EU ACHO …

EM CONTATO COM O QUE?

Não estivemos isolados na pandemia. A rede nos liga, molda e monitora

Sim, foi o ano da pandemia. Ou será que foi o do combate à pandemia? É difícil decidir, os dois foram extraordinários. O vírus e o combate ao vírus. Do primeiro chegou-nos em janeiro a notícia de que qualquer coisa estava a acontecer numa cidade desconhecida da China. Dois meses depois era uma pandemia, com doentes e mortos por todos os lados e em todo o mundo. Nada escapou. Do segundo, do combate ao vírus, vem a notícia, ao que tudo indica, de que teremos a vacina aprovada neste ano e os primeiros grupos vacinados no início do ano.

Nunca na história da humanidade nada de parecido havia acontecido. O mais singular não foi a pandemia, mas a resposta humana à pandemia. De qualquer forma, num caso como no outro, a humanidade esteve ligada. Em contato.

Não é a primeira vez que os germes são protagonistas da história. O perigo nem sempre está no infinitamente grande e poderoso, mas existe também no infinitamente pequeno. A desorientação vem exatamente daí, de nada ser visível, a não ser ao microscópio. Só aparece quando a doença se manifesta, e às vezes tarde demais. Ainda assim, um pouco por todo o mundo, fomos capazes de fazer um combate respeitando o mínimo moral. Parar de trabalhar, parar de produzir, para poupar vidas ou, talvez melhor, para que nenhuma vida se perdesse sem assistência (gostaria de dizer o mesmo do Brasil, mas não tenho certeza). A economia se recuperará, as vidas não. Também por aqui não podemos dizer que a humanidade não esteve ligada. Em contato.

A pandemia também excitou as redes, o contato virtual, o zoom, o webinar. As redes. As redes sociais mostraram o seu poder. Estávamos ligados, é verdade, o fenômeno não é de agora, mas talvez só agora tenhamos realmente dado conta de como estamos dependentes dela, da rede. Agora todos nós temos consciência – estamos ligados, em contato. A rede. A quantidade de dados que voluntariamente entregamos à rede é absolutamente fascinante. A todo segundo geramos informação sobre nós, sobre a nossa saúde, o nosso estado de alma, os nossos projetos, os nossos interesses. E o fazemos depois de sabermos – sim, agora sabemos de fonte segura – que esses dados serão coletados, tratados, relacionados, classificados e, finalmente, usados para ganhar dinheiro e para ganhar poder. A coleta universal de dados não deixará nada à interpretação estatística, como antigamente. A verdade digital não trabalha com amostras, mas com todo o universo, todos os dados de 95% de nós, todos aqueles que aceitam se conectar e, nesses momentos, aceitam também ceder a informação sobre si próprios. Todo o contato será utilizado, tudo será organizado, tudo será classificado e tudo será vendido. Em breve será possível fazer um check-up de cada um, disponível para todos. Para todos os que tiverem dinheiro, evidentemente. Assim saberemos com quem vamos nos encontrar, com quem nos casaremos e com quem negociaremos – a genética, os hábitos de consumo, as preferências sexuais. A vida será mais segura, menos acaso.

Tudo isso será devidamente envolto num delicado e suave manto de inocência. A segurança é uma das promessas. O terrorismo constituiu, logo no início do século, a grande oportunidade para a colaboração entre a indústria digital e a indústria da inteligência. Numa guerra contra o inimigo escondido e misturado com a população, a primeira prioridade é a informação. Saber quem ele é, onde está, para extraí-lo da massa humana que o rodeia e, então, eliminá-lo. Tudo isso exige conhecimento e informação, isto é, acesso a dados pessoais. Como é próprio do poder, este vai sempre até onde pode ir, ou até onde o deixam ir. Por estes dias, como alguém disse, a agência nacional de segurança dos EUA sabe mais sobre os cidadãos alemães do que a Stasi, a polícia secreta do regime da antiga República Democrática Alemã. A agência conhece as deslocações, os contatos, os amigos, as preferências políticas. Em 2013, ficamos a saber que a espionagem norte-americana ouviu Ângela Merkel e por motivos que nada tinham a ver com terrorismo, mas com a economia europeia em tempos de crise. O mesmo aconteceu com Francois Hollande, com Sarkozy, com Dilma Rousseff. A aliança entre a inteligência e o digital encontra novos espaços de utilidade – o interesse econômico disfarçado de segurança nacional. A aliança também se aprofundou em nome do combate ao crime. Londres é a capital do vídeo-vigilância com cerca de 3 mil câmeras espalhadas pela cidade. O cálculo da polícia é que um cidadão é filmado cerca de 300 vezes por dia. E cada vez de forma mais sofisticada. Agora as câmeras sabem reconhecer uma cara no meio da multidão e identificar sua silhueta de costas. O sistema aperfeiçoa-se. No momento em que escrevo, o governo francês acaba de propor uma lei vergonhosa, segundo a qual a vídeo-vigilância deve constituir um monopólio das forças de segurança – as filmagens da ação policial serão proibidas, elas atrapalham. A promessa de tudo desvendar parece assim caminhar para o sítio adequado – sim, tudo se saberá, menos o que o Estado faz. Por detrás da promessa de liberdade individual que a rede oferecia, surge agora o seu verdadeiro rosto, o seu verdadeiro mestre, o Estado, o Leviatã.

Não demorou muito para que tudo isso chegasse às eleições e às disputas políticas. Em fevereiro de 2011, o presidente Barack Obama convidou para jantar na Casa Branca as 14 empresas mais poderosas da internet. A imprensa chamou o evento de o “jantar de reis”. Pouco depois, em 2012, numa sala da sua campanha eleitoral, denominada “a caverna”, vários informáticos trataram os metadados de comentários de internautas espalhados pela rede de forma a identificar os indecisos e a fabricar para eles as mensagens políticas mais apropriadas. Uma verdadeira campanha de massa personalizada. O mecanismo evoluiu na campanha do Brexit, depois com Trump e, mais tarde, também o Brasil descobriria esses métodos, a que se somariam os requintes de imbecilidade, malvadeza e brutalidade, tão próprios do temperamento do candidato. Eis ao que nos ligamos – ao mundo do Big Data, Amazon, Facebook, Google e Microsoft. A disputa comercial pelo 5G nada tem de livre-comércio, de regras de concorrência ou de preços. Ela assume agora a importância de uma questão estratégica. Este é o mundo a que nos ligamos. Sim, a rede mundial de investigadores foi capaz da façanha de conseguir uma vacina em apenas um ano. Isso tem muito a ver com o trabalho em rede. Este mundo novo não conhece, porém, direitos individuais nem a intimidade. A privacidade morrerá, portanto, em nome de uma vida melhor, mais segura e menos contingente. Fizemos contato? Sim, mas não sei com quê. Na verdade, tudo neste mundo me desagrada.

*** JOSÉ SÓCRATES – ex-primeiro-ministro de Portugal.

OUTROS OLHARES

REMÉDIO ARDIDO

Amada e odiada, a pimenta é um divisor de águas na culinária. Mas estudos recentes mostram que, consumida moderadamente, tem efeitos benéficos para o corpo

Quem tem aversão ao calor da pimenta precisa considerar uma mudança de hábito. Quem põe umas gotinhas na comida está no caminho certo – e convém até aumentar a frequência do uso. É o que pressupõe o resultado de estudos feitos pelo Instituto de Cardiologia da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, o mais reputado do país, referendado pela Associação Americana do Coração. Os pesquisadores investigaram os impactos da pimenta no organismo por meio da análise dos exames de mais de 570.000 pacientes no mundo e concluíram algo que já aparecia em trabalhos anteriores: a capsaicina, elemento natural que torna a pimenta ardente, tem efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes e reguladores da glicose no sangue, o que reduz o risco de infarto e outras doenças associadas ao coração – ainda hoje a maior causa de mortes, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Em comparação com quem raramente ou nunca consome pimenta, aqueles que a ingerem com regularidade apresentam 26% de redução na mortalidade por doença cardiovascular, 23% de diminuição relativa por câncer e 25% de queda na mortalidade em geral. Ou seja, de agora em diante, evite criticar o amigo que aprecia a deliciosa ardência do sarapatel, do acarajé e do vatapá. O funcionamento da pimenta no organismo ainda não é inteiramente conhecido, mas existem indícios de aceleração do metabolismo, o que ajudaria, inclusive, no emagrecimento: “Ela transforma a gordura branca, sólida e difícil de eliminar, em gordura marrom, mais fácil de quebrar”, explica Vanderli Marchiori, nutricionista da Associação Paulista de Nutrição. Isso não quer dizer que o fruto garanta o emagrecimento por si só. Portanto, recomenda-se não substituir exercícios e uma dieta saudável por suplementos de pimenta em cápsula.

Como exatamente o Homo sapiens pegou gosto por esse remédio ardido é incerto, mas a melhor hipótese está na ligação intuitiva que a espécie humana tem com o fogo: tudo aquilo que queima ajudaria a matar o que é ruim. Além disso, as especiarias tendem a conservar os alimentos. Originária das Américas, a pimenta deu sabor aos pratos da Europa a partir do século XVI. A atratividade é historicamente tão grande que se tornou objeto de estudo do farmacêutico americano Wilbur Scoville, que estabeleceu, em 1912, uma escala para medir a ardência. Scoville misturava extrato de óleo de capsaicina com água e açúcar e então colocava na língua das pessoas. Diluía a solução até o voluntário não sentir queimação alguma. Assim, o farmacêutico criou uma unidade mínima para classificar cada tipo. A pimenta jalapeno, por exemplo, usada na culinária mexicana, tem 8.000 unidades. É forte? A malagueta pode chegar a 100.000 unidades.

O pimentão só tem esse nome porque é grande, já que, na escala, leva nota zero. A biquinho marca no máximo 1.000 unidades. A dedo-de-moça, usada em caipirinhas, fica entre 5.000 e 15.000. Tome cuidado se lhe oferecem in natura a Trinidad Scorpion, e fuja da pimenta mais forte do mundo, a Carolina Reaper, que, de acordo com o livro Guinness dos Recordes, atinge o impressionante número de 2 milhões de unidades na escala Scoville. Cultivada numa fazenda na Carolina do Sul, ela recebeu o nome Reaper (Ceifadora) porque, se ingerida sem preparo, provocará, além de dor excruciante, queimaduras na boca e na garganta. Para quem quer cuidar da saúde, uma pitada de molho mineiro, de no máximo 5.000 unidades, já é o suficiente. O coração agradece.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 06 DE JANEIRO

O JUSTO É ABENÇOADO

Sobre a cabeça do justo há bênçãos, mas na boca dos perversos mora a violência (Provérbios 10.6).

Vale a pena conhecer a Deus, andar com Deus e servir a Deus. Sobre a cabeça do justo há bênçãos. A casa do justo é abençoada. Ele é como uma árvore plantada junto à corrente das águas, que nunca murcha e no devido tempo dá o seu fruto. O justo floresce como a palmeira. Quem é o justo? Não é aquele que tem justiça própria, mas aquele que foi justificado. Não é aquele recebido por Deus pelos próprios méritos, mas aquele que, apesar dos seus deméritos, crê em Cristo e se veste da sua justiça. O justo é abençoado não porque corre atrás da bênção, mas porque é conhecido e amado pelo abençoador. Se a cabeça do justo é o endereço onde mora a bênção de Deus, a boca do perverso é o lugar onde habita a violência. A bênção que marca o justo vem do céu, do alto, de Deus; a violência que procede do perverso brota dele mesmo, pois a boca fala do que está cheio o coração. Sobre a cabeça do justo há bênçãos vindas de Deus que se espalham para outras pessoas; da boca dos perversos, porém, procede a violência que destrói e mata. O perverso segue pela estrada larga da condenação espalhando palavras de morte, enquanto o justo esparge a luz de Cristo, trescala seu perfume e distribui bênçãos ao seu redor. Ele é abençoado por Deus e por isso se torna um abençoador para os homens.

GESTÃO E CARREIRA

RENNER RENOVA A VITRINE

Com faturamento afetado pela pandemia, rede varejista enxerga nas estratégias de inovação saídas para reagir.

Vamos antes combinar uma coisa. Varejista crescer no on-line durante a pandemia não é novidade. É sobrevivência. Então é preciso olhar no detalhe para saber qual delas de verdade sairá da crise maior, melhor e, principalmente, transformada. É essa a briga. O restante é conversa. Por esse motivo a Renner fez a opção de mergulhar na essência. O presidente da companhia, Fabio Faccio, se diz confiante de que terá bons resultados. “Apesar do cenário tão difícil, acreditamos que este é o momento da Renner e que nossa empresa vai fazer a diferença mais do que nunca”, disse o executivo.

Antes da pandemia, segundo ele, a companhia estava em uma situação bastante confortável, sólida do ponto de vista financeiro, com endividamento líquido baixo, balanço saudável e, principalmente, estoques enxutos, um dos pontos mais importantes para uma varejista de moda. “Nosso modelo produtivo é um benchmarking mundial, comparado só a algumas das melhores empresas do mundo, que a gente pode contar nos dedos”, afirmou. “Isso nos traz uma flexibilidade e adaptabilidade tanto na cadeia produtiva quanto na gestão de estoque muito superior à dos outros players.”

Ainda assim a Covid-19 fez seus estragos. Com o início da quarentena, a receita teve queda de 6,1% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, totalizando R$ 1,55 bilhão. Nas lojas físicas, o volume de vendas caiu 10,7%. No entanto, Faccio prevê que os resultados dos próximos meses serão bem melhores. “Essa movimentação nos tornou mais fortes para lidar com esse momento.”

As principais estratégias da maior varejista de moda do Brasil são inovação, digitalização e sustentabilidade. Falando assim é quase um bem-vindo ao clube. A questão é como a Renner trata cada uma dessas variáveis. “Aceleramos as estratégias que já tínhamos desenhado. Queremos aproveitar as oportunidades que surgem. Quanto maior a crise, maiores as oportunidades”, disse o presidente da empresa. Em chinês, a palavra crise é representada por dois caracteres que significam tanto risco quanto oportunidade.

Em contraponto à queda das vendas nas lojas físicas no primeiro trimestre, com a aceleração da digitalização houve aumento de 32,9% nos canais digitais. Não precisa ser gênio das contas para entender que crescer quase 33% num canal, cair quase 11% em outro e ficar numa média negativa de 6% mostra ainda a dependência de lojas físicas. De toda forma, as vendas on-line de todas as marcas da companhia – além de Renner, Ashua, Camicado e Youcom – registraram crescimento na casa dos três dígitos. Em abril, o aplicativo da loja bateu recorde de downloads, atingindo a marca de 1 milhão de novos usuários. O número é 164% maior na comparação com o mesmo mês de 2019 e 33% superior ao registrado na última Black Friday, quando tradicionalmente ocorre uma elevação no volume de downloads.

No movimento de aceleração do processo de transformação digital, a Renner antecipou o desenvolvimento de iniciativas para facilitar a experiência dos consumidores, ampliando os canais de venda e aprimorando a entrega de mercadorias. Projetos originalmente previstos para o fim deste ano ou para 2021 foram antecipados e apresentam resultados promissores. Um deles é o Minha Sacola, que permite que qualquer um que estiver inscrito em uma plataforma parceira de marketing de afiliados anuncie artigos da marca Renner com a publicação de links em suas próprias redes sociais, blogs ou sites. Os afiliados recebem comissão líquida de 7% sobre qualquer venda gerada a partir do acesso por meio desses links. A iniciativa foi desenvolvida em cerca de uma semana durante a pandemia e já tem mais de 8 mil inscritos.

Outra novidade é a venda por WhatsApp, que também estava prevista para o ano que vem e começou a ser testada na segunda metade de abril em Porto Alegre. Agora, além de estar disponível em outras cidades gaúchas (Canoas, Caxias do Sul, Gramado e Santa Maria), também está funcionando em São Paulo (capital, Campinas, Ribeirão Preto e Valinhos), nas cidades pernambucanas de Recife e Jaboatão dos Guararapes, em Boa Vista (RR), Macapá (AP), Manaus (AM), Mossoró (RN) e Parnaíba (PI) e continua sendo ampliada para outras regiões do país. Durante os testes em Porto Alegre, em média 30% dos clientes que entraram em contato pelo WhatsApp finalizaram a compra, com tíquetes médios superiores aos observados no comércio eletrônico.

Outra novidade é retirar as compras feitas pela internet pelo sistema drive-thru. O serviço está disponível em 170 lojas da marca em 22 estados brasileiros e no Distrito Federal.

SHIP FROM STORE

Outra inovação antecipada de 2021 é o Ship from Store. Usando Inteligência Artificial, o sistema identifica a localização do consumidor e utiliza os estoques das lojas mais próximas – e não o centro de distribuição –, o que permite reduzir o prazo de entrega dos itens vendidos pelo e-commerce. Além da Renner, as outras marcas da empresa estão implementando gradualmente a venda por WhatsApp, a entrega via Drive Thru e o Ship from Store. Não são exatamente pioneirismos no varejo, mas são operações complexas e que, em marcas de maior robustez, exigem uma agilidade nem sempre disponível.

No ano passado, 8,5% dos produtos vendidos pela Renner foram distribuídos às lojas a partir das projeções obtidas por meio de Inteligência Artificial, o que resultou em vendas adicionais desses itens da ordem de 12%, com estoques 18% menores. Em 2020 o projeto está evoluindo e neste ano a Inteligência Artificial deverá ser responsável por orientar a distribuição de 17% dos produtos da Renner. É claro que tudo pede ações coordenadas entre investimentos e caixa. Para manter a saúde financeira da empresa, foram feitas algumas ações, como a redução de 40% do investimento previsto para a abertura de novas lojas. “A abertura de muitas destas unidades seria feita no segundo semestre, prorrogamos para o ano que vem”, afirmou Faccio. “Mas continuamos com um projeto bem agressivo de lojas novas, pois precisamos aumentar a capilaridade das nossas marcas.”

Essa prorrogação de prazos ajudou a melhorar a saúde financeira da empresa, permitindo realocar recursos para intensificar a estratégia de digitalização, conseguindo antecipar os projetos que estavam previstos para o período de 2020 a 2021. De certa forma, a pandemia fez virar em dias o que era para durar anos. Típico de quem busca na crise a oportunidade para afastar o risco.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOPATAS – MITOS E VERDADES

Desmitificamos os fatos mais conhecidos sobre o transtorno de personalidade antissocial

Seja na ficção, com os livros, os filmes, as séries de tevê, ou na realidade, com os julgamentos de criminosos reportados nos noticiários, a psicopatia vem ganhando grande representatividade na cultura popular. E devido à popularidade do tema, muitos conceitos errados e mal-entendidos se misturam aos fatos quando o assunto é o transtorno.

Personagens como Patrick Bateman de “Psicopata Americano”, Dexter Morgan de ”Dexter” e Hannibal Lecter de “O Silêncio dos Inocentes” são rapidamente retratados como indivíduos charmosos, intrigantes, desonestos, que não sentem culpa e aterrorizantes. Mas será que tudo isso são mitos ou há alguma verdade em como os psicopatas são comumente descritos?

PSICOPATIA E SOCIOPATIA SÃO A MESMA COISA.

PARCIALMENTE VERDADE. Um psicopata possui temperamento e personalidade bem definidos, caracterizados por impulsividade, ausência de medo que leva a comportamentos de risco e uma grande inabilidade de aceitar regras, normas e leis. Já o sociopata possui características próximas ao de indivíduo comum e sua condição é causada mais por fatores negativos na socialização e interação com as pessoas, geralmente causada por negligência dos pais e falta de referência. Porém, apesar dessas especificidades, no dia a dia da investigação criminal e do diagnóstico clínico a diferença é pequena. ”O que aproxima as duas patologias é que ambas são desordens de personalidade antissocial, e podem resultar em atos de violência”, explica o psicólogo Breno Rosostolato.

TODO PSICOPATA É UM SERIAL KILLER.

MITO. De acordo com as estatísticas, os psicopatas cometem quatro vezes mais crimes violentos que um criminoso comum. Além disso, a personalidade deles os leva a cometer novos crimes, sendo que as taxas de reincidência nesses indivíduos chega a 70%. Eles ainda agem dentro da prisão manipulando e controlando os outros da mesma forma que fora. Porém, apesar de uma grande quantidade de serial killers ser portador do distúrbio, isso não é uma regra. “Nem todo psicopata é um serial killer e sequer possui comportamentos violentos ou criminosos, mas isso não quer dizer que são pessoas amáveis e bondosas. Assim como psicopatia não é sinônimo de violência, o contrário também é válido, não é preciso ser psicopata para ser criminoso, para assassinar, roubar, etc.”, afirma Breno.

PSICOPATAS TÊM UM PODER DE SEDUÇÃO E DE MANIPULAÇÃO ACIMA DA MÉDIA.

VERDADE. Uma das formas mais comuns de identificar um psicopata é por sua grande desenvoltura e sua facilidade para manipular, controlar e mentir. Esse traço de sua personalidade é o motivo pelo qual, muitas vezes, suas atitudes negativas e destrutivas passam despercebidas. Os indivíduos que têm o transtorno ainda são egocêntricos e não lidam bem com autoridade. No trabalho, eles buscam informações dos companheiros, para, assim poder manipular situações e buscar benefícios. Não se importam com o sofrimento alheio e buscam sempre a própria satisfação.

Para a psicanalista Júlia Bárány, esse poder de manipulação é ainda mais agravado por conta da ausência de emoções nobres humanas: “Um ser humano ficaria constrangido, no seu mais íntimo, em dizer uma mentira, por exemplo, e assim essa emoção o atrapalharia. Como um psicopata não se constrange com nada, age sem ser atrapalhado pelas emoções humanas. O seu poder de manipulação é resultado de treino. Afinal, este é o seu meio de vida, que ele treina desde o berço. Com o passar do tempo e com as experiências, vai se aperfeiçoando em sua técnica”.

É POSSÍVEL ADQUIRIR O TRANSTORNO AO CONVIVER MUITO COM UM PSICOPATA.

MITO. Não existe a possibilidade de adquirir o distúrbio pelo convívio. Entretanto, conviver com um psicopata pode desequilibrar e adoecer uma pessoa, já que ele usa aqueles ao seu redor para seus propósitos egoístas. “Ninguém se torna psicopata a não ser que adquira uma lesão cerebral exatamente na região orbito-frontal, como foi o caso conhecido de Phineas Gage, um trabalhador de ferrovia que teve seu crânio perfurado por uma viga. Psicopata nasce psicopata e morre psicopata. Ele não se torna psicopata por causa de uma triste infância, de abuso, de maus tratos. Esses podem causar uma pessoa traumatizada, que pode ter reações psicopáticas, pois criança imita os adultos. Se ela é maltratada, aprendeu que é assim que se vive, e vai maltratar os outros”, pondera Júlia.

PESSOAS COM TRANSTORNO SOCIAL PSICOPÁTICO SÃO MAIS INTELIGENTES.

MITO. Os psicopatas podem tanto ter QI (quociente de inteligência) muito alto quanto extremamente baixo. O que os define realmente é a falta de empatia, como explica Breno: “Em geral, são pessoa bem articuladas e que se expressam muito bem. Dissimuladas e desenvoltas. Envolvem o outro a suas mentiras com o intuito de manipular e tirar proveito da situação”.

PSICOPATAS PODEM SER CONSIDERADOS LOUCOS.

MITO. Segundo Júlia, a psicopatia não é uma doença mental: “Na Classificação Internacional de Doenças (CID 10), consta sob F60 como transtorno de personalidade, em que a principal característica é a ausência de moral”. “Trata-se, portanto, de uma patologia caracterizada por comportamentos desajustados, que podem ser violentos ou não.

SITUAÇÕES ESTRESSANTES PODEM LEVAR A COMPORTAMENTOS PSICOPÁTICOS.

MITO. Uma situação estressante pode trazer a qualquer um nervosismo, ansiedade, violência e conflitos emocionais, mas não desencadear o distúrbio. “A psicopatia, conforme a definição, não é um comprometimento momentâneo e nem restrito a determinadas situações, mas é possível, sim, ocorrerem comportamentos antissociais, dependendo das situações”, conclui o neurologista clínico Fabio Sawada Shiba.

PSICOPATAS SÃO INCAPAZES DE AMAR.

VERDADE. Os psicopatas são incapazes de amar, uma vez que relacionam o amor como prazer sexual, a tristeza com frustração e a raiva com irritabilidade. “Buscam apenas a própria satisfação, nem que para isso tenham que eliminar o outro. Tratam pessoas como objetos que podem ser descartados. Não sentem culpa ou remorso”, enumera Rosostolato.

TROLLS (PESSOAS QUE GOSTAM DE TUMULTUAR EM FÓRUNS DE DISCUSSÃO E EM REDES SOCIAIS NA INTERNET), HACKERS E STALKERS (PESSOAS QUE ESPIONAM A VIDA DE OUTRAS PESSOAS PELA WEB) PODEM SER CONSIDERADOS PSICOPATAS.

MITO. De acordo com Breno, essas pessoas podem ser classificadas como sociopatas, porque apresentam uma grande dificuldade em socializar-se. Portanto, mesmo que trolls, hackers e stalkers apresentem comportamentos invasivos, agressivos e violentos, tendam a não reconhecer regras e que façam do outro, muitas vezes um objeto para manipular, essas pessoas ainda demonstram anseios, confusões emocionais, necessidade de se mostrar e de chamar atenção, muitas vezes por se sentirem sozinhas, abandonadas e por não conseguirem lidar com estes sentimentos. “Tratam-se, então, de pessoas que buscam aprovação, sentem medo e não conseguem sustentar a frustração, manifestando violência como um gesto de desespero.

EU ACHO …

CONHECIMENTO É PODER

“Um povo ignorante é um instrumento cego da sua própria destruição.”

                                                             Simon Bolivar

Você tem passado por dificuldades financeiras ou tem conseguido manter as portas abertas do seu negócio neste momento turbulento? Se a sua resposta à primeira parte da pergunta for “sim”, não se assuste, você não está sozinho.

A CNDL/SPC Brasil (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) realizou, em 2019, uma pesquisa e descobriu que 48% dos empresários desconhecem o quanto do seu faturamento vai para pagar tributos e que 74% dos consumidores não sabem quanto pagam de tributos. Você faz parte desse grupo?

Francis Bacon, Thomas Hobbes, Michel Foucault, entre muitos pensadores diziam: “Conhecimento é poder”. E, no Brasil, onde o “manicômio tributário” é de deixar qualquer um biruta, essa frase não poderia ser mais verdadeira. A maioria esmagadora das empresas neste país ou pagam tributos indevidamente (isso mesmo, sem precisar) ou deixam de usar créditos de tributos, para abater do valor a pagar.

Mesmo nesse mundo globalizado, em que as informações trafegam na velocidade da luz, há uma enorme falta de conhecimento do que realmente afeta a vida de todo empreendedor/consumidor. fato é que contribuintes pagam tributos a mais sem saber, por falta de controle, orientação e conhecimento; e o Estado agradece. Da mesma forma, muitos empresários e consumidores não aba- tem seus tributos, por não creditarem tudo que poderiam. A boa notícia é que isso ainda pode ser revisto, pois o contribuinte tem o prazo de até 60 meses, retroativo, para apurar e utilizar esse crédito: seja de tributo pago indevidamente (ou a mais), seja de créditos não aproveitados no mês de lançamento. E pode fazê-lo de duas formas. A primeira é administrativa, levantando a situação e já aproveitando ou, até mesmo, solicitando o ressarcimento em dinheiro (dependendo do tributo). A segunda é judicial, mais demorada, em casos com valores mais altos, o que justifica uma ação.

Se, depois de tudo isso exposto, o tema ainda ficou confuso, não se assuste. Até mesmo especialistas precisam desatar o nó na cabeça antes de começar a analisar caso a caso. Se você está no grupo daqueles que ainda não sabem quanto há de tributos para recuperar, vale sempre a pena solicitar uma análise criteriosa de especialistas na área contábil/tributária, para verificar a situação da empresa. Saiba que, constantemente, surgem surpresas “agradáveis” que podem salvar o caixa e permitir a continuidade das atividades empresariais, ainda mais num período de incertezas como o que estamos vivendo. Conhecimento é poder, mas o poder só se transforma em algo se for usado.

*** ALEXANDRE FLÁVIO DE OLIVEIRA é contador, gestor de recursos humanos e pós-graduado em Direito Tributário, atuante há 30 anos nas áreas fiscal e tributária, de planejamento tributário e recuperação de contencioso tributário. É palestrante, consultor e facilitador de cursos e workshops. Atua como membro parceiro no escritório Clam Advogados, coordenando o setor de recuperação de impostos e tributos.

OUTROS OLHARES

DA CABEÇA AOS PÉS

Trazemos conosco uma das maiores riquezas genéticas do mundo. Agora, com o programa “DNA do Brasil”, doenças poderão ser evitadas, conheceremos melhor o próprio genoma e descobriremos nossa mais remota ancestralidade

Os brasileiros carregam consigo, em cada célula do organismo, de um fio de cabelo até os dedinhos dos pés, um raro tesouro científico – até agora bastante desconhecido, mas que desde quando foi anunciado o programa “DNA do Brasil”, será finalmente decifrado. O programa e suas decorrentes pesquisas, coordenados pelas cientistas Lygia da Veiga Pereira e Tábita Hünemeier, ambas do Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo (USP), sequenciará o genoma de quinze mil brasileiros de todo o País. Está, assim, aberto o fenomenal caminho para o desenvolvimento de profilaxias e tratamentos de doenças genéticas e também para a descoberta precisa de nossa ancestralidade.

Quando se fala em tesouro genético no caso de brasileiros, expressa-se a mais pura verdade. Explica-se isso por dois longos períodos de miscigenação. O hominídeo surgiu na África, foi para a Europa e, posteriormente, à América, em uma longa migração de aproximadamente sessenta mil anos. De volta ao nosso povo, além das andanças que formaram e desenvolveram a espécie humana, há um incrível e maravilhoso fator: a população brasileira é uma das mais miscigenadas do planeta, e tal fato nos fez portador do tesouro já referido. O genoma, como sabemos, é o conjunto de toda a formação e informação genética, integrado por cerca de trinta mil genes. Se reunirmos, no entanto, toda a população brasileira, os códigos genéticos serão idênticos em 99,99% das análises. A diferença de um indivíduo para outro é de 0,01%. Parece ínfima demais? Que ninguém se iluda. No campo da ciência, essa diferença é infinitamente grande, diferenciando-nos, e muito.

A pesquisa que agora será iniciada, em parceria com a rede mundial de laboratórios do Grupo Dasa, resumidamente nos leva então a dois pontos vitais: 1) a descoberta das mutações genéticas específicas do brasileiro e, com isso, poderemos estabelecer o grau em que ele se diferencia em relação à população de outros países.

2) será viável descobrir a ancestralidade genética dessas especificidades – lembrando que nem tudo que é genético é hereditário, mas tudo que é hereditário é genético.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 05 DE JANEIRO

FAÇA UMA POUPANÇA

O que ajunta no verão é filho sábio, mas o que dorme na sega é filho que envergonha (Provérbios 10.5).

John Wesley disse, com razão, que devemos ganhar tudo o que pudermos, poupar tudo o que pudermos e dar tudo o que pudermos. A previdência não pode nos levar à usura nem à generosidade irresponsável. Precisamos ajuntar no tempo da fartura como José fez no Egito. Não podemos gastar tudo o que ganhamos nem comer todas as sementes que colhemos. Precisamos poupar a fim de termos um saldo positivo nos dias de vacas magras. Vivemos numa sociedade consumista, que ama as coisas e esquece as pessoas. O consumismo nos ilude com a tola ideia de que somos o que temos. Na década de 1950, consumíamos cinco vezes menos do que consumimos hoje e não éramos menos felizes por isso. Na década de 1970, mais de 70% das famílias dependiam apenas de uma renda para se manter. Hoje, mais de 60% das famílias dependem de duas rendas para manter o mesmo padrão. O luxo do ontem tornou-se a necessidade do hoje. Entramos nessa espiral consumista e acabamos comprando coisas de que não precisamos, com o dinheiro que não temos, para impressionar pessoas que não conhecemos. Precisamos trabalhar mais; precisamos poupar mais; precisamos investir mais. Esse é o caminho da sabedoria!

GESTÃO E CARREIRA

OLHAR ZELOSO

Em dez anos, a carreira de cuidador de idosos foi a que mais cresceu no Brasil. Diante do envelhecimento acelerado da população, a profissão se torna um caminho promissor, mas enfrenta desafios como falta de regulamentação e alta informalidade.

Aquela máxima de que o Brasil é uma nação jovem já não é mais verdade. O país envelhece – e rápido. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 2050 o número de brasileiros acima dos 60 anos irá mais do que dobrar, passando de 24 milhões para 64 milhões de idosos. Para ter uma ideia da velocidade do envelhecimento, a França levou um século para que a população com idade igual ou superior a 65 anos aumentasse de 7% para 14%.

Aqui, isso vai ocorrer em duas décadas. O fenômeno, batizado pelo gerontólogo Alexandre Kalache, um dos maiores especialistas sobre o tema, de “revolução da longevidade”, implicará diversos desafios para a economia e para a sociedade, mas também trará oportunidades de carreira e negócios. “Com a expectativa de vida mais alta, a forma de encarar a velhice também mudará. Sendo assim, teremos mais produtos e serviços para esse público, como academias e agências de viagens especializadas”, diz Márcio Minamiguchi, demógrafo do IBGE. Consultor financeiro e de aposentadoria, gerontólogo, terapeuta ocupacional e cuidador serão alguns dos cargos que irão surgir ou ascender com a inversão da pirâmide etária no Brasil.

De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o número de cuidadores de idosos, por exemplo, passou de 23.949, em 2014, para 36.720, em 2018. Segundo outro levantamento, dessa vez da Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), cuidador foi a ocupação que mais cresceu entre os anos de 2007 e 2017. Márcio, do IBGE, lembra que a mudança no perfil das famílias brasileiras tem impacto direto na demanda por essa profissão. “Antes, os lares eram maiores, e geralmente havia alguém para cuidar dos idosos. Hoje, com média de 1,7 filho por casal, a realidade é outra.”

FUTURO PROMISSOR

O aumento do interesse por essa carreira é sentido pela empreendedora Raquel Ferreira D’Amato, que em 2012 abriu a agência Viva Mais Cuidadores, que intermedeia a contratação de profissionais no Rio de Janeiro. “Há cinco anos havia muito mais demanda do que profissionais trabalhando na área”, afirma ela, que tem uma equipe de 50 funcionárias, entre elas a carioca Antônia Bezerra, de 34 anos, que viu no mercado de cuidadores a chance de uma carreira de sucesso. Em 2018, depois de dois meses buscando recolocação após ser demitida do cargo de recepcionista em um condomínio, Antônia, que havia parado os estudos no ensino médio, decidiu se matricular em um curso técnico em enfermagem. “Sempre quis voltar a estudar. Como o setor estava em alta e a formação era rápida, acabei optando pela área”, afirma.

Durante o curso, a profissional percebeu que o nicho de cuidadores de idosos se destacava. “Vi que a procura estava aumentando e, como já havia cuidado dos meus avós, possuía certa familiaridade com o trabalho. A experiência de supervisionar um familiar é diferente de assumir um paciente, mas me permitiu ter uma noção da dinâmica”, afirma. Antônia, então, começou uma especialização no ramo. “Antes mesmo de me formar consegui emprego na agência Viva Mais Cuidadores, por indicação”.

As indicações, inclusive, são uma das principais características do segmento, uma vez que muitos clientes desejam referências dos profissionais antes de contratá-los. Como os idosos às vezes também necessitam de assistência médica, outro aspecto da carreira é a entrada de enfermeiros, como Antônia, no setor. Ana Carolina Bhering do Amaral, coordenadora da área de saúde e bem-estar do Senac São Paulo, salienta, porém, que a formação não é necessária para atuar na área. “O papel do cuidador é auxiliar na rotina, além de estimular a autonomia do idoso e tornar seu dia a dia mais agradável”, diz.

FALTA REGULAMENTAÇÃO, SOBRA INFORMALIDADE

Como o tempo e o investimento financeiro para se formar como cuidador é baixo (os cursos duram, geralmente, quatro meses e custam cerca de 1.000 reais), a carreira tem atraído diversas pessoas em busca de recolocação. Fora isso, outros tantos optam por ingressar na área de maneira informal, atendendo parentes ou conhecidos. Simone Silva de Oliveira, de 46 anos, é um exemplo. A primeira vez que a carioca teve contato com a profissão de cuidadora foi em um antigo emprego, no qual, contratada como empregada doméstica, ela também auxiliava o patrão, um idoso com doença de Alzheimer. Em 2013, após ser demitida do cargo de faxineira em um hospital, Simone aproveitou o dinheiro que recebeu com a rescisão para se profissionalizar com uma formação em enfermagem. “Era um dos meus sonhos antigos. E, como eu já sabia que levava jeito com idosos, decidi me especializar como cuidadora”, afirma. Nos últimos sete anos, ela já atendeu oito clientes e se desdobra em duas jornadas: trabalha meio período como prestadora de serviços em uma agência de cuidadoras e, depois, atende um paciente particular.

Mas nem todo mundo segue o mesmo caminho de Simone e busca capacitação para continuar atuando na área. O fato de a carreira de cuidador ainda não ser regulamentada favorece a presença do alto número de trabalhadores informais no mercado. Para alterar esse contexto, em 2007 foi criado um projeto de lei para finalmente reconhecer o cuidador como uma profissão. A tentativa bateu na trave. Em outubro de 2019, o Congresso vetou a Lei nº1.385/07, que previa parâmetros para a carreira, alegando que o texto impunha requisitos e ofenderia o direito fundamental de livre exercício da atividade.

De acordo com Mário Avelino, presidente da Doméstica Legal, empresa de assessoria jurídica para trabalhadores domésticos, atualmente as regras que se aplicam para os cuidadores são as mesmas dos empregados domésticos. No caso de quem assiste aos idosos, porém, a jornada é de 12 horas de trabalho por 48 horas de descanso. Caso o período da atividade aumente, o tempo mínimo de descanso deve ser proporcional. “Isso é praticamente inviável financeiramente para a maioria das famílias. Como muitos precisam de um cuidador em tempo integral, para respeitar a regra seria necessário contratar três, quatro profissionais”, afirma Mário.

Desse jeito, se torna corriqueiro que as famílias que optam por não cumprir a legislação façam acordo direto com o cuidador, mesmo correndo o risco de sofrer processos na Justiça do Trabalho. O profissional, por sua vez, em muitos casos é submetido a um salário baixíssimo, exerce dupla função e não conta com direitos trabalhistas como Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), férias ou 13º salário.

ROTINA PUXADA

A informalidade e a falta de regulamentação não são os únicos desafios de quem trabalha no ramo. A cuidadora Simone ressalta que, além da parte técnica, é preciso ter habilidades emocionais para encarar a rotina, que inclui clientes com quadros clínicos delicados e o estresse natural da situação. “O cansaço do trabalho é não apenas físico mas mental. É necessário manter o próprio psicológico sadio para não se abater nem prejudicar a recuperação dos pacientes”, afirma.

Além disso, a adaptação entre profissional e cliente nem sempre é tranquila. “É comum trocar de cuidador diversas vezes até encontrar um que se encaixe no perfil da família e do idoso”, diz Raquel, da agência Viva Mais. De acordo com ela, geralmente as contratações são realizadas pelos parentes, mas é possível que os próprios grisalhos solicitem o serviço. “Uma vez, uma senhora de 94 anos entrou em contato conosco pois tinha medo de ficar sozinha e se acidentar. Outros também recorrem a um cuidador porque querem companhia”, diz. Por isso, os cursos de cuidador ensinam desde como reconhecer sinais vitais e auxiliar na locomoção, alimentação e higiene até a lidar com casos de abandono. “É preciso, sobretudo, saber ouvir e estimular a vitalidade dessas pessoas”, diz Ana Carolina, do Senac. Em cinco anos, desde que começou a oferecer o curso na área, a instituição já formou 9.000 cuidadores. De 2015 a 2019, por exemplo, o número de estudantes saltou de 1.194 para 4.700.

E muitos encontram na carreira uma vocação. Foi assim com Dayane Rainha Machado, de 26 anos. Depois de 15 anos cuidando da avó, que tinha trombose e úlcera, Dayane decidiu fazer um curso de enfermagem e trabalhar de vez como cuidadora, seguindo o mesmo caminho das colegas de profissão Antônia e Simone. “Embora difícil, o trabalho é bastante recompensador, pois os clientes são queridos e muitos criam vínculos conosco”, afirma. Dayane destaca também que o modelo de trabalho autônomo, que prevalece atualmente no mercado de cuidadores, embora tenha diversos ônus, permite flexibilidade. “Hoje, a remuneração média de um cuidador varia de 100 a 150 reais por dia, mas isso depende da região, da experiência e dos horários disponíveis. A parte positiva é que você faz o próprio salário”, afirma.

Como esse mercado ainda é jovem e deve passar por muitas mudanças, enquanto o número de idosos que precisarão de assistência irá multiplicar ano após ano, a expectativa é que questões como a regulamentação e a diminuição da informalidade avancem e garantam melhorias para esses profissionais – e consequentemente para os grisalhos que recorrem aos serviços.

RAIO X DO SEGMENTO

A expectativa de vida do brasileiro em 1991 era de 66,9 anos. Hoje é de 76 anos e, em 2039, será de 79.3 anos

No último levantamento do Caged, em 2018, foram registradas 36.720 carteiras assinadas para cuidadores de idosos. O número real será ainda maior, em razão da grande informalidade da profissão

Dados do IBGE apontam que, no último trimestre de 2019, o estado com maior percentual de idosos no país era o Rio de Janeiro, seguido por Rio Grande do Sul e Minas Gerais

Os salários para cuidador variam entre 1.000 (piso da categoria) e 2.000reais, dependendo da localidade, formação e disponibilidade dos profissionais

EU ACHO …

IRRITABILIDADE, INTOLERÂNCIA E ESTRESSE

O momento atual é de pouca paciência, pouca tolerância e alto estresse. O corpo não tem aguentado tanta carga emocional, e estamos vivendo uma pandemia de síndrome do pânico e crise de ansiedade. Reagimos de forma desproporcional e despendemos mais energia do que temos, em embates desnecessários. Mas por que temos agido assim?

A urgência da vida moderna é um dos motivos. Tudo é “para ontem”: trabalho, respostas e projetos. Com isso, desaprendemos a esperar também. Se formos pensar, há 20 anos, escrevíamos cartas para nossos amigos e familiares que moravam em outras cidades e esperávamos pacientemente a resposta, que às vezes vinha, outras não. Era um exército de resignação, sem ansiedade e pouca expectativa. Atualmente, temos um meio de comunicação ultra ágil, como as mensagens via celular, porém perdemos a capacidade de esperar. Na verdade, estamos num movimento contrário. Quando não somos prontamente respondidos, sentimos raiva, irritabilidade e ansiedade. Queremos respostas imediatas.

No trânsito não é diferente, a impaciência prepondera. Nós nos irritamos com a lentidão, com o semáforo que fecha, com a forma com a qual os outros dirigem. Muitas vezes, a irritabilidade é expressa por meio de xingamento, gritos e bate-boca. Um nítido descontrole emocional.

Outra situação recorrente é a incapacidade de tolerar um pensamento ou conduta que fogem ao senso comum. Há sempre uma crítica ou desmerecimento com aqueles que pensam ou vivem de forma diferente à nossa. Mas o que fazer com tantos estímulos que fomentam nosso estresse? Muitos optam por mudar das grandes capitais, outros por parar de ver notícias e se auto alienar. Penso que essa não seja a solução do problema, pois ignorar não significa estar isento do prejuízo. Por exemplo: um motorista que não sabe que é proibido parar em determinado local não está isento da multa. Uma pessoa que desconhece os malefícios do cigarro não está imune ao prejuízo que isso traz. A ignorância é como uma mão anestesiada que vai ao fogo. Em princípio, não se sente a dor, no entanto, isso não significa não sofrer as consequências da queimadura. A ignorância alivia temporariamente, mas não salva, ao mesmo tempo em que o conhecimento não resolve por completo a situação. Se assim fosse, ninguém fumaria, pois todos conhecem os males do tabaco. É preciso desenvolver um estágio superior, no qual consigamos, com paciência, dominar aquilo que nos domina.

O paciente é manso e, por isso, passa a impressão de ser fraco. Já o impaciente é nervoso e passa a impressão de ser forte. Este, o sem paciência, no fundo é o verdadeiro fraco, visto que não consegue controlar suas próprias reações. Segue comandado pela raiva e não tem controle sobre si. Já o paciente, aquele que parece “bobo”, é realmente forte, pois consegue resistir ao quase insuportável, procurando resolver os conflitos por meio do entendimento, e não da agressividade. A paciência é uma força revestida de suavidade, adquirida pela humildade, sabedoria e treino.

*** SIMONE DEMOLINARI

OUTROS OLHARES

DELÍRIO CRIACIONISTA

Novo presidente da Capes rejeita o pensamento científico e defende a teoria do “design inteligente” para criar um contraponto ao evolucionismo

O pensamento criacionista, baseado na Bíblia e que se opõe a evolucionismo do inglês Charles Darwin, está ganhando cada vez mais espaço no governo de Jair Bolsonaro. Depois da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, promover a tese de que o homem é uma criação divina e que Deus criou a vida, um novo membro do alto escalão do Ministério da Educação (MEC) traz na bagagem intelectual a crítica ao pensamento científico e a defesa de ideias religiosas retrógradas. Trata-se do recém-nomeado presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Benedito Guimarães Aguiar Neto, ex-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo. No ano passado, num evento na universidade, Aguiar Neto defendeu o criacionismo e disse querer “colocar um contraponto à teoria da evolução e disseminar a ideia de que a existência de um design inteligente pode estar presente a partir da educação básica, de uma maneira que podemos, com argumentos científicos, discutir o criacionismo”. O preocupante é que agora, à frente do Capes, ele pode impor suas teorias como política pública, já que o órgão do Ministério da Educação (MEC), além de oferecer bolsas de pesquisa para mestrado e doutorado, atua fortemente na formação inicial e continuada de professores para a educação básica.

O “design inteligente” ao qual se refere Aguiar Neto é uma teoria atrelada ao criacionismo, totalmente apoiada na fé na criação divina. Essa teoria argumenta que sistemas altamente complexos, como é o próprio homem, só podem ter sido desenvolvidos por um criador inteligente, um designer demiúrgico, que seria o próprio Deus. Teme-se que esse tipo de pensamento, totalmente refutado pela comunidade científica, passe a nortear a educação básica e que se estimule os pesquisadores bancados pela Capes a defender teses criacionistas. Há que aguardar também os novos livros didáticos que o MEC pretende produzir em breve. Na semana passada, Bolsonaro assinou um decreto que autoriza o MEC a produzir o próprio material que distribui para as escolas, sem que haja necessidade de processos de licitação e sem qualquer avaliação externa. O “design inteligente” deve invadir esses livros.

A prestigiada revista americana Science se posicionou contra a nomeação de um criacionista para comandar a pesquisa no País.

REAÇÃO INTERNACIONAL

Até a prestigiada revista americana Science se posicionou em um artigo na sua última edição contra a nomeação de um criacionista para comandar a pesquisa no País. Segundo a revista, a escolha de Aguiar Neto para comandar a agência deixou os cientistas preocupados com a possibilidade de interferência da religião na ciência e na política educacional. A Science lembrou também de Damares Alves, que, no ano passado, declarou que a igreja evangélica perdeu espaço na ciência quando deixou a teoria da evolução entrar nas escolas. Para tentar diminuir o mal-estar na comunidade científica, na quarta-feira 29, Aguiar Neto divulgou uma nota em que diz defender a “liberdade de cátedra”, princípio que tem como finalidade garantir o pluralismo de ideias e de concepções de ensino, especialmente no universitário. “Sem liberdade de cátedra, não há nem a criatividade intelectual, nem as soluções dos problemas nacionais”, afirmou. “O fomento à apropriação e ao desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico dos problemas nacionais serão prioridade na minha gestão”.

Possivelmente a defesa do criacionismo e do “design inteligente” estará incluída entre as possibilidades de liberdade de cátedra e de pluralismo de ideias defendidas por Aguiar Neto. Se for fiel às suas teses, o novo presidente do Capes deve priorizar pesquisas que comprovem que o “design inteligente” é ciência e gastará dinheiro público que poderia estar sendo aplicado em ciência de verdade. O orçamento da Capes para 2020 será de R$ 2,8 bilhões, o equivalente a 67% do total de recursos disponíveis no ano passado. Há mais de um século há um consenso entre os cientistas de que o evolucionismo de Darwin é a melhor explicação para os fenômenos da vida. O próprio Vaticano endossa o pensamento darwinista. Mas, pelo jeito, no Brasil ele está em baixa, o que só serve para aumentar o temor sobre o futuro da educação pública.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 04 DE JANEIRO

CUIDADO COM A PREGUIÇA

O que trabalha com mão remissa empobrece, mas a mão dos diligentes vem a enriquecer-se (Provérbios 10.4).

A preguiça é a mãe da miséria e a patrona da pobreza. Aqueles que têm alergia ao trabalho e fogem dele como se fosse praga contagiosa empobrecem. Aqueles que amam o sono e encontram toda sorte de desculpas para não trabalhar, esses acabam tendo a mente cheia de coisas perversas. O ditado popular diz: “Mente vazia é oficina do diabo”. O trabalho é uma bênção. O trabalho não é castigo nem fruto do pecado. É uma ordem de Deus. O homem trabalhava antes da queda e trabalhará depois da glorificação. O céu não será uma bem-aventurança contemplativa, mas um trabalho dinâmico e deleitoso. A Bíblia diz que no céu os servos de Deus o servirão. O trabalho dignifica o homem, supre as necessidades da família, faz prosperar a sociedade e glorifica a Deus. O trabalho é uma bênção, e devemos nos dedicar a ele com profundo zelo. Todo trabalho feito com honestidade é digno. Podemos trafegar da indústria ao santuário com a mesma devoção. O trabalho gera riqueza, pois a mão dos diligentes vem a enriquecer-se. Por intermédio do trabalho fazemos o que é bom, cuidamos de nós mesmos e da nossa família e ainda acudimos ao necessitado.

GESTÃO E CARREIRA

O CELULAR NO CONTROLE

Pesquisa exclusiva revela que 41% dos brasileiros entram em pânico longe do smartphone. O uso excessivo dessa tecnologia está nos tornando estressados, pouco criativos e improdutivos. Veja como encontrar o equilíbrio num mundo em que todos se sentem pressionados a estar sempre disponíveis

Em 2016, um médico disse ao paranaense Adriano Santos que seu corpo não era o de um homem de sua idade. Clinicamente, seu organismo parecia estar uma década à frente: em vez de 35 anos, o físico era o de uma pessoa de 45. Sobrepeso, hipertensão e depressão em estágio inicial compunham o quadro. Se nada fosse feito, no ritmo em que estava, Adriano poderia perder anos de vida. O diagnóstico assustou o fundador da startup Empari Global Innovation, de softwares e aplicativos para gestão de pequenas e médias empresas. Sua primeira atitude foi investigar os hábitos para entender de onde vinham tantos problemas, pois não existia nenhuma doença crônica diagnosticada. Ao olhar sua rotina, algo ficou claro: o uso exagerado da tecnologia estava acabando com sua saúde. “Dormia às 5 horas para acordar às 9, todos os dias. Ficava programando e olhando as redes sociais ao mesmo tempo. Minha ansiedade era muito grande e eu a descontava na mídia social, no WhatsApp e no e-mail”, afirma Adriano, que abraçou uma profunda mudança de comportamento e hoje está saudável.

Assim como Adriano, pessoas estão adoecendo por causa do excesso de conectividade e se tornando dependentes da tecnologia – prova disso é o levantamento feito pela Motorola em parceria com Nancy Etcoff, psicóloga especializada em comportamento cognitivo da Universidade Harvard. A fabricante de celulares ouviu 20.000 brasileiros e descobriu que 41,5% deles estão viciados em seus telefones.

No entanto, muitos não percebem que, sem um uso equilibrado, poderão sofrer graves consequências. Várias pesquisas mostram que estar 100% do tempo on-line auxilia no surgimento de doenças como ansiedade, depressão, estresse, déficit de atenção e até transtorno obsessivo-compulsivo. Um estudo alarmante, conduzido por professores da Universidade de Seul, diz que quem se tornou dependente de smartphone tem níveis menores do ciclo de glutamato-glutamina (série de eventos mentais responsável por energizar os neurônios) e níveis mais altos de Gaba, neurotransmissor que inibe os neurônios. Resultado: nervosismo, insônia e falta de foco.

Não há como voltar atrás no desenvolvimento da tecnologia. Só que dá para acender o sinal de alerta e entender que os riscos do exagero são graves. Mais do que isso. É preciso compreender que smartphones, aplicativos, redes sociais, relógios inteligentes, videogames, tablets e notebooks são mais viciantes do que imaginamos – e que isso prejudica nossa produtividade e criatividade, o que é péssimo para os negócios e para a carreira.

”Estamos vivendo uma transformação que alguns comparam com a descoberta do fogo há 2 milhões de anos. Somos testemunhas oculares de uma mudança paradigmática em que cada vez mais a inteligência artificial se torna presente”, diz Cristiano Kabuco, psicólogo e coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica do Programa dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ser testemunha de uma mudança tão profunda na sociedade é empolgante, mas é também um problema: não sabemos lidar com o que o mundo está nos oferecendo. Pior: não paramos para pensar no que estamos nos transformando – e no que as próximas gerações vão se tornar. “Por ser muito recente, o ser humano ainda se encontra deslumbrado com tudo o que a tecnologia pode fazer”, diz Cristiano.

E o que é esse tudo? Tem a parte positiva, claro. A tecnologia auxilia no desenvolvimento da ciência, da medicina, da agricultura, da indústria e na disseminação do conhecimento. Existe, porém, o outro lado da moeda. Se você faz parte dos 68% que pegam o celular assim que abrem os olhos, de acordo com levantamento da revista Time, ou dos surpreendentes mesmos 68% que acionam o aparelho ainda dormindo, segundo pesquisa da consultoria Deloitte, certamente está sucumbindo à tentação da conexão 24/7 (24 horas por sete dias da semana). E talvez comece a perceber os efeitos nocivos dessa interação constante e concorde com o que a jornalista americana Catherine Price diz em Celular: Como Dar um Tempo, recém-lançado no Brasil: “Ao mesmo tempo que estamos ocupados, também nos sentimos ineficientes. Estamos conectados, mas somos solitários. A tecnologia que nos dá liberdade também funciona como uma prisão quanto mais ficamos presos, nos perguntamos com mais frequência quem realmente está no controle. O resultado é uma tensão paralisante”.

Mesmo antes de termos mais de um smartphone ativo por habitante no Brasil (ou 220 milhões de aparelhos), havia viciados em tecnologia. O problema é que esses dispositivos são mais perigosos do que os PCs simplesmente porque não ficam presos a uma mesa. Podem estar ao nosso lado conforme nosso desejo, vibrando o tempo todo em nossas mãos. Vibram tanto que nove em cada dez pessoas já sentiram a “síndrome do celular fantasma”, quando acham que seus dispositivos estão tocando mesmo quando estão estáticos, de acordo com um teste feito no Instituto de Tecnologia da Georgia. “Por serem móveis, causam mais dependência. Há o fato de que podemos fazer qualquer coisa com eles, pois existem aplicativos para tudo, e isso os torna ainda mais viciantes”, afirma a psicóloga americana Kimberly Young, fundadora do Centro de Vício em Internet e uma das primeiras pesquisadoras do mundo sobre o assunto. Por que tanto impulso por olhar o dispositivo? Porque os cérebros estão sendo treinados para isso.

DA FELICIDADE À ANSIEDADE

A mente está sempre em busca do bem-estar. É uma questão evolutiva. Para sobreviver, corremos atrás daquilo que nos agrada. Uma das maneiras mais eficazes de alcançar essa sensação é por meio da produção de dopamina, o famoso hormônio da felicidade, liberado quando nos sentimos recompensados. Funciona assim: um comportamento X leva a uma consequência Y, e isso traz alegria. Por exemplo, quando você entrega um trabalho e recebe um elogio, seu cérebro vai soltar dopamina, você se sentirá feliz e tentará repetir a tática para conquistar o mesmo efeito.

Até aí, só vantagem. O problema é que podemos associar a recompensa a atitudes negativas. Um dos exemplos clássicos é o da máquina de caça níqueis. Quando alguém joga nesse aparelho, experimenta uma série de tentativas frustradas. Mas, se em algum momento cinco abóboras se alinharem no visor, a pessoa terá ganhado o jogo, e o corpo vai comemorar com uma boa quantidade de dopamina. O comportamento de apertar incessantemente os botões (ou de puxar a alavanca) levou ao cumprimento de um objetivo, e isso nos deixa animados. No entanto, se passarmos horas a fio correndo atrás do jackpot, vamos ficar dependentes de doses cada vez mais altas do hormônio.

Algumas tecnologias seguem o mesmo princípio. “Os videogames fazem com que a liberação de dopamina aconteça depois de 5 minutos. O cérebro percebe e sinaliza dizendo para segurar a dose e reagir só após 8 minutos. Depois, são necessários 16 para ter a mesma sensação. Aí cria-se um círculo vicioso.” diz Cristiano Nabuco, da USP.  “As redes sociais e o WhatsApp têm o mesmo efeito dopaminérgico. Quando você não está bem e recebe um comentário elogioso online, sua autoestima melhora naquele momento.” Por isso é tão difícil tirar os olhos da tela. A mente entende que existe felicidade ao abrir uma mensagem ou ao receber uma notificação de um aplicativo. Para alcançar o mesmo nível de satisfação, a quantidade terá de ser cada vez maior. Não à toa, as pessoas tocam, em média, 2.617 vezes por dia no celular, de acordo com levantamento do site Dscout, plataforma americana de análise de mercado.

Tudo isso, além de causar uma possível dependência, pode levar a extremos de ansiedade. Em Celular: Como Dar um Tempo, Catherine Price escreve que “o psicólogo Larry Rosen, da Universidade do Estado da Califórnia, afirma que o telefone provoca ansiedade de modo deliberado ao proporcionar novas informações e gatilhos emocionais toda vez que pegamos o aparelho. Isso nos faz ter medo de que, cada vez que os largamos, mesmo por um segundo, percamos algo. O termo leigo para essa ansiedade é Fomo (fear of missing out, ou “medo de perder alguma coisa”). Os seres humanos sempre sofreram de Fomo. Mas éramos protegidos de desenvolver uma infecção total pelo fato de que, até o surgimento dos smartphones, não havia nenhum jeito de saber o que estávamos perdendo”.

Passamos o tempo todo apavorados por causa da probabilidade de estarmos desatualizados. Uma pesquisa aplicada em parceria com a consultoria de recrutamento Talenses, com 620 profissionais de todo o Brasil descobriu que 41% têm esse temor quando são obrigados a se separar dos smartphones, 29% se sentem ansiosos e apenas 16% relaxam. A conexão total leva a um efeito rebote. “Ficamos convencidos de que a única maneira de nos proteger do Fomo é olhar o celular a todo o momento para ter certeza de que não estamos perdendo nada. Mas, em vez de aliviar a ansiedade, essa prática a estimula de tal forma que as glândulas ad-renais acabam por liberar uma rajada de cortisol – um hormônio de estresse que tem papel importante em situações de luta ou fuga – toda vez que largamos o celular”, explica Catherine em seu livro. Na busca por aliviar a ansiedade, o que se encontra é apenas mais ansiedade.

No caso do trabalho, isso pode ser demonstrado pelos e-mails. A simples expectativa de receber uma mensagem que, por algum motivo, precisa ser respondida fora do expediente leva ao estresse. Essa foi a conclusão de um estudo feito em por professores das universidades Lehight, da Virgínia, e do Estado do Colorado, todas americanas, com 297 trabalhadores. Os autores explicam que, por poderem ser acessados de qualquer lugar, os e-mails geram uma sensação de sobrecarga, pois os funcionários se envolvem continuamente com o trabalho mesmo longe do escritório – o que inibe a capacidade de desconexão psicológica. “A mobilidade não significa que sejamos obrigados a estar o tempo tudo disponíveis”, diz Beatriz Maria Braga, professora de gestão de pessoas na escola de negócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV Eaesp).

Na DB1, desenvolvedora de softwares com 350 funcionários e sede em Maringá (PR), há uma crescente preocupação com isso. Além de não permitir que alguém trabalhe após as 20 horas, quando o escritório fecha, a empresa restringiu o acesso remoto aos computadores corporativos. Agora, só com a autorização da liderança e da equipe de TI um funcionário pode acessar os sistemas fora da empresa. “Estamos mais atentos a isso por questões de segurança e para evitar o uso em horários inadequados”, diz Natália Kawatoko, gerente de RH da DB1

DE CIMA PARA BAIXO

A luta contra o excesso passa pelo desenvolvimento da educação digital. “As pessoas usam o celular em todos os lugares, sem a menor sensação de estar sendo inconvenientes ou de que isso esteja atrapalhando o sono, a concentração e o trabalho”, diz Anna Lucia Spear King, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro e fundadora em 2013 do Instituto Delete, o primeiro centro voltado para dependência digital na América Latina, que é ligado à UFRJ e já atendeu mais de 1.000 pacientes nos últimos cinco anos. A maioria de quem nos procura se acha viciada, mas o fato é que não sabe usar a tecnologia corretamente.”

Para se policiar, é possível adotar uma série de atitudes pessoais – que vão desde deixar os gráficos dos smartphones em cinza até a desconexão mais profunda, como foi o caso do engenheiro e empreendedor Alexandre Vianna, de 43 anos. A mudança aconteceu por acaso, quando ele cedeu seu smartphone para a esposa. “O dela havia estragado, então recuperei meu aparelho antigo”, diz. Nos meses seguintes, Alexandre não sentiu falta do gadget e continuou com o modelo antigo. Desde então, já se passaram dois anos. Mineiro de Belo Horizonte, ele acredita que a principal vantagem é ficar desconectado depois de encerrar o expediente em sua empresa de tecnologia, que vai das 7 às 16h30. “Gostei de não ter mais celular porque, quando desligo o computador, fico offline e não caio na tentação de mexer no aparelho”, explica. Por investir no mercado financeiro, costumava acompanhar cotações de ações sempre que estava na rua, mas esse hábito foi substituído por momentos de desconexão. “Quando saio de casa, estou realmente fora. Leio livros de papel nas salas de espera e no transporte público. Sou observador, também gosto de ficar vendo as pessoas. Hoje em dia está todo mundo olhando para baixo”. Outro ganho foi sair dos grupos da família no WhatsApp. “É melhor receber telefonemas dos familiares no dia do meu aniversário, porque as mensagens instantâneas são impessoais”, diz. Talvez daqui a alguns anos seja impossível não ter um smartphone, mas seu plano é adiar esse dia ao máximo.             Sou motivo de brincadeiras dos amigos, principalmente porque atuo na área de TI. Mesmo assim, se eu puder não comprar um smartphone, não comprarei.”

Cada um pode fazer sua parte, mas, no trabalho, a realidade da conexão contínua só vai mudar se os líderes estiverem realmente dispostos a dar o exemplo. “A impressão que eu tenho é que a maioria das empresas está inconsciente sobre esse problema. Isso passa despercebido pelos gestores”, diz Cristiano Nabuco, da USP. Simon Sinek, guru de gestão autor do livro Os Líderes se Servem por Último, concorda com o diagnóstico. Numa palestra dada em 2015 na Escola de Administração de Iowa, ele alertou que, quando alguém entra numa reunião e vê um celular em cima da mesa, se sente preterido. “E coloca-lo de cabeça para baixo não é mais educado. A coisa mais importante é se desligar do dispositivo quando estiver em contato com outro ser humano. Lembre- se que lideramos pelo exemplo”. Ele costuma aplicar a separação forçada em seus workshops. “A primeira coisa que faço é pegar um cesto e pedir para que cada um deposite o telefone ali dentro. São executivos seniores e eu recebo uns olhares muito duros. Eles não estão felizes. Mas alguns minutos depois relaxam. O melhor acontece nos intervalos: eles realmente conversam uns com os outros. Nunca deveria haver celulares em salas de reunião – qualquer que seja – porque a qualidade dos encontros sempre é mais elevada.”

A EY, consultoria e auditoria, tem se preocupado com o excesso de conexão e fez, neste ano, um projeto nos escritórios da sede americana durante a semana de 4 de julho, um dos feriados mais importantes nos Estados Unidos. Nesse período, os empregados ganharam sete dias de folga com a orientação de se desconectarem totalmente – não poderiam usar computadores ou smartphones. “Os funcionários foram avisados de que a chefia e os clientes não iriam enviar e-mails”, diz Cristiane Amaral, líder de gestão de talentos para o Brasil e América do Sul. O objetivo era incentivar a reflexão dos profissionais sobre sua relação com a tecnologia, promovendo o uso consciente das ferramentas e a proximidade das pessoas com suas famílias. “Todos voltaram muito mais produtivos e perceberam que uma semana assim não prejudica a empresa, pelo contrário”, diz Cristiane, que está estudando a aplicação da prática no Brasil. “Se a gente não se preparar para fazer desconexões, as empresas vão ter mais afastamentos.”

Já na DB1, a mesma que restringe o acesso remoto, a solução para desconectar aparece na sala de descompressão. Ali, além de 25 leitos para descanso, só existem brincadeiras analógicas, como xadrez, pebolim e tênis de mesa disponíveis para uso o dia todo. “Antes tínhamos videogames, mas retiramos porque não havia demanda. Os profissionais preferem os jogos não eletrônicos porque conseguem ter um momento de integração que os games não proporcionam”, afirma a gerente de RH Natalia Kawatoko.

A GUERRA PELA ATENÇÃO

Outro princípio que explica a sensação de uma necessidade constante de conexão tem a ver com recompensas variáveis e intermitentes, quando não sabemos em que momento uma novidade pode aparecer e ficamos cm estado de alerta, esperando por ela. Lembra dos caça-níqueis? É a mesma coisa. No texto como a tecnologia sequestra a mente das pessoas, Tristan Harris, ex-funcionário do Google e cofundador do Center for Humane Technology, que prega a ética na tecnologia, explica o mecanismo: “Se você quer maximizar o vício ou dependência, tudo que os designers de tecnologia precisam fazer é atrelar uma ação do usuário (como puxar uma alavanca) a uma recompensa variável. Você puxa a alavanca e imediatamente ou recebe uma recompensa tentadora (um match, um prêmio), ou não recebe nada. A dependência é maximizada quando a taxa de recompensa é bastante variada. Mas aqui está a triste verdade – alguns bilhões de pessoas têm uma máquina de caça­ níqueis no bolso: quando tiramos o celular do bolso, estamos apostando em caça níqueis para ver quais notificações recebemos”.

Segundo Tristan, empresas e desenvolvedores sabem disso e usam desse e de outros métodos de atratividade para fazer com que as pessoas fiquem o máximo possível em suas plataformas. Quanto mais tempo alguém estiver conectado a um aplicativo, mais sua dona consegue faturar, seja com anúncios personalizados, seja com a comercialização de dados pessoais – o que começa a se tornar uma questão legal ao redor do mundo. No fundo, o que está à venda é a nossa atenção.

Prestar atenção é algo custoso para nossa mente, que, além de precisar se concentrar em algo específico, a inda tem de isolar o que atrapalha – barulhos, cheiros ou sensações físicas (como fome e frio). Quando um dispositivo tecnológico está por perto, toda a distração do mundo está ali, mesmo que ele fique em silêncio. Foi o que descobriu uma pesquisa feita pela Escola de Negócios da Universidade do Texas. Os cientistas acompanharam pessoas que precisavam cumprir uma atividade de concentração. Elas podiam escolher se queriam deixar os telefones (todos no silencioso) na mesa virados de cabeça para baixo, no bolso, na bolsa ou colocá-los numa sala ao lado. Os resultados mostraram que os que estavam fisicamente longe do celular tiveram desempenhos melhores do que os outros. “É como se, nas proximidades, mesmo sem utilização, o dispositivo roubasse a capacidade de aprofundamento”, diz Cristiano Nabuco, da USP. Para evitar perdas de produtividade, algumas companhias têm restringido o uso dos gadgets no trabalho. Na área de segurança privada, um acordo coletivo entre sindicatos e empresas firmado há cinco anos no estado de São Paulo proíbe o manuseio de smartphone no serviço. “O setor enfrentou alguns problemas no passado devido à falta de atenção dos vigilantes pelo uso do celular”, diz Marcos Sousa, diretor de RH da Gocil Segurança e Serviços, que tem 18.000 profissionais. Por lá, os empregados recebem orientações sobre o uso. Caso um vigilante seja visto descumprindo a regra, tem um desconto de 5% a 25% na participação de lucros anual. “Foi uma transição difícil porque era uma novidade e as pessoas queriam usar a todo momento”, diz Marcos.

Na General Motors, a regra global, aplicada para 180.000 empregados desde janeiro de 2019 diz que não se pode olhar o celular quando se está em movimento – iniciativa que faz parte das regras de segurança da empresa, avaliadas como positivas por 85% dos funcionários. “É um chamado para a gente ter uma vida mais plena, estar presente quando fala ao telefone, quando dirige, caminha. As pessoas às vezes pensam que podem viver diversas vidas ao mesmo momento, mas isso não é realidade”, afirma Christian Cetera, diretor de recursos humanos da GM Mercosul.

ÁVIDOS POR IRRELEVÂNCIA

A desatenção que os aparelhos digitais causam tem a ver com o foco disperso. “Existe a máxima de quanto mais, melhor. Isso não funciona para o cérebro, que tem a função biológica de concluir tarefas”, afirma Cristiano. Conclusão: quem acredita que pode se desdobrar em vários e ser multitarefa, alternando a atenção em múltiplas telas ao mesmo tempo, está se autoenganando. Em 2.009, pesquisadores da Universidade Stanford revelaram que os multitarefas digitais assumidos que usam vários dispositivos ao mesmo tempo enquanto fazem coisas – são piores executores do que quem se concentra em uma atividade por vez. De acordo com o estudo, os multitarefas digitais não conseguem nem estruturar informações nem ignorar o que é irrelevante. No limite, esse comportamento os transforma em seres incapazes de realizar qualquer coisa com eficiência. “Eles são ávidos por irrelevância e tudo os distrai”, disse Clifford Nass, professor de comunicação de Stanford e um dos autores do estudo. “Ficamos procurando algo em que eles fossem melhores, mas não achamos nada”, disse Eyal Ophir, um dos pesquisadores da Universidade Stanford.

O cérebro simplesmente não aguenta operar assim, pois precisa terminar tarefas para relaxar. Em psicologia, esse processo é chamado de “fechar as gestalts”, aquelas famosas figuras em preto e branco em que vemos ora dois rostos, ora dois vasos. Quando conseguimos identificar um dos desenhos, a mente percebe que realizou uma tarefa e está pronta para começar outra. Biologicamente, o cérebro só se aprofunda quando faz uma coisa por vez. “O processo de alternar as informações mentais por causa do estímulo de um celular, por exemplo, é custoso. Isso cria uma alta carga emocional, que se transforma em desgaste mental”, diz Cristiano, da USP.

Há também o fato de que, nas telas, a assimilação de conteúdo é diferente. A consultoria Nielsen Norman Group mapeou (usando a técnica de eyetrackers) a leitura digital de cerca de 300 pessoas e encontrou um padrão. No computador ou num dispositivo móvel, os olhos trabalham fazendo um movimento em “F”, ou seja, veem rapidamente o conteúdo da esquerda para a direita e descem rapidamente até o pé da página. Isso ocorre porque os usuários estão tentando ser mais eficientes e não estão comprometidos a ler todas as palavras do texto. A leitura dinâmica se torna o padrão. Desse modo, porém, a informação não fica gravada. “Para sair da superficialidade, a informação precisa funcionar como se fosse um conta-gotas: conforme eu leio, ela pinga no gargalo de reflexão. Quando reflito, ela é ancora em dados prévios, gerando conhecimento. Na leitura em ‘F’, isso não acontece”, afirma o psicólogo da USP.

Talvez por tudo isso o QI dos jovens esteja caindo. Mesmo com um volume maior de informações, os níveis de inteligência declinaram 12 pontos entre 1980 e 2008, de acordo com levantamento do professor James Flynn, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia. E o mesmo tem acontecido no Brasil. Uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo mapeou que o uso do celular atrapalha o desenvolvimento dos estudantes universitários. A cada 100 minutos diários de navegação no celular, os alunos perdem, em média, 6,3 pontos no ranking de classificação da universidade. Isso se usarem o aparelho em casa. Caso utilizem dentro da sala de aula, a queda chega a 12 pontos. O impacto na aprendizagem é grande e, por isso, a França proibiu a entrada de celulares e tablets nas escolas públicas do país – uma “medida de desintoxicação contra a distração”, de acordo com o Parlamento francês.

SILÊNCIO INTERIOR

Esses dados mostram que estamos nos transformando na geração da superficialidade. Mas a atenção é um ativo precioso demais para ser tão negligenciado. Sem ela, não experimentamos nada com profundidade. E, sem viver alguma coisa por inteiro, fica impossível criar as memórias de longo prazo, aquelas que realmente se enraízam e com as quais podemos contar para concatenar uma informação com a outra, solucionar problemas e ter novas ideias. “Só vivenciamos aquilo em que prestamos atenção. Quando decidimos no que prestar atenção em determinado momento, tomamos uma decisão mais ampla, de como queremos viver a vida (…). O celular nos absorve num estado intensamente focado de distração”, afirma Catherine em um trecho de seu livro.

O antídoto é se reconectar consigo mesmo e criar momentos em que a tecnologia seja realmente deixada de lado. Claro que, no mundo do entretenimento contínuo, a tarefa não é tão simples assim. Ficar sozinho para refletir, concretizar memórias e tomar decisões complexas – ou simplesmente para deixar o barulho do mundo do lado de fora – requer uma grande luta interna. Isso foi comprovado em um estudo feito pelas universidades Harvard e da Virgínia. Os cientistas queriam ver como 42 pessoas reagiriam se precisassem ficar sozinhas e caladas num quarto sem nenhuma distração por 15 minutos. Elas poderiam ficar sem fazer nada ou levar um choque só para fazer o tempo passar.  Todas experimentaram a descarga elétrica (leve, mas dolorosa) antes de decidir. Para surpresa dos cientistas, 43% preferiram a dor ao isolamento. E um dos participantes estava tão entediado que ministrou 18 choques em si mesmo. Como dizia o filósofo Blaise Pascal (1623-1662), nos aprofundar em nossas questões mais íntimas (como a mortalidade e a ignorância) é tão doloroso para os seres humanos que preferimos fugir desses assuntos – e de nós mesmos.

No fundo, os choques e a conexão constante não são tão diferentes. São apenas maneiras de escapar. No livro Silêncio – Na Era do Ruído, de Erling Kagge, escritor norueguês e explorador que caminhou sozinho pelos dois polos do planeta e escalou o monte Evereste. Ele escreve: “É fácil pensar que o mais importante, a essência da tecnologia, é justamente o aspecto tecnológico, mas essa é uma concepção equivocada. A questão é saber como somos transformados pela tecnologia que usamos, o que pretendemos aprender, qual é nossa relação com a natureza, com as pessoas que amamos, com o tempo que investimos e com a liberdade da qual abrimos mão em nome da tecnologia (…) O segredo é se afastar. Você pode encontrar seu polo sul particular”. É só achar significado no que realmente tem significado – nossa humanidade. E ela não está atrás de uma tela, mas nas relações que estabelecemos com o que importa: um texto que nos faz pensar, uma conversa profunda com um colega de trabalho, uma experiência que transforma nossa percepção. No convívio com as máquinas, ganha quem se mostra mais humano.

DATA-CELULAR

Quase todos os profissionais trabalharam durante as férias usando o smartphone. É o que mostra a pesquisa exclusiva feita pela consultoria de recrutamento Talenses, que entrevistou 620 pessoas no país. Alexandre Benedetti, diretor da divisão de recursos humanos da Talenses, alerta: “É preciso encontrar o equilíbrio. Quando você fica altamente dependente da ferramenta, isso afeta sua gestão do tempo”. Veja os resultados:

DETOX DIGITAL

Estratégias para diminuir o tempo que você passa online

1. PROTEJA O QUARTO

O brilho de uma tela tem a mesma tonalidade azul do sol nascente, o que faz com que o cérebro entenda que é hora de parar de liberar melatonina, – hormônio que ajuda no sono, para o corpo acordar. Por isso, levar um dispositivo móvel para a cama é tão prejudicial. Colocar um filtro de diminuição do brilho não é a solução – porque você pode começar a navegar e estimular seu cérebro de outra maneira. Compre um despertador e deixe o quarto no escuro.

2. CRIE MOMENTOS DE LIBERDADE

Agende horários de desconexão. Se gosta de praticar esportes, comece a fazer exercícios sem levar os gadgets, ou aproveite o caminho de casa até o trabalho para ler um livro de papel. Amplie esses momentos e tente ficar a maior parte do fim de semana sem utilizar os aplicativos que mais lhe causam ansiedade e estresse. Assim, você estará energizado na segunda-feira.

3. ESTABELEÇA REGRAS DE CONEXÃO

Ao criar uma rotina de horários para usar e-mail, WhatsApp e redes sociais, você se policia para não ficar online sempre. Combine com colegas, chefes e clientes em quais momentos estará disponível. é possível programar respostas automáticas com os horários em que você irá responder às solicitações. em reuniões, deixar o celular e o notebook fora da sala ajuda a ter mais foco nas discussões – experimente algumas vezes.

4. SEJA EDUCADO

Em inglês, existe uma expressão para quando alguém não presta atenção na outra pessoa porque está olhando o celular: phubbing, junção das palavras phone (telefone) e Snubbing (esnobar). A maioria dos indivíduos já vivenciou essa situação – que é péssima em qualquer momento, principalmente no trabalho, pois demonstra falta de consideração com os demais. A desconexão começa nas pequenas atitudes.

5. ENVOLVA AS PESSOAS PRÓXIMAS

Fugir da tecnologia é complicado porque ela está em praticamente todos os lugares. Por isso, convide quem está perto de você para praticar a desconexão. Num jantar com os amigos, sugira que todos deixem o celular dentro de uma bolsa, longe dos olhos, e simplesmente conversem. No fim de semana com a família, faça programas que não exijam internet, como passear no parque (sem caçar pokemons) ou cozinhar.

DISCUTINDO A RELAÇÃO

Uma pesquisa da consultoria Deloitte feita com 2.000 brasileiros mostra o que as pessoas pensam sobre o uso dos dispositivos móveis

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOPATAS – A CIÊNCIA EXPLICA

Há algo de errado com o cérebro dos psicopatas?

Estima-se que uma em cada cem pessoas seja um psicopata. Porém, não é fácil identificar um deles apenas pela observação, já que costumam ser mestres da manipulação e ótimos em imitar o comportamento humano normal. Mas o que é que se passa no cérebro deles? Será que é tão diferente do restante da população?

CÉREBRO DIFERENTE

A psicopatia é uma doença causada por uma anomalia orgânica no cérebro, e que costuma estar associada ao transtorno de personalidade antissocial. Clinicamente, os psicopatas são definidos como indivíduos com altos índices de falta de empatia, culpa e remorso. “O neurocientista da Universidade do Novo México, Kent Kiehl, estudou o cérebro dos psicopatas e constatou que possui níveis pequenos de densidade no sistema límbico. Esse sistema é formado por várias partes, entre elas a amígdala e o hipotálamo, e é responsável pelo processamento das emoções. Esta falta de emoções e um comportamento antissocial é uma construção, ou melhor, uma desconstrução do afeto desde a infância e tende a ser mais evidente na adolescência”, conta o psicólogo Breno Rosostolato.

A amígdala é uma parte do cérebro humano que está envolvida no condicionamento aversivo e na aprendizagem instrumental por punição e recompensa, por exemplo, além da resposta ao medo e a expressões faciais tristes. “Assim, sugere-se que a disfunção da amígdala é um dos mecanismos centrais envolvidos na patologia da psicopatia. Alguns estudos evidenciaram redução do volume da amígdala em indivíduos com escores elevados para psicopatia, o que torna essa hipótese ainda mais provável”, conclui a neurologista Marcela Amaral Avelino.

Vários estudos de neuroimagem têm investigado como os cérebros dos indivíduos com altos níveis de traços psicopáticos podem ser diferentes dos cérebros de pessoas normais ou ainda dos cérebros de quem tem comportamento antissocial, mas não comportamento psicopáticos. Marcela afirma ainda que as evidências mais recentes mostraram que os indivíduos com psicopatia podem apresentar uma atividade reduzida também na porção anterior da ínsula: “Em relação a presidiários não psicopatas, o cérebro de psicopatas exibiu áreas distintas de significativo afilamento do córtex cerebral. A área de maior diferença de espessura cortical foi a ínsula esquerda. Esta constatação está bem alinhada com os resultados de um estudo recente mostrando que criminosos violentos exibem reduções de volume de substância cinzenta especificamente na insula anterior esquerda (em relação aos não infratores pareados por abuso de substâncias) e que a gravidade da psicopatia está correlacionada com o volume da ínsula esquerda”. As pesquisas dão pistas sobre porque os indivíduos com altos níveis de traços psicopáticos não planejam com antecedência, têm decisões impulsivas, e parecem ser tão impulsionados pelo potencial de recompensa imediata a si mesmos.

O cérebro de um psicopata apresenta ainda um déficit de funcionamento do sistema orbito-frontal, responsável por processar emoções humanas como a empatia, a solidariedade e o amor. Em uma imagem de PETScan, esta região se mostra azul, o que quer dizer pouca ou nenhuma atividade. “Um psicopata tem a mesma reação diante da imagem de um campo florido com pôr do sol e uma criança sendo torturada, ou seja, nenhuma. Por isso não funciona em um psicopata um detector de mentiras. Ele não apresenta reação normal de um ser humano ao mentir”, finaliza a psicanalista Júlia Bárány.

NADA DE APRENDER COM OS ERROS

A inabilidade de um psicopata em aprender com transgressões está enraizada na estrutura de seus cérebros. Um estudo conduzido por Sheilagh Hodgins, da Universidade de Montreal, no Canadá, e por Nigel Blackwood, do King’s College de Londres, na Inglaterra, mostrou que criminosos violentos e psicopatas não processam punição da mesma forma que as outras pessoas costumam processar, tudo isso por causa de anormalidades em partes do cérebro associadas à culpa e a aprender com os erros.

Um em cada cinco criminosos violentos é um psicopata, e eles apresentam uma taxa bem mais alta de reincidência e de repetir comportamentos passados, não se beneficiando, assim, de programa de reabilitação. Para os estudos, os cientistas fizeram ressonância magnética em criminosos violentos em liberdade condicional no Reino Unido, condenados por estupros, assassinato, tentativa de assassinato e dano corporal. Todos os participantes eram do sexo masculino, 32 dele tinham transtorno de personalidade antissocial e, destes, 12 também eram psicopatas. Além disso, também foram analisados 18 não-criminosos saudáveis.

Durante tarefas neuropsicológicas, os criminosos violentos não foram capazes de aprender com punição, de mudar seu comportamento diante de eventualidades e ainda tomaram decisões de menor qualidade, mesmo após períodos mais longos de deliberação. O estudo também revelou reduções de massa cinzenta em partes dos cérebros dos psicopatas associadas à empatia, vergonha e culpa, além de anormalidades na massa branca de áreas ligadas à aprendizagem com punição e recompensa. A conclusão é que os criminosos psicopatas consideram apenas as consequências positivas de suas ações, deixando de lado as negativas. E, se eles não aprendem com os erros, fica difícil mudar o comportamento.

EU ACHO …

A ARTE DE ESTABELECER LIMITES EM UMA RELAÇÃO

Afirmar e estabelecer limites em um relacionamento é um dos principais fatores para fazer com que as relações cumpram a sua função de trazer conexão, felicidade e amor, em vez de se tornarem uma convivência tóxica. No entanto, muitas pessoas ficam confusas ao tentar estabelecer limites saudáveis, principalmente quando isso envolve aquelas pessoas que são mais próximas e importantes em suas vidas.

E por que enfrentamos essa dificuldade?

Primeiro, o medo da reação negativa dos outros torna a questão um pouco assustadora; e tomar coragem de fazer isso é apenas o primeiro obstáculo. Além disso, é com- plicado saber como fazer isso de uma maneira que seja positiva e que crie mais amor entre as pessoas.

Por isso, digo que estabelecer limites é uma arte e, para iniciar essa construção, é importante criar um clima de confiança. Para fazer isso, você pode começar a fala ressaltando a importância da relação, como: “A nossa amizade é muito importante para mim e, para que ela continue forte assim nos próximos anos, eu preciso te dizer que…”, “É muito difícil para mim te falar isso, mas…” ou “Eu te amo e quero muito que tudo dê certo para você, embora…”.

Outra forma de abordar é procurando criar empatia, para minimizar o impacto de como a pessoa poderá se sentir: “Eu sei que você provavelmente vai ficar chateado e sinto muito, mas…” ou “Eu posso entender se você não gostar da minha atitude, mas…”.

Caso a reação seja negativa, procure não se defender quando a pessoa se sentir magoada. Nem sempre ami- gos e familiares atendem aos nossos desejos e necessidades. Crie empatia e busque entender a decepção ou a dor do outro, porém, acima de tudo, faça o que é certo para você.

Afinal, relacionamentos saudáveis exigem barreiras bem definidas. E a construção dessa boa relação se passa, inclusive, pela ausência da obrigação em atender às expectativas do outro, sem temer a perda do amor e da confiança.

Acima de tudo, tenha em mente que estabelecer limites é uma atitude positiva para garantir a saúde e a vitalidade dos seus relacionamentos, protegendo e aumentando o amor entre vocês.

*** ADAILTON SOARES

OUTROS OLHARES

VERDE DE FOME

O McDonald’s entra no mercado de sanduíches de planta e reforça o crescente interesse dos consumidores em ter menos carne no cardápio

Nos últimos 65 anos, o McDonald’s construiu a sua reputação e se tornou a maior rede de lanchonetes do mundo com uma dobradinha infalível: hambúrguer com fritas. Os suculentos sanduíches de carne bovina, associados às batatas crocantes, transcenderam no universo da gastronomia e viraram um símbolo universal do capitalismo. Em qualquer lugar – até nas cercanias da Praça Vermelha, em Moscou – os arcos dourados da empresa são uma marca reconhecida e, para os fãs desse tipo de comida, altamente desejada. Nenhuma tradição, porém, é capaz de resistir ao passar do tempo. Há alguns dias, Ian Borden, presidente internacional do McDonald’s, revelou que a rede se prepara para lançar, com tecnologia própria, o McPlant, sanduíche feito de vegetais, sem proteína animal.

Desenvolvidos a partir de plantas, os alimentos plant-based representam uma revolução. A indústria tem investido na substituição da proteína animal para atender à demanda especialmente dos mais jovens, que buscam ingredientes considerados mais saudáveis e sustentáveis. Trata-se de um negócio multibilionário. Segundo pesquisa do banco Barclays, o mercado global baseado em plantas pode chegar a 140 bilhões de dólares em 2029, o triplo do montante atual. É isso, obviamente, que motiva as grandes redes de fast-food. Segundo Borden, do McDonald’s, o projeto poderá “se estender para uma linha completa de produtos, incluindo hambúrgueres, substitutos de frango e sanduíches para o café da manhã”.

No Brasil, a primeira grande rede de fast-food a apostar no hambúrguer plant-based foi o Burger King, com o lançamento do Rebel em setembro do ano passado. Até agora, o sanduíche vendeu 2 milhões de unidades – o equivalente a quase 200 por hora – e já responde por 10% das vendas de lanches. Ariel Grunkraut, vice-presidente de vendas e marketing do Burger King, diz que as pesquisas já vinham apontando para o desejo do brasileiro de consumir menos carne. “Atualmente, dezenas de marcas estão querendo aproveitar um mercado que a gente desbravou”, pontua.

Uma das grifes mais tradicionais em proteína animal, a Wessel, acaba de se render ao novo segmento. Conhecida pelos cortes premium de carne bovina, a empresa familiar desenvolveu a linha Meta Foods, com um hambúrguer feito de vegetais e temperos naturais. Os exemplos se sucedem. A foodtech Fazenda Futuro foi uma das pioneiras no plant-based ao chegar às geladeiras dos supermercados com uma linha de produtos sem proteína animal, em maio de 2019. Exporta para México, Uruguai, Colômbia, Holanda, África do Sul, Austrália e Emirados Árabes Unidos. A partir de janeiro, desembarca na Inglaterra, Alemanha e Itália. Em fevereiro, o objetivo é começar a vender nos Estados Unidos.

De fato, o mercado todo dedicado a essa novidade passa por uma forte expansão. Marcas tradicionais como Seara, da JBS, e Marfrig se preparam desde o ano passado para lançar substitutos para as carnes. Mesmo assim, continuam poderosas no segmento que as transformaram em gigantes globais. Marcos Leta, sócio da Fazenda Futura, vê nisso uma vantagem para o seu negócio, que já surgiu “verde”. Ele acredita que o fato de a empresa não ter nascido como uma companhia de frigoríficos, mas com o propósito de ser uma alternativa à indústria de proteína animal, fará com que as vendas cresçam num ritmo superior ao das rivais. “Elas, afinal, continuam matando bois”, afirma.

Alheia à polêmica de quem já nasceu verde ou é recém-convertida, a Seara está prestes a completar um ano no mercado de plant-based. Antenada com a nova demanda, a linha chamada Incrível oferece quibe sem carne e bacalhoada sem bacalhau. José Cirilo, diretor de marketing da empresa, diz que o grande impulso veio dos millenials (nascidos entre os anos 80 e meados dos anos 90) e que as vendas superam o que havia sido projetado em nove vezes. Desempenhos assim explicam porque ninguém quer ficar de fora do segmento.

Existem, obviamente, inúmeros desafios pela frente. Um deles diz respeito ao preço. Os produtos que imitam carne são entre 40% e 60% mais caros, o que só deve mudar à medida que o consumo se popularizar. Outra frente de trabalho é o desenvolvimento de tecnologias que permitam o preparo de plantas capazes de reproduzir de forma integral o sabor e a aparência das carnes. Também é preciso ficar atento às calorias. Os sanduíches de carne vegetal não necessariamente engordam menos, embora o Rebel, do Burger King, tenha alegados 20% menos calorias.

Para especialistas, os plant-based trazem ressalvas. A principal é que são alimentos ultra processados. Portanto, não devem ser tratados como saudáveis. “Apesar de serem vegetais, ainda são alimentos industrializados,” diz Thais Sarian, nutricionista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo. Erika Yuri, sua colega do Hospital Sírio-Libanês, reforça o alerta: “Estudos mostram que o consumo habitual de processados e ultra processados tem relação com obesidade, câncer, depressão, hipertensão, doenças cardiovasculares e diabetes”. A dica da especialista a quem quer aderir à onda do plant-based é avaliar muito bem a formulação dos produtos. “Procure saber do que o alimento é feito para fazer a melhor escolha.”

De todo modo, a ampla e crescente oferta de carnes vegetais embute alternativas para aqueles que pretendem diminuir ou simplesmente cortar a proteína animal, seja porque estão em busca de uma alimentação mais equilibrada, seja por atenção especial com a proteção dos animais. Por enquanto, está distante o dia em que os bois poderão viver tranquilamente, sem ter de saciar a fome humana. Mas o primeiro passo – ou a primeira mordida – já foi dado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 03 DE JANEIRO

DEUS CUIDA DO JUSTO

O Senhor não deixa ter fome o justo, mas rechaça a avidez dos perversos (Provérbios 10.3).

Deus não desampara aqueles que nele confiam. Ele trabalha no turno da noite para cumular de bênçãos os que andam retamente. Aos seus amados, ele dá enquanto dormem. Não há Deus como o nosso, que trabalha para aqueles que nele esperam. Ele cavalga nas alturas para nos ajudar. Está assentado na sala de comando do universo, tem nas mãos o controle da história e age de tal maneira que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam. Essa não é a linguagem da conjectura hipotética, mas da certeza experimental. Deus cuida do justo e não o deixa ter fome. Davi disse: Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão (Salmos 37.25). Se Deus assiste aos justos, também rechaça a avidez dos perversos. Deus alimenta os famintos, mas despede vazios os ricos. Deleita-se nos humildes, mas está contra os soberbos. Cuida dos justos, mas desampara aqueles que, de forma avarenta, ajuntam apenas para si. John Mackay, ilustre reitor da Universidade de Princeton, disse que o maior problema do mundo não é a escassez de recursos, mas a má distribuição das riquezas. Precisamos ter o coração aberto para Deus e as mãos abertas para o próximo.

GESTÃO E CARREIRA

QUANDO PROTESTAR VALE A PENA

Reclamar no trabalho ajuda a criar vínculos entre as equipes, mas, se a queixa não for bem conduzida, o profissional poderá sair prejudicado

Se reclamar no ambiente de trabalho pode ser visto como algo ruim para muita gente, uma pesquisa realizada pela Universidade de Melbourne, na Austrália, mostra o contrário. Durante um ano, Vanessa Pouthier, autora do estudo, observou funcionários de um hospital nos Estados Unidos que atende pacientes em estado terminal. Depois de fazer entrevistas e acompanhar reuniões entre enfermeiros, médicos e outros profissionais, ela concluiu que o vínculo das equipes aumentava à medida que as pessoas reclamavam e tratavam com humor os problemas do dia a dia. As lamúrias também contribuíam para que enfrentassem com mais leveza situações de estresse. “Meu trabalho indica que esses rituais ajudam as equipes a trabalhar melhor em conjunto. Rir junto de uma frustração ajuda a criar um lugar seguro para conversas difíceis “, explica a especialista. Além disso, durante o estudo, ela observou que os próprios funcionários desenvolveram informalmente uma espécie de “senso” de quais queixas e brincadeiras eram realmente apropriadas para o ambiente corporativo. “Eles nunca podiam reclamar de pessoas da equipe, por exemplo; apenas de questões externas”, afirma.

É fato que o ambiente analisado pela especialista é bastante peculiar, já que os profissionais da instituição lidam frequentemente com algo doloroso: a morte. Entretanto, reclamar também pode funcionar positivamente em outras áreas, e não só na da saúde. Além de ser uma forma de mostrar que algo não vai bem, esse comportamento ajuda a trazer à tona problemas que acometem outros indivíduos.

“A reclamação é uma forma de comunicação que traz no discurso incômodos, desconfortos e frustrações. Quando exterioriza isso por meio da verbalização, o profissional evidencia o que está sentindo, e faz com que outras pessoas se identifiquem com aquela situação e se tornem aliadas em busca de um objetivo”, explica Ana Paula Veloso, psicóloga e supervisora de carreiras do Ibmec de Belo Horizonte. Além de espalhar o sentimento de união, as queixas corroboram para evidenciar conflitos que, invariavelmente, não estão sendo vistos por pares e chefes. “Muitas vezes, a outra pessoa não sabe que está incomodando o colega, por exemplo. Se ele não falar, a probabilidade de repetição daquele erro será grande”, explica Daniela do Lago, especialista em comportamento do trabalho.

LINHA TÊNUE

No entanto, existe um limite para o lado positivo de reclamar. O funcionário que só faz queixas e não busca meios para resolver uma insatisfação pode ser rotulado como o resmungão da turma. “Começa a ficar chato ficar perto dessa pessoa. Quem está em volta acaba se afastando”, diz Bia Nóbrega, coach e executiva da área de recursos humanos. Por isso, quando a reclamação é recorrente, é importante levá-la adiante. Mas cuidado ao escolher um ombro amigo para desabafar. “Há pessoas boicotadoras, que podem repassar a informação de forma errada e prejudicar o profissional que fez o comentário”, diz João Kluppel, diretor da consultoria de recrutamento Michael Page.

Para evitar o telefone sem fio, a sugestão dos especialistas é reportar a queixa ao gestor direto. Quando não é possível (em caso de denúncias, por exemplo, envolvendo a própria liderança), o indicado é usar ferramentas que as empresas costumam disponibilizar para ouvir os empregados. Dentre elas estão pesquisa de clima, canais de sugestões e ouvidoria. Mas lembre sempre: a queixa precisa ter fundamentos.

Se você está decidido a levar a frustração para o líder, reúna evidências. Se acha que seu salário está aquém dos resultados entregues, por exemplo, estruture uma planilha com todos os projetos já concretizados e o retorno financeiro que trouxeram para a organização. Se há colegas com o mesmo problema, aproveite para unir forças. Elenque também sugestões que possam aliviar sua frustração. Se o prazo para entregar um projeto está apertado, por exemplo, proponha urna nova agenda. “Ao levar um conflito para o chefe sem uma sugestão para solucioná-lo, você é parte do problema”, diz João Xavier, diretor-geral da Ricardo Xavier Recursos Humanos, consultoria que atua com gestão estratégica de pessoas.

Na hora de reclamar é essencial focar sempre a situação que desencadeou o problema, sem apontar culpados (com exceção de situações mais graves, como denúncias de assédio moral ou sexual). Se o gestor anunciou a demissão de funcionários em uma área e você não concorda com a decisão, por exemplo, foque o fato. “Se o funcionário disser que não concorda com os desligamentos, porque a empresa poderia ter feito um planejamento melhor, ele não estará atribuindo a responsabilidade a uma pessoa, mas a urna ação tomada pela companhia”, diz João Kluppel, da Michael Page. E, claro, é preciso entender as peculiaridades do modelo de negócios da empresa. “Se a organização começa a atender clientes às 5 da manhã, não adianta reclamar que o expediente começa muito cedo”, explica Daniela.

OUVIR E AGIR

Do outro lado, as empresas também precisam saber lidar com as queixas relatadas. De acordo com Vanessa, da Universidade de Melbourne, é fundamental que as organizações respeitem os momentos de desabafo. “É importante que os gestores reconheçam os benefícios em vez de descartar essas reclamações como distrações ou atividades que não agregam valor”, diz. De acordo com a especialista, reunir-se com os colegas para reclamar e fazer piadas sobre os problemas contribui para a geração de emoções positivas entre as pessoas. “Isso ajuda o profissional a ter uma mente mais aberta, aspecto particularmente importante no ambiente de trabalho moderno, onde a regra é haver equipes que trabalhem além das fronteiras ocupacionais e organizacionais”, explica.

Quando não escutam ou só punem as reclamações, as empresas criam ambientes com profissionais frustrados, o que leva a perda de talentos, aumento de turnover, absentismos e afastamentos. Um funcionário que tenha acabado de chegar a uma empresa e escute da maioria das pessoas de seu departamento que o CEO costuma ser grosseiro com as pessoas, por exemplo, pode desistir do emprego. “A generalização da reclamação deteriora o ambiente. E os melhores profissionais são os primeiros a ir embora, porque eles têm maiores chances de empregabilidade”, diz a coach Bia.

Por isso, ao identificar um mimimi pelos corredores, é importante que o líder haja rapidamente, até porque, muitas vezes, os incômodos não chegarão formalmente aos seus ouvidos. O papel deve ser assumido, principalmente, pelo gestor direto que, teoricamente, conhece com mais profundidade o time. “Assim que percebe um mal-estar na equipe, o líder tem de intervir e confirmar ou não suas impressões”, diz Ana Paula, do Ibmec. Além disso, é mais fácil atuar na resolução do caso se as insatisfações são identificadas com rapidez. “Tão logo perceba o problema, o chefe deve chamar o funcionário para conversar, ouvir com empatia e atenção, para depois avaliar o que é ou não procedente”, orienta João Xavier. É claro que nem todo ambiente corporativo dá espaço para que os profissionais falem sobre suas lamúrias. Existem empresas onde a reclamação é pouco ou nada tolerada. Quem atua em organizações com esse perfil deve ter cuidado redobrado na hora de se queixar, para evitar retaliações e até mesmo a demissão. “São estruturas muito rígidas e que existem há muito tempo. Quando alguém reclama de algo e coloca em xeque uma cultura que sempre funcionou é mal visto”, diz Ana Paula.

Foi o que aconteceu com a biomédica Juliana Marin, de 35 anos. Em 2013, ela foi aprovada no processo seletivo de uma empresa que faz terceirização de mão de obra em Mogi das Cruzes (SP). Entretanto, como o salário não correspondia exatamente ao que ela buscava, a empresa fez uma proposta: pagaria o valor pretendido após o período de experiência (ou seja, três meses depois). Só que as mudanças não ocorreram conforme o combinado. “Passados cinco meses, fui ao RH para conversar. Eles pediram para eu ter um pouco mais de paciência”, diz Juliana. Como o dissídio coletivo seria pago em alguns meses, a empresa queria identificar de quanto seria o reajuste para calcular o novo salário da funcionária. Quando completou nove meses na companhia, o dissídio foi pago, mas a biomédica recebeu 500 reais a menos do que o prometido na contratação. Angustiada com a situação, decidiu falar novamente com o RH. A atitude, porém, custou seu emprego. “Reclamei de manhã e fui demitida no final do dia. Disseram que não era por causa de performance. Quando questionei se o motivo era a reclamação que eu tinha feito, não obtive resposta”, diz.

BEM-VINDO, RECLAMÃO

A boa notícia é que esse tipo de organização, que não dá bola para o que pensa o funcionário, está, aos poucos, perdendo espaço. Cada vez mais organizações se abrem para a comunicação transparente. Nesses lugares, empregados que reclamam – e que identificam problemas – são vistos com bons olhos. Foi justamente o que aconteceu com Diogo Barros, de 30 anos, gestor comercial da Osten, grupo de concessionárias de carros de luxo. Em setembro do ano passado, ele procurou o RH para falar de um problema que incomodava muitos colegas: a comida do refeitório. “A quantidade era limitada e o tipo de comida não agradava muito”, diz.

Como manda o manual da boa reclamação, Diogo levou não só a indignação mas também uma sugestão: trocar o restaurante pelo vale-refeição – ideia que ele já havia validado numa pesquisa com os colegas mais próximos. Depois de registrar a queixa, a empresa decidiu fazer uma votação entre os funcionários, que, majoritariamente, apontaram a preferência pelo vale. “Eu já tinha proximidade com o pessoal do RH, o que facilitou a conversa. De qualquer forma, sou expansivo. Naturalmente exponho o que sinto. Acredito que bastante gente tenha receio de reclamar porque muitas empresas não absorvem sugestões e críticas. Por saberem disso, as pessoas acabam ficando com medo de ser malvistas”, diz Diogo. Em janeiro deste ano o esforço dele deu certo: todos passaram a usufruir do novo benefício, e o refeitório foi desativado. Assim como aconteceu com Diogo, reclamar, muitas vezes, gera bons frutos.

COM CLASSE

Antes de sair reclamando, siga o passo a passo:

1 – Fale sobre sua queixa, preferencialmente, para o chefe direto

2 – Prepare-se antes da conversa

3 – Leve evidências que comprovem o que você está dizendo

4 – Pense em sugestões para solucionar o problema

5 – Não direcione a reclamação para uma pessoa, foque a situação. Por exemplo, se seu colega tem o hábito de reduzir muito a temperatura do ar-condicionado, diga ao gestor que sente frio e que isso está afetando sua produtividade. Você não precisa sair apontando culpados

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOPATAS – VOCÊ CONHECE UM?

1 em cada 100 pessoas tem o transtorno, e você pode estar convivendo com um deles!

A invisibilidade é uma das características que mais preocupam quando o assunto é psicopatia. Grande parte dos psicopatas passa despercebida e mantém sua personalidade verdadeira escondida, uma vez que eles sabem fazer isso muito bem, sendo ótimos atores e imitadores. Eles só são capazes de enganar as pessoas ao redor se fizerem todos acreditarem que são honestos, genuínos e confiáveis. Quando um psicopata desliza e demonstra características que podem ser consideradas fora do normal, apresenta destreza em justificar seu comportamento com mentiras. É por isso que você provavelmente já conviveu – ou convive! – com um deles. Aprenda a interpretar os sinais e identifica-los!

O QUE É?

“Apsicopatia, também determinada “transtorno de personalidade antissocial”, caracteriza-se pela falta de empatia e consideração para com as outras pessoas, assim como no desinteresse em seguir normas sociais”, afirma o neurologista clínico Fabio Sawada Shiba. Segundo a Associação Americana de Psicologia, o transtorno de personalidade antissocial (TPAS), a psicopatia e a sociopatia não são categorias distintas, mas sim categorias que se sobrepõem e que se complementam. Todos esses distúrbios apresentam como característica comportamentos que incomodam e perturbam, além do envolvimento de seus portadores em atividades perigosas e muitas vezes ilegais. Na psicopatia, os indivíduos não se importam em ferir os sentimentos das pessoas alheias ou desrespeitar seus direitos, fazendo com que suas ações apresentem maior impacto nos outros do que em si mesmos.

A psicóloga clínica Luciana Jaramilho Caruso esclarece ainda que existem diferentes graus de condutas antissociais: “Elas variam desde comportamentos antissociais menos prejudiciais por serem esporádicos e influenciados pelo ambiente; comportamentos antissociais mal adaptativos, demonstrados no TPAS ou em outros transtornos de exteriorização condutas mais extremas observadas nas psicopatias. Dessa maneira, pode ser dado a um indivíduo um diagnóstico de TPAS, sem que esse apresente psicopatia, da mesma forma que um psicopata pode não ter critérios suficientes para o diagnóstico de TPAS. No entanto, o comportamento violento e antissocial não é condição necessária e nem suficiente para a caracterização da psicopatia”.

DIFERENTES TIPOS

De acordo com o psicólogo Breno Rosostolato, o transtorno de personalidade pode ser dividido em oito tipos: “O primeiro é o antissocial, cujas características principais são tendência à agressividade e repúdio às normas sociais; o ansioso, no qual possuem sentimento de apreensão, insegurança e  inferioridade; o paranoide, em que o indivíduo não suporta ser contrariado, desconfia de tudo e tende a distorcer os fatos; a dependente, em que a pessoa tende a deixar que outras pessoas tomem qualquer decisão por ela; o histriônico, que é dramático, teatraliza e é inconstante. Temos ainda o esquizoide, que costuma se afastar dos outros, tendo poucos contatos sociais ou afetivos; o borderline, que possui acessos de ira e é incapaz de controlar o seu comportamento impulsivo. Por fim temos o obsessivo-compulsivo, no qual o sujeito é ritualístico e com comportamentos repetitivos. Possui ideias e pensamentos absurdos”.

COMO IDENTIFICAR?

O psicólogo canadense Robert Hare, especialista em psicologia criminal e psicopatia, elaborou uma escala com vinte características, agrupadas de acordo com aspectos interpessoais, afetivos, de estilo de vida e de sociabilidade. Essa escala é usada para diagnosticar psicopatas, tanto na área da saúde quanto na legal, e pode ajudar a detectar, no dia a dia, indivíduos que sofrem do transtorno.

INTERPESSOAL

1. LOQUACIDADE E CHARME SUPERFICIAL

Os psicopatas utilizam uma máscara de normalidade que é agradável e amigável. Eles podem, por exemplo, realizar boas ações para ganhar a confiança de suas vítimas.

2. MEGALOMANIA E EGOCENTRISMO

Eles costumam acreditar que são mais inteligentes e mais poderosos do que realmente são.

3. MENTIRA PATOLÓGICA E ENGANAÇÃO

É comum que eles contem todo o tipo de mentiras, desde as mais inofensivas até as mais elaboradas. Tudo isso para enganar.

4. SEDUÇÃO E MANIPULAÇÃO

Identificados como astutos, os psicopatas conseguem influenciar as pessoas a fazerem coisas que elas normalmente não fariam. Para isso, utilizam culpa, força e muitos outros métodos.

ESTILO DE VIDA

5. TÉDIO E NECESSIDADE DE ESTÍMULO

Tranquilidade e quietude não são coisas que vêm naturalmente para os psicopatas. Eles precisam de diversão e entretenimento constantes.

6. IMPULSIVIDADE

Eles costumam agir inconscientemente

7. IRRESPONSABILIDADE

É comum que não tomem para si a responsabilidade pelas consequências de seus atos.

8. ESTILO DE VIDA PARASITA

Eles usam os outros para obter poder e recursos, e conseguem entrar em suas vidas de forma fácil e rápida.

9. FALTA DE OBJETIVOS REALISTAS A LONGO PRAZO

Ou eles não têm nenhum plano para o futuro, ou seus objetivos são impossíveis e baseados em uma noção exagerada de suas habilidades.

10. PROMISCUIDADE SEXUAL

Os psicopatas têm desejos sexuais depravados e buscam sempre satisfazê-los

11. VÁRIOS RELACIONAMENTOS AFETIVOS DE CURTA DURAÇÃO

Alguns psicopatas têm muitos casamentos curtos. E eles culpam a origem dos problemas em seus companheiros, e nunca se responsabilizam pelo fim do relacionamento.

AFETIVO

12. FALTA DE REMORSO OU CULPA

A ausência de remorso é um grande indicador da psicopatia. Um psicopata pode, porém. fingir culpa para induzir pena em suas vítimas.

13. SUPERFICIALIDADE E EMOÇÕES RASAS

Psicopatas não reagem de forma normal a mortes, ferimentos e outros acontecimentos que têm efeitos extremamente negativos nos outros.

14. INSENSIBILIDADE E FALTA DE EMPATIA

Não é natural para quem sofre do distúrbio identificar-se com as emoções alheias. Eles são capazes de avaliar e entender o que o outro está sentindo, mas não de sentir o mesmo.

15. NÃO ACEITAÇÃO DE RESPONSABILIDADE POR SEUS ATOS

Um psicopata não admite que está errado, a não ser que seja pressionado. Mesmo assim, manipula o outro a fim de não precisar lidar com as consequências.

ANTISSOCIAL

16. DESCONTROLE COMPORTAMENTAL

Mesmo sabendo se encaixar muito bem na sociedade, muitos psicopatas podem cometer deslizes e mostrar traços de personalidade problemática.

17. CONDUTA PROBLEMÁTICA NA INFÂNCIA

Um dos indicadores de agressividade em uma criança pode ser o maltrato dos animais.

18. DELINQUÊNCIA JUVENIL

Psicopatas tendem a exibir comportamento delinquente na juventude, incluindo agressividade contra outras pessoas.

19. REINCIDÊNCIA E QUEBRA DE CONDICIONAL

O índice de reincidência é três vezes maior em um psicopata do que em um indivíduo sem o distúrbio.

20. VERSATILIDADE CRIMINAL

Eles cometem vários tipos diferentes de crime e têm habilidade de saírem ilesos das acusações.

IMUNES A BOCEJOS

Quer testar se alguém é um psicopata? Boceje em frente à pessoa e observe sua reação. Isso porque, de acordo com um estudo realizado na Universidade Baylor, nos Estados Unidos, os psicopatas não sentem a necessidade de bocejar quando veem outros bocejando. Os pesquisadores analisaram as reações do grupo de 135 participantes a um teste de bocejo contagioso. Todos responderam a um questionário sobre personalidade psicopática e, em seguida, assistiram à vídeos de pessoas com inúmeras expressões faciais diferentes. O estudo revelou que, quanto menos empatia a pessoa sentia, maior a probabilidade de ele ou ela ser imune ao bocejo. Os cientistas americanos também fizeram um teste de susto e descobriram que os psicopatas tendem a ser mais destemidos, já que foram esses participantes os que menos se sobressaltaram. O teste, porém, não é uma ferramenta certeira no diagnóstico da psicopatia, e o fato de um indivíduo ser imune ao bocejo contagioso não significa que tenha algo de errado clinicamente com esta pessoa.

EU ACHO …

CRIMINALIDADE VIRTUAL

A virtualização das relações é um fenômeno que avança a cada dia, sendo inegável as facilidades oferecidas pelo tráfego virtual. Em tempos de pandemia, as relações via internet se tornaram ainda mais frequentes, tendo em vista a necessidade de isolamento social para resguardo das condições sanitárias.

No entanto, junto com as facilidades vieram também os riscos, em especial o de as pessoas serem vítimas de fraudes e golpes de determinados agentes que se utilizam do ambiente virtual para a prática de crimes. Apesar de a internet não ser uma terra sem lei, tornou-se um campo mais propício para práticas criminosas, pois as relações virtuais, muitas vezes, não têm “rosto”, e há uma dificuldade prática na investigação desses delitos.

Em linhas muito gerais, denomina-se crime cibernético/virtual aquele que é praticado por meio de um equipamento/dispositivo eletrônico conectado nas redes. Na verdade, muitas vezes, são crimes comuns, mas praticados pela rede mundial de computadores, como no caso de crimes contra a honra. Todavia, existem crimes específicos que necessariamente envolvem o uso de dispositivos eletrônicos em rede.

A ocorrência dessa modalidade criminosa pode atingir desde um cidadão a uma grande empresa ou entidade pública/governamental, afetando sistemas inteiros e causando prejuízos, por vezes, incalculáveis. Veja-se, por exemplo, o recente caso envolvendo o Superior Tribunal de Justiça, que sofreu a ação de agentes que hackearam o sistema de informática da Corte, fazendo com que o principal sistema do tribunal ficasse inoperante por dias, causando danos ainda imensuráveis.

Considerando as graves consequências que podem resultar dos crimes cibernéticos, é preciso que as pessoas físicas e jurídicas adotem mecanismos avançados de prevenção, sob pena de causarem prejuízo não apenas a si próprias, mas também de serem responsabilizadas por danos a terceiros.

Exemplificando, o vazamento de informações sigilosas pode resultar na responsabilização civil, administrativa e até criminal não apenas daquele que vazou as informações (um hacker, por exemplo), mas também daquele que deveria ter adotado determinados deveres de cuidado para proteger os dados, mas não o fez. Da mesma forma, uma prestadora de serviços (público ou privado) que fique inoperante em razão de um ataque também pode ter que arcar com as consequências, assim como seus gestores, caso fique demonstrado que não adotaram deveres mínimos de cuidado.

Assim, é recomendável que as empresas, além das orientações clássicas (evitar abrir mensagens suspeitas, acessar apenas sites conhecidos, não fornecer dados sensíveis e manter sempre atualizados os sistemas de proteção dos computadores), sigam à risca a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais e instituam medidas rigorosas de compliance e governança, que garantam proteção de seus sistemas e de seus dados, permitindo a identificação e responsabilização dos colaboradores que não seguirem os protocolos de segurança.

De toda forma, caso as medidas preventivas não sejam suficientes, é preciso que as empresas estejam prepara- das para gerir a crise, de forma a anular ou, pelo menos, minorar os danos. Nesse contexto, é importante que possuam um corpo jurídico e técnico capaz de instituir e adotar as medidas cabíveis de forma célere e eficiente.

*** ALNEIR FERNANDO S. MAIA – é advogado sócio do Escritório Andrada Sociedade de Advogados, mestre em Direito pela UFMG, professor da Universidade Fumec e da Escola Superior de Advocacia da OAB/MG. É ainda membro da Comissão de Direito Penal Econômico da OAB/MG.

*** ANTÔNIO CARLOS SUPPES DOORGAL DE ANDRADA – é advogado sócio do Escritório Andrada Sociedade de Advogados, mestre em Direito e especialista em Ciências Penais pela PUC/MG. É ainda secretário-geral da Comissão de Processo Legislativo da OAB/MG.

OUTROS OLHARES

O VÍCIO E A CURA

Pesquisadores testam o primeiro remédio capaz de agir na dependência da maconha: o canabidiol, um composto da própria planta

Com 198 milhões de consumidores no mundo, e uma estimativa de 1,5 milhão no Brasil, a maconha é a mais popular de todas as drogas. Restrita ou ilícita na maioria dos países, ela é também a mais estudada para uso medicinal. O composto de maior interesse dos cientistas chama-se canabidiol, encontrado em pequeno volume no caule e na folha da erva Cannabis. Ele não é psicoativo nem tóxico. Não causa dependência, não altera o raciocínio nem provoca a perda cognitiva, como faz o tetraidrocanabinol (THC), substância psicotrópica da planta. Na verdade, conforme demonstra recente estudo publicado na revista científica The Lancet, o canabidiol pode ser capaz de combater o vício da própria droga.

Pesquisadores da unidade de psicofarmacologia clínica da University College London, no Reino Unido, conduziram testes com 48 usuários de maconha por quatro semanas. Dividiram os voluntários em grupos iguais que receberam, por via oral, doses de 200, 400 e 800 miligramas de canabidiol, sendo que a um grupo foi dado apenas placebo (líquido inerte). A dose de 200 miligramas foi ineficaz, mas, na segunda fase, com mais 34 participantes, o composto mostrou-se promissor na redução da dependência com 400 e 800 miligramas e, mais importante, seguro para os pacientes. Segundo o pesquisador ­ chefe Tom Freeman e sua equipe, uma vez que não existe no momento nenhuma outra farmacoterapia, um tratamento que reduzisse a dependência seria um grande avanço.

O psiquiatra José Crippa, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, centro de referência nos estudos com o canabidiol no país, concorda com os cientistas europeus: “O resultado abre um caminho extraordinário na medicina, pois se trata da primeira vez que uma substância impacta no vício da Cannabis”. Sabe-se que um em cada dez usuários de maconha se torna dependente, e o número quase dobra quando o consumo começa na adolescência. Em sua forma natural, ela pode ser menos viciante que a cocaína, o álcool e o cigarro. Na última década, porém, a erva passou a ser manipulada de modo a conter uma quantidade maior de THC – a concentração que às vezes era de menos de 1% na década de 60 chega a ser hoje trinta vezes maior. “Na prática, estamos falando de outra droga, modificada, muito mais potente e perigosa”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad).

O canabidiol já é aprovado para o controle da epilepsia e esclerose múltipla quando o paciente não reage a outros medicamentos. Seu uso medicinal foi resultado de uma longa batalha travada com as autoridades brasileiras, especialmente com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que só regulamentou o composto no ano passado. Por muito tempo, portadores de epilepsia tiveram de recorrer à Justiça para conseguir o produto ou se arriscar a importá-lo clandestinamente. Além dos testes de redução de dependência, ele vem sendo usado experimentalmente no tratamento de esquizofrenia, depressão e Alzheimer – neste caso, com resultados promissores na melhora das funções motoras e cognitivas. Na dualidade típica da natureza, a planta que gera o mais famoso dos entorpecentes também produz o mais poderoso dos remédios.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 02 DE JANEIRO

CUIDADO COM O DINHEIRO MAL ADQUIRIDO

Os tesouros da impiedade de nada aproveitam, mas a justiça livra da morte (Provérbios 10.2).

Estamos vivendo uma crise sem precedentes em nossa sociedade. A crise que mais nos assola é a de integridade. Os valores morais estão sendo tripudiados. A lei do levar vantagem em tudo parece governar nossa gente. Políticos inescrupulosos vendem a alma da nação para serem eleitos. Esquemas de corrupção escondem quadrilhas de colarinho branco, que trafegam pelos corredores do poder amealhando os tesouros da impiedade. As riquezas que deveriam socorrer os aflitos e levantar as colunas de uma sociedade justa são desviadas para contas bancárias de grã-finos que fazem as leis, delas escarnecem e no final escapam do tribunal humano. Aqueles, porém, que acumulam os tesouros da impiedade, vivem no fausto e no luxo e ajuntam para si riquezas mal adquiridas verão que seus bens serão combustível para a própria destruição. A riqueza injusta produz morte, mas a justiça livra da morte. É melhor ser um pobre íntegro do que um rico desonesto. É melhor comer um prato de hortaliças onde há paz do que viver na casa dos banquetes com a alma atribulada. É melhor ser um pobre rico do que um rico pobre.

GESTÃO E CARREIRA

OPORTUNIDADE NAS ALTURAS

Até 2025, 80% das companhias terão migrado o armazenamento de dados para a nuvem. A tendência já gera demanda por profissionais especializados em estruturar cuidar dessa nova infraestrutura

No passado, quando as unidades de negócios precisavam atualizar sistemas digitais, aumentar o armazenamento de dados ou a eficiência de programas corporativos, a pergunta padrão era: “Qual é a capacidade do data center?”. Hoje, o questionamento mudou para: “Qual é a nuvem mais adequada?”. A computação em nuvem se tornou tão fundamental que a previsão da consultoria Gartner é que o setor movimente 162 bilhões de dólares mundialmente neste ano. Ainda de acordo com o levantamento, até 2025, 80% das empresas terão migrado para essa tecnologia. Com tanta demanda, é natural que surjam profissões nesse mercado. Uma delas é o arquiteto de nuvem, ou arquiteto de cloud, que planeja a infraestrutura de sistemas de uma empresa na nuvem. “Antigamente eram arquitetos de soluções, que desenhavam o tamanho dos servidores, determinavam a periodicidade dos backups e a amplitude dos dados. A evolução da profissão foi natural”, diz Caio Arnaes, gerente sênior de recrutamento da Robert Half. E a busca por esse pessoal está crescendo. Na GeekHunter, plataforma que reúne profissionais de tecnologia, o aumento da procura pelo arquiteto de nuvem foi de 50% no último ano. “Mais de 90% das empresas têm algum serviço na nuvem. Não são todas que migraram o sistema inteiro, mas parte dos serviços já está lá”, diz Filipe de Alcantara, CEO da GeekHunter.

Os arquitetos podem trabalhar tanto dentro das empresas quanto em consultorias especializadas – como é o caso de Danilo Augusto de Sousa, de 30 anos, líder de soluções em cloud da multinacional Keyrus, uma consultoria francesa de tecnologia. Com bacharelado em sistemas da informação e MBA em Big Data, Danilo percebeu a necessidade de orientar a carreira para esse tema. “Comecei com Big Data, sem foco em nuvem. Mas a demanda surgiu, então fiz cursos e especializações para evoluir de acordo com a necessidade do mercado”, diz.

O caminho de Danilo é o mais comum. Graduações como análise de sistemas dão a base para a especialização em nuvem, que pode ser feita de diversas maneiras: na sala de aula ou em cursos disponibilizados por empresas de tecnologia. “Não é um pré-requisito ter faculdade, mas certificações são uma exigência para validar o currículo”, diz Filipe, da GeekHunter. As principais certificações são AWS, Microsoft Azure, Google Cloud Platform e IBM Cloud (Brasil). Os valores dos cursos variam de 100 a 300 dólares, e os certificados costumam valer por até cinco anos.

UM DIA NA VIDA

ATIVIDADES – CHAVE:

• Conhecer o modelo de negócios da empresa e sua estratégia tecnológica

• Planejar a nuvem de acordo com as demandas do projeto

• Instalar o sistema de segurança de dados

• Trabalhar em conjunto com outros desenvolvedores

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS: 

Embora seja uma profissão de tecnologia, saber sobre estratégia de negócios é fundamental: o desenvolvimento de uma nuvem exige o conhecimento profundo da empresa. Boa comunicação com os executivos é um diferencial. O inglês é usado para ampliar conhecimentos técnicos.

PONTOS POSITIVOS:

Os projetos têm diferentes níveis de desafio, e cada um traz novas experiências para o profissional – que pode colocá-las em seu portfólio.

PONTOS NEGATIVOS:

O mercado é dinâmico e os provedores mudam constantemente as plataformas e os sistemas. Por isso, o investimento em certificações e cursos sempre deve ser considerado.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA:

Graduações como análise de sistemas ou ciência da computação oferecem uma base de conhecimento, mas a especialização é fundamental e pode ser feita por meio de cursos online e dos próprios provedores de cloud.

ROTINA DE TRABALHO:

Horas trabalhadas: de 8 a 10 por dia

DIVISÃO DO TEMPO:

10% – Conhecimento (cursos e leitura de artigos)

30% – Análise de negócio (compreensão do modelo de negócios e das necessidades de sistema)

60% – Implementação (instalação da nuvem, com testes de segurança e funcionamento)

SALÁRIO:

De 10.050 a 20.450 reais

QUEM CONTRATA:

Grandes empresas e consultorias que trabalham com parcerias e venda de projetos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TOC

Você sabe identificar esse transtorno de uma mania?

Lavar as mãos várias vezes ao dia, verificar se a porta está fechada, se o gás e o ferro estão desligados seguidamente em pouco tempo ou evitar contato com pessoas por medo de contaminação, são alguns exemplos que compõem o cenário de quem convive com comportamentos que vão muito além de simples manias. Muitas vezes, esseshábitos podem ser confundidos com um distúrbio denominado de Transtorno Obsessivo Compulsivo (T0C), ou seja, um transtorno psiquiátrico tendo como principal característica crises de obsessões e compulsões recorrentes.

“Esse transtorno causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. Basicamente, se há repetição indesejável e danos para a vida, pode-se falar de um transtorno.

Se a mania começa a ser repetitiva, tomando tempo ou se atrapalha sua rotina, pode-se falar de uma compulsão. Além disso, os sintomas não se devem aos efeitos fisiológicos de substâncias, como drogas ou medicamentos”, explica o psicólogo Júlio César Custódio.

Segundo uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde, cerca de quatro milhões   de pessoas sofrem com a doença no Brasil entre crianças e jovens adultos na faixa etária de 18 e 20 anos. Apesar desse número expressivo, a doença apresenta uma origem complexa, a qual ainda não se sabe as causas, mas de acordo com o psicólogo, a “predisposição genética, alterações na neuroquímica cerebral, traumas e aprendizagens equivocada no que se refere à maneira de lidar com medos e ansiedades” são considerados como possíveis fatores.

QUANDO BUSCAR AJUDA PROFISSIONAL?

Mais que ter a plena consciência do transtorno, assim como seus e sintomas, é altamente necessário procurar ajuda logo quando o problema for identificado, pois quanto mais tarde, mais difícil de mudar os hábitos obsessivos-compulsivos. “Atualmente, humanizou-se muito o uso da sigla TOC, pois o seu uso, muitas vezes, é associado a manias e traços de individualidade das pessoas. Entretanto, muitos casos são acompanhados de profundo sofrimento e até incapacitação   do indivíduo, sendo necessário o tratamento feito por um profissional habilitado, que envolve a combinação de terapia e tratamento medicamentoso (quando o quadro clínico envolve uma gravidade maior), prescrito por um especialista. No que diz respeito a psicoterapia, o tratamento envolve exposição gradual a situações em que, normalmente, o indivíduo usa as compulsões e obsessões, auxiliando-o a entender sua relação com a própria ansiedade”.

Além do tratamento tradicional, a hipnose também pode auxiliar como uma terapia complementar, sendo que ela ajuda o paciente a lidar com seus pensamentos e comportamentos, podendo alcançar resultados eficazes. “Com a hipnoterapia, pode-se encontrar o momento em que o transtorno se iniciou e auxilia o paciente a encontrar maneiras adequadas de lidar com as situações que desencadeiam os sintomas, dependendo de cada caso. É importante ressaltar que a hipnoterapia é uma ferramenta complementar, isso ignifica que seu uso não deve ser feito independente do tratamento com um psicólogo e também a utilização de medicamentos (quando o quadro clínico apresenta gravidade maior) prescritos por um médico especialista”, enfatiza.

COMO AJUDAR UM PACIENTE COM “TOC”?

As pessoas que convivem com o transtorno obsessivo compulsivo tendem a desenvolver outras doenças mentais, como ansiedade e depressão. É diante disso, que cabe aos familiares e amigos auxiliar e incentivar os pacientes com TOC a enfrentarem determinadas situações, para que aos poucos, os rituais compulsivos sejam deixados de lado. “Muitas vezes, se considera transtornos psicológicos como o TOC, depressão, síndrome do pânico e outros, como fraquezas psicológicas. A família, por não compreender o suficiente, atribui culpa ao indivíduo por ele não controlar os sintomas, falando de “frescuras” ou “chiliques”. Transtornos psicológicos causam profundo sofrimento e necessitam de tratamento adequado com profissionais especializados. A melhor forma de ajudar uma pessoa que convive com o TOC seria compreender que existe uma individualidade muito maior que o transtorno em si. Referir-se à pessoa de forma a caracterizá-la como doente, é reduzir o indivíduo a sintomas, causando segregação e preconceitos. Compreender a angústia de alguém que sofre por algo que ele ainda não controla e conscientizar as pessoas é a maior ajuda que se pode oferecer”, finaliza.

SINTOMAS E SINAIS

Alteração de comportamento, pensamentos e emoções, caracterizam os sintomas do transtorno, que consiste em compulsões e obsessões. “Pode-se definir obsessões como pensamentos, impulsos ou imagem recorrente e persistentes, intrusivas e indesejáveis que causam ansiedade na maioria dos indivíduos. Em muitos casos, as pessoas tentam ignorar ou suprimir esses pensamentos, impulsos ou imagens, com outro pensamento ou ação, que seriam as compulsões”, explica Júlio César.

OS SINTOMAS MAIS COMUNS DE OBSESSÕES

 • Preocupação excessiva com limpeza;

•  Pensamentos indesejados;

•  Verificar várias vezes portas, janelas e gás antes de sair ou dormir;

•  Pensamentos agressivos.

Já as compulsões, são comportamentos repetitivos que visa aliviar o estresse emocional em resposta a um pensamento obsessivo: “como por exemplo, organizar materiais e lavar as mãos, ou atos mentais, como rezar ou contar coisas, não sendo conectados de forma realista com o que se pretende ignorar, suprimir ou evitar”, esclarece.

DENTRE OS SINTOMAS MAIS COMUNS DE COMPULSÃO ESTÃO:

•  Limpeza excessiva ou lavagem das mãos;

•  Ordenação e organização de matérias de maneira específica;

•  Contagem Compulsiva.

OUTROS OLHARES

SENTINDO NA PELE

Incentivadas por influenciadores que postam vídeos sem parar e pelo tempo maior que passam em casa, consumidoras estão aderindo em massa aos tratamentos para o rosto

Vários hábitos foram influenciados pelo tempo muito maior que as pessoas passaram dentro de casa durante a quarentena. Um dos campeões, tanto em novos adeptos quanto no grau de dedicação de quem já praticava, é o cuidado com a pele, por motivos diversos: mais tempo, mais exposição de imperfeições no Zoom, mais ofertas. A rotina de limpar, hidratar e proteger virou tema preferencial dos influencers das redes e ganhou proporções gigantescas no TikTok, o aplicativo que os jovens não largam. Para dar uma ideia da popularidade do tema na plataforma de vídeos: a hashtag #skincare soma 24 bilhões de visualizações, e subindo; em português, #cuidados com a pele ultrapassa os 240 milhões. “Cuidar da pele deixou de ser um ato mecânico e se tornou quase uma terapia”, avalia a dermatologista Ligia Kogos, de São Paulo.

O perfil mais famoso sobre o assunto no TikTok pertence ao americano Hyram Yarbro, 24 anos, um imigrante do YouTube que viu seus seguidores saltarem de 100.000 para 6,7 milhões durante a quarentena. Yarbro, que mora no Havaí, faz o tipo sincero e correto – fala mal dos produtos que é pago para anunciar, quando acha que deve, e presta atenção em preços e na sustentabilidade das fórmulas. A receita é um sucesso: só em julho ele ganhou 265.000 dólares com anúncios diretos e comissões sobre vendas a partir de seus links. Yarbro faz questão de informar seus seguidores que não é dermatologista nem esteticista. “Eu me esforço muito para pesquisar ingredientes, produtos e estratégias do ponto de vista científico. Não é porque funciona para mim que funcionará para você”, avisa.

No Brasil, um dos nomes mais conhecidos é o influenciador carioca Wanderlan Nascimento, 21 anos, que também começou no YouTube falando de cabelo e, no início da quarentena, descobriu o TikTok, o skincare e a altíssima popularidade: um de seus vídeos atingiu 3,5 milhões de visualizações. “Vi no nicho uma boa oportunidade, porque não havia muitos homens falando sobre o assunto”, relata. Exceção entre seus pares amadores, a médica e tiktoker Hanan Merhi, além de compartilhar sua rotina de autocuidado, aproveita o tempo on-line para aprender com colegas.”É uma maneira lúdica de assimilar conhecimentos”, acredita.

Os protocolos de higiene para conter a disseminação do novo coronavírus também deram impulso à disposição das pessoas de comprar produtos para suavizar manchas, espinhas e rugas que as máscaras e as chamadas de vídeo ressaltam, levando quem nunca deu muita bola para os cremes e ácidos a acompanhar os lançamentos nas redes. A personal trainer Fernanda Cheskys, 29 anos, de Niterói, conta que mudou completamente seus hábitos nos últimos meses. Além de zelar pelo corpo em forma, como sempre, agora passa pelo menos uma hora por dia tratando da cútis. ”A pandemia ampliou minha visão dos cuidados com a saúde”, diz.

A audiência dos vídeos, claro, reverberou no mercado. A The Ordinary, marca que virou mania por ser bastante citada por Yarbro, bateu todos os recordes com um soro para prevenir o aparecimento de manchas no rosto: no auge, vendia um frasco a cada três segundos. A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos contabiliza alta de 162% na comercialização de produtos para pele entre janeiro e setembro. Fundadora da Sallve, empresa

que viu seu volume de vendas crescer mais de 500% entre abril e agosto, a publicitária e influencer Julia Petit acredita que o autocuidado deixou de ser um luxo e, de fato, ajudou as pessoas a superar as turbulências de 2020.”A imagem de alguém bebendo vinho e assistindo a filmes com uma máscara na face tornou-se sinônimo de relaxamento, uma experiência que todo mundo quer ter”, frisa.

O maior problema da popularidade do skincare nas redes sociais é a grande chance de, em vez de melhorar, ele acabar prejudicando a pele. É fundamental filtrar a enxurrada de informações na internet, visto que a maioria dos produtores de conteúdo é amadora. Cuidados simples de limpeza em geral são seguros, mas ácidos e outras substâncias, sobretudo aquelas anunciadas como milagrosas, do tipo que resolve tudo em pouco tempo, podem levar a reações sérias (veja o quadro de dicas). “As redes são ótimas para divulgar novidades, mas o acompanhamento médico é vital. Copiar o que outra pessoa usa, sem maiores cuidados, pode resultar em alergias e quadros clínicos”, diz Alessandra Romiti, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Por muita insistência da filha Isabela, 12 anos, ávida consumidora de vídeos de skincare, a bancária Katia Vergamini, de São Paulo, comprou um creme para a menina usar no rosto e não deu certo. Uma ida ao dermatologista estabeleceu a nova rotina de Isabela antes de dormir: tirar a maquiagem (sim, ela usa), lavar o rosto com sabonete, passar adstringente, hidratante e um ácido para tratamento de acne. Disciplinada, Isabela já definiu sua carreira. Dermatologista? Não. “Quero ser blogueira”, informa. Tudo bem – como ensinou Voltaire, muito antes de o TikTok fazer as cabeças, o essencial é cada um estar bem consigo mesmo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE SABEDORIA PARA A ALMA

DIA 01 DE JANEIRO

FILHOS, FONTE DE ALEGRIA OU DE TRISTEZA

O filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe (Provérbios 10.1).

Os filhos são um manancial de alegria ou uma fonte de tristeza para os pais. Trazem grandes alegrias ou profundo sofrimento. Há filhos sábios que obedecem e honram os pais, e esses se tornam bem-aventurados na vida e dilatam seus dias sobre a terra. Porém, há filhos insensatos que escarnecem da educação recebida dos pais e jogam fora todos os princípios aprendidos no lar. Esses filhos entram pelos atalhos e descaminhos da vida, juntam-se a más companhias, mergulham nos labirintos escuros dos vícios e entregam-se a toda sorte de devassidão. Nessa jornada inglória, colhem os frutos malditos de sua semeadura insensata. Transtornam a própria vida, envergonham a família e provocam sofrimentos indescritíveis à sua volta, especialmente aos pais. Benditos são os filhos regidos pela sabedoria, e não pela insensatez. Benditos são os filhos que andam pela estrada da santidade, em vez de naufragarem nos pântanos da impureza. Benditos são os filhos que ouvem e honram os pais e são motivo de alegria para eles. São esses que glorificam a Deus, abençoam a família, fortalecem a igreja e constroem uma sociedade justa. São esses que experimentarão a bênção de uma vida superlativa aqui e, por meio de Cristo, desfrutarão da bem-aventurança eterna.

GESTÃO E CARREIRA

REACENDENDO A PAIXÃO

Desenvolver o amor pelo trabalho demanda reflexão e resistência a frustrações. O primeiro passo é entender que a satisfação pode ser construída aos poucos

“Faça o que ama e nunca terá que trabalhar um dia na sua vida” – essa é a ideia por trás da frase atribuída ao filósofo chinês Confúcio repetida em livros, palestras e cursos para ajudar a encontrar o emprego perfeito. Isso traz esperança, mas também pode trazer sofrimento. Se não estamos felizes, é porque não encontramos o trabalho certo e é preciso continuar procurando. O pior: muitas vezes nem sabemos o que, afinal, queremos. Pesquisas indicam que, em grande parte, o que determina nossa relação com o trabalho são as crenças cultivadas em relação a ele. Um estudo publicado em 2015 pela revista Personality and Social Psychology Bulletin, nos Estados Unidos, definiu duas categorias de pessoas em termos de sua relação com o trabalho. Os chamados ”fit theorists” (teóricos do encaixe) acreditam que exista o emprego ideal para eles. Já os “develop theorists (teóricos do desenvolvimento) acreditam que possam se adaptar a diferentes tipos de serviço. Os participantes do estudo que se encaixavam no modelo fit, por exemplo, mostraram menos interesse na leitura de um artigo que não correspondesse ao que eles julgavam como seu perfil, enquanto os outros aproveitaram o conteúdo.

De acordo com a pesquisa, os dois grupos tendem a ter índices de felicidade parecidos se são bem-sucedidos em agir de acordo com suas convicções. Por outro lado, o discurso que defende a busca pelo emprego ideal é muito mais comum. ”A teoria do fit é muito mais prevalente e corresponde a algo entre 60% e 80% das amostras que temos”, diz Patrícia Chen, coautora do estudo e hoje pesquisadora na Universidade Nacional de Singapura. Para ela, isso pode explicar porque essa mensagem é largamente difundida na mídia e nas escolas. “Há certo romantismo sobre ter coragem de seguir sua paixão e seus sonhos”, diz Patrícia. “Quem se concentra no desenvolvimento, porém, tende a ter mais tolerância com as dificuldades ao integrar novas vocações e ambientes de trabalho. “Isso porque essas pessoas não estão preocupadas em encontrar um “encaixe” ideal logo no início. Em vez disso, cultivam a relação de forma a torná-la mais positiva, conforme descobrem como usar suas paixões e habilidades no que fazem. “Essa é uma grande vantagem, especialmente para quem ainda não tem certeza do que ama fazer”, afirma Patrícia.

O modo como encaramos o trabalho é o que realmente influencia na satisfação. Outra pesquisa, realizada pela Universidade de São Paulo, avaliou 4.100 pessoas de nível superior para entender o papel do emprego na autorrealização. “O resultado deixa claro que o problema não é o que a pessoa faz, mas como ela faz”, diz Alexandre Pellaes, autor da pesquisa e fundador da consultoria   Exboss.

ALTOS E BAIXOS

Para melhorar a maneira como encaramos a carreira, é preciso entender que as frustrações fazem parte do pacote. “A felicidade no trabalho é uma aspiração legítima e saudável. Mas aspiração é algo de uma vida inteira, não algo que você chega um dia e está feliz e pleno”, diz Denise Fleck, professora e coordenadora da área estratégia da Coppead, escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Esse é, portanto, um caminho a ser percorrido. Vale lembrar que esse sentimento depende do ambiente e de nós mesmos – características que sempre podem variar, com altos e baixos. Por isso, esperar que um emprego corresponda perfeitamente àquilo que    julgamos ser nosso perfil pode, além de causar mais sofrimento, nos fazer perder chances de aprendizado e crescimento.

Refletir e avaliar o que nos agrada ou não em nosso dia a dia é um passo importante para descobrir outras maneiras de atuar e para ampliar a perspectiva. Muitas vezes a pessoa não está insatisfeita porque não gosta do que faz, mas porque o ambiente ou a cultura da empresa desmotivam. Assim, elas não se sentem tão desafiadas e tendem a ter um trabalho repetitivo. Aproveitar as oportunidades para se envolver com aspectos novos do que você já faz é uma forma de contornar isso. Fernando Gavinhas, de 23 anos, desenvolvedor na Tapps Games, tomou essa atitude. Desde o fim de 2014, ele trabalhava com desenvolvimento de softwares em um grande banco. A oportunidade era única, mas em pouco tempo ele já estava achando difícil ir ao trabalho. “Eu não tinha identificação com o produto nem com o negócio em si”, diz. Também não ajudava o fato de a empresa ser grande e seu time pequeno, o que dava a sensação de baixo impacto no que fazia. Mas isso não era algo novo – há anos Fernando trabalhava na área e nunca parecia encontrar o emprego certo. “Estava cansado de pular de um lugar para o outro e de me decepcionar”, diz. Quando sua namorada perguntou se não havia nada que ele gostasse em seu trabalho, ele resolveu encontrar coisas que o agradassem. Fernando anotou o que valorizava no dia a dia – como aprender a lidar com uma tecnologia complexa e ajudar a desenvolver programas que poderiam ser usados no mundo todo. “A partir daí, foquei em perseguir tarefas que me permitissem exercitar o que estava na lista”, diz. Além disso, tornou-se mais proativo: conversou sobre seus objetivos com colegas e chefia e pediu para participar de atividades alinhadas às suas metas. “Quando chegou um projeto de inovação com foco em sistemas de caixas eletrônicos, logo pensaram em mim. Conseguir separar o que não gostava do que gostava me dava ânimo,” diz. Os projetos no banco se tornaram um meio de exercitar sua capacidade de resolução de problemas e de aprendizagem – o que o preparou para o atual emprego na Tapps Games. “As coisas mudam e as coisas que a gente gosta também mudam e precisamos estar preparados para isso.”

HORA DE REDESCOBRIR

Para conseguir despertar o gosto pelo que fazemos, vale elaborar um inventário de reflexão. Primeiro, pense no que pode e consegue fazer com suas habilidades. Em seguida, identifique as oportunidades que existem onde está. Depois, pense sobre o que prefere fazer e o que deveria fazer do ponto de vista de seus valores. “Esse é um exercício constante, não algo que se faça de um dia para o outro”, afirma Denise, da Coppead.

Em alguns casos, é preciso conciliar paixões, como aconteceu com Moacyr Godoy Moreira, de 46 anos, médico do trabalho do Hospital RP – a Beneficência Portuguesa de São Paulo. Durante a faculdade de medicina, ele não sentia que iria se encontrar na área médica. Apesar disso, seguiu trabalhando como clínico e, em paralelo, investiu no que poderia ser outra carreira: fez mestrado e doutorado em literatura brasileira na Universidade de São Paulo. Em 2002, publicou o que seria o primeiro de quatro livros de ficção. Apesar disso, Moacyr nunca abandonou a medicina, por acreditar que seria melhor conciliar as duas carreiras. Desde 2010, atuava na medicina do trabalho, como perito médico independente, fazendo a avaliação de funcionários em ações trabalhistas uma área diferente, mas ainda longe de despertar paixão. “Ainda achava o dia a dia monótono e pouco aprofundado”, diz Moacyr.

Mesmo assim, em busca de mais estabilidade, passou a ocupar uma posição como médico do trabalho em uma grande montadora multinacional em 2016. “Eles queriam criar um setor de perícia, e eu comecei a ajudá-los a montar isso”, diz. Esse envolvimento também fez com que ele entrasse em contato com os aspectos de gestão envolvidos na área, o que, para Moacyr, era um mundo novo em sua profissão. Motivado, começou um mestrado, retomando o gosto pelos estudos. “É uma área pobre em termos científicos e senti a necessidade de estudar isso”, afirma. Quando entrou na BP no final de 2017, em princípio, sua função seria a mesma: atender os mais de 8.000 funcionários do hospital. Mas, como demostrou interesse em liderança, ele pode atuar na coordenação da atividade de equipes médicas, na elaboração de campanhas e de protocolos. Assim, seu escopo aumentou. “Descobri que gosto de métodos e diretrizes que permitam otimizar coisas que funcionam de forma caótica em situações simples e eficientes. Sou muito organizado e nunca tinha pensado que transferir isso para o trabalho poderia gerar bons frutos e uma satisfação pessoal tão grande”, diz Moacyr.

O PESO DO PROPÓSITO

Experiências como essa deixam claro que, muitas vezes, o emprego é o que fazemos dele. “O desagradável sempre vai existir. Mas dá para equilibrar isso com as conexões que temos na empresa, tentando entender o panorama do negócio, descobrir pessoas e ideias diferentes”, diz Carolina Fouad, coordenadora do núcleo de carreira do lnsper.

Nem sempre a empresa terá o ambiente mais aberto. Um chefe controlador demais ou um negócio que contraria seus valores são coisas difíceis de contornar. ”Quando você percebe que há estagnação sem alternativas de melhora, pode ser a hora de deixar o emprego”, diz José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching. É importante respeitar os princípios na hora de tomar decisões. Mas um ajuste de expectativas muitas vezes também é do que precisamos. ”Tente lembrar o que você esperava logo antes de ser chamado para o emprego”, diz Alexandre Pallaes, da Exboss. “O que era para você: ele ia resolver todos os seus problemas ou era uma oportunidade?” Dificilmente esperamos que seja tudo perfeito quando entramos em uma empresa – mas esperamos poder mostrar como somos lá dentro.

Só tome cuidado com o peso do propósito perfeito. A crença de que tudo precisa ter um grande valor pode agravar as frustrações diante da rotina e das tarefas mais maçantes. No lugar disso, pense sempre em quais resultados você busca, quais são seus objetivos de curto prazo e quais são os relacionamentos que pode criar por meio de seu trabalho. “Minha provocação é se não seria mais interessante prezar pela entrega, e não necessariamente pela vocação”, diz Alexandre. Ou seja, valorizar o trabalho pelo que ele pede: dedicação, esforço e aprendizado.

PENSAMENTOS LIMITANTES

Algumas crenças podem influenciar negativamente a percepção sobre a carreira

ACHAR QUE EXISTE O TRABALHO PERFEITO

“Esperar encontrar o ideal, como se estivesse fora de nós, é um mito”, diz Denise Fleck, da Coppead. O ideal segundo ela, está sempre dentro de nós e deve nortear nossas decisões.

FOCAR APENAS O DINHEIRO

Tentar se motivar apenas pelos ganhos financeiros podem funcionar no curto prazo, mas não fará você amar sua carreira. “O trabalho é mais do que sobrevivência, é uma forma essencial de nos expressar”, diz Alexandre Pellaes, da Exboss.

ACREDITAR QUE A RECOMPENSA SÓ ACONTECE NO FINAL

A felicidade é muito mais complexa do que meramente atingir objetivos profissionais. “Não dá para achar que, se eu fizer alguma coisa ou chegar a determinado ponto, vou ser feliz”, diz Denise. é clichê, mas é verdade: o processo é tão ou mais importante quanto o destino.

PENSAR QUE SUAS HABILIDADES E INTERESSES NÃO MUDAM

Logo cedo aprendemos a ter medo de errar e de lidar com o que é novo. A verdade é que nunca perdemos a capacidade de aprender, descobrir novos interesses. “Muitas vezes, as crianças na escola ficam nervosas e bravas quando não conseguem aprender o que precisam”, diz Carolina Fouad, do Insper. “É comparável com o que acontece com alguns profissionais no mercado de trabalho.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – X

TESTE SEU NÍVEL DE ANSIEDADE

Respondendo a estas perguntas, é possível ter uma ideia do seu estado emocional

Apesar de possuir sintomas claros, identificar o transtorno de ansiedade generalizada não é algo simples, já que é preciso levar em consideração diversos fatores da vida da pessoa. No entanto, um teste criado pelo psiquiatra norte-americano Aaron Beck pode ajudar nesta tarefa.

Conhecido como Escala de Ansiedade de Beck ou Inventário de Ansiedade de Beck (BAI – sigla em inglês), o material costuma ser utilizado em análises clínicas por psicólogos especializados. “Creio que seja eficaz em alguns casos, pois é útil quanto à avaliação de gravidade e também nível da ansiedade. Mas o resultado depende muito da franqueza e honestidade do paciente quanto a respostas”, conta a psicóloga Maura de Albanasi.

Para fazer o teste, basta responder cada item a seguir, somar os pontos equivalentes e conferir o resultado na tabela final.

OUTROS TIPOS

O diagnóstico completo feito por um especialista envolve outras análises além do teste, podendo incluir diálogo e exames, como explica Maura: “sobre as avaliações clínicas, o que ajuda nesse tipo de diagnóstico dentro de uma terapia ou do acompanhamento psiquiátrico é a conversa. O profissional busca perceber como está a pessoa, como ela dorme, acorda e lida com a produtividade, além de indicar exames, quando necessário”.

PROCURE UM ESPECIALISTA

Apesar de o teste revelar uma noção do seu nível de ansiedade, ele não é conclusivo. Qualquer diagnóstico deve ser feito por um profissional na área de psicologia ou psiquiatria, ok?

TESTE

Avalie com que intensidade você costuma sentir os sintomas abaixo.

DORMÊNCIA OU FORMIGAMENTO EM ALGUMAS PARTES DO CORPO

(  ) Nunca

(  ) Leve

(  ) Médio

(  ) Intenso

SENSAÇÃO DE CALOR

(  ) Nunca

(  ) Leve

(  ) Médio

(  ) Intenso

TREMORES NAS PERNAS

(  ) Nunca

(  ) Leve

(  ) Médio

(  ) Intenso

DIFICULDADE EM RELAXAR

(  ) Nunca

(  ) Leve

(  ) Médio

(  ) Intenso

MEDO DE QUE ACONTEÇA O PIOR

(  ) Nunca

(  ) Leve

(  ) Médio

(  ) Intenso

ATORDOADO OU TONTO

(  ) Nunca

(  ) Leve

(  ) Médio

(  ) Intenso

SEM EQUILÍBRIO

(  ) Nunca

(  ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

ATERRORIZADO

(  ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

NERVOSO

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

SENSAÇÃO DE SUFOCAMENTO

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

TREMORES NAS MÃOS

(  ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

TRÊMULO COMO UM TODO

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

MEDO DE PERDER O CONTROLE

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

DIFICULDADE PARA RESPIRAR

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

MEDO DE MORRER

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

ASSUSTADO

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(    ) Intenso

SENSAÇÃO DE DESMAIO

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

CALOR NO ROSTO

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

SUOR (NÃO DEVIDO AO CALOR)

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

PALPITAÇÕES OU CORAÇÃO ACELERADO

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

INDIGESTÃO OU DESCONFORTO NO ABDÔMEN

(   ) Nunca

(   ) Leve

(   ) Médio

(   ) Intenso

Após responder todas as questões, some as respostas com os valores correspondentes:

NUNCA = 0

LEVE = 1

MÉDIO = 2

INTENSO = 3

RESULTADO

DE 0 A 7 – Não há nada para se preocupar!

No máximo, você fica ansioso (a) em alguns momentos esporádicos, que são completamente naturais para o organismo.

DE 8 A 15 – Pode haver alguns pequenos indícios de ansiedade, mas nada muito grave.

Por isso, é importante manter a atenção e tentar controlar essas situações que o deixam ansioso.

DE 16 A 25 – Sinal de alerta ligado.

Observe se as crises de ansiedade estão interferindo diretamente nas atividades diárias e se isso tem atrapalhado seu rendimento e as relações interpessoais. Para evitar que piore, psicoterapias podem ajudar.

DE 26 A 63 – Procure um psicólogo ou psiquiatra o quanto antes para uma avaliação profissional.

Com o diagnóstico, será possível entender por que essas ocorrências têm acontecido em um curto espaço de tempo. Assim, você poderá se livrar dessa adversidade e ter uma vida mais tranquila.

EU ACHO …

FELIZ MESMO ANO!

A quebra do encanto se dará quando encerrarmos o ano sem nenhum sinal concreto de que 2021 será diferente com relação a nossa principal angústia: o fim da pandemia de covid-19

Estamos chegando ao fim de um ano que não vai acabar. O ano de 2020 quebrou o encanto da mágica noite de 31 de dezembro que sempre nos proporcionou a sensação de que, ao amanhecer, teríamos uma nova Era em que tudo seria diferente (para melhor, claro!). A quebra do encanto se dará quando encerrarmos o ano sem nenhum sinal concreto de que 2021 será diferente com relação a nossa principal angústia: o fim da pandemia de covid-19.

Não estamos falando aqui de esperança porque essa é inerente à natureza humana e sempre nos impulsiona a pensar num amanhã melhor. Estamos nos referindo a quebra de uma atitude “folclórica” que sempre fez parte da cultura de final de ano e essas quebras nos fazem pensar no porquê alimentamos essas crenças e qual o sentido, para cada um de nós, de ter que acreditar que a última noite do ano não será mágica e que amanheceremos, no dia 1º de janeiro, vivendo o mesmo mundo real do dia anterior.

Na Educação, essa simbologia está sendo materializada pela ausência do famoso “resultado final”. Esse fato é consequência do ciclo emergencial 2020/21, viabilizado pela legislação e adotado por quase todos os sistemas públicos e por algumas escolas particulares. 

Consiste na não finalização do ano letivo de 2020, que será continuado em 2021. Esse ano letivo prolongado comportará a série em que o aluno se encontra em 2020 e, de forma sequencial, a série que ele estará em 2021. O currículo deverá ser composto pelas aprendizagens essenciais das duas séries.

Alguns educadores têm reagido de forma inconformada ao fato de o aluno estar automaticamente na série seguinte em 2021. Argumentam que não acham justo que os alunos que não realizaram as atividades remotas recebam o mesmo tratamento. Tenho argumentado exaustivamente que não podemos usar a mesma lógica que usamos em anos “normais” e que não podemos concluir com tanta certeza de que apenas o descaso se fez presente. O ano contínuo nos convida ao resgate, à recuperação do que não foi aprendido, à empatia para avaliar e à predisposição para seguir em frente.

Na Educação ou na vida, mudança de ano sempre foi uma convenção. Nós é que acreditamos demais na mágica da noite de Réveillon. Talvez esse final de ano nos desperte para o fato de que a realidade é uma sequência de escolhas, consequências e contingências individuais e coletivas da qual, inexoravelmente não podemos fugir e que a melhor forma de lidarmos com o momento presente é encarando-o de frente. Sendo assim, feliz mesmo ano para todos!

OUTROS OLHARES

OS MEDICAMENTOS MAIS PROCURADOS PELOS BRASILEIROS DURANTE A PANDEMIA

■ TRATAMENTO E PREVENÇÃO DA COVID-19

Maior site de pesquisa de medicamentos do país, o Consulta Remédios fez um estudo inédito sobre quais as drogas que despertaram mais interesse dos brasileiros durante a pandemia. Em primeiro lugar no levantamento realizado entre abril e setembro aparecem Itens associados nos últimos meses à prevenção e ao combate do coronavírus. Mesmo sem nenhuma comprovação de eficácia em tratamentos contra a Covid-19, a Ivermectina monopolizou a curiosidade dos internautas, ocupando o primeiro lugar no período. Somente em julho o serviço registrou mais de 7 milhões de buscas a respeito da substância utilizada no tratamento de infecções provocadas por parasitas intestinais.

■ SAÚDE MENTAL

Muitos distúrbios de humor e crises de ansiedade foram desencadeados pelo período de isolamento. Não por acaso, a plataforma registrou alta na procura por informações relacionadas a drogas como o Donaren e a Fluoxetina, ambas utilizadas em tratamentos contra a depressão.

■ VIDA SEXUAL

A julgar pelas pesquisas feitas no Consulta Remédios, o período de quarentena não afetou a libido de muitos casais. Medicamentos contraceptivos e remédios indicados para disfunção erétil tiveram um aumento na procura por esclarecimentos.

■ EMAGRECIMENTO

Quatro em cada dez brasileiros ganharam peso durante a pandemia, o que se refletiu na busca de informações sobre dietas na plataforma.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE DEZEMBRO

JESUS, NOSSA BENDITA ESPERANÇA

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pelo mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança (1Timóteo 1.1).

A esperança de milhões de pessoas está morta, esmagada pelo desespero. Elas vivem com os olhos inchados de tanto chorar, feridas pelas revezes da vida. Estão sem esperança e sem Deus no mundo. Vão atrás de religiões e colhem decepções amargas. Buscam a psicologia de autoajuda e sentem-se ainda mais insatisfeitas. Correm para os banquetes do pecado e saem de lá mais frustradas. Na ânsia de encontrar sentido para a vida, muitos recorrem às fontes das aventuras e bebem todas as taças dos prazeres deste mundo, mas se sentem ainda mais infelizes. É nesse cenário cinzento de desespero que Jesus se apresenta como a nossa esperança. Ele é a nossa esperança porque morreu por nós, para nos salvar. Ele é a nossa esperança porque vive para nós, para nos santificar. Ele é a nossa esperança porque voltará para nós, para nos glorificar. Jesus pode ser o motivo perene do seu júbilo e a âncora segura da sua esperança. Não deposite a sua esperança nas suas próprias forças, nem na instabilidade da riqueza. Não coloque sua esperança nas coisas que perecem. Coloque seus olhos em Jesus. Ele não é uma miragem enganadora. É o refúgio verdadeiro. Ele é a nossa única esperança!

GESTÃO E CARREIRA

A FORÇA DOS COLEGAS

Formar uma turma de amigos é uma arma poderosa para enfrentar o mundo volátil e complexo em que vivemos

Um grande amigo meu, José Carlos Teixeira, consultor de marketing B2B e professor, me propôs um desafio muito interessante: desenvolver o conceito de um novo verbo. Pensei muito e cheguei à conclusão de que a palavra do momento deveria ser “colegar”. Vou explicar para você por que esse verbo, que sempre foi importante, é ainda mais essencial nos dias de hoje.

Temos urna necessidade de nos cercar de colegas para enfrentar o mundo VUCA. Na expressão americana, essa sigla quer dizer “volátil” (de mudanças aceleradas): “incerto” (as tendências conhecidas se transformam constantemente por causa da evolução tecnológica); “complexo” (acabou o mundo cartesiano onde as incógnitas eram de mesmo número que as equações; e”ambíguo” (muitas vezes há duas soluções, aparentemente, corretas e temos de conviver com elas).

Pensando nesse contexto tão peculiar que estamos enfrentando, elaborei a seguinte definição para meu novo verbo, “colegar”: desenvolver e sustentar relações pessoais e profissionais baseadas na identidade de valores e de propósito, tendo como alicerces a confiança e o respeito mútuo.

Ou seja, devemos olhar as coisas da vida e fazer nossos julgamentos (valores) de uma maneira similar. Além disso, temos que saber o que nos move, o que nos faz acordar mais cedo, o que nos dá vontade de continuar, sem desistir (propósito).

Acredito que uma turma de colegas é mais eficiente para enfrentar a turbulência do que uma equipe formada tradicionalmente – que é, em geral, formada apenas pela complementação de competências. Isso porque esse grupo está disposto a se sacrificar um pelo outro, a entender com profundidade as diferenças e a trabalhar a diversidade de forma natural, sem nada que o impeça de conversar e encontrar um consenso.

Nesse cenário, a liderança é contingencial. Isso quer dizer que o líder se apresenta dependendo da situação, é aceito, respeitado e, se a situação mudar rapidamente, outro líder assumirá seu lugar sem conflito. E o que é melhor: sem ciúmes nem inveja.

A turma de colegas tem de definir seus objetivos com clareza e comunicá-los bem, compartilhar resultados tangíveis e intangíveis e manter certa cerimônia entre os membros – respeitando os limites do próximo. Se eu sei o que lhe machuca, não devo dizer na discussão só para enfraquecê-lo.

Pertencer a uma turma é a formação ideal para resolver problemas complexos do ambiente VUCA e também para poder viver sob pressão, mas com alegria e com realização coletiva. Vamos colegar?

LUIZ CARLOS CABRERA – escreve sobre carreira, é professor na eaesp – FGV e diretor na PMC – Panelli Motta Cabrera & Associados

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – IX

“EU SUPEREI A ANSIEDADE”

Depoimentos de pessoas que conseguiram lidar com o transtorno

“ME MANTER OCUPADA AJUDA A AFASTAR OS SINTOMAS”.

DÉBORA SOARES, RIO DE JANEIRO (RJ)

“Sempre fui ansiosa. Tinha hiperidrose (suor em excesso) desde criança devido à ansiedade. No começo de 2014, comecei a ter vontade de ficar deitada o dia todo, sem ânimo para nada. Depois, surgiu um medo de perder as pessoas que eu amo. Comecei a ter dor no peito e dificuldade para respirar, achava que ia enfartar.  Tive a primeira paralisia do sono (o cérebro acorda e seu corpo, não). Foi horrível e não sabia explicar pra ninguém o que era. Um dia, estava deitada e tive a sensação que ia desmaiar, não sentia meus braços e a falta de ar ficou maior do que nunca. Fui para a emergência e o médico disse que era ansiedade. Não acreditei, achei o médico incompetente, porque aqueles sintomas não poderiam ser de ansiedade. Voltei para casa e uma hora depois fui a outro hospital. Encontrei uma médica que me diagnosticou com TAG. Aí sim, vi que meu problema era emocional. Mas não foi fácil. Todas as noites tinha crises piores. Na mesma semana, fui ao psiquiatra que me passou doses fracas de remédio que foram aumentando com o passar do tempo. Cheguei a tomar quatro tipos de medicamentos por dia, todos tarja preta e vermelha.

Não conseguia ir em festa de família porque passava mal, tinha dores de barriga, formigamento pelo corpo, o coração batia tão forte que eu tinha a impressão de ouvir ele batendo. E continuei assim durante os meses, praticamente isolada.

Em novembro do mesmo ano, perdi minha casa, pois o mercado que tinha ao lado pegou fogo. Minha vida ficou de cabeça para baixo e achei que iria ter um surto. Mas pelo contrário: com a correria, eu me esqueci de tomar os remédios e, como me vi obrigada a ser forte, consegui melhorar um pouco. Fui morar com meu namorado e como a gente gosta muito de medicina alternativa, comecei a me tratar com ervas, fiz ioga, acupuntura e tomava florais. Minha fé me ajudou demais. Vi que o chá de melissa me fazia dormir a noite toda. Depois que minha vida foi voltando aos eixos, comecei a me lembrar de tudo e sentia que minhas crises queriam voltar. Foi quando encontrei uma gatinha atropelada na rua. Ela estava muito machucada e precisei tratar dela integralmente. Toda vez que eu pensava em ter crise, ela miava e ia cuidar dela. Foi assim durante um mês eu me vi quase curada desde então. Além dela, tenho mais seis bichos, então sempre me distraio com eles. Passei a trabalhar com artesanato, fazia de tudo pra manter minha cabeça ocupada, já que, qualquer momento parada, é motivo para se ter crise.

Depois de tudo isso, parei para analisar o motivo de isso ter acontecido logo comigo. Tive certeza de que todas as cobranças por ter 24 anos na época e ter que ser alguém na vida me fizessem adoecer. Me sentia fracassada por ver as pessoas conseguindo as coisas e eu, não.

Nesse meio tempo, meu tio também foi diagnosticado com TAG, e a família passou a me entender, já que achavam frescura e diziam que eu tive isso porque não fazia nada, não trabalhava. Sofri bastante com o preconceito de quem não sabe o que é ter TAG.

Toda vez que uma sensação ruim vem, eu rezo e vou fazer qualquer coisa, até varrer a casa serve. Me manter ocupada ajuda a afastar os sintomas. Hoje agradeço a Deus por eu ter sido escolhida para ter a TAG, porque comecei a rever minha vida e a absorver apenas o que eu acho que vale à pena. Gosto mais de mim e me respeito mais. Aprendi a ser mais paciente comigo e a respeitar outras pessoas com problemas psicológicos. Por sorte tenho o Leonardo, hoje meu marido, que me mantém no meu ritmo e sempre me ajuda. E vivo sempre com o lema: um dia de cada vez “

“EU RECEBI MUITO AMOR, PACIÊNCIA, CARINHO E ATENÇÃO”

LUCIANE SMIDT, RIO DE JANEIRO (RJ)

“Sempre fui uma pessoa espiritualizada, determinada, alegre, inteligente, corajosa e bastante ativa. No entanto, em meados de março de 2013, comecei a apresentar insônia, dores intensas de cabeça, intercalada com dores musculares que me levavam a internações recorrentes. Estes sinais e sintomas desencadearam crises de pânico, seguidos de uma ansiedade que invadia e sufocava meu peito. Meu coração acelerava, suava frio, minha respiração ficava ofegante, sentia uma sensação de impotência e um medo terrível me consumia, principalmente, quando se aproximava o horário de ir para o trabalho.

Durante uns três meses vivenciei esses fatos, até que um dia a ansiedade era tamanha que não consegui sair de casa para ir trabalhar. Procurei um médico psiquiatra, pois já fazia terapia há algum tempo devido ao estresse ocasionado pelo trabalho. Fui afastada do emprego e medicada. Chorava muito, me isolei dos amigos, perdi minha autoestima e só queria dormir. Estava deprimida. Contudo, nunca aceitei a condição na qual eu estava, pois tenho um filho com síndrome de Down e sabia o quanto ele precisava da mãe saudável e forte!

Eu recebi muito amor, paciência, carinho e atenção, principalmente, do meu esposo. Na época, estávamos namorando fazia dois meses. Eu morava no Rio Grande do Sul e ele, no Rio de Janeiro e, nas crises de ansiedade, de orava comigo. O Lucas, meu filho, era o meu cristal. Ele é budista, realizava práticas várias vezes ao dia, queimava incenso e recitava mantras para mim. Seu sorriso, beijo e carinho alimentavam a minha força de querer sair daquele buraco negro.

Foram seis meses para eu sair da crise. Nesse período, mudei de psiquiatra e as condições para ela me tratar eram manter o tratamento medicamentoso, fazer terapia três vezes na semana, retomar a natação, incluir academia para socializar e buscar uma prática religiosa. Com o passar dos meses, a terapia foi reduzida para duas vezes na semana e já havia identificado que a minha cura dependia de pedir demissão do hospital em que eu trabalhava. Mesmo assim, eu precisava me superar, jamais aceitei fugir desta forma. Eu amava o meu trabalho, foram 15 anos de amor e dedicação.

Nessa fase, minha relação de intimidade com Jesus era imensa. Eu orava, realizava práticas meditativas do budismo, praticava regularmente atividade física, elaborei um plano alimentar voltado para a energização dos chakras e decidi que retornaria ao trabalho por mais alguns meses. Fui recebida pela equipe de trabalho com muito carinho, homenagens e festa. Nos dois primeiros. meses, tive algumas crises de ansiedade, mas respirava fundo lentamente, me lembrava das pessoas que amava, fechava os olhos, orava para Jesus e imaginava estar sendo banhada por luzes do arco-íris. Trabalhei por mais um ano, feliz, até optar pela demissão. Não sofro de ansiedade há mais de dois anos. Optei por administrar a minha vida com a família, os estudos e cuidando da alimentação das pessoas que buscam uma nutrição integral, aquela que nutre o corpo físico, a mente e a alma!”.

A MEDITAÇÃO E AS ORAÇÕES ESTÃO ME AJUDANDO A ENCARAR A VIDA DE UMA FORMA MAIS LEVE

POLLYANA DRUMOND VIEIRA, BELO HORIZONTE (MG)

“Quem é a Polly? O que a Polly gosta de fazer? O que a Polly vai ser? Por que a Polly vai fazer isso? Por que a Polly não fez aquilo? Estava aí a causa de eu ser uma pessoa muito ansiosa que sofria de preocupação excessiva, problemas de sono, tensão muscular e mal estar psíquico: as perguntas sem respostas relacionadas à minha vocação!

Desde que me formei em engenharia química há 11 anos, possuía uma certa ansiedade em relação a tudo e a todos. Mas esta aflição foi se acentuando quando pensava na minha vida profissional – saber o que eu realmente gostava e qual era meu verdadeiro talento. Após me formar, entrei como trainee em uma renomada empresa de engenharia em gestão empresarial e por lá fiquei durante oito anos. Acompanhada de minha inseparável amiga ansiedade. Ao sair, atuei em alguns projetos como autônoma e depois fui convidada a trabalhar em uma grande construtora. Possuia outro ritmo de vida, mais tranquilo, menos pressão. Mas a danada da ansiedade estava ali, cada vez mais presente nos meus dias.

Ai veio  esta crise que estamos enfrentando, as empresas começaram a demitir e eu me vi no grupo dos desempregados. Meu mundo caiu! Aquela ansiedade, até então normal, começou a ficar cada dia maior devido às dúvidas vocacionais, à falta de trabalho, e às péssimas perspectivas  econômicas do país. Eu, uma pessoa ansiosa e profissional gabaritada, precisava utilizar este momento a meu favor. Para não cair  em crise de paranoia no futuro, aceitei o convite da ansiedade para parar e me olhar profundamente.

Escolhi trabalhar mais minha espiritualidade e fazer o coaching de carreira como forma de apoio. A meditação e as orações estão me ajudando a encarar a vida de uma forma mais leve. Já o coaching me aproximo de minha essência e me fez reconhecer minha verdadeira vocação. As diversas ferramentas de autoconhecimento e os diálogos profundos geraram momentos extraordinários de  reflexão. Desenvolvi novas crenças para criar uma vida pessoal e profissional com mais significado, ajudando a tomar decisões alinhadas com os meus valores. Meu coach me ajudou muito a ter equilíbrio nesse processo de descoberta que, em algumas  etapas, não foram fáceis.

Hoje consigo responder às questões que vão aparecendo e sei quem é a verdadeira Polly. Mas o mais importante é que sei o que devo fazer para ter uma vida pessoal e profissional que realmente me faça sentido, mantendo aquela terrível ansiedade domesticada”.

“O QUE ME LIVROU DAS CRISES DE ANSIEDADE FOI MUDAR POR COMPLETO MINHA VIDA”

TALLIS CONSTANZI, FLORIANÓPOLIS (SC)

“Foi tudo muito de repente. Com 21 anos, eu nunca tinha parado para refletir sobre minha saúde mental, até achar que estava ficando louco. Na verdade, eu já vinha lidando com depressão e ansiedade há muitos anos e nem sabia. Mas nada se comprava aos últimos meses de 2015, quando tive as primeiras crises de ansiedade e pânico. Foram duas crises de pânico que deram início aos incessantes pensamentos mórbidos que eu não conseguia tirar da cabeça. Era como se eu estivesse tentando me assustar, como se eu fosse meu inimigo. Esses pensamentos estavam presentes todos os momentos do dia, a partir do momento que acordava até enquanto dormia, dentro dos sonhos. E foi durante o sono que tive a pior das crises de ansiedade, quando acordei suando frio e com dores no corpo todo. Pensamentos horríveis batendo como pedra na minha cabeça. Tudo me causava náuseas, senão extremo pavor. Mas o que me livrou das crises de ansiedade foi mudar por completo minha vida. Cidade, emprego, curso e relacionamento.”   

EU ACHO …

PERICIANDO 2020

Analisando as mensagens que 2020 nos transmitiu fica fácil entender que fomos obrigados a sair da zona de conforto, pois mexeram no universo pessoal de cada um

É preciso periciar, minuciosamente, cada mensagem deste ano que se finda. Poderíamos dizer que foi um ano diferente, motivado pelo isolamento social que se impôs desde março, gerado por um vírus que se tornou um inimigo invisível e que ainda circula entre nós, mas que também nos convida a repensar valores, rotina e a vida em geral. Analisando ou periciando as mensagens que 2020 nos transmitiu fica fácil entender que fomos obrigados a sair da zona de conforto, pois mexeram no universo pessoal de cada um.

Infelizmente, esse impacto para quase 200 mil famílias trouxe a fatalidade, o que leva a nos solidarizarmos pelas suas perdas. Mesmo neste país com um sistema de Saúde diferenciado que, pelo menos teoricamente abarca todos os membros da sociedade – SUS, nunca tivemos de conviver com tantos hospitais lotados e mortes causadas por um mesmo motivo.

E esse filtro, talvez, seja o primeiro a ser considerado nessa perícia existencial. Com a covid ficou ainda mais evidenciada a desigualdade social, mas, ao mesmo tempo, ficou claro que somos todos iguais perante ao vírus. Para ele não há ricos ou pobres, famosos ou anônimos. Todos são vulneráveis.

Essa fase vai passar e é fundamental estarmos atentos aos ensinamentos passados, ainda que de forma dolorosa. Óbitos, internações, recuperação, desemprego, solidariedade, entre tantas outras coisas deverão ser reconhecidas e utilizadas para nos tornarmos uma sociedade melhor.

Em cada profissão ou segmento da Economia muita coisa mudou. Na área da perícia, como venho sinalizando, paradigmas foram quebrados e tudo caminhou. Claro que certas mudanças trazem melhorias, outras nos fazem retroceder, porém cabe a nós fazermos escolhas.

Como tudo na vida, seja no mercado de trabalho, escola ou em casa, o que escolhermos é o que ditará o nosso amanhã como cidadãos e comunidade. Esta freada foi providencial e cabe a nós fazer do limão uma limonada. Fomos convidados a reinventar. Estamos vivendo o “home office” como cotidiano. A minha vida mudou. Estou conseguindo tempo para escrever.

Se vamos voltar ao que era ou se iremos nos deparar com um novo normal não importa. O essencial é como queremos ser após essa turbulência. De qual sociedade estaremos falando após a pandemia. Qual será o nosso compromisso com ela em 2021?

Da minha parte, digo que as experiências vivenciadas em 2020 vão me permitir ser mais consciente e proativo nas relações profissionais e pessoais, com mais profissionalismo, ética e olhar mais apurado para o meu próximo. E você?

*** JARBAS BARSANTI – Perito Judicial Contábil, conselheiro do CRC-RJ e empresário

OUTROS OLHARES

OS FEIOS VENCERAM

Abercrombie, a grife que só queria clientes “bonitos e magros”, anuncia o fechamento de lojas e busca novos caminhos para se adaptar às mudanças do padrão de consumo

As empresas demoram décadas para construir uma boa reputação, mas bastam apenas alguns minutos para destruí-las. A velha máxima do mundo corporativo traduz a eletrizante trajetória da grife americana de roupas Abercrombie. Fundada em 1892, em Nova York, ela ficaria conhecida anos depois, quando personalidades como o presidente americano John F. Kennedy, a atriz Greta Garbo e o escritor Ernest Hemingway, entre muitas outras, passaram a exibir com orgulho o famoso alce que se tornaria símbolo da marca. No início do século XXI, a Abercrombie deixaria o universo das celebridades de meia-idade para seduzir os jovens com uma estratégia para lá de esquisita. Em vez de vendedores convencionais, a rede contratou modelos sarados que atendiam a clientela sem camisa, como um chamariz para atrair adolescentes. A ousadia funcionou, as filas avolumaram-se nas portas das lojas e muito dinheiro jorrou dos caixas da companhia. Até que uma estupidez poria tudo a perder. Em 2013, Mike Jeffries, então presidente da Abercrombie, disse que apenas “gente magra e bonita” era bem-vinda e deveria comprar seus produtos. Em questão de minutos, a centenária reputação seria irremediavelmente jogada no lixo.

O preço está sendo cobrado agora, quase uma década depois da tresloucada afirmação. A Abercrombie anunciou há alguns dias seu mais drástico plano de reestruturação – palavra que, no jargão corporativo, não é outra coisa a não ser corte de custos. A empresa fechará, até o fim de janeiro, as quatro maiores lojas próprias, sendo duas na Alemanha (Düsseldorf e Munique), uma na França (Paris) e uma na Inglaterra (Londres). Outros endereços importantes na Europa e no Japão deverão ser encerrados quando seus respectivos aluguéis expirarem.

Segundo cálculos do mercado, as lojas extintas representam 10% de toda a área física disponível para vendas. O novo foco da Abercrombie serão as unidades menores, sem o estandalhaço do passado – no início da década, alguns estabelecimentos simulavam baladas, com luzes piscantes que brilhavam ao ritmo do som altíssimo -, e mais distantes das áreas turísticas tradicionais. Em outras palavras: a empresa quer atrair o público mais popular, que vive nas franjas das cidades. O conjunto de iniciativas significará uma economia imediata de 8 milhões de dólares, dinheiro que compensará a queda de 5% das vendas no terceiro trimestre do ano fiscal encerrado em outubro.

A ascensão e queda de uma das grifes mais tradicionais dos Estados Unidos exemplifica como o descuido com a reputação pode ser devastador para as grandes empresas. Mike Jeffries, o presidente falastrão, foi afastado do cargo em 2014, mas os estragos estavam feitos. A reação à sandice foi o surgimento de um movimento nas redes sociais que pregou durante anos o boicote à marca e a distribuição de roupas que ostentassem o inconfundível alce a moradores de rua. O levante dos “feios e gordos”, a turma que não se enquadrava no estereótipo que o executivo queria ver em suas lojas, fez a Abercrombie perder fatias importantes de mercado. “Para complicar a situação, a nova geração é mais inclusiva do que qualquer outra na história”, diz Eduardo Tancinsky, consultor especializado em marcas. “No mundo competitivo da moda, só as marcas exclusivíssimas podem abrir mão de potenciais compradores. Chamar eventuais clientes de feios não foi apenas uma agressão, mas um contrassenso do ponto de vista de marketing.”

Nos últimos meses, para piorar, a Abercrombie enfrentou uma tempestade perfeita. Somaram-se aos problemas de imagem a crise imposta pela pandemia e os novos desafios do varejo físico, afetado pelo avanço do comércio eletrônico. Outras marcas icônicas também sofrem com as mudanças do mercado e do padrão de consumo. A grife Banana Republic foi uma das mais amadas nos anos 1990, mas perdeu público de uns tempos para cá. Sua controladora, a Gap, informou recentemente que fechará 130 lojas Banana Republic nos Estados Unidos até 2023 – é o corte mais radical da história da empresa. Já há até quem duvide da capacidade de sobrevivência da outrora inabalável marca.

O mundo das grifes parece ter virado do avesso na nova era doconsumo. Um dos mitos empresariais do século XXI, a grife californiana de acessórios e roupas íntimas Victoria’s Secret viu sua participação de mercado cair de 34%, uma década atrás, para 15%, atualmente. Assim como a Abercrombie, a empresa enfrenta uma crise de imagem. A estética sexualizada, consagrada pelas modelos lindas e esguias, parece fora de contexto em um mundo marcado pelo ativismo feminino. Há inúmeros casos. A sueca H&M, uma das maiores empresas do varejo de roupas do mundo, avisou que eliminará 250 lojas, de um total de 5.000, até o fim de 2021. “Mais e mais clientes começaram a comprar on-line durante a pandemia”, justificou a empresa.

Por maisque a situação pareça irreversível para algumas companhias, é prudente não duvidar da capacidade de as grifes resistirem às mudanças de comportamento, ajustando as operações ou até mesmo mudando radicalmente a linha de produtos. A própria Abercrombie é exemplo disso. Em meados do século passado, era uma marca robusta, para pessoas que desejassem transmitir ao mesmo tempo força e sofisticação. Anos depois, virou uma das grifes preferidas da garotada baladeira. Recentemente, a empresa fez novas apostas ao lançar uma campanha publicitária, veja só, estrelada por pessoas com alguns quilos a mais. O público aprovou. Talvez não seja tarde demais para se reinventar.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE DEZEMBRO

A FELICIDADE DO PERDÃO

Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto (Salmos 32.1).

O homem tem um vazio no coração do tamanho de Deus. As coisas não podem preencher esse vazio. Deus colocou a eternidade no coração humano e nada do que é terreno e temporal pode satisfazer o homem. O pecado separou o homem de Deus, e longe de Deus é território da infelicidade. Muitas pessoas vivem atormentadas pela culpa. Vivem no cabresto do pecado, na masmorra do medo, sem paz na alma. Há aqueles que tentam escapar desse sentimento avassalador, correndo para muitas aventuras. Outros se entregam à bebedeira e afogam a consciência em dores ainda mais profundas. Na ânsia de buscar uma resposta para a angústia da alma, o homem recorre a filosofias de autoajuda, entrega-se a experiências místicas e frequenta igrejas e mais igrejas. Porém, nenhum rito e nenhuma experiência mística podem aliviar a consciência culpada. Somente o sangue de Jesus pode apagar os nossos pecados e limpar a nossa consciência das obras mortas. Somente Jesus pode quebrar os ferrolhos dessa prisão e despedaçar nossas algemas. Somente Jesus pode nos oferecer perdão verdadeiro e felicidade eterna. Buscar o perdão noutra fonte é como cavar uma cisterna rachada, que não retém as águas. A vida está em Jesus. A salvação é uma dádiva de Jesus. O perdão só pode ser encontrado em Jesus. A felicidade é um presente de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

PRECISAMOS FALAR SOBRE BURNOUT

Metas, horas extras, pressão e uma cultura que faz da saúde mental um tabu são causas de esgotamento entre executivos, funcionários e empreendedores

O trabalho pode ser gratificante, mas também sufocante — e não é de hoje. O personagem Carlitos, interpretado pelo britânico Charles Chaplin em um de seus mais marcantes filmes, trabalha na linha de produção de uma fábrica apertando peças metálicas. A pressão em seu setor aumenta: a mando da alta gestão, a velocidade na linha fica mais intensa. Com certa dificuldade, Carlitos acompanha o ritmo sob o olhar severo de seu gestor direto. Pouco tempo depois, novas ordens para aumentar a produtividade. Carlitos parece entrar numa espiral de ansiedade, acaba subindo na esteira e sendo levado para dentro da máquina. “Ele é louco”, grita um colega de trabalho. O episódio dá início a Tempos Modernos, filme lançado em 1936 que aborda situações cômicas de um universo recém-industrializado. Na época, a força global de trabalho sentia os impactos da Segunda Revolução Industrial. O contexto era de baixos salários, ambiente laboral precário e alto índice de desemprego — condições ideais para gerar a confusão mental vivida por Carlitos.

Quase 100 anos mais tarde, a chamada Quarta Revolução Industrial promete uma intensa automatização do trabalho. A inteligência artificial e o apoio de robôs deveriam deixar mais tempo para as pessoas se dedicarem às tarefas analíticas e às habilidades humanas. A evolução nos hábitos de consumo também deveria nos levar a uma rotina mais saudável e flexível, com mais espaço para o ócio. Por ora, não é o que se vê. Os anos 2020 deverão ser marcados como aqueles que popularizaram o burnout, ou esgotamento pelo trabalho.

O fenômeno é global — e o Brasil, infelizmente, é um dos destaques. No Japão, 70% da população economicamente ativa diz ter tido burnout. Em 2016, quase um quarto das empresas japonesas exigia que os funcionários cumprissem mais de 80 horas extras por mês, de acordo com o governo local. Em 2019, uma lei limitou as horas extras a 45 por mês. Nesse cenário, a subsidiária japonesa da empresa de tecnologia Microsoft testou, por um mês, o fim de semana de três dias para 2.300 funcionários. A produtividade aumentou 40%. A empresa pretende implementar o programa novamente, ainda sem data definida.

Na China, terceiro país com maior incidência de burnout — atrás do Brasil —, é comum os funcionários do polo tecnológico trabalharem das 9 às 21 horas durante seis dias por semana. A prática é defendida por grandes empresários, como Jack Ma, cofundador da varejista online Alibaba. Nos Estados Unidos, quarto país da lista produzida pela International Stress Management Association, 20% da população economicamente ativa sofreu burnout. Episódios de esgotamento são a ponta de lança de um momento global de discussão sobre as formas de trabalho. Para Jeffrey Pfeffer, professor na universidade americana Stanford, é hora de um redesenho total.

Apesar de o termo já pipocar pelos escritórios, ser tema de palestras e motivo de afastamento do trabalho, só agora as corporações começaram a quebrar o tabu e a lidar com a questão. Uma pesquisa da consultoria de benefícios Mercer Marsh mostrou que projetos de saúde mental são prioridade em 2020: 30% das organizações querem implantar iniciativas e 46% afirmam já ter alguma prática implementada (veja quadro abaixo – Gestão da Saúde). Um estudo das empresas Mind Share Partners, SAP e Qualtrics apontou que 60% dos americanos tiveram algum sintoma de doenças do trabalho em 2018 e, desses, 60% nunca comentaram sobre o ocorrido. “Mais do que oferecer serviços, as empresas precisam superar a dificuldade de falar sobre o estigma. Por outro lado, os executivos pensam que, ao tocar no assunto, vão evidenciar um problema”, afirma Helder Valério, gerente de gestão de saúde da Mercer Marsh.

Não há um consenso sobre a definição de burnout. Numa tradução livre, o termo quer dizer “queimar até o fim”, estando relacionado a uma estafa física e mental por excesso de trabalho. Para Mario Louzã, psiquiatra e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o burnout é formado por um tripé. “É um casamento entre características da personalidade, situação de vida da pessoa e condições de trabalho, sendo este último o principal fator”, diz. Ainda não existem estudos consistentes para registrar o aumento de casos de burnout — até porque a síndrome só passará a existir oficialmente em 2022, quando entrará em vigor a 11a edição da Classificação Internacional de Doenças (CID), que vai agregar o burnout como “problema associado ao emprego ou desemprego”. No entanto, é claro para Louzã o aumento significativo na demanda de seus pacientes para tratamento de burnout. “Houve uma aceleração no ritmo de trabalho com a intensificação da tecnologia”, diz o psiquiatra. “Além disso, o maior acesso à informação e o avanço nos diagnósticos contribuem também para esse aumento no número de casos.”

Enquanto o burnout não é oficializado, as pesquisas que abordam a saúde mental do trabalhador costumam mensurar os níveis de estresse. Um estudo lançado pela consultoria Accenture em novembro avaliou um universo de mais de 2.000 funcionários no Reino Unido. O resultado mostra que 69% dos entrevistados já foram impactados por algum tipo de problema relacionado a saúde mental. No Brasil, a consultoria Betânia Tanure Associados fez medições de três tipos de estresse: baixo (quando o funcionário executa a tarefa com muita facilidade, sem prestar atenção, o que não contribui para a produtividade), construtivo (não nocivo e necessário para a motivação) e alto (este, sim, pode levar à síndrome de burnout).

O estudo avaliou executivos individualmente, seus times e as empresas em que atuam. Foram 538 respondentes das 500 maiores companhias brasileiras. Na comparação entre 2019 e 2018, houve aumento do estresse alto em todas as categorias. “O ponto crítico é o grau de incerteza presente nas organizações hoje”, diz Betânia, fundadora da consultoria, referindo-se aos novos concorrentes e às lógicas de negócio inovadoras que ganharam força com a tecnologia.

Apesar de haver profissões mais propensas ao desenvolvimento de um quadro de burnout — caso dos médicos e policiais —, não existe um perfil profissional específico para isso. Qualquer pessoa economicamente ativa pode ter uma crise. Os sintomas são igualmente diversos: existe uma gama ampla de sensações, que variam de acordo com a pessoa afetada.

Para Sofia Esteves, por exemplo, a síndrome foi sorrateira. Fundadora do grupo Cia de Talentos, ela vivia uma fase intensa na empresa em 2016. Em determinado momento, passou a ter lapsos de memória recente: não era capaz de lembrar de conversas do dia anterior, por exemplo. “Apesar de nunca sair tarde do escritório, eu passava o dia entrando e saindo de reuniões”, diz Sofia. “Quando há novos estímulos constantemente, sem descanso, chega um momento que o cérebro não consegue mais processar as informações.” Depois de perceber as falhas na memória, a executiva fez consultas médicas, foi diagnosticada com burnout e se afastou do trabalho por 50 dias. No retorno, teve apoio de sessões de técnicas de atenção plena, conhecidas como mindfulness, e diminuiu a agenda significativamente. “Cortar compromissos foi a parte mais difícil, mas foi importante aprender que não preciso participar de tudo e que, se eu estiver ausente, os processos vão continuar.”

Pessoalmente, Sofia não sentiu que o fato de ser mulher teve impacto no desenvolvimento do quadro. Mas homens e mulheres costumam exibir sintomas de burnout por motivos distintos. “Enquanto as mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho e ainda acumulam responsabilidades em casa, o machismo faz com que os homens não mostrem vulnerabilidades, o que também é um problema”, diz o consultor Vicente Picarelli, diretor da consultoria de capital humano que leva seu sobrenome. Membro de conselhos de administração, Eduardo Terra sentiu na pele as pressões do trabalho na saúde mental dos executivos. “Em geral, o homem tem mais dificuldade de pedir ajuda: é a síndrome do super-homem”, diz.

No caso de Terra, o burnout chegou numa semana especialmente atribulada, com voos domésticos longos, palestras e privação de sono. Entre os sintomas, confusão na fala e braços dormentes. “Além do excesso de trabalho, acabamos corrigindo do modo errado, tomando mais cafeína para ficar acordado e descuidando da alimentação.” Como gosta de suas funções — sentimento muito comum entre os pacientes com burnout —, Terra resolveu ser mais regrado em seus hábitos para manter o ritmo. Depois de se recuperar da crise, há cerca de um ano e meio, o executivo deixou de ser sedentário, passou a seguir uma dieta saudável e perdeu 15 quilos. A agenda continua a mesma, com a diferença de que passou a planejar viagens longas com mais cuidado.

Nem sempre uma alteração na agenda é suficiente para manter a saúde mental. Com uma carreira de mais de 20 anos nas áreas comercial, de marketing e de gestão de pessoas em empresas como Walmart e Grupo Pão de Açúcar, Sylvia Leão teve de adiantar uma mudança planejada na carreira. Chamada para liderar projetos importantes no Carrefour em 2015, ela encarou o desafio como a última etapa da vida profissional antes de passar a atuar como conselheira. Inicialmente, a ideia era ficar cinco anos na empresa, mas a síndrome de burnout, iniciada em 2018, abreviou o processo. “Eu estava tão envolvida e cheia de desafios que demorei a perceber os sinais que o corpo me mandava”, diz.

Além do cansaço intenso, Sylvia tinha uma sensação difícil de definir, mas que ela descreve como angústia. A saída foi retornar à psicanálise e reconhecer seus limites. Hoje, a executiva participa de cinco conselhos de administração e entende que essa é a carga ideal de intensidade de trabalho para ela. Se o funcionário pode rever seus processos laborais, a empresa tem papel fundamental na mudança. O bem-estar também evita gastos. No Brasil, o burnout custa para os empregadores cerca de 80 bilhões de dólares ao ano. Nos Estados Unidos, o montante é de 300 bilhões de dólares.

Para evitar os resultados negativos causados pelo estresse alto e pelo burnout, a empresa alemã de tecnologia SAP começou uma campanha global para acabar com o estigma de falar sobre saúde mental. Em maio, na conferência global anual da empresa em Orlando, nos Estados Unidos, um painel sobre saúde mental foi apresentado por Cynthia Germanotta, mãe da cantora e atriz Lady Gaga. Mãe e filha lançaram há oito anos uma fundação para combater o bullying e os problemas de saúde mental ocasionados pela prática. O interesse dos funcionários pelo tema foi tão grande que um comitê de saúde mental foi criado globalmente. No Brasil há várias práticas, como a execução de peças de comunicação escancarando o tema e a promoção de palestras com psicólogos.

Para promover uma mudança cultural, é preciso inserir a alta liderança nos debates e nas ações. Há seis anos, desde que assumiu a presidência da SAP no Brasil, Cristina Palmaka realiza o Café com a Cris, encontro mensal com uma dezena de funcionários que voluntariamente se inscrevem para debater assuntos como gestão e vendas. Inspirado nesse modelo, o Chá com a Cris, uma reunião para falar exclusivamente de saúde mental, teve início em agosto. Nos dois primeiros encontros apenas gestores puderam participar, e os seguintes foram abertos para todos.

Os funcionários compartilham experiências e ideias de como criar um ambiente seguro, no qual falar de ansiedade e depressão não seja um problema. “É comum que as pessoas tenham crises pessoais e no trabalho. Fomentar a resolução gera um ambiente seguro, melhora o clima e os resultados”, diz Cristina. Com o objetivo de integrar funcionários e quebrar o tabu da saúde mental, algumas companhias buscam palestras de espiritualidade, coaching e até teatro corporativo, baseado em concepções de que cada pessoa assume um papel. A disputada budista monja Coen, autora de best-sellers e com mais de 2 milhões de seguidores somados no YouTube e no Instagram, diz ter dobrado a quantidade de palestras sobre espiritualidade nas companhias ao redor do Brasil nos últimos cinco anos. “As empresas precisam de funcionários emocional e espiritualmente saudáveis para ter lucro. Os gestores se deram conta disso e me procuram cada vez mais”, afirma.

Promover um ambiente seguro para tratar questões de saúde mental no trabalho abrange os sentimentos que nascem da porta para fora. Pessoas homossexuais, por exemplo, são cinco vezes mais propensas a tentar suicídio do que as heterossexuais. Entre os jovens negros o risco de cometer suicídio no Brasil é 45% maior do que o de jovens brancos. Na estratégia de quebrar o estigma, na SAP os grupos de diversidade são prioritários. Mas não é só nas grandes empresas que esse problema aparece. Na agência de publicidade Mutato, 27% dos profissionais se declaram negros, 64% são mulheres e 40% se declaram LGBTI+; mesmo assim, as pessoas desses grupos relataram se sentir mais vulneráveis e menosprezadas do que as outras. Depois disso, a empresa começou a promover palestras com psicólogos e sessões de ioga. Mas foi só em outubro de 2019 que o cofundador e presidente Andre Passamani percebeu a oportunidade de incentivar a terapia individual para os funcionários interessados. “Tenho 46 anos e, em minha juventude, saúde mental não era um assunto abordado.

Apenas recentemente ações de prevenção foram mais estruturadas”, diz. Desde outubro todos os funcionários da Mutato podem fazer terapia online por meio do aplicativo da Zenklub, uma startup que cresce 15% ao mês. As sessões são custeadas pela empresa e tiveram adesão de 30% dos funcionários. Apesar de as sessões serem confidenciais, os gestores conseguem saber em quais áreas da empresa as questões emocionais das pessoas estão relacionadas ao trabalho. “Pretendemos criar um histórico, traçar novos planos e melhorar o clima interno”, diz Passamani.

A exposição das doenças do trabalho também está atrelada às diferenças geracionais. Nos Estados Unidos, segundo um estudo da consultoria Deloitte, 84% da geração millennial (nascidos entre 1980 e 1995) diz ter experimentado a exaustão no trabalho atual, em comparação com 77% de todos os entrevistados. Quase metade dos millennials diz que deixou um emprego porque se sentiu esgotada. Consultora de recursos humanos, Sofia Esteves, da Cia de Talentos, acredita que a falta de experiência pode ter impacto nocivo sobre o trabalhador jovem. “O burnout ocorre por um efeito cumulativo, mas também tem relação com a quantidade de pressão que o trabalhador aguenta”, diz. “As gerações mais novas não têm o acúmulo, mas, em geral, toleram menos pressão.”

O quadro parece piorar quando o funcionário gosta do que faz. Foi o que aconteceu com Damião Silva, de 35 anos. Depois de entrar em uma fundação filantrópica, aos 18 anos, como monitor educacional, ele mostrou boa capacidade de gestão de pessoas e teve sucessivas promoções. Com dez anos de casa, controlava uma equipe de cerca de 400 pessoas. “Eu chegava a trabalhar 12 horas por dia, além de dedicar outras 4 horas diárias a cursos de especialização”, diz. Demissões na organização intensificaram ainda mais o ritmo.

Quando percebeu sinais como dificuldade para dormir e dores de cabeça, Silva já tinha engordado 20 quilos. Uma troca na gestão piorou a situação: a nova chefe cobrava trabalho até nas férias. A persistência dos sintomas levou o profissional buscar ajuda médica. Em 2018, ele foi diagnosticado com burnout, afastou-se do trabalho e, hoje, faz psicoterapia e toma medicamentos, sendo acompanhado por psiquiatra e neurologista.

Se não tem ajudado a evitar o esgotamento por trabalho, a tecnologia pode ser uma aliada no diagnóstico e no tratamento. Em 2016, o Hospital Albert Einstein estruturou um programa para cuidar da saúde de seus funcionários e dependentes por meio de uma clínica interna que pode atender cerca de 30.000 pessoas. Em 2018, o programa foi reestruturado para lidar também com questões emocionais. “Um profissional feliz e saudável atende melhor seus pacientes”, diz Sidney Klajner, presidente do Einstein. Os funcionários passaram a ter, por exemplo, assistência jurídica e atendimento psicológico 24 horas por dia, pelo telefone, e acompanhamento após retornar por afastamento de burnout e estresse. Quando voltam, eles respondem a um questionário de 50 perguntas. A intenção é que com essas respostas haja uma base de dados para, por meio de inteligência artificial, evitar sintomas negativos de saúde mental.

Especialistas americanos, porém, afirmam que o uso efetivo da inteligência artificial na saúde deve acontecer somente depois dos próximos cinco anos. O que se espera é que os dados sejam usados para diagnosticar sutilezas emocionais que passam despercebidas mesmo para os médicos. Para os funcionários, executivos e empreendedores brasileiros, outra boa notícia pode vir de uma retomada mais consistente da economia. A insegurança econômica, como alerta Pfeffer, da Stanford, é um grande gatilho de estresse. As respostas, como se vê, devem vir de cada um, das empresas, da ciência, da tecnologia, dos governos. O alerta não é de hoje: foi dado por Chaplin há mais de 80 anos.

                QUEM SOFRE BURNOUT NO BRASIL

Pesquisas apontam para o alto índice de estresse na população economicamente ativa brasileira e traça as marcas do Burnout

MAIS ESTRESSADOS DO MUNDO

Brasil ocupa o segundo lugar entre os países com maior incidência de Burnout na população economicamente ativa.

GESTÃO DA SAÚDE

No planejamento das empresas brasileiras, a promoção da saúde física e da emocional ocorre ao mesmo tempo, mas a saúde mental é o tema mais importante para implementação em 2020: 30% das organizações querem promover iniciativas

PARA MANTER O CONTROLE

Um conjunto de ações tomadas pelo RH das empresas pode evitar a intensificação de casos de Burnout nas organizações

ESTABELECER CANAIS INTERNOS DE COMUNICAÇÃO

É importante que a empresa estabeleça formas seguras para o funcionário abordar

o tema, nos moldes dos canais de denúncia, operados por terceiros ou internamente, que garantam anonimato e segurança sobre os dados informados.

CONSCIENTIZAR OS LÍDERES

Pessoas que ocupam cargos de liderança são peças-chave para conter crises de burnout. Além de sofrer pressão de seus superiores – e estar, elas mesmas, suscetíveis ao problema -, devem estar atentas ao comportamento dos integrantes de sua equipe, equilibrando as demandas e negociando metas.

BUSCAR APOIO DE ESPECIALISTAS

Em situações específicas, empresas podem contratar serviços alternativos para dar apoio à saúde mental dos funcionários. Nesse sentido, são indicadas atividades que promovam o autoconhecimento, como palestras e rodas de conversa.

AMPLIAR BENEFÍCIOS RELACIONADOS À SAÚDE

Além de promover o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, as organizações podem dar aos funcionários acesso a programas que auxiliem no desenvolvimento de práticas mais saudáveis, a exemplo de parcerias com startups que oferecem acesso fácil a atividades físicas ou sessões de psicoterapia.

Fonte: consultorias

O CUSTO DO BURNOUT

Custos médicos, baixa produtividade, absenteísmo, turnover, passivos trabalhistas e orçamentos para treinamentos de novos profissionais geram custos altos para as empresas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

 CÉREBRO E ANSIEDADE – VIII

SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA

Quando o distúrbio começa a trazer muitos prejuízos à mente, o uso de remédios com acompanhamento profissional pode ser a melhor saída

Após o diagnóstico de um especialista, a próxima etapa é a prescrição dos tratamentos pra combater as crises ansiosas, seja por meio das terapias ou de medicamentos. Mas isso dependerá de cada caso. Ou seja, se o quadro já estiver em um grau avançado, o psiquiatra recomendará a utilização de determinados remédios para que as crises de ansiedade sejam controladas, proporcionando uma melhor qualidade de vida ao paciente.

QUANDO RECORRER?

Para que o médico indique o tratamento medicamentoso, o quadro deve estar em um nível intenso, influenciando e prejudicando atividades do dia a dia da pessoa.

O psiquiatra Sander Fridman explica que quando os sintomas são graves é necessário recorrer aos remédios junto às sessões psicoterápicas: “no sentido até de permitir que a psicoterapia possa acontecer e até reestabelecer mais prontamente a capacidade da pessoa em lidar consigo mesma, com sua vida, seus compromissos e atividades psicossociais objetivas”, completa o especialista.

AGINDO NO CÉREBRO

Como uma das principais disfunções cerebrais durante uma crise ansiosa é a queda dos níveis de serotonina (neurotransmissor responsável por regular o sono e o humor), os medicamentos buscam atuar nesse sentido. As substâncias são chamadas de inibidores receptação serotoninérgica (como fluoxetina, paroxetina, sertralina e citalopran), utilizados também contra a depressão.

Além disso, os antidepressivos podem agir como um escudo pois, segundo o psiquiatra Adiel Rios, a cada crise, o corpo é levado ao extremo com uma série de sintomas. Principalmente a liberação do cortisol, que pode afetar áreas cerebrais e prejudicar no futuro a memória e até predispor a doenças neurodegenerativas”, indica o especialista.

No entanto, Rios explica que, se o quadro estiver avançado, será preciso recorrer para antidepressivos mais modernos, os duais (velataxina e a duoxetina).

Outra opção em casos alarmantes é a utilização dos benzodiazepínicos para combater os sintomas com resultados mais imediatos, “como clonazepan, Rivotril e aprazolan, mas com devido cuidado para não levar a uma dependência”, conclui Adiel.

PRÓS E CONTRAS

Optar pelo tratamento medicamentoso nem sempre é uma escolha fácil, visto que o processo se dá por meio de substâncias bastante fortes que agem diretamente em funções cognitivas. Por isso, é importante colocar na balança as reais necessidades do paciente conforme a intensidade dos sintomas, pois pode haver efeitos colaterais.

“É comum sentir náusea ou cefaleia (dor de cabeça), que ocorrem apenas na primeira semana de tratamento. Durante a intervenção, pode haver aumento de peso e queda da libido”, explica o psiquiatra Edson Hirata. Mas o especialista garante que são efeitos controláveis.

Por outro lado, a principal vantagem de utilizar remédios contra a ansiedade é que eles são capazes de aliviar um momento de sofrimento durante uma crise, como é o caso dos benzodiazepínicos.

Já em relação aos inibidores seletivos da receptação de serotonina, segundo o psiquiatra Adiel Rios, os benefícios se mostram a longo prazo. “Você vai estar fazendo um tratamento efetivo para a ansiedade – o cérebro terá uma nova capacidade de melhor neuromodular e gerir os neurotransmissores, ou seja, regular a serotonina e diminuir os níveis dos sintomas.

ALTERNATIVA

Para quem precisa do tratamento contra a ansiedade, mas tem receio do uso de remédios, existem outras saídas. Além das terapias, Adiel sugere que o mais importante é promover uma mudança em hábitos do dia a dia, como se livrar do sedentarismo, uma das causas comprovadas desse distúrbio. O psiquiatra ainda alerta que “uso de drogas lícitas, como álcool e o cigarro, podem proporcionar um alívio momentâneo, mas depois, você tem um rebote e essa ansiedade acaba piorando”.

EU ACHO …

LEGALIZAÇÃO PARALISADA

A regularização do uso e cultivo de cannabis no Brasil ficou estagnada ao longo de 2020, e não podemos culpar a Covid por isso

Poderíamos até usar a pandemia da covid-19 registrada este ano para justificar a estagnação da legalização da cannabis no país, tanto no âmbito social (recreativo) quanto no medicinal. Afinal, esta doença fez com que a sociedade em geral parasse suas atividades a fim de conter a contaminação em massa da população.

Mas, quando olhamos a postura de outros países, como México, Argentina e o próprio Estados Unidos, que modernizaram suas legislações no decorrer de 2020 quanto ao uso e cultivo da erva, vemos que esta pauta não avançou em terras brasileiras não só por causa do coronavírus, mas também pela imposição de políticas proibicionistas em todas as esferas federais.

A Argentina regularizou o cultivo doméstico no último mês de novembro para fins medicinais. No decreto, quem desejar cultivar deverá ter uma prescrição médica, e uma autorização do governo. A decisão não estipula um número de plantas por pacientes, e ainda permite ainda o comércio de óleos, cremes e medicamentos em farmácias cadastradas.

No México, a lei que legaliza o uso medicinal e social da maconha já foi aprovada pelo Senado, mas ainda precisa ainda entrar em votação na Câmara deste país para entrar em vigor. No entanto, a aprovação é dada como certa. Com isso, o México se tornará o terceiro país a legalizar totalmente a erva, junto com Canadá e Uruguai.

Nos EUA, foi colocada em votação em vários estados, no último processo eleitoral, a questão da legalização da cannabis, e mais quatro unidades federativas aprovaram esta proposta (Nova Jersey, Montana, Dakota do Sul e Arizona). Além disso, a Câmara Federal de lá também aprovou a descriminalização em âmbito federal, faltando apenas a aprovação pelo Senado para entrar em vigor. Isso representará um alívio para o mercado canábico estadunidense, que não pode até o momento usar o sistema financeiro deste país, que é regido por leis federais.

Toda esta conjuntura mundial pela legalização, no entanto, não motivou o STF a retomar a votação recurso extraordinário (RE 635.659), que trata da descriminalização da cannabis, entre outras substâncias. Aqui, a maconha é permitida somente para uso medicinal, e isso com uma série de restrições. Os obstáculos começam em encontrar médicos que receitem a erva, passam pelos altos preços dos medicamentos canábicos, e terminam nos Habeas Corpus que permitem o plantio àqueles pacientes que não tem condições financeiras para arcarem com as importações destes remédios.

Até a própria ONU já retirou a cannabis da lista de drogas perigosas da sociedade. Mesmo assim, infelizmente, não existe perspectiva alguma do Brasil surfar esta onda tão breve. Em tempos de “gripezinha”, maconha é considerada veneno, e, ozônio, remédio. Por isso, é necessário, cada vez mais, mantermos o nosso posicionamento pela legalização, a fim de não permitirmos que as leis que atendem aos usuários não regridam em nossa legislação.


*** LUCIANO CUNHA NOIA – É advogado no Estado do Rio de Janeiro e ativista pela descriminalização da cannabis

OUTROS OLHARES

PÁGINA VIRADA

A crise das megastores abre espaço para as pequenas livrarias, que também enfrentam dificuldades, mas cativam um público que demanda atenção

“As livrarias são fortes solitários, espalhando luz sobre a calçada. Elas civilizam seus bairros.” A frase, atribuída ao escritor americano John Updike, ganhou especial significado nos tempos de quarentena, que afastou as pessoas e tornou as livrarias ainda mais solitárias. Esvaziadas, algumas das mais famosas lojas do mundo estão com sua existência ameaçada. Um dos casos mais dramáticos é o da Shakespeare and Company, de Paris, que nos anos 1920 era frequentada por escritores como Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, e que publicou Ulysses, de James Joyce. Fechada pelos nazistas na II Guerra Mundial, ela corre o risco de encerrar suas atividades pela segunda vez devido à vertiginosa queda de vendas. Entretanto, sua proprietária, Sylvia Whitman, não pretende desistir. Com ações entre amigos, vendas on-line e os melhores títulos para quem gosta de ler, a Shakespeare and Company tem atributos para sobreviver, assim como outras do mesmo estilo mundo afora, inclusive no Brasil.

A crise das grandes livrarias não vem de hoje. Instaladas em grandes shoppings ou em estruturas faraônicas de rua, elas enfrentam há anos elevação de custos operacionais em uma ponta e demanda em declínio na outra. Mas o maior adversário é a Amazon. O mamute do comércio eletrônico, que levou muitas lojas do varejo tradicional à falência nos Estados Unidos, tem uma política agressiva de preços, que oferece descontos entre 30% e 50%, com os quais as lojas físicas, carregando pesados custos, não conseguem competir.

Nos Estados Unidos, das redes que no passado dominavam o mercado editorial, hoje só resta a Sarnes & Noble, que perdeu toda a opulência de antes. No Brasil, a Saraiva e a Livraria Cultura, que já foram as duas maiores redes do país, estão envolvidas em complicados processos de recuperação judicial e risco constante de falência, além de enfrentarem a falta de produtos. “É impossível para uma livraria física, que tem altos custos, competir com canais on-line apenas no preço”, diz Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros.

Como o capitalismo tende a ocupar espaços vazios e nem todos gostam de pescar livros na internet, o mercado está vendo o surgimento de uma nova leva de livrarias que busca seu lugar ao sol fugindo da guerra predatória e focando seu público. Elas estão criando novos modelos de negócios e vão razoavelmente bem mesmo em meio aos problemas impostos pela quarentena. Apesar da queda de receita de 45% no início da crise, o mercado foi se recuperando, e o resultado em outubro ficou 25% acima do registrado no mesmo mês do ano passado.

Em Pinheiros, bairro de classe média alta de São Paulo, a livreira Monica Carvalho montou uma loja acolhedora, de apenas 120 metros quadrados, que se tornou ponto de encontro de leitores. A Livraria da Tarde é administrada por ela e por dois funcionários. O local tem café, promove cursos e saraus, transmitidos virtualmente durante a pandemia. O modelo é parecido com o da Mandarina, também localizada em Pinheiros, que recentemente realizou um evento sobre literatura russa. “Meu cliente não procura preço, procura boas sugestões de leitura. Conversa sobre livros enquanto toma um café com a gente.

Ele aceita pagar o preço cheio do livro porque recebe tudo isso junto”, diz Roberta Paixão, uma das sócias. Asduas livrarias foram abertas no ano passado e, segundo as fundadoras, estão fechando no azul.

Ainda que os ventos estejam soprando a favor dos pequenos varejistas de loja única, que buscam atender um cliente diferenciado, algumas redes também estão conseguindo se expandir, mantendo a estratégia de ter lojas de pequeno ou, no máximo, médio porte. É o caso da carioca Livraria da Travessa, a paulistana Livraria da Vila e a mineira Leitura, que estão, inclusive, abrindo unidades em meio à pandemia. A Leitura, fundada em Belo Horizonte em 1967, é a maior dessas redes, devendo encerrar o ano com oitenta estabelecimentos. Em 2021, ela deve investir cerca de 20 milhões de reais na expansão. O modelo de negócios é baseado na meritocracia. Marcus Teles, presidente da empresa, explica que, para incentivar a concorrência interna, geralmente um gerente é convidado a ser sócio quando um novo ponto é aberto. Segundo Teles, o crescimento é sustentável, a rede não tem dívidas e os empreendimentos começam com capital próprio.

O crescente sucesso das livrarias de bairro pode deter o avanço do comércio eletrônico? Certamente não, e esse nem é o objetivo, dada a luta inglória. A venda on-line é incontornável, pois é prática, rápida e, na maioria das vezes, mais econômica. Mas as livrarias acolhedoras, como a Shakespeare and Company, sempre poderão oferecer atenção, lazer, curadoria e troca de ideias a seus clientes de uma forma que as megastores e as lojas virtuais são incapazes de fazer. Ainda assim, parafraseando Updike, o fundamental e bonito é que as livrarias continuem espalhando luz – e conhecimento -, onde quer que estejam.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE DEZEMBRO

O CONSOLADOR VINDO DO CÉU

Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei (João 16.7).

As pessoas andam aflitas e carentes de consolo. Buscam alívio para suas dores em muitas fontes. O verdadeiro consolo está em Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus veio ao mundo, nasceu numa manjedoura, cresceu numa carpintaria e morreu numa cruz. Mas a morte não pôde detê-lo. Ele ressuscitou em glória, voltou ao céu, assentou-se no trono e enviou-nos o Espírito Santo, o Consolador, a terceira pessoa da Trindade. O Espírito Santo é Deus, e ele veio para habitar em nós. Ele é o selo de Deus em nós. É o penhor e a garantia de que somos de Deus e de que um dia teremos um corpo de glória. Ele veio não apenas para estar conosco, mas para estar em nós. É ele quem nos guia pelas veredas da verdade. É ele quem nos consola em nossas angústias. É ele quem nos assiste em nossas fraquezas e intercede por nós com gemidos inexprimíveis. O Espírito Santo é Deus em nós, intercedendo por nós, ao Deus que está sobre nós. Ele pode encher nossa alma de doçura, nosso coração de alegria e nossa vida de paz!

GESTÃO E CARREIRA

O QUE PODE SAIR ERRADO?

No Brasil, 90% dos executivos não estavam preparados para lidar com a crise do coronavírus – e isso mostra a importância do gerente de riscos, profissional estratégico para as companhias

Antes de 2020, cogitar uma pandemia tão drástica quanto a da covid-19 só seria admissível em filmes apocalípticos. Prova disso é o resultado da pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que mostrou que 90% dos executivos de 205 companhias nacionais não estavam preparados para lidar com crises desse porte – e nem as próprias empresas estavam prontas. O levantamento revelou que apenas 28% das organizações tinham um plano estruturado de gerenciamento de crise. “Essa é uma situação realmente inesperada, mas o que se vê é que, como poucos empresários tinham preparação para lidar com tamanho revés, a grande maioria descobriu somente agora a importância da área de risco”, diz Ana Carolina Jacob Manzoli, professora na FGV-Eaesp. O profissional responsável pela mensuração de riscos e identificação de possíveis cenários danosos para a organização ou para o mercado em que ela atua é o gerente de riscos, uma função que não é nova, mas foi ressignificada. “Nos últimos anos temos visto como a vulnerabilidade das empresas aumentou. São casos de vazamento de dados, marcas sujeitas aos tribunais das redes sociais, pressões socioambientais – todos fatores que afetam financeiramente as companhias e que cabem ao gerente de risco avaliar”, diz Rafael Souto, fundador e CEO da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira.

A área de riscos é comumente trilhada por profissionais de administração, engenharia financeira e ciências contábeis, como é o caso de Anderson Abreu dos Santos, de 44 anos, gerente geral de segurança empresarial e risco da VLI, empresa de logística de ferrovias, portos e terminais. “As oportunidades estão aí, o mercado está aberto para contratações, e a sociedade começou a exigir das empresas esse controle de riscos”, diz Anderson, que atua há 20 anos na área. Rafael Souto dá a dica: “A estratégia é estudar os temas e as normativas legais. É uma profissão que exige muito conhecimento técnico”. Na equipe de Anderson, por exemplo, se destacam aqueles que possuem habilidades como planejamento, visão do todo e boa comunicação. “O contato com a alta direção é constante, assim como com todas as áreas da empresa. Saber se posicionar é fundamental”, explica.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

horas trabalhadas: 8 A 10 horas diárias

DIVISÃO DO TEMPO

25% – RELATÓRIOS INTERNOS – Avaliando e deliberando sobre análises da equipe de risco               

25% – REPORTES – Interlocução com a alta diretoria e com comitês de auditoria interna

30% – CONTATO COM OPERACIONAL – Interlocução com gerentes de outras áreas

20% – GERENCIAMENTO DA EQUIPE – Apoio para o time

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Grande capacidade analítica e de liderança. Exige conhecimento de regras éticas e jurídicas. Entre as habilidades comportamentais estão capacidade de planejamento, visão holística e boa comunicação. Já as competências técnicas são as certificações ISO 31000 e ISO 31010.

QUEM CONTRATA

Setor financeiro e empresas de grande porte que operam em mercado regulado (como de energia, telefonia, farmacêutico e químico).

ATIVIDADES-CHAVE

Determinar riscos e identificar possíveis cenários para o mercado e para a organização; criar planos de contingência para cada risco avaliado; analisar e alimentar planilhas com estimativas de eventos que poderiam causar prejuízos à empresa.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Graduações como Economia, Ciências Contábeis, Administração e Engenharia Financeira oferecem base de conhecimento, mas especializações como as certificações ISO, cursos de auditoria, matemática estatística e legislação são diferenciais.

PONTOS POSITIVOS

Tem forte influência nas estratégias da companhia e convive com todas as áreas, desde as operacionais até as administrativas.

PONTOS NEGATIVOS

Está à frente de um departamento que trabalha com estatísticas e análises, com foco em previsões que podem mudar a todo o momento. A resiliência e o equilíbrio podem ser grandes desafios.

SALÁRIO: de 5.425 A 17.532 reais.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – VII

DESACELERE SUA MENTE!

Existem quadros de distúrbios ansiosos que podem ser revertidos por meio de terapias. Confira 10 saídas para evitar e conter a sensação de alerta constante

Atualmente, ter uma rotina caótica ´praticamente algo comum entre o grande público – lidar com adversidades no trabalho, cuidar dos filhos, da casa e, às vezes, tudo isso de uma só vez. Consequentemente, se forma um quadro bastante favorável para o desenvolvimento de algumas patologias, mais especificamente falando dos transtornos relacionados à ansiedade.

No entanto, junto com esses distúrbios, também se estimula a descoberta de novos meios mais eficazes e menos dependentes de substâncias químicas para combatê-los, como é o caso das terapias.

POR QUE SEGUIR ESSE CAMINHO?

Por mais tentador que seja recorrer logo às promessas de alívio rápido que os remédios proporcionam, é preciso analisar a situação de cada quadro com calma. O psiquiatra Sander Fridman explica que, em casos mais simples, provenientes de momentos críticos e isolados da vida de uma pessoa, as psicoterapias podem ser a melhor escolha. “A medicação poderá tirar do paciente a oportunidade de aprender com seus sintomas a sinalizar seus desencadeantes emocionais internos e psicossociais externos, tornando o aprendizado ou cura psicoterápica um pouco mais difícil”, finaliza Fridman.

FAÇA SUA ESCOLHA

Dentre as terapias alternativas, existem diversas maneiras para buscar o controle sobre os sintomas de uma crise de ansiedade, seja por meio de psicoterapias ou exercícios mais voltados para atividades físicas.

HIPNOTERAPIA: antes vista como charlatanismo, a técnica ganhou bastante crédito na ciência quando o assunto são as terapias para tratar distúrbios mentais.

A hipnose clínica, por meio de ressignificação do subconsciente, pode reconstruir o sentido de algo que serve de gatilho para uma reação ansiosa, como o medo de alguma situação, objeto ou animal em casos de fobias.

A nível emocional, uma sessão de hipnoterapia é capaz de proporcionar um relaxamento profundo ao indivíduo que vive na ansiedade todo dia. Vale lembrar que não há nada de místico na técnica; portanto, é necessário mais de uma sessão para que os efeitos positivos apareçam.

IOGA: uma forma de se abstrair do estresse cotidiano é a prática regular da ioga. Os exercícios trabalham desde a postura até técnicas de respiração que ajudam a pessoa a relaxar e diminuir a tensão relacionada à ansiedade.

PILATES: visando aperfeiçoar a respiração e corrigir a postura corporal, a atividade também é uma opção interessante para quem busca controlar o distúrbio.

EXERCÍCIOS FÍSICOS: além de estarem diretamente relacionados à diminuição dos níveis de ansiedade com a produção de endorfina (neurotransmissor ligado ao bem-estar), a falta deles também indica o aumento dos sintomas do transtorno e da depressão – isso sem falar de outras tantas patologias ligadas ao sedentarismo. Vamos lá, se mexer um pouco não faz mal a ninguém!

ACUPUNTURA: a técnica se utiliza da aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo visando liberar a tensão da região afetada. Dependendo da intensidade dos sintomas, o método pode proporcionar alívio imediato ou gradual, conforme ocorrerem mais sessões. O especialista nessa área vai colocar as agulhas em vias nervosas, fazendo com que o cérebro libere substâncias relacionadas ao prazer, relaxamento e à redução de dores locais, como a dopamina, endorfina e serotonina.

TERAPIAS PARA A MENTE

A organização sem fins lucrativos Associação de Ansiedade e Depressão da América (ADAA, sigla em inglês), dos Estados Unidos ainda indica outras opções efetivas de terapias:

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC): essa terapia é uma forma bastante efetiva de aprender a lidar com uma crise ansiosa. Esse procedimento ocorre pela identificação e compreensão dos sintomas do paciente para ajudá-lo a, progressivamente, mudar os pensamentos relacionados à ansiedade e, por fim, controlar os comportamentos derivados de uma crise.

Na TCC, a pessoa aprende a encarar o distúrbio, sendo parte fundamental, não dependendo apenas do profissional. E, segundo a ADAA, os benefícios podem ser notados, geralmente, entre 12 a 16 semanas de tratamento.

TERAPIA DE EXPOSIÇÃO: neste tipo de intervenção, o foco é em fazer o paciente encarar as situações que ativem uma crise de ansiedade, como determinados medos no caso das fobias.

Vale lembrar que o processo não ocorre de uma hora para a outra. Ou seja, se a pessoa tem medo de altura, por exemplo, não significa que ela vai ser colocada na beira de um penhasco para superar o distúrbio. Além das fobias, o método também é recomendado para quem apresenta o quadro de Transtorno-Obsessivo Compulsivo, os TOCs.

TERAPIA DE ACEITAÇÃO E COMPROMISSP (TAC): como o próprio nome diz, o processo se dá por meio de exercícios para aceitar e se comprometer a mudar pensamentos e controlar sentimentos que ativam o gatilho da crise de ansiedade. Uma técnica utilizada nesse tipo de terapia é a mindfulness, que consiste em levar a pessoa a um estado mental de experimentar situações sem julgamentos, aprendendo também a viver o momento presente.

TERAPIA COMPORTAMENTAL DIALÉTICA (TCD): com técnicas da TCC, essa terapia busca focar os pontos positivos da pessoa, na questão emocional e comportamental, para fazer com que aprenda a identificar, admitir e enfrentar de maneira mais racional as questões que, eventualmente, levam a uma crise de ansiedade.

TERAPIA INTERPESSOAL (TIP): antes usada apenas em casos de depressão, a TIP hoje também pode estar presente em tratamentos de outros distúrbios, como de ansiedade e bipolar, por exemplo. O terapeuta bisca focar na interação em sociedade atual do paciente do que em suas características pessoais.

APOIO É FUNDAMENTAL

Apesar de todas essas terapias disponíveis para ajudar a aliviar os sintomas, são necessárias também a participação e colaboração de amigos e familiares da pessoa. A psicóloga Fernanda Medeiros ressalta que não se deve tratar o quadro como “frescura”. “Uma boa maneira de auxiliar e desconstruir o preconceito que ainda existe em relação aos transtornos mentais, ou de ordem psicológica”, conclui a especialista.

NO CASO DOS PEQUENOS

Quando o transtorno de ansiedade surge logo na infância, terapias alternativas podem ser mais interessantes o tratamento medicamentoso. Isso porque a criança ainda está em fase de desenvolvimento, seja psíquico, social ou biológico, e os remédios podem interferir nesse processo. “A terapia com um profissional psicólogo aparece, portanto, como uma maneira mais incisiva nos casos de ansiedade infantil. É por meio disso que a criança pode vir a experimentar novas maneiras de pensar e agir em situações que lhe causam ansiedade”, indica Fernanda Medeiros.

Além dessas opções, a criação dos pequenos em um ambiente seguro, segundo a psicóloga, é a melhor saída até para prevenir que um distúrbio venha a se desenvolver.

EU ACHO …

O FREIO DE ACELERAÇÃO

O comércio parou, e independente da velocidade, sua retomada será acelerada. Podemos decodificar esse complexo cenário pandêmico como o freio de aceleração. Freamos e logo vai acelerar

Antes disso, vamos relembrar. Tudo “normal”, vida seguindo, tudo certo, de vento em popa, mercados crescendo e se desenvolvendo satisfatoriamente, mas algo era escasso…. o tempo. Lembram-se disso? Faltava-nos aquele período do ajuste fino, a análise do mérito. Tudo acontecendo em grande velocidade, encaixado no fluxo da produtividade perfeita, como as águas em direção ao mar.

E mesmo assim, nos escapava o tempo da observação, aquele momento do aprimoramento. O planejamento foi sendo esmagado, estava sem vez, tudo acontecendo ao vivo, em tempo real, o improviso virando regra, as empresas operando no repente.

E agora? Que novo normal é esse? O tempo está diferente? A resposta é sim. Encontramo-nos de frente a uma excelente oportunidade para construir uma nova divisão de tarefas domésticas além das empresariais. Cuidado com os filhos, com os idosos e com seus funcionários também, em busca de uma sociedade mais igualitária, justa e corporações mais equilibradas.

Podemos olhar a situação atual como um convite para perceber essa crise não apenas como uma situação difícil, mas também como oportunidade. Fica a reflexão: já que fomos obrigados a reinventar, o que realmente importa? O que precisa ser feito?

O fato é que o vírus bloqueou grande parte do mundo em casa e transformou comportamentos. O coronavírus colocou a humanidade em cheque e nos fez refletir sobre nossas prioridades. Fomos obrigados a mudar, ainda que temporariamente, a anomalíssima normalidade da civilização humana. Devemos evoluir, reprogramar o futuro de nossas empresas. Que rumo queremos para elas?

Esse é o momento da reprogramação. É a hora do retrofit, onde devemos aprimorar a qualidade e evoluir com o que já existe. No campo da física, existe uma significante diferença entre velocidade e aceleração. O comércio parou, e independente da velocidade, sua retomada será acelerada. Podemos decodificar esse complexo cenário pandêmico como o freio de aceleração. Freamos e logo vai acelerar.

Apesar da situação global ainda estar delicada, percebemos a volta da confiança do empresariado além de muitos indicadores que já apontam para a recuperação da Economia.

O Sistema Fecomercio do Rio, por exemplo, não parou. Com austeridade, miramos no desenvolvimento e fortalecimento da instituição. Nos reinventamos, estamos reprogramados e oferecendo por meio do Sesc e Senac, diversos novos serviços à sociedade e aos funcionários do comércio. Investimos em qualificação profissional, em infraestrutura e inauguramos os restaurantes do Norte Shopping e BarraShopping para atender os funcionários das lojas com alimentação saudável e preço justo.

Entre outras iniciativas na Cultura, Saúde, Educação e Lazer, apostamos em melhorias e adequações em nossos quatro hotéis do Sesc, para a nova realidade do setor turístico. Estamos com protocolos de segurança sanitária e de comunicação em nível elevado, que são vitais para trilharmos um Estamos melhores do que éramos antes. Do mar a serra, oferecemos hospedagem e turismo social em Copacabana, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. E continuemos alertas, em tempos líquidos, assim como a água, tudo muda rapidamente. caminho seguro para o retorno às atividades.

Estamos melhores do que éramos antes. Do mar a serra, oferecemos hospedagem e turismo social em Copacabana, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. E continuemos alertas, em tempos líquidos, assim como a água, tudo muda rapidamente.

*** FÁBIO SOARES – É diretor de Desenvolvimento Institucional do Sesc/RJ

OUTROS OLHARES

O DILEMA DAS REDES

As mídias sociais não têm influência hegemônica sobre a Geração Z como se pensava. Nova pesquisa revela que muitos jovens estão se distanciando delas

“Meu conselho é: se puder sair das redes sociais, saia”, cravou Tristan Harris ex-funcionário do Google, em entrevista em setembro. Ele está no documentário da Netflix O Dilema das Redes, que detalha os riscos à privacidade das pessoas, que, em sua visão, acabam virando produtos do Facebook, Instagram, Twitter e outros. Se for tomado por base o estudo realizado pela agência de pesquisa Dentsu Aegis Network, muita gente já estava dando ouvidos ao conselho de Harris antes mesmo de ver o documentário. Foram entrevistadas 32.000 pessoas em 22 países, em março e abril, e o resultado foi surpreendente: entre os jovens de 18 a 24 anos, a Geração Z, um em cada cinco afirmou ter desativado suas contas nas redes sociais.

O número também impressiona por outro motivo: a debandada é duas vezes maior nessa faixa etária do que entre usuários acima de 45, mostrando que os mais velhos parecem se sentir menos afetados pelo admirável mundo novo. Entretanto, a maior preocupação apontada pelos que pularam fora das redes, em qualquer idade, é o dano que elas estariam causando à saúde mental. Mas qual seria, na prática, esse prejuízo psicológico? Harris diz que o ambiente virtual vicia. Trata-se de um processo químico no cérebro. Sempre que vivenciamos algo prazeroso, o neurotransmissor chamado dopamina é ativado, fazendo com que procuremos mais do mesmo, e receber curtidas no Facebook e Instagram dispara o processo. Na mesma medida, a sensação contrária é frustrante.

O escritor carioca Enrique Coimbra, de 28 anos, faz parte do grupo de desertores das redes sociais. Ele largou todas elas, até mesmo seu canal no YouTube, no qual dava dicas de controle emocional e tratamentos para ansiedade e depressão a mais de 200.000 inscritos. “Minha vida sem rede social melhorou 2.000%. As pessoas não fazem ideia da manipulação emocional que elas nos impõem”, conta o escritor. Antes leitor assíduo de livros pelo celular, mudou para o leitor de e-book a fim de evitar distrações.

A Dentsu detalha a posição dos entrevistados brasileiros em sua pesquisa: 39% afirmaram que pretendem se distanciar do mundo virtual. A empresa ressaltou, porém, que resultados mais concretos devem ser observados quando a pandemia acabar. Com a Covid-19, as pessoas usaram mais o computador para trabalhar e se divertir, possivelmente ficando sobrecarregadas de tanto contato com as redes. Uma vez que as restrições forem sendo afrouxadas, elas talvez passem a se preocupar menos com a exposição a elas.

O cenário de polarização política e propagação de notícias falsas também tem tratado de afastar usuários. Muitos ficam desiludidos quando ofendidos e acabam se dando conta de que estão em um ambiente hostil. Há queixas dirigidas também a um dos maiores sucessos dos últimos anos, o TikTok, aplicativo que tomou o mundo. A psicóloga Marina Haddad Martins ressalta que as redes dão uma ilusão de falso preenchimento. “A Geração Z, que já nasceu na era da internet, talvez dê menos importância às redes do que os mais velhos, que pegaram a virada da tecnologia”, diz ela. Isso explicaria a disposição em largá-las. Eles estariam valorizando o palpável, a segurança emocional e as relações pessoais. Quem diria, o mundo real, este no qual sempre vivemos, parece estar na moda outra vez. Que bom.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE DEZEMBRO

APRENDA A VIVER CONTENTE

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação (Filipenses 4.1).

O contentamento tem a ver com quem somos e não com o que possuímos. É mais uma atitude que uma posse. Muitas pessoas têm tudo, mas não são felizes: têm saúde, família, amigos, dinheiro, mas vivem um arremedo de vida. O contentamento é um aprendizado. O apóstolo Paulo escreveu: Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Não é a circunstância que faz você, é você quem faz a circunstância. A felicidade não está nas coisas, mas em Deus. A felicidade não é um lugar aonde se chega, mas a maneira como se caminha. Você pode estar contente até mesmo na escassez. O apóstolo Paulo diz que a piedade com contentamento é grande fonte de lucro. Você pode estar contente apesar das aflições. Esse contentamento não vem apenas de dentro, mas especialmente de cima, do alto, do céu. Deus é a fonte da verdadeira felicidade. Na presença de Deus, é que existe plenitude de alegria e só à sua direita há delícias perpetuamente. Agora mesmo você pode experimentar essa verdadeira felicidade, essa alegria indizível e cheia de glória.

GESTÃO E CARREIRA

OPERAÇÃO DE GUERRA

Como uma empresa de ventiladores pulmonares multiplicou por 30 sua produção na pandemia de covid-19

É um clichê do mundo corporativo dizer que toda crise esconde uma oportunidade – ainda mais quando se trata de uma tragédia de saúde pública e social que vai deixar cicatrizes profundas em um país. Entre os efeitos da pandemia do novo coronavírus vem se destacando a mobilização do empresariado brasileiro a fim de ajudar a combater a doença e de reduzir o impacto econômico do necessário isolamento social para desacelerar o contágio. Os fundadores da fabricante paulista de respiradores mecânicos Magnamed-Wataru Ueda, Tatsuo Suzuki e Toru Kinjo – não imaginavam enfrentar uma emergência que os obrigasse a multiplicar por mais de 30, do dia para a noite, sua capacidade de produção. No maior desafio dos 15 anos da empresa, encontraram, porém, a chance de concretizar seu propósito juvenil de salvar vidas.

O sucesso da empreitada – um conforto para um Brasil que continua registrando aumento de casos da infecção respiratória covid-19- só vem sendo possível graças à parceria com companhias tão diferentes quanto produtoras de papel e celulose e fabricantes de gases industriais e à afinação com diversas instâncias do governo. Essa é uma história que aumenta a esperança no futuro. ”Em uma crise, sempre deparamos com os extremos, o melhor e o pior de cada um. Nesta jornada, encontramos bancos sendo bancos, e bancos não sendo bancos; empresários sendo empresários, e empresários não sendo empresários. Não foi o dinheiro que falou mais alto. Foi a vontade de devolver à sociedade parte do que todos recebemos”, afirma Paulo Tomazela, sócio da gestora de recursos KPTL, que é, junto com os três fundadores e a gestora Vox Capital, uma das donas da Magnamed.

O encontro com a KPTL se deu em 2008, na incubadora de empresas tecnológicas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Cietec, que hospedava a Magnamed. A KPTL começou a investir na startup por meio de um fundo de investimento que tinha 80º/o de seus recursos provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 20º/o do Banco do Nor deste. No início, a Magnamed queria centrar sua atividade no encolhimento de peças de equipamentos médicos, mas acabou encontrando seu filão nos ventiladores, um ramo no qual Ueda e Suzuki, engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), haviam atuado juntos quando eram funcionários de outra empresa. Como boa startup, a companhia de tecnologia médica foi montada na garagem da casa de Ueda, em 2005, e logo depois Kinjo entrou.

Nem se falava ainda em novo coronavírus quando, em dezembro de 2019, a Magnamed notou um aumento do interesse por seus respiradores em uma feira de equipamentos médicos da Alemanha. Um mês depois, em outra feira de Dubai, o cenário estava mais claro. Países asiáticos e europeus corriam para encomendar ventiladores pulmonares, e já se começava a ter uma ideia da gravidade da doença.

Foi só quando o Ministério da Saúde bateu à porta da empresa com sede em Cotia, na Grande São Paulo, com uma encomenda de 15.000 respiradores para os fabricantes nacionais – o equivalente a sete vezes sua produção anual -, em 19 de março, que a Magnamed entendeu o tamanho da pandemia. O choque inicial se deu porque o governo federal exigiu ficar com toda a produção da empresa por um período de seis meses. Depois de uma análise jurídica, a empresa ficou sabendo que não se tratava de um confisco, mas que o Ministério da Saúde estava exercendo um direito de compra de equipamentos garantido pela Constituição Federal. Passado o baque, a Magnamed arregaçou as mangas para verificar quantas máquinas poderia efetivamente entregar.

Primeiro, seria necessário checar com os fornecedores de peças se poderiam entregar um volume maior. Naquele momento, os poucos produtores de componentes nacionais estavam sendo disputados pelas fabricantes de respiradores. No grupo de WhatsApp que mantém com os colegas de sua turma do ITA, onde se formou em 1982, Ueda mencionou então o projeto e as dificuldades que vislumbrava no caminho. O amigo Walter Schalka, presidente da Suzana, maior fabricante de celulose do país, resolveu ajudá-lo acionando a rede de representantes da Suzana no exterior para encontrar mais fornecedores. Sua concorrente Klabin, que também tem fortes laços comerciais com a China, reforçou a busca. A fabricante de computadores paranaense Positivo acionou seus contatos para procurar os componentes usados na placa de controle dos ventiladores. Outro gargalo estava na montagem das máquinas. A linha de produção da Magnamed em Cotia conseguia fabricar apenas 200 respiradores por mês. Por indicação do ministério e de executivos próximos à empresa, a Magnamed acabou chegando à Flex (antiga Flextronics), multinacional americana especializada na produção terceirizada de equipamentos eletrônicos, que tem uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo. Contando com a capacidade da Flex, em 23 de março a Magnamed infarmou ao governo que conseguiria entregar 6.500 respiradores em um período de seis meses.

O passo seguinte foi encontrar recursos para comprar os insumos necessários à produção. Faturando cerca de 40 milhões de reais por ano, a Magnamed operava com um capital de giro apertado. A Suzana lhe emprestou 10 milhões de reais sem custo e com 45 dias para pagar. A Magnamed procurou depois o BNDES, seu investidor desde o início, e não obteve nem 1 real porque o banco não tinha uma regulamentação para esse tipo de financiamento. Mas o BV (o antigo Banco Votorantim) lhe deu um empréstimo-ponte de 20 milhões de reais sem aval- a instituição criou um fundo especial para financiar as fabricantes nacionais de respiradores durante a pandemia. No fim, o Ministério da Saúde adiantou 129 milhões dos 322,5 milhões de reais do contrato. A fabricante de aviões Embraer usinou 8.000 peças de aço em um fim de semana, cobrando apenas o valor da matéria-prima, a General Motors ajudou no redesenho da linha de montagem da Magnamed em Cotia e a fabricante de gases White Martins forneceu oxigênio para o teste dos respiradores na fábrica da Flex (que também está produzindo para outras duas empresas nacionais). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acelerou o processo para certificar a fábrica da Flex, e a Polícia Federal faz a escolta dos produtos finalizados. Nesse processo, a Magnamed identificou novos fornecedores que poderiam ajudar a diminuir seus custos no futuro e descobriu gargalos na produção. Com a Flex, a fabricante de respiradores pode dizer que sua capacidade de produção anual subiu para 64.000 unidades. ”Sabemos que podemos contar com nossos parceiros para projetos grandes. O Brasil tem as condições de virar um polo tecnológico na área médica”, afirma Ueda, presidente da Magnamed.

Apesar de todo o apoio, a jornada teve percalços. Em 28 de março, o vice-prefeito de Cotia invadiu a fábrica da Magnamed e confiscou 35 respiradores. Devolveu-os após uma ordem da Justiça. Agora o projeto atingiu a velocidade de cruzeiro, e a Magnamed planeja o futuro. Não espera que o faturamento deste ano, estimado em 390 milhões de reais por causa da pandemia, vá se repetir, tampouco deverá regredir ao tamanho que tinha no ano passado. A covid-19 chamou a atenção para a necessidade de hospitais públicos e privados aumentarem seu estoque de ventiladores pulmonares. Equipamentos alternativos fabricados por universidades durante a crise não têm serventia para outras doenças, e o mercado também tende a identificar as máquinas de melhor qualidade. A Organização Mundial da Saúde recomenda que os ventiladores sejam substituídos a cada cinco anos de uso, e o governo brasileiro estima que o parque local tenha idade média de 12 anos. A Magnamed aposta que os novos clientes conquistados durante a crise continuarão comprando seus equipamentos ao fazer a troca. Com o dólar em 5 reais, seus principais concorrentes, dos Estados Unidos e da Europa, terão mais dificuldade para vender ao país. O fundo da KPTL, que investe na fabricante de Cotia, acabará em novembro de 2021, e a gestora avalia se venderá sua participação ou continuará no negócio, que se tornou a joia da coroa entre as 48 empresas de seu portfólio. Qualquer que seja a decisão, o ganho do investimento vai muito além do lucro da venda dos respiradores. ”Quando posto à prova, o brasileiro mostra sua competência técnica e capacidade de pensar em soluções”, diz Leandro Santos, presidente da Flex.

DE REPENTE, DISPUTADÍSSIMO

O mercado global de respiradores mecânicos, que podem fazer a diferença entre a vida e a morte na pandemia de covid-19, virou o centro das atenções de governos, profissionais de saúde e pacientes

RAIO X: MAGNAMED

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – VI

DEIXE PARA DEPOIS

Achar que tudo deve ser feito ‘para ontem” colabora para aumentar a ansiedade

“Não se afobe, não, que nada é pra já”. A letra da canção Futuros Amantes, de Chico Buarque pode generalizar demais, mas não deixa de ter um fundo de verdade. Por mais urgente que algo seja, sempre há tempo para fazê-lo com calma. Apesar de o cantor e compositor estar se referindo ao amor, é possível aplicar a sugestão de não se afobar nas mais diversas situações do dia a dia, evitando, assim, despertar o “monstro da ansiedade”.

MIL E UMA TAREFAS

”Hoje em dia, com a globalização digital, praticamente tudo precisa ser feito “aqui e agora”. O presente é feito da mistura entre as atividades rotineiras e a execução dos projetos que foram pensados lá atrás”, afirma o neurologista Martin Portner. O nível acelerado que a vida vem tomando, somado à facilidade de conectividade presente em dispositivos móveis, como celulares e tablets, tem feito com que muitas pessoas ajam na forma de procrastinação, isto é, realizam uma tarefa tão logo a recebem. O motivo? Se livrarem antecipadamente da ansiedade que pode vir a seguir. No entanto, tal lógica pode gerar exatamente o efeito contrário, já que estamos o tempo todo fazendo algo, sem ter um momento para nós mesmos.

RESPIRE, INSPIRE, NÃO PIRE

Na contramão de ser supereficiente, existe a procrastinação. É o ato de adiar tarefas consideradas difíceis ou trabalhosas pela mente que, para evitar o desconforto, passa a dirigir a atenção para atividades mais imediatas e capazes de prover prazer. Cientificamente falando, tarefas procrastinadas são aquelas que acionam uma estrutura cerebral chamada amigdala, cuja missão é evitar a dor e o desagrado. “Neste caso, a amigdala cerebral direciona a atenção do momento para, por exemplo, a leitura de e-mails ou a visualização do Facebook, onde há sempre a chance de surgir uma boa nova”, explica Portner. Assim, procrastinar traz bem-estar momentâneo, porque afasta um incômodo. Alguns pesquisadores, inclusive, defendem a ideia de que o ato é um mecanismo programado pelo cérebro para evitar aborrecimentos.

Quando o assunto é ansiedade, momentos de procrastinação ajudam a afastá-la, já que é dada uma pausa no ritmo frenético de cobranças e ações. Viver de planos cria expectativas que podem fazer com que o ansioso sofra duas vezes: esperado que as ações aconteçam e se decepcionando, caso elas não aconteçam exatamente como planejado – o que, convenhamos, representa uma grande possibilidade. Estar o tempo todo arquitetando o que precisa fazer, estudar, pesquisar, enfim, as ações futuras coloca o indivíduo em transe, o impedindo de viver o presente, prospectando o futuro à base de muita ansiedade.

Por isso, ter intervalos na rotina reservados para o “nada”, ou melhor, para a procrastinação, ajuda a levar a vida com menos pressão. “É preciso desafiar o crítico interno que nos cobra perfeição e exige que tenhamos que dar conta de tudo, como heróis e heroínas, e nos faz impor a nós mesmos obrigações e fardos que drenam a energia e produzem uma culpa exagerada. Aliviar esta responsabilidade e relaxar de tempos em tempos é indispensável para nosso bem-estar físico e, principalmente, mental”, afirma a especialista em inteligência emocional Semadar Marques.

SEM CULPA

Mudar de uma hora para outra o costume de estar sempre sendo ativo não é algo fácil. Ao mesmo tempo em que a sensação de prazer surge ao procrastinar, pode também aparecer o sentimento de culpa por estar exatamente não fazendo algo que você acredita ser indispensável.

De acordo com Semadar, a dica para levar a rotina com pausa e sem culpa é entender e definir os valores que realmente são importantes para você, tornando-os prioridades em suas ações. “Quando a energia é direcionada para atitudes que nos levam a conquistar objetivos alinhados com nossos valores, fica mais fácil relaxar sem culpa, ansiedade ou medo de estar deixando de fazer algo”, destaca o profissional.

COM CAUTELA

Não há dúvidas de que ficar fazendo “nada” ajuda a controlar a ansiedade, porém, é preciso saber dosar o quanto ficar de pernas para o ar ou rolando o feed do Facebook. “Existem momentos de procrastinação que revelam uma autossabotagem, uma fuga dos sentimentos negativos que você terá que encarar ao enfrentar determinada tarefa”, destaca Semadar.

Portanto, é preciso ter em mente que o prazer vindo de procrastinar é momentâneo e, se não praticado com cuidado, pode até ser prejudicial. “Procrastinar dá lugar ao prazer, que depois cede espaço à realidade. Porém, os projetos e as necessidades retornam, agora com uma carga de ansiedade (e medo subliminar) redobrados, o que convoca uma nova procrastinação. O ciclo vicioso está estabelecido”, esclarece o neurologista. A conclusão é que não há nada de errado em procrastinar esporadicamente; faz até bem para o controle da ansiedade. Contudo, é preciso ter cautela, ou o rebote pode ser ainda pior.

EU ACHO …

JOGO DA VIDA

Foi em um dezembro que ela decidiu que não combinávamos. Acordou aturdida a viver um amor, foi o que me disse, enquanto arrumava sua saída

Dezembro não é um mês que me desperta alegrias. Digo isso não como um manifesto contra as festas que se aproximam. Sou dos que rezam a vida e que celebram os acontecimentos que nos fazem mais elevados diante do sagrado mistério do existir. O menino Jesus nascendo em uma manjedoura, em uma simplicidade de uma noite fria, sempre me comoveu,

Faz frio em dezembro naquelas terras do oriente. Faz frio em mim. Foi em um dezembro que ela decidiu que não combinávamos. Acordou aturdida a viver um amor, foi o que me disse, enquanto arrumava sua saída.

Eu disse nada. Os anos em que estivemos juntos beiravam à perfeição. Era o que eu me dizia. Não a conheci menino. Nem no auge. Já havia deixado os campos de futebol e já não mais despertava os interesses de quando eu fazia gols, em domingos quentes, em estádios lotados.

Comecei cedo, passei de clube em clube, ganhei muito dinheiro, acreditei que o sucesso era eterno. Despi-me da minha melhor parte, quando vesti a camisa de campeão. Eu era um ídolo. Eu era imortal, aos 20 e poucos anos. E fui morrendo.

No jogo de despedida, eu nada entendia de despedidas. E os convites foram se rarefazendo. E os aplausos, também. E, então, convidei a bebida para estar comigo. Para ouvir as histórias que eu tinha para contar. Para destruir, todo dia, um pouco da tal imortalidade.

Foi na sujeira que conheci Helena. Sua graça fez dança comigo. E nos amamos como adolescentes que não éramos. E nos juramos uma história sem fim. Sem filhos, nos filiamos ao discurso de nos dedicarmos um ao outro. Esqueci os que de mim se esqueceram. Helena bastava.

Risos sem razão. E quem precisa de razão para rir?! Peraltices de mulher feita. Era menina em mim. Surpresas em dias comuns. Do estádio de futebol ao pódio de um sentimento de amor que ressignifica os dias.

E, então, surgiu o dia em que ela disse pouco e partiu. Soube que se apaixonou. Que ficou por um tempo dividida. Que ainda me amava, quando se amou a outro. Que demorou a se decidir. Que não quis viver duplicidades.

Foi em um dezembro que a porta da casa se fechou. Faz alguns anos. O perfume de Helena ainda impede outro amor de viver comigo. Vez em quando, me enrosco para espantar a solidão. Deito acompanhado, na ilusão de que já estou pronto para amar novamente. Finjo satisfação, elogio quem acabou de chegar. E acordo querendo nada, apenas esperar.

Em dias de derrota no campo, eu esperava o próximo jogo. Ia inteiro para fazer o que eu sabia fazer. E o grito de gol renascia em mim o gosto de viver. Mas não é disso que me lembro agora. Colecionei títulos nos gramados. No jogo da vida, só fui campeão com ela.

Vou segredar uma intenção, aguardarei o quanto for para ter Helena de volta. E nada direi, se ela voltar. Abrirei o imortal sorriso que aguarda em mim sua presença.

Quem sabe ela se canse do outro. Quem sabe ela se lembre do quanto fomos felizes. Quem sabe a porta se abra. Nunca troquei a fechadura nem exigi as chaves de volta. Quem sabe ela entre, rindo sua meninice e jurando nunca mais partir.

A esperança sempre esteve comigo. Só ela. Os outros se foram…

*** GABRIEL CHALITA – É professor e escritor

OUTROS OLHARES

O PUNHO COMO MANIFESTO

Ícone histórico dos anos 1970, o bracelete metálico da joalheria Tiffany renasce com uma mensagem adequada aos novos tempos de autoafirmação feminina

Na aventura da humanidade, desde que começamos a nos relacionar em sociedade, os punhos são um modo de comunicação. Quando fechados, simbolizam protesto, como faziam os Panteras Negras americanos nos mercuriais anos 1960. Quando cruzados na frente do peito, ao estilo do personagem Pantera Negra interpretado por Chadwick Boseman, significam orgulho e respeito ao próximo. No aspecto estético, o antebraço enfeitado também envia sinais, que podem ser entendidos como sentimentos de autoestima ou de ostentação. Nesse cenário, ganha destaque em 2020 uma peça do vestuário que andava meio esquecida: os braceletes, as largas pulseiras costumeiramente metálicas, que retornam à moda trazendo uma mensagem de poder e força femininos.

Bebe-se, com amplo sucesso nas redes sociais; é claro, de uma criação já cinquentenária da designer italiana Elsa Peretti, de 80 anos recém-completados, para a joalheria americana Tiffany – o bracelete Bone (do inglês, osso). Ele voltou com tudo – em coleções coloridas relançadas pela própria Tiffany, mas também em séries de outras grifes, como Chanel e Louis Vuitton. Peretti disse ter se inspirado nas visitas à Casa Milà, a obra-prima sem linhas retas de Antoni Gaudí (1852-1926) em Barcelona, e em sua infância em Roma. Em um folheto de apresentação da Tiffany, ela deu pistas dos primeiros esboços: “Visitava o cemitério de uma igreja capuchinha do século XVII com minha babá. Todos os quartos foram decorados com ossos humanos. De vez em quando eu roubava escondido um dos ossos e punha na minha bolsinha. Minha mãe mandava devolvê-los, mas as coisas proibidas permanecem com você para sempre”. O bracelete Bone foi adquirido em meados dos anos 2000 pelo British Museum – a joia contemporânea de prata polida faz agora parte de uma coleção histórica que reúne restos de animais do neolítico, amuletos de xamãs esculpidos em dentes de chifre e um sarcófago de madeira para gato de estimação. Não pairam dúvidas, portanto, da relevância do trabalho e de seu alcance – e nem seria preciso que ornamentasse, espetacularmente, os punhos de estrelas incontornáveis como Sophia Loren e Liza Minnelli para brilhar luminosamente, como se irradiasse camadas e camadas de autoafirmação feminina.

Nem um segundo é necessário para constatar que a peça (8.350 reais a unidade em prata de lei), além de bonita, é forte – não é coisa de bonequinha de luxo, para lembrar o nome em português do filme em que Audrey Hepburn se delicia diante das vitrines da Tiffany em Nova York. “O bracelete Bone e suas versões são um aceno ao empoderamento feminino desde seu nascimento, porque Elsa Peretti lançou essas peças numa época em que o setor era dominado por profissionais do sexo masculino”, diz Márcio Ito, professor de planejamento e desenvolvimento de produtos de moda na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo.

Para compreender a simbologia dos braceletes é preciso esticar a lupa até o Egito antigo, onde o item foi utilizado como sinal de nobreza, adornado com pedaços de vidro colorido raros. Esse status aristocrata se repetia em sociedades africanas e na civilização maia. Em alguns casos, apenas reis podiam ostentá-lo. Diz o professor de história da joalheria na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo, João Braga: “Por meio dos braceletes, demonstravam-se poder material e prestígio”. Prestígio travestido de autoridade e autoestima é o que Elsa Peretti deu às mulheres no apogeu da revolução sexual, uma ideia que não para de ganhar espaço.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 27 DE DEZEMBRO

AMANHÃ VAI SER MELHOR

Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe (Apocalipse 21.1).

O pessimismo é contagioso. Ele embaça nossos olhos, enfraquece nossos braços e rouba nosso entusiasmo. O povo de Israel pereceu no deserto depois de quarenta anos de peregrinação porque, em vez de confiar em Deus, se entregou à incredulidade e ao pessimismo. Chegou a pensar que era um bando de gafanhotos, e não uma geração eleita. Talvez você esteja olhando para a sua vida com óculos escuros. Talvez seu horizonte se pareça hoje com uma nuvem cinzenta. Talvez você esteja olhando apenas pelas lentes do retrovisor e lamentando o passado que se foi. Suba nos ombros dos gigantes. Tenha a visão do farol alto. O melhor está pela frente. Deus está no trono. Ele está conduzindo sua vida e é poderoso para lhe conduzir em triunfo. Não duvide; creia. Não tenha medo; tenha fé. Não olhe para trás; olhe para frente, pois o melhor ainda está por vir. Agora há lágrimas e dor. Agora seus pés são feridos pelas areias escaldantes do deserto, mas um tempo de refrigério virá da parte de Deus para sua vida. Depois do choro, vem a alegria. Depois da tempestade, vem a bonança. O melhor de Deus ainda está por vir. Estamos a caminho da glória, estamos a caminho do céu!

GESTÃO E CARREIRA

OBCECADOS POR DESENVOLVIMENTO?

Estamos sempre em busca de conhecimento e superação. Mas temos que discutir até que ponto isso é saudável

Ter novas habilidades, ser mais criativo, liderar com inspiração e, ainda, fazer esportes, manter a alimentação balanceada, reciclar o lixo, ser sempre a melhor versão de si mesmo…

Quantas dessas metas fazem parte de seu dia a dia? Talvez todas. E elas têm uma coisa em comum: o incentivo para que estejamos, sempre, em desenvolvimento. Por si só, esse objetivo não tem nada de errado. O problema acontece quando a busca pela evolução se torna uma obsessão – e, durante a quarentena, virou até piada o fato de que muita gente estava assistindo a vídeos sobre investimentos e fazendo aulas de dança ao mesmo tempo, tamanha era a busca por preencher o tempo livre.

Mas isso não é uma questão contemporânea. A percepção de que devemos estar sempre evoluindo tem seu embrião bem enraizado no passado. Na Roma Antiga, livros como A Arte de Amar, do filósofo Ovídio, ou Deo Ofjiciis, de Cícero, poderiam ser enquadrados como manuais para ajudar as pessoas no crescimento individual. O que é um sinal dos nossos tempos é o exagero na busca pelo aperfeiçoamento.

SEMPRE MELHOR?

No livro Desperately Seeking Self­improvement (“Desesperados pelo autodesenvolvimento”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil), os pesquisadores Carl Cederstrõm e André Spicer escrevem sobre essa busca incessante. “Devemos ficar mais em forma, felizes, saudáveis, ricos, espertos, calmos e produtivos – tudo ao mesmo tempo, e tudo hoje”, dizem em trecho da obra.

O problema é que essa busca, em vez de nos tornar melhores e mais felizes, acaba esvaziando nosso dia a dia – ficamos tão preocupados em nos superar em tudo que nem sabemos mais para quê. “Nossa sociedade nos dá a impressão de que precisamos sempre buscar ser melhores e melhores em quase tudo”, diz David Baker, jornalista, consultor britânico e um dos membros fundadores da The School of Life no Brasil. E há muita gente ganhando com isso. Um estudo de 2016 da Market Research, consultoria de tendências de mercado, previa que o setor de automelhoria, que valia então 9,9 bilhões de dólares, iria crescer em média 5,6% ao ano até 2022, chegando a 13,2 bilhões de dólares. Nesse segmento entram desde aplicativos de autocuidado (como meditação e atividade física) até cursos de desenvolvimento pessoal e coaching.

A LÓGICA DO ESFORÇO

“A mensagem que pregam é que, se nos esforçarmos, vamos ter tudo aquilo que merecemos”, diz Lucas Liedke, psicanalista e cofundador da Float, consultoria de estratégia, cultura e comportamento do consumo. “Tudo pode ser ‘hackeado’ e mensurado. Usamos aplicativos e dispositivos para otimizar ao máximo a alimentação, a carreira e as relações pessoais.” E temos recursos para isso – nunca foi tão fácil ter acesso a conteúdos, conselhos e mentorias sobre praticamente qualquer assunto. O limite parece ser apenas o da nossa vontade de nos dedicar ao tema. Com tantas possibilidades, a pressão pelo desempenho fica toda em nossas mãos. As redes sociais agravam a situação. Vemos no Instagram e LinkedIn o melhor da vida dos outros. “Sentimos que, se fazem isso, também devemos fazer”, diz Flora Alves, fundadora da SG, consultoria de aprendizagem. Mesmo sabendo que o que está na mídia social não é tão real assim, nós continuamos sendo afetados pela comparação entre nossa vida e a vida dos outros.

Para Marcus Marques, sócio diretor do Instituto Brasileiro de Coaching, o efeito é de bola de neve. “As empresas estão cada vez mais competitivas, com margens mais espremidas, exigindo mais eficiência.” Todas as áreas passaram a ter metas e indicadores que são verificados e cobrados em tempo real – e isso gera uma pressão enorme, que é levada até para dentro de casa. É comum que as necessidades de objetivos atingidos se repitam no relacionamento com os filhos, com o cônjuge e consigo mesmo.

QUANDO COMEÇA O EXAGERO

Todos nós temos vontade de evoluir – é algo de nossa natureza. “A busca por melhoria é uma tendência do ser humano”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de educação e neurociência organizacional. Esse sentimento tem até nome: “maestria” – e é importante para nos manter felizes no trabalho e motivados para ter hobbies, por exemplo. O problema é o excesso. “Pode ser que a pessoa busque compulsivamente a superação porque falta reconhecimento e ela sente que precisa entregar mais”, diz Ana Carolina. Por outro lado, podemos nos viciar na sensação de que estamos nos superando. E nem sempre é fácil identificar quando isso acontece [veja quadro Passando do Ponto].

Em alguns casos, a pressão exagerada pode vir em momentos importantes, como quando assumimos um cargo novo. O carioca Elton Oliveira, de 37 anos, passou por isso. Gerente nacional de canal digital e delivery no Bob’s, um de seus maiores desafios aconteceu quando se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo, em 2017, para assumir uma posição nacional na empresa em que trabalhava e tocar a transformação digital. De uma hora para outra, Elton abandonou o estilo de vida que tinha no Rio, onde praticava esportes e conseguia relaxar. Agora ele convivia com líderes seniores e tinha de fazer reuniões em inglês e espanhol toda semana. “Isso me deixou muito ansioso para estar à altura”, diz. Elton passou a acordar às 5 da manhã todos os dias e a ir dormir só por volta da meia-noite. Quase todo o tempo livre ele passava estudando espanhol, adiantando entregas do trabalho ou estudando para se atualizar – ingressou, inclusive, em um segundo MBA.

“Passei todo esse tempo sem ver São Paulo, acabei engordando por comer por ansiedade e aí passei a me cobrar para emagrecer”, conta Elton. A virada começou quando seus amigos chamaram sua atenção. “Falaram que eu estava dedicado e intenso demais, perguntaram se eu estava bem.” A correria estava atrapalhando até a carreira: ele se atrasava com frequência no MBA e não conseguia ler nem estudar direito. Mas a mudança só veio quando Elton se forçou a ter objetivos de qualidade de vida, como passear na cidade e praticar esportes por prazer. “É um processo até hoje. Preciso, dentro de minha capacidade, ter metas e não idealizar tanto nem me sentir culpado quando não produzo.”

CADÊ O EQUILÍBRIO?

Para não se perder em um mar de obrigações, é necessário entender o que é importante para si mesmo. Medir-se pela régua dos outros é aumentar o risco de se frustrar e, pior, de dedicar esforço e tempo a coisas que não são prioridade para você. Mas é importante lembrar: em alguns momentos não sabemos o que queremos. E tudo bem. O importante é questionar se a pressão que sentimos vem de coisas relevantes internamente ou se é algo externo – como a expectativa de um chefe, amigo ou parceiro. E não se engane: não haverá o momento em que estaremos completamente satisfeitos. “A linha de chegada ao desenvolvimento não existe”, diz Vanessa Novais, diretora executiva de transição de carreira na Thomas Case, consultoria de recursos humanos. Quando alcançamos um objetivo, podemos ficar felizes, mas logo estaremos de olho no próximo alvo. Alternar as metas na hora de se planejar pode ser uma maneira de lidar com a ansiedade. “Posso dedicar um trimestre para focar os estudos e separar outro para relaxar e me dedicar mais ao lazer”, diz.

Essa foi uma das lições que Leonardo Meira, de 37 anos, gerente de tecnologia em um banco de investimentos, aprendeu. Em 2018, ele estava determinado a se dedicar ao autodesenvolvimento. “Queria ser o melhor líder, ser mais efetivo em trazer uma visão de futuro para meu time”, diz. “E queria desenvolver a inteligência emocional.” Assim, passou o ano todo focado em cursos e diversos tipos de coaching. “Você faz esses cursos e a sensação é de que vai ser o próximo Zuckerberg. Mas não havia como fazer tudo que os cursos pediam que eu fizesse.” Mesmo tendo seguido o ano todo dedicado às aulas, em 2019 Leonardo resolveu mudar de rumo: estudar filosofia e alterar a forma de olhar para o desenvolvimento. Durante esse ano, ele viu que expectativas altas e romantizadas traziam mais frustração. Assim, aprendeu a temperar a vontade de ser melhor com uma pitada de ceticismo. “O pessimismo, da forma correta, traz um pouco de calma e nos prepara.

Você não precisa ser o funcionário perfeito, ter o corpo perfeito, ser a pessoa mais divertida do mundo”, diz Leonardo. Essa descoberta mudou sua postura no trabalho. Agora, na hora de delegar uma tarefa, ele pensa mais na jornada do que na entrega em si. Além disso, estabelece prazos e riscos de forma mais conservadora, sem esperar que tudo vá dar certo sempre. Os erros servem para trazer aprendizados – e não só cobrança.

PASSANDO DO PONTO

Como descobrir se você está se cobrando demais

AMIGOS

Quando pessoas em quem confiamos começam a dizer que estamos exaltados, agitados ou trabalhando demais, devemos prestar atenção. Elas conhecem nossos padrões e podem perceber mudanças de comportamento sobre as quais ainda não nos conscientizamos.

TEMPO LIVRE

Quando existe uma folga na agenda, você se sente culpado por não estar se dedicando a alguma coisa? Em momentos de lazer ou esporte, você se preocupa com seu desempenho ou com quanto está aprendendo com aquilo? Esses podem ser indicativos de que a cobrança está alta demais.

COPPO

O corpo fala. Insônia, irritabilidade, impaciência, alterações de apetite e dores no corpo podem indicar que estamos pressionados. Claro que outros fatores podem estar envolvidos, mas vale se perguntar quanto sua autocobrança não está contribuindo.

METRICA

Se você se pega anotando e comparando índices de produtividade, de tempo de entrega ou até mesmo de exercícios que faz e comidas que consome com muita frequência, vale parar para se perguntar o que está por trás disso. Como você se sente quando não consegue cumprir um objetivo ou superar um limite anterior?

NA PRÁTICA

Olhe para os últimos cursos que fez e avalie quanto aplicou dos conhecimentos – isso ajuda a perceber excessos. Quando nos envolvemos com um volume demasiado de assuntos, não conseguimos construir a memória de longo prazo, aquela que ancora o conhecimento em nossa mente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – V

PRESENTE EM DIFERENTES MALES

Além de se manifestar na síndrome do pânico, a ansiedade também pode aparecer em casos de depressão

O coração bate aceleradamente, os sentidos começam a ficar um pouco confusos, a visão escurece, as mãos começam a tremer, você sente o suor frio escorrendo e a sensação de que o pior vai acontecer toma conta de sua mente.

Por outro lado, fica difícil cair no sono (ou quando dorme, é mais do que o recomendado) se perde a concentração e toda a disposição desaparece.

A síndrome do pânico e a depressão são distúrbios muito comuns entre a população mundial e são graves por si só. Enquanto o pânico é um transtorno ansioso, a depressão tem suas próprias definições. No entanto, não é incomum que os sintomas de um interfiram no quadro do outro.

UMA COISA LEVA A OUTRA

Quando o assunto é ansiedade, certas variações do sentimento vêm à tona na forma de distúrbios mentais, que acabam ultrapassando sua definição de “alarme natural”. Para exemplificar, podemos citar desde os transtornos obsessivos compulsivos (TOCs), passando pelas fobias, o estresse pós-traumático, a síndrome do pânico, entre outros quadros alterados pela ansiedade em excesso.

Porém, antes de compreender como essa reação do corpo atua em cada um desses exemplos, é necessário explicar que ela nem sempre age sozinha, sendo apenas uma consequência de outros fatores. Isso possibilita seu aparecimento em outros distúrbios que não contam necessariamente com a ansiedade como um de seus sintomas, por exemplo, a depressão. A psicóloga Ana Paula Cavaggioni esclarece que, “embora os transtornos de ansiedade tendam a ser altamente comórbidos (estarem relacionados) entre si, podem ser diferenciados pelo exame detalhado dos tipos de situações que são temidos ou evitados e pelo conteúdo dos pensamentos ou crenças associados”.

EFEITO DOMINÓ

“Todos os casos de síndrome do pânico são crises de ansiedade, mas nem todas as crises de ansiedade são síndromes do pânico “, começa explicando o psicólogo Bayard Galvão. O profissional afirma que o transtorno caracteriza-se, basicamente, pelo receio de sentir os sintomas da própria ansiedade aguda. Assim, se não controlado, esse medo será alimentado toda vez que houver uma recaída, uma vez que as sensações são bastante desagradáveis e difíceis de serem estabilizadas. Isso gera uma reação em cadeia que a cada fase se tornará mais intensa, podendo prejudicar a saúde mental do paciente caso não receba o tratamento adequado, seja medicamentoso ou terapêutico.

INFLUÊNCIAS

Segundo dados da organização Mundial da Saúde (OMS), é estimado que a depressão atinge cerca de 350 milhões de pessoas no mundo inteiro, podendo ser considerado o mal do século

Mesmo com um número tão grande de vítimas deste quadro, o distúrbio ainda não é levado à sério tanto quanto se deveria. Seus sintomas, que variam entre o humor irregular, desânimo, perda ou excesso de apetite e de peso e insônia, muitas vezes, não são vistos com a devida importância, o que acaba piorando a saúde do paciente. E em uma situação extrema, o que era “apenas um sentimento de tristeza” vira algo muito pior: a OMS avalia que, das pessoas diagnosticadas com a depressão, 800 mil cometem suicídio.     

As consequências do distúrbio são graves por si só, mas podem aumentar quando unidas aos sintomas da ansiedade. Primeiramente, vale lembrar que a depressão e o transtorno ansioso são patologias com diagnósticos diferentes, mas que possuem traços semelhantes. No entanto, isso não impede que alguém com o quadro depressivo apresente também as manifestações da ansiedade, como taquicardia, sudorese, falta de ar e os próprios ataques de pânico.  

“Estudos mostram que cerca de 25% dos casos de depressão passam anteriormente por um quadro de ansiedade. E aproximadamente 65% dos pacientes diagnosticados com ansiedade apresentam sintomas depressivos”, constata a psicóloga Ana Paula.

FREQUÊNCIA

Não é nenhuma raridade que os traços de depressão e ansiedade se misturem, mas a manifestação de apenas um dos transtornos ainda é a probabilidade mais comum. “Considero pouco provável alguém viver até os 50 anos de idade e não ter desenvolvido em algum momento da vida um quadro de depressão ou ansiedade, seja de seis meses ou anos”, conclui o psicólogo Bayard Galvão.

OUTRAS VARIAÇÕES

Os transtornos ansiosos dividem-se em algumas categorias de acordo com o gatilho que faz seus sintomas virem à tona.

Além da Síndrome do pânico e a depressão (que não pertence a essa classe de distúrbios, mas    podem compartilhar dos mesmos sintomas), o especialista Bayard Galvão cita mais quatro exemplos que se encaixam no quadro:

• FOBIAS: aqui, o agente que aciona a ansiedade é o medo irracional por algum objeto, animal ou situação.

Contudo, o psicólogo ressalta que as fobias podem ser mal diagnosticadas às vezes: uma reflexão um pouco mais rigorosa leva ao fato de que o indivíduo não teme o avião em si, mas a queda do veículo. E não tanto o acidente, mas de morrer”.                                                    

• TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO: manifesta-se por meio de rituais que as pessoas com TOC simplesmente não consegue deixar de lado. Alguns dos comportamentos são fixações com determinados números ou algum pensamento que fica constantemente se repetindo na mente. Segundo Bayard, a manifestação dos sintomas ansiosos acontece, na verdade, por “uma intensa vontade de fazer algo que evitaria isso (de um modo fantasioso ou não), seja rezar, abrir e fechar a porta, dar pulos ou até lavar a mão e corpo de maneira contínua e terrivelmente rigorosa”.            

• ANSIEDADE GENERALIZADA: esse distúrbio se caracteriza, principalmente, pela preocupação exagerada sobre alguma coisa, o que gera muita tensão na pessoa com o quadro. Se esse padrão se repetir com frequência, haverão alguns efeitos negativos: “aumenta a irritabilidade, piora o sono, diminui a capacidade de concentração, de memorização e uma série de efeitos maléficos ao corpo, inclusive prejudicando o sistema imune, subindo a probabilidade de ter alguma doença”, alerta o psicólogo.

• DISTÚRBIO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO: os sinais da ansiedade aparecem após passar pela experiência de algum trauma psicológico, seja pela perda de uma pessoa querida, um assalto, um acidente de carro ou por sofrer atos violentos.

EU ACHO …

APENAS UMA PAUSA

Apenas uma pausa

Não deve estar sendo fácil por aí, não é? Aqui também não! Não estávamos preparados para viver essa situação. Principalmente psicologicamente.

Somos frutos de uma geração que não para, que está sempre na “correria”, que conta com ajuda externa para dar conta da casa, dos filhos e etc. Somos de uma geração em que mulheres estão inseridas no mercado de trabalho, e muitas delas, representam a principal fonte de renda das famílias. Somos acostumados a nos reunirmos apenas no horário de almoço e jantar (e às vezes nem isso) e contamos como apoio familiar nos finais de semana.

De repente, somos obrigados a ficar 24 horas por dia, sabe-se lá por quanto tempo, com a família dentro de casa. Desafiador!

De uma rotina estabelecida a uma nova realidade imposta, surge a necessidade de se reinventar, redescobrir e vencer dia após dia, uma nova batalha.

A demanda familiar, as responsabilidades do trabalho, ou até o receio de perdê-lo, nos faz ter medo, angustia, nos enche de dúvidas e culpa.

Manter a sanidade mental, em minha opinião, é o nosso maior desafio. Portanto, não se cobre demais, não tente dar conta de tudo e não exija ser produtivo nesse período. Fazer o que for possível e não se sentir mal por isso é o caminho.

A situação é atípica, então relaxe um pouco, viva cada dia com fé e esperança de que essa fase vai passar e tudo ficará bem.

Não é hora de sofrer pele futuro e fazer grandes planos.

Vamos pensar que é apenas uma pausa, um parêntese em nossas vidas e logo tudo se normalizará.

Tenho certeza de que estamos fazendo um belo trabalho e o lado bom disso tudo (sim, sempre tento ver o lado bom) é que estamos tendo a oportunidade de viver momento em família que jamais viveríamos se não fosse essa pausa.

Eu, particularmente tenho podido ver de perto o desenvolvimento dos meus filhos, cada descoberta e travessura. Aproveitando intensamente uma fase da vida deles que nunca voltará.

As outras coisas, mantendo a saúde física e mental, a gente volta a “correr atrás”!

 

*** MARCELA CORBELLI – Psicóloga, graduada pela Universidade Presidente Antônio Carlos. Pós graduada em gestão de pessoas, Grupo de estudo e orientação em psicanálise, cursando psicanálise com crianças e adolescentes. CRP 04/30.453

 

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE DEZEMBRO

gotas-de-consolo-para-a-alma

JESUS NASCEU, GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS!

E ela [Maria] deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura… (Lucas 2.7a).

 

 

O Natal fala-nos sobre o nascimento de Jesus, o Filho do Altíssimo. Ele deixou a glória excelsa e desceu até nós. Esvaziou-se e assumiu a forma humana. Sendo Deus, fez-se homem; sendo Rei, fez-se servo; sendo exaltado, humilhou-se até a morte, e morte de cruz. O nascimento de Jesus foi prometido desde a eternidade. As profecias apontaram para sua vinda. Dele falaram os patriarcas e profetas. Todos os sacrifícios judaicos eram sombras que apontavam para sua realidade. Na plenitude dos tempos, ele nasceu em Belém, nasceu de mulher, nasceu sob a lei, para ser o nosso redentor. Seu nascimento foi um milagre, sua vida foi um portento, sua morte foi substitutiva, sua ressurreição foi poderosa. O Natal não é uma festa pagã. A figura central do Natal não é o Papai Noel, nem a mensagem central do Natal é o comércio. Natal não é o brilho pálido da terra, mas a luz fulgurante do céu. Natal não é troca de presentes nem banquetes requintados, mas a oferta da graça, o presente da salvação. Jesus é o milagre do Natal, o conteúdo do Natal, a razão da nossa celebração. Ele veio do céu para nos levar ao céu. Ele se fez homem para nos fazer filhos de Deus. Morreu para nos dar vida. Levou sobre si os nossos pecados para nos oferecer seu completo perdão.

 

 

GESTÃO E CARREIRA

TRABALHO DE QUALQUER LUGAR

A pandemia do coronavírus mostrou que as empresas podem funcionar bem – ou até melhor – com seus empregados longe do escritório. Após a quarentena, não faz sentido tudo voltar ao que era antes. O escritório deixa de ser o endereço do trabalho e vira um hub de conexão de pessoas

Trabalho de qualquer lugar

O conceito de escritório corporativo começou a ganhar corpo há cerca de 200 anos, durante a Revolução Industrial, como uma extensão das fábricas. Era um lugar criado com o objetivo de reunir pessoas para lidar com a papelada da burocracia que envolvia questões fiscais e administrativas. Como se sabe, a burocracia não parou de crescer – e esses espaços físicos também. Não é exagero dizer que a expansão do escritório moldou a vida urbana dos últimos dois séculos. Os prédios de escritórios foram ocupando as áreas mais nobres das cidades, empurrando as fábricas para o interior e os trabalhadores para bairros distantes. Nesse processo, a natureza do trabalho também mudou. As tarefas ficaram mais complexas e os computadores permitiram reduzir o volume de papéis, mas a essência do escritório se manteve: um lugar onde os empregados se reúnem quase todos os dias no mesmo horário, e passam cerca de um terço da vida, para executar tarefas ao lado de colegas. Aí veio a pandemia do novo coronavírus. As empresas levaram um enorme susto, tiveram de instituir o trabalho à distância para boa parte de seus funcionários, e todos sofreram para se adaptar ao novo esquema. Muitas delas fecharam as portas porque as fábricas pararam de produzir e o comércio deixou de vender. Não há notícia, porém, de quebradeira de empresas pelo fato de ter seus funcionários trabalhando remotamente. Ao contrário, surgiram relatos de ganhos de produtividade e de outras vantagens do trabalho à distância. A covid-19 continua espalhando medo mundo afora, mas, gradualmente, a economia está reabrindo. A questão agora é: como ficam os escritórios? Com o fim da quarentena, as empresas vão voltar a fazer tudo como antes?

Não é o que parece. Depois de testar na marra o modelo de ”trabalho de qualquer lugar”, muitas empresas gostaram da experiência e pretendem acelerar uma tendência que, não fosse a pandemia, levaria anos para ganhar escala. Segundo uma pesquisa da consultoria Betânia Tanure Associados, entre as empresas que adotaram o home office por causa da quarentena, 85% pretendem continuar, em diferentes graus, com a política para os funcionários. Os dados mostram que o trabalho flexível veio para ficar. Algumas empresas já tinham adotado esse modelo antes mesmo da pandemia.

Em seu primeiro dia como presidente da administradora de planos de saúde coletivos Qualicorp, em novembro de 2019, Bruno Blatt abriu as portas de sua nova sala- e não as fechou mais. Seu escritório ficava no 150 andar de um prédio em São Paulo e, para ter acesso a ele, os funcionários precisavam agendar horário com duas secretárias e passar por portas protegidas por seguranças. Blatt removeu as barreiras e transformou a cobertura onde ficavam as salas de diretores em um espaço para inovação, acessível a todos. ”Minha sala passou a ser meu computador e meu celular”, diz Blatt. ”Acabei com a ‘diretorlândia’.” A informalidade e a flexibilidade foram estendidas aos 1.900 funcionários do grupo.

Blatt autorizou a compra de 650 notebooks, para implantar o home office, e investiu 145 milhões de reais para transformar o sistema de vendas físico usado pelos 35.000 corretores de seguros num sistema digital, na nuvem. Com o ganho de eficiência, devolveu sete dos 15 andares do prédio. Segundo Blatt, o trabalho flexível faz parte da mudança na cultura para deixar a empresa mais ágil e proporcionar mais qualidade de vida aos funcionários.

Uma das vantagens desse modelo é ampliar as possibilidades de contratação de talentos. Uma empresa de São Paulo pode buscar o profissional com o perfil mais adequado no interior da Bahia, na Índia ou na Noruega. A britânica Claranet, fornecedora de serviços de tecnologia, adotou o home office como uma possibilidade permanente no Brasil. ”Quebramos as fronteiras. Há projetos sendo desenvolvidos em conjunto por equipes no mundo inteiro”, diz Fábio Amigo, diretor-presidente da Claranet no país. ”Nas contratações, vamos buscar habilidades e o perfil de que precisamos. O lugar onde a pessoa mora é menos relevante.” A mesma política está sendo adotada pela empresa de tecnologia Stefanini, que tem 25.000 funcionários no mundo, dos quais 14.000 no Brasil e o restante espalhado por 40 países.

Antes da pandemia, apenas 120 ficavam em home office. Agora quase 7.000 funcionários trabalharão de casa, apenas no Brasil. ”Há universidades muito boas no interior do país, e os alunos não precisam se mudar para as capitais em busca de trabalho. Os funcionários podem morar em uma cidade menor, com mais qualidade de vida”, diz Rodrigo Pádua, vice-presidente global de gente e cultura do Grupo Stefanini. O plano da empresa é colocar 50% dos funcionários em home office.

Se o ambiente de trabalho pode ser mais flexível, outros aspectos também podem se tornar menos rígidos. ”O relógio de ponto perde totalmente o sentido. O importante é entregar o trabalho no prazo e com qualidade”, diz André Brik, especialista do Instituto Trabalho Portátil, uma consultoria em trabalho remoto. O publicitário Igor Rezende Ferreira, de 36 anos, é um exemplo dessa nova tendência. Há cinco anos, ele decidiu tirar um ano sabático e viajar pelo mundo. Gostou tanto da experiência que decidiu se tornar um nômade digital. ”Vi que não conseguiria voltar para o ambiente corporativo e parar de viajar.” Hoje ele é gerente de comunicação e marca de uma agência de viagens online com sede nos Estados Unidos. ”Não tenho despesas fixas, como casa e carro, e posso viver em países com menor custo de vida. No Vietnã, com o que ganho, consigo alugar até uma casa com piscina.” Ferreira costuma dar expediente em cafés e coworkings. ”Só preciso de notebook e internet.”

Para o americano Robert E. Siegel, professor de gestão na Universidade Stanford, a tendência ao trabalho flexível já existia e só foi intensificada pela pandemia. Segundo uma pesquisa global da consultoria Cognizant, a flexibilidade é capaz de trazer um aumento de até 13º/o na produtividade. Além disso, as companhias podem reduzir o custo por empregado em até 11.000 dólares ao ano. Apesar das vantagens, Siegel lembra a natureza social das pessoas e não acredita que a função agregadora do espaço de trabalho desaparecerá. Embora não seja mais essencial para o trabalho em si, o escritório deverá se moldar à demanda por conexão, tornando-se um centro que oferece uma experiência melhor para encontros com clientes, cultivo de cultura e colaboração entre pares. No dia a dia, ninguém vai lamentar a perda de cubículos impessoais, mas os profissionais vão sentir falta das conversas na hora do cafezinho. Para João Lucio de Azevedo Filho, presidente da Cognizant no Brasil, o escritório do futuro terá mais áreas para a confluência de pessoas e menos cantos individualizados. ”Nos anos 2000, diziam que as empresas de tijolo e cimento morreriam e que tudo seria feito na internet. Eu ainda gosto de ir ao shopping, mas compro online”, afirma Azevedo Filho. ”Nem tudo será remoto e nem tudo será presencial.”

A mudança de mentalidade das empresas em relação à organização do trabalho pode ter impacto também no mercado imobiliário. Uma pesquisa feita por uma das maiores empresas de arquitetura especializadas em projetos corporativos, a Athié Wohnrath, mostra que 51°/o das companhias consultadas pretendem reduzir o espaço do escritório. ”Vemos um potencial de liberação de área de 20% a 30 %. Em média, os funcionários que ficavam um dia e meio fora por semana passarão a ficar dois dias e meio. Ou seja, ficarão metade do tempo fora da empresa”, diz Ivo Wohnrath, um dos sócios do escritório. No curto prazo, o pós-quarentena deve exigir mais automação para minimizar pontos de contato e reduzir os riscos sanitários. Maior frequência de limpeza, medição de temperatura, sensor nos elevadores, ativação de catracas por QR Code e maior distância entre as estações de trabalho são algumas das medidas que poderão ser adotadas no fim da quarentena.

Algumas mudanças deverão ser mais permanentes. Nos últimos anos, o espaço privativo diminuiu e aumentaram os espaços compartilhados nos escritórios. No Vale do Silício, empresas de tecnologia, como Google e Facebook, buscaram atrair funcionários com escritórios divertidos e cheios de mimos. Piscinas de bolinhas, escorregadores e mesas de pingue-pongue tornaram-se comuns. O conceito de salas de descompressão está sendo deixado de lado, segundo o arquiteto Enrico Benedetti, sócio do Arealis, escritório de arquitetura especializado em ambientes corporativos. ”Se uma empresa precisa de um espaço de descompressão, é porque os funcionários estão ficando estressados”, diz Benedetti.

Hoje, de acordo com ele, o escritório está cada vez mais parecido com a casa – ambientes aconchegantes, com redes, sofás ou pufes, para trabalhar sozinho ou com colegas.

Esse tipo de escritório começou a ser popularizado nos últimos anos pelas startups. Um exemplo é a fintech de empréstimos digitais Geru. Em 2014, a empresa decidiu instalar seu escritório num local mais perto de onde seus colaboradores jovens trabalhavam, a região de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. A opção foi reformar um antigo teatro. As estações de trabalho foram montadas na área do palco, enquanto as áreas de descanso ocuparam a plateia superior. Do total de funcionários, 15% já trabalhavam de forma remota antes da pandemia, e o escritório servia apenas de ponto de encontro para reuniões. A ideia da Geru é ampliar o home office gradualmente e, quem sabe, chegar a 100% no futuro. ”Mesmo para quem ficava no escritório, sempre houve flexibilidade para trabalhar de casa eventualmente”, diz Sandro Reiss, presidente da Geru. ”Mas exigimos disciplina. Não importa se o funcionário está no escritório, em casa ou trabalhando em um coworking. Ele tem de formalizar processos por meio de nossas ferramentas, estar plugado na videoconferência e manter a comunicação.”

Continuará havendo, é claro, quem prefira escritórios mais tradicionais. O Banco Original inaugurou recentemente sua sede, um prédio de 24 andares envidraçado no Brooklin, na zona sul de São Paulo. A sede é um cartão de visita do banco, reflexo da imagem que deseja mostrar ao mercado: uma empresa digital e moderna. Na entrada, há um sistema de detecção de temperatura corporal e uma câmara de desinfecção para tornar a volta ao trabalho mais segura após a pandemia. O acesso dos funcionários é liberado por reconhecimento facial, que funciona até com pessoas que usam máscara. O escritório tem sofás, uma sala para cochilas e muito verde. O prédio foi pensado para acomodar o crescimento do banco digital. ”Em 2019, o Original quadruplicou o número de clientes e contratou 700 pessoas”, diz Luciano Almeida, diretor de marketing, experiência do cliente e CRM do banco. A empresa conta agora com 1.500 funcionários. Cerca de 70% terão a opção de trabalhar de casa até três dias por semana.

Outra empresa que está planejando seu novo cartão de visita é a corretora XP. Ela quer mudar a sede, localizada na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, para os arredores da capital paulista. Como pretende aumentar o número de trabalhadores remotos de 50% para 80%, construir uma sede maior parece um paradoxo. Mas a ideia é que a nova sede, batizada de Villa XP, seja um ponto de encontro de funcionários, clientes e fornecedores, além de um centro de treinamento e perpetuação da cultura da companhia. ”A ideia é ter escritórios pulverizados em diversas cidades, o que nos permitirá contratar funcionários em qualquer lugar do país”, diz Guilherme Sant’Anna, sócio responsável pela área de gente e gestão da corretora. Diferentemente do empreendimento que lhe serviu de inspiração – a sede da Apple, no Vale do Silício -, o novo endereço da XP será mais frugal, segundo Sant’Anna. Ainda assim, o projeto prevê um showroom com sala de cinema 4D, heliponto e um complexo esportivo com piscina, academia e quadras.

Qualquer que seja o endereço comercial que conste no cartão de visita, a tendência é que haja cada vez menos distinção entre casa e trabalho. ”No passado, vivíamos em um mundo de OU: ou escritório, ou casa; ou cidade, ou interior. O futuro é um mundo de E. As barreiras que existiam se dissolvem”, diz a futurista americana Elatia Abate (leia entrevista abaixo). Para especialistas, romper com o modo tradicional que mantinha a rotina abre caminho para soluções de problemas históricos no mercado de trabalho – e, por consequência, na sociedade – de inclusão e diversidade. ”Boa parte dos trabalhos não precisa de uma escala. Para pais e mães, isso significa poder passar mais tempo com os filhos, sem perder nas entregas”, diz Paula Crespi, cofundadora da startup Theia. ”Quando as empresas entenderem que a geografia não é uma barreira, vão passar a perceber que o horário também não é.” Trabalhar de qualquer lugar já é uma realidade. Romper com o expediente fixo parece o próximo passo para tornar a vida ainda mais flexível – e, idealmente, menos estressante.

 O TRABALHO REMOTO VEIO PARA FICAR

Uma pesquisa feita pela Betânia Tanure Associados mostra que 85% das empresas consultadas pretendem, após a quarentena, manter a política de home office para os empregados, em algum grau. Metade das entrevistadas acredita que isso não afeta a produtividade

Trabalho de qualquer lugar. 2

COMO SERÃO OS ESCRITÓRIOS QUANDO A QUARENTENA CHEGAR AO FIM

Metade das empresas pretende reduzir a área do escritório, de acordo com uma pesquisa da empresa de arquitetura Athié Wohnrath com sua base de clientes

Trabalho de qualquer lugar. 3

A EVOLUÇÃO DO ESCRITÓRIO

O conceito de escritório surgiu há cerca de 200 anos. De lá para cá, houve grandes mudanças nesse espaço de trabalho. Confira as principais fases

Trabalho de qualquer lugar. 4

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉRBRO E ANSIEDADE – IV

Cérebro e ansiedade - IV

NO MUNDO DOS PEQUENOS

As crianças também podem ter crises de ansiedade. Entenda como são os sinais e os métodos para o tratamento dos quadros infantis

 

 

A correria do dia a dia, as obrigações no trabalho e os deveres dos estudos são alguns dos fatores que desencadeiam o transtorno de ansiedade. Contudo, engana-se quem pensa que esse quadro seja exclusivo ao universo dos adultos. Na verdade, as crianças também podem passar por isso.

Tudo dependerá de como é o processo de criação, a cultura que estão inseridas e, obviamente, as próprias características desenvolvidas ao longo da vida (ainda que curta). Por isso, é fundamental que os pais e os responsáveis permaneçam atentos aos sinais claros (e outros nem tanto) apresentados pelos pequenos – até mesmo em atitudes rotineiras.

 

DE ONDE VEM?

Diferentemente da maioria dos adultos, as crianças possuem uma dificuldade maior na hora de expressar as emoções. Boa parte disso é fruto do contexto em que elas convivem diariamente. “É muito comum que elas evitem falar como se sentem, pois, na maioria das vezes, não se aprende a nomear o que sentimos nos ambientes compartilhados, seja escola, família, clubes ou momentos recreativos. Sendo assim, tornou-se culturalmente natural ocultar os sentimentos e as preocupações, sejam de adultos ou crianças”, esclarece a psicóloga Fernanda Medeiros.

Dessa maneira, são diversas as causas possíveis para uma crise ou, até mesmo para um quadro mais grave de ansiedade. “Algumas mudanças, tais como separação dos pais, morte de alguém próximo, nascimento de um irmão, abuso emocional e/ou sexual, mudança de cidade e/ou escola e bullying, costumam ter um impacto maior na saúde emocional dos pequenos, o que pode favorecer o surgimento do transtorno”, alerta a professora de psicologia Adna Rabelo.

 

POR DENTRO DOS SINAIS

A atenção às reações das crianças é essencial para a identificação do quadro. Segundo Fernanda, alguns dos principais sinais são “excessiva preocupação na maioria dos dias da semana, problemas para dormir à noite, enurese (fazer xixi na cama), inquietação ou fadiga excessiva, irritabilidade frequente, dificuldades de manter a atenção, principalmente para tarefas de rotina e escolares; e complicações na socialização”.

Todo esse processo de diagnóstico também gira em torno de demonstrar interesse na rotina delas, questioná-las, observá-las e oferece-las uma abertura maior para diálogos, ou seja, proporcionar um ambiente favorável para que se sintam confortáveis. Com isso, a chance de se evitar os sentimentos reprimidos aumenta, já que as crianças irão notar que se trata de um apoio e não de uma ameaça.

O CAMINHO PARA O CONTROLE

Os pais e responsáveis, após notarem alguns sinais ligados à ansiedade, devem buscar ajuda profissional para um tratamento mais eficaz, já que este é realizado de maneira diferente aos dos adultos. “A terapia com um psicólogo aparece, portanto, como uma maneira mais incisiva nos casos dos transtornos de ansiedade infantil. Por meio desse método, a criança pode experimentar novas maneiras de pensar e agir em situações que lhe causam ansiedade”, explica a psicóloga Fernanda Medeiros. Em alguns casos, atividades e ferramentas lúdicas são utilizadas como forma de aproximar o especialista do paciente. Já nos quadros mais graves, também é válida a prescrição de medicamentos que ajudam a controlar a ansiedade.

OUTROS OLHARES

SORRISO (MAIS QUE) PERFEITO

A busca por dentes cada vez mais brancos é a nova moda nos consultórios odontológicos. Diferente do clareamento, técnica que já tornou-se popular entre os brasileiros, o branqueamento é caro e irreversível

Sorriso (mais que) perfeito

É só ligar a televisão para perceber o padrão: sorrisos tão brancos que causam até estranheza. A completa reconstrução dos dentes por meio de técnicas com porcelana é a nova febre nos consultórios odontológicos. Diferente do simples clareamento, que reverte o amarelado causado pelo tempo, alimentos ou cigarro, o branqueamento busca uma imagem idealizada — uma tonalidade branca que o corpo humano sequer é capaz de produzir naturalmente.

Segundo o dentista Rodrigo Ribeiro, responsável pela higiene bucal de diversas celebridades, há duas maneiras de se fazer o branqueamento: por meio de lentes de contato, mais superficiais e modernas, ou com facetas dentárias, que mexem de forma mais profunda na estrutura do dente. “A procura pelo sorriso perfeito anda absurda. É a maior moda no consultório hoje. As pessoas chegam com dúvidas, mas com a mesma certeza: querem dentes branquíssimos”, diz Rodrigo, do Instituto Cores do Sorriso e da Face.

Sorriso (mais que) perfeito. 2

ESCULPIDOS

Qual tratamento é o mais efetivo? A faceta é um método em que se encapa somente a parte da frente do dente, com maior desgaste e riscos de sensibilidade. Já a lente de contato dental consiste em uma película de porcelana muito fina. Essa é a técnica mais moderna atualmente — sem um limite para a tonalidade branca. Também é possível “misturar” tratamentos, como o clareamento clássico feito em gel em alguns dentes e lentes de contato em outros. Tudo dependerá do histórico e da estrutura da arcada dentária do paciente. Uma vez colocadas, tanto as lentes como as facetas, elas não podem ser simplesmente removidas, pois o dente natural perde seu esmalte no processo.

Segundo Rodrigo, a preocupação deve ser, acima de tudo, com o material utilizado pelo dentista — e é justamente isso que encarece o tratamento. A cobertura pode ser feita com resina ou porcelana: a resina, apesar de mais barata, é porosa e escurece com o tempo; a porcelana de qualidade não deforma, não escurece e não corre riscos de infiltração. O preço? As desejadas lentes podem chegar até R$ 3 mil cada. O custo final, se forem aplicadas em vinte dentes, pode passar dos R$ 60 mil — um valor que acaba com qualquer sorriso.

EU ACHO …

UM CENSO AFETIVO

Durante toda a minha infância o alarme de segurança do condomínio em que morávamos tocava uma vez por ano, para anunciar a chegada do Papai Noel. Ele aparecia num carro conversível no anoitecer do dia 24, estacionava junto ao gramado entre as casas e distribuía presentes para nós, as crianças com roupa de festa e o cabelo molhado de banho. Era uma cena cativante, a das crianças correndo de encontro ao bom velhinho num condomínio cercado de verde no Alto da Boa Vista, ele tirando os pacotes coloridos de um saco imenso, as embalagens sendo rasgadas para revelar um quebra-cabeça, boneca, trator.

O alarme era pra mim o início oficial da celebração, que prosseguiria com a sala cheia de presentes, as luzes acesas no pinheirinho, os primos correndo na varanda, os adultos expressando a felicidade cumulativa e seis horas ininterruptas ouvindo o LP natalino. “A harpa e a cristandade, do paraguaio Lu8is Bordon. O Natal era a nossa utopia, o único do dia perfeito do ano. Mesmo as brigas e implicâncias (tão comuns nas famílias quanto os vídeos cantando parabéns) se esvaziavam no dia 24 fazendo com que os sorrisos congelados nas fotos pesadas fossem também sinceros.

Com o tempo, eu descobri não só que Papai Noel não existia, como que o impostor do meu condomínio era um vizinho meio bêbado, num bugre emprestado, barba de algodão de farmácia, barriga de almofada e roupa de cetim barato das Casas Turuna. Restava-me pelo menos a segunda parte do Natal, e com o tempo eu descobri que era muito mais significativa, espécie de censo afetivo que fazíamos todos os anos. Bebês, cunhados e agregados surgiam, tios avós e bisavós partiam. A vida era imprevisível, e, no entanto, nós tentávamos controla-la e compreendê-la procedendo todos os anos com os mesmos rituais, os mesmos guardanapos engordurados pelos bolinhos, as mesmas frutas cristalizadas que ninguém comia, aquela insuportável harpa paraguaia na vitrola, as melhores roupas, atitudes e sorrisos, e sempre o mesmo monumento culinário que é o peru de Natal.   

Não estou me referindo ao peru de anuncio de Tv, no qual uma mulher maquiada coloca o bicho no forno, dá meia volta, o termômetro desponta, ela pega a baixela e é ovacionada na mesa. O peru a que me refiro é um empreendimento que começa na compra, passa por um tempero de 24 horas com uns 20 ingredientes, e termina no destrinchar. Peru de Natal de respeito tem receita mais complicada que manual de videocassete, e acho que é por isso que só é feito uma vez por ano. Para a cozinheira esquecer que foi trabalhoso ansiar pelo censo afetivo e cair na besteira de fazer de novo.

Este ano meu Natal não terá um peru monumento. Vai ter só um peito que pretendo cobrir com bacon para ficar mais interessante. Nossa ceia será singela, um símbolo desse Natal dividido, esvaziado e cheio de saudades. Ceia que está mais para um vizinho de roupa vermelha em cima de um bugre do que para um Papai Noel nórdico num trenó com renas. Mas deve ter lá alguma magia (além de bacon, que sempre ajuda), que vai servir para perpetuar a tradição até o ano que vem.

***MARTHA BATALHA

OUTROS OLHARES

NASCIDOS DESIGUAIS

Por que melhorar agora a saúde dos recém-nascidos é mais importante do que jamais foi

Uma razão para esse número alarmante é que afro-americanos têm taxas mais altas de diabetes, hipertensão e asma, doenças ligadas aos piores desfechos após a infecção por coronavírus. Décadas de pesquisa mostram que esses problemas de saúde, em geral diagnosticados na idade adulta, podem refletir dificuldades enfrentadas ainda no útero. Crianças não nascem em igualdade de condições. Fatores de risco relacionados à pobreza materna, como desnutrição, fumo, estresse ou falta de cuidados durante a gravidez, podem predispor os bebês a doenças futuras. E as mães de comunidades minoritárias tinham e têm maior probabilidade de estarem sujeitas a esses riscos.

Os afro-americanos idosos, que são os mais ameaçados pela Covid-19, têm mais chances de terem nascido na pobreza. Em 1959, 55% dos negros nos EUA tinham renda abaixo da linha de pobreza, ante menos de 10% dos brancos. Hoje, 20% dos americanos negros vivem abaixo da linha de pobreza, enquanto a taxa de pobreza entre os brancos segue quase igual. Apesar da redução na desigualdade de renda, o racismo atua por rotas tortuosas para piorar as chances das crianças das minorias. Por exemplo, por causa das práticas pelas quais as instituições financeiras e outras instituições dificultam a compra de residências por negros em áreas predominantemente brancas, mesmo os afro-americanos em melhor situação têm mais chances de viver em áreas poluídas do que os brancos mais pobres, com um impacto correspondente na saúde do feto. É preocupante que os menos favorecidos desde o útero tenham probabilidade maior de ganhar menos e ter conquistas educacionais menores e, desta forma, os efeitos da pobreza e da discriminação podem perdurar por gerações.

Pesquisadores agora possuem evidências concretas deque programas específicos podem melhorar a saúde e reduzir a desigualdade. Expansões do seguro de saúde pública oferecido às mulheres, bebês e crianças no âmbito do Medicaid e do Programa de Seguro-Saúde das Crianças já tiveram um efeito tremendo, melhorando a saúde e o bem-estar de uma geração, com maior impacto entre crianças afro-americanas. E intervenções após o nascimento podem, com frequência, reverter boa parte dos danos sofridos no pré-natal. Junto com outros pesquisadores, mostrei que programas de nutrição para grávidas, bebês e crianças; visitas domiciliares por enfermeiras durante a gravidez e após o parto; cuidados de alta qualidade com as crianças; e suporte à renda podem melhorar os resultados para crianças menos favorecidas. Essas intervenções chegaram muito tarde para ajudar os nascidos nos anos 1950 ou antes, mas reduziram as diferenças de saúde entre crianças pobres e ricas, assim como entre crianças brancas e negras, nas décadas posteriores.

Mas persistem as enormes disparidades em saúde e vulnerabilidades, levantando questões sobre o futuro das crianças nascidas durante essa pandemia das mães mais pobres. É alarmante que, pouco antes de a pandemia eclodir, muitos dos programas mais essenciais estavam sendo cortados. Desde o começo de 2018, mais de um milhão de crianças perderam a cobertura do Medicaid por causa de novas exigências de trabalho e outras regulações e muitas ficaram sem seguro. Agora que o número de mortes da Covid-19 expôs as desigualdades gritantes em situações de saúde e seus riscos inerentes, os americanos precisam agir para reverter esses retrocessos e fortalecer os sistemas de saúde pública e a rede de seguridade social com especial atenção para os cuidados com as mães, os bebês e as crianças.

O INVERNO DA FOME

Décadas de observação e análises revelaram as muitas formas pelas quais o ambiente fetal afeta a saúde e as perspectivas futuras de uma criança, mas muitas continuam misteriosas. Seria antiético realizar experimentos para medir o impacto sobre um feto da desnutrição ou da poluição, por exemplo. Mas podemos buscar os chamados experimentos naturais – eventos que causam variações nesses fatores de forma a simular o experimento de fato. O epidemiologista David Barker afirmou nos anos 1980 que a desnutrição durante a gravidez poderia “programar” bebês no útero a desenvolverem problemas futuros como obesidade, doenças cardíacas e diabetes. As evidências iniciais para essas ideias vieram de estudos do “Inverno da Fome” na Holanda. Em outubro de 1944, os invasores nazistas cortaram os suprimentos de alimentos para a Holanda e, em abril de 1945, a fome grassava. Décadas mais tarde, registros militares, médicos e de emprego mostraram que os homens adultos cujas mães foram expostas à fome durante a gravidez tinham o dobro de chances de serem obesos na comparação com os outros homens, e probabilidade maior de sofrerem de esquizofrenia, diabetes ou doença cardíaca. Os nascidos na Holanda, durante a grande fome são parte de um grupo que pôde ser acompanhado ao longo do tempo por uma variedade de registros. Hoje, muitos pesquisadores, incluindo eu, buscam experimentos naturais para delinear esses grupos e assim destrinchar os impactos de longo prazo de experiências prejudiciais sofridas ainda no útero.

Também dependemos muito da medida de saúde do recém-nascido mais usada: o peso ao nascer. Um bebê nascer com peso “baixo”; definido como menos de 2.500 gramas, ou “muito baixo” menos de 1.500 gramas. Quanto mais baixo, maior o risco de óbito infantil. Fizemos enormes progressos para salvar bebês prematuros, mas crianças com baixo peso ao nascer ainda apresentam risco muito maior de complicações como hemorragia cerebral e problemas respiratórios que podem levar a deficiências de longo prazo.

Nos últimos anos, análises de computador de registros eletrônicos em larga escala tornou possível conectar a saúde infantil, medida pelo peso ao nascer, a ocorrências de longo prazo não só para grupos, mas também para indivíduos. Estudos com gêmeos ou irmãos que têm herança genética e social semelhantes, mostram que aqueles com peso mais baixo no nascimento são os que têm maior probabilidade de sofrerem de asma ou ‘Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) quando ficam mais velhos.

Vários estudos também mostraram que gêmeos ou irmãos com peso mais baixo ao nascer têm pontuação piorem testes. Quando adultos, terão maior probabilidade de receberem salários mais baixos, residirem em área de renda mais baixa ou precisarem de programas de auxílio a pessoas com deficiência. Em conjunto, estudos de grupos e irmãos demonstram que baixo peso ao nascer é prognóstico de diversos desfechos adversos de saúde mais tarde, incluindo maior probabilidade de asma, doença cardíaca, diabetes, obesidade e alguns problemas de saúde mental.

O peso ao nascer não captura todos os aspectos da saúde: um feto ganha a maior parte de seu peso no terceiro trimestre, por exemplo, mas muitos estudos mostraram que choques no primeiro trimestre são particularmente prejudiciais. De qualquer forma, eu uso a medida em meus estudos porque é importante e comumente disponível, tendo sido registrado para dezenas de milhões de bebês por décadas.

É significativo que o peso baixo ao nascer seja muito mais comum em bebês de mães pobres e de minorias. Em 2016, 13,5% das mães afro-americanas tiveram bebês com baixo peso, ante 7% das brancas não hispânicas e 7,3% das mães hispânicas. Entre aquelas com curso superior, 9,6% das mães negras tiveram bebês com baixo peso ao nascer, ante 3,7% das mães brancas não hispânicas. Essas desigualdades na saúde ao nascer refletem grandes diferenças na exposição a diversos fatores que afetam a saúde do feto.

A CONEXÃO POBREZA

Como dissemos, a qualidade da nutrição da mãe influencia substancialmente a saúde dos bebês. Em 1962, o geneticista James V. Noel levantou a hipótese de que um chamado gene parcimonioso teria programado os ancestrais coletores-caçadores da humanidade para reter toda caloria que pudessem conseguir e que, nos tempos modernos, essa tendência, combinada com uma abundância de alimentos altamente calóricos, levaram à obesidade e ao diabetes. Mas estudos recentes com cobaias indicam que a ligação entre fome e doença não é de origem genética e sim epigenética, alterando o modo como determinados genes são “expressados” como proteínas. A privação prolongada de calorias em uma ratazana grávida, por exemplo, desencadeia mudanças na expressão dos genes em sua cria que a predispõem ao diabetes. Além disso, o efeito pode ser transmitido por gerações.

A total inanição é agora rara em países desenvolvidos, mas mães mais pobres nos EUA com frequência não têm uma dieta rica em frutas e verduras, que contêm micronutrientes essenciais. Deficiências na ingestão de ácido fólico durante a gravidez estão relacionadas com defeitos no tubo neural das crianças, por exemplo.

Hoje uma das principais causas de baixo peso ao nascer nos EUA é o fumo durante a gravidez. Nos anos 1950, as grávidas ouviam que o fumo não gerava risco para o bebê. Cerca de 50% de todas as novas mães em 1960 disseram que fumaram na gravidez. Hoje, apenas 7,2% das grávidas se declaram fumantes. E 55%das mulheres que fumaram nos três meses antes de ficarem grávidas abandonaram o cigarro pelo menos durante a gravidez.

Mães com níveis mais altos de educação têm menos chances de fumarem, possivelmente porque na faculdade o fumo é desaconselhado. E 11, 7% das mães que não completaram o ensino médio fumam, ante 1% das mães com bacharelado.

Entre os muitos produtos químicos prejudiciais na fumaça dos cigarros está o monóxido de carbono (CO), que restringe o volume de oxigênio transportado pelo sangue para o feto. Além disso, a nicotina afeta o desenvolvimento dos vasos sanguíneos no útero e prejudica o desenvolvimento de sistemas neurotransmissores, levando a desfechos psicológicos piores. Fumar durante a gravidez também tem sido associado com mudanças epigenéticas no feto. A recente disparada no uso de cigarro eletrônico, que propicia altas doses de nicotina e que, segundo pesquisas, foi experimentado por quase 40% dos alunos mais velhos no ensino secundário, é um desenvolvimento preocupante que pode ter implicações de longo prazo para a saúde do feto e da criança.

Outra fonte significativa de dano aos fetos é a poluição. As grávidas podem ser expostas a milhares de produtos tóxicos no ar, na água, no solo e em produtos variados em casa e no trabalho. E cada poluente atua de uma maneira diferente. Acredita-se que partículas na atmosfera sejam a causa de inflamação em todas as partes do corpo, o que tem sido relacionado com parto prematuro e, por isso, baixo peso ao nascer. O chumbo, ingerido através da água ou do ar, cruza a placenta para se acumular no feto e afeta o desenvolvimento do cérebro. Em 2005. Jessica Wolpaw Reyes, do Amherst College, mostrou que a substituição do chumbo na gasolina nos EUA levou a uma redução de até 4% na mortalidade infantil e do baixo peso no nascimento.

O feto também pode receber menos oxigênio se a mãe inalar CO do escapamento de veículos. Em um estudo de 2009 com mães que vivem perto de monitores de poluição, meus colegas e eu descobrimos que altos níveis de CO no ambiente se relacionavam ao peso reduzido ao nascer. É preocupante que os efeitos do CO da poluição do ar sejam cinco vezes mais altos para fumantes do que para não fumantes.

Reduzir a poluição pode ter benefícios imediatos para grávidas e recém-nascidos. Em um estudo de 2011, Reed Walker, da Universidade da Califórnia, e eu focamos em mães que viviam perto de praças de pedágio do sistema eletrônico de pagamento E-ZPass antes e depois do início de suas operações. Nós as comparamos com mães que viviam um pouco mais longe das praças de pedágio, mas ao longo das mesmas estradas movimentadas. Os dois grupos de mães eram expostas ao tráfego, mas antes do E-ZPass, as mães próximas das praças eram expostas a mais poluição porque os carros rodavam sem rumo enquanto aguardavam para pagar o pedágio. O E-ZPass reduziu significativamente a poluição no entorno das praças de pedágio, permitindo que os carros passassem direto. De forma surpreendente, a implantação do E-ZPass reduziu a incidência de peso baixo ao nascer em mais de 10% nos bairros mais próximos das praças.

Em outro estudo, examinamos registros de nascimento de 11 milhões de recém-nascidos em cinco estados. Descobrimos que 45% das mães viviam a cerca de 1,5 km de um local que emitia produtos químicos tóxicos, como metais pesados ou carcinógenos orgânicos, e o número chegava a 61% entre mães afro-americanas. Focando bebês de mães que viviam a 1,5 km de uma fábrica, comparamos os pesos ao nascer quando a unidade estava operando e quando estava fechada. Também comparamos bebês nascidos na faixa de 1,5 km da unidade com bebês nascidos entre 1,5 km e 3 km em torno da indústria A probabilidade dos dois grupos de mães serem afetadas pela situação econômica com a abertura e o fechamento da fábrica era similar, mas as mães que viviam mais perto tinham mais chances de terem sido expostas à poluição durante a gravidez. Descobrimos que uma fábrica em operação aumentou em 3% a probabilidade de baixo peso no nascimento entre bebês cujas mães viviam a menos de 1,5 km.

A divisão racial na exposição à poluição é profunda, em parte por causa da contínua segregação habitacional que dificulta a mudança de famílias negras para fora de bairros historicamente negros. Comunidades menos favorecidas também podem não ter poder político para evitar empreendimentos prejudiciais, como uma unidade de produtos químicos em sua região. No estudo do E-ZPass, cerca de metade das mães que viviam perto das praças de pedágio eram hispânicas ou afro-americanas, comparadas com apenas 10% das mães que viviam a mais de 9,7 km do local. E, em um estudo publicado este ano, John Voorheis, do Birô de Recenseamento dos EUA, Walker e eu mostramos que, em todo os EUA, os bairros com maior número de moradores afro-americanos apresentam sistematicamente qualidade de ar pior do que em outros bairros. Os afro-americanos também têm o dobro da probabilidade dos demais de viverem perto de aterros de lixo tóxico. Por essas razões, as medidas de controle da poluição como a Lei do Ar Limpo têm beneficiado em grande medida os afro-americanos.

LUTAR OU FUGIR

O estresse prejudica desproporcionalmente o pobre – que têm preocupações crônicas com o pagamento de contas, por exemplo – e também abala o feto. Uma situação estressante desencadeia a liberação de hormônios que comandam uma série de mudanças físicas associadas com uma resposta do tipo lutar ou fugir. Alguns desses hormônios, incluindo cortisol, têm sido ligados a partos prematuros, que, por sua vez, levam a baixo peso ao nascer. Níveis altos de cortisol em circulação na mãe durante a gravidez podem prejudicar o sistema de regulação de cortisol do feto, tornando-o mais vulnerável ao estresse. E o estresse pode desencadear respostas comportamentais na mãe, como aumento no consumo de cigarros e bebidas, o que também prejudica o feto.

Um estudo revelador indica que a exposição do feto ao estresse maternal pode ter efeitos negativos de longo prazo maiores sobre a saúde mental do que o estresse diretamente sofrido por uma criança. Petra Persson e Maya Rossin-Slater examinaram o impacto da morte de um parente próximo. A morte pode provocar muitas mudanças indesejáveis em uma família, como redução na renda, o que também pode influenciar o desenvolvimento de uma criança. Para contabilizar essas complicações, as pesquisadoras usaram dados administrativos da Suécia para comparar crianças cujas mães foram afetadas por uma morte durante o período pré-natal com filhos de mães afetadas por uma morte durante os primeiros anos da criança. Elas descobriram que as crianças afetadas por uma morte no período pré-natal tinham 23% a mais de chances de usarem medicação para TDAH com idades entre nove e 11 anos e 9% mais chances de usarem antidepressivos na vida adulta do que as crianças cujas famílias passaram por uma morte poucos anos após seu nascimento.

Outro estudo inovador mediu os níveis de cortisol, um indicador de estresse durante a gravidez. Aos sete anos, as crianças cujas mães tiverem níveis mais altos de cortisol durante a gravidez tinham cursado até um ano a menos que seus próprios irmãos, indicando que o início dos estudos delas havia sido retardado. Além disso, para qualquer nível de cortisol no sangue da mãe, os efeitos negativos eram mais pronunciados para os filhos de mães menos escolarizadas. Essa descoberta sugere que, embora o estresse durante a gravidez seja prejudicial para o feto, as mães mais instruídas sã mais capazes de atenuar os efeitos sobre seus filhos – uma descoberta importante diante do estresse severo imposto pela COVID-19 para as famílias de hoje.

Não é surpresa que doenças também possam afetar o feto. Douglas V. Almond, da Universidade Columbia, estudo pessoas nascidas no pico da epidemia de influenza de 1991 e descobriu que elas tinham 1,5 vez mais chances de serem adultos pobres do que as nascidas pouco antes. Em um trabalho que eu fiz com Almond e Mariesa Herrmann examinando mães nascidas entre 1960 e 1990 nos EUA, descobrimos que mulheres nascidas em áreas onde ocorria uma doença contagiosa apresentaram probabilidade maior de terem diabetes ao darem à luz décadas depois – e os efeitos eram duas vezes maiores para as afro-americanas. Mais recentemente, Haunse Schwandt, da Universidade Northwestern, examinou dados dinamarqueses e constatou que a infecção materna com a gripe sazonal comum no terceiro trimestre dobra a taxa de parto prematuro e baixo peso ao nascer, e a infecção no segundo trimestre leva a uma redução de 9% na renda e a um aumento de 35% na dependência da seguridade social quando a criança se torna adulta.

EVITANDO DANOS

Porém, a saúde ao nascer e depois pode ser melhorada com intervenções cuidadosas direcionadas para as grávidas, bebês e crianças, e pela redução da poluição. A rede de segurança alimentar nos EUA obteve um grande sucesso em evitar o peso baixo ao nascer em bebês de mulheres carentes. A implantação do programa de cupons de alimentos, agora chamado Programa de Assistência à Nutrição Suplementar (Snap, na sigla em inglês), em meados dos anos 1970 reduziu a incidência de baixo peso no nascimento entre 5% e 11%. Além disso, as crianças beneficiadas pelo programa cresceram com menos chances de sofrerem de síndrome metabólica, um grupo de problemas que inclui obesidade e diabetes.

Nos anos 1970 também foi introduzido o Programa de Nutrição Suplementar Especial para Mulheres, Bebês e Crianças, conhecido como WIC. Cerca de 50% das grávidas receberam alimentos nutritivos do WIC, orientação sobre nutrição e maior acesso aos cuidados médicos. Dezenas de estudos mostraram que, quando as mulheres participam do WI.C durante a gravidez, seus bebês têm menos chances de pesarem pouco ao nascer. Em recente trabalho, Alma Chorniy, Lyudmyla Sonchak e eu pudemos demonstrar que crianças cujas mães recebem WIC durante a gravidez têm menos chances de sofrerem de TDAH e outros problemas de saúde mental comumente diagnosticados na primeira infância.

No fim dos anos 1980 e início dos 1990, os governos estaduais e federal trabalharam juntos para expandir o seguro-saúde público para grávidas dentro cio programa Medicaid. Jonathan Cruber e eu demonstramos que o seguro-saúde reduziu a mortalidade infantil e melhorou o peso ao nascer. Hoje, as crianças cujas mães se qualificaram para a cobertura do seguro-saúde à gravidez naquele período têm níveis mais altos de frequência em faculdades, emprego e renda do que as crianças de mães não atendidas pelo programa. Elas também apresentam taxas mais baixas de doenças crônicas e têm menos chances de terem sido hospitalizadas. Os efeitos estimados são mais poderosos para as afro-americanas, que, tendo renda média menor, se beneficiaram mais da expansão. O fato de que esses bebês apresentam mais chances de terem cursado faculdade aumentará as chances de vida de seus filhos. Nos EUA, um ano adicional de ensino superior da mãe reduz a incidência de baixo peso ao nascer nos filhos em 10%. Mesmo assim, muitas crianças ainda nascem com baixo peso, em especial se a mãe é negra. Mas, intervenções que ocorrem depois do nascimento podem melhorar seus resultados. Programas como a Parceria Enfermeira-Família incluem visitas em casa de enfermeiras a mulheres de baixa renda que estejam grávidas pela primeira vez, muitas das quais são jovens e solteiras. A enfermeira visita a residência todo mês ao longo da gravidez, e durante os dois primeiros anos de vida do bebê, para dar orientação sobre comportamento saudável. Essa assistência reduz o abuso infantil e o crime adolescente e melhora as conquistas acadêmicas da criança.

A ajuda financeira às famílias pobres com crianças pequenas também melhora a saúde materna, e os prognósticos da criança, sugerindo que o auxílio pago durante a Covid-19 também terá importantes efeitos protetores. Nos EUA, o maior programa em atividade desse tipo é o Crédito para o Imposto de Renda (EITC, na sigla em inglês). Estudos dos beneficiários do EITC mostraram que crianças em famílias que receberam o benefício tiveram resultados melhores nos testes escolares. Com o estresse financeiro sendo aliviado de alguma forma, a saúde mental das mães nessas famílias também melhorou. Ademais, programas de educação de qualidade para a primeira infância aumentam a saúde, a educação e a renda e reduzem o crime no futuro. Head Start, o programa de pré-escola financiado pelo governo federal implantado nos anos 1960, teve efeitos positivos substanciais nos resultados em saúde e educação, sobretudo em locais com menos acesso aos centros de cuidados infantis.

OLHANDO ADIANTE

Investimentos em grávidas e crianças têm dado retorno, com reflexo na queda acentuada das taxas de mortalidade infantil nos EUA apesar do aumento da desigualdade de renda e saúde. Mas é alarmante que muitos programas de sucesso, como Lei do Ar Limpo, o SNAP e o Medicaid, estejam sob ataque. A legislação Cares (sigla para “Coronavírus Aid, Relief e Economic Security”) aprovada em março ofereceu algum alívio, pelo menos em relação ao Medicaid. O Cares suspendeu temporariamente o desligamento do programa, dando flexibilidade adicional a programas estaduais de Medicaid em termos de prazos e elegibilidade de procedimentos. Mas os estados podem sofrer dificuldades ao incluírem os muitos que se tornarão elegíveis ao Medicaid por causa de perda de emprego. Além disso, estados que não expandiram o programa Medicaid para cobrir adultos de baixa renda inelegíveis, como prevê a Lei de Cuidados de Saúde Acessíveis, podem ver muito mais pessoas sem seguro-saúde. Um relatório das Academias de Ciência, Engenharia e Medicina publicado no ano passado delineou um roteiro para reduzir a pobreza infantil à metade em dez anos. Uma das descobertas mais impressionantes do estudo é que é viável atingir essa meta com a expansão de programas já existentes.

Diagnosticar e tratar condições como pré-eclâmpsia (pressão alta associada à gravidez) é essencial para proteger os bebês e reduzir a mortalidade das mães. É importante ajudar a grávida a parar de fumar e desenvolver novos métodos para uma nova geração viciada em cigarro eletrônico. Também é preciso adotar proteções mais fortes para mulheres em risco de violência doméstica, que leva diretamente a estresse crônico, parto prematuro e baixo peso no nascimento.

Uma questão em aberto importante é qual efeito a pandemia terá sobre a geração de crianças afetadas por ela no útero e início da vida. A Covid-19 em si pode ter efeitos negativos para o desenvolvimento do feto, embora a melhor informação disponível até agora sugira que as grávidas não são especialmente passíveis de se tornaram criticamente doentes e que os bebês afetados não estão apresentando defeitos óbvios ao nascer. Mesmo assim, considerando-se o fato de que a Covid-19 afeta muitos sistemas do corpo, ela pode revelar efeitos negativos sutis no desenvolvimento do feto. A pandemia também é um evento muito estressante acompanhado pela pior recessão desde a Grande Depressão. Há relatos de aumento na violência doméstica, consumo de álcool e overdoses de drogas, todos prejudiciais ao desenvolvimento do feto. Em consequência, a geração agora no útero provavelmente estará em maior risco e vai necessitar de investimentos sociais para superar seu início mais pobre na vida.

Em um recente sermão sobre o falecido líder dos direitos civis John Robert Lewis, o reverendo James Lawson relembrou os ganhos que esse movimento trouxe a americanos de todas as cores. Ele pediu que os líderes políticos da América “trabalhem em favor de cada garoto e de cada garota, para que cada bebê nascido nessas plagas tenha acesso à arvore da vida… para que todas as pessoas dos EUA determinem que não sossegaremos enquanto uma criança morrer no primeiro ano de vida. Não ficaremos quietos enquanto o maior grupo na pobreza em nossa nação seja o de mulheres e crianças”. À medida que reconstruímos nossas despedaçadas redes de seguridade e sistemas de saúde pública após a Covid-19, precisamos aproveitar o momento para usar o conhecimento que ganhamos acerca de como proteger mães e bebês – para dar a cada criança a oportunidade de florescer.

ASMA, POLUIÇÃO E SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL

As taxas de asma entre os negros eram duas vezes mais altas do que as de outras pessoas nos EUA em 2010. Parte dessa disparidade vem do baixo peso ao nascer, que está ligado à asma e é mais comum entre crianças negras. Esses gráficos ilustram o impacto da poluição e da segregação racial nas taxas de asma. Eles comparam crianças de Nova Jersey em bairros onde mais de 25% das crianças são negras com crianças de todos os demais bairros. A comparação dos painéis à esquerda e à direita mostra que o baixo peso ao nascer tem um efeito maior sobre as taxas de asma entre crianças de todas as raças nos bairros onde a maioria das crianças negras vive. Assim, a segregação residencial, que resulta em maior probabilidade de as crianças negras viverem em locais mais poluídos, se soma aos efeitos negativos do baixo peso ao nascer.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE DEZEMBRO

EMBRIAGUEZ, VERGONHA PARA A FAMÍLIA

E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução… (Efésios 5.18a).

Estou farto de ver homens tombados nas sarjetas, vencidos pelo álcool. Estou cansado de ver mulheres sofridas, carentes e humilhadas indo a antros do vício buscar seu cônjuge trôpego e coberto de vômito para levá-lo para casa. Estou triste de ver filhos chorando por pais que se arrastam na lama por causa desse vício maldito, e de ver pais sofrendo por causa de filhos prisioneiros da dependência química. O álcool é o maior ladrão de cérebros do mundo, o maior causador de acidentes, crimes passionais, separações dolorosas e famílias destruídas. Aqueles que agem sob sua influência lotam as cadeias e suas vítimas povoam os cemitérios. A Bíblia fala de Nabal, um homem rico, porém insensato (1Samuel 25.1-38). Entregue à embriaguez, fazia festa de rei sem ser rei. Movido pelo álcool, tornou-se duro no trato e incomunicável. Embalado pela avareza, tornou-se mesquinho. Sua embriaguez roubou-lhe a lucidez e custou-lhe a vida. Há muitos lares ainda hoje machucados e feridos pelos efeitos nocivos do álcool. Há muitos casamentos destruídos por causa da embriaguez. Há muitos filhos revoltados e cheios de vergonha por verem seus pais prisioneiros desse vício degradante. Há muitos jovens cativos do álcool, encurtando seus dias e lançando sua alma num abismo de dor e angústia. Em vez de sermos cheios de álcool, devemos ser cheios do Espírito. A embriaguez produz dissolução e morte, mas a plenitude do Espírito produz comunhão, adoração e gratidão.

GESTÃO E CARREIRA

VENCEDORAS DA PANDEMIA

Que crise? Para as empresas do setor tecnológico, a pandemia só aumentou a demanda por serviços digitais — uma tendência antecipada que veio para ficar

A ideia surgiu ainda em 2003, quando dois engenheiros de software da Amazon tiveram uma sacada genial. Eles propuseram que o gigante do varejo online usasse sua vasta infraestrutura tecnológica para hospedar os serviços digitais de outras companhias. Fazia sentido, uma vez que a capacidade de processamento dos data centers da Amazon ficava ociosa durante boa parte do tempo. Passados mais de 15 anos, a divisão de computação em nuvem da empresa, conhecida como Amazon Web Services (AWS), tornou-se um negócio de 35 bilhões de dólares e uma operação que se mostrou vital durante a pandemia do novo coronavírus — não só para a Amazon mas também para empresas de diversos segmentos.

Se o leitor participou de uma reunião por video­conferência, assistiu a uma série da Netflix, usou um programa de edição de textos online, fez um pedido a um restaurante por meio de um aplicativo ou realizou algum pagamento usando uma plataforma digital, é bem provável que tenha utilizado uma das redes públicas da Amazon ou de um dos outros gigantes provedores de computação em nuvem, como Microsoft, Google, IBM, Dell, Oracle, HPE e Cisco.

Nenhuma empresa deve sair ilesa da crise. No entanto, as companhias de tecnologia tendem a ser beneficiadas pela digitalização impulsionada (para não dizer forçada) pela pandemia. Em todo o mundo, milhares de companhias das mais variadas áreas tiveram de migrar, às pressas, suas operações para o ambiente digital, o que provocou uma corrida aos serviços das provedoras de nuvem. No primeiro trimestre deste ano, as três companhias líderes do setor (Amazon, Microsoft e Google) tiveram juntas um incremento de 6,1 bilhões de dólares no faturamento de suas unidades de computação em nuvem, um aumento de 32% em relação ao ano passado. Ao todo, elas faturaram 25,2 bilhões de dólares nos primeiros três meses do ano. Só na Microsoft, a demanda pela plataforma de computação em nuvem Azure saltou 59%. No Google, o faturamento da área subiu 52%. ”A covid-19 mudou a percepção que muitas empresas tinham sobre a computação em nuvem”, afirma Thomas Kurian, presidente global da unidade de nuvem do Google (leia entrevista abaixo). Por esse motivo, o setor de computação em nuvem tende a ser um dos mais resilientes na crise. Enquanto os gastos com tecnologia da informação devem cair 8% no mundo em 2020, o mercado de nuvem deverá crescer 19%, de acordo com a consultoria Gartner. Olhando para a frente, a digitalização dos negócios é um caminho sem volta. Nos próximos quatro anos, a expectativa é que o mercado de computação em nuvem dobre de tamanho, chegando a 550 bilhões de dólares. ”Quando sairmos da pandemia, as empresas terão de investir em tecnologia. O digital é o caminho para superar a crise”, diz John-David Lovelock, vice­ presidente de pesquisa da Gartner.

Mais do que nunca, os serviços online foram fundamentais para que as empresas pudessem manter suas operações. ”O mundo só não parou por causa dos serviços de nuvem. Eles também são os heróis desta pandemia”, diz Pietro Delai, gerente de pesquisa da consultoria IDC para a América Latina. A expectativa de maior demanda reflete-se no preço das ações das companhias de tecnologia. Depois de uma queda brusca nos meses de fevereiro e março, o valor dos papéis de empresas como Microsoft e Amazon já haviam se recuperado em junho e as companhias voltaram a bater recordes de valor de mercado. Juntas, as duas valem mais de 2,8 trilhões de dólares, três vezes o valor de todas as 330 companhias brasileiras listadas na B3 (760 bilhões de dólares). ”A gente está apenas no início de uma jornada, dado que hoje só 5% do investimento global de TI é gasto em nuvem. Há uma oportunidade grande para crescer”, diz Cleber Morais, presidente da AWS no Brasil.

Um dos símbolos da transformação digital na pandemia é a plataforma de videoconferência Zoom, cujas ações valorizaram 270% em 2020. A empresa projeta que o faturamento quase triplicará neste ano fiscal, chegando a 1,8 bilhão de dólares. O Zoom já vale 72,4 bilhões de dólares, mais do que a montadora Ford ou a companhia aérea American Airlines. E o número de participantes diários em reuniões passou de 10 milhões em dezembro para mais de 300 milhões em abril. No fim de fevereiro, a empresa já tinha conquistado mais novos usuários do que em todo o ano de 2019. Em um cenário de home office prolongado, o objetivo do Zoom e dos concorrentes Microsoft Teams, Google Meet e outros não é só surfar a onda na pandemia, mas aproveitar a mudança de comportamento de longo prazo acelerada por ela.

Numa empresa como a IBM, outra importante fornecedora de computação em nuvem, a crise fez com que as equipes tivessem de correr para auxiliar os clientes a migrar para a nuvem. O primeiro desafio foi configurar todos os sistemas para que os funcionários pudessem trabalhar remotamente. Depois, o objetivo foi ajudar os clientes a criar aplicações já adaptadas ao novo cenário digital. ”Em uma grande varejista, vimos um aumento do comércio eletrônico de 40%, 45%”, afirma Ana Paula Assis, presidente da IBM para a América Latina. ”Clientes com resistência à tecnologia não tiveram alternativa senão buscar essa solução.”

Foi com um serviço de nuvem, fornecido pela AWS, que a empresa de meios de pagamentos Cielo foi capaz de expandir um novo serviço criado no ano passado, chamado Super Link. A ferramenta permite aos lojistas enviar um link a um cliente (pelo WhatsApp, por exemplo) para que ele faça o pagamento remotamente. Antes da pandemia, 3.000 estabelecimentos estavam cadastrados para utilizar o recurso. Em poucos meses, esse número saltou para 800.000 em todo o país e a quantidade de transações subiu 650%. ”A vantagem da nuvem é o tempo para desenvolver uma solução desse tipo. E nos dá uma flexibilidade de ligar e desligar a infraestrutura de forma muito simples”, diz Danilo Zimmermann, vice-presidente de projetos e tecnologia da Cielo.

A digitalização favoreceu também as companhias brasileiras do setor de tecnologia. Uma delas é a empresa de serviços de internet Locaweb. A empresa de 22 anos abriu o capital em fevereiro. E o coronavírus não atrapalhou os planos. Os meses da pandemia foram os melhores da história. Em abril, o número de novas lojas online que usam o serviço saltou 252%. ”Somos um ecossistema em que as PMEs encontram tudo o que estão precisando agora para se digitalizar”, diz Fernando Cirne, presidente da Locaweb. Uma das estrelas do portfólio é o app para restaurantes Delivery Direto, comprado em 2018, cujo o número de clientes quadruplicou. Com a demanda em alta, a empresa fez 152 contratações – e há mais de 70 vagas em aberto. A ação, que começou sendo vendida na casa dos 20 reais, acumula alta de mais de 100%.

Se a crise assusta alguns e empolga outros, há quem encare a pandemia de forma mais natural. ”Nós crescemos em todas as crises. Em 2008 e 2009, dobramos de tamanho sem realizar nenhuma aquisição”, afirma Marco Stefanini, fundador da Stefanini, uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil, com um faturamento estimado em 3,3 bilhões de reais em 2019. Para este ano, a previsão é que haja um crescimento de 15% a 20%. O grande trunfo da companhia foi um contrato de cinco anos firmado com um cliente americano, de nome não revelado, no valor de 100 milhões de dólares. A empresa apostou em um plano de aceleração dos negócios e alcançou em três meses algumas das metas previstas para os próximos três anos. A companhia atende clientes dos mais diversos segmentos. A queda no volume de negócios da indústria automotiva e das redes de academias foi compensada pela alta no setor financeiro e por um forte crescimento do varejo impulsionado pelo comércio eletrônico.

Com o capital aberto na B3 desde 2013, a companhia de software para o varejo Linx viu o valor de suas ações cair e se recuperar no primeiro trimestre. A alta recente se deu pelo impulso ao comércio eletrônico. Um dos pontos- chave para a virada foi a aquisição de duas empresas para auxiliar na digitalização do varejo. Em janeiro, a empresa adquiriu a fintech PinPag por 135 milhões de reais. No mês seguinte, pagou 17,6 milhões pela Neemo, uma plataforma de delivery de restaurantes. ”O timing não poderia ter sido melhor”, diz Alberto Menache, presidente da companhia. Segundo ele, as vendas em maio pela plataforma cresceram 350% em relação a janeiro, adicionando 540 restaurantes ao serviço. A plataforma de e-commerce, que atende desde varejistas tradicionais, como Walmart e Lojas Pernambucanas, até redes de padarias, lojas de conveniência e drogarias, teve um crescimento de 154% entre janeiro e maio.

Não serão só as empresas de capital aberto que sairão vencedoras da crise. Companhias bem posicionadas para atuar no mercado digital estão registrando crescimento significativo. Uma delas é a VTEX, que possui uma plataforma que unifica os canais de venda do varejo. Fundada em 1999, a empresa tem cerca de 3.000 clientes em 41 países, com escritórios em 16 cidades do mundo. No final de 2019, recebeu um aporte de 580 milhões de reais liderado pelo fundo japonês SoftBank. Em maio e junho de 2020, as vendas online pela plataforma subiram mais de 100% em relação ao ano passado no Brasil. ”A demanda aumentou nos mais diversos níveis. Desde aquela loja que abriu no digital durante a pandemia até a outra que achava que estava preparada e não deu conta do número de pedidos”, diz Rafael Forte, presidente da VTEX no Brasil. A equipe de vendas, composta de 30 pessoas em março, dobrou de tamanho.

Um cliente da VTEX que teve de repensar sua estratégia digital foi a varejista de moda C&A. Com o fechamento das mais de 280 lojas físicas, a empresa precisou adotar uma solução para que seus vendedores continuassem trabalhando. ”Desenvolvemos em um dia uma solução de social selling”, diz Forte, da VTEX. Por meio do WhatsApp, o funcionário conversa com o cliente, apresenta os produtos, monta um carrinho de compras virtual e envia um link para fechar a venda. No total, 500 funcionários da rede trabalham com o WhatsApp.

Empresas que atuam no segmento de educação online foram acionadas como nunca durante a pandemia. A startup mineira Samba Tech, fundada por Gustavo Caetano em 2008, é uma delas. Especializada em comunicação corporativa com a utilização de vídeos online, a companhia recebeu dezenas de pedidos de grupos de educação em busca de ajuda para montar um modelo seguro de ensino remoto. ”Nos primeiros 100 dias de home office, a gente teve mais de 1,7 milhão de alunos novos na plataforma”, diz Caetano. Além dos clientes, a empresa ofereceu seus serviços à rede pública de ensino de Minas Gerais. No total, de janeiro a abril, 19 milhões de pessoas acessaram vídeos dentro da plataforma. De fevereiro a abril, o consumo de vídeos na plataforma via dispositivos móveis subiu 308%; e por computadores, 506%. Para sustentar o aumento do volume, a empresa contratou mais de 40 pessoas. A Samba Tech também lançou um produto de videoconferência, que estava sendo testado desde 2019, em parceria com a Cisco, para atender a grupos de educação e empresas. Na pandemia, foram conquistados 40 novos clientes. A companhia atualmente tem mais de 400 clientes, entre eles os grupos Cogna, Ser Educacional e Damásio. ”A demanda por ensino à distância era crescente, mas agora aumenta mais rapidamente – e a gente continua apostando nisso”, afirma Caetano.

Em todos os setores, a pandemia tem mostrado que a necessidade de adaptar-se ao digital não é mais uma questão de escolha, e sim de sobrevivência. O uso de ferramentas digitais, que já era uma realidade antes da covid-19, só deve acelerar. Um levantamento recente realizado pelo banco suíço UBS estima que na próxima década o volume de dados que trafegam pela internet crescerá dez vezes, chegando a 456 zettabytes, um volume suficiente para ocupar 840 iPhones de 64 gigabytes para cada habitante do planeta. E, até lá, o número de pessoas com acesso à internet alcançará 6,6 bilhões – 2 bilhões além do nível atual. ”A gente tem a oportunidade de olhar as características e as condições dessa nova realidade de outra perspectiva. O digital vai ser o novo normal para a grande maioria das empresas”, afirma Fernando Lemos, diretor de tecnologia da Microsoft no Brasil. É uma virada que veio para ficar.

20 ANOS DE TRANSFORMAÇÃO

Em duas décadas, o perfil das maiores companhias americanas mudou e hoje ainda predominam as empresas de internet e tecnologia

DIGITAIS E VALIOSAS

As ações das empresas de tecnologia tiveram um desempenho muito acima do principal índice das companhias de capital aberto dos Estados Unidos

O PODER DA ECONOMIA DIGITAL

O aumento da demanda por serviços digitais favorece a expansão de mercados ligados à nova economia

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – III

À FLOR DA PELE

Coceiras? Manchas? A ansiedade em excesso pode refletir em doenças pelo corpo.

A cada dia, novas pesquisas comprovam que o transtorno de ansiedade generalizada tem ligações com outros distúrbios mentais. No entanto, o sinal de alerta despertado pela ansiedade também faz com que o mecanismo do corpo se altere, resultando em alterações físicas.

CÉREBRO EM ALERTA

Quando um quadro de ansiedade se instala, doenças psicossomáticas, isto é, ligadas ao mesmo tempo ao corpo e à mente, se manifestam das mais diversas formas. Elas surgem quando a região do hipotálamo no cérebro tem seu funcionamento alterado devido a emoções fortes, como a ansiedade. Isso implica diretamente no trabalho da hipófise, uma glândula ligada ao hipotálamo e responsável por produzir hormônios, que controlam várias funções do organismo. “O nível de estresse e ansiedade reflete e se expressa em nossa aparência física devido a toda a mudança do sistema hormonal, que passa a ser abalado com o transtorno de ansiedade”, afirma a psicóloga Maura de Albanesi.

SENTINDO NO CORPO

Pequenos ferimentos, coceira generalizada, falhas no couro cabeludo, entre outros sinais, podem indicar uma auto manipulação de um indivíduo com transtorno de ansiedade. “Estima-se que 40% dos pacientes que procuram um dermatologista têm algum problema emocional. Além da relação com doenças psíquicas mais graves, os problemas emocionais também estão associados às dermatoses mais comuns, como vitiligo e psoríase”, afirma a dermatologista Deusita Fernandes Gandia Soares.

VITILIGO

Caracterizada por manchas brancas de tamanhos e formas diferentes por todo o corpo, o vitiligo não é contagioso e costuma ocorrer em pessoas jovens. Apesar de sua causa ainda não ser totalmente esclarecida, diversos estudos apontam uma relação com aspectos emocionais, como a ansiedade e o estresse em excesso. Diversos pacientes relataram o aparecimento das primeiras manchas após traumas emocionais ou fases conturbadas da vida. Acredita-se que as variações emocionais possam desequilibrar o organismo, favorecendo alterações hormonais e imunológicas.

Não há cura para o transtorno, porém, é possível um controle por meio de medicamentos e terapia com psicólogo. “A terapia ajuda o ansioso a lidar com a vida de uma forma mais equilibrada e menos acelerada, até para lidar paulatinamente com o que ele pode e não pode  realizar, além de aliviar a cobrança “, indica Maura.

PSORÍASE

Uma das principais doenças ligadas a problemas com o controle da ansiedade e do estresse é a psoríase. Ela é crônica e não contagiosa, tendo suas causas ainda desconhecidas – no entanto, sabe-se que pode estar relacionada ao sistema imunológico, às interações com o meio ambiente e a genética. “Pessoas com altos níveis de estresse possuem sistema imunológico debilitado. E há observações de que a tensão emocional e o estresse podem influenciar no surgimento das crises de psoríase”, explica a dermatologista.

A psoríase se manifesta em crises, caracterizadas por erupções de placas vermelhas cobertas por escamas esbranquiçadas ou rosadas nos membros e no couro cabeludo. Seu acompanhamento é fundamental para que não interfira na qualidade de vida.

Nos casos leves, hidratar a pele, aplicar medicamentos tópicos na região das lesões e exposição diária ao sol são suficientes para melhorar o quadro.  Em casos moderados, faz-se necessário o tratamento com exposição à luz ultravioleta A (chamado de PULVAterapia). Essa modalidade terapêutica utiliza combinação de medicamentos que aumentam a sensibilidade da pele à luz, os psoralenos (P) com a luz ultravioleta A (UVA), geralmente em uma câmera emissora da luz”, explica Deusita. Já em casos graves, é necessário o tratamento com medicação via oral ou injetáveis.

Por ter um impacto significativo na autoestima do paciente, o estresse e a ansiedade gerados podem ainda piorar o quadro. “Assim, o acompanhamento psicológico é indicado em alguns casos. Outros fatores que impulsionam a melhora e até o desaparecimento dos sintomas são uma alimentação balanceada e a prática de atividade física”, ressalta a dermatologista.

GASTRITE E ÚLCERAS

Não é difícil encontrar alguém que basta ficar um pouco nervoso ou ansioso para começar a sentir fortes dores no estômago. Este é um caso de gastrite nervosa que, se não tratada, pode evoluir para uma úlcera.

Azia, enjoo e sensação de peso na barriga são sinais da elevação da quantidade de ácido clorídrico produzido pelo estômago, que passa a corroer a parede do órgão. Isso se dá devido ao alto nível de estresse e ansiedade que o cérebro identifica como perigo.

EU ACHO …

VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL A UM CLIQUE

Poderosa indústria pornográfica retroalimenta absurdo de forma perversa

Uma menina chinesa adotada por um casal americano é forçada a participar de vídeos pornográficos aos nove anos de idade. Aos 23, ela ainda luta para que seus vídeos parem de circular na internet.

Imagino que você, como eu, pense imediatamente na chamada deep web, na qual pessoas de bem não estão, porque é onde circula o crime. Mas não. Segundo a reportagem recente do New York Times, reproduzida pela Folha, estamos falando do Pornhub, um site que tem 3,5 bilhões de visitas por mês, mais do que Netflix, Yahoo ou Amazon.

Vamos então falar um pouco sobre internet e violência sexual. Há quatro anos, quando criamos o Instituto Liberta e nos aprofundamos no drama da exploração sexual de crianças e adolescentes, constatamos que digitar “novinha” no Google nos leva a inúmeras imagens e vídeos de cunho sexual. À época relacionamos as letras de funk e sua apologia à figura do “sexo com novinhas” e pensamos em como enfrentar isso.

Mais tarde, quando conhecemos Gail Dines, socióloga britânica que há 27 anos estuda a indústria da pornografia e sua influência e reflexos na sociedade, entendemos que o funk tem muito dessa cultura pornográfica que moldou as novas gerações. O estilo musical não é origem do problema, é resultado.

Mergulhamos então nos sites de pornografia e encontramos filmes como “pai se divertindo com a filha” ou “professor dando nota para aluna. Apesar de muitas meninas parecerem adolescentes, supomos que são maiores de idade; afinal, estamos em sites adultos, pagos com cartões de crédito. Mas este fato não tira a gravidade da questão, já que se trata de incitação à violência sexual. Esta banalização da violência sexual infantil é tratada na nota técnica nº 11/1.017, documento do Ministério Público Federal (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão) que fala justamente sobre isso e é denominado “liberdade de expressão artística em face da proteção de crianças e adolescentes”.

Para que o vídeo seja considerado criminoso, a nota conclui que é necessário que haja efetivamente a participação de criança ou adolescente. Não concordo de forma alguma, pois entendo que uma sociedade que tem como fundamento a dignidade da pessoa humana não pode pactuar com certos comportamentos. Mas o que o texto do New York Times nos mostra aqui, ao contrário do que supúnhamos, muitos desses filmes são violências reais, abusos e estupros, não simulações.

O que ocorre é que o Pornhub, de forma leviana e ancorado na tese da irresponsabilidade de sites e plataformas por conteúdo postado por usuários, aceita todos os vídeos sem (ou quase sem) nenhum filtro. E são cerca de 6,8 milhões por ano, muitos deles de violências sexuais que estão ajudando a divulgar.

Em decorrência de pressões da sociedade civil, o site decidiu banir termos de busca como “estupro”, “pré-adolescente” e “pedofilia” (imagine que eles existiam!). No entanto, se você digitar algo como “estupro” encontrará 1.901 vídeos.

Mas tem solução? O que é possível fazer Nicholas Kristof, que assina a reportagem, ao final sugere três ações bem simples e nada radicais para refrear esse absurdo: permitir que apenas usuários verificados postem vídeos; proibir downloads; e aumentar a moderação (verificadores dos filmes postados).

Após a repercussão, o Pornhub anunciou a adoção dessas três medidas alegando que já estavam sendo construídas desde abril. Mas a verdade é que, sem pressão social, é muito difícil que medidas realmente efetivas se concretizem; afinal, o site fatura com cerca de 3 bilhões de impressões de anúncios por dia e, com certeza, não quer abrir mão disso. Sabemos que não são os sites pornográficos os culpados por esses crimes, que na raiz do problema está uma cultura patriarcal, machista e violenta. Mas também sabemos que só será possível mudar essa cultura antiga se enfrentarmos de olhos bem abertos a atual e poderosíssima indústria pornográfica, que a retroalimenta de forma ainda mais perversa. A nossa sociedade precisa falar sobre violência sexual infantil e, para isso, tem que falar de pornografia.

*** LUCIANA TEMER – Advogada, professora da Faculdade de Direito da PUC-SP e da Uninove e presidenta do Instituto Liberta.

OUTROS OLHARES

O JEITINHO QUERUBIM

Nascido na década de 60, o corte de cabelo que remete à imagem do bom-moço volta a agradar os homens das novas gerações

Como tudo o que eles cantavam era o amor, e pouca coisa a mais, soava natural que os cortes de cabelo no estilo angelical apresentados ao mundo pelos Beatles, perto da primeira metade dos anos 1960, logo virassem sinônimo de bom-mocismo – antes, portanto, do sexo, drogas & rock’n’roll. Batizados então de mop-top, termo para “cabeça de esfregão,” a moda exibia franjinhas simétricas de comprimento médio, por vezes penteada para o lado, e fios um pouco abaixo das orelhas. E não é que neste estranho 2020 o antigo desenho voltou à moda? Artistas jovens como os cantores canadenses Justin Bieber e Shawn Mendes, o britânico Harry Styles, além de Kim Tae-hyung, do estrondoso grupo de K-pop BTS, ressuscitaram o penteado – que agora é chamado angelicalmente de querubim.

É praticamente impensável mencionar alguma tendência deflagrada neste ano sem ressaltar as quarentenas que comprometeram o cotidiano. E é exatamente isso o que aconteceu. Por longos meses foi impossível ir a um bom cabeleireiro para manter as madeixas em ordem e muita gente foi obrigada a abrir mão da manutenção.

As cabeleiras vicejaram e deu no que deu, o renascimento daquele jeitão sessentista.

“Entre os adolescentes a moda pegou de vez, mas tenho também clientes adultos, do rígido mercado financeiro, que adotaram esse estilo”, diz o cabeleireiro Marcos Proença, dono de dois concorridos salões em São Paulo. É possível, contudo, que mesmo sem o distanciamento imposto pelo vírus o fenômeno se espalhasse. Aexplicação: ele está associado aos desejos das gerações de agora de romper com os conceitos convencionais sobre masculinidade, comuns nos tempos de seus pais e avós. O guarda-roupa dos homens mais jovens permite um estilo de ser e de se vestir até pouquíssimo tempo atrás considerado mais feminino. Para essa turma, ser bad boy está totalmente fora de moda, daí o aceno para o ar ingênuo. Para além dos cabelos graciosos, veem-se as novas coleções que exibem rapazes usando roupas com estampas coloridas, tecidos de acabamento brilhante e colares de pérolas sem perder um pingo de virilidade. “Eles entendem a masculinidade de uma forma mais permissiva, sem necessidade de se exibir como macho o tempo todo”, diz Marcio Banfi, professor do curso de design de moda da Faculdade Santa Marcelina.

E assim caminha a humanidade. Os homens usam o que lhes vai no couro cabeludo para comunicar alguma coisa desde que o mundo é mundo. A exuberância dos fios na Grécia Antiga era um método de diferenciação da elite dos escravos, que tinham a cabeça raspada. A lógica se inverteu em meados do século V, com a popularização das atividades atléticas, atrapalhadas pelas generosas cabeleiras. Os querubins de 2020 vieram agora para trazer um recado muito nítido e saudável: a leveza no jeito de ser faz sempre bem, e não significa fraqueza.

Que assim seja.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE DEZEMBRO

VIOLÊNCIA, ATÉ QUANDO?

E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos (Mateus 24.12).

Parece que o mundo enlouqueceu. As nossas cidades estão-se transformando em campos de sangue. A violência está nas ruas, nas escolas, nas famílias, entre as nações. Falamos de paz, mas gastamos bilhões de dólares fabricando armas de destruição. Receamos sair de casa. Temos medo de assalto e medo de sequestro. Temos medo de bala perdida. Temos medo dos bandidos e medo da polícia. Estamos enjaulados dentro de casa, trancados com cadeados e cercas elétricas. A violência não está apenas do lado de fora dos muros, está dentro de casa. Há pais matando filhos, e filhos matando pais. Há maridos matando a esposa, e esposas matando o marido. Os inimigos do homem são os da sua própria casa (Miquéias 7.6). Estamos alarmados, pois no passado nos diziam que a violência era resultado da ignorância e da pobreza. Mas a violência cresce no meio de gente culta e rica. O problema é que a violência está dentro do nosso coração. É do coração que procedem os maus desígnios. Não podemos resolver o problema da violência apenas com educação. Precisamos de transformação. Só Jesus pode mudar o nosso coração. Só ele pode colocar amor onde havia ódio. Só ele pode colocar perdão onde havia mágoa. Só Jesus pode trazer paz para o coração, para a família e para a sociedade. Jesus é o Príncipe da Paz. Ele é a paz e só ele pode dar a paz verdadeira.

GESTÃO E CARREIRA

FOODTECHS REDUZEM DESPERDÍCIO E PROMOVEM ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

Startups usam algoritmos para elaborar pratos e racionalizar cadeia; desconto chega a 70%

De olho em alimentar pessoas no home office ou baratear produtos em meio à crise, startups estão surgindo com foco em alimentação saudável e sustentável.

Essas empresas atuam desde a criação de alimentos à base de plantas, passando pela conexão entre pequenos produtores e cozinheiras, até a logística de distribuição, evitando o desperdício de comida.

Esse último é o caso da Super Opa, uma foodtech que surgiu como um trabalho universitário em 2018 e hoje está em 500 cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O modelo consiste em um aplicativo que funciona como marketplace da indústria de alimentos, conectando distribuidoras diretamente ao cliente final, para que possam vender, a preços mais baixos, alimentos próximos do vencimento e que não vão para as prateleiras de mercado.

São toneladas de comida que, de outra forma, acabariam em lixões ou incineradas sem um comprador.

“É tanta ineficiência enorme da cadeia. Além de perder o que comprou da indústria, as distribuidoras ainda têm o custo de descarte do lixo”, explica Luís Borba, presidente executivo da startup.

Para que a operação aconteça, o produto passa por uma verificação de qualidade antes de ser disponibilizado pelo aplicativo. Aprovado, recebe um selo de sustentabilidade, estratégia encontrada pelos empreendedores de levar uma imagem positiva aos produtos que são por vezes rejeitados por mercados e clientes, ainda que estejam em ótimo estado para consumo.

“É necessária uma mudança de paradigma que talvez seja nosso maior desafio. A gente tem esse hábito de achar que o produto próximo à validade não presta e isso atrapalha muito a distribuição de alimentos. Fazendo o movimento contrário, ajuda a combater a fome e diminuir o descarte de lixo”, diz Borba.

Outro desafio encontrado pela empresa é o de negociar os descontos para os produtos com as marcas. Segundo Borba, algumas não permitem ofertas muito grandes, e como consequência alguns produtos seguem empacados. Aqueles que não são vendidos em um prazo considerado adequado para o consumo antes do vencimento, são distribuídos pela startup a ONGs parceiras.

Borba explica que seu principal público hoje está nas classes B e C, que se beneficiam dos baixos valores em que os alimentos são vendidos – os descontos podem chegar a até 70%.

Ospreços acessíveis ainda têm como efeito melhorar a alimentação da população, que sem eles acaba por vezes recorrendo a produtos de baixa qualidade, por serem mais baratos ou serem os disponíveis nos mercados próximos. “Tivemos um distribuidor com uma picanha argentina de R$ 85 por kg empacada. Colocamos por R$ 16, preço da salsicha, que é campeã de vendas nas classes C e D e acaba sendo usada como mistura no dia a dia. Os clientes enviaram vídeos recebendo a carne, fazendo churrasco. Salvamos 200 kg de alimento e tivemos um impacto positivo na vida de pessoas que não conseguiriam introduzir a carne ao cardápio.

Outras startups como a Liv Up e a duLocal vão além na cadeia e conectam agricultores a consumidores finais preparando os pratos e levando refeições saudáveis de porta em porta.

Para isso, usam inteligência de dados para prever consumo, elaborar cardápios e preparar pratos na medida certa, levando em consideração a sazonalidade de produtos e a demanda calculada.

A Liv Up começou com um portfólio de alimentos prontos congelados que podiam ser combinados pelo consumidor no momento da compra pelo aplicativo. Hoje a empresa entrega também refeições completas, sopas e sobremesas em 50 cidades brasileiras, além de oferecer uma quitanda de orgânicos.

Essa última opção teve início durante a pandemia, quando seus agricultores parceiros perderam muitos clientes com o fechamento de restaurantes. São mais de 7.000 toneladas de produtos compradas de mais de 30 famílias.

“Nossa tese sempre foi pautada em aliar alimentação saudável e praticidade”, diz o presidente executivo Victor Santos. ”Fazemos um trabalho bastante intenso com chefes de cozinha, nutricionistas e engenheiros de dados para entender como melhorar a experiência do consumidor nesse sentido.

A duLocal possui uma logística semelhante, com a diferença de incluir cozinheiras de Paraisópolis, na periferia de São Paulo, que preparam refeições para serem consumidas na hora, a partir de ingredientes também comprados de produtores familiares.

As mulheres, que atuam como autônomas, recebem os produtos e realizam o preparo de casa. Para isso, recebem treinamento gastronômico, capacitação e apoio psicológico – hoje esse processo tem sido feito todo de forma online.

”Acho que de certa forma acabamos democratizando o home office, que foi segmentado para algumas classes”, diz Roberta Rapuano, sócia da foodtech e diretora de operações. “Mulheres venderem comida que fizeram nas próprias casas é a realidade do Brasil. Nós profissionalizamos essas mulheres que ganham a vida dessa forma”.

A startup, que começou com a ideia de reunir campo e cidade, abarca hoje uma rede de 13 cozinheiras, 30 entregadores e quase 50 fornecedores entre agricultores orgânicos e cooperativas.

Por ora, as entregas são feitas apenas na região do centro expandido de São Paulo, mas a empresa tem planos de aumentar o alcance e também levar a produção para outras comunidades da periferia.

Acreditamos no poder de descentralizar as cozinhas na cidade, podendo produzir para mais pessoas sem precisar de grandes recursos”, diz Roberta.

Ainda na linha do uso de tecnologia para fomentar uma alimentação saudável e sustentável, outras startups atuam na própria criação de novos alimentos. É o que faz a N.Ovo, empresa que desenvolve produtos alimentícios à base de plantas.

“Conhecendo startups que fazem isso no Vale do Silício, vi quantos problemas globais elas ajudam a endereçar ao criar esse tipo de alimento, como combater aquecimento global, fomentar um uso sustentável da terra, combater pandemias e, principalmente, a fome”, diz a fundadora Amanda Pinto, nomeada este mês “inventora do ano” pela MIT Technology Review, publicação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Atualmente a N.Ovo oferece variantes de ovos para serem usadas em receitas, ovos mexidos e três tipos de maionese. No ano que vem a startup pretende lançar um quarto sabor, que poderá ser escolhido pelos clientes.

“Queremos ser a escolha óbvia, sem sermos impositivos. Trabalhamos para educar consumidores e atingir um público de “flexitarianos”, brinca, se referindo a pessoas que comem carne, mas se preocupam com a diminuição do seu consumo.

Entre as limitações dessas foodtechs está o de ainda atingirem um público restrito, devido ao preço de seus produtos ou área de alcance. Com exceção da Super Opa, os clientes das demais se concentram nas classes mais altas.

O segundo desafio, dizem os empreendedores, está na educação alimentar.

“Tenho certeza de que o mercado está só no começo. As pessoas estão tomando consciência dessas questões e nós também estamos começando a desenvolver as tecnologias nesse sentido. Há um universo a se explorar”, conclui Pinto.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – II

PANE NO SISTEMA

O transtorno pode acarretar crises com sintomas por todo o corpo

Um vazio no peito, sensação de perder o domínio do próprio corpo e até mesmo sentir que pode morrer a qualquer momento – tudo isso acontecendo em um lugar seguro, como o sofá de casa. Os sintomas descritos são comuns em uma crise ansiosa, que possui uma forte característica do transtorno de ansiedade: a incoerência, já que, muitas vezes, o medo do futuro ganha um tamanho desproporcional ao possível problema.

Esse tipo de crise é o ápice do descontrole emocional gerado pelo distúrbio e o indivíduo não precisa, necessariamente, estar em um cenário caótico.

Neste momento, é preciso tentar ficar calmo e respirar fundo, esperando que a crise passe em alguns minutos. Não há remédio para as reações do corpo, como as palpitações e tremedeiras, já que o problema é mais além. “Para acabar com a ansiedade, é necessário ir à sua causa, onde se originou o fator estressante e ensinar ao paciente como lidar com ela”, explica o psiquiatra João Jorge Cabral.

Os sintomas variam de uma pessoa para a outra. A seguir, confira as reações mais comuns:

RESPIRAÇÃO CURTA E RÁPIDA

A crise de ansiedade tem ligação direta com o ato de respirar. Durante o período, há um bloqueio no peito na parte onde ficamos pulmões e, por isso, a respiração fica desregulada e, geralmente, se torna rápida e curta. A dificuldade em respirar recebe o nome de dispneia.

DOR DE CABEÇA

A sensação de perigo que a ansiedade dispara no cérebro faz com que o sistema nervoso acelere seu funcionamento. Devido ao aumento do fluxo sanguíneo, pode surgir a dor de cabeça. Além disso, é comum que a pessoa apresente falhas na memória e dificuldade de concentração devido a esse funcionamento desregulado da mente.

SUOR FRIO

Transpirara em excesso pode ocorrer mesmo em dias frios. Isso acontece porque há uma estimulação do sistema nervoso simpático, e, com isso, as glândulas sudoríparas produzem mais suor. A transpiração pode ser generalizada ou concentrada em algumas partes, como mãos, pés e axilas.

BOCA SECA

Chamado de xerostomia ou de hipossalivação, ficar com a boca seca acontece porque a crise provoca alterações na liberação dos hormônios adrenalina, noradrenalina e acetilcolina. Além disso, com a respiração ofegante, pode ocorrer de a pessoa respirar pela boca, o que aumenta ainda mais a sensação.

PUPILAS DILATADAS

Em um sinal de que o perigo está por vir, as pupilas se dilatam no momento de medo. Já reparou que quando alguém está assustado os olhos ficam assim?

SENSAÇÃO DE TAQUICARDIA

O coração acelerado é um dos sintomas que mais assustam, pois pode levar a pessoa a crer que está tendo um infarto. Porém, no caso da crise de ansiedade, não passa de uma resposta do coração ao metabolismo acelerado.

PARALISAÇÃO

A crise pode ser tão aguda que paralisa o indivíduo, ao ponto de ele não ter vontade e forças para sair de casa. Ou então, fazer tudo no “automático”, sem ter ânimo de se empenhar nas tarefas cotidianas.

NÁUSEAS

Por um momento, o trabalho do estômago para. É um tipo de reação do organismo iniciado pela descarga de hormônios.

TREMORES

A grande liberação de hormônios interfere no controle do corpo. Por isso, mãos, pés e pernas podem ficar trêmulas.

MÚSCULOS TENSOS

O disparo de hormônios e a mensagem de risco iminente pelo cérebro faz com que os músculos fiquem rígidos, como se o corpo estivesse se preparando para um ataque ou fuga. Em algumas crises, a rigidez é tanta que pode provocar dores, principalmente nos ombros e pescoço, que costumam ficar mais tensos.

EU ACHO …

SEXISMO E RACISMO NA CIÊNCIA

Se pensarmos que o sistema vai se corrigir sozinho, estaremos nos enganando

Os ânimos estão acirrados na ciência (assim como nos EUA como um todo) à medida que se inicia o debate, já atrasado, sobre o tratamento dado a mulheres e pessoas de cor. Em junho, por exemplo, milhares de pesquisadores em todo o mundo, além dos periódicos Science e Nature, cruzaram os braços por um dia em protesto contra o racismo em suas fileiras. A Sociedade Física Americana endossou a iniciativa, e se declarou comprometida a erradicar o racismo sistêmico e a discriminação” na ciência.

A física exemplifica o problema. Os afro-americanos são mais ou menos 14% da população em idade universitária nos EUA, o que é proporcional ao seu percentual na população total, mas na física eles só recebem de 3% a 4% dos diplomas de graduação e menos de 3% dos doutores, e desde 2012, só compuseram 2% do corpo docente. Há muitas razões para essa sub-representação, mas preocupa a recusa de alguns cientistas em sequer reconhecer que pode haver algum problema. A ciência, argumentam eles, é inerentemente racional e autocorretiva.

Se fosse assim… A história da ciência está repleta de casos bem documentados de misoginia, preconceito e viés. Por séculos, biólogos promoveram falsas teorias sobre a inferioridade feminina, e instituições científicas costumavam barrar a participação de mulheres. A historiadora da ciência Margaret Rossiler documentou como, em meados do século 19, cientistas mulheres criaram suas próprias sociedades científicas para compensar a recusa de seus colegas homens em reconhecer seus trabalhos. Sharon Bertsch McGrayne encheu um volume inteiro com histórias de mulheres que deveriam ter sido agraciadas com o Prêmio Nobel por trabalhos em colaboração com colegas homens – ou, pior, que eles roubaram delas. O preconceito racial tem sido no mínimo tão danoso quanto o de gênero; afinal, foram cientistas que codificaram o conceito de raça como uma categoria biológica que não era simplesmente descritiva, mas também hierárquica.

Bons cientistas são abertos a ideias concorrentes; eles prestam atenção a dados desafiadores, e escutam opiniões contrárias. Mas cientistas também são humanos, e a ciência cognitiva mostra que estes são propensos a vieses, percepções falsas, raciocínio motivado e outras ciladas intelectuais. Dado que o raciocínio é lento e difícil, dependemos da heurística – atalhos intelectuais que muitas vezes funcionam, mas às vezes falham espetacularmente. Não é crível afirmar que cientistas são, de alguma forma, imunes aos vieses que afligem todas as outras pessoas.

Felizmente, a objetividade do conhecimento científico não depende da objetividade de cientistas individuais. Em vez disso, ela depende de estratégias para identificar, reconhecer e corrigir preconceitos e erros. Como observo em meu livro de 2019, Why Trust Science, o conhecimento científico começa na forma de afirmações propostas por cientistas individuais, equipes ou laboratórios, que são depois escrutinizadas por outros, que podem apresentar provas adicionais para sustentá-las, ou modificá-las, ou rejeitá-las. O que emerge como um fato cientifico ou teoria estabelecida raramente é idêntico à assertiva inicial; tanto um como outro foram ajustados à luz de evidências e argumentação. Ciência é um esforço coletivo, e ela funciona melhor quando as comunidades científicas são diversas. Comunidades heterogêneas têm mais chances do que as homogêneas de serem capazes de identificar pontos cegos e corrigi-los. A ciência não corrige a si mesma; os cientistas corrigem uns aos outros pela crítica. E isso significa estar disposto a discutir não só afirmações sobre o mundo exterior, mas também nossas próprias práticas e processos.

A ciência tem um admirável histórico de produção de conhecimento confiável sobre o mundo natural e o social, mas não é tão boa em reconhecer suas fraquezas. Não podemos corrigi-las se insistirmos que o sistema irá se corrigir magicamente. Reconhecer e confrontar vieses na ciência não é ideologia; ideológico é insistir que a ciência não pode ser tendenciosa apesar dos dados empíricos em contrário. Se nossas falhas na inclusão são conhecidas desde há muito, é hora de corrigi-las.

*** NAOMI ORESKES – é professora de história da ciência da Universidade Harvard, (autora de Why Trust Science? (Editora da Universidade Princeton, 2019) e coautora de Disceming Experts (Universidade de Chicago, 2019.)

OUTROS OLHARES

NOVOS PRAZERES DA CARNE

Cortes extraídos de áreas até então consideradas menos nobres no boi são redescobertos e ganham espaço na mesa do consumidor brasileiro

O suculento reinado da picanha vive dias nervosos. Uma novidade no mercado de carnes tem mudado o hábito de consumo, ao introduzir cortes tradicionalmente desdenhados nos churrascos brasileiros. A invasão é de peças extraídas sobretudo das dianteiras do boi, uma região musculosa devido à movimentação do animal. O destino do acém e da raquete (veja no quadro abaixo), por exemplo, era virar carne moída ou ensopado. A prosa mudou, e eles agora dividem espaço com talhos sofisticados e tradicionais em butiques de carne gourmet e restaurantes sofisticados. Pousam lindamente ao lado da picanha, é claro, mas também da alcatra e do ancho.

Atendência foi importada dos Estados Unidos – daí os nomes virem em inglês. Colou por aqui, pela descoberta dos sabores extraordinários. Os novos cortes são mais baratos (cerca de 30%) em relação aos considerados de áreas mais nobres, o que não significa descuido com a manipulação dos produtos, ao contrário. Mas a qualidade da manipulação os faz mais caros (aproximadamente 30%) que os cortes equivalentes e não repaginados. Tome-se o acém, rebatizado de denver steak. É insosso se não passar longo tempo na panela. O denver steak, porém, feito do miolo, eis o segredo, contém gordura e colágeno entremeados nas fibras, afeitos a derreter na hora de assar, atalho para a maciez. A raquete (flat iron steak, sua alcunha,) de difícil mastigação, pela estrutura do tecido, tem a reputação atual de ser o segundo corte mais macio do boi, atrás do filé-mignon. O truque: no centro da peça há uma membrana um tanto intragável. Mas dividir a peça no sentindo do comprimento, bem em cima dessa membrana, a transforma em dois filés de primeira.

Na reputada rede de churrascaria NBSteak, a peça especial de raquete recebeu o nome da casa e hoje é o prato mais pedido pelos clientes que aos poucos retomam as visitas. O dono, o empresário Arri Coser, foi o primeiro a popularizar os novos cortes no Brasil. “Eles disputam por igual em números de pedidos com os convencionais,” diz Coser. A casa Swift também aderiu às modernas linhas, com a grife Swift Black. A expansão de ofertas anda de mãos dadas com uma excelência brasileira, a qualidade do gado. “O desenvolvimento de raças bovinas, como angus e hereford, somado às novidades da genética e aos cuidados com a alimentação, resultou em um melhor aproveitamento do animal”, diz o jornalista especialista em gastronomia J. A. Dias Lopes. Ele aponta na atual revolução passo histórico semelhante ao que ocorreu em outros momentos da evolução gastronômica.

A velha e boa picanha foi descoberta por acaso, na década de70, no Brasil. Antes vendida como parte da alcatra ou do coxão duro, por ter uma grossa camada de gordura, era descartada. E, então, um açougueiro do frigorífico paulistano Bordon resolveu testar a ponta daquela parte gordurosa da alcatra e descobriu que era uma carne extremamente macia e saborosa. Há ainda outra explicação, mais divertida, quase folclórica. Um churrasqueiro argentino de São Paulo teria oferecido o corte ao industrial e playboy ítalo-brasileiro Baby Matarazzo Pignatair. Ao perguntar ao funcionário de onde vinha a delícia, ouviu: “Parte donde se pica la anha”. Em espanhol, “picar” significa “ferir com objeto pontiagudo” e “anha” é a haste de madeira com ponta de ferro usada na condução dos bois. A expressão teria dado origem ao nome picanha, a agora ameaçada picanha.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE DEZEMBRO

LEVANTE OS OLHOS PARA O ALTO

Então, conduziu-o [a Abraão] até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes… (Genesis 15.5a).

Talvez seu coração esteja abatido por uma notícia dolorosa que você recebeu há pouco. Talvez sua alma esteja triste porque alguém decepcionou você. Talvez um fato tenha trazido angústia à sua vida. Você olha para trás e tem memórias amargas. Olha ao redor e ainda há muita coisa que mete medo em seu coração.  Olha para o futuro e um nevoeiro denso não lhe permite ver uma luz no fim do túnel. O pessimismo parece tomar conta do seu coração. O pavor assalta a sua alma. O pânico rouba sua esperança. Nesse momento é preciso levantar os olhos e inclinar os ouvidos para escutar, não as vozes ameaçadoras da terra, mas as doces promessas do céu. A Bíblia diz: As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca (Lamentações 3.22-25). Não se desespere; espere em Deus. Não duvide; creia. Não olhe para as circunstâncias; olhe para o Deus que está no controle das circunstâncias!

GESTÃO E CARREIRA

SAÚDE MENTAL – A TECNOLOGIA A SERVIÇO DA SANIDADE

A Covid-19 lançou a humanidade em um estado de angústia, ansiedade e depressão. Ao mesmo tempo, acelerou o uso de ferramentas, como a inteligência artificial, capazes de ajudar na detecção precoce aos distúrbios psiquiátricos

Ninguém conheceu trabalho remoto de forma tão extrema quanto o médico russo Valeri Polyakov. Interessado em saber como o corpo humano reage a longos períodos num ambiente de microgravidade – algo necessário para viagens a Marte – tornou-se, ele mesmo, parte da resposta. Entre janeiro de 1994 e março de 1995, morou e trabalhou na estação espacial MIR – dividindo a cápsula, pouco maior que um micro-ônibus, com dois hóspedes de permanência mais breve. Valeri realizou experimentos científicos, fez musculação, consertou defeitos imprevistos, almoçou e jantou comida de gosto ruim, cortou cabelo, leu livros, fez desenhos, aproveitou o silêncio e viu o pôr do sol pela janela – algo que acontece 16 vezes a cada 24 horas, quando se está numa órbita 300 quilômetros distante da Terra, à velocidade média de 27.700 km/h. Depois de 437 dias, ele voltou. Ao sair da nave espacial, dispensou a cadeira de rodas que lhe foi oferecida. Saiu caminhando. Em vez de ajuda, aceitou um cigarro e uma dose de bebida destilada, para comemorar a façanha e aplacar o frio que fazia no lugar de pouso, o Cazaquistão.

O corpo de Valeri resistiu muito bem a um ano de isolamento. A mente, nem tanto. O astronauta fez 29 testes cognitivas durante a viagem e continuou sendo monitorado seis meses depois. Nos primeiros 20 dias no espaço e nas duas semanas após o retorno, ele parecia perdido, diz um estudo publicado na revista científica Ergonomics. Apesar de manter o desen1penho intelectual, sentiu-se sobrecarregado.

Valeri é um herói com medalhas no peito, e, antes de trabalhar no espaço, se preparou durante 16 anos na agência espacial russa. Nós não tivemos a mesma sorte diante do novo coronavírus. Poucos meses após a China anunciar o primeiro caso, em 31 de dezembro de 2019, nosso mundo saiu de órbita. Para conter o ritmo de avanço da covid-19, 4,5 bilhões de trabalhadores tiveram de entrar em quarentena, fisicamente afastados dos parentes, amigos e colegas. Em casa, alguns lutam contra o desânimo de terem pouca ou nenhuma utilidade longe da empresa. Outros, ao contrário, lutam contra a sobrecarga. Precisam atingir metas traçadas para o escritório (um lugar otimizado, ao longo de décadas, para o desempenho profissional), agora em condições improvisadas, como trabalhar por oito horas na mesa de jantar e transformar o corredor em cenário para telerreuniões profissionais. Precisam dividir o computador e a atenção com filhos, que, sem escola, estudam e brincam entre quatro paredes. Precisam conviver 24 horas por dia com um cônjuge – algo que muitos até juraram fazer, diante de um padre, mas sem pensar em circunstâncias como a atual. Precisam cozinhar, lavar louça, lavar roupa, lavar banheiro, varrer o chão, cortar unhas, talvez cabelos. Afinal, a especialização, que proporcionou ganhos de eficiência à sociedade desde a Revolução Industrial, recuou vários passos com o isolamento social. Quem dera fosse só isso.

O confinamento é apenas uma face de uma pandemia que ameaça a nossa vida. A covid-19 acaba por trazer, para a realidade, um artifício que os diretores de filmes de terror aprenderam há muito tempo: uma ameaça torna-se mais assustadora quando é invisível. O vírus está no ar, está no outro, talvez esteja em nós mesmos. Pode não trazer sintomas, pode matar em poucos dias. A própria morte tornou-se invisível. No hospital, o doente tem visitas restritas. Morto é enterrado em um caixão lacrado. “Além de tudo, o coronavírus impede rituais de passagem profundamente estabelecidos em nossa sociedade. A morte sem a devida cerimônia de despedida pode ficar em suspense por anos, com a sensação de que a pessoa sofreu um sequestro e pode voltar a qualquer momento”, diz Omar Ribeiro Thomaz, doutor em Antropologia e professor da Unicamp. Há mais de 5 milhões de casos de covid-19 confirmados no mundo, mesmo com um alto índice de subnotificações. Há mais de 300 mil mortos, numa tragédia longe do fim. Segundo Michael Ryan, diretor-executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), a América Latina tornou-se o epicentro da pandemia, e o Brasil é o país mais preocupante.

A ameaça à saúde trazida pelo coronavírus vem acompanhada da ameaça à saúde financeira. A quarentena, imposta no mundo inteiro para achatar a curva de novos casos, atingiu duramente a atividade econômica. “Nossas previsões indicam uma profunda recessão este ano, com uma contração de 5% para a economia global”, afirma David Malpass, presidente do Banco Mundial. “Mais de 60 milhões de pessoas serão empurradas para a pobreza extrema.” A taxa de desemprego nos Estados Unidos é a maior desde a Grande Depressão: saltou de 4,4% em março para 14,7% em abril, o equivalente à eliminação de 20,5 milhões de postos de trabalho. No Brasil, o PIB recuou inéditos 5,3% em março, primeiro mês de isolamento social nas maiores cidades. No primeiro trimestre, 1,1 milhão de brasileiros perderam o emprego, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As demissões atingem 13% das famílias e 40% das empresas, aponta a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A crise provocada pelo novo coronavírus afetou as atividades de 76% das empresas e causou o fechamento de mais de 600, diz a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em março, o Google perguntou a trabalhadores brasileiros: “O que mudou na sua vida?”. “Tudo” foi a principal resposta entre desempregados e autônomos, não importa a condição financeira, e a terceira mais citada por assalariados e empregadores de baixa renda. Na nuvem de palavras formada pelas entrevistas, destacam-se “saudades”, ”ansiedade”, “falta de paciência”, “medo” e preocupação”. O confinamento, a mudança de rotina, a ameaça à saúde e a ameaça à saúde financeira podem ser psicologicamente devastadores.

É normal sentir medo e ansiedade, diante de uma tragédia como a pandemia de coronavírus. Estranho seria não sentir. O medo é um dos responsáveis pela sobrevivência da raça humana, ao proteger de riscos e fazer fugir de perigos. A ansiedade faz o coração pular, no esforço vão de antecipar um acontecimento. A angústia aperta o peito diante da impotência, da pressão externa. “Medo, ansiedade e angústia não são doenças, são sentimentos humanos”, diz Wagner Gattaz, professor e presidente do conselho diretor do Instituto de Psiquiatria da USP, além de fundador e diretor da Gattaz Health & Results. “O problema é ir além. É doentio quando essas sensações nos paralisam, nos impedem de tocar a vida.” É o caso das crises de pânico: a pessoa começa a sentir palpitações, dificuldade para respirar, calafrios, suor, tonturas e embaçamento da visão, sem conexão com uma ameaça externa. É o caso da depressão: uma redução do metabolismo cerebral, com sintomas físicos (como cansaço e dores musculares) e mentais (como esquecimentos e insônia). “Mais do que tristeza, a depressão deixa a pessoa anestesiada por dentro. Traz a incapacidade de sentir prazer, até mesmo de chorar”, diz Wagner. A depressão é um problema silencioso. Segundo a OMS, trata-se da doença mais subdiagnosticada do planeta. Mais de 350 milhões de pessoas sofrem de quadros depressivos, mas 47% nem se dão conta. Cerca de 15% da população mundial tem predisposição, mas muitos jamais manifestaram sintomas. Diante de um grande trauma, pode acontecer uma crise. Ainda não é possível calcular o estrago causado pela pandemia de coronavírus na saúde mental – mas é certo que tem gente demais indo além da simples tristeza. Em um estudo da Sociedade Chinesa de Psicologia, com 18 mil voluntários, 42,6% apresentaram sintomas de ansiedade relacionada ao coronavírus. Um levantamento feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) em parceria com a Universidade Yale, com 1.460 pessoas de todo o Brasil, mostrou um aumento de 90% nos casos de depressão entre os meses de março e abril. “O impacto da pandemia na saúde mental das pessoas já é extremamente preocupante. Mesmo quando a doença está sob controle, a dor, a ansiedade e a depressão continuam a afetar as pessoas e as comunidades”, afirma Tedros Adhauom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. A análise de práticas de isolamento social em epidemias anteriores, como de Sars (2003), na China e no Canadá, e de ebola (2014), no oeste da África, ensina que o trauma afeta um número maior de pessoas do que a própria doença original. Um artigo publicado na revista The Lancetrevisou 24 trabalhos sobre impactos psicológicos de regimes de isolamento social durante as epidemias de Sars, ebola e H1N1. “Essa revisão sugere que a quarentena é frequentemente associada a efeitos psicológicos negativos. Embora isso não seja exatamente uma surpresa, a evidência de que esses efeitos podem ser detectados meses ou anos depois é mais problemática e sugere a necessidade de assegurar medidas eficazes de mitigação”, diz o texto. Responsável pela condução de 5 mil entrevistas no Brasil em um estudo global sobre depressão patrocinado pela OMS, Wagner afirma que os padrões já conhecidos sugerem um cenário alarmante quando o coronavírus passar. “Num intervalo de 12 meses, encontramos que 20% das pessoas vão apresentar algum transtorno de ansiedade, 11% terão um episódio depressivo, 4%, vão desenvolver abuso de álcool ou outras substâncias e cerca de 15% terão burnout”, diz Wagner.

O coronavírus tornou inevitável o que já era urgente: cuidar da mente, antes que seja tarde e caro demais. “A pandemia está nos mostrando mais uma vez que a saúde mental é tão importante quanto a saúde física”, afirma Tedros, da OMS. Ele diz que as questões de saúde mental representam 30% do tempo vivido com alguma incapacidade, no mundo – apesar de receberem 2% do orçamento de Saúde dos governos. Em outro estudo, a OMS afirma que perda de produtividade por depressão ou ansiedade custa, globalmente, USS 1 trilhão. “Problemas de saúde mental, como depressão, estão entre as maiores causas de miséria em nosso mundo”, afirma António Guterres, secretário-geral da ONU. No Brasil, transtornos de ansiedade são a terceira razão de afastamentos do trabalho, com cerca de R$ 200 milhões gastos com pagamentos de benefícios anuais pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “Os custos globais em 2030 vão somar US$ 3 trilhões por ano, entre queda de produtividade, mortes prematuras e suicídios”, alerta Wagner. “Se existe um bom momento para investir em saúde mental”, diz Tedros, “é agora”.

Para as empresas, cuidar da saúde mental dos funcionários é um compromisso moral e um investimento. A história ensina exemplos como o da fábrica americana de alimentos Heinz, que, durante a Grande Depressão, na década de 30, evitou demitir e se empenhou em manter o pessoal motivado. Com pouca demanda para seu ketchup. arriscou lançar comidas prontas, como sopas e papinhas para bebê. Os produtos se tornaram um sucesso, e o comprometimento da empresa ajudou a reter funcionários e atrair consumidores nas décadas seguintes. “Depois de a crise passar, as pessoas se lembravam do que a Heinz havia feito e quais tinham sido suas prioridades”, disse Nancy Koehn, professora da administração da Universidade Harvard e autora do livro Forged in Crisis (inédito no Brasil), à Harvard Business Review. “Uma enorme parte da ansiedade em tempos de crise tem a ver com quem está no comando e como se comporta”. Presidente da SAP no Brasil, Cristina Palmaka diz incentivar os funcionários a cuidar da mente – mesmo sem enxergar, precisamente, o retorno financeiro da iniciativa. “Nove em cada dez funcionários que fazem terapia não falam disso no escritório. A gente quis tirar esse estigma. Quando a pessoa tem dificuldades e se sente obrigada a representar um “personagem”. É muito dispêndio de energia na coisa errada”, diz a executiva. “Você tem de colocar energia naquilo que é importante. Estou aqui para trabalhar, eu sou assim mesmo, é assim que eu agrego, essas são as minhas vulnerabilidades, aqui eu sou forte.” Criticadas pelo papel relativamente discreto que estão desempenhando na busca pela cura do coronavírus, as empresas de tecnologia podem se sair melhor no combate aos efeitos psicológicos colaterais. No Brasil, SAP, Amazon Web Services (AWS) e a agência Africa se aliaram em torno do Algoritmo da Vida – uma inteligência artificial que varre o Twitter em busca de usuários com indícios de depressão ou ideação suicida. Diante de um caso suspeito, o robô classifica a gravidade, numa escala de 1 a 4. Mediadores de ONGs parceiras recebem o alerta, entram em contato com a pessoa e avaliam o encaminhamento ao Centro de Valorização da Vida (CVV). A Africa apresentou a ideia no ano passado, durante o Setembro Amarelo (mês dedicado a campanhas de prevenção ao suicídio). A AWS forneceu a computação em nuvem e a SAP, o banco de dados e os algoritmos. Com a pandemia de coronavírus, o sistema foi reforçado para lidar com um maior volume de casos – está em 1.600 por dia – e refinar os filtros digitais. “É muito bacana ver a tecnologia da SAP melhorando gestão de caixa, inventários, é o que a gente faz todo dia”, diz Cristina. “Mas quando a gente vê a tecnologia salvando vidas. Aí é impagável”. Os dados estão sendo consolidados de forma anonimizada para, quando o auge da pandemia passar, servir a pesquisas acadêmicas. Esse material tem importância estratégica. Apesar de existirem estudos semelhantes no exterior, o aprendizado de máquina dos serviços de prevenção ao suicídio depende de um profundo conhecimento do idioma local e do contexto de cada usuário.

A inteligência artificial ainda carece de granular idade para entender as intenções e angústias de cada indivíduo nas redes sociais – mas já parece capaz de identificar, com sofisticação, tendências de comportamento coletivo. O instituto de inteligência artificial da Universidade do Sul da Califórnia (USC) tabulou 700 milhões de posts e mais de 700 mil reportagens sobre a pandemia de coronavírus nos Estados Unidos. Encontrou indícios de piora na qualidade social no país inteiro, sobretudo a partir da segunda semana de março. Identificou áreas especificas desse declínio na Califórnia, em Nova York e em Virgínia. Em Michigan, os diálogos indicam sinais de depressão crescente. Na Geórgia, os posts sugerem que o uso e o vício em entorpecentes aceleraram a deterioração do bem-estar. ”Monitorar o vasto fluxo de palavras pode trazer indícios muito mais rapidamente do que as enquetes tradicionais”, afirma Amit Sheth, cientista da computação e diretor do instituto.

Profundo conhecedor da alma humana – ao menos em volume de usuários em suas redes sociais, com 12,5 bilhões no Facebook e 1 milhão no Instagram -, Mark Zuckerberg quer promover o bem-estar em tempos de coronavírus. “Me preocupa muito, pessoalmente a possibilidade de o isolamento das pessoas em casa levar a mais casos de depressão ou problemas mentais”, disse, ao anunciar o aumento da equipe dedicada a filtrar posts sobre suicídio e autoagressão. “Vejo o trabalho nessa área como algo relacionado aos primeiros socorros prestados por profissionais de saúde ou policiais. Portanto, temos de ajudar com rapidez.” Mark doou US$ 2 milhões a organizações de apoio psicológico em diversos países, entre eles o brasileiro CVV, além de apresentar, num lugar de destaque do Facebook, orientações de saúde mental dadas pela OMS. No Instagram, criou um alerta automático para hashtags ligadas a comportamentos autodestrutivos, além de acrescentar um botão para usuários informarem condutas estranhas de seus colegas. “Alguém viu seu post e pensa que você pode estar passando por momentos difíceis. Se precisar de suporte, podemos ajudar”, diz a mensagem enviada pela rede social.

No Brasil e nos Estados Unidos, a pandemia estimulou os governos a flexibilizar o atendimento psicológico remoto, e aqueceu ainda mais o setor de healthtechs. O Crisis Text Line – chatbot em inglês, sem fins lucrativos, apoiado por Melinda Gates e Steve Ballmer – viu o número de mensagens aumentar 40% em março. E a base já era alta: 100 milhões, num ritmo crescente desde 2013. No Canadá, o primeiro-ministro, Justin Trudeau, incluiu, no pacote de medidas contra o coronavírus, a promessa de investir US$ 170 milhões em serviços de atendimento digital. A startup americana LyraHealth conseguiu US$ 75 milhões em uma rodada de investimentos em março – e a concorrente Vida Health, US$ 25 milhões. Como costuma acontecer, o forte crescimento de um setor traz consigo a necessidade de regras, amadurecimento e depuração. Uma preocupação é a qualidade técnica do serviço usado para as consultas. “WhatsApp e Skype são boas ferramentas para conversar com a família, mas não atendem a protocolos internacionais de segurança, como o HIPAA (Gealth lnsurance Portability and Accoun Hability Act), afirma Tatiana Pimento, fundadora e CEO da Vittude, startup que, no ano passado, recebeu R$ 4,5 milhões em uma rodada de investimento liderada pelo fundo Redpoint eventures. “Assistência psicológica é algo muito sério e delicado, não bastam boas intenções”, diz Carolina Dassie, fundadora e CEO da Hisnek.”Perder

a conexão durante um atendimento pode ter consequências gravissimas, dependendo do paciente.” Outra preocupação é o embasamento científico dos métodos usados em assistentes digitais. No ano passado, a revista Nature publicou o estudo “Usando ciência para vender aplicativos: avaliação da qualidade dos apps de saúde mental”, que avaliou os 73 apps mais populares contra depressão, autoagressão, uso de entorpecentes, ansiedade e esquizofrenia. “A linguagem científica era a estratégia mais frequentemente empregada para ressaltar as promessas de eficácia. No entanto, faltavam evidências de estudos feitos especificamente com apps, e muitos aplicativos descreviam técnicas sem evidência clara na literatura”, lê-se no texto.

Organização mais preocupada com a harmonia de seus funcionários em todo o universo, a Nasa está investindo em inteligência artificial para detectar alterações no tom da voz ou na expressão facial, pura a futura viagem a Marte. “Vamos procurar qualquer mudança significativa de comportamento no sono, na irritabilidade e na cognição”, diz Gary E. Beven, chefe de psiquiatria do programa espacial americano. Ele não quer que seus tripulantes repitam, com um orçsmento de US$ 20 bilhões em jogo, o resultado de um treinamento feito pela agência russa: de seis voluntários confinados juntos por 17 meses, quatro desenvolveram distúrbios. Mas Gary quer robôs para ajudar, não para substituir a empatia humana. Seus astronautas em missão conversam com psicólogos pelo menos duas vezes ao mês e podem fazer, a qualquer momento, teleconferência com os parentes. Apoio profissional e carinho familiar ainda são a tecnologia mais avançada para a saúde mental.

E A PRESSÃO AUMENTA

A pesquisa Pulse Saúde Mental foi realizada pela Vittude em parceria com a Valpe. Foram ouvidos 6 mil funcionários de cerca de 120 empresas. Todos trabalhando em regime de home office. O levantamento teve como base o OASS-21 (Depression, Anxiety and Stress Scale), com 21 questões que medem, com base nos comportamentos e sensações dos sete dias anteriores, o grau de ansiedade, depressão e estresse. Para essa pesquisa, foram consideradas apenas as questões relativas ao estresse.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CÉREBRO E ANSIEDADE – I

MAL NECESSÁRIO

Fora de controle, a ansiedade pode fazer muito mal, porém ela é fundamental para a sobrevivência humana

Fugir de predadores, correr atrás de presas, se proteger de fenômenos naturais… Estes e outros empecilhos da vida do homem pré-histórico fizeram com que alguns instintos se desenvolvessem na raça humana em nome da sobrevivência. Um deles é a ansiedade, gerada por causa do medo em situações identificadas como de perigo iminente.

Apesar de o sentimento ser algo nato desde suas origens, cenários que despertam o estado de alerta parecem ser maiores hoje em dia, já que a civilização trouxe com ela problemas modernos, como o medo de perder o emprego, novas epidemias, violência, contas a pagar… Assim, o maior desafio nessa rotina frenética é saber interpretar de uma forma saudável tudo o que acontece ao nosso redor, evitando que o gatilho da ansiedade dispare por motivos insignificantes.

UM LEÃO POR DIA

“Sentir medo é um estado neurofisiológico que ocorre naturalmente e possui a função de preparar o organismo diante de uma situação real, ameaçadora e perigosa à vida. Nessas circunstâncias, o organismo se prepara para enfrentar o perigo, como fugir ou se proteger”, explica a psicóloga Lígia Venturineli. Diferentemente dos homens da caverna, hoje em dia não é preciso colocar a vida em risco ao ir atrás de um javali para o jantar. Contudo, homens e mulheres precisam enfrentar outros problemas, praticamente “matando um leão por dia”, ainda que este leão não ruja – mas gera um medo enorme. “É natural sentirmos ansiedade frente a situações novas, quando estamos prestes a alcançar um objetivo importante, uma grande conquista”, esclarece a psicóloga Cleunice Menezes.

Quando o simples receio e a ansiedade pelo desafio comprometem o bem-estar, eles se tornam a verdadeira ameaça, gerando um transtorno mental que não escolhe sexo ou idade.

FORA DE CONTROLE

A expectativa exacerbada sobre o futuro faz com que surja a sensação de que algo ruim vai acontecer, sem que você tenha absolutamente nenhum domínio sobre isso, em outras palavras: transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

Basicamente, a ansiedade é entendida como um sintoma disfuncional que gera um conjunto de sensações físicas e psicológicas, como medo e tensão que naturalmente surgem perante uma situação identificada pela mente como perigosa ou de sofrimento iminente. “Transtorno de ansiedade é caracterizado quando o indivíduo apresenta respostas cognitivas, comportamentais, emocionais e fisiológicas relacionadas a preocupações e medos exagerados a determinadas situações ou eventos que ainda não aconteceram”, explica Lígia.

De acordo com o psiquiatra João Jorge Cabral, a ansiedade se inicia devido a um fator estressante: “estresse é um estado emocional que desequilibra o organismo, já um fator estressante é o que provoca esse desequilíbrio. Por exemplo: uma doença, uma separação, a morte de um ente querido, mas também coisas simples, como o barulho de um despertador. Para cada pessoa, existe um ponto para aguentar um fator estressante que, quando ultrapassa, gera uma ansiedade a nível patológico, podendo levar ao transtorno de ansiedade generalizada ou à síndrome do pânico”.

PROBLEMA REAL

Subestimado por muito tempo, por ser considerado exagero ou simplesmente algo temporário, o transtorno mental pode interferir em vários aspectos da vida social e profissional. Atualmente, a ansiedade fora de controle é categorizada como uma patologia, tanto que está presente no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) desde a década de 1980. A partir de então, o sentimento de alerta constante desdobrou-se em alguns outros males, como fobias, síndrome do pânico, além do próprio TAG.

Para se ter uma ideia de sua amplitude e interferência na rotina, a ansiedade está entre os problemas mentais que ocupam o terceiro lugar em motivos de afastamento do trabalho no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “A ansiedade passa a fazer mal quando o indivíduo não consegue realizar pequenas atividades do dia a dia por acreditar que possa ter uma crise, ou seja, evita situações para não sentir os sintomas”, afirma Cleunice.

A SEU FAVOR

O transtorno de ansiedade tem tratamento, podendo até ser curado. No entanto, a ansiedade em si jamais desaparecerá, já que é algo nato. O importante, portanto, é aprender a conviver com ela de forma saudável. “É natural sentirmos ansiedade e, em alguns momentos, certo medo de que as coisas não funcionem tão bem quanto desejamos, mas é importante enfrentarmos o receio. Essa ansiedade pode ser uma mola propulsora para realizarmos nossos objetivos e desejos”, enfatiza a psicóloga Cleunice.

Lidar bem com o sentimento, na realidade, é algo que deve ser feito desde sempre para que o transtorno não se instale.

NO CÉREBRO

Apesar de ainda existir quem acredite que o transtorno de ansiedade não passe de “frescura”, a ciência prova que é algo muito sério – tanto que há ações químicas no cérebro.

Uma das reações da ansiedade no organismo é a maior produção de adrenalina e noradrenalina, hormônios neurotransmissores que atuam como disparos elétricos no cérebro, na comunicação entre os neurônios. “A produção desses neurotransmissores acontece em situações de perigo e estresse reais ou imaginárias, atuais ou que ainda não aconteceram”, conta a psicóloga Lígia. São eles os responsáveis por deixar o corpo em estado de alerta, preparado para enfrentar o perigo. É desta reação que se originam os sintomas físicos de uma crise de ansiedade, como aceleração dos batimentos cardíacos e rigidez muscular.

Além de preparar o corpo para algo que a mente acredita ser arriscado à sobrevivência, o distúrbio sem controle ainda pode comprometer permanentemente outras esferas do organismo, como explica a psicóloga Cleunice: “A ansiedade e o estresse crônico podem afetar áreas do cérebro que influenciam a memória a longo e a curto prazo e a produção química, que podem resultar em um desequilíbrio emocional”, Pessoas que sofrem com a ansiedade ainda possuem dificuldades para adormecerem, o que acarreta uma redução significativa de concentração nas atividades diárias.

Apesar dessas alterações, até então, não foram encontradas modificações fisiológicas no cérebro.

PRINCIPAIS SINTOMAS DO TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG).

SINTOMAS FÍSICOS:

Dor de cabeça, dor de estômago, rigidez muscular, insônia, suor frio, boca seca, ânsia, tremores, tontura, aceleração dos batimentos cardíacos, pupilas dilatadas, respiração ofegante, falta de ar.

SINTOMAS COGNITIVOS:

Preocupação excessiva, atenção prejudicada, irritabilidade, pensamentos de “e se eu não conseguir”, “e se der tudo errado”, “não vai dar certo”, “vou morrer”, “não vão gostar de mim” ou “uma tragédia vai acontecer”.

SINTOMAS COMPORTAMENTAIS:

Evitar situações, roer unhas, dificuldade para falar e tomar decisões, comer compulsivamente, sensação de impotência perante acontecimentos, isolamento social, nervosismo, etc.

EU ACHO …

PAISAGEM INFERNAL

Descobertas que fiz durante a pandemia

Este será o verão de um imenso descontentamento. Enquanto escrevo, nossa redação ainda está fechada e a pandemia avança. É nessas condições que quero compartilhar alguns itens recentes que encontrei por acaso. Como diz o ditado: “um homem pode trabalhar de sol a sol, mas o trabalho de uma mulher provavelmente não será compensado na mesma medida que o de um homem, e seu salário como uma porcentagem da média em seu campo provavelmente diminuirá se sua profissão passa por uma transição para uma maioria feminina.”

Para obter exemplos desse fenômeno, consulte o artigo intitulado “Quando uma especialidade vira ‘trabalho feminino’: tendências e implicações da segregação de gênero na medicina”, publicado na Academic Medicine. Os autores são Elaine Pelley e Molly Carnes, da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin-Madison. Hoje, essa origem elitista é motivo instantâneo para que muitos de meus compatriotas se recusem a prestar atenção, pois fala a um certo nível de conhecimento e experiência que eles acham cada vez mais, sabe, irritante.  Apesar das credenciais das autoras, vamos ouvi-las. Elas observam que “em 1975, quando as mulheres eram 22% dos pediatras, um pediatra ganhava 93% do salário médio de um médico em1 975, mas em 2017, quando 63% dos pediatras são mulheres, um pediatra ganha apenas 71% do salário médio de um médico”.

Outro caso: “Os salários em obstetrícia e ginecologia eram 20% e 25% maiores do que o salário médio de um médico em meados dos anos 1970 e 1980, quando a participação feminina era de 8% e 18%, respectivamente. No entanto, em 2017, quando a participação feminina nessas carreiras alcançou 57%, um obstetra / ginecologista recebe o mesmo que um médico médio. “Enquanto me perguntava sobre as implicações éticas dessas disparidades financeiras, encontrei um artigo de 2016 dos filósofos Eric Schwitzgebel e Joshua Rust intitulado “O comportamento dos estudiosos de bioética”.

Eles basicamente tentam determinar se os especialistas profissionais em ética se comportam de maneira mais ética em suas vidas pessoais do que outras pessoas (para facilitar o acesso aos indivíduos pesquisados, as outras pessoas eram filósofos não especializados em ética e professores de outras disciplinas). E eles descobriram que os especialistas em ética não trazem trabalho para casa: “Em média, o comportamento dos especialistas profissionais em ética é indistinguível do comportamento de grupos controle de professores em outras áreas”. Essa descoberta faz sentido para mim porque um tempo atrás participei de um simpósio de ética médica e tive um insight: Satanás seria um ótimo especialista em ética. Para estabelecer o curso de ação mais perverso numa situação, ele teria que realizar uma avaliação abrangente que também revelaria a melhor escolha de política. Saber o certo do errado é, portanto, uma condição necessária, mas insuficiente para o bem, e o capeta poderia escrever excelentes artigos sobre ética antes de incendiá-los.

Falando em inferno, um estudo publicado na edição de 3 de agosto da revista Current Biologi; revelou que a grande maioria dos membros de uma espécie de besouro, Regimbarlia attenuata, realizam uma façanha literalmente mortal após serem engolidos por várias espécies de sapos. O besouro aparentemente nada até conseguir sair pelo traseiro do sapo. Porque, como outro axioma diz, “Se você está passando pelo inferno, continue passando”. Para. descobrir se a passagem do inseto era ativa ou passiva. os pesquisadores imobilizaram alguns besouros cobrindo-os com cera antes de irem para a boca do inferno, ou melhor, do sapo. Nenhum desses besouros sobreviveu. Parafraseando o lendário autor de ficção Harlan Ellison (que definitivamente teria criado este protocolo experimental se tivesse vivido o suficiente): eles realmente não querem abrir a boca e devem gritar.

*** STEVE MIRSKY

OUTROS OLHARES

CAMINHO SEM VOLTA

As histórias das mulheres que mataram seus parceiros para preservar a própria vida

Três anos se passaram, mas a estudante Mel Silva, de 27 anos, ainda tem a impressão de que foi ontem o dia em que se sentou de frente para o júri popular no Tribunal de Justiça de Goiás, na condição de ré, por ter matado um homem que havia tentado estuprá-la. O crime ocorreu em 21 de março de 2011, e ela, então com 17 anos, se preparava para ir ao curso noturno de recursos humanos que tinha começado poucos meses antes. Mel e o irmão haviam chegado havia três meses do Pará para estudar na capital de Goiás e viviam sozinho numa quitinete no Setor Pedro Ludovico, bairro da região sul da cidade. O restante da família ficou em Parauapebas, a 1.465 quilômetros de Goiânia.

Os irmãos tinham como vizinho de frente um homem de 52 anos. Naquele dia, Mel foi até ele pedir emprestado um martelo para prender um varal no teto da cozinha, pois ela notara que suas roupas estavam sumindo quando as deixava secando do lado de fora. Ao devolver o martelo, Mel contou que ele pediu que ela entrasse e deixasse o objeto em cima da mesa. “Dei dois passos e ele já veio atrás de mim, colocou uma faca em meu pescoço e trancou a porta. Depois, me levou para o quarto. Em seguida, começou a rasgar minha roupa com a faca”, contou ela. Ao tentar se defender, Mel travou com ele uma luta corporal em que conseguiu tomar dele a arma e, em seguida, o esfaqueou. Quando ele caiu, ela, ensanguentada, pegou a chave e abriu a porta, mas desmaiou.

Mel acordou com policiais a seu redor. Presa em flagrante, contou ter sido ofendida com frases como: ”Agora não é mais tão valente, não é?”. “Ninguém se preocupou se eu estava ferida. Só me levaram para a delegacia e me trancaram como um bicho”, relembrou. A jovem ficou presa por oito dias enquanto seus pais reuniam recursos para pagar um advogado que pudesse entrar com um pedido de habeas corpus. A estudante foi denunciada pelo Ministério Público de Goiás por homicídio doloso qualificado e, sem dinheiro para pagar sua defesa, terminou representada pela defensora pública Ludmila Mendonça, que presenciou suas audiências no Tribunal do Júri. Ela contou que o promotor do caso fazia perguntas que sugeriam que a jovem teria dado motivos para a investida sexual. “Por que você foi entregar o martelo?” e “Que tipo de roupa você usava?”, foram algumas das frases proferidas pelo promotor José Eduardo Veiga Braga Filho, segundo Mendonça. Ao final, Mel foi absolvida por 4 votos a 3, mas ainda hoje é chamada de assassina. ”O fato de Mel estar viva e ter conseguido sobreviver àquela situação faz com que eu seja vista como um monstro”, disse. Procurado, o promotor enviou uma nota dizendo que havia a “convicção de· que ela teria criado a situação que resultou na morte do vizinho e que não há confirmação da perícia técnica sobre a versão apresentada por ela”. O promotor ainda vaticinou: ”O objetivo era provar que a ré tentou atrair a vítima e criar, de forma premeditada, uma situação, que culminasse em seu assassinato”.

No primeiro semestre de 2020, houve um aumento de 1,9% nos casos de feminicídio no país, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A alta, atribuída em parte à pandemia, evidencia que, ainda que os últimos anos tenham sido de avanços na conscientização e no combate à violência contra a mulher, ainda é muito, difícil traduzir esse progresso em uma queda visível nos números. Desde 2016, primeiro ano inteiro de vigência da lei que tipificou o crime de feminicídio, o Brasil teve um aumento acumulado de 43% no número de casos. Também nos seis primeiros   meses deste ano foram 147.379 chamados ao 190 para atender ocorrências de violência doméstica, contra 142.005 nos seis meses iniciais de 2019.

Essa subida revela não só a perene situação de vulnerabilidade feminina, como expõe as mulheres a um outro tipo de crime: com o aumento das agressões, elas são mais frequentemente sujeitas a episódio em que terminam matando para salvar a própria vida.

Não existe uma estatística oficial sobre os casos de mulheres julgadas ou que aguardam julgamento por crimes dessa natureza. Segundo a cineasta Sara Stopazzolli diretora do documentário Legítima defesa, que mais tarde deu origem a um livro sobre o mesmo tema, lançado pela Darkside Books, foram mapeados para a produção do filme, em 2016, cerca de 50 casos ocorridos nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. A maioria já havia sido julgada. “Parti do zero, lendo processos judiciais, conversando com defensores e funcionários dos fóruns, e descobri que casos de mulheres que tomaram uma atitude extrema para sobreviver existiam, sim, e muito”, relata a cineasta na introdução de seu livro, lançado em agosto deste ano. Ouvimos outras mulheres como Mel, levadas aos tribunais por terem matado em legítima defesa, e depois absolvidas. Em comum entre elas há o histórico de agressões, os sentimentos contraditórios, quando a vítima é o parceiro de anos, e o machismo que presenciam ao serem acusadas e julgadas, na maioria das vezes, por homens.

A assistente social Úrsula Francisco faz planos de cursar Direito, mas há pouco mais de dez anos ela quase integrou a estatística das mulheres que perdem a vida assassinadas por seus companheiros.  Ela tentou construir uma família com o marido, que era policial militar na Baixada Fluminense.  Casaram-se em 1998. Mas não demorou para que ele se mostrasse possesivo e violento. Ela contou que, para camuflar as agressões, ele colocava uma toalha de pano ao redor da mão antes de iniciar os espancamentos. Em outras ocasiões, ligava música alta na casa para impedir que os vizinhos escutassem os gritos de Úrsula. Algumas vezes também pedia que a mulher tocasse piano para ele, depois de apanhar, para “acalmá-lo”. Úrsula disse ainda que ele a obrigava a sentar-se no portão de casa junto a ele e ao filho do casal, nos fins de tarde, posando para a rua como uma família unida, para que os vizinhos não desconfiassem das agressões. “Nenhuma vez eu registrei ocorrência. Ele dizia que se eu desse queixa ele ia me matar. Como ele era policial, eu não duvidava”, contou a assistente social, que hoje comanda um posto de saúde em Nova Iguaçu.

A agressividade escalou até se transformar em ameaças de morte. No fatídico dia 5 de fevereiro de 2008, durante uma discussão o marido foi até o banheiro, onde guardava uma de suas pistolas. Ao vê-lo buscar a arma, Úrsula alcançou a segunda pistola do policial, que estava no quarto. Ele próprio a havia ensinado a atirar sob o pretexto de que a vida da família poderia um dia depender do uso da arma. “Tive poucos segundos para pensar. Eu sabia que era eu ou ele. Quando atirei eu perdi um pouco do raciocínio”, disse. O filho do casal, que estava fora de casa na hora do crime, chegou justamente quando a arma da mãe disparou.

Em choque, Úrsula imediatamente saiu da casa com o filho. No dia seguinte, se entregou. Sua rua se encheu de policiais indignados com a mulher que havia matado o companheiro de farda. Em um ano, ela contou ter se mudado de casa sete vezes com medo de retaliações. Por sete anos aguardou o desfecho do caso. A primeira denúncia do Ministério Público (MP), em 2008, baseada no inquérito policial, dizia que o assassinato teria acontecido de maneira livre e consciente e sem possibilidade de defesa da vítima. Só em 2015 o MP reconheceu a rotina de agressões e a legítima defesa, o que resultou em sua liberação, sem a necessidade de ir a júri popular. Hoje, como assistente social, ela orienta outras mulheres que passam por situação parecida.

A defensora Glauce Maués, que atuou na defesa de Úrsula, relembra que um dos pontos chave do caso foi o depoimento do filho do casal, que levantou a blusa durante uma audiência para mostrar as marcas de espancamento que também sofria do pai. Segundo Maués, o juiz a puxou pelo braço e disse: “Não vou mandar essa mulher para o júri, não quero saber, ela sai hoje inocentada”. Na fase de pronúncia, o promotor acabou pedindo a absolvição e o caso foi encerrado antes de ir a júri. “Sou capaz de contar nos dedos de uma mão quantos promotores eu vi desistirem da acusação desse tipo de crime na primeira fase. É muito comum ir a júri”, contou a defensora. Úrsula foi inocentada por legítima defesa.

Mesmo quem é treinada para agir em situações-limite também pode se ver vulnerável diante de um agressor. Foi o caso de Vânia Nascimento, de 45 anos, que trabalha como guarda municipal em São Paulo. Alta, de porte atlético e vaidosa, Vânia concedeu entrevista em sua casa, em São Paulo, num dia de folga do trabalho, usando um vestido preto e com as unhas pintadas de vermelho.  Pouco lembrava a mulher que quase foi morta pelo companheiro apenas três anos antes, depois de um rompimento. Ele era motorista de aplicativo e sempre foi ciumento – ainda que, segundo Vânia, até o dia do crime ele nunca houvesse deixado o ciúme escalar para a agressão.

Os dois estavam juntos havia 11 anos e ele era sete anos mais jovem. Nos últimos meses de convívio, no entanto, a relação se desgastou e Vânia contou ter sugerido a separação, sobretudo depois de descobrir que o parceiro vinha espionando seu telefone e suas redes sociais. No rompimento, ele não demonstrou descontrole. Mas, numa noite em que Vânia saiu com um grupo de amigas para uma festa, recebeu mensagens violenta do ex. “Sua desgraçada, você acabou com a minha vida. Você vai ver como você vai ficar”, escreveu ele, em mensagens que posteriormente foram apresentadas à polícia. Vânia inicialmente achou que o rompante era uma tentativa de chamar sua atenção. Quando chegou em casa, espantou-se ao vê-lo chegar logo depois, portando a chave que mantivera após a separação. A filha do casal não estava – só a primogênita, que é filha de um relacionamento anterior de Vânia.Vânia não desconfiou que a visita poderia resultar numa agressão. Contou que, depois de ouvir suas reclamações, deixou o ex-companheiro na sala, sentado no sofá, e foi para o quarto. Ele a seguiu, sentou-se na beira da cama e disse que não tinha para onde ir. Ela não demonstrou muito interesse no que ele tinha a dizer e virou as costas. Nesse momento, ele pegou uma das armas que ela guardava perto da cama e atirou pela primeira vez. ”Quando ele me deu o primeiro tiro, eu me senti um nada, um lixo”, desabafou. Mesmo ferida, Vânia alcançou a pistola que tinha guardada no guarda-roupa e disparou, acertando cinco tiros no ex-parceiro, que acabou morrendo no local. Ela fraturou o braço, quebrou costelas e tem uma bala alojada nas costas. Os exames e laudos foram todos anexados ao processo, que ainda corre na Justiça. No caso de Vânia, ainda não se sabe se a legítima defesa será reconhecida, já que o inquérito sobre o crime não, foi concluído. Ou seja, se a Justiça não reconhecer suas provas, ela pode ser condenada e presa por homicídio. O MP-SP disse que o caso segue em fase de inquérito e que não se pronunciaria.

Diferentemente de Vânia, que não via indícios de que uma agressão poderia transcorrer, a massoterapeuta Ana Raquel Trindade, de 35 anos, contou ter registrado mais de dez boletins de ocorrência em Florianópolis, Santa Catarina, contra seu ex- patrão, que ela afirma ter sido obcecado por ela. Os relatos da obsessão incluíam crimes de estupro, agressão e ameaça. E mesmo com todos os informes oficiais protocolados na delegacia, o agressor nunca foi investigado ou    alvo de qualquer investida da polícia. Dez meses antes do crime, o Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher negou um pedido de medida protetiva feito por ela. A razão? Só havia a “palavra” dela para “sustentar o pleito”.

Temendo que as investidas continuassem, ela decidiu comprar uma arma ilegalmente para se defender. Em 16 de novembro de 2014, ele foi até a casa dela e forçou o portão para entrar. Conseguiu. Ela então pegou a arma e atirou aleatoriamente várias vezes. Acertou nove balas, e ele morreu dias depois. Ana Raquel foi presa e ficou 24 dias na cadeia até obter um habeas corpus. Em 2016, ela também foi levada a júri popular e absolvida, com a chancela do MP. “No contexto, em razão de tudo que aconteceu, mesmo que ela tenha desferido uma grande quantidade de tiros, ela agiu moderadamente, a legítima defesa ficou caracterizada”, afirmou o promotor Andrey Amorim.

Ana Raquel hoje briga por uma indenização de R$ 100 mil do estado de Santa Catarina, que ignorou seus pedidos de ajuda. Em primeira instância, a ação foi negada, em 2018. A juíza Andresa Bernardo, da 1ª Vara de Fazenda Pública, escreveu que ”não havia nenhum dever jurídico específico do Estado perante a autora, sendo que a situação de ser mulher e estar em condição de vulnerabilidade e fragilidade não é suficiente para constituir tal hipótese”. Em suma, a juíza não viu nenhuma falha do Estado ao não atender ao pedido de socorro em face dos boletins de ocorrência por ela registrados.

Em alguns casos, um dispositivo que não está na lei, mas já foi usado para inocentar homens que cometeram feminicídio no passado, agora tem sido aplicado em favor de mulheres que matam para escapar da violência.

Trata-se da “inexigibilidade de conduta diversa”, uma tese supralegal, construída com base em várias jurisprudências e empregada de forma controversa em casos em que o autor supostamente não poderia ter agido de outra forma diante das circunstâncias. Tal tese é alvo de infindáveis debates jurídicos e foi discutida mais recentemente após o lançamento do podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, que reconta o assassinato da socialite Ângela Diniz pelo empresário Doca Street. No primeiro julgamento de Street, em 1979, sua defesa usou a figura jurídica da “inexigibilidade de conduta diversa”, argumentando que o crime fora cometido em “legítima defesa da honra” do assassino, que ele teria agido sob ”forte emoção” por suspeita de uma traição”. Dois anos depois, em 1981, o processo foi revisto e um novo julgamento transcorreu, em que Street foi condenado a 15 anos por homicídio doloso, tendo ficado preso em regime fechado por apenas quatro anos.

Esse mesmo argumento de inexigibilidade foi usado pela defesa da cabeleireira Jadielma dos Santos Silva, de 35 anos, para livrá-la de uma condenação por ter matado o marido há oito anos. Sua história de abusos remonta logo ao início da relação. Natural de Arapiraca, em Alagoas, ela chegou a São Paulo em 2000, ainda com 14 anos, para trabalhar num salão de beleza. Descobriu, contudo, que o futuro patrão queria não só uma funcionária, mas também uma mulher. Ela discordou da proposta e voltou para a casa dos pais. Mas a pobreza enfrentada no Nordeste a fez reconsiderar a ideia anos depois e tentar a vida com o patrão, 25 anos mais velho.

Ao longo de quase oito anos juntos, entre 2004 e 2012, ela teve quatro filhos em um ambiente que descreve como inferno. Ele a obrigava a ficar em casa, sem dinheiro e sem celular e proibia que ela arrumasse o cabelo, pintasse as unhas ou usasse maquiagem. O sentimento de posse   constantemente resultava em violência física. A cabeleireira não sabia como fazer para denunciar os maus tratos e desconhecia políticas públicas que ajudam mulheres em sua situação. Segundo o defensor Renato de Vitto, que acompanhou o caso anos depois, ela por mais de uma vez acionou a Policia Militar nos momentos de briga, mas o marido nunca era levado, ainda que houvesse testemunhas dos atos de violência.

Jadielma contou que sempre que ela ameaçava sair de casa, o marido revidava dizendo que mataria os filhos. Desesperada com a rotina de agressões, numa noite de setembro de 2012, ela decidiu tomar medidas extremas, pondo fim à vida do marido. Primeiro o dopou. Depois, o enforcou com uma corda. Jadielma foi presa e aguardou na cadeia por um ano até obter um habeas corpus. Em outubro do ano passado, um tribunal do júri em São Paulo a absolveu por “inexigibilidade de conduta diversa”. Seu caso era mais complexo que os demais. A ela não poderia ser concedida a legítima defesa porque a morte do marido não decorreu de uma ação imediata iniciada por ele, já que ele havia sido dopado. Jadielma, portanto, premeditou o crime. Ainda assim, ao verificar o caso, e diante de todo o histórico de violência, o próprio Ministério Público em São Paulo concordou com a absolvição. “Há situações em que não cabe a legítima defesa. É uma tendência positiva os jurados entenderem isso. Naquelas circunstâncias, não seria exigível pedir que ela permanecesse calada, sob ameaça de continuar sendo agredida indefinidamente”, argumentou De Vitto, o defensor.

Em caso de violência, ligue 180 para a Central de Atendimento à Mulher do governo federal.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE DEZEMBRO

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO

Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá (Salmos 27.10).

A dor do abandono é cruel e avassaladora. Há pessoas machucadas porque foram rejeitadas desde o ventre materno. Há aquelas que nunca se sentiram amadas por seus pais. Há as que foram traídas e abandonadas pelo cônjuge. Há pais que são abandonados pelos filhos e jogados num asilo. O apóstolo Paulo, preso em Roma, sentiu-se abandonado por Demas, quando mais precisava dele. O abandono dói, fere a alma. Paulo foi abandonado na prisão e em sua primeira defesa ninguém foi a seu favor. Jesus foi abandonado no jardim do Getsêmani, e todos os seus discípulos fugiram. Seus amigos podem abandonar você. Sua família pode abandonar você, mas Deus jamais o abandonará. A Bíblia diz: Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá. Também diz: Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama…? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti (Isaias 49. 15). Deus ama você. Ele estará com você e carregará você em seus braços. Jesus diz: … E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mateus 28.20b).

GESTÃO E CARREIRA

DEFESA E ATAQUE

A pandemia mostrou a Florian Hagenbuch, fundador da Loft, que a crise exige mais do que um bom jogo de cintura dos gestores

Sou um grande fã de futebol. Acredito que o esporte nos revele ensinamentos táticos e estratégicos aplicáveis no mundo dos negócios. Não há um grande time com uma ótima defesa e um ataque perna de pau nem há um campeão com um ótimo ataque cuja defesa se mostra uma peneira. Os dois mindsets coexistem, sempre, em uma dança fluida, na qual cada parte ganha mais importância de acordo com o contexto. Logo, o que faz com que grandes times, grandes técnicos e grandes jogadores se destaquem e conquistem coisas incríveis é justamente a sabedoria de dosar, de distribuir forças e recursos entre o ataque e a defesa de maneira estratégica, dependendo da batalha disputada no momento.

Em tempos de crise, como a que vivemos hoje devido ao coronavírus, essa dança e essa distribuição são tensionadas ao extremo. Logo após a erupção da pandemia, muitos fundadores de empresas de tecnologia, inclusive eu, não tiveram outra opção a não ser adotar rapidamente o esquema tático defensivo. O foco, naquele momento, estava na sobrevivência e na necessidade de adaptar as providências de segurança das pessoas envolvidas na nossa operação a uma situação inédita. Ao mesmo tempo, precisávamos poupar os recursos da empresa o máximo possível, enquanto se ganhava a visibilidade da extensão dos danos humanitários e econômicos.

Algumas empresas estavam mais ou menos capitalizadas e outras mais ou menos alavancadas operacionalmente, o que fazia com que as decisões refletissem a gravidade da situação de cada uma. O objetivo era claramente não perder. Durante essa experiência percebemos que a duração da predominância desse mindset pode ditar a forma como – e a força com a qual – cada time sairá ”do outro lado”. Acredito que o segredo esteja na dosagem e na velocidade da mudança de chave.

Recentemente, em um dos encontros mensais que promovemos em nosso clube do livro na Loft, discutimos Shoe Dog. A obra conta a história da fundação da Nike, uma empresa que é o resultado da sobrevivência a diversas crises. Um de seus princípios originais, publicados em 1977, é ”We’re on offense. All the time’. A companhia, que por vezes teve de dar tudo de si apenas para sobreviver, esteve sempre também no ataque. Em outro desses encontros, lemos a obra-prima de nosso investidor, Ben Horowitz: The Hard Thing ahout Hard Things. Nela, Horowitz expõe seu framework de ”peacetime vs. wartime CEG’. Segundo ele, tempos de paz e tempos de guerra requerem estilos de gestão radicalmente diferentes. Poderia um CEO ter o skill set para ambas as situações e conseguir transitar entre elas? A resposta teórica é sim, apesar de ser bastante difícil na prática.

De acordo com Ben Horowitz, para poder transitar entre os dois estilos, é necessário entender todas as regras para saber quando segui-las e quando quebrá-las. Afinal, para muitas das situações que vivemos (a covid-19, por exemplo) e para muitas empresas de tecnologia, não há precedentes: há, e apenas pode haver, o improviso educado, a ação e a adaptação rápidas. Acredito que tenhamos sido rápidos em adotar a tática de defesa na Loft no surgimento da crise da covid-19 no início de março. A pandemia me deu, pela primeira vez, a oportunidade na Loft de ”jogar na retranca” e, ao mesmo tempo, a chance de entrar no modo wartime CEO. Vivi na pele a analogia do futebol: não existe uma função isolada da outra. Foi preciso mudar de tática constantemente, até no mesmo dia, no auge da tempestade.

Além de aprender sobre uma nova realidade – de extrema incerteza-, era preciso aprender sobre mim mesmo e sobre minha forma de gestão e, mais do que tudo, me adaptar (e readaptar) rapidamente. Ao mesmo tempo que me adaptava e aprendia, eu me surpreendi com a velocidade de adaptação de nosso time. Dois de nossos valores predominaram: ”win together’ e ”getit dane’. Naquele momento, estávamos 80% concentrados na defesa e 20% no ataque, e essa distribuição foi fundamental. Nosso foco era entender as dores de nossos clientes nesta nova realidade. Reorganizamos processos, encontramos oportunidades de redução de custos significativas, dosamos investimentos em nossos diferentes produtos e modelos de negócios, preparamos diversos cenários de previsão de caixa. Enquanto isso, os 20% permitiam que fizéssemos nossa primeira venda 100% online e até lançássemos dois produtos: empréstimo com imóvel em garantia e assessoria imobiliária.

De lá para cá, fui mudando gradualmente o foco, passando em determinado momento para um mindset 50% na defesa, 50% no ataque. Mais recentemente, conforme aprendemos e ganhamos mais visibilidade sobre onde estamos pisando, tenho me aproximado do cenário inverso ao do começo: 80% no ataque, 20% na defesa.

Um artigo da gestora NFX que li recentemente – It’s time to start playing offense – define bem esse mindset. Segundo o autor, ataque é assumir riscos e pensar em como sair mais forte da crise – quais são as jogadas mais arriscadas que podemos tomar, enquanto a opção da retranca pura atrai outros agentes do mercado? Vejo o cenário fluido: a todo momento, somos confrontados com novas informações e novas realidades. É possível que tenhamos de nos adaptar novamente a uma maior predominância da defesa, assim como é possível que aceleremos o ataque. O resumo que me guia neste momento vem de outro trecho do artigo da NFX: ”O mercado de hoje é, simultaneamente, mais perigoso e mais vantajoso do que qualquer outro visto anteriormente”.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CONTÁGIO NOS SONHOS

Como a pandemia de Covid-19 está mudando o nosso sono

Para muitos de nós, a vida no mundo da covid-19 dá a sensação de termos sido jogados em uma realidade alternativa. Vivemos dia e noite entre quatro paredes. Temos medo de coisas que chegam às nossas portas. Se nos aventuramos pela cidade, usamos máscaras. Temos problemas para discernir rostos. É como viver em um sonho.

A covid-19 já alterou nosso mundo dos sonhos: o quanto sonhamos, o quanto lembramos deles e até a natureza dos sonhos. No início deste ano, quando foram adotadas diretrizes de isolamento, a sociedade inesperadamente experimentou o que estou chamando de uma onda de sonhos: um aumento global nos relatos de sonhos vívidos e estranhos, muitos relacionados ao coronavírus e ao distanciamento social. Termos como sonhos de coronavírus e pesadelos de covid surgiram nas redes sociais. Em abril, as mídias sociais e tradicionais começaram a divulgar a notícia: o mundo está sonhando com a covid-19.

Embora grandes mudanças nos sonhos tenham sido relatadas nos EUA depois de eventos extraordinários como os ataques de 11 de setembro de 2001, um aumento dessa magnitude nunca tinha sido documentado. Essa disparada nos sonhos é a primeira a ocorrer globalmente, e a primeira a acontecer na era das mídias sociais, o que torna os sonhos rapidamente acessíveis para estudos imediatos. Enquanto um “evento” de sonhos, a pandemia é semprecedentes.

Mas que tipo de fenômeno é esse, exatamente? Para descobrir, Deirdre Barrett, professora da Universidade Harvard, iniciou uma pesquisa on-line acerca dos sonhos da covid-19 na semana de 22 de março. Erin e Grace Gravley, artistas da Área da Baía de São Francisco, lançaram o Dream of Covid, com um site de arquivos e ilustrações dos sonhos da pandemia. A conta @CovidDreams começou a operar no Twitter. Kelly Bulkeley, psicóloga e diretora do Banco de Dados do Sono e dos Sonhos, veio a seguir com uma pesquisa com 2.477 americanos adultos. E minha ex-aluna de doutorado Elizaveta Solomonova, junto com Rebecca Robillard, do Instituto Real de Pesquisa sobre Saúde Mental, e outros realizaram uma pesquisa respondida por 968 pessoas. Os resultados documentam um acentuado aumento nos sonhos, em sua diversidade e em seus efeitos sobre a saúde mental.

A enquete de Bulkeley revelou que, em março, 29% dos americanos lembravam mais de seus sonhos do que o habitual. Solomonova e Robillard descobriram que 37% das pessoas tiveram sonhos com a pandemia, muitos marcados por temas como não realizar tarefas adequadamente (tais como perder controle de um veículo) e ser ameaçado por outras pessoas. Muitos posts refletem essas descobertas. Uma pessoa relatou no Twitter: “Sonhei que retomava como professora substituta no outono, despreparada. Os estudantes tinham dificuldades para praticar o distanciamento social e os professores não conseguiam programar aulas ou encontros individuais.” Outra pessoa escreveu: “Meu celular tinha um vírus e postava muitas fotos aleatórias da minha câmera no Instagram e minha ansiedade estava em seu ponto máximo”.

Estudos mais recentes viram mudanças qualitativas nas preocupações com a saúde e as emoções dos sonhos. Relatos de sonhos de brasileiros em isolamento social tinham alta proporção de palavras relacionadas a raiva, tristeza, contaminação e higiene. A mineração de textos de relatos de 810 finlandeses mostrou que os agrupamentos de palavras estavam sobrecarregados por ansiedade; 55% eram diretamente sobre a pandemia (falta de respeito ao distanciamento social, pessoas mais velhas com problemas), e essas emoções predominavam entre as pessoas que sentiam o estresse aumentar durante o dia. Um estudo com cem enfermeiras recrutadas para tratar pacientes de covid-19 na China revelou que 45% tiveram pesadelos – o dobro da taxa de pacientes em ambulatórios psiquiátricos chineses e muito acima dos 5% da população em geral com problemas de pesadelos.

Parece claro que alguma dinâmica básica biológica e social teve um papel nessa abertura inédita das comportas oníricas. Pelo menos três fatores podem ter acionado ou sustentado a disparada dos sonhos: a interrupção dos períodos de sono aumentam o sono REM (de Movimento Rápido dos Olhos) e, portanto, os sonhos; ameaças de contágio e distanciamento social pesam sobre a capacidade dos sonhos de regularem as emoções: e a mídia e as redes sociais amplificam a reação do público à disparada.

MAIS SONO REM, MAIS SONHOS

Uma explicação óbvia é que os padrões de sono mudaram de repente quando as quarentenas entraram em vigor. Os primeiros informes demonstram níveis elevados de insônia na população chinesa, em especial nos trabalhadores na linha de frente. Porém, as ordens para ficar em casa, que removeram as longas viagens para o trabalho, melhoraram o sono para muitos. Chineses entrevistados relataram um aumento médio de 46 minutos na cama e 34 minutos a mais no total de sono. Cerca de 54% das pessoas na Finlândia disseram dormir mais depois do lockdown. Entre 13 e 27 de março, o tempo de sono nos EUA aumentou quase 20%.

Mais sono leva a mais sonhos; em laboratórios de sono, pessoas que dormem mais de 9.5horas lembram mais de seus sonhos do que se dormirem oito horas. Dormir mais tempo aumenta proporcionalmente o sono REM, que é quando ocorrem os sonhos mais vívidos e emocionais. Agendas menos rígidas também podem ter postergado os sonhos na parte da manhã, que é quando o sono REM prevalece e os sonhos ficam mais estranhos. Tuítes sobre sonhos refletem essas qualidades: “eu estava cuidando de uma recém-nascida com covid… era tão vívido e real.” O aumento dos sonhos em intervalos REM no fim da manhã resulta da convergência de vários processos. O sono tem ciclos entre os estágios profundo e leve a cada 90 minutos, mas a pressão por sono REM aumenta à medida que a necessidade de sono profundo e recuperador é progressivamente satisfeita. Enquanto isso, um processo circadiano, que se relaciona com o ritmo da temperatura de nosso corpo em 24 horas, confere um estimulo abrupto à propensão ao sono REM no fim do período de sono e se mantém elevado durante a manhã.

Desde que a pandemia começou, muitas pessoas dormem mais e mais tarde. Na China, o horário médio de ir para cama atrasou-se, em média, 26 minutos, mas o horário de se levantar se atrasou 72 minutos. Esses valores foram de 41 e 73 minutos na Itália e 30 e 42 minutos entre universitários dos EUA. E, sem o tempo de transporte, muitas pessoas ganharam tempo livre na cama para relembrar seus sonhos. E, à medida que eliminara m eventuais déficits de sono, as pessoas aumentam suas chances de acordarem de noite e lembrarem demais sonhos.

FUNÇÕES DOS SONHOS SOBRECARREGADAS

O Tema de muitos sonhos da covid-19 reflete diretamente ou metaforicamente os temores de contágio e os desafios do distanciamento social. Mesmo em épocas normais, sonhamos mais com novas experiências. Por exemplo, pessoas matriculadas em cursos de francês logo sonham sobre o francês. Repetir fragmentos de experiências é um exemplo do papel funcional que os pesquisadores atribuem ao sonho e ao sono REM: eles nos ajudam a solucionar problemas. Outros papéis incluem consolidar eventos do dia anterior em memórias mais duradouras, encaixar esses eventos em uma narrativa de nossas vidas e ajudar-nos a regular emoções.

Pesquisas já documentaram diversos casos de sonhos que auxiliaram feitos criativos. Estudos empíricos também mostram que o sono REM ajuda na resolução de problemas que exigem acesso a variadas associações de memória, o que pode explicar por que tantos sonhos na onda de 2020 envolvem tentativas criativas ou estranhas de lidar com o problema da covid-19. Um participante de uma pesquisa disse: “Eu estava buscando um tipo de creme que evitaria ou curaria a Covid-19. Eu coloquei minhas mãos na última garrafa”.

Duas outras funções atribuídas ao sonho são as de extinguir memórias de medo e simular situações sociais. Elas estão relacionadas à regulação da emoção, e ajudam a explicar por que as ameaças da pandemia e os desafios do distanciamento social aparecem com tanta frequência nessa onda de sonhos. Muitos sonhos relatados na mídia incluem reações de medo ligado à infecção, às finanças e ao distanciamento social. “Eu testei positivo para gravidez e covid… agora estou estressada”. Ameaças podem tomar a forma de imagens metafóricas como tsunamis ou alienígenas; zumbis são comuns. Imagens de insetos e outras pequenas criaturas também são bem representadas: “Meu pé estava coberto de formigas e 5 ou 6 viúvas-negras estavam grudadas na sola do meu pé”.

Uma forma de entender imagens diretas e metafóricas é considerar que sonhos expressam as principais preocupações de um indivíduo, aproveitando memórias que são semelhantes no tom emocional, mas diferentes no assunto. Essa contextualização é clara em pesadelos pós-traumáticos, em que a reação da pessoa a um trauma, como o terror durante um assalto, é representada como o terror diante de um desastre natural, como um tsunami. Ernest Harlmann, pesquisador pioneiro que estudou sonhos após os ataques de 11 de setembro, estipulou que essa contextualização ajuda as pessoas a se adaptarem, ao entrelaçar experiências antigas e novas. A integração bem-sucedida produz um sistema de memória mais estável, que resiste a traumas futuros.

Imagens metafóricas podem ser parte de um esforço construtivo para dar sentido a eventos perturbadores. Um processo relacionado é a eliminação do medo pela criação de novas “memórias de segurança”. Essas possibilidades, que eu e outros investigamos, refletem o fato de que as memórias de eventos apavorantes quase nunca são reprisadas nos sonhos em sua inteireza. Ao invés, os elementos de uma memória surgem de forma fragmentada, como se a memória original fosse reduzida a unidades básicas. Essas partes se recombinam com memórias e cognições mais recentes para criar contextos em que as metáforas e outras justaposições incomuns de imagens parecem incompatíveis com a vida real. E, mais importante, são incompatíveis com sentimentos de medo. Esse sonhar criativo produz imagens de segurança que se sobrepõem e inibem a memória do medo original, ajudando com o tempo a atenuar a angústia.

Porém, esse mecanismo pode se quebrar depois de traumas severos. Nesses casos, surgem os pesadelos em que a memória apavorante é reprisada de forma realista; os elementos recombinantes criativos da memória estão travados. O impacto final da pandemia nos sonhos de uma pessoa vai depender do seu grau de trauma e resiliência.

Um segundo tipo de teoria pode explicar os temas de distanciamento social, tais como os que permeiam os relatos em IDreamofCovid.com. As emoções nesses sonhos variam de surpresa a desconforto, de estresse a horror. Tuítes ilustram como os cenários dos sonhos são incompatíveis com o distanciamento social – tão incompatíveis que costumam provocar um raro momento de conscientização e despertar: “Nós estávamos celebrando algo em uma festa. E eu acordei porque alguma coisa estava errada já que não devemos fazer festas por causa do distanciamento social”.

Essas teorias focam a função de simulação social do sonho. A visão de que sonhar é uma simulação neural da realidade, análoga à realidade virtual, é agora amplamente aceita, e a ideia de que a simulação da vida social é uma função biológica essencial está crescendo. Em 2000, Arme Germain, agora executiva-chefe de medicina do sono da start-up Noctem, e eu propusemos que asimagens de personagens interagindo com o self em sonhos poderia ser básico a como o sonhar evoluiu, refletindo vínculos de relações essenciais à sobrevivência de grupos pré-históricos. Os fortes laços interpessoais reiterados durante o sonho contribuem para fortalecer as estruturas do grupo, ajudando a organizar asdefesas contra predadores e a cooperação na solução de problemas.

Outros pesquisadores, como Antti Revonsuo, da Universidade de Turku propuseram desde então funções sociais adicionais para o sonho: facilitar a percepção social (quem está em torno de mim?), a leitura da mente social (o que eles estão pensando?) e a prática da habilidade de criar vínculos sociais. Outra teoria apresentada por Mark Blagrove, da Universidade de Swansea, postula que, ao compartilhar sonhos, as pessoas reforçam a empatia com os outros. A lista de funções do sonho deve continuar crescendo à medida que aprendemos mais sobre os circuitos do cérebro na base da cognição social e o papel que o sono REM desempenha na memória para estímulos emocionais, faces humanas e reações à exclusão social. Como o distanciamento social é, de fato, um experimento de isolamento social cm um nível nunca visto – e é provavelmente antagônico à evolução humana – um choque com mecanismos dos sonhos profundamente enraizados deve ser evidente em larga escala. E como o distanciamento social perturba tão profundamente as relações normais, as simulações sociais nos sonhos podem desempenhar um papel crucial para ajudar famílias, grupos e até sociedades a lidarem com uma adaptação social repentina e generalizada.

A CÂMARA DE ECO DA MÍDIA SOCIAL

Será que a disparada nos sonhos foi amplificada pela mídia? É bem possível que os posts iniciais sobre uns poucos sonhos tenham circulado muito, e alimentado uma narrativa sobre sonhos da pandemia que virou viral, influenciando as pessoas a lembrarem de seus sonhos, notarem os temas da covid e os compartilharem. Essa narrativa pode até ter induzido pessoas a sonharem mais com a pandemia.

As evidências sugerem que as notícias na mídia tradicional provavelmente não dispararam o aumento dos sonhos, mas podem ter amplificado seu alcance, pelo menos temporariamente. As pesquisas de Bulkeley e Solomonova Robillard corroboraram uma clara onda de tuítes a respeito de sonhos em março, antes que as primeiras notícias sobre esses sonhos aparecessem; de fato, as primeiras histórias citavam várias sequências de tuítes como fontes da notícia.

Quando as histórias surgiram, foi detectado um crescimento nos relatos de sonhos em @CovidDreams e IDreamofCovid.com até o início de abril. Além disso, durante a primeira semana, 56% dos artigos no noticiário apresentavam entrevistas com a mesma cientista de sonhos de Harvard, o que pode ter influenciado leitores a sonharem com os temas repetidos por ela em várias entrevistas.

A onda começou a declinar no fim de abril, assim como o número de artigos na mídia tradicional, sugerindo o fim dos efeitos de câmara de eco. Resta saber qual é a natureza final da onda. Até que as vacinas ou os tratamentos para a covid-19 estejam disponíveis, e com a possibilidade de outras ondas de infecção, as ameaças da doença e do distanciamento social devem persistir. A pandemia pode ter gerado um aumento duradouro na capacidade humana de lembrar dos sonhos? Será que as preocupações com a pandemia podem se infiltrar permanentemente nos sonhos? Se sim, essas alterações vão ajudar ou prejudicar a adaptação das pessoas ao futuro pós-pandemia?

Certas pessoas poderão precisar de terapeutas. Os dados das pesquisas usados neste artigo não se aprofundam nos detalhes dos pesadelos. Mas alguns profissionais de saúde que viram muito sofrimento têm agora pesadelos recorrentes. E alguns pacientes que ficaram em UTIs por dias ou semanas sofreram pesadelos terríveis neste período, o que pode, em parte, ser resultado de medicações e falta de sono induzida pelos procedimentos hospitalares ininterruptos e barulhos. Esses sobreviventes vão precisar de ajuda de especialistas para recuperarem o sono normal.

Pessoas que estejam apenas um pouco assustadas com seus sonhos de covid também têm opções. Novas tecnologias como reativação de memória direcionada estão oferecendo às pessoas mais controle sobre as narrativas de seus sonhos. Por exemplo, aprender como praticar o sonho lúcido – tornar-se ciente de que se está sonhando – com a ajuda de reativação da memória direcionada ou outros métodos pode ajudar a transformar sonhos preocupantes em sonhos mais agradáveis e até úteis. Simplesmente observar e relatar sonhos da pandemia parece ter impacto positivo na saúde mental, como Natália Mota, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, descobriu em seus estudos. Na falta de terapia, podemos nos permitir relaxar e desfrutar das horas extras de sono. Os sonhos podem ser incômodos, mas eles também são sugestionáveis, maleáveis e, às vezes, inspiradores.

EU ACHO …

ATIVIDADE FÍSICA E METABOLISMO

O exercício, panaceia moderna, começa a ter a sua fisiologia desvendada

Se existe uma panaceia na medicina moderna é a atividade física. São incontáveis seus benefícios: redução da mortalidade por doenças cardiovasculares, prevenção e controle do diabetes e da hipertensão, do número de casos de diversos tipos de câncer, da obesidade e de suas consequências, do declínio cognitivo associado ao envelhecimento e até do risco de desenvolver as formas graves da Covid-19.

Embora a prática de exercícios com regularidade diminua a mortalidade geral e o risco de doenças cardiovasculares, os mecanismos responsáveis por esses resultados são claros.

Mallhew Naylor e colaboradores do Massachusetts General Hospital acabam de publicar na revista Circulation um estudo para avaliar os padrões da arquitetura da resposta metabólica ao exercício em seres humanos.

Foram realizados testes da função cardiopulmonar e do perfil metabólico antes e depois de alguns minutos de exercício extenuante (em bicicleta estacionária), entre os participantes do Framingliam Heart Study, uma corte dessa cidade próxima de Boston, que vem sendo acompanhada há décadas para avaliar os fatores envolvidos nas doenças cardiovasculares.

As idades variaram entre 46 e 61 anos (média= 53). Do total, 63% eram mulheres. Os participantes tiveram 588 metabólitos dosados no sangue colhido antes e depois de pedalar à exaustão (em média 12 minutos). Em 502 houve mudança do perfil induzida pela atividade física.

Os níveis de metabólitos presentes na circulação antes da prática do exercício guardaram relação direta com o preparo físico anterior. As alterações induzidas pela atividade física incluíam redução das concentrações de metabólito implicados na resistência à insulina (que predispõem ao diabetes), aumento daqueles relacionados com a lipólise (envolvidos na “queima” de gordura), na biodisponibilidade de óxido nítrico e do tecido adiposo marrom, entre outros fatores relevantes para o risco cardiometabólico.

Essas modificações variaram de acordo com a quantidade de exercício realizado, o sexo e o índice de massa corpórea. O impacto na produção de alguns metabólitos protetores foi menor nos participantes que estavam na faixa da obesidade e mais alto nas mulheres, mesmo quando praticaram exercícios menos intensos.

Com base nas respostas obtidas com o exercício foi possível identificar quatro “assinaturas” metabólicas, duas das quais associadas à mortalidade geral. Num período médio de observação de 2,3 anos. Os autores concluem que, em indivíduos da comunidade -, exercícios intensos, mesmo quando praticados por um período curto, são capazes de causar alterações no metabolismo centrais à saúde de cardiometabólica e a proteção contra doenças cardiovasculares.

A diferença entre as panaceias egípcias, greco-romanas e as mais populares da Idade Média, prescritas durante séculos sem evidências de eficácia e do mecanismo de ação, o exercício físico, panaceia moderna, começa a ter a sua fisiologia desvendada.

*** DRAUZIO VARELLA

OUTROS OLHARES

NÃO TEM BOI NA LINHA

Produtos vegetarianos e veganos que imitam o sabor de carnes viram moda nas classes A e B e ganham espaço nas gôndolas

As carnes, aos poucos, estão saindo dos pratos de um grupo maior de pessoas. As razões e a intensidade variam. Para alguns, evitar o sofrimento dos animais é um motivo bom o suficiente. Outros usam argumentos que ligam a produção de carne ao aquecimento global. A maioria lembra dos benefícios à saúde trazidos pela diminuição do consumo de proteína animal. O que, num passado não muito distante, era conversa de bicho-grilo, agora tem o apoio de celebridades. Da cantora Beyoncé ao piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, passando pelas tenistas Serena e Vênus Williams, não falta quem fale das vantagens de tirar ou evitar carnes na hora das refeições. Não é por nada que movimentos como o Segunda sem Carne ganharam popularidade mundo afora.

No Brasil, um parâmetro para medir a força dessa tendência é o aumento da procura por proteínas plant based, nome dado a produtos que tentam imitar o sabor da carne usando apenas vegetais. “O surgimento de startups que passaram a investir em tecnologia para substituir hambúrgueres tradicionais foi o pontapé inicial da expansão desse mercado”, disse Rodrigo Godoi, especialista da consultoria Euromonitor lnternational. A primeira geração dos alimentos de proteína vegetal era praticamente composta de soja. O panorama começou a mudar há três anos, com a inovação, mas a variedade aumentou de fato mais recentemente, com produtos plant based mais similares a proteínas como frango, linguiça suína e bife bovino.

É essa variedade que tornou as opções mais atrativas ao público de modo geral e chamou a atenção de grandes marcas de alimentos tradicionais e de gigantes varejistas. Elas não estão interessadas apenas no público formado por vegetarianos e veganos, ainda pequeno, embora em crescimento. “As empresas estão de olho no cliente sazonal, que come carne, mas que, por estar preocupado com nutrição e bem-estar, também consome alternativas porque quer reduzir o consumo de proteína animal para comer menos gordura, controlar colesterol, evitar hipertensão, ou mesmo por preocupações ambientais”, afirmou Godoi. Um em cada quatro consumidores brasileiros tem a intenção de reduzir o consumo de carne, segundo levantamento da Euromonitor feito neste ano.

A rede de supermercados Pão de Açúcar decidiu no ano passado dar maior visibilidade à linha de produtos vegetarianos e especialmente aos substitutos de carne para verificar se a demanda por eles tinha potencial, segundo o gerente comercial da rede André Machado. “Havia essa tendência de crescimento no mercado externo enão sabíamos qual era o potencial do segmento no Brasil. Aqui é um mercado liderado pelas foodtechs, começamos com poucos produtos, mas tivemos uma demanda muito expressiva. No início, do consumidor de 16 a 31 anos e mais voltado para a qualidade dos produtos, não tanto ao preço”, disse ele.

A rede criou nas lojas um corredor de produtos “verdes”, mas também decidiu expor os substitutos de carne na área do açougue, próximo às carnes, o que aumentou as vendas. No Pão de Açúcar, a percepção é que a demanda deixou de ser restrita a um nicho. Durante o período da pandemia, cresceu 60% na comparação mês a mês, estimulada também pela ampliação do portfólio de produtos. “Queremos aumentar a variedade do cardápio, para que a pessoa possa viver de plant based todo dia da semana. Lácteos, carnes, embutidos, suínos, quibes, pescados, frango. Para isso, ampliamos os fornecedores. Hoje, trabalhamos com dez marcas e temos carne moída, almôndega, peixe e frango em opções vegetarianas”, salientou Machado. Hoje, todas as unidades da rede já têm ao menos algum produto do tipo nas gôndolas.

Apesar do sucesso inicial, os plant based não são para todos. O maior limitador do crescimento da categoria não é mais o sabor, mas sim o preço, ainda elevado. Com a entrada de grandes empresas e frigoríficos, os valores cobrados deverão cair, mas o preço médio de um substituto de carne congelada chega a RS 71 por quilo, em comparação a RS 20 da carne fresca, a depender do corte. É essa diferença que torna esse mercado restrito para as classes A e B.

A rede Carrefour também incorporou a categoria a suas gôndolas no Brasil, no âmbito de um movimento global feito pela companhia a partir de 2018. “O que a gente identifica é que o cliente de maneira geral fica muito curioso com essa categoria. Na pandemia, as pessoas ficaram mais em casa, tiveram de cozinhar e passaram a experimentar mais esses produtos”, disse Lucio Vicente, diretor de sustentabilidade do grupo.

A fabricante líder do segmento de substitutos de carne no país é a Fazenda Futuro, fundada em 2019. A empresa foi avaliada em RS 715 milhões e recebeu em setembro R$ 115 milhões em uma rodada de investimentos.

Inicialmente, a fábrica da marca foi projetada para produzir 100 toneladas mensais, mas a demanda crescente fez com que a capacidade fabril precisasse ser ampliada logo no segundo trimestre de operação, de acordo com o presidente e fundador da empresa, Marcos Leta. Hoje, a marca tem capacidade para fazer 600 toneladas ao mês. “Não competimos com outros produtos veganos e vegetarianos, mas sim com frigoríficos. Lançamos o hambúrguer e depois outros produtos, como frango e peixe à base de plantas”, afirmou ele. Segundo Leta, a marca já está hoje em 10 mil pontos de venda no Brasil. “Quase 95% de nossos consumidores são pessoas que gostam de carne e consomem carne todo dia e que vêm diminuindo o consumo de proteína animal durante a semana. É o que chamamos de flexitariano”, afirmou o executivo.

A marca faz 90% de suas vendas no Brasil, mas iniciou um programa de expansão internacional. Já exporta hoje para a Europa e começará a vender seus produtos nos Estados Unidos em fevereiro. A projeção é que a receita internacional chegue aos 50% do faturamento nos próximos anos.

A entrada de tradicionais marcas de frigoríficos nesse mercado não é vista pela Fazenda Futuro como uma ameaça. “Os grandes frigoríficos entram nesta categoria para estender suas linhas, mas seguem fazendo altos investimentos em terra, ração, gado, criação de pintinho, que precisam ser viáveis economicamente. Nós temos um propósito de eficiência. Se numa área do tamanho de uma quadra de futebol você consegue produzir alimentos para 14 pessoas com plantas, com boi, produz para uma”, disse.

Entre as grandes redes de fast-food, Pizza Hut e McDonald’s anunciaram internacionalmente o lançamento de opções de proteína plant based em seus cardápios. No McDonald’s, o primeiro hambúrguer vegetal criado pela empresa chama-se McPlant e foi testado em unidades da marca no Canadá ao longo de 2019. A rede afirmou que “os mercados podem adotar o McPlant quando estiverem prontos”, mas não deu mais detalhes sobre o cronograma de implementação no Brasil. A rede de fast-food já chegou a oferecer no exterior um hambúrguer vegetal em seu cardápio anteriormente, em parceria com a foodtech Beyond Meat, especializada em substitutos veganos para a carne. O McPlant, porém, foi desenvolvido pela própria marca. Já a Pizza Hut anunciou em 10 de novembro a produção das primeiras pizzas feitas com linguiças à base de plantas do mercado, disponíveis nos Estados Unidos e em algumas unidades da rede em Londres, no Reino Unido. A alternativa é uma parceria da marca com a Beyond Meat e começou com duas opções no menu, a Beyond Italian Sausage, pizza de queijo com picadinho de linguiça vegetal, e sua versão vegana, a Great Beyond. A Pizza Hut ainda não tem previsão para oferecer os produtos em suas unidades brasileiras.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE DEZEMBRO

O CÁRCERE ESCURO DA MÁGOA

O que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho (Salmos 15.3).

José do Egito foi vítima de muitas injustiças. Sofreu nas mãos de seus irmãos e de seu patrão. Passou treze anos da sua vida, dos 17 aos 30 anos, açoitado pelo vendaval das crises mais medonhas. Foi jogado num buraco escuro. Foi vendido como escravo. Foi acusado injustamente. Foi lançado numa prisão imunda. Mas jamais deixou seu coração azedar. A mágoa jamais teve permissão para se instalar em seu íntimo. José estava preso, mas sua alma estava livre. Deus restaurou a sorte de José, que foi exaltado à honrosa posição de governador do Egito. Com o poder nas mãos, ele poderia ter-se vingado dos seus irmãos, mas resolveu perdoá-los, dando-lhes o melhor da terra do Egito. José não só perdoou seus irmãos, mas também ergueu um monumento vivo do seu perdão, chamando seu filho primogênito de Manassés, cujo significado é “Deus me fez esquecer”. A mágoa escraviza, mas o perdão liberta. Quem não perdoa não tem paz. Quem não perdoa não pode ser perdoado. O perdão é a faxina da mente, a assepsia da alma, o grito de liberdade do coração. Tome a decisão de perdoar aos seus ofensores. Faça como José: se o seu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber!

GESTÃO E CARREIRA

MAIS HUMANIDADE

Empresas e profissionais sairão transformados pela crise do novo coronavírus. Por isso, as mentalidades terão de se transformar também

Vamos tirar muitas lições diante de toda a experiência que estamos vivendo com a pandemia do coronavírus. E isso vai ocorrer não apenas na dimensão pessoal, mas também nas relações de trabalho.

O home office é um bom exemplo. Ouvi várias vezes, durante os treinamentos que ofereço, líderes relutantes dizendo que não acreditam nessa forma de trabalho – algo comum para gestores que ainda estão no sistema de comando e controle, tendo certeza de que os profissionais só entregam resultados se estiverem trabalhando na frente do chefe.

Claro que a crise da covid-19 nos levou ao extremo: as pessoas foram obrigadas a ficar em casa, e as empresas (e as famílias) tiveram de se adaptar a esse cenário. Afinal, não ficamos no modelo tradicional de home office – os filhos estão ao lado demandando muita atenção das mães e dos pais, o que pode comprometer algumas das entregas.

Ficar integralmente isolado não é o melhor caminho, pois as equipes precisam trocar experiências para criar conexões e ter boas ideias. Mas é importante que as companhias pensem numa flexibilidade maior do modelo de trabalho. Acredito que ir de duas a três vezes por semana para o escritório seja o suficiente – ter esse equilíbrio pode ajudar as pessoas a ser mais produtivas e a conciliar as tarefas pessoais e as profissionais.

Em condições mais normais, o home office é visto corno um grande benefício. Tanto que, em um estudo realizado pelo lnternational Workplace Group (IWG) em 2019 com mais de 15.000 entrevistados, 83% disseram que o trabalho remoto era fator decisivo para continuar na empresa e 85% afirmaram se sentir mais produtivos com essa flexibilidade. Por isso, sugiro que, quando tudo isso passar, a liderança reflita sobre o home office e sobre outras práticas. É preciso urgentemente mudar os modelos mentais atrasados que ficaram tão em evidência durante a pandemia.

Há tempos a geração Z já demanda um novo modelo de trabalho, baseado na autonomia e nas entregas. Eles querem sentir que os gestores confiam em seu comprometimento pelos resultados apresentados, e não pela cobrança de estar fisicamente no trabalho durante 8 horas seguidas.

Esse olhar cria um ambiente mais dinâmico, produtivo e agradável, porque o empregador faz com que o funcionário se sinta empoderado e responsável por suas metas. Além disso, esse comportamento faz com que o empregado entenda conscientemente que seu trabalho é importante para a engrenagem da companhia girar – o que potencializa a sensação de pertencimento.

Mesmo diante dessa crise e das incertezas que a pandemia nos traz, existe um lado positivo: vejo cada vez mais pessoas humanizadas e sensíveis aos outros. Acredito que esses aprendizados serão refletidos nas corporações, com empregados e lideranças passando a valorizar e a entender as necessidades alheias – o que levará a um trabalho mais inclusivo.

CRIS KERR – É CEO da CKZ Diversidade, mestra em sustentabilidade e professora de diversidade na Fundação Dom Cabral

 criskerr@ckzdiversidade.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MORTE NAS FESTAS DE FIM DE ANO

Os parricídios são crimes que despertam muita curiosidade nas pessoas, justamente por serem, sempre, de extrema gravidade

Sempre nos chamou a atenção o fato de que nas datas festivas aumenta o número de crimes entre membros da família.

De modo especial, os parricídios (parere, parir; parricídio é matar os antecedentes) acontecem na época de Natal, passagem de ano, aniversários, bodas de casamento, dia dos pais etc. Há explicação plausível? Sim, considerando que esses eventos têm capacidade de mexer com os sentimentos das pessoas, podendo excitar a esfera timo-afetiva e despertar pulsões que, fora destas datas, estão em estado psíquico larvário. A afetividade fluindo anormalmente pode voltar-se para o interior do indivíduo, dando o narcisista, o egoísta, o depressivo e o seu grau máximo, o suicida (nas datas festivas também aumentam os suicídios); e pode voltar-se para o exterior do indivíduo, dando o exibicionista, o hipertímico, o hetero agressivo e o seu grau máximo, o homicida. Recorde-se que o tema está umbilicalmente ligado à literatura trágica, na qual o assassino é tido como mentalmente normal, ou seja, o parricídio é um ato consciente e desejado.

O crime seria o cumprimento de oráculos ou de ritos, como no combate de morte que permite aos jovens suceder o velho rei e pai. A luta entre eles refletiria o simbolismo da fecundação, uma vez que ao rei se imputam qualidades mágicas, divinas, capazes de manter viva e atuante a mística da fecundação e fertilidade dos corpos. Decaído o vigor físico, consequentemente, diminuiria a força mágico ­ mística e o todo poderoso rei teria que ceder o seu lugar ao jovem capaz de levar adiante o poder fecundador ligado à fertilidade da terra.

Recorde-se também que Sigmund Freud concebeu como pedra de base de sua doutrina o chamado complexo de Édipo, que é um parricídio, extraído da tragédia grega Édipo Rei: de Sófocles.

O “Pai da Psicanálise” concluiu que possivelmente o primeiro impulso sexual da criança se dirige para a mãe e o primeiro impulso de ódio se volta para o pai.

Então, Édipo, que mata o pai e desposa a mãe, realiza um dos sonhos da infância.

E os parricídios verdadeiros das manchetes de jornais, teriam embutido no psiquismo dos criminosos algo desses dramas gregos? A resposta é não, pois na prática os achados são bem diferentes. Os parricidas são, todos, sem exceção, portadores de sérios transtornos mentais.

E no caso de haver coincidência de datas festivas com o crime, esse fato deve ser visto como fator desencadeante do ato, e não fator determinante, o qual é sempre, como dito, sinal de grave deformidade psíquica.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

EU ACHO …

A FESTA

“Tudo certo para a festa de fim de ano? Precisa de alguma ajuda?”, pergunta o irmão à anfitriã. “Tudo certo”, ela diz. “Não, não vai precisar de mais nada. Já encomendei as bebidas e eles devem trazer tudo entre hoje e amanhã – preferi a entrega mesmo, para não ter de ir à loja. Sabe como é, todo mundo lotando loja no fim do ano para abastecer as festas, gente que não usa máscara direito e ignora o vidro de álcool em gel na porta. Ah, eu pedi para a empregada passar a noite aqui, ajudar a servir o jantar, lavar a louça, essas coisas. Cada um vai contribuir um pouco para que ela depois possa fazer uma bela ceia com os filhos e a mãe. Desse modo, vou te pedir também uma contribuição, tudo bem?” O irmão hesita, mas responde: “Tá, tudo bem. Só não posso dar muito porque ando apertado”.

Os dias se passaram, a anfitriã satisfeita que todos os convidados poderiam comparecer, inclusive as amigas da mãe, as três. As três mais idosas. Seriam umas 20 e poucas pessoas no total, mas o apartamento era arejado e, se estivesse muito quente, o ar condicionado daria conta. Com o ar condicionado, há ventilação, de modo que estaria seguindo todas as orientações de saúde.

Máscaras? Não, não era necessário. Tudo em família. E 20 e poucas pessoas não é, exatamente uma aglomeração, não é mesmo?

Dia desses a fulana contava que o jantar que fez para o marido tinha mais de 50. Isso, sim, é irresponsabilidade. Onde já se viu? Cinquenta pessoas no meio de uma pandemia? Sorte dela que não virou um covidário. Ou, como é mesmo que falam? Evento de superdisseminação? Não, estava tudo bem arranjando no caso da festa de fim de ano. Como seria bom estar com todos, rever os sobrinhos.

Ah! Mas teve aquele dia em que o sobrinho adolescente encontrou com o amigo no calçadão, o amigo que testou positivo logo depois. Ah, mas tudo bem, foi rapidinho, o encontro foi ao ar livre, os dois estavam de máscara. É verdade que a máscara estava debaixo do queixo, como a garotada faz; mas, imagina! O vírus não passa assim. Passa mesmo é pelos objetos tocados pelos outros, mãos sujas, mãos contaminadas, mãos pegajosas, mãos suadas, mãos de desconhecidos. É preciso esfregar, lavar, entornar todo o vidro de detergente, de álcool. As luvas! Onde estão as luvas?

É claro que o sobrinho foi ao jantar da família. Jantar de Natal? Ceia de Ano-Novo? Faz diferença? E, no momento em que os vemos, lá estão todos, extasiados com a exuberância da liberdade de celebrar juntos, embevecidos com o elixir da ignorância. Ignorância, pois o sobrinho se expôs, o sobrinho trocou ar com o amigo: deu a ele o seu, recebeu dele o dele. Contaminado. Naquele exato momento em que todos se reúnem – precisa dizer que estão sem máscara? – em torno da mesa com farta comilança, está o sobrinho exalando partículas virais para cima dos avós, dos pais, dos irmãos, dos tios, dos primos, das amigas da avó e, é claro, da empregada hipertensa, que naquela noite não está com a família. Ela, que mora apertada, que cuida dos filhos. Ela, que cuida da mãe idosa, mãe também hipertensa e que já sofreu AVC. A mãe que mora na mesma casa com os netos e a filha.

As partículas que o sobrinho exala são invisíveis e aquilo que os olhos não veem o coração não sente e a mente não registra. Não registra. Não registra a febre do avô, que aparecerá alguns dias depois. Não registra a tosse da tia, que aparecerá alguns dias depois. Não registra a contaminação do irmão mais novo, que não terá sintomas, mas que passará a noite na casa da outra avó dali a alguns dias. Não registra o susto dos meninos da empregada hipertensa ao chegarem em casa: a mãe estirada na cama, o suor lhe escorrendo pelo rosto, o esforço para respirar. Dali a alguns dias.

Essa não é uma história real, mas poderia ser. Outras, muito parecidas com ela, estão acontecendo todos os dias ao redor de todo o país e há várias semanas. As pessoas julgam-se irracionalmente invencíveis mesmo quando as mortes se amontoam e amigos e conhecidos padecem. Há até quem torça para ter logo Covid e assim se ver livre, livre. Livre a ponto de se gabar. Veja! Sou imune, não pego mais essa doença. Claro que ignoram os riscos de reinfecção. Pensar nessa possibilidade é demasiado inconveniente.

E assim vamos. Assim seguimos. Até o dia em que recebemos de nosso pai, mãe, avô, avó, o terrível telefonema.

“Oi. Vi agora na internet. Deu positivo.”

*** MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

MEDO DA AGULHA

Um movimento antivacina com foco na contra HPV mistura saúde, ciência, religião e política – um microcosmos do que pode acontecer com a imunização contra a Covid-19

No segundo sábado de novembro, um grupo de mães do Acre realizou a primeira assembleia da Associação Brasileira de Vítimas de Vacinas e Medicamentos (Abravac). Realizada com o aplicativo Zoom, a reunião marcou o início de um novo capítulo numa história sem data marcada para acabar. As fundadoras dizem que tudo começou quando suas filhas e, em alguns casos, também filhos tomaram a vacina contra o HPV, sigla em inglês para um vírus transmitido sexualmente que pode provocar câncer. A partir desse ponto, dizem as mães, os adolescentes e pré-adolescentes passaram a apresentar sérios problemas de saúde.

Uma jovem de 17 anos – ela prefere que seu nome não seja revelado – é uma das que sofrem com convulsões frequentes, dores de cabeça e fraqueza desde 2015, quando tomou a vacina. Sua família foi uma das primeiras a procurar o Ministério Público do Acre, em 2017, para relatar o que entende ser uma consequência da vacina. “Logo depois que a primeira mãe nos procurou, vieram mais três ou quatro. Em seguida, eram dez e, com o passar do tempo, foi aumentando mais e mais”, disse o promotor Gláucio Oshiro, responsável pelo caso. No último levantamento, havia 48 casos. “Minha filha tinha 12 anos quando tomou a vacina. Era esperta, gostava de esportes, de natação. Agora não anda mais sozinha, não deixamos fazer mais nada. Ontem mesmo ela teve uma convulsão. As convulsões não param. É dia sim, dia não”, disse a mãe.

Quando o Ministério da Saúde foi acionado para atuar em parceria com o governo do Acre, no primeiro semestre de 2018, os adolescentes já tinham passado por diversos médicos da rede pública e particular sem que fossem detectados problemas orgânicos. Decidiu-se, então, selecionar os casos mais graves. Isso foi feito entre o fim de 2018 e início de 2019. Um grupo de 16 viajaria até São Paulo para ser investigado pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), centro de referência na América Latina. Quatro jovens se recusaram, mas 12 pegaram o avião e participaram dos testes coordenados pelos pesquisadores Renato Luiz Marchetti e José Gallucci Neto, diretor da Unidade de Videoencefalografia, especializada em atividade cerebral.

Além de exames clínicos e laboratoriais, os jovens foram monitorados constantemente por vídeos que registram e determinam a natureza de eventos suspeitos de epilepsia, alteração súbita do nível de consciência, coma, encefalite, desmaios, movimentos involuntários, alterações metabólicas, acidente vascular cerebral e estados catatônicos. Em outubro de 2019, ao fim do check-up, apenas um casal de irmãos foi diagnosticado com epilepsia de natureza genética, que costuma se manifestar na adolescência. Os outros dez casos foram classificados pelos especialistas como sendo de crises psicogênicas não epilépticas, conhecidas pela sigla CNEP, um fenómeno de origem psicológica. Ou seja, foi descartado qualquer problema com as vacinas contra HPV.

Os médicos da USP avaliaram que a CNEP coletiva foi desencadeada pelo medo do ato de vacinar, agravado por um ambiente predisposto contra a imunização e que disseminou insegurança. A demora no diagnóstico definitivo – foram quatro anos desde os primeiros casos – e condições psicossociais, como famílias disfuncionais, contribuíram para que o surto da doença psicológica se espalhasse. “É algo que pode ocorrer individualmente, quando, por exemplo, uma criança, tem medo da agulha. Mas também pode acontecer uma epidemia, em grupo. É uma situação bastante grave. É uma doença incapacitante”, afirmou Marchetti. Vídeos de adolescentes com crises compartilhados pelas redes sociais podem também ter influenciado outros jovens a apresentar os mesmos sintomas.

A falta de preparo e equipamentos dos profissionais de saúde que cuidaram desses casos no Acre antes da viagem a São Paulo só agravou a situação. Atendidos muitas vezes em unidades de pronto-socorro, alguns desses jovens chegaram a ser medicados com drogas para epilepsia e a ser internados. Houve casos até de intubação. Outras vezes, não receberam atenção por não apresentarem algo físico. “As crises não são falsas. Mas, por não terem fundo orgânico, muitos profissionais de saúde entendem como não sendo algo real”, disse o promotor Oshiro. Hoje pelo menos esse problema está sanado. Alysson Besten e Lins, secretário de Saúde do Acre, disse que foi montado um centro para atendimento dos adolescentes, com médicos, psicólogos e assistentes sociais. O maior obstáculo, segundo Lins, é que muitas famílias não levam seus filhos e filhas ao centro.

Quem achava que o diagnóstico feito pela USP encerraria a questão errou feio. Muitas mães simplesmente não aceitaram o veredito. Uma delas é a presidente da Abravac, Edilene dos Santos Conceição, mãe de M., hoje com 16 anos, que tomou a primeira dose da vacina contra HPV em 2015. Ela contou que os primeiros sintomas da filha foram dores e fraqueza nas pernas. Após a segunda dose, tomada em 2018, a adolescente começou a desmaiar. Conceição disse que relacionou o problema à vacina quando, na igreja Assembleia de Deus, ouviu o testemunho de uma fiel contando que uma parente havia ficado 40 dias na UTI, muito tempo na cadeira de rodas e sem enxergar quase nada. A família atribuía o problema ao imunizante e a cura a Deus. “Era um testemunho. Quando ouvi, fiquei atenta e angustiada. Pensei nos sintomas de minha filha”, disse Conceição. Em vários grupos conservadores se espalhou a ideia de que a vacina HPV, por combater um vírus sexualmente transmissível, estimularia o início da vida sexual dos adolescentes, uma suposição sem amparo em nenhum grupo de pesquisas respeitado pela comunidade científica.

No meio médico, a principal voz contra a vacina HPV e a favor das mães que negam o diagnóstico da USP é Maria Emília Gadelha Serra, que se tornou conhecida durante a pandemia do coronavírus ao propor aplicação retal de ozônio como tratamento. Serra disse que entrou no caso do Acre a pedido de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. “Ela pediu para eu ver o que acontecia no Acre”, disse Serra. Procurada, a ministra afirmou que não se manifestaria. Em outubro de 2019, Serra falou contra a vacina HPV a políticos na Assembleia Legislativa do Acre. No mês seguinte, a médica fez uma apresentação numa sessão da Comissão de Seguridade e Saúde da Câmara dos Deputados. Em ambas as ocasiões não faltaram teorias conspiratórias. Em conversa, Serra disse que o estudo da USP é uma “farsa” e defendeu que os adolescentes fossem submetidos a angiografia por ressonância magnética – que visualiza as veias e artérias. Marchetti, da USP, disse que o exame foi feito apenas nos casos em que era necessário para descartar o diagnóstico de hipertensão intra­craniana e que Serra usa um discurso pseudocientífico na tentativa de desacreditar a ciência. O advogado Lucas Loesch, diretor jurídico da Abravac, afirmou que a entidade não quer imputar culpa ou responsabilidade a ninguém, mas buscar mais de uma opinião sobre o caso das meninas do Acre. “Ouvir a opinião de um único instituto é frágil. Pelo menos três institutos de renome deveriam avaliar os casos”, disse Loesch, que espera que a entidade recém-criada receba doações para contratar novos estudos.

Na segunda semana de novembro, o Ministério da Saúde divulgou uma nota afirmando que fake news e tabus são um problema. Citando especificamente o caso da vacina contra HPV, o texto diz que a desinformação é um dos fatores que afastam os adolescentes dos postos de saúde. Com as vacinas contra o coronavírus chegando perto do estágio de aprovação, o medo de vários especialistas é que movimentos como o das mães do Acre contaminem o esforço de imunização que terá de ser montado.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE DEZEMBRO

COMO EXPERIMENTAR PLENITUDE DE ALEGRIA

Tu me farás ver o caminho da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente (Salmos 16.1).

A felicidade existe e está ao nosso alcance. Não é apenas um destino aonde se chega, mas a maneira como se caminha. A felicidade não está num lugar específico, mas numa atitude definida. Jesus falou sobre a felicidade nas bem-aventuranças. O problema humano não é buscar a felicidade, mas contentar-se com uma felicidade limitada. Deus nos salvou para a maior das felicidades. A felicidade verdadeira está em Deus. É na presença de Deus que existe alegria superlativa e abundante. O principal propósito da nossa vida é conhecer e desfrutar da intimidade com Deus.  Nas bem-aventuranças, Jesus nos fala sobre um relacionamento correto com Deus, conosco mesmos e com o próximo. Somos felizes quando nossas relações estão harmonizadas. A felicidade que o mundo oferece é uma farsa, porém. O glamour do mundo é irreal. O sorriso que as pessoas estampam no rosto não passa de uma máscara. As taças doces do pecado são veneno que intoxica a alma. Os prazeres transitórios desta vida desembocam numa constante perturbação. A verdadeira felicidade está em Deus.  É na sua presença que encontramos plenitude de alegria e delícias perpetuamente.

GESTÃO E CARREIRA

A IGUALDADE É COLORIDA

Comunidade LGBTI+ ganha força na sociedade, mas ainda é vítima de muito preconceito, especialmente no ambiente corporativo. Mas já há bons exemplos a ser seguidos.

A crise do coronavírus aqueceu o debate em torno das pautas ligadas ao grupo LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Intersexuais e outros). Segundo levantamento da empresa de pesquisa Kantar, apenas em mensagens publicadas no Twitter nos cinco primeiros meses deste ano, houve um aumento de 100% em relação ao mesmo período de 2019, saltando de 2 milhões para 4 milhões de posts. Vale ressaltar, ainda, que outros temas relevantes à sociedade também são tratados com destaque nesses grupos. “Este ano, notamos a vontade do movimento LGBTI+ de se unir e reforçar as pautas das lutas das mulheres e da população negra”, observa Elder Munhoz, diretor de Operações da Divisão Insights da Kantar. “A pandemia também reforçou o apoio a marcas que são responsáveis, que olham além das vendas para atender melhor às comunidades internas e externas por meio de comportamentos positivos”, declara Munhoz.

As causas LGBTI+ ainda sofrem preconceito de grande parte da sociedade, mas já são bem mais aceitas do que num passado recente. O desafio, agora, é levar as empresas a incentivar e fomentar políticas de diversidade e inclusão no Brasil.

Especialmente, diante de uma taxa de desemprego de 12,6% no último trimestre, segundo o IBGE, e do fechamento de quase 5 milhões de postos de trabalho. Com o Dia do Orgulho LGBTI+ celebrado no domingo 28, o debate torna-se ainda mais oportuno. Na opinião de Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, a pandemia deu maior visibilidade à desigualdade no País. “Pessoas vulneráveis são as que mais estão sofrendo durante a crise econômica, social e política que vivemos”, diz Magri. Ele acredita que a sociedade brasileira vai sair desse processo com uma dívida ainda maior do que a que já existe em relação à população negra, das mulheres e do grupo LGBTI+.

“Se a crise leva as empresas a fazer cortes, isso, somado ao racismo e ao preconceito, as tornará mais masculinas e brancas, salvo as que já adotam políticas afirmativas.”

Um estudo realizado pelo Instituto Ethos, analisando o perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil, traz dados interessantes. A pesquisa aponta que a sub-representação e as dificuldades de ascensão na carreira são alguns dos principais problemas enfrentados por grupos como afrodescendentes, mulheres, pessoas com deficiência e o público LGBTI+. “Já houve avanços de inclusão de mulheres e negros, mas com predominância em cargos mais baixos”, diz Magri. Publicado em 2016, o estudo indicou que só havia um conselheiro afrodescendente entre as 500 companhias pesquisadas, enquanto a população brasileira é composta por 54% de negros. “A diversidade da população não se expressa nas empresas”.

CEO da Consultoria de Sustentabilidade e Diversidade Gestão Kairós, Liliane Rocha destaca que as companhias evoluíram muito na comunicação sobre o tema, mostrando seu posicionamento, fazendo palestras e envolvendo as comunidades. Entretanto, ainda têm muito a avançar em seus programas de diversidade. “É necessário construir metas e indicadores a curto, médio e longo prazos para a contratação, retenção e promoção dessas pessoas. Há muitas empresas bem posicionadas e com boas práticas, mas que não apresentam crescimento nos números de mulheres, negros e LGBTI+”, diz. Segundo ela, para que este crescimento ocorra, é necessário fazer censos demográficos internos, criar e escutar os canais de denúncia e colocar metas e indicadores para estabelecer uma curva ascendente. “Esse trabalho não pode parar”.

DIVERSIDADE E INCLUSÃO

Embora as previsões para o período pós-pandemia não sejam animadoras, algumas companhias têm se esforçado para colocar em prática a política de inclusão. Uma delas é a Sodexo, que atua na área de serviços de qualidade de vida e montou uma estratégia que engloba cinco áreas: Gênero, Cultura e Origens, Pessoas com Deficiência, Orientação Sexual e Identidade de Gênero e Gerações. Presidente da empresa no Brasil, Andreia Dutra afirma que diversidade e inclusão fazem parte do negócio e que isso influencia no crescimento sustentável. “Equipes diversas são mais engajadas, inovadoras, criativas e têm melhor desempenho”, declara. “Trabalhamos para criar uma cultura que englobe as diferenças e celebre ideias, perspectivas e experiências únicas em tudo o que fazemos.” Segundo ela, esses movimentos ajudam a criar uma cultura inclusiva dentro e fora da empresa para que, no futuro, não sejam necessárias políticas afirmativas para garantir a inclusão e a diversidade no mercado de trabalho.

Na Gerdau, o presidente, Gustavo Werneck, declara-se apaixonado pelo tema diversidade. “O Brasil é muito atrasada e preconceituosa”, afirma. Para ajudar a romper as barreiras em relação ao assunto, ele participa de reuniões com outros executivos, para abordar a questão dentro do programa CEO’s Legacy, da Fundação Dom Cabral, iniciativa que reúne executivos orientados para a construção de legados relevantes e sustentáveis. “Queremos influenciar companhias a criar planos de inclusão. O ideal é que fornecedores e clientes também avancem neste tema”, diz Werneck.

Ele considera que o setor de serviços tem evoluído no assunto. Já o segmento industrial, mais conservador e machista, ainda está muito aquém. “Qualquer empresa que disser que tem dificuldades para evoluir com a questão da diversidade está buscando desculpas para não avançar”. A Cisco é outra companhia que trata do assunto com a importância que ele merece. “Temos trabalhado muito o ambiente, o respeito e a inclusão”, diz o presidente, Laércio Albuquerque. Segundo ele, globalmente, 62% dos executivos da empresa fazem parte de grupos que se enquadram nas políticas de diversidade. “Quando se cria um ambiente genuíno de inclusão dentro da empresa, todos os funcionários ficam felizes e o ambiente de respeito aflora.” Esse conceito é ótimo e parece evidente. Só precisa ser adotado por mais empresas.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – XI

PROMOVA O SEU BEM-ESTAR

Saiba como algumas estratégias rotineiras e mudanças alimentares podem ajudar você a vencer o pânico

Uma das características da síndrome do pânico é a forma repentina como se apresenta, causando sofrimento e desespero, muitas vezes, pelo fato de a pessoa não saber o que fazer. Assim, é importante que o paciente colabore com si mesmo com a tomada de atitudes benéficas para o tratamento.

Sem contar que, se todos os alimentos que consumimos causam algum impacto (tanto positivo quanto negativo) em nosso organismo e no dia a dia, isso vale também para o transtorne do pânico. Afinal, uma alimentação equilibrada é importante em diversos aspectos de nosso bem-estar, o que também se aplica à saúde mental.

Sendo assim, a seguir, você encontra algumas dicas das psicólogas Milena Carbonari e Jaqueline Muros que podem ser úteis nos momentos de crise e para o dia a dia do paciente, além de alimentos para incluir ou eliminar da dieta.

5 DICAS PARA AMENIZAR OS PICOS DE PÂNICO

PROCURE ENTRAR EM CONTATO CONSIGO MESMO

Quando um pensamento ansioso ficar muito intenso, causando a impressão de “vou morrer”, é importante respirar fundo e se lembrar de direcionar suas emoções e pensamentos. “Muitas vezes, estamos fora de nós mesmos quando alguns pensamentos negativos nos invadem.

Aprenda, com treino e, sobretudo, com paciência, a tomar as rédeas de si e direcionar a mente para onde, quando e o que desejar”, lembra Milena.

O AUTOCUIDADO É IMPORTANTE

Cuide-se! Não se esqueça de que é preciso atender às suas necessidades de lazer e descanso. “Fazer passeios simples ou grandes viagens, passar um tempo com pessoas que lhe fazem bem ou assistir a um bom filme são necessidades básicas que muitas vezes negligenciamos”, aponta Milena.

RITUAL PARA DORMIR

Preserve um ritual para esse momento. A televisão ligada durante toda a noite é um dos fatores que, geralmente, afeta o sono. Além disso, nesse período do dia, é indicado que as refeições sejam mais leves para que se tenha uma noite tranquila.

EXERCITAR-SE FAZ BEM

Insira práticas físicas adequadas ao seu dia a dia e consulte um médico para indicar os tipos ideais para suas necessidades. “Atividades físicas podem ajudar no reequilíbrio dos hormônios que provocam relaxamento e bem-estar”, comenta Milena.

A ROTINA PODE COLABORAR

Ter horários delimitados para determinadas atividades é importante tanto para o cotidiano quanto para as noites de sono. “Crie uma rotina de tarefas durante o dia e evite cochilos fora de hora”, lembra Jaqueline.

COLOQUE NO PRATO

CHOCOLATE

Aqui vale uma ressalva: os tipos mais recomendados são aqueles com 70% de teor de cacau ou mais. Isso porque estão presentes em maior quantidade substâncias importantes, como a tirosina (que estimula a produção de serotonina), além de minerais importantes como cobre, manganês e magnésio.

BRÓCOLIS

Esse vegetal é rico em ácido fálico, essencial para a liberação da serotonina.

ESPINAFRE E FOLHAS VERDE-ESCURAS

Aposte nos vegetais folhosos com essa cor. Eles possuem quantidades generosas de magnésio, nutriente que atua na produção de energia. Além disso, apresentam potássio e vitaminas A, C e do complexo B, que ajudam a manter o sistema nervoso tranquilo.

ALFACE

É uma importante aliada para controlar crises de ansiedade e pânico por conter lactucina, substância com propriedades calmantes.

FRUTAS OLEAGINOSAS

Nozes, castanhas, amêndoas e, principalmente, a castanha-do-pará são ricas em selênio, um antioxidante que auxilia na diminuição do estresse.

LARANJA, MARACUJÁ E JABUTICABA

Frutas ricas em vitamina C ajudam a prevenir o cansaço, combatem o estresse e dão aquele reforço no sistema imunológico. A jabuticaba também é rica em vitaminas do complexo B.

PEIXES E FRUTOS DO MAR

Algumas espécies de peixe, como salmão, sardinha, arenque e atum, além de camarões e lagostas, frutos do mar bastante consumidos, são ricos em ômega-3, um ácido graxo com diversos benefícios para o organismo.

PIMENTA

A capsaicina é a substância presente na pimenta que gera a sensação de ardência tão característica. Ela também faz com que o nosso cérebro produza mais endorfina, o neurotransmissor responsável pela sensação de euforia. As mais recomendadas, nesse caso, são a pimenta-de-cheiro, a vermelha e a malagueta.

EVITE CONSUMIR

CAFÉ

A cafeína presente no café (e também em bebidas como refrigerantes de cola e chás) excita os mecanismos do organismo, já que a substância age diretamente no sistema nervoso. Isso pode provocar uma descarga de hormônios do estresse, além de intensificar os sintomas de nervosismo e agitação. “O ideal é reduzir o consumo a uma xícara de café por dia e evitar outros alimentos que contenham a substância”, recomenda Fernanda Martins.

AÇÚCAR

Quando uma pessoa consome um alimento cheio de açúcar, ela “pode se sentir inicialmente eufórica, mas depois perceber um rápido choque e uma redução profunda em seu nível de energia, podendo levar à tontura e à dor de cabeça”, reforça Fernanda Marques.

ÁLCOOL

“Assim como o açúcar, o álcool é rapidamente absorvido pelo organismo e, da mesma forma, aumenta os sintomas de hipoglicemia após seu consumo”, explica Fernanda. Por isso, é importante consumi-lo com moderação, já que seu excesso pode aumentar a ansiedade e as oscilações de humor.

EU ACHO …

POR QUE OS PAÍSES ASIÁTICOS SE SAIRAM MELHOR NA PANDEMIA?

Oriente e Ocidente reagiram à pandemia como antípodas. Enquanto a China, a Coreia do Sul, o Vietnã ou o Japão têm tido sucesso no combate ao novo coronavírus, é eloquente o fracasso da Europa e das Américas – com destaque para os Estados Unidos de Donald Trump e o Brasil de Jair Bolsonaro. “A crise deixou o Ocidente mais fraco e a Ásia mais forte”, escrevem os jornalistas John Micklethwait e Adrian Wooldridge em The wake-up call (Toque de despertar). “O Ocidente falhou miseravelmente no teste da Covid.” O que, perguntam, levou ao sucesso asiático? A tradição de Confúcio? A experiência com a Sars? Avanço científico e tecnológico? “Ou foi só porque conseguem gerir melhor um Estado moderno?”

A explicação mais comum para o contraste entre chineses e americanos diante do vírus é afirmar que “autocracias esclarecidas lidam melhor com problemas que democracias caóticas”. Não só por serem mais organizadas, mas por não terem pruridos em “aliar o punho cerrado à luva cirúrgica, adotando métodos a que as democracias resistem”. É uma explicação previsível, sedutora – e errada. O fato de os Estados Unidos terem se saído pior que a China nada prova. “Na batalha contra o vírus, houve democracias de alto desempenho, assim como autocracias de baixo desempenho. Por que não comparar a China a Coreia do Sul, Japão ou Taiwan? Ou Alemanha, Suíça e Nova Zelândia?”, questionam Micklethwait e Wooldridge.

A segunda explicação é atribuir o fracasso ocidental a líderes ineptos. É o caso de Trump recomendando injetar água sanitária para matar o vírus ou de Bolsonaro insistindo no besteirol do “tratamento precoce” à base de cloroquina e vermífugos. Não é uma explicação incorreta.

Um país governado por incompetentes desse jaez evidentemente tem menos chance de vencer uma pandemia do que aquele cujo vice-presidente é um epidemiologista, caso de Taiwan.

Mas é uma explicação incompleta. “Independentemente de quem estivesse no Salão Oval da Casa Branca, a crise da Covid-19 teria exposto as desvantagens dos sistemas americanos de saúde e de bem-estar.” No Brasil, a desigualdade de condições de saúde e habitação traria dificuldades ao mais iluminado ministro da Saúde.

Uma terceira explicação, frequente tanto na esquerda socialista quanto na direita nacionalista, é ver no combate ao vírus a demonstração de que é preciso aumentar o tamanho do Estado. Ideias antes desacreditadas, como política industrial (para garantir suprimentos médicos) ou renda mínima (para combater a pobreza), ganham mais e mais adeptos. Trata-se, naturalmente, de uma miragem, propagada por aqueles “que se divertem encaixando suas políticas preferidas na Covid-19 como se fossem enfeites numa árvore de Natal”. Para Micklethwait e Wooldridge, as “fantasias sobre renda básica não sobreviverão a uma era pós-pandêmica de cintos apertados”. A principal lição da pandemia, segundo os dois, diz respeito não ao tamanho, mas à qualidade do Estado.

“A principal característica dos países que lidaram bem com a Covid é simplesmente terem levado o governo a sério. Estudaram a arte de governar e modernizaram seus Estados”, afirmam. “Nossa esperança é que a pandemia, ao expor tantas fraquezas, forçará os governos ocidentais a embarcar num período de reformas.” É preciso trazer eficiência e talentos de volta ao setor público, com remuneração melhor e atrelada ao mérito, além de concentrar-se no que governos fazem bem. É preciso copiar o setor privado ou países onde o Estado funciona, como Cingapura, Nova Zelândia ou Dinamarca. É preciso que autoridades aprendam a levar uma vida frugal, sem mordomias. “É preciso dar aos funcionários públicos empregos vitalícios?”, perguntam. “Limitar o acesso à docência apenas a professores diplomados? Por que o governo precisa pagar pelas universidades, se os ganhos da educação se destinam predominantemente aos privilegiados?” As respostas são óbvias e já eram conhecidas antes da pandemia. O vírus apenas expôs a necessidade urgente de reformas no Estado, sobretudo nos países em que ele não funciona, como o Brasil.

John Micklethwait e Adrian Wooldridge, HarperVia 2020 – 176 páginas – US$18

HELIO GUROVITZ – é jornalista, editor de opinião do jornal O Globo

OUTROS OLHARES

A VOLTA DOS ANOS 70

Como acontece de tempos em tempos no universo fashion, as tendências do passado acabam voltando à tona: a moda agora são os anos 1970

Tudo começou com o retorno das calças boca de sino – agora chamadas de “Flare”. Daí vieram as estampas psicodélicas, os tamancos e os ternos com caimento mais folgado. A última coleção da grife italiana Gucci, uma das mais copiadas e desejadas do mundo, usa até filtros fotográficos para remeter à época de Woodstock. “O período de maior libertação que vivi aconteceu quando eu era criança, na década de 1970”, afirma o estilista Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci. “Continuo a recorrer a esses anos dourados porque, para mim, pessoalmente, simbolizam as reais sementes da mudança.” O fenômeno pode ser visto em outras marcas francesas consideradas mais conservadoras: a Louis Vuitton encheu suas bolsas de corações e a Dior adotou o crochê e os lenços na cabeça.

A volta ao estilo “paz e amor” também está nos vestidos floridos com recortes simples, bolsas de camurça ou de palha e fitas. Até a temática da época parece ter renascido – basta lembrar das letras anti-sistema de Bob Dylan ou da afirmação cultural negra dos penteados “Black Power”. A canção “Dreams” (“Sonhos”), hino geracional da banda setentista Fleetwood Mac, acaba de voltar às paradas mundiais. A razão é menos nobre do que se imagina: ela foi usada em muitos vídeos do aplicativo chinês TikTok, febre dos adolescentes globais. O hippie pode ter voltado a ser chique, mas sonhar não tem época, nem idade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE DEZEMBRO

SOLIDÃO, UM VAZIO NO MEIO DA MULTIDÃO

Volta-te para mim e tem piedade de mim… (Salmos 1 9.132a).

A solidão é um sentimento que tortura milhões de pessoas. No século da comunicação virtual, da internet e do telefone celular, quando tocamos o mundo com a ponta dos nossos dedos, somos assolados pelo drama da solidão. Entabulamos uma animada conversa virtual de uma hora via mensageiros instantâneos, porém não conseguimos mais sentar ao redor de uma mesa para um bate-papo de cinco minutos. Enfrentamos ruas congestionadas e somos acotovelados por uma multidão nas calçadas, no ônibus e no metrô, mas caminhamos entre essa multidão pela estrada da solidão. Pior que não saber conviver com o outro é não saber lidar consigo mesmo. Pior que não abraçar o outro, é não se sentir confortável na presença daquele que vemos no espelho. Gente precisa de Deus, mas gente precisa de gente. Você precisa de amigos. Você precisa de alguém com quem abrir o coração. Você precisa de um ombro amigo. Vale também dizer que o vazio da alma só pode ser preenchido por Deus. Nem mesmo as pessoas podem preencher essa brecha. O apóstolo Paulo estava numa masmorra romana, no corredor da morte, mas mesmo curtindo a dor da solidão e sofrendo o desamparo dos homens, tinha paz na alma por causa da assistência de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

RÁPIDOS E NADA FURIOSOS

Com a transformação digital em curso nas empresas, profissionais que atuam com metodologia ágil ganham espaço – e a área se torna cada vez mais promissora para o trabalho do futuro

Mantendo sua tradição em tentar prever (ou moldar) o futuro da economia e dos negócios, o Fórum Econômico Mundial publicou em janeiro deste ano o relatório Jobs of Tomorrow (“Empregos do amanhã”, numa tradução livre). Elaborado por cientistas de dados das empresas LinkedIn, Comsera e BurningGlass Technologies, o documento elenca as 96 profissões que elevem ganhar relevância nos próximos dois anos. As carreiras do futuro estão espalhadas em sete macrogrupos: vendas, marketing e conteúdo; saúde; dados e inteligência artificial; engenharia e computação em nuvem; desenvolvimento de produtos; economia verde; e pessoas e cultura.

Salta aos olhos a demanda por profissionais que tenham entre suas competências familiaridade com as metodologias ágeis. “Com a consolidação da Indústria 4.0, a adoção das metodologias ágeis será algo irreversível”, afirma Luciana Lima, professora de gestão de negócios e pessoas no lnsper. Ela avalia ainda que a adoção de tais procedimentos ágeis irá acontecer em todos os setores – as empresas se tornarão mais flexíveis para sobreviver e se adaptar às mudanças.

Baseado em uma série de valores e princípios, o Manifesto para Desenvolvimento Ágil de Software, feito por um grupo ele programadores americanos em 2001, é um dos documentos fundadores do movimento agile. No texto, os autores pregam protocolos mais flexíveis para fazer as entregas. “Hoje, tudo o que usa tecnologia é agile. Há gestão ágil em empresas de finanças, mídia, educação, saúde, logística, indústrias, varejo e até em governos”, afirma Luciana Lutaif, diretora de práticas e talentos da consultoria Accenture.

FACILITADORES

Dentre as carreiras elencadas pelo Fórum Econômico Mundial na categoria “desenvolvimento de produtos”, três estão diretamente relacionadas com as metodologias ágeis: product owner (em primeiro lugar da lista), agile coach (em terceiro) e scrum master (em sexto). De maneira sucinta, o product owner coordena uma equipe de desenvolvedores e tem a responsabilidade de construir e entregar o produto ou serviço mais adequado para as necessidades dos clientes. O scrum master é a pessoa que atua acima do product owner e tem a missão de ajudar todos a compreender os valores, princípios e práticas ágeis para melhorar a realização do trabalho. Já o agile coach, função mais conhecida, é o guia que orienta, nos diferentes níveis hierárquicos, todas as equipes durante o processo de implementação dos processos ágeis, incentivando funcionários e líderes na adoção de novas práticas e comportamentos. Todos funcionam como uma rede de apoio numa organização que aplique as metodologias ágeis.

Ainda que em diferentes contextos, essas funções têm algo em comum: precisam mediar e resolver os conflitos que surgem durante o desenvolvimento de um novo serviço ou produto. E esses embates podem ocorrer dentro dos times ou fora, caso existam clientes externos envolvidos no projeto. “Eles são facilitadores, aproximam pessoas que nunca trabalharam juntas, unindo-as com um objetivo comum e específico”, explica Luciana Lutaif, da Accenture. Para isso, habilidades socioemocionais – tais como facilidade de trabalhar em equipe, de criar e manter boas relações interpessoais, de escutar e mediar conflitos, entre outras – são essenciais.

“É curioso, mas a palavra ‘ágil’ não é a que melhor define o agile. ‘Maleabilidade’ é a melhor palavra para as metodologias ágeis”, diz Marcos Mattioli, especialista da consultoria Deloitte e responsável por implementar agilidade na companhia. Marcos, que está à frente de um time multidisciplinar composto de 13 pessoas, conta que até pouco tempo atrás os projetos eram grandes e dificílimos de ser moldados. Entre o pedido inicial e a entrega, passava-se tanto tempo que, quando saía do papel, o produto ou serviço já estava defasado em relação aos concorrentes ou às necessidades dos clientes. Ao usar métodos ágeis, com validações mais rápidas e pequenas entregas (os famosos sprints), o ciclo é acelerado e os ajustes são feitos com velocidade. “Não corremos mais o risco de sair do caminho das indicações iniciais. Tentamos mais, erramos mais, corrigimos rápido, aprendemos e entregamos mais”, diz Marcos.

EM ALTA

Numa pesquisa feita no LinkedIn em abril, havia 146 vagas para agile coach, 255 para product owner e 208 para scrum master. Juntas, as carreiras geravam mais de 600 oportunidades no período – lembrando que, em abril, o Brasil já enfrentava a crise econômica ocasionada pelo coronavírus. Essa demanda, de acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, tem forte tendência ao crescimento no país, exatamente como aponta o relatório do Fórum Econômico Mundial.

O problema é que o Brasil está diante de um paradoxo: há vagas, mas pouquíssimas pessoas com experiência prática nessas metodologias. “Não basta ter feito um curso, é preciso ter cicatrizes de guerra, ter atravessado problemas e conquistado resultados com as metodologias”, diz Luciana Lutaif.

A alta demanda se explica tanto pela adoção em massa das metodologias nas áreas tecnológicas de empresas como pelo uso delas em outros departamentos. Hoje o mercado já fala em organizações ágeis, com entregas mais curta e flexibilidade. “Há um movimento de disseminar a cultura ágil por toda a estrutura organizacional para eliminar barreiras, conectar pessoas de áreas distintas que possam resolver problemas, ter mais contato e cumplicidade com os clientes”, explica Luciana Lima, do lnsper. Uma das empresas que passa por essa transformação é a varejista Magazine Luiza, que está levando o processo tão a sério que foi até a Suécia recrutar o brasileiro Henrique Imberti, atual diretor de agilidade da companhia, que começou a se especializar no tema em 2004. Depois de algumas experiências como agile coach no Brasil, Henrique foi contratado pelo Spotify para atuar na mesma função, mas em Estocolmo, capital sueca. Ficou por lá de 2014 a 2017. “A temporada serviu para eu consolidar algumas certezas e derreter outras”, diz. No Magazine Luiza, seu objetivo (ao lado de um time de nove pessoas) é ajudar a mudar a mentalidade dos mais de 35.000 funcionários – e isso tem apoio do CEO da empresa, Frederico Trajano. “Agite coach, agile master, product owner, scrum master e qualquer variação possível não são super-heróis. Se não têm apoio interno, não fazem nada, falam para as paredes”, diz Henrique.

A equipe de agilidade do Magalu já colhe alguns frutos. O planejamento estratégico, por exemplo, não é mais anual, mas quadrimestral e ancorado em indicadores modernos, como número de usuários ativos no e-commerce e NPS (net promoter score, que mede a satisfação dos clientes). “Times e projetos mudam rápido, em semanas, mas mudar uma empresa desse tamanho é manobrar um transatlântico; demora um tempo, e é normal que seja assim”, diz o diretor. E ele completa: “Ser ágil é ter mais autonomia, é aprender com os erros para mudar rápido.”

PROFISSÕES DO AMANHÃ

Veja as atividades mais promissoras, de acordo com o relatório Jobs of Tomorrow, do Fórum Econômico Mundial

DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS

CARREIRAS

1. Product Owner

2. Analista de Qualidade

3. Agile Coach

4. Engenheiro de Qualidade de Software

5. Analista de Produto

6. Engenheiro de Qualidade

6. *Scrum Master

* Empatadas em sexto lugar

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Testagem de Software

2. Software Development Life Cycle (SOLC)

3. Ferramentas de Programação

4. Gestão de Projetos

5. Gestão de Negócios

6. Tecnologias de Armazenamento de Dados

7. Desenvolvimento de Web

8. Operações de Fabricação

9. Destreza Digital

10. Liderança

VENDAS, MARKETING E CONTEÚDO

CARREIRAS

1. Analista de Redes Sociais (conteúdo)

2. Growthhacker (Marketing)

3. Especialista em Customer Success (Vendas)

4. Coordenador de Redes Sociais (Conteúdo)

5. Growth Manager (Marketing)

5. *Representante Comercial (Vendas)

*Empatadas em quinto lugar

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Marketing Digital

2. Redes Sociais

3. Gestão de Negócios

4. Destreza Digital

5. Propaganda

6. Marketing de Produto

7. Vídeo

8. Design Gráfico

9. Liderança

10. Escrita

DADOS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

CARREIRAS

1. Especialista em Inteligência Artificial

2. Cientista de Dados

3. Engenheiro de Dados

4. Desenvolvedor de Big Data

5. Analista de Dados

6. Especialista em Analytics

COMPETÊNCIAS DEMANDADAS

1. Ciência de Dados

2. Tecnologias de Armazenamento de Dados

3. Ferramentas de Programação

4. Inteligência Artificial

5. Software Development Life Cycle (SDLC)

6. Consultoria

7. Desenvolvimento Web

8. Destreza Digital

9. Computação Científica

10. Rede de Dados

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SÍNDROME DO PÂNICO – X

COM A PALAVRA, QUEM MAIS SOFRE

Confira os depoimentos de pessoas que enfrentaram e ainda enfrentam as dificuldades impostas pela síndrome do pânico.

ANDREIA ALVES, 37 anos (SANTO ANDRÉ-SP)

“Não tenho lembrança da minha primeira crise. Na verdade, analisando diversas situações passadas, posso dizer que sofro com o transtorno de pânico desde a infância. Inclusive, perdi um ano na escola, na quarta série. Sentia-me desesperada ao ver minha mãe indo embora e os portões se fechando. No ensino médio, a síndrome do pânico veio à tona com mais força. Comecei a ter crises no ônibus, ao ir e voltar da escola. O sintoma predominante era a falta de ar. Depois o coração começava a acelerar, as mãos ficavam suadas e dormentes. Era uma sensação iminente de morte. Essa é a melhor descrição. Nessa época procurei especialistas, fiz tratamento com psiquiatra e psicólogo e foi quando obtive o diagnóstico. A partir de então, adotei o péssimo costume de procrastinar o tratamento sempre que tinha alguma melhora. Anos depois tive novas crises… precisei me afastar pela previdência social. Fiz prova do vestibular em plena crise. Virou rotina passar mal nos trens, nos ônibus, na faculdade. Virou rotina ser socorrida de ambulância e, ao chegar no hospital, os médicos diziam que eu estava bem. Minha vida social acabou. Profissão. Planos. Projetos… Sempre me tratei com sertralina e o rivotril foi minha muleta para me socorrer em meio a uma crise.

Um grande erro é abandonar o tratamento, como agora, por exemplo. Por outro lado, sempre fui de encarar a doença e enfrentá-la. Não fosse isso, viveria enclausurada. Não desejo a ninguém. A síndrome paralisa e a tendência é, cada vez mais, afastar-se das outras pessoas, de uma vida social”.

NEUSA CARMO, 56 anos (SÃO PAULO-SP)

Neusa é dona da página “Síndrome do Pânico” no Facebook. Hoje, o espaço conta com mais de 311 mil seguidores que trocam experiências e tiram dúvidas. A proposta começou em 2004, ainda no extinto Orkut, e ajuda as pessoas a entenderem melhor sobre as crises e os inúmeros sintomas causados pelo transtorno.

“Descobri a doença em 2001. Nessa época, ela ainda era pouco conhecida por médicos de pronto-socorro, lugar para onde, normalmente, corremos por achar que estamos enfartando. Depois de muitas consultas, encontrei um médico chinês que, mesmo me pedindo vários exames, me encaminhou para um psiquiatra. Ele me diagnosticou com síndrome do pânico e iniciei o tratamento com antidepressivos e ansiolíticos. Porém, as coisas não são tão simples. Mesmo em tratamento, tive que mudar várias vezes de medicamentos. Não existe nada eficiente quando se está no auge das crises, pois nunca sabemos quando ela irá acontecer. É tudo muito inesperado e independe de situações, pois já tive muitas crises dormindo, acordando de madrugada com elas. Isso me deixava muito perturbada, porque, se eu estava dormindo, logo imaginava que estava relaxada e isso não fazia sentindo. Eram rotineiras as crises noturnas, mesmo estando medicada.

Com o passar do tempo, aprendi a respirar melhor com ajuda da prática de ioga – a respiração diafragmática me auxiliou muito e ajuda até hoje em momentos de muita ansiedade.

Lembro que os maiores e piores desafios diários impostos pela síndrome do pânico são: primeiro, não saber quando a crise vai te atacar. É como se você vivesse numa selva, com medo do ataque de um animal feroz, na qual você precisasse lutar contra ele. Porém, sabe que ele vai te devorar. Segundo, sair de casa. A agorafobia está presente o tempo todo e fazer tarefas simples, como ir ao supermercado, trabalhar, pegar um ônibus, metrô, torna-se algo extremamente desafiador e assustador.

A síndrome do pânico normalmente está acompanhada de depressão, hipocondria, TOC, existindo graus de pessoa para pessoa, o que faz tudo muito mais difícil.

A compreensão familiar é mínima. Ninguém entende doença mental. Normalmente, as pessoas não estão dispostas a compreender que uma pessoa visivelmente saudável pode estar mentalmente muito doente. E a cobrança de maneira errada machuca, destrói, pois ninguém que sofre com essa doença escolheu estar assim. Acham que melhorar depende da gente, que temos que nos esforçar. Mas o pouco que fazemos já nos custa muito empenho”.

SÍLVIA PORTO, 54 anos (RIO DE JANEIRO-RJ)

“Eu estava dormindo, mas acordei com dificuldade de respirar e tremores. Permaneci deitada prestando atenção no que eu estava sentindo. Comecei a ter dor no peito e fui ficando com o corpo dormente. Meu desespero já estava atingindo o nível máximo. Pensava desesperadamente como eu ia fazer pra conseguir socorro. Senti que estava morrendo. Meu coração estava muito acelerado e eu não conseguia respirar fundo.

Comecei a suar muito. Levantei com muito custo pra pegar água e comecei a sentir que ia desmaiar. Perdi as forças e minha vista escureceu. Deitei no chão da cozinha e senti que morreria ali mesmo, sozinha. Puxei o ar e fui engatinhando até o celular. Liguei para meu vizinho e pedi socorro. Disse a ele que estava desmaiando e pedi pra que me ajudasse rapidamente.

Ele veio e eu saí com a roupa do corpo. A sensação de morte iminente é assustadora. Ele me colocou no carro e me levou pra emergência mais próxima. Eu, deitada no banco de trás, com muita taquicardia e falta de ar, gritava: ‘corre que estou morrendo!’

Cheguei à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) gritando que estava morrendo e implorando socorro. Tremia bastante. A enfermeira verificou minha pressão, meu índice glicêmico e a taxa de oxigenação: todos estavam normais. Fui me acalmando. Os sintomas começaram a desaparecer. O médico que me atendeu disse que eu estava tendo uma crise de ansiedade e que iria me prescrever uma injeção de diazepam pra eu relaxar. Eu já estava bem. Dispensei o diazepam e fui pra casa. Lá, chorei bastante.

É muito difícil conviver com síndrome do pânico porque a qualquer momento você pode ter uma crise. Relatando esse episódio, não dá para descrever o pavor que ela é. Nunca vai dar… é indescritível”.

EU ACHO …

LITERATURA OU ENTRETENIMENTO?

Menosprezar os romances de sucesso é elitista – e descabido

No início do ano, o tradicional Prêmio Jabuti causou polêmica ao divulgar a criação de uma nova categoria no segmento romance: o romance de entretenimento. Na época, recebi convites para tratar do assunto, mas preferi ficar em silêncio por duas razões: (1) eu queria acompanhar as discussões que daí surgiram e (2) eu tinha um romance recém-publicado, poderia concorrer e, assim, qualquer texto poderia ser mal interpretado. No fim de novembro, os resultados foram divulgados e meu livro mais recente, Uma Mulher no Escuro, acabou vencendo a categoria “romance de entretenimento”. Agora, me sinto à vontade para opinar.

Não é de hoje que críticos, curadores, escritores e leitores fazem a divisão entre “literatura” e “entretenimento”. A mim, a separação sempre soou descabida. Digo isso porque, se de um lado temos o “romance de entretenimento”, é de se supor quena outra categoria disputem os “romances de aborrecimento”, aqueles dedicados a arrancar bocejos do leitor, deixá-lo impaciente ou de saco cheio.

Em sentido oposto, se consideramos a categoria “romance literário”, temos a clara impressão de que os romances que entretêm não são (nem podem ser) literatura. Sem dúvida, um impasse desagradável. Afinal, o bom romance deve ser literatura e entretenimento. São os autores nesse “meio do caminho” que me encantam: aqueles que usam os jogos de linguagem, a potência das palavras, a forma e a estética para narrar boas histórias, para criar personagens complexos e tramas inesperadas. Em um país ideal, a distinção entre literatura e entretenimento em um prêmio do segmento seria desnecessária.

Mas sejamos realistas: vivemos num meio literário esnobe, distante de seu público, que abomina best-sellers e filas de leitores. A célebre frase cunhada por Tom Jobim nunca fez tanto sentido: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Pega mal entreter, pega mal ser lido. Autores como Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca foram vistos por anos com maus olhos justamente porque, mesmo com o apuro de linguagem, faziam genuíno entretenimento, eram populares. Em anos de prêmios e festivais literários, romances e autores de gênero raramente foram contemplados, pois são escolhidos por um corpo de jurados elitista, que revira os olhos diante de uma narrativa policial, de terror, de humor, de ficção científica ou de fantasia.

Por isso, mesmo não sendo ideal, é inegável a urgência de uma categoria como essa no Prêmio Jabuti. Como leitor e apaixonado por romances policiais, sempre lamentei a ausência de prêmios dedicados ao gênero, como existem em países como Estados Unidos (Edgar Allan Poe Awards), França (Grand Prix de Littérature Policiere) e Alemanha (Deutscher Krimi Preis). Torço para que mais prêmios passem a levar em conta a grande e valiosa produção de romances de gênero que vem sendo feita no Brasil. Quem sabe assim nossa literatura brasileira contemporânea conquiste seu público e seja amplamente estudada nos cursos de letras. Tenho muito orgulho de ser o primeiro ganhador da categoria “romance de entretenimento”. Uma Mulher no Escuro é entretenimento. E é literatura.

*** RAPHAEL MONTES

OUTROS OLHARES

APERTEM OS CINTOS

Sucesso de vendas, o 737 Max foi suspenso por vinte meses depois de dois acidentes. Agora ele está de volta no mais turbulento momento da aviação comercial

O risco de um passageiro ser morto em um acidente de carro no caminho para o aeroporto é, estatisticamente, dezenas de vezes maior do que no voo em que ele embarcará. Desastres aéreos são raros e, quando acontecem, têm como causa fatores que não se repetem, pois tudo que se aprende com a queda de uma aeronave é usado para evitar outra tragédia igual. Aviões não caem, alegam os engenheiros: são derrubados. E, no caso do Boeing 737 Max, essa afirmação retórica é verdadeira. Em um intervalo de quatro meses, duas unidades do modelo foram abatidas pelo sistema de segurança que deveria protegê-las, matando 189 pessoas no mar da Indonésia e 157 na Etiópia, respectivamente em outubro de 2018 e março de 2019. Poucos dias após a segunda queda, todas as 387 aeronaves em operação em 59 países, incluindo o Brasil, ficaram proibidas de voar na mais longa paralisação da história da aviação, só encerrada em 18 de novembro.

No primeiro acidente com o 737 Max da Lion Air, já havia indícios de que os pilotos tinham perdido o controle devido à ação de um software chamado Mcas. O sistema impede que o jato aumente seu ângulo de ataque – ou seja, que levante o nariz – a ponto de perder sustentação. No voo fatídico, o Mcas aparentemente continuou a forçar o avião para baixo, contra as ordens dos pilotos, até despencar. Já suspeitando disso, os reguladores deveriam ter expedido a ordem de grounding (termo que significa “ficar em terra”), mas precisou ocorrer mais um desastre, desta vez com a Ethiopian Airlines, para segurar no chão o pássaro da Boeing. A centenária fabricante se viu então no meio de uma tempestade, sacudindo por tabela a economia dos Estados Unidos.

A Boeing é a maior exportadora industrial em solo americano, emprega 130.000 pessoas e contrata milhares de fornecedores. O 737, em serviço desde 1968, é seu principal produto. Ideal para curtas e médias distâncias, trata-se do jato comercial mais vendido de todos os tempos. As duas tragédias, entretanto, puseram a companhia na berlinda, principalmente depois da suspeita de que seu presidente, Dennis Muilenburg, estaria pressionando a FAA (a agência americana reguladora) a retirar a ordem de grounding. Muilenburg acabou demitido em dezembro do ano passado.

A investigação que se seguiu expôs a cultura corporativa da Boeing. Mensagens internas mostram um alarmante desprezo dos profissionais mais graduados por colegas, clientes e fiscais. Expressões como “esse avião é uma piada”, ”não confio em algumas pessoas daqui” e “não sei se a FAA entende o que está aprovando ou reprovando” aparecem em um compilado divulgado pelo jornal The New York Times. Acrise acabou refletindo até na Embraer: a Boeing cancelou a aquisição de 80% da divisão de aviões comerciais da empresa brasileira – uma transação de 4,2 bilhões de dólares. Não se sabe ao certo o que teria motivado tal decisão, mas aparentemente o desgaste provocado pelo 737 Max, associado à troca de gestão, mudou os ventos da negociação, deixando a Embraer largada na turbulência.

A punição ao Max durou vinte meses, mas todas as unidades serão autorizadas a voar assim que as mudanças forem concluídas. Além da FAA, participaram da recertificação outras agências reguladoras, incluindo a brasileira Anac. O software de proteção foi corrigido, a extensa fiação trocada e os pilotos passarão por treinamento em simuladores específicos. Em vídeo, o diretor da FAA, Stephen Dickson, declarou que o avião é seguro: “Eu colocaria minha família dentro dele”, afiançou. A American Airlines quer sua frota pronta para voar em 2021. O mesmo deseja a Gol, única linha aérea brasileira a usar o 737Max, com sete unidades em operação e 95 encomendadas.

A questão que se levanta é se o público costuma boicotar uma aeronave por seu histórico. Normalmente, isso não ocorre. Ao comprar um pacote, o passageiro quer saber se o voo é direto, a hora de partida e chegada e quanta bagagem pode levar. “É raro perguntarem qual o modelo da aeronave”, diz Nádia Botsaris, da Kauai Turismo. Ela esclarece que a maior preocupação do setor no momento é com a retomada das viagens e hospedagens na pandemia. A maioria das pessoas compartilha o sentimento de que voar é seguro. Já em relação às medidas tomadas contra a Covid-19, parece não haver ainda a mesma confiança.