ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 24: 4 – 31 – PARTE I

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Predições Terríveis

Os discípulos tinham perguntado sobre a época: “Quando serão essas coisas?” Cristo não lhes deu nenhuma resposta, não lhes disse depois de quantos dias e anos a sua predição se cumpriria, pois não nos “pertence saber os tempos” (Atos l. 7), mas eles tinham perguntado: “Que sinal haverá?” A esta pergunta, Ele responde de maneira completa, pois nós estamos preocupados em conhecer “os sinais dos tempos” (cap. 16.3). A profecia, basicamente, diz respeito aos eventos próximos da destruição de Jerusalém, o fim da igreja e da nação judaicas, o chamado dos gentios, e o estabelecimento do reino de Cristo no mundo; mas assim como as profecias do Antigo Testamento, que têm uma referência imediata às questões dos judeus e às revoluções na sua nação, sob o exemplo delas, estas profecias vão mais adiante, referindo-se à igreja do Evangelho e ao reino do Messias, e desta maneira são expostas no Novo Testamento, e as expressões que são encontradas nessas predições são peculiares a ele, e não se aplicam a nada mais. Sendo assim, esta profecia, como símbolo da destruição de Jerusalém, refere-se até ao juízo geral, e como é usual nas profecias, algumas passagens são mais aplicáveis aos acontecimentos do presente, e outras, aos do futuro; e no seu final, como é usual, ela aponta mais particularmente para o futuro. Deve-se notar que o que Cristo diz aqui aos seus discípulos tende mais a despertar a sua precaução do que a satisfazer a sua curiosidade; mais para prepará-los para os eventos que iriam acontecer, do que para lhes dar uma ideia distinta dos próprios eventos. Este é aquele bom conhecimento dos tempos que todos nós deveríamos procurar obter; para deduzir o que Israel deveria fazer; e assim essa profecia é de uso duradouro para a igreja, e assim será, até o final dos tempos; pois “o que foi, é o que há de ser” (Eclesiastes 1.5,6,7,9), e a série, conexão, e presságios dos eventos são praticamente os mesmos que eram naquela época; par a que sobre a profecia deste capítulo, que aponta para aquele evento, possam ser feitos prognósticos morais, e os sinais dos tempos possam ser discernidos de modo que o coração do homem sábio possa saber como melhorar.

I – Aqui Cristo prediz o aparecimento de enganadores. Ele começa com um aviso: ”Acautelai-vos, que ninguém vos engane”. Eles esperavam ouvir quando essas coisas aconteceriam, esperavam ser aceitos para participar desse segredo; mas esse aviso serve para refrear a sua curiosidade: “O que isto interessa a vocês? Cuidem dos seus deveres, sigam-me e não se deixem convencer a deixar de me seguir”. Aqueles que são mais curiosos a respeito dos assuntos secretos que não lhes dizem respeito são mais facilmente impressionáveis pelos enganadores (2 Tessalonicenses 2.3). Os discípulos, quando ouviram que os judeus, seus mais inveterados inimigos, seriam destruídos, poderiam estar correndo o risco de um excesso de segurança. “Não”, diz Cristo, “vocês estão mais expostos de outras maneiras”. Os enganadores são inimigos mais perigosos à igreja do que os perseguidores.

Três vezes, nesse sermão, Ele menciona o aparecimento de falsos profetas, o que era:

1. Uma predição da ruína de Jerusalém. Aqueles que mataram os verdadeiros profetas foram, com justiça, deixados para ser enganados pelos falsos profetas; e aqueles que crucificaram o verdadeiro Messias, foram deixados para ser ludibriados e destruídos pelos falsos Cristas e Messias imaginários. O aparecimento deles seria a ocasião da divisão do povo em partidos e facções, o que tornaria a sua destruição mais fácil e rápida; e o pecado dos muitos que eram deixados de lado por eles ajudou a completar a medida.

2. Um teste para os discípulos de Cristo, que, portanto, estava de acordo com a sua situação de experiência, “para que os que são sinceros se manifestem”.

A respeito desses enganadores, observe aqui:

(1) Os pretextos sob os quais eles apareceriam. Satanás age maliciosamente quando aparece como um anjo de luz; o pretexto de um bem maior é, frequentemente, o que encobre o mal maior.

[1) Apareceriam “falsos profetas” (vv. 11- 24). Os enganadores fingiriam ter inspiração divina, uma missão imediata e um espírito de profecia, quando tudo isso era uma mentira. Assim eles tinham sido anteriormente (Jeremias 23.16; Ezequiel 13.6), como havia sido predito (Deuteronômio 13.3). Alguns pensam que os enganadores aqui indicados eram pessoas que tinham se estabelecido como professores na igreja, e tinham conquistado reputação por sê-lo, mas posteriormente traíram a verdade que tinham ensinado e se voltaram para o erro; e de pessoas assim, o perigo é ainda maior, porque elas são mais insuspeitas. Um falso traidor nas tropas pode causar mais mal que mil arqui-inimigos de fora.

 

[2] Apareceriam falsos Cristos: “Muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo” (v. 5), estes assumirão o nome peculiar a Ele, dizendo: “Eu sou o Cristo” – “falsos cristos” (v. 24). Havia, naquela época, uma expectativa geral pelo aparecimento do Messias; falava-se dele como sendo aquele que viria; mas quando Ele realmente veio, a nação o rejeitou; disso, aqueles que tinham ambição de serem famosos se aproveitaram, e se passaram por Cristo. Josefo fala de diversos impostores deste tipo, entre essa ocasião e a destruição de Jerusalém; um Teudas, que foi derrotado por Cóspio Fado. Outro, por Félix, outro, por Festa. Dosetheus disse que era o Cristo profetizado por Moisés. Veja Atos 5.36,37. Simão, o mágico, fingiu ter “a grande virtude de Deus” (Atos 8.10). Nos anos posteriores, houve pessoas que fingiram como ele; um deles, cerca de cem anos depois de Cristo, chamava a si mesmo de Barcochobas – O filho de uma estrela, mas, na verdade, era Barcosba – O filho de uma mentira. Aproximadamente cinquenta anos antes, Sabbati-Levi tinha se estabelecido como Messias no império turco, e foi muito querido pelos judeus; mas dentro de pouco tempo, foi revelada a sua tolice. A religião papista, na verdade, estabelece um falso Cristo. O papa se apresenta, em nome de Cristo, como seu substituto, mas invade e usurpa todos os seus ofícios, e passa a ser seu rival; e como tal, torna-se seu inimigo, um enganador, e um anticristo.

[3] Esses falsos Cristas e falsos profetas teriam seus agentes e emissários trabalhando em todos os lugares, para atrair pessoas (v. 23). Então, quando os problemas públicos forem grandes e ameaçadores, e as pessoas estiverem procurando qualquer coisa que se pareça com libertação, Satanás irá se aproveitar e impor-se a elas. Eles dirão: Eis aqui o Cristo, ou: Ei-lo ali; mas não acreditem neles: o verdadeiro Cristo não luta, não clama, nem foi dito sobre Ele: “Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali”! (Lucas 17.21), portanto, se alguém disser isso sobre Ele, considere que é uma tentação. Os eremitas, cuja religião é vivida em uma vida monástica, dizem: Ele está no deserto; os sacerdotes, que dizem que a hóstia consagrada é Cristo, dizem: Ele está no interior da casa. “Eis que Ele está neste santuário, naquela imagem”. Desta maneira, alguns se apropriam da presença espiritual de Cristo, em benefício de um grupo ou de uma crença, como se tivessem o monopólio de Cristo e do cristianismo; e assim pensam que o reino de Cristo deve erguer-se e cair, viver e morrer, com eles. “Eis que Ele está nesta igreja, ou naquele concílio”. Mas “Cristo é tudo em todos”, e assim não é possível ficar dizendo que Ele está aqui ou ali; pois Ele vai ao encontro do seu povo com uma bênção em todos os lugares onde Ele registra o seu nome.

(2) A prova que eles ofereceriam por fazer o bem com esses pretextos: eles “farão tão grandes sinais e prodígios” (v. 24). Não seria m milagres verdadeiros, aqueles que são um selo divino, e com os que se confirma a doutrina de Cristo; portanto, se alguém tentar nos atrair por tais sinais e prodígios, nós devemos recorrer àquela regra dada antigamente (Deuteronômio 13.1-3): “Quando profeta ou sonhador de sonhos se levantar no meio de ti e te der um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio, de que te houver falado, dizendo: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras daquele profeta ou sonhador de sonhos, porquanto o Senhor, vosso Deus, vos prova”. Mas esses eram “prodígios de mentira” (2 Tessalonicenses 2.9), operados por Satanás (com a permissão de Deus), que é “o príncipe das potestades do ar”. Não foi dito: Eles realizarão milagres, mas sim: Eles farão grandes sinais. Eles nada são, além de um espetáculo; ou influenciam a credulidade dos homens por falsas narrativas, ou enganam os seus sentidos com truques de prestidigitação, ou artes de adivinhação, como faziam os mágicos do Egito com seus encantos.

(3) O sucesso que eles teriam nos seus esforços:

[1] Eles “enganarão a muitos” (v. 5), e novamente no versículo 11. Observe que o diabo e os seus instrumentos podem vencer ao enganar pobres almas; poucos encontram a porta estreita, mas muitos são atraídos para o caminho mais largo: muitos serão influenciados pelos seus sinais e prodígios, e muitos serão atraídos pelas esperanças de libertação dos seus sofrimentos. Observe que nem milagres nem multidões são sinais seguros de uma verdadeira igreja; pois “toda a terra se maravilhou após a besta” (Apocalipse 13.3).

[2] Eles, “se possível fora, enganariam até os escolhidos”, v. 24. Isto sugere, em primeiro lugar, o poder da ilusão. Este poder será tal, que muitos serão fascinados por ele (tão forte será a corrente), mesmo aqueles que julgavam que iriam resistir. O conhecimento dos homens, os dons, o estudo, a situação eminente, e o longo tempo de profissão de fé, nada irá protegê-los; mas, apesar deles, muitos serão enganados; nada, exceto a graça onipotente de Deus, de acordo com o seu eterno objetivo, será uma proteção. Em segundo lugar, a segurança dos eleitos em meio ao perigo, que é sugerida pelas palavras: “se fora possível”, dando a entender, claramente, que isto não é possível, pois eles estão protegidos pelo poder de Deus, para que o propósito de Deus, de acordo com a eleição, possa persistir (Hebreus 6.4,5,6). Se os escolhidos de Deus fossem enganados, a escolha de Deus seria derrotada, o que não é imaginável, pois aos que Ele “predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Romanos 8.30). Eles foram dados a Cristo, e ele todos os que lhe foram dados, Ele não perderá nenhum (João 10.2 8). Grotius interpretou isso como significando a maior dificuldade em afastar os cristãos primitivos da sua religião, e cita que isto era usado proverbialmente por Galen. Quando ele queria expressar algo que era muito difícil e moralmente impossível, ele dizia, “é mais fácil afastar um cristão de Cristo”.

(4) Os avisos repetidos que o nosso Salvador dá aos seus discípulos, para que se acautelem contra eles. Ele lhes deu avisos para que pudessem estar vigilantes (v. 25): “Eis que eu vo- lo tenho predito”. Aquele que é avisado de que será atacado, poderá se salvar, como fez o rei de Israel (2 Reis 6.9,10). Observe que os avisos de Cristo têm o objetivo de despertar a nossa vigilância, e embora os eleitos sejam preservados do engano, eles serão preservados através do uso dos meios indicados, e de uma devida consideração aos avisos da Palavra. Nós somos protegidos, pela fé, pela fé na Palavra de Cristo, daquilo que Ele nos adverte com antecedência.

[1] Não devemos crer naqueles que dizem: “Eis que o Cristo está aqui ou ali” (v. 23). Nós cremos que o Cristo verdadeiro está à destra de Deus, e que a sua presença espiritual está onde estiverem dois ou três reunidos em seu nome; não devemos crer; portanto, naqueles que tentam nos afastar de um Cristo no céu, dizendo que Ele está em algum lugar aqui na terra; ou que tentam nos afastar da igreja universal na terra, dizendo que Ele está aqui, ou que está ali; “não acrediteis”. Observe que não existe maior inimigo da fé verdadeira do que a credulidade vã. O simples crê em cada palavra, e persegue cada clamor.

[2] Não devemos seguir aqueles que dizem: “Eis que ele está no deserto”, ou: “Eis que ele está no interior da casa” (v. 26). Não devemos dar ouvidos a todo fingidor e empírico, nem seguir a todos os que erguem o dedo para nos indicar um novo Cristo e um novo Evangelho. “Não os sigam, pois se o fizerem, vocês estarão correndo perigo de serem levados por eles; por isso, não permaneçam no caminho do mal, não sejam “levados em roda por todo vento de doutrina”; a vã curiosidade de muitos homens em segui-los os levou a uma apostasia fatal; a sua força, nessa situação, consiste em permanecer quietos, para que tenham o coração estabilizado com graça”.

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MATEUS 24: 1 – 3

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Predições Terríveis

Aqui, temos:

I –  Cristo deixando o Templo, e concluindo o seu trabalho público ali. Ele havia dito, no final do capítulo anterior: ”A vossa casa vos ficará deserta”; e aqui Ele cumpre suas palavras: “Jesus ia saindo do templo”. A expressão é notável; Ele não apenas saiu do Templo, mas partiu dele, deu-lhe o seu último adeus. Ele partiu, para nunca mais voltar ali. E imediatamente segue-se uma predição da sua destruição. Observe que aquela casa realmente é deixada deserta quando Cristo parte. ”Ai deles, quando deles me apartar” (Oseias 9.12; veja Jeremias 6.8). Então era a hora de lamentar a sua Icabô, “Foi-se a glória”, “retirou-se deles o seu amparo”. Três dias depois disso, o véu do Templo se rasgou; quando Cristo o deixou, tudo ali tornou-se “comum e impuro”; mas Cristo não partiu, até que eles o expulsassem; não os rejeitou, até que eles o rejeitassem primeiro.

II – O sermão particular de Jesus aos seus discípulos. Ele deixou o Templo, mas não deixou os doze, que seriam a semente da igreja cristã, enriquecida pela expulsão dos judeus. Quando Ele deixou o Templo, os seus discípulos também o deixaram, e aproximaram-se dele. Observe que é bom estar onde Cristo está, e abandonar aquilo que Ele abandona. Eles aproximaram-se dele para serem instruídos em particular, quando a sua pregação pública estivesse concluída, pois “o segredo do Senhor é para os que o temem”. Ele tinha falado à multidão sobre a destruição da instituição judaica sob a forma de parábolas, que aqui, como normalmente fazia, Ele explica aos seus discípulos. Observe:

1. ”Aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo “. Era uma estrutura muito bonita, e majestosa, uma das maravilhas do mundo; nenhum custo foi poupado, nenhum tipo de arte foi deixado de lado, para torná-lo suntuoso. Embora ele não se comparasse ao Templo de Salomão, e fosse pequeno no início, ele realmente cresceu mais tarde. Ele era ricamente adornado com ofertas, às quais contínuos acréscimos eram feitos. Eles mostraram a Cristo essas coisas, e desejaram que Ele também as observasse:

(1) Porque eles mesmos estavam muito satisfeitos com elas, e esperavam que Ele também estivesse. Eles tinham vivido principalmente na Galileia, distantes do templo, raras vezes o tinham visto, e, portanto, estavam grandemente tocados de admiração por ele, e pensaram que Jesus admiraria toda essa glória, tanto quanto eles (Genesis 31.1); e eles queriam que Ele se distraísse (depois da sua pregação, e da sua tristeza, que eles viam que talvez quase o esmagasse) olhando à sua volta. Observe que até mesmo os homens bons são capazes de ficar excessivamente impressionados com a pompa exterior e a alegria, e de supervalorizá-las, até mesmo nas coisas de Deus; quando deveriam estar, como Cristo estava, insensíveis a isso, e considerá-las com desprezo. O Templo era verdadeiramente glorioso, mas:

[1] A sua glória estava suja e manchada com o pecado dos sacerdotes e do povo; aquela doutrina maléfica dos fariseus, que preferiam o ouro ao Templo que o santificava, era suficiente para desfigurar a beleza de todos os ornamentos do Templo.

[2] A sua glória era eclipsada e destruída pela presença de Cristo nele, pois Ele era a glória “desta última casa” (Ageu 2.9), de modo que o edifício não tinha glória, em comparação com esta glória que se sobressaía.

Ou:

(2) Porque lamentavam que esta casa ficasse deserta. Eles lhe mostraram as estruturas, como se pudessem motivá-lo a reverter a sentença; “Senhor, não permita que esta casa santa e bela, onde os nossos pais o louvaram, fique deserta”. Eles se esqueceram de quantas providências, a respeito do Templo de Salomão, tinham evidenciado quão pouco Deus se importava com esta glória externa que eles tanto tinham admirado. Deus se preocupava mais com as pessoas; se eram boas ou más (2 Crônicas 7.21). Essa casa, que é exaltada, o pecado destruirá. Cristo tinha, recentemente, considerado as almas preciosas, e chorado por elas (Lucas 19.41). Os discípulos consideram as estruturas pomposas, e estão prontos a chorar por elas. Nisso, como em outras coisas, os pensamentos do Senhor não são como os nossos. Era uma fraqueza, e pobreza de espírito, dos discípulos, preocuparem-se tanto com as lindas estruturas; isto era uma infantilidade.

2. Cristo, em seguida, prediz a destruição completa que estava por vir a este lugar (v. 2). Observe que uma previsão confiante da desfiguração de toda a glória mundana irá nos ajudar para que deixemos de admirá-la e supervalorizá-la. O corpo mais bonito, em breve, será alimento de vermes, e o edifício mais bonito, um monte de ruínas. E então nós colocaremos os nossos olhos naquilo que, em breve, não mais existirá, e dedicaremos tanta admiração àquilo que, dentro de pouco tempo, consideraremos com tanto desprezo? “Não vedes tudo isto?” Eles queriam que Cristo considerasse essas coisas, e se importasse tanto com elas como eles se importavam. Ele queria que eles estivessem tão mortos para essas coisas como Ele estava. Existe uma visão dessas coisas que nos fará bem; vê-las de modo a ver através delas, e ver o fim delas.

Cristo, ao invés de reverter as suas palavras, as confirma: “Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada”.

(1) Ele fala disso como uma destruição certa. “‘Eu vos digo’. Eu, que sei o que Eu digo, e sei como fazer cumprir o que Eu digo. Aceitai a minha palavra, pois isto irá acontecer. Eu, o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, vos digo isto”. Como todo o julgamento pertence ao Filho, as ameaças, assim como as promessas, são nele sim; e por ele o Amém (Hebreus 6.17,18; 2 Coríntios 1.20).

(2) Ele fala disso como uma destruição completa. O Templo não será somente despojado, e saqueado, e desfigurado, mas será completamente demolido e devastado: “Não ficará aqui pedra sobre pedra”. Na construção do segundo Templo, chamou-se a atenção para a colocação de pedra sobre pedra (Ageu 2.15); e aqui, na destruição, para não deixar pedra sobre pedra. A história nos conta que isto se cumpriu mais tarde; pois embora Tito, quando tomou a cidade, tivesse feito tudo o que podia para preservar o Templo, não conseguiu impedir que os soldados furiosos o destruíssem completamente; e isto foi feito a tal ponto, que Turno Rufo arou o local onde ele tinha estado; assim se cumpriu esta passagem das Escrituras (Miqueias 3.12): “Por causa de vós, Sião será lavrado como um campo”. E depois disso, na época de Juliano, o Apóstata (quando ele incentivou os judeus a reconstruírem o Templo, em oposição à religião cristã), aquilo que restava das ruínas foi completamente destruído, para nivelar o terreno, para uma nova fundação; mas a tentativa foi frustrada pela milagrosa erupção de fogo no terreno, que destruiu a fundação que eles tinham lançado, e assustou os construtores. Esta predição da destruição final e irreparável do Templo inclui uma predição do fim do sacerdócio levítico e da lei cerimonial.

3. Os discípulos, não discutindo nem a verdade nem a justiça dessa sentença, nem duvidando do seu cumprimento, perguntam mais especificamente sobre quando isso viria a acontecer, e sobre os sinais de que isso estivesse próximo (v. 3). Observe:

(1) Quando eles fizeram essa pergunta: em particular, quando Ele estava “assentado no monte das Oliveiras”. Provavelmente, Ele estava voltando para Betânia, e ali sentou-se, para descansar. O monte das Oliveiras estava voltado diretamente para o Templo, e dali Ele podia ter uma visão geral do Templo, a alguma distância. Ali Ele sentou-se, como um Juiz no tribunal, tendo o templo e a cidade diante de si, como na corte; e assim Ele passou a sua sentença sobre eles. Nós lemos (Ezequiel 11.23) sob moção da glória do Senhor do Templo para o monte; as­ sim Cristo, o grande Shequiná, aqui vai para este monte.

(1) Qual foi a pergunta propriamente dita: “Quando serão essas coisas e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” Aqui há três perguntas.

[1] Alguns pensam que todas essas perguntas apontam para uma única coisa – a própria destruição do templo e o fim da organização religiosa e da nação judaicas, de que o próprio Cristo tinha falado como sendo a sua vinda (cap. 26.28), e que seriam a consumação dos tempos (pois assim pode ser interpretado), o final daquela dispensação. Ou pensam que a destruição do Templo precisa ser o fim do mundo. Se aquela construção fosse destruída, o mundo não poderia continuar; pois os rabinos costumavam dizer que a casa do santuário era um dos sete motivos pelos quais o mundo fora criado; e eles pensavam que o mundo não sobreviveria ao Templo.

[2] Outros opinam que a pergunta: “Quando serão essas coisas?” se refere à destruição de Jerusalém, e as outras duas se referem ao fim do mundo, ou a vinda de Cristo pode se referir à fundação do seu reino mencionado no Evangelho, e o fim do mundo ao dia do juízo. Eu estou inclinado a pensar que a sua pergunta não ia além do evento que Cristo então predizia; mas parece, por outras passagens, que os discípulos tinham ideias muito confusas sobre os eventos futuros, de modo que talvez não seja possível atribuir nenhum significado seguro a essa pergunta.

Mas Cristo, na sua resposta, embora não corrija expressamente os enganos dos seus discípulos (isto deverá ser feito através do derramamento do Espírito), ainda vai além da pergunta deles, e instrui a sua igreja, não somente a respeito dos grandes acontecimentos daquela época, da destruição de Jerusalém, mas também ares­ peito da sua segunda vinda, no final dos tempos, sobre o que Ele passa, de maneira imperceptível, a falar aqui, e de que Ele fala claramente no próximo capítulo, que é uma continuação desse sermão.

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MATEUS 24: 32 – 51 – PARTE III

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A Parábola da figueira. Predições terríveis. O dever da vigilância. O bom e o mau administrador

III – Há aqui uma exortação geral a nós, para que vigiemos e estejamos preparados para aquele dia que se aproxima, uma exortação reforçada por diversas considerações importantes (vv.42ss). Considere:

1.  A tarefa exigida: “Vigiai. pois. porque não sabeis a que hora há de v:ir…estai vós apercebidos (vv. 42,44).

(1)  “Vigiai, pois” (v. 42). Observe que vigiar é o maior dever e interesse de todos os discípulos de Cristo, que devem estar e se manterem despertos, para que possam cuidar da sua vida. Assim como um estado ou comporta ­ mento pecaminoso é comparado a dormir, como estando desacordado e inativo (1 Tessalonicenses 5.6), também um estado ou comportamento de graça é comparado a vigiar e despertar. Nós devemos esperar a vinda do nosso Senhor, a nós, em particular, na nossa morte, depois da qual segue-se o juízo, que é o grande dia para nós, o fim do nosso tempo; e a sua vinda no final de todos os tempos, para julgar o mundo, o grande dia para toda a humanidade. Vigiar implica não somente em crer que o nosso Senhor virá, mas também desejar que Ele venha, estar sempre pensando na sua vinda, e procurá-la como sendo certa e próxima, embora a sua ocasião seja desconhecida. Vigiar pela vinda de Cristo é manter aquele espírito de graça e aquela disposição mental com que devemos estar desejosos de que o nosso Senhor, quando vier, nos encontre. Vigiar é estar ciente das primeiras notícias da sua chegada, para que possamos imediatamente atender às suas ordens, e nos apresentarmos ao dever de encontrá-lo. Vigiar é uma atitude que ocorre, supostamente, à noite, que é o horário de dormir; enquanto nós estivermos neste mundo, a noite estará conosco, e precisaremos nos esforçar para nos mantermos despertos.

(2)  “Estai vós apercebidos também”. Nós desperta­ remos em vão, se não estivermos preparados. Não é suficiente procurar tais coisas; devemos, portanto, viver de forma diligente (2 Pedro 3.11,14). Nós teremos o nosso Senhor, a quem deveremos acompanhar, e assim precisaremos ter as nossas lâmpadas prontas. Há uma causa para ser julgada, e nós devemos ter a nossa apelação já preparada e assinada pelo nosso Advogado; uma prestação de contas para fazer, e devemos ter as nossas contas já declaradas e equilibradas. Existe uma herança que esperamos receber, e nós devemos estar preparados, dignos de participar dela (Colossenses 1.12).

2. As razões que nos induzem a essa vigilância e preparação diligente para aquele dia; e são duas.

(1)  Porque o dia da vinda do nosso Senhor é completamente incerto. Esta é a razão imediatamente anexa à dupla exortação (vv. 42,44), e é exemplificada por uma comparação (v. 43). Consideremos:

[1] Que não sabemos a que hora há de vir o nosso Senhor (v. 42). Nós não sabemos o dia da nossa morte (Genesis 27.2). Podemos saber que temos apenas pouco tempo de vida (“O tempo da minha partida está próximo”, 2 Timóteo 4.6), mas não podemos saber quanto tempo teremos, pois as nossas almas estão continuamente em nossas mãos. Também não podemos saber quanto tempo de vida nos resta, pois pode acabar sendo menos do que esperávamos; muito menos sabemos o dia fixado para o grande juízo. A respeito dos dois dias, nós somos mantidos na incerteza, para que possamos, todos os dias, esperar por aquilo que poderá vir qualquer dia; nunca podemos nos orgulhar de mais um ano (Tiago 4.13), não, nem do retorno do amanhã, como se este nos pertencesse (Provérbios 27.1; Lucas 12.20).

[2] Que Ele há de vir à hora em que não pensamos (v. 44). Embora exista tal incerteza quanto à hora, não há nenhuma incerteza quanto à sua vinda. Embora não saibamos quando Ele virá, temos plena certeza de que Ele virá. As suas palavras de despedida foram: “Certamente, cedo venho”. As suas palavras: “Certamente venho”, nos compelem a esperá-lo. As suas palavras: “Cedo venho”, nos compelem a estar sempre esperando por Ele; pois isto nos deixa numa condição de expectativa. “À hora em que não penseis”, isto é, nesta hora, quando não estão prontos nem preparados, quando nem imaginam (v. 50); ou melhor, numa hora, naquela em que a maioria consideraria improvável. O esposo veio quando as prudentes estavam dormindo. E conveniente à nossa condição atual que estejamos sob a influência de uma expectativa geral e constante, em vez da influência de presságios e prognósticos particulares, que, às vezes, somos tentados, inutilmente, a desejar e esperar.

[3] Para que os filhos deste mundo sejam, consequentemente, sábios na sua geração, para que, se souberem de um perigo próximo, se mantenham despertos e mantenham a sua guarda contra este. O Senhor nos mostra isso em um exemplo particular (v. 43). Se o pai de família soubesse que um ladrão viria em certa noite, e a certa vigília da noite (pois a noite era dividida em quatro vigílias, de três horas cada uma), e tentaria arrombar a sua casa, ainda que fosse a vigília da meia-noite, quando ele teria mais sono, ainda assim estaria acordado, ouviria todos os ruídos em todos os cantos, e estaria preparado para oferecer ao ladrão a resistência adequada. Embora nós não saibamos exatamente quando o nosso Senhor virá, ainda assim, sabendo que Ele virá, e que virá sem demora, e sem nenhum outro aviso além dos que Ele já deu em sua Palavra, é interesse nosso vigiar sempre. Observe, em primeiro lugar, que cada um de nós tem uma casa para manter, que está exposta; tudo o que temos está nesta casa. Esta casa é a nossa própria alma, que nós devemos conservar com toda a diligência. Em segundo lugar, o dia do Senhor vem inesperadamente, como um ladrão. Cristo decide vir quando Ele é menos esperado, para que os triunfos dos seus inimigos possam ser convertidos na maior vergonha deles, e os temores dos seus amigos se transformem na maior alegria. Em terceiro lugar, se Cristo, quando vier, nos encontrar adormecidos e despreparados, a nossa casa será invadida e nós perderemos tudo o que tivermos, não injustamente, para um ladrão, mas por um processo justo e legal. A morte e o juízo tomarão tudo o que os despreparados tiverem, para seu prejuízo irreparável e completa destruição. Por isso, devemos estar preparados; “estai vós apercebidos também”; tão preparados, em todos os momentos, como o bom homem da casa estaria à hora em que esperasse o ladrão; nós devemos vestir a armadura de Deus para que possamos não apenas permanecer naquele dia mau, mas para que, como mais que vencedores, possamos repartir os despojos.

(2)  Porque o resultado da vinda do nosso Senhor será muito feliz e consolador para aqueles que forem encontrados preparados, mas muito triste e assustador para os demais (vv.45ss.). Isto é representa do pela situação diferente do servo bom e do mau, quando o seu senhor vem para acertar as contas com eles. Será bom ou mau para nós, por toda a eternidade; tudo depende de sermos encontrados preparados ou despreparados, naquele dia, pois Cristo dará a cada um segundo as suas obras. Esta parábola, que conclui o capítulo, se aplica a todos os cristãos, que são, por profissão e obrigação, servos de Deus. Mas ela parece destinada, em especial, como uma advertência aos ministros, pois o servo de que se fala é um administrador. Observe o que Cristo diz aqui:

[1] A respeito do servo bom. O Senhor mostra aqui que aquele é um administrador da casa; sendo assim, ele deveria ser fiel e prudente; e se fosse assim, seria eternamente bem-aventurado. Aqui há boas instruções e bons incentivos aos ministros de Cristo.

Em primeiro lugar, temos aqui o seu lugar e trabalho. Ele é aquele que o Senhor tornou administrador da sua casa, para dar o sustento a cada um a seu tempo. Observe:

1. A igreja de Cristo é a sua casa, ou família. Ele é o Pai e Mestre. É a casa de Deus, uma família que toma o nome de Cristo (Efésios 3.15).

2. Os ministros do Evangelho são nomeados administradores nessa casa. Não como príncipes (Cristo advertiu contra isso), mas como administradores, ou outros encarregados subordinados; não como senhores, mas como guias; não para prescrever novos caminhos, mas para mostrar e conduzir nos caminhos que Cristo indicou. Este é o significado de hegoum enoi, que traduzimos: governando sobre vós (Hebreus 13.17). Como supervisores, não para interromper nenhum novo trabalho, mas para orientar e acelerar a obra que Cristo ordenou; este é o significado de episcopoi bispos. Eles são governantes por Cristo; qualquer poder que eles tenham deriva dele, e ninguém pode tomá-lo deles, ou reduzi-lo. Jesus é aquele a quem Deus Pai fez governante; e Cristo tem o poder de fazer ministros. Eles são governantes sob Cristo, agindo subordinados a Ele; e governantes para Cristo, para o progresso do seu reino.

3. O trabalho dos ministros do Evangelho é de dar à casa de Cristo o seu sustento a seu tempo, como administradores, e por isso eles têm as chaves da casa.

(1) O seu trabalho é dar, e não tomar para si mesmos (Ezequiel 34.8), mas dar à família o que o Mestre trouxe, distribuir o que Cristo comprou. E aos ministros foi dito: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20.35).

(2) Trata-se de dar sustento, e não a lei (isto é função de Cristo), mas transmitir à igreja essas doutrinas, que, se devidamente digeridas, serão alimento para as almas. Eles devem dar, não o veneno das falsas doutrinas, não as pedras das doutrinas duras e infrutíferas, mas o sustento que é saudável e que faz bem.

(3) O sustento deve ser dado a seu tempo, en kairo enquanto há tempo para isso; quando vier a eternidade, será tarde demais; nós precisamos trabalhar enquanto é dia: isto é, sempre que houver qualquer oportunidade; ou no tempo indicado, continuamente, conforme exija o de­ ver de cada dia.

Em segundo lugar, a sua liberação desse ofício. O bom servo, se assim o preferir, será um bom administrador; pois:

1. Ele é fiel; os administradores devem ser fiéis (1 Coríntios 4.2). Aquele a quem algo é confiado, deve ser confiável; e quanto mais lhe é confiado, mais se espera dele. É uma coisa boa e grandiosa que é confiada aos ministros (2 Timóteo 1.14); e eles precisam ser fiéis, como Moisés também o foi (Hebreus 3.2). Cristo considera os ministros que são fiéis, e somente eles (1 Timóteo 1.12). Um ministro fiel de Jesus Cristo é alguém que deseja sinceramente a honra do seu Mestre, não a sua própria; este transmite integralmente a Palavra de Deus, não as suas próprias fantasias e ideias; ele segue as instituições de Cristo e adere a elas; considera os mais humildes, reprova os mais poderosos e não respeita a aparência das pessoas.

2. Ele é sábio para compreender o seu dever e a ocasião apropriada para ele. E para guiar o rebanho é necessária não apenas a integridade do coração, mas a habilidade das mãos. A honestidade pode ser suficiente para um bom servo, mas a sabedoria é necessária para um bom administrador; pois orientar é um trabalho frutífero.

3. Ele trabalha, como exige o seu cargo. O ministério é uma boa obra, e aqueles que têm este trabalho sempre têm alguma coisa para fazer; eles não devem permitir-se descansar, nem deixar o trabalho inacabado, nem descuidadamente passá-lo a outros, mas precisam estar trabalhando, e trabalhando para alcançar os objetivos do seu trabalho, dando sustento à casa, cuidando dos seus deveres e não se envolvendo no que não lhe diz respeito; trabalhando como o Mestre ordenou, como importa ao cargo, e como exige a situação da família; não conversar, mas trabalhar. Este era o lema que o Sr. Perkins usava: Minister verbi es Você é um ministro da Palavra. Não apenas Age Trabalhe, mas Hoc age Trabalhe assim.

1- Ele é encontrado trabalhando quando chega o seu Mestre, o que indica:

(1) Constância no seu trabalho. A qualquer hora em que chegue o seu Mestre, ele será encontrado ocupado com o trabalho. Os ministros não devem deixar lacunas no seu tempo, para que o Senhor não os encontre parados por ocasião da sua volta. Assim como para o Deus benigno o fim de uma misericórdia é o início de outra, também para um homem bom, um bom ministro, o fim de um dever é o início de outro. Quando tentaram persuadir Calvino a diminuir os seus deveres ministeriais, ele respondeu, com ressentimento: “Vocês desejam que o meu Mestre me encontre ocioso?”

(2) Perseverança no seu trabalho, até a chegada do Senhor. “Retende-o até que eu venha” (Apocalipse 2.25). “Persevera nestas coisas” (1 Timóteo 4.16; 6.14). Persevere até o fim.

Em terceiro lugar, a recompensa destinada ao servo fiel, em três aspectos:

1. Ele será notado. Isto está indicado nestas palavras: “Quem é, pois, o servo fiel e prudente?” Isto dá a entender que poucos têm esta qualidade; um administrador tão fiel e prudente será um entre mil. Àqueles que se distinguirem pela humildade, diligência e sinceridade no seu trabalho, Cristo, no grande dia, honrará e distinguirá através da glória que lhes será conferida.

2. Ele será bem-aventurado. “Bem-aventurado aquele servo”; e Cristo, ao dizer isto, o torna bem-aventurado. “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor” (Apocalipse 14.13). Mas há uma bênção especial garantida àqueles que se mostram administradores fiéis, e são encontrados trabalhando. Ao lado da honra daqueles que morrem no campo de batalha, sofrendo por Cristo, como os mártires, está a honra daqueles que morrem no campo de trabalho, arando, e semeando, e colhendo, por Cristo.

3. Ele será preferido (v. 47); [Ele] “o porá sobre todos os seus bens”. A alusão é ao caminho dos grandes homens: se os administradores da sua casa se conduzem bem, eles normalmente os preferem para que sejam os administradores das suas propriedades. Assim José foi preferido na casa de Potifar (Genesis 29.4,6). Mas a maior honra que o senhor mais gentil já fez aos seus servos mais experimentados neste mundo não é nada, quando comparada ao peso da glória que o Senhor Jesus irá conferir aos seus servos fiéis e vigilantes, no mundo vindouro. O que aqui é dito, em comparação, é a mesma coisa dita, mais claramente, em João 12.26: “Meu Pai o honrará”. E os servos de Deus, quando assim preferidos, serão perfeitos em sabedoria e santidade, para sustentar o peso daquela glória, para que estes servos não representem perigo, quando reinarem.

[2] A respeito do servo mau, temos aqui:

Em primeiro lugar, a descrição que é dada a respeito dele (vv. 48,49), onde temos o infeliz com as suas características. A mais vil das criaturas é um homem mau, o mais vil dos homens é um mau cristão, e o mais vil entre eles é um mau ministro. O que é melhor; quando corrompido, torna-se o pior. A maldade nos profetas de Jerusalém é verdadeiramente uma coisa horrível (Jeremias 23.14). Aqui está:

1. A causa da sua maldade, que é uma descrença prática na segunda vinda de Cristo. Ele diz no seu coração: o meu Senhor atrasa a sua vinda; e por isso começa a pensar que Ele nunca virá, e que abandonou a sua igreja. Considere que:

(1) Cristo sabe o que dizem, nos seus corações, aqueles que com seus lábios clamam: “Senhor, Senhor”, como este servo.

(2) A demora da vinda de Cristo, embora seja um exemplo gracioso da sua paciência, é muito mal interpretada pelas pessoas más, cujos corações, desta maneira, se endurecem, com os seus métodos de iniquidade. Quando a vinda de Cristo é considerada duvidosa, ou algo que está a uma distância imensa, o coração do homem se torna inteiramente disposto a praticar o mal (Eclesiastes 8.11). Veja Ezequiel 12.27. Aqueles que caminham pelos seus sentidos estão prontos para falar, a respeito do Jesus invisível, como o povo falou sobre Moisés, quando ele se demorou no monte, depois da sua peregrinação: “Não sabemos o que lhe sucedeu” portanto “levanta-te, faze-nos deuses”; o mundo é um deus, o nosso ventre é um deus, qualquer coisa pode ser um deus, porém nunca será o Deus verdadeiro.

2. As particularidades da sua iniquidade. E esses são pecados de primeira grandeza; o ímpio é um escravo das suas paixões e dos seus apetites.

(1)  Aqui ele é acusado de perseguição. Ele começa a espancar os seus conservos. Veja que:

[1] Até mesmo os administradores mais importantes da casa devem considerar os servos da casa como seus conservos, e por isso estão proibidos de agir como se fossem senhores deles. Se o anjo se considerava conservo de João (Apocalipse 19.10), não é de admirar que João tivesse aprendido a se considerar um irmão dos cristãos das igrejas da Ásia (Apocalipse 1.9).

[2] Não é novidade ver maus servos ferindo os seus conservos; tanto cristãos em particular quanto ministros fiéis. Ele os fere, seja porque eles o reprovam, seja porque eles não o reverenciam; não dizem o que ele diz, e não fazem o que ele faz, agindo contra as suas consciências: ele os fere com a língua, da mesma maneira como eles feriram o profeta (Jeremias 18.18). E se ele tiver poder nas mãos, ou puder pressionar aqueles que o têm, como os dez chifres sobre a cabeça da besta, isso continuará. Pasur, o sacerdote, feriu o profeta Jeremias, e o meteu no tronco (Jeremias 20.2). Aqueles que se insurgem contra Deus têm descido até ao profundo, na matança (Oseias 5.2). Quando o administrador fere os seus conservos, o faz deturpando a autoridade do seu Mestre, e no seu nome. Ele diz: “O Senhor seja glorificado” (Isaias 66.5), mas ele virá a saber que não poderia ter feito afronta pior ao seu Mestre.

(2) Profanação e imoralidade. Ele começa a comer e a beber com os bêbados.

[1] Ele se associa aos piores pecadores, se relaciona com eles, é íntimo deles. Ele caminha sob a orientação deles, segue o caminho deles, senta-se na cadeira deles e canta as canções deles. Os bêbados são os companheiros, alegres e joviais, e aqueles a quem ele prefere, e por isso ele fortalece a sua iniquidade.

[2] Ele age como eles; “come, e bebe e folga”, assim consta no texto de Lucas. Isto é uma introdução a todos os tipos de pecado. A embriaguez é uma iniquidade dominante; aqueles que são seus escravos, nunca são senhores de si mesmos em qualquer outro aspecto. Os perseguidores do povo de Deus normalmente têm sido os homens mais maldosos e imorais. As consciências dos perseguidores, quaisquer que sejam os argumentos, normalmente são as mais corruptas e pervertidas. De que não se embriagam aqueles que se embriagam com o sangue dos santos? Esta é a descrição de um mau ministro, que, apesar disso, ainda pode ter os dons do ensino e do discurso sobre os demais; e, como foi dito sobre alguns, este tipo de obreiro pode pregar tão bem no púlpito, que seja uma pena que ele deva sair dali, e ainda assim viver de maneira tão má fora do púlpito, que seja uma pena que ele deva subir ali.

Em segundo lugar, é apresentada a sua condenação (vv. 50,51). A “capa” e o caráter dos maus ministros não os protegem da condenação, mas a agrava grandemente. Eles não podem reivindicar que estejam fora do alcance ou da jurisdição de Cristo, nem da jurisdição dos magistrados civis; os clérigos não possuem nenhum benefício no tribunal de Cristo. Considere:

1. A surpresa que irá acompanhar a sua condenação (v. 50): “Virá o senhor daquele servo”. Então:

(1) O fato de nós adiarmos os pensamentos sobre a vinda de Cristo não irá adiar a sua vinda. Não importa com o quê alguém procure se iludir; o seu Senhor virá. A descrença do homem não tornará sem efeito aquela grande promessa, ou ameaça (você pode chamá-la como quiser).

(2) A vinda de Cristo será uma surpresa terrível para os pecadores seguros e descuidados, especialmente para os maus ministros: “virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera”. Aqueles que desprezaram os avisos da Palavra, e calaram os avisos das suas próprias consciências, a respeito do juízo futuro, não podem pretender esperar quaisquer outras advertências; serão considerados como tendo recebido suficientes avisos legais, tenham estes sido aceitos ou não; e não se pode acusar a Cristo de nenhuma injustiça se Ele vier repentinamente, sem qualquer aviso. Ele já nos falou a este respeito anteriormente.

2. A severidade da sua condenação (v. 51). Ela não é mais severa do que justa, mas é uma condenação que traz a destruição completa, envolta por duas palavras terríveis: morte e condenação.

 

(1)  Morte. O seu Senhor o separará. “Ele o separará da terra dos vivos”, da congregação dos justos, irá separá-lo para o mal; esta é uma definição de maldição (Deuteronômio 29.21). Ele o derrubará, como uma árvore que sobrecarrega o solo; talvez isto seja uma alusão à sentença frequentemente usada na lei: “Esta alma será extirpada do seu povo”, o que sugere uma extirpação completa. A morte separa um bom homem, assim como um escolhido é separado para ser enxertado em um rebanho melhor; mas ela também separa um homem mau, assim como um galho seco é separado quando o fogo o separa deste mundo. Ou, como podemos interpretar, Ele o separará, isto é, separará o corpo da alma, enviará o corpo à sepultura, para ser uma presa dos vermes, e a alma para o inferno, para ser uma presa dos demônios; e assim o pecador é separado. Na morte, a alma e o corpo de um homem temente e obediente a Deus se separam da maneira adequada; a primeira é alegremente levada à presença de Deus, e o segundo é deixado para a terra. Mas a alma e o corpo de um homem iníquo, na morte, são separados, pois para eles a morte é o rei dos terrores (Jó 18.14). O mau servo se divide entre Deus e o mundo, entre Cristo e Belial, entre a sua profissão de religião e os seus desejos; portanto, com justiça, ele também será dividido.

(2)  Condenação. Ele “destinará a sua parte com os hipócritas”, e será uma porção miserável, pois “ali haverá pranto”. Observe que:

[1] Há um lugar e um estado de miséria perpétua no outro mundo, onde não há nada, exceto pranto e ranger de dentes; o que expressa a tribulação e a angústia da alma sob a indignação e a ira de Deus.

[2] A sentença divina designará este lugar e esta­ do como a porção daqueles que, por seu próprio pecado, foram preparados para ele. Até àquele de quem Ele disse, que dizia que Ele era o seu Senhor, designará, desta maneira, a sua porção. Aquele que agora é o Salvador, será, então, o Juiz, e o estado perpétuo dos filhos dos homens será como Ele designar. Eles, que escolhem o mundo por sua porção nesta vida, terão o inferno por sua porção na outra vida. “Esta, da parte de Deus, é a porção do homem ímpio” (Jó 20.29).

[3] O inferno é o lugar apropriado para os hipócritas. Este servo perverso tem sua porção com os hipócritas. Eles são, como eram, os proprietários livres, outros pecadores são meramente como moradores com eles, e têm somente uma porção da sua miséria. Quando Cristo desejava expressar o mais severo castigo no outro mundo, Ele o chamava de “a porção dos hipócritas”. Se houver algum lugar no inferno mais ardente que outro, como é provável que haja, ele será a parte daqueles que têm a forma, mas odeiam o poder da piedade.

[4] Os ministros perversos terão a sua porção no outro mundo com os piores dos pecadores, certamente com os hipócritas, e com justiça, pois eles são os piores dos hipócritas. O sangue de Cristo, que eles têm, por suas profanações, pisado sob os seus pés, e o sangue das almas, que eles têm, por sua deslealdade, trazido sobre as suas cabeças, os oprimirão naquele lugar de tormento. “Filho, lembra-te”, será como o corte de uma palavra a um ministro, se ele perecer, como a qualquer outro pecador. Que eles, portanto, que pregam aos outros, temam, para que eles mesmos não sejam reprovados.

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MATEUS 24: 32 – 51 – PARTE II

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A Parábola da figueira. Predições terríveis. O dever da vigilância. O bom e o mau administrador

II – Para essa finalidade, nós devemos esperar esses eventos: para que possamos nos preparar para eles, e aqui temos um aviso contra a segurança e a sensualidade, que farão dele um dia realmente funesto para alguns (vv. 37-41). Nesses versículos, nos é dada uma ideia do Dia do Juízo, que pode servir para nos chocar e despertar, para que não durmamos, como os outros.

Será um dia surpreendente, e um dia separador.

1. Será um dia surpreendente, como o dilúvio foi para o mundo antigo (vv. 37-39). O que Ele pretende descrever aqui é a postura do mundo com a vinda do Filho do Homem. Além da sua primeira vinda, para salvar, Ele tem outra vinda, para julgar. Ele disse (João 9.39): “Eu vim a este mundo para juízo”; e para juízo Ele virá, pois todo julgamento foi confiado a Ele, tanto o da Palavra quanto o da espada.

Isto se aplica:

(1)  A julgamentos temporais, particularmente àquele que então se precipitava sobre a nação e o povo judeus. Embora eles tivessem recebido muitos avisos, e tivesse havido muitos prodígios que eram presságios desse juízo, ainda assim ele os encontrou seguros, gritando: “Paz e segurança” (1 Tessalonicenses 5.3). O cerco a Jerusalém foi realizado por Tito, quando era Páscoa e eles estavam em meio à sua felicidade. Como os homens de Laís, eles viviam despreocupados quando a destruição os atacou (Juízes 18.7,27). A destruição da Babilônia, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, surge quando ela disse: “Eu serei senhora para sempre” (Isaias 47.7-9; Apocalipse 18.7). Por isso as pragas vêm em um momento, em um dia. Observe que a incredulidade dos homens não tornará as ameaças de Deus sem efeito.

(2)  Ao juízo eterno; assim é chamado o julgamento do Grande Dia (Hebreus 6.2). Embora Enoque tenha dado avisos, ainda assim, quando ele vier, será inesperado para a maioria dos homens. Os últimos dias, que são mais próximos daquele dia, irão produzir escarnecedores que dirão: “Onde está a promessa da sua vinda?” (2 Pedro 3.3,4; Lucas 18.8). Assim será quando o mundo que existe agora for destruído pelo fogo; pois assim foi, quando o mundo antigo, tendo sido inundado com água, pereceu (2 Pedro 3.6,7). Cristo mostra então qual era o espírito e a postura do mundo antigo, quando veio o dilúvio.

[1] Eles eram sensuais e mundanos; comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento. Não está dito que eles estavam matando, roubando, prostituindo-se e blasfemando (estes eram realmente os crimes horríveis de alguns, entre os piores; a terra estava cheia de violência), mas eles estavam, todos eles, exceto Noé, sem esperança no mundo, e sem considerar a Palavra de Deus; e isto os destruiu. Observe que a negligência universal da religião é um sintoma mais perigoso, para qualquer pessoa, do que exemplos particulares, aqui e ali, de uma ousada falta de religiosidade. Comer e beber são coisas necessárias à preservação da vida do homem; casar-se e dar-se em casamento são coisas necessárias à preservação da humanidade. Mas, se forem realizadas de forma lícita. Em primeiro lugar; eles eram irracionais, desordenados e buscavam exclusivamente os prazeres dos sentidos, e os ganhos do mundo; estavam completamente dominados por essas coisas, eles viviam de uma forma elementar, como se não existissem para nenhuma outra finalidade, a não ser comer e beber (Isaias 56.12). Em segundo lugar, eles eram irracionais. Estavam completamente atentos ao mundo e à carne, quando a destruição estava à porta, destruição da qual tinham tido tantos avisos. Estavam comendo e bebendo, quando deveriam estar se arrependendo e orando. Deus, pelo ministério de Noé, os convocou a chorarem e a se lamentarem, para que, mais tarde, tivessem alegria e satisfação. Isto era, para eles, como depois o foi para Israel, um pecado imperdoável (Isaias 22.12,14), especialmente porque eles o faziam desafiando aqueles avisos, pelos quais de­ viam ter despertado. “‘Comamos e bebamos, que amanhã morreremos’; se é preciso ter uma vida curta, que seja alegre”. O apóstolo Tiago fala disso como sendo o costume geral dos judeus ricos antes da destruição de Jerusalém. Quando deviam estar chorando e pranteando por suas misérias, que sobre eles haveriam de vir, eles estavam se deleitando e cevando seus corações, como num dia de matança (Tiago 5.1,5).

[2] Eles estavam seguros e despreocupados, e não o perceberam, até que veio o dilúvio (v. 39). Não o perceberam! Certamente, eles não podiam ter deixado de saber. Deus, por meio de Noé, não tinha lhes dado muitos avisos disso? Ele não os tinha convidado ao arrependimento, enquanto os aguardava em sua longanimidade? (1 Pedro 3.19,20). Mas eles não o perceberam, isto é, eles – não creram; eles podiam ter sabido, mas não quiseram saber. Observe que, quanto àquilo que nós conhecemos das coisas que pertencem à nossa paz eterna, se não o mesclarmos com a fé, e o aperfeiçoarmos, é como se não tivéssemos conhecido. O fato de eles não conhecerem acompanha o fato de comerem, beberem, e se casarem; pois, em primeiro lugar; eles eram sensuais, porque eram seguros. A razão pela qual as pessoas são tão ansiosas na busca, e tão envolvidas nos prazeres deste mundo, é que não conhecem, nem creem, nem consideram a eternidade em que estão prestes a entrar. Se nós soubéssemos, de modo adequado, que todas estas coisas em breve serão dissolvidas, e que certamente devemos sobreviver a elas, não concentraríamos nossos olhos e corações sobre elas, não tanto como o fazemos. Em segundo lugar, eles eram seguros, porque eram sensuais; eles não sabiam que o dilúvio se aproximava, porque estavam comendo e bebendo; eles estavam tão dominados pelas coisas visíveis e presentes, que não tinham tempo nem coragem para se preocupar em com as coisas não vistas, embora tivessem sido avisados delas. Assim como a segurança fortalece os homens na sua sensualidade brutal, também a sensualidade os “embala” na sua segurança carnal. Eles não o perceberam, até que veio o dilúvio.

2. O dilúvio veio, embora eles não o antevissem. Observe que aqueles que não querem aprender pela fé, aprenderão experimentando a ira de Deus, que lhes será revelada, do céu, contra a sua impiedade e injustiça. O dia do mal nunca está tão distante que os homens não possam afastá-lo ainda mais.

3. Eles não o perceberam, até que foi tarde demais para evitá-lo, como poderiam ter feito se o tivessem percebido a tempo, o que tornava tudo ainda mais lamentável. Os juízos são mais terríveis e espantosos para aqueles que se sentem seguros, e para os que zombaram deles.

Temos a aplicação disso, a respeito do mundo antigo, nas seguintes palavras: ”Assim será também a vinda do Filho do Homem”, isto é:

(1) Nessa condição, Ele encontrará pessoas comendo e bebendo, e não esperando por Ele. Observe que a segurança e a sensualidade provavelmente serão as epidemias dos últimos dias. Todos tosquenejam e adormecem, e à meia-noite o esposo vem. Todas sem vigiar, e descansadas.

(2) O Senhor virá a eles com esse poder, e com esse objetivo. Da mesma maneira como o dilúvio levou os pecadores do mundo antigo de uma forma irresistível e irrecuperável, também os peca­ dores seguros, que zombaram de Cristo e da sua vinda, serão levados pela ira do Cordeiro, quando vier o grande dia da sua ira, que será como a vinda do dilúvio; uma destruição da qual não se pode fugir.

4. Este será um dia separador (vv. 40,41): “Haverá dois no campo”. Isto pode ser aplicado de duas maneiras:

(1)  Nós podemos aplicar essa palavra ao sucesso do Evangelho, especialmente na sua primeira pregação. Ele dividiu o mundo; alguns creram nas coisas que foram ditas, e foram levados até Cristo; outros não creram, e foram abandonados para perecer na sua incredulidade. Aqueles da mesma idade, do mesmo lugar, capacidade, emprego e condição, no mundo, que moíam no mesmo moinho, os da mesma família, aqueles que estavam unidos pelo mesmo laço de casamento – um deles será chamado, e o outro será deixado na tristeza da amargura. Essa é aquela divisão, aquele fogo de dissensão que Cristo veio trazer (Lucas 12.49,51). Isso torna a graça gratuita ainda mais obrigatória do que diferenciadora; a nós, e não ao mundo (João 14.22), ou melhor, a nós, não àqueles que estão no mesmo campo, no mesmo moinho, na mesma casa.

Quando a destruição se abateu sobre Jerusalém, uma distinção foi feita pela Divina Providência, de acordo com o que havia sido feito anteriormente pela divina graça. Pois todos os cristãos entre eles estavam salvos de perecer naquela calamidade, por proteção especial do Céu. Se dois deles estavam trabalhando juntos no campo, e um deles era um cristão, ele era levado a um lugar de abrigo, e tinha a sua vida conserva da com o um despojo, ao passo que os outros eram deixa dos para a espada do inimigo. Se apenas duas mulheres estivessem moendo no moinho, e se uma delas pertencesse a Cristo, embora fosse apenas uma mulher, uma pobre mulher, uma serva, ela seria levada a um lugar de abrigo, e a outra seria abandonada. Assim os mansos da terra estariam escondidos no dia da ira do Senhor (Sofonias 2.3), fosse no céu, ou sob o céu. Observe que a preservação diferenciada, em tempos de destruição geral, é um sinal especial do favor de Deus, e assim deve ser reconhecida. Se nós estamos a salvo quando milhares caem à nossa direita e à nossa esquerda, se nós não somos consumidos quando outros o são à nossa volta, de modo que nós somos como tições arrancados do fogo, temos razão para dizer que isso é misericórdia de Deus, e uma grande misericórdia.

(2) Nós podemos aplicar isso à segunda vinda de Jesus Cristo, e à separação que se fará naquele dia. Ele havia dito anteriormente (v. 31) que os escolhidos serão reunidos. Aqui Ele nos diz que, para que isso aconteça, eles serão diferenciados daqueles que estão mais próximos a eles neste mundo; aqueles que são chamados e escolhidos são levados à glória; os demais são abandonados para que pereçam por toda a eternidade. Aqueles que dormem no pó da terra, na mesma sepultura, com as cinzas misturadas, ressuscitarão, uns para “a vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12.2). Esta palavra é aplicada aqui àqueles que estiverem vivos. Cristo virá de forma inesperada, encontrará as pessoas ocupadas com seus afazeres usuais no campo e no moinho; e então, conforme sejam eles vasos de misericórdia prepara dos para a glória, ou vasos da ira preparados para a perdição, este fato acontecerá com eles. Um será levado para encontrar o Senhor e os seus anjos nos ares, para estar eternamente com Ele e com eles; o outro será deixado para Satanás e os seus demônios, que, depois de Cristo ter reunido os seus, varrerão o resíduo. Isto tornará a condenação dos pecadores ainda mais grave, o fato de outros serem removidos do seu meio para a glória, e eles serem deixados para trás. E isto transmite abundante consolo ao povo do Senhor.

[1] Eles são humildes e desprezados no mundo, como o servo no campo, ou a mulher no moinho (Êxodo 11.5)? Ainda assim, eles não serão esquecidos, nem negligenciados naquele dia. Os pobres no mundo, os ricos em fé, são os herdeiros do Reino.

[2] Eles estão dispersos por lugares distantes e improváveis. Onde ninguém esperaria encontrar os herdeiros da glória? No campo, no moinho? Ainda assim, os anjos os encontrarão (escondidos como Saul, quando devem ser entronizados), e dali os levarão. E é justo que se diga que eles serão mudados, pois será uma grande mudança; ir para o céu, em vez de arar e moer.

[3] Eles são fracos e incapazes de se dirigirem ao céu? Eles serão levados, ou tomados, assim com Ló foi tirado de Sodoma por uma graciosa violência (Genesis 19.16). Cristo nunca perderá aqueles que já são dele, aqueles de quem Ele já se apossou.

[4] Eles estão misturados com outros, relacionados com eles, nas mesmas casas, sociedades, e trabalhos materiais? Que isto não desencoraje nenhum verdadeiro cristão. Deus sabe como separar o precioso do vil, o ouro e o lixo no mesmo monte, o trigo e a palha na mesma eira.

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MATEUS 24: 32 – 51 – PARTE I

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A Parábola da Figueira. Predições Terríveis. O Dever da Vigilância. O Bom e o Mau Administrador

 

Aqui temos a aplicação prática da predição anterior. De maneira geral, nós devemos esperar e estar prepara­ dos para os eventos aqui preditos.

I – Nós devemos esperá-los. “‘Aprendei, pois, esta parábola da figueira’ (vv. 32,33). Agora aprendei que uso fazer das coisas que ouvistes; observai e conhecei os sinais dos tempos, comparando-os com as predições da Palavra, para, a partir daqui, poderem prever o que está à porta, para que possais prover de maneira adequada”. A parábola da figueira nada mais é que isso, o seu germinar e o seu florescer são um presságio do verão; pois assim como as cegonhas no céu, também as árvores no campo conhecem o seu tempo. O início da realização das causas secundárias nos assegura do seu progresso e da sua perfeição. Assim, quando Deus começa a cumprir profecias, Ele alcança o seu objetivo. Existe uma série determinada nas obras da providência, assim como existe nas obras da natureza. Os sinais dos tempos são comparados com os prognósticos da “face do céu” (cap. 16.3), e também aqui, com os da face da terra – quando ela se renova, nós prevemos que o verão se aproxima, não imediatamente, mas depois de algum tempo. Quando “os ramos se tornam tenros”, nós podemos esperar, por exemplo, os ventos de março e as chuvas de abril em nosso país, antes da vinda do verão. No entanto, temos a certeza de que o verão se aproxima. Da mesma maneira, nós podemos confiar que quando o dia do Evangelho amanhecer, por meio dessa variedade de eventos que o Senhor nos revelou, o dia perfeito virá. As coisas reveladas devem acontecer em breve (Apocalipse 1.1). Elas devem acontecer na sua própria ordem, na ordem indicada para elas. “Sabei que ele está próximo”. Jesus não diz aqui o que está próximo, mas é aquilo que está nos corações dos seus discípulos, e sobre o que eles fazem perguntas, e pelo que anseiam. O Reino de Deus está próximo, como está dito na passagem paralela (Lucas 21.31). Note que quando as árvores da justiça começam a brotar e florescer, quando o povo de Deus promete fidelidade, é um feliz presságio de bons tempos. Neles, Deus inicia a sua obra, preparando primeiro os seus corações. E então Ele prosseguirá com o seu plano; pois, no que diz respeito a Deus, a sua obra é perfeita, e Ele a avivará no meio dos anos.

Quanto aos eventos preditos aqui, temos algo a esperar.

1. Cristo nos assegura aqui da certeza desses acontecimentos (v. 35): “O céu e a terra passarão”. Eles ainda continuam a existir em nossos dias, de acordo com as ordens de Deus; mas não continuarão para sempre (Salmos 102.25,26; 2 Pedro 3.10). “Mas as minhas palavras não hão de passar”. Note que a palavra de Cristo é mais confiável e duradoura do que o céu e a terra. “Diria ele e não o faria?” Nós podemos edificar com mais segurança sobre a palavra de Cristo do que sobre as colunas do céu, ou as fortes fundações da terra; pois quando elas estiverem trêmulas e cambaleantes, e não existirem mais, a palavra de Cristo ainda permanecerá, e estará em pleno vigor, em plena força e virtude (veja 1 Pedro 1.24,25). É mais fácil o céu e a terra passarem do que alguma letra da palavra de Cristo não se cumprir (Lucas 16.17. Compare com Isaias 54.10). O cumprimento dessas profecias pode parecer ter sido atrasado, e os eventos intervenientes podem parecer não estar em conformidade com elas, mas não pense que por isso a Palavra de Deus terá desmoronado, pois ela nunca passará; mesmo que ela não se cumpra, nem na época ou da maneira como prescrevemos; ainda assim, no tempo de Deus, que é o melhor tempo, e da maneira de Deus, que é a melhor maneira, certamente ela se cumprirá. Cada palavra de Cristo é muito pura, e, consequentemente, muito confiável.

2. O Senhor Jesus os instrui aqui quanto à época em que essas coisas aconteceriam (vv. 34,36). Quanto a isso, o sábio Grotius bem observa que existe uma distinção evidente feita entre tauta (v. 34) e ekein e (v. 36), “essas coisas” e “daquele dia e hora”, o que irá ajudar a esclarecer essa profecia.

(1)  Quanto a essas coisas, as guerras, os enganos e as perseguições aqui preditos, e em particular, a destruição da nação judaica: ‘”Não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam’ (v. 34). Há aqueles que agora estão vivos que verão Jerusalém destruída, e o fim da instituição judaica”. Como isso poderia parecer estranho, o Senhor apoia este fato com uma afirmação solene. ‘”Em verdade vos digo’. Vós tendes a minha Palavra; estas coisas estão às portas”. Cristo frequentemente fala da proximidade daquela desolação, para tocar as pessoas e estimulá-las a se prepararem para ela. Pode haver provações e dificuldades diante de nós, na nossa época, maiores do que estamos cientes. Os mais velhos não sabem que filhos de Anaque podem estar reservados para os seus próprios encontros.

(2)  “Porém daquele Dia e hora” que porá um fim no tempo, “ninguém sabe” (v. 36). Por isso, tomem cuidado para não confundir estes dias, como eles faziam, baseando-se nas palavras de Cristo e nas epístolas dos apóstolos, inferindo que o dia de Cristo já estava perto (2 Tessalonicenses 2.2). Não, não estava; esta geração e muitas outras irão passar antes que cheguem aquele dia e aquela hora. Observe:

[1] Existe um determinado dia e hora para o julgamento que há de vir; ele é chamado de Dia do Senhor, porque é fixado de maneira imutável. Nenhum dos julgamentos de Deus é adiado sine die sem a fixação de um dia determinado.

[2] Este dia e esta hora são um grande segredo.

Nenhum homem o sabe; nem o mais sábio, pela sua sagacidade, nem o melhor, por qualquer descoberta divina. Todos nós sabemos que haverá est e dia, mas ninguém sabe quando isso acontecerá; nem os anjos, embora a sua capacidade de conhecimento seja grande, e as suas oportunidades de terem essa informação sejam vantajosas (eles habitam na fonte de luz), e embora eles devam ser empregados na solenidade daquele dia, nem por isso sabem quando será: “ninguém sabe,… mas unicamente meu Pai”. Este é um dos segredos que pertencem ao Senhor, nosso Deus. A incerteza da ocasião da vinda de Cristo é, para aqueles que são vigilantes, um cheiro de vida para vida, e os torna ainda mais vigilantes; mas para aqueles que são descuidados, é um cheiro de morte para morte, e os torna ainda mais descuidados.

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MATEUS 23: 34-39

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A Culpa e a destruição de Jerusalém

Nós deixamos os guias cegos caídos na vala, sob a condenação de Cristo, na condenação do inferno; vejamos o que acontecerá com os seguidores cegos do povo judeu, e em especial, com Jerusalém.

I –  Jesus Cristo deseja ainda testá-los com os meios da graça: “Eu vos envio profetas, sábios e escribas”. A conexão é estranha. “Vós sois uma ‘raça de víboras’, provavelmente não escapareis “da condenação do inferno”; poderíamos pensar que a seguir viria: “Portanto, nunca mais haverá um profeta enviado a vós”. Mas não: “Portanto, ‘eu vos envio profetas’, para ver se finalmente ainda podeis ser transformados, ou para vos considerar imperdoáveis e para justificar a Deus, que vos designará a ruína”. Portanto, aqui está a introdução com uma observação: “eis que”. Considere que:

1. É Cristo quem os envia: “eu vos envio”. Com isso, Ele declara que é Deus, que tem poder para dotar e comissionar profetas. É um ato de Rei. Ele os envia como embaixadores, para tratar conosco dos problemas das nossas almas. Depois da sua ressurreição, Ele cumpriu essa promessa, quando disse que estava enviando os discípulos (João 20.21). Embora, naquele momento, o Senhor estivesse revestido de uma aparência humilde, a Ele havia sido confiada essa grande autoridade.

2. Ele os enviou primeiro aos judeus: “Eis que eu vos envio”. Eles começaram em Jerusalém e, aonde quer que fossem, eles observavam esta regra, de estender a oferta da graça do Evangelho primeiro aos judeus (Atos 13.46).

3. Aqueles que Ele envia são chamados de “profetas”, “sábios” e “escribas”. Nomes do Antigo Testamento para agentes do Novo Testamento; para mostrar que os ministros enviados a eles então não seriam inferiores aos profetas do Antigo Testamento, nem ao sábio Salomão, nem a Esdras, o escriba. Os ministros extraordinários, que, nos primeiros tempos, eram inspirados divinamente, eram como os profetas comissionados diretamente do céu; os ministros normalmente nomeados, que existiam naquela época, e ainda continuam na igreja, e continuarão até o fim dos tempos, são como os sábios e escribas, para guiar e instruir as pessoas nos assuntos de Deus. Ou podemos interpretar os apóstolos e evangelistas como sendo os profetas e sábios, e os pastores e professores como sendo os escribas, “instruídos acerca do Reino dos céus” (cap. 13.52), pois o ofício de um escriba era honroso até que os homens o desonraram.

II – Jesus prevê e prediz o mau tratamento que os seus mensageiros irão encontrar entre os escribas e fariseus. “‘A uns deles matareis e crucificareis’. E ainda assim, Eu os enviarei”. Cristo sabe de antemão como os seus servos serão maltratados e ainda assim Ele os envia, e atribui a cada um a sua medida de sofrimentos. Mas Ele não os ama menos, para expô-los dessa maneira, pois Ele deseja glorificar a si mesmo através dos sofrimentos deles, e assim eles também serão glorificados com Ele. Ele irá contrabalançar os sofrimentos, embora não os evite. Observe:

1. A crueldade desses perseguidores: ”A uns deles matareis e crucificareis”. Eles não têm sede de nada além do sangue, o sangue da vida; o seu desejo não se satisfaz com nada, exceto a destruição daqueles enviados por Deus (Êxodo 15.9). Eles mataram os dois Tiagos, crucificaram Simão, o filho de Clopas, e espancaram Pedro e João; assim os membros participaram dos sofrimentos da Cabeça. Jesus foi morto e crucificado, e eles também. Os cristãos devem esperar “resistir até ao sangue”.

2. O seu esforço incansável. “E os perseguireis de cidade em cidade”. A medida que os apóstolos iam de cidade em cidade, para pregar o Evangelho, os judeus os desviavam, e perseguiam, e suscitavam perseguição contra eles (Atos 14.9; 17.13). Aqueles que não criam, na Judéia, eram inimigos mais amargos do Evangelho que qualquer outro incrédulo (Romanos 15.31).

3. O pretexto de religião nessas atividades: ”A outros deles açoitareis nas vossas sinagogas”. A sinagoga era o seu lugar de adoração, onde eles mantinham as suas cortes eclesiásticas; assim, eles faziam como se fosse um serviço religioso; expulsavam-nos e diziam: “O Senhor seja glorificado” (Isaias 66.5: João 16.2).

III – O Senhor lhes atribui os pecados dos seus pais, porque eles os imitavam: “Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra” (vv. 35,36). Embora Deus tolere por muito tempo uma geração perseguidora, Ele não a tolerará para sempre. O abuso da paciência produz uma ira muito maior. Quanto mais tempo os pecadores vierem acumulando tesouros de iniquidade, mais profundos e completos serão os tesouros da ira; e a sua destruição será como a destruição das fontes profundas.

Considere:

1. A extensão dessa atribuição: ela inclui todo o sangue dos justos, derramado sobre a terra, isto é, o sangue derramado em nome da justiça, que foi todo acumulado no tesouro de Deus, e nem uma gota dele se perdeu, pois é precioso (Salmos 72.14). Ele começa o registro com “o sangue de Abel, o justo”, pois então esta era de mártires começou; ele é chamado de ”Abel, o justo”, pois ele “alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons” (Hebreus 11.4). Como o martírio entrou cedo no mundo! O primeiro que morreu, morreu pela sua religião, e “depois de morto, ainda fala”. O seu sangue não somente gritou contra Caim, mas continua a gritar contra todos os que trilham o caminho de Caim, e odeiam e perseguem o seu irmão, porque as suas obras são justas. Ele acrescenta a ele o “sangue de Zacarias, filho de Baraquias” (v. 36), não o profeta Zacarias (como alguns interpretaram), embora ele fosse filho de Baraquias (Zacarias 1.1), nem Zacarias, o pai de João Batista, como dizem outros; mas, como é mais provável, Zacarias, o filho de Joiada, que foi morto “no pátio da casa do Senhor” (2 Crônicas 24.20,21). O seu pai é chamado Baraquias, que tem o mesmo significado que Joiada, e é usual entre os judeus que a mesma pessoa tenha dois nomes: “que matastes”, ou seja, os desta nação, embora não desta geração. Isto é especificado, porque essa exigência foi especificamente mencionada (2 Crônicas 24.22), como também no caso da de Abel. Os judeus imaginavam que o cativeiro tinha sido suficiente para expiar a culpa, mas Cristo lhes comunica que esta ainda não havia sido completamente expiada, e assim permanecia a contagem de anos. E alguns pensam que isso é mencionado com uma indicação profética, pois houve um Zacarias, o filho de Baruque, de quem Josefo falou (War, liv. 5, cap. 1), que foi um homem bom e justo, e que foi morto no Templo pouco antes da sua destruição pelos romanos. O arcebispo Tillotson opina que Cristo faz uma alusão à história do primeiro Zacarias, das Crônicas, e, ao mesmo tempo, prevê a morte desse posterior, mencionado por Josefo. Embora o segundo tenha sido assassinado pouco antes que viesse a destruição, é verdade que eles o teriam assassinado, de modo que tudo deve ser computado em conjunto, desde o primeiro até o último.

2. O efeito: “Todas essas coisas hão de vir”; toda a culpa desse sangue, todo o seu castigo, tudo isto virá sobre esta geração. A desgraça e a ruína que viriam sobre eles seriam tão grandes que, embora considerando o mal dos seus próprios pecados, pareceriam um somatório geral de toda a maldade dos seus ancestrais, especialmente das suas perseguições, com as quais Deus declara que essa ruína tem uma relação especial. A destruição será tão terrível, que será como se Deus os tivesse, de uma vez por todas, condenado, por todo o sangue dos justos que foi derramado no mundo. “Todas essas coisas hão de vir sobre esta geração”, o que dá a entender que virão rapidamente; alguns deles estariam vivos para ver isso. Observe que, quanto mais doloroso e próximo estiver o castigo do pecado, mais alto será o chamado para o arrependimento e a correção.

IV – Jesus lamenta a maldade de Jerusalém, e corretamente os lembra dos muitos tipos de ofertas que Ele lhes tinha feito (v. 37). Veja com que preocupação Ele fala da cidade: “Jerusalém, Jerusalém”. A repetição é enfática, e evidencia abundância de compaixão. Um dia ou dois antes disso, Cristo havia chorado por Jerusalém, agora Ele suspirava e gemia por ela. Jerusalém, o lugar de Paz (que é o que o nome significa), seria lugar de guerra e confusão. Jerusalém que tinha sido “o gozo de toda a terra”, seria então um assobio, e um espanto, e um provérbio. Jerusalém, que tinha sido uma cidade unida, seria então destruída pelos próprios tumultos internos. Jerusalém, o lugar que Deus tinha escolhido para ali colocar o seu nome, seria abandonada à pilhagem e aos ladrões (Lamentações 1.1; 4.1). Mas por que o Senhor irá fazer tudo isso a Jerusalém? Por quê? “Jerusalém gravemente pecou” (Lamentações 1.8).

1. Ela perseguiu os mensageiros de Deus: “Matas os profetas e apedrejas os que te são enviados”. Jerusalém é especialmente acusada desse pecado, porque ali ficava o sinédrio, ou o grande conselho, que considerava as questões da igreja, e por isso um profeta não poderia morrer fora de Jerusalém (Lucas 13.33). É verdade que eles não tinham então o poder de condenar nenhum homem à morte, mas eles matavam os profetas em meio a tumultos, cercavam-nos, como fizeram com Estêvão, e mobilizavam as autoridades romanas para matá-los. Em Jerusalém, onde o Evangelho foi pregado pela primeira vez, também ali foi perseguido pela primeira vez (Atos 8.1), e naquele lugar estava o quartel-general dos perseguidores; dali, eram emitidas ordens a outras cidades, e para ali, os santos eram trazidos presos (Atos 9.2). O “apedrejamento” era uma sentença de morte usada somente entre os judeus. Segundo a lei, os falsos profetas e os enganadores deviam ser apedrejados (Deuteronômio 13.10), e usando a mesma lei, eles levavam à morte os verdadeiros profetas. Observe que o artifício de Satanás sempre foi voltar contra a igreja a mesma artilharia que foi originalmente plantada em defesa dela. Marque os verdadeiros profetas como sendo enganadores, e os que professam verdadeiramente a religião como sendo hereges e cismáticos, e será fácil persegui-los. Havia abundância de outros tipos de maldade em Jerusalém, mas esse era o pecado que mais se evidenciava, e o pecado mais visado por Deus ao trazer sobre eles a destruição, como visto em 2 Reis 24.4; 2 Crônicas 36.16. Observe que Cristo fala no tempo presente do verbo: “matas… e apedrejas”; pois tudo o que eles tinham feito, e tudo o que ainda iriam fazer, era do conhecimento de Cristo.

2. Ela recusou e rejeitou a Cristo, e às ofertas do Evangelho. Essa primeira atitude era um pecado sem remédio; a segunda, era o mesmo que agir contra o remédio. Aqui temos:

(1)  A maravilhosa graça de Cristo para eles: “Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas”. As ofertas da graça do Evangelho são assim generosas e condescendentes, até mesmo para os filhos de Jerusalém; embora esta cidade fosse má, os seus habitantes, os pequeninos, não foram excluídos.

[1] A graça proposta era a reunião dessas pessoas. O desejo de Cristo é reunir as pobres almas, reuni-las, removendo-as de suas perambulações, trazê-las para casa, para si, como o centro da unidade, pois “a ele se congregarão os povos”. Ele teria levado toda a nação judaica à igreja, e assim os teria reunido a todos (assim como os judeus costumavam falar de prosélitos) sob as asas da Divina Majestade. Isto é aqui exemplificado por uma analogia simples: “como a galinha ajunta os seus pintos”. Cristo os teria reunido, em primeiro lugar, com um afeto terno, como o da galinha, que tem, por instinto, uma preocupação particular pela sua cria. O desejo de Cristo de reunir as almas vem do seu amor (Jeremias 31.3). Em segundo lugar, com o mesmo objetivo. ”A galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas”, para a proteção e a segurança deles, assim como calor e conforto. As pobres almas têm em Cristo abrigo e também alívio. Os pintinhos, quando são ameaçados por aves de rapina, correm naturalmente para a galinha, à procura de abrigo; talvez Cristo se refira a esta promessa (Salmos 91.4): “Ele te cobrirá com as suas penas”. Cristo trará salvação “debaixo das suas asas” (Malaquias 4.2); isto é mais do que a galinha pode fazer pelos seus pintinhos.

[2] A presteza de Cristo em conceder essa graça. As suas ofertas são, em primeiro lugar, inteiramente gratuitas. “Quis eu”. Jesus Cristo está verdadeiramente disposto a receber e salvar as pobres almas que vêm até Ele. Ele não deseja a sua destruição, mas se alegra com o seu arrependimento. Em segundo lugar, muito frequentes. “Quantas vezes”. Cristo frequentemente vinha a Jerusalém, pregando e realizando milagres ali. E o significado de tudo isso era que Ele gostaria de tê-los reunido. Ele registrou quantas vezes os seus chamados foram repetidos. Cada vez que ouvimos o som do Evangelho, cada vez que sentimos os esforços do Espírito, também podemos entender que Cristo está nos trazendo para mais perto de si.

[3] A rejeição voluntária da graça de Jesus por parte de Jerusalém: “Tu não quiseste!” Com que ênfase a sua teimosia se opõe à misericórdia de Cristo! “Quis eu… e tu não quiseste”. Ele desejava salvá-los, mas eles não queriam ser salvos por Ele. Observe que o fato de os pecadores não serem reunidos sob as asas do Senhor Jesus se deve exclusivamente às suas más intenções. Eles não gostaram dos termos nos quais Cristo se propôs a reuni-los; eles adoravam os seus pecados e também tinham certeza de que eram justos; eles não se sujeitariam nem à graça de Cristo, nem ao seu governo, e assim se rompeu a tentativa de acordo.

V – Ele fala do destino de Jerusalém (vv. 38,3 9): “Eis que a vossa casa vos ficar á deserta “. Tanto a cidade quanto o Templo, a casa de Deus e as casas dos habitantes, tudo seria arrasado. Mas o significado particular diz respeito ao Templo, de que eles se orgulhavam e que lhes tinha sido confiado; aquele monte sagrado, que os fazia tão arrogantes. Observe que aqueles que não forem reunidos pelo amor e pela graça de Cristo serão consumidos e espalhados pela sua ira: “Quis eu… e tu não quiseste”. “Israel não me quis. Pelo que eu os entreguei aos desejos do seu coração” (Salmos 81.11,12).

1. A casa deles ficará deserta: ”A vossa casa vos fica­ rá deserta”. Cristo estava então saindo do Templo, e nunca mais voltou a ele, mas, com essas palavras, o entregou à destruição. Eles teriam aquele Templo para si mesmos. Cristo não tinha lugar ali, nem se interessavam por Ele. “Bem”, disse Jesus, “o Templo então fica com vocês; façam bom proveito dele; nunca mais terei alguma coisa a ver com ele”. Eles tinham feito do Templo uma “casa de vendas”, e um “covil de ladrões”, e assim sendo, ficaria para eles. Pouco tempo depois disso, ouviu-se a voz no Templo: “Vamos partir daqui”. Quando Cristo partiu, “Icabô, foi-se a glória”. A cidade também foi deixada para eles, destituída da presença e da graça de Deus. Ele já não era mais um muro de fogo ao redor deles, nem a glória entre eles.

2. Ela ficará desolada: ” vos ficará deserta”. Ela ficará ermos um deserto.

(1)  Imediatamente depois da partida de Cr isto, o Templo se tornou, aos olhos de todos aqueles que não estavam fora de si, um lugar muito triste e melancólico. A partida de Cristo transforma o lugar mais bem enfeitado e abastecido em um deserto, mesmo em se tratando do Templo, o lugar para onde afluía o maior número de pessoas. Pois que consolo pode haver em um lugar onde Cristo não está? Embora possa haver ali uma multidão com outros contentamentos, se a presença espiritual especial de Cristo não estiver ali, aquela alma, aquele lugar, se torna um deserto, uma terra de trevas, como as próprias trevas. Isto é o resultado dos homens rejeitando a Cristo, e afastando-o de si.

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MATEUS 23: 13-33 – PARTE III

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Os Crimes dos Fariseus 

 

VII – Eles fingiam sentir muito carinho pela lembrança dos profetas que estavam mortos, enquanto odiavam e perseguiam aqueles que estavam com eles. Isso é deixado para o final, porque era a pior característica do seu caráter. Deus zela pela sua honra nas suas leis e cerimônias, e se ressente se elas forem profanadas e deturpadas, mas Ele frequentemente expressa um zelo igual pela sua honra nos seus profetas e ministros, e se ressente ainda mais se alguém os trata mal ou os persegue; portanto, quando o nosso Senhor Jesus chega a esse ponto, Ele fala mais completamente do que sobre qualquer outro (vv. 29-37); pois o que toca um de seus ministros, toca o seu ungido, e “toca na menina do seu olho”. Aqui, observe:

1. O respeito que os escribas e fariseus fingiam sentir pelos profetas que já estavam mortos (vv. 29,30). Este era o verniz, aquilo que lhes dava a aparência exterior de justos.

(1)  Eles honravam os restos mortais e relíquias dos profetas, edificavam os seus túmulos e adornavam os seus sepulcros. Aparentemente, os lugares onde estavam enterrados eram conhecidos, e a sepultura de Davi estava entre eles (Atos 2.29). Havia um título sobre a “sepultura do homem de Deus” (2 Reis 23.17), e Josias julgou que era suficientemente respeitoso não mover os seus ossos (v. 18). Mas eles faziam mais que isso, eles reconstruíam e adornavam os sepulcros. Considere, então:

[1] Como um exemplo da honra dada aos profetas mortos, que, enquanto viviam, eram considerados párias, e era dito falsamente, a seu respeito, todo o tipo de coisas ruins. Note que Deus pode arrancar, até mesmo de homens maus, um reconhecimento da honra da piedade e da santidade. Deus honrará aqueles que o honram; e às vezes o Senhor usará, para isto, aqueles de quem só se pode esperar o desprezo (2 Samuel 6.22). A memória dos justos é abençoada, enquanto os nomes daqueles que os odiavam e perseguiam é coberto de vergonha. A honra da constância e da determinação no caminho do dever será uma honra duradoura; e aqueles que agirem de acordo com a vontade de Deus serão manifestados na consciência daqueles que estão ao seu redor.

[2] Como um exemplo da hipocrisia dos escribas e fariseus, que lhes prestavam respeito. Observe que as pessoas carnais podem facilmente honrar as lembranças dos ministros fiéis que morreram, porque não podem censurá-los, nem perturbá-los, quanto aos seus pecados. Os profetas mortos eram videntes que não viam, e isso eles toleravam bem; eles não atormentavam os escribas e fariseus, como as testemunhas vivas o faziam, aquelas que dão testemunho com uma voz viva (Apocalipse 11.10). Eles podem respeitar os escritos dos profetas mortos, que lhes dizem o que eles deveriam ser: Que haja santos, mas que não vivam aqui. O respeito extravagante que a igreja de Roma presta à lembrança dos santos mortos, especialmente aos mártires, dedicando dias e lugares aos seus nomes, guardando os seus restos como relíquias, orando a eles e fazendo ofertas às suas imagens, enquanto se embriagam com o sangue dos santos da sua época, é uma prova manifesta de que eles não apenas sucederam, mas superaram os escribas e fariseus numa religião hipócrita e falsificada que edifica os sepulcros dos profetas, mas detesta a doutrina deles.

(2)  Eles protestaram contra o assassinato dos profetas (v. 30): “Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles”. Eles nunca teriam consentido em silenciar Amós, e aprisionar Micaías, ou prender Hanani ao tronco, e Jeremias na masmorra, apedrejar Zacarias, zombar de todos os mensageiros do Senhor e maltratar os seus profetas. Não. Não eles. Eles antes prefeririam perder suas mãos direitas a fazer qualquer dessas coisas. “Que é teu servo, que não é mais do que um cão?” E ainda assim, nessa ocasião, eles estavam planejando assassinar a Cristo, de quem todos os profetas haviam testificado. Eles pensavam que se tivessem vivido na época dos profetas, os teriam ouvido e obedecido alegremente, mas eles se rebelaram contra a luz que Cristo trouxe a este mundo. Porém é certo que um Herodes e uma Herodias para João Batista teriam sido como um Acabe e uma Jezabel para Elias. Note que a falsidade dos corações pecadores aparece muito no fato de que, embora eles acompanhem a corrente dos pecados da sua própria época, eles imaginam que teriam nadado contra a corrente dos pecados de antigamente. Apoiavam-se no fato de que, se tivessem tido as oportunidades de outras pessoas, as teriam aproveitado com mais lealdade; se tivessem passado pelas tentações de outras pessoas, teriam resistido a elas mais vigorosamente; mas eles não aproveitam as oportunidades que têm, nem resistem às tentações que sofrem. Às vezes, pensamos que se tivéssemos vivido quando Cristo estava na terra, nós o teríamos seguido com constância; não o teríamos desprezado e rejeitado, como eles fizeram. Mas Cristo, por meio do seu Espírito, da sua Palavra, e dos seus ministros, ainda não foi mais bem tratado.

2. A inimizade e oposição dos escribas e fariseus a Cristo e ao seu Evangelho, apesar disso, e a destruição que traziam a si mesmos e à sua geração (vv. 31-33). Considere:

(1)  A acusação provada: “Vós mesmos testificais”. Observe que os pecadores não podem esperar escapar ao julgamento de Cristo por falta de provas contra eles, quando é fácil encontrá-los testemunhando contra si mesmos; e as suas próprias alegações não somente serão rejeitadas, mas transformadas para a sua condenação, e as suas próprias línguas se voltarão “contra si mesmos” (Salmos 64.8 ).

[1] Pela própria confissão deles, a maior maldade dos seus antepassados foi matar os profetas; de modo que eles conheciam esse pecado, e foram culpados da mesma coisa. Observe que aquele que condena o pecado nos outros, e apesar disso permite o mesmo pecado, ou pior, em si, é, de todos os outros, o mais imperdoável (Romanos 1.32-2.1). Eles sabiam que não deviam ter sido parceiros dos perseguidores, contudo eram seus seguidores. Estas contradições agora irão se somar às condenações do grande dia. Cristo coloca outra construção sobre a edificação que fizeram nos sepulcros dos profetas, diferente da que eles pretendiam; pois, ao embelezar os sepulcros, eles esperavam estar justificando os seus assassinos (Lucas 11.48), porém estavam persistindo no pecado.

[2] Pela própria confissão deles, esses perseguidores notórios eram seus ancestrais: “Sois filhos dos que mataram os profetas”. Eles não queriam dizer nada além do fato de que eram seus filhos, por sangue e por natureza. Mas Cristo volta isso contra eles, pois eles o eram por espírito e disposição: Vocês são filhos desses pais, e assim satisfarão os desejos deles. Eles são, corno vocês dizem, seus pais, e vocês se parecem com seus pais, e este pecado é o que corre no sangue de vocês. “Vós sois como vossos pais” (Atos 7.51). Eles vieram de uma raça perseguidora, eles eram uma “semente de malignos” (Isaias 1.4), levantados em lugar de seus pais (Números 32.14). A maldade, a inveja e a crueldade nasciam com eles, e eles as tinham adotado como princípio, como seus pais tinham feito (Jeremias 44.17). E aqui se observa (v.30) com que cuidado eles mencionam a relação: “Eles eram nossos pais, que mataram os profetas, e eram homens de honra e poder, cujos filhos e sucessores somos nós”. Se eles tivessem detestado a maldade dos seus ancestrais, como deviam ter feito, não teriam se preocupado tanto em chamá-los de seus pais; pois não existe crédito em ser parente de perseguidores, embora eles tenham muita dignidade e domínio.

(2)  A condenação que eles recebem. Aqui:

[1] Cristo passa a entregá-los ao pecado, como pessoas incorrigíveis (v. 32): “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais”. Se Efraim se uniu aos ídolos, e não deseja ser transformado, que seja abandonado. “Quem está sujo suje-se ainda”. Cristo sabia que eles estavam tramando a sua morte e que em poucos dias isto se realizaria. “Bem”, disse Ele, “continuai com o vosso plano, segui o vosso caminho, caminhai no caminho do vosso coração e segundo o que os seus olhos veem, e vede qual será o resultado. ‘O que fazes, faze-o depressa’. Vós apenas enchereis a medida da culpa, que irá transbordar num dilúvio de ira”. Observe que, em primeiro lugar, existe uma medida de culpa para ser preenchida, antes que a completa destruição caia sobre as pessoas e as famílias, as igrejas e as nações. Deus tolera muito tempo, mas chegará a ocasião em que Ele não mais poderá suportar (Jeremias 44.22). Nós lemos sobre a medida dos amorreus que devia ser cheia (Genesis 15.16), sobre a seara da terra já madura para a foice (Apocalipse 14.15-19), e sobre os pecadores tratando perfidamente, e acabando perfidamente tratados (Isaias 33.1). Em segundo lugar, os filhos enchem a medida dos pecados dos seus pais, depois de mortos, quando persistem no mesmo comportamento. Aquela culpa nacional que traz a destruição nacional é feita do pecado de muitos, em diversas épocas, e nas sucessões das sociedades existe um placar em andamento; pois Deus adequadamente examina a iniquidade dos pais nos filhos que seguem os seus passos. Em terceiro lugar, perseguir a Cristo, e ao seu povo e aos seus ministros, é um pecado que enche a medida da culpa de uma nação mais depressa que qualquer outro. Foi isto que trouxe a ira sem remédio sobre os pais (2 Crônicas 36.16), e a máxima ira também sobre os seus filhos (1 Tessalonicenses 2.16). Essa era a quarta transgressão, da qual, quando acrescida às outras três, o Senhor “não retirará o castigo” (Amós 1.3,6,9,11,13). Em quarto lugar, é justo que Deus entregue essas pessoas aos desejos dos seus próprios corações, aquelas que tão obstinadamente persistem na gratificação desses desejos. Quanto àqueles que se precipitam à destruição, que as suas rédeas sejam enroladas aos seus pescoços, sendo esta a condição mais triste que um homem pode ter nesta vida, antes de ir para o inferno.

[2] O Senhor Jesus continua a entregá-los à destruição como irrecuperáveis, a uma destruição pessoal no outro mundo (v. 33): “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” Estas eram palavras estranhas saídas da boca de Cristo, de cujos lábios se derramava a graça. Mas Ele pode falar de terror, e o fará, e nessas palavras Ele explica e resume os oito “ais” que tinha denunciado contra os escribas e fariseus.

Aqui está, em primeiro lugar, a sua descrição: “Ser­ pentes!” Cristo dirige insultos? Sim, mas isso não nos permite fazer o mesmo. Ele sabe, infalivelmente, o que há no homem, e sabia que eles eram sutis como serpentes, abrindo caminho sobre a terra, alimentando-se de pó; eles tinham uma aparência plausível, mas interiormente eram malignos, tinham veneno sob suas línguas, a semente da velha serpente. Eles eram uma “raça de víboras”, eles e os que tinham vindo antes deles. Eles e os que os acompanhavam eram uma geração de adversários envenenados, enfurecidos e malévolos de Cristo e do seu Evangelho. Eles amavam que os homens os chamassem “Rabi, Rabi”, mas Cristo os chama de “serpentes” e “víboras”, pois Ele dá aos homens as suas reais personalidades, e se alegra de desprezar os orgulhosos.

Em segundo lugar, a sua destruição. Jesus representa a condição deles como sendo muito triste, e de certa maneira, desesperada: “Como escapareis da condenação do inferno?” O próprio Cristo pregou o inferno e a destruição, pelo que os seus ministros sempre foram censurados por aqueles que não queriam ouvir falar deste assunto. Considere que:

1. A condenação do inferno será o temido fim de todos os pecadores impenitentes. Essa condenação vinda de Cristo era ainda mais terrível do que vinda de todos os profetas e ministros que já tinham vivido, pois Ele é o Juiz em cujas mãos estão “as chaves da morte e do inferno”. Ao dizer que eles estavam condenados, Ele os estava condenando.

2. Existe uma maneira de escapar dessa condenação, e está sugerida aqui; alguns serão salvos da ira futura.

3. Dentre todos os pecadores, aqueles que têm o espírito dos escribas e fariseus são provavelmente os que menos escaparão dessa condenação. Pois o arrependimento e a fé são necessários para escapar. E como é que o arrependimento e a fé serão trazidos a essas pessoas, que têm a si mesmas em tão elevado conceito, e têm tanto preconceito contra Cristo e o seu Evangelho? Como poderão ser curados e salvos, se não podem suportar que a sua ferida seja examinada, nem que o bálsamo de Gileade seja aplicado sobre ela? Os publicanos e as meretrizes, que conheciam a sua doença e procuravam o Médico, tinham mais probabilidade de escapar à condenação do inferno do que aqueles que, embora estivessem no caminho expresso para o inferno, estavam certos de que estavam a caminho do céu.