O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

RESPONDENDO À PALAVRA

O conceito de revelação divina e de nossa necessidade de submeter-nos a ela é, ao mesmo tempo, altamente razoável e praticamente saudável. E razoável por­que reconhece que o Deus infinito está muito além de suas criaturas finitas e que nós nunca o teríamos encontrado se ele não tivesse tomado a iniciativa de fazer-se conhecido. E é saudável porque a submissão à auto revelação de Deus em Cristo e no pleno testemunho bíblico de Cristo, longe de inibir a saúde e o crescimento da igreja, é na verdade indispensável a estes. Minha tese neste capítulo é que a Palavra de Deus, quando recebida e respondida, tem um papel central na fé e na vida do povo de Deus. Vou dar cinco exemplos.

DISCIPULADO MADURO

Primeiro, a submissão à autoridade da Escritura é o cami­nho para um discipulado maduro. Eu não estou dizendo que é impossível ser discípulo de Jesus sem que se tenha uma alta concepção da Escritura, pois isto evidentemente não é o caso. Existem verdadeiros seguidores de Jesus Cristo que não são “evangélicos”, cuja confiança na Escritura é muito pouca ou mesmo mínima e que acreditam muito mais nas tradições do passado e nos ensinamentos presentes da igreja, ou mesmo em suas próprias ideias ou experiência. Eu não tenho o mínimo desejo de negar a autenticidade de sua fé cristã. Arrisco-me, porém, a dizer que o seu discipulado acabará sendo muito mais pobre em virtude de sua atitude para com a Bíblia. É impossível um discipulado cristão maduro, completo e equilibrado sem que os discípulos se submetam à autoridade ensinadora do seu Senhor tal como mediada através da Escritura. Afinal, o que é discipulado?  É um estilo de vida multifacetado, um amálgama de diversos ingredientes. Ele abrange principalmente adoração, fé, obediência e esperan­ça. Todo cristão é chamado a adorar a Deus, a confiar nele, a obedecer-lhe e a olhar com firme esperança para o futuro. Mas cada um destes é uma resposta à revelação e é seria­mente deficiente caso não haja uma revelação confiável e objetiva de Deus.

1.Adoração. Todo cristão é um adorador. Tanto em público como na vida privada, nós reconhecemos que de­vemos adorar o Deus Todo-poderoso. Mas como podemos adorar a Deus sem sabermos quem ele é e que tipo de adoração lhe agrada? Sem esse conhecimento, é quase certo que nossos esforços de adoração acabam se transformando em idolatria. No melhor dos casos, nós iríamos simples­mente imitar aquele famoso altar que Paulo encontrou em Atenas e no qual estava escrito “Ao deus desconhecido”. Mas os cristãos não são atenienses agnósticos; nós deve­mos amar o Senhor nosso Deus com todo o nosso enten­dimento e adorá-lo “em espírito e em verdade”.

Então, o que significa adorar a Deus? E “gloriar-se no seu santo nome”, ou seja, adorar com regozijo aquele que ele é em seu caráter revelado. Antes, porém, de podermos nos gloriar no nome de Deus, precisamos conhecê-lo. Daí a necessidade de lermos e praticarmos a Palavra de Deus em culto público e de meditarmos na Bíblia em devoção privada. Estas coisas não interferem na adoração; pelo contrário, são o fundamento necessário para tal. Antes de termos qualquer liberdade de falar com Deus, ele tem de falar conosco. Ele deve revelar-se a nós antes que possamos apresentar-lhe aquilo que somos em adoração que lhe agrada. O culto a Deus é sempre uma resposta à Palavra de Deus. A Escritura dirige e enriquece maravilhosamente a nossa adoração.

2.Fé. Se todo cristão é um adorador, todo cristão é também um crente. Na verdade, a vida cristã é uma vida de fé. “Onde está a vossa fé?”, perguntou Jesus aos doze quando eles ficaram com medo, e os exortou: “Tende fé em Deus”. Mas, o que é fé? Também é uma resposta à revelação de Deus. Nós não podemos confiar em um Deus que não conhecemos, assim como não podemos adorar um Deus desconhecido. Consideremos o Salmo 9.10: “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome; porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam.” Se adorar é “gloriar-se” em Deus por quem ele é (seu “nome”), então fé é “confiar” nele por causa de quem ele é. Assim, fé não é, nem ingenuidade, nem credulidade. Ela nem é ilógica nem é irracional. Pelo contrário, fé é uma confiança razoável. Ela se baseia no conhecimento: o conhecimento do nome de Deus. Sua razoabilidade nasce da confiança do Deus em quem se está confiando. Confiar em Deus nunca pode deixar de ser razoável, pois ninguém há que seja mais digno de confiança do que ele.

A fé vai crescendo, portanto, à medida que refletimos no caráter de Deus (que nunca mente) e na aliança de Deus (que se comprometeu com o seu povo). Mas como podemos descobrir seu caráter e sua aliança? Somente pela Bíblia, na qual estão reveladas estas duas verdades geminadas. Assim, quanto mais meditarmos na auto revelação de Deus através da Escritura, tanto mais madura ficará a nossa fé, enquanto que, sem a Escritura, a nossa fé acabará fraca e doentia.

3.Obediência. Jesus chama os seus discípulos para uma vida de obediência, como também de adoração e fé.

Mas como podemos obedecer-lhe, a menos que conheça­mos a sua vontade e os seus mandamentos? Sem tal co­nhecimento é impossível obedecer. “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” E, mais uma vez, “Aquele que tem os meus mandamentos [isto é, que os conhece e os entesoura em sua mente e memória] e os guarda, esse é o que me ama.”

Uma vez mais, portanto, vemos que a Bíblia é indispen­sável para um discipulado maduro. É nela que aprendemos os mandamentos de Cristo e assim tomamos os primeiros passos necessários para compreender e fazer a sua vontade.

4.Esperança. A esperança cristã é uma expectativa con­fiante com relação ao futuro. Nenhum cristão pode ser cínico ou pessimista. Na verdade, nós não acreditamos que algum dia os seres humanos conseguirão construir uma Utopia na terra. Mas, embora não tenhamos muita fé na realização humana, nós temos grande confiança nos propósitos e no poder de Deus. Temos certeza de que o erro e o mal não terão a última palavra. Pelo contrário, a verdade e a justiça acabarão triunfando, pois Jesus Cristo há de regressar em poder e glória, os mortos ressuscitarão, a morte será destruída e o universo se libertará da corrupção e será coberto de glória.

Mas como podemos estar certos destas coisas? Não existe nenhuma base evidente para tal confiança. O mal floresce. Os ímpios são bem-sucedidos em sua maldade. Os problemas do mundo parecem indissolúveis. E a nuvem de co­gumelo da explosão nuclear ainda tolda o horizonte. Não haveria mais razão para desespero do que para esperança? Sim, pode ser… a não ser pela Bíblia! É a Bíblia que desperta, orienta e nutre a esperança. E a esperança cristã é com­pletamente diferente do otimismo secular. E uma confiança em Deus, que nasce das promessas de Deus. “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar,” exorta o autor de Hebreus aos seus leitores. Por quê? “Pois quem fez a promessa é fiel.” O próprio Jesus disse que viria de novo. “Então verão o Filho do homem vir nas nuvens, com grande poder e glória… E vereis o Filho do homem… vindo com as nuvens do céu”. São promessas como esta que estimu­lam nossa esperança. E “guardando a sua promessa “que nós esperamos por um novo mundo, “em que habita justiça”.

Aqui estão, pois, os quatro ingredientes do discipulado cristão: adoração, fé, obediência e esperança. Todos eles seriam irracionais sem uma base objetiva na revelação de Deus, para a qual eles são uma resposta. A adoração é uma resposta à revelação do nome de Deus; a fé, à revelação do seu caráter e aliança; a obediência, à revelação da sua vontade e mandamentos; e a esperança, à revelação do seu propósito e suas promessas. E o nome, a aliança, os mandamentos e as promessas de Deus são todos encontra­dos na Escritura. E por isso que a Bíblia é fundamental para o crescimento cristão, e por isso é que a submissão à sua autoridade é o caminho para um discipulado maduro.

INTEGRIDADE INTELECTUAL

Em segundo lugar, a submissão à autoridade bíblica é o caminho para a integridade intelectual.

Muita gente iria negar imediatamente esta declaração e até afirmar o contrário. As pessoas não conseguem entender como é que os cristãos — aparentemente tão inteligentes, em pleno final do século XX — podem ser tão obtusos a ponto de acreditar na inspiração e na autoridade da Bíblia. Acham insustentável um compromisso com a verdade e a fidelidade da Escritura. Assim, aqueles dentre nós que insistem em permanecer fiéis à Escritura eles acusam de falta de integridade intelectual. Dizem que somos obtusos, esquizofrênicos, suicidas intelectuais e vítimas de outras patologias igualmente repugnantes. Diante dessas acusações, porém, nós nos declaramos inocentes, insistindo no fato de que a nossa convicção acerca das Escrituras nasce da própria integridade que os nossos críticos dizem nos faltar.

“Integridade” é a qualidade de uma pessoa integrada. Um cristão integrado está em paz (e não em guerra) consigo mesmo. Ao invés de vivermos uma dicotomia entre as nossas diversas crenças, ou entre a nossa fé e o nosso comportamento, o que nos deixaria intimamente divididos, o que existe é uma harmonia interior. Nós somos “uma peça única”, inteiros, integrais. Qual é o segredo dessa integração?

Não existe princípio cristão mais integrador do que a afirmação que vimos no capítulo 5, “Jesus Cristo é Se­nhor”. No discipulado integrado, é igualmente essencial que confessemos o seu senhorio com os nossos lábios e que o entronizemos como Senhor em nossos corações. Nós aceitamos o leve fardo de sua autoridade disciplinadora. Procuramos “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo”. E quando Jesus é Senhor daquilo que nós cremos, das nossas opiniões, ambições, padrões e valores, Senhor do nosso estilo de vida, então nós somos cristãos integrados, já que a nossa vida é marcada pela “integri­dade”. Só quando ele é Senhor é que nós nos tornamos completos.

Mas o próprio Jesus, nosso Senhor, submeteu-se às Escrituras do Antigo Testamento. Em sua conduta ética, na compreensão de sua missão e em seus debates públicos com os líderes religiosos de sua época, sua preocupação primordial era ser fiel à Escritura. “O que diz a Escritu­ra?”, perguntava ele. Esta era sempre a sua apelação final. Além do mais, ele deixou clara sua expectativa de que, quanto a isso, os seus discípulos seguissem o seu exemplo. E também providenciou para que as Escrituras do Novo Testamento fossem escritas, ao escolher, chamar, equipar e comissionar os seus apóstolos para serem os mestres da igreja, esperando que a igreja se submetesse a eles. “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim”, disse ele. Portanto, a submissão à Escritura por parte dos discípulos cristãos é parte e parcela de nossa submissão a Jesus como Senhor. Afinal, o discípulo não está acima de seu mestre. Portanto, nós não podemos acomodar-nos a uma submissão seletiva. Seria inerentemente ilógico, por exemplo, concordar com a doutrina de Jesus sobre Deus, mas discordar da sua visão sobre a Palavra de Deus. De jeito nenhum: submissão seletiva não é submissão autêntica.

Isto nos dá a orientação necessária para lidarmos com os problemas encontrados na Bíblia, pois, ao afirmar a inspiração e a autoridade da Escritura, eu não estou negando que haja problemas. Existem problemas textuais, literá­rios, históricos, científicos, filosóficos, culturais, teológi­cos e morais. Os fenômenos observáveis da Escritura (que nós vemos indutivamente) às vezes parecem conflitar com a nossa doutrina da Escritura (que nós defendemos dedutivamente, inferindo-a da atitude e dos ensinos de Jesus). Assim, o que deveríamos fazer com os problemas? Como tratá-los com integridade?

Precisamos lembrar que toda doutrina cristã traz à tona algum problema, inclusive as doutrinas centrais de Deus (seu ser, criação, soberania, providência e justiça), de Jesus Cristo (sua pessoa única em duas naturezas, sua obra de expiação, sua ressurreição corporal, seu reino presente e sua volta futura) e do Espírito Santo (sua atuação na igreja e no mundo). Ou, então, consideremos o amor de Deus. E uma doutrina cristã fundamental. Todos os cristãos, sem exceção (católicos romanos, ortodoxos, reformados, luteranos, episcopais, independentes, pentecostais…), acre­ditam que Deus é amor; se eles o negassem, não seriam cristãos. Mas os problemas que cercam esta convicção são enormes: a origem e a propagação do mal, o sofrimento dos inocentes, os “silêncios” de Deus e os “atos” de Deus, a vastidão do universo e a aparente insignificância de cada ser humano.

Suponhamos que alguém venha procurar-nos com um problema ou um conflito pessoal (talvez o nascimento de um filho deficiente, um desastre natural ou uma morte trágica) e nos desafie: “Por que isso tinha de acontecer comigo? Como pode Deus ser amor, se ele permite isso?” Como é que iremos reagir? Dizer que, para preservar nossa integridade intelectual, é melhor deixarmos de acreditar no amor de Deus até que o nosso problema esteja resolvido? Espero que não. Nem vamos varrer o problema para de­baixo do tapete e tentar esquecê-lo. Pelo contrário, além da questão de como deveríamos responder pastoralmente ao nosso inquiridor, nós lutamos com o problema em nossa própria mente e coração. Nós pensamos nele com muita consciência, lemos acerca do assunto, conversamos e oramos sobre ele. E, durante este processo, o problema vai se esclarecendo. Mesmo assim, algo da perplexidade perma­nece. E depois, o que acontece? O caminho para a integri­dade intelectual, a meu ver, é determinar-nos a não abrir mão da nossa convicção quanto ao amor de Deus, apesar das dificuldades que permanecem — em última instância, por uma única razão: que o próprio Senhor Jesus ensinou e demonstrou esse amor. Primeiro e antes de tudo, foi por causa de Jesus que nós chegamos a crer no amor de Deus, e é pela mesma razão que deveríamos continuar a fazê-lo.

O mesmo acontece com os problemas concernentes à Bíblia. Nós temos que aprender a encará-los assim como encaramos os problemas relativos a outras doutrinas cristãs. Se alguém vem para nós com um problema bíblico (uma discrepância, por exemplo, entre teologia e ciência, ou entre dois relatos dos Evangelhos, ou um dilema moral), o que deveríamos fazer? Não podemos (movidos por uma integridade equivocada) deixar de confiar na verdade da Escritura até que tenhamos resolvido o problema. Nem podemos colocar o problema numa prateleira (adiando indefinidamente o seu desafio) nem empurrá-lo para de­baixo do tapete (ocultando-o permanentemente, até de nós mesmos). Ao invés disso, deveríamos lutar conscientemen­te com o problema em pensamento, discussão e oração. A medida que o fizermos, algumas dificuldades irão se acla­rando, seja total ou parcialmente. Mas então, a despeito daquilo que ainda permanece, nós deveríamos conservar a nossa confiança na Escritura, baseados no fato de que o próprio Jesus a ensinou e demonstrou.

Se um crítico me dissesse: “Se você enfrenta os proble­mas acreditando que a Bíblia é a Palavra de Deus, então você é um ignorante!”, eu hoje devolveria o cumprimento dizendo: “Está bem, se esta é a sua opinião…, Mas, neste caso, você é um ignorante, se enfrenta os problemas acre­ditando no amor de Deus.” Mas a verdade é que acreditar em uma doutrina cristã a despeito de seus problemas, por reconhecimento ao senhorio de Jesus Cristo, não é igno­rância (preferir as trevas à luz), mas fé (confiar naquele que disse que ele era a luz do mundo). Aliás, é mais do que fé: é a sensata integridade intelectual de confessar Jesus como Senhor.

PROGRESSO ECUMÊNICO

Em terceiro lugar, a submissão à autoridade da Escritura é o caminho para o progresso ecuménico, ou seja, o meio de assegurar uma aproximação satisfatória entre as igrejas.

Agora eu me dou conta de que talvez alguns dos meus leitores não tenham o mínimo desejo de levar adiante o ecumenismo. Pode ser que você (pura suposição minha) suspeite de tudo o que seja movimento ecumênico, inclusive o Concílio Mundial de Igrejas, que nasceu a partir dele. Você percebe (se bem que sempre é enganoso generalizar) a tendência deste para a indiferença doutrinária, o seu esforço para reinterpretar a missão cristã em termos de ação sócio-política, como também a sua inclinação para o sincretismo e o universalismo em face dos desafios de outras religiões. Na verdade, eu entendo os seus escrúpulos — aliás, eu mesmo compartilho deles. Existe no ecumenismo moderno muita coisa que nos desconcerta e nos deixa angustiados. Não se pode aceitar sem críticas tudo o que vem de Genebra. No entanto, também me incomoda essa condenação generalizada por parte de um grande contin­gente evangélico com relação às atividades ecumênicas. Para mim é óbvio que nós não podemos simplesmente ignorar toda a ala não evangélica do cristianismo, como se ela não existisse; ou então, já que ela de fato existe, considerar os seus adeptos como não cristãos e concluir que nada temos a ver com eles. Aliás, o nosso Senhor Jesus orou para que seu povo viesse a ser um, a fim de que o mundo cresse, e seu apóstolo Paulo exorta-nos a “esforçar-nos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz”.

É claro que existe um lugar para discordâncias entre nós quanto à forma que deveria assumir a unidade cristã. Mas por que não podemos admitir que essa competição entre diferentes igrejas não tem razão de ser e que a unidade visível da igreja, de alguma forma, é um alvo a ser alcan­çado? Reagindo a uma carta de Thomas Cranmer, Arce­bispo de Cantuária, em 1552, Calvino escreveu o seguinte:

Sem dúvida, uma das maiores desgraças do nosso século é o fato de as igrejas estarem assim separadas umas das outras… e que a santa comunhão dos membros de Cristo, que muitos professam com a boca, seja buscada com sinceridade apenas por uns poucos… Segue-se daí que, estando os membros assim dispersos, o corpo da igreja fica sangrando. Isto me afeta tão profundamente que, se alguém achasse que valeria alguma coisa, eu não hesitaria em atravessar dez mares para isso, caso ne­cessário… De fato, se homens letrados tentassem chegar a um acordo sólido e cuidadosamente elaborado de conformidade com o que manda a Escritura, um acordo pelo qual as igrejas separadas devessem unir-se umas às outras, acho que de minha parte eu não pouparia qualquer esforço ou perigo.

A carta de Calvino a Cranmer é significativa, não só pelo fim que ela tinha em vista (unir igrejas separadas), mas também pelos meios que ela propunha (um acordo baseado na Escritura). Afinal, a unidade que o próprio Cristo deseja para sua igreja é certamente uma unidade baseada na verdade. Sua oração registrada em João 17 une claramente as duas coisas, como veremos no capítulo 16. Além disso, se a igreja está construída sobre o fundamento dos após­tolos e dos profetas, tendo como pedra angular o próprio Cristo, ela certamente não irá crescer em tamanho ou estabilidade negligenciando, e muito menos solapando, o seu alicerce. E nisto o Concílio Mundial de Igrejas está de acordo, pelo menos em sua posição oficial. Sua declarada definição da “unidade que buscamos” (1961) fala sobre “uma só comunhão plenamente comprometida, mantendo uma só fé apostólica, anunciando um único evangelho, partindo um só pão” e desfrutando uma vida comunitária de oração, testemunho e serviço.

Naturalmente, essa “uma só fé apostólica” chegou até nós através do Novo Testamento, e não se poderia nem deveria considerar nenhuma união de igrejas que se des­viasse desta regra. De maneira particular, um dos maiores obstáculos para a unidade tem sido a falha em distinguir entre Escritura e tradição. Jesus mesmo estabeleceu uma distinção bem clara entre a Escritura escrita e a tradição oral dos anciãos, subordinando esta àquela; e foi ainda mais longe, a ponto de rejeitar a tradição por ser “preceitos de homens”, a fim de que a Escritura, sendo a Palavra de Deus, tivesse a supremacia. Esta mesma distinção precisa ser feita hoje. Mesmo assim os planos de unidade da igreja têm falhado. Uma demonstração disso é a tendência, por exem­plo, das igrejas anglicanas e episcopais de insistir em uma visão bem particular quanto ao “episcopado histórico”, que elas consideram uma questão inegociável. Pode-se até en­tender as razões históricas para isso, e eu mesmo gostaria de defender um sistema episcopal de governo como um ideal de pastorado coerente com a Escritura e que conduziria à saúde da igreja. Mas não se pode insistir nisso como indispensável, pois é um assunto que tem a ver com a tradição da igreja, e não uma exigência da Escritura.

Se nós pelo menos pudéssemos concordar que a Escritura é “a Palavra escrita de Deus”, que ela é suprema em sua autoridade sobre todas as tradições humanas, por mais veneráveis que sejam, e que deveríamos deixar que ela re­formasse e renovasse a igreja, isto seria um salto imediato nas relações ecumênicas. Segundo a Palavra de Deus, para haver re-união é indispensável que haja uma reforma.

EVANGELIZAÇÃO EFICAZ

Em quarto lugar, a submissão à autoridade da Escritura é o caminho para uma evangelização fiel e eficaz. Até aqui, enquanto considerávamos o discipulado pessoal, a integridade e as relações entre as igrejas, o meu argumento foi doméstico e eclesiástico. Mas o mundo que nos cerca vive em grande confusão e trevas. Será que a igreja tem alguma luz para essas trevas, alguma palavra de esperança para esse atônito mundo moderno?

Uma das tragédias da igreja contemporânea é que, justo quando o mundo parece estar pronto para ouvir, muitas vezes a igreja parece ter pouco ou nada a dizer. Afinal de contas, ela mesma está confusa; ao invés de trazer alguma contribuição positiva, ela participa da confusão reinante. A igreja sente-se insegura; não tem certeza de sua identidade, de sua missão nem de sua mensagem. Fica aí gaguejando e balbuciando, quando deveria estar procla­mando o evangelho com toda intrepidez. Com efeito, a principal razão para a igreja estar perdendo a sua influên­cia no Ocidente é que a sua fé está diminuindo.

É impossível redescobrir a evangelização, a não ser que se redescubram as boas novas do evangelho. Afinal, evangelizar, na sua definição mais simples, é “compartilhar o evangelho”. Portanto, é impossível haver evangelização bíblica sem evangelho bíblico. Muitas igrejas através do mundo vêm considerando os anos 90 como uma “década da evangelização”. Isto é muito bom. Mas nós nunca iremos concordar quanto ao que significa “evangelizar” se nos recusarmos a debater o conteúdo do “evangelho”. Evangelização só pode ser definida em termos de evangelho.

Nós precisamos admitir que testemunho cristão é essen­cialmente testemunhar de Cristo, e que o único Cristo autêntico que existe é o Cristo testemunhado pelos após­tolos. Afinal, os apóstolos foram as testemunhas originais, as testemunhas oculares; nosso testemunho, por mais vital que seja, continua sendo secundário em relação ao deles. Nós não temos autoridade alguma para alterar o evangelho deles. Pelo contrário, somos chamados para preservá-lo como mordomos, proclamá-lo como arautos e defendê-lo como advogados.

Em seu livro sobre evangelização intitulado Ide e Fazei Discípulos, David Read, que durante muitos anos foi pastor da Igreja Presbiteriana da Avenida Madison, em Nova York, escreveu: “Aqueles dentre nós que gostam de visitar outros países conhecem bem aquele solene momento quando, na fronteira, nos deparamos com um oficial da alfândega que… nos encara com olhos de aço e pergunta: ‘Algo a declarar?’ Eu ainda não tive a coragem de responder: ‘Sim. Como ministro do evangelho, é meu dever declarar que Jesus Cristo é o seu Senhor e Salvador’.” Assim, David Read intitula o seu capítulo final “O Ponto Crucial: Você tem algo a decla­rar?” O que faz da “maioria de nós… evangelistas relutan­tes”, escreve ele, é a falta de convicção acerca do evangelho. E eu concordo. Acho que a igreja nunca levará a sério a sua tarefa evangelística, a não ser que primeiro ela recupere a sua confiança na verdade, relevância e poder do evangelho, e comece ela mesma a entusiasmar-se por ele. Para isso, no entanto, ela terá que retornar à Bíblia, onde o evangelho foi revelado.

HUMILDADE PESSOAL

Em quinto lugar, a submissão à autoridade da Escritura é o caminho para a humildade cristã pessoal. Não há coisa mais detestável em alguém que diz seguir a Cristo do que a arrogância, e nada é mais apropriado ou atrai mais do que a humildade. E um elemento essencial na humildade cristã é a disposição para ouvir e receber a Palavra de Deus. Talvez a maior de todas as nossas necessidades é assumir outra vez o nosso lugar humildemente, calmamente e pa­cientemente aos pés de Jesus Cristo, para ouvir atentamen­te a sua Palavra, acreditar e obedecer. Aliás, nós não temos direito algum de desacreditá-lo ou desobedecê-lo.

A questão definitiva que se coloca diante de nós e de toda a igreja é se Jesus Cristo é Senhor (como nós dizemos que ele é) ou não. A pergunta é se Cristo é o Senhor da igreja (para ensiná-la e ordenar-lhe o que fazer) ou se é a igreja que é o senhor de Cristo (para alterar e manipular o seu ensino). Na atual crise de autoridade no mundo, e de perda de autoridade na igreja, meu apelo é que regressemos a uma humilde submissão à Escritura como Palavra de Deus e que o façamos a partir de uma humilde submissão a Jesus Cristo como Senhor, o qual se submeteu, ele mesmo, à Escritura, com toda humildade, em sua própria fé, vida, missão e ensinamento.

Ao fazê-lo, encontraremos o caminho para o discipulado maduro e para a integridade intelectual, o caminho para unir as igrejas e evangelizar o mundo e o caminho para demonstrar uma humildade apropriada diante do nosso Senhor Jesus Cristo. E isso que eu chamo de “salubridade” de submeter-se à autoridade da Escritura.

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O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

PERMANECENDO NA PALAVRA

Um tema constante nos autores do Novo Testamento é que o povo de Deus deve ser firme. Por um lado, devemos resistir às pressões morais e intelectuais do nosso mundo contemporâneo, recusando-nos a ser molda­dos pelos padrões da época. Não podemos nos permitir tropeçar, escorregar e cair na lama da relatividade, ou ser arrancados do nosso ancoradouro e ser levados pela cor­renteza. Por outro lado — e este é o aspecto positivo — somos exortados a perseverar na verdade que recebemos, apegando-nos a ela como um abrigo seguro na tempestade e a ficar firmes em seu fundamento.

Vejamos alguns exemplos desse tipo de exortação, dados por três dos maiores contribuidores do Novo Testamento.

Paulo: “Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.”

Hebreus: “Importa que nos apeguemos, com mais fir­meza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos.”

João: “Permaneça em vós o que ouvistes desde o prin­cípio.” “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem assim o Pai, como o Filho.”

O que há de comum nestas citações é o reconhecimento de que certas verdades haviam sido “ensinadas” ou “trans­mitidas” pelos apóstolos e, portanto, tinham sido “ouvidas” ou “recebidas” pela igreja. Agora esse corpo de doutrina era um depósito sagrado a ser guardado. Ele tinha uma qualidade normativa: a igreja deveria permanecer nessa doutrina e apegar-se a ela, não se afastando dela nem indo além dela, de forma a contradizê-la.

Parte da recomendação final de Paulo a Timóteo elabora este tema. Mas, para compreendermos as suas implicações, precisamos ter o texto diante de nós. Ele se encontra em 2 Timóteo 3.1 – 4.8.

Sabe, porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, impla­cáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes inimigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de pie­dade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes.

Pois entre estes se encontram os que penetram sor­rateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias pai­xões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles.

Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, per­severança, as minhas perseguições e os meus sofrimen­tos, os quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra — que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão per­seguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados.

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a edu­cação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.

Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.

FIRMES NA PALAVRA

A exortação de Paulo a Timóteo foi dada dentro do contexto da sociedade em que ele vivia (3.1-13). Ela não era, de manei­ra alguma, favorável ao evangelho. Este, por sua vez, não podia ser reformulado a fim de acomodar-se às ideias e padrões daquela. Pelo contrário, Paulo estava plenamente consciente de que havia entre a Palavra e o mundo uma incompatibilidade radical. “Sabe, porém, isto”, escreveu ele:  “Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis.”

É importante salientar que ao falar em “últimos dias” o apóstolo não estava aludindo a uma época futura que viria logo antes da volta de Cristo. No versículo 5 ele diz a Timóteo que “fuja” das pessoas que ele estava descrevendo. Como Timóteo poderia evitá-las, se elas ainda não tivessem sequer nascido?… Na perspectiva do Novo Testamento, os “últimos dias” começaram com Jesus Cristo. Foi ele quem os introduziu. Os últimos dias são, pois, estes dias, os dias em que Timóteo viveu e em que nós também vi­vemos, ou seja, todo o período entre a primeira e a segunda vindas de Cristo. E quais são as características dos últimos dias? Três delas parecem destacar-se na descrição de Paulo.

A primeira é amor mal direcionado. É impressionante ver que, das dezenove marcas distintivas que o apóstolo menciona (vs. 2-4), seis têm a ver com amor: “…os homens serão egoístas [amantes de si mesmos], avarentos [amantes do dinheiro], …desafeiçoados [sem amor], …inimigos do bem [não amantes do bem], …antes amigos dos prazeres que amigos de Deus.” A expressão “desafeiçoados” deve ser entendida como “sem verdadeiro amor”. Afinal de contas, as pessoas em vista não são completamente desprovidas de amor: elas amam a si mesmas, amam o dinheiro e amam os prazeres. O eu, o dinheiro e os prazeres são objetos inadequados do amor humano. Eles podem até virar idola­tria, quando tiram de Deus o lugar que lhe é devido como Aquele que deve ser amado com todo o nosso ser. Hoje em dia, porém, o amor mal direcionado está em toda parte. O egoísmo, a avareza e o hedonismo predominam, enquan­to que o primeiro e o segundo mandamentos, de amar a Deus e amar o nosso próximo, são negligenciados. Além disso, quando o amor das pessoas está voltado para o objeto errado, todos os seus relacionamentos ficam errados. Elas se tornam “avarentas, jactanciosas, arrogantes, blasfemadoras, desobedientes, … ingratas, … implacáveis, caluniadoras… cruéis” (vs. 2 e 3).

A segunda característica de nossos tempos pode ser chamada de religião vazia. Nossos contemporâneos são descritos como “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (v. 5). Pode parecer estranho que uma pessoa egoísta possa ser também religiosa. Mas acontece. Na verdade, é possível que a religião, cujo propósito é expressar adoração a Deus, seja pervertida e transformada em um meio de alimentação do ego. O nome certo para essa distorção doentia   é hipocrisia, atitude que Jesus atacou veementemente. Tal religião se evidencia em “forma” sem “poder”, demonstração exterior sem realidade interior. É igualmente inimiga do evangelho, pois um cristão nominal torna as pessoas resistentes ao verdadeiro cristianismo. Terceiro, os últimos dias se caracterizam pelo   culto a uma mente aberta. Paulo descreve aqui pessoas que “apren­dem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade” (v. 7). Elas ficam sentadas em cima do muro e recusam-se a descer, seja para um lado, seja para o outro. Seu lema é a tolerância. Determinadas a evitar o sofrimento de chegar a conclusões definitivas, elas fazem da “mente aberta” o seu   amuleto. Não suportam aquilo   que C. S. Lewis chama de “o tirano apogeu da revelação”, dando muito maior preferência ao crepúsculo do livre pensamen­to. Elas subestimam a distinção que Allan Bloom estabe­leceu recentemente entre dois tipos de “abertura”:  “a abertura da indiferença… e a abertura que nos convida a ir em busca de conhecimento e convicção”. Este último é um dos aspectos da virtude cristã da humildade: o re­conhecimento de que a nossa compreensão é temporária e incompleta e de que precisamos estar sempre tentando aumentá-la. O primeiro tipo de abertura, por sua vez, além de ser um insulto à verdade, é também pessoalmente arriscado. Como disse um bispo americano, ele nos expõe ao perigo de termos a mente tão aberta que o nosso cérebro acaba caindo!

Eis aqui, pois, três características do nosso tempo que as Escrituras criticam firmemente e nos aconselham evitar.

Nós devemos amar a Deus e ao nosso próximo e não desviar o nosso amor para nós mesmos, para o dinheiro ou para o prazer. Devemos valorizar a realidade e o poder da religião acima de suas expressões exteriores. E devemos submeter-nos humildemente à revelação de Deus e não cultivar um agnosticismo aguado e barato, sem exigências.

Assim, Paulo exorta Timóteo a ser diferente do mundo que o cerca. Depois de descrever essas inclinações peca­minosas, Paulo escreve duas vezes su de, ou “Tu, porém” (vs. 10 e 14). Com estas palavras o apóstolo introduz duas admoestações a Timóteo: que ele resista ao espírito do mundo e que fique firme contra este. A primeira exortação enfoca o que Timóteo já conhece acerca de Paulo (vs. 10 a 13): seu “ensino, procedimento, propósito”, como tam­bém sua “fé, longanimidade, amor, perseverança, …perse­guições, …sofrimentos”. Timóteo havia visto com seus próprios olhos o ministério de Paulo, inclusive a oposição e a perseguição que ele tivera de suportar em Antioquia, Icônio e Listra (v. 11). Pois o fato é que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perse­guidos” (v. 12), já que “os homens perversos e impostores” que rejeitam o evangelho “irão de mal a pior” (v. 13).

Assim o apóstolo coloca em contraposição os baixos padrões do mundo e o seu próprio ensino e conduta. Os dois estavam em inconciliável antagonismo um com o outro. Daí a perseguição que ele tivera de suportar. Quanto a Timóteo, se era para ficar firme, do lado de Paulo e contra o mundo, ele, sem dúvida alguma, iria sofrer também.

PERMANECENDO NA PALAVRA

A menção que Paulo faz aos “homens perversos e impos­tores”, “enganando e sendo enganados” e que iriam “de mal a pior” (v. 13) leva-o ao segundo “Tu, porém”. Agora, ao invés de simplesmente olhar para trás e remontar ao seu ensino, conduta e sofrimentos passados, dos quais Timóteo já tinha conhecimento, ele olha também para o futuro: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste” (v.14). Estes “mestres” de quem Timóteo havia aprendido são provavelmente, primeiro, sua mãe e sua avó, que na in­fância lhe haviam ensinado o Antigo Testamento (v. 15, cf. 1.5), e, depois, o apóstolo, cujo “ensino” (v. 10) Timóteo conhecia e que chegou até nós preservado no Novo Tes­tamento. Assim, Paulo coloca em contraste dois grupos de ensinadores: de um lado, os impostores e enganadores do versículo 13; e, do outro lado, a mãe de Timóteo e o seu mentor (o próprio apóstolo), que lhe haviam ensinado as Escrituras.

Nós mesmos, que vivemos no final do século XX, pre­cisamos atentar para a mesma exortação. Não podemos ser como varas sopradas pelo vento. Não vamos nos curvar diante das tendências predominantes na sociedade, com sua avareza e materialismo, seu relativismo, sua rejeição de todo e qualquer padrão absoluto de verdade e de bondade. Pelo contrário, devemos continuar fiéis à Escritura do Antigo e do Novo Testamento. Mas, por quê? O que é a Escritura, para ocupar um lugar tão importante em nossas vidas? O apóstolo segue adiante e passa a destacar três dos seus aspectos fundamentais.

Primeiro, as Escrituras são capazes de tornar-nos sábios para a salvação (versículo 15, NVI). Seu propósito primor­dial é prático. Mais do que um livro-texto, a Bíblia é um manual, um guia, mais um livro de salvação do que um livro de ciência. Não estamos dizendo com isso que os relatos bíblicos e os científicos do mundo são conflitantes, mas que eles se complementam. E tem mais: o propósito de Deus na Escritura não é revelar fatos que podem ser descobertos pelo método científico da observação e da ex­periência, mas, sim, revelar verdades que estão além do escopo da ciência, e particularmente o caminho da salvação de Deus através de Cristo.

É por isso que Jesus Cristo mesmo é o centro da revelação bíblica, já que ela dá testemunho dele. Como disse J.-J. von Allmen, “o centro da Escritura (que a resume e a torna viva) ou a mensagem central da Escritura (… que a explica e justifica) …é Jesus Cristo. Ler a Bíblia sem encontrá-lo é lê-la erradamente, e pregar a Bíblia sem proclamá-lo é pregá-la falsamente.” É porque a Escritura nos instrui para a salvação que ela nos instrui acerca de Cristo, através de quem nós recebemos a salvação pela fé. Além disso, a razão de amarmos a Bíblia é que ela nos fala de Cristo. Ela é a representação de Deus, o retrato de Cristo que Deus nos deu.

Segundo, a Escritura é inspirada por Deus. A expressão mais conhecida da ERAB consiste de três palavras — “inspirada por Deus” — que equivalem à expressão grega theopneustos. Isto indica que a Escritura é a Palavra de Deus, falada por Deus ou soprada pela própria boca de Deus. A combinação implícita de boca, sopro e palavra nos mostra que o modelo de inspiração que se tenciona aqui é o da fala humana. Afinal, falar é comunicar de uma mente para outra mente. Nós geralmente guardamos para nós mesmos o que está “em nossa mente”. Mas quando falamos, reves­timos os pensamentos de nossas mentes com as palavras da nossa boca.

Observe-se também que o texto diz “Toda Escritura é inspirada por Deus” (versículo 16, ERAB). A ERC, por sua vez, traduz esta sentença da seguinte forma: “Toda a Escritura divinamente inspirada por Deus é proveitosa…”. Esta é, com quase toda certeza, uma tradução incorreta, pois, se “toda Escritura inspirada… é proveitosa”, isso implica em que deve haver outras Escrituras que não são inspiradas e, portanto, não são proveitosas. Mas, em primei­ro lugar, o conceito de “Escritura não inspirada” é uma contradição de termos, pois a palavra “escritura” simples­mente significa “escrito inspirado”. Em segundo lugar, a ERC omite, sem suficiente fundamento, a palavrinha kai, que significa “e” ou “também”. Isto mostra que Paulo não está fazendo uma declaração (“Toda a Escritura divina­mente inspirada é proveitosa”), mas duas declarações (“Toda a Escritura é inspirada e proveitosa”). Com efeito, ela nos é útil e proveitosa justamente por ser inspirada por Deus.

No entanto, nós não devemos deturpar a verdade da inspiração. Quando Deus falou, ele não falou para o espaço. Nem escreveu documentos que deixou por aí para serem descobertos, como Joseph Smith (fundador da Igreja Mórmon) reivindica com relação a suas placas de ouro. Deus tampouco ditou a Escritura para secretários que não tiveram nisso qualquer participação, como os muçulmanos acreditam que Alá ditou o Alcorão a Maomé em árabe. De maneira alguma. Ao falar em processo de inspiração, nós estamos dizendo que os autores humanos, mesmo enquanto Deus falava para eles e através deles, estavam eles mesmos ativamente engajados na pesquisa histórica, reflexão teo­lógica e composição literária. Afinal, muito da Escritura é narrativa histórica e cada autor tem sua própria ênfase específica e seu próprio estilo literário. A inspiração divina não dispensou a cooperação humana nem deixou de fora as contribuições peculiares a cada autor.   Assim, “inspi­rado por Deus” não é a única avaliação que a Escritura faz de si mesma, uma vez que a boca de Deus não foi a única boca envolvida em sua elaboração. A mesma Escritura que diz “a boca do Senhor o disse” diz também que Deus falou “por boca dos seus santos profetas”. Mas, então, a Escritura saiu da boca de quem: de Deus ou dos profetas? A única resposta que encontramos na Bíblia é “de ambos”. Na verdade, Deus falou por intermédio de autores humanos de tal maneira que suas palavras eram simultaneamente palavras deles, e as palavras deles eram simultaneamente as dele. E isso que significa   a dupla autoria da Bíblia. A Escritura é igualmente Palavra de Deus e palavras dos seres humanos. Ou melhor, ela é a Palavra de Deus através das palavras dos seres humanos.

É essencial que se mantenham juntas as duas autorias. Alguns teólogos, tanto antigos como modernos, católicos e protestantes, têm se referido às duas naturezas de Cristo como se isto fosse uma analogia. O paralelo, se bem que não seja exato, é esclarecedor. Ao tratar da pessoa de Cristo (que tanto é Deus quanto humano), nós não devemos, nem afirmar a sua divindade, negando assim a sua humanidade, nem afirmar a sua humanidade, negando, portanto, a sua divindade, mas, sim, afirmar tanto uma quanto a outra, recusando-nos a deixar que qualquer uma delas contradiga a outra. De semelhante modo, na nossa doutrina da Es­critura nós não devemos, nem afirmar que ela é a Palavra de Deus, negando assim que ela seja palavras de seres humanos (o que seria fundamentalismo), nem afirmar que ela é palavras de seres humanos, de maneira a negar que ela seja a Palavra de Deus (o que seria liberalismo), mas, sim, afirmar os dois de igual maneira, recusando-nos a permitir que uma coisa contradiga a outra. Assim, por um lado, Deus falou, determinando o que ele queria dizer, mas sem abafar a personalidade dos autores humanos. Por outro lado, os seres humanos falaram, usando livremente suas faculdades, mas sem distorcer a verdade que Deus estava falando através deles. Não temos o direito de declarar que essa combinação é impossível. Dizer isso, escreveu Dr. J. I. Packer, seria indicar uma falsa doutrina de Deus —neste caso, particularmen­te de sua providência. … Pois isso pressupõe que Deus e homem encontram-se em um relacionamento tal, um com o outro, que é impossível que ambos sejam livres agentes na mesma ação. Se o homem age livremente (i.e., voluntária e espontaneamente), Deus não o faz, e vice-versa. As duas liberdades são mutuamente excludentes. Mas as afinidades desta ideia são com o Deísmo, e não com o teísmo cristão… O único jeito de acabar com esse raciocínio enganoso é compreendendo a ideia bíblica da operação convergente de Deus em, com e através do livre funcionamento da própria mente humana.

A maneira como nós entendemos a Escritura afeta a maneira como nós a lemos. A sua dupla autoria, espe­cialmente, requer de nós uma dupla abordagem. Já que a Escritura é a Palavra de Deus, nós deveríamos lê-la dife­rentemente de qualquer outro livro — sobre os nossos joelhos, com humildade, reverência e oração, pedindo ao Espírito Santo que nos ilumine. Mas, uma vez que a Escritura é também palavras dos seres humanos, nós deveríamos lê-la como lemos qualquer outro livro, usando a nossa mente, pensando, ponderando e refletindo, considerando atenta­mente suas características literárias, históricas, culturais e linguísticas. Esta combinação de humilde reverência com reflexão crítica é mais do que importante: ela é indispen­sável.

Terceiro, a Escritura é útil (vs. 16-17). Ela pode fazer muito mais do que instruir-nos para a salvação (v. 15):   é também “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (v. 16). Em outras palavras, ela é proveitosa, tanto para a doutrina (ensinar a verdade e corrigir o erro) como para a ética (repreender o pecado e orientar para uma vida correta), levando-nos assim adiante na fé cristã e no comportamento cristão, até que nos tornemos homens e mulheres de Deus, “perfeitmente habilitados para toda boa obra” (v. 17). Assim (como veremos mais demoradamente no próximo capítulo) a Bíblia tem um papel essencial a desempenhar em nosso cresci­mento até atingirmos a maturidade em Cristo. Em contraposição aos enganos dos “homens perversos e im­postores”, Timóteo deveria continuar na Palavra de Deus, tanto nas Escrituras do Antigo Testamento como nos ensinos do apóstolo.

Graças a Deus pela Bíblia! Deus não nos deixou tateando às cegas na escuridão, mas deu-nos uma luz para indicar o caminho. Ele não nos abandonou debatendo-nos em mares revoltos; a Escritura é uma rocha na qual encontrar chão e firmeza. Nossa resolução deveria ser estudá-la, crer nela e obedecê-la.

PREGANDO A PALAVRA

Nem Timóteo nem ninguém mais tem o direito de mono­polizar as Escrituras. Afinal, a Escritura não é propriedade privada de ninguém: ela é propriedade pública. Ela foi dada por Deus e pertence a todos. Sua Palavra foi anunciada a fim de ser passada adiante. Assim o apóstolo, consciente da presença de Deus e do futuro aparecimento de Cristo para nos julgar (4.1), dá a Timóteo este encargo: “Prega a palavra” (v. 2). Ele deve proclamá-la como um arauto ou como uma sentinela em praça pública. E deve fazê-lo com ousadia, urgência e relevância, corrigindo, repreen­dendo e encorajando de acordo com o estado e a necessi­dade das pessoas, e “com toda a longanimidade e doutrina” (v. 2).

Isto se faz ainda mais necessário, acrescentou Paulo, porque está chegando o tempo em que as pessoas “não suportarão a sã doutrina”. Mas estas, acometidas de um estranho estado patológico chamado “coceira nos ouvi­dos”, irão dar ouvidos a ensinadores que dizem o que elas querem ouvir, ao invés de anunciar-lhes a verdade que Deus quer lhes dizer (vs. 3-4). Mas a indisposição de alguns para dar ouvidos à Palavra de Deus não é razão para nós dei­xarmos de anunciá-la! Pelo contrário, Timóteo deve per­severar, ser sóbrio, suportar as aflições e cumprir fielmente o seu ministério, tanto como evangelista quanto como mestre (v. 5).

Uma das maiores necessidades da igreja contemporânea é que se exponha a Bíblia conscientemente no púlpito (veremos isso mais adiante, no capítulo 13). Existe, por toda parte, uma grande ignorância, até mesmo quanto aos rudimentos da fé. Muitos cristãos são instáveis e imaturos. E a principal razão para este triste estado de coisas é a escassez de pregadores bíblicos equilibrados, radicais e responsáveis. O púlpito não é lugar de discutir as nossas próprias opiniões, mas, sim, de expor a Palavra de Deus.

O clímax da exortação do apóstolo encontra-se nos versículos 6 a 8. Em uma carta anterior, escrita cerca de dois anos antes, ele se descrevera como “o velho”. Agora ele escreve que chegou a hora de sua partida. De fato, sua vida já começou a ser “oferecida por libação” (v. 6). Relembrando sua carreira apostólica, ele pode dizer que combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé (v. 7). Ele nada tem a lamentar. Provavelmente está encarcerado nos subterrâneos da Prisão Mamertina em Roma, da qual não espera mais sair. Já com os olhos da imaginação ele vê o lampejo da espada do executor e, mais além desta, “a coroa da justiça” que, no último dia, Jesus, o reto Juiz, dará tanto a ele como “a todos quantos amam a sua vinda” (v. 8). Ele sente que o seu ministério está chegando ao fim, o que o move a exortar Timóteo a que fique firme na Palavra, permaneça nela e passe-a adiante.

Espero que não me julguem pessoal demais se eu disser que sinto e compreendo a intensidade das palavras de Paulo — se bem que, obviamente, eu não tenha a presunção de comparar-me a ele. Mas eu escrevo estas palavras ao mesmo tempo em que acabo de comemorar meus setenta anos de vida. Com esta idade, não espero viver muito mais tempo. Cada novo dia é um bônus que recebo com gratidão das mãos de Deus.

E assim eu fico me perguntando: onde estão os “timóteos” da próxima geração? Onde estão os jovens homens e mu­lheres evangélicos que estão determinados, pela graça de Deus, a ficar firmes na Palavra, recusando-se a deixar-se levar pelos ventos prevalecentes do espírito deste mundo; que estão decididos a permanecer na Escritura e a viver por ela, relacionando a Palavra com o mundo e obedecendo a ela; e que assumiram o compromisso de passá-la adiante, dedicando-se ao ministério de expor a Bíblia com toda consciência?

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

DIREÇÃO, VOCAÇÃO E MINISTÉRIO

Se Deus tem um propósito para a vida de seu povo, e se é possível descobrir esse propósito, então nada mais importante para nós do que discerní-lo e realizá-lo. Com efeito, o apóstolo Paulo indicou ser esta a expec­tativa divina. “Somos feitura dele [de Deus]”, afirmou ele, “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” Por­tanto, se existem boas obras que Deus planejou e designou para nós — provavelmente antes de termos nascido — então nós precisamos descobrir quais são elas. Não é de admirar que Paulo tenha escrito mais adiante, na mesma carta: “Não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor”.

Na carta de Paulo aos Colossenses, ele ora também para que Deus os faça “transbordar de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiri­tual”, e menciona como Epafras “se esforça sobremaneira, continuamente… nas orações” por eles, e que eles deveriam conservar-se “perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus”.

Sempre que falamos em descobrir a vontade de Deus para as nossas vidas, é quase certo que três palavras vão apa­recer durante a conversa: “direção”, “vocação” e “minis­tério”. Cada uma delas tem um significado especial. “Di­reção” pressupõe que Deus quer nos dirigir; “vocação”, que Deus nos chama; e “ministério”, que ele quer que coloque­mos nossas vidas a seu serviço. Mas, ao mesmo tempo, o que há de comum nos três conceitos é que em cada um deles a iniciativa é de Deus e que cada um tem tanto um aspecto geral (que se aplica igualmente a todos nós) como um aspecto específico (que é diferente para cada um de nós). Isto se tornará mais claro à medida que prosseguirmos.

DIREÇÃO

Às vezes nós dizemos, com um suspiro: “Ah, se eu tivesse dez vidas!” Existe um mito de que os gatos têm sete vidas; mas nós, humanos, só temos uma e não podemos duplicá-la nem fazer réplicas de nós mesmos. Daí a necessidade de descobrirmos a vontade de Deus para essa única vida que ele nos deu.

Mas antes de chegarmos ao ponto de descobrir a vontade de Deus é essencial que estabeleçamos uma distinção entre a sua vontade “universal” e a sua vontade “específica”. A vontade universal de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para todo o seu povo; ela é a mesma para todos nós, em todos os lugares e em todos os tempos. Mas a vontade específica de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para pessoas específicas, em lugares especí­ficos e em tempos específicos. Sua vontade universal é que sejamos “conformes à imagem de seu Filho”. A vontade de Deus para todos nós é que sejamos como Cristo; essa vontade não varia de discípulo para discípulo. Sua vontade específica, por sua vez, tem a ver com questões como a escolha de uma profissão ou de um companheiro para a nossa vida, ou como deveríamos gastar nossas energias, nosso tempo, dinheiro, feriados… Estas coisas diferem de uma pessoa para outra. Só depois de fazermos essa distin­ção essencial entre o “geral” e o “específico” é que esta­remos em condições de repetir a nossa primeira questão, que é como descobrir a vontade de Deus. Sua vontade “geral” ou “universal” está revelada na Escritura Sagrada. Não que esta contenha engenhosas soluções para os complexos problemas éticos do século XX; mas ela contém princípios que podem ser aplicados a eles. Via de regra está curto dizer que a vontade de Deus para o povo de Deus encontra-se na Palavra de Deus.

A vontade específica de Deus, porém, não se encontra na Bíblia. Não posso negar que uma vez ou outra Deus parece ter guiado certas pessoas por intermédio de um versículo específico extraído de seu contexto. Mas devo acrescentar que ele o faz em virtude de nossa fraqueza. Afinal, a Bíblia não é uma antologia de textos desvin­culados, mas, sim, uma revelação histórica, cumulativa. Nós não temos o direito de ignorar o seu sentido original a fim de obrigá-la a falar a nós. Mas o que a Bíblia contém mesmo são princípios que são relevantes a questões es­pecíficas. O casamento, por exemplo. A Escritura nos dá diretrizes gerais e preestabelece algumas questões. Ela nos diz que o matrimonio é o propósito desejável de Deus para os seres humanos e que o celibato é uma exceção, não a regra; que um dos seus propósitos primordiais ao instituir o casamento foi o companheirismo – portanto, esta é uma importante qualidade a ser buscada em um esposo ou esposa; que o cristão só é livre para casar-se com um cristão; e que o casamento (sendo um compro­misso de amor, monogâmico e heterossexual, para a vida toda) é o único contexto ordenado por Deus para as relações sexuais. Estas diretrizes gerais são claramente estabelecidas na Bíblia. Mas a Bíblia não diz a ninguém se Deus vai chamá-lo para casar-se ou para permanecer solteiro, nem com quem deverá casar-se (se for esta a sua opção).

Mas como vamos descobrir a vontade específica de Deus, se ele não a revelar através da Escritura? Já que Deus é soberano e livre, eu acho que não nos cabe estereotipar a nossa resposta. No entanto, eu descobri cinco palavras que são guias seguros.

Primeiro, ceder. Nós precisamos ceder, ou dar lugar ao propósito de Deus na nossa vida. Uma vontade que não se rende é o mais sério de todos os obstáculos para se descobrir a vontade de Deus. Se Deus não revela a sua verdade a quem não está disposto a acreditar nela, ele tampouco a revela a quem não está disposto a fazê-la. Pelo contrário, ele “guia os humildes na justiça, e ensina aos mansos o seu caminho”.

Segundo, orar. Simplesmente ceder, ou então entregar com desconfiança, não é suficiente. E preciso também esperar em oração e ser sustentado por ela. “Pedi, e dar-se-vos-á”, Jesus ensinou. “Nada tendes, porque não pedis”, acrescentou Tiago. Nosso Pai celeste não estraga os seus filhos. Ele não nos revela a sua vontade, a não ser que realmente queiramos conhecê-la e expressemos esse desejo em nossas orações.

Terceiro, falar. Embora um dos fortes do cristianismo protestante seja a insistência no nosso “direito ao juízo privado”, isto não significa que devamos tomar todas as nossas decisões sozinhos. Pelo contrário, Deus nos con­cedeu uns aos outros em sua família. Portanto, devemos ser humildes o suficiente para falar uns com os outros, inclusive os nossos pais, e buscar o seu conselho, pois “com os que se aconselham se acha a sabedoria”. Que as nossas decisões sejam tomadas em grupo, assumidas com respon­sabilidade na rica comunhão em que Deus nos colocou.

Quarto, pensar. Embora nós devamos ceder, orar e pedir conselho, nós sempre acabamos tendo de tomar decisões. Como vimos no capítulo anterior, Deus contrabalança as suas promessas de nos guiar com a sua proibição de que nos comportemos como cavalos e mulas, que não têm entendimento. Não vamos esperar que ele cumpra as suas promessas de nos guiar utilizando “freio e rédeas” (i.e. por meio da força) ou nos dando uma intuição irracional; ele nos guia por meio da mente que nos deu e que nos possibilita pesar cuidadosamente, em cada situação, os prós e os contras.

Quinto, esperar. É um erro apressar-se e ficar impaciente com Deus. Ele levou cerca de dois mil anos para cumprir sua promessa a Abraão no nascimento de Cristo. Levou oitenta anos preparando Moisés para o trabalho de sua vida. São necessários uns vinte e cinco anos para um ser humano chegar à maturidade. Portanto, se nós temos que tomar uma decisão dentro de um certo prazo, devemos fazê-lo. Mas, caso contrário, e se o caminho à nossa frente ainda é incerto, o mais sábio é esperar. Penso que o que Deus disse a José e Maria ao enviá-los ao Egito com o menino Jesus serve também para nós: “Permanece lá até que eu te avise.” Em minha experiência, cometem-se muito mais erros por causa de precipitação do que de protelação.

VOCAÇÃO

“Vocação” é uma das muitas palavras bíblicas cujo sentido tem mudado e se desvalorizado com o decorrer dos anos. No uso popular, ela tem a ver com nosso trabalho ou carreira. “Qual é a sua vocação?” é uma forma um tanto eloquente de perguntar a alguém qual é a sua profissão, e “treinamento vocacional” significa treinamento para um ramo específico. Na Bíblia, entretanto, “vocação” tem uma conotação muito mais ampla e mais nobre. Sua ênfase não é no aspecto humano (o que nós fazemos), mas sim no divino (o que Deus nos chamou a fazer). “Vocação” é uma palavra latina e significa “chamamento”.

No Novo Testamento o verbo grego equivalente a “cha­mar” ocorre cerca de 150 vezes, e na maioria dos casos refere-se a Deus chamando seres humanos. No Antigo Testamento, Deus chamou Moisés, Samuel e os profetas; no Novo Testamento, Jesus chamou os doze apóstolos e depois Saulo de Tarso. Hoje, embora nós não sejamos nem profetas nem apóstolos, ele ainda nos chama para o seu serviço. É maravilhoso o fato de que Deus se importa tanto conosco que nos chama pessoal e individualmente. Portan­to, Deus é “aquele que vos chama”; e nós somos “aqueles que são chamados segundo o seu propósito”.

A questão que se nos depara é esta: de acordo com as Escrituras, para que é que Deus nos chama? Qual é a nossa vocação divina? Para responder esta questão acerca da “vocação”, nós precisamos fazer uma distinção similar àquela que fizemos concernente à “direção”, ou seja, entre o nosso chamado global ou “universal” e os nossos cha­mados “específicos”. Nosso chamado global é o chamado de todo o povo de Deus e é, portanto, o mesmo. Nosso chamado específico é o de cada um de nós e é, portanto, diferente. Todos nós compartilhamos do mesmo chamado universal de Deus; cada um de nós recebeu de Deus um chamado específico diferente.

O chamado universal de Deus para nós não é tanto para fazer alguma coisa (um trabalho), mas para ser alguma coisa (uma pessoa). Embora ele nos chame para diferentes tarefas, como já veremos, primeiro ele nos chama para algo ainda mais significativo, isto é, para sermos discípulos de Jesus Cristo, para vivermos uma vida nova em sua nova sociedade e no mundo. Portanto, se alguém nos perguntar “Qual é a sua vocação?”, nossa primeira resposta — aliás, a resposta certa — deveria ser: “Eu sou chamado para pertencer a Jesus Cristo”. De fato, nós somos chamados a abraçar e desfrutar de todas as bênçãos que Deus nos reservou em Jesus Cristo: “… para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança”. E que herança é essa? Ela tem muitas facetas.

Primeiro, somos chamados para ter comunhão com Jesus Cristo. Isto é básico. Seu convite ainda é “vinde a mim” e “segue-me”. Afinal Deus nos chamou “à comu­nhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”. Assim como Cristo chamou os doze apóstolos para estarem “com ele”, assim também ele nos chamou para o conhecermos e gozarmos de comunhão com ele. A vida eterna é conhe­cer a Deus e o seu Cristo, e nada pode tomar o lugar desta relação fundamental com ele.

Segundo, somos chamados para a liberdade. “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade”, escreveu Paulo aos Gálatas. O tipo de liberdade a que o apóstolo alude aqui é a liberdade da condenação da lei através do perdão de Deus e do fato de termos sido aceitos através de Cristo. É a libertação da culpa e de uma consciência culpada, a libertação que nos dá acesso a Deus como filhos e filhas adotivos seus. No entanto, não é liberdade para pecar ou liberdade das responsabilidades sociais. Pelo contrário, Paulo continua: “Porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros (lite­ralmente, ‘sede escravos uns dos outros’), em amor.” E o paradoxo que já vimos, de que só servindo é que nos tor­namos livres.

Terceiro, somos chamados para a paz. “Seja a paz de Cristo o árbitro em vossos corações, à qual, também, fostes chamados em um só corpo.” A referência a “um só corpo” ajuda-nos a compreender o que Paulo queria dizer com isso. Aqui ele não está se referindo à paz de espírito, coração ou consciência, mas à paz {shalom) resultante da reconciliação uns com os outros na comunidade do reino de Cristo. Nós somos chamados não somente para perten­cer a Cristo, mas também para fazer parte do povo de Cristo.

Em quarto lugar, somos chamados para a santida­de, ou “chamados para ser santos”. Já que o próprio Deus é santo, ele nos chama para que também sejamos santos. Para muita gente, infelizmente, “santidade” dá a falsa ideia de gente piedosa com uma aparência anêmica e um olhar distante, que parece ter-se desligado da vida. Mas a verdadeira santidade é uma semelhança com Cristo que é vivenciada no mundo real.

Em quinto lugar, somos chamados a testemunhar. “Vós, porém, sois… povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” Pedro está con­trastando aquilo que nós éramos antes com o que somos agora. Nós vivíamos nas trevas, mas agora estamos na luz. Nós não éramos povo, mas agora somos povo de Deus. Não tínhamos alcançado misericórdia, mas agora, sim. A de­dução lógica é que nós não podemos de maneira alguma guardar estas bênçãos para nós mesmos. Tendo sido cha­mados para a luz de Deus, nós somos inevitavelmente chamados para fazer brilhar a nossa luz.

Em sexto lugar, somos chamados para o sofrimento. “Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados.” Pedro escreveu essa carta quando a hostilidade de Nero para com os cristãos começou a crescer e agourentas nuvens de perseguição se acumulavam no horizonte. A qualquer momento poderia irromper a tempestade. E daí, como os cristãos deveriam reagir se sofressem injustamente? A resposta de Pedro é muito franca. Eles tinham sido cha­mados para seguir o exemplo de Cristo, da não-retaliação. Muita gente fica chocada ao saber que sofrimento injusto é uma parte inevitável do chamado cristão. Mas o próprio Jesus nos advertiu sobre isso. “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim… Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros.”

Sétimo, somos chamados para glória. O chamado cristão é uma “vocação celestial”. “O Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.” Sofrimento e glória estão constantemente ligados um ao outro no Novo Testa­mento. Foi por intermédio do sofrimento que Jesus entrou em sua glória, e conosco não há de ser diferente. Se nós participamos do sofrimento de Cristo, também participare­mos da sua glória. Portanto, o chamado de Deus não é apenas para esta vida; é também para passarmos a eterni­dade com ele no novo universo.

Eis aqui, pois, o chamado global de Deus, desdobrado em sete aspectos. Deus chama a todos nós para Cristo, para a liberdade, a paz, a santidade, o testemunho, o sofrimento e a glória. Mais simplesmente, é um chamado para per­tencermos a Cristo no tempo e na eternidade, para amar­mos uns aos outros na paz de sua nova comunidade e para servirmos, testificarmos e sofrermos no mundo. E este o sentido fundamental da “vocação cristã”. E a mesma coisa para todos nós, e nós somos exortados a viver uma vida digna dessa vocação.

Se o nosso chamado universal (que é o mesmo para todos nós) é para sermos livres, santos e semelhantes a Cristo, nosso chamado específico (que é diferente para cada um de nós) tem a ver com os detalhes altamente individuais das nossas vidas. Vejamos o ensinamento de Paulo: “Cada um permaneça na vocação (literalmente, o ‘chamado’) em que foi chamado.” Percebe-se imediatamente que o após­tolo usa a ideia de “chamado” em dois sentidos distintos. As palavras “em que fostes chamados” referem-se à con­versão da pessoa quando ouviu e obedeceu ao chamado universal de Deus. “A vocação” (“chamado”) em que ele estava, por sua vez, é uma referência ao seu chamado es­pecífico quando da época da conversão. Essa situação, ou “vocação”, é vista como algo para o qual Deus nos “chamou”, algo que Deus “designou” para nós. E o princípio geral que o apóstolo estabelece, repetindo-o três vezes, é que nós devemos “permanecer” nele. Ele dá três exemplos: nossa situação doméstica (casados ou solteiros), a situação cul­tural (judeus ou gentios) e a situação social (escravos ou livres). Para compreendermos o ensinamento de Paulo, nós precisamos entender o pano de fundo e o contexto. Parece que para os convertidos coríntios a vida em Cristo era uma novidade tão grande (ser “nova criatura”) e emocionante, e tão radicalmente diferente do seu estado de não regene­rados, que eles pensaram que nada que fizesse parte da sua antiga vida poderia ser conservado; tudo tinha de ser re­pudiado.

O casamento, por exemplo. Agora, que eles pertenciam a Cristo (esta parece ser a sua dúvida), como poderia uma obrigação contratual que antecedeu a conversão continuar válida após a conversão? Não seria tal relação “impura”? Paulo responde que não. E por que não? Porque a provi­dência de Deus abrange tanto a sua vida anterior como a vida posterior à conversão. Seu matrimónio, embora con­traído antes de eles se tornarem cristãos, era parte do “chamado” em que se encontravam quando Deus os cha­mou. Portanto, eles não tinham nenhum direito de repudiá-lo. Transformá-lo pela graça de Deus, sim; rejeitá-lo, não.

Nós precisamos ter muito cuidado ao aplicarmos a nós mesmos este ensinamento. Paulo está formulando uma regra geral, não absoluta. Ele, por exemplo, tinha deixado de ser fariseu ao ser chamado para ser apóstolo de Cristo. Seme­lhantemente, os doze haviam desistido de pescar e recolher impostos quando foram chamados para ser apóstolos. E Paulo diz aqui que se um escravo tem alguma possibilidade de ganhar a sua liberdade, deveria fazê-lo. Nós também temos de estar abertos para a possibilidade de Deus nos estar chamando para fazer algo diferente. O que Paulo estava fazendo era reagindo a decisões impensadas e pre­cipitadas, a mudar só por mudar, e especialmente à ideia de que nada ocorrido antes da conversão e nada além da religião tem valor para Deus.

Agora vamos deixar a Escritura e voltar-nos para a história, ver o que ensinaram os reformadores e os puri­tanos. Os reformadores insistiram em que todo cristão, seja homem ou mulher, tem um “chamado” divino. Eles esta­vam reagindo ao ensino do catolicismo medieval, de que os bispos, padres, monges e freiras tinham um chamado superior, por ser “religioso”. Isso os reformadores rejei­taram, por considerá-lo “clericalismo” (separação entre clero e leigos) e “dualismo” (separar atividades “sagra­das”, como a oração, de atividades “seculares”, como governar uma casa ou trabalhar para viver). Eles afirma­vam que Deus se interessa pelo todo da nossa vida, e que ser fazendeiro, artesão, magistrado ou dona de casa era um chamado tão divino quanto ser “padre” ou “pastor”. Lutero insistiu muito nisso:

Aqueles que agora são chamados “espirituais”, isto é, padres, bispos ou papas, não são, nem diferentes dos outros cristãos, nem superiores a eles; só que eles estão encarregados da palavra de Deus e dos sacramentos, que é o seu trabalho e ofício.

Mas “as costureiras, os sapateiros, os pedreiros e car­pinteiros, os cozinheiros, hoteleiros, fazendeiros e todos os trabalhadores seculares” também foram “consagrados” como sacerdotes, cada um para “o trabalho e o ofício que lhe cabe”.

Além disso, todos devem se beneficiar e servir aos outros através do seu próprio trabalho ou profissão, de maneira que muitos tipos de trabalho possam ser feitos para o bem-estar corporal e espiritual da comunidade, assim como todos os membros do corpo servem uns aos outros (1 Coríntios 12.14-26).

E, mais adiante: “servir a Deus não se restringe a um ou dois trabalhos, nem se resume a um ou dois chamados, mas está presente em todos os trabalhos e todos os cha­mados”. “Mas o que eu quero fazer é estabelecer uma distinção entre os chamados e as profissões, a fim de que todo mundo possa ver para que Deus o chamou e cumprir com fidelidade e sinceridade os deveres de seu ofício no serviço de Deus.”

O que Calvino ensinou foi muito semelhante:

O Senhor ordena a cada um de nós, em todos os afazeres da vida, que zele pelo seu chamado… Portanto, para que a nossa estupidez e precipitação não acabe virando tudo de cabeça para baixo, ele designou deveres para todo homem, cada um em sua maneira particular de viver. E para que ninguém venha a transgredir impensadamen­te os seus limites, ele deu a esses vários tipos de vida o nome de “chamados”. Portanto, cada indivíduo tem sua própria forma de viver designada pelo Senhor, como uma espécie de posto de sentinela, a fim de que ele não fique vagando sem rumo pela vida… E vem daí também uma singular consolação: desde que, em nosso trabalho, estejamos obedecendo ao nosso chamado, nenhuma tarefa é vil ou desprezível, e não há trabalho que não vá brilhar e ser considerado deveras precioso aos olhos de Deus.

Os puritanos desenvolveram ainda mais este tema. Por exemplo, William Perkins, que exerceu um influente mi­nistério em Cambridge, escreveu o Tratado das Vocações ou Chamados dos Homens, publicado em 1603. Eis aqui uma amostra de sua tese:

O que um pastor de ovelhas faz ao cuidar de seu rebanho… é um trabalho tão bom diante de Deus quanto a ação de um juiz ao pronunciar uma sentença, ou de um magistrado ao fazer um decreto, ou de ministro ao pregar. Assim, pois, vemos que existe uma boa razão para procurarmos descobrir como todo homem pode desen­volver da maneira correta o seu chamado específico.

Um século mais tarde, e no outro lado do Atlântico, Cotton Mather, o puritano de Harvard, escreveu O Cristão e Seu Chamado (A Christian at his Calling, 1701). Segundo ele, todo cristão tem dois chamados — “um chamado universal” (“servir ao Senhor Jesus Cristo…”) e “um chamado pessoal”(“um trabalho específico mediante o qual se distingue a sua utilidade em comunidade”).

Além do mais, os dois chamados deveriam manter-se em equilíbrio, pois “um cristão em seus dois chamados é um homem em uma canoa remando para o céu… Se ele só se preocupar com um dos seus chamados, qualquer que seja ele, estará puxando o remo em um dos lados da canoa e acabará ficando à margem da bem-aventurança eterna.” É muito fácil criticar este tipo de ensinamento. Os reformadores e os puritanos eram pessoas do seu tempo e sua cultura, tanto quanto nós. Eles tinham uma visão estática e medieval da sociedade. Em sua reação contra as implicâncias revolucionárias de certos ensinos anabatistas, eles tendiam a resistir demais a mudanças. Às vezes a posição deles nos lembra a embaraçosa estrofe do conhecido hino:

O rico em seu castelo,

O pobre em seu portão, Deus fê-los nobre ou humilde,

Cada um em sua condição.

Nós certamente não deveríamos usar o que a Bíblia ensina acerca dos “chamados” para fazer resistência a mudanças sociais.

Paulo no primeiro século, os reformadores no século XVI c os puritanos no século XVII, todos parecem muito dis­tantes de nós. Mas, então, qual é o princípio em que devemos nos firmar hoje e que foi ensinado por Paulo e resgatado pelos reformadores e os puritanos? Acho que é o seguinte. Toda a nossa vida, tanto anterior à conversão como fora da religião, pertence a Deus e faz parte do seu chamado. Nós não devemos pensar que Deus só passou a se interessar por nós depois que nos convertemos, ou que agora ele só está interessado no cantinho religioso das nossas vidas.

Consideremos a nossa vida antes da conversão. Qual era o nosso chamado, a vida   que vivíamos quando Deus nos chamou? Se na ocasião da nossa conversão nós estávamos tomando conta de parentes idosos, não deveríamos abandoná-los agora. Se éramos estudantes, não temos o direito de abdicar de nossos estudos e abandonar o colégio ou a universidade. Se havíamos feito um acordo com al­guém, não temos o direito de rompê-lo. Se, quando Deus nos chamou, nós éramos músicos, artistas, atletas ou intelectuais, não devemos agora repudiar essas boas coisas que o bom Criador nos deu. Afinal, elas não eram aspectos acidentais da nossa vida. Elas eram parte integrante da providência de Deus, para a qual ele nos havia chamado e que ele havia designado para nós. A soberania de Deus abrange as duas partes da nossa vida. Ele não começou a agir em nós e através de nós a partir da nossa conversão, mas em nosso nascimento e mesmo antes de nascermos, em nossa herança genética, da mesma forma que mais tarde passaria a atuar em nosso temperamento, personalidade, educação e habilidades. E o que Deus fez de nós e nos deu antes de nos tornarmos cristãos, ele redime, santifica e transforma depois disso. Existe uma continuidade vital entre a nossa vida antes e depois de convertidos. Afinal de contas, embora sejamos hoje uma nova pessoa em Cristo, nós ainda somos a mesma pessoa que éramos por criação e que se fez nova em Cristo.

Agora vejamos a nossa vida fora da religião. O Deus que muitos de nós adoramos é religioso demais. Aparentemen­te, nós achamos que ele só se interessa por livros, edifícios e cerimônias religiosas. Mas não é bem assim. Ele se preocupa conosco, nosso lar, nossa família e amigos, nosso trabalho e lazer, nossa cidadania e comunidade. Assim a soberania de Deus estende-se a ambos os lados e a todas as áreas da nossa vida. Nós não devemos marginalizar Deus, ou tentar espremê-lo para fora da nossa vida não religiosa. Lembremos que a nossa vocação (i.e. o chamado de Deus) inclui todas estas coisas. É nelas que vamos servir e glorificar a Deus.

MINISTÉRIO

Se queremos saber para onde Deus vai nos levar (direção) e para que ele vai nos chamar (vocação), podemos ter certeza de que isto tem relação com a melhor maneira em que podemos servi-lo (ministério). Além do mais, tal como vimos com as palavras “direção” e “vocação”, também ao considerar a palavra “ministério” é preciso fazer uma distinção entre o seu significado mais amplo e o outro, mais limitado, entre a sua aplicação num sentido geral e o mais específico. Eis aqui três afirmações acerca do ministério.

Primeiro, todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrarou melhor, para gastar suas vidas em minis­tério. Ministério não é um privilégio de uma pequena elite, mas de todos os discípulos de Jesus. Você com certeza notou que eu não disse que todos os cristãos são chamados para o ministério, mas para ministrar — diakonia, serviço. Nós fazemos um grande desserviço à causa cristã sempre que nos referimos ao pastorado como “o ministério”. Ao usar­mos o artigo definido, damos a impressão de que o pastorado é o único ministério que existe, tal como os clérigos me­dievais, que consideravam o sacerdócio como a única (ou, pelo menos, o mais “espiritual”) vocação que existe. Eu abandonei esta visão e, portanto, esta linguagem, há cerca de vinte e cinco anos, e agora convido os meus leitores, caso necessário, a juntarem-se a mim nesta penitência. Hoje, sempre que alguém diz em minha presença que “Fulano de Tal vai seguir o ministério”, eu sempre pergunto com a maior inocência: “E mesmo? A qual ministério você está se referindo?” E quando meu interlocutor replica: “O mi­nistério pastoral”, eu reclamo gentilmente: “Então por que você não disse logo?!” O fato é que a palavra “ministério” é um termo genérico; enquanto não lhe acrescentarmos um adjetivo, ela não terá especificidade.

Voltemos à minha primeira proposição, de que todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrar. Como é que eu posso fazer uma declaração tão dogmática? Por causa de Jesus Cristo. Seu senhorio sobre nós tem uma dimensão vocacional, como vimos no capítulo 5. Já que ele é “o servo” por excelência, aquele que se doou sem reservas para o serviço de Deus e dos seres humanos, seria impos­sível ser seu discípulo sem procurar seguir seu exemplo de serviço. Ele pregou o reino, curou os doentes, alimentou os famintos, foi amigo dos que não tinham amigos, defendeu os oprimidos, confortou os enlutados, procurou os perdidos e lavou os pés dos apóstolos. Nenhuma tarefa era pesada demais e nenhum ministério desprezível demais para ele. Ele viveu sua vida e morreu sua morte em serviço inten­samente abnegado. E nós, não vamos imitá-lo? O mundo mede a grandeza pelo sucesso; Jesus a mede pelo serviço.

Em segundo lugar, existe uma ampla variedade de mi­nistérios cristãos. É por isso que “ministério” significa “serviço”, e há muitas e diferentes maneiras pelas quais nós podemos servir a Deus e às pessoas. Atos 6.1-4 provê uma sólida base bíblica para esta convicção. Uma dissensão étnica e cultural estava dividindo a igreja de Jerusalém. Os “judeus gregos” reclamavam contra os “judeus hebreus”, dizendo que suas viúvas estavam sendo discriminadas na distribuição diária da comida. E aí os apóstolos acabaram se envolvendo nessa briga; ela estava ocupando uma grande parte do seu tempo e ameaçava desviá-los do seu papel de pregar e ensinar, o qual lhes havia sido designado por Jesus. Assim eles, sabiamente, convocaram uma reunião da igreja e disseram: “Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir [diakonein] às mesas.” Então eles pediram à igreja que escolhesse sete homens para essa responsabilidade, enquanto que, acrescentaram os apósto­los, “quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério [diakonia] da palavra”.

É essencial notar que, tanto para distribuir a comida como para ensinar a palavra, o termo usado aqui é “mi­nistério” (diakonia). Na verdade, ambos eram ministérios cristãos, podendo ser ministério cristão de tempo integral, e ambos requeriam, para desempenhá-los, pessoas cheias do Espírito Santo. A única diferença é que uma atividade era ministério pastoral, e a outra, social. Não ocorre que uma fosse ministério e a outra, não; nem que uma fosse espiritual e a outra, secular; nem que uma fosse superior e a outra, inferior. Ocorria simplesmente que Cristo havia chamado os doze para o ministério da palavra e os sete pura o ministério das mesas.

Eu mesmo, na qualidade de jovem cristão, cresci pensando nas diferentes vocações ou ministérios como se constituíssem uma hierarquia ou pirâmide. Lá em cima, empoleirado no topo da pirâmide, estava o missionário transcultural. Ele era o nosso herói, e ela, a nossa heroína. Ensinaram-me que se eu amasse a Cristo de verdade eu acabaria juntando-me às suas fileiras além-mar. Caso eu não fosse tão apaixonado assim, ficaria em casa e viraria pastor. E se a minha aspiração nem chegasse a tanto, eu provavelmente seria um doutor ou professor, enquanto que, se decidisse entrar no mundo dos negócios, política ou comunicações, eu não estaria muito longe de me perder! Por favor, ninguém me leve a mal. Ser pastor ou missio­nário é um privilégio maravilhoso, se Deus nos chama para isso. Mas é igualmente maravilhoso ser um advogado, industrial, político, gerente ou assistente social, ser um filmador, um jornalista ou uma dona de casa cristã, se Deus nos chama para isso. Conforme Romanos 13.4, um oficial de estado (seja ele um legislador, magistrado ou policial) é tão “ministro de Deus” (diakonos theou) quanto um pastor. O que precisamos rejeitar é a hierarquia; é a pirâmide que temos de demolir.

Obviamente, ainda existe uma premente necessidade de missionários autênticos, homens e mulheres que se carac­terizem sobretudo pela humildade — por exemplo, a humil­dade de abdicar do imperialismo cultural e identificar-se com outra cultura, a humildade de trabalhar sob a lide­rança de uma igreja nacional, a humildade de servir às necessidades que o próprio povo sente (sejam elas sociais ou evangelísticas) e a humildade de confiar no Espírito Santo como o seu principal comunicador. A evangelização continua no topo da agenda da igreja; aliás, a quinta seção deste livro é dedicada a isso. Há também uma grande necessidade de pastores para ensinar a Palavra de Deus. Os capítulos 13 e 17 tratarão deste ministério.

Ao mesmo tempo, é gritante a necessidade de cristãos, tanto homens como mulheres, que vejam o seu trabalho diário como seu ministério cristão prioritário e que estejam decididos a impregnar o seu contexto secular a fim de ganhá-lo para Cristo.

Precisamos de cristãos envolvidos em negócios e na indústria, que priorizem o “serviço ao público” como o alvo principal de sua declaração “missionária”, que sejam ousados em fazer experiências nas áreas de relações de trabalho, participação dos trabalhadores e divisão de lucros, e que admitam a sua responsabilidade de, juntamente com a auditoria fiscal, realizar também uma “auditoria social” na sua empresa.

Precisamos de políticos cristãos que identifiquem as grandes injustiças de sua sociedade, recusando-se a ser coniventes com elas, e que tenham como objetivo assegurar mudanças legislativas seguras, por mais tempo que isso lhes custe.

Precisamos de economistas cristãos que encontrem uma maneira de controlar a inflação e ao mesmo tempo reduzir o desemprego.

Precisam-se cineastas cristãos que produzam, não ape­nas filmes explicitamente cristãos ou evangelísticos, mas também filmes saudáveis que, indiretamente, transmitam valores cristãos individuais e familiares, honrando e glo­rificando, assim, o nome de Cristo.

Precisamos de mais médicos cristãos que, em cooperação com teólogos da moralidade, encarem os desafios da ética médica e desenvolvam formas de conservar a visão da pessoa humana e da família humana que é característica única do cristianismo.

Precisam-se professores cristãos dedicados que, tanto nas escolas cristãs como nas seculares, considerem como privilégio servir aos seus alunos, ajudando-os a desenvol­verem plenamente o potencial que Deus lhes deu.

E precisamos de mais assistentes sociais cristãos que, em sua preocupação com os deficientes da mente e do corpo, crianças vítimas de abuso, drogados, vítimas da AIDS e outros, combinem os mais recentes tratamentos médicos e o cuidado social com o amor cristão, a oração de fé e o apoio da igreja.

Em terceiro lugar, o ministério específico para o qual (Cristo nos chama é provavelmente determinado pelos nossos dons. Ou seja, o principal fator na decisão quanto ao trabalho da nossa vida é, provavelmente, que tipo de pessoa somos nós, a partir da criação e redenção de Deus. Deus não cria ao acaso; ele não nos deu dons naturais para serem desperdiçados. Deus não é, tampouco, um redentor aciden­tal, para nos conceder dons que vão ser desperdiçados. Pelo contrário, ele quer que os dons que nos deu sejam discernidos, cultivados e exercitados. Ele certamente não nos quer frustrados (pelo fato de os nossos dons ficarem ociosos), mas sim realizados (porque estamos usando os nossos dons).

Eu acho perfeitamente compatível com as nossas dou­trinas cristãs da criação e da redenção nós dizermos a nós mesmos: “Eu sou uma pessoa única. (Isto não é con­vencimento. É um fato. Se cada floco de neve e cada folhinha de grama não tem paralelo, quanto mais cada ser humano!) Minha unicidade deve-se à minha herança genética, minha personalidade e ao temperamento que herdei, minha ascendência (meus pais), minha formação e educação, meus talentos, inclinações e interesses, meu novo nascimento e meus dons espirituais. Pela graça de Deus eu sou quem sou. Portanto, como é que eu, sendo essa pessoa única como Deus me criou, posso me gastar no serviço de Cristo e do seu povo, de forma tal que nada que ele me deu seja des­perdiçado e tudo que ele me deu seja aproveitado?”

Pode ser que haja exceções a este princípio, mas esta me parece ser a pergunta certa que cada um de nós deve fazer a si mesmo. E assim, ao tentarmos avaliar-nos com ho­nestidade, não com orgulho nem com falsa modéstia, nossos pais e os amigos que mais nos conhecem são os que mais chance têm de nos ajudar.

Todas as três palavras que acabamos de considerar (direção, vocação e ministério) têm a ver com a vontade de Deus para as nossas vidas e como descobri-la. Concluindo, deixe-me antecipar dois temores que meus leitores podem estar sentindo, e tentar tranquilizá-los.

Primeiro, não há necessidade alguma de se temer a vontade de Deus, por medo de que ela seja difícil. Certos cristãos parece que imaginam que quanto maior a chance de alguma coisa ser desagradável, mais provável é que ela seja a vontade de Deus! Mas Deus não é um bicho-papão, sempre pronto para estragar as nossas vidas; ele é o nosso Pai, comprometido com o nosso bem-estar e decidido a nos dar apenas o que é para o nosso bem. “Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos”, disse Jesus, “quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas coisas aos que lhe pedirem?”. Nós podemos ter certeza de que a vontade de Deus é “boa, perfeita e agradável”.

Segundo, ninguém precisa temer que nunca descobrirá a vontade de Deus. Não temos razão alguma para preocupar-nos ou ficar nos queixando, ou para cairmos num estado de tensão nervosa ou passarmos noites em claro devido à ansiedade. Parece muito estranho, mas uma das lembranças mais antigas da minha infância, quando eu não devia ter mais que seis ou sete anos, é a de minha mãe entrando no meu quarto para dizer boa-noite. Eu sempre a incomodava com a mesma pergunta angustiada: “Mamãe, o que eu vou ser quando eu crescer?” Ela sempre me respondia que eu não precisava me preocupar, pois quando chegasse a hora eu iria saber. E agora, mais de sessenta anos depois, com a sabedoria adquirida pelo tempo, eu sei que ela estava certa e que todas aquelas apreensões infantis eram desnecessárias. Nós temos toda razão para confiar que a vontade do nosso Pai é boa e que se pode descobri-la. Ele tem meios e maneiras de nos mostrar o que ele quer que façamos. A principal condição é que nós mesmos quei­ramos, cora sinceridade, discernir a sua vontade, a fim de realizá-la.

 

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

MENTE E EMOÇÕES

O discipulado cristão abrange toda a nossa persona­lidade humana. Devemos amar o Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, alma, entendimento e for­ça. Nossa mente deve ser renovada e nossas emoções purificadas, nossa consciência deve estar sempre limpa e nossa vontade submissa à vontade de Deus. Uma das exigências do discipulado é que tudo o que conhecemos sobre nós mesmos esteja comprometido com tudo aquilo que nós conhecemos acerca de Deus. Mas, dentre os vários elementos de que se constitui o nosso ser humano, o que mais ocupa os autores bíblicos é a nossa mente e as nossas emoções. Por isso vamos considerar cada um separadamen­te, e depois os dois em relação um com o outro.

A MENTE

Conta-se que duas mulheres estavam conversando no su­permercado do bairro e uma disse à outra: “O que é que há com você? Parece tão preocupada!”

“E estou mesmo”, respondeu sua amiga; “não paro de pensar na situação do mundo.”

“Bem”, disse a primeira senhora, “é melhor você levar as coisas mais filosoficamente… e pare de pensar!”

É realmente engraçada essa ideia de que a maneira de se tornar “mais filosófico” é pensar menos. Mas estas duas senhoras estavam refletindo o espírito anti-intelectual mo­derno, que produz pessoas que desistiram de pensar.

Essa tendência deve ser confrontada com a advertência do apóstolo Paulo: “Irmãos, não pensem como crianças.

Quanto ao mal sejam crianças, mas no modo de pensar sejam adultos”. Note-se que ele começa exatamente com as palavras usadas por uma das mulheres do supermercado: “Pare de pensar”. Só que ele continua: “…como crianças”. É verdade que Jesus nos disse para nos tornarmos como crianças; mas com isso ele não estava dizendo que preci­samos imitar as crianças em tudo. Da mesma forma, Paulo nos exorta a sermos crianças — de fato, “infantes” ou “bebês” — no mal (quanto menos sofisticados formos em relação ao mal, melhor); mas em nossa maneira de pensar, acrescenta ele, temos de crescer, tornar-nos maduros. Toda a revelação bíblica está por detrás do apelo de Paulo.

Primeiro, o uso responsável da nossa mente glorifica o nosso Criador. Afinal, ele é (entre outras coisas) um Deus racional, que nos criou, à sua própria imagem, seres racionais e nos deu, por nossa natureza e nas Escrituras, uma revelação dupla e racional, e espera que usemos nossas mentes para explorar o que ele revelou. Toda pesquisa científica é baseada nas seguintes convicções: o universo é um sistema inteligível e até significativo; existe uma correspondência fundamental entre a mente do pesquisa­dor e os dados a serem investigados; essa correspondência é a racionalidade. Por isso “um cientista que se defronta com uma aparente irracionalidade não a aceita como definitiva… Ele continua tentando encontrar alguma for­ma racional pela qual os fatos possam ser relacionados uns com os outros… Sem essa ardente confiança na suprema racionalidade do mundo, a ciência iria estagnar e mor­rer…”. Portanto, não é por acaso que os pioneiros da revolução científica eram cristãos. Eles acreditavam que o Deus racional havia gravado sobre o mundo e sobre eles o selo da sua racionalidade. Desta forma os cientistas, quer saibam, quer não, estão “pensando pensamentos de Deus, assim como ele”, como expressou no século XVII o astrônomo alemão Johannes Kepler.

Quem estuda a Bíblia de forma consciente também está “pensando pensamentos de Deus, assim como ele”, pois, na Escritura, Deus nos deu uma revelação ainda mais clara e completa de si mesmo. Ele “falou” conosco, comunicando através de palavras os seus pensamentos. Em particular, ele nos revelou seu amor por pecadores como nós e o plano que tinha de salvar-nos através de Jesus Cristo.

Portanto, se Deus fez de nós pessoas racionais, porventura iremos negar este aspecto essencial da nossa criação? Se ele se deu ao trabalho de revelar-se a nós, será que vamos negar sua revelação? De maneira nenhuma. Usar apropria­damente a nossa mente não é nem abdicar da nossa res­ponsabilidade e ir para a cama, nem proclamar a autonomia do raciocínio humano (como fizeram os líderes do Ilu­minismo), colocando sob julgamento os dados da revelação divina, mas, sim, assentar-nos humildemente em submis­são a eles, estudando-os, interpretando-os, sintetizando-os e aplicando-os. Somente assim poderemos glorificar o nosso Criador.

Em segundo lugar, o uso responsável da nossa mente enriquece a nossa vida cristã. Não estou pensando agora em educação, cultura ou arte, que enriquecem e dão qua­lidade à vida humana, mas sim em nosso discipulado, do qual nenhuma parte é possível se sufocarmos a nossa mente. “Rememorando a minha experiência como pastor durante uns trinta e quatro anos”, escreveu Martyn Lloyd-Jones, “posso testemunhar sem a menor hesitação que as pessoas que eu mais encontrei com problemas na sua experiência espiritual foram aquelas que não tinham entendimento. Estas coisas não podem ser divorciadas uma da outra. Quando não se tem um verdadeiro enten­dimento, tudo dá errado, tanto na vida prática como na experiência.”

Deixem-me ilustrar isto em relação à fé. É impressio­nante como muitas pessoas pensam que fé e razão são incompatíveis. Mas estas nunca se contradizem na Escritura. Fé e vista são contrastadas, mas não fé e razão. Fé, conforme as Escrituras, não é nem credulidade, nem superstição, nem “uma crença ilógica na ocorrência do improvável”, mas uma tranquila e atenta confiança no Deus que se sabe ser digno de confiança. Consideremos Isaías 26.3-4:

Tu, Senhor,

conservarás em perfeita paz

aquele cujo propósito é firme;

porque ele confia em ti. Confiai no Senhor perpetuamente,

porque o Senhor Deus é uma rocha eterna.

Nestes versículos, confiar no Senhor e deixar que a mente descanse firmemente nele são sinónimos; a razão de se con­fiar nele é que ele é uma rocha firme; e o galardão da fé é a paz. Somente refletindo na imutabilidade de Deus é que a nossa fé cresce. E quanto mais nos damos conta de que ele é imutável, tanto mais firme se torna a nossa fé.

Ou então consideremos a nossa necessidade de receber orientação divina. Muita gente pensa que a orientação divina é uma alternativa para o pensamento humano, ou mesmo um artifício muito conveniente, pois lhes poupa o incómodo de pensar. Elas esperam que Deus vá refletir na tela do seu interior respostas para suas perguntas e so­luções para os seus problemas, sem levar em conta o raciocínio delas. E Deus, é claro, tem toda liberdade para fazer isso; e talvez ele até o faça uma vez ou outra. Mas a Escritura nos dá o respaldo para insistirmos que a maneira normal de Deus nos guiar é racional e não irra­cional, ou seja, exatamente através dos processos de pen­samento que ele criou em nós.

O Salmo 32 deixa isso muito claro. O versículo 8 contém uma maravilhosa promessa de orientação divina, que se poderia desdobrar em três aspectos:  “Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho.” Mas como Deus irá cumprir sua promessa? O versículo 9 continua: “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obede­cem.” Se colocarmos lado a lado a promessa e a proibição, o que Deus está nos dizendo é: “Eu prometo que irei guiá-lo, mostrando-lhe o caminho a seguir. Mas não espere que eu o guie como se faz com os cavalos e as mulas (isto é, pela força e não pela inteligência), pelo simples fato de que você não é um cavalo e nem uma mula. Eles não têm ‘entendimento’; mas você tem. Na verdade, eu mesmo lhe dei o precioso dom do entendimento. Use-o! Então eu o guiarei por intermédio de   seu entendimento.”

Em terceiro lugar, o uso responsável da nossa mente fortalece o nosso testemunho evangelístico. Quanto do evangelismo moderno é uma violação às emoções e à vontade, sem a mínima consideração pela mente! Mas o nosso apelo evangelístico nunca deveria pressupor que as pessoas vão interromper, e muito menos anular, o seu raciocínio. É verdade que o evangelho espera de nós uma mente humilde, mas ele também requer que tenhamos uma mente aberta à verdade de Deus.

É assim que Deus age, e a prática dos apóstolos deixa isso muito claro. Vimos, no capítulo 3, que em Corinto Paulo renunciou à sabedoria do mundo e à retórica dos gregos; mas do conteúdo doutrinário da sua pregação e da apresentação de argumentos ele não abriu mão. Ali mesmo em Corinto, Lucas o retrata “arrazoando” com as pessoas e tentando “persuadi-las”, enquanto que em Éfeso ele “discorria” e debatia diariamente em uma escola se­cular durante dois anos. É verdade que a sua confiança estava no Espírito Santo. Mas, sendo o Espírito de ver­dade, o Espírito Santo conduz as pessoas à fé em Cristo por meio das evidências e não a despeito destas. Em nossos dias, é urgentemente necessário que se inclua a apologética em nossa evangelização; ou seja, tanto quanto proclamar o evangelho, nós temos que defendê-lo. Em toda a nossa evangelização nós precisamos ser capazes de declarar, como Paulo fez para Festo: “Digo palavras de verdade e de bom senso”. Além disso, Deus com certeza está cha­mando alguns homens e mulheres em nossa geração, tal como o fez no passado, a fim de dedicarem seu intelecto dado por Deus para a tarefa de “defender e confirmar o evangelho”.

Precisamos, portanto, arrepender-nos desse culto à es­tupidez, bem como de qualquer resquício de anti-intelectualismo ou de preguiça intelectual que porventura tenhamos alimentado. Estas coisas são negativas, limi­tadoras e destrutivas. Elas insultam a Deus, nos empobre­cem e enfraquecem nosso testemunho. O uso responsável de nossas mentes, por outro lado, glorifica a Deus, nos enriquece e fortalece nosso testemunho no mundo.

Necessitamos, no entanto, duas qualificações, pois há dois “ismos” que, se não permanecermos alertas, poderão resultar dessa ênfase na mente.

São eles o elitismo e o intelectualismo. O elitismo, neste contexto, limitaria o pensamento cristão a uma pequena minoria de pessoas educadas na universidade. Daria a impressão de que apenas um grupo seleto e mesmo exclu­sivo de cabeças pensantes seria capaz de usar a mente. Mas esta é uma idéia bizarra, que devemos combater com toda veemência. É verdade que os cristãos foram os pioneiros da educação, e seu desejo é que todo mundo tenha a melhor educação possível, a fim de desenvolver ao máximo o seu potencial. Entretanto, a educação formal não é fator in­dispensável para o desenvolvimento do pensamento cris­tão. Todos os seres humanos foram criados seres racionais à imagem de Deus e têm a capacidade de aprender a pensar. Há alguns anos, eu estava falando a um grupo de clérigos em Liverpool e disse alguma coisa quanto a usar a nossa mente dada por Deus. Assim que acabei de falar, alguém se levantou e reagiu, dizendo que eu estava limitando o cristianismo aos intelectuais e excluindo as classes ope­rárias, entre as quais ele trabalhava. Eu nem precisei replicar, pois na mesma hora vários obreiros que traba­lhavam em bairros pobres se ergueram, furiosos. “Você está insultando as classes trabalhadoras”, disseram ao homem que havia falado. “Os operários podem não ter tido tanta educação formal quanto você, mas eles são tão inteligentes e tão capazes de pensar quanto você!” Nossa tarefa, portanto, é incentivar todo o povo de Deus a pensar, e não desenvolver uma elite intelectual.

O segundo perigo é o intelectualismo, ou o encorajamento de um cristianismo que seja por demais “cerebral” e muito pouco “visceral”. Isto é: um cristianismo que fique só no cérebro, mas que não chegue às entranhas, um cristianismo sem sentimentos. Contudo, para incentivar uma pessoa a usar o seu raciocínio não é necessário exortá-la a suprimir os seus sentimentos. Eu sempre digo aos nossos alunos do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, em Londres, que a nossa função ali não é “criar girinos”. O girino é uma criatura pequenina com uma cabeça enorme — e nada mais além disso. Certamente existe por aí um bom número de “cristãos-girinos”. Suas cabeças estão explodindo de pura teologia, mas isso é tudo que eles têm. Nada disso. Nós queremos ajudar as pessoas a desenvolverem não apenas uma mente cristã, mas também um coração cristão, um espírito cristão, uma consciência cristã e uma vontade cristã — ou seja, a tornarem-se cristãos integrais, pessoas totalmente integradas, sob o senhorio de Cristo. E isto inclui suas emoções.

O livro O Escolhido, de Chaim Potok, e o filme nele baseado ilustram muito bem isso. E a história de dois jovens judeus que se criaram no Brooklin, Nova York, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. O pai de Danny Saunders era um rígido rabi hasídico, enquanto que o pai de Malter era um escritor, pertencente à tradição liberal judaica. Na amizade dos dois meninos estas duas tradições entraram em conflito. A pessoa do Rabi Saunders nos impressiona durante quase todo o livro, porque, embora seja uma pessoa muito humana, ele nunca fala com Danny, a não ser quando está lhe ensinando coisas do Talmude. Pelo contrário, ele mantém entre’ eles um “estranho silên­cio”. Só quase no final é que se explica o mistério. O Rabi Saunders diz que Deus o abençoou com um filho brilhante, “um menino com uma mente que é uma jóia”. Quando Danny tinha apenas quatro anos, seu pai viu-o lendo um livro; e ficou assustado, pois ele o “devorava”. O livro descrevia os sofrimentos de um pobre judeu, mas mesmo assim Danny se deliciava com a leitura! “Não havia alma alguma em meu Danielzinho de quatro anos, mas apenas a sua mente. Ele era uma mente num corpo sem alma!” Então o rabi clamou a Deus: “O que fizeste comigo? Será que eu preciso de uma mente dessas para ser meu filho? Eu preciso de um coração como filho, uma alma como filho, compaixão…, justiça, misericórdia, força para sofrer e su­portar a dor. É isso que eu quero do meu filho, e não uma mente sem alma!” E então o Rabi Saunders seguiu uma antiga tradição hasídica e criou o seu filho em silêncio. Assim, “no silêncio entre nós dois, ele começou a ouvir o clamor do mundo.” Na cena final de reconciliação entre pai e filho, o rabi diz que Danny havia aprendido “através da sabedoria e da dor do silêncio, que uma mente sem coração não vale nada”.

AS EMOÇÕES

Meus leitores provavelmente nem suspeitam que eu seja uma pessoa emotiva. Pois é. Eu sou um daqueles cavalhei­ros ingleses frios e distantes, descendente de nórdicos durões e de rudes anglo-saxões, sem nenhum traço de calor celta ou latino em meu sangue. Com tal ascendência, já era de se esperar que eu fosse um sujeito tímido, reservado e de nariz empinado. Além disso, fui educado em uma escola inglesa muito elitizada cuja filosofia era “aguenta firme”. Isto é, já que uma tremidinha no lábio superior é o primeiro sinal visível de emoção, a tradição era endurecê-lo. Ensi­naram-me as virtudes dignas de um homem — coragem, força e autodisciplina — e me advertiram que, sempre que por algum acaso eu sentisse alguma emoção, nunca deveria deixar transparecer. Chorar era estritamente para mulhe­res e apenas para crianças, nunca para homens.

Mas aí eu fui apresentado a Jesus Cristo. Para minha surpresa, descobri que Deus, cuja “impassibilidade”, se­gundo eu pensava, significava que ele era incapaz de qualquer emoção, fala (se bem que em termos humanos) de sua ira ardente e do seu amor vulnerável. Descobri também que Jesus de Nazaré, o perfeito ser humano, não era um “machão durão”, um asceta sem emoções. Pelo contrário, li que ele expulsou os hipócritas com raiva, que ele olhou para um jovem líder rico e o amou, que tanto podia regozijar-se em espírito como suar gotas de sangue em agonia espiritual, vivia se compadecendo das pessoas e até rompeu em lágri­mas duas vezes em público.

Com todas estas evidências, é óbvio que nossas emoções não são para serem reprimidas, já que elas têm um lugar essencial em nossa natureza humana e, portanto, em nosso discipulado cristão.

Primeiro, há lugar para a emoção na experiência espi­ritual. Como já vimos, o Espírito Santo é o Espírito da verdade. Mas seu ministério não se restringe a iluminar nossas mentes e ensinar-nos acerca de Cristo. Ele também derrama o amor de Deus em nossos corações. De igual forma, ele testifica com o nosso espírito que nós somos filhos de Deus, levando-nos a dizer “Aba, Pai” e a excla­mar com gratidão: “Vede que grande amor nos tem con­cedido o Pai a ponto de sermos chamados filhos de Deus”.  Além disso, embora ainda não tenhamos visto a Cristo, apesar disso nós o amamos e confiamos nele, e assim “exultamos com alegria indizível e cheia de glória”.

Naturalmente, existem experiências espirituais de muitos tipos e nós não devemos tentar estereotipá-las, insistindo para que todo mundo vivencie exatamente a mesma expe­riência. Apesar disso, todos os cristãos, pelo menos de vez em quando, têm sentimentos, tanto de profunda tristeza como de profundo gozo. Por um lado, nós “gememos em nosso íntimo” em solidariedade com a criação caída, sen­tindo o peso da nossa própria queda e ansiando por nossa redenção final. Por outro lado, exultando no Senhor, transbordamos de gratidão pelo grande amor com que ele nos amou.

Segundo, existe lugar para a emoção na adoração pú­blica. Hebreus 12.22-24 diz que quando nos reunimos para adorar não estamos apenas “indo à igreja”, ou seja, a um edifício. Nós já temos, diz o autor, “chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial”. Chegamos “a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus”. Chegamos “a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aper­feiçoados, e a Jesus, o Mediador da Nova Aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel.” O reconhecimento desta dimensão cósmi­ca dá nova forma ao nosso culto. Pode ser que em certos domingos só tenham vindo à igreja umas poucas pessoas, e isso um grupinho bastante heterogéneo. Mas então nos lembramos de que estamos “na presença do Deus Todo-poderoso e de todo o exército dos céus”. E ao participar­mos da ceia nós declaramos que nos reunimos aos “anjos e arcanjos, com todo o exército dos céus” para adorar o glorioso nome de Deus. Isto quer dizer que somos trans­portados para além de nós mesmos, passando a uma rea­lidade eterna e invisível. Ficamos profundamente emo­cionados com as glórias de que falamos e cantamos, e nos prostramos diante de Deus em humilde e jubilosa adoração.

Terceiro, a emoção tem seu lugar na pregação do evan­gelho. O apóstolo Paulo usava seu raciocício, como já vimos. Ele acreditava na verdade de sua mensagem. De­dicava tempo e trabalho para defender, expor, argumentar e proclamar a mensagem em sua plenitude. Mas sua ex­planação de todo o plano de Deus nunca foi fria ou árida. Pelo contrário, ele escreveu que Deus “nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso inter­médio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis corri Deus.” Paulo não se contentava em simplesmente apresentar o evangelho: ele ia mais adiante, implorando às pessoas que o aceitassem. A essa exposição sistemática ele acrescentava um veemente apelo pessoal. E muitas vezes, acrescenta ele, sua proclamação foi acompanhada de lágrimas.

Certos pregadores são impecáveis, tanto em sua doutrina como na eloquência. Mas nunca aprenderam a se debruçar sobre o púlpito com lágrimas nos olhos, rogando às pessoas que se reconciliem com Deus. Outros se deixam entusias­mar em delírio arrebatador, implorando por uma decisão, mas nunca fazem uma exposição detalhada e convincente do evangelho. Por que polarizar? É a combinação entre verdade e lágrimas, entre mente e emoção, razão e paixão, exposição e apelo, que faz o pregador de verdade. Afinal, “O que é pregar?” pergunta Lloyd-Jones, e passa a respon­der a sua própria pergunta. “Lógica em chamas! Razão eloquente! Serão as duas contraditórias? E claro que não. A razão concernente a esta Verdade deveria ser podero­samente eloquente… Pregação é teologia transmitida por um homem que está em chamas.”

Quarto, há lugar para emoção no ministério pastoral e social. Aqui, como em todas as coisas, o próprio Jesus é o nosso modelo perfeito. Vamos visualizá-lo no túmulo de Lázaro, face a face com a realidade da morte. Conforme as Escrituras, a morte é uma intromissão estranha no bom mundo de Deus e não faz parte, nem do seu propósito original, nem do seu propósito final. A Bíblia chama a morte de “inimigo” — na verdade, ele é “o último inimigo a ser destruído”. E então, como é que Jesus reage ao ser confrontado com esse arqui-inimigo de Deus e de toda a raça humana? Surpreendentemente, ele reagiu com duas vio­lentas emoções.

Primeiro, ele ficou indignado e com raiva. Em João 11.33 e 38 lemos que ele “ficou muito perturbado” (NTV), “ficou muito triste e comovido” (BLH), “agitou-se no espírito e comoveu-se” (ERAB). O verbo grego enebrimesato (v. 33) significa “resfolegar, bufar”; literalmente, a palavra é usada com referência a cavalos e metaforicamente para indignação. C. K. Barrett, em seu comentário sobre João 11, escreve: “Não se discute que embrimasthai implica raiva.” B. B. Warfield vai ainda mais longe: “O que João nos diz… é que, ao aproximar-se da sepultura de Lázaro, o estado de Jesus não era o de tristeza incontrolável, mas de fúria irreprimível.” Por quê? Porque ele viu “a maldade da morte, sua anormalidade, sua ‘violenta tirania’, como diz Calvino.” “Ele consume-se de cólera contra o opressor dos homens… Fica tomado de fúria; todo o seu ser é trans­tornado e perturbado… É a morte que é o objeto de sua ira e, por detrás da morte, aquele que tem o poder da morte e aquele que veio ao mundo para destruir.”

Depois lemos sobre uma segunda reação emocional de Jesus, a saber, tristeza e compaixão. Em sete diferentes ocasiões nos Evangelhos Jesus “moveu-se de compaixão” — por exemplo, com relação às multidões famintas e sem lideranças, a viúva de Naim, os sofredores de lepra e um mendigo cego. E em João 11 nós lemos que “Jesus chorou” (versículo 35) — agora, não mais lágrimas de ódio diante da morte, mas lágrimas de simpatia pelas irmãs enlutadas. Não é bonito ver Jesus, ao ser confrontado com a morte e o luto, comover-se tão profundamente? Ele sentiu indig­nação diante da morte e compaixão pelas vítimas desta. Primeiro, ele “bufou de raiva” (versículo 33) e depois ele “chorou” (versículo 35).

Eu, pessoalmente, gostaria de ver mais indignação cristã para com o mal no mundo e mais compaixão cristã pelas vítimas do mal. Pense na injustiça social e na tirania política, no impiedoso assassinato de fetos humanos dentro do ventre, como se eles não passassem de meros pedaços de carne, ou na maldade e cinismo dos vendedores de droga e dos produtores de pornografia, que fazem fortuna explo­rando a fraqueza das pessoas e à custa da ruína delas. Se estes e muitos outros males são odiosos para Deus, por que o seu povo não se revolta contra eles? E as vítimas do mal — os pobres, os famintos e os desabrigados, os meninos de rua abandonados pelos pais, as crianças que não nasceram ainda, mas cujas vidas já são ameaçadas por causa de uma sociedade egoísta, os prisioneiros torturados pela consciência, bem como os alienados e perdidos que nunca ouviram falar do evangelho? Onde está a compaixão de Jesus, que se expressa em ação prática em favor daqueles que sofrem?

Eu não sei até onde vai a confissão cristã de Bob Geldof; mas sua consciência e preocupação social são de causar vergonha a muitos de nós, cristãos. O que terá acontecido para transformar o “miserável cantor popular irlandês” em “Santo Bob”, o herói cult que alertou o mundo para o holocausto de fome na África? Assistindo às notícias da televisão sobre a fome na Etiópia, no final de 1984, ele passou pelo que se poderia chamar de “uma conversão secular”. As pessoas que ele via na tela da sua televisão estavam “tão murchas e encolhidas de fome que pareciam seres de outro planeta”. “Eu fiquei enojado, enfurecido e injuriado”, disse ele; “mais do que tudo isso, porém, senti uma profunda vergonha.” Foi desta experiência que surgiram o Band Aid, o Live Aid e outras iniciativas que levantaram milhões e milhões de dólares. O que o levou a fazer isso? Foi uma combinação de “compaixão com repugnância”.

MENTE E EMOÇÕES

Até aqui nós consideramos nosso intelecto e nossas emo­ções, separadamente, e vimos que ambos desempenham um papel indispensável em nosso discipulado cristão. Como cristãos, nós não devemos ser, nem tão emocionais que nunca cheguemos a pensar, nem tão intelectuais que nunca consigamos sentir. Deus nos fez seres humanos, e um ser humano é, por criação, tanto racional como emocional.

Mas, como é que se estabelece a relação entre a nossa mente e as nossas emoções? Existem duas relações espe­cíficas que são enfatizadas pelas Escrituras, e nas quais é a mente que exerce o papel principal. Mas elas são também complementares, no sentido de que a primeira é negativa, e a segunda, positiva.

Primeiro, e no sentido negativo, a mente controla as emo­ções, ou pelo menos deveria fazê-lo. Sempre houve quem defendesse a expressão livre e irrestrita das emoções hu­manas. Baco, por exemplo, que os gregos chamavam de Dionísio, era cultuado em orgias de vinho, dança e sexo. Em nossos dias, o freudianismo popular, que ainda não captou inteiramente o que Freud queria dizer com “repres­são”, tem ensinado o perigo de reprimir as nossas emoções. E certas formas de existencialismo reforçam essas ideias dizendo que a nossa verdadeira autenticidade reside em sermos nós mesmos e em nos expressarmos como tal.

Mas os cristãos não podem deixar-se guiar por tais ensi­namentos, dando livre curso a suas emoções, pois todo o nosso ser humano foi corrompido e deturpado pelo pecado original — inclusive as nossas emoções. Elas são ambíguas porque nós somos ambíguos. Algumas são boas, mas outras são más, e precisamos aprender a distinguir umas das outras.

A ira, por exemplo. A advertência “Irai-vos, e não pequeis” admite que há dois tipos diferentes de ira. Existe a ira justa, como a que Deus mesmo sente em relação ao mal, e existe a ira injusta, pecaminosa (contaminada pelo orgulho, a inveja, a malícia, o despeito e a vingança), que é uma das “obras da carne”. Assim, quando surgem dentro de nós sentimentos de ira, seria uma grande insensatez dar vazão a eles sem nenhuma crítica. Ao invés disso, deve­ríamos dizer a nós mesmos: “Espere aí! Que raiva é essa que está começando a arder dentro de mim? E uma ira santa ou é pecaminosa? É ira contra o mal ou não passa de vaidade ferida?”

Ou então o amor. O que deveríamos dizer a um homem casado que confessa ter-se apaixonado por outra mulher, que ele não conseguiu evitar, que este, sim, é “amor de verdade” e que ele precisa divorciar-se da esposa? Acho que teríamos de dizer: “Espere aí! Você não é uma vítima indefesa de suas emoções. O compromisso que você fez com sua esposa foi para a vida toda. Você deve (e pode) tirar essa outra mulher da sua cabeça!”

Nestes dois exemplos, um relacionado à ira e outro ao amor, há um reconhecimento de que ambas as emoções podem ser deturpadas pelo egoísmo e que nunca devería­mos ceder a nenhuma delas sem primeiro examinarmos a nós mesmos. Em ambos os casos, a mente tem de ser crítica em relação às emoções.

Em segundo lugar, e agora em sentido positivo, a mente estimula as emoções. Só quando nós refletimos na verdade é que o nosso coração “arde”, como aconteceu com os discípulos de Emaús na tarde do Domingo de Páscoa. Durante a sua caminhada, o Senhor ressuscitado juntou-se a eles e explicou-lhes, a partir das Escrituras, como o Messias tinha de sofrer antes de entrar em sua glória. Mais tarde, depois que ele os havia deixado, eles disseram uns aos outros: “Não nos   ardia   o coração, quando ele pelo caminho nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” Este “arder íntimo” do coração é uma profunda experiên­cia emocional; a primeira chama, porém, foi o ensina­mento bíblico de Jesus que acendeu. Não existe “fogo” que “acenda” tanto o nosso coração como enxergar a verdade. Como diz F. W. Faber, “o melhor combustível para a devoção é uma teologia profunda; ele pega fogo na hora e, uma vez acesa a chama, continua queimando durante muito tempo.”

Outro exemplo é a conhecida declaração de Paulo, de que “Cristo nos constrange”. Literalmente, ele nos “encantoa” ou “não nos deixa escolha”, de forma que a nossa vida tem quer ser vivida para ele. Mas como é que o amor de Cristo nos constrange ou nos impulsiona? Será que ele nos deixa transbordando de emoção aos pés da cruz? Sim e não! Sim, no sentido de que não podemos contemplar a cruz sem nos emocionarmos com ela. Mas, não, se pensamos que a nossa mente não desempenha papel algum nesse processo. O que Paulo escreve é que “o amor de Cristo nos constrange” a partir do nosso julgamento (“julgando nós isto”). É através de certas convicções que o amor de Cristo aperta o cerco em volta de nós. Em suma, é porque recebemos a nossa vida do Cristo crucificado e ressurreto, que nos apercebe­mos de que devemos viver para ele. É quando refletimos sobre esta lógica que as brasas do amor dentro de nós se transformam em chamas.

Só mais um exemplo. Na área da responsabilidade social, é essencial que nós não somente pensemos com clareza, mas também que sintamos com profundidade. E preciso haver frieza na análise da injustiça, contanto que isso leve a uma ardente ira e à ação.

Assim, é importante que a nossa mente e as nossas emoções permaneçam juntas, permitindo à mente controlar e esti­mular as nossas emoções. Penso que foi Handley Moule que, no final do século passado, deu este excelente conselho: “Acautelem-se, de igual maneira, de uma teologia sem devoção (i.e., mente sem coração) e de uma devoção sem teologia (i.e., coração sem mente).”

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O OUVIDO ATENTO

Um dos ingredientes mais importantes — e mais negligenciados — do discipulado cristão é o cultivo de um ouvido atento. Quem ouve mal não é um bom discípulo. O apóstolo Tiago deixou isso muito claro. Nós conhecemos muito bem o texto que ele escreveu a respeito da língua, “mal incontido, carregado de veneno mortífe­ro”. Quanto ao ouvido, porém, ele não tem nenhuma crítica parecida. Ele nos exorta a não falarmos demais, mas parece insinuar que ouvir nunca é demais. Eis aqui sua exortação:

Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus.

Que órgão impressionante Deus criou ao fazer o ouvido humano! Em comparação com ele, disse alguém, o mais sofisticado dos computadores é “tão primitivo quanto um misturador de concreto”. Naturalmente, o que nós geral­mente chamamos de ouvido é apenas o ouvido externo, aquela saliência de carne que temos no lado da cabeça e que vem em uma variedade de formas e tamanhos. A partir dela sai um canal de três centímetros que vai dar no tímpano, atrás do qual se encontra o ouvido médio, onde os três ossinhos mais miúdos do corpo (popularmente conhecidos como bigorna, martelo e estribo) amplificam o som vinte e duas vezes, passando-o então para o ouvido interno, onde então ocorre o verdadeiro ouvir. Seu principal componente é um tubo em forma de caracol, chamado cóclea. Ele contém milhares de células microscópicas, semelhantes a um fio de cabelo, sendo que cada uma delas é sintonizada com uma vibração específica. Então as vi­brações são convertidas em impulsos elétricos, que trans­mitem o som até o cérebro para serem decodificados ao longo de 30.000 circuitos do nervo auditivo, o suficiente para alimentar o serviço telefônico de uma cidade de tamanho considerável. O ouvido humano já foi festejado, e com razão, como “o triunfo da miniaturização”.

Quando se pensa em quão versátil e sensível é esse órgão que Deus fez, é mil vezes lamentável que não o utilizemos de maneira mais adequada, desenvolvendo melhor a nossa capacidade de ouvir. Não estou pensando apenas em música, no canto dos pássaros ou nas vozes dos animais, mas também no valor que tem a conversação para os nossos relaciona­mentos. Surdez involuntária é uma deficiência lamentável; surdez deliberada é ao mesmo tempo um pecado e uma insensatez.

Este é um dos principais temas do filme Birdy, de Alan Parker, baseado na novela de William Wharton. Sua de­claração-chave parece ser o fato quase definitivo de que “ninguém mais ouve a mais ninguém”. O filme descreve a amizade de Al e Birdy, dois adolescentes da Filadélfia, a qual desabrocha a despeito da estranha obsessão de Birdy pelo vôo dos passarinhos. Arrastados para o Vietnã, ambos são atingidos. Al tem de submeter-se a uma cirurgia na face desfigurada, enquanto que Birdy, afetado psicologica­mente, recolhe-se a um silêncio impenetrável e é enviado para um hospital de doentes mentais. Em sua cela, ele se encolhe como um pássaro engaiolado e vive olhando para cima, fitando a janela cheia de grades, sonhando com a possibilidade de fugir. Sofrendo as cruéis consequências da guerra, os dois homens necessitam urgentemente do apoio um do outro; no entanto, não podem se comunicar.

Finalmente, porém, ocorre a cura e sua amizade é restau­rada. Porém o pano de fundo é um mundo hostil, em que as pessoas perderam o contato umas com as outras — uma mãe desnaturada, uma namorada incompreensível, uma guerra sangrenta e insensível e um psicoterapeuta que não tem a mínima sensibilidade nem compaixão. Agora Al e Birdy conseguem ouvir um ao outro, mas eles parecem ser as exceções em um mundo onde “ninguém mais ouve mais ninguém”.

O apelo que Tiago nos faz, para que sejamos “rápidos para ouvir”, não é um apelo fácil de atender. Muitos de nós somos faladores compulsivos, especialmente os prega­dores! Nós preferimos falar a ouvir, dar informações voluntárias ao invés de confessar nossa ignorância, cri­ticar em vez de receber críticas. Mas, quem sou eu para ficar dizendo tais coisas? Eu mesmo tenho sido, nesta área, um ofensor tão grande quanto qualquer outra pessoa. Vou compartilhar aqui uma experiência de cerca de vinte e cinco anos atrás, que acabou sendo uma lição para mim. Era segunda-feira de manhã em Londres; a equipe de trabalho de Ali Souls, minha igreja, se havia reunido para a reunião semanal, e eu era o responsável. Os outros estavam falando sobre alguma coisa que particularmente não me interes­sava (nem me lembro mais do que se tratava), e eu lamento dizer que simplesmente “desliguei”. De repente, Ted Schroder, que naquela época bem poderia ser descrito, sem nenhuma injustiça, como “um jovem e impetuoso colono da Nova Zelândia”, e que hoje é um amigo íntimo e muito querido, explodiu, sem rodeios: “John, você não está ou­vindo!” Eu enrubesci. Ele tinha toda razão; e é insupor­tavelmente mal educado não escutar quando alguém está falando. Além disso, as tensões que vinham aflorando nos relacionamentos da nossa equipe de trabalho naquela ocasião eram devidas, em grande parte, ao fato de eu não escutar. Assim, eu me arrependi, e desde então tenho orado muitas vezes por graça para ser melhor ouvinte.

A quem, pois, eu devo escutar? Primeiramente e acima de tudo, devo dar ouvidos a Deus.

Ouvindo a Deus

Uma das verdades que mais distinguem o Deus da revelação bíblica é que ele é um Deus que fala. Ao contrário dos ídolos pagãos – que, sendo mortos, são mudos – o Deus vivo falou e continua falando. Eles têm boca, mas não falam; ele não tem boca (porque é espírito) mas, mesmo assim, fala. E, já que Deus fala, nós devemos ouvir. Este é um tema constante no Antigo Testamento, em todas as três das suas divisões principais. Na Lei, por exemplo: “…aman­do ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à sua voz”. E nos escritos da Sabedoria: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!” Existem também muitos exemplos nos Profetas. Em que residia a “dureza de coração” da qual Deus vivia reclaman­do para Jeremias? Era porque o povo “se recusa a ouvir as minhas palavras”.” O trágico nesta situação é que o que fazia de Israel um povo especial, diferente, era precisa­mente o fato de Deus tê-lo chamado e falado com ele. Mesmo assim, ele não ouvia nem respondia. O resultado foi juízo: “Visto que eu clamei e eles não me ouviram, eles também clamaram e eu não os ouvi”. Quase se poderia dizer que a epígrafe gravada na lápide da nação seria: “O Senhor Deus falou ao seu povo, mas ele recusou-se a ouvir”. Por isso Deus enviou seu Filho, dizendo: “Eles ouvirão ao meu Filho”. Mas, ao invés disso, eles o mataram.

Ainda hoje Deus fala, se bem que há certas discordâncias na igreja quanto à forma como ele o faz. Eu mesmo não creio que ele fale conosco hoje em dia de maneira direta e audível, como fez, por exemplo, com Abraão, com o menino Samuel ou com Saulo de Tarso no caminho de Damasco. Nem poderíamos garantir que ele se dirige a nós “face a face, como um homem fala com seu amigo”, já que esta relação íntima que Deus manteve com Moisés é especificamente relatada como tendo sido única.   Para falar a verdade, as ovelhas de Cristo conhecem a voz do Bom Pastor e o seguem, pois isto é essencial para o nosso discipulado; mas em nenhum lugar nos é prometido que essa voz será audível.

Mas, então, como é que Deus falou diretamente através dos profetas? Nós certamente deveríamos rejeitar qualquer afirmação de que existam hoje profetas comparáveis aos profetas bíblicos. Pois eles eram a “boca” de Deus, instru­mentos especiais de revelação, e seu ensinamento faz parte do alicerce sobre o qual está construída a igreja. Pode até ser, no entanto, que haja algum tipo secundário de dom profético, como quando Deus dá a certas pessoas uma percepção especial quanto à sua Palavra e seu querer. Mas não deveríamos atribuir infalibilidade a tais comunica­ções. Pelo contrário, deveríamos avaliar tanto o caráter como a mensagem daqueles que dizem falar da parte de Deus.

A principal maneira pela qual Deus nos fala hoje é através da Escritura, como o tem reconhecido a Igreja geração após geração. As palavras que Deus falou através dos autores bíblicos e que ele providenciou para que fossem escritas e preservadas não são uma letra morta. Um dos principais ministérios do Espírito Santo é tornar a Palavra escrita de Deus “viva e eficaz” e “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”. Portanto, nunca deve­mos separar a Palavra do Espírito ou o Espírito da Palavra, pela simples razão de ser a Palavra de Deus “a espada do Espírito”, a principal arma usada por ele para realizar seu propósito na vida de seu povo. E essa confiança que nos capacita a pensar nas Escrituras tanto como texto escrito quanto como mensagem viva. Por isso é que Jesus podia perguntar: “O que está escrito?”ou “Vocês nunca leram?”, enquanto que Paulo indagava: “O que dizem as Escrituras?”, quase que personificando-as. Em outras palavras, a Escritura (que significa a Palavra escrita) tanto pode ser lida como ouvida, e o que ela diz é aquilo que Deus diz através dela. Através da sua antiga Palavra Deus se dirige ao mundo moderno. Ele fala através do que já falou uma vez.

E Deus nos convida a darmos ouvidos àquilo que, através da Escritura, “o Espírito diz às igrejas”. O problema é que ainda hoje, tal como nos dias do Antigo Testamento, as pessoas geralmente não ouvem, não podem ou não querem ouvir a Deus. A falta de comunicação entre Deus e nós ocorre, não porque Deus esteja morto ou calado, mas porque nós não estamos ouvindo. Se, durante um telefo­nema, o telefone fica mudo, nossa conclusão imediata não é que a pessoa do outro lado morreu. Pelo contrário: a ligação é que foi cortada.

O mesmo estado de “ser desligado de Deus” geralmente acontece conosco, como cristãos. Não é esta a principal causa da estagnação espiritual que às vezes experimenta­mos? Nós paramos, deixamos de ouvir a Deus. Talvez tenhamos deixado de ter um período diário de oração e leitura da Bíblia. Ou então, se continuamos a fazê-lo, talvez seja mais uma rotina do que uma realidade, pois já não temos aquela expectativa de que Deus nos fale. Neste caso, precisamos adotar a atitude de Samuel e dizer: “Fala, Senhor, pois o teu servo ouve”. Assim como o servo de Deus, deveríamos estar aptos para dizer: “Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que eu ouça como os eruditos”. Deveríamos imitar Maria de Betânía, que “quedava-se assentada aos pés do senhor a ouvir-lhe os ensinamentos”. Naturalmente, precisamos não apenas ser contemplativos, mas também ativos, trabalhar mas também orar, ser tão “martas” quanto “marias”. Mas não seria o caso de não permitirmos que a Marta que há em nós ceda lugar a Maria? Porventura não temos negligen­ciado aquilo que Jesus chama de “a melhor parte”?

Ouvindo uns aos outros

Nesta segunda esfera do ouvir, o princípio é claro: comunhão depende de comunicação. Somente quando falamos e ouvimos uns aos outros é que os nossos relacionamentos progridem e amadurecem, ao passo que quando paramos de ouvir um ao outro, eles desmoronam. Existe no livro de Provérbios uma forte ênfase na necessidade e valor de ouvirmos uns aos outros. Vejamos alguns exemplos: “O caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto, mas o sábio dá ouvido aos conselhos”; “Os ouvidos que atendem à repreensão salutar, no meio dos sábios têm a sua morada”; “O coração do entendido adquire o conhe­cimento, e o ouvido dos sábios procura o saber”. Eis aqui, pois, exortações a ouvir o conselho, a repreensão e a instrução, juntamente com a declaração de que aqueles que fazem isso são sábios. Além disso, essa necessidade de ouvir aplica-se a cada esfera da vida, desde o lar e o trabalho até o estado e a igreja.

Primeiro, ela se aplica ao lar. Embora eu me sinta quase tentado a desculpar-me por dizer algo tão tradicional, a verdade é que as crianças e os jovens precisam dar ouvidos aos seus pais. “Filho meu, ouve o ensino de teu pai, e não deixes a instrução de tua mãe.” Pois o fato é que os pais têm mais experiência — e, portanto, geralmente mais sa­bedoria — do que os seus filhos tendem a acreditar. Mark Twain teve a candura de admitir isso. “Quando eu era um menino de catorze anos”, disse ele, “meu pai era tão ig­norante que eu mal conseguia aguentar o velho por perto. Mas, quando cheguei aos vinte e um, fiquei impressionado com o tanto que ele havia aprendido em sete anos!”

Mas, se os filhos precisam ouvir os seus pais, os pais também precisam ser humildes o suficiente para ouvir os seus filhos — caso contrário, nunca irão compreender os problemas deles. Afinal de contas, o mundo em que os filhos estão crescendo é imensamente diferente do mundo da juventude dos seus pais. Somente com paciência e ouvir mútuo é que se pode construir a ponte entre as duas gerações.

E, depois, marido e esposa precisam ouvir um ao outro. Quase todo rompimento matrimonial é precedido de quebra de comunicação. Qualquer que seja a razão (negligência, fadiga, egocentrismo ou pressão dos negócios), marido e mulher já não tiram mais tempo para ouvir um ao outro. Assim, acabam se afastando e as incompreensões, suspei­tas, lamentações e ressentimentos vão aumentando, até que se torna tarde demais — se bem que, na verdade, nunca é tarde demais para se começar a ouvir novamente.

Em segundo lugar, ouvir é essencial no local de trabalho. Isto parece ser amplamente reconhecido, já que hoje a arte de ouvir é incluída nos livros e seminários sobre gerenciamento de negócios. Por exemplo, o americano Arthur Robertson, em seu livro A Linguagem do Ouvido Eficaz {The Language of Effective Listening), expressa a convicção de que “o pré-requisito número um para se ser bem-sucedido na vida pessoal e profissional é ouvir com eficácia”.

Ouvir é importante especialmente em situações de con­flito. Sempre que há uma questão trabalhística, é quase certo que ambos os lados têm um pouco de razão. Nenhum dos lados é totalmente egoísta ou totalmente louco. A essência da conciliação, portanto, está em persuadir cada um dos lados a ouvir o outro lado. Às vezes criam-se situações de surdez quase total e falta de compreensão de ambos os lados. Em vez de ouvir, as pessoas preferem gritar umas com as outras. Mas a reconciliação só é possível quando ambos os lados se dispõem a sentar juntos, deixar de lado os preconceitos e ouvir um ao outro.

Em terceiro lugar, o mesmo princípio aplica-se ao estado. Se democracia é governar com o consentimento do gover­nado, então este precisa ser ouvido. Caso contrário, não se pode dizer que deu o seu consentimento. Em 1864, um pouco antes do fim da Guerra Civil Americana e antes de o Congresso adotar a lei que aboliu a escravatura, Harriet Beecher Stowe entrevistou Abraham Lincoln e escreveu: “Cercado por toda sorte de reivindicações conflitivas, por traidores, por tímidos homens de corações divididos, por homens dos Estados das Fronteiras e homens dos Estados Livres, por abolicionistas e por conservadores radicais, Lincoln tem ouvido a todos eles, pesando as palavras de todos…”. Eu acho que a disposição para ouvir a todos os matizes de opinião é uma sine qua non para ser um es­tadista.

Em quarto lugar, aplica-se à igreja. A história da igreja tem se constituído num registro de controvérsias longo e deveras desanimador. Trata-se, na maioria das vezes, de questões teológicas importantes. Mas, com a mesma fre­quência, elas têm sido exacerbadas pela falta de capacidade ou disposição para ouvir. Eu mesmo tenho como princípio nunca meter-me em um debate teológico sem primeiro ouvir a outra pessoa ou ler o que ela escreveu — ou, de preferência, ambas as coisas. Alguns amigos evangelicais juntaram-se a mim para um encontro com John Robinson, após a publicação de Honesto com Deus (Honest to God), depois com cinco colaboradores de O Mito do Deus Encar­nado (The Myth of God Incarnate) após a publicação deste, e com David Jenkins, após as suas provocadoras declara­ções acerca da ressurreição. Naturalmente, não posso dizer que o desacordo foi superado por esse diálogo, mas pelo menos as divergências diminuíram e a nossa integridade foi preservada.

Isto acontece ainda mais no caso de debates evangélicos internos. Quando nos isolamos e o nosso único contato consiste em atirar granadas uns contra os outros através de uma zona neutra, cria-se em nossa mente uma imagem completinha do nosso “inimigo”, com patas, chifres e tudo! Mas quando nos encontramos, sentamos juntos e começa­mos a ouvir, não apenas se torna evidente que nossos opositores não são nenhum demónio, como também descobrimos que eles são seres humanos normais, e até mesmo nossos irmãos e irmãs em Cristo, e daí aumenta a possi­bilidade de compreensão e respeito mútuos. E ainda tem mais: quando, além do que os outros estão dizendo, nós ouvimos também aquilo que está por detrás do que eles dizem, e especialmente quando ouvimos o que é que eles tanto tentam salvaguardar, geralmente descobrimos que nós mesmos queremos defender a mesma coisa.

Eu não estou dizendo que essa disciplina é fácil. Longe disso. Ouvir com paciência e integridade ambos os lados de um argumento pode causar uma profunda dor mental, pois implica em interiorizar o debate até que se consiga, não só captar, mas também sentir a força de ambas as posições. Mas este é um outro aspecto do “ouvir duas vezes” para o qual estou apelando neste livro.

Quem sabe, Deus tenha confiado principalmente aos pastores esse ministério do ouvir. Bonhoeffer, perspicaz como sempre, escreveu a este respeito:

O primeiro serviço que se deve aos outros na comu­nhão consiste em ouvi-los. Assim como o amor a Deus começa com ouvir a sua Palavra, assim também o prin­cípio do amor aos irmãos é aprender a ouvi-los. É amor de Deus por nós que ele, além de dar-nos a sua Palavra, empresta-nos também o seu ouvido. Assim, quando apren­demos a ouvir o nosso irmão, é a obra de Deus que estamos fazendo. Com muita frequência os cristãos, especialmente os ministros, pensam que sempre têm que dizer alguma coisa quando estão em companhia dos outros, que este é o único serviço que podem prestar. Eles se esquecem de que ouvir pode ser um serviço bem maior do que falar…

O cuidado pastoral fraternal distingue-se essencial­mente do pregar pelo fato de que, acrescida à tarefa de falar a Palavra, existe a obrigação de ouvir. Existe um tipo de ouvir que só ouve pela metade, pois já pressupõe saber o que o outro tem a dizer. É um ouvir desatento, impaciente, que despreza o irmão e só está esperando uma chance para falar e assim livrar-se da outra pessoa. Isto não é cumprir a nossa obrigação…

Os cristãos se esqueceram de que o ministério do ouvir lhes foi confiado por aquele que é, ele mesmo, o grande ouvinte e de cuja obra eles deveriam participar. Nós deveríamos ouvir com os ouvidos de Deus e falar a Palavra de Deus.

Ouvindo o mundo

O mundo de hoje está repleto de clamores que refletem ira, frustração e sofrimento. Mas muitas vezes nós nos fazemos de surdos diante dessas vozes de angústia.

Primeiro, temos o sofrimento daqueles que nunca ou­viram o nome de Jesus, ou que, embora tenham ouvido falar nele, ainda não o aceitaram e, portanto, em sua alienação e perdição, estão sofrendo terrivelmente. Neste caso, o que costumamos fazer é sair correndo com o evangelho nas mãos, subir no nosso poleiro e vomitar a nossa mensagem, sem a mínima consideração para com a situação cultural ou as verdadeiras necessidades dessas pessoas. O resultado é que, com muito mais frequência do que gostaríamos de admitir, nós afastamos as pessoas e até mesmo aumenta­mos sua alienação, pois a forma como apresentamos a Cristo é insensível, desajeitada e até irrelevante. De fato, “responder antes de ouvir é estultícia e vergonha”.

A melhor coisa é ouvir antes de falar, procurar penetrar no mundo das idéias e pensamentos da outra pessoa, tentar descobrir quais são as suas possíveis objeções ao evangelho e então compartilhar com ela as boas novas de Jesus Cristo de uma maneira que fale às suas necessidades. Esta ativi­dade desafiadora, humilde e perspicaz é chamada, e com razão, de “contextualização”. Mas é essencial acrescentar que contextualizar o evangelho não é de maneira alguma manipulá-lo. A verdadeira evangelização precisa “ouvir duas vezes”, ouvir com sensibilidade, pois a testemunha cristã fica entre a Palavra e o mundo e está, consequentemente, na obrigação de ouvir a ambos. Nós ouvimos a Palavra a fim de descobrir mais e mais das riquezas de Cristo. E ouvimos o mundo a fim de discernir, dentre as riquezas de Cristo, quais são as mais necessitadas e como apresentá-las a ele da melhor maneira.

Isto mostra a natureza e o propósito do diálogo interconfessional. Diálogo não é nem um sinônimo nem um subs­tituto de evangelização. Diálogo é uma conversação séria na qual nós estamos dispostos a ouvir e aprender, assim como a falar e ensinar. É, pois, um exercício de integridade. “E uma atividade inata”, escreveu Max Warren. “É, na sua própria essência, uma tentativa de ‘ouvir’ mútuo, ouvir a fim de compreender. O seu galardão é a compreensão.” Além disso, Max Warren sabia de que ele estava falando, como nos diz em sua autobiografia:

A primeira lembrança que eu tenho é de uma luz treme­luzente e de minha mãe lendo para mim. Estou olhando para as chamas e ouvindo. Eu devia ter uns três ou quatro anos… Muito antes de saber ler, eu já estava aprendendo a ouvir, talvez a mais preciosa lição que já aprendi… E, além do mais, ler sempre foi para mim uma maneira de ouvir. Para mim, os livros sempre foram “pessoas”, nem tanto a pessoa do autor como o próprio livro falando, enquanto eu escuto.

Em segundo lugar, temos o sofrimento dos pobres e dos famintos, dos despossuídos e dos oprimidos. Muitos de nós só agora é que estão despertando para a obrigação que a Escritura sempre colocou sobre o povo de Deus, de pre­ocupar-se com a justiça social. Nós deveríamos ouvir com mais atenção os clamores e os suspiros daqueles que estão sofrendo. Quero compartilhar aqui um versículo bíblico que nós temos negligenciado e que, em se tratando deste assunto, quem sabe deveríamos destacar. Ele contém uma solene palavra de Deus para aqueles que, dentre o seu povo, carecem de consciência social. Encontra-se em Provérbios 21.13: “O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido.”

Fechar os ouvidos aos outros é um sinal evidente de desrespeito. Quando nos recusamos a ouvir alguém, estamos dizendo que não consideramos essa pessoa digna de ser ouvida. Mas só existe um que nós deveríamos recusar-nos a ouvir, pelo simples fato de que não vale a pena ouvi-lo — e este é o diabo, junto com seus emissários. A essência da sabedoria é ser um ouvinte que sabe discernir, distinguir e escolher cuidadosamente a quem ouvir. Deixar de fazer isso foi o erro dos nossos primeiros pais no Jardim do Éden. Ao invés de darem ouvidos à verdade de Deus, eles deram crédito às mentiras de Satanás. E quantas vezes nós somos loucos o suficiente para imitá-los!

Mas nós não deveríamos dar ouvidos à conversa do diabo, seja através de mentiras ou propaganda, calúnias ou fofocas, obcenidades ou insultos. “O prudente oculta a afronta.” O mesmo se aplica a cartas anônimas. Pode-se até ficar muito perturbado com elas, pois geralmente são grosseiras. Mas, por que levar a sério as críticas de um correspondente que não tem coragem de revelar sua identidade? Uma his­tória que bem ilustra isso é contada por Joseph Parker, que foi ministro em Londres no final do século passado. Ao subir ao alto púlpito numa manhã de domingo, uma senhora que estava na galeria atirou nele um pedaço de papel. Apanhan­do-o, ele viu que continha apenas uma palavra: “Imbecil!”. Dr. Parker comentou: “Já recebi muitas cartas anónimas em minha vida. Até aqui, elas sempre foram um texto sem assinatura. Hoje, pela primeira vez, eu recebi uma assina­tura sem texto!”

Se nos recusamos terminantemente a dar ouvidos a qual­quer coisa que seja falsa, injusta, descortês ou impura, de­veríamos ao mesmo tempo ouvir cuidadosamente instruções que contenham pontos de vista, interesses, problemas e preo­cupações de outras pessoas. Pois, como bem se diz: “Deus nos deu dois ouvidos, mas somente uma boca; portanto, é evidente que ele esperava que ouvíssemos o dobro do que falamos.”

Tirar tempo para ouvir a Deus e aos nossos semelhantes começa como um sinal de cortesia e respeito, continua como o caminho para a compreensão mútua e para o aprofunda­mento dos relacionamentos e, acima de tudo, é um autên­tico sinal de humildade e amor cristão. Portanto, queridas irmãs e irmãos, todo mundo deveria ser “pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”. Tiago 1.19

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

JESUS CRISTO É SENHOR

O evangelho dos apóstolos não se ateve ao fato e ao significado da cruz e da ressurreição, mas foi mais além, concentrando-se no seu propósito: “Foi pre­cisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor, tanto de mortos como de vivos”.

E fato conhecido que o mais primitivo, mais curto e mais simples de todos os credos cristãos era a afirmação “Jesus é Senhor”. Aqueles que reconheciam este senhorio eram batizados e recebidos na comunidade cristã. Afinal, como escreveu Paulo, sabia-se muito bem, por um lado, que: “Se com tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”; e, por outro lado, que “ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito de Deus”.

A primeira vista, pode parecer muito estranho que duas palavras gregas – Kyrios lesous “Senhor Jesus” (pois não existe nenhum verbo conectivo em nenhum dos versículos citados no parágrafo anterior) – pudessem servir como base satisfatória para se identificar e acolher alguém como cristão genuíno. Não seriam estas palavras terrivelmente inadequa­das? Ou, pior ainda, não seria isto um reducionismo teo­lógico?

A resposta a estas perguntas é “não”. Afinal de contas, as duas palavras em questão, que soam como uma confissão cristã mínima, são impregnadas de significado. Elas têm enormes implicações, tanto para a fé cristã como para a vida cristã. Elas expressam, primeiro, uma profunda con­vicção teológica acerca do Jesus histórico, e, segundo, um radical comprometimento pessoal com ele, como conse­quência disso. É esta convicção e este compromisso que eu proponho explorarmos neste capítulo.

Convicção teológica

Talvez a melhor forma de analisar as implicações doutri­nárias de se chamar Jesus de “Senhor” seja olhar nova­mente para Filipenses 2.9-11. Estes versículos constituem o clímax do que às vezes é chamado de carmen Christi,“o cântico de Cristo”. O que Paulo está citando é provavel­mente um hino cristão primitivo acerca de Cristo. E, ao fazê-lo, ele dá a esse cântico o seu imprimátur apostólico. Ele afirma que Cristo, embora compartilhasse da natureza de Deus e gozasse de igualdade com ele, mesmo assim esvaziou-se de sua glória e se humilhou para servir, tor­nando-se obediente a ponto de morrer numa cruz (versículos (5 a 8). E continua (versículos 9 a 11):

Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,

para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,

e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

Como um hino cristão, usado pela igreja e endossado pelo apóstolo, ele indica o que os cristãos primitivos pensavam de Jesus. Há aqui três pontos a destacar.

Primeiro, Paulo deu a Jesus um título divino. Isto é, referiu-se a ele como “Senhor”. É bem verdade que o termo kyrios era usado com diferentes significados, dependendo do contexto. Às vezes significava simplesmente “senhor”, como quando Maria Madalena pensou que o Jesus ressus­citado fosse o jardineiro e quando os sacerdotes pediram a Pilatos que o sepulcro fosse guardado com segurança.

Mas quando usado pelos discípulos em relação a Jesus, kyrios era mais do que uma forma educada de tratamento; era um título, como quando eles o chamavam de “o Senhor Jesus” ou “o Senhor Jesus Cristo”. Isto fica bem claro no contexto do Antigo Testamento.

Quando o Antigo Testamento veio a ser traduzido para o grego em Alexandria, cerca de 200 a.C, os devotos es­tudiosos judeus não sabiam como lidar com o nome sagrado Javé ou Jeová. Eles eram reticentes demais em pronunciá-lo; não sentiam liberdade para traduzi-lo ou mesmo para transliterá-lo. Portanto, eles colocavam em seu lugar a paráfrase ho kyrios (“o Senhor”), razão pela qual “Javé” ainda aparece, na maioria das versões, como “o Senhor”. (Aos amantes da numerologia bíblica talvez interesse saber que isto ocorre 6.156 vezes na Septuaginta. Pelo menos é o que já li em algum lugar; eu nunca tive vontade nem paciência para conferir…)

O que é realmente impressionante é que os seguidores de Jesus, sabendo que, pelo menos em círculos judaicos, ho kyrios era o título tradicionalmente dado a Javé, Criador do universo e o Deus da aliança de Israel, não tinham escrúpulos de aplicar o mesmo nome a Jesus, nem viam nenhum mal em fazê-lo. Era a mesma coisa que dizer que “Jesus é Deus”.

Segundo, Paulo transferiu para Jesus um texto divino. Em Isaías 45.23 Javé fizera um solilóquio:

Por mim mesmo tenho jurado;

da minha boca saiu o que é justo, e a minha palavra não tornará atrás.

Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua.

Agora Paulo (ou o autor do hino que ele está citando) tem a audácia de extrair este texto de Isaías e reaplicá-lo a Jesus. A implicação é inevitável. A honra que o profeta disse ser devida a Javé, o apóstolo diz ser devida a Cristo; além disso, era para ser universal, envolvendo “todo joelho” e “toda língua”.

Um exemplo similar é o uso que o Novo Testamento faz de Joel 2.32. O profeta havia escrito que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. No Dia de Pente­costes, porém, Pedro reaplicou esta promessa a Jesus, exortando seus ouvintes a crerem em Jesus e a serem balizados em seu nome. Da mesma forma, mais tarde, Paulo escreveu que o Senhor Jesus “é o Senhor de todos, rico para com todos que o invocam”, pois “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Assim, o poder salvador de Javé para com Israel tornou-se o poder salvador do Jesus, tanto para os crentes judeus como para os gentios.

Em terceiro lugar, Paulo reivindicou para Jesus uma adoração divina. Qualquer que seja a nossa interpretação sobre a confissão da língua de que ele é Senhor, o dobrar os joelhos é certamente um culto. Na verdade, no Novo Testamento a oração é, com frequência, dirigida a Jesus, especialmente quando Paulo relaciona “Deus, nosso Pai” com “nosso Senhor Jesus Cristo” como sendo, ao mesmo tempo, a fonte de graça e o objeto da petição. Convém lembrarmos também Hebreus 1.6: “E todos os anjos de Deus o adorem.” Nos documentos do Novo Testamento assume-se que graça brota de Cristo e que a ele são devidas a oração e a adoração. De fato, a cristolatria (adoração a Cristo) precedeu a cristologia (a doutrina desenvolvida de Cristo). Mas, se Cristo não é Deus, então cristolatria é idolatria, como Atanásio percebeu claramente no século IV ao ar­gumentar contra a heresia ariana que dizia ser Cristo um ser criado.

Eis aqui, portanto, três importantes dados contidos no hino cristão que Paulo estava citando: os cristãos primi­tivos deram a Jesus um título divino (“Senhor”), trans­feriram para ele textos divinos (concernentes à salvação que ele confere e à honra que ele merece) e lhe renderam culto divino (o dobrar dos joelhos). Estes fatos são indis­cutíveis e são ainda mais impressionantes por serem naturais e quase casuais.

Além disso, convém notar que os autores do Novo Tes­tamento nem argumentaram se era certo ou não identificar tão ousadamente Jesus como Deus, pois não havia neces­sidade alguma de o fazerem. Paulo defendeu, e com toda ousadia, o evangelho da justificação pela graça por meio da fé, porque ele estava sendo desafiado. Mas o senhorio divino de Jesus (a verdade de que “há um só Senhor, Jesus Cristo”), isso ele não debateu, o que deve significar que o assunto não estava em discussão. Assim, poucos anos depois da morte e ressurreição de Jesus, sua divindade já fazia parte da fé universal da igreja.

A confissão de que “Jesus é Senhor” tem uma segunda inferência teológica, a saber, que ele tanto é Salvador como é Deus. A tradição em alguns círculos evangélicos é distinguir claramente entre Jesus como Salvador e Jesus como Senhor, e até sugerir que a conversão implica em crer nele como Salvador, sem necessariamente submeter-se a ele como Senhor. A motivação para este ensinamento até que é boa, pois visa salvaguardar a verdade da justi­ficação somente pela fé, sem introduzir pela porta dos fundos a justiça pelas obras (obedecer a Cristo como Senhor). No entanto, esta posição é biblicamente indefensável. Jesus não só é “nosso Salvador e Senhor”, único e indivisível, como também seu senhorio implica sua salvação e, na verdade, a proclama. Ou seja, seu título de “Senhor” é um símbolo de sua vitória sobre todas as forças do mal, que foram postas debaixo de seus pés. O próprio fato de podermos ser salvos deve-se a esta vitória. E precisamente por ser Senhor que ele é capaz de ser Salvador. Não pode haver salvação sem senhorio. As duas afirmações, “Jesus é Senhor” e “Jesus salva”, são virtualmente sinônimos.

Compromisso radical

Conforme já vimos, a palavra kyrios podia ser usada sim­plesmente como uma designação respeitosa. Mas era mais comum empregá-la referindo-se a proprietários de terras ou de escravos. A posse trazia consigo o pleno controle e direito de disponibilidade. É com essa compreensão que Paulo, Pedro e Tiago começam suas cartas, designando-se a si mesmos “servo de Jesus Cristo”. Eles sabiam que ele os havia comprado à custa de seu próprio sangue, e que, por isso mesmo, pertenciam a ele e estavam inteiramente a seu serviço.

Este ser possuído pessoalmente por Cristo e estar pes­soalmente comprometido com ele vai impregnar cada parte da vida de seus discípulos. E tem pelo menos seis dimensões.

A primeira é a dimensão intelectual. Eu começo com a mente porque ela é a cidadela central da nossa persona­lidade e efetivamente governa nossas vidas. Apesar disso, ela é muitas vezes a última fortaleza a render-se ao senho­rio de Jesus. A verdade é que nós preferimos pensar nossos próprios pensamentos e ponderar nossas próprias opiniões; e se os dois entrarem em conflito com o ensino de Jesus, pior para ele!

Mas Jesus Cristo reivindica autoridade sobre nossas mentes. “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim”, disse ele. Seus ouvintes judeus o teriam compreendido imediatamente. Afinal, eles estavam acostumados a falar sobre o “jugo da Tora” (a lei), a cuja autoridade se sub­metiam. Agora Jesus falava de seu ensino como sendo um jugo. Seus seguidores tinham que tornar-se seus pupilos, seus discípulos, sujeitar-se a suas instruções, aprender com ele. Não precisavam ter medo disso, pois, por um lado, ele mesmo era “manso e humilde de coração”; e, por outro lado, o jugo era “suave” e sob sua leve disciplina eles encontrariam “descanso” para suas almas. Em outras palavras, o verdadeiro “descanso” reside em submeter-se ao jugo de Cristo (e não em resistir a ele). O apóstolo Paulo, posteriormente, iria escrever algo similar, ao ex­pressar sua decisão de “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo”.

Mas o cristão contemporâneo, na sua ânsia por reagir com sensibilidade aos desafios do mundo moderno, não pode, para tanto, tentar livrar-se da autoridade de Jesus Cristo a fim de fazê-lo. Um discípulo não tem a liberdade de discordar de seu divino mestre. O que nós cremos acerca de Deus e do ser humano, seja homem ou mulher, criado à sua imagem, ou sobre a vida e a morte, os deveres e o destino, a Escritura e a tradição, a salvação e o juízo, e muito mais ainda, tudo isso nós aprendemos com ele. Existe em nossos dias, tão cheios de especulações estranhas e loucas, uma urgente necessidade de retomarmos nossa posição correta aos pés de Cristo. “Só quem obedece sem reservas à ordem de Jesus”, escreveu Dietrich Bonhoeffer, “e submete-se sem resistências ao seu jugo, acha leve o seu fardo e sob sua doce pressão recebe o poder de perseverar no caminho certo. A ordem de Jesus é difícil, insuporta­velmente difícil, para quem tenta resistir a ela. Mas para quem se submete voluntariamente, o jugo é suave e o fardo é leve.”

Segundo, o compromisso radical com Jesus Cristo tem uma dimensão moral. Por todo lugar ao nosso redor os padrões morais estão desabando. As pessoas estão confu­sas, sem saber se ainda resta algum absoluto moral. O relativismo permeou o mundo e tem se infiltrado na igreja.

Até certos crentes evangélicos deturpam a Escritura no que se refere à lei. Eles citam as conhecidas declarações do apóstolo Paulo, de que “o fim da lei é Cristo” e “não estais debaixo da lei” e, fazendo vista grossa ao contexto, distorcem o seu sentido, dizendo que a lei já foi abolida, que nós já não temos mais a obrigação de obedecer a ela, mas somos livres para desobedecer-lhe. Mas o que Paulo quis dizer foi algo completamente diferente. Ele estava se referindo ao caminho da salvação, não ao caminho da santidade. Ele estava insistindo em que, para sermos aceitos por Deus, nós “não estamos sob a lei, mas debaixo da graça”, já que somos justificados somente pela fé e não por obras da lei. Mas nós ainda estamos sujeitos à lei moral no que tange à nossa santificação. Como Lutero sempre dizia, a lei nos conduz a Cristo para sermos justificados, mas Cristo nos manda de volta para a lei a fim de sermos santificados.

O apóstolo é bem específico quanto ao lugar da lei na vida cristã. Ele insiste em dizer que tanto a obra expiatória de Cristo como o fato de o Espírito habitar em nós têm em vista a nossa obediência à lei. Por que foi que Deus enviou seu Filho para morrer por nossos pecados? Respos­ta: “A fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que… andamos… segundo o Espírito”. E por que Deus colocou o seu Espírito em nossos corações? Resposta: a fim de escrever ali a sua lei. Portanto, a promessa de Deus encontrada no Antigo Testamento quanto à nova aliança poderia se expressar igualmente como: “Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas ins­creverei” e “Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei… que guardeis os meus juízos e os observeis”.

Portanto, Jesus nos conclama à obediência. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” A maneira de provarmos nosso amor por Cristo não é, nem fazendo altos protestos de lealdade, como Pedro, nem entoando cantilenas sentimentais na igreja, mas, sim, obedecendo aos seus mandamentos. A prova do amor é a obediência, disse ele, e o galardão do amor é o fato de Cristo revelar-se a nós.

Em terceiro lugar, o compromisso cristão tem uma dimensão vocacional. Isto significa que ele inclui nossa vida de trabalho. Dizer “Jesus é Senhor” nos compromete a servir a vida inteira. Nós não deveríamos hesitar em dizer que cada cristão é chamado a ministrar, ou melhor, dar a sua vida em ministério. Se para você isto parece uma declaração chocante demais, provavelmente é porque está pensando em “ministério” como sinônimo de ministério pastoral ordenado. Mas o que eu estou dizendo é que nós somos chamados a ministrar ou servir (diakonia) de al­guma forma. A razão por que se pode dizer isso é que nós somos seguidores de alguém que assumiu “a própria na­tureza de um servo”, que declarou que não tinha vindo “para ser servido, mas para servir” e acrescentou: “no meio de vós, eu sou como quem serve”. Portanto, se nós nos dizemos seguidores de Jesus, é inconcebível que gas­temos nossa vida de outra forma que não seja servindo. E isto significa que devemos ser capazes de ver nosso emprego ou profissão em termos de serviço. Nosso trabalho diário tem de ser uma esfera mais ampla em que Jesus exerça o seu senhorio sobre nós. Além do nosso empregador terreno, e por detrás deste, temos que ser capazes de en­xergar o nosso Senhor celestial. Então poderemos estar “trabalhando para o Senhor, e não para homens”, já que “a Cristo, o Senhor, é que estamos servindo”.

Em novembro de 1940 a cidade de Coventry foi devastada por um bombardeio aéreo, que destruiu inclusive sua ca­tedral do século XIV. Depois da guerra, as ruínas da velha catedral foram preservadas, construindo-se uma nova ao lado dela. Desde os tempos medievais havia, dispostas em volta das paredes da velha catedral, uma série de capelas corporativas (por exemplo, para os ferreiros, para os ven­dedores de tecidos, os cortineiros e os tintureiros) simbo­lizando a íntima ligação entre a igreja e o trabalho. Estas capelas foram destruídas, mas em seu lugar foram dispos­tos “santuários” ao redor das paredes em ruínas, expres­sando as implicações da oração “Santificado seja o teu nome”:

Na indústria, ó Deus, que estejas tu em minhas mãos e em meu fazer. Nas artes, Deus, que estejas tu em meus sentidos e em meu criar. No lar, ó Deus, que estejas tu em meu coração e em meu amar. No comércio, que estejas, Deus, no meu balcão e em meu vender. Na cura, ó Deus, que estejas tu em minha habilidade e em meu tocar. No governar, que estejas, Deus, nos planos e em meu decidir. Na educação, que estejas, Deus, em minha mente e em meu crescer. Na recreação, que estejas, Deus, em meus membros e em meu lazer.

Em quarto lugar, o senhorio de Cristo tem uma dimen­são social. Isto significa, em parte, que os seguidores de Jesus têm responsabilidades, tanto individuais como so­ciais — por exemplo, para com a família, a firma, a vizi­nhança, o país e o mundo. Porém significa muito mais que isso.

Em certo sentido, confessar “Jesus como Senhor” é reconhecê-lo como Senhor da sociedade, mesmo daquelas sociedades ou segmentos da sociedade que não reconhecem explicitamente o seu senhorio. Consideremos este dilema que o Novo Testamento coloca diante de nós. Por um lado, diz-nos que Jesus é Senhor. Ele destronou e desarmou os principados e potestades, triunfando sobre eles na cruz. Deus o exaltou à sua mão direita e colocou tudo debaixo de seus pés. Consequentemente, ele pode reivindicar para si toda autoridade. Por outro lado, nós continuamos lutando contra os principados e potestades das trevas. Eles podem ter sido derrotados e até privados de poder; mas continuam ativos, influentes e sem escrúpulos. O após­tolo João vai ainda mais longe ao declarar que “o mundo inteiro jaz no maligno”. De fato, este dilema está bem resumido no Salmo 110.1, que foi citado por Jesus e por vários autores do Novo Testamento: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés.” Dentro do compasso deste único versículo, o Messias é descrito como alguém que reina à mão direita de Deus e também como quem aguarda    a derrota de seus inimigos.

Como é que podemos conciliar estas duas perspectivas? Quem é Senhor: Jesus ou Satanás? Está Cristo reinando sobre seus inimigos, ou ele está esperando que se rendam? A única resposta possível para estas questões é “as duas coisas”. Temos que distinguir entre o que é de jure (por direito) e o que é de facto (de fato ou na realidade). De jure Jesus é Senhor, pois Deus o elevou ao lugar mais sublime. De facto, porém, é Satanás que reina, pois ainda não foi declarado derrotado nem foi destruído.

Como é que esta tensão afeta o nosso discipulado? Já que Jesus é Senhor por direito, isto é, por determinação divina, nós não podemos ser condescendentes em nenhuma situação que negue isso. Nós bem que gostaríamos que aquele que é Senhor fosse reconhecido como tal; esta é a nossa tarefa evangelística. Entretanto, mesmo em uma sociedade que não reconhece especificamente o seu senho­rio, ainda nos preocupa que os seus valores prevaleçam, que os povos de todas as raças e religiões tenham respei­tados os direitos e a dignidade humana, que mulheres e crianças sejam tratados com honra, que se garanta justiça para os oprimidos, que a sociedade se torne mais justa, compassiva, livre e serena. Por quê? Por que nos preocu­pamos com estas coisas? Porque Jesus é, por direito, o Senhor da sociedade, e porque ele se preocupa com elas. Isto não seria ressuscitar o velho “evangelho social” do liberalismo teológico, que cometeu o equívoco de confundir uma sociedade compassiva com o reino de Deus? Pelo contrário, é levar a sério a verdade de que Jesus é Senhor da sociedade e, portanto, tentar torná-la mais ao gosto dele.

Foi durante sua palestra inaugural na abertura da Uni­versidade Livre de Amsterdã, em 1880, que Abraham Kuyper, que mais tarde viria a tornar-se Primeiro Ministro da Holanda, disse: “Não existe uma única polegada de toda a área da vida humana sobre a qual Cristo, que é Soberano de tudo, não declare ‘É minha!'” De igual maneira, o Dr. David Gill, do New College, Berkeley, escreveu: “Jesus é Senhor, não só da vida íntima, da vida futura, da vida familiar e da vida da igreja, mas também da vida intelectual e política  —   tudo é seu domínio.”

Em quinto lugar, um compromisso radical com Cristo tem uma dimensão política. Não podemos esquecer que Jesus foi condenado tanto por uma ofensa política quanto por uma ofensa religiosa. Na corte judaica ele foi consi­derado culpado de blasfêmia, por ter chamado a si mesmo Filho de Deus, enquanto que na corte romana ele foi con­denado por sedição, por se haver declarado rei, e Roma não reconhecia outro rei além de César. Portanto, as reivin­dicações de Jesus tinham implicações políticas inevitáveis. Sua declaração de que nós temos que dar “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” pode ter sido deliberadamente enigmática. Mas ela certamente implica­va que existem áreas sobre as quais Deus é Senhor e nas quais César não deve se intrometer.

Os cristãos primitivos enfrentavam um constante con­flito entre Cristo e César. Durante o primeiro século, a megalomania dos imperadores era cada vez maior. Eles mandavam construir templos em sua própria honra e exigiam que seus súditos os reverenciassem como deuses. Estas exigências acabaram entrando em choque direto com o senhorio de Cristo, a quem os cristãos honravam como rei, ou melhor, como “o soberano dos reis da terra”. Plínio, que foi governador da Bitínia no século II, descreveu em uma carta para o Imperador Trajano como ele fazia trazer à sua presença na corte os cristãos que suspeitava serem desleais, e como libertava somente aqueles que “ofe­reciam invocação com vinho e incenso a vossa [sc. o Imperador] imagem”. Mas como é que os crentes podiam dizer “César é Senhor” se eles haviam confessado que “Jesus é Senhor”? Antes ir para a prisão e a morte do que negar o senhorio de Cristo!

A divinização do estado não acabou com o fim do Império Romano. Ainda hoje existem regimes totalitários que exi­gem de seus cidadãos uma lealdade incondicional, que os cristãos simplesmente não podem prestar. Os discípulos de Jesus devem respeitar o estado e, dentro dos limites, submeter-se a ele; nunca, porém, irão adorá-lo nem dar-lhe o apoio acrítico que ele exige. Por isso é que às vezes o discipulado implica em desobediência. Aliás, a desobe­diência civil é uma doutrina bíblica, e existem na Escritura uns quatro ou cinco exemplos notáveis disso. Ela nasce naturalmente da afirmação de que Jesus é Senhor. O princípio é claro, mesmo que sua aplicação possa envolver os crentes em agonias de consciência. É isso aí. Nós temos que nos submeter ao estado, pois sua autoridade provém de Deus e seus oficiais são ministros de Deus. Mas há um limite: quando a obediência ao estado implica em de­sobediência a Deus. Neste ponto nosso dever, como cris­tãos, é desobedecer ao estado a fim de obedecer a Deus. Pois, afinal de contas, se o estado abusa de sua autoridade dada por Deus e tem a presunção, seja de ordenar aquilo que Deus proíbe, seja de proibir aquilo que Deus ordena, nós precisamos dizer “não” ao estado a fim de dizer “sim” a Cristo. Como diz Pedro, “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens”. Ou, em palavras de Calvino, “obe­diência aos homens não deve transformar-se em desobe­diência a Deus”.

Vejamos um exemplo bem recente, da África do Sul. Em 1957, Hendrik Verwoerd, então Ministro dos Negócios Nacionais, anunciou um projeto de lei cuja “cláusula re­ferente à igreja” impediria qualquer associação racial em “igreja, escola, hospital, clube ou qualquer outra institui­ção ou lugar de lazer”. O arcebispo anglicano da Cidade do Cabo na época era um gentil académico chamado Geoffrey Clayton. Ele e seus companheiros de clero, embora com relutância e apreensão, resolveram desobedecer. Então ele escreveu ao Primeiro Ministro, dizendo que, se o projeto se transformasse em lei, ele seria “incapaz de obedecer-lhe ou de aconselhar nosso clero e pessoal a fazê-lo”. Na manhã seguinte ele morreu, talvez sob a dor e o sofrimento do desafio da desobediência civil. O projeto foi aprovado, de uma forma que não chegaria a prejudicar os líderes da igreja mas que iria penalizar os adoradores negros. Depois que se transformou em lei, foi lida em todas as igrejas anglicanas uma carta convocando tanto o povo como o clero a desobedecerem a ela.

Em sexto lugar, o compromisso com Cristo tem uma di­mensão global. Afirmar que “Jesus é Senhor” é reconhecer seu senhorio universal. Afinal, Deus o “exaltou sobrema­neira”, assim como nós deveríamos prestar-lhe hyperypso – uma palavra que não ocorre em nenhum outro lugar no Novo Testamento e que pode até ter sido cunhada por Paulo. Ela significa que Deus o elevou “à mais elevada das altu­ras”. E o propósito de Deus ao fazer isto foi que todo joelho se dobrasse e toda língua o confessasse como Senhor. Nós não temos liberdade alguma de impor qualquer limite à repetição da palavra “todo”. Portanto, se Deus deseja que todo o mundo reconheça a Jesus, este deve ser também o nosso desejo. Os hindus falam sobre “o Senhor Krishna” e os budistas do “Senhor Buda”, mas nós não podemos aceitar essas reivindicações. Só Jesus é Senhor. Ele não tem rivais.

Não existe incentivo maior para a missão mundial do que o senhorio de Jesus Cristo. Missão não é, nem uma inter­ferência impertinente na vida privada de outras pessoas, nem uma opção dispensável que pode ser rejeitada. Pelo contrário, missão é uma dedução inevitável do senhorio universal de Jesus Cristo.

A princípio a afirmação dessas duas palavras – Kyrios Iesous – parecia completamente inofensiva. Mas nós vimos que ela tem ramificações que vão muito longe. Além de expressar nossa convicção de que ele é Deus e Salvador, ela também indica nosso radical comprometimento com ele. Esse compromisso tem dimensões intelectuais (sub­meter nossas mentes ao jugo de Cristo), morais (aceitar seus padrões e obedecer às suas ordens), vocacionais (gas­tar nossas vidas em seu serviço libertador), sociais (pro­curar impregnar a sociedade com os seus valores) e globais (zelar pela honra e glória de seu nome).

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A VERDADEIRA LIBERDADE

Uma das melhores maneiras de compartilhar o evangelho com os homens e as mulheres de hoje é apresentá-lo em termos de liberdade. Existem pelo menos três argumentos que podem ser usados nessa abordagem.
Primeiro, a liberdade é um assunto extremamente atraente. A revolta mundial contra a autoridade, iniciada na década de sessenta, é vista como sinônimo de uma busca mundial por liberdade. Muita gente é obcecada com a liberdade e passa a vida inteira a persegui-la. Para alguns, é uma questão de libertação nacional, emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, trata-se de direitos civis, e assim protestam contra discriminação racial, religiosa ou étnica e exigem a proteção de opiniões das minorias. E ainda há outros cuja preocupação é a busca por liberdade económica, libertação da fome, da pobreza e do desemprego. Ao mesmo tempo, todos nós nos preocupamos com a nossa liberdade pessoal. Até aqueles que lutam mais ardentemente pelos outros tipos de liberdade aqui mencionadas (nacional, civil e económica) geralmente sabem que eles mesmos não são livres. Eles nem sempre conseguem dar um nome às tiranias que os oprimem. Todavia, sentem-se frustrados, não-realizados e sem liberdade.
Numa entrevista com o consagradíssimo novelista John Fowles, publicada sob o título “Uma Espécie de Exílio em Lyme Regis”, Daniel Halpern perguntou-lhe: “Existe algum retrato específico do mundo que você gostaria de desenvolver em sua obra? Alguma coisa que continua sendo importante para você?” “Sim”, respondeu John Fowles. “Liberdade. Como alcançar a liberdade. Isto me obceca.
Todos os meus livros falam sobre isso.”
Segundo, liberdade é uma tremenda palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. “O Espírito do Senhor está sobre mim”, declarou ele, aplicando a si mesmo uma profecia do Antigo Testamento, “pelo que me ungiu para evangelizar nos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” Quer Jesus estivesse se referindo aos pobres, cativos, cegos e oprimidos no sentido material ou espiritual, quer nos dois sentidos (esta questão continua se constituindo em veemente debate), as boas novas por ele proclamadas foram certamente de “liberdade” ou “libertação”. Mais tarde, em seu ministério público, ele acrescentou a promessa: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. E daí o apóstolo Paulo tornou-se o defensor da liberdade cristã e escreveu: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão”. Para aqueles que consideram “salvação” um jargão religioso e desprovido de sentido, ou mesmo algo embaraçoso, “liberdade” é um excelente substituto. Ser salvo por Jesus Cristo é ser libertado.
Terceiro, liberdade é uma palavra muito mal interpretada. Mesmo aqueles que falam mais alto e há mais tempo acerca da liberdade nem sempre param antes para definir de que é que estão falando. Um bom exemplo é o do orador marxista que, plantado numa esquina, discursava com eloquência sobre a liberdade que todos haveríamos de desfrutar depois da revolução. “Quando nós conseguirmos a liberdade”, exclamava ele, “todos vocês poderão fumar cigarros como aquele ali”, disse, apontando para um opulento cidadão que ia passando.
“Eu prefiro meu cigarro de palha”, gritou um gozador.
“Quando formos libertados”, continuou o marxista, ignorando a interrupção e esquentando mais o assunto, “todos vocês poderão andar num carro daqueles”, e apontou para um suntuoso Mercedes que ia passando.
“Eu prefiro minha bicicleta”, gritou o perturbador. E assim o diálogo continuou, até que o marxista, não suportando mais as gozações, voltou-se para o homem e disse: “Quando formos livres, você só fará aquilo que lhe mandarem!”
O aspecto negativo: libertação de
Mas, então, o que é liberdade? Uma verdadeira definição tem que começar com o lado negativo. Temos que identificar as forças que nos tiranizam e que, portanto, inibem a nossa liberdade. Somente então conseguiremos compreender como é que Cristo pode nos libertar.
Primeiro, Jesus Cristo nos oferece libertação da culpa. Nós deveríamos ser gratos pela reação generalizada contra a insistência de Freud de que os sentimentos de culpa são sintomas patológicos de doença mental. Alguns deles com certeza o são, especialmente em certos tipos de enfermidade depressiva; mas nem toda culpa é falsa. Pelo contrário, cresce cada vez mais o número de psicólogos e psicoterapeutas contemporâneos que, mesmo não professando a fé cristã, nos dizem que precisamos levar a sério as nossas responsabilidades. O falecido Dr. Hobart Mowrer, da Universidade de Illinois, por exemplo, entendia a vida humana em termos contratuais e via o “pecado” como uma quebra de contrato que deve receber uma reparação. A Bíblia certamente sempre enfatizou, tanto as nossas obrigações como seres humanos, como a nossa falha ao deixarmos de cumpri-las. Nós, em particular, temos buscado afirmação colocando-nos contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do nosso próximo. Usando uma linguagem cristã bem direta, nós, além de pecadores, somos também pecadores culpados, e a nossa consciência nos diz isso. Conforme uma das piadas de Mark Twain, “o homem é o único animal que fica envergonhado – ou que precisa fazê-lo”.
Agora, ninguém que não tenha sido perdoado é livre. Se cu não tivesse certeza da misericórdia e do perdão de Deus, não conseguiria olhar ninguém nos olhos, e muito menos a Deus (o que é mais importante). Eu iria querer fugir e esconder-me, como fizeram Adão e Eva no Jardim do Éden. Afinal, foi no Éden, e não em Watergate, que inventaram pela primeira vez o estratagema chamado “esconder”. Eu com certeza não seria livre. Um pouco antes de morrer, em 1988, em um momento de surpreendente sinceridade na televisão, Marghanita Laski, uma das mais conhecidas humanistas e novelistas seculares, declarou: “O que eu mais invejo em vocês, cristãos, é o perdão que vocês têm. Mu não tenho ninguém para me perdoar.”
“Mas”, como os cristãos bem que gostariam de gritar de cima dos telhados, fazendo eco ao salmista penitente, “em Deus está o perdão”, pois ele, em seu amor por pecadores como nós, veio participar do nosso mundo na pessoa de seu Filho. Tendo vivido uma vida de perfeita retidão, ele, na sua morte, identificou-se com os injustos. Levou o nosso pecado, a nossa culpa, a nossa morte em nosso lugar, a fim de que fôssemos perdoados.
A liberdade, portanto, começa com o perdão. Lembro-me de um estudante de uma universidade no norte da Inglaterra, que havia sido criado no espiritismo, mas fora levado por um colega a uma reunião cristã, onde ouviu o evangelho. No fim-de-semana seguinte começou uma intensa batalha pela sua alma, até que (como ele escreveria mais tarde) ele gritou em desespero para que Jesus Cristo o salvasse. Então, continuou ele, “Jesus realmente veio a mim. Eu senti um amor verdadeiro, real – nem dá para descrever. Era pura beleza e serenidade. E apesar do fato de que eu nada sabia acerca de salvação e pecado, e nem mesmo sabia o que significava isso, eu simplesmente soube que estava perdoado… Eu estava incrivelmente feliz!”
Segundo, Jesus Cristo nos oferece libertação do nosso ego. Certa vez, conversando com uns crentes judeus, Jesus lhes disse: “Se vós permanecerdes nas minhas palavras, sois verdadeiramente meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
Na mesma hora eles ficaram indignados. Como é que ele ousava dizer que eles precisavam de algum tipo de libertação? “Somos descendência de Abraão”, eles retrucaram, “e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?”
Jesus replicou: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado.”
Portanto, se a culpa é o primeiro tipo de escravidão do qual precisamos ser libertados, o segundo é o pecado. E o que significa isto? Assim como “salvação”, “pecado” é uma palavra que pertence ao vocabulário tradicional cristão. “Eu não sou pecador”, diz a maioria das pessoas, pois elas parecem associar pecado com crimes específicos e sensacionais, como matar, adulterar ou roubar. Mas “pecado” tem uma conotação muito mais ampla do que isso. Eu mesmo me recordo de quão revelador foi para mim descobrir, especialmente através dos ensinamentos de William Temple, que o que a Bíblia quer dizer com “pecado” é, antes de tudo, egocentrismo. Afinal, os dois grandes mandamentos de Deus são, primeiro, que o amemos com todo o nosso ser; e, segundo, que amemos o nosso próximo como a nós mesmos. Pecado é, portanto, inverter essa ordem. É colocar a nós mesmos em primeiro lugar, virtualmente proclamando nossa própria autonomia, depois o nosso próximo, segundo a nossa conveniência, e depois, então, Deus, em algum lugarzinho lá nos bastidores.
O egocentrismo é um fenômeno presente em toda a experiência humana. Isto se evidencia na rica variedade de palavras da nossa língua que incluem o componente “ego” ou “auto”. Quantas delas carregam em si um sentido pejorativo ou negativo? Egoísmo, egolatria, autoafirmação, autoacusação, autoagressão, auto piedade, autocomiseração, autodestruição, autoindulgência, auto¬promoção, autopunição, autossuficiência…
Além do mais, nosso egocentrismo é de uma tirania terrível. Malcolm Muggeridge costumava falar e escrever a respeito do “calabouçozinho escuro que é o meu próprio eu”. E que escuridão tem esse calabouço! Deixar-se absorver nos próprios interesses e ambições egoístas, sem qualquer consideração pela glória de Deus ou pelo bem-estar dos outros, é estar confinado na mais intrincada e insalubre das prisões.
Mas Jesus Cristo, que ressurgiu dentre os mortos e está vivo, pode nos libertar. Nós podemos conhecer “o poder da sua ressurreição”. Ou, colocando a mesma verdade em outras palavras, o Jesus que vive pode, através do seu Espírito, impregnar a nossa personalidade e virar-nos do avesso. Não que nós sejamos perfeitos, é claro; só que, pelo poder do seu Espírito que habita em nós, pelo menos já começamos a experimentar uma transformação do eu para o não-eu. Nossa personalidade, antes fechada em si mesma, começa a abrir-se para Cristo, assim como uma flor se abre para o sol nascente.
Em terceiro lugar, Jesus Cristo nos oferece libertação do medo. O velho mundo para o qual ele veio vivia atemorizado pelos poderes que, conforme se acreditava, habitavam as estrelas. Ainda hoje a religião tradicional de povos tribais primitivos é assombrada por espíritos malignos que precisam ser aplacados. A vida de homens e mulheres de hoje é igualmente atormentada pelo medo, desde os medos comuns que sempre afligiram os seres humanos — medo da doença, do luto, da velhice e da morte — até o medo do desconhecido, do oculto e da extinção nuclear. A maioria de nós também já sofreu algumas vezes de medos irracionais, e é impressionante ver quanta gente educada alimenta medos supersticiosos. Batem três vezes na madeira, cruzam os dedos, carregam amuletos e recusam-se a sentar na poltrona de número 13 porque dá azar… É por isso que em muitos hotéis nos Estados Unidos não existe o décimo-terceiro andar. Ao subir no elevador, se você observar o painel iluminado, verá que os números pulam de 10, 11, 12 para 14. As pessoas são tão supersticiosas para dormir no andar número 13 que não se dão conta de que aquele continua sendo o décimo-terceiro andar, mesmo que o tenham denominado de décimo-quarto! Já na Inglaterra, de acordo com uma recente pesquisa de opiniões, embora nove décimos da população ainda acredite em algum tipo de Deus, o número de adultos que leem o seu horóscopo toda semana é o dobro dos que leem a Bíblia.
Todo medo traz consigo uma dose de paralisia. Ninguém que tenha medo é livre. Além do mais, o medo é como o fungo: cresce mais rapidamente no escuro. É essencial, portanto, trazer à luz os nossos medos e olhar para eles, especialmente à luz da vitória e supremacia de Jesus Cristo. Afinal de contas, aquele que morreu e ressuscitou foi também exaltado à mão direita de Deus Pai, e tudo foi posto “debaixo de seus pés”. Portanto, onde estão as coisas que antes temíamos? Elas estão debaixo dos pés de Cristo, o Cristo triunfante! Quando nós as enxergamos ali, então o poder que elas tinham de nos aterrorizar é destruído.
Medo e liberdade são mutuamente incompatíveis. Para mim, isso foi bem ilustrado certa vez por um jovem palestrante africano. Tínhamos andado discutindo sobre a necessidade de os cristãos se interessarem mais pela História Natural como sendo criação de Deus. “Antes de me tornar um cristão”, disse ele, “eu tinha medo de muitas coisas — principalmente de cobra. Mas agora acho difícil matar uma cobra, pois gosto de ficar olhando para elas. Graças a Deus, agora sou livre de verdade.”

O aspecto positivo: liberdade para
Até aqui nós estabelecemos uma relação entre as tiranias que impedem a nossa libertação e os três principais eventos da experiência de Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e exaltação. Há libertação da culpa porque ele morreu por nós; libertação do ego porque podemos viver na força da sua ressurreição; e libertação do medo porque ele reina, com todas as coisas debaixo de seus pés.
É, no entanto, um equívoco muito sério definir liberdade em termos inteiramente negativos, embora o dicionário cometa este engano. Segundo o dicionário, liberdade é “supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, amoral”, enquanto que livre é aquele “que pode dispor de sua pessoa; que não está sujeito a algum senhor (por oposição a servil, escravo). Que não está privado de sua liberdade física; que não está prisioneiro; solto”. Mas tudo que é negativo tem o seu lado positivo. O verdadeiro grito de liberdade clama não somente por resgate de alguma tirania, mas também por liberdade para viver uma vida plena e significativa. Quando um país é libertado de um regime colonialista, torna-se livre para descobrir e desenvolver sua própria identidade nacional. Quando a imprensa é libertada do controle e da censura do governo, torna-se livre para publicar a verdade. E uma minoria racial, quando é libertada da discriminação, fica livre para desfrutar de respeito e dignidade própria. Afinal de contas, quando um país não é livre, o que lhe é negado é o direito de ser nação; quando não há liberdade de imprensa, o que se lhe nega é a verdade; e quando uma minoria não é livre, o que lhe é negado é o respeito próprio.
Qual é, então, a liberdade positiva dos seres humanos? Em 1970 Michael Ramsey pregou na Universidade de Cambridge uma série de quatro sermões, que foram posteriormente publicados sob o título A Liberdade, a Fé e o Futuro. No primeiro ele apresentou a questão: “Nós sabemos de que queremos libertar os homens. Será que sabemos para que queremos libertá-los?” E passou a responder a sua própria pergunta. Nossa luta por aquelas liberdades “que mais sensivelmente agitam nossos senti¬mentos” (por exemplo, ser libertos da perseguição, da prisão arbitrária, da fome e da pobreza destruidoras) deveria sempre se situar “no contexto da questão mais radical e revolucionária, isto é, que o homem seja liberto do seu ego e para a glória de Deus.”
A questão que precisamos perseguir é esta: para que é que Cristo nos liberta? Eis aqui o princípio: a verdadeira liberdade é a liberdade para sermos nós mesmos, tal como Deus nos criou e como ele tencionava que nós fôssemos. E como se pode aplicar este princípio?
Vamos começar com o próprio Deus. Você já pensou no fato de que Deus é o único ser que goza de perfeita liberdade? Até se poderia argumentar que Deus não é livre. Afinal, o certo é que a liberdade dele não é absoluta, no sentido de poder fazer absolutamente qualquer coisa. A Escritura nos diz que ele não pode mentir, tentar ou ser tentado, nem pode tolerar o mal. Não obstante, a liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que ele queira. A liberdade de Deus é liberdade para ser sempre inteiramente ele mesmo. Deus nada tem de arbitrário, taciturno, inconstante ou imprevisível. Ele é constante, estável, imutável. De fato, a coisa principal que a Escritura nos diz que ele “não pode” fazer (não pode porque nunca o fará) é contradizer-se. “Ele não pode negar-se a si mesmo.” Fazê-lo seria, não liberdade, mas autodestruição. A liberdade de Deus reside no fato de ser ele mesmo, assim como ele é.
E o que acontece com Deus, o Criador, também acontece com todas as coisas e seres criados. Liberdade absoluta, liberdade ilimitada, é pura ilusão. Se isso é impossível para Deus (como de fato o é), mais impossível ainda é para a criação de Deus. A liberdade de Deus é liberdade para ser ele mesmo; nossa liberdade é liberdade para sermos nós mesmos. A liberdade de toda criatura é limitada pela natureza que Deus lhe deu.
O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem o se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigênio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade. Suponhamos que você tenha em casa um peixe tropical. Ele vive, não num desses tanques retangulares arejados e modernos, mas num daqueles velhos aquários redondos e antiquados. E lá está o seu peixinho, nadando de um lado para outro no seu bendito aquário, até que, quando a sua frustração se torna insuportável, ele decide apostar na liberdade e salta para fora do seu confinamento. Se por acaso ele conseguir pular dentro de uma poça no seu jardim, aumentará sua liberdade. Continua sendo água, só que ali tem ainda mais água para ele nadar. Agora, se ele aterrissar no carpete ou no cimento, aí a sua tentativa de escapar acabará dando, não em liberdade, mas em morte.
E os seres humanos? Se os peixes foram feitos para a água, os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como humanos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. “Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda”, disse Mário para Morris. “Nós necessitamos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar.” E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia “tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele”.
Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e morremos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: “Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo.” Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.
O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente auto doador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verdadeira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor.
A verdadeira liberdade é, pois, exatamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a responsabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente em amor a Deus e aos outros.
Mas a mente secular não consegue captar este paradoxo cristão da liberdade através do amor. Por exemplo, a novelista francesa Françoise Sagan deu uma entrevista pouco antes de completar cinquenta anos, em 1985. Ela disse que estava perfeitamente satisfeita com sua vida e que nada tinha a lamentar.
“Você teve a liberdade que queria?”
“Sim”, disse ela, esclarecendo sua declaração: “Naturalmente, eu sempre era menos livre quando estava apaixonada por alguém…, Mas não se vive apaixonada o tempo todo. A não ser por esse tempo… Sou livre, sim.”
A implicação é clara: o amor inibe a liberdade. Quanto mais se ama, menos livre se é, e vice-versa. Presume-se, portanto, que para ser completamente livre é preciso evitar as complicações do amor, ou seja, o jeito é desistir completamente de amar.
Mas Jesus ensinou exatamente o contrário em um de seus epigramas favoritos, que ele parece ter citado em diferentes formas e contextos. “Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á”, disse ele; “e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á.” Eu achava que Jesus estivesse se referindo a mártires que dão a vida por ele. E o princípio que ele estava enunciando certamente inclui a estes. Mas a “vida” de que ele está falando, que tanto pode ser salva como perdida, não é a nossa existência física (zoe), mas a nossa alma ou ego (psyche) usada não poucas vezes em lugar do reflexivo referente à primeira pessoa (“me/mim”). Poderíamos então parafrasear o epigrama de Jesus nos seguintes termos: “Se você insiste em apegar-se a si mesmo e em viver para si mesmo, recusando-se a desligar-se do seu eu, você está perdido. Mas se estiver disposto a doar-se em amor, então, no momento do completo abandono, quando você pensar que tudo está perdido, acontecerá o milagre e você encontrará a si e à sua liberdade.” Só o serviço sacrificial, o dar-se a si mesmo em amor a Deus e aos outros, é que é a perfeita liberdade.
A verdadeira liberdade, portanto, combina o negativo (libertação de) com o positivo (liberdade para). Ou, dito de uma outra forma, ela concilia a libertação da tirania com a liberdade submetida à autoridade. Jesus ilustra isto num dos seus mais conhecidos convites:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Existem aqui, na verdade, dois convites, ligados a uma única promessa. A promessa é “descanso”, que parece abranger a ideia de libertação. “Eu vos aliviarei”, diz Jesus (versículo 28). E acrescenta: “Achareis descanso para as vossas almas” (versículo 29). Mas a quem ele promete descanso? Primeiro, àqueles que vêm a ele “cansados e sobrecarregados”, pois ele tira os seus fardos e os liberta. Depois, ele dá descanso àqueles que tomam sobre si o seu jugo e aprendem dele. Assim, o verdadeiro descanso se encontra em Jesus Cristo, nosso Salvador, que nos liberta da tirania da culpa, do ego e do medo, e em Jesus Cristo, nosso Senhor, quando nos submetemos a sua autoridade e ensino. Afinal, o seu jugo é suave, o seu fardo é leve e ele mesmo é “manso e humilde de coração”.