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A PASSOS (MUITO) LENTOS

Apesar de avanços recentes, teocracias como a Arábia e o Irã continuam a negar direitos fundamentais às mulheres.

A passos (muito) lentos

TOTALITARISMO MASCULINO

Imagine dormir em um país livre e acordar na República de Gilead, um regime totalitário e teocrático com uma doutrina baseada no Velho Testamento, onde as mulheres – todas, em diferentes níveis – são submetidas aos caprichos de um homem. Trata-se de uma história de ficção, o mote da série The handmaid’s tale, inspirada no livro O conto da aia, de Margaret Atwood, publicado em 1986. Mas poderia ser o Irã, pós-Revolução Islâmica, a Nigéria, atormentada por extremistas do Boko Haram, ou a Arábia Saudita, sob o regime do poderoso príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Na ficção, as mulheres são divididas por castas: as “aias” servem os militares para procriação, o que torna o estupro permitido por lei. As “esposas”, embora estejam acima das aias, podem ser punidas pelos maridos, inclusive com agressões físicas. As “Marthas” são empregadas domésticas que só têm permissão para realizar suas tarefas dentro de casa. Antes da implantação do regime, eram médicas, advogadas, cientistas, usavam a roupa que queriam e eram livres para fazer o que bem entendessem. Agora, são obrigadas a vestir uniformes, de acordo com sua respectiva função, que não deixam qualquer parte do corpo à mostra.

Embora O conto da aia seja considerado uma distopia, seu roteiro é assustadoramente parecido com a Revolução Islâmica no Irã, que começou como um movimento popular em um dos países mais liberais da região e terminou com a criação da primeira república islâmica do mundo. Segundo o Código Civil iraniano, vigente de lá para cá, as mulheres precisam usar véu em público e não podem se maquiar. O estupro dentro do casamento e a violência doméstica não são reconhecidos como crimes.

Assim como na República de Gilead, autoridades iranianas vêm recorrendo à lei para tentar confinar as mulheres às funções de mãe e esposa. Quem deseja se divorciar precisa provar que padece de “sofrimentos insuportáveis”. Os homens, por sua vez, têm o direito de possuir ao menos duas esposas permanentes em matrimônios polígamos – e todas as outras que desejarem em casamentos temporários.

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Nesta semana, Mona Hoobeh Fekr e Samira Shimardi entraram para a história do jornalismo esportivo iraniano como as primeiras mulheres autorizadas a cobrir uma Copa do Mundo pelo país – mulheres são proibidas de assistir a jogos nos estádios dentro do Irã ou trabalhar neles, mas foram em grande número às arenas da Rússia. As imagens das iranianas assistindo aos jogos da seleção sem véu viralizaram nas redes.

Mas as semelhanças não se restringem ao Irã. No Iêmen, a lei obriga as mulheres a satisfazer seus maridos na cama, queiram elas ou não. Na Nigéria, o homem pode bater na mulher para “corrigi-la”.

Em um artigo publicado no jornal The New York Times, em março de 2017, Margaret Atwood, autora do livro que deu origem à série, explicou o nome da personagem principal. Offred é composto de um nome de batismo masculino, Fred – o comandante militar que “a possui” -, e um prefixo que denota “pertencente à”. Nesse caso, é impossível não se lembrar da Arábia Saudita, onde, apesar de mudanças recentes, as mulheres continuam sob a tutela de um homem – seja o pai, o marido ou até o próprio filho – para realizar tarefas como estudar ou ir ao médico.

No domingo, o país ganhou os holofotes com a esperada permissão para que as mulheres, enfim, dirijam veículos. No ano passado, elas já haviam conquistado o direito de frequentar estádios. As mudanças foram feitas pelo jovem príncipe herdeiro que assumiu o trono em junho de 2017.

A mudança, no entanto, tem sido acompanhada do aumento da repressão. Poucos dias depois, a polícia saudita prendeu a proeminente ativista de defesa dos direitos femininos Hatoon al- Fassi.

“A Arábia Saudita está dando um passo para a frente e dois para trás na implementação de reformas”, avaliou Dana Ahmed, ativista e representante da Anistia Internacional no país. Para ela, as autoridades não podem alegar que buscam mudanças quando fecham o espaço para o envolvimento da sociedade civil nessas reformas.

Segundo Ahmed, todos os ativistas independentes de direitos humanos da Arábia Saudita, assim como qualquer um que seja crítico às autoridades, foram detidos, forçados a permanecer em silêncio ou fugiram. “O fim da proibição de dirigir é um passo importante, mas deve ser seguido por novas reformas para acabar com o sistema de tutela masculina e todas as formas de discriminação contra as mulheres”, afirmou a representante da Anistia Internacional.

Por isso, para grande parte dos ativistas, as conquistas são insuficientes – ou soam hipócritas.

O novo príncipe tenta passar uma imagem de reformista no Ocidente, sendo saudado por presidentes como (o francês Emmanuel) Macron e (o americano Donald) Trump. Ao meu ver, no entanto, esse reformismo é bem marginal e uma clara tentativa de dar uma capa de um regime mais confiável ao país”, explicou Juliana Costa, professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. Em sua opinião, a situação das mulheres não mudou na Arábia Saudita.

A especialista afirmou ainda que os retrocessos não acontecem apenas em países onde religião e política se misturam: em nações africanas como Serra Leoa, costumes profundamente arraigados nas culturas locais permitem violações como a mutilação genital feminina – outra prática retratada na série.

“Cada país tem seu perigo para a mulher, por isso é muito complicado dizer onde ela estaria mais ou menos segura no mundo. No Brasil, por exemplo, o estupro vem aumentando”, disse Costa. Em sua avaliação, a política de imigração dos Estados Unidos, separando mães e filhos, é também um retrocesso em relação às mulheres.

Em países como a Síria ou a Nigéria há ainda outro monstro: o extremismo. Grupos como o Estado Islâmico ou o Boko Haram impõem a sharia, que permite o estupro, e obrigam ao uso da burca – traje islâmico que cobre todo o corpo e o rosto. As mulheres também não têm permissão para falar com um homem em público e são submetidas a agressões em casa. Assim como na República de Gilead.

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ATENÇÃO PARA O EXAGERO

Na era das selfies, a profusão desenfreada de procedimentos estéticos provoca resultados artificiais e mesmo aberrações. A culpa é tanto do paciente quanto do médico.

Atenção para o exagero

Os números comprovam que há um exagero na realização de procedimentos estéticos no Brasil. De acordo com o censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, em 2017 o Brasil registrou um aumento de nada menos que 390% nesse tipo de intervenção em relação a 2014. Isso nos coloca em segundo lugar no ranking mundial da prática, atrás apenas dos americanos. Nos Estados Unidos, o mais novo levantamento da American Society of Plastic Surgeons mostrou que, no ano passado, foram realizados 17,5 milhões de procedimentos estéticos. Desse montante, 15,7 milhões foram não invasivos (a toxina botulínica segue campeã, com 7,23 milhões dos casos). No Brasil, há menos estatísticas disponíveis, mas o cenário é semelhante.

Por que as brasileiras e os brasileiros buscam tanto modificar seu rosto e seu corpo? Muitas teorias tentam explicar o fenômeno. Em minha opinião, o grande responsável por esse quadro é o impacto das redes sociais em nossa vida e em nossos desejos. Na era das selfies, da foto milimetricamente perfeita, as pessoas parecem dar uma atenção microscópica à aparência. A autocrítica atingiu níveis extremos. Isso, no entanto, não explica tudo.

Os brasileiros têm ainda uma peculiaridade que poderá fazer com que muito em breve o país passe para o primeiro lugar nessa lista de busca por mudanças estéticas. Além de usuários contumazes das plataformas sociais, estamos entre os povos mais vaidosos do mundo. Segundo pesquisa realizada pelo instituto Gallup, 61% da população considera a aparência física o fator mais importante para o sucesso. Jovens de 20 a 30 anos, os chamados millennials, estão cada vez mais fixados no assunto. Procuram, muito mais cedo do que deveriam, técnicas de preenchimento e aplicação de toxina botulínica para prevenir sinais de envelhecimento que estão longe de aparecer.

Constato a presença desse comportamento em todas as classes sociais. Mesmo populações de baixo poder socioeconômico gastam uma parcela significativa da renda mensal com produtos e serviços de beleza. Digo mais: o brasileiro investe mais em beleza do que em educação. Segundo estudo feito pela Fecomercio de São Paulo, em 2015 parte da classe chegou a comprometer 30% da renda com procedimentos estéticos.

Nesse cenário de adoração à imagem jovem e “sem defeitos”, surgem, obviamente, as aberrações e artificialidades: lábios demasiadamente grandes e irreais, bochechas avolumadas em excesso e expressões congeladas. Há três causas para o exagero. A primeira é de ordem patológica. Trata-se do paciente que sofre de dismorfofobia, um distúrbio de imagem corporal em que ele enxerga em si um defeito maior do que aquele que existe. Essa percepção equivocada provoca uma elevada carga de insatisfação pessoal e impacta na forma como seu portador vê sua vida e sua relação com os outros. Na população em geral, a doença atinge entre 1% e 2% das pessoas, enquanto nas clínicas dermatológicas esse número chega a representar 20% dos pacientes. Na prática, são indivíduos que querem resolver um problema que não existe. E, como não aceitam limites, vão de clínica em clínica até que algum profissional faça o que eles desejam (sempre haverá um). O segundo motivo para os excessos que observamos são, como no primeiro caso, resultado da insistência do paciente, com a diferença de que aqui ele é um indivíduo saudável – embora, em geral, com baixa autoestima, o que faz com que ache sempre que não está com a pele suficientemente lisa ou com as formas desejadas. Os maiores exageros nesse sentido são vistos nas bochechas levantadas e nos rostos excessivamente esticados. Mulheres acabam adquirindo o chamado “contorno leonino” da face, e ocidentais passam a se assemelhar a orientais. Não tem sido incomum ver mulheres que, submetidas a preenchimentos labiais excessivos (muitas vezes com produtos definitivos), ou vítimas de erros técnicos, ficam com a boca tão disforme que parecem ter sido atacadas por abelhas. Pacientes assim, no entanto, não podem levar a culpa sozinhos – e eis aqui o terceiro motivo dos exageros que grassam por aí. Do outro lado de uma face desarmônica e artificial está o profissional que falta em apontar ao paciente os riscos que o aguardam. Atribuo isso à sua formação. No Brasil, as técnicas não invasivas podem ser executadas por diversos profissionais da saúde, como o dentista e o biomédico. O mercado da estética é multiprofissional, mas o papel de cada um deveria ser mais bem regulado. Não estou dizendo que somente o médico fará um bom trabalho. No entanto, se queremos que o paciente esteja resguardado, o profissional formado em medicina é o especialista mais adequado para realizar procedimentos injetáveis avançados. Com seis anos de formação básica, e conhecimentos de anatomia, ele não apenas tende a cometer menos equívocos como está mais capacitado para prevenir e tratar as complicações.

E o que dizer do adolescente que, no auge do vigor físico, quer se submeter a correções estéticas? Trata-se de uma realidade cada vez mais comum nos consultórios brasileiros. Mensalmente, 3.400 adolescentes de 13 a 18 anos se submetem a uma cirurgia plástica para alterar algo que não lhes agrada – um crescimento de 55% nos últimos anos. Atenção: não estão incluídos na conta os procedimentos realizados por questões de saúde. São meninas e meninos que decidem mudar o “nariz de batatinha”, ou aumentar o “queixo pequeno demais”. Muitos desses casos estão associados à urgência em adequar-se ao olhar dos amigos, ser aceito.

O contraponto disso tudo é uma crescente demanda de pacientes por aquilo que chamamos de positive aging (envelhecimento positivo). São tratamentos baseados na prevenção, o maior antídoto para a artificialidade. Cuidados dessa natureza são mais eficazes quanto mais precoces, e terão sempre um resultado suave. A dermatologia hoje dispõe de recursos modernos que favorecem a naturalidade. Em vez de aplicarmos substâncias para dar volume às bochechas, podemos, por exemplo, recorrer a um ácido hialurônico de alta densidade, que, usado em pequenas quantidades, ajuda a prevenir a flacidez facial. Presente no organismo, o composto é uma molécula que preserva a elasticidade da pele. Sua versão sintética, produzida em laboratório, é muito semelhante à natural. Além disso, existem os estimuladores de colágeno, substâncias que, quando aplicadas na pele, aumentam a firmeza e previnem rugas sem o risco de resultar em excesso de volume. Optar sempre por produtos que sejam absorvidos pelo corpo é, a meu ver, uma escolha acertada. Que esse tipo de medicina vença a dos exageros.

 

JARDIS VOLPE – é dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia.

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O PODER DO JEJUM

Cientistas descobrem que abster o organismo de alimentos por alguns períodos pode ajudar a combater a depressão e estimular a reciclagem dos neurônios. Alguns estudos em animais revelam que a prática tem potencial para fortalecer a memória, aumentar a vitalidade e até diminuir sintomas de demência. A privação, porém, não é um consenso entre médicos e pesquisadores e, em muitos casos, pode ser prejudicial. 

O poder do jejum

O pinguim-rei é um grande jejuador. Durante cinco meses no ano, a ave não come um peixe sequer, sobrevive do depósito de gordura do próprio corpo e pode perder quase metade de seu peso, em torno de 15 kg, vivendo em temperaturas abaixo de 60°. Já os seres humanos reagem de forma bem diferente. Exceto em situações extraordinárias de escassez, em geral estamos sempre comendo – com exceção de quando dormimos. A obrigação de termos sempre de ingerir três refeições diárias foi, durante gerações, tão fixamente colocada na nossa consciência que renunciar a essa tradição pode parecer inconcebível. E vale lembrar que, entre as refeições, muita gente “belisca”, toma refrigerantes refrescantes, come guloseimas, frutas e, no fim do dia, se rende a uma taça de vinho ou uma cerveja, às vezes acompanhadas de algum salgadinho.

A indústria alimentícia fica contente com esse hábito, mas o nosso corpo não. “Somos uma sociedade de abundância; a comida sempre à nossa disposição e, ao mesmo tempo, nos movimentamos pouco”, observa o pesquisador Dieter Melchart, professor de medicina complementar e alternativa da Universidade Técnica de Munique. Esse excesso deixa marcas, que podem se traduzir em patologias como obesidade, diabetes, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), hipertensão, cardiopatias e Alzheimer.

Hoje talvez pareça difícil não desfrutar de hábitos adquiridos nas últimas décadas, a ponto de nos esquecermos de que, assim como os outros animais, durante muito tempo sobrevivemos sem celulares, açúcar e fast-food. A vida na Terra se desenvolveu regida pelos ritmos naturais, do dia e da noite, do clima frio e quente, da fartura e da escassez. “Considerando isso, é possível pensar que poderíamos nos readaptar e mudar o hábito de comer sem parar”, diz Melchart. “Mesmo sem dispor de um laboratório bem equipado, o médico e filósofo Paracelso (1493-1541) já sabia disso no século 16.” Atualmente, existem comprovações de que o excesso de alimento prejudica o corpo, em especial o cérebro. A dieta baseada em alimentos industrializados e processados, com altos índices de gordura, é a mais nociva. Por outro lado, aqueles que já renunciaram à comida perceberam que o processo envolve uma causa superior. “Depois de passados os três primeiros dias, considerados os mais difíceis, há uma melhora no humor em dois terços dos pacientes”, afirma o naturopata Andreas Michalsen, médico do Hospital Immanuel, de Berlim, onde um grupo de 800 pessoas jejua voluntariamente pelo bem da saúde.

MAIS HORMÔNIOS DA FELICIDADE 

Por mais paradoxal que pareça, a evolução biológica mostra que, quando sentimos fome, durante um curto espaço de tempo, é liberada uma sensação de bem-estar. Mas atenção: “Quem simplesmente ficar sem comer durante três dias, sem preparação para isso, provavelmente adoecerá e pode até morrer”, alerta Michalsen. Por isso, no curso da evolução, nossa espécie foi agraciada com uma espécie de “programa de jejum”. Assim que ocorre uma escassez de comida, o cérebro muda a chave para “eufórico” e cuida para que a pessoa não recue, mas sim procure ativamente por comida. É uma reação parecida com a provocada por antidepressivos: o corpo recebe quantidades menores do aminoácido triptofano – que o organismo não consegue produzir por si só, precisa do alimento para esse processo –, importante para a produção do neurotransmissor serotonina. Para compensar essa deficiência, durante a sinapse o sistema nervoso reduziria o número de transportadores de serotonina, que normalmente eliminam o transmissor novamente. É o mesmo processo que ocorre com os medicamentos prescritos para o tratamento contra a depressão, que funcionam como inibidores seletivos de receptação de serotonina. Nesse caso, elevam-se a concentração de terminações nervosas, o tempo de residência e o efeito dos “hormônios da felicidade”. E o que acontece quando alguém vive durante alguns dias com menos de 500 calorias? “Depois de 24 horas a glicose do açúcar armazenada no fígado começa a se quebrar. Na sequência, o cérebro implora por açúcar e, como não obtém, precisa mudar o metabolismo”, explica Melchart. “Dessa forma, são iniciados processos como a gluconeogênese, na qual o corpo produz glicose a partir de fontes alternativas. A gordura do corpo é consumida e fornece ácidos graxos livres para que os tecidos possam produzir energia. O cérebro retira sua energia da nova formação de glicose e dos recém-formados corpos cetônicos – compostos orgânicos formados no fígado a partir de ácidos graxos.  Graças a esse processo, a pessoa pode sobreviver 30 dias ou mais sem comer nada sólido, dependendo, claro, da constituição do corpo de cada um.

FOME SAUDÁVEL

Viver no limite pode trazer algumas vantagens, desde que a experiência seja acompanhada por médicos e psicólogos, apenas durante alguns dias – e jamais deve ser feita por conta própria, sem assistência de profissionais. Em países da Europa e nos Estados Unidos já existem “clínicas de jejum”. De acordo com o especialista em biologia celular Valter Longo, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles, a restrição alimentar desacelera o envelhecimento e pode também ter efeito positivo no tratamento de câncer. “Há casos em que o jejum de fato pode ajudar a combater a doença, mas também existem situações em que pode agravá-la; o limite entre o que faz bem e o que faz mal é muito tênue” observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP).Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles não observa diferença significativa nos parâmetros metabólicos quando comparam o grupo que realiza jejum com aquele que adota restrição calórica contínua; dessa forma, os efeitos benéficos não podem ser atribuídos necessariamente ao jejum intermitente, e sim à perda de peso proporcionada por ele.” O biogerontólogo italiano Luigi Fontana, pesquisador do Instituto de Saúde Pública da Universidade de Washington em Saint Louis, defende o efeito positivo do jejum no sistema cardiovascular. O médico Mark Mattson, do Instituto Nacional da Idade, em Baltimore, vai mais longe: aposta que a prática é capaz de “tornar funções cerebrais mais eficientes e prevenir doenças degenerativas”. Embora tenha vários adeptos entre biólogos e médicos, o assunto é polêmico. O efeito do jejum no organismo foi estudado, na maioria das vezes, apenas em animais. Nos laboratórios de pesquisa sobre o tema, vivem levedura, larvas e moscas. No entanto, os preferidos para a experiência são os camundongos e ratos. Nas gaiolas em que as tigelas estão sempre abastecidas com comida, os animais parecem preguiçosos. Já os roedores que recebem menos calorias vivem mais e de forma mais saudável que os colegas que têm comida à disposição. Animais que temporariamente jejuam mostram mais equilíbrio no metabolismo das taxas de açúcar, e os marcadores inflamatórios do sangue caem, assim como a pressão arterial e a frequência cardíaca. Com o processo de jejum acontece também algo na cabeça: são criados novos neurônios a partir de células-mãe, e isso ocorre especialmente numa área fundamental para a memória, o hipocampo. As interconexões com a rede neural mudam e as células fazem novas ligações entre si. A experiência mostra que os animais obtêm melhores resultados em testes de memória e de aprendizado. Os neurônios de camundongos, que são geneticamente suscetíveis a doenças como epilepsia, AVC, Alzheimer ou Parkinson, se mostram mais frágeis depois da redução de calorias.

AUMENTO DA RESISTÊNCIA

Segundo Michalsen, dos experimentos com animais, dois principais mecanismos favoráveis à influência do jejum podem ser deduzidos: a diminuição de sinais que danificam o cérebro e promovem a perda de nervos e o nível elevado permanente de insulina e de mediadores inflamatórios. Por outro lado, a falta de comida estressa o organismo, o que o leva a reagir de forma defensiva. Assim, as células aumentam a produção de enzimas que protegem o corpo dos compostos reativos do oxigênio ou reparam os danos no DNA. Por consequência, os animais sobrevivem por mais tempo. Similar ao efeito do esporte, o jejum parece aumentar a resistência. Esse efeito, em que influências negativas têm repercussões positivas, é conhecido como hormesis (palavra grega para estímulo, impulso). Pelo menos quatro das principais células e moléculas – corpos cetônicos, BDNF, mitocôndrias – e processos autofágicos se cristalizam, produzindo o efeito benéfico do jejum ao cérebro. A cetona, assim como a gordura no fígado, produz o ácido B-hidroxibutírico, passando a barreira de sangue do cérebro e servindo células neurais com glicose como combustível. Uma alimentação rica em cetona nos experimentos com ratos resultou na diminuição das conexões proteicas típicas de Alzheimer, beta-amiloide e tau – como as descobertas do pesquisador Mark Mattson já indicavam em 2013. O estudo revelou também que os animais se mostravam mais dispostos e menos ansiosos. Os corpos cetônicos simultaneamente aumentam a produção de fatores de crescimento como BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que favorece autoproteção e a proliferação de neurônios. A produção do BDNF em animais e em humanos diminui de acordo com a idade, assim como o consumo excessivo de alimentos, a falta de exercícios e a propensão a ter doenças neurodegenerativas como o Parkinson e o Alzheimer. Cabe aqui uma pergunta: não seria mais fácil, portanto, administrar porções de BDNF para proteger o cérebro contra a demência como uma fonte da juventude de terapia alternativa? “Não, isso não funciona dessa maneira”, diz Mark Mattson. Ele explica que o fator de crescimento está diretamente relacionado à função da atividade individual dos neurônios e trabalha individualmente no nível das sinapses. O sistema não é controlado ou induzido diretamente, mas sim indiretamente – como por meio de esportes, de uma alimentação com poucas calorias e até pela vontade de desenvolver o intelecto com novas atividades.

A redução de calorias em animais também tem um efeito positivo nas mitocôndrias, conhecidas como “usina de energia das células”. O experimento mostrou que a geração de energia dessas células é mais efetiva e mais apta a formar novas células. Além disso, a falta de comida estimula o processo de reciclagem dos tecidos nervosos. Tudo que não é usado, como organelas e macro-moléculas danificadas, é digerido. Graças a esse processo de limpeza celular chamado de autofagia. Esta foi a conclusão do biólogo celular japonês Yoshinori Ohsumi, ganhador do Nobel de Medicina de 2016. A célula remove potenciais materiais danosos que voltam para o sistema como matéria-prima.

ENTRE HOMENS E CAMUNDONGOS

Com todos esses efeitos, aparentemente, jejuar melhora o funcionamento do cérebro, retardando os efeitos da idade – ou ainda diminuindo, em taxas significativas, a propensão de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Os experimentos com animais mostraram que a dieta afeta as estruturas cerebrais e as funções da rede neural. Mas e se o estudo fosse aplicado aos humanos? Será que os resultados também seriam semelhantes aos do estudo proposto com ratos? Observa-se que o jejum alivia as dores de pacientes com reumatismo, hipertensão e sobrepeso. Jejuar também diminui a incidência do desenvolvimento de fatores de risco, como o estresse oxidativo – que causa demência –, reduz os marcadores inflamatórios e ainda aumenta o nível de glicose e insulina no sangue. Em 2013, o estudo da pesquisadora Lucia Kerti e seus colegas, da Berliner Charité, encontrou mais uma referência: o aumento permanente nos níveis de açúcar no sangue afeta a microestrutura do hipocampo em homens e mulheres. Essas pessoas têm um desempenho pior em testes de memória do que aquelas que possuem um índice de açúcar mais baixo no sangue. De qualquer forma, há diferenças entre o jejum em homens e roedores. Por exemplo: no hipocampo, a formação de novas células nervosas na fase adulta é muito mais intensa em ratos do que em humanos. Outro exemplo: o hormônio da fome (grelina), que está diretamente ligado ao controle do apetite e do sono, melhora a memória e a curva de aprendizagem nos ratos. No entanto, no estudo de 2016 do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, liderado por Martin Dresler, não houve a demonstração de melhora de performance em memória em humanos mesmo quando administradas doses adicionais de grelina. “Mark Mattson mostrou em vários experimentos que se pode inibir a evolução de doenças neurodegenerativas em animais, mas em humanos estamos em fase de transição dessa descoberta”, explica Andreas Michalsen. “O que parece ter sido bem promissor nos experimentos com ratos precisa ser ainda testado em pessoas. Os estudos controlados parecem ainda sofrer com a falta de dados antes, durante e depois do jejum dos seguintes fatores: volume cerebral, plasticidade sináptica, performance cerebral e análises bioquímicas dos líquidos cerebrais. Contudo, ninguém precisa esperar até que haja resultados tão detalhados em seres humanos. Os efeitos positivos do jejum já são considerados incontestáveis desde a época de Paracelso. O lado positivo do jejum – assim como na dieta saudável e no treinamento físico – é que todos podem fazer algo pela saúde. “Quando o corpo é bem preservado, obviamente o risco de adquirir diabetes diminui”, comenta Michalsen. Não há evidências que comprovem que essa doença regride em uma idade mais avançada. Pessoas de origem asiática não costumam ter a mesma propensão a ganhar, ao longo dos anos, barrigas tão salientes quanto as dos ocidentais – também não têm diabetes nem Alzheimer na mesma proporção – assim como os pinguins-reis na Antártica.

EFEITOS SOBRE O ORGANISMO

O jejum afeta todo o corpo humano. No cérebro, que se comunica com todos os órgãos envolvidos no metabolismo energético, a neuroquímica e as atividades das redes neurais são alteradas e se ajustam à diminuição de calorias. Esse processo se dá no hipocampo (fundamental para a memória), estriado (que participa dos processos de controle dos movimentos), o hipotálamo (envolvido no mecanismo de ingestão de alimentos e regulação da temperatura) e o tronco cerebral (que controla a circulação e o sistema digestivo).O neurotransmissor acetilcolina estimula o sistema nervoso parassimpático, que inerva o intestino, o coração e os vasos sanguíneos. O processo acelera a atividade intestinal, os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea. Na ausência de suprimentos, o estoque armazenado em forma de glicogênio logo se esgota. O fígado, ao contrário, produz corpos cetônicos, que podem usar as células nervosas como combustível alternativo para geração de energia. O fígado e as células do tecido muscular são mais reativos ao hormônio insulina, que regula o açúcar no sangue. Ademais, jejuar também reduz, nos órgãos e no cérebro, processos danosos de decomposição advindos de reações alérgicas ou de estresse oxidativo, causado pelos radicais de oxigênio.

CÉREBRO

Aumento da produção de fatores de crescimento de nervos como o BDNF

  • Aumento da for mação de novas células nervosas (neurogênese)
  • Formação de novas ligações celulares cerebrais
  • Aumento da produção de mitocôndrias para produzir energia
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição das reações inflamatórias

MUSCULATURA

  • Otimização do metabolismo
  • Aumento da sensibilidade para insulina
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição da temperatura corpórea

VEIAS SANGUÍNEAS

Diminuição da glicose na corrente sanguínea e a insulina

  • Diminuição da saturação do hormônio leptina
  • Aumento da grelina, conhecida como hormônio da fome
  • Aumento da produção dos corpos cetônicos, fontes de energia

CORAÇÃO

  • Redução de batimentos cardíacos
  • Redução da pressão arterial
  • Aumento da resistência ao estresse oxidativo

FÍGADO

Aumento de glicogênio

  • Aumento da for mação de glicose (gliconeogênese)
  • Aumento da perda de gordura
  • Aumento da produção de corpos cetônicos como fonte de energia alternativa

INTESTINO

  • Redução do consumo de energia
  • Diminuição de reações inflamatórias
  • Diminuição da proliferação de células

O poder do jejum 6

EM PRINCÍPIO, FAZ MAL

capa20observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles Não é à toa que a questão do jejum ou mesmo da redução drástica de ingestão calórica causa polêmica. Se a privação de nutrientes for muito longa, os efeitos passam a ser negativos. O professor de farmacologia da Unifesp Gustavo Pereira ressalta que a autofagia contribui para a reciclagem celular e o jejum é um indutor metabólico, capaz de diminuir a morte de neurônios, o que contribui para a saúde cerebral. Ressalta, porém, que se esse processo for longo demais para o organismo, a célula pode começar a degradar componentes benéficos – daí o perigo do excesso. E o que pode ser considerado demais varia muito de uma pessoa para outra. Atualmente não há comprovação científica a respeito do tempo que o jejum e a redução calórica devem ser adotados sem causar prejuízos. Quando ficamos várias horas sem nos alimentar, as reservas de glicose do organismo diminuem e outras fontes de energia, como proteínas e gordura, passam a ser utilizadas pelo organismo. Quanto mais longo for o jejum, mais gordura e proteínas serão consumidas. Quando isso acontece, os índices metabólicos diminuem, o humor se altera, a pessoa fica mais irritável, o processo de cetose torna o hálito desagradável, podem ocorrer crises de enxaqueca, gastrite e hipoglicemia. Dentro de um longo período, uma alteração grave pode ser a chamada hipoglicemia rebote, ou seja, a pessoa deixa de produzir insulina pela não ingestão de nenhum tipo de carboidratos e quando o jejum é interrompido, há uma elevada secreção de insulina, eventualmente maior do que a necessária, levando à hipoglicemia. Jejuar por muitos dias pode trazer danos graves ao corpo, principalmente queda de resistência imunológica e infecções. “Em princípio, jejum prolongado faz mal”, afirma o diretor técnico do Serviço de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade  de São Paulo (USP). Apesar de considerar os estudos sobre os benefícios de interromper a alimentação por longos períodos, ele é cauteloso: “Uma porção de fatos coerentes resultam, necessariamente, numa verdade”. Outro risco é o jejum intermitente ser usado como uma desculpa para mascarar transtornos alimentares como anorexia e bulimia, que em cerca de 20% dos casos levam pacientes, em geral mulheres, à morte.

O poder do jejum2

FECHAR A BOCA DE MANEIRA SAUDÁVEL

“Qualquer um que jejua de tempos em tempos passa a se abster de forma mais fácil dos alimentos e a obter uma visão mais crítica da própria existência”, acredita o médico Dieter Melchart. Ele afirma, no entanto, que somente pessoas comprovadamente saudáveis devem utilizar método desenvolvido pelo médico Hellmut Luetzner. A prática não é recomendável para pessoas idosas e doentes, crianças, gestantes, lactantes e pessoas propensas a distúrbios alimentares. Segundo o método, nada sólido deve ser consumido durante uma semana, somente caldos de legumes, chás específicos para jejum e sucos de frutas e de verduras. Ele salienta também que a experiência deve ser guiada por profissionais. Mas, jejuar não significa necessariamente alimentar-se uma semana apenas de caldo de legumes nem ficar sem comer por intervalos de vários dias. Existem variações dessa dieta, que podem ser integradas à vida diária, dependendo de cada situação e do estado físico de cada pessoa. Há situações em que durante cinco dias da semana se come normalmente e nos outros dois dias a pessoa faz jejum, tal como proposto pela nutricionista britânica Michelle Harvie, da Universidade de Manchester. Pesquisas recentes sugerem que é benéfico à saúde o corpo sempre “esperar” e se preparar por um período longo sem ingestão de alimentos. Algumas pessoas tentam fazer uma pausa de 16 horas entre as refeições. Isso significa, por exemplo, jantar às 10h e só voltar a se alimentar às 12h do dia seguinte. Com isso, a digestão sofre uma pausa, os níveis de insulina caem num processo de longo prazo e o fator de crescimento neural BDNF aumenta. É importante deixar claro que quem se interessar pela prática deve primeiro debater o tema com um médico.

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HORÁRIO CERTO PARA FECHAR A BOCA

A ideia de utilizar o jejum intermitente para a perda de peso partiu da observação dos padrões alimentares dos nossos ancestrais e de muitos outros mamíferos, caracterizados pela ingestão de energia de forma não contínua. De fato, o organismo humano tem a capacidade, adquirida ao longo da evolução, de armazenar glicose e substratos energéticos de maior duração, como ácidos graxos no tecido adiposo. No jejum intermitente a pessoa permanece por longos períodos – 16 ou até 24 horas, por exemplo –, com pouca ou nenhuma ingestão calórica e, na sequência, se alimenta normalmente. Embora seja mais comum a alternância de 24 horas de jejum/restrição e dieta convencional, atualmente existem vários protocolos aplicados nos estudos experimentais que avaliam os efeitos do jejum intermitente: redução calórica extremamente baixa (sem jejum) em dois ou três dias da semana, com dieta normal nos outros; uma semana de restrição calórica (cerca de 1.300 kcal/dia) alternada com uma semana de dieta normal etc. No entanto, não existe homogeneidade de protocolos para o jejum intermitente, o que pode dificultar a comparação entre os estudos. A estratégia do jejum intermitente muitas vezes é utilizada como uma terapia nutricional, principalmente para pacientes hospitalizados (pré ou pós-operatório) e para pessoas que, por qualquer motivo, ficam impossibilitadas de realizar alguma refeição por um período prolongado (médicos durante a realização de cirurgias longas, por exemplo). Nesses casos de jejum involuntário é fundamental o acompanhamento de um nutricionista para reduzir a inadequação da ingestão de nutrientes, minimizar a sensação de fome e o desconforto causados pela privação de alimentos. Se a proposta é perder peso, outros fatores devem ser considerados. Um deles: restringir o consumo alimentar a uma refeição ao dia pode comprometer a qualidade da dieta. Após uma privação energética prolongada, a pessoa tende a selecionar alimentos com elevada densidade energética, reduzindo a ingestão de fibras, vitaminas e minerais. Outro ponto: sabemos hoje que o café da manhã (geralmente omitido no jejum intermitente) é a principal refeição responsável pela ingestão de diversas vitaminas e minerais. Além disso, realizar apenas uma refeição por dia exclui a possibilidade de colocar em prática dois dos principais pilares da nutrição: variedade e equilíbrio.

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ALIMENTO E RELIGIÃO

O jejum é utilizado há centenas de anos em práticas religiosas e assume várias conotações. De barriga vazia, imersos na contemplação e na oração, imagina-se que os fiéis tenham novos insights e ampliem suas percepções. A prática estaria a serviço da purificação da alma e do arrependimento, ajudaria a afastar o mal, favorecer a meditação avançada e até a redenção ou a iluminação. As prioridades são diferentes para as distintas religiões. Comum a todas é a reflexão sobre o que realmente é importante: a busca do sagrado. Para os judeus, há várias datas fixas para o jejum. A maior data de celebração em que a prática se aplica no calendário judaico é o Yom Kippur. No 17º dia do mês do calendário judaico tradicional, a privação de comida funciona como um sinal de arrependimento. São 25 horas de jejum nessa ocasião: comer, beber, trabalhar, exercitar o corpo e até fazer sexo é proibido, a data é reservada para celebrar orações e cultos. No cristianismo, há dois longos períodos de jejum: 40 dias antes do Natal, nos dias do Advento, que começam em 11 de novembro, e 40 dias antes da Páscoa. Na prática, porém, o tempo de jejuar nos dias do Advento (exceto na Igreja Ortodoxa) ficou no passado. Os cristãos veem a abstinência como penitência, uma forma de se preparar para tomar decisões importantes e para o encontro com Deus. O ato é acompanhado de orações e pelo compromisso de ajudar os pobres e necessitados.  Jejuar é um dos cinco pilares do Islã que o Alcorão prescreve aos muçulmanos. No islamismo jejua-se no período do Ramadã (o nono mês no calendário lunar islâmico) como sinal de devoção a Deus. Nesse período, não é permitido ingerir nenhum tipo de alimento, líquido ou sólido, entre o amanhecer e o pôr do sol. Já no hinduísmo, não há nenhuma época prevista para o jejum, embora a renúncia à comida seja uma forma de punição pelos pecados. Para o budismo, o jejum está associado ao compromisso de controlar a própria mente. Em algumas linhas budistas, monges e monjas optam pelo voto de não comer mais nada após o almoço, por exemplo. Uma das razões está no empenho para que nada atrapalhe a meditação, nem mesmo a sensação incômoda de peso e sonolência provocada por refeições fartas.

ULRIKE GEBHARDT – é bióloga e jornalista com especialização em divulgação científica.

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A ORDEM É DESAPERGAR-SE

Nestes tempos de promoção da simplicidade, ter um armário abarrotado não pega bem. Resultado: os brechós e bazares vendem como nunca.

A ordem é desapergar-se

Foi-se o tempo em que mulheres abastadas lotavam o Facebook com fotos de seus closets abarrotados. Diante de uma combinação de fatores que começa na crise econômica, passa pelas onipresentes pregações ambientalistas e desemboca na propagada conversão de famosos a um estilo de vida mais simplesinho, as consumidoras vorazes vêm se rendendo a uma realidade inescapável: ter coisa demais no guarda­ roupa não pega bem.

O movimento em direção à diminuição dos cabides alimenta um ramo de negócios de pouco destaque até algum tempo atrás, o dos brechós on-line. Antes confinado a lojas meio empoeiradas, o comércio de peças seminovas, inflado pelos novos tempos, vem migrando para a internet. Segundo pesquisa do Sebrae, entidade voltada para pequenas e médias empresas, em 2015 os brechós on-line já eram quase 20% do total de brechós no país – e continuam aumentando.

Que fique claro: comprar vestido, bolsa, sapato e bijuterias continua sendo o esporte preferido de boa parte da população feminina do planeta. Mas cada vez que Kate, a futura rainha da Inglaterra, repete roupa – e ela repete com frequência-, ou que alguma atriz no tapete vermelho diz que comprou seu vestido “num brechó de Los Angeles”, o ato de entupir armários vai parecendo menos glamouroso. Daí para a primeira bolsa usada de grife é um passo, como mostram os números do comércio de segunda mão. A enjoei, a maior plataforma-brechó brasileira, tem mais de 3,5 milhões de usuários e faz 180.000 transações por mês. As vendas nos primeiros seis meses deste ano ficaram 60% acima das do mesmo período de 2017. “É um hábito recente. As pessoas estão percebendo o atrativo econômico de adquirir o que alguém dispensou e perdendo a vergonha de usar esses produtos”, explica a gerente Ludmila Brait.

Em geral, são as donas das peças que procuram os brechós, que, por sua vez, examinam as fotos e decidem se aceitam revendê-las. Aprovados, os produtos vão para o site a preços até 90% inferiores ao original. O brechó cobra uma comissão de 20% a 40% pela venda; a dona da peça tem a opção de receber sua parte ou deixá-la como crédito na loja – uma alternativa tentadora, que, convenhamos, não colabora com o objetivo inicial (aliás, qual era ele mesmo?).

Daniela Carvalho, que comanda o Peguei Bode com a irmã Gabriela, oferece o estoque mais luxuoso (e caro) da comunidade: nas prateleiras virtuais circulam marcas como Dior, Chanel e Versace – tudo usado. “O preconceito está sendo vencido em todas as faixas de renda. Muitas milionárias compram com a gente”, afirma Daniela, que cita entre as clientes-vendedoras Camila Pitanga, Marina Ruy Barbosa e Fernanda Lima. Já outra atriz, Luana Piovani, resolveu virar sócia de um brechó on-line, o Cansei Vendi, onde também se abastece. “Agora que tenho família, filhos, funcionários, não dá para gastar dinheiro só comigo”, argumenta.

Ao lado dos brechós, crescem e aparecem as iniciativas de troca de roupas usadas, o clothing swap. As paulistas Giovanna Nader e Raquel Vitti idealizaram o Projeto Gaveta, que efetua o troca-troca – sem dinheiro envolvido – em encontros (físicos) duas vezes por ano. A própria Giovanna é propaganda viva de seu projeto. “Fiquei grávida e não comprei roupa nova. Amigas me emprestaram, usei duas calças de elástico que já tinha e pronto. Foram sete peças durante toda a gravidez”, diz. A cantora Preta Gil promove há dez anos, no Rio de Janeiro, o Bazar da Preta, recheado de peças do armário de artistas, com renda revertida para instituições beneficentes. O movimento cresceu tanto que, em maio, teve sua primeira versão em São Paulo. “O bazar virou moda, coisa chique”, comemora.

A reciclagem do closet tem impulsionado uma profissão nova, “o personal encolhedor de guarda­ roupa” (ah, era esse o objetivo inicial!). A carioca Alexandra Melo cobra 120 reais por hora e explica o seu trabalho: “Eu ajudo em uma coisa que as clientes simplesmente não conseguem fazer sozinhas: descartar peças. No fundo, ofereço mesmo é suporte emocional para a tarefa”. Em junho, Fiona Golfar, editora da revista Vogue inglesa, relatou no jornal The Times o que chamou de detox do seu enorme closet. Ela acabou o dia com caixas e mais caixas de excedentes, “considerável dor no coração” e grande alívio. E, se não deu seu obrigatório passinho na direção de uma vida mais simples, ao menos conseguiu um armário com espaço para acomodar umas roupinhas novas.

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MÃE AOS 64 ANOS

Norma Maria de Oliveira, procuradora municipal em Minas, deu à luz Ana Letícia após décadas tentando engravidar.

Mãe aos 64 anos

Minha luta para ser mãe era muito antiga. Eu tentava engravidar e não conseguia. Aos 30 e poucos anos, meu companheiro e eu procuramos um hospital público, vinculado a uma universidade, para tentar a inseminação artificial (injeção de espermatozoides no útero). Por um ano e meio, fiz várias consultas e exames. Fui diagnosticada com ovários policísticos e trompa obstruída, além de outros fatores que impediam que eu engravidasse de forma natural.

Nesse ínterim, meu companheiro faleceu. Aos 46 anos, eu tinha um novo relacionamento, e meu desejo de ser mãe aumentou. Fomos atrás do processo de fertilização in vitro (fecundação do óvulo em laboratório). Exigia-se, porém, um comprovante de união estável do casal por um período superior a cinco anos. Chegamos a providenciá-lo, mas, tempos depois, nós nos separamos – e meu sonho foi de novo adiado.

Para piorar, o Conselho Federal de Medicina publicou uma resolução que proibia mulheres com mais de 50 anos de se submeter a reprodução assistida. Como advogada, fiz uma petição ao órgão em que explicava minha situação e anexei a ela todos os exames que comprovavam que meu corpo era saudável para a gestação. No entanto, meu pedido foi negado.

O tempo passava e meu sonho de ser mãe ficava cada vez mais distante. Eu já tinha 60 anos quando comecei a pesquisar alternativas na internet e descobri que na Índia é muito comum mulheres mais velhas fazerem o tratamento de reprodução assistida com óvulos doados por jovens anônimas. Eu e meu atual companheiro não pensamos duas vezes: fomos tentar o procedimento na cidade de Jabalpur.

Atravessamos o mundo pelo meu sonho de maternidade. Contudo, ao chegarmos a Nova Délhi, soubemos que não havia voos para Jabalpur, por causa de um terremoto. A alternativa seria ônibus ou trem, porém ficamos com medo, por não conhecer o país. Voltamos frustrados. Às vezes eu me desanimava bastante, pensava que não tinha mais como meu projeto dar certo, mas retomei o fôlego e tentei de novo.

Um casal comentou que havia feito fertilização em Belo Horizonte, a duas horas de onde moro. Fomos para lá. Os exames deram o.k. Como entrei na menopausa aos 50 anos, recorri ao método de ovo doação (doação de óvulos por outra mulher), associado ao espermatozoide de meu companheiro. Fertilizamos sete embriões – quatro aptos à implantação. Decidi implantar um – engravidei na primeira tentativa. Eu tinha conseguido! Sempre quis ser mãe de menina e, embora não me preocupasse com o sexo, chorei muito ao saber que era uma garota. Meus pais já haviam morrido, e meus três irmãos só souberam da gestação quando a barriga estava grande. No momento em que dei a notícia a eles, achei que iam desmaiar, tamanho o susto.

No quarto mês de gravidez, afastei-me da prefeitura de Itabira (MG), porque minha pressão arterial começou a subir. Com 33 semanas, houve perda de líquido amniótico, e um exame que mostra a irrigação do bebê apontou alteração e queda de plaquetas – o que indicava pré-eclâmpsia, situação de extremo perigo para qualquer gestante. Em razão da minha idade, a médica decidiu fazer cesariana e evitar outros riscos.

No dia 10 de abril, Ana Letícia nasceu saudável, pesando 1,71 quilo e medindo 43 centímetros. O parto foi bem tranquilo, eu estava calma. Minha filha foi para a UTI, por ter nascido prematura. Peguei-a no colo somente três dias depois. Não me contive de tanta emoção. Ela tomava meu leite por meio de sonda, mas logo aprendeu a mamar no peito.

O preconceito que sofro por ter sido mãe aos 64 anos me deixa triste. E o maior preconceito vem das mulheres, principalmente as desconhecidas, que me abordam para dizer que sou muito velha para isso. Ninguém tem nada a ver com as minhas decisões. Há muitas mulheres que querem ser mãe, mas não têm a coragem de fazer o que eu fiz.

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A SAÚDE VIROU UM FARDO

A crise tirou 3 milhões de brasileiros dos planos médicos privados, e a classe média sofre para pagar as mensalidades, que sobem bem acima da inflação.

A saúde virou um fardo

 

O publicitário Luiz Sztutman, de 39 anos, pagava em torno de 200 reais por seu plano básico de saúde e, em pouco tempo, viu a mensalidade subir para 400 reais. Depois que deixou o trabalho fixo, a conta ficou pesada para ele. Vivendo como autônomo e sem carteira assinada, tomou uma decisão difícil: encerrou o plano e hoje tem seguro médico. Sua história é o retrato fiel de um problema que vem atormentando a classe média. Nos últimos três anos, em decorrência do arrocho econômico, mais de 31 milhões de brasileiros deixaram de pagar o plano privado de saúde. Essas pessoas, na grande maioria, contavam com o seguro da empresa em que trabalhavam. Demitidas, não tiveram condições de contratar planos individuais ou familiares, bem mais caros que os coletivos oferecidos pelas companhias. Sem os planos privados, elas agora precisam cobrir suas despesas de exames, consultas e internações exclusivamente com dinheiro do próprio bolso ou aguardar na fila do atendimento da rede pública – e isso em um momento no qual a qualidade do Sistema Único de Saúde (SUS), historicamente mal avaliada, tem sido ainda pior nos estados em crise financeira. Uma pesquisa divulgada na semana passada, feita pelo Datafolha sob encomenda do Conselho Federal de Medicina (CFM), atesta a insatisfação dos brasileiros: 54% avaliam o atendimento público como ruim ou péssimo, 28% como regular e somente 17% como ótimo ou bom.

Atualmente, apenas um quarto da população (47,1 milhões de pessoas) tem algum tipo de seguro médico. Os outros 160 milhões de brasileiros precisam recorrer ao serviço público. O índice de cobertura privada, que havia avançado nos anos de bonança e crescimento do número de trabalhadores com carteira assinada, recuou. A explicação é uma só: o preço. Para os que conseguem bancar um plano privado, com ou sem a ajuda do empregador, a dificuldade é enfrentar o custo crescente das mensalidades. O encarecimento das despesas médicas é uma realidade vivida em muitos países, por causa do envelhecimento populacional e da in­ corporação de novos tratamentos. No Brasil, os reajustes dos planos de saúde, ano após ano, ficam acima da inflação. Na semana passada, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão do governo que regula o setor, autorizou um aumento de até 10% para os planos individuais, retroativo a 12 de maio. É simplesmente o triplo da atual inflação corrente no país. Em 2017, o repasse máximo permitido para os planos (13,6%) já havia sido mais que o quádruplo da inflação (3%) e, nos anos anteriores, a situação não foi muito diferente. AANS controla apenas o reajuste dos planos individuais. Nos planos coletivos, a negociação é feita livremente entre as empresas e as operadoras do serviço de saúde, mas os reajustes nas mensalidades pagas pelos beneficiários também têm se mantido acima do índice geral de custo de vida. Os aumentos autorizados motivaram a ação de institutos de defesa do consumidor e do Tribunal de Contas da União(TCU), que consideram as razões para os valores aplicados um tanto obscuras. Segundo o diretor da ANS Leandro Fonseca, os reajustes devem refletir os custos dos procedimentos e o aumento no uso. “Precisamos zelar pela manutenção da solvência das operadoras. Limitar os ajustes por ação judicial pode ameaçar a sustentabilidade do sistema. Os penalizados serão os próprios usuários,” diz Fonseca. José Seripieri Junior, presidente da Qualicorp, uma das maiores administradoras de planos de saúde do país, defende a formulação de um indicador mais transparente: “Faz-se necessário um novo índice de referência, acima do bem e do mal. Só assim será possível discutir reajustes sustentáveis e justos para todos”, afirma.

O fato é que os gastos com saúde mordem uma fatia cada vez maior do orçamento das famílias. Cerca de 40% das despesas totais dos brasileiros na área médica dizem respeito ao pagamento dos planos. Para quem trabalha em uma grande empresa, a conta é dividida com o patrão. São 38 milhões de pessoas nessa situação hoje privilegiada. Outros 9,1 milhões de brasileiros pagam integralmente o custo para utilizar um plano individual, e, nesse tipo de contrato, as mensalidades são bem mais caras. O preço médio para uma pessoa de 40 anos fica ao redor de 500 reais (para os idosos, a mensalidade é ao menos o dobro disso). Para que se tenha direito a usar os hospitais de primeira linha em São Paulo, como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês, por exemplo, a conta explode. É tão pesada que nem existem planos individuais com esse tipo de cobertura em comercialização. Essa modalidade só é disponibilizada para quem está ligado a uma empresa ou associação. As mensalidades para as pessoas de até 40 anos ficam em torno de 3.000 reais e, para os idosos, sobem para a casa dos 8.000 reais. Como o salário médio dos trabalhadores é de 2.100 reais, fica evidente que são poucas as famílias capazes de arcar com esses preços.

Dentro do possível, os brasileiros vêm procurando encontrar maneiras para driblar a pressão dos gastos. Uma das alternativas é trocar de operadora, buscando opções mais econômicas. Existem planos em que os exames e atendimentos médicos são feitos exclusivamente na rede hospitalar do próprio convênio. É mais barato, embora o cliente não possa escolher o hospital de sua preferência (os preços variam sempre de acordo com o perfil da pessoa e seu histórico médico). Outra saída é procurar os planos por adesão, ligados a associações ou sindicatos. Essa é uma situação comum entre executivos e profissionais de salários elevados que tenham perdido o emprego e deixaram de ter plano coletivo. Trabalhando como autônomos, engenheiros, médicos e advogados podem aderir aos planos conveniados de suas associações, com mensalidades inferiores às de plano individual. Para as operadoras, esse tipo de contrato dilui riscos e custos, da mesma maneira que ocorre nos contratos coletivos com as grandes empresas. Daí por que as mensalidades são mais baixas.

Um bom contingente de brasileiros da classe média, entretanto, vive atualmente à margem do cobertor do seguro médico. De acordo com uma pesquisa da consultoria SPC Brasil, quase metade das famílias das classes A e B não tem plano de saúde. “Quem contrata o plano, no entanto, considera o serviço como de primeira necessidade, tanto que a inadimplência é baixíssima”, diz a economista-chefe da SPC Brasil, Marcela Kawauti. Entre as pessoas que já tiveram plano, mas não têm mais, a maior parte afirma que perdeu o emprego ou que não tem condições de pagar as mensalidades, enquanto um pequeno porcentual diz que o utilizava pouco e não via necessidade de contratar o serviço privado. Essas pessoas recorrem ao atendimento público ou pagam do próprio bolso as eventuais despesas com consultas particulares e exames.

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Outra opção, que começa a ganhar espaço, são os grupos privados que oferecem consultas a preços mais em conta. São companhias como Dr. Consulta, Global Med e Doutor Agora. Antes focados na classe C, esses serviços vêm conquistando público entre as classes B e até mesmo A. É a esse nicho mais abastado que pertence mais da metade da clientela do Dr. Consulta, afirma Renato Velloso, vice-presidente de desenvolvimento de mercado da companhia. “São pessoas atraídas pela facilidade para marcar o atendimento, tudo feito via aplicativo, e também pelo custo”, diz Venoso. Outra parte dos clientes são pessoas insatisfeitas com o serviço público. O valor das consultas dessas novas empresas varia de acordo com a especialidade, mas as mais caras não passam de 180 reais – e quem tem algum plano sempre poderá pedir o reembolso.

Os grupos de consultas a preços populares são um paliativo, mas não lidam com situações mais complexas. Por isso, segundo os especialistas, é necessário reavaliar os procedimentos – e, como consequência, os custos da saúde por aqui. Em termos de gasto em relação ao tamanho do PIB, o Brasil tem índices similares aos das nações europeias e fica atrás dos Estados Unidos, um país notório pelo excesso de despesas na área e onde existe um esforço para reformular o sistema de atendimento. Na comparação com os europeus, os americanos fazem mais consultas, mais exames, mais cirurgias – e nem por isso são mais saudáveis. Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, o sistema regulatório incentiva o gasto excessivo. Os hospitais e laboratórios são remunerados pela quantidade de serviço prestado, e não pela qualidade. É um estímulo ao desperdício. Muitos países mudaram esse modelo e partiram para a adesão a padrões de atendimento de acordo com os sintomas do paciente. É necessário seguir protocolos predeterminados, o que impede abusos na requisição de exames, por exemplo. O médico e o hospital têm pouca liberdade para pedir análises adicionais. Países como Alemanha, França e África do Sul passaram a adotar esse modelo. No caso alemão, as despesas hospitalares caíram 25%, segundo o Instituto de Estudos em Saúde Suplementar (IESS).

As operadoras de saúde, tantas vezes criticadas por dificultar a realização de procedimentos requeridos pelos médicos, dizem que tentam coibir os abusos para evitar que as contas fujam do controle. “Existe um uso abusivo”, afirma Reinaldo de Camargo Scheibe, presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). “Batemos no teto. Os consumidores precisam ser chamados para discutir a questão dos custos.” De fato, existem fatores inexoráveis de pressão sobre o preço, sobretudo o envelhecimento populacional e o aumento no custo dos tratamentos de alta complexidade. Mas, de acordo com os especialistas na área, a inflação médica seria bem menor caso o país seguisse o exemplo de nações que equilibraram as despesas sem perda na qualidade, em vez de seguir o modelo em crise dos americanos. Se houver desperdício – como no caso da realização de exames caros e desnecessários -, a conta fatalmente terá de ser rateada entre todos os segurados.

A saúde virou um fardo.4

Chama atenção o caso das ressonâncias magnéticas. Entre os brasileiros com plano privado, são feitos, a cada ano, 148 exames para cada grupo de 1.000 pessoas. É um número ligeiramente superior ao dos exagerados americanos – e vergonhoso quando comparado aos de outros países. Na Austrália, por exemplo, são feitos 42 exames para cada 1.000 habitantes. No Canadá, cerca de 56. Exames mais sofisticados são uma importante fonte de receita financeira tanto para médicos como para hospitais. Outro exemplo de disparidade nacional é o famoso excesso de cesarianas. Segundo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa ideal de partos naturais deve ficar entre 90% e 85%. No Brasil, é de ridículos 16%. “As cesáreas são dominantes, seja pela opção da mãe, seja pela comodidade do médico – e, é claro, são procedimentos mais caros do que partos normais”, diz o consultor Luiz Edmundo Rosa, diretor da Associação Brasileira de Recursos Humanos. “Precisamos corrigir esse escândalo nacional.” A inflação da medicina não pesa apenas no bolso das famílias. Para as empresas, essa já é uma de suas maiores despesas no orçamento, atrás apenas da folha de pagamento dos funcionários (e dos impostos). Mais uma vez, o Brasil copiou uma anomalia americana. Como os tributos não baixam e a prioridade é manter a mão de obra, as companhias estão se esforçando para controlar os gastos com a saúde dos funcionários. Isso significa que mesmo aqueles que estão empregados vêm paulatinamente pagando mais e tendo menos benefícios. De acordo com os especialistas em gestão de recursos humanos, as companhias devem avaliar melhor as despesas médicas dos trabalhadores e acompanhar a saúde dos funcionários. Os grupos que não tratam o assunto com o devido cuidado correm o risco de enfrentar no futuro uma bola de neve de gastos crescentes.

Nos Estados Unidos, uma experiência inédita com o intuito de controlar o aumento de gastos com saúde das empresas estará sob a atenção de todo o mundo: a Amazon, em associação com o banco JP Morgan e a empresa de investimentos Berkshire Hathaway, pretende investir em uma nova companhia, que vai explorar maneiras de reduzir as despesas com saúde. Os três grupos possuem ao todo mais de 1 milhão de funcionários nos Estados Unidos. A iniciativa será capitaneada pelo médico e consultor Atul Gawande, que escreveu alguns livros sobre o tema e colaborou também com reportagens para a revista The New Yorker. Em uma delas, publicada em 2009, ele tratou justamente dos gastos excessivos em alguns hospitais. No texto, comparava a prestação de serviços médicos à construção de uma casa. Imagine, dizia ele, se, em vez de pagar um empreiteiro pelo projeto como um todo, você pagasse o eletricista de acordo com o número de tomadas sugeridas por ele, o encanador pelo número de torneiras que ele julgasse necessárias, da qualidade e da marca que ele escolhesse, e assim por diante. A conclusão, óbvia, é que isso seria um incentivo para que os custos do projeto fugissem do controle. Escreveu Gawande: “Você se surpreenderia se tivesse no fim uma casa com milhares de tomadas e torneiras, construída pelo triplo do preço estimado, e ainda assim ela desabasse dois anos mais tarde?”. A analogia descreve, em grande medida, o que acontece atualmente no sistema privado brasileiro. Sem correções, feitas em acordo com médicos, hospitais e operadoras, o custo dos planos particulares ficará inviável para uma parcela cada vez maior da população, e eles serão, infelizmente, um privilégio para poucos. Bem poucos.

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OUTROS OLHARES

GOTAS DE MAROMBA

Um novo e perigoso anabolizante bomba em sites e academias.

Gotas de maromba

O frasquinho chegara pelo correio, embrulhado em uma caixa de papelão. Tinha um rótulo pouco convidativo: “Impróprio para consumo humano”, dizia em inglês. Lucas Cabral, de 30 anos, 1,74 metro e bíceps de 44 centímetros, contou que não se importou com a advertência. Passava pouco das 7 da manhã quando pressionou o conta ­ gotas e sugou 10 milímetros do líquido transparente. Aquela era a medida ideal, segundo lera em um fórum na internet, para obter os melhores efeitos do LGD-4033- ou Ligandrol -, um tipo novo de anabolizante que Cabral descobrira. As gotas foram despejadas sobre a língua. Não tinham gosto. Cabral tomou o café da manhã e foi trabalhar.

Cabelo cortado rente, ombros largos e uma tatuagem tribal que lhe desce pelo lado direito do dorso, Lucas Cabral exibe, com orgulho, o corpo esperado de um rato de academia, como se define. Treina, religiosamente, de segunda a sábado, sempre no mesmo horário. O desejo de ter o corpo trincado surgiu há cerca de três anos, quando Cabral decidiu que devia parar de fumar e eliminar a barriga de chope. “Vi meu corpo secar”, disse, animado. “Minha saúde melhorou, e minha autoestima também.”

Mas, no final de 2017, a transformação obtida na academia pareceu estagnar. Cabral já não emagrecia com a mesma facilidade, nem seus músculos cresciam no mesmo ritmo. Foi quando descobriu o Ligandrol num fórum de discussão. O composto prometia ganho muscular sem efeitos colaterais e – dado importante – dispensava o uso de agulhas. Bastavam algumas gotinhas insípidas tomadas antes do treino.

Cabral usou o Ligandrol por 49 dias, duas vezes ao dia: de manhã, pouco antes do café, e à noite, antes do treino. Os resultados vieram aos poucos: o volume muscular cresceu, a gordura corporal diminuiu. Mais importante que isso, a estética melhorou. “Deu para notar as pessoas na academia me olhando de um jeito diferente”, disse, satisfeito. “Eu não queria usar um anabolizante tradicional. E o Ligandrol me pareceu um bom ponto de partida.”

O LGD-4033 é mais uma “bomba”, como outras usadas por frequentadores de academias. Desenvolvidas a partir de meados da década de 1990, receberam o complicado título de “moduladores seletivos do receptor de androgênio”. Ou, para facilitar, ARMs, da sigla em inglês. O Ligandrol é um entre mais de uma dezena de SARMs, uma resposta da indústria farmacêutica aos dissabores causados pelos esteroides anabolizantes tradicionais. A maioria dos anabolizantes tenta imitar o funcionamento da testosterona, o hormônio sexual masculino. Uma vez injetados nos músculos, conectam-se a estruturas no interior das células e dão a partida numa sequência de reações que culminam na produção de proteína.

São usados para tratar pacientes que perdem massa óssea e muscular.

Mas o uso prolongado de anabolizantes – mesmo com acompanhamento médico – pode provocar câncer de próstata ou problemas de fígado. Nas mulheres, provoca o surgimento de características masculinas, como pelos na face ou engrossamento da voz. Os ARMs têm a vantagem de se conectarem somente aos receptores dos músculos esqueléticos. “Em teoria, isso deveria permitir que eles estimulassem a síntese de proteína sem provocar os mesmos efeitos colaterais”, disse o professor Alexandre Hohl, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia. O primeiro membro desse novo grupo foi descoberto quase por acidente, por uma equipe de cientistas da Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos. Na época, o professor James Dalton estudava uma substância que promovia o aumento dos músculos em ratinhos: “Foi quando percebemos que nosso composto não vinha acompanhado por efeitos androgênicos”, disse Dalton. “Para nós, foi uma grata surpresa.”

A novidade deu a largada numa corrida pelo desenvolvimento de novas substâncias com características similares. Gigantes do setor farmacêutico, como Johnson & Johnson e Merck, criaram seus próprios SARMs.  As pesquisas pareciam muito promissoras: ‘Mas a primeira geração desses compostos desapontou”, disse Hohl. No ano passado, a Food and Drug Administration (FDA) – a agência americana que se encarrega de avaliar a segurança e eficiência de novas drogas – publicou um relatório atestando que os ARMs estudados até ali podiam provocar problemas hepáticos e cardiovasculares, aumentando o risco de ataques cardíacos. “Era um sinal de que precisavam de mais anos de desenvolvimento”, disse Hohl.

Entretanto, como sempre, algo saiu do controle. Atletas profissionais começaram a usar os SARMs, tanto que em 2008 a Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) os colocou entre as substâncias proscritas. Mas uma droga que aumenta músculos só podia cair nas graças daqueles que são ávidos por isso e topam experimentalismos: os fisiculturistas.

Num vídeo postado em março deste ano, o fisiculturista Fernando Maradona fez o anúncio entusiasmado. “Hoje, estamos aqui para falar sobre um suplemento que está invadindo o meio do bodybuilding”, disse, encarando a câmera com o dedo em riste. “Isso aí: SARMs.” Nas redes sociais, os fãs chamavam Maradona pelo manjado apelido de “Hulk brasileiro”: os músculos retesados já lhe renderam títulos importantes em competições no Brasil e no exterior e boas colocações no Mr. Olympia – uma das principais competições do meio. “O bodybuilder é como um ratinho de laboratório”, disse Maradona. “Ele testa toda substância nova que promete melhorar seu desempenho.” Fisiculturista há 20 anos, há três Maradona virou também youtuber. Seus vídeos documentam, é claro, sua rotina de treino, dão dicas de dieta e exercícios e fazem a crônica do que há de novo no “meio bodybuilding”.

Em 2010, Maradona participava de uma competição nos EUA quando ouviu falar nos SARMs pela primeira vez. Um amigo, dono de uma loja de suplementos, decidiu presenteá-lo com o composto novo: “Mas, na época, não levei a sério. Achei que fosse papo de vendedor”. A droga ficou esquecida em alguma prateleira. Cerca de três anos depois, durante uma viagem a Las Vegas, o amigo refez a oferta. Dessa vez, Maradona deu uma chance à substância. “Eu me surpreendi”, disse. “Melhorou minha performance, resistência e capacidade de recuperação.”

Cinco anos depois, Maradona viu o interesse pelos SARMs explodir para além do meio competitivo. Foi quando decidiu gravar vídeos sobre o assunto. Afirmou que sua intenção não era estimular a procura pelos compostos, apenas tirar dúvidas sobre um tema que seus fãs já discutiam. “O que acontece é que todo mundo quer ter os mesmos resultados que um fisiculturista”, teorizou. Para ele, o interesse por anabolizantes varia como a moda. “Toda vez que a ciência aparece com algo novo, há um boom. Hoje, o boom é dos SARMs.”

O personal trainer Maurício Medeiros tem 36 anos, cabelos curtos e pele levemente bronzeada. Na internet, ganhou notoriedade ao integrar o elenco do Fábrica de Monstros – um canal no YouTube (bastante) satírico, por vezes sério, criado pelo marombeiro profissional Leo Stronda. A atração tem mais de 2 milhões de inscritos. Medeiros terminara de dar uma aula quando recebeu uma mensagem pelo WhatsApp: “Olha só. Esse é o SARM da moda”, disse, entregando o celular à reportagem. Troncudo, sério, sentava-se empertigado na poltrona. Na foto, havia um frasco com um rótulo azul, no qual fora impressa uma cadeia de carbonos. “A promessa é que a pessoa perca 30 quilos ao mês. Imagine o risco.”

Imerso nesse universo de anilhas, halteres, barras e suplementos alimentares, Medeiros vive atento ao inevitável burburinho que acompanha o surgimento de um novo anabolizante. “Há sempre alguém que conhece alguém que usa”, disse. Por seus cálculos, o bochicho sobre os SARMs chegou às academias – já além do meio dos fisiculturistas – há cerca de três anos e ganhou vigor nos últimos 12 meses. A percepção é confirmada por estatísticas do Google. A procura pelo termo “melhor SARM” cresceu cerca de 5.000% no último ano no Brasil.

O frequentador de academia que procura SARMs, mesmo sem intenção de competir, o faz por vaidade. “Aquele menino magro, que as garotas nunca notaram, começa a ganhar corpo”, disse Medeiros. “E isso vicia. Resultado vicia.” A propagação do assunto é explosiva. Essa nova vaga de anabolizantes tem um instrumento que faltava às anteriores: as redes sociais. “Costumo dizer que a internet foi como uma bomba de Hiroshima para os anabolizantes”, disse Medeiros. “Hoje, se quiser comprar isso aqui” – disse, apontando para o frasco na foto do celular -, “basta passar meia hora no Google.”

No YouTube há canais especializados nos SARMs. Alguns usuários narram suas experiências com os anabolizantes por semanas a fio – sob o olhar atento de uma audiência que comenta e pede dicas. Quem os vê quer saber qual SARM usar para conquistar o corpo ideal, qual a dosagem mais adequada e qual a duração do ciclo – no jargão do setor, o tempo de uso da droga. São todas questões para as quais a ciência ainda não tem resposta. Mas para as quais os internautas juram ter uma saída. “Meu cabelo começou a cair demais, toda vez que passava os dedos por ele”, disse um rapaz, antes de apontar a solução. “Acho que a questão era a dosagem. Diminuí.”

A empreitada do gaúcho Renan Duarte com os SARMs começou no final de janeiro deste ano. “Oi, galera do YouTube. Hoje, inicio meu ciclo”, anunciou num vídeo do dia 27 daquele mês – óculos escuros no rosto, franja jogada de lado. Seu “Projeto SARMs” durou 90 dias e 120 cápsulas de uma substância chamada S23. Os vídeos foram gravados no quarto, com a câmera parada e com Duarte devidamente descamisado. “Eu quis fazer os vídeos para auxiliar quem pretendia comprar. Para essas pessoas terem algo verdadeiro em que acreditar”, disse. Foram 11 vídeos, um por semana. O último guardava um desapontamento. “A promessa dos laboratórios era puro marketing”, contou Duarte. “O produto que usei não cumpriu nada do que prometeu.”

A procedência duvidosa dos SARMs representa um risco adicional. Como não há controle por qualquer agência governamental, é impossível garantir o conteúdo do frasco – e quais seus efeitos sobre o corpo. Um estudo publicado em novembro do ano passado, conduzido por uma equipe da Universidade Harvard, pôs à prova 44 produtos vendidos on-line como SARMs. A maioria falhou: somente 23 tinham, de fato, um SARM em sua composição. Outros 17 continham substâncias ilegais na mistura – incluindo aí um composto tóxico, cujo desenvolvimento foi abandonado pela indústria farmacêutica há mais de dez anos, por provocar câncer em animais. Os outros quatro não apresentavam qualquer ingrediente ativo – não eram melhores que farinha. “Estamos falando de remédios. É como se eu vendesse uma droga controlada, como o Diazepam, livremente pela internet e ninguém fizesse nada”, disse Hohl, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia. Enquanto isso, milhares se arriscam por um corpo trincado, ao alcance de alguns cliques. “Ainda não sabemos se essas substâncias são seguras”, disse James Dalton. “A verdade é que quem as usa se expõe a riscos muito grandes.”