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JOÃO 19: 38-42 – PARTE IV

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O Sepultamento de Cristo

 

IV – A sepultura escolhida, em um jardim que pertencia a José de Arimatéia, muito perto do lugar onde Ele tinha sido crucificado. Ali havia um sepulcro, ou uma caverna, preparada para a primeira ocasião, mas que nunca tinha sido usada. Observe:

1. Que Cristo foi sepultado fora da cidade, pois o costume dos judeus era de sepultar, não nas suas cidades, e muito menos nas suas sinagogas, o que alguns consideram ser muito melhor do que nossos costumes de sepultamento. Porém, houve uma razão peculiar para isto, que não se aplica agora, porque, ao tocar um sepulcro, a pessoa contraía uma contaminação cerimonial. Mas agora que a ressurreição de Cristo alterou as propriedades do sepulcro, e removeu sua contaminação para todos os crentes, nós não precisamos nos manter afastados dele. O bom aperfeiçoamento não é prejudicado pelo fato de alguns terem a congregação dos mortos no terreno da igreja, rodeando a congregação dos vivos que estão na igreja, uma vez que eles também estão morrendo, e em meio à vida nós estamos em morte. Aqueles que não visitarem o santo sepulcro por alguma superstição, mas com fé, serão certamente beneficiados, pois sairão do meio dos ruídos deste mundo.

2. Que Cristo foi sepultado em um jardim. Observe:

(1) Que José tinha seu sepulcro neste jardim. Assim ele o planejou, para que pudesse ser uma lembrança:

[1] A si mesmo, enquanto vivesse. Quando ele estava desfrutando do seu jardim, e colhendo o que ele produzia, ele podia pensar na morte e ser motivado a preparar-se para ela. O jardim é um lugar adequado para a meditação, e um sepulcro ali pode nos propiciar um assunto adequado para meditação, um assunto que nos recusamos a admitir em meio aos nossos prazeres.

[2] Aos seus herdeiros e sucessores, quando ele tivesse morrido. Ê bom conhecermos o lugar do sepulcro dos nossos pais, sua situação, pois talvez possamos tornar o nosso menos formidável, se nos familiarizarmos mais com o deles.

(2) Que o corpo de Cristo foi depositado em um sepulcro em um jardim. No jardim do Éden, a morte e o sepulcro receberam o poder pela primeira vez, e agora, em um jardim, eles são derrotados, desarmados e vencidos. Em um jardim, Cristo deu início à sua paixão, e de um jardim, Ele ressuscitaria, e daria início à sua exaltação. Cristo caiu no chão como um “grão de trigo” (cap. 12.24), e por isto foi semeado em um jardim, entre as sementes, pois seu orvalho será como o “orvalho das ervas”, Isaías 26.19. Ele é “a fonte dos jardins”, Cantares 4.15.

3. Que Ele foi sepultado em um sepulcro novo. Isto foi ordenado desta maneira:

(1) Para a honra de Cristo. Ele não era uma pessoa comum, e, portanto, não devia se misturar com o pó comum. Aquele que tinha nascido de um útero virgem deveria ressuscitar de um sepulcro virgem.

(2) Para a confirmação da verdade da sua ressurreição, para que não se sugerisse que não fosse Ele, mas que outro tivesse ressuscitado naquela ocasião, quando tantos corpos de santos foram ressuscitados. Ou que Ele tivesse ressuscitado pelo poder de outro, como o homem que reviveu tocando os ossos de Eliseu, e não pelo seu próprio poder. Aquele que fez novas todas as coisas, fez com que o sepulcro fosse novo para nós.

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JOÃO 19: 38-42 – PARTE III

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O Sepultamento de Cristo

 

III – O corpo preparado, v. 40. Eles devem tê-lo levado a alguma casa próxima e, tendo-o lavado do sangue e da poeira, o envolveram em lençóis, de maneira muito decente, com as especiarias provavelmente fundidas em um unguento, à maneira dos judeus sepultarem, ou embalsamarem, assim como nós fazemos cremações.

1. Aqui se cuidou do corpo de Cristo: eles “o envolveram em lençóis”. Além das roupas que pertencem a nós, Cristo vestiu até mesmo a roupa do sepulcro, para tornar seu uso mais fácil para nós, e para nos capacitar a chamá-la de nossa roupa de bodas. Eles envolveram o corpo com as especiarias, pois todas as suas roupas, sem excetuar sua roupa de sepultamento, cheiravam a mirra e aloés (as especiarias aqui mencionadas) dos palácios de marfim (Salmos 45.8), e a sepultura cavada em uma rocha foi um palácio de marfim para Cristo. Cadáveres e sepulturas são repugnantes e ofensivos. Por isto, o pecado é comparado a um corpo de morte, e a um sepulcro aberto. Mas o sacrifício de Cristo, sendo para Deus como um cheiro suave, tinha removido nossa contaminação. Nenhum unguento ou perfume pode alegrar o coração como o faz o sepulcro do nosso Redentor, onde há fé para perceber seus odores perfumados.

2. De acordo com este exemplo, nós devemos ter consideração com os cadáveres dos cristãos, não consagrando e adorando seus restos, nem mesmo os dos santos e mártires mais eminentes (pois nada parecido com isto foi feito ao cadáver do próprio Cristo), mas depositando-os cuidadosamente, o pó ao pó, como aqueles que creem que os cadáveres dos santos ainda estão unidos a Cristo e destinados à glória e à imortalidade no último dia. A ressurreição dos santos se dará em virtude da ressurreição de Cristo, e, portanto, ao sepultá-los, nós devemos pensar no sepultamento de Cristo, pois a Palavra do Senhor nos diz: “Os teus mortos viverão”, Isaías 26.19. Ao sepultarmos nossos mortos, não é necessário, em todas as circunstâncias, imitarmos o sepultamento de Cristo, como se precisássemos ser envoltos em lençóis, sepultados em um jardim, e embalsamados como Ele foi. Mas o fato de que Ele foi sepultado à maneira dos judeus nos ensina que, nas questões desta natureza, nós devemos estar em conformidade com o uso do país onde vivemos, exceto nas superstições dos povos que não conhecem o Senhor.

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JOÃO 19: 38-42 – PARTE II

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O Sepultamento de Cristo

 

II – A preparação das especiarias, v. 39. Isto foi feito por Nicodemos, outra pessoa de qualidade, e em função pública. Ele trouxe “um composto de mirra e aloés”, que alguns pensam que eram ingredientes amargos, para preservar o corpo, e outros julgam que eram fragrantes, para perfumar o corpo. Aqui temos:

1. O caráter de Nicodemos, que é muito parecido com o de José. Ele era um amigo secreto de Cristo, embora não fosse seu seguidor constante. A princípio, ele fora ter com Jesus à noite, mas agora o reconhecia publicamente, como antes, cap. 7.50,51. Aquela graça que, a princípio, é como uma cana quebrada, pode, posteriormente, se tornar como um cedro resistente, e o carneiro trêmulo pode se tornar intrépido como o leão. Veja Romanos 14.4. E um mistério que José e Nicodemos, homens tão importantes, não aparecessem antes, solicitando a Pilatos que não condenasse a Cristo, especialmente vendo-o tão pouco disposto a fazê-lo. Implorar pela sua vida teria sido um serviço mais nobre do que implorar pelo seu corpo. Mas Cristo não desejaria que nenhum dos seus amigos se esforçasse para evitar sua morte, quando sua hora já era chegada. Enquanto seus perseguidores estavam permitindo o cumprimento das Escrituras, seus seguidores não deviam impedi-lo.

2. A generosidade de Nicodemos, que foi considerável, embora de natureza diferente. José serviu a Cristo com sua influência, Nicodemos, com sua bolsa. Eles provavelmente tinham combinado que, enquanto um deles estava obtendo a permissão, o outro devia preparar as especiarias, e isto para poupar tempo, porque o tempo era curto. Mas, por que eles se preocuparam tanto com o corpo de Cristo?

(1) Alguns pensam que podemos ver nisto a fraqueza da sua fé. Uma crença forte na ressurreição de Cristo, no terceiro dia, teria lhes poupado esta preocupação e este custo, e teria sido mais aceitável do que todas as especiarias. Realmente, aqueles corpos para os quais o sepulcro será uma morada por muito tempo, precisam ser protegidos de um modo conveniente. Mas, que necessidade tinha de tal acessório para o sepulcro alguém que, como um viajante, apenas se hospedaria dentro dele, para passar somente uma ou duas noites?

(2) No entanto, nós podemos ver nisto claramente a força do seu amor. Com isto, eles mostraram o valor que davam à pessoa e à doutrina de Cristo, e que não foi diminuído pela desonra da cruz. Aqueles que tinham sido tão aplicados em profanar sua coroa, e fazer cair ao chão sua honra, já podiam ver que tinham imaginado uma coisa inútil, pois, se Deus o tinha honrado nos seus sofrimentos, também os homens, até mesmo os grandes homens, o fariam. Eles mostraram não somente o respeito caridoso de entregar seu corpo à terra, mas o respeito honorável mostrado a grandes homens. Eles podiam agir deste modo, e ainda crer e esperar pela sua ressurreição. Na verdade, isto eles podiam fazer, na crença e expectativa da sua ressurreição. Como Deus designava honra para seu corpo, eles lhe confeririam honra. No entanto, nós devemos cumprir nossos deveres conforme o dia e as oportunidades, deixando que Deus cumpra suas promessas à sua própria maneira, e no seu próprio tempo.

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JOÃO 19: 38-42 – PARTE I

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O Sepultamento de Cristo

Aqui temos um relato do sepultamento do bendito corpo do nosso Senhor Jesus. Os funerais solenes dos grandes homens normalmente são observados com curiosidade. Os funerais dolorosos dos amigos queridos são acompanhados com carinho. Venham e vejam um funeral extraordinário. Nunca houve nenhum como este! Venham e vejam um sepultamento que venceu a sepultura, e a sepultou, um sepultamento que tornou belo o sepulcro, e o suavizou para todos os crentes. Viremo-nos para lá e vejamos esta grande visão. Aqui temos:

 

I – A solicitação do corpo, v. 38. Isto foi feito por José de Ramá, ou de Arimatéia, a quem não se faz menção em toda a história do Novo Testamento, exceto na narrativa que cada um dos evangelistas nos faz do sepultamento de Cristo, onde ele esteve principalmente envolvido. Observe:

1. O caráter deste José. Ele era um discípulo de Cristo incógnito em segredo, um amigo de Cristo melhor do que ele desejava que soubessem que era. Era sua honra ser discípulo de Cristo. E há alguns como ele, que são grandes homens, inevitavelmente relacionados com homens maus. Mas foi fraqueza sua ter sido discípulo tão secretamente, quando deveria ter confessado a Cristo diante dos homens, sim, mesmo que tivesse perdido suas primazias devido a esta atitude. Os discípulos devem se mostrar abertamente, ainda que Cristo possa ter muitos que são seus discípulos sinceramente, embora em segredo. Ser um discípulo em segredo é melhor do que nada, especialmente se, como aconteceu com José aqui, ele ficar cada vez mais forte. Alguns que em provações menores foram tímidos, em provações maiores foram muito corajosos. Assim foi José aqui. Ele ocultou seu afeto por Cristo, por temor aos judeus, para que não o expulsassem da sinagoga, pelo menos do Sinédrio, que era tudo o que eles podiam fazer. Ele foi corajosamente até Pilatos, o governador, mas temia os judeus. A maldade impotente daqueles que podem apenas censurar, insultar e vociferar, algumas vezes é mais formidável do que poderíamos pensar, mesmo em se tratando de homens bons e sábios.

2. O papel que ele teve neste assunto. Tendo, graças à sua posição, acesso a Pilatos, ele desejava sua permissão para cuidar do corpo. A mãe e os amigos queridos de Jesus nem imaginaram nem se interessaram em tentar algo como isto. Os discípulos haviam partido. Se não aparecesse ninguém, os judeus ou os soldados o sepultariam com os salteadores. Por isto, Deus fez este homem se levantar para interceder no assunto, para que as Escrituras se cumprissem, e fosse conservado o decoro devido à sua ressurreição, que estava próxima. Observe que, quando Deus tem algum trabalho a ser feito, Ele é capaz de encontrar as pessoas adequadas para fazê-lo, e de encora­já-las a fazê-lo. Observe, como um exemplo da humilhação de Cristo, que seu corpo ficou à mercê de um juiz pagão, e José precisou implorar por ele antes que pudesse ser sepultado, e também que José não pôde retirar o corpo antes de ter pedido e obtido a permissão do governador, pois, nas coisas que são do interesse do magistrado, nós devemos sempre prestar respeito à sua autoridade, e sujeitarmo-nos pacificamente a ela.

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JOÃO 19: 31-37 – PARTE V

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A Crucificação

 

V – O cumprimento das Escrituras em tudo isto (v. 36): “Para que se cumprisse a Escritura”, e assim a honra do Antigo Testamento fosse preservada, e a verdade do Novo Testamento fosse confirmada. Aqui estão dois exemplos:

1. A Escritura se cumpriu na preservação das suas pernas, evitando que fossem quebradas. Nisto se cumpriu aquela predição: “Nenhum dos seus ossos será quebrado”.

(1) Havia uma promessa deste feito, na verdade, a todos os justos, mas principalmente apontando para Jesus Cristo, o justo (Salmos 34.20): “Ele lhe guarda todos os seus ossos; nem sequer um deles se quebra”. E Davi, em espírito, diz: “Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é como tu?” Salmos 35.10.

(2) Havia um tipo disto no cordeiro pascal, o que parece ser a referência especial aqui (Êxodo 12.46): “Nem dela quebrareis osso”, e isto se repete (Números 9.12): “Dela não quebrarão osso algum”. A vontade do legislador deve est ar de acordo com a lei, mas o antítipo deve responder ao tipo. “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós”, 1 Coríntios 5.7. Ele é “o Cordeiro de Deus” (cap. 1.29), e, como a verdadeira Páscoa, seus ossos não foram quebrados. Esta ordem foi dada a respeito dos seus ossos, quando morto, como a de José, Hebreus 11.22.

(3) Havia um significado no fato de seus ossos não serem quebrados. A força do corpo está nos ossos. A palavra hebraica empregada para ossos quer dizer força, e, portanto, nem um osso de Cristo deve ser quebrado, para mostrar que, embora Ele seja crucificado em fraqueza, sua força para nos salvar não está, de nenhuma maneira, quebra da. O pecado quebra nossos ossos, como quebrou os de Davi (Salmos 51.8), mas não quebrou os ossos de Cristo. Ele permaneceu firme sob a carga, poderoso para salvar.

2. A Escritura se cumpriu na perfuração do lado de Cristo (v. 37): “Verão aquele que traspassaram”, assim estava escrito, Zacarias 12.10. E naquela passagem, o mesmo que derrama o Espírito da graça, e não pode ser outro, exceto o Deus dos santos profetas, diz: “Olharão para mim”, o que aqui se aplica a Cristo: “Verão aquele”.

(1) Aqui está implícito que o Messias será transpassado, e aqui isto teve um cumprimento maior do que no perfurar das suas mãos e dos seus pés. Ele foi perfurado pela casa de Davi, e pelos habitantes de Jerusalém, ferido na casa de seus amigos, como foi profetizado em Zacarias 13.6.

(2) Está prometido que, quando o Espírito fosse derramado, eles olhariam para Ele e se lamentariam. Isto se cumpriu, em parte, quando muitos daqueles que eram seus traidores e assassinos compungiram-se em seu coração e vieram a crer nele. Isto se cumprirá ainda mais, em misericórdia, quando todo o Israel for salvo, e, em ira, quando todos aqueles que persistiram na sua infidelidade virem aquele a quem traspassaram, e se lamentarem sobre ele, Apocalipse 1.7. Mas isto se aplica a todos nós. Todos nós somos culpados de traspassar o Senhor Jesus, e precisamos contemplá-lo com os sentimentos adequados.

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JOÃO 19: 31-37 – PARTE IV

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A Crucificação

 

IV – A confirmação da verdade deste fato, por uma testemunha ocular, (v. 35), o próprio evangelista. Observe:

1. Que testemunha competente dos fatos ele foi.

(1) Aquilo de que deu testemunho, ele viu. Ele não sabia disto por ouvir rumores, nem por sua própria conjetura, mas porque tinha sido testemunha ocular deste acontecimento. “O que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado” (1 João 1.1; 2 Pedro 1.16), e “já informado minuciosamente de tudo”, Lucas 1.3.

(2) O que ele viu, ele registrou fielmente. Como uma testemunha fiel, ele não somente escreveu a verdade, mas toda a verdade, e não somente a confirmou oralmente, mas a deixou registrada por escrito, in perpetuam rei memoriam como um memorial perpétuo.

(3) Seu registro é indubitavelmente verdadeiro, pois ele escreveu não somente a partir do seu conhecimento e da sua observação pessoal, mas dos ditados do Espírito da verdade, que conduz a toda a verdade.

(4) Ele mesmo tinha uma certeza completa sobre o que escrevia, e não persuadia outros a crerem naquilo em que ele mesmo não cria: “Sabe que é verdade o que diz”.

(5) Portanto, ele testemunhou estas coisas, para que também possamos crer nelas. Ele não as registrou meramente para sua própria satisfação, nem para o uso particular dos seus amigos, mas as publicou para o mundo; não para agradar aos curiosos, nem para distrair os astutos, mas para atrair os homens a crer no Evangelho, para que tenham o bem-estar eterno.

2. Que preocupação ele mostrou neste exemplo particular. Para que pudéssemos ter certeza da verdade da morte de Cristo, ele viu sair o sangue do seu coração, o sangue da sua vida, e para que pudéssemos ter certeza dos benefícios que fluem para nós de sua morte, representados pela água e pelo sangue que fluíram do seu lado. Que isto silencie os temores dos cristãos fracos, e incentive suas esperanças, a iniquidade não lhes servirá de tropeço, pois saíram sangue e água do lado perfurado de Cristo, para justificá-los e santificá-los. E se você perguntar: Como posso ter certeza disto? Você pode ter certeza, porque “aquele que o viu testificou”.

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JOÃO 19: 31-37 – PARTE III

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A Crucificação

 

III – A prova feita para ver se Cristo estava vivo ou não, e a eliminação da dúvida.

1. Eles viram que Ele já estava morto, e por isto não quebraram suas pernas, v. 33. Observe aqui:

(1) Que Jesus morreu em menos tempo do que as pessoas crucificadas normalmente levavam para morrer. A estrutura do seu corpo foi rompida pela dor em menos tempo, provavelmente devido a uma condição debilitada, de muita fraqueza. Ou, mais exatamente, isto devia mostrar que Ele entregou voluntariamente sua vida, e pôde morrer quando desejou fazê-lo, embora suas mãos estivessem pregadas. Embora tenha se rendido à morte, Ele não foi derrotado.

 (2) Que seus inimigos ficaram satisfeitos porque Ele estava realmente morto. Os judeus, que ainda estavam por ali, para ver a execução concluída, não teriam omitido esta crueldade, se não tivessem certeza de que Ele estava fora do alcance dela.

(3) Independentemente dos propósitos que há no coração do homem, o conselho do Senhor permanecerá. O desejo era de quebrar suas pernas, mas, como o conselho de Deus era outro, isto foi evitado.

2. Por desejarem ter certeza de que Ele estava morto, eles fizeram esta prova, para tirar todas as dúvidas. “Um dos soldados lhe furou o lado com uma lança”, certamente desejando atingir seu coração, “e logo saiu sangue e água”, v. 34.

(1) O soldado aqui resolveu decidir a questão, quanto a se Ele estava morto ou não, com este honroso ferimento no seu lado, para substituir o método terrível de abreviamento da morte que eles tinham adotado com os outros dois. Diz a tradição que o nome deste soldado era Longino, e que, tendo um problema nos olhos, ele foi imediatamente curado por algumas gotas de sangue que, saindo do lado de Cristo, caíram nos seus olhos. Isto seria suficientemente significativo, se tivéssemos alguma boa fonte autorizada desta história.

(2) Mas Deus tinha outro desígnio aqui, que era:

[1] Dar uma evidência da verdade da morte de Cristo, como prova da sua ressurreição. Se Ele estivesse somente em transe, ou desmaiado, sua ressurreição seria um fingimento. Mas, com esta prova, Ele estava certamente morto, pois esta lança rompeu a verdadeira fonte da vida, e, de acordo com toda a lei e todo o curso da natureza, era impossível que um corpo humano sobrevivesse a um ferimento como este, nos órgãos vitais, e a esta perda dos fluidos.

[2] Dar uma explicação dos desígnios da morte de Cristo. Havia muito mistério na morte do Senhor, e o fato de que ela fosse comprovada solenemente (v. 35) sugere que havia algo de milagroso nela. Outro ponto admirável e interessante é o fato de o sangue e a água saírem distintos e separados da mesma ferida. Ele era, no mínimo, muito significativo. Este mesmo apóstolo se refere a isto como algo digno de muita consideração, 1 João 5.6,8.

Em primeiro lugar, a perfuração do seu lado era significativa. Quando desejamos declarar nossa sinceridade, desejamos que existisse uma janela nos nossos corações, para que seus pensamentos e intenções pudessem ser visíveis a todos. Por esta janela, aberta no lado de Cristo, você pode olhar dentro do seu coração, e ver ali amor flamejante, amor tão forte quanto a morte. É possível ver nossos nomes escritos ali. Alguns entendem que isto é uma alusão à abertura do lado de Adão, na fase da inocência. Quando Cristo, o segundo Adão, caiu em um sono profundo sobre a cruz, então seu lado foi aberto, e dele foi tirada sua igreja, que Ele desposou. Veja Efésios 5.30,32. Nosso devoto poeta, George Herbert, no seu poema intitulado The Bag (A Bolsa), de maneira muito piedosa, apresenta nosso Salvador, quando teve seu lado perfurado, falando desta maneira aos seus discípulos:

Se vocês tiverem alguma coisa para enviar, ou escrever

(Eu não tenho bolsa, mas há lugar aqui),

Isto chegará em segurança às mãos do meu Pai, e diante dos seus olhos

(Creiam em mim).

Eu me importarei com o que vocês enviarem,

Vejam, coloquem o que desejarem enviar muito perto do meu coração.

Ou, se depois algum dos meus amigos

Desejar me usar desta maneira, a porta

Ainda estará aberta. O que ele enviar,

Eu irei apresentar, junto com alguma coisa mais,

Não para que seja ainda mais ferido. Os suspiros

terão um significado para mim.

Ouça, Desespero, vá embora.

Em segundo lugar, o sangue e a água que saíram do ferimento eram significativos.

3. Eles significavam os dois grandes benefícios de que todos os crentes participam, por meio da justificação e santificação de Cristo. O sangue, para a remissão, a água, para a regeneração. O sangue, para a expiação, a água, para a purificação. O sangue e a água eram muito usados sob a lei. A culpa contraída devia ser expiada pelo sangue. As manchas contraídas deviam ser eliminadas pela água da purificação. Estes dois elementos sempre de­ vem andar juntos. “Haveis sido lavados… haveis sido santificados”, 1 Coríntios 6.11. Cristo os uniu, e nós não devemos pensar em separá-los. Ambos fluíram do lado perfurado do nosso Redentor. Ao Cristo crucificado, nós devemos tanto o mérito pela nossa justificação como o Espírito e a graça pela nossa santificação, e nós temos tanta necessidade destes últimos quanto do primeiro, 1 Coríntios 1.30.

4. Eles significavam as duas grandes ordenanças do batismo e da Ceia do Senhor, pelos quais estes benefícios são representados, selados e aplicados aos crentes. Nós devemos sua instituição e sua eficácia a Cristo. Não é a água na fonte que será, para nós, a “lavagem da regeneração”, mas a água do lado de Cristo. Não é o sangue da uva que irá tranquilizar a consciência e revigorar a alma, mas o sangue do lado de Cristo. Agora a pedra estava ferida (1 Coríntios 10.4), agora a fonte estava aberta (Zacarias 13.1), agora estavam escavadas as fontes da salvação, Isaías 12.3. Aqui estava o “rio cujas correntes alegram a cidade de Deus”.