PSICOLOGIA ANALÍTICA

EU E O UNIVERSO

A interação entre os ambientes externo e interno, mediada por processos sensoriais, cognitivos e afetivos, lhes permite entrar em contato com o que os cerca e apreender informações    fundamentais.Eu e o universo

A consciência ainda é um enigma. Nem mesmo sofisticadas técnicas de imageamento cerebral puderam desvendar seu substrato orgânico.

Embora nas últimas décadas a neurociência tenha novas revelações sobre alguns dos mecanismos essenciais do funcionamento do cérebro humano – da memória à percepção, da linguagem às emoções –, pouco esclarece sobre o fenômeno da consciência. O modo como determinados processos físico-químicos podem dar origem, no âmbito dos neurônios, a experiências como alegria, dor, dúvida, fé, desejo e felicidade permanece um mistério.

Para não incorrermos em aporias, poderíamos definir a consciência como a síntese espaço temporal da experiência subjetiva. Em suma, a condição essencial dos processos psíquicos. Essa definição, no entanto, não é válida para todas as culturas. De acordo com o psiquiatra e pesquisador italiano Bruno Callieri, nas línguas africanas, por exemplo, não há um termo que se aproxime do conceito ocidental de “consciência”; nas culturas indianas, esse termo indica uma minúscula qualidade individual diante do Onisciente; na civilização islâmica, indica o conhecimento do que é íntimo, inapropriável, inacessível. Os significados do termo são, portanto, diferentes e inúmeros. Com o trabalho de gerações de pesquisadores, há mais de um século, a psicologia científica tenta solucionar essa matéria fascinante e controversa. Entre a segunda metade do século 19 e os primeiros anos do século 20, as pesquisas de Wilhelm Wundt, William James e outros resultaram, na Europa e nos Estados Unidos, no nascimento dos estudos sobre a consciência, que na época pertenciam à esfera da anatomofisiologia cerebral, e que hoje poderíamos identificar, com boa aproximação, com a área da neurociência.

Por vários motivos, até quase toda a primeira metade do século 20 os programas de pesquisa sobre o assunto foram ofuscados pelo behaviorismo, o paradigma que tinha exclusividade de estudo sobre o comportamento. Para os que sustentam essa corrente de pesquisa, a psicologia deve limitar-se ao que é observável. O que a isso não corresponde pode ser considerado expressão da denominada “caixa-preta”. Fundado por John B. Watson, o behaviorismo – cujo expoente mais conhecido é Burrhus Frederic Skinner –  estuda as leis do aprendizado e os relativos comportamentos, de acordo com o princípio estímulo-resposta; e foi predominante nas psicologias americana e europeia durante muito tempo.

REVOLUÇÃO COGNITIVA

Entre as décadas de 50 e 60, com as incertas bases epistemológicas de um paradigma que não consegue estabelecer invariáveis ou regularidades da mente ao deduzi-las apenas do comportamento, tampouco pode explicar aspectos essenciais da vida de relação humana e animal, surge a revolução cognitiva. Embora dividida em tendências e orientações diferentes, como a computacional e a conexionista, enseja o nascimento das ciências cognitivas, cujo objeto de estudo são os conteúdos cognitivos.

A ideia fundadora do cognitivismo é que o modelo behaviorista não tem como dar conta da complexidade dos processos mentais. Para desvendar o funcionamento da mente, é preciso considerá-la como um sistema de elaboração e processamento das informações (human information processing). Nos Estados Unidos e na Europa, o impacto das ciências cognitivas foi forte a ponto de ofuscar as pesquisas sobre a consciência, considerada mais como dilema filosófico que objeto de indagação científica. Logo um modelo da mente como global workspace, proposto pelo neurobiólogo Bernard Baars, do Instituto de Neurociências de La Jolla, na Califórnia, foi ganhando espaço: seria uma espécie de triagem central das informações, em que é possível estudar o nas- cimento de uma percepção, o funcionamento da memória, os mecanismos de uma emoção e muito mais. Além disso, as pesquisas em neurociência – que começavam a valer-se de novas técnicas de observação das estruturas e das funções do cérebro – possibilitaram não apenas levantar a hipótese de correlações entre comportamentos observados e eventos mentais, mas estabelecer padrões específicos da estrutura das funções cerebrais, como foi apresentado em 1994 pelo psicólogo da Universidade Stanford Stephen Kosslyn.

As novas técnicas de imageamento cerebral (fMRI – ressonância magnética funcional, PET – tomografia por emissão de pósitrons etc.), que fazem uma reconstrução tridimensional do cérebro do paciente vivo, permitem hoje a análise de lesões enquanto a observação comportamental ou cognitiva está em andamento.

Apesar dos espantosos progressos rumo a uma física das representações da mente e das tentativas de preencher a distância entre neurônio e pensamento, a pergunta ainda está aberta: o modelo neuronal tem condições de resistir à prova da vivência? É justo duvidar. Inúmeras evidências acumuladas pela neurociência, de fato, deixam enormes lacunas. A ponto de sugerirem que ainda estamos muito distantes da compreensão do aspecto fundamental da vida do homem: a vivência. Com efeito, mais que estabelecer suas bases, os correlatos neuronais ou um improvável centro, a verdadeira aposta do estudo da consciência é compreender o que torna possível esse fenômeno único no universo, o que seria, afinal, compreender o significado de ter uma experiência ou uma vivência.

Mas o que é uma vivência? E que relações tem com a consciência? Da tradição fenomenológica, a vivência – ou seja, a experiência imediata e primária do mundo dos significados, própria do indivíduo em sua unicidade – representa o ponto crucial. Na medida em que é experiência original, está sujeita às categorias do pensamento consciente e às “operações ocultas” da consciência intencional. Suas características fundamentais são as de uma estrutura de sentido aberto: histórica, transitória, nada unitária.

Com um movimento teoricamente brilhante – que se apoia na dicotomia freudiana entre consciente e inconsciente –, Merleau-Ponty distingue, no início dos anos 60, a intencionalidade da consciência perceptiva (ativa) e a intencionalidade da consciência intelectual (puramente reflexiva). Essa representação da experiência consciente se afasta sensivelmente daquela de conteúdo mental como concebido na philosophy of mind de tradição anglo-americana – defendida no trabalho de Daniel Dannett, do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, em Massa- chusetts, e de John Searle, da Universidade da Califórnia em Berkeley – em que o “mental” é incapaz de olhar e explorar a si mesmo.

EM SINTONIA

Essa posição trai secretas solidariedades com o subjetivismo (e o solipsismo) daqueles filósofos que pensam que a consciência só existe em nossa cabeça e que a vivência é lógica e empiricamente irredutível a uma função neuronal.

Mas a consciência não está na cabeça, como dizia o filósofo e neurocientista chileno Francisco Varela. Talvez seja, isso sim, a condição de possibilidade desta. Ou seja, a consciência vive na relação com o corpo e com o mundo. O cérebro (o “tear encantado”, como poeticamente o definiu o neurofisiologista Charles Sherrington) integra e coordena as atividades sensoriais e motoras, a fisiologia da vida vegetativa e assim por diante. Esse esquema incorpora de modo completo e simultâneo fatores e fenômenos essenciais, internos e externos (o cérebro à musculatura, ao aparelho esquelético, ao intestino, ao sistema imunológico, aos sistemas hormonais), numa relação que faz de nossa mente um ponto de conexão entre o ambiente exterior e o interior. Além disso, se recusarmos a ideia da racionalidade como princípio fundamental da mente – ou seja, da existência de uma relação do tipo recipiente/conteúdo que faz do psiquismo um lugar e da mente, um recipiente com alguns conteúdos – ficará evidente que a consciência não é um lugar fechado. Portanto, não deveríamos mais nos perguntar como alguma coisa entra ali vinda de fora, mas de que modo a consciência se abre ao mundo exterior entre o si e o fora de si, dado que ela, desde sempre, está do lado de fora de si própria, conforme demonstrou em sua obra o filósofo francês Paul Ricoeur.

A consciência está em forte sintonia com o ambiente, como evidenciam determinadas deformações induzidas por elementos externos (por exemplo, substâncias psicotrópicas) ou com a modificação voluntária de nosso estado de consciência, independentemente da situação em que nos encontramos (recolhendo-nos e concentrando-nos, como na meditação transcendental). E mais: é até mesmo possível admitir tanto a atitude espontânea de transformação da consciência quanto a capacidade de passar “naturalmente” de um estágio a outro não condicionado pelo ambiente. Isso torna ainda mais plausível a ideia de que uma larga parte de sua base seja pré-reflexiva, não conceitual, pré-noética, afetiva.

Portanto, haveria fundamento na afirmação do neurocientista António Damásio de que a consciência se inicia como um sentimento. Não no sentido de alguma coisa claramente perceptível – assim como qualquer percepção (visual, auditiva, olfativa, gustativa ou tátil) –, mas como uma expressão concomitantemente poderosa e elusiva, inconfundível e vaga, que se revela por meio de sinais não verbais do corpo, solicitados pelas regiões cerebrais que, em sua maioria, se situam nos núcleos subcorticais do tronco encefálico, do hipotálamo, do prosencéfalo basal e da amígdala. As bases neuronais de tais dinâmicas, de fato, estão em intensa relação de coimplicação com as mudanças biológicas ligadas ao estado corpóreo e ao estado cognitivo. Esse território sustenta uma tonalidade emocional mutável que se transforma em categorias, elementos distintos e sequências de raciocínio: em breve, nas clássicas unidades descritivas da mente.

No entanto, há que perguntar que espaço de investigação e reflexão haveria para uma fenomenologia da consciência que não correspondesse à tentativa de naturalização ou de subjetivação, que coloca a intencionalidade na consciência. Aqui é evidente a exigência de uma postura epistemológica e de um método que investigue os nexos conceituais e as estruturas de conexão entre dois âmbitos aparentemente irredutíveis entre si. O ponto fundamental, em outros termos, é o de uma nova aliança entre o “fenômeno lógico” e o “biológico” que se alimente de desafios, de diálogos e até mesmo de tensões, num horizonte de reciprocidade entre conhecimento científico e conhecimento fenomenológico da mente. Dessa forma, os dados imediatos da experiência e os modelos neuronais – ambos submetidos a rigorosas validações – podem se tornar elementos de um discurso comum sobre as “regularidades da experiência humana”.

De modo esquemático, poderíamos retomar a discussão de três esferas da consciência, essenciais e de interesse comum: a atenção, a estrutura temporal da consciência, o campo da consciência. Ora, se é verdade que a consciência pode estabelecer um diálogo consigo mesma e ter acesso à autonomia de sua organização em sua relação com o corpo vivenciado, ainda as- sim não devemos confundir o ser consciente com seu campo de consciência. A modalidade do ser consciente, com efeito, decerto se articula com a estrutura fundamental do campo da consciência, mas a excede bastante. Trata-se, portanto, de estudar o emergir do eu e aquilo que funda sua historicidade. Naturalmente, o eu é aqui entendido não como espectador, mas como ator que toma forma numa dinâmica ascendente por meio dos diversos graus constitutivos da consciência, até o ordenamento mais elevado do campo da presença humana.

Em definitivo, as pesquisas dos processos neurobiofisiológicos são parte essencial de uma fenomenologia da consciência. Todavia, para ela concorrem com igual importância e significado dois aspectos da vida da consciência: a própria “história de vida no mundo” (ou seja, a do indivíduo que toma posição, avalia, escolhe e se confronta consigo mesmo e com os outros) e o psicobiológico atual (a experiência do momento). Se considerarmos essas premissas, talvez seja possível superar as radicalizações naturalistas e metafísico-subjetivistas que barram o caminho ao conhecimento da esfera mais complexa e fascinante do humano.

 AS ESFERAS DA CONSCIÊNCIA

1 – ATENÇÃO

Essa capacidade pode ser entendida como a base do mecanismo consciente. Os estudos de imageamento cerebral identificaram redes neuronais que podem representar plausivelmente o substrato de funções essenciais para uma distinção entre eventos cognitivos conscientes e inconscientes. Essas evidências indicam que os mecanismos da atenção se constituem como uma sequência distinta de processos mentais, não localizáveis nem em poucos neurônios nem em um conjunto neurofuncional do cérebro. Desse ponto de vista, a atenção representaria um aspecto essencial da consciência, ou seja, da capacidade de voltar a consciência para determinado estímulo, objeto, fonte perceptiva. Esse conceito remete, muito de perto, ao da intencionalidade, segundo o qual a consciência sempre se dirige para alguma coisa. Como William James, Wilhelm Wundt e Théodule Ribot já haviam intuído, a atenção é o indicador da unidade funcional na coordenação geral da vida de relação. Ou seja, ela expressa uma orientação eletiva de atividade, que implica fenômenos de ativação e inibição sistemáticos, em diversos níveis neuronais. Altos níveis de atenção exigem graus elevados de integração: ou seja, de unificação e individualização da atividade. Isso significa que a atenção, como atividade geral e formal, não existe: ela só existe como formação constante da consciência, direcionamento consciente rumo a alguma coisa.

2 – ESTRUTURA TEMPORAL

A temporalidade é a condição de possibilidade da experiência. Embora os neurocientistas cognitivos insistam em considerar de interesse predominante o diferencial diacrônico entre um evento neural e um evento cognitivo, é preciso dizer que a estrutura temporal é a expressão de uma integração cerebral difundida e extremamente complexa. A consciência, de fato, é presença, aqui e agora, vivenciada de cada acontecimento, campo de presença que “contém” o tempo e integra pulsões, emoções e instintos numa “estrutura temporal” que exige a constante “presença do sujeito”.

Em plena atividade e num estado normal de vigília, a consciência é um processo de mudança perpétua de perspectivas que supõe uma estrutura “facultativa” e uma “disponibilidade” de propriedade do sujeito e que implica uma dinâmica vertical de “campo” temporalmente determinada, como demonstrou Maurice Merleau-Ponty em 1964. Nesse sentido, pode-se falar de um “estado normal de vigília”: ou seja, de um estado de clareza entre o sono e a hipervigília, que favorece a possibilidade especificamente humana de encetar um diálogo consigo mesmo, numa perfeita consciência situacional e/ou, também, numa percepção crítica da própria doença. Nesse aspecto revela-se extremamente importante o estudo clínico dos distúrbios da consciência nos pacientes “amnésticos”, nos quais a alteração da “estrutura temporal” da consciência – a memória e a orientação, entre outros – corresponde à desestruturação de áreas cerebrais definidas.

3 –  CENTRO E MARGEM

A tradição fenomenológica aborda o campo da consciência articulando a distinção entre um ponto central e áreas periféricas. Em seu significado e em suas dimensões, trata-se de uma estrutura momentânea, transitória, sincrônica que permite o emergir e o constituir-se da consciência a partir de uma protoexperiência que brota da tensão entre a pulsão e o objeto. É desse modo que o sujeito se abre para o mundo com uma orientação e um significado que marcam essa relação intencional. A essa “consciência constituída” – que afinal é a estrutura que invariavelmente dá forma à relação do eu com o mundo – corresponde uma tripla estratificação funcional: a) a possibilidade de abrir-se para o mundo e nele orientar-se; b) a capacidade de distribuir o espaço vivenciado conforme o que pertence ao sujeito ou ao mundo dos objetos; c) a faculdade de deter (e preencher) o tempo como “espaço de tempo” que constitui o presente. Essa faculdade deve ser entendida como uma intencionalidade consciente que permite explicitar histórica, axiológica e verbalmente os acontecimentos e o sentido de si, como ser problemático na (e mediante) sua própria formulação.

ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

Para as ciências da mente, tudo que experimentamos resulta da perspectiva de cada um. Segundo a neurociência, o que sentimos e vemos é consequência de sinais elétricos interpretados pelo cérebro; para a psicologia, resulta também de nossas experiências e do somatório e da interação entre a realidade objetiva e subjetiva.

Nossos sentidos captam os estímulos do mundo externo, mas é o cérebro, com suas complexas operações internas, que os decodifica. Embora nossas sensações pareçam precisas e confiáveis, elas não reproduzem necessariamente a realidade física do mundo exterior. Naturalmente, muitas experiências do dia a dia refletem estímulos físicos que enviam sinais ao cérebro, a “máquina” responsável tanto por interpretar informações captadas pelos olhos, ouvidos, pele e outros órgãos dos sentidos como por produzir sonhos, delírios e lapsos de memória. Em outras palavras, real e imaginário compartilham a mesma fonte física. Desse ponto de vista, a famosa lição de Sócrates “só sei que nada sei” faz todo o sentido.

A ilusão óptica, por exemplo, tornou-se uma ferramenta útil para os neurocientistas: ela ajuda a entender as complexas operações do sistema visual. Esse fenômeno é conhecido desde a Antiguidade.

Muito antes de os cientistas estudarem as propriedades dos neurônios, artistas e ilusionistas já criavam várias técnicas para enganar o cérebro, como fazer uma tela plana parecer tridimensional ou converter uma série de pinceladas em uma natureza-morta.

Os efeitos ópticos podem ser definidos pela desconexão entre realidade física e percepção subjetiva de um objeto ou evento. Quando experimentamos uma ilusão desse tipo, podemos ver algo que na realidade não existe (ou o contrário). Esse fenômeno demonstra, portanto, que o cérebro pode deixar de recriar o mundo físico em diversas situações. Ao estudar essas “falhas”, é possível aprender quais mecanismos ele utiliza para construir a experiência visual.

Claridade, cor, sombreamento, movimentação dos olhos e outros fatores influenciam de maneira decisiva o que “vemos”. Assim como um pintor consegue criar um efeito de profundidade em uma tela plana, nosso cérebro baseia-se em informações que chegam de nossas retinas, essencialmente bidimensionais, para formar as ilusões de óptica. Estas nos mostram que a profundidade, a cor, o brilho e a forma não são conceitos absolutos, mas sim experiências relativas, subjetivas, geradas por circuitos cerebrais complexos. Isso não ocorre apenas no campo das experiências visuais: a sensação de “vermelho”, a aparência de “quadrado” ou emoções como o amor e o ódio são estímulos que resultam da atividade elétrica de nossas células neurais.

No filme Matrix, o personagem Morpheus pergunta ao protagonista Neo: “O que é real? Como você o define? Se estamos falando sobre o que você sente, o que cheira, o que prova e vê, então a realidade é constituída simplesmente por sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro”. Em certo momento da trama, Neo retorna de um mundo de sonhos (Matrix) para a “realidade”, mas seu cérebro (assim como o nosso) continua construindo sua experiência subjetiva, que por vezes se iguala ao mundo concreto. Ou seja: todos nós vivemos, de certo modo, em uma “matrix” criada por nosso cérebro. Por um lado, podemos pensar que se trata de uma prisão. Por outro, porém, essa perspectiva abre a possibilidade de nos descolarmos do que estamos tão acostumados a chamar de “realidade”. E considerar não só que universos (internos e externos) estão em constante transformação, mas também que o mundo depende dos olhos de quem o vê – e, portanto, pode ser transformado de dentro para fora.

 

MAURO MALDONATO – é psiquiatra e filósofo italiano, professor da Universidade de Basilicata. É coautor de Na base do farol não há luz: cultura, educação e liberdade (Sesc, 2017), autor de Da mesma matéria que os sonhos: sobre consciência, racionalidade e livre-arbítrio (Sesc, 2014), Passagens do tempo (Sesc, 2012), Raízes errantes (Editora 34, 2004), entre outros.

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GESTÃO E CARREIRA

PARE DE TRABALHAR!

Pare de trabalhar

Fiquei algum tempo em bloqueio criativo com muita dificuldade para escrever e produzir. Ao me encontrar exaurida de forças, decidi

tirar alguns dias de férias em um lugar distante de casa, sozinha, onde eu pude me dedicar à alimentação balanceada, à saúde e a fazer exercícios físicos.

Me considero privilegiada por poder trabalhar em algo que amo muito e me sinto útil. É fascinante acompanhar o desempenho de empresas, auxiliando em seu crescimento. É muito gratificante ajudar pessoas a conhecerem suas competências e potenciais por meio dos treinamentos. É um trabalho que me realiza muito, porém eu perdi a mão. Como assim? Eu faço o que gosto e me extingui? Pois é. Essa pergunta me acompanhou nos 15 dias onde eu estava reaprendendo a viver de forma saudável e fazendo a conta do quanto eu fui displicente com a minha saúde. Em que momento me atropelei na minha própria rotina de trabalho de tal forma que afetou meus resultados.

Não é novidade dizer que 2017 foi um ano exigente. Juntei ouvir isso mil vezes, sentir isso outras 500 vezes e por alguns anos consecutivos chegar ao final do ano exausta. Fui eu para as férias, a então rainha da culpa, me achando a única nesta situação. Grande foi a minha surpresa quando encontrei várias outras pessoas na mesma situação em que eu estava, buscando o mesmo que eu.

Pessoas cansadas. apesar de terem produzido. Pessoas infelizes consigo mesmas. Pessoas que precisavam se reencontrar com elas, pois lá fora não tinham tempo para elas. Pessoas que racionalmente não tinham nada para reclamar sobre nada. Pessoas que estavam – como EU – com o corpo pedindo equilíbrio. Pessoas bem-sucedidas lá fora e ponto.

Refletindo sobre tudo isso, cheguei a uma conclusão triste. Veja bem: a palavra trabalho vem do latim tripalium, que é um instrumento de tortura comum em tempos remotos no velho mundo. Aqueles que não podiam pagar os impostos sofriam torturas realizadas com esse instrumento. Sendo então trabalhador aquele que era destituído de posses, precisando dedicar seu tempo a atividades difíceis ou então ser torturado com o tripalium.  Nos acostumamos a usar um verbete relacionado com tortura, dor e sofrimento para o que tem de mais importante na nossa vida que é a obra que vamos deixar como legado, o trabalho.

Aprendi pagando caro em moeda não financeira que me dedicar à alimentação, à saúde e a exercícios físicos é o que deve ser rotina. A hora extra, a noite adentro trabalhando, as mil viagens sem qualidade de sono e ficar sem tempo para comer de três em três horas… Ufa! Isso tem que ser exceção! Uma vez ou outra para alcançar um objetivo especifico. Aí faz sentido. aí é sustentável, aí dá prazer. Senão, assim como aconteceu comigo, a gente perde a mão e não há férias que curem o cansaço de fazer algo que não tem mais propósito para você.

Se o SEU trabalho é desculpa para uma vida desequilibrada, se o seu trabalho não está inspirando em você uma vontade imensa de acordar e ir realizar o que você acredita, o seu dom, o que você é bom, a sua missão. Epa!  Pode parar agora e colocar – sim, você pode colocar – significado no que você está fazendo. Só com significado o cotidiano tem sabor.

E quando lhe disserem: ”Você não tem férias? Que dó!”.  E você responder normalmente: ”Que nada…”, dando a entender que VOCÊ vive “de férias”.  Aí você encontrou o seu propósito.

No sentido etimológico da palavra, esse é o aprendizado que compartilho aqui: pare de trabalhar hoje mesmo.

 

CECILIA BETTERO – é administradora e especializada em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. E-mail: celiliabetterconsultoria.com.br

PSICOLOGIA ANALÍTICA

COMO A RESPIRAÇÃO AFETA OS SENTIMENTOS

O fato de inspirar ou expirar pela boca ou pelo nariz altera a maneira como as pessoas percebem os estímulos externos.

Como a respiração afeta os sentimentos

A forma como respiramos influi em nossas emoções e até na maneira como pensamos. Cientistas comprovaram, pela primeira vez, que o ritmo da entrada e saída de ar no corpo cria uma atividade elétrica no cérebro humano que acentua os julgamentos emocionais e até lembranças desconfortáveis. Esses efeitos se alteram se a pessoa está inspirando ou expirando – e se ela respira pelo nariz ou pela boca. No estudo, desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de North western, voluntários foram capazes de identificar uma expressão amedrontada mais rapidamente quando deparavam com o rosto enquanto inalavam do que quando exalavam. Os participantes tiveram mais facilidade em se lembrar de um objeto quando se deparavam com ele enquanto inspiravam do que quando expiravam. O efeito desaparecia se eles estivessem respirando pela boca.

“Uma das principais descobertas desse estudo é que existe uma grande diferença na atividade cerebral na amígdala e no hipocampo durante a inspiração em comparação com a expiração”, explicou a autora principal do estudo, Christina Zelano, professora assistente de neurologia da Escola de Medicina Feinberg da Universidade North western. “Quando você inspira, nós descobrimos que você está estimulando neurônios no córtex olfativo, amígdala e hipocampo, através de todo o seu sistema límbico.” O estudo foi publicado no periódico científico Journal of Neuroscience. O autor sênior é Jay Gottfried, professor de neurologia na Feinberg.

Os pesquisadores chegaram a essas conclusões ao acompanhar sete pacientes com epilepsia que estavam com cirurgias cerebrais marcadas. Uma semana antes dos procedimentos, um cirurgião implantou eletrodos no cérebro dos pacientes para identificar a origem das convulsões. Isso permitiu que os cientistas adquirissem dados eletrofisiológicos diretamente do cérebro dos pacientes. Os sinais elétricos registrados mostraram que a atividade cerebral flutuou durante a respiração. A atividade ocorre em áreas cerebrais nas quais emoções, memórias e cheiros são processados.

A descoberta levou os cientistas a se perguntar se as funções cognitivas tipicamente associadas com essas regiões do cérebro – especialmente o processamento do medo e da memória – poderiam ser afetadas também pela respiração. A amígdala está fortemente associada com o processamento emocional, em particular emoções relacionadas ao medo. Desse modo, os cientistas pediram a 60 pessoas, no ambiente do laboratório, que tomassem uma decisão rápida sobre expressões emotivas enquanto registravam a respiração deles.

Os voluntários receberam fotos de rostos com expressões de medo ou surpresa e tiveram de indicar rapidamente qual emoção cada rosto estava expressando. Quando encaravam as fotos durante a inspiração, os indivíduos as reconheciam como amedrontadas mais rapidamente do que quando faziam o mesmo durante a expiração. Isso não aconteceu com as expressões de surpresa. Esse efeito diminuiu quando os participantes realizaram a mesma tarefa enquanto respiravam pela boca. Portanto, o efeito é específico para estímulos de emoções de medo durante a respiração pelo nariz. Em um experimento que tinha como objetivo acessar a função da memória (ligada ao hipocampo), os mesmos participantes observaram fotos de objetos em uma tela de computador e foram instruídos a memorizá-las. Os pesquisadores descobriram que os participantes do experimento se lembraram melhor quando tinham encarado as imagens durante a inspiração.

“Isso significa que uma respiração rápida poderia conferir vantagens quando alguém está numa situação perigosa”, explica Zelano. “Se você está em um estado de pânico, o ritmo da sua respiração se torna mais rápido”, afirma. “Como resultado, você passará proporcionalmente mais tempo inalando do que em um estado calmo; assim, a resposta natural do nosso corpo ao medo em aumentar a frequência da respiração pode ter um impacto positivo no funcionamento do cérebro e resultar em uma resposta mais rápida a estímulos perigosos do ambiente.” Outro insight potencial da pesquisa diz respeito aos mecanismos básicos da meditação ou percepção da respiração. “Quando a pessoa inspira, em certa medida está sincronizando oscilações cerebrais por meio da rede límbica.”

MAIS COMPLEXO DO QUE PARECE

Seres humanos respiram automaticamente, em média, 12 vezes por minuto. O cérebro ajusta a cadência da inspiração e expiração às necessidades do corpo sem nenhum trabalho consciente, embora todos tenhamos a capacidade de prender deliberadamente a respiração por curtos períodos.

Essa habilidade é valiosa quando precisamos evitar que água ou poeira invadam nossos pulmões, estabilizar o tórax antes do esforço muscular e aumentar o fôlego para falarmos sem pausas. É surpreendente que, apesar de mantermos a respiração de forma tão natural, a ciência ainda não tenha a compreensão clara desse processo e de todos os seus efeitos no cérebro.

Quando falta oxigênio, o diafragma envia ao cérebro informações sobre a bioquímica do organismo. Inicialmente, esses sinais são interpretados apenas como leve desconforto; quando se tornam intoleráveis forçam o retorno da respiração para evitar a perda da consciência – e, muito antes de haver danos, mecanismos neurológicos entram em ação.

Mas o que determina o tempo durante o qual conseguimos reter a respiração?  Surpreendentemente, investigar esse problema não é tão fácil.

Embora todos os mamíferos tenham essa habilidade, não foi descoberta uma forma de persuadir animais de laboratório a prender a respiração voluntariamente por mais de alguns segundos. Consequentemente, a apneia voluntária só pode ser estudada em humanos. Se o cérebro deixar de receber oxigênio durante um período muito longo, há riscos imediatos de perda da consciência, dano cerebral e morte – perigos que tornariam vários experimentos antiéticos potencialmente esclarecedores. Na verdade, alguns estudos tomados como referências nas últimas décadas são impossíveis de serem reproduzidos por violarem as normas de segurança.

Em 1959 o fisiologista Hermann Rahn, da Faculdade de Medicina da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, usou uma combinação de métodos pouco comuns – como desaceleração do metabolismo, hiperventilação, preenchimento dos pulmões com oxigênio puro – para manter sua própria respiração suspensa por quase 14 minutos. Num experimento similar, Edward Schneider, pioneiro da pesquisa sobre retenção da respiração na Escola Técnica de Medicina Aeronáutica do Exército, em Mitchel Field, Nova York, anteriormente instalada na Universidade Wesleyan, descreveu o caso de uma pessoa que ficou sem respirar por 15 minutos e 13 segundos sob condições semelhantes na década de 30.

No entanto, estudos e experiência diária sugerem que a maioria de nós, depois de inflar os pulmões ao máximo, não consegue manter a respiração presa por mais de um minuto em média. O dióxido de carbono (gás residual exalado pelas células à medida que consomem alimentos e oxigênio) não se acumula em níveis tóxicos no sangue suficientemente rápido para explicar esse limite.

Teoricamente, seria possível absorver oxigênio suficiente para manter a respiração presa por cerca de quatro minutos, mas poucas pessoas conseguem fazer isso por um intervalo até mesmo próximo desse limite sem treinamento.

Curiosamente, dentro d’água é possível prender a respiração por períodos bem maiores. Esse aumento da capacidade decorre, em parte, da motivação de evitar que os pulmões se encham de água. Mergulhadores que prendem a respiração sentem-se compelidos a respirar muito antes de esgotarem seu oxigênio.

 Como a respiração afeta os sentimentos 2

 

Como a respiração afeta os sentimentos3

(Por Michael J. Parkes, doutor em fisiologia, da Faculdade de Ciências dos Esportes e Exercícios da Universidade de Birmingham, na Inglaterra).

 

Fonte: Revista Mente Cérebro – Edição 296

GESTÃO E CARREIRA

10 PASSOS PARA SER UM LÍDER DE SUCESSO

10 Passos para ser um líder de sucesso

Todos nós temos potencial para ser um líder eficaz, mas, logicamente, algumas características e comportamentos podem favorecer o aprendizado da liderança. Se considerarmos que liderar é “exercer influência”, logo percebemos que se trata de uma habilidade tão importante para o sucesso profissional quanto pessoal e, portanto, imprescindível para aqueles que desejam ocupar posições de destaque.

Por muitos anos atuei na formação e no desenvolvimento de líderes em grandes organizações, bem como fui gestora de equipes numerosas em grandes organizações. Com base nessa experiência, destaco dez características essenciais – que não estão dispostas em ordem de importância ou de prioridade – para ter êxito na posição de influenciador.

 

1 – INSPIRE CONFIANÇA – Ser integro e liderar pelo exemplo, com coerência entre discurso e atitude, independentemente do cargo ocupado, é um importante passo aos que desejam se tornar referência.

2 –  ESTEJA ABERTO A TROCAS – Invista parte do seu tempo conversando com as pessoas. Peça opinião, troque ideias e dê espaço para que seus interlocutores exponham seus pontos de vista sobre os processos. É muito importante ter atenção à qualidade da comunicação, já que, segundo estudos, apenas7%das pessoas são influenciadas simplesmente de maneira verbal. As demais estão atentas aos sinais não verbais (54% dos entrevistados) e à musicalidade da voz (33%).

3 – SAIBA OUVIR – Mostrar-se disponível a ouvir e tentar entender verdadeiramente os interesses e necessidades do outro é uma excelente estratégia para estabelecer empatia com as pessoas. Muitas vezes, divergências de opiniões podem render trocas ricas.

4 – COMPREENDA A INCOMPREENSÃO – Cada pessoa possui um mapa mental, que tem como base suas experiências. Todos captam as informações do meio externo da mesma maneira, porém é individual o processo de filtragem mental, que faz as generalizações, eliminações e interpretações dos fatos. Nesse contexto, um dos piores erros da liderança é esperar que todos a sua volta tenham a exata compreensão do que está sendo transmitido.

5 – PERCEBA OS PARES COMO SERES INDIVIDUAIS – As pessoas são diferentes, seja no aspecto físico, emocional ou intelectual. Um bom líder procura entender que essa pluralidade tende a ser benéfica para a companhia e, por essa razão, está disposto a ser flexível para orientar a equipe de acordo com o estilo de cada membro. Procure respeitar o jeito de ser de cada um, valorizando os pontos fortes e se colocando à disposição para dar suporte nos pontos de melhoria.

6 – RECONHEÇA – Tende a ser engajada e motivada a equipe que sentir ser reconhecida por sua dedicação, esforço e resultados. Todo ser humano deseja o reconhecimento como forma de perceber sua capacidade de realização e potencial. Reconhecer não é somente dar prêmios, bônus ou aumento de salário, mas, sobretudo, dizer que gostou do trabalho ”X’,’ da postura “Y” em uma apresentação além de dar visibilidade a essas pessoas, estimulando que elas propaguem os próprios resultados em reuniões, por exemplo. Pontuar o elogio é uma estratégia para não banalizá-lo.

7 – DESENVOLVA PESSOAS – Delegar é um excelente caminho para que o líder desenvolva a equipe. enquanto cria espaço na própria agenda paia atividades mais estratégicas e de aprimoramento profissional. Colocando-se na posição de facilitador, de maneira gradativa, permita que os membros da equipe tomem decisões que tenham relação direta com o próprio trabalho. Em geral, as pessoas gostam de desafios, aprendem com eles e têm capacidade para criar novos métodos de trabalho e serem melhores. Quem sabe nesse processo você descobre um novo talento?

8 – ESTABELEÇA METAS – Como disse Lúcio Aneu Séneca, escritor e intelectual do império romano, “se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável…Ou seja, a meta é uma maneira objetiva de mostrar às pessoas o foco, o objetivo e o que se pretende com cada ação.

9 – FAÇA A GESTÃO DA ÁREA – Líder que não sabe extrair o melhor de cada membro da equipe, analisar indicadores, avaliar o que realmente está impactando nos resultados, identificar a questão que deve ser solucionada ou o processo que precisa ser aprimorado ou substituído não está fazendo a gestão adequada da área. Logo, os resultados estão comprometidos.

10 – CELEBRE- Crie o hábito de comemorar cada ação que deu certo. Isso cria um estado mental de positividade, possibilidade, gratidão, reconhecimento e sucesso.

Todos esses fatores juntos tendem a motivar a equipe e dar ânimo para avanços em projetos ou desafios maiores.

Em resumo, o bom líder é aquele que consegue se ausentar da empresa sem causar impactos negativos na rotina dos negócios, porque conta com um time de parceiros de trabalho!

 

MEG CHIARAMELU – é consultora da Integração Escola de Negócios.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

MARCA-PASSOS CEREBRAIS PARA CURAR A DEPRESSÃO

Marca-passos cerebrais para curar a depressão

Já utilizada em outros transtornos, como a doença de Parkinson, existe hoje tecnologia para o implante cirúrgico de eletrodos permanentes no cérebro para estimulação elétrica profunda. Por serem introduzidos de maneira invasiva, os marca-passos cerebrais – já testados em pessoas de vários países – nunca serão a primeira opção de terapia, mas são hoje uma esperança de alívio para pessoas com formas graves de transtornos devastadores de humor. Além disso, a técnica pode ajudar a compreender melhor a patologia que afeta milhões de pessoas em todo o planeta.

 “De repente me sinto calma”, diz a paciente, uma mulher de meia-idade que sofria de depressão grave. As palavras foram pronunciadas ainda na sala de cirurgia, apenas alguns segundos depois que um de nós (Lozano) aplicou estimulação elétrica em uma área profunda específica de seu cérebro. O procedimento, feito há mais de uma década, no Toronto Western Hospital, teve apenas anestesia local para que a paciente permanecesse consciente e conversasse conosco.

Conforme a energia da corrente foi aumentada, perguntamos se ela percebia algo diferente. Para nossa surpresa, ela descreveu a sala mudando de “preto e branco para colorido” – como se um interruptor de luz tivesse sido acionado e melhorasse subitamente seu humor.

Esse foi o primeiro de muitos estudos que levaram ao desenvolvimento de uma forma potencialmente nova de tratar a depressão: a estimulação cerebral profunda, uma técnica já utilizada em outros transtornos, como a doença de Parkinson. Novas opções de tratamento para a depressão atenderiam a uma necessidade premente. Durante a vida, algo em torno de 17% da população sofre uma ou mais crises do que psiquiatras de- nominam “transtorno depressivo maior”. A prevalência estimada do transtorno é de 8% em mulheres e 5% em homens. Não são meros episódios de tristeza. O transtorno depressivo maior, que ocorre de forma intermitente, é marcado por um período de humor triste contínuo, sentimentos de culpa, sensação de inutilidade e perda de interesse em atividades cotidianas. É o bastante para prejudicar o pensamento, o sono, o apetite e a libido e pode ser experimentado como dor física. Winston Churchill, que lutou contra a doença, chamou-a de seu “cão negro”.

O quadro pode ser letal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 15% dos pacientes com de- pressão maior se suicidam. Também pode exacerbar problemas de saúde como doenças cardíacas e diabetes, reduzindo a expectativa de vida.

Tratamentos como psicoterapia, medicação e eletroconvulsoterapia costumam ser bastante eficazes na maioria dos casos, mas oferecem pouco ou nenhum alívio a algo em torno de 10% a 20% dos pacientes deprimidos. Com o estabelecimento da técnica cirúrgica, esse subgrupo de pessoas pode se tornar candidato à estimulação cerebral profunda.

A tecnologia ainda não está aprovada para uso rotineiro nos hospitais, mas já foi testada em algumas centenas de pessoas em todo o mundo. A terapêutica exige que médicos façam perfurações no crânio (trepanação) e implantem eletrodos permanentes no cérebro – por isso nunca será a primeira opção de tratamento. Porém, cientistas esperam que, se os resultados dos próximos testes forem bem-sucedidos, possa oferecer qualidade de vida a pessoas que, de outra forma, poderiam estar condenadas ao desespero sem fim.

O teste de 2003 foi desenvolvido com base em pesquisas realizadas por um de nós (Mayberg) para identificar as regiões do cérebro envolvidas na depressão. Neurocientistas reconheceram, na época, que os sintomas de depressão e de vários outros transtornos cerebrais surgem de distúrbios no funcionamento de circuitos neuronais específicos. O tremor ou a rigidez da doença de Parkinson ocorre devido a falhas no disparo de circuitos que controlam o movimento. Circuitos envolvidos na formação de novas memórias, ou na recuperação de antigas, não funcionam na doença de Alzheimer. Da mesma forma, evidências anteriores consideráveis apontaram para distúrbios nos circuitos mediadores do humor como o cerne da depressão.

Os circuitos são formados por conexões entre subconjuntos de 86 bilhões de neurônios do cérebro. Cada célula se liga a milhares de outras, algumas com o neurônio vizinho, outras alcançam grandes distâncias no sistema nervoso central. O tipo de ligação entre as células depende da genética, das experiências iniciais de vida e do estresse. O mau funcionamento dos circuitos envolvidos na depressão provavelmente cobre muitas regiões do cérebro, mas identificar a localização dessa rede de conexões continua sendo um desafio para neurocientistas.

A partir de meados da década de 90, Mayberg projetou uma série de experiências para identificar áreas do cérebro envolvidas na regulação do humor em pessoas saudáveis e em pacientes depressivos. Em uma das primeiras experiências, voluntários saudáveis tiveram de passar por um exercício mental de reviver uma experiência triste de suas vidas.

Escaneamento do cérebro, conhecido como tomografia por emissão de pósitrons (PET), mapeou áreas que apresentaram mu- dança significativa na atividade quando o paciente se sentia desanimado. Um tipo de imagem do PET revelou que pacientes deprimidos mostram aumento do fluxo sanguíneo, uma medida da atividade de células cerebrais, em uma área específica no meio do cérebro quando comparados a pessoas saudáveis. Em contraste, áreas do cérebro envolvidas na motivação, ânimo e funções executivas mostram diminuição de atividade. O local no escaneamento que exibiu maior atividade foi uma pequena região no centro do cérebro denominada área do cíngulo subgenual, conhecida também como área de Brodmann 25, denominação toma- da emprestada do neuroanatomista alemão que criou um mapa do cérebro em 1909 usando designações numéricas, com base no modo como as células estão dispostas em uma localização particular. Mayberg descobriu também que a atividade do córtex frontal diminui proporcionalmente ao grau de tristeza experimentado.

Em um segundo conjunto de experimentos, pacientes deprimidos receberam de Mayberg medicação antidepressiva por várias semanas. Depois, imagens do PET revelaram que, quando os sintomas dos pacientes abrandaram, a melhoria foi acompanhada por diminuição na atividade na área de Brodmann 25, juntamente com o aumento de atividade no córtex frontal. Embora mudanças cerebrais também tenham ocorrido em outras áreas, as diferenças marcantes na área do cíngulo subgenual apontaram para aquela região como exercendo papel fundamental na modulação de humores negativos.

A área de Brodmann 25 projeta e recebe conexões de muitas outras áreas importantes do cérebro, inclusive das seções orbitais e mediais dos lobos frontais, hipotálamo, núcleo accumbens, amígdala e hipocampo, da área periaquedutal e da dorsal da rafe. Essas áreas regem a forma como o cérebro regula atributos básicos do comportamento humano, inclusive o ciclo circadiano, a motivação, respostas a ameaças percebidas e a novos estímulos, sensações de recompensa e reforço, memória de curto prazo e capacidade de usar a experiência passada para orientar o pensamento sobre eventos futuros. Esses processos cerebrais críticos não funcionam bem durante a depressão. Assim, Mayberg pensou que, talvez estimulando esse centro de atividade neural com corrente elétrica, pudesse ajudar deprimidos.

 MEMÓRIA MANTIDA

Até 2002 a estimulação cerebral profunda em outras regiões do cérebro foi aprovada para Parkinson e uma condição denominada tremor essencial. Sabíamos, portanto, que era viável e podia ser usada em humanos. Atualmente, mais de 100 mil pacientes em todo o mundo são submetidos ao procedi- mento para aliviar sintomas de Parkinson. O procedimento cirúrgico básico para a de- pressão é idêntico. Pacientes que atendam a critérios semelhantes aos exigidos de nossa primeira paciente em Toronto Western Hospital são selecionados para estudos. Devem estar doentes por um período mínimo de um ano, sem nenhuma melhoria com pelo menos quatro tipos diferentes de medicamentos. Além disso, não devem ter apresentado melhora após eletroconvulsoterapia ou recusado sua administração.

A estimulação cerebral profunda não é apenas outra forma de terapia eletroconvulsiva – que induz uma convulsão controlada, mas generalizada, enquanto o paciente está anestesiado e que ocorre em sessões curtas, repetidas ao longo de várias semanas. A nova tecnologia aplica tênues pulsos elétricos em uma região do cérebro que tem conexões com muitas outras áreas associadas ao transtorno. Pacientes devem ser submetidos a uma cirurgia grande para implantar os eletrodos que promovem estimulação contínua, mas não sofrem perda de memória, como pode acontecer na eletroconvulsoterapia.

No dia da cirurgia de nossa primeira paciente depressiva no Toronto Western Hospital, a equipe cirúrgica afixou uma estrutura na cabeça da mulher para mantê-la estável. A ressonância magnética identificou o local específico na área do cíngulo subgenual onde o eletrodo deveria ser colocado. Na sala de cirurgia, sob anestesia local e sem sedação, a equipe cirúrgica fez dois orifícios no crânio para inserir elétrodos.

Com a ajuda de William D. Hutchison e Jonathan O. Dostrovsky, ambos especialistas em neurofisiologia, filmamos pela primeira vez neurônios na região do cíngulo subgenual para mapear a atividade e aprender sobre a função desses neurônios. Com base em experimentos com imagens realiza- dos anteriormente, suspeitamos que essas áreas estariam envolvidas no processamento de emoções relacionadas à tristeza. Usando um microeletrodo com ponta mais fina que um fio de cabelo humano, obtivemos medidas diretas de atividade celular dos neurônios dessa região cerebral.

Durante o registro dos neurônios, apresentamos à paciente várias fotografias retratando uma série de cenas emotivas, tanto positivas quanto negativas. Descobrimos, pelas gravações, que esses neurônios se tornaram mais ativos quando a paciente observou fotografias tristes e perturbadoras e que não reagiram em absoluto a cenas alegres, divertidas ou neutras.

Depois, inserimos eletrodos de estimulação na área de Brodmann 25, nos hemisférios esquerdo e direito do cérebro. Segundos depois de termos ligado a corrente, nossa paciente relatou uma redução acentuada na dor mental e peso emocional. De alguma forma, esse peso foi retirado, sensação que constatamos na grande maioria dos pacientes, mas não em todos. Os efeitos foram mais pronunciados quando a estimulação foi aplicada pela primeira vez. Quando repetidos em sequência, ocorreram novamente, mas menos evidentes. Sabemos agora que, se o tratamento é contínuo ao longo de dias ou semanas na mesma região, o paciente geralmente tem benefícios duradouros.

Com essa cirurgia, e com outras que realizamos, verificamos a necessidade de posicionamento preciso dos contatos elétricos que enviam um nível constante de estimulação. Nessa primeira cirurgia, o alívio surgiu apenas quando um ou dois dos quatro contatos elétricos geraram uma corrente constante para a paciente.

A partir de observações contínuas, Patrício Riva-Posse e Ki Sueng Choi, ambos do laboratório de Mayberg, na Universidade Emory, desenvolveram uma nova abordagem de imagens para identificar redes de feixes nervosos mais precisamente, conhecidos como substância branca, que se cruzam na área de Brodmann 25 e parecem produzir tanto alívio imediato quanto efeitos antidepressivos no longo prazo quando estimulados.

Assim que os eletrodos estão no lugar e fixos ao crânio, um cirurgião implanta um gerador de pulsos, semelhante a um marcapasso cardíaco, sob a pele abaixo da clavícula – um marca-passo alimentado por bateria que estimula continuamente a área-alvo com 130 pulsos por segundo. Es- colhemos os parâmetros de estimulação, em parte, com base na nossa experiência no tratamento de pacientes com Parkinson, e até agora parece que essa pulsação de alta frequência proporciona melhor benefício ao paciente.

Feitos os ajustes, a cirurgia está concluída. Depois disso, médicos usam um controle remoto sem fio, portátil, para ajustar a estimulação para cada paciente. Segundo nossa experiência, assim que uma configuração efetiva é estabelecida, não são mais necessários ajustes adicionais. Trabalhos posteriores determinarão se diferentes configurações podem ser necessárias para aqueles que não respondem aos ajustes-padrão, ou se configurações diferentes podem acelerar efeitos antidepressivos. As baterias precisam ser substituídas a cada três anos ou mais, ou quando se esgotam, e unidades recarregáveis já estão disponíveis.

UM TANTO DE CONFUSÃO

Alguns pacientes viram desaparecer completamente os sintomas, mas as respostas variaram, e nem todos foram ajudados. A proporção de pacientes que apresenta resposta clínica – redução de 50% ou mais em escalas que medem a depressão – pode diferir entre hospitais e oscilou de 40% a 70% em um período de seis meses. A variação das descobertas pode estar relacionada ao desafio contínuo de usar sintomas e escaneamentos cerebrais para identificar os pacientes mais indicados para estimulação cerebral profunda.

Um estudo com resultados sofríveis recebeu alguma atenção. A investigação, patrocinada pela indústria e conduzida pela St. Jude Medical, com sede em St. Paul, Minnesota, decidiu suspender a aceitação de novos pacientes em 2013, mantendo apenas os que já haviam iniciado a terapia experimental. Não houve grandes questões relacionadas à segurança do procedimento, mas uma análise exigida pela Food and Drug Administration (FDA) no meio da experiência mostrou que pacientes com implantes estimuladores não tiveram maior alívio de sintomas comparativamente a um grupo em que os eletrodos permaneceram desligados por seis meses. Cientistas reveem a metodologia do estudo para determinar se a terapia pode melhorar com uma diferente configuração.

Não entendemos completamente o motivo para as disparidades entre os vários estudos que examinaram a estimulação cerebral profunda. As explicações podem estar relacionadas a diferenças de critérios para seleção de pacientes. Alguns pacientes podem ter tido depressão combinada com outros sintomas psiquiátricos. Um fator potencial de confusão é que alguns pacientes com melhora podem ter tido sucesso simplesmente por acreditarem no poder da cirurgia (o efeito placebo, em outras palavras) ou por se beneficiarem psicologicamente das interações por vezes intensas que têm com a equipe de tratamento. Algumas dessas preocupações podem diminuir com o tempo. Estudos mais recentes sugerem que a terapia tem efeito genuíno: pacientes pioram quando a bateria está fraca ou a estimulação é desligada. Eles se recuperam novamente quando a estimulação é retomada, fazendo com que o efeito placebo seja uma explicação pouco plausível.

Vários estudos clínicos de pesquisa experimental estão em andamento em Atlanta, Hanover, New Hampshire e Toronto e proporcionarão novas informações relevantes sobre o possível alcance da técnica. Enquanto isso, cientistas continuam a refinar técnicas cirúrgicas para implantar os eletrodos. Pretendem também desenvolver uma com- preensão de como otimizar a quantidade precisa de estímulo para determinado paciente e ao mesmo tempo aprender sobre os efeitos de curto e longo prazo da estimulação cerebral profunda sobre a depressão.

 A MELHOR OPÇÃO

Algumas novas vias de investigação exploram locais diferentes para estimular circuitos cerebrais porque a área do cíngulo subgenual pode não ser a ideal para todos os pacientes. Volker Coenen e Thomas Schläpfer, ambos, na época, na Universidade de Bonn, na Alemanha, alcançaram melhora rápida com a intervenção em uma região denominada feixe prosencefálico medial de um pequeno grupo de pacientes. Outras regiões profundas no cérebro também são alvos potenciais: o corpo estriado ventral, o ramo anterior da cápsula interna, o pedúnculo talâmico inferior e a habênula.

Testar locais diferentes no cérebro que possam estar ligados à depressão pode permitir a seleção de alvos com base em sintomas específicos, como se faz com a doença de Parkinson. Pacientes depressivos têm diferentes combinações de sintomas que se refletem em um padrão diverso de escaneamentos do cérebro. Observar esses padrões de atividade cerebral anormal já adianta a tomada de decisões sobre qual fármaco ou psicoterapia é a melhor opção, e pode finalmente permitir o mesmo encaminhamento para a estimulação cerebral profunda.

Tentativas de aperfeiçoar essas técnicas devem ser complementadas por mais pesquisa básica para entender como a tecnologia muda o funcionamento cerebral. Após um período prolongado de estimulação, efeitos antidepressivos podem persistir durante dias ou semanas, mesmo quando a estimulação é desligada. O cérebro pode sofrer alterações de longa duração, processo conhecido como neuroplasticidade – quando circuitos cerebrais mudam devido à estimulação. Estudos com roedores mostram evidências de que a estimulação cerebral profunda altera a atividade de grandes redes de circuitos cerebrais e que pode também induzir o nascimento de novos neurônios no hipocampo, processo que outro trabalho mostrou ser importante tanto na formação de novas memórias quanto no alívio de depressão. Se a terapia é interrompida durante um período prolongado, no entanto, os sintomas retornam, sugerindo que o cérebro não consegue se recuperar de forma permanente.

A capacidade de controlar circuitos elétricos com a estimulação cerebral profunda gerou interesse no uso da técnica para outras doenças psiquiátricas, inclusive o transtorno bipolar, o transtorno obsessivo-compulsivo, a síndrome de Tourette e a dependência de álcool e drogas. A técnica tem potencial para tratamento de pacientes que não obtiveram sucesso com as outras opções e daqueles com transtorno relacionado a circuitos com funcionamento anormal.

PERDA DE PESO

Recentemente, o grupo de Lozano aplicou estimulação cerebral profunda no mesmo alvo do cíngulo subgenual usado na depressão para tratar anorexia nervosa crônica. Em alguns pacientes que conviviam com o transtorno alimentar por dez anos ou mais, a estimulação cerebral profunda aliviou os sintomas de depressão, ansiedade e obsessão. Pacientes tornaram-se menos ansiosos para comer e ganhar peso e conseguiram participar de programas terapêuticos. Em metade dos 18 casos, a mudança de humor dos pacientes permitiu-lhes voltar ao peso normal após um ano.

Os resultados, até o momento, apontam para novas direções. Crescente compreensão sobre o funcionamento dos circuitos cerebrais tem ajudado a explicar a atividade anormal do cérebro. Com esse conhecimento neurocirurgiões devem conseguir colocar eletrodos em locais estratégicos mais específicos nas profundezas do cérebro para permitir o alívio necessário a pacientes deprimidos que não respondem a medicamentos e à terapia de fala, incluindo pessoas que lutam contra outros transtornos, como anorexia e Alzheimer.

Marca-passos cerebral para curar a depressão2 

 Marca-passos cerebral para curar a depressão3

 ANDRES M. LOZANO – é doutor em medicina, professor do Departamento de Cirurgia da Universidade de Toronto, especialista no tratamento de transtornos do movimento e registros cerebrais.

HELEN S. MAYBERG – é doutora em medicina, professora de psiquiatria, neurologia e radiologia na Universidade Emory.

GESTÃO E CARREIRA

APOSENTE OS CARRINHOS

Conheça a recém-chegada Home Refill, que quer revolucionar o mercado de consumo básico com uma maneira consciente de comprar pela internet.

Aposente os carrinhos

Frequentar supermercados periodicamente para repor itens básicos de consumo, além de absorver o tempo das pessoas, não é uma das tarefas mais agradáveis. Foi ao observar essas questões que o empresário e especialista em Tecnologia da Informação Guilherme Aere dos Santos teve a ideia de criar uma maneira prática e econômica de fazer a compra do mês, ou da quinzena, sem precisar se deslocar. Ele e um grupo de empresários desenvolveram uma solução on-line que permite ao consumidor repor produtos que compõem a cesta básica, como itens de higiene e alimentos não perecíveis (arroz e feijão).

Esse sistema é oferecido por aplicativo ou acessado pelo site e disponibiliza, além de um portfólio de artefatos, uma forma mais inteligente de fazer a reposição dos produtos. Quem opta por essa facilidade tem disponível uma lista personalizada de acordo com seu perfil de consumo. Ao todo, são dois mil produtos. A partir de pesquisas, a Home Refill criou dez tipos: solteiro, solteira, casal, gestante, lar com crianças, lar com adolescentes, lar com filhos adultos, lar com idosos, republica e pequenos escritórios. A solteira, por exemplo, que decide utilizar esse e-commerce encontrará uma lista com sugestões compatíveis com sua realidade e na quantidade exata para o carrinho. As entregas são feitas em até oito dias e o frete é gratuito.

Como se trata de um modelo repetitivo de compra, o cliente pode programá-la para recebimento de 15 em 15 dias ou a cada 30 dias. Feita a primeira compra, o aplicativo começa a monitorar o consumo daqueles produtos, enviando lembretes a respeito da necessidade da próxima compra.

 PROPOSTA

O site também mostra a economia que estão obtendo com a aquisição de cada um dos itens, fazendo a comparação com o preço médio dos principais supermercados. ”Mais do que urna opção on-line, a Home Refill é uma excelente experiência, porque auxilia na administração. O consumidor passa a comprar de maneira programada, “comenta o sócio proprietário e atual CEO da empresa, Guilherme dos Santos.

Em operação desde outubro de 2015, a empresa recebeu investimento com recursos próprios de R$10 milhões, absorvidos em tecnologia e logística e já possui carteira com seis mil clientes fixos. Para que seja um modelo de negócio realmente interessante e possa oferecer benefícios reais aos usuários, além do aplicativo, a Home Refill possui também um grande galpão principal de armazenamento – que funciona como um centro de distribuição -, 22 pequenos estabelecimentos que são pontos de transição para a mercadoria e uma frota de caminhões próprios para a entrega.

Com a proposta de entregar mais tempo aos consumidores que, ao usarem a ferramenta, não precisarão mais frequentar supermercados para fazer reposição de itens básicos, a empresa também tem um preço baixo como um atrativo bastante forte que pode ser explicado pelo ponto de vista logístico. “Um dos nossos sócios também é dono de uma operadora logística, ”explica Santos.

A empresa possui também mais de 200 parceiros com quem compra os produtos. Seguindo o conceito inteligente de logística, não armazena no galpão um estoque. mas itens das listas pré­montadas que disponibiliza no site e no aplicativo.

Por enquanto, o serviço é oferecido apenas para a capital paulista e grande São Paulo, mas o empresário já adiantou que para 2018 haverá a expansão para mais dois estados.

GERAÇÃO DE VALOR

Ao ser questionado sobre qual é a previsão para retorno do investimento, Guilherme dos Santos diz que esta ainda não é a preocupação da empresa. O que eles querem a princípio é que o aplicativo agregue valor na vida das pessoas que o utilizam. Sendo assim, poupando tempo e auxiliando na administração. “‘Estamos contribuindo para a construção de uma sociedade mais sustentável, para que as pessoas consumam o que realmente precisam e com a real necessidade, evitando o desperdício”, explica. E vai além: ”vamos ajudar as pessoas a pararem de acreditar em milagre promocional e começarem a questionar mais o porquê das promoções”, explica.

Ainda na questão sustentabilidade, a Home Refill ajuda o consumidor a reduzir emissão de CO sempre que deixa de ir ao supermercado. Foi com esse mote, inclusive, que a empresa deu início no fim de 2016 à sua campanha oficial de lançamento. Em parceria com o artista paulistano Eduardo Srur – reconhecido por intervenções urbanas -, a ação “Encoste o Carrinho” teve como objetivo transmitir a mensagem de que é preciso refletir sobre seus níveis de consumo de desperdício.

A partir daí, o artista desenvolveu o conceito artístico da ação: carrinhos de supermercados gigantes destruídos que foram espalhados em diversos pontos da cidade de São Paulo. Era como se estivessem convidando as pessoas a repensarem a forma de fazer compras, destacando as promoções enganosas e dificuldades que as pessoas passam para irem até o supermercado: como o trânsito, filas e inconveniência das sacolas.

Para realizar a campanha, foi feito um estudo de percepção da marca e como os consumidores entendem e se relacionam com seu serviço. Houve também a investigação dos principais pontos da experiência proporcionada pelos supermercados. O levantamento gerou ideias que guiaram o marketing da Home Refill na criação dos pilares da campanha, posicionando a empresa como uma plataforma de consumo consciente que promove sustentabilidade, evita desperdícios e entrega tempo livre para que as pessoas se dediquem a atividades prazerosas. O objetivo da empresa com essa ação foi reforçar o cará ter inovador do serviço e dar ênfase para o conceito de sustentabilidade.

DIGITAL

Além dessa iniciativa criativa, a empresa também desenvolveu um desdobramento da campanha em peças de rua e digital No Facebook, a fanpage da Home Refill faz campanhas constantes mostrando os vários motivos pelos quais os consumidores devem abandonar os supermercados para realizar compra de itens básicos. Em um dos posts mais recentes, a empresa pergunta aos seguidores se eles acham difícil planejar a compra no site para o mês inteiro. Com depoimento em vídeo de uma consumidora que usa o aplicativo, a empresa mostra que, com a ferramenta é possível logo nas primeiras experiências aprender qual é exatamente a quantidade necessária de cada produto.

Há outros depoimentos, como o da apresentadora Ana Maria Braga. Ela recomenda o uso do aplicativo para facilitar a vida das pessoas e anuncia R$50,00 de desconto para as compras a partir de R$ 1SO,OO. Para cativar seus consumidores e quebrar paradigmas em relação ao modelo atual de consumo, a empresa postou também mensagens como: “Conheci o grande amor da minha vida enquanto alcançava o sabão em pó”, assinado Ninguém. No enunciado, há o seguinte comentário: “Isso só acontece em novela, na vida real você pode fazer compras e paquerar com o celular”. Ainda na fanpage, a Home Refill recebe apoio de marcas como a Unilever. Em um dos posts, aparece uma foto do sabão em pó OMO incentivando a mudança de hábitos do consumidor.

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HOME REFILL EM NÚMEROS

  • Investimento: R$ 10 milhões (capital próprio)
  • Mais de 200 parceiros, o que permite negociação com preços mais favoráveis
  • 1 galpão de distribuição e 22 pontos de distribuição.
  • Clientes: 6 mil até o momento

VANTAGENS PARA O CONSUMIDOR

  • Auxilia na administração e na programação da compra
  • Poupa tempo
  • Oferece economia em torno de 20% a 30%(dependendo do produto)
  • Estimula consumo consciente
  • Promove sustentabilidade
  • Evita que o cliente caia em promoções falsas
  • Frete grátis
  • O consumidor consegue verificar no site ou pelo aplicativo quanto estão economizando com cada produto, em relação aos preços de supermercados e varejistas

COMO USAR

  • Baixe o aplicativo ou navegue pelo site
  • Selecione uma das listas personalizadas que se enquadrem às suas necessidades ou selecione os produtos que deseja. Selecione a    data de entrega (no mínimo 8 dias)
  • Receba em casa com frete grátis.

 

COMO FUNCIONAM OS PREÇOS

A Home Refill consegue oferecer economia pelos seguintes motivos:

  • A empresa compra direto dos fabricantes de acordo com o pedido, eliminando estoque e A cada semana, um parceiro de tecnologia monitora os preços das lojas físicas dos principais varejistas da grande São Paulo.
  • O consumidor deixa de gastar para se locomover.
  • Como um dos sócios é operador logístico, a empresa consegue oferecer o frete gratuito.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O CHEIRO DA PERCEPÇÃO

A ação conjunta dos neurônios faz o cérebro transformar, quase que instantaneamente, as mensagens sensoriais em impressões conscientes.

O cheiro da percepção

Quando vemos o rosto de um ator conhecido, ouvimos a voz de um amigo ou sentimos o aroma de um prato apetitoso, mento é instantâneo. Uma fração de segundo depois que os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua ou a pele são estimulados, sabemos estar diante de um objeto conhecido, se ele representa perigo ou não. Como esse reconhecimento se dá de maneira tão rápida e precisa mesmo quando os estímulos são complexos e o contexto do qual emergem varia?

Sabemos que o córtex cerebral (a cama- da externa do cérebro) analisa inicialmente as mensagens sensoriais, mas apenas começamos a entrever de que maneira o cérebro se comporta após o puro e simples reconhecimento das características da mensagem (isto é, como combina as percepções sensoriais com a experiência vivida e as expectativas para identificar tanto o estímulo como seu significado particular).

Os estudos realizados durante décadas por meu grupo na Universidade da Califórnia em Berkeley permitem afirmar que a percepção não pode ser compreendida examinando-se apenas as propriedades individuais de cada neurônio, segundo uma abordagem microscópica da pesquisa que hoje tende a dominar a neurociência. Constatamos que a percepção depende da atividade simultânea e cooperativa de milhões de neurônios espalhados em todas as circunvoluções do córtex. Essa atividade global pode ser identificada, medida e interpretada somente se, além da visão microscópica do cérebro, trabalharmos no nível macroscópico. No campo da música, existe uma analogia com esse tipo de abordagem. Para apreciar a beleza de um coral, não basta escutar as vozes individuais dos cantores: deve-se escutá-los em conjunto, já que as diversas partes se relacionam entre si.

Nossos estudos nos permitiram descobrir também uma atividade cerebral caótica, um comportamento complexo que parece casual, mas que na realidade possui uma ordem oculta. Essa atividade é evidente na tendência que amplos grupos de neurônios têm de passar brusca e simultaneamente de um quadro complexo de atividade a outro, em resposta ao menor dos estímulos. Tal capacidade é característica primária de muitos sistemas caóticos. Ela não danifica o cérebro: acreditamos, ao contrário, que seria essa justamente a chave da percepção. Avançamos também a hipótese de que ela seja a base da capacidade do cérebro de responder de maneira flexível às solicitações do mundo externo e de gerar novos tipos de atividade – incluída a concepção de novas ideias.

PELO NARIZ

Para compreender os mecanismos da percepção, é necessário conhecer as propriedades dos neurônios envolvidos nesse pro- cesso. Meus colaboradores e eu nos concentramos no estudo dos neurônios do sistema olfativo. Há tempos sabemos que, quando um animal ou um ser humano sente o cheiro de uma substância, as moléculas desta são captadas por alguns neurônios específicos misturados aos numerosos receptores presentes nas vias nasais. Esses receptores são especializados em reagir a uma dada categoria de odores. Os neurônios excitados desencadeiam potenciais de ação, isto é, impulsos que se propagam ao longo de seus prolongamentos, os axônios, até uma área específica do córtex, o bulbo olfativo. O número de receptores ativados representa um índice da intensidade do estímulo, enquanto sua localização nas fossas nasais é associada à natureza do odor. Em resumo, cada cheiro se expressa mediante uma configuração espacial da atividade dos receptores, que, por sua vez, é transmitida ao bulbo. O bulbo olfativo é que transmite ao córtex olfativo a análise de cada estímulo. Daí, novos sinais são enviados a muitas partes do cérebro, entre as quais o córtex entorrinal, onde os sinais se combinam com os de outros sistemas sensoriais.

O resultado é uma Gestalt, uma percepção carregada de significado, única para cada indivíduo. Para um cão, reconhecer o cheiro de uma raposa pode evocar o alimento e a espera de uma refeição. Em um coelho, o mesmo cheiro desperta lembranças de fuga e o medo de ser agredido.

Todas essas noções forneceram um ponto de partida válido para uma análise mais detalhada do olfato, mas não resolvem duas questões importantes. A primeira é o clássico problema de conseguir distinguir de que maneira o cérebro diferencia um cheiro particular no meio de todos os outros que o acompanham.

Além disso, como o cérebro consegue generalizar e tratar uma informação equivalente que provém de receptores diferentes? Devido à turbulência existente nas correntes de ar que atravessam as fossas nasais, somente alguns entre os numerosos receptores sensíveis a determinado odor são excitados durante uma inspiração, e essa situação varia imprevisivelmente entre uma inspiração e outra. Como faz o cérebro para estabelecer que sinais provenientes de diversos grupos de receptores se referem todos ao mesmo estímulo? Nossas pesquisas começam a oferecer respostas para ambos os problemas.

Os experimentos demonstram claramente que todos os neurônios contribuem para a geração de cada percepção olfativa. Em outros termos, a informação sobre o estímulo é contida em uma configuração de neurônios ativados que interessa a todo o bulbo e não apenas a um pequeno subconjunto de neurônios que podem identificar as características do estímulo e excitar-se exclusivamente, por exemplo, quando expostos a odores como o da raposa.

Além disso, essa atividade coletiva dos neurônios, apesar de refletir a natureza do odor, não é determinada somente pelo estímulo. A função do bulbo se auto organiza e é bem controlada por fatores internos, entre os quais a sensibilidade dos neurônios ao estímulo.

Atualmente podemos entrever a dinâmica geral da percepção. O cérebro procura a in- formação, principalmente orientando o indivíduo a olhar, escutar e cheirar. Esse processo é produto de uma atividade que se organiza autonomamente e se realiza no sistema límbico (a parte do cérebro que inclui o córtex entorrinal, envolvida nos estados emocionais e na formação da memória), que transmite uma ordem de busca aos sistemas motores. Quando a ordem é transmitida, o sistema límbico emite a chamada mensagem de referência, que coloca em estado de alerta todos os sistemas sensoriais para que se preparem para responder à nova informação.

Efetivamente, eles respondem à descarga de impulsos com cada neurônio de uma dada área que participa da atividade coletiva. A atividade sincrônica em cada sistema é, portanto, retransmitida ao sistema límbico, onde se combina com sinais provenientes de outros sistemas sensoriais, analogamente gerados, para formar um todo rico de significado. Depois, em uma fração de segundo, pede-se outra busca de informação e os sistemas sensoriais são novamente preparados por outros estímulos aferentes.

A consciência poderia ser a experiência subjetiva desse processo recorrente de comando motor, referência e percepção. Se assim é, permite que o cérebro planeje cada ação sucessiva e se prepare para ela com base em ações passadas, estímulos sensoriais e sínteses perceptivas. Em resumo, o ato da percepção não é simplesmente a reprodução de um estímulo que está chegando, mas um passo no caminho que o cérebro percorre para crescer, organizar-se e tomar contato com o ambiente, que depois modifica em seu benefício.

O poeta William Blake escreveu: “Se as portas da percepção fossem eliminadas, cada coisa se apresentaria ao homem como efetivamente é: infinita”. Uma eliminação desse tipo não é desejável. Sem a proteção das portas da percepção, isto é, sem a atividade caótica autocontrolada do córtex do qual nas- cem as percepções, os seres humanos e os animais seriam dominados pelo infinito.

REDE DE SINAPSES

Os neurônios do sistema olfativo trocam informações através de uma rica rede de sinapses, isto é, junções   nas quais os sinais fluem de um neurônio para o outro.

De maneira geral, os sinais passam de prolongamentos chamados axônios para projeções denominadas dendritos; mas, às vezes, passam de dendrito a dendrito ou de axônio a axônio. Essa ampla troca de informações conduz a uma atividade coletiva. No desenho, bastante esquematizado, o vermelho indica que um neurônio está excitando outra célula e o preto, que o neurônio está inibindo a outra.

O cheiro da percepção2 

DENTRO DO CÉREBRO

As ondas do eletroencefalograma refletem a excitação média de grupos de neurônios. Estímulos excitatórios no nível das sinapses geram correntes elétricas que fluem em círculos fechados no interior do neurônio receptor em direção ao axônio, atravessam a membrana celular, atingem o espaço extracelular e retornam para a sinapse (setas em amarelo). Os estímulos inibitórios criam correntes que se propagam na direção oposta (setas em azul). No interior dos neurônios, a zona de disparo soma a intensidade das correntes (refletida nas diferenças de voltagem através da membrana) e disparará um potencial de ação se a soma for suficientemente positiva.

Os eletrodos aplicados ao cérebro registram essas mesmas correntes no espaço extracelular. As neuroimagens resultantes indicam a excitação de grupos inteiros de neurônios, não de células individuais, pois as áreas extracelulares nas quais são registrados contêm correntes provenientes de milhares de neurônios.

O cheiro da percepção3

WALTER J. FREEMAN – é doutor em neurobiologia, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley.