EU ACHO …

ELOGIO, ASSÉDIO E O PRÓXIMO ELEVADOR

Elogio, assédio e o próximo elevador

Uma amiga psicanalista que mora há alguns anos nos Estados Unidos conta que já ouviu, de mais de um homem, um relato curioso: eles evitam entrar no elevador com uma mulher que esteja sozinha. Esperam pelo próximo, com medo de que uma palavra, um gesto ou um olhar mal colocado naquele curtíssimo espaço de tempo entre o andar A e o andar B possa ser confundido com assédio.

É um exagero, sim (e bem americano…). Mas em um mundo de fronteiras cada vez mais borradas, não é difícil entender que os homens estejam confusos sobre o comportamento adequado diante de uma mulher, em especial nos ambientes de trabalho, em que a revolução de costumes é profunda e continua acontecendo. Muitos se explicam dizendo que não sabem mais sequer como elogiar uma colega, não importa onde cada um esteja no organograma. E, mesmo com todos os cuidados, acham sempre que estão errando.

Olhar de perto um caso que movimentou o LinkedIn na semana passada pode ajudar a entender onde.

Uma mulher que trocou de emprego resolveu fazer o que se faz normalmente nessa rede social dedicada às conexões profissionais: disparou vários convites para aumentar sua rede de contatos, o tal network. Um dos novos colegas aceitou o convite enviado, cumprimentou a mulher pela troca e arrematou a mensagem com uma frase bastante entusiasmada sobre a beleza dos olhos dela, que viu apenas na foto do perfil (eles não se conheciam pessoalmente, mas isso também é normal nas redes sociais).

Como não era a primeira vez que acontecia, a mulher decidiu reagir. Em um longo e incisivo post, preservou a identidade do homem mas explicou publicamente a ele que “LinkedIn não é Tinder” (ou seja, não é o lugar para ser abordada dessa maneira, nem ela está ali para isso). Disse ainda que preferia ser elogiada por atributos profissionais num ambiente idem.

E porque esse assunto está na pauta, em dois dias o post já tinha quase 1.000 comentários e 7.000 reações. Com um pouco de tudo, incluindo os radicalismos – de um lado, ela foi chamada de “feminista azeda” por “rejeitar elogios”; de outro, recebeu a sugestão de buscar um advogado para fazer “valer seus direitos” e denunciar o “assédio”.

Isolando esses extremos, no batalhão dos ponderados muitas outras mulheres relataram já ter passado pelo desconforto de ouvir um elogio esquisito em seu ambiente de trabalho. De se perguntar se aquilo era “cantada” ou assédio, e até se havia sido provocado por algum comportamento inadequado dela mesma. Quem um dia já precisou adotar o sorriso amarelo como escudo numa conversa profissional sabe do que elas estão falando.

Porque esses relatos, e um bocado de pesquisas nos ambientes de trabalho, mostram que é bem comum uma mulher receber elogios nebulosos quanto à intenção (no caso em questão, aliás, era elogio ou “cantada”?). E não raramente, quando protesta, ainda precisa ouvir que o problema não estava na intenção nebulosa do outro, mas na sua cabeça. (Sim, esse comentário também apareceu no post do LinkedIn.)

Essas abordagens incluem quase sempre considerações sobre a aparência física da mulher. Ainda que entusiasmadas, e positivas, não deixam de ser inconvenientes. E se vierem acompanhadas de insistência, criam o cenário perigoso: mesmo em um mundo de fronteiras borradas, um simples “não” já deveria servir para estabelecer a fronteira final. Passar dela é ingressar no território do assédio.

Não é difícil entender – basta uma dose de boa vontade para rever comportamentos normalizados, e mudar. Como aconteceu nesse caso. Depois de ler os argumentos enfileirados no post e em boa parte dos comentários, o homem acabou enviando uma mensagem de desculpas que a mulher aceitou e publicou junto do seu texto, encerrando o assunto. Cada um cedeu um pouco, e ambos certamente aprenderam muito.

Quem acha que isso é impossível tem mesmo é que ficar esperando o próximo elevador.

 

JUNIA NOGUEIRA DE SÁ – é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à Women Corporate Directors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.

OUTROS OLHARES

COMEÇOU O FUTURO

Voos reduzidos, uso de máscara: eis o “novo normal” dos, digamos assim, passageiros da pandemia. A expectativa é que tudo isso será mantido no período pós-surto

Começou o futuro

É como se o verbo viajar tivesse sido sequestrado do dicionário da realidade. Nestes dias em que, para bilhões de pessoas mundo afora, sair de casa se tornou sinônimo de ir no máximo até o supermercado ou à farmácia, os aeroportos, por exemplo, se tornaram verdadeiros desertos – sem nenhum oásis. Quem, por motivos inadiáveis, é forçado a embarcar em um voo de carreira frequentemente vê reproduzido dentro das aeronaves um cenário semelhante: quase ninguém nos assentos, tampouco nos corredores. E atenção, senhores passageiros: esse é apenas um dos aspectos que se desenham no horizonte para o pós-pandemia, o “novo normal” que deverá se estabelecer a partir das lições – muitas amargas – que serão deixadas pelo surto de Covid-19. Dito de outra forma: o futuro, no âmbito do turismo, já começou. Está no presente.

Tudo se inicia em terra, com a adoção de medidas para preservar o distanciamento físico entre os viajantes. Dentro dos aviões, os novos protocolos das companhias impõem reforço na higienização, com o uso de mais desinfetantes, aumento da filtragem do ar e uma distribuição na ocupação dos assentos a fim de permitir que os passageiros não fiquem próximos – o que, convenhamos, não tem sido difícil com os aviões vazios (há voos saindo dos Estados Unidos com apenas dezessete pessoas a bordo). Além disso, em um número crescente de empresas aéreas, os viajantes vêm sendo obrigados a usar máscara – algo que havia sido determinado antes para toda a tripulação.

Em tempos de crise, pode-se recorrer ao passado para enxergar de que maneira o presente começa a funcionar como um rascunho, por assim dizer, do futuro. Logo após os atentados terroristas ao World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001, as normas de segurança das viagens aéreas foram radicalmente modificadas. A inspeção dos passageiros tornou­ se muito mais rígida, o que resultou em enormes filas no raio x; restringiu-se bastante o que pode ser levado na bagagem de mão; a porta da cabine dos pilotos passou a ser à prova de balas. Depois de quase duas décadas, praticamente ninguém se lembra de como eram as coisas antes. Tudo passou a ser perfeitamente aceitável. A expectativa do setor de viagens é que o mesmo ocorra com as medidas de precaução de agora.

Por enquanto, para tentar reverter o inacreditável tombo provocado pela eclosão da Covid-19 – só no Brasil o número de voos caiu 90% desde o começo da pandemia do novo coronavírus -, as empresas aéreas vêm lançando mão de uma série de estratégias. Há, por aqui, promoções que podem fazer o preço de um bilhete internacional ficar até 60% mais barato. Numa medida acertada, algumas companhias também decidiram simplesmente não cobrar taxas para a remarcação de passagens. E para quem está preocupado com o vencimento de suas milhas – que talvez demore muito até que possam ser utilizadas – a notícia é boa. Grande parte das empresas, que voam para os diferentes continentes, optou pela renovação dos seus programas de fidelidade – alguns deles até janeiro de 2022.

Nada mau – sobretudo considerando que, dada a reviravolta do mercado, os viajantes do período pós-pandemia não possam esperar somente céu de brigadeiro. Com a redução no número de passageiros, devido à limitação da ocupação de assentos, não se descarta a possibilidade de que o valor das passagens aéreas chegue mesmo a dobrar. Os embarques, que neste momento de campanha cerrada pela quarentena se tornaram rapidíssimos, poderão demorar até quatro horas, ao longo das quais os viajantes serão submetidos à checagem de saúde, incluindo testes de sangue (e não meramente a tomada de temperatura, feita hoje em dia em vários locais). Ainda assim, após experimentar tamanho confinamento; depois de só poder ir até o supermercado ou à farmácia –  ah, isso será o de menos.

Começou o futuro. 2

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE MAIO

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ÁGUAS AMARGAS SE TORNAM DOCES

Então, Moisés clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou uma árvore; lançou-a Moisés nas  águas e as águas se tornaram doces (Êxodo 15.25a).

 

O povo de Israel acabara de atravessar o mar Vermelho de forma milagrosa. O mar tornou-se caminho aberto para os hebreus e sepultura para seus inimigos. Agora, o povo tem pela frente o deserto de Sur. Depois de três dias de caminhada, eles não encontraram água. Enfim, chegaram a Mara, mas ali não puderam beber as águas, porque eram amargas. O povo murmura contra Moisés, e Moisés clama a Deus, que lhe aponta uma solução: lançar uma árvore sobre as águas de Mara. Ali Deus provou o povo e lhe deu estatutos. Deus prometeu ao povo que, se eles andassem em obediência, as enfermidades que vieram sobre os egípcios não os alcançariam. Ali Deus se revela ao povo com um novo nome, Jeová Rafá, o SENHOR que te sara (v. 26). Ao saíram de Mara, chegaram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras. Ali acamparam junto às águas. As águas amargas de Mara são um símbolo da vida antes da conversão. Não há nada neste mundo que nos possa satisfazer. Porém, quando a cruz de Cristo é colocada nessas águas amargas, elas se tornam doces. Quando Cristo entra em nossa vida, somos transformados, restaurados e transformados em instrumentos de vida e não de morte, de deleite e não de tormento, de alívio e não de pesar. É pela cruz de Cristo que essa transformação acontece. Nenhum poder na terra nem no céu pode mudar a nossa vida, a nossa sorte e o nosso futuro a não ser Cristo, e este crucificado. Temos vida pela sua morte, temos cura pela sua cruz!

 

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSIDADE QUE VENDE

Brinquedos como a boneca Barbie levam às prateleiras o respeito às diversas identidades e levantam o debate sobre o consumo consciente

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Não é novidade que a publicidade infantil instigue o desejo consumista das crianças. Ela anuncia o que os pequenos precisam e eles desejam o objeto idealizado. Mas também é antiga a discussão sobre os limites das ações publicitárias dirigidas aos mais jovens: são legais ou ilegais? Atualmente, esse debate tem ganhado novos contornos. Há mudanças importantes acontecendo para valorizar o respeito às diferenças e à inclusão. Um exemplo é a gigante dos brinquedos Mattel: a companhia acaba de lançar uma nova linha de Barbie em que as bonecas representam a diversidade cultural, étnica e trazem doenças de pele e deficiências físicas. São 176 novos modelos da linha chamada Barbie Fashionista, que tem nove tipos de corpos, 35 tons de pele e 94 diferentes cabelos. A Hasbro, fabricante da boneca Baby Alive, também criou bebês com a pele negra. Na linha LoL Suprise, da MGA Entertainment, há opções que fogem do padrão “branco e loiro”.

COM A CARA DA AVÓ

“O brinquedo passou a ser um negócio. Não podemos ter o olhar ingênuo de achar que a indústria faz isso apenas para acolher e reconhecer”, explica Raquel Franzim, coordenadora de educação do Instituto Alana. O cenário no qual a criança se desenvolve é mais importante do que o objeto com o qual ela brinca. A Barbie representa apenas uma parcela da identificação.

Raquel questiona: “É o brinquedo que faz a criança brincar ou precisamos cuidar do próprio ato de brincar das crianças?”
Indiferentes às considerações éticas e ideológicas, as crianças aproveitam. A pequena Theodora, quatro anos, sorri com o seu presente de natal: uma Barbie negra, com os cabelos raspados e descoloridos. Quando ela abriu o embrulho, automaticamente associou o objeto à avó, que possui as mesmas características físicas da boneca. A hoteleira Dilane Lopes Moreira, mãe de Theodora, conta que sempre valorizou a convivência da filha com produtos com os quais ela pudesse se identificar. “Todos são bonitos do jeito que são”, é o mantra da casa. Para ela, a Barbie nova está sendo apenas um complemento para a construção da identidade da filha.

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CORPO E A CULTURA

Hoje já se reconhece a influência social sobre o comportamento, a cognição e o desenvolvimento das habilidades motoras

O corpo e a cultura

Mas seria possível afirmar que meninas e meninos demonstram preferências, competências e atributos de personalidade originalmente configurados conforme o sexo? Será verdade o que aprendemos sobre as justificativas biológicas para as habilidades distintas de garotas e garotos?

Em ampla investigação sobre as construções sexuais e do corpo sexuado, Anne Fausto-Sterling, professora de biologia e estudos do gênero do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e Celular da Universidade Brown, em Rhode lsland (EUA), cita inúmeras pesquisas que atestam a existência de uma anatomia cerebral específica para cada sexo. Daí viria a base para atribuir às mulheres, a intuição, a falta de aptidão para exatas, a ampla habilidade verbal e o uso simultâneo de ambos os hemisférios cerebrais. Aos homens, em geral, confere-se melhor desempenho espaço-visual, matemático e científico. Articulando biologia, medicina e ciências sociais, a bióloga revela ainda como essas pesquisas usam as relações sociais para estruturar a Natureza e, ao mesmo tempo, reduzem o mundo social a ela. Em outras palavras, passam da discussão das diferenças externas e do ambiente social para as diferenças internas do organismo biológico e quais os efeitos do que se entende por masculinidade e feminilidade.

Refletir sobre os fundamentos dessas afirmações no que se refere à educação, e mais especificamente à sociologia da educação, exige o questionamento de suas origens e do peso do caráter biológico na construção das diferenças. Isso pressupõe, por exemplo, indagar sobre a interferência e sobre o papel da cultura no processo de socialização e educação de meninas e meninos desde suas primeiras experiências de vida na família e na educação infantil.

No âmbito dos modelos cognitivos, é possível comprovar que as diferenças no desempenho em matemática ou na capacidade de linguagem resultam de diferenças cerebrais de cada sexo tidas como inatas? No campo das relações e comportamentos infantis, podemos mesmo supor que elas necessariamente preferem as bonecas e eles, os carrinhos? Elas foram feitas para brincar de roda e eles, de futebol?

A perspectiva sociocultural permite centrarmos o olhar nas formas de controle do corpo infantil, processo este social e culturalmente determinado, que muitas vezes nem sequer percebemos. Poderíamos dizer que as características tidas como masculinas ou femininas resultam de esforços diversos para distinguir corpos, comportamentos e habilidades de meninas e meninos. A influência da socialização e da cultura sobre a cognição, o comportamento e as habilidades motoras de garotos e garotas vem sendo reconhecida por pesquisadores de várias áreas.

A educação infantil não só cuida do corpo da criança como o educa: ele é o primeiro lugar marcado pelo adulto, que impõe à sua conduta limites sociais e psicológicos.

 Nosso corpo, nossos gestos e as imagens corporais que sustentamos são frutos de nossa cultura, dos traços e dos valores sociais por ela apreciados. O corpo é, portanto, uma construção social produzida, moldada, modificada, adornada segundo parâmetros culturais.

Torna-se, portanto, indispensável pensar sobre práticas, habilidades e configurações corporais infantis, assim como sobre os modelos cognitivos nelas referenciados, como configurações de gênero, processadas, reconhecidas e valorizadas na e pela cultura na qual se inserem. É importante perguntar como esses mecanismos sociais se fazem presentes na educação de meninas e meninos, como são inscritos em seus corpos, como disciplinam, regulam e controlam seu comportamento, posturas, verdades e saberes.

 DESEMPENHO ESCOLAR

Homens e mulheres adultos educam crianças definindo diferenças de gênero. As características físicas e os comportamentos esperados para meninos e meninas são reforçados, às vezes de forma inconsciente, nos pequenos gestos e práticas do dia a dia na educação infantil. A forma como a família ou a professora conversa com a menina, elogiando sua meiguice, ou justificando a atividade sem capricho do menino; o fato de pedir para uma menina ajudar na limpeza e ao menino para carregar algo demonstram como as expectativas são diferenciadas para cada sexo. O que é valorizado para a menina não é, muitas vezes, apreciado para o menino e vice-versa.

Meninos e meninas desenvolvem seu comportamento e potencialidades a fim de corresponder às expectativas de um modelo singular e unívoco de masculinidade e feminilidade em nossa sociedade. Muitas vezes família e escola orientam e reforçam habilidades específicas para cada sexo, transmitindo expectativas quanto ao tipo de desempenho intelectual considerado “mais adequado”, manipulando recompensas e sanções sempre que tais expectativas são ou não satisfeitas. Meninas e meninos são educados de forma muito diferente, sejam irmãos de uma mesma família, sejam alunos sentados na mesma sala, a ler os mesmos livros ou a ouvir o mesmo professor. A diferença está nas formas nem sempre explícitas com que membros da família e educadores interagem com as crianças.

Pesquisas apontam que as justificativas para as diferenças de desempenho escolar entre meninas e meninos no ensino fundamental estão relacionadas às representações e às expectativas dos educadores quanto à caracterização dos comportamentos: as meninas são apontadas como mais responsáveis, dedicadas, comunicativas, estudiosas, interessadas, sensíveis, atentas, enquanto meninos são considerados displicentes com os estudos, ausentes, dispersivos, agitados, desatentos, ainda que mais inteligentes.

As diferenças podem ser percebidas, mas não são fixadas na característica biológica apresentada ao nascer. Os significados de gênero – habilidades, identidades e modos de ser – vão sendo socialmente configurados, impressos no corpo de meninos e meninas de acordo com as expectativas de uma determinada sociedade.

 EXPRESSÕES BLOQUEADAS

Se, por um lado, é possível perceber o controle da agressividade na menina, o menino sofre processo semelhante, mas em outra direção: nele são bloqueadas expressões de sentimentos como ternura, sensibilidade e carinho. Não se questiona o caráter desse processo, afirmando-se tratar de fato natural ligado ao sexo biológico. As exceções que se apresentam são consideradas exceções, e assim o preconceito não chega nem a ser arranhado.

As preferências não são meras características oriundas do corpo biológico, são construções sociais e históricas. Portanto, não é mais possível compreender as diferenças entre meninos e meninas com explicações fundadas no determinismo biológico. A teoria do determinismo biológico busca na anatomia e na fisiologia justificativas anatômicas para as relações e identidades de gênero na sociedade moderna. Se acreditarmos nessa explicação natural sobre as diferenças entre os sexos, será inviável uma política social igualitária para a formação de homens e mulheres em áreas como a engenharia e a física.

A desigualdade de gênero ainda presente em nossa sociedade afeta até mesmo as pesquisas sobre o desempenho e o desenvolvimento cognitivo de meninas e meninos. No entanto, afirmações biológicas sobre diferenças sociais nem sempre são válidas do ponto de vista científico, pois esse conhecimento também é socialmente construído. Ultrapassar a desigualdade de gênero implica compreender o caráter social de sua produção, o modo como nossa sociedade opõe, hierarquiza e naturaliza as diferenças entre os sexos, reduzindo-as às características físicas tidas como naturais e, portanto, imutáveis. Implica perceber que esse modo único e difundido de compreensão é reforçado pelas explicações oriundas das ciências biológicas e também pelas instituições sociais, como a família e a escola, que omitem ser essas preferências construídas socialmente e passíveis de transformação.

Ao buscar as causas sociais e culturais das diferenças entre meninos e meninas, encontraremos suas origens em pequenos gestos cotidianos, em reações automáticas, cujos motivos e objetivos nos escapam, as quais repetimos sem ter consciência do seu significado, porque as interiorizamos no processo educacional. São preconceitos que não resistem à razão e que continuamos a considerar como verdades intocáveis, nos costumes e nas regras inflexíveis. Diante da opressão que vêm sofrendo, meninos e meninas deixam de experimentar, de inventar e de criar.

O modo como estão sendo educados pode contribuir para se tornarem mais completos e/ou para limitar suas iniciativas e suas aspirações. Sem uma plena equidade social, jamais poderemos saber quais são essas possibilidades.

O corpo e a cultura. 2

DIDÁTICA DOS GESTOS, EDUCAÇÃO DO CORPO

É possível propor um projeto educativo que rompa a dicotomia cognitivo-afetiva da prática educativa cotidiana e a hierarquia de valores a ela ligada, enfatizando o entrelaçamento entre o cognitivo e o emocional na evolução do processo de simbolização. Egle Becchi, professora de filosofia da Faculdade de Letras e Filosofia de Pavia, Itália, fala de uma “linguagem dos gestos”: gestos ligados ao dia-a-dia, gestos do ato de brincar, gestos do corpo nos movimentos corpóreos de aproximação, contato e exploração. Para a autora italiana, multo ainda deve ser estudado sobre linguagem gestual, uma “didática dos gestos” que penetra e caracteriza a pedagogia: o uso do corpo acariciado ou punido, as estratégias de voz: o tom, o canto, o grito. A experiência de meninas e meninos na educação infantil pode ser considerada um rito de passagem contemporâneo que antecipa a escolarização, por meio da qual se produzem habilidades.

O minucioso processo de feminilização e masculinização dos corpos, presente no controle dos sentimentos, no movimento corporal, no desenvolvimento das habilidades e dos modelos cognitivos de meninos e meninas está relacionado à força das expectativas que sociedade e cultura carregam. Esse processo se reflete em brinquedos com os quais as crianças “aprendem”, de uma maneira muito prazerosa e mascarada, a se comportar como “verdadeiros” meninos e meninas.

Homens e mulheres educam crianças marcando diferenças bem concretas entre elas. A educação diferenciada exige formas diferentes de vestir; conta histórias em que os papéis dos personagens homens e mulheres são sempre muito diversos, mas a diferenciação com base nos sexos é evidente nos brinquedos Infantis. De acordo com Elena Belotti, ao adulto não basta escolher o brinquedo pela criança: quando presenteia uma menina com uma boneca, não se contenta em simplesmente dar, mas também mostra como se segura nos braços e como se acalenta. É bastante curioso observar como os meninos da mesma idade, não ensinados como as meninas, seguram as mesmas bonecas de maneira muito mais despreocupada, por exemplo, mantendo-as em pé e não à vontade, passando-lhes um braço em volta do pescoço, apertando-as ou mesmo esmagando-lhes a cabeça. Em todos os casos, acalentar a boneca está quase sempre ausente.

A criança, ao brincar, está trabalhando suas contradições, ambiguidades e valores sociais: é na relação com o outro que ela constitui sua identidade. Fica difícil, por exemplo, continuar sustentando a importância de um menino não brincar de boneca, em nossa sociedade atual, na qual cada vez mais o pai assume comportamentos de cuidado com suas próprias crianças.

Ao refletir sobre os primeiros contatos Infantis com os brinquedos no âmbito da educação familiar, é possível perceber que a forma como são guardados e oferecidos pode consistir em uma manipulação da brincadeira, uma pedagogia do gesto e da vontade, configurando, assim, uma “educação do corpo”.

O corpo e a cultura. 3

CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS SEXOS

Desde muito cedo, até mesmo antes de nascer, a identidade de gênero vai se delineando segundo expectativas manifestadas de acordo com o sexo do bebê. Os ditados e crenças populares são exemplos de como os comportamentos e sinais da mãe são associados ao sexo do bebê: se a face da mãe estiver rosada, nascerá um menino, se estiver pálida, será menina; se o bebê estiver agitado e der muitos pontapés, certamente será menino, se estiver mais calmo e a mãe com muito sono, menina.

É clara a construção social das diferenças entre os sexos até mesmo antes do nascimento. A socióloga Dulce Whitaker chamou a esse fenômeno “didática da gravidez”, ou seja, a maior valorização do bebê do sexo masculino e a diminuição da auto estima das meninas, atribuídas às crianças no útero materno. Ao nascer, menina e menino já têm sua educação, de certa forma, direcionada: pais e mães já delineiam mentalmente o modelo a seguir. Crianças ainda pequenas construirão um corpo, mas não assexuado; um corpo, um modo de andar, de falar, de agir masculino ou feminino.

O corpo de meninas e meninos também passa, desde muito cedo, por um processo de feminilização e masculinização, responsável por torná-los “mocinhas” ou “capetas”. Esse minucioso processo se repete, até que a violência e a agressividade da menina desapareçam, até que ela comece a se comportar como uma “verdadeira” menina, delicada, organizada e quieta, reprimindo sua agressividade e ressaltando sua meiguice e obediência.

Já para o menino, esse processo se dá ao contrário: na atribuição de tarefas dinâmicas e extrovertidas e, em especial, com a privação da afetividade, não lhe sendo permitido, por exemplo, expressar­ se pelo choro. A masculinidade está calcada na coragem física, no trabalho, na perseverança, na competitividade e no sucesso, elementos entendidos como os mais importantes para sua constituição, considerada hegemônica: a coragem, diretamente relacionada à força física, à energia, à ousadia, à virilidade.

Crianças de ambos os sexos são agressivas, mas nesse processo a agressão, no sentido de satisfazer necessidades, é estimulada para apenas um dos sexos, restando ao outro a passividade.

O corpo e a cultura. 4

O CONCEITO DE GÊNERO

A denúncia do pretenso caráter fixo e binário de categorias como feminino e masculino, contido nas explicações biológicas para as diferenças cognitivas entre os sexos, tem no conceito de gênero parte do reconhecimento do caráter social e historicamente construído das desigualdades fundamentadas sobre as diferenças físicas e biológicas.

Nos dicionários brasileiros o termo gênero é definido como uma forma de classificação e como o modo de expressão, real ou imaginário dos seres. A partir da década de 80, o conceito de gênero foi incorporado pela sociologia como referência à organização social da relação – entre os sexos. A elaboração desse conceito ainda recebe forte influência de áreas como linguística, psicanálise, psicologia, história e antropologia, responsáveis por demonstrar a variabilidade cultural dos comportamentos, aquisições e habilidades consideradas femininas e masculinas. Isso significa que masculinidades e feminilidades plurais são configuradas fundamentalmente pela cultura.

Na década de 90, os estudos da historiadora americana Joan Scott tiveram influência significativa nos estudos brasileiros de gênero, nas reflexões críticas sobre educação, bem como sobre o saber produzido acerca das diferenças sexuais e dos vários significados que esse conhecimento adquire nos distintos espaços de socialização, entre os quais as instituições responsáveis pela educação.

A adoção da perspectiva de gênero, seja em estudos acadêmicos, seja nos espaços de construção de socialização variados, requer o reconhecimento de que mulheres e homens não são iguais, as relações que estabelecem são assimétricas, não há um único modelo de masculinidade ou de feminilidade e as relações de poder perpassam também os relacionamentos entre as mulheres e entre os homens.

Gênero remete então à dinâmica da trans formação social, aos significados que vão além dos corpos e do sexo biológico e que subsidiam noções, ideias e valores nas distintas áreas da organização social: podemos encontrá-los nos símbolos culturalmente disponíveis sobre masculinidade e feminilidade, heterossexualidade e homossexualidade; na elaboração de conceitos normativos referentes aos campos científico, político, jurídico; na formulação de políticas públicas implantadas em creches e escolas; nas identidades subjetivas e coletivas. Ele permite reconhecer a tendência à naturalização das relações sociais baseadas na fisiologia dos corpos e enxergá-los como signos impressos por uma sociedade e por uma cultura.

EU ACHO …

O “NOVO NORMAL” E O (RE)PROPÓSITO DA CASA

A expressão “novo normal” vem sendo exaustivamente usada, nos últimos meses, quando se percebeu que o Coronavírus havia impactado de forma indefectível a sociedade global. A origem do termo não é recente e há muito debate em torno de quem a cunhou. É certo, contudo, que sempre foi vinculada ao período de readequação da sociedade, após uma grande crise, como a primeira grande guerra mundial.

Vários estudos e artigos vêm apontando as principais tendências sociais para o nosso novo normal. Dentre elas, a tão proclamada democratização do digital e a consequente hiperconectividade – que acabou sendo impulsionada por uma doença, não por um gigante da tecnologia.

Categorias demográficas que, antes, por limitação econômica ou temporal, resistiam à virtualização de seu cotidiano, foram ineludivelmente convertidas. Recentemente, presenciei uma centenária exultante no aniversário do bisneto, por Zoom, afirmando que a primeira coisa que fará após a quarentena é trocar o computador e o celular. Ela percebeu que essa é a forma mais fácil de acompanhar a vida dos seus familiares. O que nos leva à outra tendência – as reconexões afetivas.

A privação de contatos com o mundo externo nos mostrou o quanto somos seres sociais. Como já disse um conhecido antropólogo brasileiro, é a rede de relações sociais que dá realidade aos membros da sociedade. Em nome dos laços de amizade e parentesco, dos amores, somos impelidos à rua, a frequentar locais e encontrar pessoas. Ao sermos impedidos de fazermos isso, por determinação legal ou medo, percebemos o valor das conexões que, por hora, são contornadas pela conectividade tecnológica ou pela intensificação das poucas relações presenciais possíveis no momento. Estamos nos conectando com pessoas que não falamos há anos, mas que eram afetivamente significativas – telefone, e-mail, WhatsApp… – tudo vale a pena, quando o afeto não é pequeno.

Outro aspecto que vem sendo muito destacado é a valorização do “local”. Quanto mais vizinho e mais conhecido melhor, tirando preço do eterno topo da lista das prioridades dos compradores – não que este ainda não seja importante. Pelo risco de contaminação, quanto menos deslocamento para as poucas coisas inevitáveis à sobrevivência, melhor. E, de quebra, ajudamos o comércio próximo a passar por uma das maiores crises econômicas do pais, sem fechar suas portas (consumo consciente).

São muitas tendências projetadas ao “novo normal”, mas gostaria de me dirigir, agora, a uma das que me chama atenção: a ressignificação da casa. A casa vem assumindo um papel diferente na vida das pessoas e impactando nossos rituais e consumos. Recentemente, por exemplo, numa “live”, uma consultoria apontou o crescimento na venda de ingredientes para fazer o pão – fermentos, farinhas, etc. – e imediatamente me lembrei que realmente não havia encontrado trigo integral para comprar, justamente, para fazer uma receita de pão.

Ou seja, não é teoria, é prática. E isso é uma nova aventura, um novo patamar culinário, sem precedentes na família. Sem empregados domésticos – também em quarentena – relembramos o caminho do fogão e da lavanderia. Num primeiro momento forçados, mas, aos poucos, começamos a tirar aprendizados e prazeres dessas experiências. O ritual culinário, agora, se mistura com o gastronômico, que para muitos, antes, se restringia aos restaurantes.

O consumo de conteúdos também assumiu outro patamar. De repente, percebemos que aquela televisão, que andava meio esquecida, estava com seu prazo de validade vencido; e uma smart TV se transformou num artigo de primeira necessidade. O Netflix é o rei, com todas suas séries e filmes a um clique, mas também satura. E novos hábitos são adquiridos e, provavelmente, não serão esquecidos após a quarentena. O entretenimento doméstico e familiar ganhou uma importância que, há tempos, inexistia. Eu, que tenho o privilégio de morar em casa numa metrópole, redescobri o jardim, a mesa de ping-pong e o colchonete empoeirado, agora, namorando com os halteres e o Nike Training.

Os rituais de beleza também surpreenderam. Com cabeleireiros fechados, só nos restou aprender a pintar o cabelo em casa – descobrindo que se compra todo o necessário, mesmo importados, por comércio eletrônico, com entrega em poucos dias. Cortar o cabelo também virou diversão para as crianças. E o que parecia complicadíssimo, provou-se relativamente fácil. Novas práticas, novos consumos.
O trabalho, finalmente, ganhou a licença que precisava para adentrar a casa sem timidez. Tivemos de encontrar seu lugar ideal – já que são vários em home-office e home schooling, simultâneos, em lives e webconferências – e, de repente, sons e backgrounds domésticos começaram a invadir o universo externo (e vice-versa) embaralhando seus códigos de ética e rituais. Daí surgem novos pactos familiares e profissionais, além de compras de produtos que nos ajudem a equacionar essa nova realidade. Em casa, foram fones e mobiliários, por exemplo.

Em geral, a casa e a rua se complementam e disputam espaço na vida de cada um. Nesse “novo normal” a casa nos fez encontrar, nela, as respostas para demandas que buscávamos em lugares, sem saber que estavam ali mesmo, em casa.

CECÍLIA ANDREUCCI – é conselheira de administração, mestre em consumo e doutora em comunicação.

OUTROS OLHARES

EM QUARENTENA COM O AGRESSOR

Antes da pandemia chegar, a violência doméstica e o abuso sexual infantil já eram recorrentes em todo o mundo. Saiba por que o isolamento intensifica esses crimes

A violência contra a mulher e também a violência sexual infantil vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Cresce ainda mais agora em meio à imprescindível quarentena para o combate eficaz ao coronavírus. Os motivos são claros: mulher e marido violentos, mães e pais que habitualmente agridem filhos, todos estão nesse momento mais tempo juntos e em um lugar fechado — os seus lares. Somente os mal intencionados responsabilizariam o distanciamento social e a quarentena pelo aumento nesses crimes. Com ou sem isolamento, quem é violento é violento e ponto final. A restrição à circulação surge, assim, apenas como o dedo para um gatilho psíquico que já compõe o temperamento de algumas pessoas. “O que está ocorrendo, e é inegável que de fato está acontecendo, é a intensificação desse quadro”, diz Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os dados do Fórum mostram que a violência contra a mulher é uma “epidemia” – que, como o vírus, saltou para uma “pandemia”. Em março de 2018, havia o registro de 6.775 ocorrências de violência doméstica. Agora, também em março, o índice de agressão à mulher subiu 20%, traduzidos em 9.817 casos. O Ministério Público aponta o acréscimo de 51% nas prisões em flagrante em decorrência de violência doméstica contra a mulher. São Paulo, epicentro da doença dos ataques de coronavírus, não está isolado nesse trágico fenômeno. Em outra análise, agora feita pelo software SEMrush, no qual foram analisadas pesquisas na internet, a busca no Google por “Lei Maria da Penha” apresenta o estratosférico salto de 238% em Pernambuco, seguido por Rio de Janeiro, com 124%. E não é diferente a situação em outros países. Na Europa, por exemplo, 33% das mulheres sofreram algum tipo de violência física, emocional ou sexual durante a quarentena.

Aos 44 anos, A.F (preserva-se aqui o nome da vítima) levou dias para conseguir falar sobre a violência que sofreu do marido sem cortar palavras com choro. “A gente vai tolerando, relativizando, até porque ninguém é violento vinte e quatro horas por dia”, diz ela. “Só percebemos a gravidade quando estamos com olhos roxos e braços quebrados”. Sem suportar seus próprios conflitos interiores, o agressor os projeta em outra pessoa. Dentro de um lar, sob a tensão da pandemia e numa forçada convivência (o que não justifica comportamentos abusivos), dá para imaginar em quem a pessoa projetiva descarregará o seu curto-circuito emocional: na parte fisicamente mais fraca, ou seja, na mulher. “Eles trazem em sua psique inúmeras inseguranças”, explica a conceituada psicóloga Mariete Duarte, integrante da Clínica Maia e especializada em psiquiatria pela Universidade de São Paulo. “Para mascarar seus conflitos, agressores costumam usar drogas lícitas como o álcool, e isso pode liberar comportamentos reprimidos sob a forma de agressividade física”. Não é sem razão, portanto, que a OMS recomendou a diminuição do consumo de bebidas alcoólicas em todos os países, enquanto durarem seus respectivos distanciamentos sociais. É preciso evitar o vírus e é igualmente preciso evitar a saturação emocional de pessoas vivendo vinte e quatro horas juntas e durante dias. Apesar da recomendação da OMS, no Brasil, infelizmente, empresas de delivery registraram um aumento de 50% no pedido de bebidas alcoólicas.

A violência contra a mulher e também a violência sexual infantil vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Cresce ainda mais agora em meio à imprescindível quarentena para o combate

O PREDADOR E A MUTAÇÃO

Não só de marido e mulher forma-se uma família. Dentro de lares há também filhos, filhas, enteados, padrastos, madrastas e inúmeras possibilidades de formações parentais. Se no caso de violência doméstica há números e projeções, como saber o que acontece com crianças se confinadas com seus agressores? “Quando você fala de uma criança de cinco ou seis anos, ela nem sabe a violência pela qual está passando”, diz Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta. A consequência de abuso sexual de crianças durante o período de isolamento transforma o futuro em um lugar ainda mais perigoso. A quarentena reforça a existência de um problema recorrente em todo o mundo: o do ser humano como predador do próprio ser humano, ainda que haja uma outra predadora, terrível e invisível, como é a Covid-19. A violência, no entanto, não nasce com a mutação do vírus. A pandemia só evidencia agressores que podem morar sob o mesmo teto.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE MAIO

SALVOS PELO SANGUE

O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós… (Êxodo 12.13a).

A Páscoa foi celebrada na noite em que Deus libertou os hebreus da escravidão no Egito. A resistência de Faraó chegou ao fim, quando a morte visitou todos os primogênitos daquela terra milenar. Um cordeiro sem defeito foi morto para cada família, e seu sangue foi passado nos batentes das portas. Quando o anjo passou naquela noite fatídica e viu o sangue aspergido nas portas, não feriu ali o primogênito. O que salvou os hebreus da morte não foi o cordeiro, mas o sangue do cordeiro aspergido nas vergas das portas. O que livrou os hebreus não foi alguma virtude que eles pudessem ostentar, nem mesmo o sofrimento e as injustiças por eles sofridas na escravidão. A única diferença entre os hebreus e os egípcios naquela noite foi o sangue do cordeiro. É assim ainda hoje. Só há dois grupos de pessoas: os que estão debaixo do sangue de Cristo e os que ainda não estão. Não se trata de pertencer a essa ou àquela igreja. Não se trata de obras ou méritos. A única coisa que conta aos olhos de Deus é se estamos debaixo do sangue do Cordeiro imaculado ou não. Quando Deus vê o sangue, não aplica ali o juízo. Aquele sangue do Cordeiro nos batentes das portas era um símbolo do sangue de Cristo vertido na cruz. Somente o sangue de Cristo pode purificar-nos de todo o pecado. Somente pelo sangue de Cristo somos remidos dos nossos pecados. Somente pelo sangue de Cristo temos paz com Deus. Somente pelo sangue de Cristo somos salvos da morte eterna e do juízo vindouro.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER FOI PARA A PONTA

O mercado brasileiro de franquias está cada vez mais concentrado em operadores com diversas unidades de uma OLI mais marcas. São os multifranqueados, que já atraem até o interesse de fundos de investimento

Todos os anos, no mês de março ou abril, um grupo de empreendedores brasileiros embarca para Las Vegas, nos Estados Unidos, para a feira mundial de multifranqueados. O aumento do tamanho da turma revela uma evolução no mercado brasileiro de franquias. Em 2017, foram seis participantes; em 2019, 18. Multifranqueados são empreendedores que têm várias unidades de franquias, de uma ou mais marcas. Nos Estados Unidos, alguns operadores têm mais de 1.000 lojas. No Brasil, a tendência é mais recente, mas cresce em ritmo acelerado. Em empresas como a fabricante de cosméticos O Boticário, alguns franqueados chegam a ter uma centena de lojas. O empreendedor Mauro Nomura, dono do Grupo Nomura, é exemplo desse novo tipo de empreendedorismo. Com 31 lojas de calçados Adidas, Arezzo e Schutz, em Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro, Nomura deve faturar 230 milhões de reais neste ano, 33% mais do que em 2019. Em 2010, eran11 lojas, com receita total de 35 milhões de reais. “Há cinco anos, ninguém sabia direito o que era um multifranqueado”, diz Nomura.

Iniciativas como essa têm se tornado cada vez mais frequentes – e muitas vezes incluem até planejamentos de expansão feitos sob medida para os bons operadores. A Domino’s, do Grupo Trigo, vendido ao fundo Vinci Partners em 2018 por cerca de 300 milhões de reais, acabou de fechar um plano minucioso de abertura de dez lojas na Região Sul. O trabalho foi feito especialmente para um dos multifranqueados. “Trata-se de um deste Lot e os gestores da marca chegaram à conclusão de que valia à pena aprofundar a relação. “Lot é um excelente operador, com conhecimento do negócio e capacidade para nos ajudar na expansão”, diz Marcelo Cordovil, diretor de expansão da franqueadora. A loja de Brasília tem sido um sucesso, com 13.000 clientes em dezembro.

Empreendedores como Nomura e Lot são expoentes de uma sofisticação no mercado brasileiro de franquias. Os grandes franqueadores preferiam diluir os riscos com a contratação de dezenas ou centenas de franqueados, numa estratégia de expansão definida na matriz. Ao franqueado cabia executar o já definido. Mas a crise econômica dos últimos anos acelerou uma mudança que, na visão de especialistas do setor, seria inevitável. A dificuldade financeira de algumas lojas fez com que as franqueadoras acelerassem a busca por franqueados experientes, dispostos a assumir mais responsabilidade. “Os pequenos franqueados, que tinham só uma loja, tiveram mais dificuldade para enfrentar a perda de clientes”, diz o consultor de franquias Marcelo Cherto, presidente do Grupo Cherto.

Na rede Mania de Churrasco, que faturou 224 milhões de reais em 2019, o dobro de 2017, hoje 70% dos franqueados têm mais de uma loja. Há quatro anos eram apenas 30%. Na Domino’s, os multifranqueados têm metade das 224 franquias no país. Com uma estrutura operacional mais robusta, os multifranqueados em geral conseguem baixar custos, como gastos com energia elétrica e água e também com insumos básicos. Tudo isso ajuda a elevar a rentabilidade do negócio, mantém mais dinheiro em caixa e facilita o ganho de escala. Alguns multifranqueados têm inovado também no pós-venda. O carioca Leonardo Sobral, franqueado de 24 lojas das redes de roupas Levi’s e Hering e da rede de cosméticos O Boticário, criou uma estratégia para tornar fiel a clientela. Os funcionários de sua empresa, a Sfera Multifranquias telefonam para os consumidores para saber se gostaram do produto que compraram. Quando há alguma insatisfação com o produto, um funcionário da Sfera visita os clientes para entender os motivos da reclamação e procurar uma solução. “Convidamos o cliente para ir à loja e oferecemos um atendimento especial”, diz Sobral. Com iniciativas dessa natureza, o valor médio de cada venda da Sfera aumentou 12% no ano passado. “Para as marcas, é um passaporte para o crescimento sustentável”, afirma Alberto Oyama, diretor da unidade de multifranqueados na Associação Brasileira de Franchising.

Os bons resultados dos multifranqueados começaram a chamar a atenção até de fundos de investimento. Segundo apuramos, o Vinci Partners e o americano H.I.G. Capital, com 35 bilhões de dólares em ativos, estudam investimentos. A tendência de ganho de escala dos multifranqueados, a resiliência perante a crise econômica e o aumento da procura por alimentação fora do lar estão entre os fatores de atração. Nomura vem conversando com vários desses fundos. “Provavelmente, em 2021 receberemos algum aporte”, afirma ele. Seria um divisor de águas no setor de franquias, um importante motor da economia. No ano passado, esse mercado movimentou quase 187 bilhões de reais, ante 175 bilhões em 2018. De 2014 a 2018, no auge da queda do consumo das famílias; o setor cresceu cerca de 30%. “ó mercado ainda pode amadurecer mais, com a chegada de novas marcas e o fortalecimento cada vez maior dos bons operadores, como já acontece em outros países”, diz Oyama. A referência é o mercado americano. Mais da metade dos franqueados por lá tem mais de uma loja. O Flynn Restaurant Group, que opera 1.245 restaurantes das marcas de fastfood Aplebee’s, Taco Bell e Arby’s e da rede de padarias Panera Bread, faturou 2 bilhões de dólares em 2019. O grupo recebeu em 2014 investimentos da ordem de 300 milhões de dólares do Ontario’s Teacher’s Pension Plan, um dos maiores fundos de pensão canadenses. O NPC International não fica muito atrás, com 25.000 funcionários e mais de 1.000 lojas de Pizza Hut e Wendy’s, e um faturamento de mais de 1 bilhão de dólares. Já o grupo mexicano Alsea, criado em 1997, opera mais de 3.000 restaurantes de Burger King, Starbucks, Domino’s, P.F Chang’s e Cheescake Factory. As lojas estão distribuídas por México, Chile, Argentina, Colômbia, Espanha e França. A empresa faturou 12,6 bilhões de dólares em 2018 e abriu o capital no México há seis anos. Neste ano, deve abrir na Espanha. “O mercado brasileiro está no caminho certo para chegar ao ponto de maturidade de outros países”, diz Cheito. O risco dessa concentração é desvirtuar o próprio conceito de franquia, que proporciona à dona da marca o controle das decisões – e royalties livres de risco. Uma gestão descentralizada tende a reduzir margens, que passam do franqueador para o franqueado. Para empresas como Domino’s, O Boticário e Arezzo, parece que vale a pena apostar.

CONCENTROU E CRESCEU

As redes de franchising expandiram a receita em 44% desde 2014, mantendo quase o mesmo número de unidades

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE IGUAIS

Mecanismos que atuam na vida intrauterina e na puberdade podem determinar a base das preferências sexuais

Já pensou ser discriminado por exibir alguma característica determinada biologicamente, como a cor dos olhos, ainda que você se sinta bem com isso e não consiga imaginá-los de outra cor? Imagine também se dezenas de teóricos e grupos militantes escrevessem livros inteiros explicando como, por influência dos pais, para agradar aos amigos ou por causa das más companhias, você “escolheu” tê-los assim. Além de tentarem convencê-lo disso, exigem que você mude a cor deles. Soa angustiante? Ao que tudo indica, isso é o que vem acontecendo com muitos de nós – não em relação à cor dos olhos, claro, mas quanto à preferência sexual.

Esqueça aquelas pequenas e contestadas diferenças nas habilidades espaciais, verbais e cognitivas entre homens e mulheres. Do ponto de vista cerebral, o que os distingue mesmo é tão óbvio que acaba sendo esquecido: a preferência sexual. A partir da adolescência, a maioria dos rapazes (cerca de 90% a 95%, dependendo de quem conta) sente-se atraída sexualmente por garotas. Para a alegria deles – e a continuidade da espécie – a recíproca é verdadeira: a grande maioria delas sente atração sexual por garotos.

A única razão que explica a heterossexualidade como preferência normal da nossa espécie é o simples fato de ela ser encontrada na maioria da população. O termo “normal” se refere a uma curva característica que descreve, em grandes populações, a distribuição de parâmetros como estatura ou massa corporal. Como a maioria das pessoas mede em torno de 1,70 metro, e cerca de nove entre dez medem entre 1,5 0 metro e 1,90 metro, diz-se que tem altura normal quem cair dentro desse grupo. Que dizer, então, daqueles que escapam à normalidade por serem altos ou baixos demais? Para a medicina, não se enquadrar, estatisticamente, não significa ser doente. É claro que estaturas anormais podem resultar de alterações do funcionamento do organismo. É o caso, por exemplo, do gigantismo, causado por distúrbios hormonais. No entanto, muitas vezes um parâmetro foge à normalidade em razão da herança genética ou de outros fatores biológicos que não perturbam em nada o bem-estar do indivíduo. Além disso, o que é normal em uma população pode ser anormal em outra.

NORMALIDADE RELATIVA

Considere, por exemplo, a distribuição da cor dos olhos. No Brasil é normal tê-los escuros. Já na Suécia isso é exceção, pois lá a regra é ter olhos azuis. Incluir-se na norma ou não, nesse caso, obviamente não afeta a saúde. É por isso que se diz que a característica fora do normal e que não prejudica a saúde é uma variação. Assim, ter olhos castanhos no Brasil é normal; na Suécia é uma variante. Os brasileiros de olhos castanhos que moram na Suécia não são considerados doentes por isso, nem são coagidos a ocultá-los atrás de incômodas lentes de contato.

Quando se entendem as definições de normalidade e de variação, torna-se natural aceitar que a distribuição de características determinadas biologicamente não é uma questão de escolha. Daí o hoje disseminado repúdio ao racismo e as tentativas legais de proteger da discriminação pessoas negras, idosas ou portadoras de necessidades especiais. Os homossexuais são alvo de preconceito em grande parte por causa de décadas de teorias e lobbies políticos e religiosos para que a homossexualidade fosse considerada doença, ou ao menos uma opção inconveniente a ser revertida. No entanto, todas as evidências indicam o contrário: a preferência sexual é determinada biologicamente e ainda no útero – o que faz da homossexualidade uma variação, já que a maioria da população é heterossexual. Para desespero daqueles que acham que podem “consertar” a sexualidade dos outros, as neurociências apontam para a origem biológica da preferência sexual humana. Para infelicidade de muitos religiosos, políticos e psicoterapeutas, não há nenhuma evidência de que fatores sociais a influenciem. Cerca de 10 % da população (masculina e feminina) procuram preferencialmente parceiros do mesmo sexo. E esse número não muda entre os que foram criados por pai e mãe heterossexuais, por dois pais gays, por duas mães lésbicas, com ou sem religião.

RASTRO SEXUAL

Entretanto, há uma coisa em comum aos que preferem se relacionar com homens (mulheres hétero e homens homo), que é diferente naqueles que se sentem atraídos por mulheres (homens hétero e mulheres homo): a maneira como o cérebro de um e outro reage aos feromônios.

Sexo é um assunto tão importante, biológica e evolutivamente (afinal é o que torna possível a continuidade das espécies), que existem regiões do cérebro dedicadas exclusivamente a ele. Várias ficam no hipotálamo, estrutura responsável pela regulação de muitas funções do organismo, como frequência cardíaca, pressão arterial e comportamentos mais complexos como aproximação sexual e cópula. Situadas no hipotálamo ou não, todas as estruturas cerebrais relacionadas ao sexo respondem aos feromônios.

Essas substâncias são usadas por inúmeras espécies – leve duras, javalis e humanos – com a finalidade última de reproduzir-se. As alterações fisiológicas e comportamentais que elas produzem são sempre de cunho social. Cada indivíduo fabrica o feromônio característico de sua espécie, na versão “macho” ou “fêmea”, e o efeito no cérebro de seus pares do sexo oposto é avassalador. Quando tudo dá certo, o resultado é um filhote.

Muito voláteis, os feromônios entram pelo nariz, onde são detectados pelo órgão vomeronasal – e não pelo epitélio olfativo, razão pela qual são inodoros. Em seguida a informação é encaminhada para o hipotálamo. O comportamento desencadeado depende radicalmente de como essa região é ativada. O hipotálamo dos homens heterossexuais responde fortemente ao feromônio feminino EST (estra-1,3,5(10),16 -terrae-3-nol), um derivado do hormônio estrogênio (estrógeno), produzido durante o ciclo menstrual. A mesma região do cérebro das mulheres heterossexuais reage ao feromônio masculino ANO (4,16-androestadie -3-nona), que deriva de hormônios sexuais masculinos e é encontrado no suor, na pele e nos pelos axilares dos varões. Como era de esperar, o ANO aumenta a excitação das mulheres e diminui a dos homens quando ambos são heterossexuais.

Depois da detecção segue-se uma cascata de eventos em outras regiões do cérebro (como amígdala, córtex cerebral e sistema de recompensa) que provoca excitação sexual e faz com que se busque o dono ou a dona do feromônio em questão. Embora sejam inodoras, parece que essas substâncias são um dos principais determinantes do interesse e da aproximação sexual. Elas fazem com que 90% dos homens prefiram se aproximar delas e vice-versa, sem que ninguém saiba que tudo começa pelo nariz.

As estruturas que respondem aos feromônios e regem o comportamento sexual são as mesmas em homens e mulheres. Suspeitou-se, porém, que elas pudessem ser diferentes entre os sexos, de modo a garantir que o cérebro deles e delas reagisse de forma diferente a feromônios femininos e masculinos. Esse dimorfismo sexual de fato existe e está diretamente relacionado ao comportamento diferenciado que garotos e garotas passam a exibir a partir da adolescência, quando as estruturas cerebrais envolvidas amadurecem e tornam-se sensíveis aos feromônios.

As diferenças começam já na porta de entrada: no órgão vomeronasal (ver ilustração abaixo). Desse ponto em diante, em todas as estruturas da chamada via vomeronasal, os homens têm mais neurônios que as mulheres para processar os sinais gerados pela detecção dos feromônios. O tamanho de algumas estruturas também é maior neles, como o bulbo olfativo acessório (que recebe os sinais do órgão vomeronasal) e as próximas estações de processamento: núcleo póstero-dorsal da amígdala medial (pd MEA), núcleo intersticial da estria terminal (BST) e área pré-óptica medial do hipotálamo. Como esse dimorfismo depende da ação de hormônios sexuais masculinos, ele se manifesta apenas a partir da adolescência.

A importância da via vomeronasal para o comportamento sexual fica evidente quando ela é alterada experimentalmente. O bloqueio da síntese de um único receptor para hormônios femininos em uma área específica do hipotálamo, por exemplo, é suficiente para abolir o comportamento sexual de fêmeas de camundongo. Com o hipotálamo insensível ao estrogênio, elas não só deixam de aceitar as investidas dos machos como passam a rejeitá-los – simplesmente porque um único gene, o responsável pela síntese do receptor, foi silenciado.

A tomografia por emissão de pósitrons revelou que o cérebro de mulheres homossexuais (M-homo) responde aos deromônios de forma diferente do de mulheres heterossexuais (H-hétero). A área pré-optica do hipotálamo de M-homo não é ativada pelo feromônio masculino AND, como ocorre nas M-hétero. A exposição ao feromônio feminino EST ativa, tanto nas M-homo quanto nos H-hétero, as regiões dorsomedial e paraventricular do hipotálamo. Experimentos semelhantes com homens homossexuais chegaram a resultados parecidos.

NA GESTAÇÃO

A ativação da via vomeronasal em resposta aos feromônios de um(a) parceiro(a) em potencial é possível apenas na presença dos hormônios sexuais. Entretanto, não adianta inundar o cérebro infantil com eles para que o interesse sexual seja despertado: é preciso que ele passe pela puberdade para poder responder a essas substâncias. É verdade que o primeiro contato do sistema nervoso com os hormônios sexuais ocorre durante a gestação, pois é o pico de testosterona que determina a masculinização do feto e faz com que todas as estruturas da via vomeronasal produzam aromatase, a enzima que tornará possível, na adolescência, a ação do hormônio masculino sobre o sistema nervoso. É também na puberdade que a testosterona induz o crescimento de várias estruturas da via vomeronasal, como pdMEA e BST, no cérebro dos homens. A sensibilização dos neurônios ao longo dela – condição necessária para o interesse sexual – é estimulada tanto pela testosterona quanto pelo estrogênio.

Assim, o comportamento sexual resulta de ações inicialmente organizadoras, e, mais tarde permissivas, desencadeadas pelos hormônios sexuais. A atração que se sente pelo outro, seja este de que sexo for, é resultado da influência de genes e hormônios durante a formação, ainda no útero, de determinadas regiões cerebrais. Estas, por sua vez, determinarão mais tarde, depois de amadurecidas na adolescência, a preferência sexual pelo sexo oposto na maioria das pessoas ou pelo mesmo sexo em algumas. Revelada quando o cérebro adolescente expressa o caminho que tomou ainda na gestação, a preferência sexual não se escolhe: descobre-se.

Quando surgiram nos anos 80 as primeiras evidências de que a sexualidade é determinada biologicamente, militantes do movimento gay manifestaram-se tanto contra como a favor. Alguns grupos acolheram as descobertas como prova de que a homossexualidade não é doença nem opção, e sim biologia inevitável. Outros, ao contrário, sentiram-se lesados em seu direito de optar por essa forma de expressar sua sexualidade.

De lá para cá, um número cada vez maior de estudos mostram que a preferência sexual está associada a diferenças no hipotálamo. O neurocientista (e homossexual assumido) Simon LeVay mostrou, no início dos anos 90, que os homens têm mais neurônios em um pequeno núcleo hipotalâmico, chamado INAH-3, quando comparado à mesma região do cérebro das mulheres. Em homens homossexuais, essa quantidade foi intermediária.

Pesquisas recentes revelam que o hipotálamo de homo e de heterossexuais do mesmo sexo tem características diversas. Pesquisadores suecos mostraram, em 2006, que nem todo hipotálamo masculino responde a feromônios femininos e vice-versa. Usando ressonância magnética funcional, eles observaram que o padrão de respostados neurônios hipotalâmicos correlaciona-se não com o sexo do indivíduo, mas com sua preferência sexual. Assim, homens e mulheres que gostam de mulheres respondem ao feromônio feminino EST; já as mulheres e os homens que se sentem atraídos por homens têm o hipotálamo sensível ao feromônio masculino AND.

O que faz com que o hipotálamo responda diferentemente aos feromônios masculinos e femininos parece ser uma combinação de herança genética com fatore s hormonais durante a gestação. Há fortes evidências de que a exposição a quantidades exageradas de testosterona na vida intrauterina masculiniza a programação biológica de fetos femininos. Consequentemente, essas meninas passam a expressar, a partir da adolescência, o padrão masculino da via vomeronasal e de resposta aos feromônios. Da mesma forma, a homossexualidade masculina está associada a níveis mais baixos de testosterona durante o período fetal, o que parece influenciar o desenvolvimento da via vomeronasal depois da puberdade.

O ser humano não é a única espécie animal da qual alguns indivíduos demonstram preferência sexual pelo mesmo gênero. Diferenças nas estruturas que respondem aos feromônios são encontradas também em carneiros. De 8% a 10 % dos machos avançam insistente e exclusivamente sobre outros machos. Não há nenhum fator social ovino conhecido que poderia tê-los tornado homossexuais. Por outro lado, há uma diferença cerebral importante entre esses animais e seus companheiros hétero: o tamanho de um núcleo localizado numa área do hipotálamo chamada pré-óptica. A região é maior nos carneiros heterossexuais e menor nas fêmeas e nos machos homossexuais. Evidentemente, sempre existe a possibilidade teórica de a base biológica responsável pela preferência sexual mudar em consequência do comportamento homossexual, tanto de homens como de carneiros. No entanto, isso é muito pouco provável pelo que se sabe sobre a dificuldade de “converter” homossexuais em heterossexuais e vice-versa, sobre a indiferença da sexualidade a influências sociais e sobre a existência de padrões semelhantes de comportamento homossexual em outras espécies.

SEXO “ERRADO”

Até algo tão fundamental como sentir-se homem ou mulher parece ser determinado pela biologia do cérebro. Ao examinar, em 2000, um grupo de 42 pessoas composto de homens e mulheres hétero, homo e transexuais, pesquisadores holandeses observaram um número duas vezes maior de neurônios num dos núcleos da via vomeronasal (o BST) nas pessoas que se identificavam como homens em comparação às que se identificavam como mulheres – independentemente do sexo biológico, da preferência sexual e do fato de terem sido ou não tratadas com hormônios sexuais.

Graças a esse tipo de estudo, a atração por pessoas do mesmo sexo ou a sensação de ter nascido do sexo “errado” não podem mais ser consideradas aberrações psicológicas ou frutos de uma educação “equivocada”, familiar ou escolar. Trata-se de variações determinadas biologicamente. E como todo fenômeno biológico, a determinação da identidade e da preferência sexual está sujeita a influências químicas e genéticas nem sempre bem compreendidas. Aliás, seria surpresa para um biólogo se todos fossem perfeitamente iguais, sem nenhuma variação na cor dos olhos ou na preferência sexual. A descoberta de que é o cérebro, e não os hormônios sexuais nem a genitália, que define a identidade ou a preferência sexual é uma das lições das neurociências de maior impacto em nossa vida cotidiana. A atração por um ou outro sexo é inata, não opcional. Por isso as tentativas de convencer pessoas ou outros animais a mudar suas preferências sexuais nunca deram certo.

A ciência é frequentemente criticada por “reduzir” a questão da homossexualidade aos domínios da biologia. Isso deixa transparecer a incrível dificuldade que o ser humano tem de aceitar-se como animal. Gostamos de assistir aos documentários sobre macacos ou leões, mas custa-nos admitir que a Natureza pode ter influência – muitas vezes determinante – também sobre nosso comportamento.

O comportamento sexual não pode ser explicado exclusivamente pela biologia. As pessoas têm sim a opção de fazer o que bem entendem com sua preferência sexual, ainda que lamentavelmente o preconceito e a discriminação tragam complicações psicológicas.

A Natureza não reina sozinha. De fato, é possível optar pelo comportamento heterossexual, contra a preferência biológica ou a favor dela. Nesse caso a família e a sociedade certamente exercem um papel importante. Mas o cérebro é capa de fazer melhor; pode até mudar crenças, teorias e preconceitos, felizmente. Se 100 % da população tem preferência sexual inata e biologicamente determinada, somos todos iguais nesse quesito – mesmo que o cérebro da maioria responda a feromônios do sexo oposto. Tentar mudá-la é como insistir que uma pessoa troque a cor da pele, torne-se menos alta ou mude a cor dos olhos. É inútil, inviável e injusto.

EU ACHO …

QUANDO UMA JANELA SE FECHA…

Reflexões sobre os dias arrastados no isolamento social

Peço desculpas antecipadamente: esta matéria será perturbadora para os cientistas (incluindo os da minha família, mas, felizmente, nenhum deles lê o que eu escrevo). As regras do mundo físico parecem estar nos abandonando. O vírus age como nenhum outro patógeno. Hoje, 2 metros é uma distância totalmente subjetiva, expandindo-se e contraindo-se conforme a necessidade. O tempo não é newtoniano como a farinha de milho que você provavelmente recorreu se tiver filhos. pequenos para distrair, rígida e fluida ao mesmo tempo. Os números basicamente não têm sentido: na matemática pandêmica, um número como 413 mortes – uma catástrofe inimaginável em qualquer outra época, – é animador, causa certo otimismo. As antigas certezas estão desgastadas, mas, escondidos em nossos casulos de isolamento, surgem novas leis físicas para esse modo de vida. A ciência está em suas etapas iniciais, mas, empiricamente, alguns fatos importantes foram observados. Como alguém sem a menor compreensão de ciência de qualquer tipo, sou sua guia perfeita para eles.

1 – Sempre que você quiser estar em seu espaço de lockdown, alguma outra pessoa precisará urgentemente estar lá. Sim, agora mesmo. No meu espaço, essa pessoa estará sempre empunhando um martelo. Acho que foi Tchekhov quem disse: Não coloque um martelo no primeiro ato, se você não for martelar como um maluco nos atos 2 a 4”, e esse princípio dramático é respeitado aqui.

2 – Janelas. O tanto que você se aprecia é o oposto de quanto seus colegas de internação as aprovam. Agora, sua vida é apenas uma guerra de atritos baseada em janelas. Foi assim que surgiu o novo provérbio: “Quando uma janela se abre, outra janela se fecha”.

3 – Como agora somos todos ruminantes, constantemente pastando, desenvolvemos um estômago extra para acomodar o nosso lanche preferido, para atenuar o isolamento quando estivermos cheios de outros alimentos. Agora eu tenho um estômago de salgadinho de queijo e cebola. Não discuta com a ciência.

4 – Falando em comida, sabe aquela guloseima que você vem cobiçando, guardando obcecadamente? Alguém a comeu. Nem sequer aproveitou! Estava só matando o tempo. Podem até ter deixado um pouco no lixo para você encontrar.

5 – Sobre o tema lixo, a síndrome de percepção do lixo, embora não seja novidade para a ciência, estaria exacerbando-se durante a crise do coronavírus. A síndrome manifesta-se de duas maneiras : ou os afetados não conseguem mais enxergar a lata, mesmo quando está cercada de moscas e sendo escavada por um cachorro oportunista, ou eles só veem a lata, que percebem como vasta, pulsante, ocupando toda a sua consciência.

6 –  Frações – para qualquer tentativa de assistir alguma coisa “em família”, ou outra unidade de isolamento coletivo, aplicam-se as seguintes proporções: um quarto dorme; um quarto afirmou que queria assistir, mas agora está mexendo em seu celular; um quarto nunca fingiu que faria qualquer coisa além de mexer no celular; e um quarto critica em voz alta e odeia  todos os momentos, mas na verdade é o único que realmente está olhando para a tela.

7 – Se você trabalha oito horas seguidas, tirando apenas pausas de dez minutos, e mencionou claramente que está ocupado e que é necessário que não seja perturbado, a única hora em que alguém o incomodará será durante aqueles intervalos de dez minutos, quando você estará vendo um vídeo de um cavalo com um bigode enorme ou tentando plantar bananeira. Você não terá sucesso na bananeira quando for interrompido: estará caído como uma tartaruga de pernas para o ar.

8 – O predador máximo em todo novo sistema multipresa urbano é a gaivota. Esse é outro motivo excelente para não ir lá fora: sem restos de frango frito descartados para se banquetear, elas estão mais famintas e nervosas do que nunca.

9 – Os biólogos também observaram que está surgindo uma nova superespécie de cão doméstico, muito magra, graças a caminhadas frequentes e longas feitas pelos integrantes do casulo para livrar-se dos outros integrantes, usando o cachorro como desculpa. O casulo está criando um problema para si mesmo após o lockdown: o supercão exigirá, no mínimo, quatro horas diárias de exercício.

10 – A incidência de podcasts feitos pela população em geral é de 0,08%. Nos homens de 28 a 50 anos em isolamento chega a 79%. Eles costumavam dizer que você nunca está mais de 1,80 metros de um rato, mas agora você nunca estará mais de duas casas de um homem com opiniões e um microfone.

11 – Todas as conversas seguem uma fórmula mista que um amigo meu chamou de “fita de coronamóbius”, que se repete indefinidamente. Nada acontecerá com nenhum de nós (se tivermos sorte), mas precisamos expressar isso várias vezes.

12 – Há uma quantidade fixa de moral em um espaço de isolamento. Ela não aumenta nem diminui, simplesmente passa entre os indivíduos no espaço. O lado bom disso é que você pode reenquadrar seus maus humores como um ato de altruísmo em relação aos outros integrantes do casulo.

OUTROS OLHARES

APOSTE NO BICHO

Há um atalho para tentar evitar novos surtos e desenvolver vacinas – entender como os coronavírus vieram dos animais para nós, frágeis seres humanos

De todas as bobagens ditas por Donald Trump sobre a pandemia, nenhuma superou a afirmação de que o vírus que provoca a Covid-19 teve origem em um laboratório de Wuhan, epicentro dos primeiro caso da doença, no fim de dezembro do ano passado – um documento da inteligência alemã foi o que melhor definiu o comportamento do presidente americano, modo de ”desviar a atenção do seu próprio erro e redirecionar a raiva para a China”.

Pesquisas minuciosas e já amplamente divulgadas, confirmam: o Sars-CoV-2, o novo coronavírus, teria sido transmitido ao ser humano a partir de um hospedeiro intermediário, o pangolim, mamífero muito comum em zona tropical da Ásia e da África, contaminado pelo hospedeiro natural, o morcego. É muito possível, portanto, que, longe de tubos de ensaio e pipetas, a origem do surto tenha o carimbo dos mercados de bichos (vivos) do Oriente – não porque produtores e consumidores tenham tido mirabolantes ideias laboratoriais e tampouco porque desejassem provocar a ruína global, intencionalmente, como faz querer parecer o presidente dos Estados Unidos. Os animais, enfim, são o passo zero da transmissão – mapear os vírus que circulam entre eles e que podem infectar a nós, frágeis humanos, é a maneira cientificamente mais adequada de evitar outros assustadores e mortais medos coletivos.

A exploração desenfreada de florestas ricas em biodiversidade, marca indelével de nosso tempo, empurra os animais selvagens para perto do homem. Na China e em parte do sudoeste asiático esse comportamento é comum, associado a práticas cruéis e insalubres envolvidas na captura, abate, comércio e transporte da fauna – embora, ressalve-se, a onda de modernidade impostas por exigência de autoridades locais e pressão de regras internacionais, comecem a provocar boas mudanças. Mas os mercados de bichos vivos existem e um deles, o Huanan, em1 Wuhan, temporariamente fechado, hoje é tristemente conhecido como o ponto de largada da pandemia – mas pode representar o começo do fim do consumo de animais selvagens.

Para tentar frear a próxima contaminação, há um caminho: rastrear a gênese dos vírus existentes na natureza, identificar os que são perigosos e agir rapidamente. Em outras palavras: convém apostar nos bichos e buscar as pessoas que se aproximaram deles. Uma das organizações mais atuantes nessa área é a EcoHealth Alliance, que há quinze anos reúne profissionais que saem a campo colhendo amostra de sangue ou de células da boca ou do nariz de animais e de pessoas – para catalogar os vírus e decodificar o genoma deles. Quanto mais perto do Homo sapiens na escala evolutiva estiver o hospedeiro, maior a chance de os vírus dele nos infectarem também (por isso não há busca de resíduo em jacarés, por exemplo).

“Insistimos numa tecla, permanentemente: o comércio de animais selvagens traz enorme risco de novas pandemias”, diz o zoólogo e parasitologista inglês Peter Daszak, presidente da EcoHealth. A ONG faz parte de um grupo maior, o Global Virome Project. Criado em 2018, e constantemente fustigado por Trump (que promove sucessivos ataques contra os trabalhos científicos, já que verdades não lhe interessam), o projeto é orçado em 1,2 bilhão de dólares e tem como objetivo seminal identificar ao longo de dez anos pelo menos 70% dos estimados 1,6 milhão de vírus que existem no planeta – uma parcela muito pequena dessa turma pode provocar danos, como ocorre com alguns coronavírus, mas quando explodem, em rápida disseminação, tendem a ser catastróficos. Daí a importância, também, das vacinas universais – que agem contra uma família viral inteira.

“Conseguir a vacina universal é perfeitamente factível, mas para isso precisamos de dinheiro e dedicação”, diz Daszak. A imunização contra o Sars-CoV-2 não deve sair antes de um ou dois anos, mas será crucial na busca pela versão universal contra todos os coronavírus. Depois do levantar da quarentena, depois de vacinados, precisaremos aprender a respeitar um pouco mais o meio ambiente. Essa é a regra do jogo, o legado pedagógico e vital da Covid-19.

O CAMINHO DO VÍRUS

Somente entre morcegos encontrados na China já foram descobertos e catalogados cerca de 500 coronavírus diferentes. Eles saltam do hospedeiro natural para hospedeiros intermediários, e dali para seres humanos, como ocorreu em outras epidemias recentes

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE MAIO

A FELICIDADE DE TER UM CORAÇÃO PURO

Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Mateus 5.8).

Jesus disse que felizes são os puros de coração, porque estes verão a Deus. Enganam-se aqueles que pensam que a felicidade está nas iguarias do mundo. A felicidade está exatamente em abster-se desse banquete. Os licores do pecado podem ser doces ao paladar, mas são amargos no estômago. Podem dar prazer por um momento, mas não satisfazem o coração para sempre. Não são aqueles que curtem as aventuras da vida que são felizes, mas os que se mantêm castos. Não são aqueles que se entregam à volúpia que encontram a felicidade, mas os que guardam puro o coração. A felicidade não está no banquete do pecado, mas na festa da santidade. A felicidade não está nas aventuras crepitantes do sexo ilícito, mas na vida regida pela pureza. Só os puros de coração verão a Deus. Só os puros de coração se deleitam em Deus e se sentirão em casa na Casa do Pai. Uma pessoa impura não se sentiria bem no céu, pois lá não entra nada contaminado. Aqueles que se alimentam de impureza passarão toda a eternidade recebendo o que sempre desejaram: a impureza. Aqueles que semearam a impureza no tempo colherão a impureza na eternidade. Aqueles que buscaram a santidade, porém, verão a Deus e se deleitarão nele pelo desdobrar dos séculos sem fim.

GESTÃO E CARREIRA

CAUTELA COM OS DADOS

Regras mais rígidas sobre informações de clientes coletadas por empresas se espalham pelo mundo. No Brasil, as companhias ainda correm para se adaptar

Gigantes de tecnologia, como Facebook e Google, entraram na rotina diária de milhões de pessoas em todo o mundo de uma forma quase simbiótica. Enquanto avançam na capacidade de monitorar cada passo de seus usuários no mundo real ou virtual, essas empresas ajudaram a elevar a discussão sobre privacidade de dados a um dos temas mais críticos da atualidade.

É notável que, desde janeiro, a primeira lei americana dedicada a garantir o sigilo de dados de consumidores tenha entrado em vigor na Califórnia, berço de algumas das principais companhias de tecnologia do mundo. Desde o primeiro dia do ano, passou a valer o California Consumer Privacy Act, legislação estadual que regulamenta a coleta e o uso de dados pessoais de consumidores californianos pelas empresas instaladas na região.

As multas por vazamento de dados podem variar de 2.500 a 7.500 dólares por informação vazada — valor considerável quando a empresa lida com um grande volume de dados. A lei chega pouco mais de um ano depois do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), legislação que segue a mesma linha rigorosa implementada em 2018 pela União Europeia. No Brasil, o tratamento de dados caminha na mesma direção com a criação da Lei Geral de Proteção de Dados (LOPD), que, sancionada em 2018, passará a valer em agosto.

Um ponto comum une as novas regras nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil: o grau de rigor não apenas em relação às exigências, mas também às punições previstas. Assim como na lei europeia, as sanções administrativas no Brasil poderão chegar a 2% do faturamento da empresa no ano anterior, com o limite de 50 milhões de reais por infração. O trabalho de fiscalização ficaria a cargo de uma nova agência, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, ainda sem data para sair do papel. “Desde as discussões sobre o Marco Civil da Internet em 2007, já havia, no Brasil, a intenção de regulamentar o tratamento de dados”, diz a advogada Marcela de Oliveira Santos, do escritório Duarte Garcia, que colaborou na elaboração da LGPD.

“O sistema de responsabilização ficou muito mais sofisticado, e isso demandará trabalho intenso e multidisciplinar dentro das empresas.” Há indícios de que boa parte dessa preparação só começou. Uma pesquisa concluída em novembro de 2019 pela consultoria de compliance ICTS Protiviti mostra que 84% das companhias no país admitiam não estar preparadas para atender a todas as novas exigências.

Se até agora as empresas se concentravam em acumular dados sobre os consumidores, daqui para a frente o foco também estará voltado para organização, monitoramento e uso responsável dessas informações. Não é uma mudança trivial. Parte das alterações exige uma adaptação mais simples, como na rotina de cadastramento dos clientes. Hoje as empresas têm liberdade para propor cadastros extensos. A partir de agosto, cada dado pedido deverá ser justificado. Pode não fazer sentido, por exemplo, perguntar o estado civil do cliente para realizar um cadastro antes de uma simples compra.

Existe, também, uma classificação de dados pessoais sensíveis, que envolvem informações sobre origem étnica, convicções religiosas, opiniões políticas e questões de saúde, entre outras. Para a captação desses dados, será necessário consentimento prévio e claro do titular, algo que não ocorre na obtenção de dados comuns. Outras novidades da lei demandam uma reorganização mais complexa. Numa medida comum às leis europeia e californiana, por exemplo, qualquer pessoa poderá solicitar a exclusão de todas as suas informações registradas na base de dados de uma companhia. “Do início de 2018 em diante, a Europa viu uma correria frenética das empresas para se adaptar à nova lei”, diz Geert Aalbers, sócio da consultoria Control Risks, especializada em análise de riscos. “Um dos grandes desafios foi o mapeamento de dados: eles estavam tão dispersos que as empresas nem sequer sabiam onde eram armazenados. Essa é uma dificuldade que as empresas brasileiras também devem enfrentar.”

Mapear os caminhos percorridos pelos dados após sua captação é o primeiro movimento de adaptação das organizações. Especialmente influenciado pelas regras europeias, o braço do supermercadista francês Carrefour no Brasil finaliza o mapeamento nas empresas do grupo e acerta os detalhes do plano de ação. “Enviamos formulários à pessoas-chave da organização e fizemos entrevistas para entender como os dados circulam”, diz Ana Luísa Hieaux, diretora jurídica do Carrefour. “Agora, estamos prestes a formalizar a estrutura da área de proteção de dados, com foco em e-commerce, varejo, banco Carrefour e Atacadão.” Segundo ela, a empresa prevê a instauração de um comitê de privacidade para deliberar sobre os temas relacionados à LGPD e à criação de um cargo de liderança em cada unidade da rede de lojas, que deverá responder ao encarregado de dados — cargo compulsório dentro da nova legislação (veja reportagem ao lado), ainda a ser nomeado. O processo de adaptação à lei está sendo feito a quatro mãos: ao lado de Ana Luísa está o diretor de segurança da informação, Renã Santos, responsável pela parte técnica.

A situação é mais complexa quando as empresas têm o intermédio de terceiros na relação com os clientes. É o caso da construtora mineira MRV, cujo processo de vendas é mediado por corretores terceirizados que precisam de acesso aos dados para abordar os clientes. “O compartilhamento de informações deve continuar, mas os corretores terão acesso apenas ao que é necessário para o contato”, diz Guilherme Freitas, diretor jurídico da MRV. Lá, os movimentos para a adaptação começaram quando a lei foi publicada. A empresa montou um time de sete pessoas das áreas jurídica, de tecnologia, de auditoria e de compliance para cuidar do processo. O grupo faz relatórios mensais a um comitê, que reúne diretores das quatro áreas.

Outra questão crítica está relacionada à segurança das informações. A maior multa aplicada na Europa com base na nova lei, no valor equivalente a 230 milhões de dólares, tem a ver justamente com um caso de fraude. Segundo o Escritório do Comissário de Informação, órgão que regula a proteção de dados no Reino Unido, uma brecha no site da companhia aérea British Airways levou usuários a uma página fraudulenta, por meio da qual foram captadas informações pessoais de cerca de 500.000 clientes, como número de cartão de crédito, nome e endereço. No Brasil, um dos casos mais recentes é o da operadora de telefonia Vivo, que admitiu uma brecha de segurança que expôs dados como nome, endereço, CPF e e-mails de um número não divulgado de clientes. Após o vazamento dos dados, a Vivo foi notificada pelo Procon e respondeu ao órgão, que analisa o caso. A expectativa é que a decisão sobre a autuação saia ainda no primeiro trimestre do ano, com possibilidade de recurso pela organização. A multa a ser aplicada poderá chegar a 10,3 milhões de reais, que é o teto de punições administrativas do órgão. A empresa está há mais de um ano mapeando processos e sistemas com o apoio de uma consultoria e de uma equipe interna. Além disso, já designou uma executiva da casa para assumir as funções de encarregada de dados.

O tamanho do trabalho decorrente da nova regulação pegou de surpresa os próprios reguladores europeus. Com receio das multas, as empresas preventivamente passaram a enviar a eles uma avalanche de notificações, antecipando qualquer movimento que pudesse ser considerado fora da curva. A Holanda liderou a lista de países em número de notificações: foram mais de 20.000 em 2019. Em alguns países, há a perspectiva de aumentar a equipe para analisar tantas informações. No Brasil, não há uma data estipulada para a criação da agência reguladora. Especialistas são unânimes em apontar que o novo órgão vai ditar o ritmo de adoção das novas regras na prática. Apesar dessa incógnita, não há dúvida de que viver sob o domínio de regras cada vez mais rígidas nessa seara é um caminho sem volta. 

NOVAS REGRAS, NOVO CARGO

A lei brasileira obriga a criação de um cargo inédito: o executivo responsável pela proteção de dados de clientes.

Para que o tratamento mais cauteloso de dados pessoais seja possível, a Lei Geral de Proteção de Dados destaca, em seu texto, três figuras responsáveis pelas informações captadas pelas empresas: o controlador, o operador e um responsável geral pelo tema, de interlocução direta com o comando da companhia, o encarregado de dados. Enquanto os dois primeiros já existem em algumas organizações, e são os profissionais que manipulam as informações dos clientes, a citação do último marca o início de um novo caminho profissional, com demanda em alta.

Algumas empresas já nomearam um DPO (data protection officer), que, segundo a lei, deve atuar como o principal responsável pela implementação da estratégia interna de proteção de dados. Além disso, esse profissional deverá ser o canal de comunicação entre a companhia, os titulares dos dados e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a ser criada. “Se antes a área de dados tinha uma ou duas pessoas e integrava um setor maior, o aumento da demanda e a sofisticação tecnológica trouxeram mais importância ao tema”, diz Ricardo Basaglia, diretor-geral da consultoria de contratação Michael Page. “Agora, além de técnicos, o tratamento de dados exige pessoas com habilidades em gestão e estratégia, principalmente quando existe impacto direto no modelo de negócios.” No Brasil, o cargo era praticamente inexistente — e começou a ganhar impulso dentro da contagem regressiva para que a nova lei entre em vigor. Segundo a Michael Page, a demanda teve aumento de 1 000% no último ano. “A tendência é que a procura aqueça ainda mais neste ano”, afirma Basaglia.

As empresas que têm seus modelos de negócios mais atrelados à gestão de dados estão em um estágio mais maduro em relação ao cargo de executivo de dados. É o caso da Marketdata, que usa informações de consumidores para oferecer serviços estratégicos de marketing e análise de dados. Em agosto de 2018, quando a lei foi sancionada, a empresa contratou o executivo Claudinei Vieira para implementar as mudanças necessárias. “Não existe forma de proteger totalmente uma empresa do risco de vazamento de dados”, diz Vieira, que foi executivo de compliance e segurança da informação por mais de 15 anos na consultoria PwC Brasil. “A organização sempre tem um grau de exposição ao risco e deve trazer essa exposição a um nível adequado ao direcionamento dos negócios e ao apetite de seus executivos ao risco.”

A operadora de telefonia Vivo optou por preparar uma executiva da casa para o cargo. Atualmente diretora de compliance, Andrea Mattos vai acumular a função de executiva de proteção de dados a partir de agosto, quando a lei começar a valer.

Segundo as consultorias contatadas, a escassez de profissionais com as competências necessárias para a tarefa será um grande desafio nos primeiros anos. “O mercado deve levar tempo inclusive para entender o perfil ideal desse profissional, que pode variar de empresa para empresa”, diz Ana Carla Guimarães, gerente de recrutamento da consultoria Robert Half. “Sabe-se que o profissional deve ter noções de base jurídica e da parte tecnológica, mas as principais características só serão esclarecidas na prática.”

AS NOVAS REGRAS DO JOGO

Com previsão para entrar em vigor en1 agosto de 20 20, a Lei Geral de Proteção de Dados impõe novas obrigações a empresas de todos os portes. Veja algumas delas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENGRENAGENS DO CÉREBRO MASCULINO

O pensamento do homem se organiza como um sistema que o faz ver o mundo como um conjunto de elementos interligados

Meninos e meninas costumam brincar de jeitos diferentes. Ainda pequenos, os garotos frequentemente se interessam por aviões, carros, caminhões e armas; gostam do ronco dos motores, dos estampidos e das sirenes. Por volta dos 2 anos já demonstram forte interesse por blocos de construção e brinquedos mecânicos, enquanto as meninas preferem brincar com bonecas e vestir roupas e experimentar acessórios.

A criança vai crescendo e o padrão se mantém: eles dedicam mais tempo do que elas aos brinquedos mecânicos (miniaturas de veículos, por exemplo) e de construção (como blocos para empilhar). Parecem adorar as montagens e constroem torres e cidades. Com frequência, sentam-se, admiram a obra construída para, em seguida, desmanchar tudo. Eles gostam também de brinquedos cujas funções sejam óbvias – com botões que possam pressionar, luzes que se acendam e aparatos que movimentem outros objetos. Ou seja: meninos adoram sistemas. Podemos entender a sistematização como o impulso de compreender e construir conjuntos de elementos materiais ou ideais relacionados entre si.

Embora seja possível imaginar que isso só vale para garotos da sociedade tecnológica ocidental, registros históricos revelam que o mesmo padrão já era encontrado em comunidades pré-industriais. Nos dias de hoje, esse funcionamento é encontrado no ambiente profissional. Algumas ocupações são quase inteiram ente masculinas, como metalurgia e a fabricação de armas e de instrumentos musicais. Ou a construção e fabricação de embarcações. Não se pode dizer que esse fato seja reflexo da maior força física dos homens, já que em muitas dessas tarefas – como a fabricação de facas ou de violinos – a força não é importante; o foco são os sistemas de construção.

Como estabelecer uma ligação entre as observações de brincadeiras de bebês e crianças e o funcionamento neurológico e cognitivo de adultos? Um elo possível está no fato de que a atenção de homens e mulheres é atraída, desde cedo, por diferentes aspectos do ambiente. Em um teste fascinante, replicado inúmeras vezes nos últimos anos nos Estados Unidos, é mostrada a homens e mulheres uma série de figuras humanas e de objetos mecânicos. Foi utilizado equipamento que permite que imagens da figura humana e de objetos apareçam simultaneamente na mesma área do campo visual – o que provoca uma “competição” entre os dois estímulos pela atenção do observador. Invariavelmente, em todas as edições do teste, os homens perceberam mais sistemas mecânicos do que pessoas, enquanto as mulheres garantiram ter visto mais pessoas do que objetos.

No mundo industrializado, profissões ligadas ao estudo da matemática, da física e da engenharia exigem alta capacidade de sistematização. Podemos até pensar que essas áreas de conhecimento são equivalentes, nos adultos, às brincadeiras infantis com objetos mecânicos e blocos de construção. Na fabricação de instrumentos de precisão, porém, se um detalhe for modificado nos dados de entrada do sistema ou se for alterada a operação, o resultado pode ser radicalmente afetado. Mude um número da fórmula ou a largura do equipamento e todo o sistema deixará de funcionar.

Todas as ciências utilizam como base a sistematização e, em geral, são dominadas por homens. É quase inevitável a observação de que apenas três dos 170 ganhadores vivos do Prêmio Nobel são mulheres. Nos anos 70, a proporção de homens e mulheres atuantes nos campos de matemática, física e engenharia era de nove para um – e assim continua até hoje. O mesmo acontece nas áreas em que se aplica o modelo matemático em relação à economia e à estatística.

A diferença é significativa, mesmo se levarmos em conta fatores culturais e sociais que afastaram representantes do sexo feminino de determinados campos. O padrão observado em diferentes ciências, porém, sugere algo mais sutil. Pesquisa feita nos Estados Unidos pela National Science Foundation revelou que apenas 23% dos cientistas que atuam no ramo da biologia são mulheres – a percentagem cai para 5% em física e 3% em engenharia. Em outros países, foi encontrado o mesmo padrão, embora não haja evidência de que essas duas últimas escolhas ofereceriam carreiras profissionais menos favoráveis.

LÓGICA E NÚMEROS

Uma explicação possível para a diferença de representantes homens e mulheres nessas áreas é que o processo de seleção para esses cursos seria tendencioso por utilizar métodos de raciocínio matemático. Tal critério não deixa de ser razoável, já que a habilidade com números e lógica é um bom recurso para previsão do sucesso nesses campos. No entanto, pode ser que a matemática desequilibre a proporção entre homens e mulheres em física e engenharia. Confirmando esses indícios, temos a proporção de dez homens para uma mulher que se situam na faixa mais alta de pontuação no Scholastic Aptitude Math Test (SAT-M), um teste de aptidão matemática aplicado nos Estados Unidos a todos os candidatos às universidades.

Outra explicação possível é que não haveria nenhuma orientação tendenciosa externa nas seleções; homens e mulheres estariam simplesmente escolhendo áreas da ciência nas quais têm mais interesse ou maior aptidão. Neste caso, “escolha” é um termo impreciso (pelo menos se não considerarmos as opções pautadas nos determinantes inconscientes, a respeito dos quais não discutiremos neste texto) – já que nossas ocupações nem sempre são resultado de uma opção consciente, mas simplesmente das oportunidades que se apresentaram. Emprego a palavra “interesse” porque a escolha da ocupação pode ser guiada não somente pela facilidade de desempenhar determinada tarefa, mas também por nossas preferências.

O pesquisador Johnny Lawson, doutor em psicologia pela Universidade de Cambrige, utilizou um teste que chamou de Physical Prediction Questionnaire (Questionário de Previsão Física) para verificar se homens e mulheres compreendem de maneiras diferentes o processo de uso de alavancas (dados de entrada) ligadas a diferentes mecanismos (rodas dentadas encaixadas de várias maneiras) para afetar o movimento de algumas barras (resultado). As barras subiriam ou desceriam. Os homens se saíram melhor na tarefa de prever os resultados, o que não pode ser relacionado a nenhum viés eventualmente provocado por um entrevistador sexista, já que o questionário foi enviado por e-mail e respondido pelos voluntários.

Portanto, sem negar a existência de possíveis fatores sociais na criação de desigualdades entre cientistas homens e mulheres, acredito que devemos continuar abertos à possibilidade de que pessoas de ambos os sexos se sintam mais atraídas por determinadas atividades.

Vamosolhar a matemática com atenção. Com muita frequência, na escola, os meninos tiram notas mais baixas do que as meninas em matemática. Isso parece contrariar a afirmativa de que o cérebro masculino seja melhor sistematizador. No entanto, embora marquem menos pontos pela precisão, os garotos se saem melhor nos testes de habilidade matemática. Apesar de os trabalhos escolares dos meninos serem menos organizados, eles tendem a encontrar soluções mais rapidamente.

EM TODO O MUNDO

As garotas, porém, se destacam em determinados aspectos da habilidade matemática. Durante os anos de estudo, elas se saem melhor em testes de sentenças matemáticas e de raciocínio como o cálculo. Supõe-se que a razão para isso é que para essas tarefas seja mais fácil usar estratégias verbais e a facilidade nesse quesito é uma qualidade principalmente feminina. Quando se trata de tarefas nas quais as estratégias verbais são menos úteis – como geometria, probabilidades e estatística – as garotas costumam ter notas mais baixas.

Essas diferenças na área foram documentadas em crianças de sete anos. A psicóloga Doreen Kimura lembra que o mesmo professor ensina cálculo (em que as garotas se saem melhor) e solução de problemas (em que os garotos apresentam melhor rendimento); assim, fica difícil atribuir ao estilo e às expectativas gerais do profissional a responsabilidade pelos padrões de desempenho diferentes em meninos e meninas. O mesmo argumento pode ser aplicado aos pais. Estudos multiculturais sugerem que, na idade pré-escolar, podemos dizer que não há diferenças entre meninos e meninas nas habilidades matemáticas primárias, como contagem básica, numerosidade (ideia de mais e menos), ordinalidade (sucessão dos números) e aritmética simples (adição e subtração). As diferenças entre os sexos só surgem em domínios mais avançados, como geometria, com os quais as crianças só terão contato nos anos mais adiantados da formação escolar. Podemos até ceder à tentação de concluir que esse cenário demonstra o papel exercido pela cultura e pela educação na geração de diferenças, mas estudos multiculturais revelam o mesmo padrão variável entre os sexos no mundo todo. Em culturas tão diversas quanto as de países como Estados Unidos, China, Japão e Tailândia as garotas se saem melhor com cálculos e no estudo de componentes de computação; garotos se destacam na resolução de problemas. No teste de aptidão para a matemática SAT-M, rapazes marcam, em média, 50 pontos a mais do que as moças. Quando os resultados são separados em faixas, ocorre algo interessante: as diferenças aparecem de forma ainda mais marcante nas faixas superiores de desempenho. Entre os participantes que marcaram mais de 500 pontos, encontra ­se uma relação entre masculino e feminino de 2 para 1; acima de 600, a relação sobe para 6 para 1 e, acima de 700 pontos, chega a 13 para 1.

Um panorama semelhante se desenha na Olimpíada Internacional de Matemática, em que competem os melhores matemáticos do mundo. Durante a competição, 85 países apresentam seus seis melhores matemáticos, selecionados em concursos nacionais. A relação dos vencedores está na internet e os que tiverem a curiosidade de consultar verão, pelos nomes – Sanjay, David, Sergei e Adam, por exemplo – que quase todos são do sexo masculino.

NÍVEL DA ÁGUA

Essa tendência se manteve em todos os países e em todos os anos em que houve o torneio. Interessante: a China sempre consegue incluir uma mulher na equipe. No entanto, pelas médias de grupo para os dois sexos, é muito mais provável que os melhores matemáticos sejam homens. O panorama geral sugere que os homens superam as mulheres nesse campo (isento de qualquer componente verbal) desde a escola até os níveis mais altos de escolarização.

Algumas técnicas psicológicas podem ajudar a compreender as diferentes maneiras de homens e mulheres enxergar o mundo e trabalhar com informações que apreendem. O teste tarefa do nível da água (Water levei task), criado pelo educador e psicólogo infantil suíço Jean Piaget, é uma delas. Ele propôs que fosse apresentada aos participantes uma garrafa inclinada em um determinado ângulo e que se pedisse a eles que estimassem o nível do líquido dentro do recipiente. As mulheres, com mais frequência, deduzem que a água deve estar alinhada com a inclinação da garrafa, mas a resposta certa é que, qualquer que seja a inclinação, o nível será sempre horizontal.

A mesma vantagem masculina é observada em um teste similar, o da haste e da moldura. O voluntário vai para uma sala escurecida e lhe é apresentado um modelo em terceira dimensão de um retângulo luminoso (a moldura) com uma haste luminosa dentro dele. A figura é girada em diferentes direções e pede-se à pessoa que posicione a haste de modo que fique em posição vertical. Comprovadamente, alterar a inclinação da moldura não afeta a posição da haste. Se a ideia de verticalidade for influenciada pela inclinação da moldura, diz-se que a pessoa é “dependente do campo”: seu julgamento é facilmente alterado pelos (irrelevantes) dados de entrada do contexto. Se o participante não se deixar influenciar pela inclinação da moldura, podemos dizer que é “independente do campo”: a compreensão só leva em conta os fatores relevantes intrínsecos ao sistema. Segundo a maioria dos estudos, as mulheres são mais dependentes do campo: tendem a se distrair por aspectos irrelevantes, em vez de considerar o sistema. Elas costumam dizer, erroneamente, que a haste fica em posição vertical quando em alinhamento com a moldura.

ESPAÇO E FOCO

Já no teste das figuras encaixadas pede-se ao indivíduo que olhe para uma figura simples (o objeto) e a identifique dentro dele um padrão mais complexo (onde seu fundo se encaixa). Homens costumam ser mais rápidos e precisos em suas respostas. Este pode ser considerado um exercício de sistematização, já que a forma do objeto só permite o encaixe em uma posição e em lugar determinado. Em outras palavras: existe uma regra que descreve essa relação. Se pensarmos no padrão complexo do fundo como um motor de carro, por exemplo, e no objeto como uma das peças, esta só pode ser colocada no motor em uma determinada posição para completar o sistema.

Os homens também são capazes de aprender um caminho em um número menor de tentativas, com o auxílio do mapa, lembrando corretamente mais detalhes sobre direção e distância. Em estudos que tive a oportunidade de acompanhar, pedimos a alguns meninos que fizessem um mapa de uma área que só visitaram uma vez e seu trabalho foi bastante preciso, mostrando, por exemplo, qual a paisagem a sudeste de uma estrada. Se levarmos em conta a organização e apresentação desse material, porém, o risco de termos uma tarefa considerada “insatisfatória” é bastante grande. Já as meninas mostraram a tendência de organizar melhor o trabalho, mas produziram mapas com maior quantidade de erros de localização de pontos importantes.

Os meninos tendem a enfatizar direções, rotas ou sentido de direção, enquanto elas dão ênfase a pontos específicos – a loja da esquina, por exemplo. Essas duas estratégias, marcação de direções versus destaque para pontos específicos, têm sido bastante estudadas. A estratégia direcional é um exemplo de compreensão do espaço como um sistema geométrico e o foco em caminhos revela a consideração do ambiente como sistema.

Em outro estudo, foi mostrado aos voluntários o mapa de um a cidade fictícia. A tarefa era aprender determinado caminho. Os homens cumpriram a tarefa em menos tempo, com menor número de tentativas e de erros. Mais uma vez, as mulheres se lembravam principalmente da paisagem, enquanto eles tinham melhor compreensão direcional do mapa. Outros estudos do tipo costumam chegar a resultados similares. Algumas experiências podem ser realizadas de maneira informal. Por exemplo: leve um grupo de crianças com idades em torno de oito anos a um local desconhecido, dê a elas um mapa e depois peça que desenhem a área. As meninas incluem mais elementos da paisagem e os meninos, mais caminhos. Se a experiência for repetida com um segundo grupo com o mapa e o passeio pelo local reduzidos à metade, para dificultar um pouco a tarefa, os meninos ainda assim se lembram melhor das posições relativas dos lugares. O cérebro masculino “arruma” os elementos em um sistema geométrico ou de rede; o feminino marca os elementos descritivamente.

TALENTOS E ESTEREÓTIPOS

Um novo estudo sobre gênero, desenvolvido pela professora de psicologia Janet Shibley Hyde, da Universidade de Wisconsin, em Madison, revela que as diferenças entre homens e mulheres talvez não sejam tão marcantes como muitos pesquisadores acreditam. Para chegar a essa conclusão, Hyde realizou a revisão dos 46 estudos sobre gênero mais importantes dos últimos 20 anos.

“Claro que há diferenças emocionais e cognitivas entre os sexos. Os homens, de fato, são mais agressivos fisicamente”, observa. Já os problemas de auto estima na adolescência, geralmente associados ao comportamento feminino, afetam igualmente os rapazes. Mas para a psicóloga, o estudo mostra que tendemos a nos concentrar mais nas diferenças do que nas similaridades e exageramos qualquer descoberta científica que aponte pequenos contrastes.

“Se aceitamos que os homens não se comunicam bem, quais as implicações disso para o casamento? Por que um a mulher tentaria conversar com seu marido para resolverem seus problemas se ele fosse incapaz de compreendê-la?”, questiona. “Se temos certeza de que os meninos são melhores em matemática, ignoramos o talento matemático de muitas meninas.” Isso implica limitação das oportunidades profissionais das mulheres em áreas tecnológicas e científicas. “Em vez de continuarmos a acreditar em psicólogos de programas de auditório, precisamos dar ouvidos a dados científicos que nos dizem quando estamos nos aferrando a falsos estereótipos”, sugere Hyde.

EU ACHO …

A DERROTA DA FICÇÃO

No atual momento, está difícil competir com a realidade

Nos últimos tempos, a realidade tem solapado a ficção. Nem nos meus sonhos mais macabros, imaginei que veria a Secretária de Cultura, Regina Duarte, minimizar a gravidade da tortura na ditadura militar, debochar das mortes crescentes por coronavírus e se esquivar de prestar homenagem aos grande artista que perdemos nesse período, como Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Sérgio Sant’Anna, Daisy Lúcidi, Moraes Moreira e Aldir Blanc.  

Na verdade, o bizarro começou a imperar antes: nem meus devaneios mais sombrios foram capazes de pintar a possibilidade de um discurso como o feito pelo ex-secretário Roberto Alvim, num vídeo cafona e perigoso, com fala semelhante à de Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler durante o governo nazista na Alemanha. E olha que escrevo histórias de terror. Se um roteirista criasse quaisquer desses cenários, sofreria críticas severas pela inverossimilhança. A realidade brasileira deixa O Conto da Aia no chinelo.

Daqui, tenho refletido sobre como tudo isso incide na ficção. Não tenho dúvidas de que o momento atual vai alterar nossa maneira de contar história. Que dramas continuam a ter pertinência? Que livros, filmes e séries serão feitos e consumidos no pós-pandemia? Que tipo de teledramaturgia o povo brasileiro vai querer ver? Não sei as respostas, é claro, mas tenho estudado cenário e possibilidades.

Curiosamente, na quarentena, venho lendo mais biografias e consumindo mais documentários, como se aceitasse resignadamente a derrota da ficção. Nos últimos anos, minhas séries favoritas têm sido todas documentais e contêm incômoda ressonância na realidade. De início, foi Making a Murderer, a história de um sujeito preso injustamente, revelando a corrupção das autoridades para alterar o rumo de investigações e encobrir crimes. Depois veio Wild Country, sobre a força e os perigos do fanatismo, da opção cega por um líder supremo.

Nesta semana, devorei Tiger King, cujo protagonista é Joe Exotic, um colecionador de grandes felinos que entra em conflito com Carole Baskin, protetora de animais. Joe é egocêntrico, paranoico, vaidoso, amoral e, por isso, tão perigosamente imprevisível; sempre tem prazer de ver “o parquinho pegar fogo”. Em sua cafonice cruel, guarda estreita semelhança com nosso presidente. Joe Exotic é Jair Bolsonaro. Não à toa, em determinado episódio, Joe decide se candidatar a governador. Fosse hoje, era bem capaz de vencer. Parece até piada… de mau gosto, sem dúvida.

Qual é o futuro da ficção? volto a perguntar. Acredito que o prazer de ler um bom suspense ou viajar numa aventura de ficção cientifica continuará a existir depois da pandemia. Mas, por enquanto tenho a impressão de que Hollywood, a ótima nova série de Ryan Murphy para a Netflix, esteja mais próxima da resposta. Ao retratar os anos 40 na famosa indústria do cinema, Murphy imagina um cenário no qual gays, mulheres, negros e asiáticos têm voz e conseguem contar as próprias histórias. Uma ”dreamland” para tornar tudo mais palatável. A realidade está simplesmente dura demais.

* RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

SUBIU À CABEÇA

Sem poderem sair de casa para arrumar o cabelo, as pessoas estão cortando e colorindo por conta própria – e postando o resultado, nem sempre tão bom, nas redes

Viver preso dentro de casa, mesmo em espaços agradáveis e confortáveis, não tem sido fácil. E fica mais difícil ainda quando o “quarentener”, apelido concebido nas redes sociais se olha no espelho e depara com um cabelo que não vê salão há muitas semanas. Não por acaso, reabrir cabeleireiros e barbearia tem sido uma das primeiras medidas em lugares prontos para relaxar o confinamento – e não pronto também, como o Estado americano da Geórgia e, há poucos dias, o Brasil, por decreto de Jair Bolsonaro (embora a decisão final esteja nas mãos de cada governador). A experiência tem mostrado que muita gente, mesmo podendo ir, permanece ressabiada de frequentar um local onde distanciamento, a prevenção número 1 contra o novo coronavírus, é praticamente impossível. O resultado é um grande contingente de anônimos e famosos que se aventuram nas tesouras e nas tinturas, arriscando soluções caseiras nem sempre bem-sucedidas, mas ainda assim exibidas, é claro, no Instagram de cada dia – como o cabelo verde renegado com uma careta pela atriz Hilary Duff.

Quem não sabe como cortar o cabelo vai ao Google ou pede lições para os amigos mais afeitos a soluções domésticas. E não é só o cuidado estético que leva uma pessoa a mudar o visual, mesmo que isso esteja além das suas habilidades. Pintar o cabelo de cores estapafúrdias, como o tom “vermelho paixão” postado por um desgostoso cantor Ricky Martin, serve também como válvula de escape para o tédio, a inquietação e a instabilidade provocados pelo isolamento social. “As pessoas buscam formas de controlar e mudar o próprio corpo, já que não podem modificar o que está ao redor”, diz o psicólogo Cloves Amorim, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Além disso, a ausência da pressão do trabalho estimula a criatividade.”

Elas por tédio (e raízes brancas), eles por necessidade, todo mundo está dando um jeito no cabelo em casa. A professora Paula Miranda França, de 40 anos experimentou um momento de impulsividade no fim de março: depois de cortar o cabelo do filho Miguel, de 11 anos, decidiu passar máquina 2 nas suas madeixas, que iam até os ombros. ”Eu me sentia aprisionada e resolvi: se vou ficar em casa, posso ser mais livre e fazer o que eu quiser”, justifica Paula, que felizmente gostou do resultado e pensa em manter o visual até o fim da quarentena. Já o alagoano Arthur Toledo, de 31 anos, raspou por necessidade, vítima de uma grande falha na parte de trás da cabeça, causada pela máquina manuseada pela mulher na fazenda onde o casal mora, na zona rural de Bauru (SP). “Fiquei tão diferente que algumas pessoas não me reconheceram. Está tudo bem, vai crescer de novo”, conforma-se, bem-humorado.

Corte malfeitos viraram mania no TikTok, o aplicativo de vídeos rápidos que faz muito sucesso entre os jovens, com uma infinidade de filminhos de vias tortuosas desbravada por tesoura na mão de amadores. Mais convencional, Bruno Gagliasso postou no Instagram o caminho de rato desenhado nas laterais da sua cabeça em um momento de criatividade dos filhos Titi, de 6 anos, e Bless, de 5. A atriz Claudia Raia depositou nas mãos do marido, Jarbas Homem de Mello, a tarefa de retocar suas raízes. “A gente se reinventa. Vambora, todo mundo tem de saber fazer tudo”, brincou.

Há que tomar cuidado, porém, com o tamanho do desastre (veja no quadro abaixo). “A imagem abalada pode deixar algumas pessoas deprimidas”, alerta o cabeleireiro Abner Matias, de São Paulo, que está cobrando 200 reais por um pacote de instruções que inclui um cronograma de cuidado capilar e recomendações sobre como hidratar e colorir o cabelo. Matias diz que as visualizações de seu canal no YouTube dobraram desde que o isolamento começou. “Apesar das brincadeiras, a maioria quer cuidar bem dos fios, e não estragá-los”, afirma. Conselho sempre repetido por ele e pelos colegas: pense muito antes de manejar a tesoura na direção de uma mudança extravagante. A quarentena está demorando para acabar, mas não vai durar para sempre.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE MAIO

CONSOLO PARA O LUTO

Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores! (Lucas 7.13).

O luto é uma das aflições mais profundas da vida. Ninguém passa por esse vale com sorriso nos lábios ou festas na alma. É um cálice amargo, e não uma iguaria fina. A morte é o rei dos terrores. Arranca de nossos braços aqueles a quem amamos. O apóstolo Paulo, porém, nos diz: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É ele quem nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus (2Coríntios 1.3,4). Há três verdades consoladoras aqui. Em primeiro lugar, Deus é a fonte do consolo. Podemos receber seu socorro nas horas mais amargas da vida. O vale do luto é escuro e profundo, mas não o atravessamos sozinhos. Deus caminha conosco, acolhendo-nos em seus braços eternos, pois ele é o Deus e Pai de toda consolação. Em segundo lugar, Deus não desperdiça sofrimento na vida de seus filhos. Ninguém é consolado a menos que esteja passando por um sofrimento. Deus nos conforta para sermos consoladores. Quando enfrentamos a dor do luto, Deus nos equipa para sermos instrumentos de consolo na vida de outros enlutados. Em terceiro lugar, Deus nos capacita para sermos consoladores e consoladores com as mesmas consolações com que somos consolados. Repartimos aquilo que recebemos. Repartimos na mesma proporção que recebemos. Tornamo-nos não apenas receptáculos do sofrimento, mas sobretudo instrumentos do consolo.

GESTÃO E CARREIRA

SALVAÇÃO OU ARMADILHA?

Quem abre um negócio por necessidade costuma sofrer com a alta carga emocional e com o despreparo para gerir uma empresa. Saiba como se preparar para empreender com segurança

Quando Kelli Carretoni, de 36 anos, e o marido, Marcos Senise, de 35, decidiram sair de Sidrolândia (MS) para recomeçar a vida em Florianópolis (SC) imaginaram que seria fácil abrir um food truck e se sustentar vendendo lanches. Desempregados, eles estavam morando de favor com a família havia seis meses quando decidiram arrumar as malas em agosto de 2018. Como já haviam visitado a ilha catarinense durante as férias de verão, pensaram que a multidão de turistas significaria sucesso garantido.

Mas a realidade do inverno em que chegaram à cidade foi bem diferente. Além de custos com locação e manutenção do trailer, o casal teria de arcar com alvará de funcionamento – e, também, com o aluguel de apartamento e todos os outros custos de vida. As contas não fechavam. “Decidimos recuar do nosso projeto inicial. Ficamos apavorados, pois tínhamos muitas despesas, o dinheiro estava indo embora e o desespero bateu”, diz Kelli. O sonho de ter um food truck durou apenas dois dias. Marcos começou a procurar emprego em lojas e restaurantes de Florianópolis. Apesar de carregar um diploma universitário de agronomia, ele não teve sucesso em sua área. Para piorar a situação, Kelli passou por um problema na coluna que exigiu repouso, internação e medicamentos – o que tornou a situação financeira do casal ainda mais preocupante. Foi então que tiveram a ideia de fazer bolos no pote para vender no comércio e na praia. Advogada de formação, Kelli sempre gostou de preparar doces e ficou encarregada. da produção, enquanto Marcos cuidava das vendas. Ele havia conseguido um emprego de vendedor durante o horário comercial e saía para vender bolos após o expediente. Depois de dez meses empregado, Marcos foi demitido e passou a se dedicar integralmente ao negócio. Com muito esforço, saíram do vermelho e hoje conseguem pagar todas as contas com os doces. A história poderia ter terminado mal, mas eles tiveram sorte. Em seu segundo verão na ilha, o casal está se preparando para formalizar a empresa e já sonha em abrir uma loja própria.

PURA NECESSIDADE

Histórias como a desse casal estão se tornando cada vez mais comuns no Brasil – e não é porque o brasileiro se descobriu como empreendedor. O enfraquecimento da atividade econômica e o avanço do desemprego nos últimos anos são dois dos fatores que têm levado cada vez mais pessoas a abrir um negócio por necessidade.

Uma pesquisa realizada pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostrou que a taxa de empreendedorismo no Brasil está crescendo rapidamente, chegando a 38% em 2018, o equivalente a 52 milhões de pessoas. E, dos que abriram um negócio, 37,5% o fizeram por necessidade. A abertura de empresas que se enquadram no MEI (microempreendedor individual) também é um indicativo dessa tendência: de janeiro a outubro de 2019, o Brasil ganhou 1,5 milhão de novos microempreendedores, alcançando um total de 9,2 milhões. Com o registro, os empresários cujo faturamento chega a até 81.000 reais por ano podem ter CNPJ e emitir notas fiscais, além de ter acesso a direitos previdenciários e a auxílio-maternidade. “Há muita gente que não tem opção no trabalho formal e consegue no MEI um caminho para se formalizar e estar no mercado de trabalho”, afirma o presidente do Sebrae, Carlos Melles.

COM EMOÇÃO

Se empreender por oportunidade já é desafiador, empreender por necessidade é ainda pior. Segundo especialistas, quem abre um negócio por não encontrar uma alternativa de renda costuma sofrer mais riscos de fracassar porque a carga emocional é muito mais intensa e tende a impactar a qualidade das decisões. “São muitas camadas de emoção envolvidas junto com um nível de conhecimento quase zero. As pessoas nessa situação ficam desesperadas porque o dinheiro nem sempre vem rápido”, afirma Marina Proença, especialista em marketing e criadora do curso Empreenda Simples.

Ao mesmo tempo, não há as mesmas garantias oferecidas por um emprego de carteira assinada, como fundo de garantia, férias remuneradas e 13º salário. Segundo Sandro Magaldi, fundador da startup Meu­ sucesso.com, que atua com educação empreendedora, a instabilidade dos rendimentos aliada a essas condições é um dos fatores mais desafiadores. “Empreender é sinônimo de risco. A segurança não é a mesma quando se tem uma ocupação formal”, afirma.

Outro ponto de atenção é a pressa para retirar uma renda de seu negócio, o que não permite que a empresa receba os investimentos necessários ao longo do tempo. “Esses ingredientes formam um bolo perigoso”, afirma Rubens Massa, professor no Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV Eaesp.

Em muitos casos, é preciso encontrar alternativas de renda até o negócio começar a dar certo. Foi o que fez Kênia Nazaro, de 33 anos. Formada em arquitetura, ela teve dificuldade para encontrar um emprego na área quando se formou em 2014. “O Brasil já estava em crise e meu mercado tinha quase chegado ao fundo do poço”, diz. Em vez de esperar por uma vaga, ela decidiu entrar em ação e começar a atuar por conta própria. “Precisava de dinheiro e também valorizar a graduação que eu fiz”, afirma. Com a marca Nazario Arquitetura, criou um perfil no Facebook com seu portfólio e, com dinheiro emprestado de sua mãe, imprimiu 5.000 panfletos para divulgar o negócio. Alguns meses depois, conseguiu o primeiro cliente. “Ele sabia que eu era inexperiente, mas decidiu arriscar”, diz. A clientela demorou a crescer e, até o início de 2018, Kênia precisou diversificar seu leque de atuação. Além de projetos de arquitetura, ela locava equipamentos recreativos para festas infantis. “Eu ficava por meses sem clientes e, para poder pagar as contas, comecei a alugar esses brinquedos”, diz. Agora, graças ao forte trabalho de divulgação nas redes sociais e na internet, Kênia conseguiu consolidar seu negócio de arquitetura. “O Instagram e o Facebook me dão clientes. Cheguei a um ponto em que eu não preciso mais ficar pagando para fazer propaganda porque os próprios clientes me indicam a outros”, diz a arquiteta, que está pensando em contratar um estagiário para ajudá-la.

PLANEJAMENTO É A CHAVE

Para quem está pensando em empreender por não encontrar mais nenhuma opção, a dica é buscar informação e pla11ejar o máximo possível antes de começar. Cursos gratuitos do Sebrae e informações disponíveis na internet são uma ótima alternativa para quem não tem dinheiro para investir em capacitação. Estar em contato com outros empreendedores também é uma boa ideia, seja por meio da internet, seja em feiras e eventos.

É essencial formular um modelo de negócios levando em conta o que a empresa vai fazer, quem será o cliente, como será o relacionamento com esse público, quais serão as principais atividades e os parceiros, assim como custos e receitas. “É preciso dar um primeiro passo e pesquisar”, diz Marina. Caso contrário, o risco de trabalhar muito e não ganhar dinheiro é alto. Também é importante considerar como seu negócio vai se diferenciar da concorrência, oferecendo produtos inovadores ou lançando mão de campanhas de marketing originais. “Se não souber responder qual dor você cura, nem comece”, afirma Pedro Superti, especialista em marketing de diferenciação.

Esse planejamento faz parte da história de Beatriz Carvalho, de 27 anos. Jornalista que nunca conseguiu atuar na área, ela criou, em 2017, o projeto Mulheres de Frente, que tem como objetivo usar a internet como ferramenta de empoderamento de mulheres da periferia da cidade do Rio de Janeiro. A ideia é ensiná-las a usar as redes sociais como ferramenta de trabalho. “As mulheres da favela são muito estigmatizadas pelo machismo e pelo racismo, e isso me incomodava muito”, diz. Para ajudar a mudar essa realidade, Beatriz oferece consultoria em mídias sociais, produção de eventos e também realiza workshops e oficinas presenciais em áreas carentes. Com isso, ela ajuda empreendedoras a divulgar seus produtos e serviços na internet de forma positiva, servindo de inspiração para outras mulheres.

Para tirar o negócio do papel, Beatriz precisou criar uma rede de contatos na região metropolitana do Rio. Sua principal fonte de negócio são as organizações não governamentais (ONGs) que atuam nessa região. “Procuro oferecer ajuda para eventos que elas realizam, e assim vou criando uma rede de contatos”, conta. Grupos de mensagens e participação em coletivos feministas também têm ajudado Beatriz em sua jornada empreendedora.

Em meados de 2017, o projeto foi mapeado pela Rede Favela Sustentável, da ONG Comunidades Catalisadoras. Em 2019, passou a fazer parte de uma incubadora de outra ONG, a Asplande. Na incubadora, Beatriz está aprendendo sobre modelo de negócios, marketing digital e gestão de negócios. “Esse mapeamento tem me dado mais visibilidade e um networking muito importante”, conta. No mesmo ano, ela se registrou como MEI para poder emitir notas fiscais. No longo prazo, sua intenção é levar o Mulheres de Frente para outros estados do Brasil e até para o exterior. Da necessidade pode ter surgido um grande projeto de vida.

POR QUE SER O PRÓPRIO PATRÃO?

A abertura de uma empresa é baseada na oportunidade ou na pura necessidade de conseguir renda. Veja como andaram essas duas motivações ao longo dos últimos anos

10 CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR DE SUCESSO

1. É atento a mercado e aposta em inovação

2. Dedica tempo ao planejamento

3. É resiliente e focado

4. Consegue manter a calma apesar das turbulências

5. Procura maneiras de se diferenciar da concorrência

6. Sabe quem é seu público-alvo

7. Tem clareza de receitas e custos

8. Entende que empreender é um processo

9. Não desiste se a primeira ideia não der certo

10. Gosta de aprender

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HORMÔNIOS PODEROSOS

Diversidade de padrões comportamentais e cognitivos reflete influências da química cerebral

Homens e mulheres diferem não apenas em atributos físicos e função reprodutiva, mas também em características como o modo de resolver problemas intelectuais. Nas últimas décadas, a tendência ideológica insistia que estas diferenças comportamentais seriam mínimas e consequência da diversidade de experiências durante o desenvolvimento antes e depois da adolescência. Evidências acumuladas recentemente, entretanto, sugerem que os efeitos dos hormônios sexuais na organização cerebral ocorrem tão precocemente na vida que, desde o início, o meio age sobre cérebros organizados de forma diferente em meninos e meninas. Esses efeitos tornam difícil, se não duvidosa, a avaliação do papel que a experiência desempenha, independentemente da predisposição fisiológica. As bases biológicas das diferenças sexuais no cérebro e no comportamento ficaram melhor conhecidas graças ao número cada vez maior de estudos comportamentais, neurológicos e endocrinológicos.

Sabemos, por exemplo, pela observação tanto de humanos quanto de não humanos, que os machos são mais agressivos e, quando jovens, fazem brincadeiras mais violentas que as fêmeas. Já estas destacam-se pelos comportamentos maternais. Sabemos também que, em geral, os homens são melhores em tarefas que envolvem orientação e navegação no espaço. Qual a origem dessas e outras diferenças entre os sexos? Boa parte de nossas informações e ideias sobre como ocorre a diferenciação sexual é fornecida por pesquisas com animais. Talvez o fator mais importante na diferenciação entre machos e fêmeas, e sem dúvida na diferenciação de indivíduos do mesmo sexo, seja o nível de exposição a vários hormônios sexuais no início da vida. Na maioria dos mamíferos, incluindo os humanos, o organismo em desenvolvimento tem potencial para ser macho ou fêmea. A produção de um macho é um processo complexo. Quando um cromossomo Y está presente, formam-se testículos ou gônadas masculinas. Quando não existe cromossomo Y, formam-se ovários.

PADRÃO FEMININO

Os testículos produzem hormônios masculinos ou androgênios (principalmente testosterona), responsáveis pela transformação dos genitais em órgãos masculinos, e também pela organização, no início da vida, dos comportamentos masculinos correspondentes. Quanto à formação da genitália, os estudos pioneiros de Robert W. Coy, da University of Wisconsin, mostraram que a tendência intrínseca, na ausência de influência hormonal masculina, é que se desenvolvam estruturas genitais e comportamento femininos. Portanto, a anatomia feminina e, provavelmente, a maior parte do comportamento associado às fêmeas são o modelo padrão na ausência de androgênios.

Se um roedor com genitais masculinos funcionais for privado dos androgênios imediatamente após o nascimento (por castração ou pela administração de um composto que bloqueie os hormônios), o comportamento sexual masculino, como montar durante a cópula, será reduzido, e aumentará o comportamento sexual feminino, como a lordose (o arqueamento das costas durante o coito). Da mesma forma, se androgênios forem administrados a uma fêmea logo após o nascimento, ela revelará, quando adulta, maior quantidade de comportamento sexual masculino e menor do feminino. Esses efeitos duradouros decorrentes da exposição precoce a hormônios sexuais são caracterizados como “organizacionais” porque parecem alterar, de forma permanente, a função cerebral durante um período crítico do desenvolvimento pré ou pós-natal precoce. A administração dos mesmos hormônios sexuais em estágios mais tardios ou na idade adulta não exerce este efeito.

Entretanto, nem todos os comportamentos que distinguem os machos são categorizados ao mesmo tempo. Em macacos Rhesus, por exemplo, a organização através de androgênios dos comportamentos masculinos típicos de cópula e de brincadeiras violentas ocorre em fases diferentes do período pré-natal.

A área do cérebro que regula o comportamento reprodutivo masculino e feminino é o hipotálamo. Essa diminuta estrutura na base do cérebro está ligada à hipófise, a principal glândula endócrina. Nos ratos machos, uma região do hipotálamo é nitidamente maior que nas fêmeas, e esta diferença está sob controle hormonal. Os cientistas descobriram também diferenças entre os sexos em um grupo de neurônios do cérebro humano – partes do núcleo intersticial do hipotálamo anterior -, que é maior nos homens. Até a orientação sexual e a identidade de gênero foram relacionadas à variação anatômica do hipotálamo. Outros pesquisadores, como Jiang-Ning Zhou e colegas do Netherlands lnstitute of Brain Research e da Free University, em Amsterdã, observaram outra parte do hipotálamo, menor em transexuais masculinos-femininos que em um grupo de controle masculino. Essas descobertas são consistentes com a hipótese de que a orientação sexual e a identidade de gênero têm um importante componente biológico.

E as diferenças intelectuais entre homens e mulheres? As principais diferenças sexuais parecem consistir mais em padrões de habilidades que no nível global de inteligência (medido como o QI), embora alguns pesquisadores, como Richard Lynn, da University of Ulster, na Irlanda do Norte, argumentem que exista uma pequena diferença de QI em favor dos homens. As diferenças de padrão intelectual referem-se ao fato de que as pessoas possuem talentos intelectuais distintos: algumas utilizam palavras muito bem, enquanto outras são melhores em lidar com estímulos externos, como a identificação de um objeto em uma orientação diferente. Dois indivíduos podem ter habilidades cognitivas diferentes, com o mesmo nível global de inteligência.

NO LABIRINTO

As diferenças entre os sexos na solução de problemas foram estudadas sistematicamente em adultos, em laboratório. Em média, os homens se saem melhor que as mulheres em certas tarefas espaciais. Em particular, os homens parecem ter desempenho melhor em testes em que precisam imaginar a rotação de um objeto ou sua manipulação de forma variada. O desempenho dos homens também é melhor em testes de raciocínio matemático e de navegação em uma rota. Além disso, os homens são mais precisos em testes de habilidade motora com alvo – isto é, em guiar ou interceptar projéteis. As mulheres, em média, sobressaem em testes que medem a capacidade de lembrar palavras e desafiam a pessoa a encontrar palavras que comecem com uma letra específica ou satisfaçam algum outro critério. Também tendem a ser melhores que os homens na identificação rápida de itens que combinam entre si e em realizar certas tarefas manuais, como a colocação de pinos em buracos de uma tábua.

Em relação à orientação espacial, um estudo revelou que os homens completam um labirinto simulado em computador mais rapidamente e com menos erros do que as mulheres. Outro estudo utilizou um percurso feito em um mapa de mesa para o aprendizado de rotas. Os resultados mostram que os homens aprendem o caminho em menos tentativas e com menos erros, as mulheres tendem a usar marcos de referência como estratégia de orientação. Outras descobertas também apontam a superioridade das mulheres na memorização de referências. Em testes sobre a habilidade para lembrar de objetos e sua localização em um espaço confinado – como uma sala ou uma mesa -, as mulheres revelaram-se mais capazes de lembrar se os itens haviam mudado de lugar ou não. Outros pesquisadores descobriram que as mulheres são superiores quando precisam lembrar da localização de desenhos em cartões virados aos pares. Neste tipo de localização dos objetos, diferentemente de outras tarefas espaciais, as mulheres parecem superar os homens.

É importante levar em conta que algumas diferenças cognitivas médias entre os sexos variam ou muito ou pouco, e o desempenho de homens e mulheres se sobrepõe enormemente em muitos testes cognitivos que revelam diferenças entre as médias. Por exemplo, enquanto mulheres desempenham melhor tanto em tarefas que envolvem memória verbal (lembrar palavras em listas ou parágrafos) como nas que envolvem fluência verbal (encontrar palavras que comecem com uma letra específica), encontramos uma grande diferença em habilidades de memória e somente pequena disparidade nas que envolvem fluência. Em geral, a variação entre homens e mulheres tende a ser menor que os desvios entre indivíduos do mesmo sexo, embora grandes diferenças entre os grupos possam ocorrer – como, por exemplo, na capacidade masculina em atingir alvos visuais.

Embora se acreditasse que as diferenças entre os sexos na solução de problemas não aparecessem até a puberdade, a evidência sugere que algumas diferenças cognitivas e de habilidades já estejam presentes muito antes. Por exemplo, meninos de três e quatro anos são melhores, comparados a meninas da mesma idade, em alvejar e em rodar mentalmente figuras desenhadas no mostrador de um relógio. As meninas pré-adolescentes, porém, são melhores em lembrar listas de palavras. Descobriu-se também que roedores machos e fêmeas resolvem problemas de forma diferente. Christina L. Williams, da Duke University, mostrou que as ratas têm tendência maior a usar referências em tarefas de aprendizado espacial, como parecem fazer as mulheres. Na experiência de Williams, as ratas deram preferência a marcos como figuras na parede, e não a dicas geométricas, como ângulos e forma da sala. Quando não havia marcos de referência disponíveis, no entanto, as fêmeas empregavam as pistas geométricas. Os machos, ao contrário, nunca utilizaram marcos de referência, preferindo, quase exclusivamente, as pistas geométricas.

Williams descobriu também que a manipulação hormonal durante o período crítico pode alterar comportamentos. Ao privar, pela castração, machos recém-nascidos dos hormônios sexuais ou ao aplicar hormônios em fêmeas recém-nascidas, houve total inversão do comportamento sexual típico nos animais adultos.

Diferenças estruturais podem ser análogas às comportamentais. Lucia F. Jacobs, então na University of Pittsburgh, descobriu que, em várias espécies de roedores, o hipocampo – região que pode estar envolvida no aprendizado espacial – é maior em machos do que em fêmeas. Atualmente, não dispomos de dados suficientes sobre as possíveis diferenças em seres humanos.

BONECA E CARRINHO

Estudos realizados com meninas expostas a um excesso de androgênios na fase pré ou neonatal fornecem algumas das principais evidências em favor de diferenças sexuais influenciadas por hormônios. A produção anormal de grandes quantidades de androgênio nas supra – renais pode ocorrer por um defeito genético, em uma doença chamada hiperplasia congênita das adrenais (HCA). Antes dos anos 70, uma condição semelhante também surgia de modo inesperado na prole de mulheres grávidas que receberam esteroides sintéticos. Embora a consequente masculinização dos genitais possa ser corrigida cirurgicamente e a produção excessiva de androgênios tratada com medicamentos, os efeitos da exposição pré-natal sobre o cérebro não podem ser revertidos.

Sheri A. Berenbaum, então na Southern Illinois University, em Carbondale, e Melissa Hines, então na University of California, em Los Angeles, observaram o comportamento lúdico de meninas com HCA, comparando-o com o de seus irmãos de ambos os sexos. Entre brinquedos de montar e de transporte ou bonecas e apetrechos de cozinha ou, ainda, livros e jogos de tabuleiro, as meninas com HCA preferiram os brinquedos mais tipicamente masculinos – por exemplo, brincaram com carrinhos pelo mesmo tempo que os meninos. Tanto as meninas com HCA como os meninos diferiram, em seus padrões de escolha, das meninas não afetadas por HCA. Berenbaum descobriu também que as meninas com HCA mostraram maior interesse em atividades e carreiras tipicamente masculinas. Como é provável que os pais estimulem preferências femininas tanto em suas filhas com HCA quanto nas não afetadas, descobertas sugerem que as preferências foram alteradas por fatores hormonais precoces. Outros pesquisadores descobriram que as habilidades espaciais em que os meninos tipicamente se destacam são mais desenvolvidas em meninas com HCA. Em meninos com HCA observou-se o inverso.

Embora os níveis de androgênio se relacionem a habilidades espaciais, não se trata simplesmente de quanto maior o nível, melhor o desempenho. Há, sim, um nível ótimo de androgênios (na faixa baixa para homens) para uma habilidade espacial máxima. Isso pode valer também para os homens e o raciocínio matemático; em uma pesquisa, homens com baixo androgênio tiveram melhor desempenho.

BIOLOGIA DA MATEMÁTICA

As descobertas são relevantes para a ideia, apresentada por Camilla P. Benbow, hoje na Vanderbilt University, de que a habilidade matemática superior tem um determinante biológico importante. Ela e seus colegas relataram diferenças consistentes entre os sexos, favoráveis aos homens, em habilidades de raciocínio matemático. Em jovens com talento matemático, as diferenças foram especialmente nítidas na extremidade superior da distribuição, onde a quantidade de homens era muito maior que a de mulheres. Benbow argumenta que essas diferenças não seriam facilmente explicadas por fatores sociais.

É importante considerar que a relação entre os níveis naturais de hormônios e a solução de problemas é baseada em correlações. Embora exista alguma conexão entre as duas medidas, não sabemos como a associação é determinada, nem seu fundamento causal. Além disso, pouco sabemos sobrea relação entre níveis de hormônios em adultos e nas fases iniciais da vida, quando, ao que parece, as habilidades se organizam no sistema nervoso.

Uma das descobertas mais interessantes relacionadas a adultos é que padrões cognitivos podem permanecer suscetíveis a autuações hormonais durante toda a vida. Elizabeth Hampson, da University of Western Ontario, mostrou que o desempenho feminino em determinadas tarefas durante o ciclo menstrual varia conforme os níveis de estrogênio. Taxas elevadas do hormônio associam-se não somente a uma diminuição relativa das habilidades espaciais, mas também a uma melhora nas linguísticas e nas de destreza manual. Observei Autuações sazonais nas habilidades espaciais dos homens: o desempenho é melhor na primavera, quando os níveis de testosterona são mais baixos. Cabe a novas pesquisas esclarecer se as Autuações vinculadas aos hormônios representam adaptações evolutivas úteis ou apenas os altos e baixos em torno de uma média.

Pesquisas com pessoas com lesões em uma metade do cérebro indicam que, na maioria delas, o esquerdo é crucial para a linguagem e o direito para certas funções perceptuais e espaciais. Pesquisadores que estudam diferenças sexuais supõem que os hemisférios direito e esquerdo são organizados de forma mais assimétrica em relação à linguagem e às funções espaciais em homens do que em mulheres.

Partes do corpo caloso, o principal sistema neural que conecta os dois hemisférios, assim como a comissura anterior, parecem ser maiores em mulheres, permitindo mais comunicação entre os hemisférios. Técnicas de percepção que medem a assimetria do cérebro em pessoas com funcionamento normal mostram, às vezes, assimetrias menores nas mulheres do que nos homens, e a lesão em um hemisfério cerebral pode ter menor efeito sobre as mulheres. Meus dados sugerem que, em relação a funções como aspectos básicos de linguagem e habilidades espaciais, não há grandes diferenças de assimetria hemisférica entre os sexos, embora possa haver disparidades em habilidades mais abstratas, como a capacidade de definir palavras.

Se as diferenças conhecidas estivessem ligadas a diferentes dependências em relação ao hemisfério direito do cérebro para a execução dessas funções, seria de esperar que uma lesão ali tivesse efeito mais devastador no desempenho espacial dos homens. Estudamos a capacidade de pacientes com lesão em um hemisfério do cérebro de visualizar a rotação de objetos. Como esperado, em ambos os sexos, os pacientes com lesão no hemisfério direito tiveram desempenho pior.

Além disso as mulheres não se saíram tão bem quanto os homens. Entretanto, a lesão no hemisfério direito não teve um efeito maior em homens que em mulheres.

As especificidades de desempenho entre homens e mulheres em testes de rotação e orientação direcional não precisam ser resultado dos diferentes graus de dependência em relação ao hemisfério direito. Outros sistemas cerebrais podem mediar o melhor desempenho dos homens.

PADRÕES DE FUNÇÃO

Outra diferença cerebral entre os sexos refere-se à linguagem e a certas funções manuais. Mulheres estão sujeitas à afasia (comprometimento da capacidade de produzir e compreender linguagem) com mais frequência após uma lesão na região anterior do cérebro que após uma lesão na região posterior. Nos homens, a lesão posterior afeta a linguagem na maioria das vezes. Padrão similar foi encontrado nas apraxias, a dificuldade em selecionar movimentos apropriados da mão, como copiar os movimentos executados por outra pessoa. As mulheres raramente têm apraxia após uma lesão posterior esquerda, ao contrário dos homens.

Homens também estão sujeitos, com mais frequência, a afasia decorrente de lesão no hemisfério esquerdo. É possível que uma lesão restrita a um hemisfério, após um derrame, afete com mais frequência a região posterior do hemisfério esquerdo. Como os homens dependem desta região para a linguagem mais que as mulheres, eles serão mais afetados. Ainda não compreendemos os efeitos sobre os padrões cognitivos dessa configuração divergente de linguagem e funções manuais.

Embora não tenha encontrado diferenças sexuais na assimetria funcional do cérebro vinculada a aspectos básicos de linguagem, capacidade de movimento ou rotação espacial, descobri leves diferenças em algumas habilidades verbais. O desempenho em um teste de vocabulário e de fluência verbal, por exemplo, foi ligeiramente afetado, nas mulheres, na lesão de qualquer um dos hemisférios, enquanto nos homens o desempenho só foi prejudicado em lesões do hemisfério esquerdo. Essas descobertas sugerem que, ao empregar habilidades verbais mais abstratas, as mulheres utilizam os dois hemisférios de forma mais uniforme que os homens. Mas isto não vale para todas as tarefas relacionadas a palavras. A memória verbal, por exemplo, parece depender do hemisfério esquerdo tanto nas mulheres como nos homens.

Novas técnicas para avaliar a atividade cerebral – incluindo imagens por ressonância magnética funcional (fMRI) e tomografia de emissão de pósitrons (PET) – têm­ se revelado promissoras, mesmo que os resultados interessantes ainda pareçam conflitantes.

ASSIMETRIA FUNCIONAL

Algum as pesquisas mostraram maiores diferenças de atividade entre os hemisférios de homens e mulheres durante testes de linguagem, como avaliar se duas palavras rimam ou conjugar verbos no passado. Uma não encontrou diferenças de assimetria funcional. A diversidade destes resultados pode ser atribuída, em parte, aos testes empregados. Os sexos podem ter uma organização cerebral diferente para algumas tarefas de linguagem, mas não para outras.

A diversidade pode refletir também a complexidade dessas técnicas. O cérebro está sempre ativo em algum grau. Assim, para qualquer atividade, como ler em voz alta, pressupõe-se que a atividade de comparação – digamos, ler em silêncio – seja similar. Nós então “subtraímos” o padrão cerebral que ocorre durante a leitura silenciosa para determinar o padrão durante a leitura em voz alta. Mas esses métodos exigem suposições duvidosas sobre o que a pessoa está fazendo durante qualquer dessas atividades.

Além disso, quanto mais complexa a atividade, mais difícil é saber o que está sendo medido após a subtração da atividade de comparação.

Para entender o comportamento humano – como homens e mulheres diferem entre si, por exemplo – precisamos olhar além. Nosso cérebro é, essencialmente, como o de nossos ancestrais de 50 mil anos atrás ou mais, mas podemos aprimorar nossa compreensão das diferenças entre os sexos estudando os diferentes papéis que homens e mulheres desempenharam na história evolutiva. Os homens eram responsáveis pela caça e pela procura de comida, por defender o grupo contra predadores e inimigos e por desenvolver e usar armas. As mulheres coletavam os alimentos perto da base domiciliar, tomavam conta da casa, preparavam a comida e as vestimentas e cuidavam das crianças pequenas. Essas especializações teriam imposto diferentes pressões de seleção sobre eles.

Qualquer diferença comportamental entre indivíduos ou grupos é mediada pelo cérebro. Foram registradas diferenças sexuais relativas à estrutura e organização do cérebro e foram realizados estudos sobre o papel dos hormônios sexuais no comportamento humano. Todavia, permanecem as questões relativas à ação dos hormônios no sistema cerebral humano para gerar as diferenças descritas, como no comportamento lúdico ou nos padrões cognitivos.

EU ACHO …

CAMINHANTE NA QUARENTENA

Desafios superados nos dão forças para vencer os contratempos da vida

Outro dia, enquanto cumpria minha rotina de distanciamento social, me peguei caminhando pela trilha de Santiago de Compostela, no norte da Espanha. Viajei nas lembranças que ficaram da experiência única que, há um ano, meu marido e eu tivemos ao percorrer o místico caminho.

Mas não foi a nostalgia da liberdade de locomoção que me atiçou a memória daqueles trinta dias de aventura. Revisitei as veredas da meca dos peregrinos pelo inesperado paralelo que elas oferecem ao isolamento a que estamos submetidos. Ao primeiro olhar, são situações antagônicas. Numa, predomina a exuberância de uma natureza indomada que quase engole os sulcos abertos pelos caminhantes ao longo do tempo, a outra, em contraste, a ausência de horizonte é determinada por quatro paredes.

Há muito em comum, no entanto, entre as peripécias a céu aberto e a quarentena a portas cerradas. De um jeito ou de outro, de repente nos vemos frente a frente com o desconhecido. No primeiro caso, somos impactados pelo que vem de fora. No segundo, pelo que vem de dentro. Ao avançar pisando em lama e pedregulhos, tive de lidar com situações extremas. O granizo machucava, o frio batia como açoite, a fome consumia as energias, o cansaço era desmoralizante. Depois de mais de 500 quilômetros de agruras mil e conforto zero, cheguei ao meu limite físico. Lembro-me apenas de que, no auge da provação, rezava para que o dia seguinte me presenteasse com um novo ensinamento.

É preciso resiliência para fazer longas travessias, sobretudo em reclusão. No início da quarentena, as pessoas até se distraem com a novidade. Após a primeira semana, porém, experimentam algum enfado. Em quinze dias, bate o esmorecimento. Na sequência, vem a angústia e o temor pela saúde mental.

Grandes desafios exigem redobrada disposição de espírito. Foi assim em Santiago de Compostela e, para muitos, tem sido assim em São Paulo e outras cidades. Duas realidades distintas unidas por um mundo nunca antes habitado: a floresta inóspita, a casa fechada. Resiliência é a elasticidade da mente, a capacidade que desenvolvemos de lidar com situações de stress. Temos de buscar força para resistir à adversidade. Tais forças estão dentro de nós, escondida nas dobras da memória. Em tempo de pandemia, temos de acessar essas pastas afetivas do fundo de nosso hardware, sob pena de provocarmos uma espiral emocional negativa. Não é incomum, por exemplo, que a pressão de um isolamento prolongado detone episódios de compulsão alimentar, que faz a vítima (acho que essa é a palavra mais adequada) ganhar em peso o que perde em autoestima.

Ao final da caminhada, como fazem tantos fiéis, deitei no chão da Praça do Obradoiro, em frente à catedral, e contemplei o céu. Senti que anjos nos abençoavam. Pensava em quantos obstáculos havia superado para desfrutar aquele momento. Pensava também nos aprendizados que todos eles haviam me proporcionado. Carrego comigo a lembrança de cada passagem daquela viagem. Cada uma delas ajudam a compor meu repertório de autodefesa contra os percalços da vida. O problema e a sua solução estão dentro de cada um de nós.

* LUCÍLIA DINIZ

OUTROS OLHARES

SONHO ADIADO

Com o bolso esvaziado, uma turma de universitários se vê obrigada a trancar a matrícula enquanto durar a pandemia. A boa notícia é que, sim, eles querem voltar

Sob a perspectiva da pandemia e das imensas limitações que ela impõe, a humanidade se pôs a refletir sobre prioridade e questões básicas de sobrevivência. E, nesta nova ordem, os jovens se questionam se é o momento de seguir com a universidade – seja porque a veem nesta hora como adiável, seja porque não podem mesmo arcar com um custo dessa grandeza em meio ao tsunami do novo coronavírus. A preocupação é global, mas ganha contornos próprios no Brasil onde a disparada do desemprego esvaziou o bolso de uma turma que normalmente já paga as mensalidades com alta dose de esforço. Não à toa a evasão vem subindo, impulsionada por situações como a que vive a estudante de educação física Jessica Neves, de 24 anos. “Lutei para entrar na universidade, só que agora preciso me concentrar em pagar as contas essenciais. Vai passar, eu sei”, diz ela, dispensada do estágio com o qual bancava o estudo, e fazendo bico como cabeleireira para reduzir os danos (olha o isolamento…).

Nos cálculos sobre ficar ou trancar, o fator financeiro se soma à incerteza quanto à rotina de aulas nos próximos meses. “Decidi parar a faculdade porque, no meu curso, a parte prática é vital, e não sei como vai ser nesses tempos que vêm por aí”, diz Edvaldo Mendes, de 20 anos, aluno de gastronomia em Teresina. Também o acesso às aulas virtuais, alternativa oferecida pelas universidades para atender aluno no confinamento do lar, espanta uma parcela dos jovens – muitos têm internet precária e não conseguem engatar no ensino on-line. Esse vem sendo o dia a dia de uma multidão de estudantes que, nas últimas duas décadas, foi guindada à graduação com a escalada das classes C e D. Atualmente, 89% dos mais de 6,2 milhões de universitários da rede privada do país são egressos da base da pirâmide, onde os que resistem estão penando para pagar a conta: no mês de abril, a taxa de inadimplência saltou de 15% para 25%, em relação ao mesmo período no ano passado.

Pois quando se projeta um futuro nem tão longínquo assim, o retrato que emerge do depoimento desses jovens traz otimismo e um bom alívio. Pesquisas internas de grandes grupos de ensino mostram que a imensa maioria dos que estão trancando a faculdade ou cogitando fazê-lo pensa em um retorno tão logo o quadro fique menos cinzento.

“Nossa renda está dando apenas para as contas e o mercado. Voltarei quando a coisa melhorar, sem dúvida”, garante a gaúcha Elisandra Duarte, 32 anos, que fez uma pausa no curso de ciências contábeis, área na qual já trabalha e quer se graduar. Para estancarem a revoada, as instituições de ensino se mexem, diluindo a mensalidades ao longo de meses e distribuindo bolsa enquanto o coronavírus continuar a minar empregos. A Universidade Estácio de Sá, parte do grupo Yduqs, dará até três meses de isenção de pagamento a 10% de seus alunos. “Avaliamos caso a caso, priorizando estudantes que perderam o emprego”, diz Eduardo Parente, presidente do Yduqs. São medidas que miram dias melhores. “Estamos sacrificando o caixa agora para que os alunos permaneçam conosco”, diz Luciano Klima, presidente da Universidade Tiradentes, com base no Nordeste.

Em boa parte do mundo, instituições de alto prestígio, corno Columbia e Harvard, nos Estados Unidos, e Oxford, na Inglaterra, também sentiram o baque da pandemia, que as colocou em situação inédita: como muitos alunos não confirmaram o retorno às aulas, elas estão estendendo o prazo para a matrícula e indo atrás de nomes que estavam na lista de espera por uma vaga. Além das finanças (afinal o desemprego não tem mais nacionalidade no dia de hoje), pesam no caso dessas renomadas instituições indagações de cunho filosófico – uma fatia dos estudantes quer aproveitar a pausa para engatar um trabalho voluntário ou que tenha qualquer elo com a nova realidade. Essa pressão que se impõe sobre os alunos e suas universidades podem trazer algo de bom a curto prazo – várias delas estão dispensando tratamento personalizado aos estudantes para mantê-lo firmes e interessados -, assim como tende a deixar uma herança positiva para quando a crise se for.

Bem antes da explosão do vírus, já havia uma acalorada discussão sobre o papel da universidade nestes tempos em que a aquisição de conhecimento de qualidade se dá pelos mais diversos meios – e evolui a cada instante. A atual chacoalhada força mais ainda as instituições a se provar decisiva na vida dos jovens. “A ideia de que o ensino superior é a única forma de ganhar dinheiro não pertence a esta geração, e o momento pelo qual estamos passando ajuda a catalisar esse pensamento”, disse o americano Marc Prensky, da Harvard. A universidade terá de lapidar mais do que nunca nessas gerações competências deste século necessárias ao exercício de cada profissão. Quem sairá ganhando na corrida pela relevância serão estudantes como Suellen Mesquita, 33 anos. Mãe de quatro filhos, ela recebeu uma bolsa e, apesar das dificuldades, segue universitária. ”O sonho de ser médica não foi trancado”, enfatiza. Bom para ela e para o país.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE MAIO

A ESPERANÇA QUE NÃO SE DESESPERA

Abraão, esperando contra a esperança, creu… (Romanos 4.18a).

Uma coisa é esperar aquilo que é possível, plausível e exequível; outra bem diferente é esperar aquilo que só faz desesperar. Abraão não apenas esperou com paciência, mas esperou contra a esperança. Deus lhe prometeu o filho da promessa. Prometeu que Abraão seria o pai de uma numerosa multidão e, que por meio dele, todas as famílias da terra seriam abençoadas. Os anos se passaram, mas a promessa não se cumpria. Abraão já estava com o corpo amortecido, e Sara, sua mulher, além de estéril, já não tinha mais chance de conceber. O cenário era de desânimo para o maior dos otimistas, mas não para o pai da fé. Esperando contra a esperança, Abraão creu, para vir a ser pai de muitas nações. Ele sabia que Deus era poderoso para vivificar os mortos e chamar à existência as coisas que não existiam. Mesmo estando com 100 anos de idade e sua mulher, com 90 anos, não duvidou da promessa. O milagre crido tornou-se o milagre acontecido. Promessa de Deus e realidade são a mesma coisa. Nenhuma das promessas de Deus cai por terra. Em todas elas temos o sim e o amém. Ele vela pelo cumprimento da sua Palavra. O cristão não vive segundo as emoções nem conforme os ditames do entendimento. Vive pela fé, e fé não é mero sugestionamento, mas a certeza de fatos e convicção de coisas. A fé descansa não nas evidências da lógica humana, mas na promessa divina. Olha não para as circunstâncias, mas para o Deus vivo que está no controle de todas as situações.

GESTÃO E CARREIRA

O NEGÓCIO É PEDALAR

As microacademias, ou estúdios, ganham espaço focadas em um único esporte. A Velocity, de spinning, tem 18 unidades. Mas precisa acelerar o passo para reagir ao contra-ataque das academias tradicionais

As luzes e a trilha sonora remetem a uma balada, mas é apenas uma aula na Velocity, rede paulistana de academias voltadas para spinning (pedalagem com bicicletas ergométricas). A Velocity é focada nessa modalidade. Não cobra mensalidades: o aluno paga pacotes ou aulas avulsas. Com faturamento de 15 milhões de reais em 2019, a Velocity é contraponto às grandes redes de academias multifuncionais com centenas de metros quadrados e milhares de alunos. Cada unidade da Velocity tem cerca de 250 metros quadrados e uma sala para exercícios, com algumas dezenas de bicicletas. A empresa é ponta de lança de uma nova onda: a de microacademias, ou estúdios. Mais flexíveis, tecnológicos e charmosos para o público jovem, os estúdios atraem praticantes de spinning, ioga e crossfit.

A Velocity foi criada em 2013 pelo empreendedor neozelandês Shane Young, radicado há nove anos no Brasil, ao lado do investidor Declan Sherman, do fundo Everlight Capital. O tipo de exercício, o spinning, não é novo e já é praticado em academias há décadas. A novidade está na forma. A trilha sonora é pensada para que a batida da música coincida com as rotações da bicicleta. As aulas são compradas e reservadas pelo site da Velocity – é possível escolher até qual bicicleta será usada em um mapa da sala. Além dos estúdios de spinning, Young criou outra rede, Kore, de aulas funcionais, em 2018. No mesmo ano, a empresa iniciou a expansão por meio de franquias e, no final de 2019, Young tinha 17 estúdios Velocity (seis próprios) e 14 unidades Kore (quatro próprias). O ritmo é tão intenso quanto as aulas. O plano é chegar a 2023 com 150 unidades Kore e 50 Velocity.

Os estúdios ganharam espaço durante a crise econômica, já que frequentadores de academia repensaram pagamentos mensais e passaram a preferir pagar apenas pelas aulas feitas, de acordo com Young. Um risco, claro, é que as pessoas façam uma primeira aula-teste e não retornem mais (rumo a outro estúdio com algum outro esporte da moda). Para atrair e reter os participantes, a Velocity investe nas redes sociais – as duas marcas juntas têm mais de 80.000 seguidores no Instagram – e na divulgação por meio de celebridades. Entre os sócios da Velocity está a influenciadora Gabriela Pugliesi, e seu marido, Erasmo Viana, é um dos sócios do Kore. A dupla soma 5,4 milhões de seguidores no Instagram. A companhia também busca criar um senso de comunidade entre os usuários. Há celebrações para quando os alunos atingem as marcas de 500,800 e 1.000 aulas. A empresa vende camisetas e bermudas, cuja receita responde por 3% do faturamento.

O formato de estúdio foi trazido dos Estados Unidos, onde o modelo é responsável por 42% dos centros de atividade física. A inspiração para a Velocity vem de estúdios como a americana SoulCycle, criada em 2005 e com faturamento estimado em mais de 100 milhões de dólares por ano. Uma concorrente local é a Spin’n Soul. Criada em 2014, tem oito academias e também atua com ioga e luta.

As grandes redes multifuncionais investem para se adaptar às novidades. A Bio Ritmo, dona da Smart Fit, lançou estúdios independentes de corrida, funcional, ioga, boxe e outras modalidades. Já a Bodytech está criando estúdios dentro de suas academias. Das 102 unidades em operação, em cerca de 70% há algum estúdio. Um desafio para todas é atrair clientes. Nos Estados Unidos, 21% da população pratica atividade física em academias, mas por aqui a participação ainda é inferior a 5%. “Os estúdios atraem pela novidade”, diz Gustavo Borges, presidente da Associação Brasileira de Academias. “Alguns modismos, naturalmente, vão desaparecer com o tempo.” Se a onda do spinning vai passar ou não é cedo para dizer, mas a Velocity e suas concorrentes ajudam a mudar a forma de encarar a atividade física. “Os estúdios não vendem aulas, mas uma experiência de bem-estar”, diz Waldyr Soares, presidente da consultoria Fitness Brasil. O pedal não pode parar.

A FEBRE DAS ACADEMIAS

O Brasil é o segundo maior mercado do mundo em unidades, mas apenas o 12º em receita

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O ERRADO EM NÓS

A psicologia explica por que, mesmo sabendo que a medida mais recomendável para o combate à pandemia é o isolamento, as pessoas resistem a cumpri-la

Enquanto os países buscam meios de retomar a rotina sequestrada pela pandemia, fica cada vez mais claro: a ciência vai determinar a que distancia o mundo se encontra do novo normal. A vida não será como antes, como ficou atestado desde o primeiro caso de covid-19 registrado, fora da China. O fim do confinamento não depende da vontade deste ou daquele cidadão, empresário ou político. Especialistas avisam que só haverá paz nesta guerra contra o inimigo invisível quando se chegar a uma vacina. Até lá, independentemente do pacote de estímulo financeiro multibilionário para reativar as economias, as nações terão de lidar com um desafio que vai muito além do vírus: a natureza humana.

Por que é tão difícil tomar a decisão certa – de ficar em casa, para os que podem – mesmo sabendo claramente qual ela é? No Brasil o nível de isolamento social tem oscilado para menos de 50% em locais considerados epicentros da pandemia, como São Paulo.

Há pessoas que, por razões de subsistência ou por terem empregos em serviços essenciais, não estão confinadas. Mas há também uma grande parcela que pode, mas prefere não aderir ao sacrifício mesmo sabendo que isso é o certo a fazer. Há ainda aquelas que tentam, mas acabam burlando a disciplina mental e cedendo ao ímpeto de sair.

Foi o caso do epidemiologista Neil Ferguson, que conduzia a pesquisa do novo coronavírus do Imperial College, instituição britânica de renome que convenceu o Reino Unido e o mundo a priorizarem o distanciamento social para conter a pandemia. Ele foi surpreendido furando a quarentena ao receber sua amante. Pediu demissão. Semanas antes, a então médica-chefe do governo da Escócia, Catherine Calderwood, que repetia diariamente na televisão a necessidade de os escoceses ficarem em casa, renunciar. Ela aparecera em fotos, nas primeiras páginas de jornais locais, nas proximidades de Edimburgo, em sua casa de campo, onde passara dois fins de semana consecutivos com o marido. Não se pode viajar de carro sem um bom motivo dentro da Escócia até segunda ordem.

Criticado desde que a pandemia chegou ao Reino Unido pela demora de instituir o isolamento, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, defendeu a hipótese de que a psicologia indicava que prender as pessoas em casa antes da hora causaria uma “fadiga comportamental”. Ou seja, quanto mais tempo de confinamento, mais difícil convencer a pessoa a ficar onde estão. Ele pode até ter razão sobre a “fadiga”. Mas a hipótese não se aplicava ao Reino Unido, que via as mortes escalar desde março e hoje é o segundo país com mais vítimas da Covid-19, atrás apena dos Estados Unidos.

Governos pelo mundo têm usado cada vez mais a ciência comportamental para guiar a comunicação com o público. Não é à toa que desde 2009 o Reino Unido investiu nesse seguimento para tomar decisões de governo. Ainda na era do ex primeiro-ministro David    Cameron foi criado um vídeo chamado “nudge”. Em português a palavra significa “empurrão”. É referência a teoria econômica comportamental que se popularizou pelo livro Nudge (com mais de 1,5 milhão de cópias vendidas), de Richard Thaller, ganhador do Prêmio Nobel de economia, e Cass Sunstein, publicado em 2008. A premissa do livro se baseia em mecanismos que ajudam as pessoas a tomarem as melhores decisões para si próprias a partir de pequenos estímulos que chamam sua atenção e mudam seu comportamento. Na avaliação dos governos que fazem uso da teoria, ao compreender como as pessoas pensam, torna-se possível estabelecer uma “arquitetura da escolha”, que facilita o reconhecimento das melhores opções para o indivíduo e para a sociedade.

O departamento tinha por objetivo influenciar os britânicos a tomar as decisões corretas, como não atrasar o pagamento de impostos ou pagar suas multas, só pelo envio de um SMS, por exemplo. A unidade acabou virando uma pequena empresa pública-privada e agora é uma entidade social, que opera também em outros países. Foicom o apoio dessa ciência que o governo conservador britânico, no poder há uma década, conduziu uma intensa política de austeridade sem perder o apoio da população.

A especialista em psicologia experimental Magda Osman, da Queen Mary University of London, se debruça há anos sobre processos decisórios, aprendizado, solução de problemas, riscos e incertezas. Segundo ela, o que impacta o nível de observância do indivíduo é o julgamento que ele faz da severidade da ameaça a que está submetido e sua suscetibilidade a essa ameaça. E é justamente a calibragem dessas percepções que vai determinar seu grau de engajamento. Isso quer dizer que, com o tempo e com todas as distorções observadas nos dados da pandemia, muita gente pode achar que não está tão suscetível por não pertencer ao grupo de risco mais evidente, por exemplo. “Começo a ver que estou bem e isso passa a influenciar meu comportamento. Vou quebrar as regras porque isso, é injusto comigo, já que não sou tão suscetível. Somos extremamente sensíveis a injustiça”, afirmou Osman.

Isso quer dizer que a resposta inicial da população é mais rápida – porém, tem um tempo de duração curto. “É preciso menos para convencer as pessoas no começo. Vê-se pela quantidade de gente que se trancou em casa, antes mesmo das quarentenas. Para garantir o sucesso da estratégia, governos vão ter de emitir mensagens coerentes, mas pensando nos diferentes grupos com os quais têm de lidar e em diferentes momentos”, afirmou Ulrike Hahn, da Birkbeck, University of London.

Além do tempo útil limitado de medidas que restrinjam completamente a liberdade, há aqueles que se sentem intocáveis em razão de um falso sentimento de proteção. Osman cita o exemplo do uso de máscaras, que sugere certa imunidade que ainda não existe. “As pessoas se arriscam mais quando se acham protegidas. Máscaras dão a falsa licença para correr mais riscos”, observou. Ela citou ainda o exemplo dos indivíduos quem têm incentivos    vitais para furar a quarentena, como dificuldades econômicas. “’Estou desempregado, valorizo outras coisas em minha vida e não estou no grupo de risco. Então, vou fazer tudo que eu bem entender’.  Você começa a pôr na balança seus valores, sua suscetibilidade e a severidade da pandemia”, disse. A necessidade primordial da subsistência, que, em última instância, é também um risco à vida, acaba dando a esse indivíduo a percepção de que a pandemia é um mal menor. Por isso, internamente ele pode vir a concluir que o risco de ser afetado pela doença é menor que o risco de estar sujeito a outros problemas financeiros.

O exemplo visto nas ruas, nesse aspecto, pode ter impacto relevante na escolha de um indivíduo pelo que é certo. “É mais eficaz mostrar a imagem de ruas vazias do que um grupo de pessoas desrespeitando a quarentena e caminhando na praia”, disse Osman. A gente regula o comportamento um do outro pelo que vemos as pessoas fazerem. Insistir na minoria que está furando é incentivar quem está cumprindo a furar também”, explicou.

O fundamental, segundo os especialistas ouvidos, é que a mensagem transmitida pelo governo para que os cidadãos se sintam estimulados a cumprir medidas de restrição seja direta, ordenada, clara e coerente. Não à toa, chefes de Estado que engajaram a população em suas diretrizes estão com a popularidade em alta. E isso se aplica até mesmo a Boris Johnson, adepto tardio do isolamento, que depois conseguiu equilibrar o discurso. A mensagem inicial do premiê era confusa. Na véspera de o governo determinar o fechamento do comércio e de escolas, bares e pubs pelo país estavam cheios como se a vida estivesse normal. No entanto, a partir do momento em que o discurso de distanciamento ficou claro, a população entendeu e respeitou. O primeiro-ministro pediu que a comunidade se unisse por uma causa comum e que os indivíduos se afastassem. O mantra tantas vezes repetido pela equipe de Johnson “Stay home, save lives, protect the NHS” (“Fique em casa, salve vidas e proteja o Sistema de Saúde Pública”) foi municiado por números e recomendações de cientistas. Mesmo durante o período de quase um mês que Johnson esteve afastado do cargo, enquanto lutava contra a Covid-19, a orientação vinda do governo foi cumprida.

Uma pesquisa realizada pela London School of Economics (LSE) em dez cidades britânicas confirma que a mensagem clara manteve as pessoas em casa em percentuais elevados, acima de 85% em alguns casos. Mais de 86% dos entrevistados garantiram não ter tido qualquer contato com quem não era de casa. Países como Portugal, Grécia e Nova Zelândia, que mais rápido declararam quarentena e engajaram a população, são os que, até agora, apresentaram os melhores resultados. A Eslovênia, primeiro país europeu a se declarar livre da Covid-19, deu início ao lockdown no dia 12 de março, oito dias depois de registrar o primeiro caso de contágio. No Brasil, ainda que o governo de Jair Bolsonaro tenha tido mais tempo que os europeus para pensar em uma estratégia coordenada, a falta de ação e o conflito com governos estaduais agiu para atenuar o discurso único de isolamento, reduzindo o engajamento da população. Como resultado, no Brasil, há mais de 20 mil mortos em pouco mais de dois meses de pandemia.

EU ACHO …

A ECONOMIA DA EXCLUSÃO

Do debate sobre a renda básica à discussão sobre desigualdade de gênero e racial, o país que se revela é devastador.

Como muitos leitores já sabem, tenho usado parte de meu tempo neste período de quarentena para me dedicar a um canal que criei no YouTube com a finalidade de disseminar conhecimentos sobre economia e de trazer alguns debates. A hora que eu perdia entre idas e vindas do trabalho agora uso nessa empreitada. Entre explicações sobre economia e debates com interlocutores, tem ficado cada vez mais evidente que nossa economia, essa economia que aceitamos como natural e pela qual passamos a conviver com injustiças diversas, é profundamente excludente. Segundo dados do IBGE, em 2018, quando a economia brasileira estava “em bom estado”, isto é, não havia crise e o país ensaiava uma retomada, tínhamos cerca de 12 milhões de desempregados. Desses 12 milhões de desempregados, dois terços eram pessoas negras e pardas. Dois terços. Estamos agora no meio de uma pandemia, e o desemprego haverá fatalmente de subir. Se a queda do PIB for da ordem de 10% neste ano, conforme estimo, teremos, em breve, mais de 20 milhões de desempregados no país, ou 10% da população brasileira. Vou repetir: em poucos meses, 10% da população brasileira provavelmente estará desempregada. Quem serão essas pessoas? A julgar pelos dados de 2018, certamente a composição do desemprego será marcada pela gritante disparidade racial, refletindo o que já está acontecendo em outros países. Aqui nos Estados Unidos, onde a taxa de desemprego alcançou exorbitantes 14,7% no mês de abril, os que perderam seus empregos foram desproporcionalmente negros e hispânicos.

Eis outra dimensão de nossa imensa economia da exclusão: cinco anos após a chamada PEC das Domésticas ter sido sancionada – a emenda constitucional que regularizou o trabalho doméstico garantindo equidade de benefícios -, 70% das pessoas que trabalham no setor continuam na informalidade. Como também mostram os dados do IBGE, as mulheres são maioria no trabalho doméstico (97% dos cerca de 6,5 milhões de trabalhadores nesse setor), e, portanto, são elas as mais atingidas pela informalidade. Trata-se de mais de 4 milhões de pessoas trabalhando em condições precárias, muitas delas mães que sustentam famílias. São mães que sustentam famílias sem receber sequer um salário mínimo integral. Como revelam diversos estudos do Ipea, essas mulheres são majoritariamente negras e de baixa escolaridade. As trabalhadoras domésticas, lembra­ nos o IBGE, são as que têm o menor rendimento médio entre todos os trabalhadores do mercado de trabalho.

Somos um país que cria muitos obstáculos para a entrada e a permanência de negros, pardos e mulheres no mercado de trabalho. Países que excluem, documentam os estudos empíricos, são países que têm pouco dinamismo e baixo crescimento. Países excludentes são aqueles que perpetuam as desigualdades, as quais se tornam estruturais por se reproduzirem de geração em geração, na falta de ações transformadoras. Nada disso é novidade, os dados brasileiros são conhecidos e há muita gente dedicada a estudar e esmiuçar esses temas há décadas.

O que há de diferente agora? Nada. E tudo. Nada, haja vista que a economia da exclusão é uma característica nossa como pais. E tudo porque o momento atual suplica por apoio a uma mudança profunda. Tenho trazido para este espaço a discussão sobre a renda básica permanente no Brasil, e ela é um pilar fundamental a partir do qual podemos tornar não só nossa economia mais inclusiva, mas fazê-lo reconhecendo a dignidade das pessoas. importante debater os entraves institucionais que contribuem para a manutenção de uma parte considerável de nossa população em condições de extrema precariedade e considerar os dezenas de milhões de adultos e crianças que não têm acesso a quase nada. Como bem disse o presidente da Cufa, com quem debati dia desses, o verdadeiro Estado Mínimo apregoado pelo ministro da Economia está nas favelas, nas comunidades, nas periferias.

Temos um governo cujo discurso é o da exclusão. Contudo, temos uma pandemia e uma crise econômica que revelam de forma crua a extensão dessa exclusão, as injustiças a ela associadas e a precariedade da vida de imensa parte de nossa população, logo, de nossa economia. Podemos optar por manter a economia da exclusão. Ou podemos finalmente fazer algo para começar a resolver problemas que, se não solucionados, implicarão desperdício de vidas e redução da capacidade de desenvolvimento do Brasil.

** MONICA DE BOLLE é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

VIDAS DE VIDRO

Em busca de distração, diversão, likes e ganhos, o mundo tenta transportar a realidade para as telas das lives

Uma regra tácita dos megashows de estrelas do pop estipula a que tudo que acontecia no palco deveria parecer fácil. As coreografias elaboradas, os cenários colossais, a interação do artista com vídeos, lasers e efeitos especiais, a troca rápida de figurino entre uma canção e outra — tudo isso exigia muito ensaio e preparação; na hora do show, porém, um Prince ou uma Beyoncé deslizavam   entre músicos e dançarinos com impecável naturalidade. A pandemia do Covid-19 vem mexendo com nossa noção de tempo, e a era dos megashows parece enterrada na mais remota camada geológica – é difícil acreditar que no início do ano ainda se noticiava o cancelamento da apresentação da Madonna por problemas de produção, não por razões de saúde pública. O artista que deseja permanecer relevante hoje tem de recorrer às lives em redes sociais e sites de vídeos, e as antigas regras não valem mais. O cenário caseiro desses eventos admite que os cantores se mostrem mais relaxados. Se no passado nunca se ouviria Elton John reclamar do peso de um de seus chapéus encimados por um chafariz de plumas, hoje já se admite que um cantor sertanejo se queixe de um simples par de sapatos pretos. Aconteceu na live de Bruno & Marrone, que no pico teve 1,2 milhão de espectadores e já acumula mais de 27 milhões de views no YouTube. Marrone reclamou que seus sapatos apertavam, e Bruno respondeu de pronto: “Não tira que seu pé é feio demais” (temos de elogiar o cantor por evitar uma manjada piada de chulé).

Esse climão despachado tem sido comum às lives sertanejas. A produção é montada na casa dos artistas, que muitas vezes trazem membros da família para cantar ou bater papo. A dupla Jorge & Mateus fez seu show na garagem, circunstância que, segundo foi dito no início da live, evocaria seu início de carreira. Gusttavo Lima anunciou uma pausa na apresentação alegando que precisava ir ao banheiro, pois já bebera demais. Mas toda essa informalidade é, por contraditório que isso pareça, profissional. A cerveja que obrigou Gusttavo Lima a uma parada no banheiro (e que o fez lamentar a ressaca em um vídeo na manhã seguinte) patrocinou a live. Garrafas de uma marca concorrente – se é correto chamar de concorrentes dois produtos feitos pela mesma megaempresa – figuraram com destaque na garagem de Jorge & Mateus. E garrafas dessa mesma marca reapareceram em um balde de gelo na mesa entre Bruno e Marrone. Ao lado do balde, como um sinal ominoso dos tempos, via-se um frasco de álcool em gel. Em geral, as lives servem às campanhas humanitárias, mas isso não as resguarda da sanha dos fiscais sanitários da internet, que têm criticado o número de pessoas envolvidas nessas produções. Michel Teló e Marília Mendonça escaparam dessa: fizeram shows modestos, sozinhos em casa, e com playback.

Para quem vivia principalmente de shows, a apresentação ao vivo pela internet é a alternativa que restou. Não é assim só para o sertanejo: no circuito bem mais modesto dos repentistas nordestinos, a live em rede social também impôs. Mas já antes da pandemia firmara-se como estratégia promocional de celebridades e subcelebridades sedentas de atenção – todas em busca do vídeo que se tornaria viral, adjetivo que agora voltou a ser empregado em seu significado literal. O isolamento social acrescentou uma nota de urgência a esses arroubos narcísicos. Da atriz holliwoodiana ao influencer nem tão influente assim, todos se apresentam como evangelistas do isolamento social, o que seria louvável se a construção da imagem pessoal não viesse antes da causa sanitária. Eventualmente, os famosos em isolamento social brindam os fãs com bem­ vindos momentos de leveza, como o singelo vídeo em que Sam Neill, de Jurassic Park, interpreta “Creep”, do Radiohead, com um ukulele. E a pandemia promete ter também sua versão do Live aid: neste sábado, com lives em várias plataformas e transmissão por canais de TV, será realizado o festival One world: together at home, para angariar fundos para o combate à pandemia. Participarão, entre vários outros, Lady Gaga, Paul McCartney, Billie Eilish e Elton John.

Outras celebridades preferem fazer da intimidade um espetáculo, com resultados constrangedores. Em uma live, Gwyneth Paltrow e o marido, Brad Falchuk, conversam on-line com uma “coach de intimidade”. A atriz dos filmes da Marvel queixa-se da dificuldade de manter a chama acesa quando o casal está preso em casa, com cachorros e filhos de um casamento anterior – com Chris Martin, do Coldplay, que aliás fez uma simpática live cantando músicas pedidas por fãs. Dias depois, a intimidade veio ajudar os negócios: no Goop, seu site de produtos de beleza, saúde e lifestyle, Paltrow recomendou às fãs consumidoras os melhores vibradores para brincadeiras a dois durante o isolamento.

A exposição da vida privada estaria já no nascedouro do culto aos famosos, sugere o historiador francês Antoine Lilti em A invenção da celebridade 1750-1850 (editora Civilização Brasileira). No século XVI­II, pinturas de Voltaire em situações comezinhas – jogando xadrez, andando a cavalo, recebendo um visitante – foram reproduzidas em gravuras e venderam bem em Paris e Londres. O artista suíço Jean Huber, autor dos quadros originais, não se furtou nem de mostrar o grande iluminista na hora matinal em que deixa a cama, de camisolão, e veste os culotes, equilibrado sobre uma perna só. Mesmo nesse desalinho, o autor de Cândido ainda reafirma a fama de Mestre, com maiúscula: já está ditando um texto para seu secretário. Hoje, quando o celular e a câmera digital tomaram o lugar do pintor, as celebridades ainda tentam se equilibrar entre a existência protegida e irreal que o estrelato lhes concedeu e a necessidade de se mostrarem acessíveis, “gente como a gente”. Quando Gwyneth Paltrow exibe a conversa com a tal “coach de intimidade”, ela acredita que o público vai se identificar com suas dificuldades para manter o interesse em sexo durante o confinamento em sua mansão. Mas comentaristas vêm pontuando o abismo socioeconómico entre essas celebridades e o cidadão comum que talvez já tenha perdido seu emprego na crise desencadeada pelo vírus que veio de Wuhan. Em um texto inflamado, Amanda Hess, articulista do New York Times, especula que a pandemia, ao escancarar a desconexão dos astros com a vida na superfície terrestre, ainda vai “desmontar a cultura da celebridade”. Mas isso já é atribuir poderes sobrenaturais à Covid-19.

Os sertanejos – que não são milionários apenas em views no YouTube – ao que parece conseguem andar com naturalidade na beira do abismo social brasileiro. Gusttavo Lima deu um recado aos credores no início da uma música: pagamento, só daqui a alguns meses. E a piada soou estranhamente autêntica, ainda que a live tenha sido feita à beira da piscina de uma mansão com absurdas colunas jônicas, em Goiânia. Bruno apresentou-se como um empresário socialmente responsável: lembrou que só em março ele e Marrone cancelaram nove shows, e que muitos funcionários dependem da dupla para sobreviver. O momento mais precioso dessa live – quiçá de todas as lives – foi quando o mesmo Bruno, já sob a influência da cerveja patrocinadora, pôs­ se a filosofar sobre os efeitos socioculturais da Covid-19: “Essa pandemia veio para equilibrar”, disse, para em seguida partir para uma consideração sobre os méritos relativos de capitalismo e comunismo: “Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno”, recomendou. Alguém tem de avisar ao sertanejo que a “terceira via” caiu em descrédito com a queda do primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2007.

A necessidade de validação social durante o isolamento forçado talvez responda por essa nova onda de lives. Machado de Assis, no século XIX, examinou esse desejo imperioso na figura de Jacobina, protagonista do conto “O espelho”. Quando jovem, recém­ escolhido para o razoavelmente prestigioso cargo de alferes da Guarda Nacional, Jacobina, por uma série de circunstâncias fortuitas, se vê de repente sozinho em uma propriedade rural, abandonada até pelos escravos. Ao longo das semanas de solidão, a imagem que ele vê no espelho torna-se difusa, imprecisa, até que ele resolve vestir a farda de alferes – e pronto: seus traços se tornam de novo claros e distintos. Para o espelho das redes sociais, é preciso criar fardas novas e mais brilhantes. E isto não vale só para celebridades: a quarentena reavivou a profecia nunca comprovada de Andy Waehol, segundo a qual todos um dia serão famosos por 15 minutos. Quinze minutos ou 18 horas? Esse foi o tempo total que um rapaz brasileiro levou para contar o número de grãos de arroz em um saco de 1 quilo, ao longo de cinco lives no Facebook. Cômputo final: 50.966 grãos.

No Twitter, abundam pequenas produções caseiras em que se registram atividades extravagantes no isolamento. Geralmente, aliás, elas vêm marcadas com o número de dias que o autor passou fechado em casa. Um dos melhores, realizado por um holandês no 14º dia de isolamento, mostra o que parece ser um passageiro instalado em uma poltrona de avião, bebericando vinho branco. A câmera se afasta e então se vê que a janela do avião era a tampa de uma máquina de lavar. É um humor tristonho, evocando o tempo tão recente e tão distante em que viagens de avião não eram excepcionais.

O mundo teve então um vislumbre da lavanderia de um holandês anônimo – não mais: agora sabemos que ele se chama Jeroen Gorhvorst -, e as redes sociais também nos convidam a visitar a sala de estar de Gwyneth Paltrow e a piscina de Gusttavo Lima. A privacidade agora é devassada em tempo real. O antigo ethos vitoriano que resguardava a casa como um espaço de sagrada intimidade já havia, é claro, morrido entre os séculos XIX e XX. Em 1933, Walter Benjamin celebrava, no breve ensaio Experiência e pobreza, o fim dos interiores burgueses, personalizados com bibelôs e cortinas franjadas. O filósofo alemão preconizava o surgimento de uma “nova barbárie”, constituída por homens e mulheres libertados do peso da cultura e da história, que viveriam em casas de vidro desenhadas por arquitetos modernistas como Adolf Loos e Le Corbusier. O vidro, diz Benjamin, é um material desprovido de memória, que não guarda rastros. Fica implícita outra qualidade: a transparência. O mundo das lives e do novo coronavírus talvez possa ser lido como uma versão distópica (e paródica) do sonho de Benjamin. Seus “novos bárbaros” expõem sua vida vazia de história e memória na superfície de vidro do touchscreen.

Na literatura distópica, há quase sempre um personagem solitário que perturba o consenso de uma sociedade até então monolítica em seu conformismo. É o papel que o Selvagem faz em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e Winston Smith em 1984, de George Orwell. A moda das lives encontrou um improvável resistente: Caetano Veloso. O compositor que em “Sampa” se admitia Narciso parece não se reconhecer na versão digital do espelho machadiano. Em vídeos no Instagram, Paula Lavigne, sua mulher e empresária, tornou folclórica a imagem do cantor comendo paçocas, ao que parece para se consolar da depressão do confinamento. É um reality show das redes sociais: entre uma e outra paçoca devorada pelo baiano, Lavigne insiste para que ele faça sua live, a exemplo dos sertanejos. Com visível contrariedade, Caetano promete que fará a live – um dia, quem sabe. Sim, seria bom ouvir Caetano interpretando suas melhores canções ao violão, no recesso de sua casa. Ao mesmo tempo, porém, há algo de admirável nessa recusa ranheta dos imperativos das redes sociais. Resista, Caetano, resista!

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE MAIO

O REMÉDIO PARA O CORAÇÃO AFLITO

Converteste o meu pranto em folguedos… (Salmos 30.1a).

Jesus estava despedindo-se de seus discípulos e dando-lhes suas últimas instruções. Era quinta-feira, o dia fatídico da traição de Judas, do abandono dos discípulos, da luta de sangrento suor, da prisão humilhante e do julgamento ilegal no Sinédrio. Os discípulos estavam com seus corações aflitos e turbados. Jesus, então, lhes diz: Não se turbe o coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também (João 14.1- 3). Jesus oferece três remédios para a cura de um coração aflito. PRIMEIRO, a fé em Cristo. A fé é uma âncora firme quando singramos os mares revoltos da vida. Não devemos olhar a fúria das ondas nem nos amedrontar com o rugido dos ventos. Devemos olhar para Jesus!

SEGUNDO, a certeza do céu. O céu é a casa do Pai, onde há muitas moradas. É o lugar preparado para pessoas preparadas. A vida não é só o aqui e o agora. Há um futuro de glória para aqueles que creem no Senhor Jesus. O fim da nossa caminhada não desemboca num túmulo gelado, mas no céu de glória.

TERCEIRO, a segunda vinda de cristo. jesus voltará para nos buscar. subiremos com ele, reinaremos com ele e desfrutaremos com ele das venturas benditas do Paraíso. A aflição não precisa ser nosso cálice, nem nosso coração precisa ser sobressaltado pela angústia. Podemos levantar nossos olhos e contemplar, pela fé, as glórias do futuro.

GESTÃO E CARREIRA

ESTÍMULO À INOVAÇÃO

Com apoio e financiamento de grandes empresas, startups da área da saúde começam a apresentar soluções para ajudar no combate à pandemia

Entre as doações mais comuns feitas pelo setor privado para a luta contra a Covid-19 estão toneladas de álcool em gel, milhares de kits com equipamentos de proteção pessoal e até testes para a detecção do novo coronavírus. É uma ajuda necessária, que tem aplacado as dificuldades de estados e municípios em situação mais precária no combate à pandemia. Nesse cenário, chamou atenção a iniciativa anunciada pela JBS, colosso do setor frigorífico que lamentavelmente ganhou visibilidade pela relação pouco transparente com os governos do PT e de Michel Temer. Agora num ato de incomum generosidade, a empresa controlada pela família Batista doou 700 milhões de reais – a segunda maior feita por uma corporação brasileira, atrás apenas do 1 bilhão de reais doados pelo Itaú – para, entre outras finalidades, o desenvolvimento de novas tecnologias que possam auxiliar no diagnóstico e no tratamento de pacientes com a síndrome respiratória. Com esse apoio, um grupo de especialistas seleciona projetos elaborados por empresas inovadoras e de pequeno porte as chamadas startups, que oferecem produtos ou serviços tecnológicos. “Assim como as guerras, as pandemias impulsionam o pensamento inovador”, diz Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein e um dos curadores dos projetos que serão financiados.

A louvável iniciativa da JBS lança luz sobre um setor pouco conhecido e que já apresenta resultados promissores na luta contra a Covid-19. Estima-se que existam cerca de 300 startups de saúde em atividade no Brasil – pequenos negócios conhecidos também como healthtechs. Dessas, sessenta têm boas perspectivas de crescimento, de acordo com monitoramento feito por grupos interessados em investir nas inovações. Faz parte desse time a HiTechnologies, criadora do laboratório portátil chamado Hilab. O equipamento nasceu em 2016 para realizar testes sorológicos de diagnóstico e avaliação de doença como diabetes e Zika. O Hilab analisa as amostras coletadas dos pacientes em minutos por meio de inteligência artificial, com o apoio de uma central remota de biomédicos e bioquímicos. Em março, o aparelho começou a ser utilizado para a identificação de anticorpos contra a Covid-19 no sangue. Com a atualização para fazer frente à pandemia, a HiTechnologies mais do que duplicou sua abrangência de cidades atendidas no país. “O coronavírus tem nos levado a identificar rapidamente iniciativas prontas para atingir grandes mercados”, diz Raphael Augusto, diretor de inteligência da Liga Ventures, aceleradora de empresas desse tipo.

O próprio Hospital Albert Einstein tem funcionado como uma espécie de incubadora dessas startups. Atualmente, são 45 healthtechs inscritas nos programas de financiamento e mentoria da instituição. Um dos protótipos nascidos por ali leva o nome de Fevver e permite a aferição da febre a 2 metros de distância. Instalado em um totem, o equipamento reconhece pontos de calor no rosto do paciente e oferece mais precisão do que os termômetros comuns. Já em operação no Einstein, o aparelho será instalado em prédios comerciais de São Paulo nos próximos meses. Outro projeto, Breath4Lite, utiliza impressoras 3D para a produção de respiradores. Essa estratégia faz com que as máquinas voltadas par doentes com manifestações leves e intermediária da Covid-19 tenha custo inferior ao dos ventiladores mecânicos tradicionais.

Antes mesmo da eclosão da pandemia, as healthtechs chamavam atenção de universidades, bancos e gigantes da tecnologia, como o Google. Entre 2014 e 2018, os investimentos no setor mais do que dobraram em todo o mundo e chegaram a 14,6 bilhões de dólares. Com a Covid-19, esse movimento tem se acelerado. “Todos os fundos de investimento estão olhando e apostando na saúde”, diz Julia De Luca, especialista em tecnologia do Itaú BBA. Nesse sentido, doações como a da JBS não apenas ajudam no combate ao coronavírus como também dão impulso a um setor crucial para o país.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MARCAS PARA A VIDA

Apesar de alguns casos preocupantes, as crianças são pouco atingidas pela Covid-19. Mas a clausura da pandemia traz desafios para os pais e pode afetar o comportamento de toda uma geração.

Soprou como um vento arrebatador, no fim de abril, o anúncio feito por autoridades epidemiológicas da Suíça de que crianças abaixo de 10 anos “raramente” são infectadas e não transmitem o novo coronavírus. Seria uma vitória para os avós que, depois de longo inverno, poderiam enfim rever os netos, de quem se distanciaram por imposições sanitárias. Mas não, ou #sóquenão, como escreveriam os mais jovens nas redes sociais. Outros trabalhos científicos, publicados na trilha daquele estudo pioneiro, com a notícia libertadora, baixaram o tom e estragaram um tantinho a festa que mal fora marcada. É verdade, a taxa de infecção infantil é baixíssima: no Brasil do ponto de vista estatístico, meninos e meninas de 1 a 5 anos representam 0,1% das mortes e de 6 a 19 anos, 0,4%.

Não há, contudo, conclusão confiável de que não sejam vetores do microrganismo. Pode ser que sejam, e seria irresponsabilidade dizer o contrário – e a Organização Mundial da Saúde (OMS), sempre cuidadosa, como deve ser, disse não haver quantidade suficiente de levantamentos para sustentar certezas absolutas. Mas uma porção de estudo circulou com avidez e tem sido usada por alguns países da Europa para autorizar uma lenta retomada escolar. Uma das investigações, realizada com 31 famílias na China, Coreia do Sul, Singapura, Japão e Irã, de dezembro de 2019 a março deste ano, mostrou que os mais jovens foram responsáveis por deflagrar a infecção em menos de 10% dos casos – a título de comparação, no caso da gripe aviária o índice é de 50%. Convém, portanto, ir com calma na celebração. Diz o infectologista e pediatra Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações: “Todo cuidado é pouco porque o papel das crianças na transmissão ainda não está claro”. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos afirmou que a gurizada “ainda pode transmitir o vírus a outras pessoas de maior risco, incluindo adultos mais velhos e cidadãos com sérias condições médicas subjacentes”. E a distância entre as duas pontas da pandemia – a dos menos atingidos, no início da vida, e a dos mais frágeis, os idosos – é ainda crucial. Netos de um lado, avós do outro, por precaução e olhos sempre atentos ao que a ciência ilumina.

Em tempo de tanta incerteza em que o otimismo é mercadoria escassa, deu-se um pequeno recuo na semana passada – que não altera, felizmente, a baixíssima letalidade infantil do Sars-CoV-2. Relatos de pediatras de Nova York e do Reino Unido, depois confirmados por um artigo na prestigiada revista britânica The Lancet, com base em levantamentos feitos em Bérgamo, epicentro da contaminação na Itália, revelaram cerca de uma centena de casos do que batizaram de síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (MIS-C, na sigla em inglês), semelhante à doença de Kawasaki. As crianças acometidas pela enfermidade, em média de 9 a 11 anos, não tossiam, tampouco manifestaram problemas respiratórios graves, embora tenham apresentado resultado positivo para os anticorpos contra a Covid-19. Tinham febre e erupção cutânea, olhos vermelhos, lábios secos ou rachados, vermelhidão na palma das mãos e na sola dos pés – no entanto, houve pouquíssimos casos de morte. A eclosão dos casos de MIS-C, ainda que poucos, impôs aos médicos uma indagação: por que crianças e adultos reagem de modo tão diferente ao vírus que parou o mundo? A resposta é fascinante.

A principal explicação é que os sistemas imunológicos mudam com a idade. O corpo de um adulto quase sempre está preparado para ameaças familiares, já existentes, mas tem dificuldades para combater vírus novos – é o que ocorre agora, com a Covid-19, e também aconteceu com outras cepas de coronavírus que provocaram as epidemias de Sars e Mers. Os jovens foram razoavelmente poupados. Os pequenos, especialmente os bem pequenos, lidam constantemente com vírus que não são necessariamente novos, mas são novos para eles – e o organismo reage com saudável ímpeto pueril. Os bebês nascem com um vasto repertório de células imunes, as chamadas “células T”. O exército de células T é capaz de identificar virtualmente qualquer patógeno, criando uma memória afeita a enfrentar as infecções. Com o tempo, contudo, o metabolismo identifica os inimigos de sempre – mas começa a deixar escapar os novidadeiros. Por isso, doenças como catapora e rubéola são mais graves em adultos. No caso de Covid-19, não é muito diferente com nuances.

É tranquilizador, portanto, que a meninada esteja razoavelmente protegida – viva! – e que por cautela, mantenha-se apartada de quem tem mais idade, até que a ciência entregue um veredicto sobre a ação dos imberbes como transmissores do temido coronavírus. No entanto, em um aspecto a avassaladora mudança comportamental a que todos foram submetidos, com o isolamento social e a quarentena (tradução para estar longe da escola, dos amigos, da hora do recreio, do olho no olho, do sorriso largo e do choro sincero), começa a chamar a atenção de profissionais de saúde, especialmente de psicólogos e psiquiatras. Desenha-se o que poderia ser apelidado, ainda que precocemente, de “geração pandemia”.

Um bom modo de entender o que pode vir a acontecer é olhar para quem já está algumas casas à frente, com a curva de casos pousando. Um estudo da Universidade Miguel Hernández, da região de Alicante, na Espanha, examinou o impacto psicológico do confinamento em crianças do país e da Itália. Cerca de 90% dos 431 pais e filhos espanhóis entrevistados descreveram dificuldade de concentração; ansiedade e irritabilidade. Ressalve-se que, em cidades como Valência, por exemplo, vivia-se até a semana passada ambiente de filme de terror e suspense, com helicópteros rastreando movimentos e agentes de segurança esbravejando nos megafones: “Aqui é a polícia falando. Respeite as regras”. Para a psicóloga Mireia Orgilés, coordenadora do estudo espanhol, embora as crianças tenham grande adaptabilidade à novas situações, elas têm dificuldade de acompanhar rupturas radicais”. O braço espanhol da ONG Save the Children informou que as medidas de distanciamento social poderiam causar ”distúrbios psicológicos permanentes”. A organização entrevistou 6.000 pessoas na Alemanha, Finlândia, Espanha, Estados Unidos e Reino Unido. Na Espanha, 40% alegaram medo de trauma. É bom, contudo, entender que trauma é uma condição subjetiva – pode despontar em alguns, mas em outros não. A Sociedade Americana de Psicologia define trauma como “uma resposta emocional a um terrível evento como um acidente, estupro ou desastre natural; imediatamente após o evento, o choque e a negação são respostas comuns; as reações no longo prazo incluem emoções imprevisíveis, relacionamentos tensos e até sintomas físicos, como dores de cabeça ou náusea”. Embora essas sensações sejam normais, comuns até, algumas pessoas tropeçam para seguir em frente.

Não convém acender o sinal vermelho, até porque está tudo ainda no começo e, a bem da verdade, muitas crianças estão adorando ficar em casa, com os pais ao lado, ao alcance de uma brincadeira, do smartphone (claro), de ajuda na lição de casa (virtual, evidentemente). O que se percebe são reações típicas quando a meninada é instada a dizer do que sente falta: dos avós, em primeiríssimo lugar, do ar livre, da bola, do parque, como revelam as pessoas ouvidas. No aspecto mais prático, talvez seja saudável buscar entender o que poderá ser feito logo mais, como retorno a alguma normalidade, do que ensaiar problemas mentais no futuro, que talvez nem ocorram. Um mar de indagações se impõe: quando as aulas voltarem, como reagirão as crianças e o que podem fazer as escolas? Para além das máscaras e da arquitetura – salas mais vazias, testes para Covid-19, mesas distantes, como já se veem na Europa -, as equipes pedagógicas terão de lidar com algo aparentemente tênue, intangível: o medo alimentado pela incerteza e pela insegurança. Aos educadores e pais, evidentemente, caberá aplainar as expectativas da nova vida. “É crucial manter as crianças a par de tudo, mas sem assustá-las” diz a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo, diretora do departamento científico de pediatria do desenvolvimento e comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O fim do isolamento, contudo, não significará o fim da epidemia. Até o aparecimento de uma vacina, o vírus ainda estará circulando e as escolas terão de se adaptar par ser um ambiente seguro. Mas como fazer isso? Diversos países começam a testar modelos que incluem redução na quantidade de alunos por sala, demarcação de distância mínima entre os estudantes, manutenção de aulas remotas, horários diferentes para as turmas e implementação de normas de higiene constantes. Na Dinamarca, por exemplo, apenas o ensino fundamental voltou à ativa. As crianças fazem fila de manhã ao lado de cones de trânsito espaçados em 1 metro e meio; são apenas dez alunos por sala, com um único professor; cinco crianças são permitidas no playground de cada vez. Portugal retomou as aulas presenciais do ensino médio. As medidas de proteção incluem uso obrigatório de máscaras, lavagem das mãos ao entrar e sair da escola, e horários de aula, intervalos e períodos de alimentação diferentes para cada turma. Na França, as aulas presenciais foram retomadas, mas não são obrigatórias. Diz Mireia Orgilés, da Universidade Miguel Hernández: “As crianças devem ser informadas da nova situação que encontrarão no fim da quarentena, na qual o contato social provavelmente permanecerá reduzido ainda por muito tempo”.

Há, sem dúvida, uma sensação de desconhecimento dos próximos passos que chega a ser agoniante. Nada, insista-se, apesar das mais de 330.000 mortes por Covid-19 em todo o mundo, que se compare a experiências de guerras – e também nelas, mesmo com o horror, sempre houve alguma válvula de escape para a sanidade. No início da II Guerra Mundial, milhões de crianças foram evacuadas de Londres e de outras cidades e enviadas para morar em lares adotivos no interior da Inglaterra. Esse êxodo, e o que aconteceu depois dele, virou tema de estudo da psicanalista Anna Freud, filha do pai da psicanálise. Em1943, ela concluiria que os jovens que ficaram com suas famílias, debaixo de bombardeio, mostraram-se mais “felizes” que os exilados. O trabalho de Anna Freud inspiraria um outro de seu contemporâneo John Bowlby, que investigou longas permanências em hospitais. Formou-se, então, uma ideia ainda muito influente, a da “teoria do apego”, que enfatiza o vínculo entre pais e filhos e os danos resultantes da separação. Abre-se, hoje, outro campo de investigação que pode vir a ocorrer com crianças afastadas não dos pais – dos avós, sim, insista-se -, mas dos professores, dos colegas e de tudo o mais? É a novíssima condição da geração pandemia. Passado o vendaval, não é difícil que sejam adultos melhores – e é certo que crescerão com mais informações e mais contato com a vida como ela é. Enquanto isso, ecoará, em famílias distanciadas, a tocante frase do escritor americano Alexander Haley (1921-1982): “Ninguém pode fazer pelas crianças o que os avós fazem. Os avós salpicam uma espécie de pó estelar sobre a vida delas”. Se ainda não dá para encontrá-los, que a solução seja a adotada pela menina Malu, da foto que ilustra este post: todos os dias pela manhã, ela faz uma videoconferência com a vó Vera Lúcia e o vô Chico.