EU ACHO …

EM DEFESA DA PRESENÇA

Apesar de não admitirmos, somos, em geral, péssimos ouvintes. E isso não é recente. Mas a habilidade de trazer mais atenção às conversas, em tempos de redes sociais, só tem piorado

Ao constatar que processamos apenas 25% do que nos é informado verbalmente, pesquisas realizadas na década de 1950 já apontavam para uma necessidade de melhorarmos nossa habilidade de trazer mais atenção às conversas – que, na maioria das vezes, não passam de monólogos cruzados. O problema é que, comprovadamente, só percebemos essa falha nos outros: um estudo dos anos 70 envolvendo 8 mil americanos mostrou que todos consideravam-se ouvintes mais atentos que seus colegas de trabalho.

De lá pra cá, ganhamos vários meios de expor nossa privacidade e opiniões, sem precisar oferecer a contrapartida que costumamos evitar. Socializamos nosso egocentrismo, desequilibrando ainda mais a relação entre a escuta e a expressão. Os smartphones com os quais hoje temos que dividir a atenção do nosso interlocutor nos momentos em que usufruímos do luxo de um encontro pessoal não são a causa, mas o retrato da nossa propensão à vaidade e à impaciência. São extremamente tentadores justamente por alimentar nossa tendência de falar mais que ouvir, de aparecer mais que comparecer e de escapar daquilo que demanda energia mental. Facilitam a fuga das exigências que vêm com as relações mais significativas.

Como resultado, vivemos uma ansiedade cuja origem pode ser difícil de rastrear. Sentimos falta de atenção, apesar de termos o poder de publicar cada pensamento. Sentimos falta do processo lento de construção de relações satisfatórias, da empatia que só uma boa conversa propicia, de não precisar acompanhar todas as mudanças, de não precisar de constante exposição. A tentativa de identificar e, assim, poder dominar melhor essa ansiedade levou-nos a nomeá-la com uma sigla: FOMO (inglês para fear of missing out, ou medo de ficar por fora). O FOMO é o retrato de nossa contraditória condição de querer participar de tudo, mas não conseguir dedicar atenção a quase nada e, em contrapartida, não termos ninguém que nos escute de fato. É também reflexo do sentimento de fracasso despertado pelo acesso constante ao sucesso dos outros.

Adolescentes aprendem que podem ser quem quiserem e que a fama não depende de sorte, mas está ao alcance de quem for capaz. Enquanto não soubermos ensiná-los o real significado de uma vida bem-sucedida, continuaremos correndo o risco de vê-los recorrendo a inimagináveis formas de atrair atenção e sentirem-se aceitos.

Precisamos reaprender, para então ensinar às crianças, que a sensação de que nossos sonhos estão distantes da realidade, apesar de isso não ser divulgado nas redes, aflige todos; que felicidade não é algo a ser perseguido a qualquer custo e que, principalmente, não será encontrada na fama. Temos que ensiná-los que não há curtidas ou visualizações suficientes para superar o valor de uma grande amizade. Boas conversas, pessoas interessadas e inteiramente presentes são, possivelmente, a única forma de nos salvar das aflições que, assim como o FOMO, crescem até ganhar definição nos dicionários. Mas construir relações significativas é um exercício trabalhoso, que exige uma série de capacidades encontradas nos raros bons ouvintes: generosidade, para oferecer tempo e presença; disposição, para ouvir com interesse sincero; vulnerabilidade, para mostrar-se desarmado e inteiro; e tolerância, para administrar frustrações e aceitar diferenças, sem julgar nem comparar.

Essas virtudes não se desenvolvem por meio de canais que trazem praticidade às interações sociais, ao simplificarem conflitos e possibilitarem contatos múltiplos com economia de tempo. Afinal, não há nada de prático nas relações humanas: são tão complexas que se desenvolvem continuamente ao longo da vida e só são aprendidas na prática.

A tecnologia é algo que sempre se faz supreendentemente imprescindível logo que surge com nova finalidade. Portanto, admitir a ação pouco eficaz das redes sociais na realização que buscamos nas relações não fará com sejam menos usadas. Mas pode ser o início de um movimento que nos alerta para a urgência e o valor da presença. Pode nos fazer reconhecer que os canais virtuais são inevitáveis e excelentes meios para complementar – e não sustentar – as interações, que necessitam, mais que nunca, de profundidade e atenção mútua.

Se o papel fundamental da amizade é termos testemunhas para nossa existência, como defende o filósofo David Whyte, as redes iludem oferecendo a ideia de que podemos ter todos os momentos da vida testemunhados, curtidos e comentados. Mas não é à multidão de olhares distantes que ele se refere, e sim aos poucos e valiosos olhares atentos e ouvidos interessados, que se dispõem a presenciar as nuances da nossa essência e dos sentimentos que não conseguimos expor a uma plateia. Não basta sermos observados – precisamos ser compreendidos e aceitos, sem o medo de julgamento ou de expor as inevitáveis fraquezas, para nos livrarmos da solidão de uma existência superficialmente compartilhada.

Pois no fim do dia, os espectadores já terão esquecido as imagens e pensamentos que jogamos nas redes, mas nossos amigos de verdade terão o carinho de guardar na memória o que nos faz únicos e temos de melhor, o que pode ser percebido na comunicação completa, que só a presença permite.

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

CORPO BLINDADO

Tratamentos que atuam no sistema de defesa do organismo no combate ao novo coronavírus ganham força em estudos no mundo, inclusive no Brasil

No verão de 430 a.C., Atenas foi abalada por uma infecção misteriosa. Deflagrada na zona portuária, a enfermidade rapidamente se espalhou pela cidade inteira, matando um terço da população em apenas um ano. A origem da “praga de Atenas,” como a nomearam os pesquisadores, foi desvendada somente em janeiro de 2006, quando se confirmou a presença de bactérias da febre tifoide em dentes de ossadas. Em meio à pandemia, o historiador Tucídides descreveu um fenômeno: as pessoas que haviam contraído a peste e se recuperado não se contaminavam com a doença pela segunda vez.

Foi o pioneiro (e fascinante) relato do papel do sistema de imunidade do corpo humano. É como uma “dança barroca”, na definição da escritora americana Eula Biss, pela qual centenas de milhares de células atuam sob rígida, bela e intrincada hierarquia para manter o corpo blindado de infecções. Há aquelas que podem destruir células infectadas, as que engolem os microrganismos e depois exibem pedaços deles para que outras os reconheçam e reajam. Há as que monitoram sinais de doenças e outras, ainda mais sagazes, que produzem e transportam anticorpos.

Como não há ainda vacina contra a ação do Sars-CoV-2 e como a Covid-19 por enquanto não tem tratamento definitivo, um campo de trabalho cresce com extraordinária rapidez – a busca por técnicas de fortalecimento da própria engrenagem de defesas naturais do organismo. A mais bem-sucedida é a aplicação de plasma sanguíneo dos curados em acamados. Em decisão inédita no mundo, o respeitado serviço de saúde do Reino Unido (NHS) determinou que todos os pacientes com o novo coronavírus internados, mesmo os que não estão em UTIs, são elegíveis para receber a transfusão.

O princípio do recurso médico é simples: os anticorpos, os fiéis escudeiros contra invasores, que nadam no plasma de uma pessoa já imune, ao serem transferidos para outro organismo, passam a trabalhar avidamente. É o que se alcunhou de “imunização passiva”. Diz José Mauro Kutner, hematologista do Hospital Albert Einstein e coordenador da pesquisa de plasma em pacientes com Covid-19: “As pessoas recuperadas da Covid-19 têm altos níveis dessas proteínas de proteção, que permanecem no sangue mesmo depois do desaparecimento dos sintomas, afastando-as de futuras infecções”. O plasma compõe mais de metade do volume sanguíneo. Amarelado, ele é constituído majoritariamente por água. O restante inclui gorduras, fatores coagulantes, sais minerais e os preciosos anticorpos. É substância tão valiosa que hoje chega a representar 1,6% das exportações totais de produtos nos Estados Unidos, mais do que o país lucra com a venda de aviões.

Em todo o mundo, há dezenas de centros de investigação dos bons efeitos do plasma nos cuidados com a Covid-19, e muitos deles estão no Brasil. Os hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês, Beneficência Portuguesa e as universidades estaduais de São Paulo e do Rio de Janeiro lideram o movimento. “Não há dúvida das reais possibilidades desse tipo de tratamento contra a pandemia”, diz o hematologista André Larrubia, gerente executivo do banco de sangue da Beneficência Portuguesa. Um trabalho publicado no respeitadíssimo The American Journal of Pathology mostrou que 76% dos pacientes que receberam plasma apresentaram melhora. O maior estudo já realizado até o momento, feito por pesquisadores do Hospital Mount Sinai, em Nova York, comparou 39 pacientes graves com Covid-19 que receberam plasma com doentes que não foram submetidos a transfusões. Os resultados mostraram que os receptores de plasma saíram mais rapidamente do hospital e precisaram de menos oxigênio suplementar.

No fim de abril, a americana Cynthia Lemus, de 24 anos, foi uma das primeiras a ter alta nos Estados Unidos depois de ser tratada da Covid-19 com plasma no Intermountain Medical Center, em Utah, uma das maiores referências de saúde do planeta. O final feliz chegou treze dias após ela ter recebido a transfusão. A doação veio da Mayo CLinic, em Rochester, onde os médicos estão atuando como investigadores principais do protocolo nacional de tratamento do coronavírus com o plasma. As doações passam por rigorosa triagem, que inclui a análise da quantidade de anticorpos, além, claro, da tipologia sanguínea. “Muitas pessoas se voluntariam para doar, mas apenas 40% são selecionadas”, diz Silvano Wendel, diretor do banco de sangue do Hospital Sírio-Libanês. Infectada no início da pandemia, Gabriela Korek, de 34 anos, foi aprovada pelo Hospital Albert Einstein depois de longa e minuciosa investigação em torno de seu estado de saúde. “Queria não só fazer a minha parte para ajudar doentes graves, mas também agradecer a sorte que eu tive por ter me curado”, diz Gabriela.

É estrada luminosa, de curvas sinuosas, mas que aponta para um extraordinário caminho de esperança. Os cientistas já conseguiram desenvolver em laboratório anticorpos semelhantes aos do plasma humano. No início deste mês, a farmacêutica americana Eli Lilly iniciou o primeiro teste clínico com esses compostos. Trabalha-se ainda com uma alternativa atrelada à imunidade – e, curiosamente, ela trata de frear as respostas dos anticorpos, em vez de aumentá-las. A explicação: o novo coronavírus se espalha de forma tão avassaladora que, em muitos casos, a reação do sistema imunológico é excessiva e desproporcional. Diz o infectologista Gerson Salvador, especialista em saúde pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP: “O resultado é uma inflamação exagerada”. E o que poderia fazer bem pode matar. É preciso, portanto, dar um basta no exército de defesa, para usar metáfora muito comum. Os anti-inflamatórios, como os corticoides e o interferon (desenhado originalmente para hepatite), têm apresentado bons resultados.

Ressalve-se, contudo, para evitar louvações exageradas, ser improvável que apenas uma solução medicamentosa aponte para a bola de prata contra a Covid-19. Usar os anticorpos – por meio de plasma ou barrando os demasiadamente glutões – é um modo de atacar a infecção. Os cientistas acreditam que o futuro está em combinações dessas terapias com o uso de antivirais, como o remdesivir. Até que surja uma vacina (e há bilionária corrida para alcançá-la), a rainha de todos os mecanismos de imunidade, a maestrina a conduzir as tropas afeitas a expulsar os batalhões perversos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE JUNHO

ANSIEDADE, O FANTASMA DA ALMA

Não andeis ansiosos pela vossa vida (Mateus 6.38b).

A palavra “ansiedade” no grego significa “estrangulamento” e se relaciona a tirar o oxigênio, apertar o pescoço, sufocar. Muitas pessoas vivem com a respiração ofegante, atormentadas pelo fantasma da ansiedade. Jesus disse que a ansiedade é inútil, pois não podemos acrescentar um único côvado à nossa existência. Disse também que a ansiedade é prejudicial, pois basta ao dia o seu próprio mal. Ansiedade é ocupar-se no presente de um problema futuro. É afligir-se por algo que ainda não está acontecendo. Está provado que mais de 70% das questões que nos deixam ansiosos nunca se concretizarão. Sofremos desnecessariamente. Ficar ansioso hoje não nos ajudará de forma alguma a resolver os problemas de amanhã. Finalmente, Jesus disse que a ansiedade é um sinal de incredulidade, pois os gentios que não conhecem a Deus é que se preocupam com o dia de amanhã, acerca do que vão comer, beber ou vestir. Nós, porém, devemos buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, sabendo que as demais coisas nos serão acrescentadas. O fantasma da ansiedade é afastado do nosso caminho quando confiamos em Deus e entregamos nossos cuidados a ele. Vencemos a ansiedade quando adoramos a Deus, fazendo-lhe petições e súplicas, com ações de graças. O resultado dessa atitude é que a ansiedade vai embora e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, vem habitar em nossa mente e em nosso coração.

GESTÃO E CARREIRA

ENTRE O CÉU E O INFERNO

Com perdas estimadas em US$ 314 bilhões neste ano, as companhias aéreas tentam fugir da tempestade causada pela pandemia e pela recessão. O destino das empresas, no entanto, depende da boa vontade – e da consciência – de governos e bancos estatais.

Oscar Lima Alfa, mayday, mayday, mayday.” Se a atual situação das companhias aéreas pudesse ser exemplificada em um diálogo entre pilotos de avião e controladores de voo, essa provavelmente seria a síntese da conversa. No jargão aeronáutico, trata-se de um pedido urgente de socorro, diante de um risco iminente de queda. Mas fora do campo das metáforas, em chão firme, a crise econômica gerada pela pandemia da Covid-19 derrubou as receitas das empresas de aviação comercial no Brasil e no mundo, com prejuízos incalculáveis em longo prazo e efeitos ainda imprevisíveis – turbulência jamais enfrentada por um setor que globalmente emprega 68 milhões de pessoas e simboliza a espinha dorsal do lazer e dos negócios internacionais.

Pelos cálculos da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA, na sigla em inglês), a pandemia acarretará em perdas de US$ 314 bilhões em 2020, uma redução de receita de 55% em relação a 2019. Mais do que a queda no faturamento, o hiperendividamento em dólar é uma imensa nuvem de tempestade na rota das empresas. A dívida mundial total do setor, atualmente em US$ 430 bilhões, deve superar US$ 550 bilhões até o fim de dezembro, alta de 28% na comparação com o mesmo período do ano passado. Cerca de US$ 200 bilhões serão necessários para salvar as empresas. Nesse contexto, é quase uma unanimidade que só existe uma opção de rota para a sobrevivência da indústria aérea: resgate com dinheiro público. “O auxílio dos governos está ajudando a manter a indústria”, afirmou o francês Alexandre de Juniac, diretor-geral da Iata. “O próximo desafio será impedir que as companhias aéreas afundem sob o peso da dívida que esta ajuda está criando.”

Em todo o planeta, do aumento de US$ 120 bilhões nas dívidas das companhias aéreas para este ano, uma fatia de US$ 67 bilhões é referente a empréstimos de governo e bancos estatais, além de impostos diferidos e garantias de empréstimos. Os US$ 53 bilhões restantes se referem a empréstimos contraídos com bancos privados, dívida do mercado de capitais, débitos de novos arrendamentos operacionais e acesso a novas linhas de crédito. Praticamente todas as empresas aéreas apelaram para suspensão temporária de pagamento mensal do leasing de aeronaves – grande parte deles controlados por fundos de pensão internacionais –, de taxas aeroportuárias e de contratos com grandes bancos.

Dos recursos que os governos já se comprometeram neste ano para resgatar as empresas, US$ 67 bilhões deverão ser pagos em médio e longo prazos. Do total, US$ 34,8 bilhões se referem a subsídios salariais, seguido por financiamento de ações (US$ 11,5 bilhões) e desoneração ou subsídio fiscal (US$ 9,7 bilhões). “Menos de 10% dos auxílios do governo serão adicionados ao patrimônio da companhia aérea. Isso muda completamente o quadro financeiro da indústria”, afirma Juniac. “Pagar a dívida dos governos e credores privados significará que a crise vai durar muito mais do que o tempo necessário para a demanda de passageiros se recuperar.”

Indiscutivelmente, a rota de voo para as companhias saírem da crise é uma das mais arriscadas de toda a história econômica recente. Para o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz, a crise provocada pelo coronavírus é um “cenário como jamais se viu”. O executivo avalia que as três maiores companhias aéreas brasileiras (Azul, Gol e Latam) entraram crise um pouco mais fortalecidas do que empresas de outros setores, por causa da falência da concorrente Avianca. Segundo ele, no entanto, a queima de caixa tem sido brutal. “A gente não cria demanda, apenas atende. Para as viagens de lazer, se as pessoas não tiverem dinheiro não vão viajar”, afirma. “As viagens de negócios dependem da retomada de eventos, congressos, feiras. E não há cenário de retorno desse setor no curto prazo.”

O presidente da Abear afirma que a retomada do setor aéreo também vai depender das políticas do governo federal para a recuperação econômica. As empresas aéreas pleiteiam com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um pacote de ajuda em forma de empréstimos, no total de R$ 6 bilhões – R$ 2 bilhões para cada uma das três maiores companhias. O BNDES estuda se comprometer com um terço do total, enquanto os bancos privados entrariam com outros R$ 4 bilhões. Pela proposta, cerca de 75% da quantia será em forma de títulos de dívida, e 25% poderá ser convertido em ações. “Vamos atravessar essa crise. Mas como vamos atravessar, vai depender das políticas, especialmente do crédito do BNDES”, afirma Sanovicz.

Menor do que o pleiteado ao governo, o aguardado socorro estatal, por meio do BNDES, tem sido fonte de disputas e conflitos dentro do própria staff bolsonarista. “O governo não vai pegar dinheiro público, dinheiro que falta para saúde e educação, e simplesmente salvar uma grande empresa, não é assim. É da vida ser abatido, é do mercado”, disse o ministro Paulo Guedes, em abril. Já o time técnico do Ministério da Infraestrutura, comandado por Tarcísio de Freitas, trabalha nos bastidores para evitar que as empresas quebrem e prejudiquem toda a cadeia de transporte de passageiros e de logística do País.

O consenso é que a oferta de socorro estatal de R$ 2 bilhões às empresas é considerado insuficiente e fora do ‘timing’. No Brasil, atualmente as empresas estão operando com uma malha aérea mínima, que é aproximadamente 90% menor se comparada com o mesmo período de 2019, redução que foi acordada entre as companhias aéreas e o governo. Thiago Carvalho, advogado especialista em direito aeronáutico e integrante da Comissão de Direito Aeronáutico da OAB no Rio de Janeiro, diz que a expectativa de crescimento da aviação no mundo para 2020, antes da pandemia, era de aproximadamente 4%. “Para a América Latina a alta seria menor, de 1,8%, muito em razão de problemas em Argentina, México, e Venezuela.”

DECOLAGEM FRUSTRADA

Na avaliação do executivo Jerome Cadier, CEO da Latam no Brasil, a crise é uma espécie de decolagem abortada em alta velocidade, já que antes da chegada do novo coronavírus o setor da aviação estava em um momento bastante positivo no País. “Depois dos anos difíceis de 2015 a 2017, estávamos voltando a crescer”, afirma. “Em 2018 e, principalmente, 2019 estávamos em recuperação do setor, colocando mais aviões para voar e fazendo investimentos pesados em cabines novas e contratação de tripulantes.”

Com a pandemia, no entanto, tudo parou muito rápido. Em menos de três semanas vieram a queda nas vendas até a paralisação dos voos, inicialmente na Europa, e nas semanas seguintes nos Estados Unidos e no Brasil. “Este é um setor que precisa de muito giro. Usamos o valor das vendas do dia para bancar as operações realizadas naquele mesmo dia”, explica Cadier.

A Latam, com ações negociadas na bolsa de Nova York, precisou recorrer ao Chapter 11, uma versão de recuperação judicial e o último recurso antes da falência. Para Cadier, o instrumento é muito utilizado nos Estados Unidos para garantir que as empresas consigam se reestruturar de forma sustentável do ponto de vista financeiro. “As grandes montadoras americanas, assim como American e Delta, já entraram com esse pedido no passado e tiveram êxito”, afirmou. “Ele permite que a empresa continue operando, vendendo e pagando os colaboradores enquanto negocia as dívidas, o que deve ocorrer num prazo de 12 a 18 meses.” O executivo destacou também que a filial brasileira não entrou no Chapter 11, mas sim as subsidiárias no em Chile, Colômbia, Equador, Peru e Estados Unidos. As operações da Argentina e do Paraguai também ficaram de fora do processo.

SEM MARGEM

O problema é que o setor aéreo, há tempos, convive com margens de lucro espremidas, e muitas vezes negativas. Segundo Leonardo Nascimento, sócio-fundador da Urca Capital Partners, os resultados de companhias aéreas são bastante afetados em depressões de demanda devido aos altos custos com o leasing de aeronaves, folha salarial e, principalmente, pelas variações cambiais. “As margens do setor já são bastante apertadas e qualquer flutuação relevante na demanda já consome o caixa de curto prazo das companhias”, afirmou.

Ao analisar o volume de voos das empresas, fica evidente o cenário de desespero. A Latam realizava em média 750 voos por dia no País antes da pandemia. Em maio, a empresa operou cerca de 35 voos diariamente. Após essa forte redução, o grupo anunciou aumento gradual de suas operações em junho, passando de 5% para 9% da capacidade pré-crise, operando 74 rotas domésticas no Brasil, além de retomar de forma reduzida as rotas internacionais São Paulo-Frankfurt, São Paulo-Londres, São Paulo-Madri, São Paulo-Santiago e Santiago-Miami. Para julho, a previsão é atingir 18% da sua capacidade anterior à crise. Já na Gol, que tem quase 16 mil colaboradores, a maior parte deles está trabalhando em home office, em férias ou de licença não remunerada. Aproximadamente 6,2 mil colaboradores (38% do quadro total) estão em licença não remunerada ou tiveram seus contratos de trabalho suspensos.

RENEGOCIAÇÃO

Na Latam, a palavra de ordem é renegociar tudo o que for possível. Além do corte de voos e salários, como parte das primeiras medidas emergenciais a empresa também negociou com fornecedores, pedindo redução de custos e postergação dos prazos de pagamento para equilibrar o fluxo de caixa. Em relação aos trabalhadores, ainda haverá novas negociações. “Agora que já conhecemos melhor os impactos da crise estamos novamente em contato com os sindicatos para definir como agir a partir de julho”, disse o CEO Cadier. Ele acredita que as soluções possam envolver licenças não remuneradas de 12 meses ou rotativas, mas que certamente o ajuste será grande. Por esse motivo, a empresa tem tido conversas diretamente com seus colaboradores por meio de vídeos e webcasts com perguntas ao vivo para explicar o que está acontecendo neste momento da crise.

Como parte do esforço para escapar da crise, a Azul Linhas Aéreas fechou acordo para repassar de sua frota 53 aviões Embraer 190/195, da serie E1, para a empresas LOT, da Polônia, e a Breeze, start-up americana criada por David Neeleman, fundador também da Azul. Os prazos, porém, estão indefinidos. Essas aeronaves seriam substituídas por outras 50 novas unidades do modelo Embraer E2, mais modernas e econômicas. As entregas previstas para acontecerem entre 2020 e 2023, a um ritmo de uma aeronave nova a cada duas semanas, foram adiadas para 2024.

Segundo John Rodgerson, CEO da Azul, não se sabe quando o remanejamento de frota será concluído, já que as incertezas ainda existem sobre o tempo de retomada da demanda da aviação e, por consequência, quando LOT e Breeze necessitarão de todas as aeronaves. “Temos um ótimo relacionamento com a Embraer e estamos muito animados com o E2. Infelizmente, tivemos que adiar nossos planos de pegar mais desses aviões até que a economia se recuperasse”, disse Rodgerson, em entrevista a jornalistas do setor. “Na medida em que o tamanho do mercado mude após a Covid-19, queremos estar preparados.”

PROTOCOLOS

As autoridades aeronáuticas do mundo todo, juntamente com a Organização Internacional da Aviação Civil, Associação Internacional de Transportes aéreos e outros órgãos, estão criando padrões a serem seguidos pelos países com a intenção de possibilitar um retorno seguro da aviação civil, sem que esse modal se torne vetor de reinfecção para os países. Aqui no Brasil não há nada normatizado, mas existem instruções e orientações expedidas pela Anvisa e Anac, voltadas tanto para os passageiros, quanto para as empresas aéreas e aeroportos. Também foi criado um grupo de trabalho chamado Retomada da Aviação Civil pós-Covid-19, por meio da Portaria Anac 1126, de 23 de abril deste ano, cujo objetivo é acompanhar a retomada das operações aéreas nos aeroportos brasileiros e propor estratégias voltadas à segurança, ao desenvolvimento e à sustentabilidade da aviação civil.

As empresas que operam no Brasil estão adotando medidas que incluem filas transversais, alternadas e espaçadas nos balcões de check-in, distribuição de álcool em gel, obrigatoriedade do uso de máscaras a bordo, novos processos de limpeza e desinfecção profunda das aeronaves, além de redução da interação física com os passageiros. Segundo as empresas aéreas, a frota brasileira está equipada com sistema de filtragem que renova o ar a cada 3 minutos e captura aproximadamente de 99% das partículas no ar.

As tripulações também têm orientado os passageiros para que se acomodem nas poltronas de acordo com a sua preferência, mantendo entre si o maior distanciamento possível. Para elevar os níveis de segurança, higiene e prevenção a bordo, as companhias têm implementado processos intensos de limpeza nos voos, que englobam desde a pulverização do interior das aeronaves até a limpeza de todas as superfícies de contato, com aplicação de álcool 70% e outros materiais indicados pela Anvisa e órgãos internacionais. Um saneamento físico que se espera chegue também ao saneamento financeiro.

EM APUROS, EMBRAER TAMBÉM DEPENDE DE SOCORRO

Sem ter para quem vender e com clientes lutando para sobreviver, a fabricante brasileira de aviões Embraer deve obter em junho um financiamento junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a bancos privados no valor de US$ 600 milhões (R$ 3,3 bilhões) para atender a sua demanda de jatos executivos e comerciais para os próximos meses, disseram fontes do governo em condição de sigilo. As negociações, lideradas pelo próprio presidente Francisco Gomes Neto, estão em ritmo acelerado. Espera-se que o crédito seja liberado nas próximas semanas. Além dos recursos do BNDES, a companhia deve receber injeção de bancos como Bradesco, Santander, Itaú, Citibank, Morgan Stanley e Natixis.

No balanço do primeiro trimestre deste ano, a fabricante brasileira de aeronaves anunciou que tem no horizonte cerca de US$ 16 bilhões (R$ 86,8 bilhões) em encomendas firmes para os próximos anos. No mesmo balanço, a Embraer registrou um prejuízo líquido de R$ 1,3 bilhão no primeiro trimestre de 2020, perda quase sete vezes superior à registrada nos três primeiros meses do ano passado. O resultado foi pressionado pelo diferimento de imposto de renda e contribuição social, com efeito negativo de R$ 571,2 milhões, por uma provisão adicional para perdas de crédito durante a pandemia. O balanço também apontou como fatores para o prejuízo a queda de R$ 108,6 milhões no valor da companhia aérea Republic Airways Holdings, na qual a Embraer qual tem participação. Outro destaque foram os custos de separação ligados ao fim da parceria estratégica com a Boeing, de R$ 96,8 milhões.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HOMOSSEXUALIDADE FEMININA

Há evidência mostrando que as mulheres transitam mais entre relações sexuais com pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto do que os homens

A conclusão sobre o amor entre as mulheres partiu de um estudo feito pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A pesquisa, feita em 24 estados brasileiros e no Distrito Federal, avaliou a prática sexual e o nível de conhecimento de homens e mulheres em relação à Aids.

Os resultados do estudo mostram que 3% das mulheres sexualmente ativas nos últimos cinco anos relataram ter tido na vida relações sexuais com pessoas do mesmo sexo ou de ambos os sexos. O índice é de 1,7% para as que mantiveram relações homossexuais no último ano. Os dados foram coletados entre 1997 e 1998 pelas pesquisadoras Regina Maria Barbosa, da Unicamp, e Mitti Ayako Hara Koyama, da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), de São Paulo.

“A ideia da existência de uma homossexualidade feminina estanque e estável ao longo da vida desaparece, dando lugar a um cenário mais dinâmico no qual as mulheres transitam pelas diferentes experiências e a categoria ‘mulheres exclusivamente homossexuais’ só é expressiva nos recortes de tempo mais recentes”, dizem as pesquisadoras. Elas sugerem uma nova forma de encarar o lesbianismo, não mais como um papel assumido ao longo da vida, mas como uma condição temporária.

As pesquisadoras afirmam que os homens que tiveram parceiros exclusivamente do mesmo sexo nos últimos cinco anos tendem a permanecer assim ao longo da vida. As mulheres, por sua vez, desempenham um papel mais dinâmico em relação à escolha dos parceiros sexuais. Elas podem ter relações com outras mulheres por cerca de um ano e depois ter parceiros sexuais do sexo oposto num período seguinte. A maioria dos casais de lésbicas não sente necessidade de reproduzir padrões de comportamento heterossexuais, em que um indivíduo mantém poder sobre o outro. Dessa forma, essas mulheres conseguem exercer papéis diferentes dos moldes patriarcais. O homossexualismo feminino tem suas origens na Antiguidade. Safo, célebre poetisa da Grécia Antiga, é considerada como a fundadora do amor lésbico. O termo é originário de Lesbos, ilhas de forma triangular situadas no mar Egeu, de onde a poetisa era natural. Safo era conhecida pelo amor que nutria por mulheres, à qual é atribuída a prática conhecida por safismo (cunilíngua).

O lesbianismo era muito disseminado em Roma. Os locais de encontro das homossexuais eram os estabelecimentos de banhos. Nesses ambientes, as lésbicas entregavam-se às práticas sexuais com suas escravas, chamadas de fellators. Na era vitoriana, a rainha Vitória – através de uma lei – condenou somente as práticas sodomitas entre homens, negando punição para o sexo entre as mulheres por não acreditar na viabilidade desse amor invisível.

Em 1927, o psicanalista galês Ernest Jones – baseado na análise de cinco mulheres homossexuais – define as diferenças entre mulheres heterossexuais das lésbicas a partir do medo da castração.  Segundo ele, a não gratificação dos desejos edipianos impulsiona o processo homossexual.

O medo da castração se dá de maneiras distintas entre meninos e meninas. O homem deseja obter uma satisfação num ato, mas “ele não ousa, por medo de que esse ato seja seguido do castigo da afânise, da castração, o que significaria para ele a abolição permanente do prazer sexual”.

Enquanto no homem o medo primitivo é o da castração, na mulher o temor é o da separação. Na imaginação da menina, essa separação emana seja da mãe, como rival, seja do pai, que se recusa a dar-lhe a satisfação desejada. Para a mulher, o medo mais primitivo de ser abandonada se origina daí.

Para o estudioso, desenvolvem-se duas formas de regressão no processo de identificação das mulheres: na primeira, elas mantêm o desejo por homens, mas gostariam de ser um entre eles; na segunda, as mulheres desejam outras mulheres, as quais representam sua própria feminilidade.

Já a psicanalista austríaca Melanie Klein postula que homossexualidade feminina deriva de etapa anterior à definida por Freud, enfatizando o temor fundamental da menina em relação ao interior   do seu corpo e curiosidade em relação ao corpo da mãe. [Enquanto Freud vê o início do complexo de Édipo por volta dos quatro anos de idade, Klein situa-o já no primeiro ano de vida]. Os psicanalistas concordam que é necessária uma identificação com o pai, que confirma a menina com o desejável. Se a expressão da experiência erótica chega a ser tão problemática, a representação da sexualidade lesbiana se intensifica, excluindo a figura do homem e colocando a mulher numa posição de sujeito atuante, em vez do homem. Em todos os países, as lésbicas são objeto de   numerosas discriminações diante das leis e regulamentações e políticas públicas. A maioria dos países não reconhece os casais de mulheres, nem social nem juridicamente. Muitas lésbicas perdem seus empregos e a guarda dos seus filhos, e a outras nega-se até mesmo o acesso a moradia. O homossexualismo feminino carece de estudos e permanece como fenômeno invisível.  Um dos fatores para isso acontecer é o fato de que nunca se deu importância à sexualidade feminina. A sociedade convenceu-se de que o prazer da mulher consiste em criar os filhos. Por outro lado, há maior liberdade de expressão no afeto entre mulheres, que podem se tocar e se beijar sem levantar suspeitas, tornando suas relações mais facilmente dissimuladas.

ROBERTA DE MEDEIROS – é jornalista científica.

E-mail: medeiros.revista@gmail.com