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O TOTALITARISMO DA ERA DIGITAL

De quem são seus dados pessoais? A quem eles pertencem? A você, ao Estado ou a alguma empresa privada?

O totalitarismo da era digital

Essa é das questões mais controversas da ética digital. Podemos reformulá-la com mais precisão da seguinte maneira: serão seus dados algo inerentemente pessoal, um bem inalienável ou uma mercadoria que pode ser comercializada?

Essa polêmica ganhou impulso na mídia quando os dados de milhões de pessoas foram derramados na internet pela Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, órgão governamental cuja existência foi mantida em segredo por vários anos. Nunca saberíamos disso se Edward Snowden, um engenheiro de software da NSA, que sofre de síndrome de Asperger, não tivesse vazado esses dados para alertar o mundo e para se vingar de seus empregadores.

Penso que desenvolver algo parecido com uma ética dos dados pessoais não faz sentido, pois todos os nossos dados já foram devassados e hackeados. Não adianta fechar a porteira depois que o cavalo escapou. O que nos resta fazer é administrar o desastre, isto é, saber como poderemos sobreviver no totalitarismo digital. Temos de aprender a conviver com notícias falsas, feitas sob medida para nos persuadir a votar em um determinado candidato nas próximas eleições. Temos de resistir ao impulso de comprar alguns produtos escolhidos especialmente para cada um de nós. As pessoas gostam de fazer compras, pois pensam que estão tomando decisões, sem saber que, de fato, suas escolhas são induzidas subliminarmente, sobretudo quando alguém dispõe de seus dados pessoais e pode prever suas tendências de consumo.

Ainda não existe nenhuma legislação internacional para regular o acesso aos dados pessoais. Temos de conviver com esse vácuo jurídico e ético. Para os governos e para as grandes corporações digitais é conveniente manter a internet uma terra de ninguém. É nela que se cultivam as fake news e outra formas de manipular opinião pública, usando os dados pessoais de milhões de pessoas. A Rússia gasta 350 bilhões de dólares por ano para manter fabricantes de fake news e hackers, que criam, todos os anos, novos vírus que ameaçam a segurança de grandes empresas. Coincidentemente, a maior empresa de proteção contra vírus corporativos é russa.

Como seria possível inibir a pirataria de dados pessoais? Pouco adianta multar grandes corporações. Há dois anos, a Volkswagen nos Estados Unidos foi multada em 25 bilhões de dólares por falsificar, deliberadamente dados sobre a poluição causada por seus novos modelos de carro a diesel. A empresa pagou a multa e continuou operando.

Da mesma forma, pouco adiantaria multar uma grande corporação digital pelo vazamento de dados pessoais. O Facebook fez isso. Vazou os dados de 90 milhões de pessoas e interferiu nas eleições presidenciais americanas de 2016, que levaram Trump ao poder. O CEO do Facebook, o arquibilionário Mark Zuckerberg, foi intimado a depor no Congresso. Em sua conversa melosa, pediu desculpas aos usuários do Facebook e declarou que isso nunca mais acontecerá. Como o governo dos Estados Unidos poderia multar o Facebook se até a polícia americana utiliza as postagens para rastrear dados de pessoas que desejam obter visto de entrada no país? O Facebook se tornou tão poderoso que pode apedrejar político e destruir lideranças em poucas horas, expondo algum segredo íntimo das autoridades públicas em nome da transparência. Quem se atreveria a confrontar esse monstro?

O uso dos dados pessoais quase sempre sem conhecimento é antiético. No entanto, a maioria dos governos atuais acredita que o processamento desses dados usando técnicas de Big Data permitirá aperfeiçoar as políticas públicas, os programas sociais e fazer previsões econômicas mais seguras, que levarão à prosperidade. Países como Singapura já falam de Big Bang Data, o uso de dados pessoais para melhorar a economia, a democracia e a participação dos cidadãos no governo.

A Estônia, um país com aproximadamente 1,3 milhão de habitantes, está se tornando a primeira república digital do planeta e se proclamou a E-stonia. A inovação é o uso obrigatório de um cartão de identidade eletrônico por todos os cidadãos estonianos. Sem esse cartão não é possível sequer acessar a internet e se conectar às plataformas de serviços públicos on-line. Quando dados pessoais como prontuários médicos ou fichas criminais são alterados ou atualizados, o portador do cartão é automaticamente alertado. É uma técnica semelhante ao blockchain.

Na Estônia os dados pessoais não são públicos; só o Estado e o portador do cartão têm acesso a eles. O Estado estoniano se redefiniu, nos últimos anos, como um grande prestador de serviços, entre eles o de ser o guardião dos dados pessoais de seus cidadãos. O uso do cartão obrigatório     permite identificar os usuários estonianos das redes sociais, pois ele é um rastro digital indelével. Não há como introduzir avatar nas redes sociais, e alguém postar fake news ou discursos de ódio, rapidamente será rastreado. Será que esse Leviatã eletrônico será bem-sucedido? Ou apenas mais uma versão do totalitarismo digital?

A privacidade não é mais um direito, um privilégio. Mas, para aqueles que não puderem pagar por esse luxo pós-moderno, pense que seria razoável leiloar, na internet, seus dados pessoais. As grandes empresas teriam de fazer lances com base no nome da pessoa e, no máximo, sua localização. Os riscos seriam menos assimétricos e a ética do informe consentido seria respeitada.

O totalitarismo da era digital.2 

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é paulistano, formado em filosofia na USP, viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre filosofia da mente e tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCar e na PUC-SP.

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UM APLICATIVO CONTRA O ASSÉDIO

A empreendedora Priscila Gama criou um aplicativo que ajuda as mulheres a se proteger de abuso sexual em lugares públicos.

Um aplicativo contra o assédio

Especialista em urbanismo, Priscila Gama, de 34 anos, ficou revoltada e indignada durante o auge da campanha #MeuPrimeiroAssédio, que no fim de 2015 incentivou mulheres a expor nas redes sociais relatos de assédio sexual.  “Percebi que muitas das histórias tinham a ver com mobilidade, com mulheres que estavam sozinhas no momento em que o abuso aconteceu. E passei a pensar em como resolver essa questão. Foi quando tive a ideia de um aplicativo que funcionasse como uma companhia virtual”, diz a arquiteta. Em dezembro daquele ano, seu projeto conquistou o segundo lugar em um concurso do Startup Weekend BH, promovido por agências de fomento à pesquisa de Minas Gerais. Com isso, sua startup obteve monitoria especializada para se desenvolver e progredir. Assim surgiu o aplicativo Malalai, destinado a ajudar as mulheres a enfrentar a insegurança das ruas.

Superando a introspecção que a acompanhava desde a adolescência, Priscila conquistou os jurados com a seguinte provocação: “Sabe aquela mensagem ‘avisa quando chegar’? Pois é, quem vai avisar se você não chegar?”. Em seguida, ela lembrou que, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a cada onze minutos uma mulher é vítima de estupro no Brasil. Com o nome Malalai (inspirado em Malala, a jovem paquistanesa que ganhou o Nobel da Paz em 2014 por sua luta pelo direito das mulheres à educação), a startup é tocada por ela e seu sócio, Henrique Mendes. O principal produto da Malalai é um aplicativo de celular, disponível por enquanto apenas para Android, que pretende combater a violência investindo em três vertentes.

A primeira, de ação preventiva, é o mapeamento de rotas mais seguras para as mulheres que andam a pé nas cidades, com base em critérios como iluminação pública, existência de comércio aberto e de postos policiais, entre outros. A segunda tem foco no aumento da sensação de segurança: o recurso de companhia virtual permite que a mulher escolha alguém, via celular, que acompanha sua rota e o tempo de chegada a seu destino. A terceira consiste no impedimento do abuso: o aplicativo tem um botão de emergência que, acionado, envia mensagens de pedido de socorro a três contatos de confiança pré-selecionados. O serviço tem mais de 4.000 usuárias cadastradas. Para complementar o negócio, Priscila está desenvolvendo um anel discreto que permite o uso do botão de emergência de forma mais rápida, via Bluetooth.

Priscila também pretende tornar a startup rentável atuando em uma área que ela conhece bem: dona de um MBA em gestão de projetos imobiliários pela Fundação Getúlio Vargas (FGV,) a arquiteta acredita que informações compiladas em big data sobre o nível de segurança para as mulheres de cada quarteirão das cidades podem interessar a construtoras e seguradoras. “Queremos ter um negócio social: que a empresa ganhe dinheiro para ser sustentável e gerar algum lucro, mas que se concentre em alcançar seu objetivo de tornar o deslocamento a pé das mulheres mais seguro.” Enquanto isso, ela se divide entre um emprego de meio período como funcionária no Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais (CAU-MG) e palestras, pelas quais não cobra. Pelo ineditismo da iniciativa, a Malalai tornou­ se referência na junção de tecnologia, questão de gênero, segurança pública e urbanismo. Priscila participa de cerca de trinta eventos por ano, além de dar monitoria a grupos de desenvolvedoras femininas voltadas para a inovação.

Criada em urna família matriarcal, de mulheres fortes, Priscila tem uma história de provações. Seus pais, que passaram fome na infância, sacrificavam quase todo o orçamento familiar com aluguel para conseguir viver em um bairro de classe média de Divinópolis, onde não dependessem de transporte público para trabalhar e levar os filhos à escola. Diz Priscila, que estudou em uma instituição de ensino particular, com bolsa integral: “Fui vítima de racismo e sofri muito bullying na escola. Acabei ficando retraída”.

Houve outro fator que contribuiu para torná-la introspectiva e desconfiada: ela começou a ser abordada com comentários de teor sexual na rua, na volta da escola, já a partir dos 12 anos. “A mulher negra é hipersexualizada pela sociedade desde cedo”, afirma. Ela conseguiu vencer a timidez graças ao sucesso da Malalai: “Foi um divisor de águas. Existem duas ‘Priscilas’, a de antes e a de depois do aplicativo. Nunca pensei que seria capaz de falar para plateias de mais de 100 pessoas”.

Seu projeto não ficou imune às críticas de algumas feministas, que argumentam que o aplicativo joga nas costas das mulheres a responsabilidade por serem assediadas – ou seja, que cabe a elas escolher o caminho mais seguro para andar sozinhas e não aos homens aprender a respeitá-las. ” Mais triste do que existir uma ferramenta como essa é saber que ela é necessária e ninguém fazer nada. Todo mundo sabe que o problema existe e que ele acontece diariamente, “defende-se Priscila. Ela se diz cansada de perceber que o mundo das startups é dominado por ” homens, heterossexuais e brancos”. E espera que um dia possa olhar para uma plateia e não ter de constatar que, de 300 pessoas envolvidas em um evento sobre inovação, apenas três são negras, como já ocorreu.

Priscila quer que a Malalai vá além da segurança de gênero: “Meu objetivo é que meninas e mulheres acreditem em seus potenciais produtivos”.

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VIOLÊNCIA NAS REDES SOCIAIS E A BANALIZAÇÃO DO MAL

A tecnologia propiciou mais democracia para as pessoas se expressarem. E vemos muita liberdade na expressão do ódio e das informações mentirosas. Mas as consequências disso são extremamente maléficas para a sociedade.

Violência nas redes sociais e a banalidade do mal

Desde 2014, antes e após a reeleição da presidenta Dilma Rousseff (PT), vimos surgir uma onda de posts agressivos e repletos de mensagens violentas nas redes sociais no Brasil. Naquele momento, as publicações dos usuários, em geral, ligavam os nordestinos ao resultado do segundo turno da corrida presidencial. Chegamos a ter um deputado estadual de São Paulo defendendo a alteração da Constituição Federal para que os beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família, não votassem. Por fim, postagens falando de uma possível divisão do Brasil – uma espécie de muro de Berlim – separando o Sudeste/Sul do restante do país pareciam ganhar força no mundo virtual.

O ÓDIO NÃO É PRECISO

Em 2016, no auge do processo político do impeachment (teria sido um golpe) sofrido pela presidenta, pudemos observar, novamente, a divulgação de posts com mensagens de ódio, incitando a violência. Muitas dessas publicações continham violência simbólica, aquela violência produzida pelos grupos dominantes e imposta aos grupos subordinados, a qual legitima e naturaliza um status quo, e mentiras que passaram a ser replicadas sem a devida crítica, ou seja, análise do conteúdo pelos diferentes usuários do dispositivo.

Porém nos enganamos ao pensar que essa violência e a criação de um inimigo comum surgiram agora no Brasil. A violência está presente em nossas relações sociais desde o período colonial. Gilberto Freyre, em Casa grande e senzala, retrata as relações entre “brancos” e escravos e como a empreitada colonial no Brasil se fez debaixo de relações violentas e truculentas entre ambos. Maria Tereza Caldera, em seu famoso livro Cidade de muros, levanta a hipótese da não efetivação dos direitos humanos no país ao discutir a questão “direitos humanos são para defender bandidos” e o potencial risco dessa não efetivação para a jovem democracia brasileira.

Vale ressaltar que após a abolição da escravatura e o surgimento dos cortiços e favelas, surge o conceito de “classes perigosas”, termo utilizado já em 1857 por Morel em seu trabalho Tratado das degenerescências, para designar aqueles que não possuiriam “nem a inteligência do dever, nem o sentimento da moralidade dos atos, e cujo espírito não é suscetível de ser esclarecido ou mesmo consolado por qualquer ideia de ordem religiosa”. “Nossa política higienista do início do século XX foi baseada nesse conceito e muito do discurso adotado por nós, enquanto sociedade, é baseado nessa figura das classes perigosas e inimigo comum”.

Notamos assim que a violência simbólica tem um importante papel na reprodução dos estereótipos e dos estigmas sociais. Goffman (1963) explica que o estigma constitui as marcas e atributos pelos quais alguém é criticado e marginalizado pela sociedade. O estigma, assim, é uma marca que é construída como ‘negativa’ pelo grupo e que caracteriza a identidade do Outro e da qual este não consegue libertar-se, uma marca percebida também em relação àqueles que não a possuem, que não são estigmatizados. É como se a sociedade ficasse cega para os outros atributos que determinada pessoa tem, vendo apenas seu traço estigmatizado. Caracteriza, assim, categorias de indivíduos e as especificidades esperadas dessas categorias, através de seus estereótipos negativos”. Se por um lado esse discurso e violência simbólica já existem na sociedade brasileira e são constituídos de diversas maneiras e atores, as redes sociais on-line apenas os tornam mais visíveis a lodos que dela fazem parte, pois a necessidade criada de tudo exprimir e compartilhar faz com que esses discursos estigmatizados ganhem mais força devido à mudança no esquema comunicacional tradicional, um emissor (aquele que fala) para vários receptores (aqueles que escutam) e o diálogo entre eles era praticamente inexistente para vários emissores e receptores. Ou seja, muitos falando para muitos e sendo “vistos” por muitos.

Esse fluxo comunicacional ocorre através da publicação de informação de sua autoria ou do compartilhamento da publicação de outros sujeitos (de amigos ou de perfis institucionais, tais como revistas, jornais etc.), que pode ser lida, “curtida comentada e/ou compartilhada. Assim surge o público cm rede, que se caracteriza pela possibilidade de armazenamento do que foi publicado; a possibilidade de busca dessas informações; replicabilidade e o surgimento das audiências invisíveis. É importante notar que ao compartilhar um link com informações que não foram produzidas por si, compartilha-se uma informação mediada por outra mediação e que carrega consigo o olhar daquele que primeiramente a publicou.

 A violência nas redes sociais e a banalização do mal.3

INTERNET E A BANALIDADE DO MAL

Com essa facilidade de divulgar ideias e posições e o apelo por “participar e se mostrar socialmente, notamos que a violência se torna cada dia mais banal. Hannah Arendt, ao analisar o contexto histórico do nazismo, nos alerta quanto à banalidade desse mal e os resultados que ele pode gerar. Percebemos isso a cada frase de ódio escrita com orgulho nas timelines de Facebook. O ódio pelo outro, pelo diferente, pela opinião divergente, gerado pela falta de informação ou pela avalanche de informações das quais se leem somente manchetes. Um ódio que a qualquer momento pode se materializar e muitas vezes se materializa na violência, seja ela psicológica, física ou virtual.

Por estarem vinculados à nossa realidade social, esses discursos encontram ressonância e ao encontrá-la passam a ser legitimados por outros grupos, seja através da concordância, apoio, curtidas ou compartilhamentos. O que perpetua a violência simbólica contida dentro dele que encontra sentido e explica a realidade para determinado grupo.

Dessa forma, é necessário compreender que esse ódio aos defensores dos direitos humanos, aos ativistas negros, LGBTS e todas as outras minorias que sofrem ataques nas redes sociais on-line não é algo novo na sociedade brasileira, mas algo construído por subjetividades ao longo de um processo histórico no qual o sujeito não reconhece o outro como ser de direito que é. O diferente passa a ser o culpado, o inimigo comum, que deve ser extirpado da sociedade. Nesse caso, aplicativos como Facebook apenas potencializam esse discurso, criando e alimentando a necessidade de luta/guerra contra o inimigo, afastamento e desqualificação dele enquanto sujeito participante da vida social. Esse tipo de discurso e atitude é encontrado em diferentes regimes ditatoriais. nos quais o diferente é visto como ameaça. Precisa-se dessa forma muita atenção para não estimular mais essa violência simbólica e, possivelmente, apenas com a mudança de como nossas relações sociais são construídas é que consigamos erradicá-la de nosso dia a dia.

Violência nas redes sociais e a banalidade do mal.2 

PATRÍCIA CUCIO GUlSORDI – é mestre em Ciências Sociais, pesquisadora da sociedade da informação, consultora de projetos ligados à Direitos Humanos.

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AS ARMADILHAS DA DIABETES

O número de mortes pela doença subiu 12% no Brasil. Apesar dos avanços em tecnologia e medicação, ainda falta informação entre médicos e pacientes.

As armadilhas da diabetes

Cerca de 425 milhões de pessoas no mundo sofrem de diabetes. Em torno de 10% apresentam o tipo 1, uma doença auto­imune. Nela, o sistema imunológico ataca as células produtoras de insulina, hormônio que possibilita a entrada, nas células, do açúcar presente no sangue. A maioria da população apresenta o tipo 2, relacionado ao acúmulo de peso e caracterizado pela deficiência na produção ou aproveitamento da substância. Na quarta-feira 27 de junho, o Ministério da Saúde divulgou um aumento de 12% no número de mortes pela doença entre 2010 e 2016. De 54 mil, passaram a 61 mil. Na origem do crescimento está a desinformação de pacientes e médicos e uma estrutura pública de atendimento longe do ideal.

O diagnóstico preciso do quadro foi feito por especialistas brasileiros que participaram do encontro anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), realizado em Orlando (EUA) e encerrado na última semana. Na opinião do endocrinologista Levimar Rocha Andrade, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, existe entre os profissionais de saúde resistência em prescrever insulina à portadores do tipo 2 assim que a doença se instala. “Antigamente ela era usada como último recurso. Isso mudou”, diz. “Mas os médicos receiam perder o paciente. “Introduzir um pouco do hormônio desde o começo do tratamento preserva a função original das células. Porém, nem sempre os benefícios são visíveis de imediato, ao contrário do que ocorre com efeitos colaterais como a queda repentina da taxa de açúcar no sangue, a hipoglicemia. “O paciente não vê sentido”, diz a médica Solange Travasses, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Existem opções que driblam a consequência. Entre elas as drogas Toujeo, fabricada pela Sanofi, e a Tresiba, da Novo Nordisk No encontro da associação americana, foram divulgados estudos demonstrando que as medicações reduzem o risco de hipoglicemia no início do tratamento. Porém, elas custam caro (cerca de R$150 por 3 ml) e não estão disponíveis no SUS. Também foram apresentadas combinações de remédios mais eficazes para tratar de condições associadas, como a obesidade, e diversos dispositivos que ajudam no monitoramento dos indicadores da doença pelos próprios pacientes.

O entendimento dos especialistas é de que ao mesmo tempo em que a ciência avança, permanece uma lacuna. “A expectativa de ver novas drogas e tecnologias é grande, mas não podemos nos esquecer do básico”, afirma Levimar Andrade. Por básico inclui-se tempo de consulta suficiente para informar o paciente sobre de que maneira a alimentação e exercidos físicos afetam o manejo da doença. Na rede pública o problema é mais grave, com consultas que, na melhor das hipóteses. duram quinze minutos.

MUDANÇA DE HABITO

Sem a compreensão não há como a enfermidade ser controlada, uma vez que o excesso de gordura e a pouca atividade física estão não só na sua origem como também na sua permanência. Nenhum medicamento sozinho impede sua progressão sem que esteja combinado a uma mudança real de hábitos que envolve a prática de exercidos e a troca de uma alimentação rica em gordura e açúcar por outra, baseada no consumo de frutas, verduras e alimentos integrais. “A alimentação é metade do tratamento. A outra é formada pela prática de exercícios e de medicação”, diz a endocrinologista Erika Parente, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Reside na questão uma das principais armadilhas no trato da diabetes tipo 2, fator de risco para infarto e acidente vascular cerebral. Seu manejo é, a princípio, simples. Porém, fazer com que as pessoas mudem de hábito é um desafio. “É como educar um filho. Tem que repetir mil vezes”, diz Solange Travassos. Pela urgência na solução do problema, que está associado a diversas outras enfermidades, ganha espaço a área da medicina comportamental.  Seu objetivo é incluir no tratamento táticas baseadas nos achados científicos sobre comportamento e tomada de decisões, entre outros aspectos.

 As armadilhas da diabetes.2

 

 

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O LIXO DA REDE 

Como funciona o maior grupo de propagação de ódio na internet brasileira, que ganha dinheiro com ações misóginas, racistas e homofóbicas.

O lixo da rede

TROLLANDO O INIMIGO

Além da superfície de imagens fofas e curtidas, a internet cultiva o ódio. Rede narcísica, estimula um novo personagem: o troll. É aquele usuário que provoca e enfurece outras pessoas, com comentários injustos, ignorantes e, muitas vezes, criminosos. O objetivo do troll é provocar a ira dos outros internautas – e, se possível, ganhar algum dinheiro de modo fácil. Os trolls se alimentam da atenção que atraem e se valem de qualquer coisa para tal. Talvez, por isso, esta reportagem possa não ser uma boa ideia, exceto pelo fato de que precisamos falar sobre esse novo Kevin.

É um monstrinho digital à moda do personagem da escritora americana Lionel Shriver. O Kevin, de Shriver, é aquela criança mimada que aprende que a violência é um método aceitável e simples para obter o que quer. O Kevin digital o emula nas redes sociais e, principalmente, em fóruns privados de discussão.

A internet nasceu como pátria do livre fluxo de informações. Se você não sabe como enrolar o cabo do fone de ouvido para que caiba na caixinha original, alguém na internet explica. Se quer descobrir qual a razão para tomar cloreto de magnésio, surgirá quem prometa equilíbrio e vigor a cada colherada. Se você disser, no entanto, que está sofrendo com a depressão, haverá quem tentará incitá-lo a se matar. Os psicólogos definem tal comportamento como efeito de desinibição on-line, no qual fatores como anonimato, invisibilidade, solidão e falta de autoridade eliminam os costumes que a sociedade construiu milenarmente. Por meio de telefones celulares inteligentes, tal desinibição está se infiltrando no dia a dia de todos.

No mundo digital, troll era inicialmente o método de pesca em que ladrões on-line usam iscas – uma foto fofa ou promessa de riqueza – para encontrar vítimas. A palavra se origina de um mito escandinavo que vive nas profundezas. Passou a simbolizar também os monstros que se escondem na escuridão da rede e ameaçam as pessoas. Os trolladores da internet têm um tipo de manifesto, em que afirmam que agem para o “luiz”, a zoeira, numa tradução livre. O que os trolls fazem na busca do “luiz” vai de brincadeiras inteligentes – como os memes da tomada de três pinos – a assédio e ameaças violentas. Abusam do doxxing – a publicação de dados pessoais, tais como números de carteira de identidade, CPF, telefones e contas bancárias – e de trotes como pedir uma dezena de pizzas no endereço de uma vítima ou ligar para a polícia denunciando supostas plantações caseiras de maconha.

Os trolls estão transformando as mídias sociais e painéis de comentários em um gigante recreio de adolescentes malcriados, repetindo epítetos raciais e misóginos, definiu uma reportagem recente da revista Time. Uma pesquisa que a publicação cita mostrou que 7 em cada 10 jovens sofreram algum tipo de assédio por meio da internet. Um terço das mulheres já se disse perseguida on-line. Um estudo de 2014 publicado no periódico de psicologia Personality and Individual Differences constatou que 5% dos usuários da internet que se identificaram como trolladores obtiveram pontuação extremamente alta em traços obscuros de personalidade: narcisismo, psicopatia, maquiavelismo e, principalmente, sadismo. E não pense que isso não ocorre em sua vizinhança.

 

Ao atender o telefone, o analista de sistemas Ricardo Wagner Arouxa, de 28 anos, achou que seu pai havia morrido. A caminho do trabalho, no bairro carioca da Tijuca, recebeu a ligação desesperada de sua mãe. Naquele dia, 27 de dezembro de 2017, seu pai se recuperava de um cateterismo realizado após sofrer o terceiro infarto. Pensou no pior ao perceber a mãe aos prantos. Ela demorou a recuperar-se para explicar o motivo da aflição: a Polícia Civil havia invadido a casa da família em Pilares para o cumprimento de um mandado de busca e apreensão. Estavam prestes a arrombar a porta da residência quando ela voltava do hospital, ainda sem o marido, que fora mantido internado. Quando Arouxa conseguiu chegar em casa, a polícia já havia recolhido seus computadores, celulares e discos rígidos – até hoje não devolvidos.

A razão da operação policial seria uma ameaça de bomba, supostamente feita por Arouxa. Os alvos seriam a Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro e o advogado Rodrigo Mondengo. Ambos haviam processado Arouxa. A pendenga, que tramita em segredo de Justiça, só não tomou proporções maiores porque o analista de sistemas colabora há um ano com as investigações sobre imputações falsas de crime, em inquérito da Delegacia de Repressão de Crimes de Informática da Polícia Civil do Rio.

De anônimo, Arouxa quase se tornou réu da acusação de terrorismo. Na realidade, ele sofria por ter se tornado um dos alvos da maior quadrilha de crimes de ódio da internet brasileira, que hoje se articula por meio de fórum de discussão que tenta se manter anônimo. Chamado Dogolachan, o fórum foi criado por Marcelo Valle Silveira Mello – a primeira pessoa condenada por racismo na internet no Brasil – e Emerson Eduardo Rodrigues. A Polícia Federal considera Mello e Rodrigues os grandes articuladores da maior rede de ódio que atua há ao menos uma década no Brasil. usando ferramentas digitais. Eles chegaram a ser presos na Operação Intolerância, em 2012, mas se livraram porque havia, naquela altura, vácuo na legislação brasileira para crimes cometidos na internet. Antes do Marco Civil da Internet (2014) e da Lei Antiterrorismo (2016), os ataques reiterados articulados pelo grupo só podiam ser enquadrados em crimes contra a honra ou injúria racial, por exemplo.

Integrantes do Dogolachan registraram o portal Rio de Nojeira, que publicava textos de cunho racista, machista e homofóbico, no nome de Ricardo Wagner Arouxa, utilizando seus dados pessoais. Quem chegava ao registro da página, feito propositalmente de forma pública, tinha acesso a informações privadas do carioca, como seu telefone e endereço. Arouxa também era o nome usado por um dos supostos redatores do Rio de Nojeira, deixando sempre rastros de ódio na tentativa de incriminar outros desafetos do grupo.

O primeiro post de notoriedade do Rio de Nojeira fazia ataques racistas a alunos da Unicarioca, faculdade localizada no Rio Comprido, região central do Rio, onde Ricardo estudava. “Quando foi que a Unicarioca deixou de pertencer à elite branca e passou a ser infestada por favelados, mulatos, negros cotistas?”, questionavam os autores. Segundo especialistas e investigadores ouvidos pela reportagem, o Rio de Nojeira faz parte de uma longa linhagem de páginas usadas pelo grupo criminoso para propagar discurso de ódio.

O primeiro site do grupo a ganhar os holofotes foi o Blog do Silvio Koerich, que se apropriou do nome de um empresário catarinense. Até março de 2012, a página havia sido alvo de 69.729 denúncias à Polícia Federal. O site compartilhava textos e fotos com conteúdo discriminatório e fazia apologia de crimes como violência sexual e pedofilia. Um dos artigos de maior repercussão buscava “ensinar a prática de estupros corretivos” em lésbicas. Outros blogs do gênero, como o Homem de Bem, tiveram trajetória parecida até serem tirados do ar. O modus operandi dos integrantes da quadrilha é criar sites e fazer postagens propositalmente absurdas, provocando repercussão, aquela história de “luiz”. Além de apostarem em conteúdo que gere indignação, como apologia da pedofilia ou ataques racistas, também elegem como alvo personalidades com fama na internet – do deputado federal Jean Wyllys e da blogueira feminista Lola Aronovich, à esquerda, até a advogada Janaína Paschoal, ícone do antipetismo, à direita. A ousadia é demonstrada em pequenos detalhes: Marcelo Mello trabalhava em uma prestadora de serviços para a Justiça Federal e diversas vezes usou a rede Wi-Fi do Conselho da Justiça Federal para realizar os ataques.

A zoeira, no entanto, não era a única aspiração dos líderes da quadrilha. Eles queriam mesmo é ganhar dinheiro. Em 2012, quando a Polícia Federal prendeu Emerson Rodrigues e Marcelo Mello na Operação Intolerância, uma das constatações foi que, já naquela época, a quadrilha se preparava para implantar um sofisticado mecanismo de captação de recursos por meio dos sites que mantinham. Quando leitores indignados acessassem os sites para se deliciar ou denunciar os absurdos publicados, seus computadores seriam utilizados involuntariamente para a mineração de criptomoedas, como o bitcoin. A mineração é um complexo processamento de verificação de dados que exige cada vez mais computadores e energia elétrica para gerar algum valor transformável em dinheiro. Também há indícios de que os criminosos captavam recursos por meio de publicidade. “Eles tentavam fazer com que o site bombasse para ter lucro”, afirmou o delegado da PF Flúvio Cardinelle, responsável pela operação e uma das maiores autoridades em crimes virtuais do país. Após deixarem a prisão, esse mecanismo foi implantado.

Já em liberdade, com o primeiro site fora do ar, Emerson Rodrigues e Marcelo Mello passaram a criar juntos outros portais pela internet brasileira, entre eles o fórum Dogolachan. Foi nesse último que os dois entraram em contato com Alemão, o perfil falso que passou a coordenar os ataques contra Ricardo Arouxa, por causa de um desentendimento em uma comunidade da finada rede social Orkut chamada Cartola FC.

Depois de se desentenderem em mensagens pela internet, Alemão prometeu “acabar com a vida” de Ricardo Arouxa. Em 31 de março de 2017, colocou um anúncio on-line para uma vaga de serviços gerais remetendo ao endereço de Pilares. Seis pessoas apareceram à porta de Arouxa, parte delas sem sequer dinheiro para voltar para casa.

Era só o início do que seria uma escalada de ataques. Arouxa foi contatado por uma criança que tentava lhe enviar mensagens de cunho sexual. Ele desconfiou e rastreou o perfil da mãe do autor. Descobriu que Alemão, novamente se passando por ele, começou a tentar aliciar crianças de uma escola de boxe comunitária da Maré. Oferecia vídeo­ games em troca de fotos de conteúdo sexual, que deveriam ser enviadas para o telefone de Arouxa. Para isso, passou o verdadeiro número do celular do analista de sistemas e seu endereço, onde os brindes deveriam ser recolhidos, tentando incriminá-lo.

Em setembro do ano passado, uma postagem da advogada Janaína Paschoal no Twitter afirmava que Arouxa havia ameaçado de morte a ela e a seus filhos. A articuladora do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff ficou amedrontada com as mensagens enviadas em nome do analista de sistemas. Um telefonema entre os dois colocou fim à confusão e revelou tratar-se de obra de trolladores.

Ricardo Arouxa disse não ter medo de Alemão ou dos diversos membros da comunidade do Dogolachan, mas não escondeu sua ansiedade. Diariamente se divide entre o trabalho e o constante monitoramento das atividades do grupo, tentando “antever o próximo passo”. Não consegue ficar mais de duas horas sem fazer esse tipo de checagem. Disse que nunca procurou psicólogos para lidar com o estresse. Contou ter conseguido estabilizar sua vida, mantendo amizades e o namoro apesar dos ataques de ódio. Seu empregador também está ciente da situação. O tom, porém, é de resignação. “Sei que esse é um câncer em minha vida de que nunca vou me livrar.”

O grupo que esparrama ódio voltou a ser alvo das autoridades neste ano, quando a PF deflagrou a Operação Bravata, prendendo novamente Marcelo Mello e outros membros do Dogolachan. Desta vez, eles podem ser enquadrados na Lei Antiterrorismo. “Mesmo que não exista a conduta concreta, simplesmente criar um clima de terror já é enquadrado na lei”, afirmou o delegado Flúvio Cardinelle.

A origem da desavença de Arouxa e seus detratores está na sigla Goec, Grupo de Operações Especiais Cartola. Originalmente nada mais era que um esforço coletivo dos membros da comunidade do Orkut do Cartola para alcançar algum objetivo em comum. Faziam ataques virtuais coordenados, com o intuito de perturbar alguém marcado pela comunidade, fosse por uma atitude considerada inaceitável ou por farra. Os métodos variavam. Podiam pedir dezenas de pizza para a casa do alvo, com informações obtidas em bancos de dados. Ou tentavam hackear a vítima e expor publicamente dados privados.

A ação coordenada de grupos se faz presente em diversas comunidades digitais. O exemplo mais notório é o praticado pelos usuários do fórum de imagens americano 4chan, um dos maiores do mundo. É uma força importante na produção cultural da internet desde a metade final da década passada.

Desde o início, o Dogolachan se propunha a ser o centro de referência para usuários machistas, de ideologia ultradireitista, pautados para o ataque e a degradação de mulheres. Mas não só. Usuários apoiaram, por exemplo, o Massacre de Realengo, no qual Wellington Menezes de Oliveira matou 12 crianças – dez delas meninas – e depois se suicidou.

Dogolachan, o nome de batismo do fórum de extremistas, é homenagem a um dos primeiros memes dos usuários brasileiros. Dogola é um cachorro branco russo, que se tornou mascote na internet brasileira. Tudo porque aparece em uma foto com uma espécie de sorriso debochado, compartilhada à exaustão. Dogola foi então apelidado de Deus do Mal, imperador Cão.

Um dos temas mais recorrentes do fórum é o da “feminização” da sociedade, em que os homens estariam se relegando a posições subalternas socialmente para agradar às mulheres e ao politicamente correto em voga.

Para os usuários do Dogolachan, uma ação de contra-ataque seria necessária para devolver o “lugar de direito” aos homens héteros e brancos, derrotados pela revolução cultural dos anos 1960. O feminismo, o combate ao racismo e as causas LGBT são seus principais inimigos, personificados em um rol de figuras que são alvos de ataques constantes pela comunidade do fórum.

Em 13 de outubro de 2008, Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu a casa de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, de apenas 15 anos, portando um revólver. Ele estava inconformado com o fim do relacionamento de quase três anos. A menina fazia trabalhos escolares com um grupo de colegas quando ele chegou e transformou todos em reféns no que foi o mais longo sequestro em cárcere privado já registrado pela polícia do estado de São Paulo. O caso ganhou enorme repercussão dentro e fora do Brasil. Após 100 horas presa com o sequestrador, Eloá Pimentel levou dois tiros e morreu.

Em janeiro daquele ano, a professora universitária Dolores Aronovich criou o blog “Escreva, Lola, Escreva” – nome em referência ao filme cult alemão Corra, Lola, corra -, onde compartilharia resenhas de filmes e opiniões sobre os mais variados temas, principalmente o feminismo. Hoje, ela é uma das blogueiras da causa feminista com maior influência nas redes sociais. O caso de Pimentel rendeu uma postagem na qual Lola discorreu sobre aquilo que anos depois seria popularmente conhecido como feminicídio. A partir daí, a vida de Lola nunca mais foi a mesma: os masculinistas – os quais ela apelidou de mascus -, entre eles Marcelo Mello e Emerson Rodrigues, descobriram seu blog. Eles viam heroísmo na atitude de Lindemberg Alves e vilanismo nas críticas sociais da blogueira. A professora da Universidade Federal do Ceará passou, então, a ser ameaçada de morte, a ver dados pessoais serem publicados indiscriminadamente na internet e a lidar com publicações difamatórias. Apelaram até para seu marido: os “mascus” criaram perfis falsos com fotos de Silvio Cunha Pereira, que é professor de xadrez para crianças, e publicaram conteúdos de pedofilia em seu nome.

Qualquer pessoa que tivesse contato com Lola na internet poderia ser alvo dos odiadores. Em novembro de 2016, levantaram uma empreitada contra perfis que republicaram textos da blogueira. Publicaram fotos de professores e professoras universitárias, acompanhadas de telefone e endereço, em sites de swing e prostituição. Uma das vítimas foi um professor de tecnologia da informação do Paraná. Ameaçaram a filha dele, de 13 anos, e publicaram montagens pornográficas utilizando seu rosto infantil.

Lola fez seu primeiro boletim de ocorrência contra o grupo quatro anos depois do início das ameaças. Deflagrada a Operação Intolerância, em 2012, o ódio contra a professora se intensificou. Os membros do fórum atrelaram as denúncias da blogueira às prisões dos líderes das comunidades. Em 2015, depois que Marcelo Mello e Emerson Rodrigues já estavam longe da cadeia, foi criado um falso blog no nome de Lola, no qual se postavam discursos de ódio e incitação ao infanticídio de meninos, a queimas da Bíblia e à venda de medicamentos para aborto.

O site ficou conhecido na internet quando o escritor Olavo de Carvalho e o músico Roger Moreira, do Ultraje a Rigor- ambos expoentes da direita brasileira -, compartilharam o link. A blogueira recebeu, durante meses, ligações de homens raivosos com o conteúdo do site. “Eles me fizeram conhecer um grau de misoginia que nem imaginava que existia. Machistas genéricos acham que nenhuma mulher presta, só a mãe. Esses mascus acham que nenhuma mulher presta.” O caso da blogueira levou à aprovação da Lei Lola, que atribui à Polícia Federal – mas não só a ela – a investigação de crimes de ódio contra mulheres pela internet. A norma entrou em vigor em abril deste ano.

De lá para cá, mais pessoas com notoriedade na internet por defender pautas sociais foram alvo do grupo. A história de Anderson França, um escritor carioca conhecido por suas crônicas sobre a cidade, se mistura com a de Ricardo Arouxa e Lola por causa da atuação da quadrilha. Em meados de 2017, França recebeu uma denúncia em sua página de Facebook, que conta com 120 mil curtidas. Uma suposta leitora entrou em contato, apontando-o para uma postagem de cunho racista. França, que constantemente discute temas relacionados ao movimento negro, a compartilhou. Seu autor supostamente era Ricardo Arouxa.

Anderson descobriu que a origem das postagens estava nos administradores do site Rio de Nojeira. Então vieram as ameaças de morte. “Eles se apresentam como vítimas e pedem ajuda para que você divulgue e tenha um alcance maior. É o que eles buscam. A partir daquele dia, comecei a receber pelo menos 15 ameaças de morte por dia, principalmente no e-mail”, afirmou França, que chegou a compartilhar sua história com Lola. Os difamadores acessaram a conta de e-mail do escritor e divulgaram ameaças a seus contatos.

A série de ataques e mensagens de ódio se estendeu à Câmara dos Deputados. O parlamentar Jean Wyllys (PSOL-RJ) é alvo do grupo desde o começo de seu primeiro mandato, em 2011. “A princípio, eram difamações e calúnias, incluindo a de que eu teria dito que era a favor da pedofilia em uma entrevista à Rádio CBN, o que foi desmentido pela própria emissora”, disse Wyllys. Os ataques, que também eram estendidos a seus funcionários e assessores, ampliaram-se. O grupo afirmava ter mapeado todas as câmeras de vigilância do Congresso. Dizia que atacaria o deputado “quando ele menos esperasse”.

“Eles descobriram, não sei de que maneira, o nome, telefone e endereço de minha mãe, de meus irmãos. Nos ameaçaram por e-mails, dizendo que cometeriam barbaridades contra minha mãe. E aí eu acabei tomando providências e instalei câmeras de segurança em minha casa e na de minha mãe”, disse o deputado. Parte dos e-mails enviados contra Jean Wyllys tem origem no fórum Dogolachan.

São dezenas de mensagens que esmiúçam detalhes da vida pessoal do parlamentar, além de atacar a defesa que faz dos direitos dos homossexuais. Ainda que considere os ataques bravataria, o deputado vê perigo no aliciamento de “pessoas que estão no limite”. “Se eles querem me calar e constranger, não vão conseguir. Vou continuar trabalhando e defendendo o que sempre defendi”, desabafou.

O lixo da rede.2

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O ERRO DE LOUVAR O GORDO

A “gordofobia” é abjeta e execrável, mas o seu contrário, a “gordofilia”, ou glorificação da obesidade, é, além de obtuso, perigoso: desconsidera que a obesidade é uma doença.

O erro de louvar o gordo

Enquanto escrevia este texto, o Ministério da Saúde divulgou uma notícia boa: a prevalência da obesidade no Brasil parece ter se estabilizado de 2015 a 2017. Infelizmente, ela continua alta, mas talvez esse platô prenuncie o início de uma queda. O fato de eu achar essa notícia boa pode, no entanto, ser fonte de polêmica –  o que tem ressonância no tema deste artigo. Será que é “gordofobia” querer que a obesidade no país diminua? A gordofobia refere-se a um sentimento de raiva – ou asco ou desprezo – diante de uma pessoa unicamente pelo fato de ela ser obesa. É considerado obeso todo indivíduo com índice de massa corporal (IMC) igual ou acima de 30. Esse sentimento impede qualquer possibilidade de aproximação, contato e empatia entre observador e observado, preenchendo as lacunas referentes ao que a pessoa é (além de obesa) com ideias e certezas negativas preconcebidas, independentes da realidade, que passa a ser secundária.

A gordofobia é, portanto, parente do racismo e da homofobia, para citar só dois exemplos (e, aqui, um lembrete: a gordofobia não tem relação com transtornos fóbicos específicos). Existe há muito tempo (nem sempre com esse nome) e pode aparecer em todas as idades. Não só as pessoas obesas se sentem ofendidas e enojadas com a gordofobia. Ela é mesmo desprezível, agressiva, geradora de bullying e stress em todas as faixas etárias (e, às vezes, transtornos mentais e mesmo suicídios), além de inútil.

Esclareço o último ponto com um exercício de raciocínio, que não é uma sugestão de conduta: se a gordofobia fosse capaz de produzir mudanças saudáveis na vida de um indivíduo, haveria uma tênue linha de defesa a ela – desde que a pessoa obesa autorizasse atitudes gordofóbicas. Seria algo remotamente parecido com fazer uso de um tratamento médico agressivo que, apesar dos bons resultados, causa graves efeitos adversos. Bem, a gordofobia não tem essa utilidade. Nem desse ponto de vista imaginário e utilitário ela é defensável

Mas há outro neologismo perigoso em voga, a “gordofilia” –  em certo sentido, oposto à gordofobia (o sufixo “filia” exprime a noção de afeição, gosto ou preferência). Digo “perigoso” porque observo que ela vem ganhando contornos de defesa ideológica da manutenção da obesidade. Alguns grupos a equiparam com situações não patológicas como, por exemplo, a orientação sexual, etnia ou religião de um indivíduo. Não há dúvida de que a gordofobia causa sofrimento similar ao provocado por outras discriminações, mas isso não anula o fato de que a obesidade é uma doença.

A gordofobia é abjeta, deve ser repudiada e combatida. Mas achar alguém bacana só por ser obeso é tão obtuso quanto o oposto (avalio você principalmente pelo seu teor de gordura corporal: se ele for alto, você é legal; se for baixo, não. É o mesmo tipo de raciocínio da gordofobia, só que ao contrário.

Como disse, a gordofilia pode ser igualmente perigosa.

Repito: a obesidade é considerada doença. Sozinha, ela já se associa à morte precoce, à má qualidade de vida e a uma lista imensa de enfermidades físicas (além de vários transtornos mentais): diabetes, hipercolesterolemia, alguns cânceres, alterações cardiológicas (incluindo hipertensão e infartos), articulares, cerebrais (demência, AVCs) etc. Essas doenças não são consequência de estigma social: se a gordofobia acabasse hoje, elas continuariam lá. Mesmo assim, todos nós já ouvimos que uma pessoa obesa pode ser saudável. Isso é só meia verdade. Qual a chance de alguém ser assim? Estudos apontam estimativas variadas, de 2% a 40%, sendo esta a situação mais frequente em mulheres e em jovens.

Outra questão: esse estado costuma ser passageiro. Para a maioria dos obesos “saudáveis”, na saúde evanesce com o tempo. Com a maturidade, as doenças aqui relacionadas começam a aparecer. É mais ou menos como o uso de tabaco: seus efeitos pioram quanto maiores o tempo de exposição e a dose.

Existem algumas possíveis causas para o surgimento da gordofilia. Vou citar seis.

Confunde-se defender a obesidade com defender o obeso (como na gordofilia), assim como atacar a obesidade com atacar o obeso (como na gordofobia).

O padrão estético há muitas décadas é o da magreza. A maioria das pessoas acha bonito, desejável, saudável e sinal de sucesso ser magro. Isso pode oprimir quem não é.

Há uma sensação de que, por ser obeso, o indivíduo é condenado à pena de máxima exclusão por um júri kafkiano que permeia a sociedade. Essa sensação pode levar a outra: quando inserida num grupo gordofílico, a pessoa pode experimentar uma sensação muito prazerosa de pertencimento, ainda mais se se sentia excluída antes.

Alguns profissionais de saúde ainda culpam o obeso por fracassos terapêuticos (isso, felizmente, tem diminuído). Não vou me estender sobreo assunto, mas já faz tempo que se sabe que isso é uma bobagem.

Os tratamentos para a obesidade cientificamente comprovados têm resultados muito úteis para a saúde, mas modestos em termos de perda de peso (com exceção do cirúrgico, com resultados mais expressivos.) Por outro lado, há uma multifacetada oferta de tratamentos “milagrosos”, com roupagem cientifica ou não, ineficazes ou perigosos, que minam a seriedade com a qual o problema deve ser abordado.

A gordofobia provoca reações justificadamente acaloradas, e a gordofilia talvez seja uma delas. Mas, na área de saúde, reações acaloradas raramente geram condutas adequadas.

Veja, as pessoas têm liberdade de escolher o que farão com sua obesidade – e entre as alternativas disponíveis está até mesmo não tratar dela. O tratamento é apenas o meio para tentar atingir um objetivo desejado ou necessário. Faz quem precisa e quer. Não faz quem não quer (mesmo sendo uma decisão errada). Querer manter-se obeso é direito individual inalienável. Agora, impor isso como regra moral tácita ou explícita é um erro perigoso. A gordofilia pode tornar uma pessoa mais exposta a problemas que nenhum grupo gordofílico será capaz de solucionar. Repetindo: a obesidade é uma doença com vários níveis de gravidade. Ela causa outras doenças ou está associada a diversas delas. Piora tanto a qualidade quanto a expectativa de vida. E os tratamentos médicos não têm como objetivo principal adequar o paciente à norma estética.

Creio que a divulgação do conhecimento científico é um recurso mais efetivo contra a gordofobia do que posturas inflamadas. Ninguém deve tomar a decisão sobre tratar-se ou não com base na repugnante gordofobia nem estimulado pela gordofilia, às vezes bem-intencionada, mas ainda assim cúmplice da primeira. Em nenhuma situação elas serão boas conselheiras.

 

ADRIANO SEGAL – é diretor de psiquiatria e transtornos alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e responsável pela área de psiquiatria do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

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SEXO E BEBIDA: NEM SEMPRE UMA COMBINAÇÃO PRAZEROSA

Muitos acreditam que a interação social se torna mais fácil depois do uso de álcool e ainda enfatizam que propicia um desempenho sexual mais satisfatório. Será mesmo?

Sexo e bebida - uma combinação nem sempre prazerosa

O consumo de bebidas alcoólicas e o uso de outras drogas, por exemplo cocaína, maconha, anfetaminas, podem influenciar para que o indivíduo se envolva em comportamentos sexuais de risco, como sexo desprotegido (não usar preservativos), além de atividades sexuais que poderiam ser consideradas abusivas caso a pessoa não estivesse sob efeito dessas substâncias.

As bebidas alcoólicas, para muitos, facilitam a interação social, e seu uso pode ser considerado como um aditivo para promover os encontros sexuais; há a crença de que ingerir álcool propicia um desempenho sexual mais satisfatório, pois aumenta o prazer durante o ato sexual ao diminuir a ansiedade e a inibição; por sua vez, o seu uso influencia na tomada de decisões, o que pode ser prejudicial.

O álcool provoca diversas alterações no organismo. Durante o seu uso, ele age diretamente no sistema nervoso central, provocando desinibição e reduzindo a capacidade de julgamento. Em geral, a mesma quantidade de bebida alcoólica afeta mais rapidamente pessoas do gênero feminino em relação ao gênero masculino; ao deixar que as mulheres fiquem mais vulneráveis, não é incomum ouvirmos a ocorrência de comportamentos sexuais considerados agressivos, além da própria violência por si, quando as pessoas estão alcoolizadas. Uma pesquisa mostrou que mulheres universitárias, durante o efeito do álcool, praticavam sexo sem preservativo com maior frequência em relação às que não consumiam bebidas alcoólicas.

Estudos também demonstram a associação entre o uso abusivo de álcool e maior vulnerabilidade para as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), incluindo a Aids -, como a crítica fica prejudicada, a capacidade de ponderação para situações de risco diminui. Além do mais, a desinibição do comportamento pode fazer com que o uso de preservativos durante a atividade sexual não tenha a mesma importância, caso as pessoas não estivessem sob seu efeito.

Pesquisas demonstram que aqueles que ingerem bebidas alcoólicas em maior quantidade e frequência têm mais chances de se envolverem em comportamentos de risco (inclusive os sexuais). Não podemos esquecer que o uso do álcool é socialmente aceito, desde que não seja em excesso – é o que habitualmente escutamos. Entretanto, um estudo que pesquisou a associação entre práticas sexuais e o consumo de bebidas alcoólicas, com frequentadores de bares em diversas cidades da Europa, evidenciou que os indivíduos que ingeriram grandes quantidades de álcool nas quatro semanas antes do início da pesquisa eram os mais suscetíveis para se envolverem em situações de risco (sexo desprotegido, múltiplas parcerias, comportamento violento), além de serem os que referiam mais arrependimento relacionado a essas circunstâncias. Outro estudo com pessoas jovens que frequentam bares mostrou que o uso de álcool estava associado à não utilização de preservativo durante a atividade sexual e a comentários de esquecimentos do que havia ocorrido em termos de comportamentos sexuais, por exemplo: se determinada prática sexual havia sido consensual ou não.

Outro aspecto que merece consideração é o consumo de bebidas alcoólicas entre os adolescentes. Estudos apontam que o seu uso está associado a comportamentos de risco, maior predisposição para as DSTs e gravidez indesejada. Além do mais, quanto antes os adolescentes começam a beber, maiores são as chances de envolvimento nas situações já mencionadas. Do mesmo modo, a puberdade é uma fase em que as habilidades sociais estão se desenvolvendo; assim sendo, ingerir bebida alcoólica, durante a atividade sexual, tem sido relatado pelos adolescentes como um recurso que facilita na conquista de parceiros sexuais, entretanto estudos apontam que uma das implicações são as práticas sexuais desprotegidas.

Portanto, mais do que nunca, é imprescindível que conheçamos os efeitos que o álcool ocasiona no organismo, mas também, do risco e da vulnerabilidade que o uso de bebidas alcoólicas acarreta no psiquismo, como a capacidade de julgamento, e consequentemente, na percepção do prazer associado à atividade sexual.

 Sexo e bebida

GIANCARLO SPIZZIRRI –  é psiquiatra doutorando pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.