ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 31-47 – PARTE III

Alimento diário

Cristo Prova sua Missão Divina. A Infidelidade dos Judeus é Reprovada

 

(3) A este testemunho, o Senhor acrescenta uma reprovação da infidelidade e da maldade deles em quatro exemplos. Particularmente:

[1] Seu desprezo por Ele e por sua doutrina: “‘E não quereis vir a mim para terdes vida’, v. 40. Vós examinais Escrituras, credes nos profetas que encontrais sempre testificando de mim, e ainda assim não vireis a mim, a quem eles vos guiam”. Sua alienação em relação a Cristo era culpa não tanto de sua compreensão, mas de sua força de vontade. Isto é expresso como uma queixa. Cristo ofereceu vida, e esta não foi aceita. Note que, em primeiro lugar, existe uma vida a ser recebida de Jesus Cristo, e está reservada às pobres almas. Nós podemos ter vida, a vida de perdão, graça, conforto e glória. A vida é o aperfeiçoamento de nossa existência, e abrange toda a felicidade. E Cristo é nossa vida. Em segundo lugar; aqueles que desejam ter essa vida devem ir a Jesus Cristo para recebê-la. Nós podemos recebê-la através de nossa busca. Isso presume uma aceitação pelo entendimento da doutrina de Cristo e do testemunho a respeito dele. Isso reside na submissão da vontade à sua autoridade e graça, e produz uma obediência responsável nos sentimentos e nos atos. Em terceiro lugar, a única razão por que os pecadores morrem é devido ao fato de que eles não virão a Cristo em busca de vida e felicidade. E não é porque eles não possam, mas porque não querem. Eles não aceitarão a vida oferecida, por ser espiritual e divina, nem concordarão com os termos sob os quais ela é oferecida. Tampouco se dedicarão ao uso dos meios determinados: eles não serão curados, porque não observarão os métodos da cura. Em quarto lugar; a determinação e a obstinação dos pecadores em rejeitar as ofertas de graça são uma grande tristeza para o Senhor Jesus, e Ele se queixa disto. Aquelas palavras (v. 41): “Eu não recebo glória dos homens”, vêm entre parênteses em algumas versões, para evitar uma objeção contra o Senhor, como se Ele buscasse sua própria glória, e se fizesse líder de um grupo, obrigando todos a virem a Ele, e a aclamarem-no. Note que:

1. Ele não desejava nem solicitava a aclamação dos homens, nem de longe se influenciou por aquela pompa e esplendor mundanos com os quais os judeus esperavam que seu Messias aparecesse. Ele encarregou aqueles a quem curou de não torná-lo conhecido, e afastou-se daqueles que o teriam feito rei.

2. O Senhor não teve a aclamação dos homens. Ao invés de receber reverência dos homens, Ele recebeu muita desonra e descrédito, pois aniquilou-se a si mesmo.

3. Ele não precisava da aclamação dos homens. Isso nada acrescentava à glória daquele a quem todos os anjos de Deus adoram. E Ele também não se satisfaria com o contrário, na medida que isto não estivesse de acordo com a vontade de seu Pai, e não contribuísse para a felicidade daqueles que, ao glorificá-lo, receberam dele uma glória ainda maior.

(2)  Sua carência do amor de Deus (v. 42): “‘Bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus’. Por que deveria me admirar por não virdes a mim, quando vos falta até mesmo o primeiro princípio da religião natural, que é o amor de Deus?” Note que a razão por que as pessoas não dão importância a Cristo se deve ao fato de não amarem a Deus, pois, se verdadeiramente amássemos a Deus, deveríamos amar aquele que é sua imagem expressa, e correr para Ele, o único através de quem podemos ser restituídos à benevolência de Deus. Ele os acusara (v.37) de ignorância a respeito de Deus, e aqui os acusa da falta de amor a Ele. Consequentemente, os homens não têm o amor de Deus porque não desejam o conhecimento dele. Observe, em primeiro lugar, o pecado que lhes foi imputado: “Não tendes em vós o amor de Deus”. Eles fingiam que tinham um grande amor a Deus, e pensavam que o demonstravam através de seu zelo pela lei, pelo Templo, e pelo sábado, e mesmo assim estavam sem o amor a Deus. Note que existem muitos que fazem uma grande manifestação da religião, e ainda assim demonstram que carecem do amor de Deus através do menosprezo por Cristo e do desprezo por seus mandamentos. Eles odeiam sua santidade, e subestimam sua generosidade. Observe que o que Deus aceitará é o amor a Ele, aquele amor entranhado no coração, um princípio vivo e ativo ali, o amor derramado ali, Romanos 5.5.

Em segundo lugar, a prova dessa acusação é demonstrada pelo conhecimento pessoal de Cristo, que sonda o coração (Apocalipse 2.23) e s abe o que está dentro do homem: “Eu vos conheço”. Cristo vê através de nossos disfarces, e pode dizer a cada um de nós: “Eu te conheço”.

1. Cristo conhece os homens melhor do que seus vizinhos os conhecem. As pessoas pensavam que os escribas e fariseus fossem homens muito devotados e bons, mas Cristo sabia que eles não tinham o amor de Deus dentro de si.

2. Cristo conhece os homens melhor do que eles próprios se conhecem. Esses judeus tinham uma opinião muito boa sobre si mesmos, mas Cristo sabia como o interior deles era corrompido, não obstante sua enganosa aparência exterior. Podemos enganar a nós mesmos, mas ninguém pode enganar a Ele.

3. Cristo conhece os homens que não o conhecem e não o conhecerão. Ele olha para aqueles que persistentemente desviam o olhar para longe dele, e chama por seus próprios nomes, seus nomes verdadeiros, aqueles que não o conheceram.

(3)  Outro pecado imputado a eles é sua disposição para acolher falsos Cristas e falsos profetas, enquanto obstinadamente não aceitavam aquele que era o verdadeiro Messias (v. 43): “Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais. se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis”. “Espantai-vos disto, ó céus” (Jeremias 2.12,13). “Porque o meu povo fez duas maldades”, realmente, grandes maldades.

Em primeiro lugar, eles deixaram o manancial de águas vivas, pois não iriam aceitar a Cristo, que veio em nome de seu Pai, recebera sua autoridade de seu Pai, e fez tudo por sua glória. Em segundo lugar, eles cavaram cisternas rotas. Eles ouvem atentamente a qualquer um que se levante em seu próprio nome. Eles abandonaram sua própria misericórdia e compaixão, o que é ruim o suficiente, e o fizeram por causa de vaidades mentirosas, o que é pior. Observe, neste ponto:

1. Esses são falsos profetas que vêm em seu próprio nome, que correm sem ser enviados, e que só se interessam por si próprios.

2. É justo que Deus permita que esses, que não recebem o amor da verdade, sejam enganados por falsos profetas, 2 Tessalonicenses 2.10,11. Os enganos do anticristo são um castigo justo para aqueles que não obedecem a doutrina de Cristo. Aqueles que fecharam seus olhos quando tiveram a oportunidade de estar em contato com a verdadeira luz, estão, pelo julgamento de Deus, fadados a vagar eternamente seguindo falsas luzes, e a serem desviados do caminho por cada vento de doutrina.

3. A completa estupidez de muitos fica patente. Enquanto repudiam antigas verdades, estão apaixonados por erros arrogantes. Eles odeiam o maná, e, ao mesmo tempo, alimentam-se de cinzas. Depois que os judeus haviam rejeitado a Cristo e seu maravilhoso Evangelho, eles foram frequentemente assombrados por espectros, por falsos Cristas e falsos profetas (Mateus 24.24), e sua predisposição a segui-los ocasionou os transtornos e revolta s que apressaram a ruína que sofreram.

[4] Eles são aqui acusados de orgulho, altivez, e descrença, e de estarem sofrendo os efeitos de tudo isto, v. 44. Tendo reprovado severamente a descrença deles, como um sábio médico, o Senhor busca a causa, e coloca o machado à raiz. Eles, portanto, desprezaram e subestimaram a Cristo, porque admiraram e supervalorizaram a si próprios. Eis aqui:

Em primeiro lugar, a ambição que tinham pela glória terrena. Cristo a desprezava, v. 41. Eles concentraram seus corações nela: “Vós recebeis honra uns dos outros”. Isto é: “Procurais um messias em esplendor externo, para que assegureis, a vós mesmos, uma honra terrena através dele”. “Vós recebeis honra”:

1. “Desejais recebê-la, e a buscais em tudo o que fazeis.”

2. “Vós concedeis honra a outros, e os aclamais, apenas para que eles possam devolvê-la, e possam vos aclamar”. Nós pedimos e nós concedemos. O artifício do homem orgulhoso é prestar honra aos outros apenas para que ela possa repercutir sobre si mesmo.

3. “Sois muito diligentes em guardar todas as honras para vós mesmos, e restringi-las a vosso próprio grupo, como se tivésseis o monopólio daquilo que é honroso”.

4. “O respeito que vos é mostrado, acolheis como vosso, e não o transmitis a Deus, como Herodes”. Idolatrar os homens e seus sentimentos, e fingir ser idolatrado por eles e suas aclamações, são obras de idolatria tão diretamente contrárias à cristandade como qualquer outra.

Em segundo lugar, sua negligência da honra espiritual, chamada aqui de honra que vem apenas de Deus. Essa eles não buscavam, não se importavam. Note que:

1. A honra verdadeira é apenas aquela que vem de Deus, que é uma honra real e duradoura. São verdadeiramente honoráveis aqueles a quem o Senhor recebe em uma aliança e comunhão consigo.

2. Todos os santos têm essa honra. Todos os que creem em Cristo, através dele recebem a honra que vem de Deus. Ele não é parcial, mas concederá glória onde quer que conceda graça.

3. Essa honra que vem de Deus, nós devemos procurar, devemos tê-la em vista, e agir nesse sentido, não nos envolvendo com nada, exceto com ela (Romanos 2.29). Nós devemos considerá-la como sendo nossa recompensa, assim como os fariseus consideravam o louvor dos homens.

4. Aqueles que não quer em vir a Cristo, e aqueles que ambicionam as glórias terrenas, fazem parecer que não buscam a honra que vem de Deus, e isso é sua estupidez e ruína.

Em terceiro lugar, a influência que isso tinha sobre sua infidelidade. “Como podeis vós crer” naqueles que são influenciados desta maneira? Observe, neste ponto, que: 

1. A dificuldade para acreditar surge de nós mesmos e de nossa própria perversão. Nós tornamos nosso trabalho difícil para nós mesmos, e então nos queixamos de que ele é impraticável.

2. A ambição e a artificialidade da glória mundana são um grande obstáculo para a fé em Cristo. Como podem crer aqueles que fazem do elogio e do aplauso dos homens seus ídolos? Quando a confissão e a prática da religiosidade séria estão em desuso, são criticadas em toda parte. Quando Cristo e seus seguidores são homens que causam espanto, e ser um cristão é como ser como uma ave de várias cores (e esta é uma circunstância comum), como poderão crer aqueles cujo ponto mais alto da ambição é mostrar uma boa aparência na carne?

3. A última testemunha aqui convocada é Moisés, v. 45ss. Os judeus nutriam uma grande veneração por Moisés, valorizavam se por serem os discípulos de Moisés, e fingiam seguir a Moisés, mesmo na sua oposição a Cristo. Mas Cristo, neste ponto, lhes mostra:

(1) Que Moisés era uma testemunha contra os judeus descrentes, e os denunciava ao Pai: “Há um que vos acusa, Moisés”. Isto pode ser entendido, ou:

[1] Como mostrando a diferença entre a lei e o Evangelho. Moisés, isto é, a lei, vos acusa, porque pela lei vem o conhecimento do pecado. Ela vos condena, ela é, para aqueles que nela confiam, um ministério de morte e condenação. Mas nos acusar não é o propósito do Evangelho de Cristo: “Não cuideis que eu vos hei de acusar”. Cristo não veio ao mundo como alguém que tem a intenção de descobrir erros e promover discussões com todo mundo, ou como um espião das ações dos homens, ou um promotor em busca de crimes. Não, Ele veio para ser um advogado, não um acusador; para reconciliar Deus e o homem, e não para provocar mais divergências entre eles. Que tolos foram, então, aqueles que se apoiaram em Moisés contra Cristo, e queriam estar sob a lei! Gálatas 4.21. Ou:

[2) Como mostrando a manifesta irracionalidade de sua infidelidade: “Não cuideis que eu vos hei de acusar perante Deus e desafiar-vos a responder pelo que fazeis contra mim, como a inocência ferida normalmente o faz. Não, Eu não preciso disto. Vós já sois acusados, e julgados, no tribunal do céu. O próprio Moisés diz o suficiente para acusar-vos de incredulidade, e condenar-vos por ela”. Que eles não se enganem a respeito de Cristo. Embora Ele fosse um profeta, não se aproveitava de seu poder no céu contra aqueles que o perseguiam. Ele não intercedeu, como Elias, contra Israel (Romanos 6.2), nem como Jeremias, que desejava ver a vingança de Deus. O Senhor também não deixou que se enganassem no tocante a Moisés, como se o patriarca fosse ficar ao lado deles na rejeição a Cristo. “Não, há um que vos acusa, Moisés, em quem vós esperais”. Note que, em primeiro lugar, os privilégios e vantagens materiais são, geralmente, a vã segurança daqueles que rejeitam Cristo e sua graça. Os judeus confiavam em Moisés, e acreditavam que a aceitação de suas leis e rituais os salvaria. Em segundo lugar, aqueles que confiam em seus privilégios, e não se aperfeiçoam, descobrirão não só que sua confiança será frustrada, mas que esses mesmos privilégios testemunharão contra si mesmos.

(2) Que Moisés era uma testemunha de Cristo e de sua doutrina (vv. 46,47): “De mim escreveu ele”. Moisés expressou detalhadas profecias a respeito de Cristo, como a Semente da mulher, a Semente de Abraão, o Siló, o grande Profeta. As cerimônias da lei de Moisés eram símbolos daquele que estava para vir. Os judeus fizeram de Moisés o patrono de sua oposição a Cristo, mas Cristo aqui lhes mostra o erro grosseiro que estavam cometendo, pois Moisés estava muito longe de escrever contra Cristo. De fato, Moisés escreveu a respeito do Senhor Jesus Cristo, e a favor dele. Mas:

[1] Cristo, neste ponto, acusa os judeus de não acreditarem em Moisés. Ele tinha dito (v. 45) que eles confiavam em Moisés, e, ainda assim, aqui Ele se encarrega de comprovar que eles não acreditavam em Moisés. Eles confiavam em seu nome, mas não aceitavam sua doutrina em seu verdadeiro sentido e significado; eles não entendiam corretamente, nem davam crédito ao que estava registrado nas Escrituras de Moisés relativas ao Messias.

[2] O Senhor prova essa acusação através da incredulidade deles em relação a Moisés: “Se crêsseis em Moisés, creríeis em mim”. Note que, em primeiro lugar, o julgamento mais seguro da fé é feito através dos efeitos que ela produz. Diz-se que muitos acreditam naqueles cujas ações desmentem suas palavras, pois, se tivessem crido nas Escrituras, teriam feito o contrário do que fizeram.

Em segundo lugar, aqueles que creem corretamente em uma parte das Escrituras aceitarão todas as partes dela. As profecias do Antigo Testamento foram tão completamente cumpridas em Cristo, que aqueles que o rejeitaram negaram, efetivamente, suas profecias, e deixaram-nas de lado.

[3] A partir da descrença deles em relação a Moisés, o Senhor conclui que não era estranho que eles o rejeitassem: “Se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” Como se pode pensar que deveríeis? Em primeiro lugar: “Se não credes nas sagradas Escrituras, naquelas profecias que estão escritas de forma clara, que são o meio mais preciso de comunicação, como crereis nas minhas palavras, palavras que estão sendo menos consideradas?”

Em segundo lugar: “Se não credes em Moisés, por quem tendes tão profunda veneração, como é possível que creiais em mim, a quem olhais com tanto desprezo?” Veja Êxodo 6.12.

Em terceiro lugar: “Se não credes no que Moisés disse e escreveu a meu respeito, que é um testemunho forte e convincente a meu favor, como crereis em mim e em minha missão?” Se não admitirmos as premissas, como admiti­ remos a conclusão? A verdade sobre a religião cristã, sendo ela uma questão genuinamente de revelação divina, depende da autoridade divina das Escrituras. Se, portanto, não crermos na divina inspiração destes escritos, como poderemos aceitar a doutrina de Cristo?

Então, chega ao fim o argumento de Cristo quanto a si mesmo, em resposta ao testemunho exibido contra Ele. Que efeito ele produziu não sabemos; a impressão é que suas bocas foram emudecidas por um momento, e não poderiam prosseguir pela vergonha de terem perdido a causa. Ainda assim, seus corações continuaram endurecidos.

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ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 31-47 – PARTE II

Alimento diário

Cristo Prova sua Missão Divina. A Infidelidade dos Judeus é Reprovada

4. O Senhor Jesus apresenta, mais completamente do que antes, o testemunho de seu Pai referente a Ele (v. 37): “O Pai, que me enviou… testificou de mim”. O príncipe não costuma seguir seu próprio embaixador, para confirmar sua autorização através de palavras, mas Deus estava satisfeito por testificar a respeito de seu próprio Filho através de uma voz vinda do céu em seu batismo (Mateus. 3.17): Este é meu embaixador, “este é o meu Filho amado”. Os judeus reconhecem Bath-kol- a filha de uma voz, uma voz vinda do céu, um dos meios através dos quais Deus torna seu pensamento conhecido. E, daquele modo, Ele havia reconhecido o Cristo de forma pública e solene, e o repetiu, Mateus 17.5. Note que:

(1) Daqueles a quem Deus envia, Ele testifica. Quando Ele conceder uma autorização, não deixará de apoiá-la. Aquele que nunca deixou a si mesmo sem testemunho (Atos 14.17) nunca deixará assim quaisquer de seus servos que estejam a seu serviço.

(2) Onde Deus exige fé, Ele não deixará de conceder evidências suficientes, como fez em relação a Cristo. Aquilo que era para ser testemunhado no que concerne a Cristo era principalmente isto: que o Deus que havíamos ofendido desejava aceitá-lo como Mediador. Sendo assim, no tocante a isso, Ele próprio nos deu uma plena satisfação (e Ele era o mais adequado para fazer isso), declarando-se bem satisfeito nele. Se nós formos assim, a obra será feita. Nessas circunstâncias, poderia ser sugerido que, se assim o próprio Deus testificou a respeito de Cristo, por que Ele não foi amplamente aceito, sem exceção, pela nação judaica e seus governantes? A isto, Cristo aqui responde. Esta situação não deveria ser considerada estranha, nem a infidelidade deles poderia enfraquecer sua credibilidade, devido a duas razões:

[1] Porque eles não estavam familiarizados com aquelas extraordinárias revelações de Deus e de sua vontade: “Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu parecer”, ou sua forma. Eles demonstraram que eram muito ignorantes a respeito de Deus, embora professassem uma proximidade com Ele, como fazemos a respeito de alguém que nunca sequer vimos ou ouvimos. “Mas por que vos falo do testemunho de Deus a meu respeito? Ele é alguém de quem nada sabeis, nem tendes com Ele qualquer comunhão ou relação”. Note que o desconhecimento de Deus é a verdadeira razão de os homens rejeitarem o testemunho que Ele deu a respeito de seu Filho. O correto entendimento de uma religião natural nos revelaria tantas congruências admiráveis na religião cristã, que, em grande medida, inclinariam nosso pensamento a aceitá-la. Alguns dão o seguinte sentido à Palavra do Senhor: “O Pai de mim testificou através de uma voz, e da descida de uma pomba, que é uma coisa tão extraordinária, que vós nunca vistes ou ouvistes nada semelhante. E ainda em meu benefício havia uma voz e um parecer. Sim, e poderíeis ter ouvido aquela voz, poderíeis ter visto aquela aparição, como fizeram outros, se tivésseis considerado atentamente o ministério de João. Mas, ao desprezá-lo, perdestes aquele testemunho”.

[2] Porque eles não foram influenciados pelos meios habituais através dos quais Deus havia se revelado a eles: “E sua palavra não permanece em vós”. v. 38. Eles tinham as Escrituras do Antigo Testamento. Será que elas não os deixavam dispostos a aceitar Cristo? Sim, se eles tivessem tido a devida influência delas sobre si. Mas, em primeiro lugar, a Palavra de Deus não estava neles. Estava entre eles, em sua nação, em suas mãos, mas não dentro deles, em seus corações. Não estava guiando suas almas, mas apenas brilhando em seus olhos e soando em seus ouvidos. O que lhes adiantou terem as palavras de Deus confiadas a si mesmos (Romanos 3.2), quando eles não eram governados por elas? Se tivessem, eles teriam aceitado a Cristo prontamente. Em segundo lugar, a Palavra de Deus não permaneceu neles. Muitos têm a Palavra de Deus entrando em si mesmos, e causando alguns efeitos durante algum tempo, mas elas não permanecem neles. Não estão constantemente dentro deles, como um homem dentro de casa, mas apenas de vez em quando, como um viajante. Se a palavra permanecer em nós, se conversarmos com ela através de uma meditação constante, se a consultamos em todas as ocasiões, e se a obedecermos em nossas relações, deveremos então receber rapidamente o testemunho do Pai a respeito de Cristo. Veja cap. 7.17. Mas, como se tornou evidente que eles não tinham a Palavra de Deus de forma permanente em si mesmos? Isso se tornou aparente através de um fato: “Naquele que Ele enviou não credes vós”. Muita coisa fora dita a respeito de Cristo, no Antigo Testamento, para orientar as pessoas sobre quando e onde procurá-lo, e assim facilitar sua revelação, de forma que, se eles tivessem considerado essas coisas devidamente, não poderiam ter rejeitado a certeza de que Cristo fora enviado por Deus. Deste modo, sua descrença em Cristo era certamente um indício de que a Palavra de Deus não permanecera neles. Note que a permanência da Palavra, e do Espírito, e da graça de Deus em nós é mais bem avaliada através de seus efeitos, particularmente na nossa aceitação daqueles que o Senhor enviou: as ordens, os mensageiros, as providências que ele envia, e especialmente o Cristo a quem Ele enviou.

5. O último testemunho a que o Senhor recorre é o Antigo Testamento, que testifica dele, e a este Ele apela (v. 39ss.): Examinai as escrituras.

(1) Isto também pode ser interpretado, ou:

[1] “Examinai as Escrituras, e vós fazeis bem em proceder assim. Vós as ledes diariamente em vossas sinagogas, vós tendes os rabinos, e os doutores, e os escribas, que fizeram do estudo delas seu trabalho, e julgam com base nelas”. Os judeus se gabavam da proliferação do aprendizado das Escrituras nos dias de Hillel, que morreu cerca de 12 anos após o nascimento de Cristo, e consideraram alguns daqueles que eram então membros do Sinédrio como as maravilhas de sua sabedoria e as glórias de sua lei. E Cristo reconhece que eles realmente examinaram as Escrituras, mas que o fizeram em busca da sua própria glória: “‘Examinais as Escrituras’. Então, se vós não estivésseis deliberadamente cegos, creríeis em mim”. Note que é possível os homens serem grandes estudiosos das palavras das Escrituras, e ainda assim desconhecerem o poder e a influência delas. Ou:

[2] Como o interpretamos: “Examinai as Escrituras”, e assim, em primeiro lugar; isso lhes foi dito em caráter de apelo: “Vós professais aceitar e crer nas Escrituras. Nisto Eu concordo convosco, deixemos que elas sejam o juiz, desde que vós não vos apegueis às palavras, mas procureis nelas”. Note que, quando se recorre às Escrituras, elas devem ser examinadas. Examine ao longo dos livros inteiros das Escrituras, compare um parágrafo com outro, e explique um com base no outro. Nós devemos igualmente examinar parágrafos específicos até o fim, e entender não o que eles parecem dizer à primeira vista, mas o que eles realmente significam. Em segundo lugar, nos é dito em caráter de conselho, ou de uma ordem para todos os cristãos, que examinemos as Escrituras. Note que todos aqueles que desejam encontrar Cristo devem examinar as Escrituras. Não apenas lê-las, e ouvi-las, mas examiná-las, o que denota:

1. Empenho na busca, trabalho, estudo, e uma cuidadosa dedicação do pensamento.

2. Desejo e intenção de encontrar. Nós devemos tencionar algum benefício espiritual e algum proveito ao ler e estudar as Escrituras, frequentemente perguntando: “O que busco agora?” Nós devemos ler as Escrituras como aqueles que procuram tesouros escondidos (Provérbios 2.4), como aqueles que procuram ouro ou prata, ou que mergulham em busca de pérolas, Jó 28.1-11. Isto enobrecia os crentes de Beréia, Atos 17.11.

(2) E agora existem duas coisas que aqui somos orientados a ter em vista em nosso exame das Escrituras: o céu, que é nosso objetivo, e Cristo, que é nosso caminho.

[1] Nós devemos examinar as Escrituras tendo o céu como nosso objetivo: “Porque vós cuidais ter nelas a vida eterna”. As Escrituras nos asseguram de uma condição eterna estabelecida diante de nós, e nos oferecem uma vida eterna que está fundamentada naquela condição. Elas contêm o mapa que a descreve, o estatuto que conduz a ela, a direção do caminho que leva a ela, e a base sobre a qual a esperança dela se apoia. E vale a pena procurar por ela onde estamos certos de encontrá-la. Mas para os judeus, Cristo disse apenas: “Vós pensais que tendes a vida eterna nas Escrituras”, porque, embora eles conservassem a crença e a esperança da vida eterna, e fundamentassem suas expectativas sobre ela nas Escrituras, ainda assim, aqui, eles a deixaram escapar, pois a procuravam na mera leitura e estudo das Escrituras. Este era um dito comum, porém deturpado, entre eles: ”Aquele que tem as palavras da lei tem a vida eterna”. Eles pensavam que estariam seguros a respeito do céu se conseguissem dizer de cor, ou por hábito, o maior número possível de passagens das Escrituras, à medida que eram dirigidos pela tradição dos antigos. Como pensavam que todos os incultos eram amaldiçoados porque não conheciam a lei dessa forma (cap. 7.49), eles concluíam que todos os instruídos eram indubitavelmente abençoados.

[2] Nós devemos examinar as Escrituras em nossa busca a Cristo, como o novo e vivo caminho que conduz a Ele. Essas são aquelas, as grandes e principais testemunhas que testificam de mim. Note que, em primeiro lugar, as Escrituras, mesmo aquelas do Antigo Testamento, testificam a respeito de Cristo, e através delas Deus, o Pai, testifica a respeito dele. O Espírito de Cristo nos profetas testificou dele anteriormente (1 Pedro 1.11), dos propósitos e promessas de Deus, o Pai, em relação a Ele, dos avisos que o antecediam. Os judeus sabiam, muito bem, que o Antigo Testamento testificava do Messias, e eram críticos em suas observações sobre os parágrafos referentes a isso, e ainda assim foram descuidados e miseravelmente negligentes na aplicação destes. Em segundo lugar, por isso devemos examinar as Escrituras, e podemos esperar encontrar a vida eterna nessa busca, porque elas testificam a respeito de Cristo. Para isso, temos a vida eterna, para conhecê-lo. Veja 1 João 5.11. Cristo é o tesouro oculto no campo das Escrituras, a água naquelas fontes, o leite naqueles peitos.

 

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 31-47 – PARTE I

Alimento diário

Cristo Prova sua Missão Divina. A Infidelidade dos Judeus é Reprovada

 

Nestes versículos, nosso Senhor Jesus testifica e confirma a autoridade que Ele mostrara, e comprova que fora enviado por Deus, o Pai, para ser o Messias.

I – Ele desconsidera seu próprio testemunho de si mesmo (v. 31): “‘Se eu der testemunho de mim mesmo’, embora ele seja com certeza verdadeiro (cap. 8.14), apesar disso, de acordo com a regra geral de julgamento entre homens, ele não será aceito como uma prova legal, nem é permitido que ele seja considerado como uma evidência”. Sendo assim:

1. Isto espelha a repreensão sobre os filhos dos homens, bem como sua veracidade e integridade. Com certeza, nós podemos dizer, refletidamente, o que Davi disse precipitadamente: “Todo homem é mentira”, do contrário não existiria jamais uma máxima aceita de que o testemunho de alguém a respeito de si mesmo é suspeito, e não se deve confiar nele. Isto é um sinal de que o amor-próprio é mais forte do que o amor à verdade. E, além disso:

2. Isto reflete a honra do Filho de Deus, e revela sua maravilhosa condescendência. Pois, embora Ele seja a fiel testemunha, a própria verdade, que pode reivindicar ser aceita com base em sua honra e em seu próprio testemunho isolado, mesmo assim Ele se compraz em dispensar seu privilégio e, para a confirmação de nossa fé, reporta-se a seus testemunhos, para que possamos ficar completamente satisfeitos.

 

II – Ele apresenta outros testemunhos que prestam depoimento de que Ele era o enviado de Deus, o Pai.

1. O próprio Pai testificou a respeito dele (v. 32): “Há outro que testifica de mim”. Eu interpreto isto como se referindo a Deus, o Pai, pois Cristo menciona o testemunho do Pai junto com seu próprio testemunho (cap. 8.18): “Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica o Pai”. Observe:

(1)  O selo que o Pai colocou em sua autoridade: ”Aquele que testifica de mim, não apenas fez isso através de uma voz do céu, mas ainda o faz através dos sinais de sua presença comigo”. Veja quem são aqueles a quem Deus testificará.

[1] Aqueles que Ele envia e emprega. Quando o Senhor delega autoridade, Ele fornece credenciais.

[2] Aqueles que testificam dele. Assim fez Cristo. Deus confessará e honrará aqueles que o confessarem e honrarem.

[3] Aqueles que se negarem a testificarem sobre si mesmos. Assim fez Cristo. Deus cuidará para que aqueles que se humilham, e não procuram sua própria glória, não sofram perdas por isso.

(2)  A satisfação que Cristo tinha em seu testemunho: “Sei que o testemunho que Ele dá de mim é verdadeiro”. Estou muito seguro de que tenho uma missão divina, e não hesitarei o mínimo no que se refere a isto”. Deste modo, Ele tinha o testemunho em si mesmo. O Diabo o tentou a questionar se Ele era o Filho de Deus, mas Ele jamais cedeu.

2. João Batista deu testemunho de Cristo, v. 33ss. João veio para que testificasse da luz (cap. 1.7). Seu objetivo era preparar o caminho para o Senhor, e encaminhar as pessoas a Ele: “Eis o Cordeiro de Deus”.

(1) Nessas circunstâncias, o testemunho de João foi:

[1] Um testemunho público e solene: “Enviastes uma missão de sacerdotes e levitas a João, o que lhe deu uma oportunidade de proclamar o que tinha a dizer. Isto não foi um testemunho comum, mas judicial”.

[2] Foi um testemunho verdadeiro: ele dá testemunho da verdade, como deve fazer uma testemunha, toda a verdade, e nada além da verdade. Cristo não diz: “Ele deu testemunho de mim” (embora todos soubessem que João o fez), mas João agiu como um homem honesto: “Ele deu testemunho da verdade”. João era reconhecidamente um homem santo, um homem bom, tão humilhado para o mundo e tão versado nas coisas divinas, que não se poderia imaginá-lo como sendo culpado de tamanha falsificação e impostura, como dizer o que disse a respeito de Cristo, se assim não fosse, e se ele não estivesse certo disso.

(2) Duas coisas são acrescentadas no que se refere ao testemunho de João:

[1] Que era um testemunho mais do que ele precisava testemunhar (v. 34): “Eu … não recebo testemunho de homem”. Embora Cristo considerasse adequado, citar o testemunho de João, Ele o fez com uma declaração para que isso não seja considerado ou interpretado como prejudicial à prerrogativa de sua auto – suficiência. Cristo não necessita de cartas ou recomendações, nem testemunhos ou certificados, apenas daquilo que seu próprio valor e excelência trazem consigo. Por quê, então, Cristo ressaltou aqui o testemunho de João? “Ora, estas coisas eu digo para que vos salveis”. Este era o objetivo dele durante todo esse sermão: não para salvar sua própria vida, mas as almas de outros. O Senhor apresentou o testemunho de João porque, sendo um deles próprios, era de se esperar que eles o ouvissem atentamente. Note que, em primeiro lugar, Cristo deseja e planeja a salvação até mesmo de seus inimigos e per­ seguidores. Em segundo lugar, a palavra de Cristo é o meio de salvação. Em terceiro lugar, Cristo, em sua palavra, leva em consideração nossas fraquezas e é condescendente com nossas limitações, considerando não tanto o que convém a um príncipe tão notável dizer, mas o que podemos suportar, e o que mais provavelmente nos fará bem.

[2] Que era um testemunho  para o homem, porque João Batista era alguém a quem eles respeitavam (v. 35): ele era uma luz entre eles.

Em primeiro lugar, a natureza de João Batista: “Ele era a candeia que ardia e iluminava”. Cristo muitas vezes falou honrosamente de João. Ele estava agora em uma prisão, sob suspeita, ainda assim Cristo lhe presta o devido louvor, o que devemos estar prontos a fazer a todos aqueles que servem a Deus fielmente.

1. Ele era uma luz, não a luz (pois Cristo era a luz), mas uma luminária, uma luz derivada e subordinada. Seu trabalho era iluminar um mundo em trevas com alertas da aproximação do Messias, que era como a estrela da manhã.

2. Ele era uma luz ardente, o que denota sinceridade. O fogo artificial pode ter brilho, mas aquele que arde é o fogo verdadeiro. Isto denota, também, sua diligência, zelo e fervor, ardendo em amor a Deus e às almas dos homens. O fogo está sempre trabalhando em si mesmo ou em alguma outra coisa. Dessa maneira, João pode ser considerado um bom pastor.

3. Ele era uma luz brilhante, o que indica, ou sua conversa exemplar, na qual nossa luz resplandecerá (Mateus 5.16), ou uma influência eminente e ampla. Ele era renomado perante os outros. Embora tivesse a tendência de se manter anônimo e de se isolar, e vivesse nos desertos, mesmo assim sua doutrina, seu batismo e sua vida eram tais, que ele se tornou muito notável e atraía para si os olhos da nação.

Em segundo lugar, a afeição das pessoas por ele: “Quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz”.

1. Eles estavam em êxtase pelo surgimento de João: vós vos alegrastes com sua luz. Vós vos orgulhastes muito por terdes entre vós um homem assim, que era uma glória para vossa nação. Quisestes dançar e fazer alarde a respeito desta luz, como garotos próximos a uma fogueira”:

2. Isto era apenas temporário e logo acabou: “Gostastes muito dele, por um a hora, por algum tempo, como crianças pequenas gostam de uma coisa nova, ficastes satisfeitos com João por algum tempo, porém logo vos cansastes dele e do seu ministério, e dissestes que ele tinha demônio, e agora o tendes preso”. Note que muitos que parecem inicialmente ter afinidade e estar satisfeitos com o Evangelho, mais tarde o desprezam e rejeitam. E comum que os adeptos entusiastas e ruidosos tornem-se indiferentes e se rebelem. Estes aqui se regozijavam na luz de João, mas nunca andaram nela, e por isso nela não se mantiveram. Eles eram como pedregais. Enquanto Herodes era amigo de João Batista, o povo o tratou com carinho, mas quando ele caiu em desgraça junto a Herodes, perdeu o tratamento preferencial deles: “Vós tolerastes João, isto é, com finalidades mundanas” (assim alguns interpretam). “Vós vos contentastes com ele, com esperanças de fazer dele uma ferramenta, tirar proveito dele e sob a proteção de seu nome livrar-vos do jugo romano, recobrando a liberdade civil e a glória de vossa nação”. Sendo assim:

(1) Cristo menciona o apreço deles por João, para condená-los pela sua atual oposição a si próp1io, pois João dera testemunho do Senhor. Se tivessem dado seguimento ao seu respeito por João, como deveriam ter feito, eles teriam aceitado Cristo.

(2) O Senhor menciona o término do apreço deles, para justificar porque Deus os privou, como fazia agora, do ministério de João, e porque ocultou aquela luz.

1. As próprias obras de Cristo testificam a seu respeito (v. 36): “Eu tenho maior testemunho do que o de João”, pois se acreditamos no testemunho de homens enviados por Deus, como era João, o testemunho direto de Deus, não através do ministério de homens, é maior, 1 João 5.9. Observe que, embora o testemunho de João fosse um testemunho menos convincente e menos importante, mesmo assim, nosso Senhor estava satisfeito por fazer uso dele. Devemos estar satisfeitos por todos os apoios que se apresentarem para a confirmação de nossa fé, ainda que eles não possam equivaler a uma prova conclusiva. E não devemos desqualificar qualquer um deles, sob o pretexto de que existem outras provas mais conclusivas. Nós precisamos de todos eles. E este testemunho maior era o das obras que seu Pai lhe havia confiado, e que deveriam ser consumadas. Isto é:

(1) Em geral, o curso inteiro de sua vida e de seu ministério. Sua revelação de Deus e de seu propósito para conosco, estabelecendo seu reino entre os homens, reformando o mundo, destruindo o reino de Satanás, devolvendo aos homens caídos sua antiga pureza e felicidade, e derramando amplamente nos corações dos homens o amor de Deus e amor mútuo de uns pelos outros. Ao morrer, o Senhor Jesus Cristo, referindo-se à sua obra completa, disse: “Está consumado”, tudo está consumado, do princípio ao fim, uma obra digna de Deus. Tudo o que Ele disse e fez era sagrado e celestial, e uma pureza divina, poder e graça resplandeciam nela, provando plenamente que Ele fora enviado por Deus.

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JOÃO 5: 17-30 – PARTE III

Alimento diário

A Discussão de Cristo com os Judeus. Todo julgamento foi entregue a Cristo. O Privilégio Cristão

 

Em terceiro lugar, Ele também lhe deu autoridade para exercer o juízo, v. 27. Observe:

1. A autoridade com que nosso Redentor é investido: uma autoridade para exercer o juízo. Ele tem não apenas um poder legislativo e judicial, mas também um poder executivo. A frase aqui é usada particularmente para o julgamento de condenação, Judas 15. Para exercer o juízo sobre todos, o mesmo que tomar vingança, 2 Tessalonicenses 1.8. A destruição dos pecadores contumazes vem da mão de Cristo. Aquele que exerce o juízo sobre eles é o mesmo que realizaria a salvação deles, o que torna a condenação irrepreensível, e não há remédio contra o julgamento do Redentor. A própria salvação não pode salvar aqueles a quem o salvador condena, o que torna a destruição irremediável.

2. De onde Ele recebe essa autoridade: o Pai lhe deu. A autoridade de Cristo, como Mediador, é delegada e derivada. Ele age como o vice regente do Pai, como o Ungido do Senhor, o Cristo do Senhor. E tudo isso contribui muito para a honra de Cristo, inocentando-o da culpa por blasfêmia ao fazer-se igual a Deus, o Pai. Este é um grande consolo para todos aqueles que creem, que podem, com insuperável segurança, se entregar por completo a tais mãos.

[2] Aqui estão as razões (razões de estado) pelas quais esta autorização lhe foi dada. Ele tem todos os julgamentos entregues a si por duas razões:

Em primeiro lugar, porque Ele é o “Filho do homem”, o que denota três coisas:

1. Sua humilhação e generosa condescendência. O homem é um verme, o filho do homem, um verme. Apesar disso, esta foi a natureza, esta foi a característica que o Redentor assumiu na execução dos desígnios do amor. Nesta humilhante condição, Ele se sujeitou e se submeteu a todas as mortificações que a acompanham, pois esta era a vontade de seu Pai. Em recompensa por causa dessa maravilhosa obediência, Deus, o Pai, o exaltou de forma sublime. Porque Ele condescendeu em ser o Filho do homem, seu Pai o fez o Senhor de todos, Filipenses 2.8,9.

2. Sua afinidade e aliança conosco. O Pai lhe entregou a autoridade sobre os filhos dos homens, pois, sendo o Filho do homem, Ele é da mesma natureza daqueles sobre os quais Ele é posto, e, portanto, ainda mais irrepreensível e ainda mais bem-vindo, como Juiz. Seu governador sairá do meio deles, Jeremias 30.21. Disto, esta lei era simbólica. “Dentre teus irmãos porás rei sobre ti”, Deuteronômio 17.15.

3. Que Ele é o Messias prometido. Naquela famosa visão de seu reino e glória, Daniel 7.13,14, Ele é chamado de Filho do homem. E também em Salmos 8.4-6. Fazes com que o Filho do homem “tenha domínio sobre as obras das tuas mãos”. Ele é o Messias, e, portanto, é investido de todo este poder. Os judeus, habitualmente, chamavam o Cristo de Filho de Davi. Porém, Cristo geralmente chamava a si mesmo de Filho do homem, que era o título mais humilde, e que o anunciava como um príncipe e Salvador, não apenas para a nação judaica, mas para toda a raça humana.

Em segundo lugar, “para que todos os homens honrem o Filho”, v. 23. Honrar Jesus Cristo é aqui descrito como o grande desígnio de Deus (o Filho planejava glorificar o Pai, e, portanto, o Pai planejava glorificar o Filho, cap. 12.32), e este é o grande dever de todo homem, em conformidade com esse desígnio. Se Deus fará com que o Filho seja honrado, o dever de todos que o conhecem é honrá-lo. Observe aqui:

1. O respeito que deve ser prestado ao nosso Senhor Jesus: devemos honrar ao Filho, devemos considerá-lo como alguém que deve ser honrado, por conta de suas qualidades transcendentais e da perfeição que Ele tem em si próprio, e das ligações que Ele tem conosco, e devemos procurar honrá-lo por isso; devemos confessar que Ele é o Senhor e adorá-lo; devemos honrar aquele que foi humilhado por nossa causa.

2. A intensidade disso: da mesma maneira como honram ao Pai. Isto pressupõe ser nosso dever honrar ao Pai, pois a religião revelada se baseia na religião natural, e nos instrui a honrar o Pai, a honrá-lo com uma honra divina. Devemos honrar o Redentor com a mesma honra com que honramos o Criador. Estava tão longe de ser uma blasfêmia, para Ele, fazer-se igual a Deus, o Pai, que considerá-lo de outra maneira é a maior ofensa que podemos lhe fazer. As verdades e as leis da religião cristã, da forma como são reveladas, são tão sagradas e honrosas como as da religião natural, e devem ser igualmente estimadas, pois nós vivemos sob as mesmas obrigações para com Cristo, o Autor de nossa existência, e temos uma dependência necessária da graça do Redentor, como também da providência do Criador, o que é uma base suficiente para esta lei – honrarmos o Filho como honramos o Pai. Para reforçar esta lei, é acrescentado: “Quem não honra o Filho, não honra o Pai”, que o enviou. Alguns alegam uma reverência pelo Criador e falam dele com nobreza, não levando o Redentor a sério, falando dele com desdém. Mas saibam estes que as honras e interesses do Pai e do Filho estão tão inseparavelmente entrelaçados e mesclados, que o Pai jamais se considera honrado por qualquer um que afronte o Filho. Note que:

(1) As indignidades cometidas contra o Senhor Jesus recaem sobre o próprio Deus, e assim serão interpretadas e consideradas no tribunal do céu. O Filho adere tanto à honra do Pai, a ponto de tomar para si próprio as injúrias lançadas contra Ele (Romanos 15. 3). O Pai, por sua vez, não apoia menos a honra do Filho, e se considera atingido pelas ofensas contra Ele.

(2) A razão para isso é que o Filho é enviado e autorizado pelo Pai. Foi o Pai quem o enviou. As afrontas a um embaixador causam, de forma justa, o ressentimento ao príncipe que o enviou. E através desta regra, aqueles que verdadeiramente honram o Filho, honram também o Pai. Veja Filipenses 2.11.

(3) Aqui está a regra pela qual o Filho desempenha sua missão, e assim estas palavras parecem surgir (v.24): aquele que ouve e crê tem a vida eterna. Aqui temos a essência de todo o Evangelho. O prefácio dirige a atenção para algo mais importante, e reconhece uma certeza: “‘Na verdade, na verdade vos digo’ que a mim, a quem ouvis, todo julgamento é confiado. Eu tenho em meus lábios uma sentença divina. Adote m de mim a natureza cristã, e os privilégios cristãos”.

Em primeiro lugar, a natureza de um cristão: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou”. Ser um cristão é verdadeiramente:

1. Ouvir a palavra de Cristo. Não basta estar ao alcance de ouvi-la, mas devemos prestar atenção a ela, como os estudantes agem em relação às instruções de seus professores, e atentar para ela, como ser vos às ordens de seus senhores. Devemos ouvi-la e obedecê-la, devemos ser fiéis ao Evangelho de Cristo como a regra rígida de nossa fé e prática.

2. Crer naquele que o enviou, pois o desígnio de Cristo é nos fazer ir a Deus. E, assim como Ele é a origem de toda a graça, da mesma forma Ele é o objetivo final de toda a fé. Cristo é nosso caminho, Deus é nosso descanso. Devemos crer em Deus como aquele que enviou Jesus Cristo, e encomendou a si mesmo à nossa fé e amor, ao manifestar sua glória na face de Jesus Cristo (2 Coríntios 4.6), como seu Pai e nosso Pai.

Em segundo lugar, o estatuto de um cristão, no qual todos os que são cristãos estão interessados. Veja o que conseguimos através de Cristo:

1. Um alvará de perdão: ele não entrará em condenação. A graça do Evangelho é uma completa dispensa do tormento da lei. Um crente não só não ficará sob a condenação eterna, como também não ficará sob condenação agora, não estará sob o risco dela (Romanos 8. 1), não entrará em julgamento, e se­ quer será levado a juízo.

2. Um estatuto de privilégios: ele é levado da morte para a vida, é investido de uma felicidade atual na vida espiritual e designado para uma felicidade futura na vida eterna. O sentido da primeira aliança era: “Faça isto e viva”, o homem que os praticar, viver á por eles. Agora, isto demonstra que Cristo é igual ao Pai, que Ele tem o poder de propor aos que ouvem suas palavras o mesmo benefício proposto àqueles que guardavam a antiga lei, ou seja, a vida. Ouvir e viver, crer e viver, é no que podemos arriscar nossas almas, quando somos incapazes de fazer e viver. Veja cap. 17.2.

(4) Aqui está a justiça de seus procedimentos correspondentes à sua autoridade, v. 30. Sendo todo o juízo entregue ao Senhor Jesus, nós só podemos perguntar como Ele o exerce. E aqui, Ele responde: “O meu juízo é justo”. Todo s os atos de autoridade de Cristo, tanto legislativos como judiciários, estão exatamente de acordo com as regras da justiça. Veja Provérbios 8.8. Não podem existir exceções contra quaisquer das determinações do Redentor, e, portanto, assim como não haverá nenhuma revogação de quaisquer de suas leis, da mesma forma não haverá revogação de quaisquer de suas sentenças. Seus julgamentos são seguramente justos, pois eles são conduzidos:

Em primeiro lugar, pela sabedoria do Pai: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma”, nada sem o Pai, mas “como ouço, assim julgo”. É como Ele havia dito antes (v. 19): “O Filho não pode fazer coisa alguma, se não o vir fazer o Pai”. Da mesma forma aqui: coisa alguma, a não ser o que Ele ouve o Pai dizer. “Como ouço”:

1. A partir das deliberações eternas e particulares do Pai, “assim eu julgo”. Saberíamos nós do que poderíamos depender em nosso relacionamento com Deus? Ouçamos a palavra de Cristo. Não precisamos nos aprofundar nas deliberações divinas, aquelas coisas misteriosas que não nos competem, mas devemos prestar atenção aos preceitos revelados da autoridade e do julgamento de Cristo, que nos proverão com um guia infalível, pois o que Cristo determinou é uma cópia exata ou uma duplicata daquilo que o Pai decretou.

2. A partir dos relatos propagados do Antigo Testamento. Cristo, em toda a execução da sua missão, tinha em vista as Escrituras, e fez com que sua missão estivesse de acordo com elas e as cumprisse: “Como estava escrito no rolo do livro”. Dessa maneira, Ele nos ensinou a não fazermos nada por nós mesmos, mas julgar as coisas e agir de acordo com a Palavra de Deus que ouvimos.

Em segundo lugar, pela vontade do Pai: “Meu juízo é justo”, e não pode ser diferente, “porque não busco a minha vontade”, mas a daquele “que me enviou”. Não como se a vontade de Cristo fosse contrária à vontade do Pai, assim como, em nós, a carne é contrária ao espírito, mas:

1. Cristo possuía, como homem, as emoções naturais e inocentes da natureza humana, os sentimentos de dor e prazer, uma inclinação para a vida, uma aversão à morte. Ainda assim, Ele satisfazia não a si mesmo, não deliberava com estes, nem os consultava, quando estava para dar continuidade à sua missão, mas se submetia à vontade de seu Pai.

2. O que Ele fazia corno Mediador não era o resultado de qualquer propósito peculiar ou particular e desígnio dele mesmo. O que Ele realmente procurava fazer não levava em consideração sua própria vontade, mas o Senhor era, nesse sentido, guiado pela vontade de seu Pai, e pelo propósito que Ele havia designado para si mesmo. A isto, nosso Salvador, em todas as oportunidades, fez alusão e se submeteu.

Portanto, nosso Senhor Jesus expôs sua autoridade (quer para a convicção de seus inimigos quer não) para sua própria honra, e conforto perene de todos os seus amigos, que aqui veem-no capaz de salvar até o fim.

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JOÃO 5: 17-30 – PARTE II

Alimento diário

A Discussão de Cristo com os Judeus. Todo julgamento foi entregue a Cristo. O Privilégio Cristão

1. Naquilo que Ele comunicará. Ele lhe mostrará, isto é, o designará e orientará a fazer obras mais notáveis do que estas.

(1) Obras de maior poder do que a cura do homem incapaz, pois ele devia ressuscitar os mortos, e devia ressuscitar a si mesmo dos mortos. Através do poder natural, com o uso de recursos, uma doença pode ser curada a tempo, mas a natureza não podia jamais, pela utilização de qualquer meio, em qualquer tempo, ressuscitar os mortos.

(2) Obras de maior autoridade do que autorizar o homem a carregar sua cama no sábado. Eles consideravam isto um ousado atentado, mas o que era isto, comparado com a revogação de toda a lei cerimonial e instituição de novas leis que Ele traria em breve: “Para que vos maravilheis!” Neste momento, eles contemplavam as obras de Jesus com desprezo e indignação, porém em breve Ele faria coisas que eles contemplariam com admiração, Lucas 7.16. Muitos são levados a se maravilhar com as obras de Cristo, pelas quais a glória lhe pertence, que não são persuadidos a crer; o que lhes traria os benefícios delas.

2. Em particular. Ele demonstra sua igualdade com o Pai ao descrever algumas das obras que realiza e que são obras específicas de Deus. Esta lista é expandida, vv 21-30. Ele faz, e fará, aquilo que seja trabalho relativo ao soberano domínio e jurisdição de Deus – julgar e exercer o juízo, vv. 22-24,27. Estes dois temas estão entrelaçados, estando quase unidos, e o que é dito uma vez, é repetido e incutido. Coloque os dois juntos e eles demonstrarão que aquilo que Cristo disse, quando se igualou a Deus, o Pai, era absolutamente correto.

(1) Observe o que é dito aqui quanto ao poder do Mediador de ressuscitar os mortos e dar vida. Veja:

[1] Sua autoridade para fazê-lo (v. 21): ‘:Assim como o Pai ressuscita os mortos e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer”. Em primeiro lugar, é prerrogativa de Deus ressuscitar os mortos e dar a vida, e foi Ele o primeiro que soprou no homem o fôlego da vida, e assim o fez alma vivente. Veja Deuteronômio 32.30; 1 Samuel 2.6; Salmos 68.20; Romanos 4.17. Através dos profetas Elias e Eliseu, Deus ressuscitou mortos, e isso foi uma confirmação da missão deles. A ressurreição dos mortos nunca se encaixou no caminho habitual da natureza, nem jamais coube no pensamento daqueles que estudaram apenas a extensão do poder da natureza, dos quais um dos axiomas admitidos foi apontado abertamente contra ela: A existência, ao ser apagada, não pode ser reacendida. Por isso, a ressurreição era ridicularizada em Atenas como uma coisa absurda, Atos 17.32. Ela ocorre genuinamente por obra do poder divino e pelo conhecimento dele. O conhecimento da ressurreição ocorre, genuinamente, por meio de uma revelação divina. Os judeus, entretanto, reconheciam a ressurreição. Em segundo lugar, o Mediador é investido desta prerrogativa: Ele “vivifica aqueles que quer”, ressuscita a quem lhe agrada, e quando lhe agrada. Ele não vivifica as coisas por necessidade natural, como faz o sol, cujos raios de luz, como se sabe, fazem reviver. Não obstante, Ele age como um agente livre, tem a concessão de seu poder em sua própria mão, e não é jamais constrangido ou reprimido em sua utilização. Assim, como Ele tem o poder, da mesma forma tem a sabedoria e a soberania de Deus, tem “as chaves da morte e do inferno” (Apocalipse 1.18), não como um servo, para abrir e fechar como lhe é ordenado, pois Ele a tem como a chave de Davi, da qual ele é dono, Apocalipse 3.7. Um príncipe absoluto é descrito por meio da seguinte frase (Daniel 5.19): ”A quem queria matava e a quem queria dava a vida”. Isto é verdadeiro para Cristo, sem exagero.

[2] Sua capacidade de ressuscitar mortos. Ele tem poder para ressuscitar a quem quiser, assim como faz o Pai, pois Ele tem vida em si mesmo, assim como o Pai, v. 26. Em primeiro lugar, é certo que “o Pai tem a vida em si mesmo”. Ele não apenas é um Ser auto existente, que não descende ou depende de nenhum outro (Êxodo 3.14), mas também é o soberano doador da vida. Ele tem o controle da vida em si mesmo, e de todo o bem (pois, às vezes, isto é o que a vida significa). Tudo adveio dele, e é dependente dele. Ele é, para suas criaturas, a fonte da vida, e de todo o bem; criador de suas existências e bem-estar; o Deus vivo, e o Deus de tudo o que vive. Em segundo lugar é igualmente certo que Ele “deu… ao Filho ter a vida em si mesmo”. Assim como o Pai é o progenitor de toda a vida natural e de todo o bem, sendo o grande Criador, da mesma maneira, o Filho, como o Redentor, é o progenitor de toda a vida espiritual e de todo o bem. Ele é para a igreja, aquilo que o Pai é para o mundo. Veja 1 Coríntios 8.6; Colossenses 1.19. O reino da graça, e toda a vida nesse reino, estão tão inteira e absolutamente nas mãos do Redentor como o reino da providência está nas mãos do Criador. E como Deus, que dá vida a todas as coisas, é o dono de sua própria existência, da mesma forma Cristo, que dá a vida, ressuscitou a si mesmo para a vida através de seu próprio poder, cap. 10.18.

[3] Seu comportamento de acordo com essa autoridade e capacidade. Tendo a vida em si mesmo, e sendo autorizado a ressuscitar a quem quiser, em virtude disso há, de forma correspondente, duas ressurreições realizadas através de sua poderosa palavra, sobre as quais se comenta aqui:

Em primeiro lugar, uma ressurreição que, nas presentes condições, é (v. 29) uma ressurreição da morte do pecado para a vida da justiça, pelo poder da graça de Cristo. “Vem a hora, e agora é”. É uma ressurreição já iniciada, e que deve ser levada mais adiante, quando os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus. Esta ressurreição é claramente diferenciada daquela no versículo 28, que fala da ressurreição no fim dos tempos. Este versículo nada diz, ao contrário daquele, sobre os mortos quanto aos seus méritos, sobre todos eles, e seus destinos. Agora:

1. Alguns pensam que isto se cumpriu naqueles a quem Ele milagrosamente ressuscitou: a filha de Jairo, o filho da viúva e Lázaro, e é visível que a todos a quem Cristo ressuscitou, foi lhes dito no momento: “Menina … levanta-te”; “Jovem … Levanta-te”; “Lázaro, vem para fora”. Enquanto aqueles ressuscitados sob o Antigo Testamento foram ressuscitados, não através de uma palavra, mas por outros mecanismos, 1 Reis 17.21; 2 Reis 4.34; 13.21. Alguns entendem isso como relativo aos santos que ressuscitaram com Cristo, mas não lemos a respeito da voz do Filho de Deus chamando-os. Porém:

2. Eu prefiro entendê-lo como relativo ao poder da doutrina de Cristo, pela recuperação e ressurreição daqueles que estavam mortos em ofensas e pecados, Efésios 2.1. Estava chegando a hora quando almas mortas seriam vivificadas pela pregação do Evangelho e pelo espírito de vida de Deus que o acompanha. Talvez fosse assim naquele tempo, enquanto Cristo estava sobre a terra. Isto pode se referir especialmente ao chamado dos gentios, do qual se diz que é como a ressurreição dos mortos, e, pensam alguns, fora representado previamente pela visão de Ezequiel (Ezequiel 37.1), e profetizado: “Os teus mortos viverão”, Isaías 26.19. Mas isto deve ser aplicado a todo o maravilhoso sucesso do Evangelho entre os judeus e os gentios. Uma hora que agora é, e que ainda está chegando, até que todos os eleitos sejam efetivamente chamados. Note que:

(1) Os pecadores estão espiritualmente mortos, destituídos de vida, consciência, força e impulsos espirituais, mortos para Deus, infelizes, porém inconscientes de sua desgraça e incapazes de saírem por si mesmos desta condição.

(2) A conversão de uma alma a Deus é sua ressurreição da morte para a vida. Ela começa a viver quando começa a viver para Deus, a viver de acordo com Ele, e caminhar em direção a Ele.

(3) É pela voz do Filho de Deus que almas são ressuscitadas para a vida espiritual. Isto é realizado pelo seu poder, e esse poder é transmitido e comunicado por sua palavra: “Os mortos ouvirão”, serão compelidos a ouvir, a entender, aceitar e crer na voz do Filho de Deus, a ouvi-la como a voz dele. Depois o Espírito, através dela, dá a vida. Por outro lado, a letra mata.

(4) A voz de Cristo deve ser ouvida por nós, para que possamos viver por ela. Aqueles que ouvem e atentam para o que ouvem, viverão. “Ouvi, e a vossa alma viverá”, Isaías 55.3. Em segundo lugar, é uma ressurreição ainda por vir. Isto é dito nos versículos 28 e 29, e introduzido com as palavras: ‘”Não vos maravilheis disso’, do que eu disse sobre a primeira ressurreição, não o rejeitai como inacreditável e absurdo, pois no fim dos tempos, todos vereis uma prova mais concreta e maravilhosa do poder e autoridade do Filho do homem”. Assim como sua própria ressurreição estava reservada para ser a prova final e conclusiva de sua designação pessoal, a ressurreição de todos os homens está reservada para ser uma prova semelhante de sua designação, e será executada pelo seu Espírito. Neste momento, observe aqui:

A. Quando será essa ressurreição: “Vem a hora”. Ela é pré-determinada, este encontro marcado é bastante exato. O julgamento não está adiado para algum momento ainda não escolhido. Não, Ele marcou um dia. “Vem a hora”.

(a) Ainda não chegou, não é a hora de que se fala no versículo 25, que é chegada, e agora é. Erraram perigosamente aqueles que disseram que a ressurreição era já feita, 2 Timóteo 2.18. Mas:

(b) Com certeza virá, ela está avançando; está a cada dia mais próxima do que antes; está à porta. A que distância está, nós não sabemos, porém sabemos que ela está infalivelmente definida e inalteravelmente determinada.

B. Quem será ressuscitado: “Todos os que estão nos sepulcros”, todos os que morreram desde o início dos tempos, e todos os que morrerão até o fim dos tempos. Foi dito (Daniel 12.2): ” Muitos… ressuscitarão”. Cristo nos fala aqui que aqueles muitos serão todos. Todos terão que comparecer diante do Juiz, e por isso todos devem ser ressuscitados. Cada pessoa, e cada uma delas em seu todo. Cada alma retornará para seu corpo, e cada osso para sua estrutura. O túmulo é a prisão dos corpos mortos, onde eles estão detidos; sua fornalha, onde eles são consumidos (Jó 24.19). Mesmo assim, na esperança da ressurreição deles, podemos chamá-lo de suas camas, onde eles dormem para serem novamente despertados; seu cofre, onde eles estão guardados para que possam ser novamente utilizados. Mesmo aqueles que não são postos em túmulos ressuscitarão, mas, porque muitos são colocados em túmulos, Cristo utiliza essa expressão: “todos os que estão nos sepulcros”. Os judeus usavam a palavra sheol para túmulo, o que representa a condição dos mortos. Todos os que estão nessa condição ouvirão.

C. Como eles serão ressuscitados. Duas coisas nos são ditas aqui:

(a) A eficácia dessa ressurreição: eles “ouvirão” sua voz. Isto é, Ele fará com que eles a ouçam, assim como Lázaro ouviu aquela ordem: “Vem”. Um poder divino acompanhará esta ordem, para neles colocar vida e permitir que a obedeçam. Quando Cristo ressuscitou, nenhuma voz foi ouvida, nenhuma palavra, dita, pois Ele ressuscitou por seu próprio poder. Mas na ressurreição dos filhos dos homens, nós encontramos três vozes mencionadas, 1 Tessalonicenses 4.16. O Senhor descerá com um alarido, o alarido de um rei, com a voz do arcanjo. Ou o próprio Cristo, o príncipe dos anjos, ou o comandante-em-chefe, sob as ordens dele, acompanhado dos exércitos celestiais. E com a trombeta de Deus, a trombeta do soldado fazendo soar o alerta de guerra, e a trombeta do juiz proclamando as convocações para o tribunal.

(b) O efeito disso: eles sairão de seus túmulos, como prisioneiros saindo de suas prisões. Eles ressuscitarão do pó e o sacudirão de si. Veja Isaías 52.1,2,11. Mas isto não é tudo. Eles comparecerão diante do tribunal de Cristo, sairão como aqueles que serão julgados, comparecerão ao tribunal para receber publicamente sua sentença.

D. Para o que eles serão ressuscitados. Para uma condição de felicidade ou sofrimento, de acordo com a atitude que tomaram em relação ao Evangelho da graça de Deus. Eles irão para um estado de recompensa, conforme o que fizeram no estágio de provas.

(a) Aqueles que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida. Eles viverão novamente, para viver para sempre. Note que:

[a] Qualquer que seja o nome pelo qual os homens sejam chamados, ou qualquer que seja aquilo que professem, no grande dia somente serão galardoados aqueles que fizeram o bem, aquilo que agrada a Deus e que é proveitoso para os outros.

[b] A ressurreição do corpo será uma ressurreição para a vida para todos aqueles, e apenas aqueles, que foram sinceros e resolutos em fazer o bem. Eles não somente serão publicamente absolvidos, como um criminoso perdoado, como dizemos, que recebe sua vida de volta, mas eles serão admitidos na presença de Deus, e isto é vida, aliás, é melhor do que a vida. Eles serão cuidados com os consolos da perfeição. Viver é ser feliz, e eles serão elevados acima do medo da morte. Esta é, sem dúvida, a vida em que a morte será tragada para sempre.

(b) Aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para a ressurreição da condenação. Eles viverão novamente, para serem condenados para sempre. Os fariseus pensavam que a ressurreição dizia respeito apenas aos justos. mas aqui Cristo retifica esse engano. Note que:

[a] Os que fazem o mal, apesar do que aleguem, serão tratados, no dia do julgamento, como homens maus.

[b] A ressurreição será, para os homens que fazem o mal, que não reverteram através do arrependimento o que fizeram de errado, a ressurreição da condenação. Eles sairão para serem publicamente declarados culpados de rebelião contra Deus, e publicamente sentenciados ao castigo eterno; para serem sentenciados a isso, e enviados imediatamente a isso sem descanso. Assim será a ressurreição.

(2) Observe o que é dito aqui com relação à autoridade do Mediador para exercer o juízo, vv. 22-24,27. Assim como Ele tem um poder glorioso, da mesma forma tem uma jurisdição autônoma. E quem está mais preparado para presidir as questões importantes da outra vida do que aquele que é o Pai e a fonte da vida? Aqui está:

[1] A comissão ou delegação de Cristo para o cargo de juiz, do qual se fala por duas vezes aqui (v. 22): “o Pai… deu ao Filho todo juízo”, e outra vez (v. 27): “deu-lhe o poder de exercer o juízo”.

Em primeiro lugar, o Pai a ninguém julga. Não que o Pai tenha renunciado à autoridade, mas Ele se apraz em reger através de Jesus Cristo, de modo que o homem não esteja sob o temor de tratar diretamente com Deus, mas tenha o consolo de ter acesso a Ele através de um Mediador. Tendo nos feito, o Senhor pode fazer o que quiser conosco, como o oleiro faz com o barro. Mesmo assim, ele não tira vantagem disso, mas nos atrai para si com os laços humanos. Ele não determina nossa condição perpétua pelo pacto da inocência, nem emprega a vantagem que tem contra nós pela violação desse pacto. O Mediador, tendo tomado para si a tarefa de realizar uma expiação vicária, a questão lhe é apresentada, e Deus está desejoso de assumir um novo pacto, não sob a lei do Criador, mas sob a graça do Redentor.

Em segundo lugar, Ele confiou todo o juízo ao Filho, e o estabeleceu como o Senhor de todos (Atos 10.36; Romanos 14.9), como José, no Egito, Gênesis 41.40. Isto fora profetizado, Salmos 72.1; Isaías 12.3,4; Jeremias 23.5; Miquéias 5.1-4; Salmos 67.4; 96.13; 98.9. Todo juízo é dado ao nosso Senhor Jesus, pois:

1. Ele está encarregado da administração do reino da providência, está sobre todas as coisas (Efésios 1.11), sobre todos os homens, 1 Coríntios 12.3. Todas as coisas subsistem por ele, Colossenses 1.17.

2. A Ele, é dado o poder para fazer leis de imediato para obrigar as consciências. “Eu vos digo”, esta é agora a forma como os estatutos do reino do céu funcionam. Seja ela promulgada pelo Senhor Jesus, e pela sua autoridade. Todas as leis agora em vigor têm, necessariamente, o toque do seu cetro.

3. Ele está autorizado a fixar e estabelecer os termos da nova aliança, e a redigir os artigos da paz entre Deus e o homem. É Deus em Cristo que reconcilia o mundo, e a Cristo Ele tem dado o poder para conceder a vida eterna. O livro da vida é o livro do Cordeiro. Pela sua decisão, devemos nos colocar de pé ou cair. 

4. Ele está comissionado para levar avante e concluir a guerra com os poderes das trevas, para expulsar e realizar o julgamento contra o príncipe deste mundo, cap. 12.31. Ele está comissionado não apenas para julgar, mas para pelejar, Apocalipse 19.11. Todos aqueles que lutam por Deus contra Satanás devem se alistar sob seu estandarte.

5. Ele está estabelecido como o único administrador do julgamento do grande dia. Os antigos geralmente interpretavam essas palavras como o ato de coroação de seu poder como juiz. O julgamento final e universal está reservado para o Filho do homem. O tribunal é seu, é o foro de Cristo. A comitiva é sua, de seus poderosos anjos. Ele julgará as causas e dará o veredicto, Atos 17.31.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 17-30 – PARTE I

Alimento diário

A Discussão de Cristo com os Judeus. Todo julgamento foi entregue a Cristo. O Privilégio Cristão

Temos aqui a dissertação de Cristo na ocasião em que foi acusado de ser um infrator do sábado, e esta parece ser a justificativa que o Senhor apresentou perante o Sinédrio, quando foi acusado perante eles. Ela pode ter sido expressa no mesmo dia, e não parece ter sido expressa dois ou três dias depois. Provavelmente, foi no mesmo dia. Observe:

I – A doutrina formulada, através da qual Jesus justificou o que fez no dia de sábado (v. 17): Ele “lhes respondeu”. Isto sugere a possibilidade de Ele ter sido acusado de alguma coisa. Ou Ele sabia o que eles sugeriram uns aos outros, quando procuravam matá-lo (v.16), e deu esta resposta: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. Em outras ocasiões, em resposta a uma acusação similar, o Senhor lembrou o exemplo de Davi, que comeu o pão da proposição, que pertencia aos sacerdotes que imolavam os sacrifícios, e também o povo dando de beber ao gado no sábado. Porém, aqui Ele vai mais longe e alega o exemplo do seu Pai e sua autoridade divina. Renunciando a todas as outras alegações, Ele insiste naquela que seria equivalente ao todo, e mantém-se fiel àquela que Ele havia mencionado em Mateus 12.8: “O Filho do Homem até do sábado é Senhor”. Mas aqui Ele a amplia.

1. Ele declara abertamente que é o Filho de Deus, ao chamar Deus de seu Pai, e, sendo assim, sua santidade era inquestionável, e sua soberania era incontestável, e Ele podia fazer a alteração que quisesse na lei divina. Com certeza, eles respeitarão o Filho, o herdeiro de tudo.

2. Ele declara que trabalha junto a Deus.

(1) “Meu Pai trabalha até agora”. O exemplo do descanso de Deus no sétimo dia, de todo o seu trabalho, está no quarto mandamento e serve como base para nós o guardarmos como o sábado ou o dia de descanso. Agora Deus simplesmente descansava de trabalho semelhante, da mesma forma como fizera nos seis dias anteriores. Porém, Ele trabalha até hoje, Ele está trabalhando todos os dias, dias de sábado e dias da semana, cuidando e regendo todas as criaturas e contribuindo para sua própria glória, através de sua providência universal para todos os movimentos e atividades da natureza. Por isso, quando nos é ordenado que descansemos no dia de repouso, ainda assim não somos impedidos de fazer aquilo que tem a finalidade de glorificar a Deus, como tinha o homem ao carregar sua cama.

(2) “Eu trabalho também”. Não apenas por isso eu posso trabalhar, como Ele, fazendo o bem nos dias de sábado como nos outros dias, mas eu também trabalho com Ele. Assim como Deus criou todas as coisas através de Cristo, da mesma forma Ele sustenta e governa tudo através dele, Hebreus 1.3. Isto coloca o que Ele faz acima de qualquer contestação. Aquele que é um trabalhador tão formidável deve necessariamente ser um regente incontrolável. Aquele que faz tudo é o Senhor de tudo, e, portanto, Senhor do sábado, tem este poder especial e autoridade que agora afirma ter. E Ele estava a ponto de mostrar ainda mais estes atributos, na mudança do dia do repouso, do sétimo dia da semana para o primeiro dia da semana.

II – O escândalo que sua doutrina causou (v. 18): “Os judeus ainda mais procuravam matá-lo”. Sua defesa se tornou seu escândalo, como se, ao se justificar, Ele tivesse tornado o ruim pior. Note que aqueles que não forem iluminados pela palavra de Cristo, se enfurecerão e exasperarão por causa dela, e nada mais atormenta os inimigos de Cristo do que Ele declarar sua autoridade. Veja Salmos 2.3-5. Eles procuravam matá-lo:

1. Porque Ele havia quebrantado o sábado, pois o que quer que Ele diga em sua própria justificação, eles estão resolvidos, seja certo ou errado, a julgá-lo culpado por quebrantar o sábado. Quando a maldade e a inveja fazem o julgamento, a razão e a justiça podem muito bem permanecer caladas no tribunal, pois o que quer que elas possam dizer será, sem dúvida, rejeitado.

2. Não somente isto, mas Ele também havia dito que Deus era seu Pai. Agora, eles fingem que têm zelo pela honra de Deus, como fizeram antes pelo sábado, e acusam a Cristo disso, como se o fato de Ele ter se igualado a Deus fosse um crime monstruoso. Porém, um crime monstruoso teria sido se Ele realmente não o fosse. Este foi o pecado de Lúcifer: “Serei semelhante ao Altíssimo”. E:

(1) Isto foi, de maneira correta, inferido do que Ele disse, que Ele era o Filho de Deus, e que Deus era seu Pai, seu próprio Pai. Seu, como se Ele não fosse de mais ninguém. Ele havia dito que trabalhava com seu Pai, pela mesma autoridade e poder, e, por meio disto, Ele se fez igual a Deus. Eis que os judeus entendem o que os arianos não entendem.

(2) Ainda assim, o fato de Ele se igualar a Deus foi lhe injustamente atribuído como uma transgressão, pois Ele era e é Deus, igual ao Pai (Filipenses 2.6). E por isso, em resposta a esta acusação, Cristo não se opõe à insinuação como sendo artificial ou forçada, comprova sua afirmação e mostra que Ele é igual a Deus, em poder e glória.

III – O sermão de Cristo sobre este caso, que continua, sem interrupção, até o fim do capítulo.

Nestes versículos, Ele explica, e posteriormente confirma, sua autoridade como Mediador e embaixador no pacto entre Deus e o homem. E a glória que a Ele é conferida por meio disto é tal, que ninguém é digno de receber. Assim também o trabalho que por meio disto lhe é confiado é tal, que não é possível para qualquer ser humano levar a cabo, e, portanto, Ele é Deus, igual ao Pai.

1. Em geral. Ele é um com o Pai em tudo o que faz como Mediador, e havia um entendimento perfeitamente virtuoso entre Eles em todos os assuntos. Isto é introduzido com um prefácio solene (v. 19): “Na verdade, na verdade vos digo”. “Eu, o Amém, o Amém, o digo”. Isto implica em que as coisas declaradas são:

(1 ) Muito impressionantes e notáveis, de tal maneira que exigem a mais solene atenção.

(2) Muito confiáveis, de tal maneira que exigem um reconhecimento sincero.

(3) Que estes são puramente assuntos de revelação divina, coisas que Cristo nos disse, e cujo conhecimento não alcançaríamos de outra forma. Duas coisas Ele diz, de forma geral, relativas à igualdade do Filho com o Pai quanto ao trabalho:

[1] Que o Filho age conforme o Pai “(19): “O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer ao Pai”, pois o Filho faz tais coisas. O Senhor Jesus, como Mediador, é, em primeiro lugar, obediente, à vontade do seu Pai. Tão completamente obediente que Ele por si só não pode fazer coisa alguma, no mesmo sentido em que é dito: “Deus não pode mentir; não pode negar-se a si mesmo”, o que expressa a perfeição de sua verdade, não qualquer imperfeição em sua força. Assim aqui, Cristo era tão inteiramente devotado à vontade de seu Pai, que era impossível para Ele agir separadamente em qualquer coisa. Em segundo lugar; Ele pratica o desígnio do seu Pai. Ele não pode fazer e não fará nada, exceto o que vir seu Pai fazer. Ninguém pode descobrir a obra de Deus, mas o Filho unigênito, que repousava em seu seio, vê o que Ele faz, está intimamente familiarizado com seus desígnios e tem os planos destes sempre diante de si. O que Ele fez como Mediador, ao longo de todo o seu empreendimento, era a transcrição exata ou a reprodução do que fez o Pai. Ou seja, o que Ele planejou, quando criou o plano da nossa redenção em seus desígnios eternos, e determinou esses padrões em todas as coisas. Estes padrões nunca poderiam ser violados, e jamais precisariam ser modificados. Era a cópia do notável original. A fidelidade de Cristo, como foi a de Moisés, levou-o a fazer tudo de acordo com o modelo que lhe fora mostrado no monte. Isto está expresso no tempo presente, que Ele vê o Pai fazer. Por esta razão, quando Ele esteve aqui na terra, foi dito: Ele está no céu (cap. 3.13), e está no seio do Pai (cap. 1.18). Por sua natureza divina, o Senhor também estava, na mesma hora, completamente ciente daquilo que se passava no céu. O Filho tinha sempre em vista aquilo que o Pai planejou e designou, e já o tinha em vista quando Davi, em espírito, falava dele: “Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim”, Salmos 16.8. Em terceiro lugar, ainda assim, Ele é igual ao Pai ao trabalhar, pois sejam quais forem as coisas que o Pai faz, essas também o Filho faz: “Tudo quanto ele [o Pai] faz, o Filho o faz igualmente”. Ele fazia as mesmas coisas, não coisas similares, mas as mesmas coisas, e Ele as fazia da mesma forma, igualmente, com a mesma autoridade, liberdade e sabedoria, com a mesma energia e eficácia. O Pai decreta, rejeita e altera leis positivas? Ele desconsidera o curso da natureza e conhece os corações dos homens? Da mesma forma, o Filho. O poder do Mediador é o poder divino.

[2] Que o Pai se comunica com o Filho, v. 20. Observe: Em primeiro lugar, a indução a isso: “O Pai ama ao Filho”. Ele afirmou: “Este é o meu Filho amado”. Ele não tinha apenas boa vontade para com a empreitada, mas uma infinita complacência com o empreiteiro. Cristo era agora odiado pelos homens, alguém que as nações abominavam (Isaias 49.7), mas Ele se consolava com o fato de saber que seu Pai o amava.

Em segundo lugar, os exemplos do seu amor. Ele o mostra:

2. aquilo que comunica ao Filho: Ele “mostra-lhe tudo o que [Ele próprio] faz”. As leis do Pai ao fazer e governar o mundo são mostradas ao Filho, para que Ele possa utilizar as mesmas ações ao compor e dirigir a igreja, cujo trabalho devia ser uma duplicação da obra da criação e da providência, e é por causa disso chamado “o mundo futuro”. Ele lhe mostra todas as coisas que ele faz, isto é, que o Filho faz, assim pode ser interpretado. Tudo que o Filho faz é por orientação do Pai. Ele lhe mostra.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 5: 1-16 – PARTE III

Alimento diário

A Cura no Tanque de Betesda

 

V – O que aconteceu com o pobre homem depois que ele foi curado. Aqui nos é dito:

1. O que ocorreu entre ele e os judeus que o viram carregar sua cama no sábado. A cura foi realizada no sábado, e este era o sábado da semana da páscoa, e, portanto um grande dia, cap. 19.31. A obra de Cristo era tal, que ele não precisava estabelecer qualquer diferença entre os dias de sábado e outros dias, porque Ele estava sempre ocupado com os interesses de seu Pai. Entretanto, Ele realizou muitas curas notáveis no sábado, talvez para encorajar sua igreja a esperar dele, pela observância do dia de repouso cristão, aqueles favores espirituais que eram caracterizados por suas curas milagrosas. Aqui:

2. Os judeus discutiram com o homem por carregar sua cama no dia de sábado, dizendo-lhe que isso não era lícito, v. 10. Não está claro se eles eram magistrados, que tinham poder para puni-lo, ou pessoas simples, que só poderiam denunciá-lo, mas era louvável que, embora não soubessem sob qual autoridade ele estivesse agindo daquele modo, eles estivessem zelosos para com a honra do sábado, e não pudessem, com indiferença, vê-lo pro­ fanado, como Neemias, Neemias 13.17.

3. O homem justificou-se no que fez através de uma autoridade que o apoiava, v. 11. “Eu não faço isso com desprezo à lei e ao sábado, mas em obediência a quem, ao me curar, deu-me uma incontestável prova de que é maior do que qualquer um deles. Aquele que pode realizar um milagre como o de me curar; sem dúvida, pode me dar uma ordem para carregar minha cama. Aquele que pode dominar as forças da natureza, sem dúvida, pode prevalecer sobre uma lei positiva, especialmente em uma situação que não estava relacionada à essência da lei. Aquele que foi tão generoso em me curar não seria tão cruel em ordenar que eu fizesse algo pecaminoso”. Cristo, ao curar outro paralítico, demonstrou seu poder para perdoar os pecados, e aqui, para legislar. Se seus perdões são válidos, suas ordens também são, e seus milagres comprovaram ambas as coisas.

(3)  Os judeus perguntaram ainda quem lhe dera essa ordem (v.12): “Quem é o homem?” Observe quão habilmente eles ignoraram aquilo que poderia ser um forte motivo para sua fé em Cristo. Eles perguntaram, não por curiosidade: “Quem é esse que te curou?” Embora eles habilmente entendessem aquilo que poderia ser uma base para uma reflexão sobre Cristo (“Quem é o homem que te disse: Toma a tua cama e anda?”), eles, de bom grado, intimariam o paciente a ser uma testemunha contra seu médico, e a ser seu traidor. Em suas perguntas, observe que:

[1] Eles decidem olhar Cristo como um mero homem: “Quem é o homem?” Pois, embora Ele já tivesse dado todas as provas convincentes de que era o Filho de Deus, eles haviam decidido que nunca o reconheceriam como tal.

[2] Eles resolvem olhar para Ele como um homem mau, e dão como certo que aquele que ordenou que esse homem carregasse sua cama, qualquer que fosse a autorização divina que pudesse apresentar; era certamente um infrator da lei, e, como tal, eles decidem processá-lo. “Que homem é esse que se atreve a dar tais ordens?”

(4)  O pobre homem não tinha condições de prestar-lhes qualquer esclarecimento sobre Jesus: “O que fora curado não sabia quem [Ele] era”, v. 13.

[1] Cristo, quando o curou, era um desconhecido para ele. Provavelmente, ele havia ouvido falar do nome de Jesus, mas não nunca o tinha visto, e por isso não podia dizer que aquele era Ele. Note que Cristo concede muitos favores para aqueles que não o conhecem, Isaías 45.4,5. Ele nos instrui, fortalece, anima, conforta, e nós não sabemos quem Ele é, nem temos consciência do quanto recebemos diariamente através da sua mediação. Esse homem, que desconhecia Cristo, não podia realmente crer que receberia uma cura da parte dele, mas Cristo conhecia as características de sua alma e adequou seu ato de generosidade a elas, como fez para o homem cego em um caso semelhante, cap. 9.36. Nossa aliança e nossa comunhão com Deus originam-se não tanto de nosso conhecimento a respeito dele, mas do conhecimento que Ele tem a respeito de cada um de nós. Nós conhecemos a Deus, ou melhor, somos conhecidos dele, Gálatas 4.9.

[2] Por um determinado período, o Senhor Jesus se manteve incógnito, pois logo que realizou a cura, Ele se retirou. Ele se fez incógnito (assim alguns interpretam), “em razão de naquele lugar haver grande multidão”. Isto é mencionado para mostrar, ou, em primeiro lugar, como Cristo se retirou – misturando-se à multidão, para não ser distinguido de uma pessoa comum. Aquele que era frequentemente o comandante de milhões de milhões se fez um na multidão. É, às vezes, o destino daqueles que se notabilizam por suas obras serem nivelados à multidão, e passar em despercebidos. Ou, em segundo lugar; que Ele se retirou porque naquele lugar havia uma grande multidão, e Ele habilmente evitou tanto a aclamação daqueles que ficaram admirados com o m:ilagre, e o exaltariam, quanto a crítica daqueles que o reprovariam como um profanador do sábado, e o perseguiriam. Aqueles que são produtivos para Deus em sua geração devem esperar passar de uma reputação boa a uma reputação ruim, e é muito sábio evitar a ambos, para que não sejamos exaltados por um, e desvalorizados pelo outro, acima da medida. Cristo deixou que o próprio milagre o glorificasse, e que o homem em quem foi realizado o justificasse.

4. O que se passou entre o homem dantes enfermo e nosso Senhor Jesus em seu encontro posterior; v. 14. Observe aqui:

(1)  Onde Cristo o encontrou: “no templo”, o lugar público de adoração. Em nosso comparecimento aos cultos públicos, podemos esperar nos encontrar com Cristo, e aperfeiçoar nossa intimidade com Ele. Observe:

[1] Cristo foi ao Templo. Embora Ele tivesse muitos inimigos, ainda assim Ele apareceu em público, porque ali Ele prestava seu testemunho às instituições divinas, e tinha a oportunidade de fazer o bem.

[2] O homem que fora curado foi ao Templo. Lá, Cristo o encontrou, ao que parece, no mesmo dia em que ele fora curado. Para lá, ele fora diretamente, em primeiro lugar, porque ele, devido à sua enfermidade, havia sido por muito tempo impedido de entrar naquele lugar: Talvez ele não tivesse estado ali por trinta e oito anos, e, por essa razão, tão logo o embargo é cancelado, sua primeira visita será ao Templo, como declara Ezequias que será a sua (Isaias 38.22): “Qual será o sinal de que hei de subir à Casa do Senhor? Em segundo lugar, porque ele tinha, devido à sua recuperação, uma boa missão para cumprir ali. Ele subiu ao Templo para agradecer a Deus pela sua recuperação. Quando, a qualquer tempo, Deus tiver restaurado nossa saúde, nós devemos nos ocupar naquilo que é dele com louvores solenes (Salmos 116.18,19), e quanto antes melhor; enquanto o sentimento de misericórdia é recente. Em terceiro lugar; porque, ao carregar sua cama, ele parecia ter desprezado sábado. Desta maneira, ele mostraria que tinha respeito por ele, e que estava consciente da santificação do sábado naquilo em que sua ênfase principal estava apoiada, que é a adoração pública a Deus. Obras inadiáveis de misericórdia são permitidas, porém, quando elas estiverem terminadas, nós devemos ir para o templo.

(2)  O que Jesus lhe disse. Quando Cristo nos cura, há outras coisas que precisam ser feitas. Ele agora se dedica à cura da alma do homem, e também o faz pela palavra.

[1] Ele lhe dá uma lembrança de sua cura: “Eis que já estás são”. Ele se achava são, mesmo assim Cristo chama a atenção dele para isso. Contemple, considere seriamente quão rápida, quão estranha, quão barata, e quão confortável foi a cura. Aprecie-a. Contemple-a e maravilhe-se. Lembre-se dela. Permita que as impressões dela permaneçam, e nunca se percam, Isaías 38.9.

[2] Ele lhe dá um aviso sobre o pecado, considerando-o: “Já estás são; não peques mais”. Isto indica que sua doença era uma punição pelo pecado. Se por algum pecado muito escandaloso, ou apenas pelo pecado em geral, não temos como saber, porém sabemos que o pecado, às vezes, é a causa que induz a doença, Salmos 107.17,18. Alguns comentam que Cristo não fez menção de pecado a nenhum de seus pacientes, exceto a este homem incapaz e a outro que estava doente da mesma forma, Marcos 2.5. Enquanto essas doenças crônicas permaneciam, elas impediam a exteriorização de muitos atos pecaminosos, e por isso, quando a deficiência era eliminada, o cuidado era ainda mais necessário. Cristo revela que aqueles que são curados, que são libertados da presente punição concreta pelo pecado, correm o risco de voltar a pecar quando o medo e a moderação terminarem, a não ser que a graça divina seque a fonte. Quando o aborrecimento que apenas represava a correnteza acaba, as águas retornam ao seu curso anterior; e por esse motivo há uma grande necessidade de vigilância, para que, após a cura pela misericórdia, não retornemos outra vez à loucura. O sofrimento do qual fomos curados nos alerta para não mais pecarmos, tendo sentido a dor do pecado. O perdão pelo qual fomos curados é um compromisso de não escandalizarmos aquele que nos curou. Esta é a orientação de toda providência: “Vai-te e não peques mais”. Este homem começou sua nova vida muito esperançosamente no Templo, mesmo assim Cristo achou necessário transmitir-lhe este aviso, pois é comum que as pessoas, quando estão doentes, prometam muito, e quando recém curadas, façam alguma coisa, mas após algum tempo, esqueçam de tudo.

[3] Jesus o adverte do risco, caso ele retornasse à sua antiga rotina pecaminosa: “Para que te não suceda alguma coisa pior”. Cr isto, que conhece o coração de todos os homens, sabia que este era um homem que devia temer o pecado. Seria de se pensar que ser aleijado por trinta e oito anos era algo suficientemente ruim. Ainda assim, há algo pior que lhe acontecerá se ele reincidir no pecado, após Deus lhe ter dado um livramento como este, Esdras 9.13,14. O local onde ele se deitava era um local melancólico, mas o inferno é muito mais. A condenação dos apóstatas é algo muito pior do que uma deficiência física de trinta e oito anos.

VI – Agora, depois deste encontro entre Cristo e seu paciente, observe nos dois versículos que se seguem:

1. O anúncio que o pobre homem simples fez aos judeus concernente a Cristo, v. 15. Ele “foi e anunciou aos judeus que Jesus era o que o curara”. Temos motivo para pensar que ele planejou isto para a honra de Cristo e o benefício dos judeus, não imaginando que aquele que tinha tanto poder e bondade pudesse ter quaisquer inimigos. Mas aqueles que querem o bem do reino de Cristo devem ter a prudência ela serpente, para que não façam mais mal do que bem com seu zelo, e não deitem pérolas aos porcos.

2. A ira e a hostilidade dos judeus contra ele: “Por essa causa, os judeus perseguiram Jesus”. Veja:

(1) Como era absurda e irracional a hostilidade deles para com Cristo. “Por essa causa”, porque Ele havia curado um pobre doente, e assim aliviado o fardo público, às custas do qual é provável que ele havia subsistido. “Por essa causa”, eles o perseguiam, porque Ele praticava o bem em Israel.

(2) Como isso era sangrento e cruel: eles “procuravam matá-lo”. Nada menos do que se u sangue, sua viela, os satisfaria.

(3) Como isso era disfarçado com uma aparência de zelo pela honra do sábado, pois este fora o pretenso crime: “Porque [Ele] fazia essas coisas no sábado”, como se esta particularidade bastasse para invalidar as melhores e mais divinas ações, e para tornar odioso aquele cujas obras eram, pelo contrário, as mais meritórias. Dessa maneira, os hipócritas muitas vezes acobertam sua verdadeira hostilidade contra o poder da Divindade, através de um falso zelo pela forma desta.