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O TIO C.

O maior caso de estupro em escolas da década ocorreu na pacata Ilha de Paquetá e continua há cinco anos sem investigação concluída, com o principal suspeito ainda desaparecido.

O tio C

Na tarde de 16 de junho de 2013, o filho de 8 anos de S. compartilhou um segredo com a mãe. Disse que o professor C., que dava aula para ele no turno da manhã, tinha um procedimento esquisito na hora da correção do dever de casa. Não colocava as respostas no quadro-negro. Mandava as crianças abaixarem a cabeça e obrigava que escondessem o rosto nos braços cruzados sobre a carteira. Então chamava um por um para explicar a lição corrigida e entregar o caderno. Movido pela curiosidade, o menino contou que um dia levantou os olhos. Viu que o professor colocava as meninas no colo. E as apalpava.

No momento em que S. ouviu o relato, entrou em contato com outras mães. Passou a noite fazendo ligações. Começava a tomar forma o maior registro de estupro em escolas desde 2010. Oito anos depois, o inquérito segue sem conclusões da polícia nem sentença da Justiça. Um exemplo de descaso com a saúde física e psíquica de dezenas de crianças.

O estupro em série abalou a rotina da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, bairro com menos de 5 mil moradores, isolado na Baía de Guanabara e conhecido por ser um balneário livre da violência da capital. O epicentro da crise estava na Escola Municipal Joaquim Manuel de Macedo. A instituição homenageia o escritor romântico do século XIX, autor de A moreninha, obra clássica que narra um amor proibido numa ilha pacata, tal como Paquetá.

A escola é a maior do bairro. Tinha então 304 crianças, a maior parte entre 6 e 11 anos. O professor dava aula para duas turmas, somando cerca de 50 alunos. Na ilha, onde todo mundo se conhece, a história dos abusos correu mais veloz do que qualquer bicicleta – o principal meio de locomoção em Paquetá, onde carros não entram.

R., uma das mães, contou que vinha notando o comportamento atípico da filha de 8 anos. A criança andava desatenta. Antes vaidosa, sempre querendo se maquiar, não se arrumava mais. Nem sequer penteava o cabelo para ir à escola. Só prendia os fios num coque. Reclamava de dor de barriga com frequência, clássica desculpa para faltar às aulas. Tinha preocupação enorme em nunca deixar de fazer o dever de casa. “Chorava. Eu perguntava por que tanto desespero. Ela dizia que quem não fazia o dever tinha de passar o recreio sozinho com o professor.”

Em 17 de junho, quando recebeu a ligação de S., ela se lembrou de um alerta que ignorara meses antes. A filha havia comentado que o professor tinha dado um tapa na bunda de uma de suas amigas. “Não levei a sério, achei que ele podia ter tentado dar um tapinha nas costas da menina e acertou a bunda dela. Achei que era paranoia minha.”

R. questionou a filha novamente. “Ela disse que o tio C. botava a mão embaixo de sua camisa, fazia que sentasse em seu colo. Ameaçava dizendo que, se não o atendesse, não iria passar de ano e ficaria com nota zero”, disse o relato formalizado no posto avançado da 5ª Delegacia de Polícia (DP), que funciona no bairro.

Outras mães ouviram histórias parecidas. Em alguns casos, piores. Pelo menos duas relataram que as filhas, ambas de 7 anos, teriam sido obrigadas a praticar sexo oral no professor. Nesses casos, os abusos aconteciam dentro da sala de projeção, no auditório da escola. O professor, de acordo com as meninas, as colocava para assistir a um filme. Durante a projeção, escolhia aquela que levaria para dentro da sala, na qual ficavam a sós.

Os relatos diversos mostravam que o professor tinha um método. Ele misturava ameaças com incentivos para manter as vítimas em silêncio. Uma hora, prometia notas boas, depois, dizia que repetiria de ano quem não fizesse o que ele determinava. Em um caso, pelo menos, disse para a menina que, se contasse algo para a mãe, seria levada embora da família pelo Conselho Tutelar. Em outro, disse que mataria a família da criança. “Ele ia na maciota, usava a gente. O que mais me afetou foi isso. Nas reuniões de pais, ele pedia para a gente reforçar com nossas filhas que elas tinham de lhe obedecer, que ali ele era a lei. Eu mesma fiz, falei para minha filha ‘faz o que o professor tá falando”‘, contou R.

Inicialmente, quatro mães foram prestar queixa. Uma das mães nem conseguiu falar, só chorava. Do lado de fora do posto, uma multidão se aglomerou para entender o que acontecia. “Juntou um grupo de mães dizendo que a gente estava inventando, que o professor era bonzinho, que uma delas até levava bolo para ele na escola”, disse R.

Havia oito vítimas de estupro no registro de ocorrência, o maior registro de estupro em escolas, de acordo com o Instituto de Segurança Pública. O menino que reportou o caso também foi classificado como vítima. Na data do fato, a criança mais nova vítima de estupro tinha 7 anos e a mais velha 11. Embora o caso seja de junho de 2013, algumas foram molestadas em 2012, ano em que o professor começou a dar aulas em Paquetá. Posteriormente, o Ministério Público (MP) viria a entender que foram seis vítimas, mas enfatizou que o número de menores vítimas de abuso poderia ser maior.

“Teve muito mais meninas”, disse S. “Muitas mães decidiram não registrar queixa porque eram da igreja”.

Laudos psicológicos de três crianças foram elaborados para tentar averiguar se os depoimentos seriam fantasiosos ou resultado de falsa memória. Todos apontam que os discursos não têm indícios de ser fabricados. Finalizados nos primeiros meses de 2014, eles mostram ainda a confusão das meninas e o impacto que a denúncia teve na vida delas. “Os sentimentos de vergonha e culpa com relação aos contatos sexuais perpetrados pelo professor, bem como os sentimentos de raiva expressos com relação a ele, podem comprometer a autoestima de X., que, em alguns momentos, se vê como pessoa ruim por ter sentimentos tão negativos em relação ao professor, que, para ela, passou a ser também uma referência afetiva”, diz o laudo de uma das crianças. ‘”Eu via que ele parecia que gostava de mim, dizia que eu era bonita (…) às vezes penso em juntar dinheiro para tirar o tio C. da cadeia, mas às vezes queria que ele morresse’.”

Uma noite, no ano passado, a filha de R. acordou gritando. A mãe foi até o quarto acudir a criança, que contou ter sonhado com o professor. Não era a primeira vez. A mãe teve de reaprender a cuidar da criança. “Nunca quis ouvir os detalhes, mesmo ela querendo contar. Depois, fiquei muito protetora, não queria nem ela usando shortinho curto, não queria que ela chamasse a atenção. A psicóloga falou que era importante eu deixar ela ser criança, não tratar diferente.”

Hoje, a mãe conta que a filha voltou a ser criança. “Vejo outras meninas que passaram pela mesma coisa, mas não tiveram tratamento. Elas parecem mais adultas, como se tivessem crescido antes do tempo”, avaliou R. Além do sono tranquilo da criança, o caso destruiu seu sonho. “O sonho dela era ser atriz”, contou. Depois do estupro, a filha deixou de querer se expor. A reportagem perguntou qual era o sonho da criança hoje. “Hoje nem sei mais. Mas às vezes ela olha para a TV e me diz: ‘Podia ser eu lá, não é, mãe?’. Mexeu com ela, mexeu sim.”

Mais do que um caso de destaque pelo número de vítimas, os abusos em série ocorridos na ilha também chamam a atenção pela lentidão dos órgãos oficiais. Cinco anos depois, o inquérito não chegou aos tribunais e o professor continua integrando os quadros da prefeitura do Rio de Janeiro. Essa demora não é exceção. De 2010 a maio de 2017, houve 639 estupros em estabelecimentos de ensino, de acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP). Analisou-se dez casos com múltiplas vítimas, como o de Paquetá, e constatou-se que apenas um deles chegou aos tribunais. Foi arquivado por falta de provas. Todos os nove restantes são inquéritos, alguns mais antigos que os da ilha. Somados, esses dez casos contabilizam 48 estupros de menores.

A demora torna praticamente impossível a condenação dos culpados, afirmou Itamar Gonçalves, gerente da Childhood Brasil, ONG internacional que luta contra o abuso infantil. “Muitas vezes, a criança que faz a denúncia não é a única vítima. E, ao responsabilizar esse adulto, evita-se o abuso de outras. É preciso mostrar para a criança que a coragem dela valeu a pena”, declarou. “Hoje, na Justiça tradicional, uma denúncia desse tipo em geral entra pelo Conselho Tutelar, chega à delegacia e depois vai ao tribunal. Somando tudo isso, dá uns quatro anos. Se for rápido, vai em torno de dois. Muitas vezes a própria família exerce uma pressão tremenda em cima da criança para que deixe o assunto de lado, o que pode acabar acontecendo.”

Sandra Pinto Levy, coordenadora do Núcleo de Depoimento Especial de Crianças e Adolescentes (Nudeca) do Tribunal de justiça (TJ) do Rio, apontou que a escuta de crianças no sistema da Justiça é um tema delicado. Em geral, casos de abuso sexual infantil não deixam vestígio, se a palavra da vítima é uma das poucas provas no processo. Diante de uma denúncia de um possível abuso, o sistema deve agir o mais rápido possível. principalmente quando se trata de uma criança mais nova.

O grande problema da demora de qualquer investigação no sistema legal é a memória das crianças. Maleável, ela pode sofrer distorções, transformar algo sugestionado em real. Esse sugestionamento por parte de um adulto pode ser proposital ou não. Levy deu como exemplo o pai ao cuidar da assadura da filha e passar pomada. Dependendo de como a pessoa que ouve o fato o recebe e faz indagações, pode alterar o acontecimento na mente da criança. “A menina pode chegar à casa da mãe e dizer que o pai passou a mão, que está ardendo. Sem querer, a mãe pode fazer perguntas indutivas, com perguntas fechadas de sim ou não. E a criança, em deferência ao adulto, vai respondendo positivamente, o que pode transformar aquilo em um outro acontecimento”, exemplificou. “Dependendo do tempo decorrido, até que um especialista venha ouvir a criança, poderá ser difícil ou impossível constatar se é real ou não. Quando se aborda de forma indutiva, pelo susto, sem cuidados com as perguntas, a mãe pode gerar uma memória na criança e aquilo pode passar a ser verdade para ela. Aí não há mais como saber.”

Na legislação, a luta contra o abuso infantil passou por duas revoluções recentes: a primeira em 2009, e a segunda neste ano. Antes de 2010, entendia se que só eram estupros os casos em que havia a chamada “conjunção carnal”, o que excluiria, por exemplo, os crimes cometidos em Paquetá. A nova legislação, porém, entende que outros atos de abuso sexual mediante força podem ser caracterizados como estupro. Caso a legislação antiga ainda estivesse valendo, nenhum dos dez casos analisados poderia ser considerado estupro.

A segunda mudança foi a chamada Lei da Escuta (Lei 13.431/2017), que estabelece princípios para a escuta protegida de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. O objetivo é evitar que a criança passe por diversas entrevistas na rede de proteção. Além de revitimizar, essa repetição de entrevistas influencia a lembrança, pois a cada conversa a criança absorve percepções, impressões ou palavras que poderão se associar à memória.

De acordo com Sandra Levy, pesquisas apontam que hoje meninas e meninos são ouvidos de oito a dez vezes ao longo de um processo, precisando repetir a situação de violência sofrida para diversos órgãos de atendimento. A nova legislação cria a “escuta especializada” e o “depoimento especial”, ambos já praticados no TJ do Rio por uma equipe de psicólogos e assistentes sociais treinados.

Um grupo de trabalho que reúne membros do Tribunal de Justiça do Rio, do Ministério Público, da Polícia Civil, das secretarias estaduais de Saúde e Assistência, da OAB e da Fundação da Infância e Juventude (FIA) busca formas de aplicar a nova lei no estado. “O objetivo é organizar e instituir normas padronizadas para todo o estado, organizando as competências e as atribuições de cada órgão de atendimento e, além disso, como se dará a comunicação entre esses órgãos.”

Se o caso de Paquetá algum dia chegar aos tribunais, os depoimentos das crianças, hoje cinco anos mais velhas, serão determinantes. Elas precisarão voltar ao passado para rememorar o ocorrido, já dentro do sistema de “depoimento especial”. Nele, as crianças vão conversar com um psicólogo treinado, que servirá de intermediário entre as perguntas do promotor, da defesa e do juiz sobre o caso. O especialista usará um ponto eletrônico e o vídeo da criança será transmitido ao vivo para a sala onde ocorrerá o julgamento.

Como os laudos de corpo de delito deram todos negativos, a palavra das vítimas será a principal arma da promotoria. E a memória delas, depois de todo esse tempo, será testada.

A demora da Justiça pode ter dificultado a produção de provas físicas. Em 27 de junho o então promotor responsável pelo caso pediu a prisão temporária e a emissão de um mandado de busca e apreensão, mas só em 12 de agosto eles foram deferidos. A prisão ocorreu no dia 21 daquele mês. O computador de C. chegou a ser levado, mas nada de incriminador foi encontrado.

As consequências da acusação de abuso infantil foram devastadoras para a vida do docente. O professor foi afastado imediatamente. Trabalhou no setor de RH da 1ª CRE até sua prisão temporária ser decretada.

C. negou todas as acusações. “O declarante, ao tomar ciência do conteúdo dos autos, afirma que as meninas abraçavam e beijavam o declarante”, diz um trecho de seu depoimento de nove páginas. Ele afirmou que eram as crianças que tentavam subir em seu colo, e que ele as afastava. Confirmou que chegou a convidar uma delas para ir a um sítio, mas declarou que teria convidado a mãe a ir junto.

No auditório eram exibidos os filmes Transformers e X-Men, uma vez por semana. C. argumentou que ficava próximo à sala de projeção para o caso de algum problema no vídeo. Negou abusar das crianças ali dentro. “O declarante às vezes ia à sala de projeção sozinho, as crianças às vezes ficavam curiosas, ‘ih tio, que legal…’, e o declarante dizia ‘vamos embora…’.”

Se inocente, as acusações decretaram o fim de uma carreira iniciada em 2005. Quando pleiteou sua soltura na Justiça, um colega de C. enviou um depoimento à Justiça atestando ter total confiança no amigo. “(Ele) sempre me convenceu ser pessoa de total idoneidade e lisura moral. No tempo que trabalhamos juntos, como profissional sempre demonstrou em minha presença total carinho, apreço e atenção a seus alunos: regulares ou com necessidades especiais. Junto a sua família, sempre admirei o carinho com que trata e cuida do filho e da esposa. Por várias vezes me incentivou a ter filhos, o que veio a ocorrer no último ano.”

A igreja que frequentava reuniu 153 assinaturas de fiéis atestando sua conduta “moral, ética, espiritual e familiar”. O documento foi enviado para o MP, que em outubro de 2013 opinou favoravelmente a sua soltura, dois meses depois de ser preso. Segundo a mulher, ele não pôde voltar para casa, por medo da reação que a acusação poderia ter na comunidade, então ficou na casa da mãe. Antes mesmo de ser preso, o professor afirmou ter caído em depressão. Em depoimento, disse que estava sob acompanhamento psicológico, tomando “Rivotril na veia”. O filho também precisou de psicólogo. Nas redes sociais, C. foi alvo de linchamento virtual. “O declarante afirmou que viu no Facebook uma foto sua com a seguinte frase embaixo: ‘Este é o pedófilo que atacou aqui na escola’.” O autor da postagem pedia que a publicação fosse compartilhada, para que o professor fosse preso.

Em janeiro de 2014, a mulher de C. foi até a 74′ DP, em São Gonçalo. Registrou que o professor havia desaparecido. Na delegacia, ela disse acreditar que o marido surtou, pois estava em estado de pânico, depressivo, “em razão de ter sido acusado e preso injustamente”. No plano administrativo, a prefeitura do Rio cometeu erros. Apesar de o professor não estar mais trabalhando desde que saiu da prisão, continuou a receber. Mesmo após o registro de ocorrência de seu desaparecimento ser lavrado, o dinheiro continuou a entrar. O inquérito administrativo por faltas contra o professor só foi aberto em 29 de junho de 2015 e ainda segue em aberto sem qualquer punição contra o servidor.

Os recursos, ainda que indevidos, teriam sido um alento para a família: a mulher trabalha como cabeleireira, e a situação financeira do marido não era das melhores. Em fevereiro de 2014 seu salário bruto foi de R$ 2.306,20. Mas o professor tinha seis empréstimos consignados e mais a mensalidade do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe) para pagar, totalizando um desconto de R$ 959,98 direto na folha de pagamentos. No fim das contas, no contracheque daquele mês constavam R$ 1.346,22 líquidos, depositados na conta do professor no Santander, responsável por administrar os pagamentos dos servidores da prefeitura do Rio.

Em 2015, a mulher do professor entrou na Justiça com uma ação declaratória de ausência, para ter acesso aos recursos depositados em sua conta. Na prática, ela admitia ali que não via mais possibilidade de encontrá­lo: essas ações normalmente são concedidas quando a pessoa é presumida como morta.

O professor continuou recebendo seu salário normalmente de novembro de 2013 até agosto de 2015, quando a prefeitura finalmente constatou o erro e encerrou os repasses, abrindo, finalmente, um inquérito por abandono de cargo. O montante pago no período foi de R$ 41.927,12. Na conta no Santander, em 11 de julho de 2017, constava um saldo de apenas R$ 0,50. Ou seja, alguém, em algum lugar, estava sacando esse dinheiro.

Em nota, a prefeitura disse que cobrará a devolução do dinheiro e que, se considerado culpado pela Justiça, excluirá o servidor de seus quadros. A servidora da Secretaria Municipal de Administração identificada como a responsável pelo suposto atraso em uma das etapas do inquérito sobre o abandono de cargo foi exonerada em dezembro de 2015.

O promotor responsável pelo caso dos abusos em Paquetá, Marcelo Muniz, assumiu a função há cerca de um ano. Ele nem sequer sabia do desaparecimento do principal suspeito. No mesmo dia, pediu novas diligências para o caso, como a elaboração de um auto de exame de corpo de delito de uma das vítimas, que até hoje não consta no inquérito. Faltam também o laudo de exame psicológico de três vítimas e a juntada de uma sindicância aos documentos. De acordo com Muniz, de posse dessas informações será possível oferecer ou não denúncia contra o professor na Justiça. O prazo dado por ele para essas diligências foi de 120 dias.

Muniz argumentou que a demora, de mais de cinco anos, para o caso chegar aos tribunais é natural. Ele apontou ser impossível oferecer a denúncia sem que todos os elementos tenham sido apurados. “É muito comum (demorar cinco anos). O prazo com o qual trabalhamos é o prazo prescricional. Temos a necessidade de concluir tudo para garantir o êxito. Se você não trabalha com o prazo prescricional, realmente pode parecer que demorou muito. Não posso oferecer uma denúncia frágil que resulte na absolvição.”

Como são seis vítimas, se considerado culpado, o professor poderá ser condenado a até 72 anos de prisão.

Os efeitos do terremoto causado pelo caso de Paquetá não são mais visíveis na superfície. Na escola, crianças pequenas continuam voltando sozinhas para casa, algo difícil de ver no “continente”, onde o risco de violência urbana está sempre presente. O portão da Joaquim Manuel de Macedo segue destrancado durante o dia e até as professoras que viveram o escândalo de perto precisam ouvir o nome do professor para se lembrar de que o caso aconteceu.                     

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OUTROS OLHARES

ALTRUÍSMO VERSUS EGOÍSMO

A era na qual é politicamente correto fazer trabalho voluntário debate essa questão. Afinal, doar- se ao outro é consciência social ou satisfação do ego?

Altruísmo versus egoísmo

Diante das dores e dificuldades que rondam a população nesse momento atual de crise, aliadas ao desejo de muitos em tentar ajudar o seu próximo, muitas questões podem ser levantadas e refletidas acerca do tema: altruísmo versus egoísmo.

Até que ponto abrir mão de si para cuidar do bem-estar do outro pode ser considerado altruísmo? Até que ponto colocar uma vontade ou necessidade sua em primeiro lugar pode ser considerado egoísmo? É evidente que cada caso deve ser analisado à parte, mas o fato é que qualquer situação que envolva esse tipo de questão exige uma reflexão acerca de ambos os lados envolvidos. Pois caso contrário, caímos num problema de outra ordem, como falta de amor-próprio, abnegação, julgamento equivocado, críticas e condenações injustas etc.

LIMITE TÊNUE

Vamos começar a pensar nessa questão que atormenta e é motivo de culpa e críticas em todas as esferas de relações interpessoais. Pegando a definição dos termos, temos o seguinte:

Altruísmo é um tipo de comportamento encontrado em seres humanos e outros seres vivos, em que as ações voluntárias de um indivíduo beneficiam outros. É sinônimo de filantropia. No sentido comum do termo é, muitas vezes, percebida como sinônimo de solidariedade. A palavra “altruísmo” foi criada em 1831 pelo filósofo francês Auguste Comte para caracterizar o conjunto das disposições humanas (individuais e coletivas) que inclinam os seres humanos a se dedicarem aos outros. Esse conceito opõe-se, portanto, ao egoísmo, que são as inclinações específicas e exclusivamente individuais (pessoais ou coletivas).

Egoísmo (ego + ismo) é o hábito ou a atitude de uma pessoa colocar seus interesses, opiniões, desejos, necessidades em primeiro lugar, em detrimento (ou não) do ambiente e das demais pessoas com que se relaciona. Nesse sentido, é o antônimo de altruísmo.

Olhando de longe, e grosso modo, notamos que ambos são tidos como antônimos. Mas há que se tomar cuidado com esse tipo de conceito na prática diária. Muito cuidado deve se ter ao buscar o limite saudável ou equilibrado entre um e outro. Deve-se estar atento no sentido de não prejudicar nenhum dos lados para beneficiar o outro. Se a ajuda ao próximo implica em prejuízo ao ajudador, deve ser avaliada a extensão e a profundidade desse prejuízo. Dependendo do prejuízo, não se justifica efetivar esse tipo de “ajuda” que beneficia o necessitado, mas lesa o ajudador e/ ou os que dele dependam de alguma forma. E sendo dessa maneira, não se pode apontar essa decisão como egoísta.

Tomando esse tipo de cuidado, o de não prejudicar nenhum dos lados – o ajudador-ajudado ou eu -outro -, nada há de errado em colocar seus cuidados e necessidades pessoais em primeiro lugar. Há quem afirme, inclusive, que o ideal é procurar cuidar de si primeiro e estar pleno para então cuidar do outro. Atribui-se o nome de amor-próprio para esse tipo de conduta.

A generosidade consiste em dar ao outro o que excede em você.

Como dar ao outro o que nos falta? Se não me cuido, como posso estar apto e pronto a cuidar do próximo? Dessa forma, pressupõe-se que você deveria estar minimamente abastecido de algo para então poder compartilhar com os demais o que lhe abunda e falta ao outro.

Lembremos da instrução dada pelas aeromoças nos procedimentos para decolagem: em caso de despressurização das cabines, os pais devem colocar primeiramente as máscaras de oxigênio em si para então colocar em seus filhos. Um conceito um tanto controverso em uma sociedade em que aprendemos que crianças e idosos devem ter a prioridade e que é errado pensar primeiro em si. Mas, dependendo da situação, como num caso de ajuda como esse, se você não se cuida e salva como poderá cuidar e salvar a vida do outro?

Seria altruísta tirar sua roupa do corpo para aplacar o frio do outro e passar a sentir e sofrer com o frio? Quantos adultos vemos hoje tentando ensinar o altruísmo às suas crianças, tentando fazer com que elas abram mão do que estão brincando e emprestem ao amiguinho para não serem egoístas? Seria correto ensinar uma criança pequena a abrir mão de suas vontades, gostos e desejos em detrimento da vontade alheia? Qual o limite entre altruísmo e egoísmo?

Precisamos sim ensinar as crianças a pensar no próximo, ensiná-las a dividir coisas e lidar com a espera e a frustração. Mas há que se estar atento ao momento certo e à forma de ensinar esse tipo de valor tão complexo de ser compreendido em sua essência real. Não estamos defendendo, por exemplo, o caso da criança que possui um saco cheio de biscoitos e se nega a dar alguns aos coleguinhas.

Mas devemos estar atentos para não ensiná-la, mesmo sem notar, que seus desejos ou necessidades não devem importar diante do desejo ou necessidade do outro.

Precisa-se tomar cuidado com a maneira que ensinamos para que, realmente, se aprenda sobre altruísmo e egoísmo, e na vida adulta não padeça com relações na quais ela se anula e prejudica em benefício do seu próximo para ser querida, valo­ rizada ou reconhecida pelos demais como uma boa pessoa.

As crianças menores, por estarem ainda formando sua personalidade, necessitam se abastecer e nutrir para formarem o seu mundo interno e sua personalidade primeiramente. Mais tarde, a partir disso, podem e devem aprender a reconhecer e a lidar melhor com o mundo e as necessidades do outro. E precisarão aprender a avaliar e decidir o que fazer quando seus desejos e necessidades vão contra os desejos e as necessidades do outro, de forma a poder compor uma solução mais equilibrada possível. Uma solução que prejudique o menos possível ambas as partes, sem desconsiderar nenhuma das partes, porque mesmo que a outra parte seja a aparente­ mente prejudicada pela decisão es­ colhida, sabemos já que o prejuízo real recai sobre todos os envolvidos em alguma proporção.

O mais efetivo no sentido da transferência de valores como esses para as crianças está no exemplo dado pelos pais. As crianças aprenderão sobre altruísmo ou egoísmo vendo como os adultos mais próximos agem nesse sentido. E o processo de aprendizagem se dará de uma forma mais natural, numa espécie de imitação. Se aliamos isso a muita conversa e orientação, conseguimos ajudar que eles compreendam esses conceitos e apliquem em suas vidas.

Altruísmo versus egoísmo.5

TRABALHO VOLUNTÁRIO

Muitas instituições e pessoas se encontram hoje dedicando seu tempo, suor e/ou dinheiro com o objetivo de ajudar pessoas carentes. Podemos ver movimentos significativos em instituições ou através de mídias sociais com essa finalidade; de prover o que alguns necessitam para sobreviver ou ajudar a viver de forma mais digna e saudável.

Acerca disso, há muito o que se discutir. Há quem diga que a facilidade de receber doações e ajuda faz com que pessoas se acomodem e permaneçam na condição de pedinte, ao invés de procurar algum tipo de trabalho remunerado para o autossustento ou sustento da família.

Ouvimos muitos casos nos quais pessoas simulam uma doença ou situação caótica para angariar fundos de pessoas bondosas e utilizar essa verba para fins não explicitados e não tão nobres. E isso vai tirando a capacidade do ser humano de acreditar no seu próximo, vai nos tornando desconfiados e arredios quando abordados por algum necessitado. E, infelizmente, alguns pagam pela má-fé de tantos outros.

Mas o fato que não podemos esquecer é do benefício que o trabalho voluntário, feito com amor e com disposição para servir, traz para quem o recebe e lógico que para os que o praticam também. Muitas crianças e idosos abandonados, doentes esquecidos em leitos de hospitais, portadores de necessidades especiais, moradores de rua, pessoas sem recurso financeiro suficiente para sustentarem suas famílias, e tantos outros grupos com alguma demanda, são hoje beneficiados por diversas instituições de caridade espalhadas por aí.

Com ou sem um vínculo religioso, essas instituições se propõem a aliviar a dor e o sofrimento de algum grupo específico de pessoas, e quem participa de um programa desses pode se sentir útil e satisfeito consigo por poder dedicar parte de seu tempo ao cuidado de quem precisa.

Com afeto, respeito, atenção, música, brincadeiras, alimentos, serviços profissionais dos mais variados tipos ou conversas, esses voluntários passam a fazer a diferença no dia a dia das pessoas carentes. E não se pode negar seu precioso valor.

Outra coisa que não se pode negar é o bem-estar e a satisfação pessoal que esse tipo de prática traz ao ajudador. Há pessoas que encontram o sentido de vida ou o alento para suas almas nesse tipo de tarefa no bem. E os ganhos, nesses casos, são infinitamente maiores do que o que é ofertado aos necessitados.

FUGA DE PROBLEMAS

trabalho de assistência e caridade deveria começar em casa, com o cuidado de sua família e manutenção de um ambiente familiar saudável. Parece paradoxo ver um voluntário saindo para realizar um bonito trabalho de assistência a pessoas carentes, deixando em casa seus familiares desassistidos em qualquer âmbito dessa palavra – de cuidado, afeto, atenção, preocupação ou de sua simples presença no dia a dia familiar.

Infelizmente, esse quadro não é algo raro de acontecer. É comum nos surpreendermos com a informação de que algum voluntário dedicado e amoroso em seu trabalho assistencial se transforma em casa com seu (ua) parceiro(a) e filhos agindo de forma intolerante, rude e seca, por exemplo. Será que essas pessoas notam sua drástica mudança? Como um familiar seu deve se sentir ao vê-lo tão amável e prestativo nos demais ambientes, ao mesmo tempo que se mantém tão pesado e difícil de lidar dentro de casa?

Há pessoas que não consegue m manter uma convivência harmoniosa em casa e acabam se embrenhando em algum tipo de trabalho assistencial de forma a fugir um pouco de seu ambiente hostil, onde mantêm relações desafiadoras, para se sentirem melhor de alguma forma a serviço do bem. Um perigo, nesses casos, é a pessoa manter o trabalho voluntário como uma bengala para um casamento falido, por exemplo, ou para a manutenção de uma situação dolorosa em sua vida pessoal, que acaba alienada pela distração nos afazeres do bem. Enquanto o trabalho fica nesse lugar, de certa forma preenchendo o es­ paço vazio e amenizando os embates e mal-estar, o problema tarda a ser solucionado. E a dor se mantém ali, preservada e inalterada.

Às vezes, a dificuldade está em se modificar, outras está em modificar algo em sua relação. Mas se não dedicamos nossa atenção a isso, apenas prolongamos amarguras e dor e retardamos o nosso desenvolvimento e crescimento pessoal e/ou nas relações. Temos também os casos nos quais as pessoas parecem ter uma boa relação em casa, mas estão tão preocupadas com o externo que acabam por deixar seus “afortunados filhos” de lado para cuidar dos carentes, sem ter a menor consciência do que estão fazendo.

Está aí mais um ponto importante a se avaliar. De que vale acolher e cuidar das pessoas carentes de qualquer instituição se deixo de dar assistência aos participantes do meu núcleo familiar, deixando-os, de certa forma, carentes ou desprovidos de algo tão fundamental quanto o afeto? Isso pode acontecer por elas julgarem o trabalho voluntário mais importante e glorioso, por necessitarem do reconhecimento e admiração social, pela dificuldade de encarar seu trabalho pessoal de reforma íntima ou a necessidade de resolução de seus conflitos interpessoais em família.

Quem nunca conheceu alguém irrequieto, que viveu uma vida inteira correndo de um lado para o outro, se atribulando com ocupações e tarefas externas evitando estarem quietas e sozinhas consigo mesmas, para não se depararem com suas questões internas? São pessoas que têm tanta dificuldade de se olharem e entrarem em contato com suas mazelas e dores na alma que passam sua vida ou parte dela se “distraindo” em cuidar e resolver os problemas dos outros. E esses outros vão de parceiros, filhos ou parentes, vizinhos até trabalhos assistenciais e pessoas carentes conhecidas ou não. E nessa busca desenfreada de negar o contato com seu ser e com as dores e marcas que carregam, muitas pessoas têm vivido uma vida praticamente superficial e artificial. Pois o vazio na alma toma conta, cada vez mais, fazendo com que elas pareçam alegres e agradáveis do lado de fora, mas permaneçam secas e amarguradas por dentro.

Nesse sentido, podemos questionar a manutenção do trabalho voluntário na vida de pessoas assim. O quanto será que essa ajuda mecânica – possível para esse tipo de pessoa destruída e perturbada internamente acrescenta mais aos necessitados do que a possibilidade de cura e alívio de sua dor interna?

Será que para o necessitado existe diferença em receber algo que transborda e extrapola do outro ou receber de quem esburaca sua alma para ajudar? Talvez não superficialmente. Então, podemos concluir que o autocuidado é tão importante quanto o cuidado ao próximo. Se queremos ser boas ferramentas no alívio do sofrimento humano, precisamos lembrar também de cuidar de nosso sofrimento pessoal. Um cuidado fortalece e potencializa o outro. Ambos são importantes e necessários e nenhum exclui a necessidade do outro, apenas se complementam e empoderam.

DIFICULDADE RELACIONAL

Existem pessoas que tendem a trabalhar demais. Geralmente são pessoas que só encontram conforto nessa área da vida e, por isso, permanecem focados nela. Ter que sair da sua zona de conforto e segurança para encarar novas áreas desafiadoras da vida acaba sendo uma tarefa deixada de lado. E, dessa forma, as pessoas se acomodam em áreas que dominam com facilidade, mas, com isso, evitam seu desenvolvimento e crescimento através de experiências novas.

O trabalho voluntário passa a ser uma forma de essas pessoas se inserirem em um grupo e manterem algum tipo de relação; mesmo que distanciada e impessoal. Representa, muitas vezes, a possibilidade de aplacar a solidão em que se encontram e passam a ser um alento muitas vezes maior para o voluntário do que para o ajudado.

Mesmo que nesse tipo de tarefa o contato não necessite ser estreito e as relações não se aprofundem, essa passa a ser uma forma, mesmo que distanciada de relação. Longe de um relacionamento íntimo, mas, muitas vezes, a forma possível daquela pessoa de se relacionar.

Além de todas as questões levantadas até agora acerca da prática do trabalho voluntário, temos ainda o conflito entre o motivo de muitos voluntários estarem na posição de ajudadores para alimentar seu ego e não pelo altruísmo.

Isso se dá de forma muito sutil e parece mais frequente do que se imagina. Existem instituições nas quais a entrada de novos voluntários já se torna algo difícil e seletivo. Como compreender uma instituição de caridade que limita ou condiciona a entrada de novos voluntários de forma que inviabiliza o aumento de seu potencial de ajuda?

E quando a pessoa interessada em participar de um programa voluntário consegue, por vezes com muito custo, ingressar em alguma instituição de caridade, passa a ter de lidar com outras dificuldades. E dentre as causas desse rol de dificuldade algumas passam pela vaidade e pela necessidade de satisfação do ego pessoal. Fatores como tempo de serviço ou função ocupada na instituição, classe social, estado civil dentre outros são razões utilizadas para criar certa ascendência de uns perante outros.

E diante de tudo isso, muitas vezes vemos os interesses dos assistidos serem sobrepostos pela necessidade dos dirigentes estarem numa posição de comando, poder ou superioridade.

Seria caridade ingressar num trabalho assistencial, que tem o in­ tuito de ajudar o próximo, munido de uma crença de superioridade que o faz humilhar e submeter os demais voluntários?

Altruísmo versus egoísmo.4

CAMINHOS DA VAIDADE

Existem pessoas que se embrenham por esse campo e são seduzidas e arrebatadas pelo status e reconhecimento adquirido lá. E passam cada vez mais a dedicar seu tempo e esforço para esse tipo de atividade não pelo sentido de caridade que aquele trabalho tem, mas pela necessidade de ser cada vez mais reconhecido e valorizado.

É tentador ser reconhecido na rua, receber regalias e certo destaque e não querer mais e mais disso. E, em nome desse prazer, alguns deixam de dar atenção a outras áreas de suas vidas e se tornam escravos desse tipo de satisfação: a satisfação do ego. Nada lhe parece mais importante. A família fica de lado e os compromissos sociais se tornam mais frequentes. Até seu cuidado com a saúde fica de lado quando o assunto é se manter no foco dos holofotes!

Com isso, os vaidosos acabam por criar verdadeiros personagens dotados das características exatas para encantar e seduzir sua plateia de admiradores. Personagens que seduzem seguidores e ouvintes, mas que os distanciam cada vez mais de seu eu interior. Personagens que os tornam prisioneiros do aplauso e da admiração que vêm de fora. E os isolam de relações próximas e verdadeiras.

Pensando nisso, podemos afirmar que os maiores enganados não são as pessoas que recebem a ajuda, mas sim os ajudadores que estão ali em nome de outra coisa que não seja ajudar o próximo.

Por essas e outras razões precisamos estar atentos e nos questionar a todo momento em nome do que realizamos determinado trabalho voluntário. Quanto mais alinhados com nosso propósito estivermos, mais força nosso trabalho terá e mais poderemos ajudar.

Altruísmo versus egoísmo.2 

ESTATÍSTICA

Segundo dados divulgados em março deste ano, quatro em cada 100 pessoas desenvolvem algum trabalho voluntário no Brasil. Em números absolutos são 6,5 milhões de pessoas, o que representa 3.9% da população de mais de 14 anos. A informação é do módulo Outras Formas de Trabalho, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Continua), que concluiu que a proporção é maior entre mulheres (4.6%) que homens (3.1%) e maior nas regiões Norte (5.6%) e Sul (5.0%). Nordeste (3%) apresentou a menor taxa.

Altruísmo versus egoísmo.3

ENTIDADE

O Centro de Voluntariado de São Paulo (CVSP) foi criado em 1997 por um grupo de pessoas de diferentes segmentos da sociedade e por participantes de várias organizações sociais. A ideia surgiu devido à grande demanda de iniciativas da sociedade civil em relação ao trabalho

voluntário. O CVSP é uma organização sem fins lucrativos e integra uma grande rede de centros de voluntariado no país. Mais informações: http://www.voluntariado.org.br

OUTROS OLHARES

A PASSOS (MUITO) LENTOS

Apesar de avanços recentes, teocracias como a Arábia e o Irã continuam a negar direitos fundamentais às mulheres.

A passos (muito) lentos

TOTALITARISMO MASCULINO

Imagine dormir em um país livre e acordar na República de Gilead, um regime totalitário e teocrático com uma doutrina baseada no Velho Testamento, onde as mulheres – todas, em diferentes níveis – são submetidas aos caprichos de um homem. Trata-se de uma história de ficção, o mote da série The handmaid’s tale, inspirada no livro O conto da aia, de Margaret Atwood, publicado em 1986. Mas poderia ser o Irã, pós-Revolução Islâmica, a Nigéria, atormentada por extremistas do Boko Haram, ou a Arábia Saudita, sob o regime do poderoso príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Na ficção, as mulheres são divididas por castas: as “aias” servem os militares para procriação, o que torna o estupro permitido por lei. As “esposas”, embora estejam acima das aias, podem ser punidas pelos maridos, inclusive com agressões físicas. As “Marthas” são empregadas domésticas que só têm permissão para realizar suas tarefas dentro de casa. Antes da implantação do regime, eram médicas, advogadas, cientistas, usavam a roupa que queriam e eram livres para fazer o que bem entendessem. Agora, são obrigadas a vestir uniformes, de acordo com sua respectiva função, que não deixam qualquer parte do corpo à mostra.

Embora O conto da aia seja considerado uma distopia, seu roteiro é assustadoramente parecido com a Revolução Islâmica no Irã, que começou como um movimento popular em um dos países mais liberais da região e terminou com a criação da primeira república islâmica do mundo. Segundo o Código Civil iraniano, vigente de lá para cá, as mulheres precisam usar véu em público e não podem se maquiar. O estupro dentro do casamento e a violência doméstica não são reconhecidos como crimes.

Assim como na República de Gilead, autoridades iranianas vêm recorrendo à lei para tentar confinar as mulheres às funções de mãe e esposa. Quem deseja se divorciar precisa provar que padece de “sofrimentos insuportáveis”. Os homens, por sua vez, têm o direito de possuir ao menos duas esposas permanentes em matrimônios polígamos – e todas as outras que desejarem em casamentos temporários.

A passos (muito) lentos.3

Nesta semana, Mona Hoobeh Fekr e Samira Shimardi entraram para a história do jornalismo esportivo iraniano como as primeiras mulheres autorizadas a cobrir uma Copa do Mundo pelo país – mulheres são proibidas de assistir a jogos nos estádios dentro do Irã ou trabalhar neles, mas foram em grande número às arenas da Rússia. As imagens das iranianas assistindo aos jogos da seleção sem véu viralizaram nas redes.

Mas as semelhanças não se restringem ao Irã. No Iêmen, a lei obriga as mulheres a satisfazer seus maridos na cama, queiram elas ou não. Na Nigéria, o homem pode bater na mulher para “corrigi-la”.

Em um artigo publicado no jornal The New York Times, em março de 2017, Margaret Atwood, autora do livro que deu origem à série, explicou o nome da personagem principal. Offred é composto de um nome de batismo masculino, Fred – o comandante militar que “a possui” -, e um prefixo que denota “pertencente à”. Nesse caso, é impossível não se lembrar da Arábia Saudita, onde, apesar de mudanças recentes, as mulheres continuam sob a tutela de um homem – seja o pai, o marido ou até o próprio filho – para realizar tarefas como estudar ou ir ao médico.

No domingo, o país ganhou os holofotes com a esperada permissão para que as mulheres, enfim, dirijam veículos. No ano passado, elas já haviam conquistado o direito de frequentar estádios. As mudanças foram feitas pelo jovem príncipe herdeiro que assumiu o trono em junho de 2017.

A mudança, no entanto, tem sido acompanhada do aumento da repressão. Poucos dias depois, a polícia saudita prendeu a proeminente ativista de defesa dos direitos femininos Hatoon al- Fassi.

“A Arábia Saudita está dando um passo para a frente e dois para trás na implementação de reformas”, avaliou Dana Ahmed, ativista e representante da Anistia Internacional no país. Para ela, as autoridades não podem alegar que buscam mudanças quando fecham o espaço para o envolvimento da sociedade civil nessas reformas.

Segundo Ahmed, todos os ativistas independentes de direitos humanos da Arábia Saudita, assim como qualquer um que seja crítico às autoridades, foram detidos, forçados a permanecer em silêncio ou fugiram. “O fim da proibição de dirigir é um passo importante, mas deve ser seguido por novas reformas para acabar com o sistema de tutela masculina e todas as formas de discriminação contra as mulheres”, afirmou a representante da Anistia Internacional.

Por isso, para grande parte dos ativistas, as conquistas são insuficientes – ou soam hipócritas.

O novo príncipe tenta passar uma imagem de reformista no Ocidente, sendo saudado por presidentes como (o francês Emmanuel) Macron e (o americano Donald) Trump. Ao meu ver, no entanto, esse reformismo é bem marginal e uma clara tentativa de dar uma capa de um regime mais confiável ao país”, explicou Juliana Costa, professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. Em sua opinião, a situação das mulheres não mudou na Arábia Saudita.

A especialista afirmou ainda que os retrocessos não acontecem apenas em países onde religião e política se misturam: em nações africanas como Serra Leoa, costumes profundamente arraigados nas culturas locais permitem violações como a mutilação genital feminina – outra prática retratada na série.

“Cada país tem seu perigo para a mulher, por isso é muito complicado dizer onde ela estaria mais ou menos segura no mundo. No Brasil, por exemplo, o estupro vem aumentando”, disse Costa. Em sua avaliação, a política de imigração dos Estados Unidos, separando mães e filhos, é também um retrocesso em relação às mulheres.

Em países como a Síria ou a Nigéria há ainda outro monstro: o extremismo. Grupos como o Estado Islâmico ou o Boko Haram impõem a sharia, que permite o estupro, e obrigam ao uso da burca – traje islâmico que cobre todo o corpo e o rosto. As mulheres também não têm permissão para falar com um homem em público e são submetidas a agressões em casa. Assim como na República de Gilead.

A passos (muito) lentos.2

OUTROS OLHARES

ATENÇÃO PARA O EXAGERO

Na era das selfies, a profusão desenfreada de procedimentos estéticos provoca resultados artificiais e mesmo aberrações. A culpa é tanto do paciente quanto do médico.

Atenção para o exagero

Os números comprovam que há um exagero na realização de procedimentos estéticos no Brasil. De acordo com o censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, em 2017 o Brasil registrou um aumento de nada menos que 390% nesse tipo de intervenção em relação a 2014. Isso nos coloca em segundo lugar no ranking mundial da prática, atrás apenas dos americanos. Nos Estados Unidos, o mais novo levantamento da American Society of Plastic Surgeons mostrou que, no ano passado, foram realizados 17,5 milhões de procedimentos estéticos. Desse montante, 15,7 milhões foram não invasivos (a toxina botulínica segue campeã, com 7,23 milhões dos casos). No Brasil, há menos estatísticas disponíveis, mas o cenário é semelhante.

Por que as brasileiras e os brasileiros buscam tanto modificar seu rosto e seu corpo? Muitas teorias tentam explicar o fenômeno. Em minha opinião, o grande responsável por esse quadro é o impacto das redes sociais em nossa vida e em nossos desejos. Na era das selfies, da foto milimetricamente perfeita, as pessoas parecem dar uma atenção microscópica à aparência. A autocrítica atingiu níveis extremos. Isso, no entanto, não explica tudo.

Os brasileiros têm ainda uma peculiaridade que poderá fazer com que muito em breve o país passe para o primeiro lugar nessa lista de busca por mudanças estéticas. Além de usuários contumazes das plataformas sociais, estamos entre os povos mais vaidosos do mundo. Segundo pesquisa realizada pelo instituto Gallup, 61% da população considera a aparência física o fator mais importante para o sucesso. Jovens de 20 a 30 anos, os chamados millennials, estão cada vez mais fixados no assunto. Procuram, muito mais cedo do que deveriam, técnicas de preenchimento e aplicação de toxina botulínica para prevenir sinais de envelhecimento que estão longe de aparecer.

Constato a presença desse comportamento em todas as classes sociais. Mesmo populações de baixo poder socioeconômico gastam uma parcela significativa da renda mensal com produtos e serviços de beleza. Digo mais: o brasileiro investe mais em beleza do que em educação. Segundo estudo feito pela Fecomercio de São Paulo, em 2015 parte da classe chegou a comprometer 30% da renda com procedimentos estéticos.

Nesse cenário de adoração à imagem jovem e “sem defeitos”, surgem, obviamente, as aberrações e artificialidades: lábios demasiadamente grandes e irreais, bochechas avolumadas em excesso e expressões congeladas. Há três causas para o exagero. A primeira é de ordem patológica. Trata-se do paciente que sofre de dismorfofobia, um distúrbio de imagem corporal em que ele enxerga em si um defeito maior do que aquele que existe. Essa percepção equivocada provoca uma elevada carga de insatisfação pessoal e impacta na forma como seu portador vê sua vida e sua relação com os outros. Na população em geral, a doença atinge entre 1% e 2% das pessoas, enquanto nas clínicas dermatológicas esse número chega a representar 20% dos pacientes. Na prática, são indivíduos que querem resolver um problema que não existe. E, como não aceitam limites, vão de clínica em clínica até que algum profissional faça o que eles desejam (sempre haverá um). O segundo motivo para os excessos que observamos são, como no primeiro caso, resultado da insistência do paciente, com a diferença de que aqui ele é um indivíduo saudável – embora, em geral, com baixa autoestima, o que faz com que ache sempre que não está com a pele suficientemente lisa ou com as formas desejadas. Os maiores exageros nesse sentido são vistos nas bochechas levantadas e nos rostos excessivamente esticados. Mulheres acabam adquirindo o chamado “contorno leonino” da face, e ocidentais passam a se assemelhar a orientais. Não tem sido incomum ver mulheres que, submetidas a preenchimentos labiais excessivos (muitas vezes com produtos definitivos), ou vítimas de erros técnicos, ficam com a boca tão disforme que parecem ter sido atacadas por abelhas. Pacientes assim, no entanto, não podem levar a culpa sozinhos – e eis aqui o terceiro motivo dos exageros que grassam por aí. Do outro lado de uma face desarmônica e artificial está o profissional que falta em apontar ao paciente os riscos que o aguardam. Atribuo isso à sua formação. No Brasil, as técnicas não invasivas podem ser executadas por diversos profissionais da saúde, como o dentista e o biomédico. O mercado da estética é multiprofissional, mas o papel de cada um deveria ser mais bem regulado. Não estou dizendo que somente o médico fará um bom trabalho. No entanto, se queremos que o paciente esteja resguardado, o profissional formado em medicina é o especialista mais adequado para realizar procedimentos injetáveis avançados. Com seis anos de formação básica, e conhecimentos de anatomia, ele não apenas tende a cometer menos equívocos como está mais capacitado para prevenir e tratar as complicações.

E o que dizer do adolescente que, no auge do vigor físico, quer se submeter a correções estéticas? Trata-se de uma realidade cada vez mais comum nos consultórios brasileiros. Mensalmente, 3.400 adolescentes de 13 a 18 anos se submetem a uma cirurgia plástica para alterar algo que não lhes agrada – um crescimento de 55% nos últimos anos. Atenção: não estão incluídos na conta os procedimentos realizados por questões de saúde. São meninas e meninos que decidem mudar o “nariz de batatinha”, ou aumentar o “queixo pequeno demais”. Muitos desses casos estão associados à urgência em adequar-se ao olhar dos amigos, ser aceito.

O contraponto disso tudo é uma crescente demanda de pacientes por aquilo que chamamos de positive aging (envelhecimento positivo). São tratamentos baseados na prevenção, o maior antídoto para a artificialidade. Cuidados dessa natureza são mais eficazes quanto mais precoces, e terão sempre um resultado suave. A dermatologia hoje dispõe de recursos modernos que favorecem a naturalidade. Em vez de aplicarmos substâncias para dar volume às bochechas, podemos, por exemplo, recorrer a um ácido hialurônico de alta densidade, que, usado em pequenas quantidades, ajuda a prevenir a flacidez facial. Presente no organismo, o composto é uma molécula que preserva a elasticidade da pele. Sua versão sintética, produzida em laboratório, é muito semelhante à natural. Além disso, existem os estimuladores de colágeno, substâncias que, quando aplicadas na pele, aumentam a firmeza e previnem rugas sem o risco de resultar em excesso de volume. Optar sempre por produtos que sejam absorvidos pelo corpo é, a meu ver, uma escolha acertada. Que esse tipo de medicina vença a dos exageros.

 

JARDIS VOLPE – é dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia.

OUTROS OLHARES

O PODER DO JEJUM

Cientistas descobrem que abster o organismo de alimentos por alguns períodos pode ajudar a combater a depressão e estimular a reciclagem dos neurônios. Alguns estudos em animais revelam que a prática tem potencial para fortalecer a memória, aumentar a vitalidade e até diminuir sintomas de demência. A privação, porém, não é um consenso entre médicos e pesquisadores e, em muitos casos, pode ser prejudicial. 

O poder do jejum

O pinguim-rei é um grande jejuador. Durante cinco meses no ano, a ave não come um peixe sequer, sobrevive do depósito de gordura do próprio corpo e pode perder quase metade de seu peso, em torno de 15 kg, vivendo em temperaturas abaixo de 60°. Já os seres humanos reagem de forma bem diferente. Exceto em situações extraordinárias de escassez, em geral estamos sempre comendo – com exceção de quando dormimos. A obrigação de termos sempre de ingerir três refeições diárias foi, durante gerações, tão fixamente colocada na nossa consciência que renunciar a essa tradição pode parecer inconcebível. E vale lembrar que, entre as refeições, muita gente “belisca”, toma refrigerantes refrescantes, come guloseimas, frutas e, no fim do dia, se rende a uma taça de vinho ou uma cerveja, às vezes acompanhadas de algum salgadinho.

A indústria alimentícia fica contente com esse hábito, mas o nosso corpo não. “Somos uma sociedade de abundância; a comida sempre à nossa disposição e, ao mesmo tempo, nos movimentamos pouco”, observa o pesquisador Dieter Melchart, professor de medicina complementar e alternativa da Universidade Técnica de Munique. Esse excesso deixa marcas, que podem se traduzir em patologias como obesidade, diabetes, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), hipertensão, cardiopatias e Alzheimer.

Hoje talvez pareça difícil não desfrutar de hábitos adquiridos nas últimas décadas, a ponto de nos esquecermos de que, assim como os outros animais, durante muito tempo sobrevivemos sem celulares, açúcar e fast-food. A vida na Terra se desenvolveu regida pelos ritmos naturais, do dia e da noite, do clima frio e quente, da fartura e da escassez. “Considerando isso, é possível pensar que poderíamos nos readaptar e mudar o hábito de comer sem parar”, diz Melchart. “Mesmo sem dispor de um laboratório bem equipado, o médico e filósofo Paracelso (1493-1541) já sabia disso no século 16.” Atualmente, existem comprovações de que o excesso de alimento prejudica o corpo, em especial o cérebro. A dieta baseada em alimentos industrializados e processados, com altos índices de gordura, é a mais nociva. Por outro lado, aqueles que já renunciaram à comida perceberam que o processo envolve uma causa superior. “Depois de passados os três primeiros dias, considerados os mais difíceis, há uma melhora no humor em dois terços dos pacientes”, afirma o naturopata Andreas Michalsen, médico do Hospital Immanuel, de Berlim, onde um grupo de 800 pessoas jejua voluntariamente pelo bem da saúde.

MAIS HORMÔNIOS DA FELICIDADE 

Por mais paradoxal que pareça, a evolução biológica mostra que, quando sentimos fome, durante um curto espaço de tempo, é liberada uma sensação de bem-estar. Mas atenção: “Quem simplesmente ficar sem comer durante três dias, sem preparação para isso, provavelmente adoecerá e pode até morrer”, alerta Michalsen. Por isso, no curso da evolução, nossa espécie foi agraciada com uma espécie de “programa de jejum”. Assim que ocorre uma escassez de comida, o cérebro muda a chave para “eufórico” e cuida para que a pessoa não recue, mas sim procure ativamente por comida. É uma reação parecida com a provocada por antidepressivos: o corpo recebe quantidades menores do aminoácido triptofano – que o organismo não consegue produzir por si só, precisa do alimento para esse processo –, importante para a produção do neurotransmissor serotonina. Para compensar essa deficiência, durante a sinapse o sistema nervoso reduziria o número de transportadores de serotonina, que normalmente eliminam o transmissor novamente. É o mesmo processo que ocorre com os medicamentos prescritos para o tratamento contra a depressão, que funcionam como inibidores seletivos de receptação de serotonina. Nesse caso, elevam-se a concentração de terminações nervosas, o tempo de residência e o efeito dos “hormônios da felicidade”. E o que acontece quando alguém vive durante alguns dias com menos de 500 calorias? “Depois de 24 horas a glicose do açúcar armazenada no fígado começa a se quebrar. Na sequência, o cérebro implora por açúcar e, como não obtém, precisa mudar o metabolismo”, explica Melchart. “Dessa forma, são iniciados processos como a gluconeogênese, na qual o corpo produz glicose a partir de fontes alternativas. A gordura do corpo é consumida e fornece ácidos graxos livres para que os tecidos possam produzir energia. O cérebro retira sua energia da nova formação de glicose e dos recém-formados corpos cetônicos – compostos orgânicos formados no fígado a partir de ácidos graxos.  Graças a esse processo, a pessoa pode sobreviver 30 dias ou mais sem comer nada sólido, dependendo, claro, da constituição do corpo de cada um.

FOME SAUDÁVEL

Viver no limite pode trazer algumas vantagens, desde que a experiência seja acompanhada por médicos e psicólogos, apenas durante alguns dias – e jamais deve ser feita por conta própria, sem assistência de profissionais. Em países da Europa e nos Estados Unidos já existem “clínicas de jejum”. De acordo com o especialista em biologia celular Valter Longo, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles, a restrição alimentar desacelera o envelhecimento e pode também ter efeito positivo no tratamento de câncer. “Há casos em que o jejum de fato pode ajudar a combater a doença, mas também existem situações em que pode agravá-la; o limite entre o que faz bem e o que faz mal é muito tênue” observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP).Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles não observa diferença significativa nos parâmetros metabólicos quando comparam o grupo que realiza jejum com aquele que adota restrição calórica contínua; dessa forma, os efeitos benéficos não podem ser atribuídos necessariamente ao jejum intermitente, e sim à perda de peso proporcionada por ele.” O biogerontólogo italiano Luigi Fontana, pesquisador do Instituto de Saúde Pública da Universidade de Washington em Saint Louis, defende o efeito positivo do jejum no sistema cardiovascular. O médico Mark Mattson, do Instituto Nacional da Idade, em Baltimore, vai mais longe: aposta que a prática é capaz de “tornar funções cerebrais mais eficientes e prevenir doenças degenerativas”. Embora tenha vários adeptos entre biólogos e médicos, o assunto é polêmico. O efeito do jejum no organismo foi estudado, na maioria das vezes, apenas em animais. Nos laboratórios de pesquisa sobre o tema, vivem levedura, larvas e moscas. No entanto, os preferidos para a experiência são os camundongos e ratos. Nas gaiolas em que as tigelas estão sempre abastecidas com comida, os animais parecem preguiçosos. Já os roedores que recebem menos calorias vivem mais e de forma mais saudável que os colegas que têm comida à disposição. Animais que temporariamente jejuam mostram mais equilíbrio no metabolismo das taxas de açúcar, e os marcadores inflamatórios do sangue caem, assim como a pressão arterial e a frequência cardíaca. Com o processo de jejum acontece também algo na cabeça: são criados novos neurônios a partir de células-mãe, e isso ocorre especialmente numa área fundamental para a memória, o hipocampo. As interconexões com a rede neural mudam e as células fazem novas ligações entre si. A experiência mostra que os animais obtêm melhores resultados em testes de memória e de aprendizado. Os neurônios de camundongos, que são geneticamente suscetíveis a doenças como epilepsia, AVC, Alzheimer ou Parkinson, se mostram mais frágeis depois da redução de calorias.

AUMENTO DA RESISTÊNCIA

Segundo Michalsen, dos experimentos com animais, dois principais mecanismos favoráveis à influência do jejum podem ser deduzidos: a diminuição de sinais que danificam o cérebro e promovem a perda de nervos e o nível elevado permanente de insulina e de mediadores inflamatórios. Por outro lado, a falta de comida estressa o organismo, o que o leva a reagir de forma defensiva. Assim, as células aumentam a produção de enzimas que protegem o corpo dos compostos reativos do oxigênio ou reparam os danos no DNA. Por consequência, os animais sobrevivem por mais tempo. Similar ao efeito do esporte, o jejum parece aumentar a resistência. Esse efeito, em que influências negativas têm repercussões positivas, é conhecido como hormesis (palavra grega para estímulo, impulso). Pelo menos quatro das principais células e moléculas – corpos cetônicos, BDNF, mitocôndrias – e processos autofágicos se cristalizam, produzindo o efeito benéfico do jejum ao cérebro. A cetona, assim como a gordura no fígado, produz o ácido B-hidroxibutírico, passando a barreira de sangue do cérebro e servindo células neurais com glicose como combustível. Uma alimentação rica em cetona nos experimentos com ratos resultou na diminuição das conexões proteicas típicas de Alzheimer, beta-amiloide e tau – como as descobertas do pesquisador Mark Mattson já indicavam em 2013. O estudo revelou também que os animais se mostravam mais dispostos e menos ansiosos. Os corpos cetônicos simultaneamente aumentam a produção de fatores de crescimento como BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que favorece autoproteção e a proliferação de neurônios. A produção do BDNF em animais e em humanos diminui de acordo com a idade, assim como o consumo excessivo de alimentos, a falta de exercícios e a propensão a ter doenças neurodegenerativas como o Parkinson e o Alzheimer. Cabe aqui uma pergunta: não seria mais fácil, portanto, administrar porções de BDNF para proteger o cérebro contra a demência como uma fonte da juventude de terapia alternativa? “Não, isso não funciona dessa maneira”, diz Mark Mattson. Ele explica que o fator de crescimento está diretamente relacionado à função da atividade individual dos neurônios e trabalha individualmente no nível das sinapses. O sistema não é controlado ou induzido diretamente, mas sim indiretamente – como por meio de esportes, de uma alimentação com poucas calorias e até pela vontade de desenvolver o intelecto com novas atividades.

A redução de calorias em animais também tem um efeito positivo nas mitocôndrias, conhecidas como “usina de energia das células”. O experimento mostrou que a geração de energia dessas células é mais efetiva e mais apta a formar novas células. Além disso, a falta de comida estimula o processo de reciclagem dos tecidos nervosos. Tudo que não é usado, como organelas e macro-moléculas danificadas, é digerido. Graças a esse processo de limpeza celular chamado de autofagia. Esta foi a conclusão do biólogo celular japonês Yoshinori Ohsumi, ganhador do Nobel de Medicina de 2016. A célula remove potenciais materiais danosos que voltam para o sistema como matéria-prima.

ENTRE HOMENS E CAMUNDONGOS

Com todos esses efeitos, aparentemente, jejuar melhora o funcionamento do cérebro, retardando os efeitos da idade – ou ainda diminuindo, em taxas significativas, a propensão de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Os experimentos com animais mostraram que a dieta afeta as estruturas cerebrais e as funções da rede neural. Mas e se o estudo fosse aplicado aos humanos? Será que os resultados também seriam semelhantes aos do estudo proposto com ratos? Observa-se que o jejum alivia as dores de pacientes com reumatismo, hipertensão e sobrepeso. Jejuar também diminui a incidência do desenvolvimento de fatores de risco, como o estresse oxidativo – que causa demência –, reduz os marcadores inflamatórios e ainda aumenta o nível de glicose e insulina no sangue. Em 2013, o estudo da pesquisadora Lucia Kerti e seus colegas, da Berliner Charité, encontrou mais uma referência: o aumento permanente nos níveis de açúcar no sangue afeta a microestrutura do hipocampo em homens e mulheres. Essas pessoas têm um desempenho pior em testes de memória do que aquelas que possuem um índice de açúcar mais baixo no sangue. De qualquer forma, há diferenças entre o jejum em homens e roedores. Por exemplo: no hipocampo, a formação de novas células nervosas na fase adulta é muito mais intensa em ratos do que em humanos. Outro exemplo: o hormônio da fome (grelina), que está diretamente ligado ao controle do apetite e do sono, melhora a memória e a curva de aprendizagem nos ratos. No entanto, no estudo de 2016 do Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, liderado por Martin Dresler, não houve a demonstração de melhora de performance em memória em humanos mesmo quando administradas doses adicionais de grelina. “Mark Mattson mostrou em vários experimentos que se pode inibir a evolução de doenças neurodegenerativas em animais, mas em humanos estamos em fase de transição dessa descoberta”, explica Andreas Michalsen. “O que parece ter sido bem promissor nos experimentos com ratos precisa ser ainda testado em pessoas. Os estudos controlados parecem ainda sofrer com a falta de dados antes, durante e depois do jejum dos seguintes fatores: volume cerebral, plasticidade sináptica, performance cerebral e análises bioquímicas dos líquidos cerebrais. Contudo, ninguém precisa esperar até que haja resultados tão detalhados em seres humanos. Os efeitos positivos do jejum já são considerados incontestáveis desde a época de Paracelso. O lado positivo do jejum – assim como na dieta saudável e no treinamento físico – é que todos podem fazer algo pela saúde. “Quando o corpo é bem preservado, obviamente o risco de adquirir diabetes diminui”, comenta Michalsen. Não há evidências que comprovem que essa doença regride em uma idade mais avançada. Pessoas de origem asiática não costumam ter a mesma propensão a ganhar, ao longo dos anos, barrigas tão salientes quanto as dos ocidentais – também não têm diabetes nem Alzheimer na mesma proporção – assim como os pinguins-reis na Antártica.

EFEITOS SOBRE O ORGANISMO

O jejum afeta todo o corpo humano. No cérebro, que se comunica com todos os órgãos envolvidos no metabolismo energético, a neuroquímica e as atividades das redes neurais são alteradas e se ajustam à diminuição de calorias. Esse processo se dá no hipocampo (fundamental para a memória), estriado (que participa dos processos de controle dos movimentos), o hipotálamo (envolvido no mecanismo de ingestão de alimentos e regulação da temperatura) e o tronco cerebral (que controla a circulação e o sistema digestivo).O neurotransmissor acetilcolina estimula o sistema nervoso parassimpático, que inerva o intestino, o coração e os vasos sanguíneos. O processo acelera a atividade intestinal, os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea. Na ausência de suprimentos, o estoque armazenado em forma de glicogênio logo se esgota. O fígado, ao contrário, produz corpos cetônicos, que podem usar as células nervosas como combustível alternativo para geração de energia. O fígado e as células do tecido muscular são mais reativos ao hormônio insulina, que regula o açúcar no sangue. Ademais, jejuar também reduz, nos órgãos e no cérebro, processos danosos de decomposição advindos de reações alérgicas ou de estresse oxidativo, causado pelos radicais de oxigênio.

CÉREBRO

Aumento da produção de fatores de crescimento de nervos como o BDNF

  • Aumento da for mação de novas células nervosas (neurogênese)
  • Formação de novas ligações celulares cerebrais
  • Aumento da produção de mitocôndrias para produzir energia
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição das reações inflamatórias

MUSCULATURA

  • Otimização do metabolismo
  • Aumento da sensibilidade para insulina
  • Aumento da resistência contra o estresse oxidativo
  • Diminuição da temperatura corpórea

VEIAS SANGUÍNEAS

Diminuição da glicose na corrente sanguínea e a insulina

  • Diminuição da saturação do hormônio leptina
  • Aumento da grelina, conhecida como hormônio da fome
  • Aumento da produção dos corpos cetônicos, fontes de energia

CORAÇÃO

  • Redução de batimentos cardíacos
  • Redução da pressão arterial
  • Aumento da resistência ao estresse oxidativo

FÍGADO

Aumento de glicogênio

  • Aumento da for mação de glicose (gliconeogênese)
  • Aumento da perda de gordura
  • Aumento da produção de corpos cetônicos como fonte de energia alternativa

INTESTINO

  • Redução do consumo de energia
  • Diminuição de reações inflamatórias
  • Diminuição da proliferação de células

O poder do jejum 6

EM PRINCÍPIO, FAZ MAL

capa20observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. “Quando a restrição calórica, independentemente da estratégia utilizada, promove perda de peso, geralmente resulta em melhora na saúde metabólica, reduzindo a inflamação sistêmica e, consequentemente, o risco de doenças crônicas como aterosclerose, diabetes e câncer”, diz a nutricionista Bruna Zavarize Reis, doutoranda em ciências dos alimentos/nutrição experimental, no Laboratório de Nutrição-Minerais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). Mas faz um alerta: jejum não é ausência total de alimentos e é diferente de restrição calórica intensa. “Os estudos que avaliam os efeitos do jejum intermitente se encaixam nessa premissa, já visto que a maioria deles Não é à toa que a questão do jejum ou mesmo da redução drástica de ingestão calórica causa polêmica. Se a privação de nutrientes for muito longa, os efeitos passam a ser negativos. O professor de farmacologia da Unifesp Gustavo Pereira ressalta que a autofagia contribui para a reciclagem celular e o jejum é um indutor metabólico, capaz de diminuir a morte de neurônios, o que contribui para a saúde cerebral. Ressalta, porém, que se esse processo for longo demais para o organismo, a célula pode começar a degradar componentes benéficos – daí o perigo do excesso. E o que pode ser considerado demais varia muito de uma pessoa para outra. Atualmente não há comprovação científica a respeito do tempo que o jejum e a redução calórica devem ser adotados sem causar prejuízos. Quando ficamos várias horas sem nos alimentar, as reservas de glicose do organismo diminuem e outras fontes de energia, como proteínas e gordura, passam a ser utilizadas pelo organismo. Quanto mais longo for o jejum, mais gordura e proteínas serão consumidas. Quando isso acontece, os índices metabólicos diminuem, o humor se altera, a pessoa fica mais irritável, o processo de cetose torna o hálito desagradável, podem ocorrer crises de enxaqueca, gastrite e hipoglicemia. Dentro de um longo período, uma alteração grave pode ser a chamada hipoglicemia rebote, ou seja, a pessoa deixa de produzir insulina pela não ingestão de nenhum tipo de carboidratos e quando o jejum é interrompido, há uma elevada secreção de insulina, eventualmente maior do que a necessária, levando à hipoglicemia. Jejuar por muitos dias pode trazer danos graves ao corpo, principalmente queda de resistência imunológica e infecções. “Em princípio, jejum prolongado faz mal”, afirma o diretor técnico do Serviço de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade  de São Paulo (USP). Apesar de considerar os estudos sobre os benefícios de interromper a alimentação por longos períodos, ele é cauteloso: “Uma porção de fatos coerentes resultam, necessariamente, numa verdade”. Outro risco é o jejum intermitente ser usado como uma desculpa para mascarar transtornos alimentares como anorexia e bulimia, que em cerca de 20% dos casos levam pacientes, em geral mulheres, à morte.

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FECHAR A BOCA DE MANEIRA SAUDÁVEL

“Qualquer um que jejua de tempos em tempos passa a se abster de forma mais fácil dos alimentos e a obter uma visão mais crítica da própria existência”, acredita o médico Dieter Melchart. Ele afirma, no entanto, que somente pessoas comprovadamente saudáveis devem utilizar método desenvolvido pelo médico Hellmut Luetzner. A prática não é recomendável para pessoas idosas e doentes, crianças, gestantes, lactantes e pessoas propensas a distúrbios alimentares. Segundo o método, nada sólido deve ser consumido durante uma semana, somente caldos de legumes, chás específicos para jejum e sucos de frutas e de verduras. Ele salienta também que a experiência deve ser guiada por profissionais. Mas, jejuar não significa necessariamente alimentar-se uma semana apenas de caldo de legumes nem ficar sem comer por intervalos de vários dias. Existem variações dessa dieta, que podem ser integradas à vida diária, dependendo de cada situação e do estado físico de cada pessoa. Há situações em que durante cinco dias da semana se come normalmente e nos outros dois dias a pessoa faz jejum, tal como proposto pela nutricionista britânica Michelle Harvie, da Universidade de Manchester. Pesquisas recentes sugerem que é benéfico à saúde o corpo sempre “esperar” e se preparar por um período longo sem ingestão de alimentos. Algumas pessoas tentam fazer uma pausa de 16 horas entre as refeições. Isso significa, por exemplo, jantar às 10h e só voltar a se alimentar às 12h do dia seguinte. Com isso, a digestão sofre uma pausa, os níveis de insulina caem num processo de longo prazo e o fator de crescimento neural BDNF aumenta. É importante deixar claro que quem se interessar pela prática deve primeiro debater o tema com um médico.

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HORÁRIO CERTO PARA FECHAR A BOCA

A ideia de utilizar o jejum intermitente para a perda de peso partiu da observação dos padrões alimentares dos nossos ancestrais e de muitos outros mamíferos, caracterizados pela ingestão de energia de forma não contínua. De fato, o organismo humano tem a capacidade, adquirida ao longo da evolução, de armazenar glicose e substratos energéticos de maior duração, como ácidos graxos no tecido adiposo. No jejum intermitente a pessoa permanece por longos períodos – 16 ou até 24 horas, por exemplo –, com pouca ou nenhuma ingestão calórica e, na sequência, se alimenta normalmente. Embora seja mais comum a alternância de 24 horas de jejum/restrição e dieta convencional, atualmente existem vários protocolos aplicados nos estudos experimentais que avaliam os efeitos do jejum intermitente: redução calórica extremamente baixa (sem jejum) em dois ou três dias da semana, com dieta normal nos outros; uma semana de restrição calórica (cerca de 1.300 kcal/dia) alternada com uma semana de dieta normal etc. No entanto, não existe homogeneidade de protocolos para o jejum intermitente, o que pode dificultar a comparação entre os estudos. A estratégia do jejum intermitente muitas vezes é utilizada como uma terapia nutricional, principalmente para pacientes hospitalizados (pré ou pós-operatório) e para pessoas que, por qualquer motivo, ficam impossibilitadas de realizar alguma refeição por um período prolongado (médicos durante a realização de cirurgias longas, por exemplo). Nesses casos de jejum involuntário é fundamental o acompanhamento de um nutricionista para reduzir a inadequação da ingestão de nutrientes, minimizar a sensação de fome e o desconforto causados pela privação de alimentos. Se a proposta é perder peso, outros fatores devem ser considerados. Um deles: restringir o consumo alimentar a uma refeição ao dia pode comprometer a qualidade da dieta. Após uma privação energética prolongada, a pessoa tende a selecionar alimentos com elevada densidade energética, reduzindo a ingestão de fibras, vitaminas e minerais. Outro ponto: sabemos hoje que o café da manhã (geralmente omitido no jejum intermitente) é a principal refeição responsável pela ingestão de diversas vitaminas e minerais. Além disso, realizar apenas uma refeição por dia exclui a possibilidade de colocar em prática dois dos principais pilares da nutrição: variedade e equilíbrio.

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ALIMENTO E RELIGIÃO

O jejum é utilizado há centenas de anos em práticas religiosas e assume várias conotações. De barriga vazia, imersos na contemplação e na oração, imagina-se que os fiéis tenham novos insights e ampliem suas percepções. A prática estaria a serviço da purificação da alma e do arrependimento, ajudaria a afastar o mal, favorecer a meditação avançada e até a redenção ou a iluminação. As prioridades são diferentes para as distintas religiões. Comum a todas é a reflexão sobre o que realmente é importante: a busca do sagrado. Para os judeus, há várias datas fixas para o jejum. A maior data de celebração em que a prática se aplica no calendário judaico é o Yom Kippur. No 17º dia do mês do calendário judaico tradicional, a privação de comida funciona como um sinal de arrependimento. São 25 horas de jejum nessa ocasião: comer, beber, trabalhar, exercitar o corpo e até fazer sexo é proibido, a data é reservada para celebrar orações e cultos. No cristianismo, há dois longos períodos de jejum: 40 dias antes do Natal, nos dias do Advento, que começam em 11 de novembro, e 40 dias antes da Páscoa. Na prática, porém, o tempo de jejuar nos dias do Advento (exceto na Igreja Ortodoxa) ficou no passado. Os cristãos veem a abstinência como penitência, uma forma de se preparar para tomar decisões importantes e para o encontro com Deus. O ato é acompanhado de orações e pelo compromisso de ajudar os pobres e necessitados.  Jejuar é um dos cinco pilares do Islã que o Alcorão prescreve aos muçulmanos. No islamismo jejua-se no período do Ramadã (o nono mês no calendário lunar islâmico) como sinal de devoção a Deus. Nesse período, não é permitido ingerir nenhum tipo de alimento, líquido ou sólido, entre o amanhecer e o pôr do sol. Já no hinduísmo, não há nenhuma época prevista para o jejum, embora a renúncia à comida seja uma forma de punição pelos pecados. Para o budismo, o jejum está associado ao compromisso de controlar a própria mente. Em algumas linhas budistas, monges e monjas optam pelo voto de não comer mais nada após o almoço, por exemplo. Uma das razões está no empenho para que nada atrapalhe a meditação, nem mesmo a sensação incômoda de peso e sonolência provocada por refeições fartas.

ULRIKE GEBHARDT – é bióloga e jornalista com especialização em divulgação científica.

OUTROS OLHARES

A ORDEM É DESAPERGAR-SE

Nestes tempos de promoção da simplicidade, ter um armário abarrotado não pega bem. Resultado: os brechós e bazares vendem como nunca.

A ordem é desapergar-se

Foi-se o tempo em que mulheres abastadas lotavam o Facebook com fotos de seus closets abarrotados. Diante de uma combinação de fatores que começa na crise econômica, passa pelas onipresentes pregações ambientalistas e desemboca na propagada conversão de famosos a um estilo de vida mais simplesinho, as consumidoras vorazes vêm se rendendo a uma realidade inescapável: ter coisa demais no guarda­ roupa não pega bem.

O movimento em direção à diminuição dos cabides alimenta um ramo de negócios de pouco destaque até algum tempo atrás, o dos brechós on-line. Antes confinado a lojas meio empoeiradas, o comércio de peças seminovas, inflado pelos novos tempos, vem migrando para a internet. Segundo pesquisa do Sebrae, entidade voltada para pequenas e médias empresas, em 2015 os brechós on-line já eram quase 20% do total de brechós no país – e continuam aumentando.

Que fique claro: comprar vestido, bolsa, sapato e bijuterias continua sendo o esporte preferido de boa parte da população feminina do planeta. Mas cada vez que Kate, a futura rainha da Inglaterra, repete roupa – e ela repete com frequência-, ou que alguma atriz no tapete vermelho diz que comprou seu vestido “num brechó de Los Angeles”, o ato de entupir armários vai parecendo menos glamouroso. Daí para a primeira bolsa usada de grife é um passo, como mostram os números do comércio de segunda mão. A enjoei, a maior plataforma-brechó brasileira, tem mais de 3,5 milhões de usuários e faz 180.000 transações por mês. As vendas nos primeiros seis meses deste ano ficaram 60% acima das do mesmo período de 2017. “É um hábito recente. As pessoas estão percebendo o atrativo econômico de adquirir o que alguém dispensou e perdendo a vergonha de usar esses produtos”, explica a gerente Ludmila Brait.

Em geral, são as donas das peças que procuram os brechós, que, por sua vez, examinam as fotos e decidem se aceitam revendê-las. Aprovados, os produtos vão para o site a preços até 90% inferiores ao original. O brechó cobra uma comissão de 20% a 40% pela venda; a dona da peça tem a opção de receber sua parte ou deixá-la como crédito na loja – uma alternativa tentadora, que, convenhamos, não colabora com o objetivo inicial (aliás, qual era ele mesmo?).

Daniela Carvalho, que comanda o Peguei Bode com a irmã Gabriela, oferece o estoque mais luxuoso (e caro) da comunidade: nas prateleiras virtuais circulam marcas como Dior, Chanel e Versace – tudo usado. “O preconceito está sendo vencido em todas as faixas de renda. Muitas milionárias compram com a gente”, afirma Daniela, que cita entre as clientes-vendedoras Camila Pitanga, Marina Ruy Barbosa e Fernanda Lima. Já outra atriz, Luana Piovani, resolveu virar sócia de um brechó on-line, o Cansei Vendi, onde também se abastece. “Agora que tenho família, filhos, funcionários, não dá para gastar dinheiro só comigo”, argumenta.

Ao lado dos brechós, crescem e aparecem as iniciativas de troca de roupas usadas, o clothing swap. As paulistas Giovanna Nader e Raquel Vitti idealizaram o Projeto Gaveta, que efetua o troca-troca – sem dinheiro envolvido – em encontros (físicos) duas vezes por ano. A própria Giovanna é propaganda viva de seu projeto. “Fiquei grávida e não comprei roupa nova. Amigas me emprestaram, usei duas calças de elástico que já tinha e pronto. Foram sete peças durante toda a gravidez”, diz. A cantora Preta Gil promove há dez anos, no Rio de Janeiro, o Bazar da Preta, recheado de peças do armário de artistas, com renda revertida para instituições beneficentes. O movimento cresceu tanto que, em maio, teve sua primeira versão em São Paulo. “O bazar virou moda, coisa chique”, comemora.

A reciclagem do closet tem impulsionado uma profissão nova, “o personal encolhedor de guarda­ roupa” (ah, era esse o objetivo inicial!). A carioca Alexandra Melo cobra 120 reais por hora e explica o seu trabalho: “Eu ajudo em uma coisa que as clientes simplesmente não conseguem fazer sozinhas: descartar peças. No fundo, ofereço mesmo é suporte emocional para a tarefa”. Em junho, Fiona Golfar, editora da revista Vogue inglesa, relatou no jornal The Times o que chamou de detox do seu enorme closet. Ela acabou o dia com caixas e mais caixas de excedentes, “considerável dor no coração” e grande alívio. E, se não deu seu obrigatório passinho na direção de uma vida mais simples, ao menos conseguiu um armário com espaço para acomodar umas roupinhas novas.

OUTROS OLHARES

MÃE AOS 64 ANOS

Norma Maria de Oliveira, procuradora municipal em Minas, deu à luz Ana Letícia após décadas tentando engravidar.

Mãe aos 64 anos

Minha luta para ser mãe era muito antiga. Eu tentava engravidar e não conseguia. Aos 30 e poucos anos, meu companheiro e eu procuramos um hospital público, vinculado a uma universidade, para tentar a inseminação artificial (injeção de espermatozoides no útero). Por um ano e meio, fiz várias consultas e exames. Fui diagnosticada com ovários policísticos e trompa obstruída, além de outros fatores que impediam que eu engravidasse de forma natural.

Nesse ínterim, meu companheiro faleceu. Aos 46 anos, eu tinha um novo relacionamento, e meu desejo de ser mãe aumentou. Fomos atrás do processo de fertilização in vitro (fecundação do óvulo em laboratório). Exigia-se, porém, um comprovante de união estável do casal por um período superior a cinco anos. Chegamos a providenciá-lo, mas, tempos depois, nós nos separamos – e meu sonho foi de novo adiado.

Para piorar, o Conselho Federal de Medicina publicou uma resolução que proibia mulheres com mais de 50 anos de se submeter a reprodução assistida. Como advogada, fiz uma petição ao órgão em que explicava minha situação e anexei a ela todos os exames que comprovavam que meu corpo era saudável para a gestação. No entanto, meu pedido foi negado.

O tempo passava e meu sonho de ser mãe ficava cada vez mais distante. Eu já tinha 60 anos quando comecei a pesquisar alternativas na internet e descobri que na Índia é muito comum mulheres mais velhas fazerem o tratamento de reprodução assistida com óvulos doados por jovens anônimas. Eu e meu atual companheiro não pensamos duas vezes: fomos tentar o procedimento na cidade de Jabalpur.

Atravessamos o mundo pelo meu sonho de maternidade. Contudo, ao chegarmos a Nova Délhi, soubemos que não havia voos para Jabalpur, por causa de um terremoto. A alternativa seria ônibus ou trem, porém ficamos com medo, por não conhecer o país. Voltamos frustrados. Às vezes eu me desanimava bastante, pensava que não tinha mais como meu projeto dar certo, mas retomei o fôlego e tentei de novo.

Um casal comentou que havia feito fertilização em Belo Horizonte, a duas horas de onde moro. Fomos para lá. Os exames deram o.k. Como entrei na menopausa aos 50 anos, recorri ao método de ovo doação (doação de óvulos por outra mulher), associado ao espermatozoide de meu companheiro. Fertilizamos sete embriões – quatro aptos à implantação. Decidi implantar um – engravidei na primeira tentativa. Eu tinha conseguido! Sempre quis ser mãe de menina e, embora não me preocupasse com o sexo, chorei muito ao saber que era uma garota. Meus pais já haviam morrido, e meus três irmãos só souberam da gestação quando a barriga estava grande. No momento em que dei a notícia a eles, achei que iam desmaiar, tamanho o susto.

No quarto mês de gravidez, afastei-me da prefeitura de Itabira (MG), porque minha pressão arterial começou a subir. Com 33 semanas, houve perda de líquido amniótico, e um exame que mostra a irrigação do bebê apontou alteração e queda de plaquetas – o que indicava pré-eclâmpsia, situação de extremo perigo para qualquer gestante. Em razão da minha idade, a médica decidiu fazer cesariana e evitar outros riscos.

No dia 10 de abril, Ana Letícia nasceu saudável, pesando 1,71 quilo e medindo 43 centímetros. O parto foi bem tranquilo, eu estava calma. Minha filha foi para a UTI, por ter nascido prematura. Peguei-a no colo somente três dias depois. Não me contive de tanta emoção. Ela tomava meu leite por meio de sonda, mas logo aprendeu a mamar no peito.

O preconceito que sofro por ter sido mãe aos 64 anos me deixa triste. E o maior preconceito vem das mulheres, principalmente as desconhecidas, que me abordam para dizer que sou muito velha para isso. Ninguém tem nada a ver com as minhas decisões. Há muitas mulheres que querem ser mãe, mas não têm a coragem de fazer o que eu fiz.