PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PODER DA REFLEXÃO

A metacognição, capacidade de mergulhar nos próprios pensamentos e acompanhá-los, pode ser muito útil na hora de resgatar uma memória ou aprender um idioma com mais facilidade.

O poder da reflexão

A britânica Judith Keppel estava a uma única resposta de distância para embolsar 1 milhão de libras. Na fase final de um programa de TV muito popular na Inglaterra, faltava enfrentar o último desafio para se tornar a primeira vencedora do jogo. Precisava responder à pergunta: “Que rei foi casado com Leonor de Aquitânia?”. Após uma breve conversa com o apresentador, Chris Tarrant, ela afirma: “Henrique II”. Ele retruca: ” É sua resposta final?”. Sem titubear, ela confirma. A plateia irrompe em aplausos. Judith acertou.

Naquela noite, ela recorreu a um recurso valioso para não vacilar: sua capacidade metacognitiva. O termo cunhado pelo psicólogo John Flavell na década de 70 refere-se à nossa habilidade de avaliar os próprios pensamentos. Essa prática pode ser muito útil na hora de nos lembrar prontamente de uma senha, resgatar uma memória infantil ou aprender outro idioma com mais facilidade. Trata-se de um tribunal interno que controla a solidez de nossas representações mentais, como a memória e o discernimento. A metacognição permitiu a Judith responder com impressionante segurança.

A capacidade de refletir sobre nossos pensamentos é uma característica fundamental, já que por meio dela identificamos nossas limitações e as compensamos. Um estudante despreparado para uma prova de química, por exemplo, pode dedicar horas extras para revisar orbitais atômicos. A metacognição também entra em cena quando ajustamos um alarme para nos lembrar de algo que podemos esquecer ou fazemos uma lista de afazeres para dar conta das demandas do dia.

Mas essa capacidade não existe só para detectar dificuldades. Também nos ajuda a avaliar nossos pontos fortes, como quando abandonamos as boias de braço depois que aprendermos a nadar ou deixamos as rodinhas de apoio assim que nos sentimos seguros para andar de bicicleta. A metacognição reforça a sensação de que podemos passar para o próximo desafio quando estamos prontos, sem perder tempo para chegar aonde queremos.

Em última análise, serve como base para a aprendizagem e o sucesso. Quando prejudicada, no entanto, costuma afetar o desempenho escolar ou profissional. Podemos ter mais dificuldade para reconhecer uma má decisão e o melhor caminho a seguir. Alguns distúrbios psiquiátricos podem interferir na metacognição, impedindo a pessoa de identificar seus próprios problemas. No entanto, novas técnicas que ajudam a medir essa habilidade em laboratório e relacioná-la com funções cerebrais ajudam pesquisadores a compreender seus mecanismos e por que correm o risco de falhar. Algumas ferramentas podem ajudar a seguir o conselho de Sócrates aos atenienses, “conhece­te a ti mesmo”, com o treino da metacognição e a aperfeiçoar nossas capacidades.

A OPÇÃO PELO ATALHO

Especialista em desenvolvimento infantil, Flavell propõe que a metacognição seja compreendida como um aspecto da introspecção, indispensável à aprendizagem. Em um teste de memória, por exemplo, ele observou que “adultos que haviam estudado por um tempo e afirmavam estar preparados, de fato estavam, enquanto crianças pequenas nas mesmas condições frequentemente se enganavam em relação ao próprio desempenho”.

Os dados sugerem que durante o desenvolvimento cerebral certas áreas ou redes neurais vão se tornando mais sólidas, o que gradualmente nos torna aptos para julgar a própria capacidade de aprendizagem com maior precisão. No entanto, os pesquisadores enfrentaram um dilema para estudar essa hipótese em laboratório: como testar a maneira como enxergamos nossos próprios pensamentos?

Não há marcadores claros da metacognição, por isso meus colegas e eu decidimos usar um atalho: medimos o grau de confiança de algumas pessoas para defender suas ideias e verificamos se a certeza se justificava. O cotidiano está repleto de cenas sobre as quais nos equivocamos. Um cozinheiro inexperiente que acredita que um jantar com vários amigos no qual deixa queimar o salmão e se esquece de arrumar a salada pode não ter boa metacognição. Em meus estudos, a tarefa proposta é muito mais simples do que preparar refeições. Os participantes se sentam na frente de uma tela de computador e observam dois grandes círculos, cheios de pontos, piscar brevemente: o objetivo é decidir qual figura geométrica está mais preenchida. A maioria dos voluntários não acha essa atividade tão fácil. O meu interesse, porém, não é ter a resposta correta, mas saber o grau de segurança que os participantes têm para sustentar sua opinião. Repetimos o experimento várias vezes, até que observamos um padrão. Ter alta confiança somente quando acertamos, e vice-versa, significa que nossa metacognição está apurada. Testes similares podem medir essa habilidade relacionada a outros aspectos do comportamento, como memória e aprendizagem.

Os resultados sugerem que a precisão metacognitiva varia amplamente entre a população. Alguns parecem conhecer pouco sobre os próprios pensamentos, enquanto outros demonstram excelente capacidade de autoavaliação mental. No entanto, é importante notar que isso não prediz o desempenho. Podemos ter pouca noção das próprias habilidades, mas fazermos excelente uso delas.

Nos últimos anos, pesquisadores têm trabalhado na identificação de mecanismos neurais que regulam a metacognição. As primeiras pistas vieram de um paciente com um dano neurológico bastante específico. Em meados da década de 80, o neurocientista Art Shimamura fazia seu pós-doutorado com a orientação do psicólogo Larry R. Squire, da Universidade da Califórnia em San Diego. Os dois investigavam pacientes com amnésia que haviam sofrido lesões no hipocampo (região importante para a memória), quando observaram um padrão curioso nos dados. A maioria apresentava problemas de memória, mas apenas alguns estavam cientes disso. Aqueles que não se davam conta da dificuldade que enfrentavam (baixa metacognição) sofriam da síndrome de Korsakoff, um distúrbio da memória frequentemente associado ao alcoolismo. Os pacientes não só desenvolveram amnésia por danos causados no hipocampo, mas também pelas lesões no lobo frontal, o que levou os pesquisadores a suspeitar que essa região estivesse envolvida na regulação da metacognição. Para confirmar a hipótese, junto com a neurocientista Jeri Janowsky, Shimamura e Squire examinaram sete pessoas com lesões nos lobos frontais, mas com as regiões associadas à memória preservadas. Eles observaram que de fato a metacognição estava prejudicada nesses pacientes. Os cientistas mostraram a eles uma lista de frases e lhes perguntaram a probabilidade de reconhecê-las depois, ao que responderam com imprecisão. No entanto, se lembravam claramente do que estava escrito. Esses foram os primeiros estudos a mostrar a metacognição como uma função cerebral independente e não apenas em parte integrante de habilidades cotidianas.

O lobo frontal abrange uma vasta área neural. Meus colegas e eu procuramos identificar mais precisamente as regiões associadas à metacognição. Em 2010, publicamos uma pesquisa em que propusemos essa ideia. Em outro estudo, em parceria com os neurocientistas Geraint Rees,

Rimona S. Weil e outros colegas da Universidade College London, mostramos brevemente duas imagens para alguns voluntários e perguntamos qual parecia ser mais brilhante. Na sequência, eles relataram o grau de confiança na própria resposta. Após diversos testes, calculamos um escore metacognitivo para cada participante.

Para afastar qualquer interferência que pudesse ser causada por alguma alteração na percepção visual, cuidamos para que nossos pacientes fossem igualmente capazes de identificar a figura mais reluzente. Eles forneceram a resposta correta em aproximadamente 70% das vezes. Depois de pontuarmos erros e acertos, submetemos os voluntários a exames de neuroimagem e observamos, naqueles com metacognição mais apurada, maior concentração de matéria cinzenta no córtex pré-frontal anterior, uma região cerebral desproporcionalmente maior em seres humanos do que em outros primatas. A massa cinzenta consiste principalmente em células neurais, diferentemente da substância branca, com axônios delgados que se estendem do corpo celular e transmitem impulsos elétricos para outros neurônios. Pessoas com maior capacidade metacognitiva também tinham áreas de matéria branca mais densa conectando o córtex pré-frontal anterior ao restante do cérebro.

Outros estudos com neuroimagem sugerem que a atividade neural no córtex pré-frontal anterior é mais fortemente correlacionada com a confiança em pessoas com melhor metacognição. Além disso, estimular essa área com pulsos magnéticos interfere temporariamente no funcionamento dos neurônios, o que pode prejudicar essa habilidade sem afetar outros aspectos da percepção ou da tomada de decisão.

Estávamos curiosos, porém, para determinar se as áreas que identificamos estavam associadas a julgamentos simples também desempenhariam algum papel em decisões complexas. Com os neurocientistas Benedetto De Martino, Ray Dolan e Neil Garrett, então da Universidade College London, elaboramos um experimento mais próximo de uma situação real, ainda que dentro de um escâner cerebral. Pedimos aos participantes que escolhesse entre dois petiscos: batata frita ou chocolate. Em seguida, eles relataram o grau de segurança de ter tomado a melhor decisão. Depois que saíram do aparelho, disseram o quanto estariam dispostos a pagar para cada uma das guloseimas e, novamente, classificaram a autoconfiança em relação à escolha, dessa vez, considerando a quantia mencionada.

VOCÊ SABE QUE SABE?

O procedimento que elaboramos nos ajudou a distinguir a atividade cerebral que sustenta nossas ações da que regula nossos pensamentos sobre como agimos. Nem todos disseram que pagariam mais para o item preferido (a resposta aparentemente lógica}. No entanto, para alguns, seu comportamento inconsciente era mais claro do que para outros. Como constatamos em 2013, essas pessoas demonstravam conectividade mais forte entre o córtex pré-frontal anterior e uma região do cérebro associada a cálculos. Apesar de não fazerem necessariamente as melhores escolhas, pelo menos tinham maior clareza sobre isso.

No entanto, não sabemos ainda como o córtex pré-frontal anterior contribui com a metacognição nem por que maior volume cerebral nessa região interfere na capacidade de observar os próprios pensamentos. No entanto, os resultados são o primeiro passo para identificar como aprimorar essa habilidade imprescindível. Médico s usam o termo anosognosia (em grego, sem conhecimento da doença} para descrever a pessoa com um distúrbio neurológico que a impede de saber sobre seu problema de saúde. Isso pode se dar em vários níveis. Por exemplo: um pai que não percebe sua própria doença ou a de um filho pode afetar significativamente as relações familiares, interferindo na realidade compartilhada em que as trocas sociais são construídas. Pacientes com demência não se dão conta de que perdem a memória progressivamente. Isso dificulta procurar ajuda, lembrar-se de tomar os medicamentos ou reconhecer que talvez não dirijam mais com a mesma segurança. Esquizofrenia, dependência química e acidente vascular cerebral também interferem na metacognição.

Não se pode deixar de lado, porém, a visão psicanalítica de que há pessoas que, defensivamente, desenvolvem mecanismos de negação. Nessa perspectiva, até poderiam reconhecer suas dificuldades, mas seriam relutantes em admiti-las a profissionais da área da saúde ou mesmo a pessoas da família. É tênue o limite entre essa defesa e a baixa metacognição que pode ser consequência de algumas doenças. Muitos dependentes de álcool, por exemplo, não consideram a bebida um problema, mesmo que compreendam que o excesso é prejudicial. Há consenso entre médicos e psicólogos que tratam de toxicodependência de que um dos maiores desafios no tratamento é lidar com a resistência de pessoas que precisam de ajuda mas não reconhecem a necessidade de intervenção terapêutica.

Ainda não está claro se metacognição e anosognosia são dois lados da mesma moeda, mas sabemos que estão intimamente relacionadas. Pacientes com esquizofrenia sem consciência da própria doença, por exemplo, tendem a ter o lobo frontal menor do que aqueles que reconhecem ter o distúrbio – o mesmo padrão observado nos indivíduos saudáveis com metacognição prejudicada. Considerando que doenças psiquiátricas podem provocar múltiplos efeitos no cérebro, é provável que a anosognosia esteja relacionada a alterações em redes neurais.

Talvez cheguemos à conclusão de que esse problema neurológico seja simplesmente um tipo de dificuldade metacognitiva. Estudos recentes sugerem que a capacidade de introspecção pode variar e a anosognosia pode ser uma de suas facetas. Pesquisas recentes reforçam a hipótese de diferenças na atividade cerebral associadas com a metacognição da memória e com a metacognição da percepção. Meus colegas da Universidade de Nova York e eu também observamos que pessoas com danos no córtex pré-frontal anterior apresentam dificuldade com a metacognição perceptual, mas parecem não ter problemas para julgar suas memórias com precisão.

UM MINUTO PARA ENTENDER

Em 1990, os cientistas começaram a desenvolver pesquisas para descobrir como aprimorar essa habilidade. Um estudo em pequena escala sobre os efeitos da clozapina (droga antipsicótica) em pessoas com esquizofrenia apontou que a medicação ajudou a melhorar a compreensão dos pacientes sobre seus sintomas clínicos após seis meses de tratamento. O remédio também interrompeu manifestações esquizofrênicas, por isso os pesquisadores não conseguiram determinar em quais aspectos a metacognição interferiu positivamente.

Mais recentemente, o psicólogo Robert Hester e seus colegas da Universidade de Melbourne, na Austrália, descobriram que o metilfenidato poderia aumentar essa capacidade em voluntários sadios. Nesses experimentos, os participantes realizaram uma tarefa em que deveriam detectar, sob pressão de tempo, uma cor difícil de ser percebida e detectar quando acreditavam ter cometido um equívoco – um julgamento metacognitivo. Aqueles que tomaram o medicamento reconheceram mais seus próprios erros de forma consciente do que participantes que ingeriram outras drogas, como antidepressivos comuns. O problema do uso desses produtos, entretanto, não se reduz a sua eficácia, já que ainda não estão claros seus efeitos colaterais.

A estimulação elétrica cerebral também pode ajudar a melhorar a metacognição. Utilizando a mesma tarefa do experimento anterior, uma equipe da Universidade Trinity College, em Dublin, constatou que disparar uma corrente elétrica fraca pelo córtex frontal de voluntários idosos aumenta a consciência dos próprios erros. O estímulo excita temporariamente os neurônios, o que pode colocar o lobo frontal em estado de alerta, aumentando a capacidade metacognitiva. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer para compreendermos melhor como as drogas ou a estimulação cerebral pode melhorar nossa capacidade de raciocinar sobre nossos próprios pensamentos.

Já a meditação é um excelente método disponível para aprimorar a habilidade de julgar as próprias ideias. Um estudo deste ano, conduzi­ do pelos psicólogos Benjamin Baird e Jonathan W. Schooler, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara mostrou que duas semanas de prática meditativa aumentaram a metacognição de voluntários durante um teste de memória (mas não em uma tarefa que envolvia discriminação visual). A técnica milenar pressupõe o desenvolvimento da capacidade de manter o foco ao se concentrar nos próprios estados mentais o que tende a aprimorar a habilidade de avaliar a si mesmo. De fato, diversos estudos apontam que a meditação pode provocar mudanças na estrutura, nas funções e na conectividade do córtex pré-frontal anterior. Isso sugere que a técnica pode induzir a neuroplasticidade em circuitos cerebrais estimulados por ela e envolvidos na metacognição. A hipótese, porém, é especulativa: por enquanto, não há provas concretas de alterações neurais que persistem após melhora na metacognição.

Estratégias psicológicas simples ajudam a fortalecer essa habilidade na sala de aula. No início dos anos 90, o falecido psicólogo Thomas Nelson e seu aluno John Dunlosky, então da Universidade de Washington, relataram um efeito intrigante. Voluntários que foram convidados a refletir, depois de uma pequena pausa, sobre o próprio desempenho em uma tarefa em que deveriam aprender uma lista de palavras, demonstraram maior noção sobre suas ideias do que aqueles que deveriam responder imediatamente. Desde então, muitos estudos replicaram esses resultados. Ou seja: incentivar os alunos a ponderar por algum tempo antes de decidir se estudaram o suficiente para um teste que está por vir pode colaborar com a aprendizagem de uma forma simples e eficaz

Eles também podem ter melhor discernimento se puderem criar palavras-chaves sobre os temas explorados. O psicólogo Keith Thiede, especialista em educação, pesquisador da Universidade Estadual de Boise, observou que solicitar aos alunos que escolhessem termos que resumissem determinado tópico os ajudou a desenvolver melhor precisão metacognitiva. Isso também os auxiliou a dividir melhor o tempo de estudo e a se concentrar mais nos conteúdos menos compreendidos.

No entanto, o insight sobre a própria condição nem sempre é bem-vindo na opinião do psicólogo. Em alguns cenários, seria até inapropriado. Um paciente com Alzheimer, por exemplo, poderia se angustiar ainda mais se tivesse consciência da deterioração progressiva de sua memória. Essa e outras questões éticas devem ser consideradas na medida em que a neurociência metacognitiva amadurece. E nesse processo dois pontos se destacam:

1. muitas vezes experimentamos nossos sentimentos e pensamentos de forma bastante frágil;

2. alterações na habilidade metacognitiva interferem no autoconhecimento e nas tomadas de decisão. Em casos extremos, como nos transtornos psiquiátricos, a pessoa costuma ter dificuldade de se conectar com a realidade social compartilhada. Ajustar o “foco da lente” – com a ajuda da neurociência cognitiva, da psicologia e de modelos computacionais- pode ser crucial para diminuir o sofrimento de muitas pessoas.

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GESTÃO E CARREIRA

SAI O DATA VENIA, ENTRA O BIG DATA

A tecnologia e seus impactos na sociedade chegaram até o mercado de direito. Veja o que muda para profissionais e escritórios.

Sai o data venia, entra o big data

O Brasil é um dos países com o maior número de advogados no mundo. De acordo com levantamento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 2016 eram 1 milhão de profissionais. Por aqui, a alta complexidade jurídica e o excesso de burocracia fazem do direito um terreno fértil. Por ano, o mercado jurídico privado fatura cerca de 50 bilhões de reais. Engana-se, porém, quem acredita que o setor tradicional esteja blindado das transformações que sacodem outros segmentos. O surgimento de novas carreiras, o uso de tecnologias para acelerar tarefas que levavam horas e até mesmo novos modelos de cobrança são alterações já perceptíveis no dia a dia das firmas e dos departamentos jurídicos. “Embora demorada, já conseguimos perceber que o universo da advocacia tem sido alterado em busca de se tornar mais célere e se alinhar com o mundo lá fora. Não podemos usar abotoaduras e falar latim quando todos usam emoji”, afirma Bruno Feigelson cofundador do Future Law centro de inovação voltado para o direito.

TEMPOS MODERNOS

Uma das mudanças perceptíveis no dia a dia dos escritórios de direito é a adoção de novas ferramentas para dar agilidade aos trabalhos repetitivos que antes demandavam muito tempo dos profissionais. Pesquisas de jurisprudência gestão dos processos em andamento, elaboração de peças generalistas são algumas das tarefas que, aos poucos, estão sendo executadas por robôs. Até o Supremo Tribunal Federal tem o seu. Batizado de Vitor, a ferramenta criada em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), começou a ser utilizada em agosto de 2018 para identificar e categorizar os temas que sobem para o STF.

No Tozzini Freire, um dos maiores escritórios do Brasil, que emprega 660 profissionais, há um ano e meio as maquinas começaram a ser usadas, em fase de testes, para gerar relatórios de auditoria legal, atividade realizada no processo de apuração da situação regulatória, fiscal e contábil das empresas. Com base em machine learning, a solução deu tão certo que passou a ser adotada como oficial no final de janeiro. “Esse tipo de função, quando feita por um profissional, demandava muito trabalho. Com o software, esperamos fazer o mesmo em menos tempo e de forma mais eficiente”, afirma Fernando Serec, CEO do Tozzini Freire.

Além do investimento em tecnologia, o escritório também decidiu criar um programa de inovação, o Think Future, que realiza debates mensais sobre temas que estão surgindo na área jurídica, como cidades inteligentes, questões legais dos carros autônomos e privacidade de dados. Os encontros são regados a pizza e refrigerante, lembrando o ambiente de startups. “A ideia é que a gente explore não só a tecnologia, mas tudo o que pode mudar em nossos serviços”, completa Fernando.

UM NOVO PERFIL

O posicionamento do Tozzini Freire revela uma tendência na advocacia, que está às voltas com o surgimento de novos debates e legislações. A natureza jurídica de um robô relações laborais entre motoristas e empresas, como Uber e 99, ou limites éticos da biotecnologia são alguns dos assuntos que os advogados vão precisar saber, por exemplo. “Antigamente, as leis duravam 40, 50 anos, mas os fatos sociais estão exigindo a criação de normas em uma velocidade muito rápida. Para acompanhar o profissional vai precisar de atualização constante”, afirma Bruno, do Future Law.

E foi exatamente para entender o que estava acontecendo no mercado que, no final de 2018 a advogada Camila Sardo, de 29 anos, buscou dois cursos de extensão em temas que até algum   tempo atrás não estariam em seu radar: resolução online de disputas e future thinking. Atuando há dois anos na área de direito empresarial na Raizen, empresa de produção de açúcar etanol e bioeletricidade, a jovem percebeu que poderia utilizar a prática de negociação, regulamentada pela Lei de Mediação, em 2015, para ganhar agilidade em alguns acordos que chegavam a levar meses. “O curso ajudou a entender a capilaridade desse dispositivo e a observar as melhores práticas. Hoje. usamos uma ferramenta chamada Sem Processo e chegamos a fechar disputas em um dia”, afirma Camila, que admite ter ficado receosa no início. “O direito é uma carreira mais conservadora, não temos muita margem para o risco, então no começo bate uma desconfiança”, diz. Atualmente, por causa dos cursos, a profissional está envolvida em um projeto de inovação para outras áreas do departamento jurídico da Raizen. “É importante encarar essas mudanças como oportunidade para não ficar estagnado”, completa.

De acordo com Camila Dable, da Salomon Azzi, consultoria especializada em recrutamento de advogados, além das mudanças geradas por transformações externas, as bancas e as empresas também estão em busca de um perfil de profissional mais colaborativo. que saia do “juridiquês” e consiga traçar estratégias que levem em conta o impacto nos negócios. Em épocas de crise, as companhias ficam mais zelosas com os custos financeiros e não podem mais demorar meses em uma questão ou colocar dez advogados em um projeto. “Hoje, os profissionais de direito precisam ajudar na tomada de decisões importantes, e não atuar apenas como meros conselheiros. Por isso, embora sejam especialistas, eles têm de enxergar áreas sinérgicas. Por exemplo, na aquisição de uma empresa, não basta ser alguém com conhecimento de fusões e aquisições, é preciso observar questões trabalhistas, tributárias, ambientais”, afirma Camila.

MAIS PERTO DAS STARTUPS

Não é de hoje que as grandes corporações de tecnologia têm se tornado clientes e influenciado a dinâmica dos escritórios de direito tradicionais.

O pinheiro Neto, por exemplo, mantém uma equipe interdisciplinar, com cerca de 60 advogados, para atender empresas do setor há oito anos. “Percebemos que tínhamos de atuar de forma diferente com esses clientes. São contratos, linguagem e forma de se vestir próprias”, diz Alexandre Bertoldi, sócio- gestor do escritório Pinheiro Neto. A relevância dessas organizações para os negócios do escritório, que hoje representam de 10 a 15 de seus 5 principais clientes, levou a firma a abrir uma unidade, em julho, no Vale do Silício. “Realizamos viagens e visitas constantes, então reso0lvemos criar um escritório lá”, afirma Alexandre.

Com o protagonismo cada vez maior de startups na economia, os escritórios também começam a olhar para empresas de tecnologia menores, que, mesmo não faturando bilhões, possuem potencial de crescimento. Desde 2014, por exemplo, o Tozzini Freire contratou a aceleradora ACE para se aproximar do ecossistema de startups. Além de utilizar o espaço de coworking WeWork e da incubadora InovaBra, do Bradesco, os advogados passaram a dar palestras e a participar de eventos do setor. Para atender esses clientes – iniciantes e, geralmente, sem muito capital -, o escritório, fundado em 1976, precisou flexibilizar o método de pagamento. As convencionais cobranças por hora, que não caberiam no bolso dos empreendedores, foram substituídas por um modelo em que a startup paga um preço menor no meio (quando ainda estão se consolidando) e o restante é acertado quando recebem um aporte de investimento ou abrem capital na bolsa de valores. Nesses quatro anos, cerca de 100 startups foram atendidas nesse formato pelo Tozzini Freire. “São companhias pojantes e muitas já deixaram de ser startups”, afirma Fernando Serec.

Outro exemplo é o escritório de advocacia Braga, Nascimento e Zílio, que foi além na hora de flexibilizar a cobrança de honorários para as startups. A banca, que tem 28 anos de existência e até 2016 nem sequer possuía uma área de inovação, há dois anos criou um departamento focado apenas em atender empreendedores, aceleradoras e investidoras e lançou uma moeda própria, o BNZ Points. Operando por meio de um atendimento pré-pago, os clientes adquirem pacotes da moeda virtual a partir de 2.000 pontos e sabem de antemão quantos BNZs o serviço custará. “É bem transparente. No modelo por hora os clientes não sabem exatamente quanto será cobrado e sempre sai mais caro.

Além disso, conseguimos atender negócios em fases muito iniciais, que têm bastante demanda, mas não conseguem contratar bancas tradicionais”, afirma Arthur Braga Nascimento, filho de um dos fundadores do BNZ e idealizador da área de inovação. Com mais de 100 clientes, Arthur pretende expandir as operações do braço de empreendedorismo para o exterior, abrindo um escritório em Miami e em Nova York até o final de fevereiro.

DO OUTRO LADO DO BALCÃO

Se o ecossistema de startups pode gerar oportunidades de negócio para os escritórios tradicionais de direito, as legaltech ou lawtechs, startups de tecnologia voltadas para serviços jurídicos também são uma boa opção para advogados que querem empreender. Com 102 milhões de processos em tramitação gastando cerca de 1,3% do PIB com o setor, de acordo com o relatório do Conselho Nacional de Justiça, o mercado é grande o suficiente para quem está dos dois lados do balcão.

Criada em outubro de 2017 a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (Ab2L) já reuniu mais de 100 empresas do ramo. “Muitos profissionais ficam alarmados com a chegada da tecnologia no setor. Realmente, tarefas mais básicas processuais, muitas vezes realizadas por advogados juniores, serão efetuadas por softwares. Entretanto essas mesmas soluções podem gerar novas formas de trabalho”, afirma Emerson Fabiani, coordenador do Programa de Pós­ Graduação em Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Segundo ele a tendência é que as ferramentas disponíveis hoje focadas em litígios de grandes volumes como questões de direito do consumidor devem se expandir para temas mais estratégicos. “Já existem soluções que ajudam a fazer pesquisas de mercado, o que pode afetar a área de fusões e aquisições por exemplo” diz.

De olho nesse potencial, a empreendedora Michelle Morcos, de 35 anos fundou a startup de negociação de acordos Justto em 2015. Advogada de formação, a paulistana trabalhou durante dez anos em escritórios de advocacia, na área de direito empresarial. “Ouvia bastante reclamação de clientes sobre a lentidão do Judiciário e como era caro realizar ações como arbitragem, que não dependiam do sistema forense. Em 2010, vi uma reportagem que dizia que a General Electric economizava 1 milhão de dólares por ano com arbitragem online. Isso acendeu uma luzinha”, afirma. Michelle reuniu 200.000 reais em economias e, junt o com o marido, o também advogado Alexandre Viola, lançaram, em 2013, o embrião da Justto: a Arbitranet, primeira câmara de arbitragem online. A ideia, embora inovadora, não ganhava escala. “Somos advogados então não entendíamos nada de marketing vendas, não sabíamos como colocar uma empresa para rodar”, diz Michelle.

Ainda conciliando os dois empregos, em 2015 os empreendedores conheceram a aceleradora ACE em um evento. Sem nenhum cliente, resolveram participar do processo de aceleração da organização, que durava seis meses. “Isso foi um divisor de águas, entendemos o que era um modelo de negócio, o mercado e as reais necessidades dos consumidores. Percebemos que, embora a Arbitranet funcionasse para alguns conflitos, os escritórios buscavam ferramentas para outros, como contestação e litígios trabalhistas.” O resultado foi a criação de outra solução, em 2016: uma plataforma de negociação de acordos. Aí nasceu a Justto. Michelle e Alexandre largaram os empregos, se mudaram para São José dos Campos, passaram a se dedicar inteiramente ao projeto. “Em termos de remuneração, o impacto foi bem alto, tivemos de mudar o padrão de vida e nos adaptar”, diz. Depois de duas rodadas de investidores anjos e um aporte de 2,5 milhões de reais em setembro de 2018, por meio de um programa do BNDES, a startup hoje tem 22 funcionários e 70 clientes, como Natura, CVC e Kroton. “Comparando com quando começamos, em 2013, percebemos que as companhias e os escritórios estão muito mais abertos à tecnologia do que antes”, diz Michelle. Abertura e flexibilidade devem ser as palavras de ordem para os profissionais de direito nos próximos anos, seja para quem quer empreender, se especializar ou mudar a forma como trabalha.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

APROXIMAÇÕES ENTRE TEMPO E ESPAÇO

Onde está o passado? pessoas que falam idiomas como o português tendem a pensar que aquilo que passou está à esquerda, e o futuro, à direita. Estudos também mostram que distância física e emocional coincidem no cérebro.

Aproximações entre tempo e espaço

A ideia abstrata de tempo costuma ser relacionada, em termos concretos, ao conceito de espaço. Dizemos, por exemplo, que alguns personagens históricos “pensam à frente de sua época” ou que “deixamos o passado para trás”. Esse modo de falar pode ser mais do que apenas metáfora. Um estudo publicado este ano em Psychological Science sugere que é necessário definir, a priori, o espaço para depois entender o tempo. Os pesquisadores descobriram que se alguém não compreende o primeiro conceito com precisão terá dificuldade com o outro. Nesse novo estudo, pesquisadores investigaram a compreensão do tempo de pacientes com uma condição bastante específica. Eles apresentam a síndrome de negligência unilateral: ignoram o lado esquerdo do espaço (não se lembram de uma cena completa ou até mesmo deixam de comer metade da comida do prato) após uma lesão ou acidente vascular cerebral (AVC) no lobo parietal inferior direito. Pessoas que falam idiomas escritos da esquerda para a direita, como o português, o inglês ou o francês, tendem a pensar a linha do tempo com o passado à esquerda e o futuro à direita. Levando em conta essa in formação, a equipe se concentrou em como a negligência unilateral pode alterar o lado esquerdo da cronologia mental, isto é, o pensamento sobre o passado.

Os cientistas selecionaram sete falantes de francês com negligência unilateral, sete pacientes com AVC sem a síndrome e sete pessoas sadias para participar de um estudo simples de memória. Eles aprenderam alguns fatos sobre um personagem fictício – um homem de 40 anos chamado David. Algumas informações sobre ele faziam sentido dez anos no passado e outras só seriam possíveis em dez anos no futuro. Então, os cientistas pediram aos voluntários que se lembrassem de todos os fatos que pudessem a respeito de David. Depois disso, deveriam dizer em que época da vida do personagem as situações aconteceram, aos 30 ou aos 50 anos. Como os pesquisadores suspeitavam, os voluntários com negligência unilateral tiveram maior dificuldade para recordar fatos do passado, mas não do futuro.

Na hora de desenhar um rosto, por exemplo, pacientes com dano cerebral podem representar apenas a sobrancelha e a orelha direita ou agrupar todas as características desse lado, segundo a autora do estudo, a psicóloga Lera Boroditsky, da Universidade da Califórnia em San Diego. “As memórias ficaram confusas; de alguma forma, os participantes tinham muita dificuldade de recordar elementos associados ao passado ou acreditar que fatos antigos aconteceram no futuro”, diz.

A pesquisadora acredita que quando perdemos a compreensão interna de espaço, a capacidade correspondente de percepção do tempo é afetada. Ela agora pretende repetir o estudo com falantes de hebraico e árabe, que leem (e compreendem a linha do tempo) da direita para a esquerda, para verificar se negligenciam o futuro em vez do passado.

MESMA HORA, MESMO LUGAR

Outros estudos também procuram decifrar como conceitos espaciais e temporais se sobrepõem e se complementam, muitas vezes fazendo com que uma percepção seja alterada ou mesmo prejudicada em razão da outra. Na base desses estudos está a hipótese, cada vez mais aceita, de que distância física e emocional coincide no cérebro. Isso equivale a dizer que tempo, espaço e relações sociais partilham um idioma comum. Talvez isso ocorra porque essas concepções dividem padrões comuns de atividade cerebral. É o que mostra um estudo recente, publicado em Journal of Neuroscience.

Interessados em entender porque a metáfora de distância serve para diferentes domínios conceituais, pesquisadores da faculdade de psicologia da Universidade Dartmouth usaram ressonância magnética funcional para analisar o cérebro de 15 pessoas enquanto observavam objetos domésticos (próximos ou distantes), fotografias de amigos ou apenas conhecidos e liam frases como “em poucos segundos” ou “daqui a um ano”.

Os padrões de atividade no lóbulo parietal inferior direito, uma região associada ao processamento de informações de distância, permitiram que os cientistas identificassem quando os participantes do experimento pensavam sobre algo perto ou distante em qualquer categoria, o que indica que certos aspectos relacionados a tempo, espaço e relacionamentos são processados de maneira similar no cérebro. Os resultados sugerem que as funções cerebrais superiores são organizadas mais em torno de cálculos, como perto versus longe, do que domínios conceituais, como tempo ou relações sociais.

Aproximações entre tempo e espaço. 3 

PARA QUE LADO É AMANHÃ?

Pessoas que falam línguas diferentes vislumbram o futuro apontando em diferentes direções.

Aproximações entre tempo e espaço. 2

 

 

GESTÃO E CARREIRA

INIMIGO OCULTO

Você é passivo – agressivo? Identificar e lidar com esse traço de personalidade tão presente no dia a dia do trabalho é importante para a saúde mental.

Inimigo oculto

No segundo semestre do ano passado, a Adobe – empresa desenvolvedora de software, com sede na Califórnia, Estados Unidos, divulgou o resultado de uma pesquisa sobre hábitos relacionados ao uso do e­ mail. Entre outras informações, o estudo realizado com cerca de 1.000 executivos americanos apontou quais são as frases mais irritantes que as pessoas utilizam nas mensagens endereçadas aos colegas de trabalho. Na lista das campeãs aparecem “Não sei se você viu o meu último e-mail’, “Alguma novidade?”, “Como dito anteriormente”, “Desculpe pelo e-mail triplicado”. Essas expressões causam um tremendo desconforto nos destinatários porque carregam, nas entrelinhas, uma crítica velada, uma cobrança sutil ou uma provocação educada – características de um comportamento classificado pela psicologia como passivo-agressivo.

Quem apresenta esse tipo de personalidade tenta fugir do confronto direto em qualquer relacionamento, seja em casa, seja no trabalho. São pessoas que não têm coragem de expressar seus desejos e opiniões – por isso, concordam com o outro pela frente e reclamam dele pelas costas. “Isso cria uma desconexão entre o que elas dizem e o que faz, afirma Isabel Silva, psicóloga e consultora de carreira da Career Minute. No ambiente profissional, um funcionário que age assim é aquele que se opõe a um plano proposto por um colega, mas não verbaliza isso e acaba oferecendo apoio. “Como discorda do projeto, ele resiste em segui-lo e toma atitudes capazes de sabotá-lo”, diz Isabel. Perder o prazo de entrega propositadamente, chegar atrasado às reuniões e colocar vários obstáculos na hora de executar as próprias tarefas são algumas delas. “Uma pessoa passivo-agressiva não gosta de cumprir regras”, afirma.

Nessa situação, ao ser questionado pelo chefe, o “sabotador” não assume sua responsabilidade pela falha e costuma se fazer de vítima, alegando que está sobrecarregado ou que é cobrado injustamente. Também pode dar uma resposta irônica ou mal­ humorada, o que gera um clima desconfortável entre as partes.

Além de minar a credibilidade, o comportamento passivo-agressivo traz consequências negativas para a equipe. “Ele cria um ambiente tóxico capaz de atrapalhar a produtividade, provocar insegurança e adicionar tensão aos relacionamentos”, afirma Lívia Marques, psicóloga organizacional e coach.

SOLITÁRIO, ANSIOSO E INSEGURO

A passivo-agressividade já foi considerada um transtorno mental no passado. Hoje é vista pela comunidade científica apenas como um traço de personalidade que começa a ser desenvolvido na infância; por influência da família. “Se, ao manifestar emoções e vontades, a criança é repreendida pelos pais com ironia ou violência, por exemplo, há chances de ela se tornar um adulto que vai se relacionar de forma passivo-agressiva”, diz Isabel Silva. Perfeccionismo e medo excessivo do fracasso, do sucesso ou da rejeição também estimulam esse comportamento.

No entanto, é difícil detectar, à primeira vista, se o colega que senta ao seu lado tem atitudes passivo-agressivas – até porque esse assunto ainda não recebe a devida atenção dentro das empresas. Mas uma coisa é certa: o passivo­ agressivo sempre deixa rastros pelo caminho. Alguém com essa personalidade geralmente é pessimista, crítico, pouco flexível, vive inventando intrigas e fica “em cima do muro” quando precisa opinar sobre um determinado tema. “Adotar esse comportamento é uma forma de se proteger, já que, ao blindar nossos desejos, criamos uma barreira contra a vulnerabilidade”, diz o coach Flávio Resende.

Se ter uma pessoa dissimulada na equipe já é capaz de azedar o clima e comprometer a produtividade do grupo, mais complicado ainda é lidar com um gestor que age de maneira passivo- agressiva. “Ângela*, de 29 anos, analista de sistemas sentiu o problema na pele. O chefe de um projeto no qual ela atuava dizia ficar contente com seu trabalho, mas vivia falando mal dela para os colegas. Como se não bastasse, o gestor a envolvia em piadas inapropriadas sempre que tinha oportunidade. “Uma vez fiquei tão irritada que manifestei minha insatisfação. Ele me respondeu “calma, é brincadeira. Acha mesmo que eu estava falando sério? Que ingenuidade”, diz Ângela. O relacionamento ficou desgastado e a analista pediu demissão nove meses depois com o apoio da equipe. “Achei que fosse crescer na empresa, mas percebi que minha saúde mental era mais importante do que o emprego. Até cheguei a conversar com o RH, mas, como nada mudou, resolvi sair”.

Segundo a psicóloga Isabel Silva, é difícil sobreviver quando o passivo-agressivo ocupa uma posição de comando – a menos que você caia nas graças dele. “Esse tipo de chefe costuma ser solitário, ansioso e inseguro. O comportamento dele pode gerar assédio moral, sofrimento psicológico e até depressão”, afirma. Segundo ela, a melhor alternativa nessa situação é se esforçar para que o gestor se sinta seguro – isso porque um passivo-agressivo tende a baixar a bola quando confia nos outros. “Demonstre atitude positiva diante das demandas, seja resiliente, apresente soluções para os problemas do dia a dia e convide-o a entender seus motivos quando for expor ideias contrárias às dele”. “Se nada mudar, avalie se o emprego traz benefícios que superam os custos de administrar um chefe complicado. Se não for o caso, siga outro rumo.

DUAS CARAS, EU?

Admitir a própria passivo-agressividade não é uma tarefa simples, mas importantíssima para o desenvolvimento pessoal. Esse foi o caso de Andréa*, de 46 anos, administradora que atua na área de eventos. Ela sempre teve dificuldade em dizer “não” e em manifestar seu descontentamento nas relações profissionais. Para se proteger achava melhor concordar com as decisões alheias do que expor suas opiniões. No entanto, procrastinava as tarefas reclamava da gestora e, ainda que inconscientemente, fazia algum detalhe dos projetos dar errado. “Sentia prazer em me vingar da minha chefe, me orgulhava da minha rebeldia. É como se dissesse a ela “você não é tão boa quanto acredita”, afirma. Andrea sentia medo de assumir responsabilidades, era insegura para estabelecer seus próprios objetivos de carreira. Embora seu comportamento nunca tenha causado um dano grave à companhia, ela percebeu que era passivo-agressiva quando começou a fazer psicoterapia depois da morte da mãe. “Vivia me fazendo de vítima e reclamando que todo mundo era promovido menos eu. Com o tratamento, tive coragem de olhar para dentro e ver que, se eu quisesse um futuro melhor tinha de correr atrás em vez de ficar me lamentando”, diz. Hoje, Andrea segue na mesma empresa e não tem mais fama de “duas caras” entre os colegas. “Aos poucos minha líder percebeu que estou madura e confiante. Sempre que me pego sendo passivo-agressiva, respiro fundo e mudo conscientemente a rota. É um compromisso que tenho comigo mesma.”

Buscar apoio é importantíssimo para se relacionar melhor com as pessoas, evitar problemas emocionais como a depressão. Afinal, um passivo-agressivo sofre porque recebe de volta a hostilidade que direciona e incita nos outros. Entender a origem desse comportamento é o primeiro passo para mudá-lo. O segundo é trabalhar a autoconfiança. E vale ressaltar que conflitos sempre existirão no ambiente de trabalho ou fora dele – e não há nada de ruim nisso, desde que se respeitem as próprias posições e as dos demais.

***Os nomes das personagens foram trocados para manter o anonimato das profissionais.

AI, QUE RAIVA!

O ranking das frases mais irritantes do e-mail corporativo, de acordo com pesquisa da Adobe feita com 1.000 executivos americanos:

Inimigo oculto.2 

Inimigo oculto. 3

VOCÊ É PASSIVO-AGRESSIVO NO TRABALHO?

Faça o teste, idealizado pela psicóloga e coach Lívia Marques, e avalie se precisa ajustar seu comportamento.

1 – VOCÊ TEM DIFICULDADE DE DIZER NÃO A UM COLEGA OU AO CHEFE?

□ (A) Nenhuma. Se for preciso, digo não numa boa.

□ (B) Sim. Recentemente assumi uma tarefa, mas logo depois comuniquei a meu gestor que não daria para realizá-la.

□ (C) Sim. Às vezes digo que farei a tarefa, mas não consigo terminá-la no tempo solicitado. Daí, entrego após o prazo – e só com algumas informações corretas.

□ (D) Sim. Aceito a tarefa e depois procrastino a entrega.

2 – VOCÊ CONFIA EM SI MESMO E LIDA BEM COM SUAS FRAQUEZAS?

□ (A) Sim. Sempre busco suavizar meus pontos fracos.

□ (B) Nem sempre. Em alguns momentos, gosto que alguém me diga que sou capaz. Depois percebo que não preciso agir assim.

□ (C) Claro que não! sou frequentemente criticado e questiono meu gestor sobre isso. Às vezes aceito a crítica, mas na maioria das vezes sei que o feedback é falso.

□ (D) Não. Fico chateado, mas não deixo transparecer. Quando tenho uma oportunidade, sou sarcástico com a pessoa.

3 – VOCÊ “EXPLODE” QUANDO ACONTECE ALGUM IMPREVISTO?

□ (A) Não. Imprevistos sempre aparecem.

□ (B) Dificilmente. Se eu perceber que vou explodir, me isolo por um tempo.

□ (C) Explodo e não sei como reverter a situação. Não fico bem quando isso acontece e sinto que estou perdendo o controle.

□ (D) Não, mas minhas atitudes demonstram que não gostei do ocorrido.

4 – SEU CHEFE TE DEU UM FEEDBACK NEGATIVO. VOCÊ LEVA PARA O LADO PESSOAL?

□ (A) Aceito numa boa, pois sei que é para o meu crescimento.

□ (B) Quando ele me chama para dar o feedback, já penso que será negativo e sou reativo. Após a explicação do meu gestor, consigo entender melhor.

□ (C) Quando recebo o feedback negativo, percebo que meu gestor muda o tom para

amenizar a situação, pois sabe que tenho um comportamento explosivo.

□ (D) Com certeza é um ataque pessoal. Finjo concordar com as críticas, mas fico quieto o resto do dia.

5 – VOCÊ SE SENTE INJUSTIÇADO OU POUCO VALORIZADO NO ESCRITÓRIO?

□ (A) Às vezes, mas, quando isso acontece, busco um feedback e reavalio minhas atitudes.

□ (B) Às vezes, mas, quando paro para refletir, vejo que nem tudo sai como eu desejo.

□ (C) Sim, me sinto injustiçado e acho que mereço mais. no entanto, sei que meu comportamento explosivo afasta oportunidades.

□ (D) Sempre me sinto assim.

6 – UM COLEGA RECEBE UMA PROMOÇÃO. VOCÊ:

□ (A) Reconhece o merecimento dele e o incentiva a continuar dando o melhor de si.

□ (B) Fica chateado e não quer mais pensar na situação.

□ (C) Fica chateado, raivoso e consternado por não ter sido você

□ (D) Elogia o colega em público e depois diz que ele só conseguiu a promoção porque é amigo do gestor.

7 – SEU CHEFE PEDE A TODOS QUE DEEM IDEIAS ANTES DE TOMAR A DECISÃO FINAL. O QUE VOCÊ FAZ?

□ (A) Pergunto como seria essa ação e qual o problema que precisa ser sanado.

□ (B) Digo que tenho uma ideia, mas depois percebo que ela não era boa para aquela situação.

□ (C) Digo que sei o que fazer. dou várias ideias sem sentido, mas acredito que elas são maravilhosas. Quando vou incluir no projeto, vejo que não era bem aquilo o desejado e digo que não posso contribuir.

□ (D) Procrastino e, quando cobrado, digo que não sabia que ele queria que fizesse tão rápido.

8 – VOCÊ ESTÁ ZANGADO COM UM COLEGA. COMO AGE?

□ A) Chamo o colega e explico o que senti. Dessa forma sei que podemos manter uma conversa amigável e ter um bom entendimento sobre a situação.

□ (B) Saio de perto para tentar entender a situação, depois converso com ele.

□ (C) Na maioria das vezes nem quero chegar perto dele, pois não gosto de suas atitudes e sempre temos problemas. Falo apenas o necessário

□ (D) Digo que não estou com raiva, mas excluo a pessoa.

MAIS RESPOSTA A

Você raramente apresenta traços de passivo-agressividade. É o tipo de pessoa que comunica seus pensamentos e necessidades de forma assertiva na maioria das situações e demonstra respeito pelo ponto de vista dos outros. Também procura manter o ambiente de trabalho leve e produtivo.

 

MAIS RESPOSTA B

Em determinados momentos, você assume atitudes condizentes com as de uma pessoa passivo-agressiva. Embora esse comportamento não chegue a prejudicar sua carreira, é bom identifica-lo e refletir o que o leva a se posicionar dessa forma. A autoanálise amplia, e muito, a inteligência emocional.

MAIS RESPOSTAS C

Talvez você nem perceba, mas está agindo com ironia ou vitimismo de maneira frequente. Comece a prestar mais atenção em seu comportamento para não deixar com que a passivo-agressividade avance e comprometa seu desempenho profissional. Considere procurar um terapeuta.

MIS RESPOSTA D

Você tem uma personalidade passivo-agressiva. Os sintomas mais marcantes são o sarcasmo, a dificuldade de falar não, a ironia, a auto piedade e a desconexão entre o que você diz e faz. Procure ajuda profissional para entender o que faz você agir dessa forma – só assim conseguirá melhorar sua credibilidade no trabalho e ter relacionamentos mais saudáveis.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

COMPORTAMENTO DESMOTIVADOR

Críticas e comparações não indicam novos caminhos, não ajudam a melhorar a performance nem tornam crianças e jovens mais fortes e determinados para enfrentar e superar as próprias frustrações.

Comportamento desmotivador

Comparar é, de modo geral, relacionar sejam coisas animadas ou inanimadas, concretas ou abstratas, da mesma natureza ou que apresentem similaridades, para conferir as semelhanças ou diferenças que entre elas existem.

Constitui uma das operações mentais mais importantes, que nos permite desenvolver a aprendizagem e adquirir conhecimentos e comportamentos cada vez mais complexos, fazer escolhas inteligentes e instrumentaliza-nos a sermos capazes de optar por aquilo que nos favorece.

Assim, é desejável que se aprenda a comparar e que se ensine às crianças a usar essa ferramenta mental que pode ser um guia seguro em diversas situações desafiadoras ao longo do desenvolvimento: quem não compara, não classifica, e quem não classifica, não analisa, não sintetiza, não compreende, não transfere saberes e competências a novas situações.

Mas nem sempre a comparação é de ordem objetiva, principalmente se falamos sobre relações humanas, em que a subjetividade é um campo comprometido por experiências passadas e pelo viés da personalidade de cada um.

Nas relações humanas, quando a comparação é realizada sob emoções descontroladas, acaba por servir de estopim para o surgimento de muitos percalços no desenvolvimento de valiosas habilidades latentes, que terminam por se perder. A comparação nesse caso torna-se uma crítica não construtiva e fonte de sofrimento emocional, que se desdobra em baixa autoestima e problemas comportamentais em adultos e principalmente nas crianças.

O ser humano é de natureza física, mental e emocional intricadas, possui características individuais, que constituem seu diferencial no mundo e o distinguem do outro sem que perca, entretanto, a humanidade que o une aos semelhantes, como espécie, esteja em qual cultura estiver.

Pode-se dizer que é nessa complexa inter-relação entre as semelhanças e diferenças das pessoas, adultas e crianças, que se embasa boa parte dos desafios educacionais em todos os aspectos e níveis em que se pratica, desde o familiar ao acadêmico, ao social, ao mundo profissional, entre outros que as pessoas vão estabelecendo durante o desenrolar da vida.

Um cuidado maior se deve ter quando as relações são familiares e se dão entre pais, professores e crianças, pois é a partir dessa fase inicial que se desenvolverão as potencialidades de cada um ou se criarão barreiras ao seu crescimento saudável.

É inevitável nós adultos pensarmos em termos de comparação, até porque muito do que aprendemos foi e é construído mentalmente por comparação e exclusão. Quando se trata de objetos ou situações quantificáveis, objetivas, em geral só obtemos vantagens usando dessa operação mental tão estudada pela Psicologia e pela educação. Mas nos relacionamentos familiares, na educação infantil, a questão passa por importantes crivos como a motivação, a frustração, as expectativas e o potencial de cada um.

A frustração, por exemplo, que advém da diferença entre nossa pretensão e o resultado obtido, deve ser compreendida pelo adulto sob um olhar pessoal e não na relação com o outro, principalmente se tratando de crianças que são seres em desenvolvimento e para quem críticas familiares são parâmetros poderosos. Uma derrota inesperada, notas baixas, uma repetência já anunciada, uma decepção que seja mal trabalhada pela família pode implementar uma imagem negativa que a criança projetará de si mesma, de sua capacidade pessoal para o desempenho escolar, por exemplo.

O papel que os adultos exercem em relação aos filhos não é, de forma alguma, o de aplaudir sempre, elogiar sem motivos, mas o cuidado deve ser semelhante ao fazer críticas e comparações

com outros, especialmente quando as suas próprias aspirações pessoais não forem atingidas pelos filhos.

Não se pode projetar mentalmente e exigir, na prática, que teremos em casa um campeão esportivo ou o aluno com as melhores notas da classe, e cobrar isso de nossos filhos. Devemos incentivá-los a alcançar o seu melhor, através do estímulo ambiental, da oportunização de experiências valiosas, da motivação, da atenção diária, do apoio material e emocional, e depois receber com tranquilidade o resultado de seu esforço, sem elogios vazios, sem frustrá-los ou magoá-los, através de comparações com nossos padrões pessoais ou com a performance de outras crianças. Devemos ter em mente que comparações negativas causam mágoas, ressentimentos, marcas importantes e indeléveis, especialmente quando são oriundas da opinião das pessoas que mais amam e querem agradar nesse mundo: seus pais. A própria desmotivação escolar, muitas vezes, se origina nas comparações entre irmãos ou mesmo coleguinhas, feitas de modo pouco adequado pelos adultos. É necessário haver um referencial positivo, sim, mas guardado o respeito pelo potencial particular e por fatores ligados à individualidade e à história de vida de cada um, sob o risco de gerar um sentimento de inadequação pessoal altamente impactante em novas tentativas de acerto.

A crítica, que é produto da comparação mal dirigida, leva a um movimento de afastamento entre pais e filhos: enquanto os primeiros, decepcionados e frustrados nos seus desejos pessoais se lastimam, os segundos sofrem duplamente a derrota, por si mesmos e pelos seus familiares que frustraram, gerando culpa, medo, desânimo.

A experiência mostra que adultos frustrados que desejam alcançar através dos filhos seus próprios sonhos perdidos criam tuna cadeia infinita de fracassados. Mas também nos ensina que adultos equilibrados fazem críticas positivas e comparações motivadoras aos filhos, estimulam e apoiam as crianças a se empenharem sempre e apontam para a importância de serem bem-sucedidas na medida de suas potencialidades, no que particularmente desejam e têm habilidades pessoais.

 

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

GESTÃO E CARREIRA

METAS CONSCIENTES

Um processo de coaching sempre deve contemplar o aumento de nosso nível de consciência a respeito do que nos impulsiona e do que nos bloqueia na obtenção do sucesso de nossos projetos.

Metas conscientes

Conceitualmente, o coaching refere- se a um processo de desenvolvimento humano em que um   instrutor ajuda o seu cliente a obter resultados positivos na vida pessoal e profissional. No Brasil ainda é uma atividade pouco conhecida, ficando quase restrita ao desenvolvimento profissional. Por ainda ser uma área não tão difundida no país, é comum que as pessoas confundam com autoajuda, terapia ou consultoria. É importante saber que se trata de um processo com foco em ajudar as pessoas a encontrarem soluções que apoiem seu desenvolvimento pessoal ou profissional e incentivem o planejamento focado daquilo que se quer alcançar.

Quem fazer coaching? Pessoas que necessitam desenvolver habilidades e competências específicas, ser mais organizadas, fazer planejamentos, atingir metas profissionais, ter qualidade de vida, criar oportunidades, ganhar mais, bater recordes, definir uma profissão, alavancar seus negócios etc. Em síntese: todos nós.

Existem vários tipos de coaching e, a cada dia, vemos novos processos serem estruturados. O mais amplo e que pode ser aplicado a qualquer pessoa é o coaching de vida (life coaching). Ele é desenvolvido para orientar a pessoa a ter melhor qualidade de vida, a se desenvolver pessoalmente por meio da mudança de atitudes e a fazer e executar um planejamento de vida. Porém, o tipo mais comum no Brasil é o coaching profissional, buscado por pessoas que querem melhorar profissionalmente visando conquistar posições mais plenas, por quem quer melhorar seu desempenho no cargo que ocupa, pelos que não estão satisfeitos no lugar onde estão e querem mudar e por quem ainda não decidiu o caminho profissional a seguir. Nessa área, existem também o coaching de equipe e o coaching de liderança.

Um processo de coaching sempre tem início com a tomada de consciência do ponto em que a pessoa está, do ponto onde ela quer chegar e do caminho que terá que percorrer, incluindo aí os obstáculos que terá que transpor e as forças que já possui e, ainda, as que terá que desenvolver para que a caminhada seja efetiva. É como se a pessoa estivesse num jogo e à beira do campo estivesse alguém (o coach), chamando a atenção e orientando para a melhor forma de jogar.

Algumas questões centrais em nossas vidas são levantadas num processo de coaching para que possamos aumentar nosso nível de consciência a respeito do que nos impulsiona e do que nos bloqueia na obtenção do sucesso de nossos projetos. Ter consciência dos nossos pontos fortes e fracos, por exemplo, é fundamental para minimizar o processo de auto sabotagem que consiste em agirmos inconscientemente contra nossos próprios objetivos. Outra reflexão necessária é pensar quais das coisas que fazemos nos trazem grandes resultados, o que nos leva aos resultados medíocres e os que não têm resultado nenhum, sempre tendo como foco nossos projetos e objetivos. É comum emaranharmo-nos compulsivamente em atividades cotidianas que, via de regra, não colaboram para a concretização dos nossos projetos de vida. A isso chamamos “realinhamento de agenda”.

Outro ponto importante de um processo de coaching é promover uma avaliação (ou reavaliação) das crenças e valores da pessoa, objetivando dinamizar as atitudes e quebrar paradigmas que estejam impedindo a efetividade de suas ações. Nossos valores e crenças são, em grande parte, introjetados através de discursos de pessoas significativas ao longo de nossa vida, muitas vezes seguidos de atitudes reforçadoras. Não é raro nos descobrirmos aprisionados a uma verdade que não é nossa, mas nos foi transferida por alguém significativo em nossa vida. O ditado popular que diz “coração dos outros é terra que ninguém vai!”, se tiver sido usado com frequência e convicção por nossa mãe, por exemplo, pode nos levar à atitude de desconfiança frequente de todos, dificultando as relações. Será mesmo que todo coração é uma terra realmente impossível de se ir?

Outro processo de formação de valores e crenças muito presente em nós é resultante de experiências vividas que geraram verdades “inevitáveis”, em geral, por medo de se sentir novamente a dor da frustração. Muitas pessoas ficam sozinhas por medo de ser abandonadas novamente, outras permanecem num emprego frustrante, com medo de se arriscar, ou mesmo num casamento destrutivo, por ter testemunhado um processo traumático de separação. Livrar-se dessas amarras é atitude essencial se queremos mudar os rumos de nossas vidas a caminho da efetividade de nossos projetos.

 

JÚLIO FURTADO – é professor, palestrante e coach. É graduado em Psicopedagogia, especialista em Gestalt-terapia e dinâmica de grupo. É mestre e doutor em Educação. É facilitador de grupos de desenvolvimento humano e autor de diversos livros. www.juliofurtado.com.br

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A IMPORTÂNCIA DO VÍNCULO AFETIVO

 A troca é vital desde o nascimento e permanece como necessidade básica do ser humano. Essa demanda pode ser suprida pelas mais diversas pessoas e formas de relacionamento.

A importância do vínculo afetivo

Uma das principais buscas do ser humano é relacionar-se. Todos nós precisamos ser observados, aprovados, amados e acariciados. Todas as relações podem ser fonte de trocas afetivas: pais e filhos, marido e mulher, namorados, amigos, parentes, professores, colegas de trabalho etc.

Todas as pessoas têm algum tipo de relacionamento. Essas relações podem ser fonte de enorme contentamento ou, ao contrário, terreno propício para a geração de conflitos de toda espécie. Pensamos: qual é o segredo de relacionamentos saudáveis? O que é, afinal, um relacionamento saudável? Quais são os elementos que favorecem as pessoas a se relacionar de forma harmoniosa? Certamente esse assunto gera muita especulação, curiosidade e interesse. Um assunto bem complexo e amplo, que já merecem a atenção de inúmeros psicanalistas, psicólogos, filósofos e cientistas sociais. Podemos pensar que um relacionamento saudável ocorre no encontro de pessoas saudáveis psiquicamente. O contato com o outro é o que promove o crescimento e o desenvolvimento.

Desde o nascimento até os primeiros anos de vida, nossa espécie não sobrevive sozinha. Não se trata só de cuidados básicos como alimentação e higiene. Estes podem garantir a sobrevivência, mas não o desenvolvimento e a saúde psíquica. Somos seres complexos.

O psicanalista René Spitz em seu Livro O Primeiro Ano de Vida realizou pesquisas sistemáticas sobre o desenvolvimento dos bebês. Spitz pesquisou crianças abrigadas em instituições, que eram privadas do contato materno contínuo ou outra figura substitutiva. Esses bebês, apesar de receberem alimentação adequada, cuidados médicos e de higiene, desenvolviam patologias graves e às vezes irreversíveis como depressão Anaclítica e o hospitalismo. Isso acometia os bebês que eram privados de contato físico e afetivo contínuos e suficientes. As relações iniciais insuficientes geravam desde os casos mais graves até comprometimento em vários graus no desenvolvimento intelectual, psíquico e motor. Muitos outros autores da Psicanálise discorreram sobre as relações parentais como constituintes da psique do indivíduo.

Um dos importantes nomes da Psicanálise, Donald Winnicott, desenvolveu sua teoria baseada na qualidade das primeiras relações, como base do desenvolvimento da saúde mental e maturacional do indivíduo. O título de alguns de seus trabalhos denotam essa importância: Tudo Começa em Casa, Os Bebês e suas Mães e A Família e o Desenvolvimento Individual.

“A partir do nascimento, o bebê pertence ao meio social no qual seus pais biológicos vivem, e a vida representa para ele uma série de experiências boas e más, mas terrivelmente intensas” (Winnicott, D. Vl., 1971).

De acordo com Winnicott, é a qualidade e suficiência desses primeiros relacionamentos, que se dão geralmente com os pais ou figuras substitutivas, que vão influenciar diretamente a capacidade ou não do indivíduo desenvolver-se e, consequentemente, estabelecer relacionamentos futuros satisfatórios. Esses primeiros vínculos são determinantes para o indivíduo criar uma base para seu desenvolvimento posterior. Com a plasticidade da psique, a pessoa pode evoluir num processo contínuo por toda a sua vida. Vários fatores também podem bloquear esse progresso, e ocorrer urna fixação em determinada fase quando ocorrem traumas.

São inúmeros os fatores que irão influenciar as formas de se relacionar com o mundo e as escolhas de um parceiro afetivo. Dentre eles, podemos citar: modelos ou contra modelos materno/paterno, cultura, relações com a família extensa e transmissão transgeracional do sistema de crenças familiar. Todos esses fatores podem criar obstáculos no relacionamento, caso estejam inconscientes. Tudo aquilo que é seu, mas não há apropriação da consciência pode escravizá-lo. As falhas no amadurecimento do indivíduo estão diretamente ligadas ao sucesso em estabelecer vínculos saudáveis.

As pessoas geralmente buscam em suas relações afetivas preencher o que lhes faltou nas primeiras relações objetais, depositando no parceiro amoroso tudo que lhes foi insuficiente ou inexistente nesses primeiros contatos. Os processos inconscientes distorcem a importância dada ao parceiro de fato e geram expectativas irreais do que a relação pode oferecer. O que acontece é que os relacionamentos se iniciam idealizados, com a promessa de ser a solução para angústias pessoais pregressas. Receita certeira para dificuldades.

Se cada um procurasse olhar para a parte que lhe cabe dentro da relação, teríamos melhor convivência e harmonia. O processo de análise é uma grande oportunidade de examinarmos os bloqueios e as lacunas que ocorreram no desenvolvimento afetivo/vincular do indivíduo. Essas falhas refletem-se na vida adulta, como problemas nas relações pessoais e dificuldades para conseguir dar conta das demandas da vida cotidiana. Cito Platão para resumir esse conceito: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerá os deuses e o universo”.

 

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga, Pós-graduada na área Sistêmica – Psicoterapia de Família e Casal pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Psicoclínica e Estudos Transdisciplinares da SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica). Atuou na área de dependência de Álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.