EU ACHO …

COMO O MUNDO, PROFESSORES NUNCA MAIS SERÃO OS MESMOS

Diante do cenário que estamos vivenciando, os desafios são gigantes para a educação como um todo e para os professores em particular. O mundo está se transformando e não voltaremos “ao normal”, pois o normal será uma nova realidade, muito diferente do que estávamos vivendo até a pandemia de covid-19. O mundo, provavelmente, não será o mesmo. A Educação e os professores também não. São muitos os aspectos que devem ser levados em consideração, como também, as inúmeras incertezas: durante quanto tempo as escolas ficarão fechadas? Como será a regulamentação? Como garantir a qualidade e o cumprimento do currículo? Como engajar alunos e famílias nesse nosso modelo? Mas, deixando de lado as incertezas e sobre as quais não temos domínio, vamos focar especialmente no papel do professor, que precisa se reinventar para continuar cumprindo sua missão de mediar a aprendizagem dos estudantes.

O processo de ensino e aprendizagem se transforma neste contexto. As formas habituais de lecionar precisam ser revistas. É preciso modificar o planejamento pedagógico e encontrar alternativas para envolver, motivar e propiciar o desenvolvimento dos estudantes, mesmo que a distância. A profissão de professor envolve muita relação interpessoal e acolhimento. Talvez aqui esteja a maior perda. A falta do olho no olho e das interações entre professores e alunos assim como entre alunos e os colegas. Um dos principais desafios é adequar aulas, materiais e atividades para outro modelo que não o presencial. Muitas tecnologias estão sendo disponibilizadas neste momento de crise. É uma avalanche de informações, o que torna muito difícil encontrar a melhor solução para atender a essa necessidade não planejada de ensinar além dos muros da escola.

Apesar de a grande maioria dos professores utilizar regularmente as tecnologias no dia a dia, a situação fica mais complicada quando se trata de conhecer e dominar novas ferramentas e metodologias para adaptar as aulas a um novo formato. Isso exige um tempo que não temos. Inclusive, muitas escolas no país estão definindo férias de vinte dias para que suas equipes se preparem melhor e desenvolvam conteúdos e dinâmicas adequados para as aulas a distância. Outro grande desafio é a falta de infraestrutura necessária para aulas a distância nos lares, especialmente em se tratando de estudantes da escola pública. Essa questão, de homeschooling, não pode ficar à margem, pois temos que garantir uma educação não excludente. A falta de tempo e preparo das famílias para mediar a realização de atividades pedagógicas torna a situação do ensino ainda mais complexa.

Existe o fato, ainda, de que os desafios são diferentes para alunos das diferentes faixas etárias, já que é possível adaptar recursos para atender desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Porém criatividade, objetividade e simplicidade são os postos-chave para este momento, independentemente da idade dos estudantes. A crise consolidou algo que já sabemos: alunos estão mostrando que as instituições formais de ensino já não são mais os principais locais para buscar informações e aprender. Portanto, precisamos reinventar a escola como espaço relevante de aprendizagem para que cumpra seu papel de formar estudantes a fim de interagir com criatividade, ética e responsabilidade na sociedade em que estão inseridos.

As tecnologias digitais podem ajudar a tornar esse desafio menos estressante para todos os envolvidos nos processos de ensinar e aprender. Plataformas adaptativas, por exemplo, permitem ao estudante seguir o próprio caminho de aprendizagem de uma forma mais autônoma, seja recuperando dificuldades individuais ou avançando para conceitos mais complexos. Os dados coletados no decorrer da realização das atividades auxiliam o professor a acompanhar, mesmo que a distância, o desempenho de cada aluno e a intervir quando a mediação se faz necessária. É apenas um exemplo de como os tão propalados Big Data e Inteligência Artificial podem ajudar o #FiqueEmCasa a ser mais produtivo e envolvente.

Oferecer conteúdo relevante, bem dosado, com interação e uma rotina de produção para que os alunos participem de forma ativa das atividades, compartilhando ideias e dando devolutivas, pode assegurar maior interesse e compreensão dos conceitos abordados. Metodologias ativas, educação 4.0, autonomia do aluno, temas voltados para educação e amplamente discutidos em congressos, seminários, simpósios entre outros eventos agora ganham destaque e é o momento para colocá-los em prática.

O professor, depois do covid-19, assim como qualquer um de nós (inclusive os estudantes), será um profissional mais preocupado com o outro, que valoriza as relações interpessoais. A principal transformação que a crise nos trará está ligada ao envolvimento, engajamento e determinação para fazer e ser diferente. Quando as aulas presenciais retornarem, o professor certamente estará mais antenado às estratégias diferenciadas e ao novo. Será capaz de enxergar, avaliar e aliar o interesse dos alunos aos recursos usados em sua prática pedagógica diária. Isso proporcionará mais dinâmicas para aulas, engajamento dos alunos e, consequente, mais aprendizagem. Estamos prestes a vivenciar a decolagem da Educação 4.0 no Brasil, definitivamente.

** REGINA SILVA é diretora pedagógica da unidade de tecnologia educacional da Positivo Tecnologia e especialista nas soluções para escolas disponíveis em http://tecnologia.educacional.com.br

OUTROS OLHARES

 OS PRIMEIROS SINAIS DE LIBERDADE

O mundo começa a sair da quarentena em meio à pandemia. A experiência lá de fora mostra que o retorno deve ser gradual e cercado de regras, o que não tira o legítimo prazer de pôr o pé na rua (ou nas praias, nos shoppings, cinemas, restaurantes…)

Parece sonho. Depois de mais de dois meses vendo o sol pela janela do apartamento ou, no máximo, do jardim de casa e convivendo com as mesmas pessoas – cada vez mais entediadas, cada vez mais entediantes -, boa parte da população do planeta começa enfim a pôr o pé na rua. Esse primeiro passo é cuidadoso, tateante e cercado de regras. E não é para qualquer um – ou, pelo menos, não deveria ser. Estão aptos à onda de liberdade vigiada os locais que só relaxaram as imposições quando a curva da pandemia dava uma trégua, a taxa de transmissão do vírus abrandava e o sistema hospitalar desafogava, o que abrange populações na Ásia e na Europa. Não estão prontas, mas mesmo assim já puseram a roda para girar, várias cidades nos Estados Unidos e no Brasil, países onde o número de vítimas está em linha ascendente, mas os governos acharam por bem correr riscos. “A liberação aqui é precipitada. Recomendo que seja feita com o máximo de responsabilidade e rigor”, alerta o epidemiologista Roberto Medronho. Dado o aviso, a perspectiva de sacudir o bolor do confinamento e voltar a ser dono de seu destino enche de gente e de animação lugares onde seres humanos não pisavam fazia tempo.

Sendo quase verão na Europa, e sendo os europeus adoradores do sol e do calor, as praias de lá estão no topo do processo de abertura lenta e gradual para a vida normal. Quase todas já foram liberadas, desde que se reparta a areia com responsabilidade: distância entre as barracas, máximo de quatro a dez pessoas em cada uma, obediência de mão e contra mão e comércio zero de alimentos e bebidas – quem quiser leva o seu e volta com o lixo para casa. Portugal tem sinal verde, amarelo e vermelho para indicar o nível de ocupação. A Itália cogita em exigir reserva prévia de espaço. O Rio de Janeiro, depois de 79 dias sob isolamento social, começou na terça-feira 2 a afrouxar as normas, por meio de um plano em seis fases de quinze dias cada uma, até o fim de agosto. Já valem programas ao ar livre, inclusive caminhar no calçadão e entrar no mar para nadar ou surfar. Tomar sol, não – mas muitos foram direto se aboletar na areia, reforçando a veia de indisciplina capaz de, perigosamente, estragar qualquer cronograma.

A liberação das praias na Europa, por mais que agrade à população local, tem o objetivo mais amplo de religar o motor da indústria do turismo, que responde por cerca de 10% do PIB da União Europeia (UE) e que foi posta na UTI, em estado gravíssimo, pelo novocoronavírus. As expectativas, no momento, estão concentradas na movimentação interna, embora a reabertura das fronteiras entre integrantes da UE esteja marcada para 15 de junho. Detentor de um dos melhores registros de controle da Covid-19 no continente, Portugal começou a retomada da vida normal cedo, em 4 de maio, e está na fase 4 do processo, com restaurantes, cafés, museus, palácios e monumentos funcionando. Fases e cores, aliás, estão no cronograma de todas as trilhas do desconfinamento.  A Espanha se encontra na fase 2, com estabelecimentos fechados e locomoção entre cidades severamente limitada pelo menos até o fim de junho. “A recuperação ainda vai demorar”, constata Inés Miró-Sans, dona do hotel Casa Bonay, em Barcelona – cidade que recebeu 12 milhões de visitantes em 2019, dos quais 83% estrangeiros. Ah, bons tempos. Para onde quer que se viaje na pós-pandemia, a Comissão Europeia requer das empresas menor número de passageiros e check­ in e retirada de bagagens sem aglomerações, além de medição de temperatura em massa – uma medida positiva que o Aeroporto de Brasília, outra cidade brasileira apressada em acabar com o isolamento, já implantou. Os termômetros também são item de primeira necessidade nas escolas que já reabriram na Coreia do Sul, divisórias de acrílico separam as carteiras.

Na vida cotidiana dos europeus, a maior preocupação das autoridades é conter o entusiasmo de quem estava louco para sair à rua e encontra r os amigos – o ponto de partida para os temidos repiques da Covid-19. “As pessoas querem esquecer a tragédia que viveram e estão se sentindo seguras demais. Isso é perigoso”, diz o epidemiologista italiano Marco Vinceti. ” Repito todos os dias para minha família: cuidado, cuidado e cuidado.” As lojas reabriram em boa parte do continente. As de roupa, na Itália, têm de fornecer luvas aos clientes que quiserem tocar nas peças. Ar condicionado está proibido em toda parte, pelo potencial de transportar e espalhar o vírus. “Voltar à normalidade é como reaprender a andar: um passo de cada vez”, comparou o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte. A frequência é limitada a 40 %, 50% do espaço útil e os provadores sumiram, o que levou grifes como Zara e H&M a facilitar a política de trocas. Na maioria dos shopping centers, marcas no chão indicam o sentido a seguir e até os pontos de ultrapassagem. O acesso a banheiros ficou muito mais restrito.

No capítulo entretenimento, a ida a cinemas e teatros se tornou uma experiência sem precedentes. Nas salas já abertas – Reino Unido e França ainda não permitiram – há mais assentos vazios do que ocupados, sempre comprados on-line, já que as bilheterias foram suprimidas. No esporte, nem isso: os campeonatos de futebol estão sendo retomados com estádios vazios. As normas contra aglomerações nos locais de lazer deram origem a um fenômeno na Europa – a reabilitação dos drive-ins para tudo, de filmes a apresentações de DJs. Para regozijo da população em geral, e dos franceses em particular, os bares e cafés reabriram as portas, a maioria atendendo só na calçada”. A liberdade voltou a ser a regra e as restrições, a exceção”, comemorou, com certo exagero, o primeiro-ministro Édouard Philippe na terça-feira 2. No Reino Unido, os pubs e restaurantes permanecem fechados, mas as reuniões em casa estão autorizadas, desde que não passem de seis pessoas ao ar livre, cada um com sua cadeira e poucas e rápidas idas ao banheiro –  a única desculpa para entrar na casa. Do governo britânico partiu uma das propostas mais invasoras de intimidade de que se tem notícia em tempos de pandemia: casais que moram em casas diferentes não podem passar a noite juntos. Apesar das ruas e parques mais cheios do que o recomendado, as determinações têm sido respeitadas. “A maioria dos europeus tem disciplina, e quem não concorda cumpre as regras do mesmo jeito, por causa da fiscalização”, diz Narcisa Quiles, professora de imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madri.

Transportados para o Brasil, que tem mais de 600.000 contaminados e passou dos 30.000 mortos, o relaxamento da quarentena e a retomada das atividades deixam os especialistas preocupados. “Corremos o risco de uma explosão de casos, daí a necessidade de as pessoas manterem o freio”, explica Rafael Galliez, professor de doenças infectocontagiosas da Faculdade de Medicina da UFRJ. O retorno à normalidade requer estatísticas monitoradas e prazos revistos ao menor sinal de risco. “Considero os planos de abertura do Rio e de São Pauto coerentes e consistentes”, afirma o epidemiologista Medronho – desde que as regulamentações saiam do papel. No Rio, hotéis, concessionárias e lojas de móveis e de decoração já funcionam (com resultados financeiros ainda pífios, claro). Em São Paulo, shoppings e escritórios devem voltar à vida até 15 de junho. Em um primeiro momento, vão funcionar quatro horas por dia e ocupar um quinto de seu espaço. Uma das primeiras cidades a adotar medidas restritivas de circulação, Brasília também saiu na frente na retomada do comércio. Aprove-se ou não, as portas no Brasil es tão se abrindo. Por mais forte e legítimo que seja o suspiro de alivio, contudo, ninguém pode baixar a guarda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 14 DE JUNHO

ALEGRIA INDIZÍVEL E CHEIA DE GLÓRIA

A quem não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória (1Pedro 1.8).

O apóstolo Pedro escreveu aos crentes dispersos e forasteiros da Ásia Menor. Era um tempo de grande sofrimento. As perseguições patrocinadas pelo imperador Nero já haviam começado. Os crentes enfrentavam variadas perseguições. Porém, no meio desse fogo de prova, os crentes deveriam regozijar-se na salvação com alegria indizível e cheia de glória. O mundo anseia por alegria. As pessoas investem dinheiro procurando comprar a alegria. Mas onde está a alegria? Nas aventuras sexuais? Nas bebidas requintadas? Nos banquetes fartos? Nas vestes caras? Nas riquezas deste mundo? No luxo extremado? Muitas pessoas experimentam todas essas coisas e continuam infelizes. Outras, entretanto, mesmo desprovidas dessas coisas, experimentam uma alegria indizível e cheia de glória. A verdadeira alegria é mais que um sentimento. É mais que uma emoção. A verdadeira alegria é uma pessoa, é Jesus. Aqueles que o conhecem e desfrutam de sua salvação experimentam uma felicidade maiúscula e superlativa. Aqueles que tomam posse da salvação e nutrem na alma uma esperança viva desfrutam da alegria que não pode ser comunicada com palavras, uma alegria gloriosa. Você é uma pessoa feliz? Conhece essa alegria indizível e cheia de glória? Tem usufruído dessa alegria? Tem-se fartado desse banquete de Deus? Agora mesmo você pode tomar posse dessa alegria. Ela é uma iguaria deliciosa no lauto banquete da graça.

GESTÃO E CARREIRA

A SOLIDARIEDADE QUE TRANSFORMA

Iniciativa da XP Inc., o projeto Juntos Transformamos já destinou R$ 32 milhões em recursos para atenuar os efeitos da pandemia. Além das doações, o movimento busca inspirar novas atitudes. A live com o visionário Chris Gardner é um exemplo.

É um clichê afirmar que a vida de determinada pessoa daria um livro ou filme. Pois a de Chris Gardner rendeu ambos — e muito mais. Sua incrível jornada pessoal foi narrada na autobiografia À procura da felicidade, best-seller adaptado para o cinema em um tocante longa-metragem estrelado pelo ator Will Smith. A trama conta a história real de provações e superação de um pai de família negro, de origem humilde e que, como tantos outros, luta para manter seu casamento e conseguir um trabalho capaz de prover o sustento dos filhos. Por um longo período, quase nada dá certo. Ele fica sem emprego, passa os dias tentando vender um equipamento médico que ninguém demonstra interesse em comprar e chega a ficar encarcerado por dez dias depois de acumular uma imensa lista de multas de trânsito, que evidentemente não tinha como pagar. Em uma das cenas do filme ele se envolve em um acidente e fica sem um pé de sapato. Vai só de meia à corretora de ações Dean Witter, na qual fazia um estágio para entrar no mercado financeiro. Contra todas as previsões, Chris Gardner venceu. Tornou-se um corretor de sucesso na bolsa, abriu a própria empresa e fez de sua trajetória a inspiração para milhões de pessoas.

Na terça-feira (2), ele participou como convidado especial de uma live organizada pela XP Inc. no âmbito da campanha Juntos Transformamos, que em 22 dias já destinou R$ 32 milhões a quatro projetos sociais (leia no quadro). O valor corresponde a 64% da meta fixada para a campanha. Ao apresentar Chris como embaixador da campanha, o presidente da XP Inc., Guilherme Benchimol, afirmou: “A gente não consegue salvar o mundo sozinho. Mas se todo mundo abraçar uma causa social, a gente pode ajudar o Brasil a atravessar essa crise e sair dela melhor do que estávamos quando ela começou”.

Durante a entrevista de meia hora conduzida pela estrategista de ações Betina Roxo, Chris deixou várias mensagens inspiradoras. A primeira delas diz respeito diretamente à pandemia: “Eu já ouvi muitas pessoas dizendo que o coronavírus colocou todos nós no mesmo barco. Não estamos no mesmo barco. Estamos na mesma tempestade.” E prosseguiu explicando as diferenças entre os barcos em que cada um está, dependendo de sua condição social, de saúde e de renda durante e após a pandemia. “Quem está conseguindo trabalhar de casa, apesar de todas as restrições e dificuldades impostas pelo isolamento está em um barco bem diferente daqueles que já não têm emprego, ou dos que precisam arriscar as suas vidas para poder trabalhar.”

LIDERANÇAS

A descrição é especialmente oportuna para sensibilizar quem está em uma situação privilegiada e pode contribuir para amenizar ao menos parte da dificuldade que enfrentam os mais vulneráveis, seja fazendo doações em dinheiro, dedicando parte de seu tempo em trabalho voluntário ou compartilhando conhecimento. É desse tipo de ajuda que sobrevivem ONGs como a Amigos do Bem, que nasceu por iniciativa de Alcione Albanesi, uma batalhadora que levava roupas, alimentos e atendimento médico e odontológico a famílias do sertão nordestino. Hoje, seus inúmeros projetos educacionais e autossustentáveis movimentam a vida de mais de 75 mil pessoas nos estados de Alagoas, Ceará e Pernambuco.

Também beneficiado com recursos do movimento Junto Transformamos, o Instituto Gerando Falcões, liderado pelo empreendedor social Eduardo Lira, que desde o início da pandemia fez chegar 243 mil cestas básicas a comunidades carentes. Mais importante que o trabalho emergencial, a ONG nascida na periferia paulistana tem por finalidade criar novos projetos de vida para jovens desassistidos. Um propósito que pode criar futuros líderes, algo que está faltando hoje no Brasil e no mundo, segundo o próprio Chris Gardner. “Não temos liderança em diversas partes do mundo. Por isso, uma das coisas que farei com meu tempo agora é encorajar os jovens para que votem.” Ele sabe da importância que reside na escolha de um governante.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE LÚDICO A TRÁGICO

Perfil e origem da compulsão por jogos varia entre os sexos. A idade em que os jogadores procuram a primeira ajuda psicológica gira em torno dos 40 anos

Aos 17 anos, Márcia (nome fictício) fez sua primeira aposta no “jogo do bicho”. No começo gastava seu próprio salário para sustentar o comportamento compulsivo de jogar. Com o tempo, porém, passou a dispor das economias capitalizadas pela família no banco em que era responsável pela área de aplicações. Movimentava o dinheiro dos parentes entre as contas, até deixá-las negativas. Descoberta por um auditor, acabou demitida por justa causa e prometeu jamais voltar a jogar. O compromisso foi mantido nos quase 20 anos que se seguiram, período em que pôde reorganizar sua vida, cursar faculdade e conseguir bons empregos.

Entretanto, um problema emocional a fez voltar a apostar, desta vez, em máquinas eletrônicas. “Voltei a jogar compulsivamente, perdi tudo o que havia construído. Além do dinheiro, perdi minha dignidade, minha moral, autoestima, caráter, e espirito familiar. Tudo isso coube naquelas máquinas”, enfatiza ela, que chegou a dormir na rua e a passar frio e fome, tendo, inclusive, tentado o suicídio na véspera do aniversário da mãe. Desde julho de 2003, frequenta as reuniões dos Jogadores Anônimos, grupo que funciona segundo os moldes dos Alcoólatras Anônimos e dá suporte aos dependentes. “Desde então nunca mais fiz nenhuma aposta, faz dois anos e 11 meses e dois dias. Tenho o amor da minha família de volta, minha autoestima, minha dignidade, amigos. Hoje, a vida, que não é só o espaço entre nascer e morrer, é curtir cada momento e poder ajudar alguém”, finaliza.

Histórias, como as de Márcia, mostram os desdobramentos reais de um problema que ganha vulto nos serviços de saúde mental. Embora não existam estatísticas brasileiras, pesquisas feitas nos Estados Unidos, Canadá, Espanha e Austrália mostram que, nestes países, entre 0,8 e 4% da população vivencia o hábito de jogar de maneira patológica, o que pode ser caracterizado como um comportamento mal adaptativo persistente e recorrente de apostar em jogos de azar, implicando em prejuízo significativo em diferences aspectos da vida. “O jogo perde seu significado lúdico quando o indivíduo joga para recuperar perdas anteriores, perde o controle ao apostar mais que o programado ou jogar por mais tempo do que o planejado, recorre ao jogo como fuga, se endivida, compromete as relações familiares e sociais e ainda persiste na atividade”, enumera o psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico, vinculado ao Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.

ENQUADRAMENTO

Reconhecido como transtorno psiquiátrico pela Organização Mundial de Saúde somente em 1992, aparece nos manuais de psiquiatria desde a década de 80. No DSM-IV, faz parte do grupo de Transtornos do Controle dos Impulsos Não Classificados em Outro Local, já no CID-1O consta entre os Transtornos de Hábitos e Impulsos. O enquadramento vem justamente pelo fato de existirem similaridades entre o jogar patológico e consumo de substâncias psicoativas. Conceitos como o de tolerância, que pontua a necessidade de se consumir uma quantidade maior de substâncias (nesse caso, de se apostar cada vez mais), para a obtenção do mesmo prazer ou perda de controle são válidos também neste contexto. “A atividade de jogar excita o sistema nervoso central e se reflete no corpo pela aceleração dos batimentos cardíacos, elevação da tensão muscular e aumento da frequência respiratória. Nesse sentido, seus efeitos se assemelham muito às reações produzidas por excitantes químicos corno cocaína, anfetamina e ecstasy”, compara o psiquiatra.

Embora cada um traga sua própria bagagem de vida, é possível pontuar algumas características que se combinam significativamente, propiciando o aparecimento destes quadros. “A impulsividade e a instabilidade emocional são os principais fatores de vulnerabilidade ao jogo. Ambos têm uma determinação compartilhada entre a genética e o ambiente. Estima-se que 30 a 50% dos fatores determinantes sejam herdados e o restante vem do meio, como estresse no trabalho, na vida familiar e a oferta abundante e progressiva de jogos de azar em nossa sociedade”, esclarece Tavares, enfatizando também que a expansão do jogo de azar é um fenômeno internacional, comum na cultura ocidental, em que autoestima e  reconhecimento social foram progressivamente alçados à condição de valores intercambiáveis e, de certa forma, identificados com a questão da posse financeira.

No cenário nacional, a expansão dos Bingos acabou por se tornar um fator decisivo no aumento da demanda por tratamento; assumindo a dianteira como jogo de preferência entre as pessoas que buscam ajuda em programas especializados na cidade de São Paulo.

QUEM É O JOGADOR?

O psiquiatra delimita dois perfisde jogadores, sendo que muitas vezes, é possível reunir características de ambos. O primeiro é predominantemente masculino e começou a jogar no fim da adolescência. Antes de se tornar praticante preferencial de uma modalidade de jogo, transitou por várias, formas, entre sinuca, jogo do bicho, dominó, cartas, cavalos. Em geral, casou-se cedo e logo entrou no mercado de trabalho, tendo um sucesso inicial por ser falante, ágil e extrovertido, o que lhe protegeu por um tempo de envolver-se mais profundamente com jogo. ”Entre os 30 e 40 anos, contando com uma folga financeira, passa a apostar mais imensamente na busca pela emoção do risco. Aposta grande volume de dinheiro em um curto espaço de tempo visando à excitação. Em torno dos 40 anos tem sua primeira quebra financeira, mas como é orgulhoso, independente, ainda vai cair e levantar-se algumas vez até aceitar o fato de que necessita de ajuda ou tratamento especializado para lidar com seu problema”, delimita o psiquiatra, acrescentando que a média de idade na primeira procura por tratamento dessas pessoas é em torno dos 45 anos.

Quanto ao segundo perfil, que tanto pode ser masculino quanto feminino, engloba os indivíduos que começaram a jogar mais tarde, em torno dos 40 anos, sem ter experiência prévia.

Aqui, o jogar aparece comoum reflexo do esvaziamento do cotidiano, uma vez que os filhos são mais independentes e a demanda pordinheiro na família se reduz, ou seja, a principal motivação para jogar é o alheamento dos problemas. “Este paciente dá preferência caça-níqueis e jogos eletrônicos emgeral, e história anterior de depressão ou transtorno de ansiedade é comum nesta população. A progressão para a compulsividade é muito rápida, em geral de 6 meses a 2 anos”, caracteriza o médico, informando ainda que este jogador aposta valores menores buscando prolongar o seu tempo em frente à máquina.

Nestes casos,a procura por tratamento é mais rápida e muitas vezes vem mascarada como uma queixa de tristeza e nervosismo, acompanhada de reclamações sobre a incompreensão da família, já que neste perfil, o paciente tem vergonha de confessar que joga. “Como a progressão é mais rápida, apesar do início tardio, este paciente chega ao tratamento mais ou menos na mesma época, ou seja, em torno dos 45 anos de idade. A progressão acelerada é chamada de efeito telescópio e seus principais fatores de risco são: gênero feminino, preferência por jogos eletrônicos e início após a quarta década de vida”, esclarece o médico.

A psicóloga Thaís Grade Maluf, integrante do Programa de Atendimento de Jogadores Patológicos do Proad, vinculado à Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), pontua que o pedido de ajuda costuma vir quando “a corda já passou do pescoço”, ou seja, quando houve uma desestruturação financeira significativa e o casamento está comprometido ou desfeito. Para a entrada no programa oferecido pela instituição, a pessoa passa por um grupo de acolhimento que integra outros dependentes não químicos, como compradores, dependentes de sexo ou de internet. O intuito é o de sensibilizar não só o paciente, como também sem familiares para o tratamento, colocando-se em pauta a questão da impulsividade e da compulsividade, presentes de forma contundente nos jogadores, embora manifestos em graus diferentes no decorrer da vida. “O jogador tem um estigma muito parecido com o do viciado em drogas e por isso procura o tratamento com mais frequência”, pondera a psicóloga ao comparar a maior participação desta clientela, em relação ao espectro de dependências reunidos no grupo.

Entre as crenças do jogador patológico, está a de que se tem controle sobre o hábito, ou que se “joga só para relaxar”. Há ainda uma tendência em buscar continuamente a experiência vivida numa fase inicial de “euforia’, em que o retorno financeiro ainda era significativo. Este estado prazeroso do ganho fica na memória por muito tempo e, de uma certa forma, é atrás desta sensação de ganho e poder que se vai”, pontua a psicóloga.

A partir deste ponto, o usuário do serviço passa a receber acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico individual ou em grupo, sendo que a equipe segue uma orientação psicodinâmica da dependência. Nesta perspectiva, o foco de atenção se direciona para além dos sintomas, em busca das causas do que não vai bem e que se manifestam através do comportamento compulsivo. Muitas das pessoas que procuram o serviço trazem, no seu histórico familiar e também pessoal, O fato de já terem feito o uso abusivo de droga, muitas vezes apenas “migrando” de uma adição para outra.

Mais do que o cessar da atividade, busca-se a conscientização e a possibilidade do sujeito em responsabilizar-se pela sua condição, reduzindo os inúmeros prejuízos vinculados à dependência de jogar e a possibilidade da construção de outros vínculos de lazer, e possibilidades efetivas de prazer. Enquanto se busca o enfrentamento na gênese do problema, a equipe também traz orientações simples, como a de que o usuário do serviço deve uma quantia determinada, ao sair de casa para jogar ou ainda que jogue no computador, em casa, sem apostas.

A psicóloga pontua que boa parte dos homens chegam ao serviço impotentes nas diversas esferas da vida, pois não conseguem gerir o próprio dinheiro, sendo que muitos tiveram sucesso profissional e conseguiram um bom padrão de vida trabalhando. Esta situação acaba favorecendo um novo arranjo de papéis dentro do lar, em que há um certo ganho de poder por parte da mulher, que acaba assumindo um papel central no comando das finanças, por exemplo, o que, de alguma maneira, a torna resistente em partilhar com o companheiro do percurso do tratamento.

O médico Hermano Tavares reitera a importância do processo psicoterápico nestes casos, pelo alto índice de associação com outros transtornos psiquiátricos, principalmente na dependência química, depressão e ansiedade. (É importante uma avaliação psiquiátrica e o tratamento dessas  condições associadas”, pontua o psiquiatra, enfatizando que, ainda em fase experimental, estão  sendo testadas medicações que possam reduzir a “fissura” que os jogadores sentem ao tentarem parar, ressaltando que os resultados são promissores, mas ainda inconclusivos.

No Instituto de Psiquiatria da USP é oferecido tratamento gratuito por um ano aos jogadores que são voluntários. O programa inclui psicoterapia individual e existe há dois anos o trabalho com grupos de orientação psicanalítica supervisionado por uma psicanalista para investigação e tratamento neste território de atuação. Além do acompanhamento psiquiátrico e orientação familiar, a participação nos Jogadores Anônimos é fortemente encorajada.

EXPERIÊNCIAS COMPARTILHADAS

Os grupos de Jogadores Anônimos são o resultado de um encontro, em janeiro de 1957, entre dois homens, que tinham em comum uma trajetória de vida repleta de dificuldades e misérias, relacionadas ao jogo. Começaram a reunir-se regularmente, e, com o passar do tempo, nenhum dos dois voltou a jogar. Como resultado da publicidade favorável por parte de um colunista de jornal e apresentador de televisão, a primeira reunião de Jogadores Anônimos aconteceu numa sexta-feira, 13 de setembro de 1957, em Los Angeles, Califórnia.

Foi o passo inicial para que grupos do gênero fossem fundados pelo mundo. “Em São Paulo comemoramos todo dia primeiro do mês de junho, tendo completado 24 anos em 2019. Hoje, contamos com reuniões todos os dias da semana, inclusive feriados, e somamos um total de 45 grupos de Jogadores Anônimos espalhados pelo Brasil, que têm como objetivo o parar de jogar e ajudar outros jogadores compulsivos a fazerem o mesmo através de nossos depoimentos de vida e do que a doença nos causou”, pontua a Relações Públicas dos Jogadores Anônimo, informando que o Programa de Recuperação segue os “Doze Passos”, que refletem a aplicação de princípios espirituais, praticados cotidianamente, possibilitando o despertar de mudanças interiores. “O jogo compulsivo é uma doença, progressiva por natureza, que não pode ser curada, porém pode ser detida. A pessoa inventa montanhas de problemas aparentemente insolúveis. Criam problemas financeiros, mas também têm que enfrentar questões legais, de emprego e matrimoniais. Descobrem que perderam amigos e são rejeitados por parentes”, enumera, salientando o longo trajeto percorrido pelas pessoas até poderem aceitar ajuda, muitas vezes se entregando a uma deterioração sutil.