EU ACHO …

O CONTÁGIO DA COVID-19

Numa igreja de Washington, dos 61 participantes do coro, 53 foram infectados por um único cantor com sintomas da Covid-19. Em Cingapura, ocorreu um surto que infectou cerca de 800 trabalhadores migrantes, num dormitório. Surtos epidêmicos semelhantes foram descritos em shows musicais, frigoríficos, restaurantes, hospitais, prisões e em instituições de longa permanência para idosos, estabelecimentos que contribuíram com mais da metade das mortes nos países europeus e ao menos 30% das que aconteceram nos Estados Unidos.

Em artigo para a revista Science, Kai Kupferschmidt, analisou as epidemias dos coronavírus causadores da SARS e da MERS, que também se disseminaram principalmente entre os contatuantes. Entender as circunstâncias em que ocorrem essas infecções em grupo é crucial para reduzir seu impacto na disseminação do novo coronavírus. A discussão tem se concentrado no número médio de novas infecções que cada paciente é capaz de causar (R). Sem medidas de isolamento social, o R é, aproximadamente, igual a 3, isto é, cada infectado trans mite o vírus para mais 3.

O problema é que esse número traduz a média das novas infecções, mas na prática algumas pessoas transmitem mais, enquanto outras simplesmente não o fazem. O virologista Lloyd-Smith, da Universidade da Califórnia, afirma: “O padrão mais consistente é aquele em que o valor de R é igual a zero. A maioria das pessoas não transmite”.

Por essa razão, os epidemiologistas calculam o fator de dispersão (índice k), que caracteriza como a doença forma grupos (clusters) de infectados. Quanto mais baixo o k, menor é o número de transmissores do vírus. Gabriel Leung, da Universidade de Hong Kong, defende que o novo coronavírus provoca uma concentração de clusters sugestiva de que um pequeno número de “supertransmissores” seja responsável por grande parte das infecções. Há estimativas de que apenas 10% dos infectados sejam responsáveis por 80% das transmissões. Essa heterogeneidade explicaria por que a doença não se espalhou pelo mundo imediatamente depois dos primeiros casos na China.

Não está clara a razão pela qual os coronavírus formam esses clusters de infectados. É possível que esteja ligada não só à concentração viral nas gotículas eliminadas ao falar, tossir ou espirrar, mas à capacidade de formar aerossóis que podem permanecer dispersos no ar o tempo suficiente para provocar infecções múltiplas. Em vários dos clusters descritos, as transmissões parecem estar ligadas a esses aerossóis.

Caraterísticas individuais ajudam a explicar a existência de supertransmissores. Um estudo de 2019, conduzido entre pessoas saudáveis, mostrou que algumas eliminam mais gotículas enquanto falam (provavelmente, por falar mais alto), e que cantar libera mais gotículas. O comportamento também influencia, na medida em que a falta de higiene das mãos, lugares fechados e os contatos sociais aumentam a probabilidade de transmissão.

**DRAUZIO VARELLA

OUTROS OLHARES

A PROLIFERAÇÃO DOS TESTES

Depois de semanas em que era quase impossível conseguir agendar um exame, agora há uma profusão deles – nem todos confiáveis

À medida que crescem os casos de contágio de coronavírus e de mortes pela Covid-19, aumenta também a oferta de testes para detectar a doença. No estágio atual da pandemia no Brasil, quando muitas cidades apresentam planos de flexibilização da quarentena, essa alta da capacidade de testagem é uma ótima notícia. Até o começo de junho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tinha concedido registro a 134 testes — 106 deles importados, a maioria de países asiáticos, onde a pandemia começou. Há um mês e meio, o número era um terço disso. Se somados os pedidos em análise e os negados, a Anvisa já recebeu cerca de 450 solicitações.

A expansão da oferta por várias empresas é bem-vinda porque nenhuma sozinha teria condições de abastecer totalmente o mercado. “Essa é uma doença nova, não existia um diagnóstico e até hoje não há um medicamento específico ou vacina. Então é natural que a indústria tenha se mobilizado para desenvolver os testes e natural que fosse aumentar a concorrência”, explicou Priscilla Franklin Martins, diretora executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

A questão é que, como em todo mercado, no de testes há diferentes produtos com distintos níveis de qualidade e eficácia. A Abramed já recebeu denúncias de quiosques para testagem duvidosa em postos de gasolina, de testes piratas e até de farmácia que vendia exame para a pessoa levar para fazer em casa, como se fosse teste de gravidez (a leitura para o chamado sars-CoV-2, designação do novo coronavírus, é bem mais complexa do que um ou dois tracinhos). Além disso, não raro o público leigo, que já lida com medo e desinformação sobre o novo coronavírus, se vê perdido em meio à variedade de testes possíveis e às diferentes indicações, que variam de acordo com o tempo de sintomas ou de contato com uma pessoa infectada.

Especialistas são unânimes em dizer que é preciso testar a população. Mas com o teste certo. “Mais importante do que ter muitos testes é ter aqueles que forneçam informação adequada. A aplicação indiscriminada de testes sem qualidade deve ser uma preocupação”, alertou José Luiz Gomes do Amaral, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM).

Os exames oferecidos comercialmente hoje no Brasil para Covid-19 se dividem em dois universos. O primeiro são os chamados testes moleculares, que detectam a presença direta do vírus no organismo. O principal é o chamado teste RT-PCR, ou PCR em tempo real, que usa amostras colhidas das vias respiratórias do paciente com uma espécie de cotonete. Foi com essa técnica, por exemplo, que médicos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, depois de pesquisar em laboratório métodos de teste para identificar o novo coronavírus, chegaram ao diagnóstico do primeiro paciente confirmado com Covid-19 no país, noticiado em 26 de fevereiro. É um exame apurado e preciso, mas que também exige estrutura física e tecnológica específica, além de reagentes importados — o que gerou limitações de expansão no momento em que havia uma corrida mundial pela compra desses insumos de testagem.

Com a disseminação dos casos no Brasil, e considerando que o PCR não seria aplicado em massa por causa de complexidade, custo da tecnologia e necessidade de insumos específicos, abriu-se espaço para outro grupo de testes, os chamados testes de anticorpos. São exames sorológicos, isto é, por meio de um exame de sangue, o laboratório analisa se o paciente teve contato com o novo coronavírus não pela presença do vírus, mas de anticorpos produzidos pelo organismo a partir do contato com ele. É um método mais barato e acessível, embora considerado de menor sensibilidade e especificidade. Entram também nesse grupo os chamados testes rápidos. A análise de anticorpos é feita com o sangue de uma “furadinha” na ponta do dedo. São ainda mais velozes — os resultados podem ser lidos em 15 minutos —, mas também mais imprecisos: a quantidade de falsos negativos é maior em comparação aos testes moleculares e exigem profissionais treinados para a interpretação dos resultados.

A questão-chave para entender a diferença entre os testes disponíveis para Covid-19, porém, é compreender que as indicações são distintas. Os testes moleculares são indicados para identificar infecção ativa. Se a pessoa teve contato com o vírus há poucos dias e começou a apresentar sintomas, faz o teste molecular. Os testes sorológicos são mais indicados para apontar se a pessoa já teve contato com o vírus e se desenvolveu anticorpos. Por isso, precisam ser feitos passado mais tempo do surgimento de sintomas, com 14 dias ou mais de intervalo.

No caso dos testes rápidos, a janela para testagem costuma ser entre o sétimo e o décimo dia. São os testes que podem orientar as autoridades, por exemplo, no entendimento do alcance e da disseminação da doença entre a população. Desde o início da epidemia no país, o governo federal comprou milhares desses testes, importados, com prioridade para testagem de profissionais de saúde e agentes de segurança. Antes de serem distribuídos, os testes passaram por análise pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), da Fiocruz.

Por um lado, ganha força o desenvolvimento de novos testes moleculares, que analisam a presença do vírus, mas com métodos diferentes do PCR. Na segunda quinzena de junho, o Einstein começará a aplicar um método de sequenciamento genético de nova geração do novo coronavírus. A tecnologia foi desenvolvida em dois meses dentro do próprio hospital, que aproveitou a ociosidade de máquinas de diagnóstico de outras doenças — sua utilização havia caído pela metade com a atual pandemia. “Nessa necessidade de aumentar a capacidade de testagem, começamos a buscar métodos alternativos que não os tradicionais em testes moleculares. Nosso olhar se voltou para máquinas de medicina de precisão, usadas normalmente para testes de genoma, prevenção de risco de câncer, testes farmacogenéticos etc., que estavam ociosas no laboratório. E resolvemos aplicar essa tecnologia para sequenciar pedaços do genoma do novo coronavírus”, explicou Cristóvão Mangueira, diretor do Departamento de Patologia Clínica do Einstein.

O teste sequencia fragmentos do RNA do novo coronavírus, em um método parecido com o do PCR, mas com outros equipamentos. Segundo os responsáveis, é ainda mais ágil no processamento das amostras. “Como ele processa até 1.500 amostras simultaneamente, com especificidade de 100%, consegue baixar muito o custo do exame”, acrescentou. Já no campo dos testes sorológicos, a corrida tem sido por aumentar a especificidade dos exames para identificar o novo coronavírus, detectar a carga viral e evitar falsos negativos. A sensibilidade para diagnóstico de sars-CoV-2 varia muito entre os testes disponíveis no mercado. A expansão dos sorológicos também coincide com o fato de que, por serem uma tecnologia mais acessível, são considerados os de maior custo-benefício para autoridades e empresas quando se fala em testar milhares de pessoas na discussão de retomada de atividades no país. O exame pode ajudar a identificar quem já desenvolveu certo nível de imunidade e poderia retornar ao trabalho — embora não seja consenso entre especialistas a discussão sobre um “passaporte de imunidade” em uma doença nova e com estudos sobre relatos de reinfecção.

“O Brasil ainda está atrás na testagem em comparação a outros países. E é fundamental, para uma volta à vida normal, ter um raio X de como estamos em termos de contaminação e geração de anticorpos. Isso passa por aumentar a testagem, educar sobre protocolos”, disse o presidente da Roche Diagnóstica no Brasil, Antônio Vergara. A empresa é uma das que acabam de conseguir aprovação da Anvisa para comercializar um novo teste sorológico para Covid-19. Realizado por coleta de sangue, o exame detecta a presença de anticorpos (os chamados IgM e IgG) para o novo coronavírus.

Os testes sorológicos são os que mais demandam pedidos de regulação atualmente na Anvisa. A agência diz que tem priorizado a agilidade na análise das solicitações. Mas nem todas passam por ela. É possível encontrar hoje, no país, produtos que tenham sido importados e adquiridos de acordo com uma lei surgida à luz da pandemia que autorizou a importação de produtos sujeitos à vigilância sanitária de forma excepcional e temporária — e desde que tenham sido registrados por uma autoridade sanitária estrangeira e estejam previstos em ato do Ministério da Saúde.

É apenas o primeiro passo para uma utilização segura. Depois do registro, cabe a laboratórios comprovar a validação e eficácia do teste. O Grupo Fleury, por exemplo, testou mais de dez marcas registradas de testes sorológicos até se decidir por qual usaria. E, recentemente, desenvolveu com tecnologia própria um método de teste molecular, que usa reagentes diferentes do PCR, e com foco em testagem em áreas remotas do país. “O RNA é uma molécula frágil, delicada. Temos de pegar o material do paciente, manter em temperatura baixa até chegar ao laboratório e realizar o teste. Se demorar muito, o material pode se danificar e testar falso negativo, ou ser inconclusivo. O que fizemos então foi desenvolver um teste que detecta outra parte do vírus, mais estável, que aguenta melhor variações de temperatura e tempo”, explicou o infectologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury. A ideia é que o teste seja aplicado fora de grandes centros como Rio de Janeiro ou São Paulo, onde as facilidades para testagem estão acima da média da realidade brasileira. “Não é um exame criado para competir com o PCR. É para viabilizar que determinadas áreas do Brasil possam testar suas populações”, completou.

Novos testes continuarão surgindo, à medida que a doença não arrefece. “Partindo do pressuposto de que são validados em relação à eficácia, nenhum teste é ruim, sejam PCR ou sorológicos. Mas é preciso cautela. E entender a indicação e o período em que os testes devem ser feitos”, concluiu Priscilla Martins, da Abramed. A associação lançou recentemente um programa próprio de validação de testes. Também recomenda, a empresas que optam pelos sorológicos para seus funcionários, que busquem parcerias com laboratórios e profissionais qualificados para uma utilização segura. O mesmo vale para o público em geral. “A melhor pessoa para definir o teste a fazer é o médico. É ele quem tem autonomia para prescrever o exame a partir da conversa com o paciente, do entendimento dos sintomas e do tempo de contato”, disse Martins.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE JUNHO

TEMPERAMENTO CONTROLADO PELO ESPÍRITO

Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira (Efésios 4.26).

O nosso maior problema não é com a ação, mas com a reação. Podemos conviver pacificamente com alguém quando somos respeitados. Mas como reagimos quando somos insultados? O rei Salomão adverte: A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira (Provérbios 15.1). Note que Salomão não diz que a palavra branda desvia o furor, mas que a resposta branda o faz. Nesse caso, a pessoa que dá a resposta já foi agredida e insultada. Uma lei da física determina: “Toda ação provoca uma reação igual e contrária”. Essa lei da física não pode governar nossa vida espiritual. Não somos seres automatizados. Não somos governados por nosso temperamento, prontos a reagir com a mesma veemência que a ação chegou até nós. Não podemos pagar o mal com o mal. Não podemos falar mal daqueles que falam mal de nós. Jesus nos ensinou que, se alguém nos ferir uma face, devemos voltar a outra face. Se alguém nos forçar a andar uma milha, devemos caminhar duas. Se alguém nos tomar a túnica, devemos dar também a capa. Jesus não está falando de ação, mas de reação. Quando nosso temperamento é controlado pelo Espírito, podemos ter reações transcendentais. Podemos ter o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus. Podemos dar respostas brandas àqueles que nos insultam com palavras rudes. Podemos abençoar aqueles que nos amaldiçoam. Podemos orar por aqueles que nos perseguem. Podemos vencer o mal com o bem.

GESTÃO E CARREIRA

OS ABUTRES ESTÃO CHEGANDO

Com o aumento da inadimplência e das recuperações judiciais, fundos especializados em ativos estressados se preparam para atacar os ativos de empresas brasileiras

Crises costumam deixar os mercados de fusões e aquisições em polvorosa. No Brasil, a Covid-19 produz um efeito potencializado, uma vez que o desempenho econômico tem sido sofrível desde 2014. Em meio a esse cenário adverso, um grupo bem específico de investidores saiu à caça de empresas agonizantes, mas com condições de se recuperar. São os chamados fundos abutres, que compram participação em companhias ou ativos de dívidas a um valor irrisório, em troca de mantê-las de pé. A oferta é tão grande que até empresas desesperadas por liquidez têm buscado tais fundos. “Geralmente somos nós que vamos atrás de oportunidades de compra, mas nos últimos 100 dias o meu telefone não parou de tocar”, diz um funcionário da Canvas Capital, uma gestora especializada naquilo que costuma ser chamado de mercado de ativos estressados (ou distressed, em inglês).

A dinâmica desse tipo de investimento é regida por uma tese clássica desse setor, simbolizada pela letra “U”: em momentos de crise os preços dos ativos caem, tornando-se boas oportunidades de compra, e sobem no longo prazo, com a estabilização da economia. Esses fundos e investidores famintos se relacionam com bancos, governos, gestoras de crédito e principalmente com o sistema judiciário, por onde tramitam os processos de recuperações e falências. Em geral, buscam empresas que precisam de dinheiro rápido. Foi esse tipo de acesso que permitiu ao economista Guilherme Ferreira abrir a plataforma digital Jive, uma investidora em empresas claudicantes. Ferreira trabalhava no Lehman Brothers, em Nova York, até que a crise do subprime de 2008 levou o banco à falência. Com os recursos que tinha, a Jive comprou uma carteira com créditos podres de empresas brasileiras por cerca de 3,2% de seu valor original. A partir de 2011, com a retomada da economia, recuperou o valor da carteira.

A compra de dívidas, chamada de securitização, é a principal forma de atuação desses fundos. E, para eles, 2020 é um ano de abundância. Segundo cálculos da Jive, o total de dívida corporativa que deixará de ser paga neste ano dobrou desde junho de 2019. Com a pandemia do coronavírus, os fundos abutres têm demonstrado peculiar apetite na aquisição de nacos (ou a totalidade, se convier) de empresas em setores competitivos, mas fortemente impactados pela crise, como rodovias, aéreas, sucroalcooleiras, educação e turismo. A Serasa Experian estima que será registrado um número recorde de pedidos de recuperação judicial em 2020, acima dos 1.863 casos em 2016, criando o banquete perfeito para esses fundos. E, com a queda abissal da Selic, reduzida para 2,25% ao ano na quarta-feira 17 pelo Comitê de Política Monetária, os abutres estão recebendo grandes fluxos de recursos de investidores que não querem mais a baixa rentabilidade do Tesouro. “Os fundos estão com seus caixas reforçados e prontos para as oportunidades,” diz Carlos Priolli, sócio do escritório Alvarez & Marsal. Recentemente, o fundo Latache, comandado por Renato Azevedo, fez uma operação que chamou a atenção dos principais agentes desse mercado.

A gestora comprou, em maio, uma participação indireta de 50% da Concessionária Rodovias do Tietê, de propriedade dos grupos Bertin e Atlantia. De acordo com fontes ouvidas, não houve custo de aquisição para a Latache, porque o fundo assumiu os passivos e as obrigações de investimento. Após a crise de 2014, muitos fundos compraram participações em empresas brasileiras quebradas, como é o caso do americano Lone Star e da gestora Castlelake, que concederam um empréstimo milionário em 2017 para a Atvos, braço de etanol da Odebrecht. Hoje há uma grande briga na Justiça para assumir o controle da empresa. Um executivo envolvido na transação explica que experiências como essa traumatizaram os fundos internacionais porque a Justiça brasileira é vista como lenta e muito favorável aos devedores. A avaliação é que, enquanto o processo se desenrola, a empresa comprada se desvalorizou nos últimos três anos. “Hoje a posição da Lone Star, que opera 90 bilhões de dólares no mundo, é resolver esse problema e provavelmente nunca mais olhar para o Brasil”, diz o executivo. Evidentemente, é um negócio que tem seus riscos. Apesar dos sobressaltos, corra e olhe o céu: os abutres já despontam acima da nossa cabeça.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A QUÍMICA DA TEIMOSIA

Novo estudo identifica os processos neurais que dificultam mudanças de opinião depois que uma ideia se cristaliza no cérebro (e haja dificuldade para mudá-la)

Poucas rivalidades na história do capitalismo – e certamente nenhuma na indústria da tecnologia – foram tão intensas, divertidas e fecundas quanto a que marcou a trajetória de Bill Gates, fundador da Microsoft, e Steve Jobs (1955-2011), criador da Apple. Durante pelo menos três décadas, os dois gênios transitaram entre os campos do antagonismo profissional e da inveja pessoal pura e simples, disputando o domínio do mercado e a reverência da sociedade, enquanto a corrida tecnológica fervilhava. Eles não poderiam ser mais diferentes. Gates era um nerd tímido. Jobs, um hippie contestador. Cada um ao seu modo, influenciaram milhões de pessoas e acabaram, mesmo que sem a intenção, transferindo a oposição entre eles para os fãs. No decorrer dos anos 1990 e 2000, no auge da rivalidade, os applemaníacos torciam o nariz para qualquer lançamento da Microsoft. No outro lado do ringue, os admiradores de Gates desprezavam os produtos da empresa da maçã. Os dois grupos jamais mudariam de opinião, mesmo se estivessem diante de uma grande obra: na cabeça deles, estava nitidamente cristalizada a ideia de que, se a Apple era boa, a Microsoft deveria necessariamente ser ruim – e vice-versa. De maneira simplificada, essa visão de mundo poderia ser traduzida como uma típica teimosia.

Um estudo publicado pela revista científica britânica Nature e conduzido por pesquisadores da University College London apontou, pela primeira vez, os processos neurais que levam à dificuldade de mudança de opinião depois que um conceito se solidifica no cérebro. Não seria exagero afirmar, portanto, que os cientistas descobriam o que está por trás do cabeça-dura, aquele sujeito que jamais altera seu ponto de vista, mesmo se todas as evidências mostrarem o contrário do que ele pensa. No estudo, 75 voluntários precisavam decidir se uma nuvem de pontos pretos estava se movendo para a esquerda ou para a direita. Depois, eles indicaram até que ponto estavam seguros sobre aquela escolha. Na sequência, os participantes receberam mais informações sobre os pontos pretos, que deixaram mais claro qual era a direção correta. Contudo, aqueles que indicaram níveis mais altos de confiança sobre a primeira decisão não absorveram os dados adicionais que poderiam corrigir um erro de avaliação – reação conhecida como “viés de confirmação”. Com um scanner de magneto encefalografia, os pesquisadores acompanharam a atividade cerebral durante o processo de tomada de decisões. A explicação para o comportamento se tornou química: o cérebro apresentou “pontos cegos” quando recebeu informações contraditórias, mas continuou sensível àquelas que confirmavam a escolha inicial.

A pesquisa se diferencia por demonstrar que o viés de confirmação existe até mesmo no caso de uma atividade extremamente simples, como acompanhar pontos pretos na tela de um computador, de acordo com o psicólogo e neurocientista Max Rollwage, o principal autor do estudo. “A falta de elementos complexos, como ideologias e relações afetivas, mostra que o processo é central dentro de um mecanismo muito básico”, disse ele. Em situ ações mais abrangentes, como a maneira de as pessoas interpretarem informações sobre a pandemia da Covid-19, por exemplo, pode ser ainda mais difícil mudar de opinião. “Evidências científicas sobre o coronavírus evoluem rapidamente e é preciso absorver as atualizações e mudar comportamentos e crenças de acordo com as novas constatações”, afirma o especialista. Nesse caso, portanto, os conceitos preestabelecidos estão tão arraigados no cérebro que o indivíduo resiste a absorver percepções diferentes.

A psicologia do comportamento humano é descrita há muito tempo na literatura universal e desde os anos 1960 existem relevantes estudos científicos sobre o assunto. A novidade agora é que os pesquisadores conseguiram esclarecer de que forma a química da teimosia se manifesta na mente. ”Até o nosso estudo, uma das hipóteses era que as pessoas recebiam informações conflitantes, mas poderiam escolher desprezá-las”, diz Rollwage. “Com a avaliação dos mecanismos neurais, mostramos que, em determinado ponto de confiança sobre uma crença, o cérebro simplesmente não processa as novas informações.” Isso pode explicar por que os negacionistas do aquecimento global mantêm suas convicções apesar dos cada vez mais irrefutáveis argumentos científicos, ou por que os terraplanistas sustentam que a Terra não é redonda apesar das estonteantes imagens de satélites que confirmam, evidentemente, que o planeta é uma imensa bola azul. Lógica idêntica ajuda a entender, na política, os motivos para a polarização radical, que não cede espaço a visões mais moderadas. Mesmo se houver provas em contrário – denúncias de corrupção, flertes com o autoritarismo – os cabeças-duras não abandonam seus políticos de estimação, sejam eles de direita ou de esquerda.

Os conceitos estabelecidos por grupos sociais são ainda mais difíceis de mudar. “A característica fundamental do ser humano é formar coletivos”, diz Paulo Boggio, psicólogo e coordenador do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Dentro dos grupos, diz Boggio, a ideia de sobrevivência e a aproximação com aqueles similares a nós levam as pessoas a pensar de maneira parecida. Com o passar do tempo, as convicções semelhantes são reforçadas em conjunto e acabam se tornando pilares complicados de derrubar. É exatamente esse mecanismo que alimenta as torcidas de futebol, com o seu fanatismo que muitas vezes resulta no ódio ao rival (e, infelizmente, em cenas de violência). O mesmo conceito está por trás de grupos extremistas, radicais religiosos e facções de todos os tipos, incapazes de compreender ou ao menos escutar o outro. Com o cérebro programado por ideias preconcebidas, os integrantes dessas comunidades são impermeáveis a mudanças de comportamento.

Nem sempre, porém, é possível estabelecer uma resposta certa ou errada para muitas questões. Nas sociedades livres, a diversidade de opiniões e o debate entre pessoas que pensam de forma diferente são a maneira de chegar a um consenso e evoluirem pontos divergentes. Também é preciso dizer que, desde que uma ideia não provoque danos a princípios civilizatórios, ela pode ser defendida até o fim. Não são raras as ocasiões em que a teimosia demonstra seu valor. A inglesa J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter, teve seus originais rejeitados por doze editoras antes de se tornar uma recordista em vendas de livros. Grandes gênios da inovação igualmente sofreram com o desdém de outros e, não fosse a irredutível obstinação, produtos como o iPhone, de Steve Jobs, ou o Windows, da Microsoft, talvez ficassem pelo caminho. Sem a insistência típica dos vencedores e a sequência de erros e acertos que constitui a construção do pensamento científico, o mundo certamente seria um lugar pior. A teimosia, porém, não faz sentido quando sustenta convicções comprovadamente equivocadas. Por mais que o cabeça-dura não acredite, a Terra é redonda, o planeta está aquecendo e Jobs e Gates produziram obras extraordinárias.

EXEMPLO BIZARRO DE CABEÇA-DURA

Protagonista de A Terra É Plana, documentário da Netflix, o americano Mark Sargent é um caso extremo (e equivocado) de pessoa que insiste em suas crenças e não muda de opinião. Apesar de todas as evidências, ele continua defendendo o terraplanismo.

A missão tripulada SpaceX transmitiu da órbita da Terra novas imagens do planeta – e ele é redondo. Como duvidar de uma evidência como essa? Você chama de evidência, eu chamo de péssimo teatro. Os Estados Unidos estão fazendo filmes há anos, inclusive vários ambientados no espaço, como 2001: uma Odisseia no Espaço, de 1968. Esse filme foi feito um ano antes de a Apollo 11 supostamente pousar na Lua. Nós não acreditamos na SpaceX. Nós nem a levamos a sério.

Também duvida que o foguete levantou voo em Cabo Canaveral? O lançamento do foguete é real, mas ele não sobe em linha reta.

Os terraplanistas dizem que “eles” querem esconder a verdade. Quem são eles? Se você perguntar para as pessoas que acreditam em conspirações quais são os dez grupos mais atuantes, elas dirão alguns nomes como a família Rothschlld, o Vaticano e a Maçonaria.

Como a Terra pode ser plana? A ciência diz que estamos nesta pequena rocha coberta com um pouco de água e fumaça, voando pelo espaço em diversas direções e velocidades. Não é diferente de um estúdio de Hollywood, só que muito maior. Algo parecido com aquele cenário do filme O Show de Truman. Tudo o que você vê no teto, em cima de nós, como as estrelas, os planetas, o Sol e a Lua, são apenas imagens no céu.

Ao questionar a ciência, não teme incentivar as pessoas a duvidar de coisas Importantes como a eficiência das vacinas? Essa pergunta é uma pegadinha. Sim, vacinas são importantes, mas as empresas que fazem as vacinas ganham muito dinheiro.