ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 17: 12 – 16

Alimento diário

DECLARAÇÕES IMPORTANTES

 

V. 12 – Observe:

1. Um homem inflamado é um homem embrutecido. Ainda que, em outras ocasiões, ele possa ter alguma sabedoria, surpreenda-o em meio a uma paixão desenfreada, e ele será um louco na sua estultícia; são loucos aqueles em cujo seio há ira, e em quem a ira é estimulada. Ele se despe do homem e se comporta como uma ursa, uma ursa furiosa, a quem roubaram os filhotes; ele gosta das gratificações de seus desejos e paixões, assim como uma ursa gosta de seus filhotes (que, ainda que sejam feios, são seus), está tão ansioso em busca destas gratificações quanto a ursa em busca de seus filhotes, quando privada da companhia deles, e se sente igualmente cheio de indignação, perturbado pela busca.

2. É um homem perigoso, que guerreia com todos os que se põem em seu caminho, embora inocentes, embora seus amigos, como uma ursa à qual roubaram os filhotes ataca o primeiro homem que encontra, como se fosse o ladrão. A ira é uma loucura temporária. Seria mais fácil deter uma ursa enfurecida, ou fugir dela, ou defender-se dela, do que de um homem furioso. Devemos, portanto, vigiar nossas próprias paixões (para que elas não façam o mal), e assim, buscar a nossa própria honra; e devemos evitar a companhia de homens furiosos, e sair do seu caminho, quando estiverem furiosos, e assim buscar a nossa própria segurança.

 

V. 13 – Um homem iníquo é aqui descrito:

1. Como ingrato para com os seus amigos. Frequentemente, ele se comporta de maneira tão absurda e insensível com relação às gentilezas que lhe são feitas, que torna mal por bem. Davi se encontrou com os que eram seus adversários em paga do seu amor (Salmos 109.4). Tornar mal por mal é algo brutal, mas tornar mal por bem é demoníaco. É um homem de má índole aquele que, por estar decidido a não retribuir uma gentileza, realiza uma vingança como retribuição.

2. Como cruel com a sua família, pois transmite uma maldição a ela. É um crime tão hediondo que será punido, não somente na pessoa de seu cônjuge, mas na sua descendência, para quem acumula ira. A espada não se afastará da casa de Davi, porque ele recompensou Urias com maldade pelos seus bons serviços. Os judeus apedrejaram a Cristo por suas boas obras; por isto o seu sangue está sobre eles e sobre seus filhos.

 

V. 14 – Aqui temos:

1. O perigo que existe, no início da contenda. Uma palavra acalorada, uma reflexão mesquinha, uma exigência irada, uma contradição maldosa, gera outra, e depois uma terceira, e assim por diante, até que prove ser como o romper de uma barragem; quando a água tem uma pequena passagem, ela mesma alarga a abertura, derruba tudo o que está à sua frente e então não há como detê-la.

 2. A inferência a uma boa advertência, para que tomemos cuidado com a primeira fagulha da contenda e a apaguemos assim que apareça. Tema o romper do gelo, pois, uma vez rompido, irá se quebrar cada vez mais; por isto, deixe a contenda, não somente quando você vir o pior dela, pois então poderá ser tarde demais, mas quando você vir o princípio dela. Deixe-a antes que seja envolvido; deixe-a, se possível, antes mesmo de começar.

 

V. 15 – Isto mostra a transgressão que é, para Deus:

1. Quando aqueles a quem é confiada a administração da justiça pública, juízes, jurados, testemunhas, acusadores, advogados, absolvem os culpados ou condenam os que não são culpados, ou, pelo menos, contribuem para uma destas situações; isto frustra a finalidade do governo, que é proteger os bons e punir os maus (Romanos 13.3,4). É igualmente provocador a Deus, tanto justificar os ímpios (ainda que seja por piedade e para salvar a vida), como condenar os justos.

2. Quando algum indivíduo defende o pecado e os pecadores, suaviza e desculpa a iniquidade, ou argumenta contra a virtude e a piedade, desta maneira pervertendo os caminhos justos do Senhor e confundindo a eterna distinção entre o bem e o mal.

 

V. 16 – Aqui são mencionadas duas coisas com assombro:

1. A grande bondade de Deus para com os tolos, ao colocar um preço na sua mão, para obter sabedoria, adquirir conhecimento e graça, para adequá-lo para os dois mundos. Nós temos almas racionais, os meios da graça, os esforços do Espírito, o acesso a Deus por meio da oração; nós temos tempo e oportunidade. Aquele que tem boas propriedades (assim alguns interpretam) têm vantagens, portanto, para obter a sabedoria, comprando a instrução. Bons pais, parentes, ministros, amigos, são auxílios para obter sabedoria. É um preço, portanto um valor, um talento. É um preço na mão, um preço de que se tem posse; a palavra está perto de ti. É um preço para obter; é para nosso próprio benefício; é para adquirir sabedoria, exatamente aquilo que, sendo tolos, mais necessitamos. Temos razões para nos maravilhar com o fato de que Deus considerasse a nossa necessidade, e as­ sim nos confiasse tais benefícios, ainda que Ele previsse que não os aproveitaríamos adequadamente.

2. A grande iniquidade do homem, a sua negligência em relação à benevolência de Deus e ao seu próprio interesse, o que é totalmente absurdo e inexplicável: Ele não tem o ânimo necessário nem a sabedoria que deve ser obtida, nem os pré-requisitos básicos para consegui-la. Ele não tem coragem, nem talento, nem vontade, para aprimorar os seus benefícios. Ele se dedica a outras coisas, de modo que não se importa com o seu dever nem com as grandes preocupações da sua alma. Por que um preço seria jogado fora, e perdido, com alguém que o merece tão pouco?

 

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

CRIANÇAS MAIS FELIZES

Quando se trata de criar filhos, o mais importante não é a identidade ou o sexo dos pais ou substitutos, e sim a qualidade do cuidado e o comprometimento com os pequenos.

Crianças mais felizes

Famílias monoparentais são um fato. Uma em cada quatro crianças americanas vive apenas com um dos pais, geralmente a mãe. No Brasil, 12,2 % das mulheres vivem com filhos, sem cônjuge. Entre os homens, o número é de 1,8%, segundo dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Também cresce o número de famílias formadas da união de pessoas do mesmo sexo. No entanto, isso não parece representar nenhum tipo de desvantagem. A análise cuidadosa de várias pesquisas coloca por terra a ideia de que uma das condições para que uma criança seja saudável e feliz é ter, necessariamente, o pai e a mãe vivendo sob o mesmo teto. Aliás, cada vez mais parece claro que os elementos mais importantes da criação dos filhos não é a identidade ou o sexo dos adultos envolvidos, mas sim a qualidade do cuidado prestado e a sua consistência ao longo dos anos.

A verdade é que criar um filho nunca foi fácil e raramente alguém desempenha essa tarefa sem ajuda. Uma pesquisa com famílias em situação de risco feita por um grupo de cientistas das universidades Colúmbia e Princeton mostrou que apenas 17% das mães solteiras relataram criar os filhos completamente por conta própria. A maioria recebia auxílio do pai da criança, dos próprios pais ou de outros parentes e amigos. Ainda assim, salvo raras exceções, essas mães sentiam-se sobrecarregadas emocionalmente.

Para a criança, a consistência do cuidado recebido e a certeza de poder contar com uma pessoa de referência, que dê conta de suas demandas físicas e psíquicas, é fundamental. “Não basta ter um adulto na função paterna ou materna ‘por um período’; por exemplo, num ano a mãe, no próximo a avó e no outro o pai. É necessário ter alguém com quem contar a longo prazo”, afirma a psicóloga do desenvolvimento Anne Martin, da Universidade Colúmbia. “Ela precisa se sentir segura e protegida para se desenvolver intelectual e emocionalmente.”

Crianças mais velhas podem até contar com professores, monitores de instituições que frequentam ou líderes religiosos para receber apoio, desde que a presença dessa pessoa seja contínua em sua vida. A organização não governamental americana Big Brothers Big Sisters, por exemplo, requer que se comprometam por pelo menos um ano e os voluntários estabeleçam uma relação de mentor-aprendiz com o jovem que acompanha.

JEITOS DE CUIDAR

No entanto, a dura realidade é que o principal cuidador de uma família fragmentada não raro enfrenta dificuldades para encontrar alguém que assuma uma década ou mais de apoio incansável. Pesquisadores da Universidade Columbia e da Universidade Princeton demonstraram que a maioria dos pais (homens) não casados de um estudo relatou vontade de se envolver na vida dos filhos. Mas, após três anos do nascimento de um bebê, aproximadamente metade não mantinha contato recente.

Uma forma de ajudar a envolver o pai e outros cuidadores seria focar o relacionamento com a mãe da criança. O psicólogo clínico Kyle Pruett, pesquisador do Centro de Estudo da Criança da Universidade Yale, destaca essa variável em seus esforços para aproximar pais descomprometidos com a vida dos filhos. “Focar somente os homens resultou em desperdício de esforço e de dinheiro”, afirma Pruett.

Ele acompanhou um grupo de mães e constatou que o maior desafio era ajudá-las a aceitar a forma como o ex-companheiro (ou outro cuidador) exercia a paternidade. Um es­ tudo realizado em 2001 por pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio confirmou o que psicólogos já dizem há anos: quando há desavenças entre as pessoas que cuidam da criança, o conflito é claramente percebido por ela e lhe causa sofrimento. Os pesquisadores americanos constataram que, um ano após os pais (que conviviam na mesma casa) terem assumido tarefas coordenadas pelas mães, os casais se tornaram mais combativos e propensos a minar o outro.

Com base nesse resultado, os autores da pesquisa sugerem que a melhor estratégia é decidir em conjunto qual a esfera de influência de cada um. Por exemplo, um dos pais fica no comando do banho e o outro se responsabiliza pelas refeições. E uma coisa é fundamental para o bem-estar da criança, não só imediatamente, mas também em razão dos efeitos futuros: jamais atacar ou menosprezar o outro na frente do filho, ainda que haja ressalvas ou discordâncias.

A relação positiva entre os cuidadores tem grande impacto sobre o desenvolvimento psicológico dos filhos. Em um estudo com famílias afro-americanas de 2013, pesquisadores da Universidade de Vermont e da Universidade da Carolina do Norte em Chapei Hill descobriram que, quanto melhor for a relação entre uma mãe solteira e seu principal “ajudante”, melhores serão o comportamento e a saúde mental das crianças. Maior qualidade no vínculo entre pais que não convivem sob o mesmo teto também pode reforçar o comprometimento com os filhos. Em um estudo de2008, os sociólogos Lawrence Berger e Mareia Carlson, da Universidade de Wisconsin-Madison, constataram que pais que viviam separados mas mantinham boa comunicação e dividiam tarefas com a mãe da criança eram mais propensos a se manter envolvidos na vida dos filhos cinco anos após o nascimento, independentemente de estarem romanticamente envolvidos com outras mulheres.

Crianças mais felizes. 2

RACIOCÍNIO LÓGICO

Ainda hoje, apesar de todas as transformações sociais e culturais, são as mulheres que continuam a cumprir a maioria das tarefas que se referem aos cuidados primários, como alimentação, banho e acolhimento das crianças. Mas também é fato que os pais tendem a participar de atividades complementares, como brincadeiras (menos importantes para a sobrevivência de uma criança, mas de grande importância no desenvolvimento cognitivo). Como resultado, a qualidade do envolvimento parece importar mais do que a quantidade de horas passadas com os filhos.

Em um estudo de 2013 desenvolvido com pais que vivem separados dos filhos biológicos, por exemplo, cientistas das universidades de Connecticut e Tufts descobriram que contribuições financeiras e frequência de visitas não têm efeito significativo no bem-estar da criança. O fator crítico é a quantidade de vezes que o pai a envolve em ações específicas, como ajudá-la nas lições de casa, brincar com ela ou participar de eventos esportivos e atividades da escola.

“Esse tipo de envolvimento ajuda no desenvolvimento cognitivo, uma vez que faz com que a criança aumente suas habilidades gerais com base no conhecimento acumulado”, escreveram os autores do trabalho. Chamado por eles de “andaime”, por dar sustentação à constituição psíquica do sujeito, esse engajamento ajuda os pequenos a desenvolver o raciocínio lógico e a capacidade de resolver problemas em várias situações ao longo da vida. Pais biológicos e casados tendem a realizar esse processo com mais uniformidade, pelas condições que a rotina impõe. No entanto, crianças que vivem longe do pai costumam ter menor chance de exposição a atividades cognitivamente estimulantes, de acordo com um estudo de 2013 de Mareia Carlson e Lawrence Berger.

Cada vez mais estudos comprovam que pais disponíveis não só para estar com os filhos, mas também para oferecer suporte emocional à mãe são de grande importância para o desenvolvimento intelectual das crianças. Uma revisão recente publicada no Journal of Community Psychology mostrou que figuras parentais substitutas (avós, tios, professores ou outros adultos de referência) ajudam a reforçar o desempenho escolar das crianças com a introdução de novas ideias e experiências que as desafiam a pensar criticamente. Na verdade, a construção do conhecimento pode ocorrer em qualquer lugar, não somente em passeios a museus ou na sala de aula, mas também no jantar, durante uma brincadeira ou no caminho do futebol. O importante é prestar atenção naquilo que interessa à criança e não desperdiçar a oportunidade de apresentar a ela um mundo interessante, que vale a pena ser conhecido.

Crianças mais felizes. 3

FALHAS E EQUÍVOCOS

Pais de adolescentes sabem muito bem: não é nada fácil lidar com crises e desafios escolares e sociais que com frequência aparecem na passagem da infância para a idade adulta. Surgem muitas dúvidas quando se trata de escolher o melhor modo de lidar com os impasses, até porque, não raro, as questões dos jovens remetem os adultos às angústias já vividas por eles nessa etapa (nem sempre elaboradas). No entanto, ser um bom pai tem muito a ver com aceitar os filhos – embora seja mais fácil dizer isso do que agir, principalmente quando aparecem com uma tatuagem ou quando os pais recebem uma ligação da escola convocando uma reunião para falar do mau comportamento.

O psicólogo Ronald P. Rohner, pesquisador da Universidade de Connecticut, estuda as consequências da rejeição de crianças e adolescentes pelos pais e a influência que o olhar parental tem sobre aspectos importantes da personalidade. Jovens que se sentem acolhidos em casa costumam ser mais independentes e emocionalmente estáveis, têm maior autoestima e mantêm uma visão positiva do mundo. Aqueles que se sentem rejeitados não raro demonstram o oposto: hostilidade, sentimentos de inadequação, instabilidade e uma visão negativa das mais variadas situações.

Em seu trabalho Rohner analisou dados de 36 estudos sobre aceitação e rejeição dos pais. “Não parece haver dúvidas de que o investimento emocional tanto materno quanto paterno está associado com essas características de personalidade”, afirma o psicólogo. E, segundo ele, o afeto do pai é tão importante quanto o da mãe. “Culturalmente, a grande ênfase na figura da mãe levou a uma tendência inadequada de responsabilizá-la pelos problemas de comportamento das crianças quando, de fato, o homem está muito mais implicado nessas situações do que as pessoas em geral imaginam.”

O pai parece ter também um papel surpreendentemente importante no fortalecimento da empatia dos filhos. O psicólogo Richard Koestner, da Universidade McGill, analisou um estudo com 75 homens e mulheres acompanhados por pesquisadores da Universidade Yale em 1950, quando os voluntários eram crianças. Koestner e seus colegas examinaram diversos fatores que poderiam afetar a capacidade empática na fase adulta, mas um em especial lhe chamou a atenção: o tempo que o pai passava com os filhos.

“Ficamos espantados ao descobrir que o carinho recebido pela dupla pai- mãe em si não fez diferença significativa em relação à empatia. E nos surpreendemos mais ainda ao constatar quanto era forte a influência especificamente paterna”, diz Koestner.

A psicóloga Melanie Chifre Mallers, da Universidade Estadual da Califórnia em Fullerton, também descobriu que filhos com boas lembranças do pai eram mais capazes de lidar com as tensões cotidianas da vida adulta. Na mesma época, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Toronto submeteu um grupo de adultos a um escâner de ressonância magnética funcional para avaliar as reações quando observavam o rosto dos pais. Imagens da mãe provocaram, de imediato, maior atividade em várias regiões cerebrais, algumas associadas ao processamento de características da face. Já o rosto do pai acionou, em primeiro lugar, circuitos no núcleo caudado, uma estrutura relacionada a sentimentos de amor.

As evidências mostram que o homem contribui de forma única com os filhos. Mas o contrário não é necessariamente verdadeiro: crianças que não convivem com ele na mesma casa não estão de forma alguma condenadas ao fracasso. Embora o pai seja importante, esse papel pode ser substituído. Obviamente, conhecemos crianças que cresceram em circunstâncias difíceis, mas que hoje desfrutam de uma vida rica e gratificante. Nem todos se tornam o presidente dos Estados Unidos, mas Barack Obama é um exemplo do que pode ser alcançado por uma criança que passou a infância sem pai, mas conseguiu superar a situação. A paternidade tem a ver com orientar as crianças para que possam ser adultos felizes e saudáveis, à vontade no mundo, preparados para viver relações de afeto, respeito e cuidado e, eventualmente, ser pais ou mães.

OUTROS OLHARES

A SOMBRA DO INVISÍVEL

A revelação da primeira foto de um buraco negro reafirma a Teoria da Relatividade de Einstein e representa um extraordinário avanço nos estudos sobre o universo.

A sombra do invisível

A princípio, pode soar apenas como uma contradição, um paradoxo, um oximoro, enfim: ver o invisível. No entanto, não há melhor definição para o que permitiu enxergar a imagem divulgada mundo afora dia 10 de abril por astrônomos do projeto internacional Event Horizon Telescope (EHT, na sigla em inglês). Em um comunicado simultâneo feito em seis países, os cientistas exibiram a primeira fotografia de um buraco negro, nome dado a esses avassaladores abismos cósmicos capazes de sugar para o seu interior tudo, absolutamente tudo, até mesmo a luz. A foto, que logo viralizou, mostra a silhueta de uma sombra, abraçada por um anel irregular e resplandecente. O nome do buraco negro é M87 e suas dimensões são estupendamente exponenciais: ele é 6.5 bilhões de vezes maior que o Sol. O colosso está localizado a 55 milhões de anos-luz da Terra, bem no centro da gigantesca galáxia de Messier 87, na constelação de Virgem.

A ciência já havia provado a intensa força de gravidade exercida pelos buracos negros. Também já tinha captado o som das ondas gravitacionais que ecoavam o estrondo provocado pela colisão de duas daquelas monumentais estruturas cósmicas. A forma de um buraco negro, contudo, permanecia apenas no campo técnico. Isso porque, como os buracos negros não refletem luminosidade, eles são, a rigor, invisíveis. Eis a razão pela qual a fotografia foi recebida com espanto e aplausos. “Estou muito feliz em informar que pela primeira vez nós vimos o que pensávamos ser invisível”, comemorou Sheperd Doeleman, diretor responsável pelo EHT, durante a apresentação da imagem. “Isso é só o começo. A partir daqui as descobertas parecerão histórias de ficção científica”, disse a astrônoma americana Feryal Ozel, integrante do EHT.

O prodígio alcançado por Feryal, Doeleman e seus colegas começou a ganhar corpo em um experimento iniciado em 2017, que envolveu oito radio­telescópios, espalhados pela Espanha, Estados Unidos, Chile, México e Antártica. Os oito equipamentos captaram imagens de partes diferentes do buraco negro. Em seguida, tais imagens foram combinadas, por meio de uma técnica conhecida como interferometria, como se tivessem sido produzidas por um único telescópio gigantesco, com tamanho equivalente ao da circunferência da Terra. Ou seja: em vez de usar um telescópio de dimensões planetárias, o que não existe, os cientistas criaram um enorme telescópio virtual. Ao todo, foram captadas 65 horas de ondas de rádio vindas do buraco negro M87, que ocupariam 1.024 discos rígidos de 8 terabytes. Após dois anos de processamento desses dad0os, realizado por um software alimentado por mais de 200 cientistas, chegou-se à histórica foto, que, em termos técnicos, exibe as manifestações das ondas de rádio provenientes da atividade gravitacionais do buraco negro e dos corpos astronômicos que ele atraiu.

A sombra do invisível. 2

O Event Horizon Telescope também observou outro buraco negro, situado no coração da Via Láctea: o Sagitário A” (diz-se “a-estrela”), com diâmetro estimado em 60 milhões de quilômetros e massa de 4 milhões de sóis. Comparado ao M87, com os seus já citados 6,5 bilhões de sóis e tamanho aproximado de 40 bilhões de quilômetros de diâmetro, o Sagitário A” é – em termos astronômicos – um buraco negro “pequeno”. Por causa disso, coletar suas ondas de rádio de modo a obter definição suficiente para a formatação de uma fotografia como a que foi feita do M87 é mais complicado. “Também temos resultados de Sagitário A”, porém são mais difíceis de processar. Estamos trabalhando neles e esperamos apresentá-los em breve”, declarou Sheperd Doeleman. Portanto, em algum momento também poderemos ter o buraco negro que habita o centro da Via Láctea.

Para compreender a magnitude da proeza – cujos resultados foram publicados na revista científica Astrophysical Journal  Letters – realizada pelos astrônomos do EHT, é preciso deter-se um pouco na conformação de um buraco negro. A borda interna da parte alaranjada que é vista no retrato constitui a região conhecida como “horizonte de eventos”. É onde a matéria que acabará sendo engolida pelo buraco negro é acelerada a altíssimas velocidades pela força gravitacional do corpo celeste. No centro da imagem está o que os cientistas batizaram de “sombra de Einstein”. Ali fica também o “núcleo de singularidade”, impossível de ser visto por não emitir luz – é o buraco negro propriamente dito. Os físicos estimam que essa parte do corpo celeste tenha 40% das dimensões de sua sombra e seja tão densa que mesmo o tempo é distorcido – segundos de lá representam dezenas de anos aqui.

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A ideia da existência dos buracos negros surgiu meses depois que o físico alemão Albert Einstein (1879-1955) formulou a Teoria da Relatividade Geral, em 1915. Sua teoria revolucionou a física ao concluir que a maneira com que a gravidade atua só poderia ser plenamente entendida no cruzamento de domínios distintos da natureza – massa, velocidade, área etc.-, com os corpos pesados deformando o espaço à sua volta e atraindo para seu centro as coisas ao redor, tal como uma esfera de aço colocada no meio de uma rede de pesca que acaba por curvá-la. Em resumo: os buracos negros surgiram como consequência inevitável da teoria de Einstein. Com base nas equações matemáticas trabalhadas na Teoria da Relatividade Geral, o também físico alemão Karl Schwarzschild (1873-1916) calculou pela primeira vez o que aconteceria se fosse possível comprimir a massa de uma estrela em um único ponto. Schwarschild chegou à conclusão de quem em uma situação assim, a gravidade seria tão intensa que nada, absolutamente nada, poderia escapar de sua atração. Dessa armadilha não se livrariam sequer as chamadas ondas-partículas de luz – foi uma pioneira conceituação do buraco negro, à época chamado por Schwarschild de “singularidade”. O termo buraco negro só seria cunhado em 1967, pelo físico americano John Archibald Wheeler (1911-2008), em palestra proferida no Instituto Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa.

Schwarzschild chegou a enviar o rascunho de seus estudos para Einstein ainda em 1915. O pai da Teoria da Relatividade Geral ficou inicialmente entusiasmado com a ideia e a apresentou à Academia Prussiana de Ciências após a morte do colega, em 1916. Entretanto, Einstein fez ressalvas às conclusões de Schwarschild, classificando os buracos como uma mera curiosidade, muito distante de uma teoria comprovável. “A singularidade de Schwarschild não existe na realidade física”, sentenciou o Nobel de Física de 1921. Para Einstein, um buraco negro implicaria a existência de algo que se desconectaria do espaço-tempo – seria capaz de rasgar aquela “rede de pesca” de que se falou antes para ilustrar a Teoria da Relatividade Geral, obrigando tudo o que existisse a cair ali, sem chance de ser resgatado. Acontece que não tardou paro os cientistas aprenderem como as estrelas vivem e morrem, e concluírem definitivamente que, de fato, era possível, ao fim da vida das maiores delas, o seu colapso resultar numa espécie de raio cósmico – o buraco negro – por onde parte da massa do universo fluiria”, disse o engenheiro brasileiro Nilton Renno, que atua na pesquisa da formação de planetas na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

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“O formato do buraco negro corresponde exatamente aos cálculos de atração gravitacional que sustentam a Teoria da Relatividade Geral”, explica Renno. Eram esses cálculos, aliás, que permitiam aos cientistas simular as representações gráficas dos buracos negros.

Se tudo o que foi observado até agora sobreo M87 é consistente com a teoria de Einstein, não se pode descartar a possibilidade de que observações mais detalhadas de novos buracos negros revelem características inesperadas desses corpos celestes – principalmente no que diz respeito a velocidade com que eles se movimentam. Isso poderia elucidar, sobretudo, uma hipótese do físico inglês Stephen Hawking (1912-2018), que há mais de quarenta anos escreveu que o universo é repleto de partículas regurgitadas por buracos negros ao mesmo tempo em que eles estão absorvendo matéria. Nesse processo, acreditava Hawking, o buraco negro perderia energia – levada pelas tais partículas – e massa, até o seu desaparecimento. As partículas seriam, então, o único testemunho do buraco negro extinto. Sobre isso, ainda pouco se sabe.

O fascínio exercido pelos buracos negros está longe de se restringir ao campo científico. No cinema, por exemplo, o conceito de distorção do tempo causada pela gravidade aparece em clássicos que nada têm a ver com buracos negros. Como O Planeta dos Macacos, do cineasta francês Pierre Boulle (1968). Nele, um astronauta passa por uma nebulosa e tem sua realidade temporal distorcida, o que o leva para um planeta onde os símios, não os humanos, prosperaram. No filme de ficção científica Interestelar (2014), do diretor inglês Christopher Nolan, faz parte da trama um buraco negro supermaciço, o monstruoso Gargantua – uma espécie de pino cósmico que roda velozmente sobre si mesmo, mas em seu horizonte de eventos é capaz de abrigar planetas que poderiam receber humanos que tentam fugir de uma terra devastada por mudanças climáticas. Para representar o buraco negro, a produção do longa contratou um dos mais respeitados físicos modernos, o americano Kip Thorne. A intenção foi criar uma história o mais plausível possível do ponto de vista científico. Assim, foi feita uma simulação realística de um buraco negro e da visão que os humanos teriam se chegassem lá. Até a divulgação da foto do M87 aquela era considerada uma das mais perfeitas representações de um buraco negro.

Para alguns pesquisadores, faz sentido dizer que, daqui a muitos bilhões ou talvez trilhões de anos, acontecerá a morte do universo tal como o conhecemos hoje – embora muito falte ainda para conhecer. A extinção do cosmo se daria especialmente pelo esgotamento de energia dos corpos que o compõem. Quando isso estiver prestes a ocorrer, as únicas fontes de energia disponíveis serão justamente aquelas provenientes das estrelas que os buracos negros tiverem atraído para si. Eis aí o vislumbre de um futuro: a civilização, se ainda existir alguma, provavelmente habitará em um dos gigantes que hoje engolem parte do espaço.

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GESTÃO E CARREIRA

UMA JANELA COM VISTA

De nada adianta a empresa manter um escritório colorido se não há espaço para o diálogo. A satisfação com o trabalho vem de dentro para fora.

Uma janela com vista

É comum acompanharmos os ambientes corporativos por meio de reportagens, vídeos e fotos. Os que chamam mais a atenção são os coloridos, com frases de efeito nas paredes, cadeiras descoladas e um ar de garagem criativa. Os escritórios mais inovadores incluem até um bar com apresentações de rock’ n’roll improvisadas e, se tiverem animais de estimação, já estão quase prontos para ser estampados numa capa de revista.

Trabalhar em um ambiente descontraído e agradável é um ponto positivo no mosaico que define satisfação. Mas esse não é o aspecto central. Não podemos escorregar na ideia de que andar com um coelho no colo trará prazer profissional.

Oque define satisfação e propósito é um movimento de dentro para fora – e não o contrário. É a partir das motivações e interesses do indivíduo que se constrói a felicidade. Quando tratamos de contentamento no trabalho, o ambiente funciona como uma órbita ao redor do núcleo, que é definido pelas aspirações e motivações íntimas de cada um.

A ideia de protagonismo na carreira está na moda. Uma das ações objetivas para ser dono dela é a pessoa fazer uma reflexão permanente sobre quais são seus interesses, suas motivações e suas aspirações profissionais. E, a partir daí, abrir um diálogo com o líder e a organização em busca desses objetivos.

Do ponto de vista da companhia, mais do que investir em salas de inovação e permitir que os funcionários usem bermudas, é preciso trabalhar para mudar o modelo mental dos gestores. Ainda vivemos um primitivismo colonial quando tratamos de carreira dos empregados. Não adianta falar em avanço tecnológico e disrupção se as pessoas atuam em hierarquias ultrapassadas que não favorecem diálogos transparentes.

Uma recente pesquisa realizada pela consultoria americana Future Workplace revela que os profissionais anseiam por algo fundamental às necessidades humanas. Jeanne C. Meister descobriu, ao entrevistar 1.614 funcionários de grandes empresas globais, que estar em um ambiente com luz natural e com vista para a rua são os itens mais importantes no local de trabalho, superando benefícios tradicionais, escritórios perfumados ou mesas de sinuca.

O desafio parece estar mais na aplicação de coisas simples e que, de fato, transformam negócios. Uma janela com vista e um bom diálogo permanente sobre carreira podem funcionar muito mais do que estratégias mirabolantes para tentar buscar a satisfação dos funcionários. Na sociedade do novo milênio, investir em colaboração e desapegar-se das velhas formas de gerir pessoas são pontos fundamentais para engajar talentos e desenvolver o negócio.

 

RAFAEL SOUTO – é fundador e CEO da consultoria Produtive, de São Paulo. atua com planejamento e gestão de carreira, programas de demissão responsável e de aposentadoria.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 17: 6-11

Pensando biblicamente

VERDADES COMUNS

 

V. 6 – Eles são assim, isto é, deveriam ser assim; e, caso se comportem com dignidade, o serão.

1. É uma honra para os pais, quando já estão velhos, deixar filhos, e ver os filhos de seus filhos crescendo, seguindo os passos de suas virtudes, e tendo a possibilidade de manter e promover a reputação de suas famílias. É uma honra para um homem viver o suficiente para ver os filhos de seus filhos (Salmos 128.6; Genesis 50.23), ver a sua casa edificada neles, e vê-los com possibilidades de servir à sua geração, de acordo com a vontade de Deus. Isto coroa e completa a sua consolação neste mundo.

2. É uma honra para os filhos terem pais sábios e tementes a Deus, e vê-los continuar assim, mesmo depois que eles mesmos envelheceram e se estabeleceram no mundo. São filhos não naturais os que consideram seus pais idosos um fardo, e pensam que eles já viveram de­ mais; ao passo que, se os filhos forem sábios e bons, será uma grande honra para eles o fato de serem consolações para seus pais, nos dias desagradáveis de sua velhice.

 

V. 7 – Duas coisas aqui são descritas como muito absurdas:

1. O fato de que homens de nenhuma reputação sejam ditadores. O que pode ser mais inconveniente para os tolos, que são conhecidos por ter pouco senso e discernimento, do que ter pretensões de algo que está acima deles, e para o que eles não foram talhados? Um tolo, nos provérbios de Salomão, significa um homem ímpio, a quem não convêm palavras excelentes, porque o seu modo de vida desmente as suas excelentes palavras. Que direito têm de recitar os estatutos de Deus as pessoas que odeiam a instrução? (Salmos 50.16). Cristo não permitiu que os espíritos impuros dissessem que sabiam que ele era o Filho de Deus. Veja Atos 16.17,18.

2. O fato de que homens de grande reputação sejam enganadores. Se não é apropriado que um homem desprezível se atreva a falar como um filósofo ou político, e ninguém lhe dê ouvidos, por preconceitos quanto ao seu caráter, muito menos apropriado é que um príncipe, um homem honrado, se aproveite da sua posição e da confiança depositada nele, e aja como hipócrita e não se incomode em infringir a sua palavra. A mentira é inapropriada a qualquer homem, porém ainda menos para um príncipe. A política moderna é tão corrupta que insinua que os príncipes não devem ser escravos de suas palavras, não além do que é de seu interesse, e Aquele que não sabe dissimular não sabe como reinar.

 

V. 8 – O desígnio desta observação é mostrar:

1. Que muitos que têm dinheiro em suas mãos pensam que podem fazer qualquer coisa com ele. Os ricos valorizam um pouco de dinheiro como se fosse uma pedra preciosa, e se valorizam com relação a ele, como se ele não lhes desse somente ornamento, mas poder, e todos tivessem que estar à sua disposição, até mesmo a própria justiça. Para onde quer que dirijam este reluzente diamante, esperam que ele ofusque os olhos de todos e faça com eles exatamente o que eles desejam que façam. Pague o alto preço, e poderá ter o que deseja.

2. Que os que têm dinheiro diante dos olhos e seus corações voltados a ele, farão qualquer coisa para consegui-lo: pedra preciosa é o presente aos olhos dos que o recebem; tem uma grande influência sobre ele, e ele se certificará de seguir pelo caminho pelo qual o suborno o conduzir, ainda que seja contrário à justiça e incoerente consigo mesmo.

 

V. 9 – Observe:

1. A maneira de preservar a paz com os parentes e amigos é aproveitar ao máximo todas as coisas, não dizer aos outros o que foi dito ou feito contra eles, quando isto não for indispensável para a sua segurança, nem prestar atenção ao que foi dito ou feito contra nós mesmos, mas desculpar todas estas coisas, e atribuir-lhes a melhor interpretação possível. Foi um descuido; por isto, ignore-o. Foi feito por negligência; por isto, negligencie. Talvez isto tenha sido um desprezo; então, também despreze isto.

2. O relembrar dos erros destrói o amor, e nada é mais propenso a separar os amigos e fazer com que divirjam do que a repetição de coisas que causaram divergência; pois normalmente não se perde nada com a repetição, mas pelo contrário, as próprias coisas são agravadas, e as paixões são revividas e exasperadas. Um dos melhores métodos de se obter a paz é por meio da anistia ou do esquecimento.

 

V. 10 – Observe:

1. Uma palavra é suficiente para o sábio. Uma repreensão amável penetrará não somente na cabeça, mas também no coração de um homem sábio, de modo a exercer uma forte influência sobre ele; pois, se apenas uma pista for dada à sua consciência, ela prosseguirá e tirará as suas próprias conclusões.

2. Açoites não são suficientes para um tolo, para fazer com que ele se dê conta dos seus erros, para que possa se arrepender deles e ter mais cautela no futuro. Aquele que é embotado e obstinado muito raramente será beneficiado pela severidade. Davi é abrandado com a expressão, “Tu és este homem”; mas o Faraó continua obstinado, mesmo sob todas as pragas do Egito.

 

V11 – Aqui estão o pecado e a punição de um homem ímpio.

1. O seu pecado. É verdadeiramente um homem ímpio aquele que busca todas as oportunidades para se rebelar contra Deus e sobre o controle que Deus estabeleceu sobre ele, e contradizer e discutir com todos os que estão à sua volta. Ele procura contendas (segundo alguns). Há alguns que agem com um espírito de oposição, que irão contradizer puramente para contradizer, que prosseguirão obstinados em seus caminhos ímpios, apesar de todas as restrições e tentativas de controle. Um homem rebelde busca o mal, observa todas as oportunidades para perturbar a paz pública.

2. A sua punição. Como ele não poderá ser recuperado por meio de métodos mansos e gentis, um mensageiro cruel se enviará contra ele, um ou outro juízo terrível, como um mensageiro de Deus. Os anjos, os mensageiros de Deus, serão empregados como ministros da sua justiça contra ele (Salmos 78.49). Satanás, o anjo da morte, será liberado sobre ele, e também os mensageiros de Satanás. O seu príncipe enviará um sargento para prendê-lo, um executor para destruí-lo. Aquele que luta contra tudo terá a espada à sua espera.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O MOVIMENTO DO VOLUNTARIADO

Quais fatores motivam as pessoas a se voluntariar, quais os riscos em questão, e mais: o que pode sustentar esse tipo trabalho, garantindo um intercâmbio construtivo para todos e a longevidade da ação?

O movimento do Voluntariado

O movimento do voluntariado tem tido um crescimento exponencial nos últimos dez anos, nas mais variadas partes do mundo. Uma espécie de contribuição social que já é considerada fundamental em diversas situações e/ou locais onde pessoas tiveram suas vidas atingidas por catástrofes ou vivem em regiões com índices de desenvolvimento humano absolutamente precários. Além disso, as pessoas que se envolvem com tais ações referem um ganho muito particular, especialmente em termos pessoais: um aprendizado que não imaginavam ter em outros contextos de sua própria vida.

Podemos dizer que o voluntariado já é um dispositivo social com características e atribuições muito próprias. Temos organizações da sociedade civil que discutem e planejam ações, mobilizam e lideram grupos e fazem parcerias em diversos setores, buscando fomentar o movimento e suas realizações. Uma importante evidência do lugar que ocupam tais ações solidárias, em especial no Brasil, é a existência, há mais de uma década, de uma legislação que regulamenta as relações de trabalho voluntário.

Na amplitude que é o movimento do voluntariado, proponho analisar um recorte específico: as ações voluntárias nas quais há uma relação direta entre dois seres humanos, tais como são realizadas em hospitais, creches, abrigos, asilos, trabalhos com jovens, entre outros. Nesses casos, a pessoa se vê em condições de auxiliar a outra por meio de apoio, orientação e cuidados, considerando que estarão em contato com certa regularidade para esse propósito.

BAIXA FIDELIZAÇÃO

O que frequentemente se observa nesse modelo de voluntariado é que, inicialmente, os interessados mostram um desejo muito grande de ajudar, de participar, de contribuir com alguém que precisa de apoio. Porém, ao longo do processo, é muito comum o abandono precoce da ação: um dos maiores problemas referidos pelos gestores de ações voluntárias desse tipo é a baixa fidelização dos participantes.

Com a bússola do conhecimento psicanalítico, podemos articular algumas ideias a respeito dessa baixa fidelização e propor possíveis alternativas para essa questão.

Inicialmente os voluntários mostram um desejo muito grande de ajudar, de participar, de contribuir com alguém que precisa de apoio.

Nesse tipo de ações de voluntariado, quando há esse encontro humano a que me referi, estarão sempre em jogo pelo menos duas pessoas que irão se envolver diretamente e, com isso, construir um vínculo pelo qual circularão, então, desejos, ideais, sentimentos hostis e amorosos. São pessoas cuja aproximação ocorre pela oferta de ajuda de um lado e a carência de outro, atuando num contexto que não implica remuneração, em termos de pagamento (salário, honorários etc.), embora muitas vezes exista um trabalho profissional realizado por um médico, um psicólogo, um advogado, por exemplo, atendendo gratuitamente.

Até aqui, já fica claro, que merece ser analisado o fator que motiva essas pessoas a essa ação, quais os riscos em questão, e mais: o que pode sustentar esse tipo de trabalho, garantindo um intercâmbio construtivo para todos e a longevidade da ação.

POR QUAL RECOMPENSA?

Jean Rhodes, psicóloga americana, pesquisadora de Programas de Mentoring nos EUA, coordenou uma investigação relatada em seu livro Stand by me: the risks and rewards of mentoring today’s youth (2002, p. 57), na qual foi verificado que metade de todas as relações com mentores voluntários se dissolve dentro de poucos meses. Dentre as razões identificadas para esse rompimento estão o medo de fracassar e a percepção de pouco esforço por parte de quem recebe a ação, no projeto.

Essa mesma autora afirma que a sobrevivência do relacionamento depende largamente das recompensas (isto é, o mentor receber respostas que indiquem que as suas ações estão produzindo mudanças no jovem). No início do trabalho, quando tais recompensas são baixas: “[…] eles acabam se dando conta de que o investimento pessoal necessário para trabalhar com adolescentes, por exemplo [de condições desfavorecidas] ultrapassa as suas previsões, particularmente se o envolvimento está o distanciando dos compromissos familiares e do trabalho”.

O movimento do Voluntariado. 2

ALTERIDADE

Em Psicanálise, esse termo é muito útil para compreendermos a diferenciação fundamental entre o eu e o outro além da possibilidade de levar o outro em consideração e, portanto, ter empatia, interesse e disponibilidade para cuidar.

A Psicanálise é o saber mais consistente construído no último século para entender o funcionamento psíquico e as relações entre os seres humanos, seus desejos, angústias. Se nos ajuda a entender como nosso psiquismo se constitui e o que está em jogo na nossa relação com outros seres humanos, ela é fundamental para entender as motivações que levam uma pessoa a querer cuidar de outra, geralmente em situações de vulnerabilidade, e em ambientes tão distantes dela. Freud nos diz que um dos maiores problemas com os quais temos que lidar é nossa relação com outros seres humanos. Sendo assim, é curioso pensar nessa motivação para cuidar de quem tem tantos problemas. Podemos imaginar o quanto se torna complexa essa relação. É intrigante entender as motivações inconscientes que levam a isso.

O movimento do Voluntariado. 3

FAZER O BEM… A QUEM?

É muito frequente que as pessoas sejam movidas para o voluntariado por um desejo de reparar experiências malogradas de sua própria vida, de preencher faltas, de projetar no outro também todo o sofrimento e assim se sentir, digamos, purificado desse mal. Se olho o outro como estando numa situação de tanta penúria, isso me faz ver a minha vida mais leve, mais fácil, algo como: “Coitado do outro: ficou com toda a desgraça humana!!!”. É impressionante isso, mas não é incomum esse tipo de atitude diante de uma população beneficiária, pessoas que dizem: “Quando estou aqui nesse abrigo, vejo tanto sofrimento que volto para casa achando minha vida uma maravilha!”. Parece que quem está “fazendo o bem” para esse sujeito é a tal criança do abrigo, que lhe “faz o favor” de assumir “toda” a desgraça do mundo em sua vida e, assim, aliviar o sofrimento do voluntário (inerente à vida de todos nós).

O que a Psicanálise também nos ajuda a pensar é que o voluntário espera ser investido afetivamente por parte daquela pessoa a quem oferece a sua ajuda, ser amado e reconhecido por sua dedicação, e, se isso não ocorre ou demora a ser demonstrado, a tendência é emergirem sentimentos hostis em relação àquela pessoa, num movimento psíquico defensivo (por exemplo, um voluntário, diante da suposta indiferença de um jovem a quem se põe a orientar, passa a se referir a ele como alguém pouco comprometido e irresponsável, esquecendo que sua função era justamente cuidar de alguém que atravessa um período crítico na vida e, portanto, pensar formas de lidar com essa pessoa e ajudá-la).

O movimento do Voluntariado. 4

NARCISISMO IMPERATIVO

São casos em que fica evidente o predomínio do autocentramento e o desejo de exaltação e enaltecimento de si mesmo sem limites, onde o “eu” se apresenta como onipotente e majestoso. Não é a pessoa que recebe a ação de cuidados, em sua alteridade reconhecida e aceita, a quem são lançadas as atenções e os investimentos afetivos, e sim o próprio voluntário cuidador (a si mesmo, portanto), que busca o reencontro com amores e gratidões maternas (ou seja, o reencontro com essa experiência infantil, que permanece como uma espécie de memória inconsciente), agora, na relação com o jovem. É um movimento nada incomum nos nossos dias, em que o narcisismo é imperativo e o espetáculo é a via em que se busca o engrandecimento do eu e a admiração por parte do mundo.

Joel Birman, psicanalista brasileiro muito interessado nas questões do mundo contemporâneo, afirma que: “A autoexaltação desmesurada da individualidade no mundo do espetacular fosforescente implica a crescente volatilização da solidariedade. Enquanto valor, esta se encontra assustadoramente em baixa”. Segundo este autor, a solidariedade seria própria das relações inter-humanas fundamentadas na alteridade, o que implica em que o sujeito reconheça o outro na diferença e não apenas alguém em quem se projete a si mesmo, seu modo de existir, seus ideais.

Na verdade, a chave para decifrar esse abandono precoce da ação está no funcionamento inconsciente, seus conflitos e ambiguidades. Escutar psicanaliticamente esses voluntários, levantando questões e fazendo apontamentos, pode levar a caminhos com possíveis efeitos terapêuticos, porque pode facilitar a circulação das palavras e promover redes de significação que levem a ampliar a percepção de si mesmo. Dessa forma, temos como desfechos possíveis o voluntário podendo encontrar um novo jeito de participar da vida do sujeito que recebe seus cuidados, criando um estilo de ajuda em que o outro seja genuinamente considerado ou podendo reconhecer seus limites, pelo menos no momento, para aquela ação ou, honestamente, admitir que não quer relacionar-se com aquela pessoa. Outros desenlaces, ainda, poderiam ser pensados. O que interessa é que sejam reflexos de uma percepção mais ampliada do seu mundo interno e de um encontro mais verdadeiro com o seu desejo, dando expressão ao eixo alteritário do sujeito.

PROBLEMAS MAL RESOLVIDOS

Outra questão que se coloca a respeito do voluntariado é que as pessoas que se envolvem com essa ação estão, como a maioria dos seres humanos, preocupadas com seus próprios problemas psíquicos, mal ou insuficientemente resolvidos. O encontro com o outro que revela possuir algum tipo de fragilidade mobilizarão intensamente, tal como ocorre com um terapeuta ou um médico, por exemplo. Como propõe Enriquez, não podendo tratar os seus próprios conflitos, o risco que corre e que faz com que o beneficiário da ação também corra é de se apresentar como referência absoluta, inquestionável, que não suporta senão a reprodução de sua própria imagem (de sua opinião etc.) ou ainda de provocar um conflito afetivo na pessoa atendida, neutralizando suas potencialidades, seus interesses e desejos.

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DESAMPARO PRIMORDIAL

Todo humano nasce em uma condição de pré- maturidade: como não sobrevive sozinho, portanto está em desamparo. Essa experiência deixa marcas no inconsciente de todos nós. A cada situação de desamparo que vivemos ao longo da vida, há uma espécie de reconexão com essa experiência primordial.

A pessoa que recebe os cuidados, por sua vez, pode se deixar seduzir por essa figura que se mostra tão potente, talvez numa ilusão de salvamento, aceitando o lugar de objeto do desejo do outro (o voluntário).

Observamos que como a ação solidária é comunicada aos beneficiários faz toda a diferença em como irão responder a elas. Aqueles que o recebem como uma caridade, algo de alguém que tem mais para quem é carente, estão mais vulneráveis a serem invadidos pelos ideais desse voluntário, que pouco está atento à singularidade do sujeito que está diante de si. que, embora vivam também dentro de uma imensa carência, mas têm a oportunidade de serem reconhecidos como sujeitos, sendo ouvidos, sendo autorizados a expressar seus desejos, sentindo-se respeitados como cidadãos, podem se beneficiar muito da ação dos voluntários que se empenham no desenvolvimento daquele grupo.

O altruísmo é fundamental para a vida em sociedade, porém, isso é algo que precisa ser desenvolvido, o que só pode ocorrer num grande trabalho de autoconhecimento e reflexão.

É possível traçar um paralelo entre o trabalho do voluntário que se põe a cuidar de pessoas com o trabalho do psicanalista, guardada as devidas proporções, evidentemente. O fato é que ambos se põem a lidar com o sofrimento alheio. Como psicanalistas temos como tripé fundamental em nossa formação, o estudo da teoria, a supervisão com um psicanalista mais experiente e um longo período de análise pessoal. Só assim nos vemos em condição de exercer esse ofício.

As pessoas que se põe a cuidar de outras em programas de voluntariado precisam também de um mínimo de formação – o que envolve não só treinamentos, informação, mas espaços de reflexão, onde poderia se produzir um pouco de autoconhecimento e reflexão sobre a prática e assim ser possível a construção de programas de voluntariado mais efetivos.

Como diz a psicanalista Lisabel Khan em sua apresentação sobre o meu livro Voluntariado: uma dimensão ética: “Fazer um trabalho social, ajudar o próximo, só é possível se forem garantidas condições de reflexão, a supervisão [como conhecemos em Psicanálise], para que haja suporte a alteridade, aos estranhamentos, à potência criada em cada encontro. Só assim o outro – beneficiado – não estará a serviço do narcisismo do benfeitor, cativo de sua demanda de amor, de sua proteção, da ‘boa vontade’. Um encontro que não se sustenta apenas na compaixão e que permite ao sujeito assistido se afirmar em seu lugar social, a partir de suas competências, resgatando aquilo que lhe é de direito.”

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MOTIVAÇÕES EGOÍSTAS OU ALTRUÍSTAS?

Parece que há que se ter uma especial atenção aos trabalhos dos voluntários que se propõe a uma ação cuidadora diretamente com outro ser humano, isto porque as motivações inconscientes podem tanto indicar um genuíno interesse em contribuir com o outro (e nesse caso é preciso deslocar-se do autocentramento), como podem apontar para o uso do outro para atender às suas próprias questões psíquicas mal ou insuficientemente resolvidas. Nesse último caso, está claro que a ação voluntária, teoricamente tão benevolente, não teria praticamente nada de útil para quem a recebe. Enfim, eis o grande desafio para o voluntário em sua função cuidadora: abrir mão de uma suposta onipotência, assim como de amarras narcísicas, além de suportar fazer face ao desamparo que irá confrontá-lo na realidade daquela relação, o que remeterá irremediavelmente ao seu desamparo primordial, doloroso de ser reeditado. Um esforço psíquico nada simples de ser realizado e, considerando que, via de regra, os voluntários são pessoas que não possuem eles próprios uma experiência de análise pessoal, estamos falando de vivências que se encontram no fio da navalha.

 

 

 

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No início da década de 70, pesquisadores identificaram grande amostragem de adolescentes americanos de 13 anos excepcionalmente talentosos em matemática, classificando-se no 1% superior das pontuações em raciocínio matemático em testes de aptidão escolar, SAT. Agora, pouco mais de 40 anos depois, essas “crianças prodígio” estão ativas na carreira profissional e realizaram ainda mais que o esperado. A conclusão veio dos dados recentemente compilados de uma pesquisa de acompanhamento. Pesquisadores da Universidade Peabody College Vanderbilt, em Nashville, no Tennessee, publicaram a atualização na edição há poucos meses no periódico especializado Psychologícal Scíence e escreveram: “Tanto para homens como para mulheres a precocidade matemática em tenra idade parece ser um prognóstico de contribuições criativas e liderança em papéis ocupacionais críticos mais tarde na vida.”

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