ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE III

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

[5] Cristo responde a essa crítica, e comprova que a água viva que Ele tinha para dar era muito melhor do que a do poço de Jacó, vv. 13,14. Embora ela falasse perversamente, Cristo não a rejeitou, mas a instruiu e a encorajou. Ele mostrou-lhe:

Em primeiro lugar, que a água do poço de Jacó produzia somente um bem-estar e um suprimento passageiros: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede”. Ela não é melhor do que qualquer outra água. Ela saciará a sede momentânea, mas a sede voltará, e em algumas horas o homem terá a mesma necessidade e desejo de água que sempre teve. Isso sugere:

1. As debilidades dos nossos corpos nesta condição atual. Eles ainda estão necessitados, e têm sempre um desejo ardente. A vida é uma chama, uma lamparina que, sem um suprimento contínuo de combustível e azeite, logo se apagará. O calor natural consome a si mesmo.

2. As imperfeições de todos os nossos confortos neste mundo. Eles não são duradouros, nem nossa satisfação neles, permanente. Sejam quais forem as águas de conforto das quais bebamos, teremos sede novamente. A comida e a bebida de ontem não servirão para a vida de hoje.

Em segundo lugar, que as águas vivas que Ele daria produziriam uma satisfação e bênção duradouras, v. 14. As dádivas de Cristo parecem mais valiosas quando são comparadas com as coisas deste mundo, pois parecerá não haver comparação entre elas. Quem quer que compartilhe do Espírito da graça, e dos confortos do Evangelho eterno:

A. Nunca terá sede, nunca terá a necessidade de algo mais para satisfazer abundantemente os desejos de sua alma. A pessoa poderá estar desejosa, mas não estará padecendo. Esta pessoa poderá ter uma sede que é igual a um desejo, e não almejará nada mais do que a presença e a graça de Deus. Ela desejará ter mais e mais de Deus. Porém, ela não terá uma sede que possa se parecer com o desespero.

B. Consequentemente, nunca terá sede porque essa água que Cristo proporciona “se fará nele uma fonte de água”. Nunca poderá ter sede ao extremo aquele que tem em si mesmo uma fonte de suprimento e satisfação.

(a) Esta fonte estará sempre pronta a jorrar, pois ela estará nele. O princípio da graça plantado nele é a fonte de seu conforto. Veja cap. 7.38. Um homem bom está satisfeito em si mesmo, pois Cristo habita em seu coração. A unção permanece nele. Ele não precisa se esgueirar pelo mundo em busca de conforto. A obra e o testemunho do Espírito no seu coração lhe fornecem um sólido alicerce de esperança, e uma fonte de alegria transbordante.

(b) Esta fonte será infalível, pois estará dentro dele. Aquele que tem na mão apenas um balde de água não terá sede enquanto esta durar, mas ele logo estará vazio. Somente os crentes têm dentro de si uma fonte de água transbordante, sempre fluindo. Os princípios e os sentimentos que o santo Evangelho de Cristo cria nas almas daqueles que são colocados sob seu poder são essa fonte de água.

[a] Ela está jorrando, sempre em movimento, o que evidencia as fortes e vigorosas ações da graça. Se as boas verdades ficam estagnadas em nossas almas, como água parada, elas não correspondem ao propósito da nossa aceitação. Se em nosso coração houver um bom tesouro, então nós deveremos produzir coisas boas.

[b] Ela está saltando para a vida eterna, o que indica, em primeiro lugar, os objetivos das ações generosas. Uma alma santificada tem sua atenção voltada para o céu, pretende isso, planeja isso, faz tudo por isso, não aceitará nada menos que isso. A vida espiritual salta em direção à sua própria perfeição na vida eterna. Em segundo lugar, a constância dessas ações. Continuará saltando até alcançar a perfeição. Em terceiro lugar; o galardão deles, a vida eterna enfim. A água viva nasce do céu, e, portanto, eleva-se em direção ao céu. Veja Eclesiastes 1.7. E sendo assim, não é essa água melhor do que a do poço de Jacó?

[6] A mulher (alguns pensam que é difícil dizer se por brincadeira ou a sério) pede que Jesus lhe dê um pouco dessa água (v. 15): “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede”. Em primeiro lugar, alguns acham que ela fala com zombaria e ridiculariza o que Cristo tinha dito como sendo mera bobagem. E, por zombaria, não por desejo, desafia-o a lhe dar um pouco dessa água: “Uma invenção rara. Isso me poupará muito trabalho se eu nunca mais tiver que voltar aqui para tirar água”. Mas, em segundo lugar; outros acham que esse foi um desejo bem-intencionado, embora ilógico e ignorante. Ela compreendeu que o Senhor se referia a algo muito bom e proveitoso, e então disse amém, talvez ao acaso. “Seja o que for, que venha. Quem me mostrará algum bem? Facilitar; ou poupar trabalho, é um bem valioso para os pobres trabalhadores. Note:

1. Mesmo aqueles que são fracos e ignorantes podem, ainda assim, ter algumas débeis e hesitantes aspirações em relação a Cristo e suas dádivas, alguns bons desejos de graça e glória.

2. Os corações carnais, em seus melhores desejos, não enxergam nada além de suas finalidades carnais. “Dá-me”, diz ela, não para que eu possa ter a vida eterna (que Cristo propôs), mas “para que não mais tenha sede e não venha aqui tirá-la”.

3. O próximo tópico da conversa com essa mulher é com relação a seu marido, vv. 16-18. Não foi para deixar de lado a conversa sobre a água da vida que Cristo começou a falar nesse assunto, como muitos que fazem qualquer comentário inoportuno durante uma conversa para que possam abandonar um assunto sério. Mas Ele o fez com um propósito benevolente. O Senhor percebeu que aquilo que Ele havia dito com relação à sua graça e à vida eterna causara pouco impacto sobre ela, porque ela não tinha sido convencida do pecado. Por isso, renunciando à conversa sobre a água viva, Ele empenha-se em despertar a consciência dela, para abrir a ferida da culpa, e então ela entenderia mais facilmente a cura que é ministrada pela graça. E este é o método de lidar com as almas. Elas devem, primeiro, estar cansadas e sobrecarregadas pelo fardo do pecado, e então devem ser levadas a Cristo para descansar. Primeiro se sentem atormentadas até o coração, e então são curadas. Este é o caminho da cura espiritual, e se não procedermos nessa ordem, estaremos começando pelo lado errado.

Observe:

(1) A maneira discreta e decente como Cristo introduz essa conversa (v. 16): “Vai, chama o teu marido e vem cá”. Neste momento:

[1] A ordem que Cristo deu a ela tinha uma intenção muito boa: “Chama teu marido, para que ele possa lhe ensinar, e ajudar-lhe a entender essas coisas que você ignora”. As mulheres que querem aprender devem perguntar a seus maridos (1 Coríntios 14.35), que devem “coabitar com elas com entendimento”, 1 Pedro 3.7. “Chama teu marido, para que ele possa aprender contigo, para que então ambos possam juntos ser os herdeiros da graça da vida. Chama teu marido, para que ele possa ser testemunha do que se passa entre nós”. Desse modo, Cristo nos ensina a buscar coisas honestas à vista de todos os homens, e ter como objetivo aquilo que for de boa reputação.

[2] Como isso tinha uma boa intenção, tinha também um bom propósito, pois Ele aproveitaria a ocasião para trazer o pecado dela à lembrança. É preciso habilidade e prudência ao repreender. Deve-se planejar, como a mulher de Tecoa, 2 Samuel 14.20.

(2) Com que persistência a mulher busca evitar a condenação, e mesmo assim sem perceber se condena, e, antes que esteja ciente, reconhece seu erro. Ela disse: “Não tenho marido”. Sua declaração sugeria apenas que ela não se importava mais que se falasse de seu marido, nem que esse assunto fosse mencionado. Ela não faria seu marido ir até lá para que a verdade sobre o assunto não viesse à tona para sua vergonha em conversas adicionais: “Por favor, fale de qualquer outra coisa, pois eu não tenho marido”. Seria de se pensar que ela fosse uma serva ou uma viúva, apesar de que, embora não tivesse marido, ela não fosse nem uma coisa nem outra. O pensamento carnal é muito engenhoso e cuidadoso ao esconder o pecado, na tentativa de se afastar e se livrar das condenações.

(3) Com que rigor nosso Senhor Jesus faz a consciência dela entender a condenação. É provável que Ele tenha dito mais do que aquilo que está registrado aqui, porque ela percebeu que o Senhor lhe falara tudo o que ela já tinha feito (v. 29). Mas aquilo que está registrado aqui é relativo aos maridos daquela mulher. Aqui está:

[1] Uma narrativa surpreendente de uma conversa sobre o passado dela: “Tiveste cinco maridos”. Sem dúvida, não era por sua aflição (o sepultamento de tantos maridos), mas por seu pecado, que Cristo pretendia repreendê-la. Ou ela poderia ter fugido para se casar (como diz a lei), fugido de seus maridos e se casado com outros. Ou sua conduta irresponsável, ímpia e desleal os havia levado a se divorciar dela. Ou ainda, por meios indiretos, ela havia contrariado a lei, e se divorciado deles. Aqueles que não levam a sério práticas escandalosas como essas, e fingem que a culpa se extingue assim que a conversa se encerra, devem se lembrar de que todas as coisas estão registradas diante de Cristo.

[2] Uma severa repreensão à sua condição de vida atual: “O que agora tens não é teu marido”. Ou ela nunca havia se casado com ele de modo algum, ou ele tinha alguma outra esposa, ou, o que é mais provável, seu ex-marido ou maridos estavam vivos, de forma que, em resumo, ela vivia em adultério. Observe ainda a suavidade com que Cristo lhe fala sobre isso. Ele não a chama de prostituta, mas lhe diz: “O que agora tens não é teu marido”, e então deixa para sua própria consciência dizer o resto. Note que as repreensões são geralmente mais proveitosas quando são menos ofensivas.

[3] Ainda assim, o Senhor Jesus traz uma interpretação melhor do que aquela que ela poderia trazer. A colocação do Senhor elimina as evasivas e os subterfúgios: “Disseste bem: Não tenho marido”. E outra vez: “Isso disseste com verdade”. O que ela pretendeu que fosse a negação de um fato (que ela não considerou como marido a nenhum homem com quem no caso da lei de Moisés, mas a vontade de Deus é que os homens orem em todo lugar, 1 Timóteo 2.8; Malaquias 1.11. Nosso bom senso nos instrui a considerar a decência e a conveniência dos lugares onde adoramos, mas nossa religião não tem preferência por um lugar em relação ao outro, com respeito à santidade e aceitação por parte de Deus. Aqueles que preferem algum local de adoração somente por causa da casa ou construção na qual a adoração está sendo realizada (mesmo que seja tão magnífica e solenemente consagrada como era o templo de Salomão) se esquecem de que hoje o local onde se adora a Deus já não faz mais diferença. Não há mais uma diferença entre Jerusalém, que tinha sido tão conhecida pela sua santidade, e o monte de Samaria, que havia sido tão mal-afamado pela sua impiedade.

[2] Ele coloca ênfase sobre outras coisas, na questão da adoração religiosa. Ao dar tão pouca importância ao local de adoração, Ele não pretendia diminuir nossa preocupação sobre a questão em si, sobre a qual Ele então aproveita a oportunidade para discorrer mais detalhadamente.

Em primeiro lugar, quanto ao estado de divergência daquela época, Ele decidiu contra a adoração dos samaritanos, e em favor da dos judeus, v 22. Ele diz aqui:

1. Que os samaritanos certamente estavam errados, não simplesmente porque adoravam nesse monte, embora a preferência por Jerusalém já estivesse em vigor, o que era pecaminoso, mas porque eles estavam errados quanto ao objeto de sua adoração. Se a adoração em si fosse como deveria ser, sua separação de Jerusalém poderia ter sido aceita, pois os melhores reinos tinham seus lugares altos: “Mas vós adorais o que não sabeis”, ou, “aquele que não conheceis”. Os judeus adoravam o Deus de Israel, o verdadeiro Deus (Esdras 4.2; 2 Reis 17.32), mas estavam mergulhados em completa ignorância. Eles o adoravam como o Deus daquela terra (2 Reis 17.27,33), como uma divindade local, como os deuses das nações. Porém, o Senhor Deus deveria ser servido como o único Deus, como o Senhor universal. Observe que a ignorância está muito longe de ser a mãe da devoção, sendo, antes, sua assassina. Aqueles que adoram a Deus na ignorância oferecem animais cegos para sacrifício, e este é o sacrifício de tolos.

2. Que os judeus certamente estavam corretos. Pois:

(1) ‘”Nós adoramos o que sabemos’. Nós caminhamos em terreno seguro em nossa adoração, pois nosso povo é discipulado e educado no conhecimento de Deus, conforme Ele se revelou nas Escrituras”. Note que aqueles que, através das Escrituras, obtiveram um certo conhecimento sobre Deus (embora não um conhecimento perfeito), podem adorá-lo tranquilamente e de maneira aceitável, porque eles sabem o que adoram. Cristo, em outra passagem, condena as distorções da adoração dos judeus (Mateus 15.9), e mesmo assim defende a adoração em si. A adoração pode ser verdadeira mesmo onde ela não é genuína e íntegra. Observe que nosso Senhor Jesus estava feliz em se incluir entre os adoradores de Deus: “Nós adoramos”. Embora Ele fosse o Filho (logo, estão livres os filhos), mesmo assim Ele aprendeu a obediência nos dias de sua humilhação. Que os maiores entre os homens não pensem que a adoração a Deus seja algo inferior para eles, pois o próprio Filho de Deus não agiu deste modo.

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JOÃO 4: 4-26 – PARTE II

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

II – Sua conversa com urna mulher samaritana é aqui detalhadamente registrada, enquanto sua discussão com os doutores, e sua conversa com Moisés e Elias no monte, estão sepultadas no silêncio. Essa conversa pode ser reduzida a quatro tópicos:

1. A discussão a respeito da água, vv. 7-15.

(1) São informadas as circunstâncias que deram origem a essa conversa.

[1] Então veio uma mulher de Samaria para tirar água. Isso demonstra sua pobreza, ela não tinha nenhum criado para tirar a água, e ela mesma deveria fazer seu esforço. Veja aqui, em primeiro lugar, corno Deus reconhece e aprova a diligência humilde e honesta em nosso trabalho. Cristo tornou-se conhecido dos pastores quando estes estavam cuidando de seu rebanho. Em segundo lugar, como a Providência viabiliza propósitos gloriosos através de acontecimentos que para nós parecem fortuitos e acidentais. O encontro dessa mulher com o Senhor Jesus Cristo no poço pode nos fazer lembrar das histórias de Rebeca, de Raquel, e da filha de Jetro, que encontraram homens de Deus, bons maridos, nenhum pior do que Isaque, Jacó e Moisés, quando vieram ao poço em busca de água. Em terceiro lugar, como a graça preventiva de Deus, algumas vezes, leva as pessoas inesperadamente aos caminhos da conversão e da salvação. Muitas vezes, Ele é achado por aqueles que não o buscam.

[2] “Seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida”. Daqui, podemos tirar uma lição, em primeiro lugar, de justiça e honestidade. Cristo comprava e pagava pela comida que comia, como Paulo, 2 Tessalonicenses 3.8. Em segundo lugar, da nossa dependência diária da Providência: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã”. Cristo não foi à cidade para comer, mas enviou seus discípulos para buscarem seu alimento. Não porque Ele receava comer em uma cidade samaritana, mas:

1. Porque Ele tinha uma boa obra a realizar junto àquela fonte, que devia ser feita enquanto eles estavam cuidando das provisões. É sábio preencher nossos minutos de inatividade com aquilo que é bom, para que os fragmentos de tempo possam ser aproveitados. Pedro, enquanto o jantar estava sendo preparado, teve um arrebatamento, Atos 10.10.

2. Porque era mais privativo e afastado, mais barato e simples, que sua refeição lhe fosse trazida do que ir à cidade para comer. Talvez sua bolsa tivesse pouco dinheiro, e Ele nos ensinou a economizar, gastar de acordo com o que temos, e não além disso. Pelo menos, Ele nos ensinou a não nos influenciarmos pelas coisas grandes. Cristo podia comer seu jantar tanto junto à uma fonte como na melhor hospedaria da cidade. Devemos nos comportar de acordo com nossas circunstâncias. Sendo assim, isso proporcionou a Cristo uma oportunidade de conversar com essa mulher samaritana sobre assuntos espirituais, e Ele a aproveitou. Ele frequentemente pregava para multidões que se aglomeravam diante dele para receber ensinamentos. Mas, apesar disso, aqui o Senhor Jesus se digna a ensinar uma única pessoa, uma mulher, uma mulher pobre, uma estranha, uma samaritana, para ensinar seus ministros a fazer o mesmo, como aqueles que sabem que obra gloriosa é ajudar a salvar alguém da morte, ainda que seja apenas uma alma.

(2) Observemos as particularidades desta discussão.

[1] Jesus começa com um humilde pedido por um pouco de água: “Dá-me de beber”. Aquele que por nossa causa se fez pobre, aqui se torna um pedinte, para que aqueles que estão em dificuldades, e não conseguem trabalhar, não tenham vergonha de pedir. Cristo pediu, não apenas porque Ele precisava, e necessitava da ajuda dela para alcançá-la, mas porque se valeria disso para facilitar uma conversa com a mulher, e nos ensinar a estar dispostos a agradecer pelo pouco, quando isso acontecer. Cristo continua pedindo através de seus pobres, e um copo de água fresca, como esta aqui, dado a estes em seu nome, não ficará sem sua recompensa.

[2] Embora a mulher não tenha recusado o pedido, ela discutiu com Jesus porque Ele não se comportou de acordo com o temperamento de sua própria nação (v. 9): “Como?” Observe, em primeiro lugar, que havia uma hostilidade mortal entre os judeus e os samaritanos: “Os judeus não se comunicam com os samaritanos”. Os samaritanos eram os adversários de Judá (Esdras 4.1), e prejudiciais a eles em qualquer situação. Os judeus eram extremamente mal-intencionados contra os samaritanos, “olhavam para eles como se eles não tivessem nenhuma participação na ressurreição, excomungavam-nos e amaldiçoavam-nos pelo nome santo de Deus, pela gloriosa Escritura das tábuas da lei, e pela imprecação do alto e do baixo Sinédrio, com a seguinte lei: Que nenhum israelita coma qualquer coisa que seja de um samaritano, pois é como se ele comesse carne de porco”. Observe que as disputas por causa de religião são geralmente as mais implacáveis. Os homens foram feitos para ter relacionamentos uns com os outros, mas, se devido ao fato de um orar em um templo, e outro em outro, eles negarem os deveres da humanidade, caridade e civilidade geral, serão intragáveis, anormais, insolentes e críticos, e isso a pretexto de zelo pela religião. Estes mostram claramente que, por mais que sua religião possa ser verdadeira, eles não são verdadeiramente religiosos, mas, a pretexto de lutar pela religião, subvertem o objetivo dela. Em segundo lugar, como a mulher estava pronta para reclamar sobre a arrogância e a natureza doentia da nação judaica: “Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim”. Através das vestes ou do dialeto, ou de ambos, ela sabia que Jesus era um judeu, e acha estranho que Ele não cometesse os mesmos excessos de revolta contra os samaritanos que os outros judeus. Observe que homens comedidos de todos os lados, como Josué e seus companheiros (Zacarias 3.8), são homens dignos de se admirar. Essa mulher deseja saber duas coisas:

1. Por que Ele havia pedido essa gentileza, pois o orgulho dos judeus faria com que suportassem qualquer sofrimento para não ficarem em débito com um samaritano. Era parte da humilhação de Cristo que Ele nascesse na nação judaica, que agora estava não apenas em uma condição difícil, sujeita aos romanos, mas com uma reputação ruim entre as nações. Com que desdém Pilatos perguntou: “Porventura, sou eu judeu?” Dessa forma, ele se tornou alguém não apenas sem reputação, mas de má reputação. Porém, nisso, o Senhor nos deu um exemplo importante de que devemos nadar contra a corrente das imoralidades triviais. Nós devemos, como nosso Mestre, mostrar bondade e amabilidade, ainda que seja muito típico do caráter da nossa região, ou do temperamento do nosso povo, sermos rabugentos e mal-humorados. Essa mulher esperava que Cristo fosse como os outros judeus, porém é injusto culpar igualmente todos os indivíduos pelos defeitos típicos de toda a comunidade. Não há regra que não tenha exceções.

2. Ela gostaria de saber por que Ele esperava receber essa gentileza de uma samaritana: “Vós, judeus, podeis negá-la a alguém de nossa nação, e porque deveríamos concedê-la a alguém da vossa?” As disputas são disseminadas incessantemente por vingança e retaliação.

[3] Cristo aproveita essa ocasião para instruí-la sobre as coisas divinas: “Se tu conheceras o dom de Deus… tu lhe pedirias”, v. 10. Observe que:

Em primeiro lugar, Ele evita a objeção da mulher, devido à hostilidade entre judeus e samaritanos, e não a leva em consideração. Algumas divergências são melhor resolvidas ao serem ignoradas, e ao se evitar todas as oportunidades de se discutir sobre elas. Cristo converterá essa mulher, não por lhe mostrar que a adoração samaritana era separatista (embora ela realmente o fosse), mas mostrando a falta de conhecimento e imoralidade na vida dela, e a necessidade que ela tinha do Salvador.

Em segundo lugar, Ele fornece a ela um entendimento para que ela tivesse agora uma oportunidade (uma oportunidade mais justa do que ela podia perceber) de conquistar algo que seria um indescritível benefício para ela. Ela, ao contrário dos judeus, não tinha meios de compreender os sinais dos tempos, e por essa razão Cristo lhe diz expressamente que ela estava, agora, na época da graça. Esse era o dia da sua visitação.

1. Ele sugere o que ela deveria saber, mas ignorava: “Se tu conheceras o dom de Deus”, isto é, como as palavras seguintes explicam: “Quem é o que te diz: Dá-me de beber”. “Se tu soubesses quem eu sou”. Ela o via como sendo um judeu, um pobre viajante cansado, mas Ele a faria saber algo mais a respeito dele do que aquilo que aparentava. Observe que:

(a) Jesus Cristo é o “dom de Deus”, o símbolo mais precioso do amor de Deus para conosco, e o tesouro mais rico de todo o bem para nós; uma dádiva, não uma dívida que poderíamos cobrar de Deus; não um empréstimo, que Ele cobrará de nós, mas uma dádiva, um dom gratuito, cap. 3.16.

(b) É um indescritível privilégio ter essa dádiva de Deus proposta e oferecida a nós, e ter uma oportunidade de aceitá-la: ”Aquele que é a dádiva de Deus está agora sentado diante de ti, e fala contigo. É Ele quem te diz: Dá-me de beber. Esta dádiva aparece para ti, na forma de alguém que está te pedindo algo”.

(c) Embora Cristo esteja diante de nós, e nos peça algo em seu Evangelho, e através deste, ainda existem multidões que não o conhecem. Estas pessoas não sabem quem é que fala com elas no Evangelho, que diz: “Dá-me de beber”. Elas não percebem que é o Senhor que as chama.

2. Ele tem uma expectativa no que diz respeito a ela, do que ela teria feito se soubesse quem Ele era. Ele tinha a certeza de que ela não lhe daria uma resposta rude e mal-educada. Pelo contrário, ela estava tão longe de afrontá-lo, que se dirigiria ao Senhor de uma forma amável: “Tu lhe pedirias”. Observe que:

(a) Aqueles que desejam ter qualquer benefício através de Cristo devem pedir, devem ser determinados em orar a Deus para receber tal benefício.

(b) Aqueles que têm um correto conhecimento de Cristo o buscarão, e se não o buscamos, este é um sinal de que não o conhecemos, Salmos 9.10.

(c) Cristo sabe o que aqueles que desejam os meios de conhecimento teriam feito se os tivessem, Mateus 11.21.

3. Ele declara à mulher o que teria feito por ela se ela tivesse recorrido a Ele: “E ele te daria [e não lhe teria censurado, como fazes a mim] água viva”. Esta água viva representa o Espírito Santo, que não é como a água no fundo do poço, um pouco da qual Jesus havia pedido, mas como água viva ou corrente, que é muito mais valiosa. Observe que:

(a) O Espírito da graça é uma água viva. Veja cap. 7.38. Sob essa semelhança, as bênçãos do Messias tinham sido prometidas no Antigo Testamento, Isaías 12.3; 35.7; 44.3; 55.1; Zacarias 14.8. As graças do Espírito, e seus confortos, satisfazem a alma sedenta, que conhece sua própria natureza e necessidade.

(b) Jesus Cristo pode dar e dará o Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade, àqueles que lhe pedirem, pois Ele recebeu esta autoridade de Deus, o Pai.

[4] A mulher opõe-se e contesta a benevolente insinuação que Cristo lhe faz (vv. 11,12): “Tu não tens com que a tirar”. E, por outro lado: “És tu maior do que Jacó, o nosso pai”? O que Ele falou figurativamente, ela interpretou literalmente. Nicodemos fez o mesmo. Veja que noções confusas têm, das coisas espirituais, aqueles que estão totalmente absorvidos por aquilo que faz parte do mundo dos sentidos. Ao chamar Jesus de Senhor; ela lhe demonstra algum respeito, mas parece que ela demonstra pouco respeito pelo que Ele disse, pois, neste particular, fez apenas gracejos.

Em primeiro lugar, ela não o acha capaz de provê-la com nenhuma água, não, não essa do poço que está à mão: “Tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo”. Ela disse isso sem conhecer o poder de Cristo, pois aquele que faz os vapores subirem das extremidades da terra não precisa de nada para tirá-la. Mas existem aqueles que confiarão em Cristo até o limite em que puderem vê-lo, e não crerão em sua promessa, a menos que os meios de sua realização sejam visíveis. É como se ficássemos amarrados aos nossos métodos, e não pudéssemos tirar água sem nossos baldes. Ela pergunta com desdém: “‘Onde, pois, tens a água viva?’ Eu não vejo de onde possas tirá-la”. Note que as fontes daquela água viva que Cristo tem para aqueles que vêm a Ele são secretas e ocultas. A fonte da vida está oculta em Cristo. Cristo tem o suficiente para nós, embora não vejamos de onde Ele tira tamanhas bênçãos.

Em segundo lugar, ela não achava possível que Ele pudesse provê-la com qualquer água melhor do que aquela que ela podia conseguir, mas Ele não podia: “És tu maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço?”

A. Nós presumimos que a tradição seja verdadeira, que o próprio Jacó, e seus filhos, e gado, realmente beberam daquele poço. E podemos perceber, a partir disso:

(a) O poder e a providência de Deus, na continuidade das fontes de água de geração a geração, pela circulação constante dos rios, assim como o sangue circula no corpo (Eclesiastes 1.7). Talvez o fluxo e refluxo do mar, como as pulsações do coração, contribua com este processo de circulação.

(b) A simplicidade do patriarca Jacó. Sua bebida era água, e ele e seus filhos bebiam do mesmo poço com seu gado.

B. Ainda que se admita que isso seja verdade, ela estava errada em várias coisas. Como:

(a) Em chamar Jacó de pai. Que autoridade tinham os samaritanos para se considerarem da semente de Jacó? Eles eram descendentes daquela mistura de gente que o rei da Assíria havia instalado nas cidades da Samaria. O que eles têm a ver com Jacó então? Por serem eles os invasores das propriedades de Israel, e os injustos possuidores das terras de Israel, seriam eles então os herdeiros do sangue e da glória de Israel? Como eram absurdas essas pretensões!

(b) Ela está errada em reivindicar esse poço como um presente de Jacó, considerando que, ao dá-lo, ele não fez mais do que Moisés ao dar o maná, cap. 6.32. Mas, desse modo, tendemos a chamar os mensageiros das dádivas de Deus de doadores, olhando também assim para as mãos através das quais elas são passadas, a ponto de nos esquecermos da mão da qual elas vieram. Jacó deu o poço a seus filhos, não aos samaritanos. Do mesmo modo, os inimigos da igreja não só usurpam, mas monopolizam os privilégios da igreja.

(c) Ela estava errada ao considerar o Senhor Jesus Cristo como alguém que não fosse digno de ser comparado com seu pai Jacó. Uma veneração excessiva pelos costumes antigos faz com que as dádivas de Deus sejam desprezadas pelas pessoas boas dos nossos dias.

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JOÃO 4: 4-26 – PARTE I

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

Temos aqui um relato do bem que Cristo fez em Samaria, quando passou por aquela região a caminho da Galileia. Os samaritanos, tanto em termos de sangue quanto de religião, eram judeus mestiços, os descendentes daquelas colônias que o rei da Assíria estabeleceu ali depois do cativeiro das dez tribos, com os quais os pobres da terra foram deixados para trás, e aos quais muito outros judeus, mais tarde, se incorporaram. Eles adoravam apenas o Deus de Israel, a quem edificaram um templo no monte Gerizim, que competia com o de Jerusalém. Havia uma grande inimizade entre os samaritanos e os judeus. Os samaritanos não receberiam Cristo quando vissem que Ele ia para Jerusalém (Lucas 9.53). Os judeus pensavam que não poderiam lhe conferir uma reputação pior do que dizer: “Ele é um samaritano”. Quando os judeus eram prósperos, os samaritanos reivindicaram parentesco com eles (Esdras 4.2), mas, quando os judeus estavam necessitados, eles se classificavam como medos e persas. Observe:

 

I – A entrada de Cristo em Samaria. Ele ordenou a seus discípulos que não entrassem em qualquer das cidades dos samaritanos (Mateus 10.5), isto é, não pregassem o Evangelho, ou operassem milagres. Aqui o Senhor não pregou publicamente, nem operou qualquer milagre, pois sua atenção estava voltada “às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Os benefícios que Ele aqui concedeu foram casuais, eram só migalhas do pão dos filhos que casualmente caíram da mesa do Mestre.

1. Seu caminho da Judéia para a Galileia passava pelo território da Samaria (v. 4): “Era-lhe necessário passar por Samaria”. Não havia nenhum outro caminho, a menos que Ele desse a volta pelo outro lado do Jordão, que ficava muito longe. Os maus e os profanos estão, no momento, tão mesclados com o Israel de Deus, que, a menos que saiamos do mundo, não podemos evitar tê-los como companhia, 1 Coríntios 5.10. Temos, então, a necessidade da armadura ou da justiça na mão direita e na esquerda, para que não os provoquemos, nem nos contaminemos com eles. Nós não devemos ir a lugares de tentação, senão quando somos obrigados. E não devemos residir neles, mas passar rapidamente por eles. Alguns pensam que Cristo é obrigado a passar por Samaria porque tinha uma boa obra para realizar ali, uma pobre mulher a ser convertida, uma ovelha perdida a ser procurada e salva. Esse era o trabalho para o qual seu coração estava voltado, e a razão pela qual Ele era obrigado a seguir esse caminho. Foi uma alegria para Samaria estar situada no caminho de Cristo, pois isso deu a Ele uma oportunidade de visitá-la. “Passando eu por ti…disse-te: …vive”, Ezequiel 16.6.

2. Seu local de descanso acabou sendo uma cidade de Samaria. Observe:

(1) O lugar descrito. Era chamado Sicar, provavelmente o mesmo que Siquém, um lugar a respeito do qual lemos muito no Antigo Testamento. Os nomes dos lugares são frequentemente alterados à medida que o tempo passa. Siquém forneceu os primeiros prosélitos que entraram na igreja de Israel (Genesis 34.24), e agora é o primeiro lugar onde o Evangelho é pregado fora da comunidade de Israel. Assim o Dr. Lightfoot considera. Este estudioso também entende que o “vale de Acor”, que foi dado “por porta de esperança”, a esperança para os pobres gentios, margeava essa cidade, Oséias 2.15. Abimeleque foi feito rei aqui. Este era o lugar do trono de Jeroboão. Mas o evangelista, ao falar sobre a história do lugar, chama a atenção para as propriedades que Jacó tivera ali, o que honrava mais este lugar do que suas cabeças coroadas.

[1] Aqui ficava a terra de Jacó, “aquela parte do campo que Jacó” deu para seu filho José, cujos ossos foram nela sepultados, Gênesis 48.22; Josué 24.32. Est e fato é provavelmente mencionado para sugerir que quando Cristo repousou perto daqui, aproveitou a oportunidade de estar na terra que Jacó deu a José para meditar sobre a boa reputação que os antigos obtiveram pela fé. Jerônimo escolheu morar na terra de Canaã para que, vendo os locais onde os fatos bíblicos aconteceram, pusesse se sentir ainda mais comovido com as histórias das Escrituras.

[2] Aqui estava o poço de Jacó, que ele cavou, ou pelo menos usou para si próprio e para sua família. Nós não encontramos nenhuma menção desse poço no Antigo Testamento, mas diz a tradição que essa era a “fonte de Jacó”.

(2) A postura do nosso Senhor Jesus nesse lugar: “Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte”. Aqui, vemos nosso Senhor Jesus:

[1] Trabalhando sob a fadiga habitual dos viajantes. Ele estava cansado devido à sua viagem. Embora ainda fosse somente a hora sexta, e Ele tivesse cumprido apenas metade do seu dia de viagem. ainda assim Ele estava cansado. Ou porque essa era a hora sexta, o período mais quente do dia. Aqui vemos, em primeiro lugar, que Ele era um verdadeiro homem, e sujeito às fraquezas comuns da natureza humana. O trabalho enfadonho e penoso veio com o pecado (Genesis 3.19), e, consequentemente, Cristo, tendo se tornado maldição por nós, submeteu-se a ele. Em segundo lugar, que Ele era um homem pobre, de outra forma Ele poderia ter viajado a cavalo ou em uma carruagem. Através desse exemplo de pobreza e penitência, Ele se humilhou por nós, pois Ele realizou todas as suas viagens a pé. Enquanto os servos andavam a cavalo, príncipes “andavam a pé como servos sobre a terra”, Eclesiastes 10.7. Quando somos transportados com comodidade, devemos pensar no cansaço de nosso Mestre. Em terceiro lugar, parecia que Ele não passava de um homem frágil e de constituição pouco robusta; parecia que seus discípulos não estavam tão cansados quanto Ele, pois eles entraram na cidade sem qualquer dificuldade, enquanto seu Mestre se sentou, e não pôde dar mais um passo adiante. Muitos dos melhores físicos humanos são os mais sensíveis à fadiga, e são os que menos a suportam.

[2] Nós o temos aqui entregando-se ao alívio habitual dos viajantes: “Cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte”. Em primeiro lugar, Ele se sentou junto à fonte, um lugar desconfortável, frio e duro. O Senhor não teve nenhuma almofada, nenhuma rede onde repousar, mas usou o que estava à mão para nos ensinar a não sermos demasiadamente exigentes e desejosos das comodidades desta vida, mas nos contentarmos com as coisas simples. Em segundo lugar, Ele se sentou em uma posição desconfortável; sentou-se de maneira descuidada; ou, ainda, Ele se sentou da mesma maneira que as pessoas que estão cansadas de viajar estão acostumadas a se sentar.

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JOÃO 4: 1-3

Alimento diário

A Viagem de Cristo à Galileia

Lemos sobre a chegada de Cristo à Judéia (cap. 3.22), depois que Ele tinha participado das festividades da Páscoa em Jerusalém. E agora Ele deixou a Judéia quatro meses antes da ceifa, como é narrado aqui (v.35), de forma que é calculado que Ele permaneceu na Judéia por cerca de seis meses, para edificar sobre os alicerces que João havia estabelecido ali. Não temos nenhuma descrição especifica de seus sermões e milagres realizados ali, mas apenas uma citação geral, v. 1.

 

I – Que Ele fez discípulos. Ele convenceu muitos a abraçar sua doutrina, e a segui-lo como um Mestre vindo de Deus. Seu ministério era bem-sucedido, não obstante a oposição encontrada (Salmos 110.2,3). Compare com Gênesis 12.5. As almas que eles haviam conquistado, que eles haviam “feito” (esse é o significado da palavra), que eles haviam feito prosélitos. Note que é uma prerrogativa de Cristo fazer discípulos, primeiro para trazê-los aos seus pés, e depois para formá-los e adequá-los à sua vontade. Os cristãos são feitos, não nascem assim.

 

II – Que Ele batizava aqueles que se tornavam seus discípulos, aceitando-os ao lavá-los com água. Ele mesmo não batizava, mas o fazia por intermédio do ministério dos seus discípulos, v. 2.

1. Ele costumava estabelecer uma diferença entre seu batismo e o de João. João batizava, ele próprio, a todos, pois ele batizava como um servo, e Cristo, como um mestre.

2. Ele se dedicava mais ao trabalho de evangelizar, que era o mais extraordinário, 1 Coríntios 1.17.

3. Ele dignificava seus discípulos, ao autorizá-los e empregá-los para fazerem sua obra, e, neste caso específico, para batizarem. Portanto, o Senhor os educava para realizarem novos serviços.

4. Se Ele próprio tivesse batizado alguns, estes estariam propensos a se valorizar por esse fato, e depreciar os demais. E isso Ele evitava, como Paulo, 1 Coríntios 1.13,14.

5. Ele reservava para si a glória de batizar com o Espírito Santo, Atos 1.5.

6. Ele nos ensina que a eficácia dos sacramentos não depende de qualquer virtude da mão que os ministra, como também que aquilo que é feito por seus ministros, de acordo com sua orientação, Ele reconhece como feito por Ele mesmo.

 

III – Que “Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João”. Não apenas mais do que João tinha feito até essa ocasião, mas mais do que ele havia feito em qualquer tempo. O discurso de Cristo era mais cativante do que o de João. Seus milagres eram convincentes, e as curas que Ele realizava gratuitamente, muito atraentes.

 

IV – Que os fariseus foram informados disso. Eles ouviram falar das multidões que Ele batizou, pois, desde sua primeira aparição pública, eles o tinham sob uma enciumada observação, e não precisavam de espiões para lhes dar notícias sobre ele. Observe:

1. Quando os fariseus pensaram que estavam livres de João (ele estava preso nessa época), e estavam se regozijando com isso, aparece Jesus, que era para eles um aborrecimento maior do que João já havia sido. As testemunhas de Deus se levantarão sucessivamente.

2. Que o que os angustiava era o fato de Cristo fazer muitos discípulos. O sucesso do Evangelho exaspera seus inimigos, e quando os poderes das trevas estão enfurecidos contra o Evangelho, este é um bom indício de que ele está ganhando terreno.

 

V – Que nosso Senhor Jesus Cristo sabia muito bem quais informações contrárias a Ele haviam sido passadas aos fariseus. É provável que os informantes desejassem manter seus nomes em segredo, e os fariseus estivessem relutantes em terem seus desígnios revelados. Mas ninguém pode cavar tão fundo a ponto de esconder seus propósitos do Senhor (Isaias 29.15), e Cristo é aqui chamado “o Senhor”. Ele sabia o que havia sido contado aos fariseus, e se o relato excedia ou não a verdade. Sim, Jesus já deveria ter batizado mais do que João. E eles já o viam como alguém formidável. Veja 2 Reis 6.12.

 

VI – Que depois disso nosso Senhor Jesus “deixou a Judéia e foi outra vez para a Galileia”.

1. Ele “deixou a Judéia”, porque era provável que lá Ele fosse perseguido até à morte. A ira dos fariseus contra Jesus era como aquele plano iníquo para devorar o menino-Deus em sua infância. Para escapar das intenções deles, Cristo deixou a região e foi para onde aquilo que Ele fazia fosse menos irritante do que à vista deles. Pois:

(1) Ainda não era chegada sua hora (cap. 7.30), a hora estabelecida nos desígnios de Deus, e nas profecias do Antigo Testamento, para o Messias morrer. Ele não havia ter minado seu testemunho, e por essa razão não se entregaria ou se exporia.

(2) Os discípulos que Ele havia reunido na Judéia não eram capazes de suportar dificuldades, e por isso ele não os exporia.

(3) Desse modo, Ele deu um exemplo para sua própria regra: “Quando vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra”. Nós não somos chamados para sofrer, enquanto pudermos evitar o sofrimento sem pecar. E, embora não possamos, para nossa própria preservação, mudar nossa religião, ainda assim podemos mudar de lugar. Cristo não se protegeu através de um milagre, mas de uma maneira muito comum aos homens, para assim orientar e encorajar seu povo sofredor.

2. Ele partiu para a Galileia, porque tinha uma obra para realizar ali, além de ter muitos amigos e menos inimigos naquela região. Ele foi para a Galileia agora:

(1) Porque lá o ministério ele João havia preparado o caminho para Ele. Porque a Galileia, que estava sob a jurisdição de Herodes, era o último cenário do batismo de João.

(2) Porque a prisão de João havia aberto espaço para Ele ali. Estando agora aquela luz debaixo do alqueire, o pensamento das pessoas não ficaria dividido entre João e Cristo. Assim, tanto os privilégios quanto as restrições dos bons ministros são para o proveito do Evangelho, Filipenses 1.12. Mas com que finalidade Ele entra para sua segurança na Galileia? Herodes, o perseguidor de João, não será jamais o protetor de Jesus.

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE III

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

2. Aqui João Batista promove o nome de Cristo, e instrui seus discípulos a respeito dele, para que, em lugar de lamentar que tantos vêm até Ele, eles mesmos possam ir até Ele.

(1) Ele os instrui a respeito da dignidade da pessoa de Cristo (v. 31): ”Aquele que vem de cima”, que “vem do céu, é sobre todos”. Aqui:

[1] Ele considera a origem divina de Jesus, o fato de que Ele veio do alto, do céu, o que indica não somente sua origem divina, mas também sua natureza divina. Ele tinha uma existência anterior à sua concepção, uma existência celestial. Ninguém, senão aquele que veio do céu, estava capacitado para nos mostrar a vontade do céu, ou o caminho para o céu. Quando Deus desejou salvar o homem, Ele enviou alguém do alto, seu próprio Filho, Jesus Cristo.

[2] Disso, ele deduz a autoridade soberana de Jesus: Ele é sobre todos, sobre todas as coisas e todas as pessoas, Deus sobre todos, bendito para sempre. É uma presunção ousada disputar com Ele a precedência. Quando falamos das honras do Senhor Jesus, nós descobrimos que elas transcendem toda a concepção e expressão, e podemos dizer apenas isto: Ele é sobre todos. Sobre João Batista, está escrito: “Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista” (Mateus 11.11). Mas pelo fato de Cristo ter vindo do céu, Ele tinha uma dignidade sobre si, da qual não se despiu ao se tornar carne. Ele ainda é sobre todos. Isto João exemplifica ainda mais, pela insignificância daqueles que desejam competir com Ele: ”Aquele que vem da terra é da terra”. Aquele que tem sua origem na terra obtém da terra seu alimento, fala da terra e sua preocupação é com as coisas da terra. Observe que, em primeiro lugar, o homem surge da terra, não somente Adão, no princípio, mas nós também ainda somos formados do lodo, Jó 33.6. Considere a rocha de onde todos fomos cortados. Em segundo lugar, a constituição do homem é, consequentemente, terrena. Não apenas seu corpo é frágil e mortal, mas sua alma é corrupta e carnal, e sua tendência e inclinação são em direção às coisas ter renas. Os profetas e apóstolos eram feitos do mesmo molde que os outros homens. Eles eram apenas vasos terrenos, embora tivessem um rico tesouro guardado em si mesmos. E será que eles se levantariam como rivais de Cristo? E até admissível que os cacos contendam com os cacos da terra, mas é inadmissível que contendam com aquele que veio do céu.

(2) Ele os instrui a respeito da excelência e certeza da doutrina de Cristo. Seus discípulos estavam descontentes com o fato de que a pregação de Cristo era mais admirada, e atraía mais gente, do que a de João Batista. Mas ele lhes diz que havia uma boa razão para isto. Pois:

[1] Ele, de sua parte, falava da terra, e também o fazem todos os que são da terra. Os profetas eram homens, e falavam como homens. Por si mesmos, eles poderiam falar somente da terra, 2 Coríntios 3.5. A pregação dos profetas e a de João Batista era inferior e trivial, em comparação com a pregação de Cristo. Como o céu está nas alturas, acima da terra, assim os pensamentos de Cristo estavam acima dos deles. Por intermédio deles, Deus falava na terra, mas em Cristo, Ele falava do céu.

[2] Mas aquele que vem do céu não está somente na sua pessoa, mas também na sua doutrina, acima de todos os profetas que tinham vivido na terra. Ninguém ensina como Ele. A doutrina ele Cristo aqui nos é recomendada:

Em primeiro lugar; como infalivelmente segura e certa, e devendo ser recebida de maneira correspondente (v. 32): “Aquilo que ele viu e ouviu, isso testifica”. Veja aqui:

1. O conhecimento divino de Cristo. Ele testificava somente o que tinha visto e ouvido, aquilo de que estava perfeitamente informado e com o que estava completamente familiarizado. Aquilo que Ele revelava sobre a natureza divina e sobre o mundo invisível era o que Ele tinha visto. Aquilo que Ele revelava da mente de Deus era o que Ele tinha ouvido diretamente dele, e não em segunda mão. Os profetas testemunhavam o que lhes era dado a conhecer, em sonhos e visões, pela mediação dos anjos, mas não o que eles tinham visto e ouvido. João era a voz do que clama, que dizia: ”Abram caminho para a testemunha, e façam silêncio enquanto a acusação é feita”, mas agora ele deixa que a testemunha apresente pessoalmente seu testemunho, e que o juiz faça pessoalmente a acusação. O Evangelho de Cristo não é uma opinião duvidosa, como uma hipótese ou uma nova noção em filosofia, em que todos têm liberdade de crer ou não, mas é uma revelação do pensamento de Deus, que é verdadeiramente eterno em si mesmo, e de interesse infinito para nós.

2. Sua graça e bondade divinas: aquilo que Ele tinha visto e ouvido, Ele se alegrava em nos dar a conhecer, porque Ele sabia que isto nos interessava intimamente. Paulo não pôde dar testemunho daquilo que tinha visto e ouvido no terceiro céu (2 Coríntios 12.4), mas Cristo sabia como transmitir o que tinha visto e ouvido. A pregação de Cristo aqui é chamada de seu testemunho, para indicar:

(1) Sua evidência convincente. Não era transmitido como notícias, por meio de boatos, mas era testemunhado como uma evidência apresentada em tribunal, com grande atenção e exatidão.

(2) A seriedade amorosa com que o testemunho é dado: era dado com preocupação e persistência, como em Atos 18.5.

A partir da certeza da doutrina de Cristo, João aproveita:

[1] Para lamentar a infidelidade da maioria dos homens: embora Ele testemunhe aquilo que é infalivelmente verdadeiro, ninguém aceita seu testemunho, isto é, muito poucos, quase ninguém, em comparação com aqueles que o rejeitam. Eles não o recebem, não o ouvem, não prestam atenção a Ele, nem lhe dão crédito. Ele fala deste fato não somente como um motivo de espanto (Quem deu crédito à nossa pregação? Como é estúpida e tola a maior parte da humanidade, que grandes inimigos são de si mesmos!, mas como um motivo de tristeza. Os discípulos de João lamentavam-se por todos os homens irem a Cristo (v. 26). Eles julgavam que Ele tinha seguidores em excesso. Mas João, por sua vez, lamenta o fato de nem todos estarem seguindo o Senhor Jesus. Ele pensava que os seguidores de Cristo eram poucos. Observe que a incredulidade dos pecadores é a tristeza dos santos. Por este motivo, o apóstolo Paulo sentia grande tristeza, Romanos 9.2.

[2] Ele aproveita a ocasião para elogiar a fé do remanescente escolhido (v. 33): “Aquele que aceitou o seu testemunho”, e mesmo que poucos, havia alguns que o aceitavam, “esse confirmou que Deus é verdadeiro”. Deus é verdadeiro, mesmo que nós não confirmemos isto. Sempre seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Esta verdade não precisa da nossa fé como seu sustento, mas, pela fé, trazemos honra e justiça a nós mesmos ao endossarmos esta verdade, e assim Deus se considera honrado. As promessas de Deus são todas sim e amém. Pela fé, nós damos nosso amém a elas, como em Apocalipse 22.20. Observe que aquele que recebe o testemunho de Cristo aceita não somente a verdade de Cristo, mas a verdade de Deus, pois seu nome é a Palavra de Deus. Os mandamentos de Deus e o testemunho de Cristo são reunidos, Apocalipse 12.17. Ao crer em Cristo, nós confirmamos, em primeiro lugar, que Deus é fiel a todas as promessas que Ele fez a respeito de Cristo, as quais Ele fez por intermédio da boca de todos os seus santos profetas. O que Ele prometeu aos nossos pais foi completamente cumprido, e nem um jota ou til caiu por terra, Lucas 1.70ss.; Atos 13.32,33. Em segundo lugar, que Ele é fiel a todas as promessas que fez em Cristo. Nós confiamos nossas almas à sinceridade de Deus, e nos sentimos satisfeitos porque Ele é fiel. Nós nos dispomos a lidar com Ele em confiança, e a abandonar tudo neste mundo em troca de uma felicidade que está fora do alcance da nossa visão. Com isto, nós honramos enormemente a fidelidade de Deus. Àquele a quem demos crédito, também damos honra.

Em segundo lugar, a doutrina de Cristo nos é recomendada como uma doutrina divina, não sua, mas daquele que o enviou (v. 34): ” Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus”, as que Ele foi enviado para falar; e foi capacitado para falar, “pois não lhe dá Deus o Espírito por medida”. Os profetas eram como mensageiros que traziam cartas do céu, mas Cristo veio como um embaixador e lida conosco como um embaixador, pois:

1. Ele falava as palavras de Deus, e nada do que Ele dizia tinha característica de fraqueza humana. Tanto o conteúdo quanto a linguagem eram divinos. Ele provou que era enviado de Deus (cap. 3.2), e, portanto, suas palavras devem ser recebidas como as palavras de Deus. Segundo esta regra, nós podemos provar os espíritos: aqueles que falam como oráculos de Deus, e profetizam de acordo com a proporção da fé, devem ser recebidos como enviados de Deus.

2. Ele falava como nenhum outro profeta, pois Deus não lhe dava o Espírito por medida. Ninguém pode falar palavras de Deus sem o Espírito de Deus, 1 Coríntios 2.10,11. Os profetas do Antigo Testamento tinham o Espírito, e em porções diferentes, 2 Reis 2.9,10. Mas enquanto Deus lhes dava o Espírito por medida (1 Coríntios 12.4), Ele o dava a Cristo sem medida. Toda a plenitude estava nele, a plenitude da Divindade, uma plenitude ilimitada. O Espírito não estava em Cristo como em um vaso, mas como em uma fonte, como em um oceano sem fundo. “Os profetas que tinham o Espírito de uma maneira limitada, somente com respeito a alguma revelação em particular, às vezes falavam de si mesmos. Mas aquele que tem o Espírito sempre residente em si, sem restrições, sempre falou as palavras de Deus”.

(3) Ele os instrui a respeito do poder e da autoridade com que Ele está investido, o que lhe dá a proeminência sobre todos os demais, e um nome muito mais excelente que o deles.

[1] Ele é o Filho amado do Pai (v. 35): “O Pai ama o Filho”. Os profetas eram fiéis como servos, mas Cristo, como um Filho. Eles eram empregados como servos, mas Cristo era amado como um Filho, sendo sempre “as suas delícias”, Provérbios 8.30. O Pai comprazia-se nele. Ele não somente o amou, mas Ele o ama. Ele continua com seu amor por Ele, mesmo no seu estado de humilhação, Ele não o ama menos, pela sua pobreza ou pelos seus sofrimentos.

[2] Ele é o Senhor de tudo. O Pai, como evidência do seu amor por Ele, todas as coisas entregou nas suas mãos. O amor é generoso. O Pai tinha tal complacência e tal confiança nele, que o constituiu como o grande feudatário, a quem foi confiada a humanidade. Tendo dado a Ele o Espírito sem medida, Ele lhe deu todas as coisas, pois Ele estava qualificado para ser o Mestre e Administrador de tudo. Observe que é para a honra de Cristo e o indescritível consolo de todos os cristãos, que o Pai colocou todas as coisas nas mãos do Mediador. Em primeiro lugar, todo o poder. Isto está explicado, Mateus 28.18. Todas as obras da criação foram colocadas sob seus pés, todos os assuntos da redenção foram colocados em suas mãos. Ele é o Senhor de tudo. Os anjos são seus servos, os demônios são seus prisioneiros. Ele tem poder sobre toda a carne, os gentios lhe são dados como sua herança. O reino da providência está entregue à sua administração. Ele tem o poder para definir os termos do concerto de paz como o grande plenipotenciário, para governar sua igreja como o grande legislador para dispensar favores como o grande doador de bênçãos, e para convocar todos a prestar contas como o grande Juiz. Tanto o cetro de ouro quando a vara de ferro foram colocadas nas suas mãos. Em segundo lugar, toda a graça é colocada nas suas mãos como o canal para transmissão. Todas as coisas, todas aquelas boas coisas que Deus pretendia dar aos filhos dos homens, a vida eterna e todos os seus preliminares. Nós não somos dignos de que o Pai coloque estas coisas em nossas mãos, pois nós nos tornamos os filhos da sua ira. Por isto, Ele indicou o Filho do seu amor para ser nosso fiduciário. E as coisas que Ele pretendia para nós, Ele coloca nas mãos do seu Filho, que é digno, e que merece tanto as honras para si mesmo quanto os favores para nós. Elas são colocadas em suas mãos, para serem dadas a nós por Ele. É um grande incentivo para a fé, que as riquezas do novo concerto sejam depositadas em mãos tão seguras, tão gentis, tão boas, as mãos daquele que as comprou para nós, e nos comprou para si mesmo. O Senhor Jesus Cristo é aquele que pode guardar tudo aquilo que Deus, o Pai, e os crentes concordaram em lhe entregar.

 

[3] Ele é o objeto daquela fé que se torna a grande condição da felicidade eterna, e nisto Ele tem a proeminência sobre todos os demais: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”, v. 36. Aqui temos a aplicação do que João tinha dito a respeito de Cristo e da sua doutrina, e a conclusão de todo o assunto. Se Deus colocou esta honra sobre o Filho, nós devemos, pela fé, honrá-lo. Assim como Deus oferece e entrega boas coisas a nós, pelo testemunho de Jesus Cristo, cuja palavra é o veículo dos favores divinos, também nós recebemos e participamos destes favores, crendo no testemunho e recebendo a palavra como verdadeira e boa. Esta maneira de receber responde adequadamente àquela maneira de dar. Aqui temos o resumo daquele Evangelho que deverá ser pregado a toda criatura, Marcos 16.16. Aqui temos:

Em primeiro lugar, a condição abençoada de todos os verdadeiros cristãos: ”Aquele que crê no Filho tem a vida eterna”. Observe:

1. É característico de todo cristão verdadeiro”. O que ele creia no Filho de Deus. Não somente creia nas suas palavras, creia que o que Ele diz é verdade, mas creia nele, consinta com Ele e confie nele. O benefício do verdadeiro cristianismo é nada menos que a vida eterna. Esta é a bênção que Cristo veio comprar para nós, e nos entregou: Ela não pode ser menos do que a felicidade que uma alma imortal sente na presença de um Deus imortal, e na comunhão com Ele.

2. Os verdadeiros crentes, mesmo agora, têm a vida eterna. Eles não somente a terão no futuro, mas a têm agora. Pois:

(1) Eles têm uma grande segurança quanto a esta preciosa promessa. Esta ação é selada e entregue a eles, e assim eles a possuem. Ela é colocada nas mãos do seu guardião, e assim eles a têm, embora seu uso ainda não seja transferido em forma de posse. Eles têm o Filho de Deus, e nele, a vida; e o Espírito de Deus é o penhor desta vida.

(2) Eles têm o privilégio de saboreá-la de antemão, na presente comunhão com Deus e nos sinais do seu amor. A glória que desfrutamos de antemão pode ser considerada uma grande graça.

Em segundo lugar, a condição vil e miserável dos incrédulos: ”Aquele que não crê no Filho” está condenado. A expressão inclui tanto a incredulidade como a desobediência. Um incrédulo é aquele que não dá crédito à doutrina de Cristo, nem está em sujeição ao governo de Cristo. Assim sendo, aqueles que não forem ensinados nem governados por Cristo:

1. Não podem ser felizes neste mundo, nem no vindouro: ele “não verá a vida”, aquela vida que Cristo veio para dar. Ele não se regozijará com isto, ele não terá nenhuma perspectiva confortável disto, nunca trará dentro de si a compreensão disto, exceto para agravar sua perda disto.

2. Não podem ser menos miseráveis: ”A ira de Deus sobre ele permanece”, sobre o incrédulo. Ele não apenas está sob a ira de Deus, que é tão seguramente a morte da alma quanto seu favor é a vida dela, mas a ira permanece sobre ele. Toda a ira que ele tem acarretado sobre si mesmo, produzida pela violação da lei, se não for removida pela graça do evangelho, está prestes a vir sobre ele. A ira de Deus, em razão de suas transgressões presentes, inflama-se e repousa sobre ele. Dívidas antigas permanecem não liquidadas, e novas dívidas são acrescentadas. Alguma coisa é feita a cada dia para encher a medida, e nada é feito para esvaziá-la. Deste modo, a ira de Deus permanece, pois é acumulada para o dia da ira.

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JOÃO 3: 22-36 – PARTE II

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

V -Aqui está a resposta de João às queixas que seus discípulos fizeram, v. 27ss. Seus discípulos esperavam que ele se ofendesse com esse fato, como eles, mas a manifestação de Cristo para Israel não era surpresa para João, porém o que ele procurava; não era uma perturbação para ele, mas era o que ele desejava. Por isso, reprovou a queixa, como Moisés: “Tens tu ciúmes por mim?” E aproveitou a ocasião para confirmar os testemunhos que tinha dado anteriormente de Cristo como superior a ele, alegremente entregando e confiando a Ele todos os interesses que tinha em Israel. Neste discurso, o primeiro ministro do evangelho (porque João o era) é um excelente exemplo para todos os ministros, para que se humilhem e exaltem ao Senhor Jesus.

1. João aqui se humilha em comparação a Cristo, vv. 27-30. Quanto mais os outros nos exaltarem, mais deveremos nos humilhar e nos fortalecer contra as tentações de lisonja e aplauso, e a inveja dos nossos amigos pela nossa honra, ao nos lembrarmos de nosso lugar e do que somos, 1 Coríntios 3.5.

(1) João concorda com a disposição divina e se satisfaz com ela (v. 27): “O homem não pode receber coisa alguma, se lhe não for dada do céu”, de onde “toda boa dádiva vem” (Tiago 1.17), uma verdade comum muito aplicável a este caso. Diferentes aplicações estão de acordo com as orientações da Providência divina, diferentes dons são distribuídos de acordo com a graça divina. “Ninguém toma para si essa honra”, Hebreus 5.4. Nós temos uma dependência tão necessária e constante da graça de Deus em todos os movimentos e ações da vida espiritual como temos da providência de Deus em todos os movimentos e ações da vida natural. Isto é apresentado aqui como uma razão:

[1] Por que não devemos invejar aqueles que possuem muito mais dons do que nós, ou se movimentam em uma esfera de utilidade mais ampla. João relembra seus discípulos de que Jesus não o teria superado dessa maneira, a menos que tivesse recebido do céu, porque, como homem e Mediador, Ele recebeu dons. E se Deus lhe deu o Espírito sem medida (v. 34), eles deveriam reclamar por isto? A mesma razão vale para com os outros. Se Deus quer dar aos outros mais habilidade e sucesso do que a nós, será que devemos ficar descontentes com isso, e criticá-lo como sendo injusto, imprudente e parcial? Veja Mateus 20.15.

[2] Por que não devemos estar descontentes, mesmo que sejamos inferiores aos outros em dons e utilidade, e sejamos ofuscados por seus méritos. João estava pronto para reconhecer que era um dom, um dom espontâneo do céu, que o fez um pregador, um profeta, um batista. Foi Deus que lhe deu o interesse que despertou no amor e estima das pessoas. E se agora o interesse diminuiu, seja feita a vontade de Deus! Aquele que dá, pode tomar. Aquilo que recebemos do céu, devemos receber como nos foi dado. João nunca tinha recebido uma comissão para realizar um trabalho eterno, mas somente uma incumbência temporária, que logo terminaria, e, portanto, quando ele tivesse terminado seu ministério, poderia alegremente vê-lo ultrapassado. Alguns dão um sentido bem diferente a estas palavras: João tinha se esforçado perante seus discípulos, para ensiná-los a importância que seu batismo tinha para Cristo, que viria após ele, e que tinha a preeminência sobre dele. O Senhor Jesus Cristo faria por eles o que João não poderia fazer, e ainda assim, afinal, eles idolatraram João e relutaram em reconhecer a preeminência de Cristo sobre ele. Bem disse João, “o homem não pode receber”, isto é, compreender, “coisa alguma, se lhe não for dada do céu”. A tarefa dos ministros será totalmente perdida, a menos que a graça de Deus a torne efetiva. Os homens não entendem o que é mais explicado, nem acreditam no que é mais evidente, a menos que lhes seja concedido do céu que entendam e acreditem nisto.

(2) João recorre ao testemunho que tinha dado anteriormente a respeito de Cristo (v. 28): “Vós mesmos me sois testemunhas de que disse, repetidas vezes: Eu não sou o Cristo, mas sou enviado adiante dele”. Veja como João era firme e constante no seu testemunho a respeito de Cristo. João não era como uma cana agitada pelo vento. Nem as censuras dos principais dos sacerdotes, nem as adulações dos seus próprios discípulos poderiam fazê-lo modificar suas palavras. Isto serve:

[1] Como uma condenação dos seus discípulos, pela irracionalidade da sua queixa. Eles tinham falado do testemunho que seu mestre tinha dado a respeito de Jesus (v. 26): “Agora”, João disse, “vocês não lembram qual foi o testemunho que eu dei? Lembrem-se, e verão sua própria crítica respondida. Eu não tinha dito: Eu não sou o Cristo? Por que, então, vocês me colocam como um rival daquele que realmente o é? Eu não tinha dito: Eu sou enviado adiante dele? Por que, então, parece estranho a vocês que eu me afaste e dê passagem a Ele?”

[2] Como um consolo para si mesmo, pelo fato de nunca ter dado aos seus discípulos nenhuma oportunidade de colocá-lo em competição com Cristo, mas, ao contrário, ele os tinha particularmente advertido contra este engano, embora ele pudesse ter obtido benefícios para si. E uma satisfação para os ministros fiéis quando fazem tudo o que poderiam para evitar quaisquer extravagâncias com que seu povo possa se deparar. João não somente não os tinha incentivado a esperar que ele fosse o Messias, mas lhes tinha dito claramente o contrário, o que agora representava uma satisfação para ele. E uma desculpa comum daqueles que recebem honras indevidas: Se o povo quer ser enganado, que seja. Mas esta é uma máxima ruim para aqueles cujo trabalho é mostrar o erro do povo. “O lábio de verdade ficará para sempre”.

(3) João professa a grande satisfação que teve com a manifestação de Cristo e o interesse que Ele desperta. João estava tão longe de lamentar isto, como faziam seus discípulos, que se alegrava com isto. Ele expressa isso (v. 29) com uma comparação elegante.

[1) Ele compara nosso Salvador ao esposo: “Aquele que tem a esposa é o esposo”. Todos os homens vão a Ele? Está certo, para onde iriam eles? Ele alcançou o trono das afeições dos homens? Quem mais o teria? E seu direito. A quem deve ser trazida a esposa, senão ao esposo? Cristo tinha sido profetizado no Antigo Testamento como um esposo, Salmos 45. O Verbo se fez carne, para que a disparidade da natureza não fosse um obstáculo ao enlace. Existe uma provisão para a purificação da igreja, para que a depravação do pecado não seja um obstáculo. Cristo se casa com sua igreja. Ele tem a esposa, pois Ele tem seu amor, Ele tem o compromisso dela. A igreja está sujeita a Cristo. Enquanto as almas individual­ mente são devotadas a Ele em fé e amor, também o es­ poso tem a esposa.

[2] Ele se compara ao amigo do esposo, que o assiste, que o honra e serve, que o ajuda a proceder o casamento, fala bem dele, usa seus recursos para seu benefício, alegra-se quando o casamento acontece, e, acima de tudo, quando se chega ao ponto desejado, quando o amigo recebe a esposa. Tudo o que João tinha feito pregando e batizando era para apresentá-lo, e agora que Ele chegou, João tem aquilo que desejava: “O amigo do esposo está ali (ver são NTLH), e o ouve. Está ali esperando-o. Alegra-se com a voz do esposo, porque Ele veio às bodas depois de ter sido esperado por muito tempo”. Observe que, em primeiro lugar, os ministros fiéis são amigos do esposo, para recomendá-lo aos interesses e escolhas dos filhos dos homens; para trazer mensagens dele, pois Ele corteja por procuração, e nisto devem ser fiéis a Ele. Em segundo lugar, os amigos do esposo devem estar ali, e ouvir sua voz; devem receber dele suas instruções e cumprir suas ordens; devem desejar ter provas de que Cristo fala neles, e com eles (2 Coríntios 13.3). Esta é a voz do esposo. Em terceiro lugar, o casamento das almas com Jesus Cristo, em fé e amor, é o cumprimento da alegria de todo bom ministro. Se o dia das bodas de Cristo for o dia do júbilo do seu coração (Cantares 3.11), este não pode deixar de ser também o dia do júbilo daqueles que o amam e que têm bons desejos em relação à sua honra e ao seu reino. Eles certamente não terão uma alegria maior.

(4) João reconhece que é altamente adequado e necessário que a reputação e o interesse que Cristo desperta progridam, com a diminuição da sua reputação e do interesse que ele desperta (v. 30): “É necessário que ele cresça e que eu diminua”. Se eles se lamentam com a grandeza crescente do Senhor Jesus, eles terão ainda mais oportunidades para lamentar, como têm aqueles que se permitem invejar e imitar. João fala do crescimento de Cristo e da sua própria diminuição, não somente como necessários e inevitáveis, o que não pode ser impedido, e, portanto, deve ser suportado, mas como altamente justo e agradável, e que lhe proporciona completa satisfação.

[1) Ele estava muito satisfeito por ver o reino de Cristo avançando: “Ele deve crescer. Vocês pensam que Ele conseguiu muita coisa, mas isto não é nada em comparação com o que Ele irá conseguir”. Observe que o reino de Cristo é, e será, um reino crescente, como a luz da aurora, como o grão de mostarda.

[2) Ele não estava nem um pouco descontente com o fato de que o efeito disto seja a diminuição do interesse que ele desperta: “Eu devo diminuir”. As excelências criadas estão sujeitas a esta lei, elas devem diminuir. “A toda perfeição vi limite”. Observe que, em primeiro lugar, o brilho da glória de Cristo eclipsa o brilho de qualquer outra glória. A glória que compete com a de Cristo, a glória do mundo e da carne, decresce e perde terreno na alma à medida que o conhecimento e o amor de Cristo crescem e ganham terreno. Mas aqui se fala daquilo que é subserviente a Ele. À medida que a luz da manhã aumenta, a da estrela da manhã diminui. Em segundo lugar, se nossa diminuição ou humilhação podem, pelo menos, contribuir para a promoção do nome de Cristo, nós devemos nos submeter a elas com alegria, e estar satisfeitos por sermos alguma coisa, ou até mesmo por não sermos nada, para que Cristo possa ser tudo.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 3: 22-36 – PARTE I

Alimento diário

O Testemunho de João a respeito de Cristo

 

Nestes versículos, temos:

I – A ida de Cristo “para a terra da Judéia” (v. 22), onde permaneceu com seus discípulos. Observe:

1. Nosso Senhor Jesus, depois de iniciar seu ministério público, viajou muito e mudou-se frequentemente, como os patriarcas em suas estadias passageiras. Assim como era uma boa parte de sua humilhação o fato de que Ele não tivesse moradia certa, mas que estivesse em constantes jornadas, como Paulo, este também era um exemplo da sua aplicação incessante no trabalho para o qual Ele veio ao mundo, que Ele viajava muito para realizá-lo. Ele deu muitos passos cansativos para fazer o bem às almas. O Sol da Justiça percorreu um grande circuito para difundir sua luz e calor (Salmos 19.6).

2. Ele não tinha o costume de permanecer muito tempo em Jerusalém. Embora frequentemente fosse até lá, ainda assim Ele retornava rapidamente para o interior, como aqui. Depois disto, e depois de ter conversado com Nicodemos, Ele foi para as terras da Judéia, não somente para ter mais privacidade (apesar do fato de que os lugares e meios desconhecidos melhor se adequavam ao humilde Jesus em sua condição humilde), mas para ser mais útil. Seus milagres e pregações talvez causassem mais alvoroço em Jerusalém, a origem das novidades, mas fizeram um bem menor ali, onde os homens mais consideráveis da igreja judaica tinham mais predominância.

3. Quando veio para a terra da Judéia, seus discípulos o acompanharam, pois estes eram os que continuaram com Ele em suas tentações. Muitos que se reuniram a Ele em Jerusalém não poderiam seguir seus deslocamentos pelas várias localidades que visitava, já que não tinham negócios por lá, mas seus discípulos o acompanharam. Se a arca parte, é melhor partir e segui-la (como fizeram os israelitas, Josué 3.3) do que ficar sem ela, mesmo que ela esteja na própria cidade de Jerusalém.

4. Ali Ele permaneceu com eles, conversou com eles, dialogou com eles. Ele não se afastou para o interior por prazer ou comodidade, mas para conversar livremente com seus discípulos e seguidores. Veja Cantares 7.11,12. Observe que aqueles que estão prontos para seguir a Cristo o encontrarão preparado para ficar com eles. Supõe-se que Ele, nesta ocasião, tenha permanecido por cinco ou seis meses nesta região.

5. Ali Ele batizou. O Senhor admitiu, como discípulos, aqueles que creram nele, que tiveram mais honestidade e coragem do que os de Jerusalém, cap. 2.24. João começou a batizar na terra da Judéia (Mateus 3.1), e entendemos que, por esta razão, Cristo começou a pregar ali, pois João tinha dito que o Messias viria depois dele. Jesus mesmo não batizava, com suas próprias mãos, mas seus discípulos, de acordo com suas ordens e orientações, como parece, cap. 4.2. Porém, o batismo dos seus discípulos era seu batismo. As ordenanças sagradas são de Cristo, ainda que conduzidas por homens fracos.

 

II – A continuidade de João aos seus trabalhos, enquanto teve oportunidades (v. v 23,24). Aqui, lemos:

1. Que João estava batizando. O batismo de Cristo era, por essência, o mesmo de João, porque João testificava de Cristo, e, portanto, eles não se opuseram ou interferiram um com outro. Mas:

(1) Cristo iniciou a tarefa de pregação e batismo antes que João as interrompesse, de modo que pudesse estar pronto para receber os discípulos de João, quando este estivesse ausente, pois as rodas devem manter-se em movimento. É um consolo para os homens úteis, quando estão deixando a cena, ver que estão surgindo aqueles que provavelmente irão ocupar seus lugares.

(2) João continuou com a tarefa de pregação e batismo, embora Cristo as tivesse assumido, pois ele ainda teria que, de acordo com a providência divina, trabalhar pelos interesses do reino de Deus. Ainda havia trabalho a ser realizado por João, porque Cristo ainda não era amplamente conhecido, nem as mentes das pessoas estavam completamente preparadas para Ele pelo arrependimento. João tinha recebido suas ordens do céu, e deveria prosseguir com sua tarefa até de lá receber uma contra- ordem, e assim receberia a permissão para partir pela mesma mão que lhe tinha dado sua incumbência. Ele não se associou a Cristo, para que não parecesse ter havido uma combinação entre eles, mas continuou com sua tarefa até que a Providência o tirasse de cena. Os melhores dons de alguns não servem às atividades de outros, que resultam desnecessárias e inúteis. Existe trabalho suficiente para todas as mãos. Os ressentidos se sentarão e não farão nada, quando virem que foram eclipsados. Mesmo que tenhamos apenas um talento, devemos prestar contas do uso que fazemos dele, e quando percebermos que nossa vez está passando, ainda devemos continuar até o fim.

2. Que “João batizava também em Enom, junto a Salim”, lugares que não foram mencionados em nenhuma outra passagem, e, por este motivo, os eruditos estão completam ente perdidos quanto aonde encontrá-los. Onde quer que fosse este lugar, parece que João deslocava-se de um lugar a outro. Ele não achou que houvesse alguma virtude no Jordão, porque Jesus foi batizado ali, o que exigiria que ele permanecesse ali, mas quando viu motivo, mudou-se para outras águas. Os ministros devem seguir suas oportunidades. Ele escolheu um lugar em que havia muita água, isto é, muitas correntezas de água, de modo que onde quer que ele encontrasse alguém que desejasse se submeter ao seu batismo, a água estaria à mão para batizá-lo, talvez rasa, como é comum onde há muitos córregos, mas do tipo que serviria a seus propósitos. E naquela região abundante de água, isto era algo valioso.

3. Que as pessoas vinham até ele e eram batizadas. Embora não viessem em grandes multidões, como faziam quando ele apareceu pela primeira vez, ele não ficava desalentado, mas ainda havia aqueles que o escutavam e o reconheciam. Alguns opinam que isto se refere a João e também a Jesus: e vinham ali “e eram batizados”. Isto é, alguns vinham até João, e eram batizados por ele, alguns a Jesus, e eram batizados por Ele, e como o batismo deles era um só, também eram seus corações.

4. Observa-se (v. 24) que “ainda João não tinha sido lançado na prisão”, para justificar a ordem da história, e mostrar que estas passagens aconteceram antes de Mateus 6.12. João nunca desistiu do seu trabalho, enquanto teve sua liberdade. Na verdade, ele parece ter sido mais aplicado, porque previa que seu tempo era curto. Ele ainda “não tinha sido lançado na prisão”, mas suspeitava que isto não tardaria a acontecer, cap. 9.4.

 

III – Uma controvérsia entre os discípulos de João e os judeus sobre a purificação, v. 25. Veja como o Evangelho de Cristo não veio trazer paz sobre a terra, mas dissensão. Observe:

1. Quem estava discutindo: os discípulos de João e um judeu que não tinha se submetido ao seu batismo de arrependimento. Os penitentes e impenitentes dividem este mundo pecador. Poderia parecer; neste contexto, que os discípulos de João foram os agressores e lançaram o desafio, e este é um sinal de que eram novos convertidos, e tinham mais zelo do que prudência. As verdades de Deus têm sofrido frequentemente pela impulsividade daqueles que se incumbem de defendê-las antes de serem capazes de fazê-lo.

2. Qual foi a causa da controvérsia: a “purificação”, a lavagem religiosa.

(1) Podemos supor que os discípulos de João louvavam seu batismo, sua purificação, como superior a todos os outros, e lhe davam preferência como aperfeiçoando e substituindo todas as purificações dos judeus, e eles estavam certos. Mas os novos convertidos são muito capazes de se vangloriar dos seus feitos, ao passo que aquele que encontra um tesouro deveria escondê-lo até ter certeza de que o tem e não falar muito dele inicialmente.

(2) Não há dúvida de que os judeus, com muita segurança, aplaudiam as purificações que eram usadas entre eles, tanto aquelas que tinham sido instituídas pela lei de Moisés como aquelas que eram impostas pelas tradições dos anciãos. Para as primeiras, havia a garantia divina, e para as últimas, o costume da igreja. Mas é muito provável que os judeus, nesta controvérsia, quando não puderam negar a excelente natureza e o desígnio do batismo de João, promovessem uma objeção contra o batismo de Cristo, o que deu ensejo para a reclamação que se segue aqui (v. 26): ”.Aqui está João batizando em um lugar”, dizem eles, “e Jesus, ao mesmo tempo, batizando em outro, e por isso o batismo de João, que seus discípulos tanto aplaudem, é, ou:

[1] Perigoso, e de consequências desastrosas à paz da igreja e do estado, porque se vê que ele abre uma porta para ilimitadas divisões. Agora que João começou, cada pequeno professor irá estabelecer um batismo imediatamente. Ou:

(2) Na melhor das hipóteses, é defeituoso e imperfeito. Se o batismo de João, que vocês exaltam desta maneira, tem algo de bom, o batismo de Cristo vai mais além, de modo que vocês já estão eclipsados por uma luz maior, e em breve seu batismo não será mais requisitado”. Desta maneira, objeções foram feitas contra o Evangelho originadas pelo avanço e aperfeiçoamento da luz evangelizadora, como se a infância e a virilidade fossem opostas entre si, e a superestrutura, contrária à fundação. Não havia razão para contrapor o batismo de Cristo ao de João, porque ambos estavam de pleno acordo.

 

IV – A queixa que os discípulos de João fizeram ao seu mestre a respeito de Cristo e do seu batismo, v. 26. Eles, estando confundidos pela objeção supra­ citada, e provavelmente agitados e inflamados por ela, vão até seu mestre e lhe dizem: “Rabi, aquele que estava com você e foi batizado por você agora está estabelecido. Ele está batizando, e todos vão ter com Ele. E você tolera isto?” O desejo de causar controvérsia proporcionou oportunidade para isto. É comum que os homens, quando se encontram presos no calor da disputa, se lancem sobre aqueles que não lhes fazem mal. Se estes discípulos de João não tivessem se comprometido na disputa da purificação, antes de compreender a doutrina do batismo, talvez tivessem respondido à objeção sem enfurecer-se. Em suas queixas, eles se dirigem respeitosamente ao seu próprio mestre, “rabi”, mas falam com muito desrespeito do nosso Salvador, embora não o nomeiem.

1. Eles sugerem que Cristo, ao batizar, esteja sendo presunçoso e irresponsável, como se João, tendo estabelecido antes seu rito de batismo, devesse ter seu monopólio, e também uma patente pela invenção: “‘Aquele que estava contigo além do Jordão’, como um discípulo seu, veja, e assombre-se, Ele mesmo batiza e tira o trabalho da tua mão”. Assim, as condescendências voluntárias do Senhor Jesus, como a de ser batizado por João, são injustamente e muito desagradavelmente convertidas em reprovação a Ele muitas vezes.

2. Eles sugerem que foi ingratidão a João. Aquele “do qual tu deste testemunho, ei-lo batizando”, como se Jesus devesse toda a sua reputação ao caráter honrado que João testemunhou sobre Ele, e o tivesse aproveitado de maneira muito indigna para prejudicar a João. Mas Cristo não precisava do testemunho de João, cap. 5.36. Ele refletiu mais honra sobre João do que recebeu dele, e ainda assim é inerente a nós pensarmos que os outros estão mais em débito conosco do que realmente estão. E, além disso, o batismo de Cristo não foi um impedimento, mas, na verdade, um excelente aperfeiçoamento do batismo de João, o qual devia apenas abrir o caminho para o de Cristo. João foi justo com Cristo ao dar testemunho dele, e a resposta de Cristo ao seu testemunho valoriza, em vez de empobrecer, o ministério de João.

3. Eles concluem que seria um eclipse total ao batismo de João: “Todos vão ter com ele”. Aqueles que estavam habituados a nos seguir agora vão atrás dele, por isso é hora de ficarmos alertas”. Na verdade, não era de estranhar que todos os homens viessem até Ele. Enquanto Cristo se manifestar, Ele será glorificado. Mas porque deveriam os discípulos de Cristo lamentar isto? Observe que desejar o monopólio da honra e do respeito tem sido, em todos os tempos, a perdição da igreja e a vergonha de seus membros e ministros, como também a disputa de interesses e o zelo pela rivalidade e competição. Nós nos equivocamos se achamos que dons e graças excelentes, e os trabalhos e a utilidade de alguém, representam a diminuição e depreciação para outros que obtiveram misericórdia por serem fiéis, pois o Espírito é um agente livre, “repartindo particularmente a cada um como quer”. Paulo se alegra com a utilidade até mesmo daqueles que se opunham a ele, Filipenses 1.18. Devemos deixar que Deus escolha, aplique e honre seus próprios instrumentos como quiser. Não devemos ter a cobiça de ser exclusivos.