A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES

Obsessões e compulsões

Preocupar-se excessivamente com higiene; lavar as mãos a todo momento; checar diversas vezes se portas, janelas ou a torneira do gás estão fechadas antes de se deitar; não usar roupas de determinada cor; não passar em lugares com receio de que algo ruim possa acontecer; guardar coisas inúteis; ficar aflito caso os objetos sobre a mesa não estejam dispostos de determinada maneira; fazer contagens desnecessárias… Esses são alguns exemplos de ações chamadas no senso comum de “manias”. Quando exageradas, porém, indicam sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC.

O distúrbio de ansiedade mostrado na mídia em filmes como Melhor impossível, com Jack Nicholson, e no curta brasileiro A janela aberta, dirigido por Philippe Barcinski, ou na bem-humorada série Monk tem manifestações que podem parecer curiosas para quem não as enfrenta. O TOC, porém, é um problema de saúde mental grave e muitas vezes incapacitante, em algumas situações associado à depressão.

No Brasil, estima-se que atinja quase 4 milhões de pessoas, prejudicando o paciente e influindo diretamente na rotina familiar. A desinformação e a vergonha dos pensamentos infundados e ações compulsivas que assaltam o paciente fazem com que ele resista à ideia de buscar atendimento profissional. Há quem padeça por décadas, sem saber que medicação e acompanhamento psicoterápico adequados podem aplacar – ou eliminar – os sintomas em cerca de 70% dos casos.

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RITUAIS QUE APRISIONAM

Será que eu tenho TOC? Eis uma pergunta que muitas pessoas já se fizeram alguma vez. Com certeza ouviram em algum programa de rádio ou TV ou leram em alguma reportagem de jornal, revista ou internet que lavar as mãos seguidamente, evitar segurar-se no corrimão do ônibus ou usar as toalhas de mão utilizadas por outras pessoas, não conseguir tocar o trinco da porta de banheiro público, ter receio de passar perto de cemitérios, de deixar o chinelo virado, assim como outros comportamentos semelhantes, podem, na verdade, revelar sintomas de TOC.

De um lado, a família implica com a demora no banho ou nas arrumações, de outro, a pessoa exige que os objetos sejam alinhados de certa maneira. Os amigos comentam que “é chata com algumas coisas”. Mas é provável que, em sua casa, durante muito tempo a maioria desses  comportamentos sejam considerados normais, e que pais, avós ou irmãos apresentem as mesmas  manias. Afinal, medos e preocupações fazem parte do nosso dia a dia. Aprendemos a conviver  com eles tomando certos cuidados. Fechamos as portas à noite, lavamos as mãos antes das refeições ou depois de usar o banheiro, desligamos o celular no início da sessão de cinema e verificamos periodicamente o saldo de nossa conta bancária. Essas mesmas ações e preocupações, entretanto, podem se tornar claramente excessivas quando repetidas inúmeras vezes em curto espaço de tempo – e são acompanhadas de grande aflição. É comum que, pelo tempo que tomam, comprometam rotinas e o desempenho profissional. De acordo com o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV), publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, o TOC é um transtorno mental de ansiedade. Está classificado ao lado das fobias (medo de altura, lugares fechados, elevadores, pequenos animais como ratos, lagartixas, lesmas, insetos ); da fobia

social (medo de expor-se em público ou diante de outras pessoas); do transtorno de pânico (crises súbitas de ansiedade e medo de frequentar os locais onde ocorreram os ataques, como lugares fechados e aglomerações de pessoas); e da ansiedade generalizada (apreensão e tensão permanentes).

Os sintomas do TOC envolvem alterações do comportamento (rituais ou compulsões, repetições, evitações), dos pensamentos (obsessões como dúvidas, preocupações excessivas, pensamentos de conteúdo impróprio ou “ruim”) e das emoções (medo, desconforto, aflição, culpa, depressão). Os rituais ou compulsões são realizados em razão dos medos ou da aflição que aparecem sempre que a mente é invadida por uma obsessão, como a de contaminar-se ou de contrair doenças, de cometer falhas ou de ser responsável por acidentes ou acontecimentos negativos graves. As evitações, embora não específicas do TOC, são, em grande parte, responsáveis pelas limitações que o transtorno acarreta.

Obsessões são pensamentos ou impulsos que invadem a mente de forma repetitiva e persistente. Podem surgir como imagens, palavras, frases, números, músicas etc. Sentidas como estranhas ou impróprias, geralmente são acompanhadas de angústia e culpa. Mesmo desejando ou se esforçando, o indivíduo não consegue afastá-las. Apesar de serem reconhecidas como absurdas ou ilógicas, causam ansiedade e desconforto. Na tentativa de neutralizar o mal-estar, a pessoa realiza rituais (bater um número específico de vezes em algum móvel, por exemplo) ou evita situações (deixando de tocar determinados objetos ou se afastando de certos lugares).

A mente humana é invadida permanentemente por pensamentos involuntários, também chamados de pensamentos intrusivos, intrusões ou pensamentos automáticos. Essas “invasões” constituem um fenômeno universal e fazem parte da atividade psíquica normal e ocorrem espontaneamente e, da mesma forma que surgem, desaparecem.

Como para a maioria das pessoas não acarretam preocupação, facilmente são esquecidas. Entretanto, para alguns indivíduos, a ocorrência desses pensamentos (de contaminação, responsabilidade, de conteúdo agressivo, obsceno ou sexual) é interpretada como indicativa de algum risco: à sua saúde ou à de sua família, de que pode estar deixando de prevenir algum desastre ou de que é capaz de cometer atos criminosos ou moralmente inaceitáveis. Acredita-se que a interpretação errônea e catastrófica desses pensamentos aflitivos faz com que intrusões normais se transformem em obsessões, levando a pessoa a agir para afastar os “maus pensamentos”.

Compulsões ou rituais são comportamentos ou atos mentais voluntários e repetitivos, executados em resposta a obsessões – ou para atender regras (criadas pelo próprio paciente), que devem ser seguidas rigidamente. Entre as mais citadas pelos pacientes estão a repetição de palavras ou frases (consideradas especiais), orações, rememoração de cenas ou imagens, contagem ou repetição de números, marcação de datas e listas, tentativa de afastar pensamentos indesejáveis, substituindo-os por ideias contrárias. Essas práticas costumam aliviar a ansiedade apenas momentaneamente, levando o indivíduo a repeti-las e ampliá-las toda vez que sua mente é “invadida” – em vez de enfrentar seus medos, o que acaba por perpetuá-los. Assim, a tentativa de se libertar transforma-se, com o tempo, em prisão. Nem sempre as compulsões apresentam conexão realística com o que desejam prevenir ( por exemplo, alinhar os chinelos ao lado da cama antes de deitar não garante que nada de ruim aconteça no dia seguinte; dar três batidas em uma pedra da calçada ao sair de casa não manterá pessoas da família com saúde perfeita). A “lógica distorcida” das obsessões que sustentam os rituais se embasa em pensamento de conteúdo mágico e segue mecanismo muito semelhante ao que prevalece nas superstições.

NUNCA ERRAR

Da mesma forma, as evitações estão necessariamente associadas ao receio de contrair doenças ou ao medo de contaminação Alguns pacientes relatam que evitam tocar em certos objetos – como carne, leite, gelatina, colas, urina, sêmen – apenas por nojo ou repugnância, sem que sejam invadidos por algum pensamento catastrófico específico. O interessante é que esses sintomas também podem desaparecer com abordagem terapêutica – a terapia de exposição e prevenção de rituais – utilizada para o tratamento dos demais sintomas do TOC.

Uma das preocupações mais comuns no TOC se relaciona com a possibilidade de falhar e, em consequência, ocorrer algum desastre ou prejuízo (incêndio, inundações etc.) Tal preocupação se manifesta sob a forma de intolerância à incerteza – que leva a pessoa a realizar verificações repetidamente.

Quando o sofrimento associado à dúvida é muito intenso, a pessoa com TOC simplesmente se esquiva de situações de responsabilidade. Prefere não sentir a necessidade de realizar constantes checagens, evitando, por exemplo, sair por último do local de trabalho, não sendo, assim, atribuída a ela a função de desligar os equipamentos ou fechar as portas. Certas características de personalidade, como senso exagerado de responsabilidade e receio de cometer falhas, perfeccionismo e elevado nível de exigência desempenham papel importante no surgimento do transtorno.

Nos quadros de TOC também costumam surgir ideias e impulsos de conteúdo agressivo ou violento – como o ímpeto de atirar crianças pequenas pela janela; atropelar pedestres; empurrar escadaria abaixo ou dar um soco em alguém que cumprimenta; envenenar os filhos etc. Para fugir dessas “tentações”, é comum que o paciente tome medidas práticas como colocar telas nas janelas; evitar comparecer a eventos sociais ou cumprimentar pessoas; checar várias vezes os armários para ver se não há algum veneno com o qual possa contaminar seus filhos.

São comuns também as obsessões de conteúdo sexual, como fixar os olhos nos genitais de outras pessoas, molestar sexualmente crianças, arrancar a roupa de alguém, manter relações sexuais incestuosas, ou praticar sexo violento ou perverso (com animais, por exemplo). Em vez de desejo, excitação ou prazer, essas fantasias despertam angústia e medo. Muitos recorrem a confissão, orações e até castigos físicos ou privações (jejum, por exemplo) para dissipar esses pensamentos.

MACACO VERDE

Um paciente tinha obsessões por mosquitos. A primeira coisa que fazia ao chegar em casa era revistar o seu quarto (atrás da cama, dentro dos armários, atrás dos livros) à procura desses insetos. Chegou triunfante a uma sessão: “Matei 102 ontem à noite. E o curioso é que, em minha casa, sou sempre a primeira pessoa que os vê”. Não por acaso ela encontrava os insetos – sua atenção estava voltada para eles.

Atualmente, sabe-se que manter­ se excessiva e frequentemente atento aos próprios pensamentos e atitudes aumenta a frequência e a intensidade das obsessões. Assim, os esforços constantes feitos pela pessoa com TOC para neutralizar as obsessões, focar a atenção em certos temas ou vigiar de forma constante objetos, situações, lugares ou pessoas que nela desencadeiem desconforto psíquico podem, por vezes, surtir efeito contrário: fazem com que os “pensamentos ruins” ocorram de forma ainda mais intensa. É como diz o ditado: “Não pense no macaco verde”. E é aí que ele aparece.

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MEDICAMENTO E PSICOTERAPIA PARA REDUZIR SINTOMAS

Os medicamentos mais eficazes no combate dos sintomas do TOC são antidepressivos, eficientes para cerca de 50% dos pacientes. Seu uso é recomendado principalmente quando existem outros problemas associados ao transtorno, como depressão e ansiedade- o que é bastante comum. Também é usual essa prescrição quando os sintomas são muito graves ou incapacitantes e o paciente não tem condições de seguir a terapia. Mas há inconvenientes: alguns efeitos colaterais e a redução apenas parcial dos sintomas. Uma modalidade terapêutica bastante usada para controlar sintomas do TOC (embora não seja a única) é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), da qual foram adaptadas algumas técnicas específicas para tratar o transtorno. Cerca de 70% dos que se submetem à terapia obtêm redução satisfatória ou até a eliminação completa dos sintomas. Ela é efetiva especialmente quando predominam rituais, não existem outras condições psiquiátricas graves e os pacientes se envolvem efetivamente nas tarefas propostas para serem realizadas em casa, as quais constituem parte fundamental dessa forma de tratamento. Outras abordagens, como as de orientação psicanalítica, buscam não só a eliminação imediata dos sintomas, mas seus significados dentro do contexto da história do paciente. Por isso, costumam levar mais tempo, mas com a vantagem de aprofundar a experiência psíquica, possibilitando a elaboração de várias questões associadas direta ou indiretamente ao distúrbio.

Estudos recentes demonstram que a redução dos sintomas com a psicoterapia, sobretudo quando predominam compulsões, costuma ser maior do que a diminuição que se obtém com o uso dos medicamentos e, aparentemente, as recaídas são menos frequentes. Também tem sido observado que pacientes que não respondem às medicações podem apresentar boa resposta à TCC. Uma vez que tanto os medicamentos como a terapia têm suas limitações, recomenda-se associá-los, embora não esteja evidente se essa junção é mais vantajosa do que o uso isolado de apenas uma modalidade de tratamento.

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DESINFORMAÇÃO E VERGONHA DIFICULTAM DIAGNÓSTICO

Considerado raro há até pouco tempo, sabe-se hoje que se trata de um distúrbio mental bastante comum: acomete um em cada 40 ou 50 indivíduos. No Brasil, estima-se que existam entre 3 milhões e 4 milhões de pessoas com TOC. E embora tenham a vida gravemente comprometida, muitas delas nunca foram diagnosticadas e tampouco tratadas. Talvez a maioria desconheça que esses sintomas constituem uma patologia, para a qual já existem tratamentos bastante eficazes. O que muitas vezes dificulta a busca por acompanhamento terapêutico é o fato de que muitos têm vergonha de seus pensamentos intrusivos, absurdos ou impróprios.

Temendo ser ridicularizadas, algumas pessoas chegam a se esconder para realizar atos que elas mesmas consideram sem sentido. Imaginam que têm algum desvio moral ou de caráter, ou que podem colocar em prática tais impulsos ou pensamentos, o que aumenta o medo, a autocrítica e o sentimento de culpa. Acreditam, ainda, que ninguém poderá compreendê-las, razão pela qual não procuram ajuda. Um estudo realizado nos Estados Unidos constatou que os pacientes demoravam em média dez anos entre o início dos sintomas e a busca de tratamento, o que pode ser atribuído, em parte, ao constrangimento que vivem. Outro levantamento constatou que leva 17 anos entre o aparecimento dos sintomas e a obtenção de tratamento adequado. No Brasil, muitos dos pacientes atendidos pela primeira vez sofrem do problema há mais de 20 anos.

O TOC é considerado uma doença mental grave. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), está entre as dez principais causas de incapacitação das pessoas e é a quinta psicopatologia mais frequente em mulheres com idade entre 15 e 44 anos nos países em desenvolvimento e desenvolvidos. O início após os 40 anos é raro; o transtorno acomete preferencialmente indivíduos no fim da adolescência – e, muitas vezes, começa ainda na infância. Seu curso geralmente é crônico e, se não tratado, se mantém por toda a vida, raras vezes desaparecendo por completo. Em aproximadamente 10% dos casos, os sintomas são graves e tendem a agravar-se de forma progressiva, podendo incapacitar os portadores para o trabalho e acarretar limitações significativas ao convívio social, além de submetê-los a um sofrimento intenso e permanente.

Para as pessoas que convivem com o paciente a situação também é delicada. A doença altera rotinas domésticas, exige que a família se acomode aos sintomas. É comum a restrição ao uso de sofás, camas, roupas, toalhas, louças e talheres, bem como ao acesso a determinados locais da casa. Outros problemas típicos são a demora no banheiro e as lavagens excessivas das mãos, das roupas e do piso.

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) parte do pressuposto de que crenças e pensamentos equivocados podem influenciar emoções e comportamentos, determinando o aparecimento dos sintomas. A identificação de tais ideias distorcidas e sua correção por meio do raciocínio lógico e de técnicas cognitivas apropriadas podem eliminar sintomas.

Após seu uso para tratamento da depressão, algumas concepções e técnicas da TCC foram adaptadas para tratar outras psicopatologias, como os transtornos de ansiedade – fobia, pânico, transtorno obsessivo­ compulsivo, entre outros. O termo comportamental refere-se ao uso de métodos que têm por objetivo mudar atitudes e ações – no caso do TOC, os rituais, mesmo os encobertos, e os comportamentos evitativos, de esquiva – por meio de duas técnicas em especial: o enfrentamento gradual das situações ou o contato com objetos que provocam medo ou desconforto (exposição) e a abstenção e prevenção da execução de rituais que aliviam o desconforto.

O termo cognitivo refere-se a técnicas que auxiliam na “correção” de pensamentos exagerados ou mesmo errados, tão comuns em portadores do TOC, corno a supervalorização do poder do pensamento, do risco de contrair doenças, a necessidade de ter certezas na maior parte do tempo ou o perfeccionismo, por exemplo. Essas técnicas, introduzidas mais recentemente na abordagem do TOC, complementam a terapia de exposição e prevenção de rituais, constituindo o que se convencionou chamar de terapia cognitivo-comportamental, pois as duas modalidades são utilizadas de forma associada. O acréscimo do enfoque cognitivo enriquece a compreensão dos sintomas do TOC e reduz o grau de aflição desencadeado pelos exercícios de exposição e prevenção de rituais da terapia comportamental, o que parece favorecer a adesão dos pacientes.

Durante a TCC, o paciente aprende inicialmente a identificar suas obsessões, compulsões e evitações. Com o auxílio do terapeuta, são combinados exercícios graduais de exposição e prevenção de rituais – os quais a pessoa acredita ser capaz de realizar – para serem feitos em casa, no intervalo entre as sessões. O paciente também aprende várias técnicas que o auxiliam a corrigir suas crenças distorcidas e passa a usá-las ao mesmo tempo que faz os exercícios de exposição e prevenção de rituais. No início da terapia, em geral há aumento da ansiedade – perfeitamente suportável – seguido de redução na intensidade das obsessões e na necessidade de executar rituais. Em geral, são realizadas de dez a 15 sessões.

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A RELIGIÃO PARTICULAR DO NEURÓTICO OBSESSIVO

A denominação transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) vem da psiquiatria. Muito antes da adoção dessa classificação, porém, a patologia já aparecia como neurose obsessiva em textos de Sigmund Freud. O tema é apresentado em artigos como As psiconeuroses de defesa (1894), Rascunho K (Correspondência com Fliess) (1895), Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa (1896), Caráter e erotismo anal (1908), Totem e tabu (1912), Predisposição à neurose obsessiva (1913), Inibições, sintomas e ansiedade (1926), entre outros.

No caso clínico conhecido como Homem dos Ratos, Freud diz que o erotismo anal domina a organização sexual do neurótico obsessivo, tendo como sustentação o ódio inconsciente e primitivo.

O olhar psicanalítico diverge da compreensão preponderantemente médica ou comportamental, tanto em relação à etiologia quanto à maneira de conduzir o tratamento do transtorno. Para a psicanálise, a neurose obsessiva compulsiva tem como origem um conflito psíquico infantil e uma fixação da libido ocorrida nos primeiros anos de vida. A proposta não é, portanto, simplesmente eliminar os sintomas – embora seja esperado que isso se dê ao longo do acompanhamento terapêutico -, mas sim compreender seus sentidos e desdobramentos.

Psicanalistas acreditam que sintomas escondem / revelam conflitos inconscientes. Sua manifestação resulta de um “trabalho psíquico” que tem o objetivo defensivo de transformar uma forte representação da experiência infantil em outra – mais suportável, enfraquecida e controlável, desligada (por meio desse estratagema) de sua verdadeira e dolorosa fonte.

Em 1907, no texto Atos obsessivos e práticas religiosas, Freud escreveu: “A neurose obsessiva parece uma caricatura, ao mesmo tempo cômica e triste, de uma religião particular”. Mais adiante, na mesma obra, complementou: “Podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal”. A comparação se dá por causa dos cerimoniais que aparecem tanto na sintomatologia daqueles que sofrem de “afecções nervosas” quanto nas “práticas pelas quais o crente expressa sua devoção”.

Tanto nos rituais neuróticos quanto nos rituais sagrados se observam proibições compulsivas e fortes escrúpulos de consciência. “Além do mais, em ambos os casos, os atos levados a cabo são prenhes de um sentido simbólico que expressa a experiência psíquica daquele que os realiza. Via de regra, a força da pulsão recalcada é vivida como uma tentação perigosa, contra a qual o sujeito deve cercar-se de medidas de proteção. Na neurose obsessiva os sintomas – ações obsessivas – são, assim, uma formação cujo objetivo é conciliar moções pulsionais antagônicas, vividas como forças que induzem a atos contraditórios”, escreve o psicanalista Flávio Carvalho Ferraz, no artigo “A  religião particular” do neurótico: notas comparativas sobre a neurose obsessiva e a perversão”, publicado em Obsessiva neurose, organizado por Manoel Tosta Berlink.

 

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OUTROS OLHARES

ODOR DE PARKINSON

Usando a habilidade de uma mulher com olfato aguçado, pesquisadores americanos criaram um marcador biológico da doença que poderá ser usado para o diagnóstico precoce.

Odor de Parkinson

O aguçado olfato da enfermeira escocesa Joy Milne, de 68 anos, foi o atalho para um dos mais recentes avanços nas pesquisas médicas relacionadas ao Parkinson, distúrbio do sistema nervoso central progressivo que afeta os movimentos e se caracteriza por tremores e rigidez. A história começou em 1974, quando Joy notou que sentia um cheiro diferente, forte e adocicado, toda vez que o marido, Les Milne, então saudável, se aproximava. Mais de uma década depois, ele foi diagnosticado com Parkinson.

A mulher passou a acompanhá-lo nos encontros com grupos de pacientes que também sofriam de Parkinson. Ela percebeu, nas outras pessoas, aquele mesmo cheiro que emanava do companheiro. Joy contou o caso a um grupo de cientistas e o relato chegou aos pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido. Deu-se o início, ali, da descoberta deum marcador biológico do Parkinson, uma espécie de “perfume da doença”.

Agora, os estudiosos identificaram a origem do cheiro sentido por Joy. Notaram que ele era mais intenso na parte superior das costas e na testa, mas não nas axilas. Isso significa que o odor não era de suor, mas de sebo, substância produzida pelas glândulas sebáceas na pele. Sabe- se que os portadores de Parkinson apresentam uma concentração maior de compostos produzidos pelo sebo. A equipe coletou amostras repletas dessas substâncias das costas de 64 voluntários – alguns com a doença, outros não. No laboratório, pediram a Joy que cheirasse as amostras e sinalizasse toda vez que o odor característico aparecia. Em todos os casos havia coincidência entre a indicação da enfermeira e a presença do Parkinson nas “cobaias”. Ainda se desconhece porque pessoas com a doença exalam esse odor – algumas pesquisas sugerem que certos micróbios são mais comuns na pele dos pacientes.

O “perfume da doença”, divulgado na semana passada pela revista americana ACS Central Science, pode ser um atalho futuro para o diagnóstico precoce do Parkinson. A enfermidade acomete 10 milhões de pessoas no mundo, 200.000 delas no Brasil. Atualmente, não há nenhum teste definitivo para sua detecção. “O diagnóstico é clínico, quando a doença já está instalada”, diz o neurologista Renato Anghinah, professor da Universidade de São Paulo. O faro de Joy pode ter mudado para sempre essa história.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS MÚLTIPLAS

Atuar em mais de uma área acelera o desenvolvimento, aumenta a empregabilidade e ainda gera satisfação. Saiba o que fazer para conciliar várias tarefas e ingressar nesse novo time de profissionais.

Carreiras múltiplas

Se o LinkedIn, rede social para profissionais, existisse durante os anos do Renascimento, Leonardo da Vinci teria dificuldade em resumir, em seu perfil, tudo o que fazia. Afinal, o italiano era pintor, escultor, desenhista, cientista, engenheiro, anatomista, inventor, matemático, arquiteto, botânico, poeta, músico. Se quisesse pontuar todas as suas áreas de atuação, ele teria de lançar mão das barras – e colocá-las separando cada atividade. O desafio do gênio da Renascença não poderia ser mais atual.

Ter várias carreiras simultaneamente é uma tendência que, nos Estados Unidos, recebeu o nome de portfolio career, ou “carreira em portfólio”, na tradução literal para o português. O fenômeno está ganhando mais adeptos por causa da flexibilização do mercado, mas já era descrito no início da década de 90 pelo guru dos negócios Charles Handy. Ele disse que esse comportamento significa “perseguir um portfólio de atividades – algumas que fazemos por dinheiro, algumas por interesse, algumas por prazer, outras por uma causa”.

A movimentação em torno do tema tem crescido nos últimos anos e levou a americana Marci Alboher a criar mais um termo para o fenômeno: slash efect, ou “efeito barra”, símbolo do teclado que precisaria ser usado por Da Vinci em seu hipotético currículo “Percebi que as pessoas estavam com dificuldade em preencher o perfil no LinkedIn porque não tinham mais apenas uma profissão. E, então, adotaram a barra para descrever seu portfólio de atividades”, diz Marci, autora do livro One Person / Multiple Careers (“Uma Pessoa / Múltiplas Carreiras”, ainda sem edição brasileira, e-book por 12,49 reais na Amazon).

Segundo especialistas, esse tipo de atuação não é mero bico. Isso porque se caracteriza como um projeto de vida que é construído em torno de uma coleção de habilidades e interesses em comum. “Bico é quando as pessoas usam o tempo livre para ganhar um troco a mais, sem frequência. Mas, quando você investe seu tempo com paixão e propósito, está construindo uma nova carreira”, diz Marcelo Veras, co- fundador da Inova Escola de Negócios.

EQUAÇÃO EQUILIBRADA

Você pode estar pensando: “Duas carreiras? Eu já fico esgotado investindo em uma só”. No entanto, para muitos, a dupla – ou tripla – jornada tem sido a recarga de combustível que faltava para dar aquele gás à vida profissional. “Vivemos em uma época de busca por propósito e identidade. Encaramos o trabalho como uma arena de realização pessoal, e não apenas como uma fonte de renda”, explica Mônica Barroso, coach e também diretora de aprendizagem da The School of Life Brasil, escola com sede em São Paulo que se dedica a desenvolver a inteligência emocional.

Para essa turma, quando existe equilíbrio entre trabalhar por dinheiro e trabalhar para perseguir interesses pessoais, há mais felicidade. Prova disso é um estudo realizado em 2017 pela And Co, empresa criadora de um aplicativo para autônomos, que revelou que 68% das pessoas sentem ter mais qualidade de vida quando gerenciam diversos projetos ao mesmo tempo. Além disso, 94% dos entrevistados disseram ter escolhido conscientemente viver dessa maneira – e têm a pretensão de continuar nesse esquema para sempre.

Embora no Brasil ainda não existam estudos específicos sobre o assunto, a sensação dos especialistas é que a tendência vai crescer por aqui, considerando a aptidão das próximas gerações para o autogerenciamento. De acordo com um levantamento global desenvolvido pelo europeu Grupo Sage, 66% dos millennials não querem emprego formal. Entre os brasileiros, o número salta para 71%. “É uma geração que busca o propósito e o bem-estar e que nem sempre encontra isso no mercado corporativo. Por esse motivo, passaram a buscar a realização em paralelo a uma carreira formal”, diz Alexandre Attauah, gerente sênior de recrutamento da consultoria executiva Robert Half.

MUITAS RAZÕES

As motivações para ter mais de uma carreira são diversas. Do ponto de vista pessoal podem variar da vontade de atuar numa área complementar ao desejo de aprender coisas novas e à necessidade de encontrar maneiras de ampliar os ganhos financeiros em atividades que gerem satisfação. Do ponto de vista do mercado, é inteligente se preparar para uma realidade na qual trabalhar por projeto e com contrato flexível será a regra. ”À medida que a economia avançar para contratos de curto prazo e projetos freelances, será útil cultivar mais de uma maneira de ganhar a vida. Assim você poderá se movimentar conforme as mudanças das condições de mercado”, diz a americana Marci. “Uma pessoa que tem uma vivência diversa possui mais repertório e pode ampliar suas f rentes de atuação”, diz Henrique Dias, diretor de planejamento da consultoria Box 1824.

Além de aumentar o escopo de trabalho, um profissional múltiplo fortalece sua empregabilidade, pois desenvolve habilidades altamente demandadas, como o poder de adaptação, a agilidade frente às mudanças e a boa e velha resiliência. “Essas são qualidades bem-vistas por qualquer empresa.”, diz Alexandre.

PERFIL ESPECÍFICO

Mas esse tipo de carreira não é para todo mundo (faça o teste no final do post). Aqueles que forem apegados à rotina e à estabilidade financeira provavelmente serão infelizes atuando em mais de uma frente, a não ser que consigam conciliar um trabalho de meio período com as atribuições de outra carreira. As características mais importantes para se sentir realizado nesse esquema são: gostar de desenvolver vários projetos ao mesmo tempo, ter aptidão para criar relacionamentos, sentir vontade de desbravar um novo mercado, ter certa tolerância ao risco e, claro, ser curioso. “Quem descobre que uma segunda profissão faz sentido já pesquisou e experimentou vários tipos de trabalho. Sabe que o mundo está rodando e que precisa rodar junto”, afirma Eduardo Migliano, um dos fundadores da 99 Jobs, plataforma que conecta profissionais a empresas.

Criatividade e organização também são essenciais. “Essas pessoas têm vontade e energia acima da média, porque a dupla jornada requer maior esforço e disciplina, já que é preciso lidar com duas ou mais agendas”, diz Alexandre, da Robert Half.

Os atributos podem até parecer excessivos. Mas não se desespere: ninguém precisa ser um gênio da Renascença para trabalhar desse jeito. Tudo é uma questão de perfil. Por isso, antes de encarar a jornada, lance mão de uma boa dose de auto­conhecimento para entender se esse estilo tem, ou não, a ver com você. Afinal, só vale a pena entrar numa tendência se ela realmente fizer sentido para sua vida. Se parecer que essa não é sua praia, faça testes e reflita sobre os resultados. Essas são duas das verdadeiras habilidades dos gênios. Certamente Leonardo da Vinci aprovaria a atitude.

 

MULTIPLIQUE-SE

Destacamos atitudes que ajudam a encontrar (e a equilibrar) mais de uma área de atuação.

 PENSE NO QUE DÁ PRAZER

Avalie seus hobbies e interesses. Invista tempo refletindo sobre as atividades que lhe dão mais satisfação. Quando não está trabalhando, como gosta de passar o tempo? O que lhe daria muito prazer em fazer mesmo que não ganhasse dinheiro?

CRIE UMA LISTA

Anote todas essas atividades em um bloco de papel e considere se alguma delas poderi ser transformada em fonte de renda.

REFLITA SOBRE SI MESMO

Identifique no que você é bom e quais atividades fazem seus olhos brilhar. Quais são seus valores? Com que tipo de pessoa você deseja interagir? Quais projetos ou clientes o ajudarão a criar o impacto que deseja no mundo?

AMPLIE SEU REPERTÓRIO

Concentre-se em dominar algumas habilidades que se alinham com seus pontos fortes. Se necessário, busque conhecimento por meio de cursos extras e especializações.

REÚNA COMPETÊNCIAS

Quando pensar em quais carreiras seguir, prefira as que se complementam – tanto do ponto de vista das competências quanto dos possíveis clientes. Alguns exemplos são: executivo e consultor corporativo, jornalista e escritor de um blog especializado, advogado e professor.

USE O TEMPO LIVRE

Comece devagar com projetos que realmente o empolgam e que possam ser feitos em seu horário vago, como trabalhar ao lado de um amigo ou atuar como voluntário.

PRECIFIQUE CORRETAMENTE

Não negocie tempo por dinheiro. É melhor cobrar por projeto, e não por hora trabalhada. Caso contrário, você se verá trabalhando exaustivamente e correrá o risco de perder a flexibilidade.

REDISTRIBUA AS ATIVIDADES

Se puder, reduza seu trabalho principal para focar o crescimento de sua nova carreira. Um fisioterapeuta, por exemplo, que atende na própria clínica pode atuar três dias no consultório e usar os outros dois para a outra atividade.

TRABALHE COM EQULLÍBRIO

Organize sua agenda. Lembre-se de que ter mais de uma carreira não significa dormir menos horas, mas equilibrar as atividades e o tempo. Trabalhar 2 horas a mais por dia (pela manhã e à noite) e fazer um almoço mais rápido são algumas saídas.

MEÇA SEU DESEMPENHO

Trate sua outra carreira com a importância que dá a um grande cliente ou projeto. Elenque as prioridades e faça métricas de seus resultados.

IMAGINE O FUTURO

Tenha um plano para os próximos anos. É importante pensar sobre quais são os possíveis empregadores e clientes e em que local você teria de trabalhar caso a segunda carreira crescesse muito.

TROQUE IDEIAS

Use seu networking. Converse regularmente com as pessoas em sua rede sobre tendências em suas empresas e setores, especialmente no que se refere à terceirização e ao processo de contratação de consultores ou contratados independentes. E não se esqueça de expandir sua rede à medida que você entrar em novas áreas.

MANTENHA O NÍVEL

Cuide de sua reputação. Ela é a alma de quem está buscando novas atuações, pois são as indicações de clientes e colegas que vão ajudá-lo a encontrar novos projetos.

ESCOLHA A DEDO

Aprenda a dizer não. Ter uma carreira múltipla não significa fazer vários trabalhos como freelance por um tempo, mas construir fortes possibilidades de atuação em mais de uma área.

 

 SERÁ QUE É PARA VOCÊ?

Escolha uma das alternativas nas questões abaixo e saiba se seu perfil é adequado a desenvolver múltiplas carreiras.

1 – EM UMA ENTREVISTA DE EMPREGO, QUANDO O RECRUTADOR PERGUNTA SE HÁ ALGUMA DÚVIDA SOBRE A EMPRESA, O QUE VOCÊ QUESTIONA?

A – Como é o pacote de benefícios, a remuneração e os bônus

B – Se há possibilidade de home office e jornada flexível

2 – VOCÊ FICA MAIS FELIZ QUANDO É DESIGNADO PARA LIDERAR UM GRANDE E LONGO PROJETO OU PREFERE VÁRIAS ENTREGAS NO CURTO PRAZO?

A – projeto único

B – várias entregas

3 – EM RELAÇÃO A ASSUMIR RISCOS, VOCÊ SE SENTE:

A – confortável.

B – muito confortável.

4 – SE PUDESSE, FARIA MAIS HORAS EXTRAS PARA GANHAR MAIS DINHEIRO?

A – sim! quanto mais melhor

B – não troco minha qualidade de vida por grana extra

5 – Seu chefe dos sonhos seria:

A – Um líder inspirador que recompensa financeiramente seu esforço

B – vários contratantes de diferentes empresas

 

GABARITO

Conte suas escolhas

 MAIS LETRA A

Você é mais tradicional quando se trata de carreira e prefere manter o foco em uma área de atuação num único empregador. Não hã nenhum problema nisso, mas, caso queira ter mais flexibilidade, comece a pensar em quais de suas habilidades poderiam ser usadas para exercer uma nova atividade.

MAIS LETRA B

Suas respostas demonstram que você não teme o risco, que valoriza mais flexibilidade do que um pacote de benefícios associado à estabilidade de um emprego formal e que qualidade de vida e inovação estão entre suas prioridades. Você está mais alinhado ao estilo de vida de quem atua em múltiplas carreiras.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 29: 21-27

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 21 – Observe:

1. É imprudente que um senhor se apegue demais a um servo, que o promova com excessiva rapidez, e permita a excessiva familiaridade com ele, que aceite que ele se intrometa na sua dieta, e no seu modo de vestir e se alojar, e desta maneira o crie delicadamente, por ser um servo favorito e agradável; o senhor deve se lembrar de que ele é um servo, e, sendo assim gratificado, será arruinado para qualquer outra função. Os servos devem suportar as dificuldades.

2. É algo muito ingrato em um servo, mas muito comum, comportar-se de maneira insolente, porque foi tratado com carinho. O humilde filho pródigo se julga indigno de ser chamado de filho, e se concentra em ser um servo: o jovem mimado se julga bom demais para ser chamado de servo, e por derradeiro quererá ser um filho. tomará sua liberdade, se julgará igual ao seu senhor, e talvez tenha pretensões à herança. Que os senhores deem a seus servos aquilo que é justo e adequado a eles, nem mais, nem menos. Isto se aplica ao corpo, que é um servo da alma; os que tratam o corpo com delicadeza. que o mimam e cuidam excessivamente dele, verão que, no final, ele esquece o seu lugar, e se torna um filho, um senhor, um perfeito tirano.

 

V. 22 – Veja aqui o dano que se origina de uma índole irada, inflamada, furiosa.

1. Os homens se provocam, uns aos outros: o homem iracundo levanta contendas, é incômodo e briguento na família e com os outros, alimentando as brasas das contendas, e até mesmo força a urna briga os que desejariam viver tranquilamente ao seu lado.

2. Os homens provocam a Deus: o furioso, que se casa com o seu temperamento e com as suas paixões, não pode deixar de multiplicar as transgressões. A ira indevida é um pecado que causa muitos outros pecados; não somente impede que os homens invoquem o nome de Deus, mas faz com que praguejem, e amaldiçoem, e profanem o nome de Deus.

 

V. 23 – Isto está de acordo com o que Cristo disse, mais de uma vez:

1. Que aqueles que se exaltam serão humilhados. Os que pensam conquistar respeito, exaltando-se acima de sua posição, apresentando-se como nobres, falando de maneira importante, apresentando-se como elegantes e aplaudindo a si mesmos, ao contrário, somente se exporão ao desprezo, perderão a sua reputação, e provocarão a Deus, que tomará providências humilhantes para abatê-los e derrubá-los.

2. Os que se humilham, serão exaltados, e estabelecidos em sua dignidade: o humilde de espírito obterá honra; a sua humildade é a sua honra. e os tornará verdadeiramente e seguramente excelentes, e os recomendará à estima de todos os que são sábios e bons.

 

V. 24 – Veja aqui em que pecado e ruína se envolvem os que são arrastados pela sedução dos pecadores.

1. Eles trazem para si mesmos uma grande culpa: faz isto o que tem parte com o ladrão, que rouba e engana, e lança sua sorte entre eles (Provérbios 1.11, e versículos seguintes). O receptor é tão ímpio quanto o ladrão; e, sendo levado a unir-se a ele, na comissão do pecado, não pode deixar de se unir a ele, no encobrimento do pecado, ainda que seja com os mais terríveis perjúrios e execrações. Ele ouve maldições. quando deveria dizer toda a verdade, e não o denuncia.

2. Eles se precipitam à total ruína: odeiam as suas próprias almas, pois voluntariamente farão o que será a sua destruição inevitável. Veja os absurdos de que os pecadores são culpados; amam a morte, o que há de mais terrível, e odeiam as suas próprias almas, o que há de mais precioso.

 

V. 25 – Observe aqui:

1. Nós somos advertidos a não temer o poder dos homens, nem o poder de um príncipe nem o da multidão; ambos são suficientemente formidáveis, mas o receio servil a qualquer deles é um laço, isto é, expõe os homens a muitos insultos (alguns se orgulham de aterrorizar os temerosos), ou melhor, expõe os homens a muitas tentações. Abraão, por temor ao homem, negou sua esposa, e Pedro, o seu Mestre, e muitos negam o seu Deus e a sua religião. Não devemos recuar do dever, nem cometer pecado, para evitar a ira do homem, e nem devemos nos inquietar com temor, ainda que a vejamos aproximando-se de nós (Daniel 3.16; Salmos 98.6). O homem é mortal (Isaias 51.12) e pode apenas matar o nosso corpo (Lucas 12.5).

2. Nós somos encorajados a confiar no poder de Deus, que nos guardará de todo aquele receio do homem que causa tormento ou tentação. Quem depositar a sua confiança no Senhor, em busca de proteção e provisão, no caminho do dever, será posto em alto retiro, acima do poder dos homens e acima do receio desse poder. Uma santa confiança em Deus engrandece e tranquiliza o homem, e o capacita a olhar com gracioso desprezo os mais formidáveis desígnios do inferno e da terra contra ele. “Eis que Deus é a minha salvação; eu confiarei e não temerei”.

 

V. 26 – Veja aqui:

1. Qual é o caminho comum que os homens tomam para progredir e enriquecer, e se enaltecer: eles buscam a benevolência do governante, e, como se todo o seu juízo procedesse dele, a ele fazem toda a corte. Salomão era um governante, e sabia com que diligência os homens o buscavam, alguns em uma tarefa, outros em outra, mas todos buscavam a sua benevolência. O caminho do mundo consiste sempre em buscar o melhor relacionamento possível com os grandes homens e esperar muito dos sorrisos que têm segundas intenções, e que, no entanto, são incertos, e frequentemente desapontam os homens. Muitos se esforçam buscando a benevolência do governante, e não conseguem obtê-la; muitos podem tê-la por algum tempo, mas não conseguem se conservar nela. em um momento ou outro incorrem no seu desprazer; muitos a têm, e a conservam, mas ela não corresponde à sua expectativa, eles não conseguem aproveitá-la como pensavam que poderiam. Hamã teve a benevolência do governante, mas isto não lhe serviu de nada.

2. Qual é o caminho mais sábio que os homens podem tomar, para ser felizes. Devem olhar para Deus, e buscar o favor do Príncipe dos príncipes; pois o juízo de cada homem vem do Senhor. Conosco, não é como o príncipe quiser; o seu favor não pode nos fazer felizes, e a sua reprovação não nos torna infelizes. Mas tudo está sob a vontade de Deus; cada criatura é, para nós, o que Deus a criou para ser. nem mais, e nem diferente. Ele é a primeira Causa, da qual todas as segundas causas dependem; se o Senhor não ajudar, ninguém poderá fazê-lo (2 Reis 6.27; Jó 34.29).

 

V. 27 – Isto expressa não somente a oposição inata que existe entre a virtude e a maldade, como entre a luz e as trevas, o fogo e a água, mas também a antiga inimizade que sempre existiu entre a semente da mulher e a semente da serpente (Genesis 3.15).

1. Todos os que são santificados têm uma antipatia enraizada pela iniquidade e pelos ímpios. Eles têm boa vontade com as almas de todos (Deus tem, e não deseja que ninguém pereça), mas odeiam os caminhos e procedimentos dos que são ímpios com relação a Deus, e ofensivos aos homens; eles não podem ouvir falar deles, nem falar deles, sem santa indignação; eles odeiam a sociedade dos ímpios e injustos, e temem a ideia de estimulá-los, mas fazem tudo o que podem para trazer a um fim a impiedade dos ímpios. Assim, os homens injustos se tornam odiosos para os justos, e contribui para a sua vergonha e punição o fato de que os homens bons não conseguem suportá-los.

2. Todos os que não são santificados têm uma antipatia igualmente enraizada pela santidade e pelas pessoas piedosas: aquele que é de retos caminhos, que se importa com o que diz e faz, é uma abominação para os ímpios, cuja iniquidade talvez seja suprimida e restringida ou, pelo menos, envergonhada e condenada pela retidão dos retos. Assim aconteceu com Caim, que foi um demônio para o seu pai. A iniquidade dos ímpios é o fato de que odeiam aqueles a quem Deus ama, e, além disso, são também infelizes, pois odeiam aqueles a quem verão, em breve, em eterna bem-aventurança e honra, e que terão domínio sobre eles na manhã (Salmos 49.14).

OUTROS OLHARES

PRECISAMOS FALAR DE SEXO

Especialista em medicina sexual, o carioca Alexandre Miranda alerta para o perigo de informar- se sobre o tema pela internet e aponta mitos que ainda persistem na sociedade.

Precisamos falar de sexo

Sempre que se reúne com os amigos em algum bar da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde mora, o médico Alexandre Miranda vira o centro das atenções. Todos querem saber um pouco mais sobre seu trabalho e, às vezes, aproveitam para uma consulta disfarçada. “Garanto que, se fosse oftalmologista, não iria despertar tanto interesse”, brinca ele. Miranda, de 42 anos, é especialista em medicina sexual, formado pelo St Catherines College da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e aprovado no exame do Comitê Europeu de Medicina Sexual (um dos três únicos brasileiros a ter essa certificação). À frente do setor de andrologia e urologia reconstrutora do Hospital Federal de Ipanema, Miranda acompanha de perto as dúvidas sexuais de homens e mulheres, uma área sobre a qual a seu ver, ainda se fala muito pouco.  “O sexo precisa ser tratado de maneira mais natural, sem tabus. É uma questão de saúde pública”, diz. Em entrevista, ele iluminou temas pouco discutidos.

SEXO E INTERNET

“O consumo de pornografia aumentou muito com a popularização da internet e dos smartphones. A educação sexual que os jovens recebem hoje, em principalmente dos vídeos a que eles assistem cada vez mais cedo. Isso tem criado expectativas pouco realistas, com sérios efeitos colaterais. O rapaz olha para si mesmo, compara-se com o ator e se sente inferior. Pensa que o ato sexual tem de durar uma hora para ser bom e se frustra. A mulher acredita que precisa se submeter a tudo para satisfazer o parceiro. A euforia cenográfica torna uma relação normal menos interessante. São noções muito erradas, que prejudicam a autoestima de todos”.

TEMPO AO TEMPO

“O intervalo médio entre a penetração e a ejaculação masculina é de cinco minutos e trinta segundos. Para muitas mulheres, cinco minutos não é o suficiente para alcançar a excitação. Costumo usar a seguinte comparação: enquanto ele é um forno elétrico, ela é um forno a lenha. Por outro lado, a mulher conta com a grande vantagem de ser capaz de ter um, dois, três orgasmos seguidos. Para todo mundo ficar satisfeito, o homem precisa investir no antes ou no depois da mulher. E não custa lembrar: também precisa ter conhecimento da anatomia feminina. Isso é informação básica.”

NÃO É DOCUMENTO

“Quando pergunto a meus pacientes qual o tamanho médio de um pênis ereto, a resposta-padrão é ’18 centímetros’. Errado. Na verdade, está longe disso: 13 centímetros. Pode parecer pequeno, mas é assim que ele se encaixa melhor na anatomia feminina – sem falar que, nela, as principais terminações nervosas, como o clitóris, estão do lado de fora. O que faz diferença na relação sexual definitivamente, não é o tamanho do pênis.”

CADÊ O ORGASMO?

“É mais comum do que se pensa a mulher fingir orgasmo. Não existe estudo que crave um percentual, mas os pesquisadores trabalham com a estimativa de 40 % no mundo. Eu desconfio que seja mais. Muitas mulheres nunca tiveram um orgasmo na vida e não conseguem tocar no assunto com o parceiro. É como se sentissem culpa por não conseguir e chamassem a responsabilidade unicamente para si. A emancipação feminina é um fato, mas no sexo elas se conhecem pouco e são muito reservadas em relação a seus problemas.”

PRAZO DE VALIDADE

“Uma pesquisa do University College London, chamada “Base neural do amor romântico”, mostrou a casais uma foto do parceiro em diversas fases do relacionamento e mapeou suas reações cerebrais através de ressonância dinâmica. No início, as imagens fizeram com que várias partes do cérebro, principalmente as mais primitivas, reagissem. Três anos depois, as mesmas regiões não apresentaram estímulo. Daí a conclusão de que a paixão dura três anos e depois dá lugar a novos sentimentos ou a um novo relacionamento. Uma das explicações é genética: mantendo relações curtas, as mulheres têm filhos de pais diferentes, e para a espécie a variedade de DNA é mais interessante”.

MÍNIMO É MUITO

“Um estudo publicado no The Journal of Sexual Medicine mostrou que o casal que contabiliza ao menos quatro relações sexuais por mês tem menos probabilidade de se separar. Não existe um número ideal, mas eu diria que esse é o mínimo em um relacionamento saudável. Pode parecer pouco, mas as pesquisas também revelaram que o homem casado faz mais sexo que o solteiro, porque é prático, seguro e confortável”.

RAZÃO E TRAIÇÃO

“Os índices de infidelidade masculino e feminino são bem diferentes: 60% e 25%, respectivamente. Do ponto de vista fisiológico, a explicação para tanta discrepância está na testosterona, o principal hormônio sexual masculino. Prova disso é que os percentuais de traição entre homossexuais do sexo masculino são muito maiores do que entre homem e mulher ou entre duas mulheres. É claro que o hormônio não serve de desculpa para a traição. Digo e repito aos meus pacientes: você não é macaco, você é um cara racional.  A racionalização pode vencer o instinto. O ser humano sempre consegue ser do contra. Nós modificamos a natureza todos os dias”.

APRENDE-SE NA ESCOLA

Nenhum país é mais evoluído hoje em dia em matéria de educação sexual do que a Holanda – o que é curioso, porque a sociedade holandesa é bastante conservadora. Lá a educação sexual é disciplina ensinada desde cedo na escola e isso faz toda a diferença, como comprovam os baixos índices de doenças sexualmente transmissíveis, de gravidez indesejada e de abortos clandestinos. Não se trata de invadir a crença das famílias, ir contra o que prega a Igreja ou masturbar bebês – a insanidade que a ministra Damares Silva chegou a propagar em pelo menos uma ocasião. Educação sexual é um conjunto de informações técnicas que precisam ser divulgadas. E, quanto mais cedo aprendermos a falar sobre o assunto de maneira natural, melhor todo mundo vai lidar com ele”.

GESTÃO E CARREIRA

MESTRE EM SUPERAÇÃO

Primeira professora com síndrome de Down no Brasil, Débora Seabra de Moura lutou para conquistar seu espaço no mercado de trabalho. Hoje, ela é uma referência na inclusão de pessoas com deficiência.

Mestre em superação

“O que será que essa professora ensina?” Esse foi o comentário que a desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, fez no Facebook quando soube que o Brasil tinha uma educadora com síndrome de Down. A fala dizia respeito à Débora Seabra de Moura, que desde 2005 é auxiliar de uma classe de ensino fundamental em Natal (RN). A profissional não se intimidou como preconceito e respondeu sobre seu trabalho em uma carta aberta: “Estudo planejamento, participo das reuniões, dou opiniões, conto histórias acompanho aulas de inglês, música e educação física e muitas outras coisas”. O amor pelos livros começou na infância, quando Débora pôde estudar numa escola que não era específica para quem tem Down. Isso gerou uma sensação de acolhimento e estimulou sua vontade de trabalhar na área. Para conquistar o objetivo, entrou no magistério da Escola Estadual Luiz Antônio e, mais uma vez, enfrentou o preconceito. Alguns colegas foram intolerantes e o coordenador do curso teve de intervir. Com a ajuda da mãe, que a auxiliava nos estudos, ela superou os obstáculos e conquistou o diploma. Formada, bateu à porta de uma escola particular de Natal e se voluntariou como educadora auxiliar. “As professoras me ajudaram a aprender o trabalho.” Mas suas tarefas não se limitam aos quadros-negros. Débora é vice-diretora da regional do Nordeste da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, função que a Ieva à viajar pelo Brasil e para o exterior – já ministrou palestra até na sede da ONU em Nova York. Além disso, é autora de um livro de fábulas infantis sobre superação e amizade.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PRODUÇÃO DO SILÊNCIO

O filme um lugar silencioso enfatiza como nossa humanidade está inscrita pela capacidade de comunicação que nos remete à construção do simbólico que sustenta a subjetividade.

A produção do silêncio

“É preciso ouvir palavras que jamais foram ditas, que ficaram no fundo dos corações (perscrute o seu coração: elas estão lá); é preciso fazer com que os silêncios da história falem” (Citação de Joyce McDougall no livro Teatros do Corpo O Psicossoma em Psicanálise)

Filme dirigido por John Krasinski, que também atua nele e participou do roteiro. Há notícias que antes de sua entrada na produção do filme havia sequências com diálogos em forma de lembranças antes da invasão alienígena.

No filme que chega aos cinemas não há maiores pistas de onde vêm os monstros que ameaçam, e  todo o clima de medo e terror ocorre pela necessidade absoluta de a família Abbott (Lee, Evelyn, Regan, Marcus e Beau) ter que permanecer sem produzir qualquer som para que não atraiam o ataque dos invasores predadores. O suspense é dado por cada quebra dessa regra, com consequência para Beau (Cade Woodward), que a desobedece. À primeira vista, a produção poderia parecer destituída de capacidade de prender o espectador, mas o que vemos é que alcançou com eficácia esse objetivo. Sua bilheteria já bateu a marca de 340 milhões de dólares e a história já tem previsão de produzir um segundo filme que contaria, segundo declarou Krasinski, a história da origem desse monstro que teria vindo de um planeta onde não havia luz e se desenvolvido aqui até se tornar uma máquina assassina quase perfeita.

A tensão permanente no filme faz pensar em muitas questões e traz ao espectador uma estranha angústia. Entendemos quanto o ato de comunicar-se pela fala faz parte das necessidades mais básicas do humano. A vida produz sons, e quanto mais barulhenta, mais viva! Um parque de crianças nos dá essa dimensão, um bebê que chega ao mundo é puro barulho já na sua capacidade de se comunicar. No longa, esse aspecto toma um tom apavorante. Somos, ao longo da existência, ao mesmo tempo que ensinados a falar, também ensinados a calar, a construir maiores áreas de silêncio, do que não se deve dizer. No caso desse intrigante roteiro, não produzir sons é mesmo questão de sobrevivência, como é avisado no trailer de divulgação, que diz: “silêncio é sobrevivência”, entregando o mote da produção.

A produção do silêncio. 2

SINTONIA DA FAMÍLIA

A ameaça aos membros dessa família virá caso eles produzam qualquer espécie de som. Para sua proteção, desenvolvem toda uma dinâmica para se relacionar e conviver sem produzir perigo, estudam e se falam através da linguagem desenvolvida para surdos, e assim permanecerem unidos sem precisar abrir mão da necessidade vital de se comunicar. O clima de pavor diante de qualquer ação que produza ruído toma o espectador, a fera está sempre à espreita e corre para destruir com precisão. Podemos nos atrever um pouco e estender então a fórmula do roteiro afirmando que produzir silêncio é garantir a continuidade da vida. De quantos silêncios a vida de cada um é feita? Esse aspecto é fundamental para o fazer psicanalítico, fazer falar o que se oculta e que ainda assim produz ação na tentativa de comunicar.

A filha do casal Lee (John Krasinski) Evelyn (Emily Blunt), a adolescente Regan (Millicent Simmonds), traz a todo momento, com sua natural rebeldia da idade, risco para a família, que precisa atender cada regra que impôs em seu funcionamento para que possam todos sobreviver dentro da fazenda onde se refugiaram, no meio oeste americano. Dessa maneira, o burburinho do questionar que um adolescente costuma trazer ao funcionamento da família fica ainda mais sublimado com tensão. A culpa que cada um sente pela perda de Beau ganha fala através dos vigorosos questionamentos de Regan, inclusive a própria culpa que ela sente por ter rompido com um dos combinados, e assim colocar Beau em risco, por sua inocência e ainda incompleta compreensão dos porquês dos combinados, cedendo a um simples desejo e curiosidade, ele é capturado pelo monstro. Aqui podemos nos aventurar em outra incursão curiosa e traçar um paralelo do quanto vemos na clínica a criança como “sintoma da família”, a forma como tenta trazer para o manifesto aquilo que se esconde, muitas vezes paga um alto preço por assim ser, sofre e evidencia uma angústia que carrega o peso de muitas “transferências cruzadas”. Aquele ser tão indefeso é um gigante ao ter derramado sobre si uma incontável quantidade de expectativas, amores e dores.

O filme sem dúvida mobilizou bastante um grande público. Podemos auferir isso pela bilheteria que acabou alcançando. O espectador se mobiliza talvez sem muita consciência do quanto o filme fala de algo muito intimamente ligado a ele mesmo. Mexer com os silêncios de cada um é uma tarefa sempre muito delicada. Cada divã conhece a sutileza que há no abrir uma área protegida de ruídos, onde aquilo que se cala finalmente ganha voz sem chamar o assustador perigo. O silenciar que um dia protege toda uma dinâmica psíquica precisa romper esse pacto em algum momento para o pleno desenvolvimento do sujeito, e isso contempla uma análise, ao que precisa ser dito em voz alta, abandonando assim a obscura zona do não dito.

A produção do silêncio. 3

RUÍDOS PROTEGIDOS

Outra porta de análise possível sai do âmbito individual para alcançar o coletivo. Pensamos que aquele que viveu sob algum regime de exceção ficará ainda mais tocado com o encaminhamento dos fatos a que assiste. O medo de falar, de produzir o som que não pode existir frente ao que oprime, a censura à manifestação livre da vontade são das mais terríveis vivências sutis, portanto, enlouquecedoras, porque já trazem com seu fim o próprio ato que operam. Qualquer censura cala duplamente. Nomear, dar lugar de existência ao falar. Escolher uma palavra é escolher toda uma narrativa, jamais é algo acidental, porque simboliza toda uma experiência. Algumas vivências são tão absurdas que se tornam indizíveis, acabam em grito, esse mecanismo tão animal e fundamental. A palavra, aquilo que nos separa das feras, ou nos transforma nelas. Lee e Evelyn, enquanto mantenedores das regras que censuram os sons, são os que impõem e ao mesmo tempo os que sofrem da impossibilidade da livre comunicação. Evelyn está grávida, uma nova vida chegará sem que se possa impedir, a não ser entregando-a ao monstro, que ela grite suas necessidades. Sabendo disso, preparam um local para isolar o som quando esse bebê chegar, mas nada estará assim tão sob controle.

O filme se torna interessante para nossa análise a partir do momento que nos lança a quase duas horas de sustos e angústia frente a quase nenhuma palavra, um filme sem som, mas não necessariamente sem comunicação, como é quase todo conteúdo psíquico formador de ansiedade, que comunica muitas vezes por sintomas repletos de dor, mas que oculta uma quantidade de realização que, enquanto não vista como tal, resistirá à transformação e a novas possibilidades. Há muita vida ocorrendo sob o manto do silêncio. Uma fórmula que a produção buscou, um tanto quanto ousada, pensamos que antes de aplicá-la, a certeza de dar certo era quase nenhuma, mas intuitivamente talvez, em tempos de muitas vozes sem conteúdo ou afetada ligação, talvez eles tenham entendido que os nossos medos contemporâneos sejam mesmo mais bem representados pelo silêncio. Chegando então a essa nova fórmula, que já tem similares que não conseguiram sustentar o que esse filme sustenta, o diálogo praticamente totalmente ausente. No momento de elaboração desse texto, uma nova produção indo na mesma onda que a de Krasinski entrou para o catálogo de um serviço de streaming, o filme The Silence (2019), mas que embora busque a mesma fórmula não alcançou (ou não compreendeu) a sutileza que faz de Um Lugar Silencioso um roteiro que vale a pena olhar com mais profundidade.

A produção do silêncio. 4

ROMPER SILÊNCIOS

No final do filme, que prometeu entregar uma continuação, vemos Evelyn e Regan obrigadas a enfrentar o predador com arma em punho e a certeza de que é preciso enfrentar o que atemoriza.

É no mínimo interessante pensar que o jeito de chamar para a armadilha fatal esse monstro seja produzir barulho, assim parece que, embora aterrorizante, não seria tão difícil assim enfrentá-lo de forma a extinguir o perigo, talvez a fórmula do Bird Box (2018), em que o que realmente não pode ocorrer é olhar para os monstros, seja mais desalentadora, menos comprometida com a possibilidade de compor novas formas de preservação. Pensamos que é muito provável que uma grande parcela dos espectadores termine de assistir sentindo uma angústia meio sem fácil explicação, afinal trata-se apenas de mais um filme de suspense/ficção. Mas talvez a questão que ele toca sobre a da impossibilidade de produzir os sons, hábito que acontece naturalmente na vida humana, uma necessidade que, de tão natural, pouco falamos sobre ela, acabe por remeter a detalhes muito mais caros à subjetividade e mesmo à cidadania.

A censura e o conceito de recalque, em termos psicanalíticos, têm toda uma questão como origem  de pânico e angústia. Mas, sem dúvida, em qualquer ponto que paremos para analisar, individualmente ou coletivamente, sabemos que é preciso que a vida produza seus sons e que se possa falar, gritar e chorar para que ela siga seu curso livremente.

Como sobreviverá a nova vida, o bebê de Evelyn, em um mundo onde seus sons naturais, sua tentativa de comunicar-se o ameaçam de extinção? Como podemos suportar tantos silêncios em torno de coisas que oprimem e ameaçam? O filme de Krasinski situa-se em uma área entre um bom entretenimento e uma metáfora que os filmes de arte costumam erguer com beleza. Nessa linha divisória, terminou por produzir um cinema interessante, um bom filme que mobiliza sem grandes pretensões. Romper silêncios foi sempre uma tarefa cara à Psicanálise, que constrói caminhos possíveis para que o que atemoriza ganhe uma fala, linguagem, possibilidade de compor novas alternativas menos ameaçadoras e quem sabe mais vivas.