentará o comportamento sexual feminino, como a lordose (o arqueamento das costas durante o coito). Da mesma forma, se androgênios forem administrados a uma fêmea logo após o nascimento, ela revelará, quando adulta, maior quantidade de comportamento sexual masculino e menor do feminino. Esses efeitos duradouros decorrentes da exposição precoce a hormônios sexuais são caracterizados como “organizacionais” porque parecem alterar, de forma permanente, a função cerebral durante um período crítico do desenvolvimento pré ou pós-natal precoce. A administração dos mesmos hormônios sexuais em estágios mais tardios ou na idade adulta não exerce este efeito.

Entretanto, nem todos os comportamentos que distinguem os machos são categorizados ao mesmo tempo. Em macacos Rhesus, por exemplo, a organização através de androgênios dos comportamentos masculinos típicos de cópula e de brincadeiras violentas ocorre em fases diferentes do período pré-natal.

A área do cérebro que regula o comportamento reprodutivo masculino e feminino é o hipotálamo. Essa diminuta estrutura na base do cérebro está ligada à hipófise, a principal glândula endócrina. Nos ratos machos, uma região do hipotálamo é nitidamente maior que nas fêmeas, e esta diferença está sob controle hormonal. Os cientistas descobriram também diferenças entre os sexos em um grupo de neurônios do cérebro humano – partes do núcleo intersticial do hipotálamo anterior -, que é maior nos homens. Até a orientação sexual e a identidade de gênero foram relacionadas à variação anatômica do hipotálamo. Outros pesquisadores, como Jiang-Ning Zhou e colegas do Netherlands lnstitute of Brain Research e da Free University, em Amsterdã, observaram outra parte do hipotálamo, menor em transexuais masculinos-femininos que em um grupo de controle masculino. Essas descobertas são consistentes com a hipótese de que a orientação sexual e a identidade de gênero têm um importante componente biológico.

E as diferenças intelectuais entre homens e mulheres? As principais diferenças sexuais parecem consistir mais em padrões de habilidades que no nível global de inteligência (medido como o QI), embora alguns pesquisadores, como Richard Lynn, da University of Ulster, na Irlanda do Norte, argumentem que exista uma pequena diferença de QI em favor dos homens. As diferenças de padrão intelectual referem-se ao fato de que as pessoas possuem talentos intelectuais distintos: algumas utilizam palavras muito bem, enquanto outras são melhores em lidar com estímulos externos, como a identificação de um objeto em uma orientação diferente. Dois indivíduos podem ter habilidades cognitivas diferentes, com o mesmo nível global de inteligência.

NO LABIRINTO

As diferenças entre os sexos na solução de problemas foram estudadas sistematicamente em adultos, em laboratório. Em média, os homens se saem melhor que as mulheres em certas tarefas espaciais. Em particular, os homens parecem ter desempenho melhor em testes em que precisam imaginar a rotação de um objeto ou sua manipulação de forma variada. O desempenho dos homens também é melhor em testes de raciocínio matemático e de navegação em uma rota. Além disso, os homens são mais precisos em testes de habilidade motora com alvo – isto é, em guiar ou interceptar projéteis. As mulheres, em média, sobressaem em testes que medem a capacidade de lembrar palavras e desafiam a pessoa a encontrar palavras que comecem com uma letra específica ou satisfaçam algum outro critério. Também tendem a ser melhores que os homens na identificação rápida de itens que combinam entre si e em realizar certas tarefas manuais, como a colocação de pinos em buracos de uma tábua.

Em relação à orientação espacial, um estudo revelou que os homens completam um labirinto simulado em computador mais rapidamente e com menos erros do que as mulheres. Outro estudo utilizou um percurso feito em um mapa de mesa para o aprendizado de rotas. Os resultados mostram que os homens aprendem o caminho em menos tentativas e com menos erros, as mulheres tendem a usar marcos de referência como estratégia de orientação. Outras descobertas também apontam a superioridade das mulheres na memorização de referências. Em testes sobre a habilidade para lembrar de objetos e sua localização em um espaço confinado – como uma sala ou uma mesa -, as mulheres revelaram-se mais capazes de lembrar se os itens haviam mudado de lugar ou não. Outros pesquisadores descobriram que as mulheres são superiores quando precisam lembrar da localização de desenhos em cartões virados aos pares. Neste tipo de localização dos objetos, diferentemente de outras tarefas espaciais, as mulheres parecem superar os homens.

É importante levar em conta que algumas diferenças cognitivas médias entre os sexos variam ou muito ou pouco, e o desempenho de homens e mulheres se sobrepõe enormemente em muitos testes cognitivos que revelam diferenças entre as médias. Por exemplo, enquanto mulheres desempenham melhor tanto em tarefas que envolvem memória verbal (lembrar palavras em listas ou parágrafos) como nas que envolvem fluência verbal (encontrar palavras que comecem com uma letra específica), encontramos uma grande diferença em habilidades de memória e somente pequena disparidade nas que envolvem fluência. Em geral, a variação entre homens e mulheres tende a ser menor que os desvios entre indivíduos do mesmo sexo, embora grandes diferenças entre os grupos possam ocorrer – como, por exemplo, na capacidade masculina em atingir alvos visuais.

Embora se acreditasse que as diferenças entre os sexos na solução de problemas não aparecessem até a puberdade, a evidência sugere que algumas diferenças cognitivas e de habilidades já estejam presentes muito antes. Por exemplo, meninos de três e quatro anos são melhores, comparados a meninas da mesma idade, em alvejar e em rodar mentalmente figuras desenhadas no mostrador de um relógio. As meninas pré-adolescentes, porém, são melhores em lembrar listas de palavras. Descobriu-se também que roedores machos e fêmeas resolvem problemas de forma diferente. Christina L. Williams, da Duke University, mostrou que as ratas têm tendência maior a usar referências em tarefas de aprendizado espacial, como parecem fazer as mulheres. Na experiência de Williams, as ratas deram preferência a marcos como figuras na parede, e não a dicas geométricas, como ângulos e forma da sala. Quando não havia marcos de referência disponíveis, no entanto, as fêmeas empregavam as pistas geométricas. Os machos, ao contrário, nunca utilizaram marcos de referência, preferindo, quase exclusivamente, as pistas geométricas.

Williams descobriu também que a manipulação hormonal durante o período crítico pode alterar comportamentos. Ao privar, pela castração, machos recém-nascidos dos hormônios sexuais ou ao aplicar hormônios em fêmeas recém-nascidas, houve total inversão do comportamento sexual típico nos animais adultos.

Diferenças estruturais podem ser análogas às comportamentais. Lucia F. Jacobs, então na University of Pittsburgh, descobriu que, em várias espécies de roedores, o hipocampo – região que pode estar envolvida no aprendizado espacial – é maior em machos do que em fêmeas. Atualmente, não dispomos de dados suficientes sobre as possíveis diferenças em seres humanos.

BONECA E CARRINHO

Estudos realizados com meninas expostas a um excesso de androgênios na fase pré ou neonatal fornecem algumas das principais evidências em favor de diferenças sexuais influenciadas por hormônios. A produção anormal de grandes quantidades de androgênio nas supra – renais pode ocorrer por um defeito genético, em uma doença chamada hiperplasia congênita das adrenais (HCA). Antes dos anos 70, uma condição semelhante também surgia de modo inesperado na prole de mulheres grávidas que receberam esteroides sintéticos. Embora a consequente masculinização dos genitais possa ser corrigida cirurgicamente e a produção excessiva de androgênios tratada com medicamentos, os efeitos da exposição pré-natal sobre o cérebro não podem ser revertidos.

Sheri A. Berenbaum, então na Southern Illinois University, em Carbondale, e Melissa Hines, então na University of California, em Los Angeles, observaram o comportamento lúdico de meninas com HCA, comparando-o com o de seus irmãos de ambos os sexos. Entre brinquedos de montar e de transporte ou bonecas e apetrechos de cozinha ou, ainda, livros e jogos de tabuleiro, as meninas com HCA preferiram os brinquedos mais tipicamente masculinos – por exemplo, brincaram com carrinhos pelo mesmo tempo que os meninos. Tanto as meninas com HCA como os meninos diferiram, em seus padrões de escolha, das meninas não afetadas por HCA. Berenbaum descobriu também que as meninas com HCA mostraram maior interesse em atividades e carreiras tipicamente masculinas. Como é provável que os pais estimulem preferências femininas tanto em suas filhas com HCA quanto nas não afetadas, descobertas sugerem que as preferências foram alteradas por fatores hormonais precoces. Outros pesquisadores descobriram que as habilidades espaciais em que os meninos tipicamente se destacam são mais desenvolvidas em meninas com HCA. Em meninos com HCA observou-se o inverso.

Embora os níveis de androgênio se relacionem a habilidades espaciais, não se trata simplesmente de quanto maior o nível, melhor o desempenho. Há, sim, um nível ótimo de androgênios (na faixa baixa para homens) para uma habilidade espacial máxima. Isso pode valer também para os homens e o raciocínio matemático; em uma pesquisa, homens com baixo androgênio tiveram melhor desempenho.

BIOLOGIA DA MATEMÁTICA

As descobertas são relevantes para a ideia, apresentada por Camilla P. Benbow, hoje na Vanderbilt University, de que a habilidade matemática superior tem um determinante biológico importante. Ela e seus colegas relataram diferenças consistentes entre os sexos, favoráveis aos homens, em habilidades de raciocínio matemático. Em jovens com talento matemático, as diferenças foram especialmente nítidas na extremidade superior da distribuição, onde a quantidade de homens era muito maior que a de mulheres. Benbow argumenta que essas diferenças não seriam facilmente explicadas por fatores sociais.

É importante considerar que a relação entre os níveis naturais de hormônios e a solução de problemas é baseada em correlações. Embora exista alguma conexão entre as duas medidas, não sabemos como a associação é determinada, nem seu fundamento causal. Além disso, pouco sabemos sobrea relação entre níveis de hormônios em adultos e nas fases iniciais da vida, quando, ao que parece, as habilidades se organizam no sistema nervoso.

Uma das descobertas mais interessantes relacionadas a adultos é que padrões cognitivos podem permanecer suscetíveis a autuações hormonais durante toda a vida. Elizabeth Hampson, da University of Western Ontario, mostrou que o desempenho feminino em determinadas tarefas durante o ciclo menstrual varia conforme os níveis de estrogênio. Taxas elevadas do hormônio associam-se não somente a uma diminuição relativa das habilidades espaciais, mas também a uma melhora nas linguísticas e nas de destreza manual. Observei Autuações sazonais nas habilidades espaciais dos homens: o desempenho é melhor na primavera, quando os níveis de testosterona são mais baixos. Cabe a novas pesquisas esclarecer se as Autuações vinculadas aos hormônios representam adaptações evolutivas úteis ou apenas os altos e baixos em torno de uma média.

Pesquisas com pessoas com lesões em uma metade do cérebro indicam que, na maioria delas, o esquerdo é crucial para a linguagem e o direito para certas funções perceptuais e espaciais. Pesquisadores que estudam diferenças sexuais supõem que os hemisférios direito e esquerdo são organizados de forma mais assimétrica em relação à linguagem e às funções espaciais em homens do que em mulheres.

Partes do corpo caloso, o principal sistema neural que conecta os dois hemisférios, assim como a comissura anterior, parecem ser maiores em mulheres, permitindo mais comunicação entre os hemisférios. Técnicas de percepção que medem a assimetria do cérebro em pessoas com funcionamento normal mostram, às vezes, assimetrias menores nas mulheres do que nos homens, e a lesão em um hemisfério cerebral pode ter menor efeito sobre as mulheres. Meus dados sugerem que, em relação a funções como aspectos básicos de linguagem e habilidades espaciais, não há grandes diferenças de assimetria hemisférica entre os sexos, embora possa haver disparidades em habilidades mais abstratas, como a capacidade de definir palavras.

Se as diferenças conhecidas estivessem ligadas a diferentes dependências em relação ao hemisfério direito do cérebro para a execução dessas funções, seria de esperar que uma lesão ali tivesse efeito mais devastador no desempenho espacial dos homens. Estudamos a capacidade de pacientes com lesão em um hemisfério do cérebro de visualizar a rotação de objetos. Como esperado, em ambos os sexos, os pacientes com lesão no hemisfério direito tiveram desempenho pior.

Além disso as mulheres não se saíram tão bem quanto os homens. Entretanto, a lesão no hemisfério direito não teve um efeito maior em homens que em mulheres.

As especificidades de desempenho entre homens e mulheres em testes de rotação e orientação direcional não precisam ser resultado dos diferentes graus de dependência em relação ao hemisfério direito. Outros sistemas cerebrais podem mediar o melhor desempenho dos homens.

PADRÕES DE FUNÇÃO

Outra diferença cerebral entre os sexos refere-se à linguagem e a certas funções manuais. Mulheres estão sujeitas à afasia (comprometimento da capacidade de produzir e compreender linguagem) com mais frequência após uma lesão na região anterior do cérebro que após uma lesão na região posterior. Nos homens, a lesão posterior afeta a linguagem na maioria das vezes. Padrão similar foi encontrado nas apraxias, a dificuldade em selecionar movimentos apropriados da mão, como copiar os movimentos executados por outra pessoa. As mulheres raramente têm apraxia após uma lesão posterior esquerda, ao contrário dos homens.

Homens também estão sujeitos, com mais frequência, a afasia decorrente de lesão no hemisfério esquerdo. É possível que uma lesão restrita a um hemisfério, após um derrame, afete com mais frequência a região posterior do hemisfério esquerdo. Como os homens dependem desta região para a linguagem mais que as mulheres, eles serão mais afetados. Ainda não compreendemos os efeitos sobre os padrões cognitivos dessa configuração divergente de linguagem e funções manuais.

Embora não tenha encontrado diferenças sexuais na assimetria funcional do cérebro vinculada a aspectos básicos de linguagem, capacidade de movimento ou rotação espacial, descobri leves diferenças em algumas habilidades verbais. O desempenho em um teste de vocabulário e de fluência verbal, por exemplo, foi ligeiramente afetado, nas mulheres, na lesão de qualquer um dos hemisférios, enquanto nos homens o desempenho só foi prejudicado em lesões do hemisfério esquerdo. Essas descobertas sugerem que, ao empregar habilidades verbais mais abstratas, as mulheres utilizam os dois hemisférios de forma mais uniforme que os homens. Mas isto não vale para todas as tarefas relacionadas a palavras. A memória verbal, por exemplo, parece depender do hemisfério esquerdo tanto nas mulheres como nos homens.

Novas técnicas para avaliar a atividade cerebral – incluindo imagens por ressonância magnética funcional (fMRI) e tomografia de emissão de pósitrons (PET) – têm­ se revelado promissoras, mesmo que os resultados interessantes ainda pareçam conflitantes.

ASSIMETRIA FUNCIONAL

Algum as pesquisas mostraram maiores diferenças de atividade entre os hemisférios de homens e mulheres durante testes de linguagem, como avaliar se duas palavras rimam ou conjugar verbos no passado. Uma não encontrou diferenças de assimetria funcional. A diversidade destes resultados pode ser atribuída, em parte, aos testes empregados. Os sexos podem ter uma organização cerebral diferente para algumas tarefas de linguagem, mas não para outras.

A diversidade pode refletir também a complexidade dessas técnicas. O cérebro está sempre ativo em algum grau. Assim, para qualquer atividade, como ler em voz alta, pressupõe-se que a atividade de comparação – digamos, ler em silêncio – seja similar. Nós então “subtraímos” o padrão cerebral que ocorre durante a leitura silenciosa para determinar o padrão durante a leitura em voz alta. Mas esses métodos exigem suposições duvidosas sobre o que a pessoa está fazendo durante qualquer dessas atividades.

Além disso, quanto mais complexa a atividade, mais difícil é saber o que está sendo medido após a subtração da atividade de comparação.

Para entender o comportamento humano – como homens e mulheres diferem entre si, por exemplo – precisamos olhar além. Nosso cérebro é, essencialmente, como o de nossos ancestrais de 50 mil anos atrás ou mais, mas podemos aprimorar nossa compreensão das diferenças entre os sexos estudando os diferentes papéis que homens e mulheres desempenharam na história evolutiva. Os homens eram responsáveis pela caça e pela procura de comida, por defender o grupo contra predadores e inimigos e por desenvolver e usar armas. As mulheres coletavam os alimentos perto da base domiciliar, tomavam conta da casa, preparavam a comida e as vestimentas e cuidavam das crianças pequenas. Essas especializações teriam imposto diferentes pressões de seleção sobre eles.

Qualquer diferença comportamental entre indivíduos ou grupos é mediada pelo cérebro. Foram registradas diferenças sexuais relativas à estrutura e organização do cérebro e foram realizados estudos sobre o papel dos hormônios sexuais no comportamento humano. Todavia, permanecem as questões relativas à ação dos hormônios no sistema cerebral humano para gerar as diferenças descritas, como no comportamento lúdico ou nos padrões cognitivos.

EU ACHO …

CAMINHANTE NA QUARENTENA

Desafios superados nos dão forças para vencer os contratempos da vida

Outro dia, enquanto cumpria minha rotina de distanciamento social, me peguei caminhando pela trilha de Santiago de Compostela, no norte da Espanha. Viajei nas lembranças que ficaram da experiência única que, há um ano, meu marido e eu tivemos ao percorrer o místico caminho.

Mas não foi a nostalgia da liberdade de locomoção que me atiçou a memória daqueles trinta dias de aventura. Revisitei as veredas da meca dos peregrinos pelo inesperado paralelo que elas oferecem ao isolamento a que estamos submetidos. Ao primeiro olhar, são situações antagônicas. Numa, predomina a exuberância de uma natureza indomada que quase engole os sulcos abertos pelos caminhantes ao longo do tempo, a outra, em contraste, a ausência de horizonte é determinada por quatro paredes.

Há muito em comum, no entanto, entre as peripécias a céu aberto e a quarentena a portas cerradas. De um jeito ou de outro, de repente nos vemos frente a frente com o desconhecido. No primeiro caso, somos impactados pelo que vem de fora. No segundo, pelo que vem de dentro. Ao avançar pisando em lama e pedregulhos, tive de lidar com situações extremas. O granizo machucava, o frio batia como açoite, a fome consumia as energias, o cansaço era desmoralizante. Depois de mais de 500 quilômetros de agruras mil e conforto zero, cheguei ao meu limite físico. Lembro-me apenas de que, no auge da provação, rezava para que o dia seguinte me presenteasse com um novo ensinamento.

É preciso resiliência para fazer longas travessias, sobretudo em reclusão. No início da quarentena, as pessoas até se distraem com a novidade. Após a primeira semana, porém, experimentam algum enfado. Em quinze dias, bate o esmorecimento. Na sequência, vem a angústia e o temor pela saúde mental.

Grandes desafios exigem redobrada disposição de espírito. Foi assim em Santiago de Compostela e, para muitos, tem sido assim em São Paulo e outras cidades. Duas realidades distintas unidas por um mundo nunca antes habitado: a floresta inóspita, a casa fechada. Resiliência é a elasticidade da mente, a capacidade que desenvolvemos de lidar com situações de stress. Temos de buscar força para resistir à adversidade. Tais forças estão dentro de nós, escondida nas dobras da memória. Em tempo de pandemia, temos de acessar essas pastas afetivas do fundo de nosso hardware, sob pena de provocarmos uma espiral emocional negativa. Não é incomum, por exemplo, que a pressão de um isolamento prolongado detone episódios de compulsão alimentar, que faz a vítima (acho que essa é a palavra mais adequada) ganhar em peso o que perde em autoestima.

Ao final da caminhada, como fazem tantos fiéis, deitei no chão da Praça do Obradoiro, em frente à catedral, e contemplei o céu. Senti que anjos nos abençoavam. Pensava em quantos obstáculos havia superado para desfrutar aquele momento. Pensava também nos aprendizados que todos eles haviam me proporcionado. Carrego comigo a lembrança de cada passagem daquela viagem. Cada uma delas ajudam a compor meu repertório de autodefesa contra os percalços da vida. O problema e a sua solução estão dentro de cada um de nós.

* LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

SONHO ADIADO

Com o bolso esvaziado, uma turma de universitários se vê obrigada a trancar a matrícula enquanto durar a pandemia. A boa notícia é que, sim, eles querem voltar

Sob a perspectiva da pandemia e das imensas limitações que ela impõe, a humanidade se pôs a refletir sobre prioridade e questões básicas de sobrevivência. E, nesta nova ordem, os jovens se questionam se é o momento de seguir com a universidade – seja porque a veem nesta hora como adiável, seja porque não podem mesmo arcar com um custo dessa grandeza em meio ao tsunami do novo coronavírus. A preocupação é global, mas ganha contornos próprios no Brasil onde a disparada do desemprego esvaziou o bolso de uma turma que normalmente já paga as mensalidades com alta dose de esforço. Não à toa a evasão vem subindo, impulsionada por situações como a que vive a estudante de educação física Jessica Neves, de 24 anos. “Lutei para entrar na universidade, só que agora preciso me concentrar em pagar as contas essenciais. Vai passar, eu sei”, diz ela, dispensada do estágio com o qual bancava o estudo, e fazendo bico como cabeleireira para reduzir os danos (olha o isolamento…).

Nos cálculos sobre ficar ou trancar, o fator financeiro se soma à incerteza quanto à rotina de aulas nos próximos meses. “Decidi parar a faculdade porque, no meu curso, a parte prática é vital, e não sei como vai ser nesses tempos que vêm por aí”, diz Edvaldo Mendes, de 20 anos, aluno de gastronomia em Teresina. Também o acesso às aulas virtuais, alternativa oferecida pelas universidades para atender aluno no confinamento do lar, espanta uma parcela dos jovens – muitos têm internet precária e não conseguem engatar no ensino on-line. Esse vem sendo o dia a dia de uma multidão de estudantes que, nas últimas duas décadas, foi guindada à graduação com a escalada das classes C e D. Atualmente, 89% dos mais de 6,2 milhões de universitários da rede privada do país são egressos da base da pirâmide, onde os que resistem estão penando para pagar a conta: no mês de abril, a taxa de inadimplência saltou de 15% para 25%, em relação ao mesmo período no ano passado.

Pois quando se projeta um futuro nem tão longínquo assim, o retrato que emerge do depoimento desses jovens traz otimismo e um bom alívio. Pesquisas internas de grandes grupos de ensino mostram que a imensa maioria dos que estão trancando a faculdade ou cogitando fazê-lo pensa em um retorno tão logo o quadro fique menos cinzento.

“Nossa renda está dando apenas para as contas e o mercado. Voltarei quando a coisa melhorar, sem dúvida”, garante a gaúcha Elisandra Duarte, 32 anos, que fez uma pausa no curso de ciências contábeis, área na qual já trabalha e quer se graduar. Para estancarem a revoada, as instituições de ensino se mexem, diluindo a mensalidades ao longo de meses e distribuindo bolsa enquanto o coronavírus continuar a minar empregos. A Universidade Estácio de Sá, parte do grupo Yduqs, dará até três meses de isenção de pagamento a 10% de seus alunos. “Avaliamos caso a caso, priorizando estudantes que perderam o emprego”, diz Eduardo Parente, presidente do Yduqs. São medidas que miram dias melhores. “Estamos sacrificando o caixa agora para que os alunos permaneçam conosco”, diz Luciano Klima, presidente da Universidade Tiradentes, com base no Nordeste.

Em boa parte do mundo, instituições de alto prestígio, corno Columbia e Harvard, nos Estados Unidos, e Oxford, na Inglaterra, também sentiram o baque da pandemia, que as colocou em situação inédita: como muitos alunos não confirmaram o retorno às aulas, elas estão estendendo o prazo para a matrícula e indo atrás de nomes que estavam na lista de espera por uma vaga. Além das finanças (afinal o desemprego não tem mais nacionalidade no dia de hoje), pesam no caso dessas renomadas instituições indagações de cunho filosófico – uma fatia dos estudantes quer aproveitar a pausa para engatar um trabalho voluntário ou que tenha qualquer elo com a nova realidade. Essa pressão que se impõe sobre os alunos e suas universidades podem trazer algo de bom a curto prazo – várias delas estão dispensando tratamento personalizado aos estudantes para mantê-lo firmes e interessados -, assim como tende a deixar uma herança positiva para quando a crise se for.

Bem antes da explosão do vírus, já havia uma acalorada discussão sobre o papel da universidade nestes tempos em que a aquisição de conhecimento de qualidade se dá pelos mais diversos meios – e evolui a cada instante. A atual chacoalhada força mais ainda as instituições a se provar decisiva na vida dos jovens. “A ideia de que o ensino superior é a única forma de ganhar dinheiro não pertence a esta geração, e o momento pelo qual estamos passando ajuda a catalisar esse pensamento”, disse o americano Marc Prensky, da Harvard. A universidade terá de lapidar mais do que nunca nessas gerações competências deste século necessárias ao exercício de cada profissão. Quem sairá ganhando na corrida pela relevância serão estudantes como Suellen Mesquita, 33 anos. Mãe de quatro filhos, ela recebeu uma bolsa e, apesar das dificuldades, segue universitária. ”O sonho de ser médica não foi trancado”, enfatiza. Bom para ela e para o país.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE MAIO

A ESPERANÇA QUE NÃO SE DESESPERA

Abraão, esperando contra a esperança, creu… (Romanos 4.18a).

Uma coisa é esperar aquilo que é possível, plausível e exequível; outra bem diferente é esperar aquilo que só faz desesperar. Abraão não apenas esperou com paciência, mas esperou contra a esperança. Deus lhe prometeu o filho da promessa. Prometeu que Abraão seria o pai de uma numerosa multidão e, que por meio dele, todas as famílias da terra seriam abençoadas. Os anos se passaram, mas a promessa não se cumpria. Abraão já estava com o corpo amortecido, e Sara, sua mulher, além de estéril, já não tinha mais chance de conceber. O cenário era de desânimo para o maior dos otimistas, mas não para o pai da fé. Esperando contra a esperança, Abraão creu, para vir a ser pai de muitas nações. Ele sabia que Deus era poderoso para vivificar os mortos e chamar à existência as coisas que não existiam. Mesmo estando com 100 anos de idade e sua mulher, com 90 anos, não duvidou da promessa. O milagre crido tornou-se o milagre acontecido. Promessa de Deus e realidade são a mesma coisa. Nenhuma das promessas de Deus cai por terra. Em todas elas temos o sim e o amém. Ele vela pelo cumprimento da sua Palavra. O cristão não vive segundo as emoções nem conforme os ditames do entendimento. Vive pela fé, e fé não é mero sugestionamento, mas a certeza de fatos e convicção de coisas. A fé descansa não nas evidências da lógica humana, mas na promessa divina. Olha não para as circunstâncias, mas para o Deus vivo que está no controle de todas as situações.

GESTÃO E CARREIRA

O NEGÓCIO É PEDALAR

As microacademias, ou estúdios, ganham espaço focadas em um único esporte. A Velocity, de spinning, tem 18 unidades. Mas precisa acelerar o passo para reagir ao contra-ataque das academias tradicionais

As luzes e a trilha sonora remetem a uma balada, mas é apenas uma aula na Velocity, rede paulistana de academias voltadas para spinning (pedalagem com bicicletas ergométricas). A Velocity é focada nessa modalidade. Não cobra mensalidades: o aluno paga pacotes ou aulas avulsas. Com faturamento de 15 milhões de reais em 2019, a Velocity é contraponto às grandes redes de academias multifuncionais com centenas de metros quadrados e milhares de alunos. Cada unidade da Velocity tem cerca de 250 metros quadrados e uma sala para exercícios, com algumas dezenas de bicicletas. A empresa é ponta de lança de uma nova onda: a de microacademias, ou estúdios. Mais flexíveis, tecnológicos e charmosos para o público jovem, os estúdios atraem praticantes de spinning, ioga e crossfit.

A Velocity foi criada em 2013 pelo empreendedor neozelandês Shane Young, radicado há nove anos no Brasil, ao lado do investidor Declan Sherman, do fundo Everlight Capital. O tipo de exercício, o spinning, não é novo e já é praticado em academias há décadas. A novidade está na forma. A trilha sonora é pensada para que a batida da música coincida com as rotações da bicicleta. As aulas são compradas e reservadas pelo site da Velocity – é possível escolher até qual bicicleta será usada em um mapa da sala. Além dos estúdios de spinning, Young criou outra rede, Kore, de aulas funcionais, em 2018. No mesmo ano, a empresa iniciou a expansão por meio de franquias e, no final de 2019, Young tinha 17 estúdios Velocity (seis próprios) e 14 unidades Kore (quatro próprias). O ritmo é tão intenso quanto as aulas. O plano é chegar a 2023 com 150 unidades Kore e 50 Velocity.

Os estúdios ganharam espaço durante a crise econômica, já que frequentadores de academia repensaram pagamentos mensais e passaram a preferir pagar apenas pelas aulas feitas, de acordo com Young. Um risco, claro, é que as pessoas façam uma primeira aula-teste e não retornem mais (rumo a outro estúdio com algum outro esporte da moda). Para atrair e reter os participantes, a Velocity investe nas redes sociais – as duas marcas juntas têm mais de 80.000 seguidores no Instagram – e na divulgação por meio de celebridades. Entre os sócios da Velocity está a influenciadora Gabriela Pugliesi, e seu marido, Erasmo Viana, é um dos sócios do Kore. A dupla soma 5,4 milhões de seguidores no Instagram. A companhia também busca criar um senso de comunidade entre os usuários. Há celebrações para quando os alunos atingem as marcas de 500,800 e 1.000 aulas. A empresa vende camisetas e bermudas, cuja receita responde por 3% do faturamento.

O formato de estúdio foi trazido dos Estados Unidos, onde o modelo é responsável por 42% dos centros de atividade física. A inspiração para a Velocity vem de estúdios como a americana SoulCycle, criada em 2005 e com faturamento estimado em mais de 100 milhões de dólares por ano. Uma concorrente local é a Spin’n Soul. Criada em 2014, tem oito academias e também atua com ioga e luta.

As grandes redes multifuncionais investem para se adaptar às novidades. A Bio Ritmo, dona da Smart Fit, lançou estúdios independentes de corrida, funcional, ioga, boxe e outras modalidades. Já a Bodytech está criando estúdios dentro de suas academias. Das 102 unidades em operação, em cerca de 70% há algum estúdio. Um desafio para todas é atrair clientes. Nos Estados Unidos, 21% da população pratica atividade física em academias, mas por aqui a participação ainda é inferior a 5%. “Os estúdios atraem pela novidade”, diz Gustavo Borges, presidente da Associação Brasileira de Academias. “Alguns modismos, naturalmente, vão desaparecer com o tempo.” Se a onda do spinning vai passar ou não é cedo para dizer, mas a Velocity e suas concorrentes ajudam a mudar a forma de encarar a atividade física. “Os estúdios não vendem aulas, mas uma experiência de bem-estar”, diz Waldyr Soares, presidente da consultoria Fitness Brasil. O pedal não pode parar.

A FEBRE DAS ACADEMIAS

O Brasil é o segundo maior mercado do mundo em unidades, mas apenas o 12º em receita

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ERRADO EM NÓS

A psicologia explica por que, mesmo sabendo que a medida mais recomendável para o combate à pandemia é o isolamento, as pessoas resistem a cumpri-la

Enquanto os países buscam meios de retomar a rotina sequestrada pela pandemia, fica cada vez mais claro: a ciência vai determinar a que distancia o mundo se encontra do novo normal. A vida não será como antes, como ficou atestado desde o primeiro caso de covid-19 registrado, fora da China. O fim do confinamento não depende da vontade deste ou daquele cidadão, empresário ou político. Especialistas avisam que só haverá paz nesta guerra contra o inimigo invisível quando se chegar a uma vacina. Até lá, independentemente do pacote de estímulo financeiro multibilionário para reativar as economias, as nações terão de lidar com um desafio que vai muito além do vírus: a natureza humana.

Por que é tão difícil tomar a decisão certa – de ficar em casa, para os que podem – mesmo sabendo claramente qual ela é? No Brasil o nível de isolamento social tem oscilado para menos de 50% em locais considerados epicentros da pandemia, como São Paulo.

Há pessoas que, por razões de subsistência ou por terem empregos em serviços essenciais, não estão confinadas. Mas há também uma grande parcela que pode, mas prefere não aderir ao sacrifício mesmo sabendo que isso é o certo a fazer. Há ainda aquelas que tentam, mas acabam burlando a disciplina mental e cedendo ao ímpeto de sair.

Foi o caso do epidemiologista Neil Ferguson, que conduzia a pesquisa do novo coronavírus do Imperial College, instituição britânica de renome que convenceu o Reino Unido e o mundo a priorizarem o distanciamento social para conter a pandemia. Ele foi surpreendido furando a quarentena ao receber sua amante. Pediu demissão. Semanas antes, a então médica-chefe do governo da Escócia, Catherine Calderwood, que repetia diariamente na televisão a necessidade de os escoceses ficarem em casa, renunciar. Ela aparecera em fotos, nas primeiras páginas de jornais locais, nas proximidades de Edimburgo, em sua casa de campo, onde passara dois fins de semana consecutivos com o marido. Não se pode viajar de carro sem um bom motivo dentro da Escócia até segunda ordem.

Criticado desde que a pandemia chegou ao Reino Unido pela demora de instituir o isolamento, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, defendeu a hipótese de que a psicologia indicava que prender as pessoas em casa antes da hora causaria uma “fadiga comportamental”. Ou seja, quanto mais tempo de confinamento, mais difícil convencer a pessoa a ficar onde estão. Ele pode até ter razão sobre a “fadiga”. Mas a hipótese não se aplicava ao Reino Unido, que via as mortes escalar desde março e hoje é o segundo país com mais vítimas da Covid-19, atrás apena dos Estados Unidos.

Governos pelo mundo têm usado cada vez mais a ciência comportamental para guiar a comunicação com o público. Não é à toa que desde 2009 o Reino Unido investiu nesse seguimento para tomar decisões de governo. Ainda na era do ex primeiro-ministro David    Cameron foi criado um vídeo chamado “nudge”. Em português a palavra significa “empurrão”. É referência a teoria econômica comportamental que se popularizou pelo livro Nudge (com mais de 1,5 milhão de cópias vendidas), de Richard Thaller, ganhador do Prêmio Nobel de economia, e Cass Sunstein, publicado em 2008. A premissa do livro se baseia em mecanismos que ajudam as pessoas a tomarem as melhores decisões para si próprias a partir de pequenos estímulos que chamam sua atenção e mudam seu comportamento. Na avaliação dos governos que fazem uso da teoria, ao compreender como as pessoas pensam, torna-se possível estabelecer uma “arquitetura da escolha”, que facilita o reconhecimento das melhores opções para o indivíduo e para a sociedade.

O departamento tinha por objetivo influenciar os britânicos a tomar as decisões corretas, como não atrasar o pagamento de impostos ou pagar suas multas, só pelo envio de um SMS, por exemplo. A unidade acabou virando uma pequena empresa pública-privada e agora é uma entidade social, que opera também em outros países. Foicom o apoio dessa ciência que o governo conservador britânico, no poder há uma década, conduziu uma intensa política de austeridade sem perder o apoio da população.

A especialista em psicologia experimental Magda Osman, da Queen Mary University of London, se debruça há anos sobre processos decisórios, aprendizado, solução de problemas, riscos e incertezas. Segundo ela, o que impacta o nível de observância do indivíduo é o julgamento que ele faz da severidade da ameaça a que está submetido e sua suscetibilidade a essa ameaça. E é justamente a calibragem dessas percepções que vai determinar seu grau de engajamento. Isso quer dizer que, com o tempo e com todas as distorções observadas nos dados da pandemia, muita gente pode achar que não está tão suscetível por não pertencer ao grupo de risco mais evidente, por exemplo. “Começo a ver que estou bem e isso passa a influenciar meu comportamento. Vou quebrar as regras porque isso, é injusto comigo, já que não sou tão suscetível. Somos extremamente sensíveis a injustiça”, afirmou Osman.

Isso quer dizer que a resposta inicial da população é mais rápida – porém, tem um tempo de duração curto. “É preciso menos para convencer as pessoas no começo. Vê-se pela quantidade de gente que se trancou em casa, antes mesmo das quarentenas. Para garantir o sucesso da estratégia, governos vão ter de emitir mensagens coerentes, mas pensando nos diferentes grupos com os quais têm de lidar e em diferentes momentos”, afirmou Ulrike Hahn, da Birkbeck, University of London.

Além do tempo útil limitado de medidas que restrinjam completamente a liberdade, há aqueles que se sentem intocáveis em razão de um falso sentimento de proteção. Osman cita o exemplo do uso de máscaras, que sugere certa imunidade que ainda não existe. “As pessoas se arriscam mais quando se acham protegidas. Máscaras dão a falsa licença para correr mais riscos”, observou. Ela citou ainda o exemplo dos indivíduos quem têm incentivos    vitais para furar a quarentena, como dificuldades econômicas. “’Estou desempregado, valorizo outras coisas em minha vida e não estou no grupo de risco. Então, vou fazer tudo que eu bem entender’.  Você começa a pôr na balança seus valores, sua suscetibilidade e a severidade da pandemia”, disse. A necessidade primordial da subsistência, que, em última instância, é também um risco à vida, acaba dando a esse indivíduo a percepção de que a pandemia é um mal menor. Por isso, internamente ele pode vir a concluir que o risco de ser afetado pela doença é menor que o risco de estar sujeito a outros problemas financeiros.

O exemplo visto nas ruas, nesse aspecto, pode ter impacto relevante na escolha de um indivíduo pelo que é certo. “É mais eficaz mostrar a imagem de ruas vazias do que um grupo de pessoas desrespeitando a quarentena e caminhando na praia”, disse Osman. A gente regula o comportamento um do outro pelo que vemos as pessoas fazerem. Insistir na minoria que está furando é incentivar quem está cumprindo a furar também”, explicou.

O fundamental, segundo os especialistas ouvidos, é que a mensagem transmitida pelo governo para que os cidadãos se sintam estimulados a cumprir medidas de restrição seja direta, ordenada, clara e coerente. Não à toa, chefes de Estado que engajaram a população em suas diretrizes estão com a popularidade em alta. E isso se aplica até mesmo a Boris Johnson, adepto tardio do isolamento, que depois conseguiu equilibrar o discurso. A mensagem inicial do premiê era confusa. Na véspera de o governo determinar o fechamento do comércio e de escolas, bares e pubs pelo país estavam cheios como se a vida estivesse normal. No entanto, a partir do momento em que o discurso de distanciamento ficou claro, a população entendeu e respeitou. O primeiro-ministro pediu que a comunidade se unisse por uma causa comum e que os indivíduos se afastassem. O mantra tantas vezes repetido pela equipe de Johnson “Stay home, save lives, protect the NHS” (“Fique em casa, salve vidas e proteja o Sistema de Saúde Pública”) foi municiado por números e recomendações de cientistas. Mesmo durante o período de quase um mês que Johnson esteve afastado do cargo, enquanto lutava contra a Covid-19, a orientação vinda do governo foi cumprida.

Uma pesquisa realizada pela London School of Economics (LSE) em dez cidades britânicas confirma que a mensagem clara manteve as pessoas em casa em percentuais elevados, acima de 85% em alguns casos. Mais de 86% dos entrevistados garantiram não ter tido qualquer contato com quem não era de casa. Países como Portugal, Grécia e Nova Zelândia, que mais rápido declararam quarentena e engajaram a população, são os que, até agora, apresentaram os melhores resultados. A Eslovênia, primeiro país europeu a se declarar livre da Covid-19, deu início ao lockdown no dia 12 de março, oito dias depois de registrar o primeiro caso de contágio. No Brasil, ainda que o governo de Jair Bolsonaro tenha tido mais tempo que os europeus para pensar em uma estratégia coordenada, a falta de ação e o conflito com governos estaduais agiu para atenuar o discurso único de isolamento, reduzindo o engajamento da população. Como resultado, no Brasil, há mais de 20 mil mortos em pouco mais de dois meses de pandemia.

EU ACHO …

A ECONOMIA DA EXCLUSÃO

Do debate sobre a renda básica à discussão sobre desigualdade de gênero e racial, o país que se revela é devastador.

Como muitos leitores já sabem, tenho usado parte de meu tempo neste período de quarentena para me dedicar a um canal que criei no YouTube com a finalidade de disseminar conhecimentos sobre economia e de trazer alguns debates. A hora que eu perdia entre idas e vindas do trabalho agora uso nessa empreitada. Entre explicações sobre economia e debates com interlocutores, tem ficado cada vez mais evidente que nossa economia, essa economia que aceitamos como natural e pela qual passamos a conviver com injustiças diversas, é profundamente excludente. Segundo dados do IBGE, em 2018, quando a economia brasileira estava “em bom estado”, isto é, não havia crise e o país ensaiava uma retomada, tínhamos cerca de 12 milhões de desempregados. Desses 12 milhões de desempregados, dois terços eram pessoas negras e pardas. Dois terços. Estamos agora no meio de uma pandemia, e o desemprego haverá fatalmente de subir. Se a queda do PIB for da ordem de 10% neste ano, conforme estimo, teremos, em breve, mais de 20 milhões de desempregados no país, ou 10% da população brasileira. Vou repetir: em poucos meses, 10% da população brasileira provavelmente estará desempregada. Quem serão essas pessoas? A julgar pelos dados de 2018, certamente a composição do desemprego será marcada pela gritante disparidade racial, refletindo o que já está acontecendo em outros países. Aqui nos Estados Unidos, onde a taxa de desemprego alcançou exorbitantes 14,7% no mês de abril, os que perderam seus empregos foram desproporcionalmente negros e hispânicos.

Eis outra dimensão de nossa imensa economia da exclusão: cinco anos após a chamada PEC das Domésticas ter sido sancionada – a emenda constitucional que regularizou o trabalho doméstico garantindo equidade de benefícios -, 70% das pessoas que trabalham no setor continuam na informalidade. Como também mostram os dados do IBGE, as mulheres são maioria no trabalho doméstico (97% dos cerca de 6,5 milhões de trabalhadores nesse setor), e, portanto, são elas as mais atingidas pela informalidade. Trata-se de mais de 4 milhões de pessoas trabalhando em condições precárias, muitas delas mães que sustentam famílias. São mães que sustentam famílias sem receber sequer um salário mínimo integral. Como revelam diversos estudos do Ipea, essas mulheres são majoritariamente negras e de baixa escolaridade. As trabalhadoras domésticas, lembra­ nos o IBGE, são as que têm o menor rendimento médio entre todos os trabalhadores do mercado de trabalho.

Somos um país que cria muitos obstáculos para a entrada e a permanência de negros, pardos e mulheres no mercado de trabalho. Países que excluem, documentam os estudos empíricos, são países que têm pouco dinamismo e baixo crescimento. Países excludentes são aqueles que perpetuam as desigualdades, as quais se tornam estruturais por se reproduzirem de geração em geração, na falta de ações transformadoras. Nada disso é novidade, os dados brasileiros são conhecidos e há muita gente dedicada a estudar e esmiuçar esses temas há décadas.

O que há de diferente agora? Nada. E tudo. Nada, haja vista que a economia da exclusão é uma característica nossa como pais. E tudo porque o momento atual suplica por apoio a uma mudança profunda. Tenho trazido para este espaço a discussão sobre a renda básica permanente no Brasil, e ela é um pilar fundamental a partir do qual podemos tornar não só nossa economia mais inclusiva, mas fazê-lo reconhecendo a dignidade das pessoas. importante debater os entraves institucionais que contribuem para a manutenção de uma parte considerável de nossa população em condições de extrema precariedade e considerar os dezenas de milhões de adultos e crianças que não têm acesso a quase nada. Como bem disse o presidente da Cufa, com quem debati dia desses, o verdadeiro Estado Mínimo apregoado pelo ministro da Economia está nas favelas, nas comunidades, nas periferias.

Temos um governo cujo discurso é o da exclusão. Contudo, temos uma pandemia e uma crise econômica que revelam de forma crua a extensão dessa exclusão, as injustiças a ela associadas e a precariedade da vida de imensa parte de nossa população, logo, de nossa economia. Podemos optar por manter a economia da exclusão. Ou podemos finalmente fazer algo para começar a resolver problemas que, se não solucionados, implicarão desperdício de vidas e redução da capacidade de desenvolvimento do Brasil.

** MONICA DE BOLLE é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

VIDAS DE VIDRO

Em busca de distração, diversão, likes e ganhos, o mundo tenta transportar a realidade para as telas das lives

Uma regra tácita dos megashows de estrelas do pop estipula a que tudo que acontecia no palco deveria parecer fácil. As coreografias elaboradas, os cenários colossais, a interação do artista com vídeos, lasers e efeitos especiais, a troca rápida de figurino entre uma canção e outra — tudo isso exigia muito ensaio e preparação; na hora do show, porém, um Prince ou uma Beyoncé deslizavam   entre músicos e dançarinos com impecável naturalidade. A pandemia do Covid-19 vem mexendo com nossa noção de tempo, e a era dos megashows parece enterrada na mais remota camada geológica – é difícil acreditar que no início do ano ainda se noticiava o cancelamento da apresentação da Madonna por problemas de produção, não por razões de saúde pública. O artista que deseja permanecer relevante hoje tem de recorrer às lives em redes sociais e sites de vídeos, e as antigas regras não valem mais. O cenário caseiro desses eventos admite que os cantores se mostrem mais relaxados. Se no passado nunca se ouviria Elton John reclamar do peso de um de seus chapéus encimados por um chafariz de plumas, hoje já se admite que um cantor sertanejo se queixe de um simples par de sapatos pretos. Aconteceu na live de Bruno & Marrone, que no pico teve 1,2 milhão de espectadores e já acumula mais de 27 milhões de views no YouTube. Marrone reclamou que seus sapatos apertavam, e Bruno respondeu de pronto: “Não tira que seu pé é feio demais” (temos de elogiar o cantor por evitar uma manjada piada de chulé).

Esse climão despachado tem sido comum às lives sertanejas. A produção é montada na casa dos artistas, que muitas vezes trazem membros da família para cantar ou bater papo. A dupla Jorge & Mateus fez seu show na garagem, circunstância que, segundo foi dito no início da live, evocaria seu início de carreira. Gusttavo Lima anunciou uma pausa na apresentação alegando que precisava ir ao banheiro, pois já bebera demais. Mas toda essa informalidade é, por contraditório que isso pareça, profissional. A cerveja que obrigou Gusttavo Lima a uma parada no banheiro (e que o fez lamentar a ressaca em um vídeo na manhã seguinte) patrocinou a live. Garrafas de uma marca concorrente – se é correto chamar de concorrentes dois produtos feitos pela mesma megaempresa – figuraram com destaque na garagem de Jorge & Mateus. E garrafas dessa mesma marca reapareceram em um balde de gelo na mesa entre Bruno e Marrone. Ao lado do balde, como um sinal ominoso dos tempos, via-se um frasco de álcool em gel. Em geral, as lives servem às campanhas humanitárias, mas isso não as resguarda da sanha dos fiscais sanitários da internet, que têm criticado o número de pessoas envolvidas nessas produções. Michel Teló e Marília Mendonça escaparam dessa: fizeram shows modestos, sozinhos em casa, e com playback.

Para quem vivia principalmente de shows, a apresentação ao vivo pela internet é a alternativa que restou. Não é assim só para o sertanejo: no circuito bem mais modesto dos repentistas nordestinos, a live em rede social também impôs. Mas já antes da pandemia firmara-se como estratégia promocional de celebridades e subcelebridades sedentas de atenção – todas em busca do vídeo que se tornaria viral, adjetivo que agora voltou a ser empregado em seu significado literal. O isolamento social acrescentou uma nota de urgência a esses arroubos narcísicos. Da atriz holliwoodiana ao influencer nem tão influente assim, todos se apresentam como evangelistas do isolamento social, o que seria louvável se a construção da imagem pessoal não viesse antes da causa sanitária. Eventualmente, os famosos em isolamento social brindam os fãs com bem­ vindos momentos de leveza, como o singelo vídeo em que Sam Neill, de Jurassic Park, interpreta “Creep”, do Radiohead, com um ukulele. E a pandemia promete ter também sua versão do Live aid: neste sábado, com lives em várias plataformas e transmissão por canais de TV, será realizado o festival One world: together at home, para angariar fundos para o combate à pandemia. Participarão, entre vários outros, Lady Gaga, Paul McCartney, Billie Eilish e Elton John.

Outras celebridades preferem fazer da intimidade um espetáculo, com resultados constrangedores. Em uma live, Gwyneth Paltrow e o marido, Brad Falchuk, conversam on-line com uma “coach de intimidade”. A atriz dos filmes da Marvel queixa-se da dificuldade de manter a chama acesa quando o casal está preso em casa, com cachorros e filhos de um casamento anterior – com Chris Martin, do Coldplay, que aliás fez uma simpática live cantando músicas pedidas por fãs. Dias depois, a intimidade veio ajudar os negócios: no Goop, seu site de produtos de beleza, saúde e lifestyle, Paltrow recomendou às fãs consumidoras os melhores vibradores para brincadeiras a dois durante o isolamento.

A exposição da vida privada estaria já no nascedouro do culto aos famosos, sugere o historiador francês Antoine Lilti em A invenção da celebridade 1750-1850 (editora Civilização Brasileira). No século XVI­II, pinturas de Voltaire em situações comezinhas – jogando xadrez, andando a cavalo, recebendo um visitante – foram reproduzidas em gravuras e venderam bem em Paris e Londres. O artista suíço Jean Huber, autor dos quadros originais, não se furtou nem de mostrar o grande iluminista na hora matinal em que deixa a cama, de camisolão, e veste os culotes, equilibrado sobre uma perna só. Mesmo nesse desalinho, o autor de Cândido ainda reafirma a fama de Mestre, com maiúscula: já está ditando um texto para seu secretário. Hoje, quando o celular e a câmera digital tomaram o lugar do pintor, as celebridades ainda tentam se equilibrar entre a existência protegida e irreal que o estrelato lhes concedeu e a necessidade de se mostrarem acessíveis, “gente como a gente”. Quando Gwyneth Paltrow exibe a conversa com a tal “coach de intimidade”, ela acredita que o público vai se identificar com suas dificuldades para manter o interesse em sexo durante o confinamento em sua mansão. Mas comentaristas vêm pontuando o abismo socioeconómico entre essas celebridades e o cidadão comum que talvez já tenha perdido seu emprego na crise desencadeada pelo vírus que veio de Wuhan. Em um texto inflamado, Amanda Hess, articulista do New York Times, especula que a pandemia, ao escancarar a desconexão dos astros com a vida na superfície terrestre, ainda vai “desmontar a cultura da celebridade”. Mas isso já é atribuir poderes sobrenaturais à Covid-19.

Os sertanejos – que não são milionários apenas em views no YouTube – ao que parece conseguem andar com naturalidade na beira do abismo social brasileiro. Gusttavo Lima deu um recado aos credores no início da uma música: pagamento, só daqui a alguns meses. E a piada soou estranhamente autêntica, ainda que a live tenha sido feita à beira da piscina de uma mansão com absurdas colunas jônicas, em Goiânia. Bruno apresentou-se como um empresário socialmente responsável: lembrou que só em março ele e Marrone cancelaram nove shows, e que muitos funcionários dependem da dupla para sobreviver. O momento mais precioso dessa live – quiçá de todas as lives – foi quando o mesmo Bruno, já sob a influência da cerveja patrocinadora, pôs­ se a filosofar sobre os efeitos socioculturais da Covid-19: “Essa pandemia veio para equilibrar”, disse, para em seguida partir para uma consideração sobre os méritos relativos de capitalismo e comunismo: “Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno”, recomendou. Alguém tem de avisar ao sertanejo que a “terceira via” caiu em descrédito com a queda do primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2007.

A necessidade de validação social durante o isolamento forçado talvez responda por essa nova onda de lives. Machado de Assis, no século XIX, examinou esse desejo imperioso na figura de Jacobina, protagonista do conto “O espelho”. Quando jovem, recém­ escolhido para o razoavelmente prestigioso cargo de alferes da Guarda Nacional, Jacobina, por uma série de circunstâncias fortuitas, se vê de repente sozinho em uma propriedade rural, abandonada até pelos escravos. Ao longo das semanas de solidão, a imagem que ele vê no espelho torna-se difusa, imprecisa, até que ele resolve vestir a farda de alferes – e pronto: seus traços se tornam de novo claros e distintos. Para o espelho das redes sociais, é preciso criar fardas novas e mais brilhantes. E isto não vale só para celebridades: a quarentena reavivou a profecia nunca comprovada de Andy Waehol, segundo a qual todos um dia serão famosos por 15 minutos. Quinze minutos ou 18 horas? Esse foi o tempo total que um rapaz brasileiro levou para contar o número de grãos de arroz em um saco de 1 quilo, ao longo de cinco lives no Facebook. Cômputo final: 50.966 grãos.

No Twitter, abundam pequenas produções caseiras em que se registram atividades extravagantes no isolamento. Geralmente, aliás, elas vêm marcadas com o número de dias que o autor passou fechado em casa. Um dos melhores, realizado por um holandês no 14º dia de isolamento, mostra o que parece ser um passageiro instalado em uma poltrona de avião, bebericando vinho branco. A câmera se afasta e então se vê que a janela do avião era a tampa de uma máquina de lavar. É um humor tristonho, evocando o tempo tão recente e tão distante em que viagens de avião não eram excepcionais.

O mundo teve então um vislumbre da lavanderia de um holandês anônimo – não mais: agora sabemos que ele se chama Jeroen Gorhvorst -, e as redes sociais também nos convidam a visitar a sala de estar de Gwyneth Paltrow e a piscina de Gusttavo Lima. A privacidade agora é devassada em tempo real. O antigo ethos vitoriano que resguardava a casa como um espaço de sagrada intimidade já havia, é claro, morrido entre os séculos XIX e XX. Em 1933, Walter Benjamin celebrava, no breve ensaio Experiência e pobreza, o fim dos interiores burgueses, personalizados com bibelôs e cortinas franjadas. O filósofo alemão preconizava o surgimento de uma “nova barbárie”, constituída por homens e mulheres libertados do peso da cultura e da história, que viveriam em casas de vidro desenhadas por arquitetos modernistas como Adolf Loos e Le Corbusier. O vidro, diz Benjamin, é um material desprovido de memória, que não guarda rastros. Fica implícita outra qualidade: a transparência. O mundo das lives e do novo coronavírus talvez possa ser lido como uma versão distópica (e paródica) do sonho de Benjamin. Seus “novos bárbaros” expõem sua vida vazia de história e memória na superfície de vidro do touchscreen.

Na literatura distópica, há quase sempre um personagem solitário que perturba o consenso de uma sociedade até então monolítica em seu conformismo. É o papel que o Selvagem faz em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e Winston Smith em 1984, de George Orwell. A moda das lives encontrou um improvável resistente: Caetano Veloso. O compositor que em “Sampa” se admitia Narciso parece não se reconhecer na versão digital do espelho machadiano. Em vídeos no Instagram, Paula Lavigne, sua mulher e empresária, tornou folclórica a imagem do cantor comendo paçocas, ao que parece para se consolar da depressão do confinamento. É um reality show das redes sociais: entre uma e outra paçoca devorada pelo baiano, Lavigne insiste para que ele faça sua live, a exemplo dos sertanejos. Com visível contrariedade, Caetano promete que fará a live – um dia, quem sabe. Sim, seria bom ouvir Caetano interpretando suas melhores canções ao violão, no recesso de sua casa. Ao mesmo tempo, porém, há algo de admirável nessa recusa ranheta dos imperativos das redes sociais. Resista, Caetano, resista!

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE MAIO

O REMÉDIO PARA O CORAÇÃO AFLITO

Converteste o meu pranto em folguedos… (Salmos 30.1a).

Jesus estava despedindo-se de seus discípulos e dando-lhes suas últimas instruções. Era quinta-feira, o dia fatídico da traição de Judas, do abandono dos discípulos, da luta de sangrento suor, da prisão humilhante e do julgamento ilegal no Sinédrio. Os discípulos estavam com seus corações aflitos e turbados. Jesus, então, lhes diz: Não se turbe o coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também (João 14.1- 3). Jesus oferece três remédios para a cura de um coração aflito. PRIMEIRO, a fé em Cristo. A fé é uma âncora firme quando singramos os mares revoltos da vida. Não devemos olhar a fúria das ondas nem nos amedrontar com o rugido dos ventos. Devemos olhar para Jesus!

SEGUNDO, a certeza do céu. O céu é a casa do Pai, onde há muitas moradas. É o lugar preparado para pessoas preparadas. A vida não é só o aqui e o agora. Há um futuro de glória para aqueles que creem no Senhor Jesus. O fim da nossa caminhada não desemboca num túmulo gelado, mas no céu de glória.

TERCEIRO, a segunda vinda de cristo. jesus voltará para nos buscar. subiremos com ele, reinaremos com ele e desfrutaremos com ele das venturas benditas do Paraíso. A aflição não precisa ser nosso cálice, nem nosso coração precisa ser sobressaltado pela angústia. Podemos levantar nossos olhos e contemplar, pela fé, as glórias do futuro.

GESTÃO E CARREIRA

ESTÍMULO À INOVAÇÃO

Com apoio e financiamento de grandes empresas, startups da área da saúde começam a apresentar soluções para ajudar no combate à pandemia

Entre as doações mais comuns feitas pelo setor privado para a luta contra a Covid-19 estão toneladas de álcool em gel, milhares de kits com equipamentos de proteção pessoal e até testes para a detecção do novo coronavírus. É uma ajuda necessária, que tem aplacado as dificuldades de estados e municípios em situação mais precária no combate à pandemia. Nesse cenário, chamou atenção a iniciativa anunciada pela JBS, colosso do setor frigorífico que lamentavelmente ganhou visibilidade pela relação pouco transparente com os governos do PT e de Michel Temer. Agora num ato de incomum generosidade, a empresa controlada pela família Batista doou 700 milhões de reais – a segunda maior feita por uma corporação brasileira, atrás apenas do 1 bilhão de reais doados pelo Itaú – para, entre outras finalidades, o desenvolvimento de novas tecnologias que possam auxiliar no diagnóstico e no tratamento de pacientes com a síndrome respiratória. Com esse apoio, um grupo de especialistas seleciona projetos elaborados por empresas inovadoras e de pequeno porte as chamadas startups, que oferecem produtos ou serviços tecnológicos. “Assim como as guerras, as pandemias impulsionam o pensamento inovador”, diz Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein e um dos curadores dos projetos que serão financiados.

A louvável iniciativa da JBS lança luz sobre um setor pouco conhecido e que já apresenta resultados promissores na luta contra a Covid-19. Estima-se que existam cerca de 300 startups de saúde em atividade no Brasil – pequenos negócios conhecidos também como healthtechs. Dessas, sessenta têm boas perspectivas de crescimento, de acordo com monitoramento feito por grupos interessados em investir nas inovações. Faz parte desse time a HiTechnologies, criadora do laboratório portátil chamado Hilab. O equipamento nasceu em 2016 para realizar testes sorológicos de diagnóstico e avaliação de doença como diabetes e Zika. O Hilab analisa as amostras coletadas dos pacientes em minutos por meio de inteligência artificial, com o apoio de uma central remota de biomédicos e bioquímicos. Em março, o aparelho começou a ser utilizado para a identificação de anticorpos contra a Covid-19 no sangue. Com a atualização para fazer frente à pandemia, a HiTechnologies mais do que duplicou sua abrangência de cidades atendidas no país. “O coronavírus tem nos levado a identificar rapidamente iniciativas prontas para atingir grandes mercados”, diz Raphael Augusto, diretor de inteligência da Liga Ventures, aceleradora de empresas desse tipo.

O próprio Hospital Albert Einstein tem funcionado como uma espécie de incubadora dessas startups. Atualmente, são 45 healthtechs inscritas nos programas de financiamento e mentoria da instituição. Um dos protótipos nascidos por ali leva o nome de Fevver e permite a aferição da febre a 2 metros de distância. Instalado em um totem, o equipamento reconhece pontos de calor no rosto do paciente e oferece mais precisão do que os termômetros comuns. Já em operação no Einstein, o aparelho será instalado em prédios comerciais de São Paulo nos próximos meses. Outro projeto, Breath4Lite, utiliza impressoras 3D para a produção de respiradores. Essa estratégia faz com que as máquinas voltadas par doentes com manifestações leves e intermediária da Covid-19 tenha custo inferior ao dos ventiladores mecânicos tradicionais.

Antes mesmo da eclosão da pandemia, as healthtechs chamavam atenção de universidades, bancos e gigantes da tecnologia, como o Google. Entre 2014 e 2018, os investimentos no setor mais do que dobraram em todo o mundo e chegaram a 14,6 bilhões de dólares. Com a Covid-19, esse movimento tem se acelerado. “Todos os fundos de investimento estão olhando e apostando na saúde”, diz Julia De Luca, especialista em tecnologia do Itaú BBA. Nesse sentido, doações como a da JBS não apenas ajudam no combate ao coronavírus como também dão impulso a um setor crucial para o país.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MARCAS PARA A VIDA

Apesar de alguns casos preocupantes, as crianças são pouco atingidas pela Covid-19. Mas a clausura da pandemia traz desafios para os pais e pode afetar o comportamento de toda uma geração.

Soprou como um vento arrebatador, no fim de abril, o anúncio feito por autoridades epidemiológicas da Suíça de que crianças abaixo de 10 anos “raramente” são infectadas e não transmitem o novo coronavírus. Seria uma vitória para os avós que, depois de longo inverno, poderiam enfim rever os netos, de quem se distanciaram por imposições sanitárias. Mas não, ou #sóquenão, como escreveriam os mais jovens nas redes sociais. Outros trabalhos científicos, publicados na trilha daquele estudo pioneiro, com a notícia libertadora, baixaram o tom e estragaram um tantinho a festa que mal fora marcada. É verdade, a taxa de infecção infantil é baixíssima: no Brasil do ponto de vista estatístico, meninos e meninas de 1 a 5 anos representam 0,1% das mortes e de 6 a 19 anos, 0,4%.

Não há, contudo, conclusão confiável de que não sejam vetores do microrganismo. Pode ser que sejam, e seria irresponsabilidade dizer o contrário – e a Organização Mundial da Saúde (OMS), sempre cuidadosa, como deve ser, disse não haver quantidade suficiente de levantamentos para sustentar certezas absolutas. Mas uma porção de estudo circulou com avidez e tem sido usada por alguns países da Europa para autorizar uma lenta retomada escolar. Uma das investigações, realizada com 31 famílias na China, Coreia do Sul, Singapura, Japão e Irã, de dezembro de 2019 a março deste ano, mostrou que os mais jovens foram responsáveis por deflagrar a infecção em menos de 10% dos casos – a título de comparação, no caso da gripe aviária o índice é de 50%. Convém, portanto, ir com calma na celebração. Diz o infectologista e pediatra Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações: “Todo cuidado é pouco porque o papel das crianças na transmissão ainda não está claro”. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos afirmou que a gurizada “ainda pode transmitir o vírus a outras pessoas de maior risco, incluindo adultos mais velhos e cidadãos com sérias condições médicas subjacentes”. E a distância entre as duas pontas da pandemia – a dos menos atingidos, no início da vida, e a dos mais frágeis, os idosos – é ainda crucial. Netos de um lado, avós do outro, por precaução e olhos sempre atentos ao que a ciência ilumina.

Em tempo de tanta incerteza em que o otimismo é mercadoria escassa, deu-se um pequeno recuo na semana passada – que não altera, felizmente, a baixíssima letalidade infantil do Sars-CoV-2. Relatos de pediatras de Nova York e do Reino Unido, depois confirmados por um artigo na prestigiada revista britânica The Lancet, com base em levantamentos feitos em Bérgamo, epicentro da contaminação na Itália, revelaram cerca de uma centena de casos do que batizaram de síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (MIS-C, na sigla em inglês), semelhante à doença de Kawasaki. As crianças acometidas pela enfermidade, em média de 9 a 11 anos, não tossiam, tampouco manifestaram problemas respiratórios graves, embora tenham apresentado resultado positivo para os anticorpos contra a Covid-19. Tinham febre e erupção cutânea, olhos vermelhos, lábios secos ou rachados, vermelhidão na palma das mãos e na sola dos pés – no entanto, houve pouquíssimos casos de morte. A eclosão dos casos de MIS-C, ainda que poucos, impôs aos médicos uma indagação: por que crianças e adultos reagem de modo tão diferente ao vírus que parou o mundo? A resposta é fascinante.

A principal explicação é que os sistemas imunológicos mudam com a idade. O corpo de um adulto quase sempre está preparado para ameaças familiares, já existentes, mas tem dificuldades para combater vírus novos – é o que ocorre agora, com a Covid-19, e também aconteceu com outras cepas de coronavírus que provocaram as epidemias de Sars e Mers. Os jovens foram razoavelmente poupados. Os pequenos, especialmente os bem pequenos, lidam constantemente com vírus que não são necessariamente novos, mas são novos para eles – e o organismo reage com saudável ímpeto pueril. Os bebês nascem com um vasto repertório de células imunes, as chamadas “células T”. O exército de células T é capaz de identificar virtualmente qualquer patógeno, criando uma memória afeita a enfrentar as infecções. Com o tempo, contudo, o metabolismo identifica os inimigos de sempre – mas começa a deixar escapar os novidadeiros. Por isso, doenças como catapora e rubéola são mais graves em adultos. No caso de Covid-19, não é muito diferente com nuances.

É tranquilizador, portanto, que a meninada esteja razoavelmente protegida – viva! – e que por cautela, mantenha-se apartada de quem tem mais idade, até que a ciência entregue um veredicto sobre a ação dos imberbes como transmissores do temido coronavírus. No entanto, em um aspecto a avassaladora mudança comportamental a que todos foram submetidos, com o isolamento social e a quarentena (tradução para estar longe da escola, dos amigos, da hora do recreio, do olho no olho, do sorriso largo e do choro sincero), começa a chamar a atenção de profissionais de saúde, especialmente de psicólogos e psiquiatras. Desenha-se o que poderia ser apelidado, ainda que precocemente, de “geração pandemia”.

Um bom modo de entender o que pode vir a acontecer é olhar para quem já está algumas casas à frente, com a curva de casos pousando. Um estudo da Universidade Miguel Hernández, da região de Alicante, na Espanha, examinou o impacto psicológico do confinamento em crianças do país e da Itália. Cerca de 90% dos 431 pais e filhos espanhóis entrevistados descreveram dificuldade de concentração; ansiedade e irritabilidade. Ressalve-se que, em cidades como Valência, por exemplo, vivia-se até a semana passada ambiente de filme de terror e suspense, com helicópteros rastreando movimentos e agentes de segurança esbravejando nos megafones: “Aqui é a polícia falando. Respeite as regras”. Para a psicóloga Mireia Orgilés, coordenadora do estudo espanhol, embora as crianças tenham grande adaptabilidade à novas situações, elas têm dificuldade de acompanhar rupturas radicais”. O braço espanhol da ONG Save the Children informou que as medidas de distanciamento social poderiam causar ”distúrbios psicológicos permanentes”. A organização entrevistou 6.000 pessoas na Alemanha, Finlândia, Espanha, Estados Unidos e Reino Unido. Na Espanha, 40% alegaram medo de trauma. É bom, contudo, entender que trauma é uma condição subjetiva – pode despontar em alguns, mas em outros não. A Sociedade Americana de Psicologia define trauma como “uma resposta emocional a um terrível evento como um acidente, estupro ou desastre natural; imediatamente após o evento, o choque e a negação são respostas comuns; as reações no longo prazo incluem emoções imprevisíveis, relacionamentos tensos e até sintomas físicos, como dores de cabeça ou náusea”. Embora essas sensações sejam normais, comuns até, algumas pessoas tropeçam para seguir em frente.

Não convém acender o sinal vermelho, até porque está tudo ainda no começo e, a bem da verdade, muitas crianças estão adorando ficar em casa, com os pais ao lado, ao alcance de uma brincadeira, do smartphone (claro), de ajuda na lição de casa (virtual, evidentemente). O que se percebe são reações típicas quando a meninada é instada a dizer do que sente falta: dos avós, em primeiríssimo lugar, do ar livre, da bola, do parque, como revelam as pessoas ouvidas. No aspecto mais prático, talvez seja saudável buscar entender o que poderá ser feito logo mais, como retorno a alguma normalidade, do que ensaiar problemas mentais no futuro, que talvez nem ocorram. Um mar de indagações se impõe: quando as aulas voltarem, como reagirão as crianças e o que podem fazer as escolas? Para além das máscaras e da arquitetura – salas mais vazias, testes para Covid-19, mesas distantes, como já se veem na Europa -, as equipes pedagógicas terão de lidar com algo aparentemente tênue, intangível: o medo alimentado pela incerteza e pela insegurança. Aos educadores e pais, evidentemente, caberá aplainar as expectativas da nova vida. “É crucial manter as crianças a par de tudo, mas sem assustá-las” diz a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo, diretora do departamento científico de pediatria do desenvolvimento e comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O fim do isolamento, contudo, não significará o fim da epidemia. Até o aparecimento de uma vacina, o vírus ainda estará circulando e as escolas terão de se adaptar par ser um ambiente seguro. Mas como fazer isso? Diversos países começam a testar modelos que incluem redução na quantidade de alunos por sala, demarcação de distância mínima entre os estudantes, manutenção de aulas remotas, horários diferentes para as turmas e implementação de normas de higiene constantes. Na Dinamarca, por exemplo, apenas o ensino fundamental voltou à ativa. As crianças fazem fila de manhã ao lado de cones de trânsito espaçados em 1 metro e meio; são apenas dez alunos por sala, com um único professor; cinco crianças são permitidas no playground de cada vez. Portugal retomou as aulas presenciais do ensino médio. As medidas de proteção incluem uso obrigatório de máscaras, lavagem das mãos ao entrar e sair da escola, e horários de aula, intervalos e períodos de alimentação diferentes para cada turma. Na França, as aulas presenciais foram retomadas, mas não são obrigatórias. Diz Mireia Orgilés, da Universidade Miguel Hernández: “As crianças devem ser informadas da nova situação que encontrarão no fim da quarentena, na qual o contato social provavelmente permanecerá reduzido ainda por muito tempo”.

Há, sem dúvida, uma sensação de desconhecimento dos próximos passos que chega a ser agoniante. Nada, insista-se, apesar das mais de 330.000 mortes por Covid-19 em todo o mundo, que se compare a experiências de guerras – e também nelas, mesmo com o horror, sempre houve alguma válvula de escape para a sanidade. No início da II Guerra Mundial, milhões de crianças foram evacuadas de Londres e de outras cidades e enviadas para morar em lares adotivos no interior da Inglaterra. Esse êxodo, e o que aconteceu depois dele, virou tema de estudo da psicanalista Anna Freud, filha do pai da psicanálise. Em1943, ela concluiria que os jovens que ficaram com suas famílias, debaixo de bombardeio, mostraram-se mais “felizes” que os exilados. O trabalho de Anna Freud inspiraria um outro de seu contemporâneo John Bowlby, que investigou longas permanências em hospitais. Formou-se, então, uma ideia ainda muito influente, a da “teoria do apego”, que enfatiza o vínculo entre pais e filhos e os danos resultantes da separação. Abre-se, hoje, outro campo de investigação que pode vir a ocorrer com crianças afastadas não dos pais – dos avós, sim, insista-se -, mas dos professores, dos colegas e de tudo o mais? É a novíssima condição da geração pandemia. Passado o vendaval, não é difícil que sejam adultos melhores – e é certo que crescerão com mais informações e mais contato com a vida como ela é. Enquanto isso, ecoará, em famílias distanciadas, a tocante frase do escritor americano Alexander Haley (1921-1982): “Ninguém pode fazer pelas crianças o que os avós fazem. Os avós salpicam uma espécie de pó estelar sobre a vida delas”. Se ainda não dá para encontrá-los, que a solução seja a adotada pela menina Malu, da foto que ilustra este post: todos os dias pela manhã, ela faz uma videoconferência com a vó Vera Lúcia e o vô Chico.

EU ACHO …

QUATRO MIL ANOS DE HISTÓRIA

Um atalho para o Brasil aprender com a China, que se reinventa

Lá pelo início dos anos 1990, às vésperas de uma missão da Organização Internacional do Trabalho (0IT), aconselharam-me a levar caneta esferográficas Bic para presentear as pessoas que encontrasse. Na viagem, visitei uma linha de montagem da caminhonete Cherokee. Nada que chamasse atenção. Porém, carroças puxadas por burros movimentavam os estoques no pátio. Em um enorme hotel, fui informado de que estavam importando chefs para que ensinassem culinária na China. Sobre essa nação, exclamou o francês André Malraux, nos anos 1960: “Quando esse país despertar…” E a China despertou.

A Revolução Cultural de Mao destruiu a gastronomia requintada do país, daí importar chef; de Singapura, um hospital construído em dez dias? Essas são pontas do iceberg das façanhas chinesas. E não param aí as boas surpresas. Que nos façam patético figurante nos surpreende menos que as proezas tecnológicas. Como foi possível esse salto? a entrada do século XX, canhoneiras americanas patrulhavam o Rio Yangtzé. Embaixadas ocidentais tinham exércitos próprios. Se Mao trouxe ordem, suas políticas desastradas causaram fome que dizimou entre 20 milhões e 45 milhões de almas. Desastre após desastre.

Da tragédia e pobreza extrema, inventa-se uma nação? Como decifrar o salto? E, que constrangedor para nós, poupados dessas hecatombes humanitárias. Mas tal comparação ignora a história. A civilização ocidental só desabrochou nos últimos 500 anos. O Brasil começou a se aprumar recentemente, sendo construído por povos de poucas tradições. E a China tem 4.000 anos de história.

O que vemos lá não é a construção de um país, mas sua reconstrução. Como disseram o escritor francês Alain Peyrefitte e tanto outros. durante sua longa trajetória a China esteve à frente da Europa em quase tudo. Apena no século XIX se desencadeou sua precipito a decadência – catalisada pela Guerra do Ópio. Um século não apagou o DNA de sua sofisticada civilização, que sempre contou com governantes esclarecidos – selecionado por concursos públicos. A disciplina e a dedicação também vêm de longe. Os chineses não inventam um novo país, apenas voltam à trajetória perdida.

Nós, brasileiros, é que saímos do quase nada. Nós, sim, nos inventamos. Aliás, nosso progresso a partir do fim do século XIX foi fulgurante. Impar na história da humanidade. Se ainda estamos engatinhando, é porque começamos lá embaixo.

Nosso desafio como nação inclui não sermos inapelavelmente vencidos pelo pessimismo diante do que não conseguimos realizar. Tampouco nos cabe um ufanismo que atrofia o espírito crítico, sempre necessário. E, naturalmente, falta-nos maturidade para entender que altos e baixos fazem parte da trajetória de qualquer país.

No decorrer de sua longa história, a China foi sacudida por crises medonhas (e agora sacode o mundo). Mas sempre acumulou avanços em múltiplas direções, neutralizando a perda passageiras. Nisso, não somos nem melhores nem piores. Não há por que imitar a China e, menos ainda, fazer milagrosa ao seu pecado. Mas devemos aprender com os chineses o que aprenderam ao longo de 4.000 anos.

* CLAUDIO DE MOURA CASTRO

OUTROS OLHARES

AS LIÇÕES DA GRIPE ESPANHOLA

A pandemia de 1918 teve profundas implicações políticas nas décadas seguintes – e tudo indica que será novamente assim com a covid-19

Mahatma Gandhi foi um dos que tiveram a vida marcada pela Gripe Espanhola, pandemia que varreu o mundo a partir de 1918. No plano pessoal, o líder indiano sofreu um forte surto de gripe e viu mortos se amontoar a seu redor – estima-se que o número total de vítimas entre os indianos chegou a 17 milhões. Em seus cálculos políticos, a pandemia também foi nefasta. Durante a Primeira Guerra Mundial, os britânicos decretaram uma lei marcial na colônia. Mesmo após o fim do conflito armado, o estado de exceção foi mantido por causa da doença. Gandhi, então, convocou seus seguidores contra a medida extraordinária. Em uma manifestação, as tropas coloniais mataram mais de 400 pacifistas, ataque que marcou um ponto de virada no movimento de independência indiano. Em diversos locais da África e da Ásia, as desigualdades nas taxas de mortalidade e nos tratamentos para nativos e europeus exacerbaram movimentos anti-imperialistas. Protestos pró-independência ganharam força na Coreia e no Egito. Para Vladimir Lênin, recém-empossado à frente do governo russo, a gripe deixou clara a necessidade de se preparar para novas crises. Em 1920, implementou o primeiro sistema de saúde moderno, central e completamente público – primeiramente para a população urbana. A pandemia também teve influência no processo de paz que pôs fim à Primeira Guerra, cujas negociações em Paris coincidiram com a terceira onda da pandemia, em 1919. Foi lá que o vírus infectou uma de suas vítimas-mais ilustres, o então presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson. Influenciadas pelo conflito armado e também pela pandemia, as potências da época exigiram que a Alemanha pagasse altas reparações, o que mais tarde alimentaria o apoio aos nazistas.

Esses exemplos mostram, para além dos milhões de mortos, os profundos efeitos políticos da Gripe Espanhola há mais de um século. Num momento em que governantes de todo o mundo lutam contra a grande crise de sua geração e muitos deles se beneficiam de uma elevação, ainda que efêmera, de suas avaliações, a memória de 1918 mostra que os efeitos de erros no combate à pandemia podem ser nefastos. Os acontecimentos daquela época influenciaram não só a guerra mundial que se arrastava, mas também eventos futuros por décadas, da independência indiana, quase três décadas depois, à semente do próximo conflito global. Agora, o mundo não enfrenta um cenário tão dramático quanto aquele, mas não se devem menosprezar os efeitos que êxitos e fracassos no combate à doença terá mais à frente – a reeleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, é só o mais imediato deles.

Trump, por exemplo, não se cansa de culpar o “vírus chinês” pela pandemia atual, nada muito diferente do que ocorreu há um século. Uma das estratégias mais comuns dos governantes da época foi culpar um país estrangeiro pela pandemia. No Senegal, a doença era chamada de gripe brasileira. No Brasil, de gripe alemã. Os poloneses culparam os bolcheviques. Os persas jogaram a responsabilidade para os britânicos. A falta de transparência de vários governos, que tentavam esconder a gravidade da doença, contribuiu para a eclosão de protestos populares. Até a Suíça, famosa por sua estabilidade e neutralidade, ficou às margens de uma guerra civil.

Na verdade, ninguém sabe a origem daquela doença – ao contrário da atual, que sem sombras de dúvida surgiu na China. O primeiro caso registrado da Espanhola foi nos Estados Unidos. No dia 4 de março de 1918, o cozinheiro Albert Gitchell deu entrada na enfermaria de uma unidade do exército, no estado do Kansas, com queixas de dores na garganta, febre, dor de cabeça. Em três semanas, mais de 1.100 soldados apresentaram quadros similares suficientemente fortes para serem internados. Nesse primeiro momento, 38 morreram. Ainda assim, muitos desses recrutas foram enviados à Europa para lutar. Mas esse registro não basta para apontar o local onde a gripe surgiu – os americanos podem ter sido apenas mais eficientes ao detectá-la.

A ironia é que a Gripe Espanhola muito provavelmente não surgiu na Espanha. Alemanha, Reino Unido e França vetavam à imprensa publicar notícias sobre a doença que pudessem enfraquecer os ânimos em relação à guerra. Neutra no conflito, no entanto, a Espanha não tinha tais restrições e seus jornais noticiavam os casos da doença – entre eles, o do rei Afonso XIII e de diversos integrantes do gabinete do governo. Não precisou de muito mais para que os espanhóis ficassem associados à pandemia.

Enquanto ainda enfrentamos a Covid-19 e nos perguntamos que efeitos a doença terá no mundo, muitos estão olhando para a Gripe Espanhola como referência. Em todo caso, convém lembrar que comparações históricas são sempre imperfeitas, ainda mais com uma distância de um século. Hoje a economia global é mais interligada e interdependente, o que potencializa as consequências negativas da pandemia. As viagens internacionais conectam o mundo como nunca antes, fator que facilitou sua disseminação. Por outro lado, hoje a produção de remédios e vacinas, obviamente, está anos-luz à frente.

Apesar de todas as diferenças entre o mundo de 1918e o de 2020 e mesmo levando em conta que cada doença tem suas características próprias, é fato que a situação mais próxima à que estamos vivendo hoje, do ponto de vista epidêmico, é a da Gripe Espanhola. Para John M. Barry, autor do livro A grande gripe A história da Gripe Espanhola, a pandemia mais mortal de todos os tempos, cuja versão em português está sendo lançada neste mês, há muito a aprender com o passado. “A primeira lição é que, para lidar com uma pandemia, você precisa lidar com a verdade”, disse Barry, que também é professor da faculdade de saúde pública e medicina tropical da Universidade Tulane. “A segunda é que o distanciamento social funciona. Isso já foi provado em praticamente todos os países que adotaram essas práticas, e essa também é uma lição de 1918”, completou.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE MAIO

AS PROVAÇÕES DA VIDA SÃO MULTICOLORIDAS

Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações (1Pedro 1.6).

Ninguém passa pela vida sem beber o cálice do sofrimento. Entramos no mundo chorando, lavamos o rosto com nossas próprias lágrimas ao longo da jornada e, não raro, fechamos as cortinas da vida com lágrimas nos olhos. A vida não é indolor. Enfrentamos diversas provações. Tiago diz: Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por diversas provações (Tiago 1.2). A palavra grega poikilos, traduzida aqui, por “diversas”, significa “policromática” ou “multicoloridas”. Há provações leves e provações pesadas. Provações rosa-claro e provações rosa- choque. Provações vermelho-carmesim e provações escuras como breu. Apesar disso, Tiago nos ensina aqui algumas verdades importantes. PRIMEIRO, as provações são compatíveis com a fé cristã. Tiago se dirige a irmãos e não a pagãos. A vida cristã não é uma estufa espiritual, mas uma arena de luta; não é um parque de diversões, mas um campo de batalha.

SEGUNDO, as provações são compatíveis com a alegria. Tiago diz que, em vez de nos rendermos à tristeza e à murmuração, devemos ter uma atitude de imensa alegria ao passarmos por essas diversas provações.

TERCEIRO, as provações são compatíveis com a esperança, pois são passageiras e não permanentes. Vamos passar por elas, em vez de ficarmos presos em suas garras.

Se as provações são multicoloridas, também o é a multiforme (poikilos) graça de Deus. Para cada provação, temos graça suficiente para enfrentá-la!

GESTÃO E CARREIRA

DIAMANTES NO DESERTO

Com a criação do polo conhecido como Silicon Wadi, uma espécie de Vale do Silício, Israel se afirma como referência na indústria da inovação

Vales marcados pela intensa aridez parecem ter se tornado ambientes ideais para o florescimento de frutos típicos do século XXI: os produtos tecnológicos. O maior centro de inovação do planeta se encontra em uma região seca da Califórnia. Todos os anos o Vale do Silício concentra 50 bilhões de dólares de investimentos de alto risco, usualmente destinados a startups – quase metade do montante movimentado dentro dos Estados Unidos -, além de 15% da produção de patentes deste país. A renda média de um morador da região ultrapassa os 110.000 dólares (em torno de 460.000 reais). Amais de 10.000 quilômetros de distância de lá no Oriente Médio, o Deserto de Negueve, em Israel, vê crescer, sobre seu solo abrasador, um complexo industrial que põe o território em disputa direta com a cidade chinesa de Shenzhen pelo posto de segundo maior polo de inovação do mundo. O oásis tecnológico leva o nome de Silicon Wadi (em hebraico, wadi significa vale). Nele proliferam companhias de ponta, que se espalham ainda pela costa litorânea nos arredores de Tel-Aviv, fazendo dessa pequeníssima nação com menos de 10% da área do Estado de São Paulo e população pouco maior que a da cidade do Rio de Janeiro, um sinônimo de progresso.

A flora de Wadi é composta de 8.400 companhias do setor; a cada ano, outras 1.000 se somam a elas. Na última década,1.210 startups daquele mínimo pedaço do globo foram adquiridas por multinacionais de peso, em acordos que superaram o valor total de 110 bilhões de dólares. “Foi por isso que passamos a ser apelidados de “startup Nation” (Nação Startup), disse, em pleno Silicon Wadi, o cientista político Israelense Ran Natanzon, cujo cargo no governo soa melhor em inglês: head of innovation & country branding (algo como “líder de inovação e marca no país) do Ministério de Relações Exteriores. “Israel é a única nação a ter uma função pública dessa natureza, destinada a promover a indústria tecnológica, o que revela como estamos à frente nesse aspecto”, comentou ele.

Como Israel transformou um deserto árido em centro de inovação mundial? Responde Natanzon, especialista em vender tal faceta do país: “Trata-se de uma combinação dos seguintes fatores, todos igualmente essenciais: somos uma nação altamente militarizada; mantemos à indústria em ligação com as pesquisas acadêmicas, o governo atua para fomentar o setor, há operação ativa de fundos de investimentos e multinacionais; e existe uma proliferação de startups”.

“Todo israelense, homem, ou mulher, é obrigado a servir no Exército ao completar 18 anos. O que não quer dizer, no entanto, que o contingente completo vá para a linha de frente. Há, por exemplo, uma unidade a 8.200 integrante do Corpo de Inteligência das Forças de Defesa, cujos membros se dedicam a decifrar códigos de computador. “Essa tropa fornece veteranos hábeis em trabalhar com segurança de dados digitais e em outras áreas do mercado da tecnologia, explicou o engenheiro israelense Lavy Shtokhamer, ele mesmo um oficial reformado da 8.200. “Saem preparados para trabalhar em postos cujos salários são altíssimos.”

Shtokhamer chefia o Cert (Time de Resposta Cibernética Emergencial, na tradução da sigla), uma divisão que mescla agentes ligados ao governo e representantes de empresas parceiras, como a IBM em ações contra ataques de hackers que têm como alvo Israel, ou, como vem sendo mais frequente sistemas de companhias privadas. “Monitoramos criminosos virtuais pelo mundo afora e trocamos informações com governos e multinacionais em um momento no qual tem sido determinante defender-se de assaltos digitais”, resumiu o engenheiro.

Na sede do departamento, onde só se pode ingressar sem dispositivos eletrônicos – nem mesmo celular -, funcionam um pioneiro número de emergência, disponível para qualquer israelense pedir socorro quando acredita ter sido hackeado e programas de defesa cibernética focados em setores específicos, como o de telecomunicações e o financeiro. A rede de proteção serve tanto a companhias nacionais e estrangeiras quanto a uma coligação de 36 países, incluindo o Brasil. “Há poucos meses detectamos e repetimos uma tentativa de desativar todo o fornecimento energético de nossa nação”, revelou o Ministro de Energia de Israel, Yuval Steinitz, em apresentação na conferência de cibersegurança Cybertech, que ocorreu na última semana de janeiro em Tel-Aviv.

Asede do Cert está localizada em uma cidade que é exemplo máximo da transformação pela qual passou Israel para se tornar referência tecnológica. Até novembro de 2011, Be’er Sheva era mais célebre por ter sido apontada como palco de diversas cenas bíblicas, servindo de lar a patriarcas das religiões abraâmicas, como Isaac e o próprio Abraão. Escavações arqueológicas no local revelam que as primeiras ocupações humanas datam do século IV a.C. Na última década, o governo de Israel investiu em Be’er Sheva mais de 10 bilhões de dólares, e outros 400  milhões vieram do setor privado para construir uma série de prédios e centros de pesquisas, com foco, principalmente em ações de cibersegurança. Pelos corredores dos edifícios, rodeados de canteiros de obrais em andamento observam-se quadros que exaltam inovações realizadas no território israelense. “Grande parte das empreitadas tem início em projetos governamentais, que, depois, acabam por fornecer componentes de produtos do setor privado”, observou Shtokhamer enquanto apontava uma tela com descrições do Domo de Ferro o avançadíssimo sistema de defesa antiaérea desenvolvido pela empresa local Rafael, cujo faturamento supera os 2,3 bilhões de dólares por ano.

JOIAS DA COROA

Quatro exemplos de startups israelenses de sucesso compradas por grandes empresas

“Como a Startup Nation”, viramos especialistas em criar negócios novíssimos para depois vendê-los a multinacionais, sobretudo as americanas. Agora é o momento de progredirmos para uma “Scale-up Nation”, afirmou Udi Mokady, fundador e CEO da Cyber Ark, que desenvolve softwares de segurança digital para 5.000 clientes, incluindo 30% das 200 marcas mais valiosas em âmbito planetário. Scale-up – do inglês “ampliação” – é o termo usado na área para indicar quando uma startup em vez de ser adquirida por uma companhia maior, opta pelo crescimento por conta própria. Em Israel, um exemplo famoso do modelo mais vigente até agora é a Waze, fundada em 2008 e adquirida cinco anos mais tarde pela americana Google por 1,15 bilhão de dólares.

Para Mokady está na hora de as novatas pararem de se vender aos gigantes estrangeiros. Ele fala com propriedade. Criada em1999, a CyberArk recebeu uma série de ofertas contudo recusou todas e decidiu ingressar na bolsa de valores nova-iorquina Nasdaq. Hoje, vale cerca de 5,5 bilhões de dólares. “Por sermos algo como uma pequena ilha, de população reduzida no meio do deserto, nossas startups já nascem com foco no mercado global. O segredo aqui é pensar grande”, conclui Mokaday, os olhos mirando longe, através da janela de uma sala voltada para Petah Tikva, perto de Tel­Aviv, no prédio em que está seu escritório. A empresa já conta com um Q.G. em Massachusetts (EUA) e em breve estreará suas operações em Be’er Sheva – um vale de fertilidade.

DAVI NA GUERRA DIGITAL

O surpreendente desempenho israelense no âmbito da revolução tecnológica

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COISAS DE MULHER

A preocupação com a emoção alheia e a intimidade nas relações tornam o comportamento social feminino mais sofisticado

Nos primeiros anos de vida, meninos e meninas já demonstram diferenças na capacidade de praticar a empatia – aquela sintonia espontânea e natural com as ideias e os sentimentos do outro. Não se trata apenas de reagir a um pequeno número de emoções, como dor ou tristeza; ter empatia significa sentir a atmosfera emocional que se instala em determinadas situações; colocar-se, sem grande esforço, no lugar do outro e administrar com sensibilidade uma interação de forma não invasiva. Nenhuma outra situação é melhor para observamos como as meninas são melhores que os meninos nas artes da empatia como quando estão brincando.

Garotos são mais “físicos” do que garotas quando querem alguma coisa. Exemplo: quando um grupo de crianças recebe um aparelho de projeção de filmes para brincar, os meninos passam mais tempo olhando através do visor, nem que para isso precisem empurrar as meninas. Quando o brinquedo é entregue a um grupo formado apenas por garotas elas em geral recorrem à habilidade verbal para garantir seu espaço. Em vez de forçar, negociam e convencem. Isso demonstra que, em geral, as meninas se preocupam mais com a divisão justa e, mesmo quando uma delas é movida por interesse próprio, usa a leitura mental para manipular o outro, para obter o que quer.

Outro exemplo: deixe as crianças brincarem à vontade com aqueles carrinhos grandes que elas mesmas podem guiar. Em pouco tempo os meninos começam a se chocar uns contra os outros. As garotas, quando têm a chance de participar, dirigem com muito mais cuidado, evitando ao máximo atingir alguém. A esse comportamento masculino a psicóloga americana Eleanor Maccoby chamou rough-bousing (bagunceiro, baderneiro, em tradução livre). Segundo ela, a arruaça dos meninos não quer dizer, porém, que eles sejam mais ativos. As garotas apresentam o mesmo nível de atividade em outros tipos de brincadeiras.

Maccoby também deixa claro que o rough-bousing não deve ser entendido como agressão, mas como experimentação lúdica da resistência do outro. O estilo masculino de brincar pode ser muito divertido quando o outro garoto também gosta. Porém, se a brincadeira machuca ou incomoda, apenas um garoto com pouca empatia insistiria em continuar. Já as meninas tendem a reagir de modo muito diferente. Se o inconveniente ocorrer uma vez, ela pode até não se importar, mas se houver repetição, ela acaba se desligando da atividade. É claro que lutas “de mentira” nem sempre são brincadeiras. Às vezes podem ser para valer, não com agressão explícita, mas com muita ameaça e conflito. Comparativamente, os meninos costumam praticar muito mais esse comportamento e, surpreendentemente, as diferenças entre os sexos podem ser observadas já a partir dos 2 anos de idade.

NAS FÉRIAS

Conhecer os estudos do antropólogo Ritch Savin-Williams, feitos num acampamento de férias para adolescentes, é uma ótima oportunidade para ver as diferenças entre os sexos sob uma potente lente de aumento. Ao chegar ao acampamento, os jovens foram separados em cabanas conforme sexo e idade. Como esperado, logo se estabeleceram hierarquias de dominação. Algumas das táticas empregadas eram similares em grupos masculinos e femininos: exposição ao ridículo, apelidos, comentários maliciosos, entre outras. Tal comportamento hostil tinha um papel social: os que alcançavam posições mais elevadas na hierarquia de dominação conseguiam mais controle sobre o grupo.

Assim, a conclusão realista e inquietante que podemos tirar daí é que a agressividade leva as pessoas a posições sociais mais altas e lhes dá mais poder e controle. Os adolescentes que se destacaram como líderes tinham mais influência sobre as atividades do grupo, eram os primeiros a escolher onde dormir e recebiam uma segunda porção de refeição antes de todos os outros. No que diz respeito, porém, às táticas usa das para ascender socialmente, as semelhanças entre os sexos acabam exatamente aí, onde começam as diferenças.

Primeiro, vamos dar uma olhada na cabana dos garotos. Em alguns grupos, certos rapazes faziam a primeira investida pela dominação social nas primeiras horas depois da chegada. Ridicularizavam e atormentavam fisicamente suas ”vítimas” na frente dos outros. Imagine um deles desfazendo a mochila, já com certa saudade de casa, lendo um cartão carinhoso deixado pela mãe. De repente, surge um outro que lhe dá um empurrão e o insulta. Pela perspectiva do intimidador, foi enviada uma mensagem clara a toda a cabana: ele é o chefe. Pela nossa perspectiva de observadores, seria razoável pensar que aquela intimidação significa empatia reduzida.

Agora é hora de espiar através das cortinas para ver o que acontece num a cabana feminina. Elas esperaram pelo menos uma semana para começar a estabelecer suas táticas de dominação. Ser “legal” e criar amizades eram prioridades nos primeiros dias de convivência. Mesmo quando algumas começavam a sinalizar que estavam no controle, faziam isso, na maioria das vezes, por meio de estratégias sutis – uma eventual ironia ou desatenção. Exemplo: a garota dominante simplesmente ignora os comentários e sugestões de outra de status inferior. A desatenção e a exclusão social são meios poderosos de controle. Quem recebe pouca ou nenhuma atenção se sente sem importância, invisível.

O modo como as garotas estabeleciam verbalmente a dominação era, em geral, indireto. Em certa ocasião, uma sugeriu a outra que “pegasse o guardanapo e limpasse o rosto, que estava sujo de comida”. A atitude aparentemente cuidadosa na verdade chamou atenção para a falta de jeito da colega. Se fosse um rapaz, simplesmente chamaria o outro de “babão” e incentivaria os companheiros a ridicularizar a vítima. Embora as duas táticas tenham o mesmo efeito, a das garotas é mais sofisticada.

Tudo acontece tão depressa, que fica difícil acompanhar o processo que leva uma garota a se tornar uma líder. As meninas utilizam com mais frequência a tática de dizer “Não sou mais sua amiga” ou de espalhar boatos maliciosos. Costumam usar a persuasão verbal geralmente baseada em informações falsas. Os garotos, ao contrário, preferem a agressão direta: gritam, brigam e xingam. Há quem diga que o método masculino corresponde a usar um martelo enorme para quebrar uma noz. O mais provável é que um garoto na mesma situação tente alcançar o objetivo imediatamente, sabendo que o efeito final será favorável (sua posição no grupo sobe, enquanto a do outro desce), ainda que ganhe um inimigo. Quando a garota decide “diminuir” uma outra, procura fazer isso de modo quase invisível, para não correr o risco de adquirir a fama de opressora. Se questionada, ela sempre pode dizer que não teve a intenção de ofender ou de desmerecer a outra. Assim, preserva a reputação de ser uma pessoa “legal”.

AMIGAS ÍNTIMAS

Diversos estudos mostram que as garotas valorizam a intimidade. Assim, a estratégia feminina atinge um objetivo: alcançar status social sem colocar em risco a intimidade de seus relacionamentos. Quem quer ser íntimo de alguém com fama de desagradável? Então, o comportamento perturbador tem de ser disfarçado, rápido e difícil de ser flagrado. No caso dos garotos, a intenção é óbvia. A força física é um sinal claro e a mensagem transmitida é de que o agressor pouco se importa com o fato de a vítima se sentir ferida ou ofendida, muito menos com a possibilidade de a intimidade de outros relacionamentos ser prejudicada. Os objetivos principais são controle, poder e acesso aos recursos que vêm através deles – outra vez, empatia reduzida.

O estudo no acampamento de férias revelou que os garotos da cabana que tinham menos status se uniam para reforçar o “tratamento” dado à vítima, estabelecendo assim sua própria dominação sobre ela. Isso nos lembra que as hierarquias de dominação são dinâmicas, e que os garotos tendem a ficar à espreita de oportunidades de ascensão social. A empatia com a vítima já não interessa. Faz mais sentido chutar o sujeito caído. Isso vale para todos os membros do grupo social, em todos os níveis da hierarquia.

As garotas também estavam sempre dispostas a galgar algumas posições, mas, novamente, as táticas eram diferentes. Elas preferiam reconhecer explicitamente a liderança alheia, inclusive com bajulação, encanto, apreço e respeito. Por exemplo: a menina com baixo status pedia conselhos e apoio à dominante ou se oferecia para penteá-la. Outra diferença está no fato de a hierarquia de dominação masculina ter durado todo o período no acampamento, enquanto a das garotas se alterou muito antes do término. O resultado disso é que elas passavam muito mais tempo conversando em grupos de duas ou três, em atmosfera de menor rivalidade, ou se relacionando com a “melhor amiga”. Os garotos, por sua vez, participavam mais de atividades de competição, sob o comando do líder.

Dediquei muita atenção a essa experiência em acampamentos de férias por causa dos paralelos que podemos traçar em relação a muitas situações sociais: a sala de aula, o parquinho, o trabalho. Em todas elas desenvolve-se uma liderança, e os líderes frequentemente precisam de uma “vítima” para manter a posição. Quando observamos a frequência com que as garotas praticam a leitura mental, a limitada empatia dos garotos e o papel desses aspectos na determinação da escalada social, percebemos, embora com certo desencanto, que temos muito a aprender.

A outra conclusão que se tira daí é que os rapazes são muito menos benevolentes quando se trata de fazer alguém se sentir menos capaz do que eles. Eles não perdem o sono por causa do pobre garoto que foi prejudicado. Eles gostam do status e estão mais dispostos, inclusive, a ferir física ou emocionalmente.

DISCURSO CORTÊS

Garotas expressam raiva de forma menos direta, propõem acordos com maior frequência e parecem mais inclinadas a esclarecer os sentimentos e intenções dos outros. Além disso, fazem reivindicações com mais delicadeza e têm um discurso mais cortês, evitando gritar. Com os meninos, claro, é diferente. A partir da segunda infância e durante a adolescência eles fazem mais provocações, uma forma direta de afirmação de seu poder. Quando há desentendimentos, os rapazes argumentam menos, preferindo simplesmente reafirmar sua opinião.

Os imperativos (“Faça assim” ou “Me dê aquilo”) e as proibições (“Pare com isso” ou ” Não faça aquilo”) são mais comuns no discurso masculino. Esses exemplos de “trocas autoritárias” não raro acabam em conflito. Alguém com grande empatia evitaria esse tipo de expressão para que o outro não se sentisse inferior e desvalorizado. As garotas preferem dizer, “Você se importa de não fazer isso?”, levando em consideração os sentimentos do outro.

Os garotos também costumam fazer o que a psicóloga Eleanor Maccoby chama grand standing, isto é, uma descrição das próprias ações. Para tanto ignoram o interlocutor e assumem o “discurso de uma só voz”. Vários estudos têm sugerido que o estilo feminino de fala tende para o “discurso em duas vozes”. A ideia é que, embora as garotinhas persigam seus objetivos, passam mais tempo negociando e tentando levar em consideração os desejos da outra pessoa e isso revela claramente a empatia em ação na conversa. Essas diferenças no estilo de conversação são percebidas mais nitidamente na segunda infância e na adolescência.

Os homens usam por mais tempo um tipo de linguagem que demonstra seus conhecimentos, habilidades e status. São propensos a se exibir ou tentar impressionar. Assim, interrompem muitas vezes o outro para dar opinião e demonstram menos interesse nos pontos de vista alheios. Para as mulheres, a linguagem serve para desenvolver e manter relacionamentos íntimos e recíprocos, em especial com outras mulheres.

NO TRABALHO

A conversa feminina frequentemente dá segurança a outra pessoa, pois expressa sentimentos positivos; os homens em geral se furtam de falar da importância que um tem para o outro. Elas gostam de incluir nos diálogos referências pessoais e elogios à aparência das outras. Por que os homens fazem isso tão raramente? Uma das possíveis respostas está no fato de a mulher ser mais hábil para sinalizar seus sentimentos.

A linguista americana Deborah Tannen, da Universidade Georgetown, documentou as diferenças no modo como homens e mulheres falam uns com os outros no ambiente de trabalho. Sua principal descoberta foi encontrar, entre elas, muito mais assuntos não profissionais, o que reforça os laços sociais e mantém abertos os canais de comunicação, fazendo com que as tensões que venham a surgir sejam mais facilmente solucionadas.

Outra observação interessante de Tannen foi a de que os homens falam mais entre si sobre “sistemas”: tecnologia (a mais nova ferramenta, o mais moderno computador, os melhores aparelhos de som), carros (diferenças entre um e outro modelo) e esportes (a classificação no campeonato de futebol, o jogo da noite anterior). As mulheres abordam mais os temas sociais: roupas, penteados, festas, relacionamentos, questões domésticas e filhos. Os temas de conversas, assim como as revistas que escolhem na banca de jornais, refletem os diferentes interesses de homens e mulheres. Não é de admirar que a maioria das pessoas julgue mais fácil fazer amizade com alguém do mesmo sexo, já que também é mais fácil estabelecer um tópico informal de interesse mútuo. Outro fator que pode contribuir é a diferença de humor, pelo menos no trabalho: o humor masculino tem mais a ver com implicância e uma certa dose de falsa hostilidade, enquanto no feminino, a mulher zomba de si mesma.

Tudo isso também afeta as atividades de gerenciamento. As gerentes, quando fazem críticas, tendem a agir com tato e suavizar o golpe; já os homens na mesma função não se importam em criticar diretamente, sem “dourar a pílula”. O estilo feminino de gerenciamento é mais voltado para a consulta e a inclusão, de modo que ninguém se sinta deixado de lado; o estilo masculino é mais direto, orientado a tarefas. Parece razoável concluir que a principal diferença de comportamento entre homens e mulheres está na forma como eles se consideram a si próprios e aos outros, o que nos acaba levando, novamente, para a questão da empatia.

Quando se trata de empatia, as mulheres são claramente melhores que os homens. E talvez sejam melhores não somente em comunicação, mas em todos os aspectos da linguagem. As mulheres produzem, em média, mais palavras num determinado período, cometem menos erros e se saem melhor quando se trata de discriminar fonemas. Suas frases geralmente são mais longas; suas falas costumam obedecer a um padrão de estrutura gramatical e são mais bem pronunciadas. Elas também têm mais facilidade de articular as palavras. A maioria dos homens abusa das pausas. E em termos clínicos, eles são pelo menos duas vezes mais propensos a distúrbios de linguagem, como a gagueira.

Além de tudo isso, as meninas começam a falar, em média, um mês antes dos meninos, e seu vocabulário é mais extenso. Uma análise minuciosa das diferenças nas competências de linguagem nos mostra que o cérebro feminino não tem apenas maior aptidão para a empatia, ele é também superior em termos de comunicação verbal. Interessante notar, porém, que se a primeira ideia nunca foi questionada pela ciência, a segunda, no entanto, é alvo de controvérsias e de reflexão.

Em primeiro lugar, é possível que a superioridade feminina para se comunicar por meio das palavras seja parte integrante do desenvolvimento de sua empatia. Habilidades de linguagem, como memória verbal, são essenciais para uma boa conversa, tornando a interação agradável, fluente e voltada para a socialização e intimidade. Longas pausas nos diálogos não contribuem para que os parceiros se sintam conectados ou em sintonia.

Em segundo lugar, algumas medidas de avaliação da linguagem, como compreensão de leitura, podem realmente refletir a capacidade de empatia. As meninas, por exemplo, costumam se sair melhor em testes de leitura, mas isso se deve ao fato de elas terem mais facilidade para entender histórias com temas sociais.

Por fim, é improvável que a maior sensibilidade emocional observada no sexo feminino seja apenas um subproduto de suas habilidades de linguagem superiores, já que todos conhecemos gente muito hábil em matéria de linguagem, mas com pouca sensibilidade social e vice-versa. Da mesma forma, todo mundo conhece alguém verbalmente fluente que, no entanto, não consegue parar de falar, negando ao interlocutor a oportunidade de dizer alguma coisa; sinal de pouca capacidade de ceder a vez e de agir com empatia. E aquelas pessoas que são ouvintes pacientes e sensíveis, que respondem com afeto e empatia aos problemas alheios, mas não são dadas a muitas palavras. Habilidades de linguagem, portanto, não têm nada a ver com habilidades de comunicação ou empatia.

Uma visão darwiniana diria que a empatia não é resultado de habilidades de linguagem excepcionais, pelo contrário. As mulheres podem ter desenvolvido melhor seus sistemas linguísticos porque sua sobrevivência dependia do uso mais empático, rápido e estratégico da linguagem. Neste ponto, porém, a conclusão mais segura é a de que elas são melhores tanto em empatia como em muitos aspectos do uso da linguagem. Pode-se concluir ainda que a relação entre essas duas habilidades seja provavelmente complexa e recíproca tanto do ponto de vista filogenético (evolutivo) como ontogenético (desenvolvimento): a linguagem bem desenvolvida promoveria empatia, já que o impulso de se comunicar levaria à socialização. Por outro lado, a empatia ajudaria a desenvolver a linguagem, pois a sensibilidade social tornaria mais fácil enfrentar o pragmatismo da comunicação.

CONVERSA AO PÉ DO OUVIDO

Mulheres também conversam muito mais sobre sentimentos e relacionamentos, ao passo que os bate-papos deles geralmente giram em torno de coisas mais concretas, como esportes, carros, estradas e novas aquisições.

1. tendência parece se manifestar já na infância. Estudos mostram que, aos 2 anos, histórias centradas em pessoas são muito mais comuns em meninas do que em meninos. Outra diferença bem evidente no discurso refere-se a confidências e intimidade. Embora homens e mulheres sejam igualmente dispostos a fazer revelações a(o) parceira(o), eles usam linguagem muito mais íntima quando conversam com outro homem. Isso pode refletir também a pressão sofrida pelos homens para se mostrar no controle. É de seu interesse, mesmo quando em conversa íntima com uma mulher, não comunicar muito apoio. A mulher, por outro lado, prefere responder com palavras que demonstrem compreensão e simpatia.

NA PONTA DA LÍNGUA

As conversas são uma fonte valiosa de indícios da capacidade de empatia. O discurso feminino tem sido descrito como mais rico em termos de cooperação e reciprocidade. Na prática, isso se reflete também na capacidade que elas têm de manter trocas por mais tempo, o que não significa conversas de longa duração, ao contrário, quando se trata de meninas elas costumam ser muito fragmentadas. Em geral, as garotas utilizam mais certos tipos de artifícios de linguagem. Empregam, por exemplo, “prolongamentos” (“Ah, você quer dizer que x”) e “variações pertinentes” (“Ah, que interessante…”), que servem para reforçar o que o interlocutor acabou de dizer. Elas costumam prolongar o diálogo expressando sua concordância com as sugestões do outro. E quando discordam, tendem a suavizar o golpe respondendo em forma de pergunta, não de afirmativa. Assim, evitam dominar, confrontar ou humilhar. “Talvez você esteja certo, mas também não poderia ter acontecido de…?” ou “Acho que você está certa, mas eu vejo de um modo um pouco diferente.” Nesses exemplos, o falante deixa espaço para o ponto de vista do outro, deixando-o mais tranquilo por saber que as diferenças de opinião são respeitadas.

É mais provável que o estilo masculino siga esta linha: “Desculpe, mas você está errado”; não há respeito pela opinião alheia. Às vezes eles podem ser ainda mais abruptos: “Você está errado”. Na verdade, o que pode ser visto em uma conversa feminina como diferença de opinião quase sempre é interpretado pelos homens como uma questão de fato, em que só pode haver uma resposta correta – a dele mesmo. Se o outro faz uma sugestão, os meninos tendem a rejeitá-la imediatamente, como uma “bobagem”, ou, de forma mais rude, como uma “burrice”. É como se fizesse parte do estilo masculino presumir que existe um panorama objetivo da realidade, que suas convicções são incontestáveis e que a verdade tem uma única interpretação. A abordagem feminina parece admitir desde o início que existe subjetividade no mundo. Assim, elas deixam es paço para interpretações múltiplas.

EU ACHO …

SEM VÍRUS EM NOSSO DNA, MORRERÍAMOS NO ÚTERO

A palavra DNA se tornou até sinônimo de essência. Nosso DNA propriamente dito, contudo, desmente essa visão simplista.

O químico americano Wendell Stanley investigava nos anos 1930 o mistério em torno da natureza dos vírus, então tida como “impossível de definir”. Tomou uma amostra do primeiro que fora identificado no século XIX, causador de uma doença em plantas de tabaco, e purificou-a até obter cristais. O composto manifestava um comportamento bizarro. Ficava meses guardado sem que nada acontecesse, como sal de cozinha. Assim que era misturado com água, transformava-se de novo no agente nocivo. “Quando cristal, o vírus se comportava como gelo ou diamante. Quando colocado na planta de tabaco, multiplicava-se como qualquer coisa viva”, escreve Carl Zimmer em A planet of viruses (Um planeta de vírus). Ninguém sabia dizer se era um ser vivo ou não. “A velha distinção entre morte e vida perde algo de sua validade”, constatou o jornal The New York Times. Descobriu-se depois que aquele salnão era feito só de proteínas, como Stanley imaginava, mas também de compostos conhecidos como ácidos nucleicos, descobertos 30 anos antes do primeiro vírus, mas cuja função só ficaria clara décadas depois. Quando os cientistas entenderam enfim que tais ácidos – hoje os universalmente conhecidos RNA e DNA – são os compostos básicos da vida, portadores das instruções genéticas para a reprodução de todo ser vivo, o mistério estava esclarecido. Mas a implicação da natureza dupla dos vírus ainda está longe de absorvida.

A noção de que não sejam uma forma de vida voltou a ser posta em xeque recentemente, com a descoberta de vírus gigantes, comuns na água de qualquer bebedouro. Isolados, tais vírus são substâncias inertes, de tamanho comparável a uma bactéria. Na natureza, sequestram o maquinário de células infectadas para reproduzir seus milhares de genes, codificando até proteínas que corrigem erros na replicação. “O vírus gigante é uma fábrica viral, parece e age como uma célula”, conta Zimmer. “É tão parecido que descobriu-se que também pode ser infectado por um vírus próprio.” A estranheza não para por aí.

Seria impossível aos virólogos do tempo de Stanley imaginar, nas palavras de Zimmer, que “o genoma humano é composto, em parte, de milhares de vírus que infectaram nossos ancestrais distantes, ou que a vida podem ter começado 4 bilhões de anos atrás, a partir de vírus”. É uma ideia que ele chama de “quase filosófica em sua estranheza”. “Gostamos de pensar em nossos genomas como nossa primeira identidade”, diz Zimmer.

A palavra DNA se tornou até sinônimo de essência. Nosso DNA propriamente dito, contudo, desmente essa visão simplista.

“Cada um de nós carrega em nosso genoma quase 100 mil fragmentos de DNA de retrovírus (um tipo de vírus que usa os cromossomos da célula infectada para se reproduzir), ou algo como 8% de nosso DNA”, escreve Zimmer. “Para pôr tal número em perspectiva, considere que os 20 mil genes que codificam proteínas no genoma humano correspondem a apenas 1,2% de nosso DNA.”

Sem o DNA que herdamos de um vírus, nenhum de nós teria nascido. Células na camada externa da placenta humana precisam desse código genético para produzir uma proteína essencial à transmissão de nutrientes do sangue materno aos fetos. “Em nosso momento mais íntimo, quando uma nova vida humana emerge de uma antiga, vírus são essenciais à sobrevivência”, diz Zimmer. Cientistas franceses já conseguiram até fazer renascer, a partir do código genético humano, um retrovírus batizado “Fênix”. ”Não há nós e eles”, afirma. “Nós, humanos, somos uma mistura indissociável de vírus e mamífero. Tire nossos genes de vírus e morremos no útero. É provável também que dependamos de nosso DNA viral para nos defender de infecções.” Vírus também podem, segundo Zimmer, explicar a origem da vida. Um virólogo francês propôs que o RNA viral tenha evoluído para a molécula de DNA, de modo a proteger seus genes de ataques. “Os hospedeiros acabaram se apropriando desse DNA, e então conquistaram o mundo. A vida que conhecemos, noutras palavras, precisou dos vírus para começar.”

* HÉLIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

MUITO ALÉM DO PULMÃO

Passados cinco meses do início da pandemia, os médicos já sabem que a Covid afeta não só o sistema respiratório, mas pode danificar vários órgãos nobres como coração, rins e até o cérebro

Há pouco mais de cinco meses os profissionais de saúde de todo o mundo correm contra o tempo para descobrir como age o novo coronavirus no corpo humano, tanto para elaborar tratamentos e vacinas, como para lidar com eventuais consequências do contágio. E, passado esse período atribulado, algumas coisas começam a ficar mais claras e já se sabe que a Covid-19 é extremamente contagiosa — 4,37 milhões de infectados no mundo —, e é mais grave do que parecia, por ser uma doença infecciosa e sistêmica, que se alastra.

Ao entrar no organismo, o vírus vai prejudicando vários órgãos pelo caminho. Inicialmente, ele invade as vias aéreas, tomando de assalto nariz, garganta e até os olhos, reduzindo paladar e olfato e, em alguns casos, provocando conjuntivite. Ao chegar ao pulmão, responsável pela oxigenação do corpo, ele inicia uma série de reações e, como num efeito dominó, todos os sistemas vão sendo afetados por uma inflamação generalizada. Nessa etapa, a partir do sétimo dia, ele começa a ir além do sistema respiratório, podendo inflamar as veias do sistema circulatório, provocar desarranjo no sistema digestivo, e chegar ao sistema nervoso central, comprometendo órgãos vitais como coração, rins, intestino, pele e até o cérebro.

“É uma doença nova e ainda estamos avaliando todos os efeitos. Mas o certo é que 30% das pessoas internadas têm o rim afetado”, diz o infectologista Marcos Boulos, membro do Comitê de Contingenciamento do coronavírus de São Paulo. Ainda se avalia se a disfunção do coração e a insuficiência renal podem ser causadas pela ação do vírus diretamente ou se seria uma reação do próprio organismo, já que a Covid-19 aciona o sistema imunológico de maneira tão intensa que provoca uma chuva de reações, o que inclui a vasculite, inflamação de vasos, incluindo os do cérebro. “Há informações de problemas de coagulação, cianose (azulado) nos dedos por falta de circulação e até AVCs (acidente vascular cerebral)”, explica o oncologista, Dráuzio Varella.

SEQUELAS EVENTUAIS

A soma das reações pode ser tão devastadora, que culmina com a falência múltipla de órgãos e a morte. Segundo o infectologista Moacyr Silva Jr, do Hospital Albert Einstein, outro agravante é que a evolução difere de pessoa para pessoa, sem um padrão definido. “Na maioria dos casos, passa como uma gripe, mas em outros a resposta imunológica é mais intensa e leva tempo para saber o que desencadeia isso”. Incertas também são as sequelas dessa inflamação, especialmente para quem foi entubado por muito tempo. Mas é certo que, assim como um corte na pele, o pulmão fica com uma espécie de cicatriz. “Essa fibrose pode levar a problemas futuros de respiração ou exigir hemodiálise a quem teve o rim afetado”, diz o infectologista Ralcyon Teixeira, do Hospital Emílio Ribas. O fato é que ainda há muito a se descobrir sobre a Covid-19

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE MAIO

A CURA PRODUZIDA PELA CONFISSÃO

Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, para serdes curados (Tiago 5.16a).

Há doenças físicas e doenças emocionais. Há doenças do corpo e doenças da alma. Guardar mágoas e esconder pecados adoece. Chamamos essa situação deplorável de doenças hamartiagênicas, ou seja, doenças geradas pelo pecado. Tiago fala desse assunto, quando diz: Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, para serdes curados.

O rei Davi adulterou com Bate-Seba e mandou matar seu marido. Depois casou-se com a viúva e continuou sua vida como se nada tivesse acontecido. A mão de Deus, porém, pesou sobre ele, e o rei adoeceu. Seu vigor tornou-se como sequidão de estio. Seus ossos ardiam, suas lágrimas inundavam seu leito e sua alma estava de luto. Até o dia em que o rei foi confrontado pelo profeta Natã e, caindo em si, confessou seu pecado. A confissão trouxe-lhe cura e libertação, perdão e restauração. Pecado escondido é como uma algema invisível. A pior prisão é o cárcere da consciência culpada. A Palavra de Deus nos aponta o caminho da cura, quando afirma: O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia (Provérbios 28.13). A confissão é o fruto do arrependimento, e o arrependimento é a porta de entrada do perdão e da cura. Há muitas pessoas doentes que precisam ser tratadas não com remédios e cirurgias, nas clínicas e hospitais, mas com a terapia da confissão. O pecado gera doença, mas a confissão traz cura. O pecado escraviza e atormenta, mas a confissão liberta e restaura.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRA PRIVATIZADA

O desafio dos funcionários públicos de estatais que estão sendo vendidas para a iniciativa privada

Depois dos governos de Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2003), esta deverá ser a gestão com o maior número de desestatizações na história do país. Até dezembro do ano passado, a administração de Jair Bolsonaro contabilizava 35 ativos vendidos, concedidos, licenciados ou arrendados à iniciativa privada – o objetivo é chegar a 109. Nos anos em que FHC esteve à frente do país, o número superou 120, com vendas como a da Light e a da Vale. Para os milhares de funcionários que prestam serviços públicos no Brasil, o momento é de turbulência. Dados do 11º Boletim de Empresas Estatais Federais, produzido pelo Ministério da Economia, apontam uma redução de 22.000 pessoas nos quadros das estatais entre dezembro de 2017 e junho de 2019.

Jaime Luiz Lemos de Albuquerque, de 56 anos, é um dos que perderam o posto no período. Por 35 anos, o administrador trabalhou na BR Distribuidora, subsidiária de postos de combustíveis da Petrobras. Em julho, o governo abriu mão do controle da companhia: vendeu 30% das ações a investidores da iniciativa privada e reduziu sua participação de 71% para 41%.

Coordenador de segurança empresarial, Jaime deixou a BR Distribuidora um pouco antes do ocorrido, por meio de um programa de demissão voluntária (PDV). “Queria trabalhar pelo menos até os 60 anos, mas, diante dos fatos, optei por sair e evitar o risco de uma demissão sem as mesmas vantagens”, afirma. O profissional diz que tornou a decisão “no escuro”. Isso porque a empresa não divulgou quantas vagas seriam cortadas nem em quais áreas. “Desde o governo de Michel Temer, eu já lidava com a possibilidade de privatização e fui me preparando para esse momento. De qualquer forma, a experiência foi muito ruim, pois sou de uma geração que sempre vestiu a camisa da empresa”, diz Jaime, que hoje ocupa parte do dia ajudando voluntariamente uma escola de Botafogo, no Rio de Janeiro. Quando Jaime aderiu ao PDV, circulavam boatos de que os cortes atingiriam 30% das pessoas. Informação que o atual presidente, Rafael Grisolia, confirmou. Segundo o executivo, o quadro deve passar de 5.000 para 3.500 trabalhadores, entre diretos e indiretos.

FALTA TRANSPARÊNCIA

Sérgio Lazzarini, professor no Insper e autor de livros como Reinventando o Capitalismo de Estado (Portfolio Penguin, 62,90 reais), ressalta qu1e é fundamental discutir abertamente o porquê de uma privatização, tanto com a sociedade quanto com os servidores diretamente afetados. “O governo atual não esclarece o motivo, apenas diz que precisa vender sob o argumento de que tudo o que é estatal é ruim. Falar isso é ideologia. É preciso analisar o mercado e tornar as decisões caso a caso”, diz.

Do ponto de vista econômico, a defesa do governo é que, uma vez privatizadas, as companhias experimentam um aumento de produtividade e rentabilidade que se reflete na qualidade e no preço dos serviços ofertados. Nesse sentido, o caso da telefonia é emblemático. “Uma linha telefônica custava 2.000 dólares em 1994. Hoje, qualquer pessoa pode ter uma – ou até mais de uma se quiser”, lembra Sérgio. Chegar a esses resultados, contudo, implica uma série de ajustes de processos e custos, incluindo folha de pagamentos. “Acontecem demissões. Mas, como a meta muitas vezes é de expansão, há também contratações de novos profissionais”, diz o pesquisador.

A italiana Enel, que assumiu em fevereiro de 2017 as operações da estatal Celg-D, distribuidora de energia de Goiás, é um exemplo. Com mais de 50.000 funcionários espalhados pelo mundo, quando comprou a empresa pública, ela tinha 8.357 funcionários. De lá para cá, o número saltou para 10.225. Os únicos empregados que saíram da empresa, aliás, foram os que aderiram aos planos de demissão e aposentadoria voluntárias. O alimento do quadro acontece por causa de investimentos em tecnologia e em grandes obras, como subestações. “A expectativa é criar, até 2022, 1.200 postos de trabalho”, diz Alain Rosolino, diretor de pessoas e organização da Enel Brasil.

MUDANÇA COMPULSÓRIA

Um aspecto importante dos processos de privatização é que nem todos os empregados têm estabilidade, mecanismo previsto por lei que garante autonomia ao servidor, evitando que fique exposto a trocas de governo. Só desfrutam desse direito funcionários estatutários ligados à administração direta, ou seja, concursados que prestem serviço em órgãos de Estado – como a Presidência da República, os ministérios e a Câmara dos Deputados – e que estejam ocupando o cargo há três anos ou mais.

Os contratados no regime CLT, não possuem a mesma prerrogativa. E, quando migrados para o regime privado, podem ser demitidos sem justa causa. Como as organizações que podem ser alvo de desestatização pertencem à administração indireta – caso dos Correios, da Eletrobras e da Casa da Moeda -, elas têm liberdade para fazer novos arranjos de equipe.

Ainda assim, existem regras, como pontua a advogada trabalhista Mariana Machado Pedroso) sócia do Chenut Oliveira Santiago. Segundo ela, reduções salariais só são permitidas quando há diminuição da jornada de trabalho; promoções devem vir acompanhadas de contrapartida remuneratória; e bancos de horas e férias precisam ser respeitados.

Responsável pela construção e manutenção de ferrovias) o engenheiro Sérgio Nunes, de 36 anos, trabalha há seis na Valec. Em março de 2019, a empresa pública sub concedeu o trecho da Ferrovia Norte-Sul entre Porto Nacional (TO) e Estrela d’Oeste (SP) à Rumo, companhia ferroviária e de logística brasileira do Grupo Cosan. Essa medida levou ao fechamento de todos os escritórios locais nos estados de Tocantins, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A unidade da cidade mineira de Iturama, onde Sérgio trabalhava, estava entre elas. Transferido em setembro de 2019 para Brasília (DF), a quase 700 quilômetros de distância, o engenheiro foi comunicado que teria de mudar de endereço um mês antes – e não teve a opção de escolha. “Meus pais dependem de mim e não estou mais perto deles. Também estou longe de minha filha e da casa que construí. Toda a minha vida estava lá”, afirma. De acordo com Sérgio, a Valec ajudou com as despesas da mudança e com a passagem para a capital federal. Mas as viagens para a cidade natal estão pesando no bolso. “Entendo o motivo da transferência e estou me adaptando. Hoje sobrevivo com 1.600 reais, descontadas todas as despesas. A situação está complicada, mas continuo a atuar com projetos e assumi interinamente uma gerência na área de estudos e pesquisas, o que me traz desafios interessantes.”

Apesar de tirar os empregados públicos da zona de conforto, nem todas as mudanças são negativas. Dependendo do grupo que assume a operação, ganham-se novas oportunidades, como participação nos lucros e chance de expatriação, no caso de uma multinacional. “As fronteiras da Celg-D [Companhia de Distribuição do Estado de Goiás], que se limitavam a Goiás, foram expandidas para os cinco continentes em que atuamos”, diz Alain, da Enel. Wagner Alves Vilela, de 43 anos, é funcionário antigo da distribuidora de energia e atravessou o processo de privatização. Com 15 anos de experiência em diversas funções na companhia, ele diz ter ficado apreensivo no início. Mas logo aprovou a novidade. Engenheiro especialista, ele foi enviado com um grupo de 20 funcionários à matriz italiana, em Roma, para fazer um intercâmbio de seis meses. A proposta da multinacional era proporcionar aos trabalhadores uma imersão em suas operações e uma integração mais rápida à cultura da Enel. Desde que se tornou empregado da iniciativa privada, Wagner já mudou duas vezes de departamento, migrando da área de manutenção de obras de baixa e média tensão para a área de contratação de serviços e, novamente, para manutenção de obras. E diz estar satisfeito. “O desafio é grande e o volume de trabalho também. Mas o ritmo agora é mais dinâmico. Antes, as coisas eram definidas pelo governo e havia muita morosidade.”

O profissional também aprovou o estilo de trabalho da Enel, “mais horizontal”, a possibilidade de integrar times formados por pessoas das mais diversas formações e os resultados dos investimentos feitos pela Enel para aprimorar a estrutura e os serviços. “A companhia está aplicando recursos para melhorar a qualidade dos serviços oferecidos aos clientes. Desde que entrei na empresa, eu sonhava com esse tipo de melhoria.”

A comunicação interna também o surpreendeu positivamente, tanto pelo número elevado de e-mails quanto pelo conteúdo. “Eles compartilham desde questões do dia a dia até metas e resultados alcançados. Tenho até dificuldade de acompanhar, tamanho o volume de informações divulgadas”, afirma Wagner.

MAIS ABERTURA

Daniele Salomão, vice-presidente de gente e gestão do grupo brasileiro Energisa, que comprou em 2018 duas distribuidoras da Eletrobras, a Eletroacre e a Ceron, diz que desde o início apostou em uma linha de comunicação direta e contínua com os servidores. “Algumas pessoas ficaram espantadas no começo, pois nunca tinham visto a diretora de RH da Eletrobras pessoalmente. Nós apresentamos a empresa, falamos das etapas de transição e esclarecemos os critérios que estávamos utilizando na avaliação dos trabalhadores”, lembra a executiva. Para entender o perfil das lideranças e os valores preponderantes nas duas unidades, Daniele e uma equipe de consultores desembarcaram em Rio Branco (AC) e em Porto Velho (RO) antes da oficialização da compra. O processo de mapeamento aconteceu em três etapas e envolveu a realização de testes online, exame de personalidade e entrevista de 5 horas de duração com cerca de 70 líderes.

Após a avaliação, a Energisa concluiu que, em vez da meritocracia, reinava uma cultura paternalista, de proteção. “Não havia gestão de consequências e os profissionais se revezavam nos cargos de liderança para conseguir bônus salarial. Quando o bônus era incorporado ao rendimento fixo, uma nova pessoa entrava no lugar”, diz a RH. Para melhorar esse cenário, o foco foi deslocado para o mérito. O plano de remuneração variável passou a ser vinculado a metas. A empresa, que hoje emprega 15.000 pessoas, também mexeu na estrutura de cargos e enxugou a folha salarial, realizando planos de demissão e aposentadoria voluntárias. Sem revelar números de desligamentos e substituições, Daniele explica que os admitidos depois da privatização têm um pacote de benefícios diferente dos que já estavam lá, que não tiveram alteração nos rendimentos e benefícios. Com essas medidas, ela afirma que a companhia solucionou a assimetria dos salários públicos, em geral superiores aos da iniciativa privada. “Com um mix de pessoas antigas e novas, reduzimos o custo por indivíduo”, relata.

Marynelle Leite, advogada da área trabalhista do escritório Oliveira e Belém Advogados, pontua que ofertar benefícios diferentes aos admitidos depois da privatização é legal, desde que haja equivalência em termos de qualidade. “Direitos previstos na CLT, como vale-refeição e vale-transporte, não podem ser alterados. Já os benefícios definidos em acordos coletivos, como cesta básica e plano de saúde, são passíveis de renegociação”, diz Marynelle.

Mesmo previstas em lei, as mudanças nem sempre agradam. Na Energisa, houve quem não quisesse continuar. “Tanto em Rondônia quanto no Acre as pessoas crescem idealizando a carreira no serviço público. Algumas preferem ocupar cargos comissionados na prefeitura a trabalhar na iniciativa privada”, diz Daniele. Os que ficaram, porém, ganharam oportunidades novas. A companhia está investindo em cursos de formação técnica e de liderança. “O período não é fácil, pois há muito trabalho, mas os funcionários estão vendo retorno. Iluminamos uma região do Acre recentemente e foi motivo de orgulho”, afirma.

Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), relembra que durante o governo FHC houve muita polêmica com as privatizações, pois era algo novo. Com vários processos concluídos, inclusive nos governos Lula, Dilma e Temer, o professor acredita que o entendimento dos cidadãos tenha mudado, principalmente por causa da melhora de certos serviços. Ainda assim, é indiscutível que as desestatizações trazem desafios. Postos de trabalho redundantes, por exemplo, tendem a ser cortados, gerando demissões. Nesse processo, é fundamental haver diálogo, respeito e transparência com os profissionais que dedicaram a carreira à vida pública.

MAPA DA DESESTATIZAÇÃO

Criado na gestão de Michel Temer, o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) contempla desde a participação em negócios já privatizados, nos quais o governo ainda possui ações, até a venda total de estatais. Há 109 projetos em andamento em diversas áreas

GLOSSÁRIO DA PRIVATIZAÇÃO

Confira os termos mais comuns para definir a participação privada em empresas públicas

CONCESSÃO

Delegação, por prazo determinado, da prestação de um serviço público a uma empresa privada (concessionária).

PARCERIA PÚBLICO ­ PRIVADA (PPP)

Contrato de concessão no qual a concessionária é remunerada (total ou parcialmente) pelo poder público, seja porque presta um serviço ao Governo, seja porque as tarifas cobradas dos usuários são insuficientes para cobrir os custos da operação.

PRIVATIZAÇÃO

Venda de uma companhia estatal (e de seus ativos) à iniciativa privada.

LICENCIAMENTO AMBIENTAL

Autorização de atividades que utilizam recursos naturais ou que são consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras. É imprescindível em atividades como extração mineral e fabricação de aço e produtos siderúrgicos.

REGIME DE PARTILHA

Criado para a exploração do petróleo, esse modelo de parceria garante à União o posto de proprietária do óleo explorado pela concessionária.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUEM MENTE MAIS?

Para psicólogos, antropólogos e neurobiólogos, faltar com a verdade é um componente fundamental da competência social humana

A mentira está a serviço de interesses pessoais e da obtenção de alguma vantagem sobre os outros.

Mas, afinal, quem mente mais, o homem ou a mulher? Pesquisadores afirmam que mais importante que simplesmente quantificar é constatar que há diferentes objetivos a ser atingidos por cada um dos sexos ao faltar com a verdade. Por meio do arguto falseamento dos fatos, do fingimento refinado e da cordialidade representada com esperteza, os seres humanos buscam, independentemente do gênero, apresentar-se da melhor maneira possível e impor seus próprios interesses. Isso vale especialmente para eles, como descobriu o psicólogo Robert Feldman, da Universidade de Massachusetts.

Segundo o estudo, grande parte do que a maioria dos seres humanos diz, não tem fundamento – ou porque de fato não é verdade ou porque há distorções, das quais às vezes nem o próprio indivíduo se dá conta. Segundo uma projeção realizada a partir do acompanhamento do discurso diário de mulheres e homens, elas faltam com a verdade aproximadamente 180 vezes ao longo do dia e eles, 220 vezes.

Numa pesquisa com 242 estudantes da Universidade de Massachusetts, participantes do sexo feminino mentiam em suas conversas com desconhecidos visando sobretudo proporcionar maior bem-estar a seus interlocutores. Já os homens mostraram-se mais interessados em promover a própria imagem. Na opinião de biólogos da evolução, foi a própria vida social, com suas hierarquias e tramas de relações, que primeiro trouxe ao mundo a mentira deslavada. O falseamento intencional só pôde desenvolver-se em grupos complexos. Até mesmo os chimpanzés, que vivem em bando, são mestres da dissimulação. Valendo-se de truques, engodos e fingimentos, eles lutam por posição hierárquica, comida e parceiros sexuais. E correm algum risco ao fazê-lo.

Quem não deseja ser constantemente enganado precisa ter a capacidade de descobrir com precisão artifícios e enganações alheios. Os antropólogos vêm precisamente na constante corrida entre desmascaramento e aperfeiçoamento da mentira a força motriz que, do ponto de vista filogenético, talvez tenha sido a responsável pelo desenvolvimento da inteligência social. É possível que ela tenha dado origem até mesmo à linguagem verbal. Especialistas mais empedernidos chegam a defender a tese de que o ser humano deve o aumento de seu cérebro à pressão evolucionária por uma capacidade cada vez mais refinada de enganar.

Depõe a favor dessa teoria o fato de, por trás de cada mentira deliberada, haver sempre um feito intelectual brilhante. Sim, pois esconder a verdade – e, em seu lugar, inventar uma história sólida e irrefutável – não apenas demanda muita criatividade como pressupõe a capacidade de se pôr mentalmente na pele dos outros. O poder de imaginar como se é visto pela pessoa enganada está entre os feitos cognitivos mais característicos do ser humano.

Onde se localiza no cérebro o requisitado departamento de propaganda em causa própria é o que tem pesquisado Daniel Langleben, da Faculdade de Medicina da Pensilvânia, Estados Unidos. Ele utiliza ressonância magnética funcional, método que permite identificar a elevação da atividade cerebral com base no aumento da irrigação sanguínea de determinada região. Langleben solicitou a participantes de uma experiência que dissessem inverdades deliberadas. Cada um recebeu uma carta de baralho num envelope fechado; ninguém – nem mesmo o condutor da experiência – sabia qual carta havia sido dada a cada um.

Tendo visto sua carta às escondidas, o participante era posto no tomógrafo, onde um programa de computador exibia- lhe, uma a uma, 36 cartas de baralho, questionando se se tratava da carta certa. Antes disso, porém, Langleben havia solicitado expressamente aos participantes que mentissem: quando a carta certa aparecesse no monitor, exigindo um “sim” como resposta verdadeira, eles deveriam negá-lo. Assim, um dos 36 “nãos” proferidos era com certeza uma mentira – e foi na pista desse “não” específico que os pesquisadores se lançaram. De fato, os cientistas identificaram cada um dos engodos. Em certas regiões do cérebro a atividade se intensificava de modo significativo sempre que os participantes recorriam à mentira. Chamou a atenção a elevação da atividade cerebral em duas regiões específicas: o giro do cíngulo anterior e o córtex pré-frontal.

Ambas as regiões auxiliam na determinação dos conteúdos da memória que chegam à nossa consciência. O giro do cíngulo dirige a atenção e serve ao controle dos impulsos. No córtex pré-frontal, por outro lado, está sediada a instância inibidora do cérebro. Aí é rechaçado tudo que é irrelevante num dado momento e que, por isso, não deve ser enxergado mentalmente. É o caso, aqui, dos fatos verdadeiros, por exemplo. Langleben explica: “Está claro que, para dizer uma mentira, precisamos reprimir alguma coisa. Essa coisa há de ser, então, a verdade”. Aliás, quando os participantes da experiência não foram obrigados a mentir, os pesquisadores não registraram alteração alguma da atividade cerebral. É de supor, portanto, que a honestidade constitua, por assim dizer, o estado cognitivo normal. O cérebro precisa, antes, impedir que se diga a verdade.

Que mentir e enganar exige muito mais das células cinzentas é o que confirma um estudo de psicólogos da Universidade de Michigan, Estados Unidos. Eles perguntaram a participantes de sua experiência se conheciam determinadas pessoas e fatos e então mediram seu tempo de reação. O resultado: quando os participantes admitiam com sinceridade não ter a menor ideia do que ou quem se tratava, pressionavam o botão do “não” em, no máximo, meio segundo. No caso das respostas mentirosas, esse tempo de reação subia para mais de um segundo. Mesmo depois de informados dos pormenores do estudo e dispondo de tempo para “treinar”, ainda assim não conseguiram pressionar o botão com mais rapidez.

FALSAS E DISSIMULADAS

Embora Langleben esteja procurando decifrar sobretudo os processos neurobiológicos associados ao ato de mentir, ele sabe do potencial que o resultado de suas pesquisas representa. “Como a ressonância magnética funcional mede diretamente a atividade do cérebro, ela é superior à técnica habitual do detector de mentiras”. Ekman, por sua vez, ocupa-se há quase duas décadas com a pesquisa de sinais corporais que denunciam o mentiroso. Num de seus experimentos mais conhecidos, esse pesquisador das emoções exibiu a um grupo de futuras enfermeiras um vídeo com imagens de pessoas que haviam sofrido amputação de membros. A tarefa das participantes consistia em convencer um entrevistador que não assistia ao filme de que elas estavam vendo um belo vídeo com paisagens naturais e imagens agradáveis.

Para motivar o grupo de mentirosas por encomenda, Ekman lhes disse que também em seu cotidiano profissional elas com frequência precisariam ocultar emoções negativas, tais como a consternação e o nojo diante dos pacientes, e que, por isso mesmo, o domínio da dissimulação era uma capacidade importante em seu ofício. Um segundo filme, exibindo bela paisagem litorânea e descrito pelas participantes com sinceridade como tal, foi empregado como controle.

Ekman filmou as estudantes de enfermagem e analisou sua mímica e linguagem corporal. Fez, então, uma interessante descoberta: nem mesmo as mentirosas mais convincentes foram capazes de ocultar por completo sua verdadeira vida interior – embora só a traíssem por um brevíssimo instante. Essas “microexpressões faciais” duram menos de um quarto de segundo – instantes fugazes nos quais a máscara cai e o semblante revela emoções verdadeiras, tais como repugnância ou embaraço, antes de tornar a ocultá-las com um sorriso. “Nós não pensamos antes de sentir”, explica Ekman. “Antes de termos consciência de um sentimento já estampamos no rosto sua expressão.” Os pesquisadores identificaram ainda “micro gestos,” como um leve balançar da cabeça ou chacoalhar dos ombros. Esses movimentos, porém, eram apenas sugeridos, muitas vezes deixando-se reconhecer apenas em câmera lenta.

Esta é possivelmente a razão pela qual quase todos os seres humanos são péssimos detectores de mentiras. A psicóloga americana Bella DePaolo, da Universidade da Virgínia, examinou cerca de 100 estudos sobre o desmascaramento da mentira. Seu balanço revela: antes de começar a refletir sobre se alguém está ou não nos enganando, melhor recorrer a um cara ou coroa – nossa porcentagem média de acerto, pouco acima dos 50%, não chega a ser muito mais significativa que a probabilidade oferecida por uma moedinha.

Existe, no entanto, um grupo de pessoas capaz de flagrar mentirosos de modo bem mais confiável. Não, não me refiro a agentes secretos da CIA, mas àquelas pessoas que, em decorrência de uma lesão no hemisfério esquerdo do cérebro, são capazes de compreender palavras isoladas, mas não o sentido de frases inteiras: os chamados afásicos. Um grupo de afásicos caiu na risada certa vez ao ouvir um discurso do ex-presidente americano Ronald Reagan porque percebeu suas palavras como um engodo. Mais tarde, verificou-se que o político estava de fato dizendo uma inverdade.

Nancy Etcoff e Paul Ekman submeteram essa observação à comprovação científica, exibindo a dez afásicos os vídeos do experimento com as estudantes de enfermagem. Mesmo sem compreender o que estava sendo dito, eles conseguiram diferenciar corretamente a mentira da verdade em 60% dos casos.

“Os afásicos têm uma experiência de verdadeiro reconhecimento imediato, tão logo ouvem uma mentira”, Etcoff esclarece. Quando o condutor do estudo retirou o som, e os afásicos puderam se concentrar apenas na expressão facial das futuras enfermeiras, sua taxa de acertos como detectores humanos de mentiras subiu para quase 65%.

VISTA GROSSA

“A linguagem foi dada ao homem para que ele ocultasse seus pensamentos”, sentenciou no passado o ministro do Exterior de Napoleão, Charles Maurice de Talleyrand. E mais que isso: ela parece tão dominante que homens saudáveis têm imensa dificuldade para interpretar sinais no rosto do mentiroso. Mesmo sem o som, os não-afásicos não se saíram melhor no estudo de Etcoff. É provável, porém, que, por trás dessa cegueira, oculte-se uma estratégia de sobrevivência. Numa sociedade mentirosa, um rigor particular para com a verdade traz consigo o perigo da marginalização. Ignorar mentiras e fazer vista grossa aos engodos são componentes sólidos da comunicação interpessoal – quer isso nos agrade ou não. Quem não conhece muito bem ou não aceita as regras vigentes torna-se impopular. Foi assim que Bella DePaolo descobriu que jovens com muita sensibilidade para perceber mentiras e engodos e incapazes de mantê-los em segredo foram avaliados tanto pelos colegas como pelos professores como menos hábeis socialmente.

Em oposição a isso, um estudo de Robert Feldman mostrou que adolescentes capazes de mentir de forma bastante convincente, não se deixando apanhar senão raras vezes, desfrutam particular reconhecimento e sucesso em seu grupo. O psicólogo faz, portanto, uma defesa dos mentirosos, “De certo modo, mentir é um talento social.” Tanto para homens quanto para mulheres.

EU ACHO …

COMO SAIR DA UTI ECONÔMICA

É preciso ter atitudes mais assertivas para evitar o pior

Ainda lutamos contra as consequências imediatas da pandemia provocada pelo novo coronavírus, mas isso não impede que já nos perguntemos sobre o que fazer ao vencer a crise. Sim, porque não basta sair dela. É preciso saber como nos reinventarmos depois, já que seus efeitos econômicos de longo prazo serão duradouros. A reinvenção da economia deveria ter como baliza o elevado número de desempregados que certamente teremos ao final da crise, o tombo no PIB e o rombo gerado por um novo refinanciamento da dívida tributária, que será, fatalmente, imposto pelo Congresso Nacional.

A qualidade da saída da crise depende tanto do seu enfrentamento diário quanto da antecipação de suas consequências. No setor privado, a reinvenção já está em curso e, como sempre, mais avançada do que no setor público. Não à toa vemos empresas com milhares de funcionário operando em regime de home office. E o uso intensivo de entregas em domicilio paralelamente à dinamização das videoconferências. Mas falta sangue, vale dizer, crédito, para irrigar o corpo econômico.

No setor público, a resposta ainda é inconsistente. Pode até estar sendo ágil para distribuir dinheiro aos mais vulneráveis, mas a questão é mais profunda. O crédito ainda não chega às empresas e os setores que podem quebrar estão em negociações intermináveis com o BNDES. Os bancos privados, como sempre, jogam duro com a concessão de crédito. Setores do governo apostam que o fim do isolamento social trará de volta a retomada. É um enorme engano. A economia levará alguns trimestres andando de lado antes de começar a se recuperar de forma vigorosa. E dificilmente será unta recuperação em V, visto que o consumo será diferente tanto na forma quanto na intensidade.

Sem injeções de adrenalina no coração da economia – que é o setor privado – poderemos ver um festival macabro de quebradeiras e demissões. As atitudes precisam ser mais assertivas porque:

a) historicamente, a retomada em crises econômicas é dolorosa;

b) nossos problemas pré-pandemia atrapalharão a recuperação; e

c) nossas respostas econômicas ainda são parciais e inadequadas.

O ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, sugeriu a formação de um comitê de crise do governo com o setor privado, o que já deveria ter sido adotado há muito tempo. O governo federal sozinho, sem o setor privado e sem os estados e os municípios, não resolverá a situação. A crise também não será solucionada sem expansão do crédito e sem investimentos em urbanização, habitação e infraestrutura.

Em meio à crise, o setor exportador vem conseguindo dar respostas porque já estava mais bem estruturado. Os demais setores vitais de nossa economia ainda andavam de lado por causa da vagarosa recuperação. Assim, a reinvenção da economia passa por atacar questões remanescentes. Tais como simplificar o sistema tributário e desburocratizar o Estado, além de enfrentar os desafios postos pela crise.

Infelizmente, o conjunto da obra até agora demonstra que teremos de piorar para voltar a melhorar. E, muito provavelmente, com receituário mais forte. Como paciente, o Brasil ainda não entrou na UTI. Mas é quase certo que dela não se livrará.

*MURILLO DE ARAGÃO

OUTROS OLHARES

A PROVA DE FOGO

A luta contra o coronavírus entra num momento crítico, com o sistema público de saúde saturado e vivenciando cenas de terror. Mudar tal quadro exige medidas urgentes

A cena, de uma dramaticidade cortante, quase passa desapercebida em meio à confusão de médicos e doentes no apinhado hospital municipal Salgado Filho, na Zona Norte do Rio de Janeiro: em um local destinado ao lixo do necrotério e à roupa suja, conforme sinalizado, via-se, na manhã de 1º de maio, um corpo embrulhado em plástico pousado sobre uma maca abandonada. Alguns passos adiante, mais dois mortos. No dia 6, o hospital Platão Araújo, em Manaus, também dava mostras do esgarçado sistema público de saúde em uma de suas unidades semi-intensivas, onde pessoas mantidas no oxigênio dividiam o ambiente de paredes e piso sujos com um cadáver à espera de remoção. Situações como essas – flagradas nas duas grandes capitais com maior letalidade pela Covid-19 – se banalizam à medida que o avanço da pandemia exibe sai face destruidora no Brasil, onde os mortos estão batendo na casa dos 15.000 e os vivos precisam brigar com o vírus e com as evidentes fragilidades do Sistema Único de Saúde (SUS).

O momento é delicado, e as más notícias dos últimos dias, com a aceleração do número de contaminados (o Brasil é o sexto país do mundo na triste lista, com quase 200.000, tendo ultrapassado a França), tendem a se expandir. O ex­ ministro Luiz Henrique Mandetta foi claro: “o surto no Brasil está apenas no começo”. Ele prevê, para o futuro imediato, algo em torno de 1.000 mortes diárias, até que a curva se estabilize – e ela só baixará se houver rigor nas iniciativas de isolamento social. Chegou a hora da verdade, a prova de fogo que exige apoio da sociedade e sensatez das autoridades – expressão que o presidente Bolsonaro parece não entender, nesse delírio negacionista e avesso à ciência.

Um estudo da Imperial College de Londres localiza no Brasil a maior taxa de contágio da Covid-19 do mundo – cada pessoa passa para outra três. Com a curva de infectado e vítimas em trajetória ascendente (as projeções oscilam, mas há algum consenso de que o pico da epidemia será alcançado no fim de maio e o de mortos, em junho), a doença chegou à funesta posição de maior causa mortis por uma calamidade na história brasileira. A gripe espanhola, de 1918 matou no Brasil uma média de 970 pessoas por mês (em comparação às atuais 5.000), ceifando um total de 35.000 vidas no início do século XX. Nesse ritmo, o coronavírus vai se tornar uma tragédia que será lembrada daqui a várias gerações. Evidentemente, o problema atinge todos os países do mundo, mas aqui o descaso de pessoas e autoridades tem contribuído para aumentar o desastre. A elevada letalidade local do Sars-CoV-2 – em Manaus e no Rio, em torno de 9%, e no país, 7% – tem relação com dois fatores essenciais: a claudicante adesão ao isolamento social – ruas cheias em pleno lockdown de São Luís e Belém são uma mostra disso – e o gargalo do sistema público hospitalar.

Inspirado no modelo britânico e conquista inequívoca da Constituição de 1988, que conferiu ao Estado o dever de garantir a saúde da população, o SUS vem sendo sistematicamente desmantelado por um misto de inépcia na gestão, falta de investimento, burocracia em altas doses e farra de desvios. Inclusive agora: nem a escalada no número de mortos freou a roubalheira de autoridades da saúde no Rio e em Santa Catarina, sob suspeita de fraudar contratos de compra de máscaras e respiradores. Ao desmandar o máximo do sistema, do qual depende um de cada quatro brasileiros, o novo coronavírus expõe suas mazelas – falta médicos, falta máscara, falta luz e falta leito de UTI. Um levantamento feito na quinta­ feira 14 mostrava que pessoas estão amargando espera na fila das unidades de terapia intensiva em sete estados: além de Rio e Amazonas, Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pará e São Paulo. Para existir vaga, alguém precisa se curar ou morrer.

Na mesma quinta-feira, havia 758 pessoas aguardando internação no Rio de Janeiro, 320 delas em estado grave. Trazida para a vida real, a estatística ganha contornos trágicos. A aposentada Ana dos Santos, 79 anos, fazia visível esforço para respirar no instante em que ouviu a negativa do hospital. “Disseram que não havia leito, que era para ela voltar para casa”, desesperava-se a neta Raiane Barcelos, 27 anos, que ajudava a levar a avó ao carro. Em outro ponto da cidade, a caixa de supermercado Adriana Santana, 25 anos, aguardava por atendimento havia quase duas horas quando, ofegante, desmaiou. Só assim foi vista por um médico, que receitou antibióticos e lhe deu alta. “Somos reféns da sorte. No caso dela, graças a Deus, a doença não se agravou”, contou a sogra, uma semana depois. “O que vemos hoje são muitas vidas perdidas não pela gravidade da doença, mas por falta de socorros médicos”, alerta a pesquisadora Margareth Portela, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.

No SUS, atender a multidões de agora é um desafio colossal. Apena 10% das cidades brasileiras têm a quantidade mínima de UTIs recomendada pela Organização Mundial da Saúde – de um a três leitos para cada 10.000 habitantes. Na região metropolitana do Rio, de acordo com a plataforma Bright Cities, a proporção patina em 0,77. Em Manaus, o índice fica em 2.2 leitos, mas o município atende à demanda de todo o estado, por ser o único que tem UTIs. Pacientes ouvidos contam que despencaram da fronteira atrás de socorro na capital. Com a explosão da procura, as salas de espera dos hospitais ficam abarrotadas – e muita gente se contamina ali mesmo. “Virou cena de horror: em espaço, paciente com e sem sintomas de contágio acabam misturados”, relata Ana Batista, 41 anos, que buscou socorro para o pai, o aposentado Francisco de Paiva, 81 anos, no Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio. Cansado e sem conseguir se alimentar, ele passou sete horas instalado em uma cadeira, recebendo soro, cercado de outros doentes. Mandado para casa, retornaria em três dias com os pulmões tomados. Morreu com suspeita de Covid-19.

Com deficiências acumuladas há décadas, evidentemente não é possível agora desatar os apertados nós do SUS de uma tacada. Mas há caminhos de curto prazo que podem contribuir para amenizar o baque da pandemia sobre a população. Um deles é acelerar a entrega dos hospitais de campanha, em boa parte atrasados. Dos dez prometidos no Rio, apenas quatro foram inaugurados com um quinto dos leitos previstos – e só com isso a taxa de ocupação dos leitos de UTI no estado baixou de 97% para 92%. Um outro caminho é reativar leitos que, acreditem, estão ociosos há anos, por falta de material, de médicos e de iniciativa. O caso mais extremo é o do Rio, uma vez que concentra hospitais federais: 2.000 leitos sem uso. O Ministério Público e a Defensoria Pública recorreram à Justiça para tentar resolver e imbróglio surrealista.

Uma providência levantada com frequência é a de acionar vagas da rede privada para abrigar quem está na fila do SUS. O presidente da Confederação Nacional de Saúde, Breno Monteiro, relatou conversas nesse sentido em São Paulo, onde a prefeitura já reservou 800 leitos, no Maranhão e no Rio de Janeiro. “Estamos em fase de negociar valores”, adianta Breno, que representa as instituições particulares de saúde. Em paralelo, tramitam no Congresso projetos de lei que fariam valer uma “fila única” – o paciente seria conduzido ao primeiro leito livre, seja ele público ou privado, gratuitamente. “É inadmissível que pessoas morram, enquanto vemos hospitais particulares com UTIs desocupadas”, diz Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Saúde.

A multiplicação de casos confirmados do novo coronavírus exige rapidez de ação. Só em Manaus, onde uma ronda pelos hospitais abarrotados e carentes de itens básicos esclarece por que tantos sucumbem, os sepultamentos subiram 179% em comparação ao ano passado. Com medo de ser internada e piorar, muita gente fica em casa mesmo, onde uma parcela vem a morrer desatendida. Aos 57 anos, Edilson Rodrigues sentiu dores no peito e falta de ar, mas resistiu a procurar um médico porque temia se contaminar no ambiente hospitalar. Ele faleceu dormindo”, conta a sobrinha Kamila Souza.

Como essas histórias se repetem a cada dia, a prefeitura reforçou o serviço SOS Funeral, que recolhe os mortos em seu domicílio e o leva para os cemitérios, onde o rito do enterro lembra uma linha de montagem. No Cemitério Parque Tarumã, um dos maiores da cidade, eles se dão de cinco em cinco.

O déficit de testes acaba deixando muitas pessoas que apresentam sintomas típicos de Covid-19 em diagnóstico. Até o fechamento desta edição, o contaminados no Brasil beiravam 190.000, mas projeções de pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto apontam que o número real possa ser quinze vezes maior. Pelo conjunto de incômodos que sentiu, tudo indica que a comerciante Rosilda Jerônimo, 60 anos, de Manaus, engrossa o grupo dos não diagnosticados. Sua via ­ crúcis pelo sistema público se assemelha à de outros brasileiros. Ela foi levada pelo marido, Francisco de Oliveira, 55 anos, ao pronto-socorro do Hospital Platão Araújo (o mesmo que tinha doentes e um morto no mesmo espaço). Fez exame de sangue, mediram a pressão dela, mas não foi submetida ao teste para Covid-19. “Mandaram minha mulher para casa, para não se contaminar”, narra Francisco, que também teve sintomas da doença. Horas mais tarde, Rosilda morreria em casa, sem entrar na contagem oficial. A certidão de óbito diz: vítima de derrame.

Relato de médicos e enfermeiros expõem lacunas muito básicas do sistema público de saúde brasileiro. Alguns contam que tiraram dinheiro do próprio bolso para comprar equipamentos de proteção. No hospital Ronaldo Gazolla, referência na capital fluminense para o socorro a pacientes com Covid-19, as condições são sofríveis para quem não para nem um minuto, tamanho é o fluxo diário de contaminados. A mãe de Patrícia Viana, 43 anos, era enfermeira de lá e morreu de Covid-19. “Deram uma única máscara para ela trabalhar o mês inteiro”, denuncia a filha. Anita Vianna se foi aos 62 anos e compõe outro infeliz recorde nacional: em nenhum lugar do planeta tantos profissionais de enfermagem perderam a vida – 108 até agora, mais do que o número de Itália e Espanha somados.

O aperto financeiro tem como efeito colateral uma situação absurda dentro dos hospitais. “Já flagramos enfermeiros que, por uma questão de dinheiro, continuam trabalhando mesmo infectados. Se entram em licença, perdem o adicional no salário, vital para compor a renda”, revela um chefe de equipe de um hospital estadual do Rio, que pediu anonimato. Há outros riscos cotidianos, mas pouco visíveis. Na região metropolitana de Manaus, testemunhamos a cena de funcionários paramentados com capotes e luvas descartáveis, recém- usados no atendimento aos pacientes, circulando por ruas e lojas como se aquilo não representasse alto risco de contaminação. Um deles atravessou a rua carregando um saco onde se lia: “material infectante”. Nesse sistema cheio de falhas, apesar de sua reputada capilaridade, à medida que as UTIs lotam, os médicos são obrigados a tomar a mais dolorosa das decisões: ceder leitos vagos aos pacientes com maior chance de sobreviver. Rio de Janeiro e Pernambuco já elaboraram até protocolos baseados em critérios técnicos e uma pontuação especial, para orientar a seleção. Esse quadro pode mudar, mas só um esforço concentrado e urgente fará com que, em vez da terrível decisão sobre quem vive e quem morre, a escolha seja sempre pela vida. Se puder, contribua para que a situação não piore ainda mais. Fique em casa.

LOTAÇÃO

A taxa de ocupação dos leitos de UTI em hospitais públicos está próximo da capacidade máxima em várias capitais do país*.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE MAIO

VITÓRIA SOBRE A MORTE

… Tragada foi a morte pela vitória (1Coríntios 15.54c).

A morte entrou no mundo por causa do pecado e colocará suas mãos gélidas sobre todos: reis e vassalos, servos e chefes, doutores e analfabetos, religiosos e agnósticos, velhos e crianças. A morte é o rei dos terrores. Entra nos palácios e choupanas, nos templos religiosos e nos redutos mais escuros da iniquidade, nos hospitais mais sofisticados e nas praças mais movimentadas. Nascemos com o vírus da morte e caminhamos em direção a ela, inevitavelmente. Até que Jesus volte, a morte continuará a agir implacável. Mas a morte foi vencida. Jesus quebrou a espinha dorsal da morte e arrancou seu aguilhão. Jesus matou a morte ao ressurgir dentre os mortos. Agora, a morte não tem mais a última palavra. Não precisamos mais temê-la. Seu poder foi destruído. Jesus se apresenta como a ressurreição e a vida. Quem nele crê nunca morrerá eternamente, mas passou da morte para a vida. No glorioso dia do retorno triunfante de nosso bendito Deus e Salvador, os que estiverem mortos ressuscitarão com um corpo imortal, incorruptível, poderoso, glorioso e celestial, semelhante ao corpo da glória de Cristo; e os que estiverem vivos serão transformados e arrebatados para estarem com Cristo para sempre. A própria morte, que espalhou tanto terror e provocou tantas lágrimas, será lançada no lago de fogo, e nós habitaremos os novos céus e a nova terra, onde Deus enxugará dos nossos olhos toda lágrima.

GESTÃO E CARREIRA

CAÇADOR DE SOLUÇÕES

O setor de facilities deve movimentar 110 bilhões de reais nos próximos cinco anos e precisa de profissionais que pensem estrategicamente

A internet das coisas (IoT) e a Indústria 4.0 permitiram o progresso de muitas profissões, como a de Gestor de Facilities. Conhecido por cuidar da manutenção de estabelecimentos, hoje esse profissional também é responsável por criar experiências. Pensar de forma estratégica sobre como os espaços refletem a cultura das organizações e sobre o que pode ser feito para que os funcionários se sintam confortáveis e produtivos são exemplos dos novos desafios.

Segundo o relatório de 2018 da Global FM Market, a taxa de crescimento do setor de facilities no Brasil está em 9,7% ao ano – acima do índice global, de 7,4%. Só em 2018, essa atividade mobilizou 71,6 bilhões de reais na economia. A expectativa é que, em cinco anos, a área movimente 110 bilhões de reais. “As grandes empresas sempre contrataram, o que acontece é que agora pequenas e médias também estão admitindo esses profissionais”, diz Ricardo Crepaldi, diretor da Associação Brasileira de Facilities (Abrafac). A carreira de Peter Kawamura, de 41 anos, é um exemplo. Graduado em arquitetura e urbanismo, seu primeiro contato com a área de facilities foi na Johnson & Johnson, fabricante de produtos de higiene e beleza. Enquanto trabalhava num escritório que executava uma reforma para a multinacional, Peter foi convidado a entrar para a corporação como gerente na área de facilities. “Por um ano desenvolvi as plantas e conheci o prédio na função de arquiteto. Quando recebi a oferta, aceitei de prontidão”, diz Peter. Nesse posto, ele cuidava de manutenções, frotas, recebimento de materiais, notas fiscais, segurança do trabalho e insumos de infraestrutura. Em 2015, Peter teve outra guinada na carreira: foi contratado pela Movile como head de facilities. Ali, começou a ter uma atuação mais estratégica: “Não deixo de trabalhar no operacional, mas hoje estou. mais centrado na experiência dos funcionários”, afirma. É sua função fazer com que o ambiente reflita a cultura corporativa. “Existe uma coisa muito bacana nessa profissão que é a adaptação às mudanças. O futuro é tecnologia e, nessa área, isso só tem a contribuir”, afirma Peter.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

Horas trabalhadas: 8 horas por dia (em média)

DIVISÃO DO TEMPO

50% – ESTRATÉGICO (Pensar sobre projetos de melhorias e prestar consultorias internas em questões voltadas para o ambiente e para a qualidade de vida)

30% – GESTÃO DE PESSOAS

20% – OPERACIONAL (checar a infraestrutura da empresa e travar contato com os fornecedores)

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Empatia para entender as necessidades dos outros é importante. Além disso, é preciso ter pensamento estratégico e senso de liderança. Entre as habilidades técnicas destaca-se quem sabe lidar com números, programação e engenharia.

ATIVIDADES – CHAVE

*** Checar contratos de abastecimento, manutenção e suporte de infraestrutura

*** Manter contato com os fornecedores

*** Participar de reuniões de alinhamento e feedbacks

*** Manter contato com o Diretor Financeiro para atualizar e implantar novos programas para os funcionários

PONTOS POSITIVOS

É uma área multidisciplinar. A rotina é dinâmica e permite o compartilhamento de conhecimento com todos os setores da empresa, com a possibilidade de transição entre as atividades. Sustentabilidade, Workplace, Infraestrutura e TI são áreas em que o Gestor de Facilities pode atuar.

PONTOS NEGATIVOS

Por estar em contato com muitas áreas da empresa, o profissional pode ficar sobrecarregado se não souber impor limites.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Qualquer graduação permite o ingresso na área, porém a especialização pode ser feita por meio de cursos com média de 60 horas de duração. Também existem MBA, mestrados e doutorados específicos para esse ramo.

QUEM CONTRATA

Grandes, médias e pequenas empresas. Startups, varejistas e franquias estão movimentando o mercado.

SALÁRIO***

DE 6.800 a 13.000 reais. A média salarial no Brasil é de 9.500 reais, segundo a plataforma VAGAS.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS DUAS FACES DA ANSIEDADE

Como separar o lado ruim e o lado bom desse mal que afeta cerca de trezentos milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, são quase dezenove milhões de ansiosos graves

Vêm de dois poetas duas das mais amplas e contundentes definições de ansiedade, enfermidade psíquica e emocional que afeta atualmente cerca de trezentos milhões de pessoas em todo o planeta. O francês Charles Baudelaire, no século XIX, escreveu: “parece-me que eu sempre estaria bem, lá aonde não estou”. Cerca de cem anos depois, o italiano Giorgio Caproni foi definitivo: “sossega, aonde você vai? Um fato está dado: você jamais chegará aonde já está”. Como Baudelaire e Caproni, estima-se que, no Brasil, pelo menos dezenove milhões de seus habitantes sintam, deitados no sofá de suas casas num pleno domingão ou em meio a agitação da rua, de uma hora para outra e como vindo do nada, excessiva sudorese nas mãos, taquicardia, falta de ar, medo de não conseguir executar determinada tarefa e, muito mais angustiante, a enlouquecedora sensação de morte. Sintam o desassossego de não se sentirem bem em nenhum local, supondo em vão que estariam bem em outro lugar. Isso é ansiedade.

Há, no entanto, uma boa notícia para os portadores dessa psicopatologia, causada pelo inadequado funcionamento da rede de neurotransmissores que compõem o cérebro (sobretudo o ácido gama aminobutírico) ou por fatores externos. Claro que a morte de um parente, o desemprego ou uma separação conjugal podem desencadear ansiedade. Mas também ela se modernizou: o uso excessivo de redes sociais, internet e celulares são dedos exteriores a apertar os gatilhos endógenos. Diante do alarme dado pela venda anual de um milhão de doses de ansiolíticos em todo o País, médicos, cientistas, universidades e instituições, seguindo o ritmo de pesquisas de países desenvolvidos, passaram a estudar cada vez mais a doença. E, agora, já se sabe que, da mesma forma que existe o bom e o ruim colesterol em nosso organismo, há igualmente uma parte da ansiedade que é saudável. Ou seja: a ansiedade tem, sim, duas faces. O vital para quem dela padece é saber jogar fora a porção negativa e ficar somente com a boa.

EFEITO PARALISANTE

Antes de se entrar na questão de como se faz essa difícil separação, convém explicar que a ansiedade, até um limite, é totalmente necessária para qualquer pessoa se mover, fazer coisas, crescer profissionalmente, namorar, casar, ter filhos e tudo o mais que possa almejar na vida. Tem-se, então, que ansiedade zero não existe, é a própria morte. Ultrapassada, porém, essa fronteira, ela nos paralisa. É como se déssemos a velocidade de duzentos quilômetros por hora a um carro que só aguenta setenta. “A ansiedade nos prepara para enfrentarmos situações como, por exemplo, uma entrevista de emprego”, diz a neurologista Francine Mendonça. “Sentir ansiedade, em princípio, é uma reação fisiológica normal. Mas se torna enfermidade quando é desproporcional ao estímulo”. O especialista Marcio Bernik, coordenador do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, alerta: “A ansiedade além do limite pode levar a demais transtornos como pânico, fobias e depressão”.

Como é possível a pessoa ansiosa valer-se do lado bom da ansiedade, aproveitar-se dele, enquanto ao mesmo tempo despreza o lado que é psicopatológico? É claro que não adianta, absolutamente nada, ficar brigando consigo mesmo e dando ordens para se acalmar. Isso é pior, até porque, como já se disse, é uma questão neural e de todo o metabolismo, não depende de força de vontade do indivíduo nem de ele saber ou não se controlar. “Ter bom conhecimento de si e do que desencadeia a ansiedade é extremamente importante, porque os problemas vão continuar existindo e é preciso reconhecê-los e trabalhar isso em psicoterapia”, diz a neurologista Francine. No campo psicoterápico, uma das ferramentas que vem trazendo bons resultados, tanto no Brasil como nos EUA e Inglaterra, é a chamada terapia cognitiva. A psicanálise lacaniana funciona e muito bem. Outros recursos dos quais se pode lançar mão são as técnicas de relaxamento, sessões de acupuntura, atividades físicas orientadas por médicos e, imprescindível, saber rir de si próprio. Sim, as pessoas bem humoradas são menos vulneráveis à ansiedade.

Ainda na trilha das dicas para deixar no lixo a parte ruim da ansiedade, vale frisar a importância de nos libertarmos de estímulos estressantes, nos campos visual e psicológico, como o uso compulsivo e abusivo de games, internet, redes sociais e celulares. Eis aí três instrumentos vitais para a moderna civilização, mas que precisam ser dominados pelos usuários – o que se vê amiúde é justamente o contrário, ou seja, é a tecnologia dominando o homem. Tanto é assim que a “Classificação Internacional das Doenças” (CID 11) e o “Diagnostic and statistical manual for mental disorders”, duas bíblias da psiquiatria mundial, já incluíram tal mania no rol das enfermidades mentais. Quando tais fatores exógenos causam a ansiedade, muitas vezes combinados com elementos constitucionais endógenos e orgânicos, trata-se do chamado prazer negativo. Como ilustração citemos o fumante ou o alcoolista: ficam ansiosos para fumar o próximo cigarro ou beber o próximo copo, embora saibam que isso não mais lhes dará prazer — simplesmente lhes aliviará a dor psíquica de ter a nicotina ou o álcool circulando no organismo.

Finalmente, outra razão para que os portadores de temperamento ansioso procurem separar as duas faces desse funcionamento emocional é para evitar cair em depressão. Ansiedade e depressão caminham de mãos dadas, basta a primeira cochilar para a segunda atacar. É o que ocorreu com a atriz paranaense Franciely Freduzeski. Há cinco anos, ela começou a apresentar insônia, perda de cabelos e apetite, problemas dermatológicos e demais sintomas de que sua saúde não ia bem. Mas não associou esses eventos à questão da ansiedade. Ela tinha viajado aos Estados Unidos para estudar e morava com o filho. De repente, começou a sentir uma “sensação ruim, estava em país estranho, sozinha e com uma criança. A responsabilidade crescia, piorei na ansiedade e veio a depressão”. Franciely retornou ao Brasil, hoje se trata com psicoterapia combinada com medicação ansiolítica e exercícios físicos. Junta a isso a prática de mindfullness. “A pessoa deprime até porque somatiza.

Transfere para o corpo aquilo que não consegue resolver”, diz o psiquiatra Wimer Bottura Jr., presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. “Atualmente as possibilidades de escolha na vida são tantas que se tornam uma fonte inesgotável de ansiedade”. Na verdade, desde que o mundo é mundo cada época teve o seu mal característico, e, a rigor, a ansiedade acompanha o homem desde os tempos em que ele precisava caçar para se alimentar. Talvez tenhamos herdado essa ansiedade de nossos ancestrais e ela seja o medo da morte em nosso inconsciente. Mas, uma coisa é fato: existe uma ansiedade moderna, com suas vantagens e desvantagens, um lado bom e um lado ruim. Não resta dúvida, portanto, que, nos valendo dos diversos métodos que podem atenuá-la, é importante coloca-la a nosso serviço. E jamais ficarmos a sua mercê.

EU ACHO …

COMO A GUERRA CONTRA AS DROGAS MATA AS CRIANÇAS

A proibição causa mais mortes do que qualquer substância ilícita; impedir o funcionamento deste mercado não é difícil: é absolutamente impossível

E a bala furou a carroceria da Kombi, passou pelo banco traseiro e entrou pelas costas da menina, parando seu coração, encerrando sua vida, aos 8 anos de idade. Uma tragédia. Uma fatalidade. O fim do mundo. E o desespero dos pais e do avô, que estava ao lado da criança dentro da kombi, são quase insuportáveis, quase impossíveis de conceber. Mas, ao mesmo tempo, o que aconteceu com Agatha é rotina, e nada indica que vá deixar de ser. No Brasil, matamos crianças.

Só no Rio de Janeiro, só este ano, outras 15 crianças foram baleados pela polícia, antes de Ágatha. Um menino de 11 anos foi abatido enquanto passeava de bicicleta, uma menina de 6 foi atingida quando dançava no quintal de casa, um bebê de menos de 2 perdeu a vida no colo da mãe. Um feto morreu baleado em abril, dentro da barriga da mãe, aos oito meses de gravidez. Rotina.

É óbvio que temos essa rotina porque temos péssimos políticos, que gostam de incitar a sede de sangue da população, surfando no medo que domina este país violento. Mês passado, o governador do Rio torrou dinheiro público com um voo de helicóptero só para ir comemorar a morte de uma pessoa pela polícia. Mas ele é incapaz de fazer uma só crítica às operações que matam crianças. Passa à polícia o recado implícito de que, havendo dúvida, é mais garantido atirar.

Mas Witzel só pode fazer isso porque o Brasil está se tornando um dos últimos países do mundo a adotar a estratégia da guerra às drogas, que é a tentativa de impedir a circulação de drogas com metralhadoras. Nenhum outro país da América Latina – e quase nenhum do mundo desenvolvido — insiste ainda na violenta e ineficaz criminalização dos usuários de drogas.

Não se trata de defender as drogas. Drogas são perigosas sim, ainda mais quando não têm nenhuma regulação, nenhum esforço de redução de danos por parte do Estado. É importante ter políticas públicas que busquem diminuir o consumo problemático de drogas. E é compreensível a ideia de reprimir esse mercado. Afinal, ninguém quer que drogas causem danos às pessoas – principalmente às crianças. Foi para proteger as crianças que proibimos as drogas.

Mas, na prática, não tem funcionado assim. A proibição mata muito mais crianças do que qualquer droga. Mata porque impedir o funcionamento do mercado de drogas não é difícil: é absolutamente impossível. Nunca nenhum país do mundo conseguiu. Há um mercado bilionário que a droga movimenta, e não importa quantas pessoas vão ser presas e mortas, sempre haverá alguém disposto a correr o risco de ocupar seu lugar.

O mercado ilegal de drogas cria inevitavelmente um incentivo para uma disputa do território. Vender drogas dá tanto lucro que vale a pena ir para a guerra para assumir o controle de uma boca. Essa disputa mata muita gente, o tempo todo — crianças inclusive. E não é só que mata: ela inferniza quem está vivo. Nesse ambiente, crianças têm dificuldade para ir à escola, para brincar, crescem oprimidas e traumatizadas com a violência.

Claro que não é em todo bairro que isso acontece, embora seja sim em todos os bairros (sem exceção) que há gente vendendo e usando drogas. Nas regiões ricas, nada disso tem consequências mais sérias. Mas, nas periferias, não bastasse a falta de serviços públicos de qualidade, há sempre balas voando.

Esse apartheid regional é consequência direta da guerra às drogas. No Brasil, a coisa é mais explícita ainda. Aqui, a polícia usa como critério para diferenciar usuário de traficante o bairro onde ele foi preso. Se for nos bairros centrais, mais ricos, é usuário. Se for na favela é traficante. Isso porque, na falta de critérios objetivos para distinguir uma coisa da outra, a Justiça aceita a argumentação de que traficante é quem é pego com droga numa região “dominada pelo tráfico”. E “região dominada pelo tráfico” é sinônimo de bairro pobre, sem serviços públicos.

A não ser que seja um lugar dominado pela milícia – principalmente no Rio de Janeiro, mas cada vez mais no Brasil todo. Milícias são máfias infiltradas no Estado, que entram na disputa por territórios contra os traficantes, para lucrar vendendo serviços de proteção e controlando o mercado negro da região. Um a mais em guerra para dominar territórios, fazendo voar balas para todo lado – e matando crianças.

As crianças que morrem assassinadas rotineiramente no Brasil são só a ponta extrema de um imenso iceberg. Se crianças morrem todo mês, adolescentes e jovens morrem aos montes todos os dias. Para cada 100 mil jovens brasileiros, 70 morrem assassinados, um índice holocáustico, entre os piores do mundo, semelhante ao do Haiti, país desestruturado e assolado por guerras civis.

A guerra contra as drogas é uma política extrema, que foi justificada pela necessidade de proteger os jovens das drogas. Mas ela não está fazendo isso, ao contrário – ela está matando-os. Enquanto isso, o mundo todo se move na direção de descriminalizar as drogas ou até legalizar algumas delas. O resultado que se vê dessas políticas mais racionais é bem claro: num ambiente bem regulado, menos jovens usam drogas, porque comerciantes pedem RG, traficantes não.

Mas, para além disso: países que tenham com políticas de drogas racionais não ficam matando crianças. Você não preferia viver num país onde matar crianças não é rotina?

* DENIS RUSSO BURGIERMAN

OUTROS OLHARES

DE ONDE VÊM AS OUTRAS MORTES?

O número de óbitos por razões naturais dispara em março e abril e aumentam as suspeitas de que a falta de testes esteja levando vítimas a terem a causa do falecimento erroneamente desvinculada da Covid-19.

Origem dos primeiros casos do novo coronavírus no mundo, a China foi amplamente criticada por subnotificar suas mortes e não dar a real dimensão da pandemia para que os outros países pudessem tomar providências adequadas antecipadamente. Já o Brasil não pode reclamar de ter sido pego de surpresa. Quando o vírus começou a se espalhar pelo país, já se conhecia seu potencial de disseminação e mortalidade, observado na Europa. Essa vantagem deu tempo para que governadores implementassem antecipadamente políticas de isolamento social, mas não foi suficiente para que se colocasse em marcha um programa mínimo de testagem. Sem testes, o governo não tem um retrato fiel do problema e pesquisadores são obrigados a buscar outras formas de calcular o impacto.

Um levantamento feito com base em registros de óbitos de cartórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Recife, capitais com o maior número de casos no país, mostra uma subida acelerada e atípica no número de mortes naturais – ou seja, mortes não resultantes de violência. Nesses locais, os cartórios registram 3.392 óbitos a mais, entre março e o início de abril, do que em 2019. Desse incremento, 1.618 são casos suspeitos ou confirmados de Covid-19. O restante, são doenças diversas. Ocorre que, ao se comparar fevereiro de 2020 com o mesmo mês do ano anterior, a oscilação é zero. Ou seja, a disparada nas mortes naturais (com ou sem Covid-19) ocorreu justamente nos meses de expansão da pandemia. Quem fornece esse diagnóstico não são as secretarias nem o Ministério da Saúde, e sim a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), que contabiliza os dados dos milhares de cartórios espalhados pelo país.

A maior disparidade de mortes em relação a 2019 ocorre em Manaus, onde houve 730 mortos a mais entre março e abril, em relação ao mesmo período de 2019, e apenas 82 casos positivos para Covid-19. No Rio de Janeiro, foram 639 mortes naturais a mais que em 2019, sendo 437 suspeitas ou confirmadas pelo novo coronavírus.

Naturalmente, nem todos os óbitos têm relação com a pandemia, mas o dado pode dar pistas sobre o tamanho da subnotificação. Além disso, o total de mortos pode ser ainda maior que o informado pelos cartórios. Isso porque o prazo legal para que uma pessoa que perdeu um ente querido faça o registro, e ele seja processado, é de até 15 dias em alguns casos.

A subida dos números de mortalidade para além do novo coronavírus tem sido observada em países e cidades que estão no epicentro da pandemia. Em Nova York, foram 4.200 mortes a mais em março, em relação à média dos últimos anos, além das registradas por Covid-19, de acordo com reportagem do New York Times. Na Espanha, foram 9.100 mortos a mais, sem contar as vítimas da pandemia. Na França e no Equador, ultrapassou 7 mil.

A alta de mortes naturais nas quatro capitais citadas no levantamento também ocorre em um período de crescimento de óbitos por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), ainda de acordo com dados divulgados pelos cartórios. As notificações passaram de 21, entre março e 15 de abril de 2019, para 353 neste ano nas quatro cidades. O diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) do Distrito Federal (DF), José David Urbaéz defendeu que as notificações de SRAG são um importante indicador para dimensionar o descompasso entre as confirmações da Covid-19 e o cenário real de casos, inclusive para os óbitos. “O vírus vai sempre caminhar mais rápido do que a capacidade de diagnóstico, mesmo nos melhores cenários. Talvez o melhor exemplo seja o da Bélgica, que passou a notificar como Covid-19 os casos de SRAG. Assim você tem uma ideia mais próxima do que está acontecendo. É um problema continuar o que estamos fazendo agora, notificar como caso real apenas os testados, os que estão internados nos hospitais. Não se notifica paciente que tem quadro leve. Isso vale também para os óbitos.”

A Covid-19, causada pelo sars-CoV-2, é caracterizada, na maioria das vezes, por doença respiratória grave, embora a literatura já comece a registrar casos, por exemplo, de mortes por acidente vascular cerebral e síndrome de Guillain-Barré. “Você vai aprendendo e desvendando a epidemia enquanto ela ocorre. Foi assim com o HIV. É sempre difícil fazer a leitura de dados epidemiológicos”, concluiu Urbaéz.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que a subnotificação de casos é esperada “pelas características da doença e pela falta mundial de disponibilidade de testes”. O ministério disse ainda que não é esperada a subnotificação dos pacientes internados por SRAG, embora os boletins públicos da pasta contabilizem apenas casos de mortes por Covid-19 confirmados por testes. O grupo “Covid-19 Brasil”, que reúne especialistas de várias universidades brasileiras, apontava no último dia 28 que as infecções pelo vírus já superavam a marca de 1,2 milhão, enquanto os dados oficiais apontavam 73.500 casos. Tal projeção é feita justamente a partir dos óbitos divulgados pelas secretarias de saúde. “Isso significa que estamos fazendo uma projeção de um cenário mais leve, a partir dos casos confirmados no boletim oficial. Se estamos prevendo que há 1,2 milhão de casos de Covid-19 a partir desses óbitos oficiais, significa que temos muito mais casos? Significa que ultrapassamos os Estados Unidos? Para que epidemia estamos olhando? Uma epidemia atrasada em média de uma ou duas semanas?”, questionou Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), e membro do grupo.

Não ter uma noção real dos mortos preocupa porque a informação é fundamental para que governos atuem para conter a crise, explicou João Abreu, cofundador da Impulso, que, junto com o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e o Instituto Arapyaú, criou a plataforma Coronacidades, que dá apoio técnico para estados e municípios no combate à pandemia a partir de simulações da demanda por leitos e do diagnóstico do nível de preparo local. “A gente tem recursos limitados. Muitas cidades não sabem como fazer para testar, não há protocolos. A gente deveria usar esse tipo de informação, por exemplo, para direcionar a aplicação de testes, que são limitados. Se você tem uma equipe de saúde, você deveria mandar para regiões com mais casos. Essa distribuição pode estar indo para o lugar errado, enfatizou o economista.

Para Abreu, o número de casos de infecção por Covid-19 fornecido pelas secretarias é “inútil” diante da falta de testes. Um estudo feito pelo Coronacidades apontou que, nos municípios brasileiros com mortes registradas até esta semana, 14 têm uma taxa de mortalidade abaixo da média mundial, o que pode indicar que o cenário real de óbitos não está sendo contabilizado. Entre essas cidades estão capitais como Belo Horizonte, Florianópolis e Cuiabá. “Está todo mundo falando que está fazendo gestão da epidemia, mas ninguém está fazendo. Os dados não são adequados para fazer gestão. Como a gente está explicando isso para as famílias das vítimas? O ‘e daí?’ do presidente é generalizado. Ninguém está gerindo a epidemia efetivamente. As pessoas estão enxugando gelo”, avaliou Domingos Alves, da USP.

Outro efeito pernicioso da subnotificação é transmitir a falsa sensação de que a epidemia está se dissipando. “Passa para a população uma ideia de que o problema é menor do que é, e isso tem uma péssima consequência, que é a diminuição progressiva das taxas de isolamento”, concluiu o infectologista Urbaéz, da SBI do DF. Foi o que aconteceu no Brasil nas últimas semanas, com o recuo progressivo do confinamento. Não à toa, e nem por falta de alerta de especialistas, mais de 400 pessoas estão morrendo por dia no país em decorrência da doença. E esse número, já assustador, é aquele oficial, ou seja, o subnotificado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE MAIO

O DRAMA DA PAIXÃO

Angustiou-se Amnom por Tamar, sua irmã, a ponto de adoecer… (2 Samuel 13.2a).

A paixão é um sentimento avassalador. Crepita como o fogo, alastra-se como uma chama e devasta como um incêndio. A paixão não é amor; é egoísmo patológico. O amor busca a felicidade contínua do outro; a paixão busca a satisfação imediata de si mesmo. Todos os dias os jornais estampam manchetes de crimes passionais. Pessoas que matam em nome do amor. Matam porque foram traídas. Matam porque foram violentadas. Matam por ciúme doentio. A família de Davi também enfrentou esse drama. Amnom, filho mais velho de Davi, apaixonou-se perdidamente por sua irmã Tamar, a ponto de descair-lhe o semblante. Davi, como pai, nada percebeu, mas Jonadabe, primo de Amnom, sendo mui sagaz, não apenas arrancou de Amnom o segredo, mas lhe deu conselhos insensatos que o empurraram para a morte. Amnom acabou violentando a própria irmã para sentir náuseas por ela imediatamente. Isso levou Absalão, irmão de Tamar, a arquitetar e executar a morte de Amnom, dois anos depois. Muitas pessoas ainda perecem por causa da paixão doentia. Muitos jovens tiram a própria vida por esse sentimento avassalador. Paixão não é amor. Este é benigno e não arde em ciúmes, mas aquela é um vulcão que cospe lavas de fogo e produz tormento e morte. É uma avalanche que arrasta a vida para o abismo da perdição.

GESTÃO E CARREIRA

NO MODO AVIÃO

Cinco razões pelas quais você precisa tirar férias – todas comprovadas pela ciência

As folhas do calendário deram a volta completa em sua mesa de trabalho e a lembrança mais recente que você tem das férias é aquela semana na qual esteve fora do escritório, mas não conseguiu se desligar. Essa é a realidade de muitos profissionais. Segundo pesquisa encomendada pela companhia de viagens Expedia à Northstar, empresa internacional de pesquisa e consultoria, 30% dos brasileiros checam o e-mail durante a folga e 61% já cancelaram parte das férias por causa do trabalho. Isso sugere que parcela significativa da população mantém uma rotina profissional ininterrupta ao longo do ano, o que compromete a saúde e o rendimento.

Josh Davis, autor de Two Awesome Hours (“As duas horas incríveis”, na tradução livre), compara o esforço mental que fazemos no trabalho com os exercícios físicos. Segundo ele, que é diretor do Neuro Leadership Institute, nos Estados Unidos, o cérebro assemelha-se ao músculo, ou seja, se houver sobrecarga de atividades, ele “trava”. Por isso é tão importante descansar de fato no recesso, desconectando-se de qualquer problema da empresa.

“Tirar férias é como dar um restart na máquina”, resume a neuropsicóloga Beatriz Sant’ Anna. Mas, para que a mente volte com toda a potência após o repouso, é essencial curtir o ócio de modo estimulante. Ou seja, não adianta ficar jogado no sofá assistindo a séries da Netflix. É preciso despertar o intelecto com atividades diferentes. ”As pessoas confundem estresse emocional com cansaço físico. Para curar a fadiga mental, o melhor remédio é ter momentos divertidos e que deem prazer”, diz a especialista.

Para que você desfrute o merecido descanso, sem interferências nem preocupações com o trabalho, selecionamos cinco benefícios das férias cientificamente comprovados.

1. EVITA QUE VOCÊ ADOEÇA

O nervosismo ocasionado pelo excesso de trabalho está relacionado a uma série de problemas, como enfermidades do coração, obesidade e transtornos mentais, entre eles depressão e síndrome do pânico. Quando tiramos um período de férias, uma série de eventos biológicos melhoram esse cenário. De um Lado, há o aumento dos hormônios associados à felicidade e ao bem-estar, como a endorfina, a dopamina, a ocitocina e a serotonina; do outro, a redução dos hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina, e o equilíbrio da grelina e da Leptina, substâncias responsáveis pela saciedade e pela fome. Um estudo realizado pelo National Heart, Lung and Blood lnstitute (Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue) e pela Universidade de Boston, ambos nos Estados Unidos, descobriu que homens e mulheres que ficam um período sem tirar férias têm 30% e 50%, respectivamente, mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco do que quem usufrui do descanso anual. Os testes também mostraram que os que tiram férias demonstram melhora no humor e na disposição, além de uma redução nos níveis de glicose no sangue, correndo menos risco de diabetes e sobrepeso.

2. INTERROMPE O CICLO DO ESTRESSE

Longas horas no trabalho, pressão por resultado, mudanças constantes na chefia e competição acirrada são alguns dos gatilhos que desencadeiam transtornos mentais, como depressão, síndrome do pânico e burnout. De acordo com pesquisas feitas pela lnternational Stress Management Association (lsma-BR), 20% dos funcionários ativos estão trabalhando sob forte pressão emocional, o que compromete a saúde física e psíquica. O Centro de Corpo e Mente da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, conduziu um estudo com cerca de 1.400 pessoas e constatou que a busca por lazer (o que inclui sair de férias) contribui para diminuir casos de depressão. Isso acontece porque, quando estão desconectados dos problemas corporativos, os profissionais passam a ter um enfrentamento mais positivo perante a vida. Joe Robinson, famoso coach americano de equilíbrio entre vida profissional e pessoal, diz que só o descanso compulsório cura a exaustão – o último estágio do estresse, que é composto de três etapas, sendo a primeira de alerta e a segunda de resistência. “Ficar Longe do escritório interrompe a fonte do estresse, regenerando corpo e mente.”

3. CONTROLA A PRESSÃO ARTERIAL

Uma das causas da hipertensão é a estafa, que libera na corrente sanguínea hormônios como a adrenalina, que faz subir a pressão arterial. Uma pesquisa da agência britânica de viagens Kuoni, em parceria com o Nuffield Health, organização de saúde do Reino Unido, mostrou que se desligar por alguns dias já é o suficiente para melhorar a qualidade do sono, eliminar a ansiedade e, por tabela, diminuir a pressão arterial. Ao analisar dois grupos – um com pessoas que foram viajar e outro com pessoas que ficaram em sua cidade trabalhando -, os pesquisadores constataram que a pressão sanguínea dos viajantes caiu 6%, enquanto a dos que seguiram na rotina estressante aumentou 2%. Como esse tipo de reação só dura cerca de 15 dias após o passeio, a dica é manter bons hábitos durante o ano todo, segundo Bianca Vilela, consultora de saúde corporativa. “As férias são o telhado; a rotina é o alicerce”, afirma ela, que ainda faz um alerta: “Os dias de folga não são só para beber ou comer muito. Eles devem servir de pontapé inicial para estabelecer uma nova dinâmica”.

4. AUMENTA A PRODUTIVIDADE

Em 2017, a SimpliFlying, empresa global de estratégia na área de aviação, estipulou a regra de que os funcionários deveriam tirar sete dias de folga obrigatórios a cada sete semanas. Quem não cumprisse o combinado, entrando em contato com o escritório durante o período por e-mail, WhatsApp, Slack ou outro meio de comunicação, seria punido e não receberia salário naquela semana. Três meses após o teste, os níveis de criatividade aumentaram 33%, os de felicidade 25% e os de produtividade 13%. Muitas pessoas relataram, por exemplo, ter encontrado tempo para tirar do papel desejos antigos, como a ida a uma exposição de arte ou uma viagem a um Lugar desconhecido – atividades que estimulam o cérebro. Depois de avaliar os resultados, a empresa manteve o projeto e fez um pequeno ajuste: calibrou a frequência das miniférias, que agora acontecem a cada oito semanas.

5. ESTIMULA A SOLUÇÃO DE PROBLEMAS

O cansaço do dia a dia atrapalha a atenção, a consolidação da memória e todo o funcionamento do pré-frontal, parte do cérebro responsável por buscar alternativas e soluções de problemas. “Durante as férias, nós temos tempo e interesse em fazer coisas novas e isso aumenta a criatividade”, diz Joe Robinson. O expert diz ainda que, com base em todos os trabalhos que já realizou, está claro que a possibilidade de descansar despreocupadamente (sabendo que o emprego e o salário estão garantidos no retorno) gera uma vivência cujo valor não se compara a bens materiais, por exemplo. “Isso porque as experiências são eventos únicos e não perdem valor como os objetos”, afirma. Em outras palavras, quando estiver num momento crítico, não é o carro novo ou o relógio caro que farão o profissional enfrentar melhor um problema. Já a boa Lembrança é uma ferramenta mental poderosíssima. Claudia Cavallini, consultora da HSM, plataforma de educação executiva, reforça que as férias proporcionam contemplação, aquele olhar ao redor sem pressa que gera insights e ideias. “Se a pessoa não tem momentos reflexivos, ela também não inova.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A CRIATIVIDADE É COLETIVA

Mais do que uma expressão individual, a originalidade toma forma em um contexto; grupos não só desempenham papel essencial na criação de ideias e produtos, mas também asseguram sua valorização, disseminação e impacto. Mesmo as pessoas mais geniais talvez não tivessem se destacado se vivessem em outro momento ou lugar

Todos os anos, alguns dos mais destacados atores, diretores e roteiristas ganham o Oscar e os maiores cientistas, o Nobel. Obviamente esses são apenas dois dos inúmeros prêmios que a cada ano são distribuídos para comemorar feitos criativos. Esses eventos, porém, reforçam a concepção popular de que a criatividade é um dom exclusivo de poucos – e favorecem a apoteose da individualidade. Daí, muitos concluem que grupos e cidadãos comuns não podem colaborar com ideias originais.

Talvez possamos desafiar a suposição comum de que o “dono” de uma ideia é o único componente indispensável do processo criativo. De fato, consideramos que grupos não só desempenham papel essencial na criação de novos produtos, mas também asseguram sua valorização e impacto. Embora essa hipótese possa causar espanto, já recebeu significativo apoio científico. No ano passado, publicamos, em parceria com a psicóloga Lise Jans, um artigo com revisão de grande parte dos dados acumulados sobre concepções modernas de grupos e originalidade. Concluímos que é problemático e inútil separar as grandes mentes criativas das comunidades onde surgem.

TEMPO E CULTURA

Apesar da crença romântica de que a inovação está associada a uma vida dura e isolada, pesquisas científicas sobre criações individuais ainda não produziram previsões precisas do comportamento criativo. Muitos pesquisadores vasculharam a biografia de grandes nomes que colaboraram com o mundo com sua originalidade na tentativa de encontrar experiências e traços de caráter relacionados à genialidade.

Embora hoje saibamos bastante a respeito de processos cerebrais que propiciam o surgimento de boas ideias, pesquisas nessa linha falham porque não consideram o importante papel do contexto social. A natureza e a importância de uma inovação dependem da interação entre as ideias de uma pessoa, da época e da cultura em que vive. Se Bruce Springsteen tivesse nascido em 1749 em vez de 1949, seria improvável que ouvíssemos Born to run. Da mesma forma, se o compositor italiano Domenico Cimarosa tivesse nascido em 1949 em vez de 1749, suas 80 óperas, entre elas a obra-prima ll matrimonio segreto, provavelmente não teriam sido criadas.

De maneira geral, esses exemplos tratam da influência que os grupos exercem sobre a criatividade. No final da década de 70, os psicólogos Henri Tajfel e John Turner, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, desenvolveram o conceito de identidade social, levando em conta que o contexto influencia momentos em que nos percebemos como indivíduos ou membros de um grupo. Assim. por exemplo, um pintor cubista (vamos chamá-lo de Pablo) pode, em alguns momentos, pensar em si com base na identidade pessoal, mas em outras ocasiões, da perspectiva do cubista, considerando a forma como se reconhece socialmente. Em outros lugares, somos definidos ainda de acordo com nacionalidade, sexo biológico, religião ou função num grupo.

Tajfel e Turner argumentam que, quando uma identidade social em particular é psicologicamente proeminente, de tal forma que determina o sentido de quem somos, o grupo – base do reconhecimento – exerce profunda influência sobre nosso comportamento. Além disso, a maneira como julgamos uma ação, independentemente de sermos seus autores, reflete ideias coletivas compartilhadas. O mesmo vale para o comportamento criativo ea maneira como o avaliam. Por exemplo, é provável que Pablo, sendo cubista, se interesse em apreciar representações abstratas dos objetos: também há grandes chances de ele produzir pinturas de acordo com as diretrizes e preferências desse movimento artístico.

Identidades sociais favorecem também uma perspectiva comum, bem como a capacidade e motivação para nos envolvermos em influências sociais mútuas. Mas, quando agimos a partir da perspectiva pessoal, tendemos a ser criativos, nos desviando da norma. Em um experimento realizado há alguns anos, pedimos a alguns estudantes universitários que trabalhavam em grupo que produzissem cartazes que falassem sobre “razões para frequentar a universidade” e a outros que abordassem a “moda no ambiente acadêmico”. As instruções levaram os alunos, de maneira implícita, a criar certas normas grupais. Os que deveriam se concentrar em “razões” tendiam a produzir anúncios essencialmente com palavras, enquanto aqueles voltados para a moda optavam por trabalhar com imagens.

Depois de três horas, pedimos que criassem um folheto sobre a universidade, que poderia ser feito com palavras ou imagens. Dessa vez, alguns se reuniram em grupo, enquanto outros decidiram trabalhar por conta própria. Nosso objetivo era saber se a tarefa criativa seria moldada pelas normas coletivas estabelecidas na fase anterior. E foi. Observamos que durante o trabalho em equipe os participantes geralmente criavam de acordo com as regras comuns estabelecidas para o projeto, independentemente de ser com imagens ou palavras. E, mesmo quando puderam agir individualmente, tendiam a tomar as diretrizes do grupo a que pertenceram anteriormente como ponto de partida. Os resultados desse e de outros estudos semelhantes apoiam a hipótese de que a natureza da atividade criativa depende de normas coletivas.

EU ACHO …

O QUE FAZ MAIS FALTA DURANTE A QUARENTENA

Quando penso no único cenário de que sinto saudade consistente nesta quarentena, ele é feito sobretudo de água… Em minha fantasia, os clubes reabrem, volto a poder mergulhar na piscina para nadar. Os músculos ainda estão retraídos, a capacidade pulmonar não é a mesma, mas deixo corpo e mente fluírem, levados pelo ritmo constante da respiração, das braçadas, das pernadas e do coração. Súbito, redescubro aquilo que a escritora Bonnie Tsui descreve como um “curioso espaço liminar”. “Eis-nos aqui”, escreve ela no recém-lançado Why we swim (Por que nadamos), “suspensos, mas nos movendo; flutuando, mas sob risco de afundar. E, se nadamos com a corrente, em vez de lutar contra ela, encontramos um estado momentâneo de movimento e paradoxal quietude – o fluxo”. Nadar é, para Tsui, para mim e para milhões de outros praticantes do esporte, um “antídoto para a angústia existencial”. A água é, ao mesmo tempo, território estrangeiro e familiar, zona de conforto e desafio, ambiente de esforço físico e paz espiritual, lugar onde estamos sempre alertas, mas onde sempre podemos sonhar. “Qual é exatamente a mágica da água, o que ela nos faz?”, pergunta Tsui. Responde com uma palavra: “É um mistério”.

No livro, ela não se concentra na história da natação, como faz a nadadora Lynn Sherr em Swim. Nem apresenta uma narrativa inspiradora de superação, como a maratonista aquática Diana Nyad em Find a way. Em vez disso, segue o exemplo da ex-competidora e ilustradora Leanne Shapton em Swimming studies: mistura relatos pessoais próprios e de outros nadadores à reflexão filosófica. Des­ dobra a questão do título em cinco aspectos, cada um ancorado num personagem com quem convive. Nadamos para sobreviver, revela o islandês Guôlaugur Friôpórsson, até hoje lembrado como herói em sua terra natal por ter se salvado de um naufrágio dando 6 quilômetros de braçadas n’água gelada. Nadamos porque nos faz bem, tanto ao corpo quanto à alma, descobriu a neozelandesa Kim Chambers depois de sofrer um acidente que quase a fez perder o movimento de uma perna. Nadamos para fazer parte de uma comunidade, ensina o militar americano Jay Taylor à equipe que treina na piscina abandonada de um palácio de Saddam Hussein, em plena Guerra do Iraque. Nadamos para competir, qual os japoneses adestrados nas artes dos samurais aquáticos pela técnica Midori Ishibiki. Nadamos, enfim, para desfrutar a sensação misteriosa de estar n’água, aquela que o pianista Glenn Gould atribuía também à música: a suspensão provisória da “inexorável linealidade do tempo”. “É um presente eterno. Cada momento passado é imediatamente substituído por um novo: um fluxo constante de agora e agora e agora, que não deixa espaço para pensar no que passou ou no que está por vir”, diz Tsui.

“Nadar é testemunhar a metamorfose, em nosso ambiente, em nós mesmos. Nadar é aceitar todas as inúmeras condições da vida. Até de volta ao princípio. Flutuamos no ventre materno. Quando primeiro aprendemos a nadar, aprendemos a flutuar”, escreve Tsui. “Como nadadores humanos, nunca podemos ser exatamente o peixe. Sabemos disso. Mas não temos de lembrar que a água está ao redor de nós. Temos lampejos do que é ser peixe, flashes do que é esquecer a água. Ao esquecer, nos deixamos levar.” Somos tragados pelo paradoxo da água, fonte de vida e também da morte por afogamento. “Nem todos são nadadores, mas todos têm uma história a contar sobre natação.” Nadar é aprender a lidar com a surpresa, com o inesperado, com aquilo que não controlamos nem podemos controlar, mas que temos de enfrentar mesmo assim. É uma lembrança de que a vida e o tempo são fluidos. “É um alerta para reduzir a velocidade e despertar para as conexões reais que temos – enquanto as temos”. Nenhum alerta é tão necessário em meio a uma pandemia única na história humana – e nada me faz tanta falta.

* HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

NASCIDOS NA QUARENTENA

A vida humana é feita de chocantes antagonismos e na pandemia não é diferente. Enquanto alguns morrem solitariamente nos corredores dos hospitais, crianças vêm à luz em meio a esse trágico cenário

Uma mulher que tivesse planejado a gravidez, mas perdeu na corrida do tempo para o coronavírus e não engravidou, está tranquila. A inquietação nesse tempo de pandemia é da mulher que já estava gestando quando todo clima de medo começou. Na verdade, o risco de vida do bebê não está na gestação, embora exista e de forma muita alta em seu primeiro instante no mundo extrauterino. Até agora, no limite que os especialistas puderam observar e pesquisar, não há perigo de transmissão vertical pela placenta. Assim que a criança nasce, no entanto, imediatamente uma grossa máscara tem de ser colocada na parturiente antes mesmo que ela receba, pela primeira vez, seu filho nos braços. O cuidado que precisa-se ter com adultos há de ser mil vezes mais intenso com o recém-nascido, uma vez que o seu sistema imunológico é frágil feito cristal.

Ao contrário do HIV, que no caso da mãe soropositivo é necessária a injeção de coquetel no cordão umbilical no momento do parto para que não ocorra a infecção vertical, o impetuoso e invisível coronavírus poupou aqueles que estão para nascer. Todos os cuidados ficam por conta da família e, sobretudo, da mãe – nunca esteve tão exata a gasta expressão de que “ser mãe é sofrer no paraíso”. “Gente, nunca me senti tão nas nuvens tendo uma segunda filha”, diz Laís Valentim Procídio da Silva. “Mas, ao mesmo tempo, quanto sofrimento tenho carregado com medo de que ela seja infectada”. O medo geralmente é bom porque protege aquele que o carrega. Laís, em nome de sua filha, respeita totalmente a quarentena: “Não coloco o pé na rua”.

CONHECER O CHICO? SÓ POR FOTO

Ainda que os médicos não tenham anotado a transmissão vertical, isso não quer dizer que ela não continue a pendular como uma das grandes dúvidas na rede de transmissibilidade da Covid-19. “Já sabemos aquilo que estamos vendo, mas ainda há muito pela frente o que estudar, praticamente o novo coronavírus ainda nos é desconhecido em seus mais diversos aspectos”, diz o ginecologista e oncologista pélvico Ahmed Mourad. Ainda que desconhecido, os cuidados contra o vírus são pontuais, certeiros e rigorosos. O problema desse inimigo é sempre o depois. Já que as visitas nos hospitais foram brecadas, só pai e mãe acompanham os primeiros dias do bebê, a saída da maternidade é a grande preocupação. “A mãe que já foi contaminada durante a gravidez não pode relaxar e pensar que está livre do vírus passado o período de contaminação”, diz a conceituada obstetra Camilla Pinheiro. “Até o momento não temos nenhum relato de reinfecção”. Quanto à amamentação, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, não existe perigo, desde que a mãe tome todos os cuidados – como por exemplo, o uso de máscaras.

No quarto do Hospital Hospitalis, na cidade paulistana Barueri, Gabriela Pereira segura o pequeno Francisco nos braços e pensa no futuro à curto prazo do filho, que chegou à vida na segunda-feira 27. Antes de ele vir ao mundo, todos os convites de boas-vindas passaram por uma desinfecção. A casa da família está muito mais do que limpa, talvez seja possível até que os vizinhos do casal estejam sentindo o cheiro de álcool em gel e produtos de higiene. “Mesmo em casa, decidimos não receber ninguém, ninguém, ninguém mesmo”, diz Gabriela. “Quem quiser conhecer o Chico vai conhecê-lo por foto”. Nesse tempo de medo e caos na saúde, os bebês se adaptarão ao desenvolvimento humano. Assim como na casa de Gabriela, também não existe contato social nos consultórios médicos. Chico nasce em um mundo novo, um mundo em que as relações ganham um outro contorno. Até o seu sistema imunológico se desenvolver, ele contará com um único carinho: o dos pais, já que não terá contato com ninguém. Uma realidade nova, sim, mas que não abre espaço para o medo ser maior do que a alegria de gerar uma vida em meio à um inimigo invisível que, até o momento, não possui nenhum combate preventivo além da extrema higiene.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE MAIO

UMA LUTA DE SANGRENTO SUOR

E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo por terra (Lucas 22.44).

O Getsêmani foi o palco da mais renhida batalha do mundo. Ali no sopé do monte das Oliveiras, o Filho de Deus suou sangue e sentiu os horrores do inferno bafejando sua alma. No mesmo lugar onde havia uma prensa de azeite, Jesus foi esmagado sob o peso crudelíssimo dos nossos pecados. Ali naquele palco de horror, Jesus chorou copiosamente e clamou ao Pai por livramento. Cinco verdades devem ser aqui destacadas:

1) o Getsêmani é o lugar da oração agônica: Jesus orou intensamente mesmo quando seus amigos mais próximos estavam dominados pelo sono;

2) o Getsêmani é o lugar da rendição absoluta à soberana vontade do Pai: Jesus dispôs-se a obedecer, mesmo que essa obediência passasse pela cruz;

3) o Getsêmani é o lugar da solidão mais cruel: Jesus ficou só na hora mais agônica da sua vida;

4) o Getsêmani é o lugar do choro e do forte clamor regado de lágrimas: Jesus chorou copiosamente no Getsêmani não para fugir da vontade do Pai, mas para realizá-la;

5) o Getsêmani é o palco do consolo celestial e do triunfo sobre os inimigos: Jesus orou, chorou e sangrou sozinho no Getsêmani; não recebeu nenhuma ajuda da terra nem consolo algum de seus amigos, mas também ali o anjo de Deus desceu para consolá-lo e dali ele saiu vitorioso para triunfar sobre seus inimigos.

Sua morte na cruz não foi uma derrota, mas sua mais retumbante vitória, pois foi na cruz que ele esmagou a cabeça da serpente e adquiriu para nós eterna redenção.

GESTÃO E CARREIRA

ELAS MANDAM CADA VEZ MAIS

Ampliar a presença de mulheres é um desafio no mundo corporativo, e ainda mais no mercado financeiro. Mas um grupo crescente de bancos e gestoras tem mais executivas. A diversidade ajuda a atrair mais clientes

Elas são majoritariamente mulheres. e cuidam da fortuna de… mulheres. Cerca de 70% do quadro da gestora de patrimônio Alocc, com 5,5 bilhões de reais na carteira, é composto de funcionárias. Elas são 35 num grupo de 50. Além disso, entre os clientes as mulheres respondem por 55% do patrimônio sob gestão no Rio de Janeiro, onde fica a sede da Alocc. Até no quadro societário elas são maioria: cinco entre nove. As sócias fundadoras apresentam algo em com um: todas têm alguma história de preconceito no trabalho para contar e resolveram empreender para ter mais flexibilidade, inclusive na vida familiar. A Alocc foi criada em 2011 como uma junção da gestora de patrimônio TNA, de Ricardo Taboaço, ex-sócio da seguradora Icatu, e de sua mulher e sócia, Veronica Nieckle, com a Integra Consultoria, de Sigrid Guimarães, ex-executiva das Organizações Globo. Na visão de Sigrid, o tratamento acolhedor, que escuta o cliente e analisa seus objetivos de vida, pode ter contribuído para atrair clientes do sexo feminino. Já no caso das funcionárias, segundo ela, o ambiente no qual homens e mulheres são tratados de forma igual pode ter influenciado na atração. “Contratamos os funcionários mais adequados aos cargos”, diz Sigrid.

Se a inclusão de mulheres é um desafio em todos os setores, no mercado financeiro chega a ser maior. É um ambiente conhecido, ainda hoje, pelas altas doses de truculência e machismo, cristalizadas em personagens como os do filme O Lobo de Wall Street e em expressões como buli market e bearmarket – o “touro” e o “urso”, respectivamente, representam as tendências de alta e baixa do mercado. Uma pesquisa feita pela consultoria de recursos humanos americana Russell Reynolds com 339 executivos do setor financeiro em mais de 20 países, inclusive o Brasil, mostra que apenas metade deles acredita que seus líderes reconheçam políticas de diversidade. Em segmentos mais avançados no tema, como o setor governamental, o de ONGs e o de cultura, a proporção alcança até 87%. A pior pontuação do setor, no mercado financeiro, é a de reconhecimento e premiação de líderes inclusivos. Uma pesquisa da Betania Tanure Associados mostra que 26% das mulheres em cargos de liderança no setor financeiro veem que suas empresas estão iniciando a divulgação de esforços para inclusão e avanço da equidade de gênero, e 21% delas acreditam que essa já seja uma prática incorporada no dia a dia corporativo. Sobre equilíbrio em cargos de liderança, 15% acreditam que a empresa esteja iniciando essa prática, e 35% dizem que isso já é praticado.

Preocupados com a possibilidade de perda de talentos, os bancos vêm lançando iniciativas para atração e retenção de mulheres. O objetivo é obter melhores resultados financeiros com os melhores profissionais. Esse ganho trazido por um ambiente mais heterogêneo é comprovado por pesquisas como a da consultoria McKinsey, que conclui que empresas que investem mais em diversidade de gênero tendem a ter resultados 15% acima da média dos concorrentes diretos. Uma das razões para que essas empresas se saiam melhor é que o maior equilíbrio de cargos entre homens e mulheres diminui em 20% a rotatividade dos  funcionários, ao mesmo tempo que amplia a produtividade em 12%, segundo um levantamento da Organização das Nações Unidas. A evolução feminina no mercado financeiro do Brasil nos últimos anos é visível em cargos da base da pirâmide. De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais 2018, divulgada em novembro, o número de mulheres em cargos como analista de crédito, analista financeiro e corretor de valores somava 33.700, ante 24.000 homens. Mas, quando se olham posições gerenciais, há um longo caminho a ser percorrido, segundo mostra a pesquisa Gender 3000, do banco Credit Suisse. No setor, globalmente, elas ocupam apenas 20% dos cargos gerenciais. No Brasil, em todos os segmentos, o número cai para 8%. Ter mulheres na liderança é, portanto, duplamente importante porque o fomento de uma cultura de diversidade tem de vir, necessariamente, de uma liderança mais inclusiva. “É a forma mais efetiva de mudar a cultura”, afirma Fernando Machado, sócio e consultor da Russell Reynolds.

Em pelo menos quatro bancos de investimento estrangeiro no país, as mulheres já estão à frente do negócio ou em posições executivas. Maria Silvia Bastos Marques é presidente do conselho consultivo do Goldman Sachs; Maite Leite é presidente do Deutsche Bank; Sylvia Brasil Coutinho é presidente do UBS; e Sandrine Ferdane é presidente do BNP Paribas. Esses bancos não fazem feio quando se trata da participação feminina em sua estrutura como um todo. No UBS, as mulheres representam metade do comitê executivo, enquanto ocupam 30% dos cargos de diretoria. No BNP Paribas, as mulheres são 30% do comitê executivo e do time de gestores. Mas ainda há muito espaço para aumentar a participação. Para atrair, reter e desenvolver talentos, as quatro executivas se juntaram e criaram neste ano o Dn’AWomen, um curso gratuito de desenvolvimento pessoal e profissional para estudantes universitárias de todas as áreas, com duração de quatro meses. Há aulas de matemática e de autoconhecimento. O objetivo é que as estudantes ganhem confiança já no início da carreira para assumir cargos de liderança no futuro. Ao longo dos anos criou-se a reputação de que o mercado financeiro é mais duro e exigente. Queremos mostrar que o setor tem apelo para elas”, diz Maite. Na visão de Maria Silvia, o tema da diversidade vem ganhando força principalmente por causa de uma demanda da sociedade. “Hoje, fornecedores e consumidores levam isso em consideração.”

Entre os bancos de varejo, o Santander já tem maioria feminina no quadro. Mas o banco reconhece que precisa buscar a equidade de gênero em posições de liderança. Para encorajar as mulheres, criou um grupo de liderança feminina com 30 participantes e capitaneado por quatro executivas de áreas distintas. As integrantes participam de encontros com vice-presidentes para ganhar mais desenvoltura e visibilidade. Para o ano que vem, a meta é ampliar de 26% para 30% a participação de mulheres em posições executivas. Em 2017, a proporção era de 24%. No Banco do Brasil, o compromisso de aumentar a presença feminina em cargos de gerência faz parte da agenda para o triênio 2019-2021.

O maior objetivo dessas ações é ampliar o número de mulheres para atrair um público estratégico para o setor: as próprias mulheres. Uma das conclusões de uma pesquisa da consultoria americana Center for Talent Innovation é que funcionárias podem inovar um modelo de negócios para conectá-lo a mulheres, e investidoras estão mais inclinadas a aplicar dinheiro em empresas com diversidade no time de liderança sênior. Segundo a consultoria, 67% das mulheres com um consultor financeiro não se sentem compreendidas por esse profissional. Estima-se que 44% das mulheres brasileiras já sejam a fonte primária de renda da família. Em 2007, eram 31%. No entanto, elas ainda são 20% dos investidores da bolsa de valores e 31% dos aplicadores em títulos públicos. De olho no potencial de elevar essa participação foi lançado no mês passado o Ella’s, primeiro escritório de agentes autônomos de investimento dedicado a mulheres. “Não dá para falar em empoderamento feminino sem falar de finanças”, diz Rebeca Nevares, uma das sócias. Uma pesquisa da gestora Franklin Templeton mostra que, enquanto 40% das mulheres acham que sabem menos do que um investidor médio, 23% dos homens têm essa opinião. Para driblar a insegurança, corretoras como a Guide começaram a realizar cursos voltados para o público feminino, além de eventos exclusivos para elas em todo o país. A impressão é que sem homens, e em um formato de bate-papo, as mulheres se sentem mais confortáveis para fazer perguntas. Já o Women in Finance Summit, promovido pela Franklin Templeton em outubro, teve como objetivo inspirar mulheres e mostrar casos de carreiras no setor financeiro. O evento foi pensado para 80 pessoas, mas recebeu 800 inscrições. Interesse das mulheres por finanças não falta.

EM SEGUNDO PLANO

Comparadas a empresas consideradas diversas e inclusivas, as gestoras de serviços financeiros ainda não valorizam a diversidade

CRESCENDO JUNTO

O percentual de mulheres que investem na bolsa brasileira se mantém, seguindo o aumento do número total de investidores

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CEGOS PARA EMOÇÕES

Pessoas que não conseguem distinguir com clareza o que sentem têm maior probabilidade de desenvolver transtornos depressivos

Há momentos em que sabemos que há algo de errado: uma tristeza ou aperto no peito, cuja origem não parece óbvia. É como se os sapatos estivessem apertando nossos pés, mas não conseguíssemos identificar exatamente em que ponto está o desconforto. Para algumas pessoas essa sensação de não saber o que incomoda (embora o mal-estar esteja presente) é constante. Sensações de frustração, tristeza. raiva e decepção misturam-se e, às vezes, confundem-se até com cansaço e ansiedade. Essa confusão costuma indicar uma séria desvantagem. É o que mostra um estudo publicado há alguns meses no periódico científico Emotion.

Segundo os autores, uma boa dose de autoconsciência pode, portanto, proteger contra a depressão, mesmo na juventude. Uma equipe liderada pela psicóloga Lisa Starr, da Universidade de Rochester, havia submetido cerca de 200 adolescentes a entrevistas de diagnóstico e pediu que registrassem humor, estresse e eventos relacionados quatro vezes por dia durante uma semana. Um ano e meio depois. os voluntários relataram sua condição novamente. Aqueles que puderam diferenciar vagamente os sentimentos negativos na primeira pesquisa, 18 meses depois, tiveram mais probabilidade de sofrer de sintomas depressivos.

VER PARA TRANSFORMAR

A relação entre a dificuldade de autopercepção e rebaixamento do humor se fortaleceu quando eventos estressantes do cotidiano ocorreram nesse período. “Observamos que os adolescentes que descrevem seus sentimentos negativos com precisão e riqueza de nuances estão significativamente mais protegidos da depressão do que os que não conseguem fazer essa distinção”, escrevem os psicólogos em seu artigo, com base no acompanhamento dos jovens. Esses participantes do experimento se mostraram mais aptos a aprender mais com suas experiências e desenvolver estratégias eficazes para lidar com experiências estressantes e sentimentos de frustração e raiva.

“É fundamental saber como nos sentimos até para, eventualmente, transformar a sensação de desconforto”, explica Lisa Starr. Nesse sentido, a psicoterapia é fundamental não só para o reconhecimento e a nomeação das emoções, mas também para que a pessoa perceba sua influência e desenvolva formas criativas de lidar com elas.

Um experimento realizado com mais de mil pessoas com mais de 60 anos, por psicólogos da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e publicado em junho de 2019, mostrou que a auto­ consciência também é um sinal de alerta em adultos. Quanto menos a experiência subjetiva do estresse corresponder aos indicadores objetivos, mais comprometido será o bem-estar psicológico e físico a longo prazo. Não se pode deduzir que a experiência indiferenciada de emoções necessariamente motive queixas psicológicas, até porque, quando a pessoa não passa por situações exteriores que a estressam, tende a manter os incômodos emocionais latentes. No entanto. essa característica é um indicativo de que o equilíbrio emocional pode ser mais facilmente abalado.

EU ACHO …

POR QUE É TÃO DIFÍCIL RESPONDER AOS PORQUES.

Súbito a ciência entrou na vida de todos. Virologistas, infectologistas e epidemiologistas brotaram no mercado financeiro, nas startups digitais e corporações assustadas com o poder do novo coronavírus. O crescimento exponencial deixou de ser uma metáfora. Curvas epidêmicas e escalas logarítmicas entraram no vocabulário qual participantes do BBB. Modelos estatísticos se tornaram foco de um debate interminável, contaminado por interesses e ideologias. Enquanto isso, médicos e cientistas – os únicos, entre todos nós, que são páreo para o vírus – trabalham num silêncio frenético e desesperador para derrotá-lo. Mas a ciência é difícil, vagarosa, titubeante. Mesmo sujeita a reviravoltas e descobertas surpreendentes, não faz milagre. Não há garantia nenhuma de êxito. Ela não existe para salvar, mas para explicar – e só isso já é dificílimo.

A mais trivial e infantil das questões – “por quê?” – desafia todo cientista. Por que o sucesso no combate ao vírus na Coreia do Sul, em Taiwan ou Hong Kong? Cultura asiática? Ou reflexo da epidemia de sars em 2003? Por que o avanço dos números por vezes parece mais lento? Erro de quem fez previsões? Incompetência para compilar estatísticas confiáveis? Canalhice de governantes? Ou proteção conferida por vacinas? Por que italianos e espanhóis decretaram quarentenas draconianas e nem assim escaparam de uma tragédia, enquanto suecos ou coreanos se saíram melhor com medidas menos radicais? É possível formular critérios objetivos para relaxar o isolamento social sem pôr vidas em risco? Nem todas as perguntas têm resposta, nem sempre a resposta será fácil ou confortável. Os próprios cientistas resistem a vincular causas e efeitos na hora das explicações. Associações ou relações estatísticas entre diferentes fatos, afirmam, são traiçoeiras.

Nos últimos anos, contudo, vários deles decidiram enfrentar a própria timidez e se libertar das amarras estatísticas que aprisionam a discussão sobre causas e efeitos. Um dos líderes desse movimento é o israelo-americano Judea Pearl, vencedor do Prêmio Turing (o mais importante da área) e coautor, com o matemático Dana Mackenzie, de The book of why (O livro do porquê). Nenhuma obra é tão essencial para entender como a ciência funciona, o que é possível responder a respeito dos porquês – e o que ainda falta descobrir. Não se trata de um livro fácil. Exige tempo e reflexão, mas o resultado é recompensador. A linguagem de diagramas descrita por Pearl desmascara a fragilidade dos argumentos oportunistas e valoriza a boa ciência. Ele explica por que probabilidades não bastam para estabelecer relações de causa e efeito e discute a fundo os três tipos de pensamento necessários para isso. “O aprendiz causal precisa dominar três níveis distintos de habilidade cognitiva: ver, fazer e imaginar”, escreve. “A conexão entre a imaginação e as relações causais é evidente. É inútil perguntar as causas das coisas, a não ser que se possam imaginar suas consequências”.

Pearl explora os principais paradoxos estatísticos e as armadilhas em que os melhores cientistas caíram ao longo da história. Desmistifica o culto contemporâneo aos dados. Vê os sistemas modernos de inteligência artificial como máquinas “com a sabedoria de uma coruja”. Ao mesmo tempo, crê que será um dia possível imbuir computadores da capacidade de responder a questões hipotéticas como “e se fizéssemos. . .”? (ação) ou “o que teria acontecido se não …?” (contrafactuais), até de um sentido moral. “Os algoritmos para responder a tais questões já existem”, afirma. “Não há motivo para evitar construir máquinas mais capazes de distinguir o bem do mal do que nós, de resistir à tentação, de atribuir culpa e mérito.” Num mundo com 7 bilhões de seres humanos, porém, o mais difícil é entender a razão de não aproveitar a inteligência já disponível no planeta. Soubéssemos fazer isso, certamente estaríamos mais preparados para enfrentar a pandemia. Eis um porquê que Pearl nem tenta explicar.

* HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

998. 999. 1000…ACABEI!

Em dias de Covid-19, os velhos quebra-cabeças voltam à cena doméstica, com seu potencial para socialização, concentração e ordenação do caos

A esta altura do surto planetário de Covid-19, ninguém duvida que a internet seja a maior aliada no enfrentamento da incontornável quarentena – condição na qual se encontra metade da população do globo. Isso não só em razão das diversas ferramentas que permitem ver e ouvir familiares e amigos, trabalhar e estudar em casa. Com a web, os duríssimos dias de confinamento a que todos estamos submetidos têm ficado mais brandos graças às infinitas formas de entretenimento que estão disponíveis on-line – entre as quais os videogames, pela própria natureza digital, ganham um crescente destaque. Curiosamente, no entanto, um jogo antiquíssimo, analógico, off-line, está voltando ao centro da cena das diversões domésticas: o quebra-cabeça.

O salto na comercialização do passatempo vem sendo extraordinário. A americana Puzzle Warehouse, situada entre as maiores empresas de quebra­ cabeças do mundo, teve uma explosão de vendas nos EUA: aumento de dez vezes nas compras pelo site após o começo da doença. Também por lá, o gigante Ravensburger, empresa alemã especializada em jogos, anunciou que o comércio de quebra-cabeças por meio de sua loja virtual cresceu 370% ao longo das últimas duas semanas. No Brasil não tem sido diferente. Desde o dia 20 do mês passado, quando interrompeu provisoriamente o atendimento presencial em suas unidades físicas, o grupo Ri Happy, marca pioneira no país no comércio de brinquedos via internet, aumentou em três vezes suas vendas dos jogos com mais de 1.000 peças, que custam algo em torno de 50 reais, através do site.

Uma pergunta intrigante – ou, com o perdão da brincadeira, de quebrar a cabeça: por que o velho jogo de montar estaria mobilizando tanto os recolhidos de hoje em dia? “O quebra-cabeça é uma atividade que se realiza em espaços interiorizados, como a casa, podendo ser socializado. Por causa da pandemia, temos passado muito tempo em ambientes propícios para atividades assim, e que exigem concentração”, afirma o psicanalista Daniel Kupermann, professor de psicologia clínica da USP. “Ademais, o jogo é lúdico – tira a atenção do que nos tem trazido sofrimento.” Quem brinca sabe o que sente. “Está sendo uma terapia. Fico longe do celular e me acalmo. Já encomendei outro”, diz a influenciadora digital Gabriela Pugliesi, que contraiu o novo coronavírus em março e teve de ficar isolada. Gabriela postou recentemente no Instagram uma imagem em que aparece montando um quebra-cabeça. O mesmo também já fizeram o ator inglês Tom Holland e a apresentadora americana Ellen De Generes.

Os quebra-cabeças começaram a ser vendidos na Inglaterra dos anos 1760. Quase dois séculos mais tarde, em 1933, com o mundo mergulhado na Grande Depressão, o hobby experimentou uma espetacular comercialização: 10 milhões de jogos eram produzidos semanalmente. Seria esse um mau presságio? “Montar um quebra­ cabeça dá à pessoa uma chance de ordenar o caos, fornecendo-lhe uma gratificação muito importante durante um período tão confuso”, resume Anne Williams, professora de economia da Bates College (EUA) e pesquisadora da história desse jogo. Que a ordenação do caos não se restrinja às peças lúdicas dos quebra-cabeças.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE MAIO

MAIOR CRIME OU MAIOR PROVA DE AMOR?

Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? (Romanos 8.32).

A morte de Cristo foi o maior crime da história e também o maior gesto de amor. O apóstolo Pedro sintetiza essas duas verdades num único versículo: Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando- o por mãos de iníquos (At 2.23). Primeiro, a morte de Cristo foi o maior crime da história. Seus juízes contrataram testemunhas falsas para acusá-lo. Acusaram-no de blasfêmia e sedição, pecado contra Deus e contra César. A motivação dos acusadores era inveja, e o governador que o condenou à morte de cruz estava convencido de sua inocência. Então, por que Cristo morreu? Ele não foi para a cruz porque os sacerdotes o entregaram por inveja. Não foi condenado à morte porque Judas o traiu por ganância e Pilatos o condenou covardemente. Jesus foi à cruz porque o Pai o entregou por amor e porque ele se ofereceu voluntariamente para morrer em nosso lugar. Deus não poupou o seu próprio Filho. Entregou-o como sacrifício pelo nosso pecado. Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades. Deus provou seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. A cruz é o palco da mais aviltante maldade humana e a expressão mais eloquente do amor de Deus. Na cruz a justiça e a paz se beijaram. Na cruz resplandece, como o sol em seu fulgor, o amor eterno, incondicional e incompreensível de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

PRECISAMOS FALAR SOBRE E EXTERNALIDADES

Certo dia, ao caminhar pelo bairro onde moro, vi uma faixa interessante afixada na parede externa de um condomínio. O aviso dizia: “Senhores motoristas, o prédio encontra-se em manutenção das fachadas.

Pedimos para não estacionarem próximo ao prédio para evitar possíveis danos”. Achei o caso ótimo para explicar o conceito de externalidade e a importância de as empresas gerenciarem bem esse tema.

Quando pedimos uma opinião sobre a mensagem, temos duas categorias: a primeira é positiva – valoriza a preocupação em avisar sobre o risco e evitar problemas. A segunda é crítica e entende que a faixa é apenas uma forma de o condomínio se omitir da responsabilidade por eventuais danos.

Independentemente das opiniões específicas, o exemplo mostra como é inegavelmente relevante que as empresas gerenciem os impactos de suas atividades em terceiros. São esses “efeitos colaterais” que recebem o nome de externalidades. Elas podem ser positivas, quando geram benefícios para os atingidos; ou negativas, que são os impactos prejudiciais a esses stakeholders (públicos de relacionamento)”.

Eventualmente, os impactos gerados pelas externalidades acabam voltando para as empresas. No aspecto positivo, isso vem em forma de reputação, melhor gestão de riscos, disposição dos clientes em acreditar no que a marca diz e melhor desempenho financeiro, além de fidelização e disposição para recomendar os produtos e serviços. Do outro lado, as externalidades negativas levam a piora da imagem, aumento de riscos, descrença e desconfiança. Nos piores casos, pode dificultar muito ou até inviabilizar o negócio.

Como isso acontece? Basta imaginar a situação hipotética de um restaurante que fique em bairro residencial ecause problemas para a vizinhança com barulho e geração de lixo sem o devido manejo. Mesmo que seja competente em servir refeições, o empreendedor precisará resolver as externalidades de sua operação, ou terá que lidar com perda de clientes (vizinhos afetados por barulho e lixo vão preferir outras opções), reclamações, visitas da polícia, denúncias na vigilância sanitária e na imprensa e até protestos de rua.

Em outras palavras, a lógica de maximizar o retorno no curto prazo despreza a questão das externalidades negativas e demonstra desrespeito às pessoas e aos ecossistemas afetados pelos nossos negócios. Por outro lado, reconhecer que gerar os impactos e gerenciá-los da melhor maneira possível é fundamental para a verdadeira sustentabilidade.

Para chegar lá é preciso cumprir duas etapas: A primeira é o reconhecimento das externalidades. No exemplo do início do artigo, é esse o momento vivido pelo condomínio. Os administradores reconheceram que a reforma poderia afetar os carros estacionados no entorno e tentaram prevenir danos. Para mapear as externalidades do seu negócio, pergunte a si mesmo o seguinte: quem são as pessoas (ou outros seres vivos) afetados indiretamente pela nossa empresa? De que maneira isso ocorre?

A segunda etapa consiste em reduzir os impactos e internalizar o custo. Apesar da boa vontade, reconhecer que nossas decisões afetam outras pessoas não é suficiente e não faz diferença para quem é prejudicado. Mas, ao procurar alternativas e se responsabilizar pelos prejuízos, é possível melhorar a reputação e reduzir riscos. No exemplo, o condomínio poderia fornecer algum tipo de proteção para os carros estacionados. Com isso, evitaria prejuízos aos motoristas e eventuais gastos com reparos, além de sair com a simpatia das pessoas por sua preocupação legítima em cuidar da vizinhança. Tire um tempo para pensar nos impactos do seu negócio e em como encontrar soluções simples para melhorar seu relacionamento com todos os públicos. É um investimento com retorno certo no longo prazo.

DANILO MAEDA – é diretor de atendimento e líder da prática de sustentabilidade na JEFFREY GROUP BRASIL. Também atua como consultor e professor no tema

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O JOGO DA REINVENÇÃO

Cultivar a ideia de que conhecemos as pessoas que nos rodeiam ajuda a dissipar o temor de desestabilização. As contribuições de um “semelhante”, não raro, são mais bem recebidas do que as ideias de um “estranho”

O jogo da reinvenção

Grupos desempenham um papel vital na valorização das inovações. Sem tocarem na identidade coletiva, grandes artistas, escritores e cientistas podem muito bem passar despercebidos. Em vida, Vincent van Gogh não conseguiu encontrar quase ninguém para comprar suas pinturas incomuns. Seu trabalho chamou atenção somente após sua morte, quando um círculo de artistas, os pós-impressionistas, valorizou sua obra como um indicativo de um estilo distinto que pretendiam imitar. Da mesma forma, em 1961, as teorias de modelos computacionais do então estudante de graduação Yoshisuke Ueda foram inicialmente impedidas de serem publicadas por seu supervisor da Universidade de Kyoto, porque eram vistas como muito vanguardistas. Assim que apreciadores de seu trabalho ingressaram na comunidade científica, porém, suas ideias transformaram o campo emergente da teoria do caos.

De fato. somos mais propensos a apoiar um projeto criativo ou nos esforçar na sua criação se os envolvidos fazem parte do nosso grupo. A ideia de que conhecemos os que trabalham conosco ajuda a dissipar o temor de desestabilização. As contribuições de um “semelhante”, não raro, são antagônicas às ideias de um “estranho”. Costumamos ter preconceito étnico, por exemplo, quando julgamos a criatividade artística e, não raro, críticos preferem o trabalho de artistas de seu próprio país. O prêmio conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar americano, e Academia Britânica de Cinema e Televisão, o britânico, é destinado a avaliar a qualidade objetiva de filmes. Mas um estudo inédito feito pelo psicólogo Niklas Steffens e seus colegas da Universidade de Queensland, na Austrália, constatou que desde 1968 artistas dos Estados Unidos receberam o prêmio americano de melhor ator ou atriz 80% das vezes e ganharam o Oscar britânico menos da metade para a mesma categoria. Ao mesmo tempo, os artistas do Reino Unido ganharam quase metade dos prêmios correspondentes em seu país, mas pouco mais de 10% do Oscar americano.

Ou seja, o que entendemos por criatividade – e, portanto, como medimos e recompensamos autores originais – depende da identidade cultural. Em um estudo de 2008, os psicólogos Kaiping Peng, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e Susannah Paletz, agora na Universidade de Maryland, investigaram a percepção de mais de 300 estudantes chineses e americanos a respeito do que tornava um produto criativo. Eles testaram dois itens bem diferentes: um livro teórico e uma refeição preparada por um amigo. Os cientistas observaram que os voluntários ocidentais perceberam a originalidade de acordo com a adequação (se o produto era, de alguma forma, útil, enquanto os orientais tomaram como base o desejo pessoal. Os americanos encararam a criatividade como uma questão de gosto, enquanto os chineses como algo relacionado ao apetite.

A tendência de julgarmos a criatividade de maneira a refletir nossa identidade social ajuda a explicar também o preconceito de gênero e racismo – embora não sirva para justificá-los. Em um estudo desenvolvido pelo psicólogo Thomas Morton e seus colegas da Universidade de Exeter, na Inglaterra, relataram que cientistas homens encaravam melhor e como mais originais as teorias que apontavam superioridade do gênero masculino em relação ao feminino do que pesquisas que defendiam o oposto. O padrão se inverte no caso de cientistas mulheres. Curiosamente, ambos os grupos também acreditavam que estudos sobre criatividade que apoiavam suas próprias preferências com base na identidade mereciam mais financiamento de pesquisa.

Por sua vez. criadores de sucesso sabem bem quem é seu público e orientam seus produtos ou suas respostas a uma questão para as necessidades percebidas e valorizadas por determinado grupo. Aliás, estão bem familiarizados também com os lugares dos quais não querem fazer parte com seu trabalho.

O QUE CRIAM

Como membros de um grupo. nosso comportamento criativo e o modo como avaliamos as inovações dos outros refletem nosso desejo de estender os valores do lugar a que pertencemos e desafiar as ideias daqueles que estão do lado de fora. Pessoas inovadoras devem conhecer as normas das quais se afastam. Eventualmente, também precisam de um público disposto a abraçar as novas formas de enxergar ou de se comportar diante de propostas pelo seu trabalho. Para terem sucesso, portanto, esforços criativos devem transformar comunidades. O público recém-conquistado conduz a mudanças culturais iniciadas por ideias originais.

No entanto. o senso comum tende a valorizar pensamentos que se aproximam de uma citação que Picasso fez certa vez: “Os discípulos que se danem. Bastam os mestres. Aqueles que criam”. Porém, curadores de uma grande exposição na Galeria Nacional de Londres observaram que muito de seu próprio trabalho se deve aos primeiros moldes de pintura que rejeitou. Além disso, sem admiradores, sua obra teria tido pouca influência na sociedade.  5uas criações não tratam, portanto. de um trabalho feito por conta própria para criar tudo de maneira inédita. Mas sim, como afirma o pintor galês Osi Rhys Osmond em uma crítica da exposição, de um exercício colaborativo de “reinventar o familiar”.

É claro que devemos estudar e comemorar a originalidade individual. No entanto, a psicologia da criatividade mostra que, além de estarem envolvidos com o processo criativo, os grupos procuram estender seus limites, o que cria a base de influência. “I did it my way” (Fiz do meu jeito) pode ser um hino atraente para grandes autores, como Frank Sinatra, porém, para alcançar o sucesso é preciso contar com promotores, produtores e um público que aprove o trabalho.

UM DE NÓS, UM DELES

Nossa percepção de criatividade depende de o criador ser “um de nós” ou “um deles”. Em um estudo, pedimos a 50 voluntários do Reino Unido que avaliassem sugestões sobre o futuro formato de um programa de televisão que dissemos ter sido retirado de um site britânico. Dissemos para outros 50 participantes que as mesmas ideias vieram de um portal holandês. Na segunda parte do experimento, pedimos a 125 estudantes britânicos que avaliassem obras de arte que atribuímos a universitários de seu país ou a holandeses. Em ambos os casos, embora o conteúdo fosse o mesmo, aqueles que acreditavam que seus conterrâneos (ou seja, os membros do grupo) tinham sido os autores julgavam seu trabalho significativamente mais criativo do que os voluntários que pensavam se tratar de uma produção holandesa.

O jogo da reinvenção. 2

EU ACHO …

UM LEVANTE CONTRA A COMPLEXIDADE DA VIDA

O jeito de lidar com a existência é estudar muito, até entender – e se cercar de gente que estudou

É ruim não entender alguma coisa. Pior ainda é sentir que, enquanto estamos por fora, tem alguém entendendo tudo. Poucos desconfortos são tão grandes: o de estar boiando em meio a um monte de gente que parece estar sacando tudo. Que raiva.

Sei bem disso. Mal formado em jornalismo, com especialização em bar, comecei minha carreira no jornalismo de ciência convivendo com fontes que diziam coisas que pareciam impossíveis de entender. Física quântica, por exemplo. Cazzo. Sério mesmo que os caras estão convencidos, pelos cálculos que fizeram, de que uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, que seu estado real é impossível de conhecer, que informação pode ser teletransportada, que tudo é feito basicamente de nada?

Passei anos lendo e relendo aquelas teorias, dando tapas na testa de raiva da distância que havia entre mim e a compreensão profunda daqueles fatos que eu tinha que explicar. Mas eu sabia que o problema era comigo, não com os fatos. Eu respeitava aqueles físicos, Albert Einstein a frente, e partia do princípio de que, se eu estudasse o suficiente, aquilo tudo acabaria fazendo sentido.

Pois outro dia veio bater aqui nas redes sociais um texto de uma outra pessoa frustrada com a complexidade do tema. Eu entendo a frustração, claro. O que não entra na minha cabeça é a forma como essa turma que está fazendo sucesso nas redes sociais lida com ela. Era um artigo, de estilo arrogante, confiante, assinado por um especialista em “produtos financeiros e gestão de risco”, chamado “A complicação como método ideológico”.

Em linha gerais, o texto argumentava que toda a complicação foi inventada pela esquerda, como parte de um complicado plano de dominação. “Todo sistema de ideias que seja simples, claro e objetivo, está do lado da Verdade”, afirmava o artigo, já errando na colocação da vírgula.

Sobre física quântica, tema que passei anos de minha vida suando para compreender, o tal gestor de risco dizia que “ganhou a fama de ser o ramo científico onde ‘tudo pode’”. Haveria aí uma conspiração da esquerda que faz sentido porque “harmoniza” com o uso de drogas, com a ideia de que o indivíduo é uma ilusão, criando uma justificativa racional para a irresponsabilidade e o ateísmo.”

O artigo, publicado pelo Instituto Liberal, acabou tirado do ar, tantas eram as bobagens que continha (ficou, no entanto, guardado para a posteridade nos arquivos da internet). Mas a ideia maluca de que toda a complexidade é má e que aquilo que o meu senso comum me diz vale tanto quanto qualquer teoria científica tornou-se surpreendentemente comum, os terraplanistas que o digam. Assim como ficou comum atribuir toda a complexidade do mundo aos malditos esquerdistas.

Esses talvez sejam os credos centrais do evangelho de Olavo de Carvalho, o polemista digital que influencia o governo Bolsonaro. Olavo gosta de se caracterizar como uma mente livre, igual à dos filósofos gregos antigos, capaz de opinar sobre qualquer coisa sem precisar de conhecimento profundo sobre absolutamente nada – seu intelecto superior é capaz de entender tudo, sem nem precisar estudar.

Numa aula, no meio de um longo comentário sobre teorias que ele evidentemente não conhecia nem um pouquinho, ele soltou: “se eu estiver certo e o Stephen Hawking, errado, qual é o problema? Qualquer um pode falar uma besteira. Eu já falei, o Albert Einstein já falou.” Olavo frequentemente usa sua incompreensão de algo como prova de que essa coisa deve estar errada – fez isso em aulas sobre a física quântica, a evolução, a neurociência. Hoje esse palpitismo está no poder.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump, sempre que se incomoda com a complicação do mundo real, inventa teorias próprias, bem mais simples. E essas teorias tiradas do ar embasam boa parte das políticas públicas do país mais poderoso do mundo.

Jair Bolsonaro sintetizou essa demonização da complexidade e glorificação da ignorância ao comentar no início do ano que os livros didáticos de hoje em dia contêm “um montão de um amontoado de muita coisa escrita”. Para que tanta complicação? O presidente prometeu para o próximo ano livros mais simples. De novo, a culpa pela complexidade foi colocada na esquerda.

Mas aceitar a complexidade do mundo não tem nada a ver com esquerdismo. Verdadeiros liberais sabem que a sociedade é complexa – e até por isso são tradicionalmente contrários a governantes que, como Bolsonaro, tentam brincar de engenheiro social, microgerenciando os livros didáticos, as escolhas de reitores, o preço do combustível, as multas na estrada, para tentar conformar a sociedade às suas crenças.

A complexidade do mundo é uma realidade da vida, não uma conspiração da esquerda. O jeito de lidar com ela é estudar muito, até entender – e se cercar de gente que estudou. Negar a existência da complexidade não tem a menor chance de fazê-la desaparecer.

* DENIS RUSSO BURGIERMAN

OUTROS OLHARES

A FUGA DO VÍRUS PELOS ARES

Após ignorar riscos da Covid-19, trio de empresários do Pará acaba infectado e voa para São Paulo em busca de socorro em unidades estreladas como Albert Einstein e Sírio-Libanês; viagens chegam a custar R$ 120 mil

do empresário Jonas Rodrigues, de 41 anos, é uma das mais ricas do Pará. Ela é proprietária da maior rede de supermercados do estado, o Grupo Líder. Mesmo com as recomendações das autoridades sanitárias para ficar em casa, ele saía diariamente sem máscara, como se a pandemia de coronavírus não tivesse chegado a Belém, onde mora.

“Não era muito adepto do álcool em gel. Estava trabalhando todos os dias no escritório, sem home-office, passeava pela cidade e ia às compras mesmo sendo dono uma rede de supermercado. Adoro visitar mercados pelo país afora”, conta. Não deu outra. Ele, o pai e a mãe contraíram Covid-19. “Se arrependimento matasse…”, comenta.

Outro supermercadista afortunado do Pará, José Santos de Oliveira, de 77 anos, achava que estava imune ao vírus. Atleta, exercitava-se todos os dias em casa e no trabalho e sempre manteve uma alimentação saudável. Ao descumprir as recomendações de distanciamento social, foi infectado pela Covid-19 e agonizou com a doença, deixando familiares muito apreensivos.

O empresário Kleber Ferreira Menezes foi secretário de Transportes do Pará. Quando esteve no cargo, chegou a ser denunciado pelo Ministério Público por improbidade administrativa e crime contra o erário, envolvendo valores na casa dos 20 milhões de reais em contratos com sérias suspeitas de fraudes. Ele refuta todas as acusações (“Não sou ladrão!”). Kleber também não dava a menor bola para o coronavírus e levava uma vida em Belém como se nada estivesse acontecendo. Sentiu uma tosse enquanto assistia televisão e, em poucos dias, passou perto de morrer.

Mas o que Jonas, José e Kleber têm em comum além do teste positivo para Covid-19 e da conta bancária milionária? Para fugir da morte, os ricos de Belém – como o trio de empresários – estão abrindo a carteira, correndo para o aeroporto e embarcando em jatinhos de luxo equipados com UTIs. Eles seguem rumo aos melhores hospitais de São Paulo em busca de sobrevivência. Jonas foi socorrido no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, José no Hospital Israelita Albert Einstein e Kleber no Sírio-Libanês, todos na capital paulista. Os três estavam em estado grave quando fizeram a viagem.

Levantamento atesta que são embarcados diariamente oito pacientes de Covid-19 em jatos com UTI de Belém para outros estados e até para o exterior. A maioria segue para São Paulo. Os paraenses endinheirados não fogem do Pará à toa quando são contaminados pelo coronavírus. A nova doença está devastando a capital numa velocidade assustadora.

Em duas semanas, os casos de mortes pela Covi-19 aumentaram 900% no Estado. Até terça-feira (5/5), o Pará já computava 4.756 casos confirmados e 375 mortes, uma taxa de 4,2 óbitos por 100 mil habitantes. Na média do Brasil, esse índice está em 3,7 por 100 mil.

A maioria dos casos se concentra em Belém, que vive clima de terra arrasada. Todos os hospitais – tanto da rede pública quanto da privada – estão lotados e operando acima do limite. No Hospital Abelardo Santos, a maior referência paraense em coronavírus, há pacientes definhando em macas à espera de uma vaga na UTI.

Sem capacidade de atender a demanda, Belém vive uma situação inédita no país: os pacientes estão saindo de casa em busca de atendimento médico, dão de cara na porta e acabam sucumbindo no meio da rua. Com o estado de calamidade e com uma adesão de 45% ao isolamento social na capital, o governo foi obrigado a decretar lockdown (bloqueio total) na quinta-feira (7/5) em dez municípios da Região Metropolitana de Belém.

Jonas, o dono de mercados, conta que o primeiro a pegar coronavírus na família foi o pai, José Corrêa Rodrigues, de 70 anos. Rapidamente a doença avançou e sua mãe, Ana Célia, de 67 anos, também foi contaminada. Ele chegou a ligar para alguns hospitais particulares de Belém, mas não havia leito de UTI disponível nem no mais aparelhado da capital.

“Se não tivéssemos embarcado na UIT aeromédica, meu pai teria morrido, pois essa doença evolui numa rapidez impressionante. Graças a Deus ele apresentou melhoras”, agradece. “Olha, eu assumo que subestimei a essa doença. Achava que ela era algo distante. Até que vi meu pai passando mal como nunca vi antes. Aí passei a achar que era coisa de idoso. Foi preciso eu sofrer uma súbita falta de ar para atestar que não dá para brincar com isso”, descreve. Jonas se curou e teve alta hospitalar, mas resolveu ficar em São Paulo para cuidar do pai. “Só saio daqui com ele”, avisa.

Kleber achava que ia morrer quando sentiu os piores efeitos da Covid-19. Ele chegou a se internar em um hospital particular em Belém, mas correu de lá tão logo conseguiu contratar a UTI aérea, e reservou duas vagas nos apartamentos do Sírio-Libanês.

Uma para ele e outra para a sua mulher, a cirurgiã plástica Lastênia Menezes, uma das mais requisitadas da capital paraense. A médica também pegou o vírus e adoeceu de Covid-19. Apavorada, escapou de Belém junto com o marido na mesma UTI aeromédica.

No Pará, Kleber é uma figura polêmica. Além das acusações feitas pelo Ministério Público, ganhou fama pelos vídeos que posta em suas redes sociais ostentando riqueza. Quando embarcou na UTI aérea, no aeroporto de Belém, fez questão de gravar um vídeo pelo celular e postar no grupo de WhatsApp do condomínio, todo paramentado com equipamentos de proteção individual. A ideia, segundo diz, era mostrar aos vizinhos que estava bem.

No vídeo, ele tosse logo na introdução e faz uma narração na sequência: “Oi gente! Estou embarcando agora de Belém para São Paulo. Estamos eu e minha esposa, a doutora Lastênia. Estamos entrando na UTI aeromédica. Se Deus quiser, vai dar tudo certo. Um forte abraço a todos.” O vídeo, lógico, migrou do WhatsApp para todas as redes sociais e rapidamente viralizou. Kleber recebeu críticas por todos os lados.

Alguns comentários maldosos insinuaram que o ex-secretário pagou a UTI aeromédica e as diárias do Sírio-Libanês com dinheiro supostamente desviado dos cofres públicos. “Jamais!”, defende-se. “Quando assumi cargo público eu já era rico, pois atuava na área portuária. (…) Meu sangue é nordestino. Na minha terra, pode até chamar alguém de corno, que se leva na brincadeira. Agora, de ladrão? Nunca!”, argumenta ele, que é baiano.

Pegar uma UTI aérea de Belém para São Paulo custa caro. levantamos uma cotação com três empresas que fazem esse tipo de transporte. O valor é calculado pela quilometragem. Em época de pandemia, as tarifas sofreram aumentos de até 30% por causa da alta demanda e do risco de contaminação a que a tripulação é submetida ao transportar doentes com coronavírus.

O custo médio para levar um paciente entubado da capital do Pará até São Paulo gira em torno de 120 mil reais. Uma das maiores empresas que atuam com pacientes de Covid é a Brasil Vida. Na cotação feita no sábado (2/5) pela reportagem com essa empresa, o transporte de um paciente de Belém para o Sírio-Libanês custaria 118 mil reais. Na quarta-feira (6/5), esse valor estava em 125 mil.

O funcionário encarregado de fazer a cotação, Tiago Pinheiro, justificou o aumento alegando a alta procura e os custos de manter médicos em enfermeiros em casa à disposição 24 horas para uma possível emergência. “Eles recebem diárias de plantão mesmo estando em casa sem fazer nada”, ponderou. E garantiu que não há aumento no preço quando o paciente tem Covid-19. “Tanto faz se ele foi contaminado com coronavírus ou se quebrou a perna. O preço é o mesmo”, assegura.

O voo numa UTI aeromédica é algo delicado quando o paciente tem problemas respiratórios por conta do aumento da pressão atmosférica nas alturas. “O risco de óbito é muito maior. Os pacientes precisam de muito cuidado, até porque o voo de Belém para São Paulo é muito longo (dura três horas e meia) para um paciente que segue entubado”, explica o enfermeiro de UTI aérea João Godoi.

Ele também diz que a equipe voa com muito medo de ser contaminada, mesmo que o paciente siga a viagem todo “embrulhado” num plástico de polietileno. Já os profissionais de saúde e o piloto vestem-se com roupas impermeáveis, incluindo galochas de borracha, e duas máscaras e mais o protetor facial de plástico conhecido como face shield.

Isso é proteção para contaminação biológica, a de nível III. Mesmo assim há casos de profissionais de Saúde que se contaminam com coronavírus durante o voo numa UTI. Algumas empresas de táxi aéreo, inclusive, vêm se recusando a transportar pacientes com Covid-19 por conta do risco de contágio.

Na UTI aeromédica, há todos os equipamentos que uma UTI hospitalar possui. Todos os voos são feitos com um médico intensivista e um enfermeiro especializado. Se o paciente de Covid-19 embarcar respirando e, durante a viagem, enfrentar problemas de respiração, ele é entubado durante a viagem.

Caso o estado de saúde se agrave com risco iminente de óbito, o piloto decide se volta para a cidade de origem ou se faz um pouso de emergência no aeroporto mais próximo. Segundo todas as empresas consultadas, no valor cobrado pelo transporte aéreo dos doentes estão inclusos os transportes em ambulâncias do hospital de origem em Belém até o avião e do avião em solo paulistano até o hospital onde o paciente será internado. No voo é possível levar até dois acompanhantes.

O médico intensivista César Collyer atua na linha de frente no combate ao coronavírus em Belém no Hospital Ophir Loyola. Pertencente à rede estadual, a entidade é especializada em câncer, mas as 30 UTIs do hospital estão abarrotadas de pacientes com Covid-19.

“Nunca vi nada igual em meus 20 anos de carreira. Ontem, um médico da minha equipe morreu contaminado por esse vírus. Estamos esgotados fisicamente e psicologicamente. Me sinto com as mãos atadas por ver pessoas morrendo todos os dias sem ter o que fazer”, desabafa. “Quem tem dinheiro tem mais que procurar atendimento fora de Belém porque a rede particular também está colapsada”, avisa.

O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho (PSDB), também aconselha os ricos a procurarem tratamento fora da cidade que administra, pois a situação no Pará está num nível de colapso nunca visto antes. Ele diz que nunca viu nada parecido em 40 anos de vida pública.

“Aqui, a situação é dramática. A população não deu muita bola para a pandemia. As feiras e os supermercados ficam lotados no fim de semana. Nos bairros mais populares, as pessoas vão para ruas e fazem aglomerações sem usar máscara. O paraense não acredita no que vê na TV todos os dias. Parte da população também sai de casa porque precisa trabalhar para sobreviver”, avalia o prefeito.

Ele também atribui o pouco caso dos paraenses em relação à pandemia às fake news disseminadas na internet. “Muita gente não acredita no avanço da doença porque se informa nas bobagens publicadas em redes sociais”, conclui. Ele diz que entende que os ricos estejam procurando tratamento em outros estados. “Os muito ricos vão para onde tem as melhores tecnologias. Isso é uma evidência de que a rede privada no Pará também saturou”, diz o prefeito.

Ricos e pobres do Pará costumam recorrer a Nossa Senhora de Nazaré para alcançar a cura de doenças graves, como câncer. No dia do Círio, no segundo domingo de outubro, os fiéis costumam pagar pelas graças alcançadas ao longo do ano.

Em 2020, os promesseiros poderão não ter como quitar a dívida com a Santa. Como o Círio de Nazaré se constitui na maior aglomeração de gente – a procissão do ano passado reuniu mais de 2 milhões de pessoas – não há a menor possibilidade de a festa religiosa ser realizada daqui a cinco meses, conforme o previsto.

A Igreja Católica, que organiza o evento, ainda não sabe como comunicar esse fato aos seus fiéis. Duas cerimônias concorridas (a apresentação do cartaz do Círio e o ritual de descer a imagem de Nossa Senhora do altar-mor no mês de maio) serão feitas virtualmente até o fim de maio.

No entanto, noventa por cento das reservas feita para o período da festa foram canceladas, segundo o Sindicato dos Hotéis do Pará. Esse dado indica uma evasão em massa dos turistas. “Pelo andar da carruagem está bem difícil ter Círio em 2020. Embora eu seja o prefeito da cidade e devoto de Nossa Senhora de Nazaré, vou deixar a decisão pelo cancelamento ou por um possível adiamento para a Igreja Católica”, diz o prefeito. “Mas, pelo caminho que estamos seguindo com essa pandemia, não vejo cenário para uma aglomeração de centenas de milhares de pessoas nas ruas. Não vislumbro a possibilidade de haver Círio”, avisa.

O arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira Correa, presidente do Círio de Nazaré, ficou irritado quando se cogitou o cancelamento da festa religiosa. “Estamos mantendo todo o calendário do Círio. No momento oportuno eu anuncio se vai ter Círio ou não ou se ele será adiado, suspenso ou mesmo cancelado. Por ora, estamos trabalhando com todas forças para fazer uma festa bonita para os paraenses. Mas vamos procurar as autoridades para decidirmos juntos”, ponderou.

Como os fiéis atribuem a Nazaré curas milagrosas, um padre de Belém pegou a imagem de Nossa Senhora usada no Círio e fez um sobrevoo de helicóptero pela cidade no início de abril, na tentativa de se alcançar um novo milagre: exterminar o coronavírus da maior metrópole da Amazônia e, sem ele, conseguir uma autorização sanitária para realizar o Círio. Até agora, não deu certo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE MAIO

JESUS, A PORTA DAS OVELHAS

Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagens (João 10.9).

Os pastores orientais guardavam seus rebanhos em apriscos, lugares seguros em tempos de frio. Mas nas noites quentes de verão ficavam nas campinas protegendo seus rebanhos dos animais predadores. As ovelhas eram reunidas em apriscos improvisados e os próprios pastores funcionavam como a porta de entrada para as ovelhas nesse redil. É nesse contexto que Jesus afirma ser a porta das ovelhas. Essa metáfora sugere-nos três verdades: Primeira, Jesus é a porta da salvação. Se alguém entrar por mim será salvo… Não há salvação fora de Jesus. Ele é o caminho para Deus, a porta da salvação. Ninguém pode chegar a Deus por suas obras, nem mesmo por sua religiosidade. Somente Cristo é a porta. A segunda verdade: Jesus é a porta da liberdade. Ele disse: … [por mim]… entrará, e sairá… Muitas portas conduzem ao cativeiro e à escravidão. São portas largas e espaçosas, mas desembocam em becos estreitos e escuros que levam a masmorras insalubres. Aqueles que entram por essas portas não conseguem sair. Tornam-se prisioneiros do pecado, dos vícios, das muitas paixões mundanas. Jesus, porém, é a porta da liberdade. A terceira verdade: Jesus é a porta da provisão. … e achará pastagens. Jesus é a própria provisão das ovelhas. Ele veio para que suas ovelhas tenham vida, e vida em abundância. Nele você encontra paz, descanso, direção, proteção, vitória e companhia eterna.

GESTÃO E CARREIRA

FRANGO SEM ESTRESSE

De uns tempos para cá, muito se fala em processos produtivos sustentáveis, com uso de energias limpas e renováveis, que protejam os recursos naturais necessários para a manutenção da vida na Terra. Dentro dessa nova mentalidade, até mesmo a forma de criar animais para abate passa por mudanças. A Netto Alimentos, empresa paulista especializada em ovos, com fábricas em Araçariguama e Iacri, no interior do Estado, embora não tenha granja própria, tem certificação para atuar dentro das normas do modelo cage free, que é a criação de galinhas fora das pequenas gaiolas. Além de ser cruel, o confinamento em gaiolas prejudica a qualidade, pois o estresse causado pelo aperto e pela temperatura ambiente contribui para que as aves botem ovos de cascas finas com presença de trincas, o que não é normal. A certificação é feita dentro do programa Certified Humane, cujos padrões são estabelecidos pela Humane Farm Animal Care (HFAC), que exige biosseguridade na granja, proibição do uso de antibióticos preventivos, entre outras medidas. A política da Netto Alimentos segue uma tendência mundial. Os ovos são comprados de granjas certificadas, o que garante completa rastreabilidade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA ETERNA REUNIÃO

O uso maciço da videoconferência – sobretudo como ferramenta de trabalho – começa a provocar um tipo particular de esgotamento mental que já tem até nome: Zoom fatigue

É provável que nunca tantos tenham ficado tão próximos mesmo estando distantes. O motivo para esse paradoxo, claro, é a pandemia do novo coronavírus – que, de resto, vem virando de cabeça para baixo outras incontáveis facetas da vida social. Mas é verdade que tecnologia como a da videoconferência – que permite vizinhança na distância – não surgiram com a Covid-19, foi devido à sua propagação, e à necessidade de isolamento social para contê-la, que tais ferramentas explodiram mundo afora.

Em poucos meses, aplicativos mais antigos como Skype e Hangouts, e o novato Houseparty e Zoom, transformaram-se em acessórios indispensáveis para o dia a dia – seja para permitir que parentes e amigos joguem conversa fora, seja, sobretudo, para viabilizar a prática de home office e do ensino a distância compulsório. Não sem cobrar um alto preço – e, isso, insista-se, em um período reduzidíssimo de tempo. O preço: um inédito cansaço mental – que já ganhou até nome (em inglês): Zoom fatigue.

Do que se trata? O termo, que, num primeiro momento, faz menção a um dos mais populares aplicativos de videoconferência, revela uma fadiga, como o próprio nome indica, a que o cérebro se vê submetido após uma sucessão de sessões diante da tela. O fenômeno se dá em especial no caso do trabalho remoto. Com o contato presencial anulado, a necessidade de chamada para novas interações cresce, fazendo com que, no fim do expediente, a pessoa sinta como se houvesse passado o dia em uma longa e interminável reunião.

Para os estudiosos do comportamento humano, o esgotamento pode ser explicado com facilidade. Durante um diálogo, o cérebro não se concentra apenas nas palavras. Ele recolhe – como se fizesse, digamos, um “zoom” – significados adicionais a partir de dezenas de sugestões não verbais como olhares, movimentos do corpo é até a frequência respiratória. Essas manifestações ajudam a criar uma percepção holística do que está sendo transmitido e do que é esperado em resposta do ouvinte. “Como somos animais sociais, perceber essas pistas no contato direto é natural, requer pouco esforço cognitivo e pode estabelecer as bases para relações mais intimas como a amizade”, afirma o psicólogo carioca Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Uerj. “Contudo, no caso de uma chamada de vídeo, essa habilidade é parcialmente prejudicada”, explica ele. “Além disso, a imagem da galeria onde todos os participantes da reunião aparecem desafia a visão central do cérebro, forçando-o a decodificar tantos indivíduos simultaneamente que nada é absorvido de maneira significativa, o que gera tensão e stress.”

Outro problema são os travamentos e dessincronias que ocorrem durante as chamadas. Segundo um estudo feito por acadêmicos alemães em 2014, um pequeno intervalo de 1,2 segundos entre a voz e a imagem é capaz de trazer à mente, com maior frequência, a impressão de que a outra pessoa é menos amigável ou está desatenta à conversa. Nesse sentido, até a ligação telefônica tradicional parece ser menos cansativa para o cérebro, o que recomenda fortemente seu uso – aliás, retomado com força nestes dias de surto epidêmico.

É possível que em algum momento surjam recursos que atenuem o cansaço mental que as videochamadas têm provocado. Ou que acabemos nos acostumando com ele. Até lá, se a Zoom fatigue bater, e houver oportunidade, desligue a câmera. E desligue-se um pouco.

EU ACHO …

O QUE OS DADOS REVELAM NO MUNDO PÓS-PANDEMIA?

Fomos dormir e acordamos imersos em uma crise que fez o mundo mudar totalmente. De uma hora para outra, o home office foi implementado de maneira forçada, ferramentas tecnológicas foram adaptadas às pressas e até o conceito de telemedicina foi autorizado de forma provisória.

A transformação digital chegou antes do planejado à maioria das organizações, traçando novos rumos e direções. O coronavírus foi um acelerador desse movimento e as empresas precisaram sentir na prática como a tecnologia pode ser um trunfo para salvar os negócios. O mundo pós-pandemia vai trazer uma nova realidade em todos os aspectos, principalmente nos negócios – que se tornarão mais digitais e, certamente, usarão dados para sobreviver.

O isolamento social mostrou que muitas empresas não sabiam lidar com o mundo digital. Os colaboradores precisaram trabalhar remotamente, mas todos os insumos e dados necessários para manter o negócio rodando estavam presos ao escritório. Agora é preciso acessar os dados em qualquer local e processá-los rapidamente para manter a competitividade em um cenário cheio de incertezas. Mais do que nunca torna-se imprescindível o uso de ferramentas em cloud computing. As corporações que melhor se adaptaram são as que já utilizavam essas soluções.

Dados podem impactar a vida de todas as pessoas. No início da quarentena foi possível perceber uma queda de 33% no deslocamento das pessoas para os locais de trabalho no Paraná, segundo o Google.

Como isso foi possível? A partir da captura de informações de utilização dos smartphones. Ou seja, informações digitais. Uma enorme quantidade de dados é gerada e compartilhada diariamente em todo o mundo. No caso da pandemia há diversos conteúdos e análises que podem ser obtidas, como a eficácia do isolamento social e até a evolução de disseminação da Covid-19. São informações que precisam ser capturadas, armazenadas e processadas para gerar inteligência. Trabalhar com dados é, enfim, uma questão de sobrevivência. Dessa forma, o cenário atual traz uma reflexão importante para o mundo corporativo: dados certos são diferenciais importantes para a tomada de decisão. Seja para identificar o avanço da doença provocada pelo novo coronavírus ou para identificar tendências em um segmento, é preciso ter essas informações em mãos para obter inteligência competitiva. Em suma: é preciso adotar uma cultura data driven, com decisões baseadas em dados.

Evidentemente há desafios importantes neste novo momento. As empresas precisam lidar com uma grande quantidade de dados não estruturados – e é neste ponto que entram as soluções de Big Data Analytics. É necessário apostar na contratação de profissionais que conseguem extrair valor dessas informações. Por fim, reconhecer que a crise provocada pelo novo coronavírus exige a transformação e até a criação de muitos modelos de negócios – o que só é possível a partir dos dados.

Estar atento a essas informações para tomar decisões estratégicas, lançar novos serviços e produtos e aprimorar a comunicação com os consumidores são tópicos que irão se impor na pauta de toda empresa nos próximos meses. Os dados serão os grandes responsáveis pelo sucesso de qualquer negócio.

O mundo pós-pandemia será bem diferente de tudo o que já vivemos e a tecnologia vai desempenhar um papel central nas relações sociais. As empresas de todos os portes deverão passar por uma mudança cultural e estarão mais atentas a momentos de crise. Sem dúvida, vão dar mais atenção a seus dados e onde eles ficarão armazenados. Usarão informações lapidadas para a tomada de decisão e estarão em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrará em vigor em 2021. Já passou da hora de andarmos duas casas para frente. Os dados mostraram o caminho.

* ALESSANDRA MONTINI – é diretora do LabData, da Fundação Instituto de Administração (FIA)

OUTROS OLHARES

TELEMEDICINA DO BEM

Projeto de atendimento médico remoto envolve 10 mil profissionais de 800 especialidades e ajuda a desafogar os serviços presenciais de saúde

O atendimento médico convencional se dá de forma direta, olho no olho, envolve um dedo de prosa e há um contato físico do profissional com o paciente. Mas esse contato virou coisa do passado e uma nova forma de consulta está ganhando espaço: a telemedicina ou medicina à distância. Por causa da crise pandêmica, que motiva uma prolongada quarentena, a partir de agora os pacientes terão que se adaptar a um modelo de atendimento remoto.

Diante dessa tendência, a corretora de seguros Wiz Soluções, através de sua plataforma Dr. Wiz, desenvolveu um grande projeto chamado Corrente do Bem, que reúne mais de dez mil profissionais de 800 especialidades dedicados à telemedicina. Segundo o CEO da Wiz Soluções, Heverton Peixoto, esse movimento veio para ficar. “É uma nova mentalidade, oferecemos um diferencial aos nossos clientes e nos tornamos socialmente mais responsáveis”, afirma. A gestora da plataforma Dr. Wiz, Francesca Bianco, que comanda a divisão de saúde da empresa, explica que os clientes da corretora agora podem disponibilizar esse serviço para seus funcionários. “O que fazemos é a intermediação entre nossos clientes e os serviços médicos”, diz.

NOVO REGULAMENTO

“Mais de 90% dos casos clínicos podem ser resolvidos por telemedicina”, afirma o cardiologista Guilherme Weigert, que dirige a Conexa, empresa que reúne médicos dedicados às consultas digitais e participa da Corrente do Bem. Segundo ele, o atendimento digital pode substituir a consulta presencial, pois a quase totalidade dos casos podem ser entendidos pela anamnese, a entrevista que o profissional de saúde faz com o paciente para compreensão de seu estado clínico.

Diante da emergência do coronavírus, um novo regulamento de telemedicina foi aprovado, em 31 de março, pelo Senado, para aliviar os serviços de saúde presenciais. A intenção é diminuir a quantidade de pessoas com problemas menos complexos nos hospitais. Essa forma de atendimento e o envolvimento das empresas com esses serviços não é uma obrigatoriedade, mas sim uma possibilidade que deve crescer. O uso desse instrumento médico já existe desde 2002, mas só teve mais relevância a partir de 2018, com mais de 90 mil atendimentos em todo Brasil, diz Weigert.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE MAIO

CORRUPÇÃO, A CULTURA DA EXPLORAÇÃO

… porque os juízes vendem o justo por dinheiro… (Amós 2.6b).

Desde que o Brasil foi descoberto pelos nautas portugueses, instalou-se nesta terra uma cultura da exploração. Nossos colonizadores não vieram para investir sua inteligência na construção de uma grande nação, mas para extrair nossas riquezas e enviá-las à Europa. A atitude de levar vantagem em tudo e tirar proveito de toda e qualquer situação tornou-se endêmica. Embora o Brasil seja a sexta economia do planeta, ainda há grandes bolsões de miséria tanto nas regiões suburbanas como nas regiões rurais. Somos uma nação rica de recursos naturais. Temos a maior reserva florestal do mundo e o maior potencial hidrográfico do planeta. Temos um solo fértil e um clima favorável. Contudo, a despeito de tantas vantagens, temos uma classe política que, com raras exceções, se empoleira no poder apenas para desfrutar do erário público. Homens de colarinho branco, com muito poder nas mãos, mas sem nenhum compromisso com a ética.

Homens que amam o poder, mas não o povo. Homens que amam o lucro desonesto, mas não o trabalho honrado. Homens que exploram a nação em vez de servi-la com patriotismo. Os escândalos financeiros se multiplicam nos altos escalões dos governos federal, estadual e municipal. Mudam-se os governantes e trocam-se os partidos políticos, mas a corrupção continua. A única solução para a nação brasileira é uma volta para Deus e uma conversão de seus maus caminhos!

GESTÃO E CARREIRA

ACOLHIMENTO E INOVAÇÃO

Preocupada com a criatividade e a responsabilidade social, a Danone aposta em programas e práticas que estimulem a inclusão e a colaboração

Nascida em 1972, a francesa Danone, gigante mundial do setor de laticínios, é tão famosa que sua marca virou sinônimo do principal produto que fabrica. Globalmente, a organização está presente em mais de 120 países. No Brasil há 49 anos, a empresa possui três divisões de negócios: lácteos e bebidas à base de vegetal; nutrição especializada; e águas. Com sete fábricas no país e uma sede corporativa, a companhia emprega 4.500 funcionários. O quadro já foi maior, mas, nos últimos quatro anos, a Danone enxugou o número de empregados em 10% – consequência da crise econômica que atingiu em cheio o consumo dos produtos comercializados pela multinacional. Neste ano, no entanto, a organização espera uma retomada do crescimento, com a meta de elevar de 5% a 10% as vendas. Para conquistar o objetivo, aposta em novos artigos, como bebidas lácteas proteicas, chás e refrigerantes.

1. ESTRUTURA HÍBRIDA

Apesar de a empresa ter organograma tradicional, os métodos ágeis e os squads já aparecem. As áreas de inovação e desenvolvimento de produtos, por exemplo, trabalham nos novos modelos. Além disso, há treinamentos internos sobre esse estilo de gerenciamento – 20 empregados são multiplicadores.

2. BEBÊ A BORDO

Funcionárias com filhos de até 1 ano que precisem viajar a trabalho podem levar junto o neném e um acompanhante – tudo pago pela companhia. Os homens têm direito a 20 dias de licença – paternidade, e as mulheres, a seis meses. E esses períodos se aplicam também aos casais homoafetivos que adotem uma criança.

3. RESPONSABILIDADE SOCIAL

A Danone tem vários projetos sociais. Um deles ocorre em Poços de Caldas (MG), município em que está a principal fábrica da empresa. Em parceria com a Secretaria do Bem-Estar Social da cidade e com o núcleo de psicologia da faculdade Pitágoras, a companhia oferece cursos a mulheres em situação de vulnerabilidade.

4. NO ESCURO

Com o objetivo de aumentar a diversidade entre os estagiários, a Danone usa chatbots para recrutar às cegas nas primeiras fases do processo seletivo. O nome da faculdade e o gênero dos candidatos não aparecem.

5. CAPACITAÇÃO EXTERNA

A companhia tem um programa nacional para capacitação de PCDs que não trabalham na empresa – 500 pessoas já se formaram nos últimos três anos. Após os treinamentos, o currículo dos participantes é colocado à disposição de empresas parceiras.

6. MAIS MULHERES

A Danone exige que pelo menos uma candidata seja mulher na última etapa do processo seletivo. Hoje, 46% dos cargos de liderança são preenchidos por gestoras. E elas são 52% das novas contratações para a fábrica de Poços de Caldas.

7. ATENDIMENTO DIGITAL

Para resolver assuntos de gestão de pessoas e facilitar o dia a dia dos funcionários, existe a Nina, uma inteligência artificial. Ela soluciona dúvidas simples de RH e faz cobranças aos funcionários. É a Nina, por exemplo, que relembra os prazos para envio de relatórios e feedbacks.

8. AO LADO DAS STARTUPS

A divisão de produtos nutricionais lançou um desafio para que startups desenvolvessem novos produtos, serviços ou tecnologias. A iniciativa é feita com a Innoscience (consultoria de gestão de inovação) e com a Startse (plataforma de empreendedorismo). Foram 89 startups inscritas, 18 pré­ selecionadas e três terão seus projetos adquiridos.

9. ALTO E CLARO

Mesmo na crise, a companhia não deixa de comunicar os resultados. Há falas mensais da diretoria e da presidência transmitidas ao vivo. a mensagem fica gravada e disponível a todos.

10. AUTONOMIA PARA INOVAR

Quinzenalmente, ocorrem reuniões para que os funcionários sugiram inovações. a participação é voluntária. Numa dessas conversas, surgiu a ideia do YOPRO, um iogurte UHT com alto teor proteico. O insight não veio da criação, de onde partiria originalmente, mas da área de qualidade.

PALAVRA DA EMPRESA

“Quando alguém entra na Danone recebe uma folha em branco na qual escreve sua história, influenciando o resultado da empresa e propondo novos projetos”

VAGAS

Cerca de 400 até o fim de 2020. É essencial que os candidatos saibam trabalhar colaborativamente e sejam inclusivos. Ter empatia e adaptar-se com agilidade são diferenciais.

SITE PARA ENVIAR CURRÍCULO

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A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PODER DA COLABORAÇÃO

A tendência de julgarmos a criatividade de maneira que reflita nossa identidade no grupo ajuda a explicar o preconceito de gênero e racismo – embora não sirva para justificá-los

Há quase 50 anos, o psicólogo Irving Janis, pesquisador da Universidade Yale, defendeu a ideia de que o desejo de se adaptar colabora com a tomada de decisões inconvenientes e a falta de pensamento crítico, um fenômeno chamado de pensamento coletivo, que ele considerava a antítese da criatividade. Ou seja: a dinâmica grupal pode, em muitos casos, favorecer escolhas irracionais, o apoio cego a propostas pouco inteligentes.

Normas grupais influem em formas de pensar. Por exemplo, pintores cubistas podem usar figuras geométricas abstratas de acordo com os costumes da técnica. Mas nem tudo está perdido: essa é apenas uma parte do cenário. A obra de nosso artista hipotético provavelmente terá características que a diferenciam das demais, como dimensões, cores ou temas não restritos ao estilo.

Discussões com amigos, colegas ou pares podem favorecer novas ideias – desde que se esteja disposto a refletir sobre outros pontos de vista. A psicóloga Vera John-Steiner, da Universidade do Novo México, diz em seu livro Creative collaboration (2000) que pequenos grupos, como os Beatles, Bauhaus ou Bloomsbury, frequentemente produziam músicas de vanguarda ao ressaltar as ideias uns dos outros enquanto procuravam alternativas para resolver problemas artísticos, teóricos e práticos.

Solidariedade e coesão são essenciais para favorecer o progresso dos movimentos criativos porque permitem que os pares apoiem uma iniciativa compartilhada. Exploramos essa ideia em um estudo. Pedimos a pequenos grupos de universitários que participassem do processo de planejamento (simulado) da construção de uma inovadora creche municipal. Antes, porém, algumas equipes passaram por um procedimento que as estimulou a um forte senso de identidade social compartilhada, enquanto outras foram incentivadas a pensar em si mesmas individualmente. Depois, as equipes se reuniram outras três vezes, por aproximadamente uma hora e meia, para discutir o empreendimento fictício, que passou por dificuldades de montagem. Os custos trabalhistas aumentaram e havia necessidade de um estudo de impacto ambiental. Descobriram que a caixa de areia das crianças continha traços de elementos tóxicos e muitos pais ameaçavam processá-los. As autoridades adiavam a aprovação do edifício.

Observamos que aqueles que inicialmente desenvolveram uma identidade compartilhada permaneceram otimistas sobre o projeto e continuaram a apoiá-lo, mesmo nos momentos difíceis. Os que foram persuadidos a pensar individualmente perderam o entusiasmo e cada vez mais consideravam abortar o empreendimento. Em outras palavras, a identidade social (mas não a pessoal) reforçou o interesse e encorajou os participantes a encontrar soluções criativas diante dos desafios. De maneira geral, os resultados indicam que precisamos de senso de identidade social compartilhada para buscar estratégias originais e concluir projetos inovadores – seja na ciência, na tecnologia, nas artes ou na política.

Além disso, comprometer-se solidamente com o grupo não nos torna cegos para suas falhas. De fato, o oposto parece acontecer mais frequentemente. Quando as normas são prejudiciais, os membros mais empenhados costumam debater e renegociar as regras.

Os psicólogos Dominic Packer e Christopher Miners, respectivamente pesquisadores das universidades de Queen, em Ontário, e Lehigh, desenvolveram um estudo no qual pediram a alguns alunos que escrevessem uma declaração de abertura antes de uma reunião de que participariam para discutir o uso de álcool com seus pares, focando o aumento do consumo em festas. Os pesquisadores observaram que, quanto mais se identificavam com o grupo, mais propunham soluções criativas para o problema, possivelmente porque sentiam maior responsabilidade ou acreditavam ser mais capazes de provocar transformações. Os dados apontam que a coesão grupal pode ajudar a estimular ideias criativas que levam a mudanças, desde que as pessoas se mostrem abertas à reflexão.

EU ACHO …

EPIDEMIA DE LIVES

Na era do coronavírus, é impossível fugir e não se viciar nelas

O país passa por uma horrível epidemia de coronavírus. Um dos efeitos colaterais é a epidemia de lives. Todo mundo está fazendo uma live ou sendo convidado para uma. Eu mesmo já falei sobre o amor para a live de um terapeuta. Se pudesse dar conselhos a respeito desse tema, não teria namorado, casado, brigado, separado e me apaixonado novamente tantas vezes. Não vou entrar em detalhes, porém meu currículo é extenso. Mas lá estava eu, com a face plácida de um buda, dizendo: “Amor exige entrega…” e outras amenidades do tipo. Já fiz outra, para o @institutodeleitura – quindim, que é muito sério. Entrevistado pelo Roger Mello, autor premiadíssimo. Contei: “Eu me apaixonei pela leitura quando conheci os livros de Monteiro Lobato, aos 11 ou 12 anos…”. Linda história, estimulante. Verdadeira. Mas já a relatei no meu livro Em Busca de um Sonho. Discorro em toda entrevista, palestra, sobre o estímulo à leitura. É importante dar o testemunho pessoal. Dali a alguns dias estava contando a mesma história na live da Márcia Goldsmith (@marcia. golds). Sigo contando live após live, porque uma pergunta recorrente é como me transformei em escritor. Eu fico até cansado de mim mesmo!

lives maravilhosas nas quais os artistas oferecem seu talento. Meu amigo @ivam_cabral, do grupo de teatro paulistano Satyros, apresenta uma peça, assim como outros atores. Artistas como Ivete Sangalo e Alok fizeram lives inesquecíveis. A da Ivete de pijama foi um alívio para preguiçosos como eu. Não é preciso nem se arrumar para a live! Não tenho pijama bonito como aquele da Ivete, mas uma camiseta preta já resolve. A própria televisão incorporou as lives.

Nunca fui de ter intensa vida social. As lives se tornaram algo parecido. Tem de ter compromisso, horário, estar feliz e bem-disposto. Live toma tempo, nem que seja de conversa fiada. Mas me rendi. Resolvi fazer a minha. Achei mais fácil que entrar nas dos outros. Convidei a atriz @ flaviaalessandra, que está no ar na reprise de Êta Mundo Bom!, novela da Globo. Foi complicado no início, porque ela não conseguia fazer a conexão comigo. Tive vontade de rosnar. Mas exercitei minha simpatia, falando sobre coisa nenhuma. Sorri tanto que fiquei com o queixo dolorido. Finalmente ela entrou, e falamos sobre nossa amizade, nossas novelas, a vida artística, até que… Bem, minha imagem sumiu. Jamais entenderei por quê, mas desapareceu. Entrou a imagem de um caracol rosado no lugar. Tentei ajustar, mas não sou bom em questões tecnológicas. O caracol permaneceu. Flávia continuou falando com o caracol… Foi simpaticíssima. É uma atriz, então não deve ter sido difícil. Ainda bem, o caracol não saiu até o fim da live!

Mas confesso, fui contagiado. Continuei fazendo, com a Mariana Ximenes (@marixioficial), com amigos… Descobri que na live posso dizer coisas que são realmente importantes para as pessoas. Por exemplo, a necessidade de formação do ator, do autor… Agora todo dia tem live, e os amigos também… Quando esta quarentena acabar, vai ser difícil retornar às atividades normais. Meu tempo já estará todo tomado pelas lives!

*WALCYR CARRASCO

OUTROS OLHARES

AGORA NÃO, CRIANÇAS

Com escolas e creches fechadas, e os filhos dentro de casa, pais cortam um dobrado para conseguir dar conta das tarefas profissionais no ambiente doméstico durante a quarentena

Faz um mês e meio que Benicio, de 6 anos, e as gêmeas Joana e Laura, de 3, não põem os seus pezinhos na escola paulistana em que costumavam passar quase onze horas por dia, enquanto os pais, Mathias D’Onofrio e Juliana Magoga Pereira, trabalhavam – ele, como gerente de um banco estrangeiro, e ela na mesma função numa multinacional do setor farmacêutico, o que lhe exigia viagens constantes. A mudança começou quando as medidas de distanciamento social se tornaram mais rígidas. As aulas foram suspensas, mas, por sorte, o casal havia programado férias antes da pandemia e conseguiu contornar a situação nesse período. Depois, veio o baque: com Mathias de volta ao expediente fora de casa, como dar conta do trio de traquinas agora confinado, mesmo estando Juliana acostumada ao home office.

De uma hora para outra, milhões de famílias, mundo afora, se viram diante de tal tipo de dificuldade: conciliar tarefas profissionais com a atenção aos filhos no ambiente doméstico. “No início foi complicado. As crianças não entendiam o porquê de eu estar em casa e não poder ficar 100% disponível para elas”, relata Juliana. “A saída foi mudar a rotina. Hoje acordo mais cedo para adiantar algumas atividades. E temos novos hábitos, como tocar teclado em família, que se tornou uma terapia para nós”, diz ela. Naturalmente, o surto do novo coronavírus não inventou o sistema de home office – menos ainda a inquietação típica de quem está na infância. Embora as duas coisas jamais houvessem se encontrado de forma tão desconcertante como no atual surto, os percalços para equilibrar o ofício com rebentos entre quatro paredes já tiveram até seu “momento meme”. Em 2017, Robert Kelly, analista político americano, falava ao vivo no canal de TV da rede inglesa BBC, diretamente da Coreia do Sul, onde vive com a mulher e um casal de filhos, quando a dupla invadiu o cômodo no qual ele se encontrava. Kelly ainda tentava afastar a menina na hora em que a esposa, atônita, surgiu ao fundo, correndo, para conter o garoto. A confusão foi tamanha que a transmissão acabou interrompida. O vídeo viralizou, acumulando quase 40 milhões de visualizações. Comentando, recentemente, em entrevista à BBC – ao lado de toda a família -, o trabalho na quarentena sul-coreana, o analista reconheceu: “Tem sido difícil ficar em casa. Estamos sempre brigando com nossos filhos. Eles não têm nada para fazer, então estão quase subindo pelas paredes”. E completou: “Por isso me sinto feliz com o fato de o isolamento estar sendo afrouxado. Vamos poder levá-los para fora, a fim de que gastem um pouco de sua energia”.

Bem, e até lá? Tome-se o caso do Brasil, que nem de longe poderia pensar em abandonar a quarentena de imediato. Aqui, cerca de 60% dos trabalhadores migraram para o home office desde a eclosão do surto de Covid-19, de acordo com um levantamento feito pela Hibou, especializada em pesquisas. E dá para fazer as tarefas sossegado? “Para que alguém trabalhe em casa, é preciso que se tomem várias providências prévias”, explica Max Gehringer, consultor de carreiras e autor de diversos livros sobre essa área. “É importante ter um local que permita concentração, e também o entendimento, por parte da família, de que a pessoa trabalhando em casa está em horário de expediente, indisponível para demandas domésticas.”

Às vezes, nada parece funcionar. Para o economista inglês Nicholas Bloom – que em 2015 publicou um estudo em que mostrava que os empregados de um call center chinês que trabalhavam de casa eram 13% mais produtivos do que os que iam à empresa -, não adiantou sequer trancar o escritório durante reuniões on-line. Um dia, sua filha pequena, frustrada por não poder interagir com o pai, quis entrar de todo jeito. “Tive de continuar como se não estivesse ouvindo nada, torcendo para que ninguém conseguisse ouvir os gritos dela”, conta Bloom.

Segundo o psicobiólogo Ricardo Monezi, especialista em medicina do comportamento na PUC-SP, é fundamental que, diante da fase inusitada pela qual passa a humanidade, os pais não cobrem demais de si mesmos nem dos filhos; procurem dialogar com eles; e, acima de tudo, aproveitem ao máximo a inesperada proximidade entre os membros da família trazida pela pandemia. “Não há dúvida de que esta é uma chance incomum para que pais e filhos se conheçam melhor e aprendam mais uns sobre os outros”, afirma ele.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE MAIO

QUE FAREI PARA HERDAR A VIDA ETERNA?

… Senhores, que devo fazer para que seja salvo? (Atos 16.30b).

Paulo e Silas estavam presos em Filipos, depois de terem sido açoitados em praça pública. Com os pés amarrados no tronco e o corpo ensanguentado, esses dois obreiros de Deus, foram jogados no interior de uma prisão imunda, entre criminosos de alta periculosidade, por terem sido instrumentos de Deus na libertação de uma jovem endemoninhada. Longe de lamentarem aquela injusta situação ou reivindicarem seus direitos como cidadãos romanos, resolveram orar e cantar louvores a Deus à meia-noite. Esse fato incomum chamou a atenção dos outros prisioneiros. Todos ouviam atentos esse testemunho extraordinário. Deus atendeu às suas orações e agradou-se do seu louvor, enviando um terremoto para abrir as portas da prisão e abalar o carcereiro. Responsável pelos prisioneiros e temeroso de que tivessem fugido, puxou a espada para se matar. Nesse momento, Paulo gritou, ordenando-lhe que não fizesse nenhum mal a si mesmo. O homem trêmulo, arrastando-os para fora da prisão, dobrou-se diante dos mensageiros de Deus e perguntou: Que devo fazer para ser salvo? Paulo prontamente respondeu: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa. A salvação não é resultado das obras, mas da fé. Não é consequência do mérito, mas expressão da graça. A salvação pode ser recebida agora, e não apenas no futuro. Mesmo sendo individual, pode ser desfrutada por toda a família. Você já foi salvo por Jesus?

GESTÃO E CARREIRA

BRINCADEIRA DE SUCESSO

Após conquistar o público infantil no YouTube, o Totoykids, lançado em 2014 por um casal de mineiros, expande os negócios e desponta como um dos gigantes do segmento

Com 7 bilhões de views só em sua versão na língua portuguesa e um público estimado em 27 milhões de fãs, distribuídos por 48 países, o canal brasileiro no YouTube Totoykids, voltado para o entretenimento infantil já vinha sendo considerado um dos negócios mais bem sucedidos do site de vídeos de propriedade do Google – vale dizer, do mundo virtual. Na virada de 2019 para 2020, no entanto, o empreendimento anunciou que começaria a se expandir também para o, vá lá, mundo real”. O modelo é semelhante ao que foi adotado por gigantes do porte da Galinha Pintadinha. A ideia, ambiciosa, é montar um império baseado não só nos vídeos, mas também em roupas, bonecos, livros – enfim, tudo o que possa atrair a garotada pela força da marca.

Criado no ano de 2014, em Nova York, pelo casal de mineiros Isa Vaal, de 38 anos e André Vaz, de 40, o Totoykids que conta com 27 milhões de inscritos, conquistou os pequenos espectadores levando ao ar histórias protagonizadas por brinquedos e personagens autorais interpretados pela dupla. “À primeira vista; a fórmula pode parecer comum”, admite Vaz.

“Nosso diferencial é que decidimos tomar cuidado redobrado com o conteúdo em si escapando do vício frequente de querer apenas divertir as crianças. Nosso trabalho inclui uma pegada educativa”, diz ele. Resultado financeiro da estratégia: rendimento mensal em torno de 100.000 reais, tão somente com os anúncios vinculados aos vídeos do canal em português (há versões das produções também em inglês e espanhol). Os lucros devem dar um salto considerável com o lançamento, nos próximos meses, de uma linha de itens licenciados que abarcará cinco áreas: além de investirem na editorial, na de brinquedos e na de vestuário, Isa e Vaz apostam no setor alimentício e no de material escolar.

A origem do Totoykids remonta a uma fase de descontentamento do casal. Em 2013, desmotivados com suas respectivas profissões, Vaz, que é advogado, e Isa, psicóloga, decidiram mudar de ares e foram para os EUA.  Aintenção era investir na carreira de ator, no caso dele, e de roteirista no dela. Enquanto fazia um curso na atividade em que procurava se firmar, Isa resolveu trabalhar como babá. Na rotina com as crianças, notou quanto elas, mesmo ainda muito pequenas, se entretinham com smartphones e tablets – comportamento, aliás, que parece estar em todos os lares. “Mas a maioria das produções era de qualidade duvidosa, com a única intenção de viciar os olhinhos, satisfazendo aqueles pais que adotaram o hábito de colocar os filhos em frente às telas para ganhar uns minutinhos de tranquilidade”, conta Isa. “Faltavam vídeos que realmente estimulassem o público infantil, exercitando habilidades que são construídas nessa fase da vida.

Foi assim que, no ano seguinte, o casal decidiu montar o Totoykids. Para tanto, apoiou-se justamente na habilidade dela para o roteiro e na dele para a interpretação (Vaz estava cursando artes cênicas). Em seis meses de operação, com publicações semanais, alcançaram 500.000 inscritos no YouTube. A guinada de crescimento foi tamanha que um representante do próprio site de vídeos entrou em contato para saber quem estava por trás do empreendimento. Ao descobrir que não se tratava de uma companhia especializada e sim de um casal de amadores, a empresa americana listou o Totoykids como uma iniciativa a servir de exemplo a outros youtubers – a empreitada da dupla brasileira passaria a ser mencionada em treinamentos promovidos pelo Google.

Mais seis meses e o Totoykids chegaria a 1 milhão de fãs. Seu primeiro megassucesso, entretanto, surgiria em 2016: o vídeo no qual uma boneca brinca em uma piscina de bolinhas ultrapassou a marca de 180 milhões de views. A partir dalí, o negócio só cresceu. Hoje, o Totoykids está entre os dez canais infantis mais vistos do planeta, concorrendo com marcas como Peppa Pig. O casal de amadores de poucos anos atrás se transformou em uma dupla de empreendedores de peso. O que fez acentuar a atenção com tudo o que é produzido. Atualmente todo vídeo publicado passa antes pelo crivo de oito especialistas dos ramos de pedagogia, neurociência, psicologia e educação. ”Sempre pensamos que em cada clique há uma criança em formação” afirma Vaz.

Até há dois meses, o trabalho de produção de vídeos do Totoykids, que envolve uma equipe de dez profissionais, era realizado em um estúdio em Nova York e na própria residência do casal, que continua morando nessa cidade americana. Em dezembro, Isa e Vaz abriram um escritório em São Paulo. Com isso foram criadas vagas para quarenta funcionários. Aqui, o foco será a promoção dos produtos licenciados. Uma dessas linhas girará em torno do personagem mais célebre do canal, o José Comilão, que incentiva a alimentação saudável. ”Alguns pais podem, com razão ter receio de expor os filhos ao consumismo exacerbado”, diz Vaz. “No nosso caso, fiquem tranquilos. Só apostaremos naquilo que faz bem às crianças. Afinal, entre a audiência fiel estão também nossos dois filhos (de 2 e 5 anos).”Trata-se de um belo exemplo de como encontrar uma maneira de unir interesses, aptidões, conveniências e dinheiro.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ESTREITA RELAÇÃO ENTRE CLIMA E EMPATIA

Por que não paramos as mudanças climáticas? Talvez não estejamos suficientemente preocupados com o sofrimento de nossos descendentes

Há seis meses, o resultado de uma pesquisa realizada pelo Datafolha, a pedido do Greenpeace Brasil e do Observatório do Clima, mostrou que 85% dos brasileiros reconhecem que o planeta está se aquecendo e 72% afirmam que as atividades humanas contribuem para o fenômeno. A confiabilidade nos tópicos foi mais alta entre pessoas com maior escolaridade. Foram ouvidas 2.086 pessoas com 16 anos ou mais, em 130 cidades, entre 4 e 5 de julho. Nos Estados Unidos, aproximadamente 70% dos americanos acreditam que o clima está mudando e a maioria reconhece que essa alteração é resultado de nossa interferência. Além disso, mais de dois terços pensam que isso prejudicará as gerações futuras. A menos que alteremos drasticamente nosso modo de vida, partes do planeta se tornarão hostis ou inabitáveis ainda este século – provocando desastres ecológicos, epidemiológicos e sociais. E, no entanto, a maioria dos americanos apoiaria políticas de conservação de energia apenas se elas custassem menos de US$ 200 por ano às famílias – um valor muito abaixo do                                                                  investimento necessário para manter o aquecimento sob taxas catastróficas.

No Brasil não há dados sobre a disposição da população em contribuir para a diminuição dos impactos ambientais. Afinal, o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. O país também éum dos que menos reciclam este tipo de lixo: apenas 1,2% é reciclado, ou seja, 145.043 toneladas. Os dados são do estudo feito pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF, sigla em inglês). O relatório Solucionar a Poluição Plástica – Transparência e Responsabilização foi apresentado na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA- 4), realizada em Nairóbi, no Quênia, em março de 2019.

“Os dados a respeito de percepção sobre riscos de destruição do planeta e atitudes efetivas para impedir a tragédia são intrigantes”, afirma o pesquisador Jamil Zaki, professor associado de psicologia na Universidade Stanford, diretor do Laboratório de Neurociências Sociais de Stanford. “Por que hipotecam o nosso futuro (e o de nossos filhos e netos) em vez de moderar nosso vício em combustíveis fósseis? Sabendo o que sabemos, por que é tão difícil mudar nossos caminhos?”, pergunta-se o autor de The war for kindness: building empathy in a fractures world (Crown, 2019), ainda não lançado no Brasil, em livre tradução. “A guerra pela bondade: construindo a empatia em um mundo fraturado”).

Segundo o psicólogo, uma resposta está na natureza da empatia, essa capacidade de compartilhar, entender e se importar com as experiências dos outros. “Pessoas profundamente empáticas tendem a ser ambientalmente responsáveis, mas nossos instintos de cuidar são míopes e se dissolvem no espaço e no tempo, tornando mais difícil lidarmos com coisas que ainda não aconteceram”, explica.

ANJO TORTO

Ele observa que a atividade humana é, mais do que nunca, uma força dominante na formação do ambiente da Terra, mas os sentidos morais da humanidade não acompanharam esse poder de destruição. E ressalta que nossas ações reverberam pelo mundo e pelo tempo, mas não sentimos suficientemente o peso das consequências. “A empatia poderia ser um apoio emocional contra um mundo em aquecimento, se nosso cuidado produzisse ação coletiva, mas parece que evoluímos para responder ao sofrimento imediato, aqui e agora”, diz.

Segundo Zaki, nossa imaginação empática não está naturalmente configurada para se estender ao redor do planeta ou em direção às gerações futuras, o que coloca nossa própria existência em risco. Por isso é mais fácil nos mobilizarmos para ajudar vítimas de uma tragédia ambiental que já ocorreu do que evitar o consumo de carne e plástico.

Ironicamente, a empatia, “o melhor de nossos anjos”, na opinião do pesquisador, e a maneira como ela opera, pode estar prejudicando nossa capacidade de fazer o que é melhor para o mundo. Para o psicólogo, porém, há salvação para esse funcionamento psíquico. Zaki acredita que a empatia não é uma característica imutável, e sim um sentimento que podemos fortalecer diariamente. “Felizmente a capacidade de cuidar de si, do outro e do planeta não é um traço fixo de personalidade, mas uma habilidade a ser cultivada”, afirma. Portanto, é possível exercitar e treinar a empatia. As crianças agradecem.

EU ACHO …

POR QUE PERDEMOS AS BATALHAS PARA OS VÍRUS

Para a humanidade, é recente a descoberta de que, coletivamente, não somos a espécie mais poderosa do planeta.

Vírus nem é ser vivo. Não passa de uma partícula de matéria minúscula que, para gerar energia e se reproduzir, depende das outras formas de vida. É sempre parasita. Ainda assim, é o organismo mais abundante no planeta, aquele que mais convive com – e mais ameaça – seres humanos e demais espécies. Estima-se que haja na Terra pelo menos 50 decilhões de vírus, no mínimo dez vezes a quantidade de bactérias. “Há mais vírus no mundo do que todas as outras formas de vida somadas”, escreve a virologista Dorothy Crawford no opúsculo introdutório Viruses (Vírus). “São também atordoantemente diversos, algo como 100 milhões de tipos diferentes.” Em cada litro d’água do mar, há 10 bilhões de vírus, que matam todo dia entre 20% e 40% das bactérias marinhas, lançando 650 milhões de toneladas de carbono na atmosfera. Perto de 20 % dos cânceres diagnosticados todo ano são comprovadamente provocados por vírus, embora se imagine que a proporção real seja bem maior. Para não falar nas 600 mil crianças mortas por infecções intestinais ou nas 70 mil que ainda sucumbem ao sarampo. Aids, hepatite, herpes, pólio, rubéola, malária, febre amarela, zika, chicungunha, caxumba, gripes e resfriados – a atual pandemia provocada pelo coronavírus sars-CoV-2 é só a última na lista sem fim das moléstias virais, resultantes da capacidade também infinita de mutação desses micróbios.

O britânico Peter Medawar – aquele que teve de renunciar à cidadania brasileira porque o então presidente Eurico Gaspar Dutra se recusou a dispensá-lo do serviço militar e, anos depois, ganhou o Nobel de medicina – definia vírus como “um pedaço de má notícia envolto por uma proteína”.

“O estudo dos vírus tem menos de 100 anos, mas os próprios vírus são parasitas antigos, cuja história e evolução está estreitamente imbricada à nossa”, diz Crawford. “A batalha entre nós e esses micróbios está em curso desde que surgiram os humanos – eles desenvolvendo novos meios de ataque, e nosso sistema imune retaliando numa escalada armamentista. Como o tempo de cada geração viral é bem mais curto, a evolução da resistência humana é dolorosamente lenta. Com frequência, os vírus levam vantagem.”

Apesar dos avanços da ciência, a humanidade só venceu em definitivo a batalha contra o vírus duas vezes. A primeira foi na erradicação da varíola, meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1966, quando a doença ainda causava 2 milhões de mortes anuais, alcançada enfim em 1980. A segunda nem foi contra um vírus que nos ataca. Foi na erradicação da peste bovina em 2010, mais de 20 anos depois de lançada a campanha de vacinação global. O objetivo de erradicar sarampo e poliomielite até 2020 fracassou. Verdade que a incidência global da pólio caiu mais de 99%, mas bolsões da doença resistem. Os casos de sarampo voltaram a crescer, em parte devido aos movimentos antivacinas. No Brasil, mesmo depois de erradicado, voltou a matar. Enquanto tais batalhas prosseguiam, proliferaram novas infecções por vírus importados de animais, como HIV ou sars-CoV-2.

“Embora saibamos que a maioria dos vírus emergentes saltam dos animais para os humanos, estamos longe de prever quando e onde aparecerá a nova ameaça viral”, constatava Crawford em seu livro. “A virosfera é imensamente diversa. Tal reservatório certamente regurgitará novos patógenos humanos de tempos em tempos.” Antes da atual pandemia, ela formulava a questão de modo preciso: “Estamos preparados? Mais especificamente, podemos prever, controlar, tratar e prevenir novas infecções humanas por vírus?”. A resposta está hoje clara: não. Não soubemos – e ainda não sabemos – prestar atenção ao alerta do biólogo húngaro-sueco George Klein: “O vírus mais estúpido é mais esperto que o virologista mais inteligente”·

*HELIO GUROVITZ – é jornalista e blogueiro do portal G1

OUTROS OLHARES

A ESCOLHA DE SOFIA

Com o avanço da pandemia, o sistema de saúde deve entrar em colapso e os médicos terão que escolher quem será internado na UTI: os mais jovens, com maior chance de sobrevida, tomarão o lugar dos idosos na disputa por um respirador?

No famoso romance do escritor americano William Styron, publicado em 1979, a polonesa Sofia Zawistowka, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, é forçada a escolher entre seus dois filhos, Jen e Eva, qual deles seria exterminado pelos nazistas na câmara de gás. “A escolha de Sofia”, que dá nome a obra, se tornou um exemplo clássico que está sendo utilizado na medicina neste momento de caos provocado pela Covid-19, onde os médicos estão tendo que decidir entre a vida e morte. Nesse sentido, o ambiente hospitalar impõe diariamente aos profissionais de saúde complexidades de tratamento e cuidados específicos que podem não ter resposta pronta para esse dilema. Por isso, muitas entidades médicas estão criando protocolos para que os profissionais da saúde resolvam o impasse, sem quebrar a ética que exige que todos os pacientes precisam ser tratados em condições de igualdade, independente de sua situação social ou de seu estado geral de saúde. As normas técnicas estabelecidas nesse tipo de parâmetro existem também para evitar que as escolhas sejam subjetivas ou econômicas e se sobreponham na hora do profissional decidir quem e como será realizado o atendimento.

De acordo com a OMS, 14% das pessoas diagnosticadas com Covid-19 desenvolvem a forma mais grave da doença, exigindo internação hospitalar e oxigenoterapia. Cinco por cento deles, necessitarão de ser atendidos em uma UTI. Entre esses últimos, a maioria vai necessitar de suporte em respiradores mecânicos. Por isso, nesse momento agudo da crise do coronavírus, em que a demanda por atendimento em UTI cresce, é cada vez mais difícil atender todo mundo ao mesmo tempo na UTI. Em Pernambuco, por exemplo, há uma fila de espera por leitos de UTI de dez dias. No último dia 29 de abril, haviam 186 pacientes esperando por esse tipo de leito. E os profissionais já estão adotando critérios técnicos para a escolha de quem vai primeiro para a UTI. Por exemplo, quem é mais jovem e tem mais chances de sobreviver ganha a preferência. No Rio de Janeiro, protocolo semelhante também já está sendo posto em prática.

Prevendo o colapso do sistema de saúde nos próximos dias, associações médicas de terapia intensiva, emergencial, geriátrica e de cuidados paliativos, desenvolveram no dia 1º de maio um protocolo que permite organizar e priorizar quem primeiro terá acesso ao atendimento em UTI. O documento está embasado em critérios técnicos. Estabelece que os pacientes devem ser observados por uma comissão de saúde especializada em coronavírus. No momento da triagem, estabeleceu-se os critérios clínicos que dão uma pontuação ao doente. Quem atingir mais pontos terá menores chances de ir para a UTI. O primeiro item que os profissionais devem observar é a quantidade de órgãos nobres afetados e a gravidade apresentada, pulmão, coração, os rins, cérebro e o fígado, que são os mais afetados pela Covid. Na sequência, se o paciente apresentar doenças crônicas e degenerativas e o nível dessas comorbidades, como insuficiência cardíaca, enfisema pulmonar e câncer, as chances de chegar ao ventilador diminuem muito.

A médica intensivista Lara Kretzer explica que esse procedimento deve ser efetuado apenas em um momento crise: “não é um processo que deva ser aplicado em condições normais.”. Segundo a médica, o princípio que rege o protocolo é salvar o maior número possível de vidas. “Queremos salvar todas as vidas, mas não estamos no controle de tudo”, lamenta.

FILA ÚNICA

Outra hipótese que os médicos discutem seria a adoção da fila única. Ou seja, quem chega primeiro é internado primeiro. Mas, nesse caso, há um problema porque pode se estar dando lugar na UTI ao paciente que tem poucas chances de sobreviver, mesmo com esses cuidados intensivos. “Essa escolha vai levar a um menor número de pessoas salvas”, disse Kretzer. No caso da fila única, o médico sanitarista Gilberto Berguio Martin diz que o cenário ideal seria o intensificar o isolamento social para evitar que muitas pessoas precisem da UTI ao mesmo tempo. “Se isso fosse respeitado, não teríamos que usar protocolo ou essa escolha entre um e outro”, disse. Nesse aspecto, antes que os médicos se coloquem no lugar da polonesa Sofia Zawistowka, as pessoas deveriam se conscientizar que precisam respeitar as regras do isolamento social para se manterem afastadas da contaminação e não superlotarem os hospitais, que cada vez mais não disporão de UTIs para todo mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE MAIO

O SALMO DO BOM PASTOR

Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as [minhas ovelhas] arrebatará da minha mão (João 10.28).

O Salmo 23 é mundialmente conhecido como um dos textos mais amados e consoladores de toda a literatura universal. Davi, o pastor de ovelhas, escreveu-o inspirado pelo Espírito Santo. Esse Salmo fala sobre os privilégios da ovelha do Bom Pastor. Jesus é esse Bom Pastor. Ele deu sua vida pelas ovelhas. Ele vive para as ovelhas e para elas voltará. Que bênçãos especiais as ovelhas do Bom Pastor recebem? Em primeiro lugar, provisão em todas as circunstâncias: O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. Em segundo lugar, fartura mesmo em tempos de sequidão: Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Em terceiro lugar, paz e descanso apesar das aflições: Leva-me para junto das águas de descanso. Em quarto lugar, direção apesar de todos os perigos: Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Em quinto lugar, refrigério espiritual a despeito das pressões da vida: Refrigera-me a alma. Em sexto lugar, presença divina nos vales escuros da vida: Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. Em sétimo lugar, triunfo e alegria apesar do ataque dos inimigos: Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. Em oitavo lugar, boa companhia no presente e bem-aventurada habitação por toda a eternidade: Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre. Você já é ovelha de Jesus, o Bom Pastor?

GESTÃO E CARREIRA

O PARADOXO DO EMPREGO

Com mais jovens diplomados hoje do que em todas as gerações anteriores, o Brasil não consegue oferecer postos de trabalho para empregar quem possui curso técnico ou superior. E a pandemia pode enterrar os sonhos dos que lutaram para estudar.

Os millennials, jovens nascidos entre a segunda metade da década de 1980 até 1995, constituem a geração mais diplomada da história do Brasil. Cerca de 25% completaram o ensino superior — e a cifra sobe para 58% quando são inseridos também os cursos técnicos e profissionalizantes. Essa geração tinha tudo para realizar uma proeza: diminuir a desigualdade social por meio do fortalecimento de renda com capacitações mais específicas para o mercado de trabalho. O que ocorreu foi o contrário: ela se vê mais vulnerável financeiramente que as gerações anteriores. Com a expectativa de que o País encerre 2020 com uma taxa de desemprego na casa dos 18%, os jovens — principalmente os negros e periféricos — podem perder para sempre a chance de trilhar um caminho profissional promissor.

A mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, divulgada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) escancara esse cenário. Ao final do primeiro trimestre, ainda sem levar em conta muitas das demissões causadas pela pandemia, a taxa de desemprego ficou em 12,2%, quase a mesma de igual período em 2019. Agora, com a ameaça econômica trazida pela Covid-19, estimativas como a do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), ligado à Fundação Getúlio Vargas (FGV), preveem desocupação bem maior até o final deste ano. “O cenário será desafiador, e mais cruel com os jovens que estão entre os 18 e 30 anos”, afirma o professor de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Augusto Torres.

A avaliação é a mesma do pesquisador Daniel Duque, que coordenou o estudo da FGV sobre desemprego. Ele prevê uma acentuação da desocupação a partir de abril. Com isso, haverá também diminuição no rendimento familiar, acentuando a desigualdade social. Segundo a pesquisa, a queda real no rendimento pode ser de 8,58%. “Com isso, a renda efetiva média fechará o ano no nível de R$ 2.206 mensais, frente a R$ 2.413 no ano anterior.”

Caso a previsão se confirme, a Massa de Rendimentos Efetivos do Trabalho (MRT) baterá o ponto mais baixo desde o início da série histórica, em 2012. “Ainda que o governo federal lance mão de grandes programas de transferência de renda, dificilmente seu volume seria capaz de compensar o montante perdido no período. Mais de R$ 30 bilhões mensais de perda de MRT correspondem a cerca de 5% do PIB de 2019”, diz o coordenador do estudo.

JOVENS PERIFÉRICOS

Se os jovens estão na linha de frente do desemprego, os periféricos são ainda mais vulneráveis. Segundo a consultoria alemã Roland Berger, 33% das famílias com renda mensal de até um salário mínimo no Brasil já possuíam, em abril, ao menos uma pessoa sem emprego por causa do novo coronavírus, cifra que cai para 4% entre as famílias com rendimento entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. Para Edson Salgado, ex-coordenador núcleo de emprego e renda do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea), os jovens brasileiros enfrentarão um período de subutilização na informalidade que pode durar até três anos.

Segundo os dados do IBGE relativos ao primeiro trimestre deste ano, nada menos que 826 mil trabalhadores trocaram, por vontade ou necessidade, um emprego formal por um informal. A base de comparação é o último trimestre de 2019. Isso engloba um universo do qual fazem parte milhares de motoristas de aplicativo, entregadores e ambulantes que não possuem qualquer projeto profissional de longo prazo, ainda que possuam instrução. “Ter a capacidade de montar um negócio próprio não significa que sua execução será fácil”, diz Salgado. É preciso levar em conta os desafios que aguardam quem decide empreender no Brasil, sem descartar o risco de eventos como a pandemia.

Para tentar amenizar os efeitos recessivos da paralisia nos negócios provocada pela Covid-19, o Congresso aprovou, em abril, uma medida que libera R$ 600 mensais para atender cerca de 38 milhões de trabalhadores informais do País. O valor é insuficiente para sustentar uma das engrenagens que mantêm a economia ativa. Para o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, o que se formará nos próximos meses é um cenário de aumento da pobreza. “Vamos precisar de políticas de emprego mais adequadas. Sendo bem transparente, o desemprego vai dar um salto no Brasil, infelizmente”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SUPERPODER DA AUTOCONFIANÇA

Tudo parece caminhar bem, até que uma avalanche de dúvidas parece cair sobre nossa cabeça, minando nossos melhores propósitos. O que podemos fazer quando isso acontece?

Acreditar em si mesmo nem sempre é fácil. Os planos em geral parecem bons: talvez expor uma ideia interessante durante uma reunião, participar de uma importante competição esportiva ou simplesmente abordar o estranho de aparência agradável no café. Mas às vezes simplesmente não temos a confiança necessária para decidir dar o passo decisivo. Então, repentinamente, as dúvidas nos atormentam: estamos realmente dispostos? Podemos fazer isso? O que acontece se der errado? E, em meio a variações de medo, em vez de aproveitar uma oportunidade, podemos deixá-la passar. Ou precisar das palavras encorajadoras dos outros, que muitas vezes parecem confiar em nós mais do que nos mesmos.

Mas, afinal, o que realmente significa “confiar em si mesmo”? Embora os psicólogos estejam lidando com essa questão há décadas, não é tão fácil separar a autoconfiança de outros termos que são frequentemente relacionados. O conceito de autoconfiança geral se refere principalmente à fé em suas próprias habilidades como um todo. Quando se trata de habilidades individuais, os cientistas tendem a falar de auto eficácia ou autoconfiança específica. “Uma pessoa pode ser eficiente em matemática, mas ter baixo desempenho em comunicação”, explica o psicólogo Qin Zhao, professor da Universidade Western Kentucky, nos Estados Unidos, lembrando que a auto eficácia em uma área pode mudar com o tempo.

O conceito de autoestima também costuma entrar em jogo quando se trata de autoconfiança. “Mesmo na literatura científica, os dois termos às vezes são confusos, embora eles realmente descrevam algo diferente”, diz Qin Zhao. A autoestima não se refere necessariamente a habilidades, é, na verdade o respeito que você tem por si mesmo, sua própria apreciação. Em 1990, Jennifer Campbell, então professora da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, conseguiu mostrar que a autoestima e a autoconfiança estão frequentemente ligadas. Para isso, ela selecionou para um estudo 92 alunos com alta autoestima e 92 alunos com baixa autoestima. Todos preencheram um questionário no qual foram solicitados a declarar em que medida determinados adjetivos se aplicavam a eles. Posteriormente, a pesquisadora quis saber dos participantes quão confiantes estavam em suas respostas. Os voluntários com baixa autoestima mostraram menos confiança em sua própria capacidade de se avaliar.

Mas nem sempre é assim. “Também existem pessoas que têm baixa autoestima, mas têm muita certeza de como funcionam”, diz o professor de psicologia Richard Petty, da Universidade Estadual de Ohio. Isso pode ser desfavorável, pois muitas vezes a pessoa passa a buscar “provas” de que não é boa o suficiente. Nesse caso, a psicoterapia costuma trazer ótimos resultados.

INFLUÊNCIAS EXTERNAS

O quanto acreditamos em nós mesmos e em nossas próprias habilidades tem um grande impacto em nosso comportamento. Por exemplo, pode afetar o quanto estamos dispostos a tomar decisões: aqueles que são atormentados por dúvidas têm mais probabilidade de procurar informações, muitas vezes em fontes pouco confiáveis, e hesitam em se comprometer. Às vezes, nosso comportamento de consumidor também é determinado por nossa autoconfiança.

Isso foi demonstrado em 2008 por pesquisadores liderados por Leilei Gao, da Universidade Chinesa de Hong Kong. Os cientistas primeiro abalaram a crença dos voluntários em suas próprias habilidades, pedindo que escrevessem um ensaio sobre sua inteligência com a mão não dominante. Os participantes do experimento deveriam decidir o que gostariam de receber como agradecimento pela participação no estudo: uma caneta-tinteiro ou doces. Nesse caso, a maioria escolheu a caneta, em contraste com os participantes do grupo de controle, que tiveram permissão para escrever sobre suas próprias habilidades cognitivas com a mão dominante, como de costume. Aparentemente os voluntários tentaram “arrumar” sua autoimagem com o presente “mais inteligente”!

A falta de autoconfiança também pode bloquear oportunidades. Por exemplo, o Relatório de Educação da OCDE de 2015 sugere que, na escola, as meninas costumam fazer menos matemática do que os meninos porque têm menos confiança em sua capacidade de resolver problemas. Se compararmos apenas os resultados de meninos e meninas que têm um nível de crença igualmente alto em suas habilidades matemáticas, nenhuma diferença pode ser vista nos resultados.

Já pesquisadores da Universidade de Witten/ Herdecke foram capazes de mostrar que pessoas que têm mais confiança em suas próprias habilidades se saem melhor nos exames. Para fazer isso, eles fingiram para os voluntários que as respostas para um próximo teste de conhecimento geral seriam apresentadas a eles em uma tela por uma fração de segundo antes. De fato, apenas palavras completamente insignificantes tremeluziam no monitor. No entanto, na sequência, os participantes se saíram melhor no teste do que integrantes do grupo controle, que tiveram de fazer o teste sem a “preparação especial”.

DÚVIDAS SIM, EM PEQUENAS DOSES

Mas, afinal, o que determina nossas chances de seguir em frente com confiança sem ajuda externa, partir para manipulação sutil ou buscar sempre provar que somos capazes? De verdade, ninguém sabe a resposta exata. Muito provavelmente, como a maioria dos outros comportamentos e características, existe um componente genético que determina nossa capacidade de confiar. Observando crianças pequenas, podemos perceber que algumas simplesmente fazem o que desejam, por conta própria. O ambiente também desempenha um papel importante. O psicólogo Qin Zhao explica que a auto eficácia é determinada, entre outras coisas, pela experiência. Os estudos de Zhao indicam que a dúvida sobre nossas habilidades tende a surgir da comparação com os outros. “Sempre há alguém melhor que nós. Se você comparar suas próprias fraquezas com os pontos fortes de outras pessoas, sempre sentirá dúvida”, observa o especialista. Ele ressalta que pessoas que se comparam, em geral, foram objetos de comparações, feitas por adultos (afetivamente importantes para elas), em relação a outras crianças. As dúvidas, porém, não são ruins por si só – desde que não assumam o controle. “Questionar o próprio desempenho não é um problema, até ajuda a nos aprimorarmos, mas se colocar cronicamente em xeque prejudica a saúde mental e o desempenho.

EU ACHO…

A SAÍDA É A COOPERAÇÃO

Desafios globais exigem soluções globais, coordenadas. No centro desse tabuleiro se encontram organizações do porte da OMC e foros como o G20

É dramático o impacto da pandemia do coronavírus na vida das pessoas e nos sistemas nacionais de saúde. As consequências para a atividade econômica e o comércio não são menos assustadoras. A economia mundial sofreu choques de oferta e demanda repentinos, sincronizados, generalizados e profundos. Não há precedentes dessa natureza ou magnitude desde a Grande Depressão dos anos 1930. As projeções do FMI para 2020 indicam retração do PIB global em cerca de 3%. No comércio, a Organização Mundial de Comércio (OMC) trabalha com dois cenários. No otimista, estimamos uma queda de pelo menos 13% no volume global de comércio. No pessimista, a retração poderá chegar a 32% ou mais. Ou seja, mesmo no melhor cenário, o impacto comercial será maior que o da crise financeira internacional de 2008.  

Mas, enquanto nas crises anteriores a retomada trilhou um longo percurso, desta vez poderíamos testemunhar uma recuperação relativamente célere e sólida. Isso porque a crise atual não decorre de desalinhamentos ou vulnerabilidades nos fundamentos da economia global. Uma vez retiradas as medidas que congelam a economia, a retomada das atividades poderá nos recolocar em patamares pré-pandemia em prazo razoavelmente curto.

Dois fatores determinarão a velocidade e o dinamismo dessa recuperação. O primeiro é o tempo de duração da pandemia. O segundo são as políticas de estímulo econômico e comercial adotadas pelos governos – em casa e coletivamente.

A prioridade mais imediata é, sem dúvida, o combate à pandemia, buscando, onde possível, mitigar o dano econômico causado às pessoas, empresas e países. Mas olhar adiante também é crucial. As decisões tomadas agora determinarão os contornos da futura recuperação e as perspectivas de crescimento nacional e global. É preciso estabelecer as bases para uma recuperação forte, sustentável e socialmente inclusiva.

Para chegar lá, as políticas fiscal, monetária e comercial precisam apontar na mesma direção. Uma maior coordenação internacional também aumentaria nosso poder coletivo de combate à recessão. Após a crise de 2008, por exemplo, a imediata coordenação entre os governos para manter a economia global dinâmica e aberta funcionou como um eficaz multiplicador de forças. Aplacou-se o pânico, apontou-se o norte e conteve-se o ímpeto protecionista.

Manter os mercados abertos, conectados e previsíveis é fundamental para estimular os investimentos necessários à retomada econômica e permitir que o crescimento em um país alavanque o de outro. Famílias e empresas ficam mais protegidas do risco de escassez de oferta e aumento de preços.

A pandemia do coronavírus deixará, sem dúvida, sequelas psicológicas na sociedade. No comércio não será diferente. Empresas procurarão equipar-se para enfrentar choques semelhantes de oferta e demanda – seja em resposta a pandemias, seja para debelar crises de natureza econômica. Diversificarão suas cadeias de produção e suprimento – tanto no mercado interno quanto no externo. Haverá expressivo fortalecimento das plataformas digitais e do comércio eletrônico, favorecendo novos tipos de comportamento, como teletrabalho, compras on-line, impressões 3D, cuidados no contato físico entre as pessoas. Diversos países deverão adotar protocolos de saúde mais robustos e favorecer o aumento no estoque de suprimentos considerados críticos.

O comércio internacional continuará sendo um mecanismo fundamental para o abastecimento de bens essenciais a preços acessíveis. Alguns fatos são incontornáveis. Não tem volta atrás. Para produzir máscaras sanitárias na Europa, continuará a ser necessário importar o algodão. Para construir equipamentos de ponta para a saúde, a indústria precisará do conhecimento e da capacidade, das peças e componentes que outros países detêm, fazem melhor e a preços mais competitivos. Essa natureza fundamental do comércio não mudará.

Ainda que surja a tentação de buscar a autossuficiência em algumas áreas consideradas “essenciais”, aos poucos ficará evidente que esse não é o caminho. A autossuficiência é inviável na maior parte das vezes e tem um custo altíssimo para a sociedade, sobretudo no médio e longo prazo.

A cooperação e a solidariedade melhorarão nossas perspectivas econômicas. E no centro desse tabuleiro se encontram as organizações internacionais – como a OMC – e os foros políticos de coordenação, caso do G20.

Espaços únicos de cooperação, as organizações internacionais são riquíssimas em informação e conhecimento especializado. Têm a visão do todo, que é fundamental no enfrentamento de desafios globais. Isso está evidente no papel que desempenham hoje a OMC, a OMS e outras organizações internacionais na coordenação das respostas à crise e na recomendação de políticas públicas. Essas instituições, porém, não são organismos supranacionais. Não podem tomar decisões pelos seus membros. Sua efetividade está diretamente ligada ao compromisso dos países em fazer uso desses espaços, participar de maneira vocal e construtiva dos trabalhos e, em última instância, implementar as recomendações que são feitas.

Líderes do G20, do setor privado, da sociedade civil têm destacado a importância dessa coordenação internacional. A comunidade internacional ainda precisa avançar muito nesse quesito, sobretudo no combate a pandemias. Se quisermos respostas rápidas e eficazes, precisaremos de coordenação e entendimentos internacionais que sejam objetivos e pragmáticos. Apesar de algumas tratativas no G20 e em alguns foros especializados, ainda não estamos vendo o tipo de coordenação que seria necessário.

Desafios globais exigem soluções globais, coordenadas, na saúde pública e na economia. As gerações futuras precisarão estar mais bem equipadas, com instrumentos de concertação ágeis, automáticos e eficazes. Essa lição precisa ser finalmente aprendida.

*ROBERTO AZEVED0 – diplomata brasileiro, é diretor geral da Organização Mundial de Comércio (OMC).

OUTROS OLHARES

EM ALTO E BOM SOM

O hábito de telefonar, posto em desuso pelas onipresentes mensagens de voz, ressurge em meio à pandemia aproximando pessoas em tempos de distanciamento social

O advento do telefone abriu, no fim do século XIX, a revolucionária possibilidade de a voz humana ser transmitida a longas distâncias, interligando as pessoas como nenhum outro artefato o fizera. Elas tanto se afeiçoaram à criação de Alexander Graham Bell (1847- 1922) que passaram a cultivar o hábito de ficar por horas ali penduradas (esse era o verbo). Muitas décadas depois, vieram os smartphones e com eles as mensagens por escrito, que foram rareando as ligações de voz – um fenômeno que alcançou o auge com a chegada do onipresente WhatsApp. Provavelmente Graham Bell acharia curioso o fato de seu invento ser acionado neste século XXI muito mais para disparar mensagens e e-mails, navegar nas redes ou mesmo consultar a previsão do tempo do que para… ligar. Foi apenas com o mundo posto do avesso pela pandemia que o telefone (leia-se o celular, já que os aparelhos com fio viraram peça de museu) reencontrou sua função original. Confinada em casa, uma multidão redescobre as alegrias do bom e velho alô. Alô!

O fenômeno é universal. Nos Estados Unidos, o fluxo de ligações diárias mais do que dobrou em comparação com o do Dia das Mães, quando sempre bate recorde – mesma expansão aferida pelo Facebook, que fez um levantamento de ligações de voz nos países mais afetados pela Covid-19, o Brasil aí incluído. Já as grandes telefônicas brasileiras registraram aumento no tempo de bate-papo de até 50%.

O FIM DA ERA DOS ”NÃO ME LIGUERS”?

Redescoberta: o cérebro é preparado para interpretar emoções a partir do timbre de voz

“Quase duas décadas atrás, minha missão era vender linhas fixas e, depois, tempo no celular. Lá pelos anos 2010, essa função começou a ficar obsoleta com o surgimento dos torpedos – e cobrar pelo uso da voz deixou de fazer sentido”, conta o vice-presidente de marketing e vendas da Vivo, Marcio Fabbris. Para ele e outros nesse mercado, os dias atuais soam como uma viagem no túnel do tempo.

As mensagens por escrito instauraram novos códigos – telefonar era só nos casos de elo forte entre as partes ou quando a delicadeza do assunto justificava. Gerações Y e Z até cunharam um apelido à tribo não afeita à voz: os “não me liguers”. Pois eles voltaram a ligar para romper a quietude do lar. “Quando não tem o peso de uma obrigação, falar ao telefone vira uma forma de passar o tempo apreciando o que o outro diz”, explica Carolina Salvador, de 28 anos, uma ex-“não me liguer”. A boa sensação experimentada por ela e tantos outros quarentenados tem raízes biológicas, afirma o pesquisador americano Julian Treasure, cuja palestra sobre o poder da voz é um dos dez TED Talks mais vistos da história. Ele diz: “A voz humana é um som extremamente poderoso, capaz de nos afetar cognitivamente. Enquanto a leitura e a escrita existem há cerca de 4.000 anos, a fala está aí há pelo menos 150.000 – o que significa que nosso cérebro é muito mais preparado para interpretar emoções a partir do timbre, das pausas e das entonações do que com base nas letras”.

A voz também é potente ferramenta para espantar os incontornáveis mal-entendidos que as mensagens escritas perigosamente deixam pelo caminho. A linguagem cravada na tela dos smartphones, é verdade, dá aos mais tímidos o benefício da pouca exposição e aos emotivos – e explosivos – a chance de pensar duas vezes, de dedilhar e apagar uma ideia. Mas isso também pode significar um empobrecimento da comunicação. “Não ter de lidar com reações em tempo real é confortável, mas perde-se a oportunidade de aprender a regular as próprias emoções”, pondera Treasure, o defensor das palavras ditas em alto e bom som. Trancada em casa com os dois cachorros, a chef Nathalie Passos, de 27 anos, era do tipo que, literalmente, não fazia (nem atendia) ligações. Transformou-se. “Percebo que as conversas estão mais sensíveis, as pessoas prestam mais atenção ao que as outras falam”, diz ela, que, sim, engrossa a turma dos que resgataram o vocábulo “pendurado” no telefone.

Chamadas de vídeo – seja para aulas on-line, seja para reuniões de trabalho ou festas ao novo estilo, cada qual na sua casa – também foram impulsionadas pelo confinamento. Mas as ligações sem nenhum estímulo externo – nem sequer um emoji- definitivamente conquistaram seu lugar. “Quando um cliente fecha os olhos para se concentrar no cheiro de um prato, ele foca no olfato e limita os demais sentidos, aguçando aquele que está em uso. É o que acontece na conversa só com a voz, que envolve intimidade e imaginação”, observa David Baker, cofundador da The School of Life, grupo liderado pelo filósofo Alain de Botton. O retorno das conversas mais demoradas e densas pode ser uma boa herança destes dias de confinamento. Por ora, elas estão preenchendo um incômodo vazio, às vezes solidão, que emerge com o distanciamento social. Nos Estados Unidos, até as funcionárias de call center, normalmente rejeitadas ao primeiro alô, estão sendo atendidas com entusiasmo por gente que quer jogar conversa fora. Rsrsrs. É, o mundo não é mais o mesmo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE MAIO

A CURA DA ANSIEDADE

Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós (1 Pedro 5.7).

A ansiedade é uma doença e um pecado. É um pecado porque envolve incredulidade; é uma doença porque pode tornar-se mórbida. Os psicólogos consideram a ansiedade a mãe das neuroses e a doença mais comum de nossa geração. Jesus disse que não devemos viver ansiosos com respeito ao dia de amanhã, quanto ao que havemos de comer, beber ou vestir. Disse que os pássaros do céu e os lírios do campo reprovam nossa ansiedade, pois, mesmo não semeando nem ajuntando em celeiros, confiam na provisão divina dia após dia. O apóstolo Paulo, nessa mesma linha, afirma: Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus (Filipenses 4.6,7). Três remédios são oferecidos para a cura da ansiedade: adoração, petição e ações de graças. A palavra “oração” é a mesma para “adoração”.

Adoramos a Deus por quem ele é e damos graças a Deus por aquilo que ele faz. Quando focamos nossa atenção nos atributos exclusivos de Deus – sua auto existência, infinitude, imensidão, eternidade, imutabilidade, onipotência, onipresença, onisciência e transcendência –, nossos problemas se apequenam. Quando nos aproximamos de Deus como nosso Pai, depositando aos seus pés os nossos cuidados, podemos render graças a ele pela cura da ansiedade.

GESTÃO E CARREIRA

GRIFES DE MODA EM PARCERIA CONTRA FOME

Algumas das maiores empresas brasileiras estão se unindo em tempos de distanciamento social e dificuldades causadas pela Covid-19. Um exemplo disso é a parceria das grifes Reserva e Schutz. Com lojas e shoppings fechados, as marcas uniram o útil ao necessário: potencializar a divulgação para aumentar a arrecadação do projeto 1P5P: a cada peça vendida nas marcas Reserva e Reserva Mini, a empresa fornece cinco pratos de comida para pessoas em situação de vulnerabilidade. Lançado em 2016, a campanha já viabilizou mais de 36 milhões de refeições em todo Brasil. A cada venda, a Reserva faz o repasse financeiro à ONG Banco de Alimentos e para o Projeto Mesa Brasil, que coletam excedentes de alimentos em indústrias, mercados e hortifrutis, que distribuem a instituições de apoio a populações carentes. A Schultz decidiu entrar na campanha disponibilizando os canais de comunicação para a ação da Reserva. “O momento é de união e aproveitamos para fazer do limão a limonada”, conta Rony Meisler, CEO da Reserva. “Uniremos esforços para comunicar aos nossos clientes e com isso trazer ainda mais arrecadação para o projeto. Iniciaremos neste Dia das Mães e a proposta é seguir com a parceria em Namorados e Pais”, afirma. Com isso, toda venda feita nos canais Schutz de 4 a 10 de maio também contribuirá com o projeto 1P5P.

UMA QUESTÃO DE SEGURANÇA ALIMENTAR

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PALPITE, DÚVIDA OU CERTEZA?

Experimentos revelam como o grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos influi diretamente em nossas opiniões, apostas e decisões

É inegável que muitas de nossas ações se passam fora do alcance da consciência: se ajustamos a postura corporal durante uma conversa ou se nos apaixonamos por determinada pessoa, em geral não temos ideia – pelo menos não exatamente – de por que ou de como fazemos essas escolhas. Para a maioria delas encontramos explicações tão racionais quanto superficiais (“fico mais confortável nessa posição” ou “gosto do meu namorado porque temos muito em comum”, por exemplo). Por trás dessas justificativas, porém, existem mistérios.

Um exemplo simples: “Ao acionar um interruptor, você conscientemente viu a lâmpada acender?”. Embora pareça fácil responder à pergunta, mais de um século de pesquisas mostrou que o problema-chave por trás dessa pergunta é definir a consciência de tal forma que seja possível medi-la ao mesmo tempo que “captamos” seu caráter subjetivo.

Um experimento comum no campo do estudo da consciência se baseia na avaliação do grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos. No teste, um voluntário tem de julgar se uma nuvem de pontos numa tela de computador se move para a esquerda ou para a direita. Ele em seguida relata quão confiante se sente assinalando um número – por exemplo, 1 para indicar puro palpite, 2 para alguma hesitação e 3 para certeza completa. Esse procedimento mostra que, quando o participante tem pouca percepção da direção do movimento dos pontos, sua confiança é baixa, mas, quando “vê” claramente o movimento, sua segurança é alta.

Um relatório apresentado pelos pesquisadores Navindra Persaud, da Universidade de Toronto, e Peter Mcleod e Alan Cowey, da Universidade de Oxford, introduz uma medida mais objetiva de consciência: o desejo de ganhar dinheiro. Esse método foi adaptado da economia, em que é usado para avaliar a crença a respeito do resultado provável de um evento. Aqueles que acreditam na informação que têm se mostram dispostos a apostar nela. Isto é, aceitam pagar para ver.

Pense no investimento em fundos mútuos. Quanto mais certo você estiver de que a alta tecnologia vai render bem no ano seguinte, mais dinheiro alocará para um fundo destinado a esse setor. Persaud eseus colegas usam esse tipo de aposta para revelar a consciência – ou a falta dela. Em seus experimentos, os participantes não declaram confiança na percepção de maneira direta. Em vez disso. primeiro tomam uma decisão com base naquilo que perceberam eentão apostam uma quantia em seu grau de confiança na própria decisão. Se a escolha se mostra correta, o voluntário ganha o dinheiro; caso contrário, perde. A estratégia ideal é apostar sempre que se sinta seguro. As experiências aplicam essa técnica de apostas para três exemplos do processamento não consciente.

Um deles foi feito com o paciente G. Y. Devido a um acidente de carro que danificou áreas no seu cérebro responsáveis pelo processamento visual, ele tem o que se costuma chamar de “visão cega”. Essa condição o deixa com a capacidade não consciente de localizar uma luz ou relatar a direção na qual uma barra colocada numa tela de computador está se movendo, embora G.Y negue ter a experiência visual – curiosamente, ele insiste que está apenas chutando.

O paciente pode indicar a presença ou ausência de uma rede fraca e pequena em 70% de todos os testes, bem mais do que uma chance média (50%). Apesar disso, ele falha em converter esse desempenho superior em dinheiro quando está apostando: coloca quantias altas em menos da metade de suas escolhas corretas. Quando está ciente do estímulo. G. Y. aposta alto – exatamente o que qualquer pessoa faria. Suas escolhas parecem espelhar a percepção consciente que tem do estímulo (isto é, a crença de que ele o viu) em vez de sua detecção real (inconsciente) do estímulo. Isso sugere que as apostas podem servir de meio para medir a consciência.

As técnicas usadas por Persaud, Mcleod e Cowey dependem da capacidade intuitiva de fazer boas escolhas e obter lucros. Em comparação com a tática de forçar participantes a se tornar cientes de sua própria consciência – e, nesse processo, interferir no próprio fenômeno que se deseja medir -, as apostas representam uma forma mais sutil de avaliar a percepção, mostrando-se uma nova maneira mais lúdica – e reveladora – de estudar processos de tomada de decisão. Desses passos, aparentemente pequenos, surgem possibilidades para ampliar a compreensão de como a consciência surge da experiência.

EU ACHO…

AS CERTEZAS NOS ESCAPAM

Como é difícil ter respostas cristalinas diante de tanta incerteza

Imaginem um balão de aniversário. Agora, imaginem a proporção desse balão em relação ao nosso planeta Terra. Um vírus tem mais ou menos a mesma relação de tamanho com a bola de gás. Essa comparação, romanticamente aterradora, foi feita por um patologista e professor aposentado que escreve na revista inglesa Spectator, John Lee. Talvez mais do que todas as cenas que acompanhamos com o coração na mão, a comparação expõe a vulnerabilidade humana diante desse infinitamente pequeno e perigoso agente infiltrado. Querendo certezas para nos segurar, deparamos com incertezas. A ciência não é uma entidade todo-poderosa com respostas para tudo, especialistas têm opiniões contraditórias, a experiência da Suécia pode ser uma exceção brilhante ou uma desgraça que empilha mortes evitáveis, as crianças ora são pequenas granadas virais, ora são inofensivas, depois voltam a ser perigosas. E a vacina vai demorar. Ou talvez nem venha a existir.

John Lee faz parte de uma valente minoria de cientistas que contestam as visões predominantes, especialmente sobre os benefícios do isolamento (atenção: estamos falando de debates altamente qualificados e não contaminados por paixões políticas). Parodiando Hemingway, ele escreveu: “A certeza na ciência é uma festa de ambulante, dependendo do que você está olhando. Nas ciências físicas, frequentemente dá para ter certeza sobre os números. Mas nas ciências biológicas as coisas são mais complicadas. Organismos vivos têm infinitas camadas de complexidades estonteantes e isso dificulta ter respostas cristalinas”.

Para nós, leigos, a questão da transmissibilidade do vírus pelas crianças, levantada na semana passada, talvez tenha sido a de maior carga emocional. Em questão de horas, desabaram informações tão contraditórias quanto bem argumentadas por especialistas. Primeiro, um dos principais epidemiologistas da Suíça anunciou que crianças abaixo de 10 anos “raramente são infectadas e não transmitem o vírus”. Poderia haver notícia melhor para avós separados dos netos? Quase imediatamente, o virologista alemão Christian Drosten alertou sobre os níveis de vírus no trato respiratório serem iguais entre crianças e adultos. A OMS disse que não havia uma quantidade suficiente de pesquisas para sustentar coisa nenhuma.

Essa é a resposta padrão quando é complicado – ou perigoso – se comprometer com alguma posição definitiva. Mas os governantes precisam decidir enquanto o avião está em pane a 11.000 metros de altitude e nós precisamos acreditar que estão tomando as decisões certas. Talvez nunca tenha sido tão realista a definição de John Kenneth Galbraith: “A política não é a arte do possível. Ela consiste em escolher entre o desagradável e o desastroso”. O elegante herdeiro do pensamento keynesiano em economia entrou para a cultura popular com o livro, depois série de TV, A Era da Incerteza, sobre o mundo pós-Guerra. Qual seria a reação de Galbraith diante do pandemônio de hoje? Como todas as mentes brilhantes, inclusive ou principalmente aquelas das quais discordamos, ele deixou muitas pistas plantadas. Uma delas, entre tantas: “A opinião convencional serve para nos proteger do doloroso trabalho de pensar”.

*VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

PARCEIRO ONIPRESENTE E FIEL

O aparelho torna-se a principal companhia dos dias de isolamento, aprofundando hábitos de dependência que podem não ter volta depois da pandemia

“As imagens passam a ser nossos interlocutores, os parceiros na solidão à qual nos condenaram.” O pensamento parece contemporâneo, extraído do atual cenário de pandemia e isolamento social, em que o contato com o mundo exterior tem se estabelecido cada vez mais por meio de telas de aparelhos tecnológicos. Mas a frase data de 1985, escrita pelo filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser na obra O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. O autor, vítima de um acidente de trânsito em 1991, é tido como um visionário ao ter antecipado o aumento da relevância do que ele nomeia de “imagens técnicas” — as geradas pelos aparelhos, como os computadores — na rotina de todos nós.

Com a realidade da quarentena imposta a boa parte dos habitantes do planeta, as telas e os aplicativos de comunicação se tornaram, para muitos, a única interface de contato com o melhor amigo, o cônjuge, familiares e colegas de trabalho. Diante da impossibilidade de haver aglomerações, a essas maravilhas da tecnologia também recai o entretenimento disponível. Segundo a consultoria inglesa Kantar, em março o acesso ao WhatsApp registrou crescimento de 40% em todo o mundo. Já a FactSet, empresa americana de levantamento de dados financeiros, apontou que a Netflix já ganhou 15,77 milhões de novos assinantes — o dobro do que se esperava para o período. “Diante da necessidade de ficar em casa, as famílias recorrem ao que já se consolidava no dia a dia: fazer de tudo na internet”, avaliou o chefe de conteúdo da marca PlayKids, Fernando Collaço. Desenvolvido no Brasil e hoje presente em 180 países, o PlayKids é um dos aplicativos mais populares dentre os voltados ao público infantil. Desde o início da pandemia, registrou crescimento de 50% no tempo de uso do programa, que disponibiliza vídeos, jogos e livros digitais.

As plataformas digitais se fortalecem como ferramentas úteis para contatar parentes e amigos distantes, trabalhar e produzir mesmo longe do escritório, manter a rotina de exercícios físicos ou para simplesmente diminuir o tédio. Proliferam-se lives no Instagram que oferecem ioga, cursos de arte, atendimento terapêutico etc. Aplicativos de delivery, todos eles, anunciam crescimentos assombrosos em seus negócios — para atender à demanda, o Rappi aumentou em 300% a quantidade de entregadores disponíveis. A Squid, empresa de marketing especializada nos chamados “influenciadores digitais”, aponta acesso 90% maior a redes como Instagram e YouTube.

Entretanto, acende-se um sinal de alerta: recorrer com exagero às telas que nos cercam em casa pode trazer diversas consequências negativas — algumas, gravíssimas. “Esses aparelhos são úteis, excelentes alternativas na situação de quarentena. Só que é preciso lembrar que eles têm de estar aí para nos servir. O abuso pode levar a tecnologia a ocupar o espaço de outras drogas, como o cigarro, tornando-se um hábito que nos vicia, toma nosso tempo e acaba por prejudicar a vida”, pontuou o psiquiatra Cristiano Nabuco, do Grupo de Dependências Tecnológicas da Universidade de São Paulo (USP). Um típico dono de um smartphone clica no celular mais de 2.600 vezes por dia — quase duas vezes por minuto. Esse patamar já é tido como excessivo.

De acordo com um estudo publicado em 2017 por pesquisadores da Universidade de Seul, na Coreia do Sul, e que se estabeleceu como referência para cientistas, a dependência nessas telas é comparável ao vício em substâncias químicas. O abuso produz alterações no cérebro, com reações e síndromes de abstinência semelhantes aos efeitos de drogas como cocaína. Os sul-coreanos chegaram a essa conclusão ao analisar a atividade cerebral de jovens adictos de smartphones. O resultado: as alterações em neurotransmissores, responsáveis pelo funcionamento regular da mente, são similares às apresentadas por viciados em drogas usuais, daquelas que já existiam no mundo pré-internet.

Além do vício, outros danos à saúde mental de quem abusa das telas também são um risco. “Crianças que desde pequenas usam tablets e smartphones costumam, mais tarde, desenvolver dificuldade para interpretar pensamentos mais profundos e para compreender relações emocionais, que necessitam de empatia para com o outro”, avaliou Nabuco. “Adultos podem desenvolver uma gama de síndromes psicológicas. No momento da pandemia, isso pode ocorrer caso acessem constantemente, mais de duas vezes ao dia, redes sociais, repletas de informações que hoje em dia têm levado a sensações de tristeza.” Naquele estudo da Universidade de Seul, os diagnosticados como viciados em celular apresentaram níveis elevados de depressão, ansiedade, insônia e impulsividade.

É preciso impor (a si mesmo ou a outros, como filhos) cuidados e limites no uso das tecnologias do século XXI. Trata-se não só de evitar doenças ligadas à depressão, mas também abalos no bolso e na segurança das informações privadas armazenadas on-line. O excesso de tempo passado no ambiente virtual e a necessidade de usar esse meio para compras e qualquer outra atividade, em razão das restrições ligadas ao isolamento, podem fazer com que os cuidados com a movimentação de dados sejam preteridos. Uma sugestão já comezinha é não clicar em links suspeitos, nem expor dados privados e realizar transações financeiras via WhatsApp. Segundo a empresa de cibersegurança Kaspersky, líder em seu setor, na quarentena já se identifica alta de 124% na quantidade de golpes de hackers a dispositivos móveis, principalmente smartphones, desde o início da pandemia. Com menos pessoas nas ruas, os criminosos migraram para a internet.

Aplicativos, sites e smartphones são desenhados para atrair nossa atenção e nos tornar dependentes. No livro No enxame — Perspectivas do digital, publicado em 2018, e que incrementa as reflexões iniciadas por Vilém Flusser na década de 1980, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han define desta forma o perigo à espreita: “A atrofia digital da mão faria com que o próprio pensamento atrofiasse”. Assim o ser humano corre risco, segundo Han, de se transformar em um “fantasma digital” dentro de um enxame que “arruína o mundo”. Como evitar esse destino? A receita é tradicional: use com moderação. Como fazia, por exemplo, Steve Jobs (1955-2011), fundador da Apple, que assim respondeu quando questionado, no ano de 2010, em entrevista ao jornal The New York Times, sobre como era a relação de seus filhos com duas de suas invenções, o iPhone e o iPad: “Eu limito a quantidade de tecnologia a que eles têm acesso”. É certo que quem vende o produto sabe dos perigos do mesmo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE MAIO

CONVICÇÃO INABALÁVEL NA VIDA E NA MORTE

Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro (Filipenses 1.21).

Muitas pessoas andam desesperadas, com medo de viver e sem esperança na hora da morte. Caminham trôpegas pela vida e cambaleiam apavoradas ao chegarem ao vale da sombra da morte. O apóstolo Paulo, preso em Roma, tinha uma atitude diferente. Mesmo algemado, no corredor da morte e na antessala do martírio, com nuvens escuras preanunciando a chegada de uma grande tempestade sobre sua vida, escreveu: Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Duas verdades benditas são proclamadas aqui, por esse valente apóstolo. A primeira é que Cristo é a razão da própria vida. Muitos tentam encontrar sentido para a vida na beleza, na fama, no dinheiro ou no sucesso profissional. Mesmo conquistando todos esses troféus, descobrem que no topo da pirâmide a felicidade permanece ausente. Nada deste mundo pode satisfazer a alma humana. Coisa e experiência nenhuma pode preencher o vazio do coração humano. Somente Cristo pode dar sentido à nossa vida. A segunda verdade proclamada por Paulo é que, quando Cristo é a razão da nossa vida, o morrer para nós é lucro. A morte não é ponto final da vida. Não é a cessação da existência. Morrer é deixar o corpo para habitar com o Senhor. É partir para estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Os que morrem no Senhor são bem-aventurados, pois preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos. Aqueles que creem no Senhor Jesus têm convicção inabalável tanto na vida como na morte.

GESTÃO E CARREIRA

100 SAÍDAS PARA O PÓS-COVID-19

Perguntamos a uma centena de líderes empresariais, artistas e entidades de todos os segmentos e tamanhos: como será o país após a pandemia? Há otimismo, mas a travessia será dura.

O VÍRUS QUE MATOU UMA ERA

Não será fácil. Nem breve. Nem indolor. Na verdade, neste momento o Brasil mergulha no pior estágio da pandemia de coronavírus. O número de casos e mortos cresce (125 mil infectados e 8,5 mil óbitos na manhã de quinta-feira 7) e o sistema de saúde está saturado ou perto de colapsar em diversas grandes cidades. Para piorar, de Brasília nunca partiu gestão centralizada e séria para a crise. O oposto. Houve deliberada desobediência oficial à quarentena. O que, dado o desgoverno escolhido em outubro de 2018, nem mais é surpresa. Ainda assim, ou exatamente por isso, as lideranças do mundo do trabalho precisam olhar para frente. Não se trata de opção. “What matters most is how well you walk through the fire” – resumiria o autor americano Charles Bukowski. “O que mais importa é quão bem você atravessa o fogo.”

Ouvimos uma centena de lideranças – de empresas de todos os segmentos e tamanhos a entidades classistas – sobre o cenário pós-pandemia. Elas construíram três eixos: o econômico, o novo comportamento do consumidor e o de transformação digital. Trata-se do mais abrangente painel sobre o Brasil depois da crise de Covid-19 na avaliação das pessoas que ocupam a linha de frente real – o mundo do trabalho. Um capital intelectual que aponta muita resiliência. “Devemos discutir a criação de um novo normal pós-pandemia”, diz Walter Schalka, presidente da Suzano, companhia de R$ 26 bilhões em receita (2019).

Esse novo normal de que trata Schalka é como linha divisória. Uma releitura do a.C e d.C (antes e depois do coronavírus). Pablo Di Si, CEO da Volkswagen, concorda e refere-se ao fim de uma Era. “O mundo pré-Covid-19 não existe mais.” O problema é que não há outro no lugar. Terá de ser construído. Di Si resume também a percepção de todos os entrevistados: a tão aguardada disrupção ocorreu. E não veio da tecnologia. Mas de um vírus. Marc Reichardt, presidente da Bayer no Brasil, é igualmente categórico em relação ao cisma. “Vivemos hoje momentos sem precedentes.” Na prática, as decisões estratégicas e táticas das corporações ruíram. E não há qualquer parâmetro usual de previsibilidade. “Agora trabalhamos cenários de curto prazo, que são mais analisáveis”, afirma Reichardt. O futuro está suspenso.

Além desse momento turning point da humanidade, que tirou do eixo as empresas, outra quase unanimidade de respostas entre os 100 entrevistados é a de que o estrago econômico para 2020 está consolidado. O que muda nas opiniões é o grau de intensidade, a velocidade e a duração. Mesmo entre aqueles que dizem não ter condições de fazer análise mais aprofundada, pela incerteza dos dados disponíveis. Tornou-se uma avaliação transversal. João Pedro Paro Neto, presidente da Mastercard Brasil e Cone Sul, acredita que será difícil ser como antes ainda este ano. “A economia deve voltar devagar, porque nos países em que a retomada começa a acontecer ela é lenta, não existe abertura total, é uma abertura restrita, cheia de condições.” Há, do outro lado, quem vislumbre um estrago mais acentuado. Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), diz que o mundo enfrenta a mais grave crise da história recente. “Os efeitos são devastadores, tanto na saúde quanto na economia das nações.”

RECUPERAÇÃO

Para as lideranças entrevistadas, as variáveis de recuperação da economia só não coincidem em relação ao modelo da curva de retomada. Se em V (queda rápida, recuperação igualmente rápida), em U (queda rápida e recuperação um pouco mais lenta) ou em L (queda rápida e certa estagnação antes de recuperação no longo prazo). A única constante nessa sopa de letrinhas é a queda abrupta. O que virá depois ainda está no terreno movediço da incerteza. Segundo Miguel Duarte, líder da EY para o mercado de bens de consumo e varejo para Brasil e América Latina, “o desemprego gerado deverá criar dificuldade para a recuperação em V.”

É consenso que acelerar a retomada exigirá políticas públicas de ajuda que precisam ser assertivas e cirúrgicas, sem empurrar o País para um novo pântano fiscal, o que não parece claro até aqui. De toda forma, uma terceira e última quase unanimidade apareceu fortemente nas entrevistas – além da disrupção e da crise econômica. A de que sairemos dessa. Não houve sequer uma resposta que se assemelhasse a jogar a toalha. “O Brasil é resiliente”, diz a esse respeito Glauco Humai, da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). “Um País que mesmo nas adversidades consegue seguir em frente.”

COMO SURFAR A ONDA 2021

Duas certezas conduzem a questão relacionada ao comportamento da economia para o momento pós-pandemia e, em especial, para 2021. Haverá queda e haverá crescimento. O Bradesco trabalha com projeção de redução de 4,0% no PIB deste ano e alta de 3,5% no do ano que vem. O Itaú Unibanco projeta respectivamente -2,5% e elevação de 4,7%. Com ambos ressalvando que são índices que dependem de um amplo leque de variáveis.

Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, diz que nos próximos 30 a 60 dias vários países iniciarão formatos distintos de relaxamento do período de quarentena. “O aprendizado das experiências que irão funcionar e aquelas que não irão deve ser aplicado no Brasil. Com isso, esperamos que a economia se recupere gradualmente a partir de julho.”
Outro ponto destacado por boa parte dos 100 líderes entrevistados é que haverá forte heterogeneidade no comportamento dos diferentes segmentos empresariais. André Coutinho, líder de mercados da KPMG no Brasil, diz que algumas áreas não estão experimentando tanto os efeitos da pandemia. “É importante setorizar essa crise.”

Marcus Granadeiro, CEO do Construtivo, companhia focada em soluções de TI para o setor de engenharia e construção, acredita que o ambiente depois do isolamento será de um pós-terremoto. “A economia, de maneira geral, estará ruim e a retomada será gradual, porém com muitas oportunidades. Quem conseguir enxergar nichos, se transformar, vai pegar carona nessas oportunidades”, afirma. Seu raciocínio tem ecos no de Francisco Sant’Anna, presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon). “As pessoas dizem que vivemos uma guerra. Geralmente, o pós-guerra vem acompanhados de crescimento.”

Nas conversas — virtuais — de André Coutinho, da KPMG, diversos clientes e players revelam otimismo para o ano que vem. Se Brasília deixar, vale ressaltar. “Vou extrair o debate político e a confusão toda, mas para 2021 me parece existir consenso de que será um ano bom. Tem gente falando em crescimento de 5%, 6%.” Para aproveitar a onda, é preciso que empresas de todos os portes observem com minúcia as possíveis oportunidades.

Carlos do Carmo Andrade Melles, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), diz que na China já se percebe uma retomada, ainda que lenta, à normalidade. “Além disso, existe outro movimento importante, o de grandes economias mundiais, como Estados Unidos e Japão, começando a reduzir sua dependência da China. Isso certamente vai gerar forte impacto na economia.”

Outro padrão nas respostas dos entrevistados é que pegar carona num potencial crescimento para o próximo ano exigirá, acima de tudo, atenção a esse novo mundo. Como diz Henrique Carbonell, CEO da F360, plataforma de gestão financeira, há motivo para se animar com 2021. “Haverá crescimento e retomada do consumo”, diz. E um ponto será decisivo: “Respeitar os novos hábitos do consumidor e as novas formas de se relacionar.”

CONECTADOS NA LINGUAGEM

Quarteto de peso, este. Fernando Meirelles (cineasta), Júlio Andrade (ator), Lázaro Ramos (ator) e Lenine (músico) ajudam a compor o painel de 100 lideranças brasileiras que mergulharam na questão sobre para onde vai o planeta pós-pandemia. E é na semântica que dão o tom e criam a harmonia. Perguntados sobre quais palavras marcam o mundo antes e depois da crise de Covid-19 eles apontam para um universo ainda incerto, mas em reconstrução. Eliminam os vocábulos Histeria, Ganância, Polarização e Míope. No lugar escalam Tensão, Solidariedade, Comunidade e Frágil. Amarram aqui o cenário construído por todos os demais 96 entrevistados: a passagem de um mundo adoecendo para outro a ser moldado. “Sairei transformado desta”, diz Meirelles.

O cineasta, aliás, lembra a metáfora citada pela ativista ambiental sueca Greta Thunberg — “Nossa casa está pegando fogo” — para mudar o estilo de vida. “Este vírus nos mostrou que é possível parar. Talvez seja a última oportunidade de ao menos retardarmos o que já está no mapa: a Covid-19 é uma pulguinha insignificante frente à crise do clima. É a hora”, afirma. Outro impacto relevante, segundo ele, virá do trabalho. Meirelles conta que nos dois últimos meses sua produtora (a O2) tem filmado comerciais com sete ou oito pessoas, “e não mais 90”. A montagem e a pós-produção são feitas nas casas dos profissionais. E as reuniões, por WhatsApp. Todo o protocolo e ritual de encontros intermináveis com clientes e agências caiu. “Isso pode gerar perda de empregos, fato, mas a eficiência do novo modelo é espantosa.”

ECONOMIA SOLIDÁRIA

Para o ator Júlio Andrade, essa mudança significativa se dará não apenas com profissionais liberais, mas também pequenos produtores rurais. As duas categorias vão ganhar mais espaço. “Justamente por precisarem se reinventar durante a pandemia”, diz. “Penso que teremos uma economia mais solidária, com um olhar mais voltado às classes menos favorecidas. O mundo estava vivendo tempo de economia muito agressiva.” O músico e compositor Lenine compartilha da percepção de uma jornada em transição. “Os donos do mundo continuarão os mesmos.” Mas aposta numa virada. “Sou otimista e acredito que, depois desse sofrimento, o melhor futuro para o planeta será o conceito da economia circular.”

A transformação no modelo econômico é o que também mais parece próximo de ser revolucionado após a pandemia de acordo com o ator Lázaro Ramos. “A economia vai ter de repensar seu modelo de distribuição de renda, do tamanho dos lucros das empresas e da relação da sociedade com o consumo”, diz. “Um novo formato econômico, que não é o socialismo, mas me parece que vai ser uma transição forte do capitalismo atual.” Para os quatro, o coronavírus mostrou-se agente de um limiar. Um objeto transformador.

SEU NOVO REI: O CONSUMIDOR

Servir sempre para servir bem. Esse é o novo mantra. Se há algo que a Covid-19 ensinou ao varejo e a empresas de todos os tipos de produtos e serviços é que o atendimento terá de ser full para ser bom. Todos os formatos de pagamento. Todos os formatos de entrega. Todos os formatos de relacionamento. E acima de tudo, endereços físicos e virtuais. De forma cruzada, paralela, sobreposta. Uma jornada sem fim que pode começar no Instagram e terminar com o motoqueiro na porta. Entre os 100 entrevistados para o painel pós-pandemia, seis eixos se destacarão desse novo consumidor.

CONFIANÇA

Reinaldo Varela é fundador e presidente da rede de restaurantes Divino Fogão, com mais de 180 lojas no Brasil. Para ele, a mudança sem volta será o grau de confiança entre pessoas e empresas. “O consumidor vai ficar mais próximo das marcas que se mostraram solidárias durante a crise.” E isso se estenderá no relacionamento pós-pandemia.

STAY HOME

Ficar em casa será o novo padrão. “Haverá priorização para o ambiente doméstico, os espaços para o home office”, diz Leonardo Paz, CEO da ImovelWeb. O que deve impactar não apenas o segmento imobiliário ou de decoração, mas todas as cadeias de produtos e serviços.

CUSTOMIZAÇÃO

Dentro das tendências que o varejo deverá viver de forma mais contundente Nabil Sahyoun, presidente da Associação Brasileira dos Lojistas de Shopping (Alshop), aposta na ultrapersonalização do atendimento. “A customização e a experiência do cliente vão mudar.”

‘DELIVERY’ DE SERVIÇOS

Não apenas o delivery ou e-commerce de produtos irão se sedimentar, segundo André Friedheim, presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF). “Irão aumentar potencialmente as demandas por serviços a distância.”

RELACIONAMENTO

Fabio Fossen, presidente da Bridgestone Latin America South, acredita em novo patamar na relação consumidor-marca. Uma fronteira ainda nem de perto resvalada. “A sociedade observará mudanças na intensidade das formas de consumir e de se relacionar com as empresas”.

SOLIDARIEDADE

Cuidar do outro será o novo ativo para as marcas trabalharem. Para Guilherme Priante, fundador e CEO da Beyoung, do segmento de beleza, o autocuidado vai crescer e impulsionar o cuidado mútuo. “A onda da solidariedade vai se enraizar culturalmente”, diz.

O DIA EM QUE O FUTURO CHEGOU. E MUDOU TUDO

Poucas gerações têm o privilégio, sem dúvida assustador, de assistir ao futuro chegar. A má notícia é que ele não vem pronto. A boa: pode ser construído com menos imperfeições. As lideranças do mundo do trabalho ouvidas neste painel permitem, de forma extraordinária, jogar um pouco de luz sobreo que vivemos. E o que virá. Uma coisa é certa: não há consenso. Todos afirmam que a melhor saída para a crise exige soluções colaborativas.

O santo graal do mundo produtivo, a Transformação Digital, chegou acelerada por um vírus. “Será uma reinvenção digital que nos levará à hipercolaboração”, diz Tonny Martins, presidente da IBM Brasil. “Conveniência e personalização juntas, com tecnologia humanizada através da Inteligência Artificial”. Um cenário de participação e comunidade compartilhado por Liel Miranda, presidente da Mondelez no Brasil. “O período de isolamento despertou nas pessoas, e nas empresas, a importância ainda maior de contarem umas com as outras para realizarem algo.” A mesma percepção de Leyla Nascimento, a vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil). “É impossível sairmos dessa crise sem uma reflexão pessoal – nós e o outro, de como juntos podemos melhorar as relações humanas.”

Uma linha de raciocínio que se costura pelos entrevistados. Mas não será um caminho sem chances razoáveis de erros e fracasso. “Ao longo da história as crises nos ensinaram várias coisas, entre elas a de que nem sempre o período posterior é dos melhores”, diz Marcel Cheida, professor de jornalismo e ética na PUC de Campinas. O alerta faz sentido. O admirável mundo novo pode não ser tão admirável. Os entrevistados afirmam que não será pela inércia que a transformação digital e uma nova cultura comportamental surgirão. Fernando Pimentel, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), define a era pré-pandemia como de “conflito, nacionalismo e polarização”. O mundo pós-pandemia ele define como de “conflito, nacionalismo, polarização. E solidariedade”.

Nessas horas entram em cena as pessoas que fazem. Luciano Araújo é um designer paulistano dono da Botões Clássicos, inicialmente uma pequena e artesanal produção de times de futebol de mesa A iniciativa o levou a ser dono de um bar, que sedia campeonatos em torno do botonismo, e culminou num projeto de voluntarismo no Capão Redondo, periferia extrema de São Paulo. No começo da pandemia, ele e parceiros do projeto arrecadaram e distribuíram 23 toneladas de alimentos a 1,5 mil famílias cadastradas. Solidariedade. Mas também posicionamento de marca em alto nível. “Acredito que identidade e responsabilidade social serão fundamentais para os negócios. As pessoas vão se identificar com empresas que tenham em sua essência o envolvimento social.”

DIGITAL AGORA

Um combo “solidariedade + mundo verdadeiramente digital”. Muitas organizações não conseguiam cruzar a fronteira, alcançar a plenitude digital. As que alcançavam tornavam- se sem estofo mundo real. Um limbo. Um espaço em suspenso que parece ter chegado ao seu fim. Ricardo Balkins, sócio­ líder da Indústria de Consumer Business da Deloitte diz que o cenário pré-Covid-19 era definido pela expressão “o consumo digital é o futuro”, substituída por “o consumo digital é agora”. Há, no entanto, uma sutileza que nem todas as marcas parecem ter percebido com a crise. Ser digital não elimina o fator humano. Juntar pitadas generosas de sensibilidade no mundo da transformação digital aparenta ser o caminho.

E aqui nasce, junto da transformação digital, o novo consumidor. Com um pacote de novos hábitos aprendidos e assimilados em tempo recorde – e de forma compulsória, com a quarentena. No setor de serviços, por exemplo, a modelagem de negócios deve mudar rapidamente. Claudia Toledo, general manager da Elsevier Brasil, diz que o setor pensará em receita recorrente. “As empresas de serviços devem adotar um modelo de assinatura”. Só assim sobreviveram a cenários como o da pandemia. E porque assim o novo consumidor passou a ter e exigir.

Renato Mansur, diretor de Canais Digitais no Itaú Unibanco, diz que crises como essa impõem mudanças de rotina “E acabam tendo consequências duradouras sobre certos comportamentos e padrões de consumo.” Uma avaliação com a qual Karel Luketic, head de marketing e conteúdo da XP, concorda. “A pandemia nos trouxe muitos aprendizados, mas os principais são o encontro do equilíbrio nas rotinas e na saúde, além de aprendermos a trabalhar de forma mais digital e flexível”, afirma. Isso deverá impactar, inclusive, instituições públicas. O Estado. Margot Greenman, CEO e cofundadora da Captalys, diz que as administrações públicas serão obrigadas a se digitalizar. “Mudarão completamente a forma que os cidadãos interagem como seus governos”. Mudará tudo, enfim. Do varejo aos serviços, da solidariedade às relações do consumidor cidadão com as marcas e os governos.

Jonah Peretti, fundador do Buzzfeed, sempre disse que nunca mirou na tecnologia, mas sim no comportamento. E o novo padrão ensinado pela pandemia fez finalmente que a transformação digital surgisse para todos. “Tínhamos um mundo mais tribal, muitas tribos. Com a crise, a gente está passando por um processo de maior interesse na coletividade, na comunidade expandida”, diz Van Dyck Silveira, CEO da Trevisan Escola de Negócios. “Uma comunidade de ajuda mútua, de maior harmonia”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

RAÍZES DA SEGURANÇA

Flexibilidade e tolerância consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente, valorizar competências

Claro, todo mundo gosta de se sentir capaz, poderoso, seguro. E, por vezes, até exagera no empenho em demonstrar essas características para esconder a própria fragilidade. Há casos em que as pessoas se identificam tanto com a “máscara” de força que passam a transmitir autoconfiança excessiva, o que pode ser igualmente prejudicial a longo prazo. “Isso acontece quando as pessoas pensam que sabem mais do que realmente sabem, o que pode levá-las a tomar decisões que não são do seu interesse, porque não têm informações suficientes”, diz Richard Petty, professor de psicologia da Universidade Estadual de Ohio. Ele alerta para a importância de questionar as próprias convicções e considerar se de fato vale confiar nelas. Aliás, a força com que as pessoas tendem a essa forma de auto validação não está diretamente relacionada à crença em si mesmo. Os que mais receiam a entrar em contato com suas fragilidades, no entanto, preferem constar logo que estão certos.

Uma pergunta que as pessoas frequentemente se fazem quando esse assunto surge é: como a autoconfiança pode ser fortalecida em um nível saudável? Flexibilidade e tolerância consigo mesmo parecem ser palavras-chaves quando se trata de suportar as próprias dificuldades e, assim, ironicamente, valorizar competências.

Uma pesquisa conduzida pelo psicólogo Qin Zhao, da Universidade Western Kentucky, em conjunto com dois colegas, em 2019, oferece pistas interessantes nesse sentido. Com a ajuda de um artigo, metade dos voluntários foi inicialmente informada de que havia pouco que pudesse ser alterado em suas habilidades. Os demais leram outra versão do texto, que anunciava as oportunidades de melhorar as habilidades por meio de aprendizado e esforço. Posteriormente, todos preencheram um questionário de autoavaliação e concluíram várias pequenas tarefas.

Os participantes que haviam aprendido que suas próprias habilidades podiam ser alteradas se mostraram menos propensos a serem perturbados pela dúvida e concluíram melhor as tarefas. “Se alguém acredita que a competência não é uma qualidade fixa, as dúvidas não têm efeito tão negativo no bem­ estar”, afirma Zhao. Richard Petty oferece uma sugestão: relembrar ocasiões em que você agiu com confiança, obteve sucesso ou estava convicto a respeito de alguma decisão. Essa recordação pode conectar a pessoa com um estado emocional de segurança.

FILHOS INDEPENDENTES

Quando se trata de crianças, pais e outros adultos próximos são importantes para o desenvolvimento de uma dose saudável de autoconfiança desde o início da vida. “Não devemos sobrecarregar constantemente os pequenos ou prestar atenção ao que fazem de errado”, aconselha a doutora em psicologia Ariadne Sartorius, especializada no atendimento de crianças e adolescentes. E melhor discutir em conjunto como será a solução para um problema do que partir direto para a repreensão. “É importante que a criança perceba que tem apoio e pode resolver problemas e tarefas de forma independente.” ·

POSTURA E ELOGIO NA HORA CERTA

Andar pela vida afora tanto com a cabeça erguida demais quanto com uma postura encurvada pode trazer dificuldades. A conclusão é de um estudo que pesquisadores liderados por Erik Peper, da Universidade Estadual de São Francisco, publicaram na revista especializada Neuro Regulation, em 2018. Os cientistas pediram aos participantes para resolverem problemas simples de matemática, sentados na vertical ou pendurados na cadeira. Foi muito mais difícil para os voluntários com uma postura curvada cumprirem a tarefa. Os pesquisadores acreditam que a posição ereta incorpora autoconfiança: “A postura afeta não apenas como os outros nos veem, mas também como nos percebemos”, afirma Peper.

O nível adequado de reconhecimento também desempenha um papel importante. O psicólogo Eddie Brummelman, da Universidade de Amsterdã, adverte particularmente sobre elogios em excesso e expressões exageradas como “extraordinário” ou “incrível” em relação a crianças. Isso pode até deprimir a autoconfiança e a autoestima porque, com o tempo, elas estabelecem padrões inatingíveis para si mesmas, tornando-se hipersensíveis à frustração. Há ainda o risco de a supervalorização constante criar a ilusão narcísica de superioridade. “O elogio é muito importante para as crianças, mas tem lugar e hora apropriados”, salienta Ariadne Sartorius. Mais importante que valorizar o resultado obtido pela criança é apreciar seu esforço – e comemorá-lo, sem banalizar a situação.

EU ACHO…

A DOENÇA É A INIMIGA, NÃO NÓS

Sou enfermeira há dez anos e atualmente trabalho na rede pública do Distrito Federal. Não estou na linha de frente contra a Covid-19, mas, na prática, todos nós da área da saúde fomos impactados pela pandemia – seja pelo risco de atender um paciente assintomático, seja pela simples mudança em nossa rotina (horários, protocolos etc.). Além disso, é claro, qualquer um pode ser convocado a prestar serviço numa unidade voltada para o surto. Depois de ouvir relatos chocantes de colegas que estão no combate direto – gente que está cumprindo turnos de doze horas sem tirar a roupa de proteção, pois não teria outra se saísse do hospital para almoçar, ou que passou a usar fraldas para não precisar ir ao banheiro, entre diversas situações muito impróprias – e, sobretudo, diante da crescente curva de mortes de enfermeiros e médicos em decorrência da doença, aderi à ideia de fazermos, enquanto categoria de trabalho, uma homenagem nas ruas àqueles profissionais que perderam a vida. Afinal, eles não são apenas números. Quando estávamos nos organizando, alguns colegas levantaram a dúvida: “E se nos confrontarem?.” Na hora, argumentei: “Vamos defender a vida; homenagear quem morreu lutando para salvar outras vidas. Quem seria contra uma coisa dessas?”. Infelizmente, os fatos me mostraram que eu estava enganada.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que o nosso ato, em Brasília, não foi um protesto. Não estávamos contra nada. Além da homenagem em si e de darmos visibilidade à nossa categoria, queríamos mostrar à população que temos as nossas dificuldades, contudo estamos do lado dela. Pois bem: seguíamos com a nossa manifestação, pacificamente, quando, de uma hora para outra, surgiu um grupo de pessoas que apoiam o governo federal e começou a nos ofender. Primeiro, com palavrões. A certa altura, um homem decidiu atacar uma colega que estava ao meu lado, filmando tudo com o seu celular. Não consegui mais ficar parada. Entrei na frente dela e me coloquei entre os dois. Esse foi o momento em que ele me empurrou. Até então, mesmo com toda a truculência, nenhum de nós havia reagido. A partir do momento em que o tal homem encostou em mim, não tínhamos mais como manter o plano. Outras pessoas se aproximaram para afastar os agressores, enquanto eles continuavam gritando. Quero destacar que aquele foi um movimento de força das mulheres. Eu defendia minha colega e, logo na sequência, quando eu mesma virei o alvo, outras enfermeiras saíram em minha defesa.

É claro que deu vontade de responder a todas as ofensas. No entanto, o resultado seria apenas mais violência. Depois de um tempo, a Polícia Militar chegou para nos defender – e estendemos a manifestação. Se não tivéssemos continuado, ficaríamos com a sensação de que os agressores haviam conseguido o que queriam. Durante o ato, eu sabia que a homenagem era maior que qualquer coisa.

Em casa, de volta, fui dominada por um sentimento de desilusão, de abandono. Como é possível lutar para cuidar das pessoas se parte da população nos agride? Não faz o menor sentido. Recuperei minha força com a quantidade de mensagens de apoio que recebi. Percebi que a violência vem de uma minoria.

Quando vejo, pelo país afora, profissionais de saúde sendo saudados como heróis, entendo e agradeço, pois me sinto homenageada. Essa visão, porém, me preocupa, porque o herói dá conta de tudo. Nós não somos assim. A população precisa ter essa compreensão. Nós a ajudamos, sim, só que precisamos também da ajuda dela. Isso acontece quando a sociedade segue as orientações de segurança para que a pandemia não avance ainda mais. O número de profissionais de saúde não vai aumentar na mesma proporção em que cresce o número de casos de Covid-19. A quantidade de pacientes tem de ficar no limite de que damos conta. Só assim derrotaremos o novo coronavírus. Ele é o verdadeiro inimigo, e não nós, enfermeiros e médicos.

ANA CATARINE CARNEIRO, 31 anos, enfermeira agredida em ato que homenageava colegas mortos pelo coronavírus

OUTROS OLHARES

A QUARENTENA VIROU BAGUNÇA

Falta de consenso entre as autoridades, pressões comerciais e comportamento de risco da população transformam o Brasil no campeão mundial da desordem na política de isolamento – uma situação intermediária que provoca a perda de vidas e prejuízos financeiros.

Infelizmente, cumpriu-se o prognóstico de que o Brasil se tornaria um dos epicentros globais da pandemia. Na última quinta,7, o país contabilizava cerca de 130.000 contaminados e havia superado a barreira das 9.000 mortes, a sexta maior marca de letalidade do planeta no ranking macabro da Covid-19.Com um governo hesitante e desorganizado no combate à doença, chegamos ao ponto crítico da crise sem conseguir aplicar até agora o único remédio capaz de conter a expansão rápida do coronavírus: o rigoroso isolamento social. Nessa questão, aliás, o Brasil já pode se considerar o campeão mundial da bagunça, tendo na liderança um presidente que nega desde o início o tamanho do problema e, de forma irresponsável, não perde a oportunidade de conclamar a necessidade de as pessoas voltarem às ruas. Depois de um começo promissor em março, a média de respeito à quarentena em território nacional vem caindo ao longo das semanas e, na terça passada, 5, o índice de adesão bateu em 42,4%, segundo dados da Inloco, plataforma de geolocalização que coleta informações de uma base de 60 milhões de celulares. Vale lembrar, o patamar recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para “achatar” a curva da Covid-19 é de 70%. Recorrendo-se a uma metáfora médica, o Brasil é como o paciente que interrompe precocemente o tratamento de antibióticos ao primeiro sinal de melhora, mas depois precisa aumentar a dose para ser curado, o que prolonga o tempo de agonia diante de uma grave enfermidade. Como se não bastasse, o efeito colateral da paralisação estendida nas contas do país é de uma recessão que pode levar a uma queda de quase 4 pontos no PIB em 2020. “Estamos no pior dos mundos: a adesão ao isolamento social é baixa e os negócios estão fechados. Não se têm nem os benefícios de um nem de outro”, afirma o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.

Enquanto a maior parte do Brasil ainda caminha no escuro, sem saber quando poderá voltar à normalidade, alguns estados à beira do colapso no sistema de saúde têm sido obrigados a decretar o chamado lockdown, política que bloqueia e limita drasticamente o trânsito de pessoas e veículos e suspende atividades não essenciais, estipulando punições severas para o descumprimento das regras.

Desde o fim do mês passado a capital e três cidades do Maranhão estão sob esse regime. Pará e Ceará engrossaram recentemente essa lista. Nos últimos dias, o governo do Rio de Janeiro recebeu um pedido do Ministério Público para que estude a possibilidade de decretar a medida. “Consideramos que a situação é muito grave e a única possibilidade de segurar esse processo e uma radicalização do isolamento, isso é para ontem”, diz o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, que integra o comitê científico fluminense de combate à Covid-19. Amazonas e Pernambuco também dificilmente escaparão do mesmo caminho, pois se encontram com a capacidade hospitalar praticamente esgotada. Em São Paulo, epicentro da pandemia no país, o governo de João Doria (PSDB) decretou o uso obrigatório de máscara a quem sair às ruas (as multas variam de 276 reais a 276.000 reais, além de detenção por um ano), mas ainda não discute chegar ao lockdown. Na capital do estado toram feitos testes durante dois dias com bloqueios parciais de trânsito para desestimular as pessoas a sair às ruas e avalia-se limitar a circulação de ônibus. Na próxima segunda, 11, Doria prometeu anunciar a reabertura da economia em algumas regiões, mas condicionou isso à existência de indicadores satisfatórios de contaminação e de disponibilidade de leitos. Municípios do interior vivem a expectativa, e organizadores de grandes eventos, como a tradicional festa de rodeio de Barretos, realizada anualmente em agosto, aguardavam o sinal do governador para decidir se mantêm ou não o calendário (a estátua de 27 metros de altura de um peão que fica na entrada da arena em Barretos ganhou, na terça 5, uma máscara contra a Covid-19). O problema é que qualquer liberação neste momento envolve uma conta complexa e arriscada. “Não há como prever o pico da doença, o que temos são números concretos que dizem que ela está aumentando a cada semana”, afirma Paulo Lotufo, professor de epidemiologia da USP. “Já passamos a Alemanha e caminhamos para chegar ao mesmo patamar de França e Espanha”.

A maioria dos países que atrasaram a implementação de quarentenas duras enfrentou apuros, a exemplo da Inglaterra. Houve exceções, como a Coreia do Sul, que se tornou exemplo mundial de sucesso no combate à Covid-19 sem a necessidade de decretar o fechamento do comércio. Mas a nação asiática dispunha de três grandes trunfos para bancar essa política: uma bem desenvolvida indústria de biomedicina para produzir testes em massa, tecnologia para rastrear os últimos passos dos doentes e identificar potenciais contaminados e a disciplinada cultura oriental, baseada na valorização do coletivo. Lamentavelmente, não temos nada disso por aqui.

A entrada do Brasil nessa situação intermediária em que todos perdem, e na rota do lockdown, foi pavimentada pelos embates entre um presidente que prega a volta à normalidade, uma maioria de governadores que decretam quarentenas e dezenas de prefeitos que pendem para o relaxamento das medidas. Além, é claro, da falta de educação e informação de brasileiros de todas as faixas de renda. “A ausência de consenso sobre o tema é o nosso principal problema”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Em Portugal, por exemplo, o primeiro-ministro, António Costa, do Partido Socialista, e o presidente, Marcelo Sousa, social-democrata, falaram a mesma língua a favor do isolamento desde o início da crise. Com cerca de 1.000 mortes e um esforço concentrado da população, o país europeu saiu do estado de emergência no domingo passado e pôs em ação o plano chamado de “desconfinamento gradual”. Detalhe: mesmo com a liberação, as ruas de Lisboa na tarde da quinta 7 continuavam bastante vazias.

Por aqui, um dos maiores sinais da falta de respeito à quarenta vem de quem, em tese, deveria se preocupar com a família e com o próximo: as igrejas evangélicas. Para agradar a esse eleitorado, que hoje representa 22% do total, o presidente Jair Bolsonaro chegou a incluir as igrejas na lista de serviços essenciais, mas a Justiça vetou a medida. Em estados como São Paulo, há apenas uma recomendação para que esses locais fiquem fechados ou realizem cerimônias com 30% de sua capacidade. Resultado: quem põe os pés na sede da Igreja Mundial do Poder de Deus, no centro da capital paulista, por um instante parece ter entrado em um túnel do tempo, de volta à época em que ninguém ouvira falar de Covid-19. No domingo passado, 3, havia cerca de 3.000 pessoas, entre crianças, adolescentes, adultos e muito idosos assistindo ao culto do autodenominado apóstolo Valdemiro Santiago. Para estar ali, era necessário fazer um cadastro e, na entrada, uma obreira passava álcool em gel nas mãos dos fiéis. O assunto coronavírus permeou as quase duas horas de reunião. Ao escutar o testemunho de uma senhora recuperada da doença, Valdemiro disse que “a cura disso aí não é pelo cientista, mas pelo poder de Jesus Cristo”. Seguiram-se muitos aplausos. Para o líder religioso, o vírus é o “Exu Corona”. No templo, ele anuncia também a venda de sementes de feijão milagrosas, capazes de curar a Covid- 19. O pastor sugere o valor de 1.000 reais, “mas quem puder dar mais” e pede ao público para comprar varias, “para seus filhos, netos, noras…”. A todo momento, ele usa seu carisma e dom de oratória para minimizar a necessidade de isolamento social e justificar a (injustificável) aglomeração. “Sabia que tem gente enterrando caixão vazio? Isso é coisa do maligno: simular que alguém morra para aterrorizar as pessoas”, praguejou. Valdemiro se referia a uma notícia falsa, propagada pela deputada federal Carla Zambelli (PSL- SP), de que caixões vazios estariam sendo enterrados no Ceará.

No mesmo domingo, em outra igreja evangélica importante, a Renascer, de vestido longo de crepe de seda, cabelo penteado com laquê e maquiagem digna de festa, a bispa Sonia Hernandes comandava a cerimônia na sede paulistana da denominação. Segundo a líder religiosa, a pandemia e a crise econômica não podem ser argumentos para interromper a ida ao templo, tampouco para cessar o pagamento do dízimo. “Quem não entregar, o devorador vai pegar”, pregou ela. Caso a pessoa esteja sem dinheiro, a bispa tem uma saída, repetida ao menos cinco vezes no culto: “Pega emprestado porque vai multiplicar”. Dois obreiros da Renascer ficaram responsáveis por lembrar aos fiéis o uso de máscara. Na entrada, é preciso assinar um termo de compromisso segundo o qual a pessoa está ciente da pandemia e da necessidade de manter 2 metros de distância dos outros presentes. Uma bombeira media a temperatura de todos, mas com um dispositivo nitidamente com problemas – ele registrava 28 graus, temperatura de alguém em óbito há algumas horas. No Templo de Salomão, sede da Universal, de Edir Macedo, há um controle sanitário maior na entrada: funcionários lavam as mãos e aplicam álcool em gel nos fiéis. Macedo tem feito mais cultos, e a preocupação com a queda na arrecadação no momento é evidente. “Dar dízimo é cumprir o dever com Deus”, disse ele no último dia 30, pregando que quem não doa corre o risco de ficar desempregado. O Templo de Salomão tem recebido entre 2.000 e 3.000 pessoas por reunião nos fins de semana.

Indagadas sobre a quantidade de fiéis em suas celebrações, tanto a Mundial quanto a Renascer disseram respeitar a norma de abrir as igrejas com 30% da capacidade. Há, de fato, faixas que impedem que as pessoas se sentem em cadeiras coladas. “Mas não importa, zelar pela vida implica evitar aglomeração”, critica o padre Michelino Roberto, responsável pela Paróquia Nossa Senhora do Brasil, uma das mais importantes de São Paulo. A Igreja Católica baixou uma norma para que não se realizem missas durante a quarentena, gesto seguido por outros líderes religiosos, inclusive protestantes. “A arrecadação de dízimo caiu 90%, mas pouco importa: a prioridade é a saúde e a vida das pessoas”, diz o reverendo Aldo Quintão, da Catedral Anglicana. As igrejas mais agressivas atualmente nos pedidos de arrecadação de dinheiro são as que enfrentam problemas com o caixa. Valdemiro Santiago, por exemplo, descumpriu compromissos com alguns proprietários de imóveis que aluga. Só em abril, mais de dez senhorios entraram com ações contra a Mundial por falta de pagamento de aluguéis.

Não são apenas algumas igrejas que ajudam a deixar o Brasil em uma situação de descompasso com a gravidade que a conjuntura atual exige. No cenário em que a pressão econômica muitas vezes vence a cautela, várias cidades relaxaram a quarentena – e, não por coincidência, tiveram problemas. No primeiro dia de funcionamento depois de o governo de Santa Catarina flexibilizar as medidas de isolamento, um shopping de Blumenau (SC) virou notícia por causa de um vídeo que mostrava consumidores, entre os quais diversos idosos, aglomerando-se para entrar no centro de compras enquanto eram aplaudidos por funcionários ao som de um saxofonista. Quando o comércio foi liberado no estado, em 22 de abril, a cidade tinha 110 casos de Covid-19. Passadas duas semanas, os registros oficiais mais que dobraram. No Rio de Janeiro, o mesmo Wilson Witzel que deve deixar a cargo de prefeitos a decisão sobreo lockdown havia flexibilizado no início de abril a quarentena em trinta municípios até então sem episódios de contaminação. Um mês depois, 22 deles somam 83 casos e cinco mortes pela doença. Em São Paulo, localidades tiveram as medidas de flexibilização revogadas após manifestações do MP ou decisões da Justiça. Foi o que aconteceu em Sorocaba, com cerca de 680.000 habitantes, que havia passado a considerar escritórios de advocacia, salões de beleza e lojas de tecido como atividades essenciais e precisou recuar da resolução após uma decisão dos tribunais. Em Betim (MG), o prefeito também voltou atrás no relaxamento de regras. “No primeiro dia que reabrimos restaurantes, vimos que não se consegue manter o respeito. As pessoas começavam a beber e não queriam sair mais. Os fiscais chegaram a ser hostilizados por cidadãos alterados”, diz o prefeito Vittorio Medioli (Podemos).

Casos de flagrante desrespeito às quarentenas têm ocorrido em todo o país – e em todas classes sociais. No feriado de 1º de maio, houve congestionamento de automóveis na entrada de Búzios (RJ), sofisticado balneário fluminense. O fluxo de carros nas estradas que ligam São Paulo ao litoral também é alto, a ponto de nove prefeitos da Baixada Santista terem enviado um ofício a João Doria para bloquear as rodovias de acesso – o governo negou a medida. Com os casos de fura-quarentena cada vez mais frequentes, policiais ganharam a incumbência de fiscais de festa. No domingo 3, um empresário foi preso após agredir e ofender PMs que pediam a ele que diminuísse o som e interrompesse uma celebração na cobertura de um prédio na Zona Sul de Belo Horizonte. Situação parecida aconteceu em 18 de abril, em Tibau do Sul (RN), onde a polícia chegou, bem na hora do Parabéns, a uma reunião com cerca de setenta pessoas em um clube. O organizador foi detido em flagrante e os convidados fugiram correndo pela rua. “Estamos recebendo quase quarenta denúncias do tipo por dia”, diz o coronel José Pachá, secretário de Segurança Pública de Rondônia, que investiga uma festa de aniversário em Porto Velho em que mais de quarenta pessoas teriam se contaminado.

Às vezes, nem é preciso investigar tanto assim. Alguns, num evidente arroubo de falta de noção, fazem questão de mostrar a farra nas redes sociais. Em Jurerê Internacional, onde estão os condomínios fechados mais caros de Florianópolis, viralizaram vídeos de festas em mansões e lanchas – com sorrisos, copos nas mãos, vários bumbuns à mostra e nada de máscara. Na Riviera de São Lourenço, reduto de alto padrão no Litoral Norte do estado, houve recentemente um rega-bofe em uma mansão com banda de música ao vivo e Ferraris, Porsches, Lamborghinis e Corvettes estacionados em frente à casa. Na parte de baixo da pirâmide social brasileira tem havido outro tipo de aglomeração. São as imensas filas de pessoas em busca do auxílio de 600 reais, diariamente formadas diante de agências da Caixa. Mas o descaso não se dá apenas por necessidade. Nas favelas, centenas de pessoas saem às ruas e se sentam em botequins como se estivéssemos em um grande e interminável período de férias. Desorganização das autoridades, falta de disciplina e educação da população e desespero econômico – eis o resumo da receita que está transformando o Brasil na nova calamidade mundial da Covid-19. Mudar radicalmente essa equação, quanto antes, é fundamental para preservar vidas e fazer o país voltar o mais rápido possível à normalidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 13 DE MAIO

DESERTO, O GINÁSIO DE DEUS

Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar… (Deuteronômio 8.2a).

O deserto é a escola de Deus, onde ele treina seus mais importantes líderes. O deserto não é um acidente de percurso, mas uma agenda divina. O deserto é o ginásio de Deus, a escola superior do Espírito Santo, onde Deus nos treina e nos capacita para os grandes embates da vida. O deserto não nos promove; ao contrário, nos humilha. Na escola do deserto, aprendemos que nada somos, mas Deus é tudo. No deserto Deus trabalha em nós para depois trabalhar através de nós. Isso porque Deus está mais interessado em quem nós somos do que naquilo que fazemos. Vida com Deus precede trabalho para Deus. A maior prioridade da nossa vida não é fazer a obra de Deus, mas conhecer o Deus da obra. O Deus da obra é mais importante que a obra de Deus. Vida com Deus precede trabalho para Deus. Na escola do deserto, aprendemos a depender mais do provedor que da provisão. Depender da provisão é fácil, pois nós a temos e a administramos. O desafio é confiar no provedor, mesmo quando a provisão acaba. Quando nossa provisão escasseia, podemos confiar no provedor. A nossa fonte pode secar, mas os mananciais de Deus continuam jorrando. A nossa despensa pode ficar vazia, mas os celeiros de Deus continuam abarrotados. Quando os nossos recursos acabam, Deus abre para nós o cofre de seus tesouros. Nossa confiança precisa estar no provedor, e não na provisão!

GESTÃO E CARREIRA

A FORÇA DA MENTE

Segmento bilionário – e crescente – inclui aplicativos que ensinam a meditar: no Brasil, o app. Zen registra 3.5 milhões de downloads

Antes vista pelo público ocidental como uma experiência restrita e, em certa medida, exótica, a meditação virou um estilo de vida, sendo cada vez mais indicada para aumentar o bem-estar e a performance dos praticantes, além de tratar problemas graves como depressão e ansiedade. O interesse nessa modalidade de autocuidado fica evidente ao se observar o crescimento das ofertas e das projeções para o setor.

Nos Estados Unidos, maior mercado global para o segmento de meditação em geral – que inclui palestras, retiros, livros e conteúdo online -, o crescimento deve chegar aos 11,4% até 2022, o equivalente a US$2,08 bilhão de receita.

Um business notável dentro desse mercado é o dos aplicativos: o gasto mundial nessas ferramentas, que já são líderes do segmento de autocuidado digital, chegou a US$ 195 milhões em 2019, segundo a empresa de pesquisa especializada em aplicativos Sensor Tower.

Os principais provedores de apps de meditação incluem a Calm, criada pelo empreendedor britânico Michael Acton Smith, que se tornou unicórnio no ano passado. Outro destaque é o Headspace, fundado pelo ex- monge Andy Puddicombe, que captou US$ 93 milhões em uma rodada série C em fevereiro. Ambas as plataformas têm investido em conteúdo – como programas para ajudar usuários a lidarem com a tensão do coronavírus e até histórias de ninar narradas por celebridades.

Principal expoente brasileiro do setor, o Zen registra 3,5 milhões de downloads de seu aplicativo e 250 mil usuários ativos em 150 países, servidos com conteúdo em três idiomas. Segundo a cofundadora da startup de Santos (SP). Juliana Góes, a em presa caminha para se tornar uma “plataforma de transformação de vida”: novos produtos sob o guarda­ chuva do Zen, como o Sonno, app focado em insônia, foram lançados este ano – e uma oferta de educação online também está nos planos. “Conseguimos nos encaixar na rotina dos nossos assinantes o dia todo de forma versátil e em diversos formatos”, aponta.

Andrea Iorio, ex- country manager do Tinder e um dos investidores-anjo do Zen, notou a oportunidade quando analisava o mercado de aplicativos e decidiu apoiar o início do negócio. Segundo ele, o Headspace e o Calm não ameaçam a empresa brasileira: “Usuários latinos tendem a começar com eles e depois buscam experiências locais”, afirma. “[Os aplicativos estrangeiros] são produtos que educaram o mercado que eram resistentes à meditação digital, mas não souberam suprir os usuários com criação de conteúdo local – e é aí que a Zen se diferencia.”

O interesse em práticas de meditação também tem crescido dentro das empresas, segundo Ken O’Donnell, coordenador para a América Latina da organização global de transformação pessoal Brahma Kumaris, com sete livros publicados sobre o tema de inteligência espiritual no mundo corporativo. “Se empresas querem alta performance, precisam que seus líderes sejam tradutores rápidos de pessoas e de situações, e a meditação ajuda a perceber com mais clareza onde atuar”, argumenta. Em seus workshops para empresa (“gigantes de bens de consumo e bancos”). O’Donnell introduz a auto observação como forma de aumentar a capacidade perceptiva dos gestores e de suas equipes: “Executivos têm que gerar um senso de pertencimento, e para isso, precisam perceber que o outro é um ser como eles. A pausa refletiva ajuda nesse processo de identificação.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA LUZ NO CONFINAMENTO

O isolamento social fez crescer os episódios de tristeza e depressão – mas a adequação da rotina e o apoio de profissionais podem ajudar a superar os problemas

Um dia, quando formos levados a definir os primeiros meses de 2020, e pudermos ir para muito além de nossas janelas, haverá uma marca incontornável: o isolamento social e, a partir dele, a sensação de tristeza associada ao fechamento compulsório dentro de casa. Há, evidentemente, momentos de alegria e relaxamento com os filhos, com os pais, nas conversas por meio de aplicativos de videoconferência, há as maratonas de séries na televisão, até o intenso trabalho a distância pode ser agradável – mas paira no ar a percepção, nem sempre palpável, de que algo saiu de linha com a saúde mental. É preocupação que agora, com a quarentena em pleno curso, começa a ser medida. Um recente levantamento realizado pela Associação Americana de Psiquiatria mostrou que 25% dos cidadãos nos Estados Unidos sofreram impactos, na forma de prostração severa e depressão, em decorrência do atual confinamento provocado pelo surto de Covid-19 – quadro só comparável ao dos dias e semanas posteriores aos ataques do 11 de Setembro. No Brasil, o desconforto pode ser aferido pelo aumento das consultas virtuais com psicólogos e psicanalistas. O recurso eletrônico, deflagrado em 2018, ganhou tração com atendimentos feitos por WhatsApp, Skype, Face Time, Zoom etc. Desde o início de março a quantidade de profissionais cadastrados pelos conselhos da categoria e autorizados a atender a distância dobrou – já são quase 90.000. Na plataforma Psicologia Viva, de orientação virtual, com cerca de 4.000 profissionais registrados, o número de atendimentos quadruplicou durante a pandemia. Nos meses de março e abril, o termo “psicólogo on-line” bateu recorde de consultas no Google.

A falta de perspectiva – até quando? – dissemina o incômodo, sobretudo entre os mais propensos a dificuldades, com histórico anterior de desequilíbrio. “A quarentena é composta de fases”, diz o psicólogo Artur Scarpato. “No começo há um otimismo maior, mas com o passar das semanas cresce o sentimento de aprisionamento e de ameaça. “Não é o caso de diluir a indizível agonia de quem sofre com o apartamento, mas pesquisas sobejamente aceitas demonstram que seis em cada dez pessoas desafiam o corte abrupto e experimentam ótimas saídas cerebrais – embora, ressalve-se, diversos trabalhos comportamentais já tenham apontado os danos da falta de relação social (uma experiência publicada em 2015 pelo reputado Departamento de Psicologia da Universidade Brigham Young, de Utah, nos Estados Unidos, mostrou que o risco de morte entre os que vivem muito sós cresce 32% em relação aos mais sociáveis, dado comumente comparado ao da obesidade).

Por sorte, a humanidade aprendeu a conviver coletivamente – e a se defender em caso de afastamentos forçados, atalho para transtornos hormonais, neurológicos e comportamentais. O americano John Cacioppo (1951-2018), do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago, uma das autoridades mundiais em sua área, desenvolveu uma tese, depois comprovada por antropólogos: os primatas, nossos ancestrais, há mais de 50 milhões de anos, precisavam pertencer a um grupo social, uma família, um bando. Estar sozinho, ou mesmo entre pares com os quais não havia entendimento, provocava como resposta a luta e a fuga. Para Cacioppo, a solidão desencadeava, como ainda desencadeia, a chamada “hiper vigilância”- e, em fascinante processo evolutivo, ela foi incorporada ao sistema nervoso. Por isso o exílio deflagra reações físicas, e luta-se para evitá-lo.

“Esse período de desassossego nos dá a possibilidade de reavaliar o que é realmente prioridade e construir hábitos que façam mais sentido para nosso propósito de vida”, diz Uana Pinsky, psicóloga clínica e pesquisadora visitante na City University de New York (Cuny). “É uma chance única para refletir e construir um novo jeito de viver, seja de forma coletiva, seja de modo individual.” Há atividades simples e pequenas sugestões de posturas chanceladas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). São comezinhas, mas produtivas. Uma das mais poderosas é ignorar as fake news. Tentar executar tarefas desafiadoras estimula a mente. Nunca cozinhou? Cozinhe. Não tem o hábito de ler? Leia.” Sairá melhor da quarentena quem conseguir desenvolver novos gostos e não lamentar o passado perdido”, afirma Alfredo Maluf, psiquiatra do Hospital Albert Einstein. Uma boa rotina é unanimidade entre os especialistas. Trabalhar em períodos semelhantes aos que se cumpria no escritório, fazer pausas para refeições. Para o bom sono, fortemente afetado pelo isolamento, desligar celulares, tablets e laptops ao menos noventa minutos antes de apagar as luzes.

As crianças, os adolescentes e os idosos estão entre os que mais podem sofrer durante o isolamento. Logo que deixou de ir para a escola, Alice, de apenas 3 anos, ligava para os amigos perguntando como estavam as aulas, um tanto perdida. “Ela se recusava a compreender que não podia sair de casa”, conta a mãe, Angélica Ravagnani.Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina de Tongji e pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, na China, mostra que 22,6% dos alunos mais jovens da província de Hubei – o epicentro inaugural da Covid-19 – apresentaram quadros depressivos. Trata-se de uma taxa 5 pontos porcentuais maior que a observada em escolas primárias no resto da China. “Os pequenos têm menor capacidade de organização e planejamento diante da quebra da rotina”, diz Juliana de Oliveira Góis, psicóloga e orientadora pedagógica do Colégio Rio Branco, um dos mais tradicionais de São Paulo. Há menos de um mês, a Associação Americana de Psicologia publicou recomendações acerca do atendimento psicológico específico de jovens em idade escolar. As consultas não podem ser formais e é preciso que se usem recursos on-line interativos, como jogos, por exemplo, para manter a atenção.

Há um atenuante, forte o suficiente para ser posto no rol de consolos: a universalidade do vírus, que não escolhe país nem estrato da sociedade. “Experimentar globalmente os mesmos sentimentos em uma circunstância parecida nos torna mais empáticos com a nossa própria dor e com a dor do outro”, afirma o psicólogo Rossandro Klinjey, fenômeno nas redes sociais. “A temporada de distanciamento experimentada em 2020 fará com que transtornos mentais, até lidados com preconceito por muitos, não soem tão distantes.” E então, em momentos de drama coletivo, quando as perspectivas parecem inexistir, e há imensa dificuldade de encontrar o passo seguinte, convém sempre beber de quem sabe enfrentar essas coisas e, de algum modo, oferecer otimismo: os artistas, a poesia, o cinema.

Para Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em Desperdício, poema de 1952, ficar sozinho como um Robinson Crusoé nunca foi necessariamente ruim, porque “Solidão, não te mereço, pois que te consumo em vão/Sabendo-te embora o preço, calco teu ouro no chão”. Nos serviços de streaming tem feito muito sucesso um clássico de 1993, a comédia Feitiço do Tempo, com Bill Murray e Andie MacDowell – o relato de um apresentador de meteorologia de televisão, um homem do tempo, enfim, que acorda sempre no mesmo dia, revivendo o que passara nas 24 horas anteriores. É uma situação que começa com graça e vira um incômodo insuportável, uma dor pungente. Phil, o personagem de Murray, chega a desistir da vida, salvo da morte autoimposta porque ao toque do despertador tudo recomeça – do desespero, contudo, ele extrai esperança, vê saídas, entende que seu aprisionamento tem algo de positivo, há um truque legítimo para contorná-lo. “Deixe-me fazer uma pergunta a vocês”, atalha Phil, com olhar desesperado, dois moradores da cidade de Punxsutawney, na Pensilvânia, que ele encontra em um esfumaçado bar de boliche. “E se não houvesse amanhã?” Eles consideram a questão e respondem: “Não haveria consequências, não haveria ressaca, poderíamos fazer o que quiséssemos”.

Não é exatamente assim agora, com o isolamento imposto pela pandemia. Sempre teremos o amanhã, mas os profissionais de saúde recomendam lidar com a metade do tempo cheia, e não com a metade vazia. O.k., parece haver um tanto de obviedade nas recomendações de manter a cabeça ocupada, mas não. Um bom, histórico e adequado exemplo é o do iluminista francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que, em 1743, indo de Paris a Veneza, foi pego pela peste e teve de parar em Gênova. Ele faz o relato de sua quarentena, totalmente só, nas Confissões (1782). Ocupou então um edifício em ruínas de dois pavimentos, sem conforto algum. Lia e escrevia. “Comecei a me organizar para os meus 21 dias, exatamente como deveria ter feito durante toda a minha vida”, resumiu. Para a filósofa Catherine Malabou, Rousseau “pôs a quarentena em quarentena”, ou seja, criou uma ilha íntima de tranquilidade dentro do arquipélago da solidão. Pode ser um bom caminho – mas é provável que seja preciso o apoio de profissionais da mente. A distância, é claro.

O SONO INTERROMPIDO

Uma em cada cinco pessoas passou a ter dificuldade para dormir com a pandemia de Covid-19. O sono se tornou mais curto e agitado. É o que aponta recente pesquisa conduzida pelo Hospital da Universidade de Shenzhen e pela Universidade de Huazhong, na China, realizada com 7.236 adultos. Entre os profissionais de saúde, a frequência sobe para uma em cada quatro pessoas. Há explicação: a combinação de condições realmente estressantes, como o medo de contrair uma doença ainda desconhecida, com a quebra radical da rotina. Além disso, o confinamento gera outro problema: a redução de tempo de exposição ao sol. A luz solar ajuda a regular o hormônio que inibe o sono, a melatonina. Os sonhos também foram atingidos. Quando dormimos, passamos por diferentes estágios do sono que percorrem a noite toda. Isso inclui sono leve e profundo e um período conhecido como sono de movimento rápido dos olhos (REM), que acontece com mais destaque na segunda metade da noite. Os sonhos podem ocorrer em todos os estágios do sono, mas o REM é considerado o responsável por sonhos visuais e altamente emotivos. Dormir pouco afeta em especial esse momento, tornando os sonhos mais vívidos e emocionais que o habitual.

Uma das formas de ajudar o organismo a reagir é abrir as cortinas durante o dia e se expor à luz natural. Programar os horários para dormir e acordar é fundamental, mesmo que não se tenha nenhuma tarefa obrigatória para realizar. A última refeição do dia deve ser feita pelo menos duas horas antes de ir para a cama. Bebidas com cafeína ou sabor “cola” precisam ser banidas do cardápio pelo menos quatro horas antes de deitar­ se, assim como os alimentos ricos em açúcares. Os smartphones e tablets também são vilões para quem não consegue descansar. O ideal é que sejam desligados pelo menos noventa minutos antes de as luzes serem apagadas. Notificações de aplicativos, e-mails e redes sociais podem estimular a procura pelo celular na hora errada. São conselhos perenes, agora ainda mais vitais.

EU ACHO…

SETEMBRO

O monstro vai embora ao nascer da primavera — dizem os especialistas, não especialistas em flores, mas em monstros. Setembro parece ser o mês de extinção do novo coronavírus.

Gotas de consolo para a alma

Especialistas em tosse seca, tosse tossida com terror para fora do peito e da noite insone, especialistas em coriza, especialistas em febre na casa dos trinta e sete ponto oito graus, todos eles falam da primavera. É por isso que outros especialistas, que somos todos nós, especialistas em florescimentos vamos plantando na alma, ainda em pleno outono, as sementes de uma nova estação.

Nossas crianças crescerão, e terão as crianças delas, gerações andarão. As crianças de hoje, então adultas amanhã, contarão para suas crianças futuras sobre um tempo em que os maiores centros urbanos viraram cemitérios — cemitérios de mortos e cemitérios de vivos. Cidades? Não! Cemitérios. História triste para rememorar e contar, assim como atualmente, um século depois, ainda falamos e contamos sobre a gripe espanhola que dizimou um terço da espécie humana: cerca de cem milhões de pessoas morreram entre 1918 e 1920, enquanto a Primeira Guerra Mundial, que ensanguentou o planeta de 1914 a 1918, matou oito milhões de habitantes. O monstro de então era o H1N1. Mas houve o despertar de uma primavera… flores que logo feneceram…

A primavera de 2019 virá, demais primaveras virão, e as crianças de futuras estações das flores ouvirão relatos como se tudo fosse inimaginável, porque aí a ciência já terá descoberto medicações de profilaxia para todos os monstros. Aniquilá-los será fácil demais. Aquilo que um dia foi monstro a causar pânico, deserto urbano, morte, isolamento, quarentena, depressão, desemprego e fome não será mais nada. Nada! Motivo: os governantes passarão a cuidar da saúde pública, isso nas primaveras que surgirão, a tal ponto que as crianças de lá, e também os adultos de lá que foram as crianças de cá, ficarão estupefatos em saber que existiu uma época na qual homens públicos preferiram roubar dinheiro do povo do que investir em saneamento básico. Optaram por roubar e não por alavancar pesquisas, remunerar muito bem os cientistas, construir UTIs. Acharam melhor roubar do que zelar, com mãos de jardineiro, pelo delicado e divino fenômeno da polinização — que se dá entre flores mas também entre gente. A saúde das pessoas, mãos com mãos, bocas com bocas, línguas com línguas, línguas nos corpos, corpos com corpos,
também se poliniza.

Mas, apesar desses predadores políticos de hoje, é do ventre do monstro, também de hoje, que jorrará a água que transbordará uma fonte — a fonte da eterna saúde de todas as primaveras. E de todas as estações.

*ANTONIO CARLOS PRADO –  editor executivo da revista ISTO É

OUTROS OLHARES

POR QUE NÃO OBEDECEM

A histórica cultura das pequenas transgressões explica o “gostinho” que leva muitos brasileiros, que podem ficar em casa, a burlarem o isolamento

A quarentena é necessária como o mais eficaz método de contenção do contágio pelo coronavírus. Há quem não possa ficar em casa porque, como profissional da área da saúde, está na linha de frente de combate à pandemia. Há também pessoas que precisam pisar as ruas diariamente porque integram outros serviços essenciais. A pergunta que se faz é: por que tanta gente que não tem a menor necessidade de furar o distanciamento social transgride as regras do isolamento? Tais indivíduos vão a parques, e vão a praias, e vão às avenidas, a maioria sem máscaras ou demais medidas de proteção. Uma resposta é imediata: temos um presidente da República que confunde e atrapalha o Brasil acima de tudo e até Deus acima de todos, pregando o fim da quarentena. Outro argumento que serve à indagação proposta é igualmente simples: em um País no qual os donos do poder burlam, em benefício próprio, o maior número de regras que conseguem, onde a impunidade rola solta e o exemplo que vem de cima é péssimo, por que o mais comum dos cidadãos vai se trancar? Mesmo sabendo que pode se contaminar e até morrer, ele vai querer dar um rolê. É o mesmo fenômeno que se vê nos bailes funks e pancadões nas periferias das grandes cidades. Na comunidade onde esses caras moram, não tem sequer saneamento básico. Como querer que eles entendam que devem se proteger? Fica difícil lavar as mãos quando não se tem água encanada, e o álcool gel, então, é como o caviar na letra do genial Zeca Pagodinho: “você sabe o que é caviar? Nunca vi nem comi, eu só ouço falar”.

A EXCITAÇÃO PELO PROIBIDO

Fora essas considerações políticas e sociológicas, há, no entanto, um mais calado sentimento que leva à transgressão e que não compõem somente a alma do brasileiro — mas, isso sim, da espécie humana. De volta ao Brasil, tentemos mergulhar na cultura e na emoção da transgressão que se arrasta há séculos. Para se ter uma ideia, no século XVII, quando os holandeses tornaram o Brasil uma de suas colônias, o bispo e historiador Caspar Barleus, um dos mais cultos e notáveis integrantes da missão de Maurício de Nassau, observando o comportamento dos brasileiros que a tudo transgrediam com prazer, assim escreveu: “ultra aequinoxialem non peccari”. A frase foi citada primeiramente pelo sociólogo Sérgio Buarque de Holanda no clássico “Raízes do Brasil” e, numa segunda ocasião, pelo seu filho Chico Buarque. A tradução do latim para o português diz tudo: “não existe pecado do lado de baixo do Equador”. Vindo para os dias de hoje, esse vale tudo que atravessou o tempo se traduz também na burla ao isolamento: em São Paulo, no feriado de 1º de maio, registrou-se a mais baixa taxa de adesão à quarentena: 46% da população, enquanto o recomendado pela OMS é 70%. No Rio de Janeiro, na semana que antecedeu o mesmo feriado, 60% ficaram em casa.

As chamadas pequenas corrupções do dia a dia são comportamentos errados, mas não tão sérios a ponto de serem entendidos como crimes. E, por isso, quando são reproduzidos, acabam sendo normatizados”, disse o psicanalista Fabio Sousa, pesquisador da cultura e do comportamento brasileiros. Assim se explica, por exemplo, o gostinho de se passar por baixo de uma faixa de interdição na praça diante do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, um dos mais famosos do País. Detalhe: lá, aos fins de semana, tem gente jogando bola, mães passeando com bebê no carrinho, famílias fazendo piquenique. A mesma coisa ocorre nas orlas brasileiras e nas áreas verdes de lazer. “É o inconsciente cultural coletivo”, diz Sousa. Essa é a visão vinda do famoso psicanalista suíço Carl Jung. Igualmente o psicanalista francês Jacques Lacan teorizou sobre a questão: “cometer a pequena transgressão é nosso destino”, é inerente a alma humana. “Não devemos cometê-la, mas, ao não fazê-la, traçamos o nosso trágico destino de quem quer transgredir e não o faz”, escreveu Lacan. Ou seja: de alma e corpo somos transgressores e, como já explicado acima, esse gostinho foi histórica e culturalmente cultivado com primor no Brasil. Dê-se a palavra a quem melhor entende do assunto: um burlador de quarentena, como o paulista T.P. Abre-se ele: “não dá, eu acabo desrespeitando pequenas regras. Quando deparo com o proibido, de tanta euforia sinto minha alma saindo do corpo”.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 12 DE MAIO

PERDÃO, A ASSEPSIA DA ALMA