PSICOLOGIA ANALÍTICA

O CHEIRO DA PERCEPÇÃO

A ação conjunta dos neurônios faz o cérebro transformar, quase que instantaneamente, as mensagens sensoriais em impressões conscientes.

O cheiro da percepção

Quando vemos o rosto de um ator conhecido, ouvimos a voz de um amigo ou sentimos o aroma de um prato apetitoso, mento é instantâneo. Uma fração de segundo depois que os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua ou a pele são estimulados, sabemos estar diante de um objeto conhecido, se ele representa perigo ou não. Como esse reconhecimento se dá de maneira tão rápida e precisa mesmo quando os estímulos são complexos e o contexto do qual emergem varia?

Sabemos que o córtex cerebral (a cama- da externa do cérebro) analisa inicialmente as mensagens sensoriais, mas apenas começamos a entrever de que maneira o cérebro se comporta após o puro e simples reconhecimento das características da mensagem (isto é, como combina as percepções sensoriais com a experiência vivida e as expectativas para identificar tanto o estímulo como seu significado particular).

Os estudos realizados durante décadas por meu grupo na Universidade da Califórnia em Berkeley permitem afirmar que a percepção não pode ser compreendida examinando-se apenas as propriedades individuais de cada neurônio, segundo uma abordagem microscópica da pesquisa que hoje tende a dominar a neurociência. Constatamos que a percepção depende da atividade simultânea e cooperativa de milhões de neurônios espalhados em todas as circunvoluções do córtex. Essa atividade global pode ser identificada, medida e interpretada somente se, além da visão microscópica do cérebro, trabalharmos no nível macroscópico. No campo da música, existe uma analogia com esse tipo de abordagem. Para apreciar a beleza de um coral, não basta escutar as vozes individuais dos cantores: deve-se escutá-los em conjunto, já que as diversas partes se relacionam entre si.

Nossos estudos nos permitiram descobrir também uma atividade cerebral caótica, um comportamento complexo que parece casual, mas que na realidade possui uma ordem oculta. Essa atividade é evidente na tendência que amplos grupos de neurônios têm de passar brusca e simultaneamente de um quadro complexo de atividade a outro, em resposta ao menor dos estímulos. Tal capacidade é característica primária de muitos sistemas caóticos. Ela não danifica o cérebro: acreditamos, ao contrário, que seria essa justamente a chave da percepção. Avançamos também a hipótese de que ela seja a base da capacidade do cérebro de responder de maneira flexível às solicitações do mundo externo e de gerar novos tipos de atividade – incluída a concepção de novas ideias.

PELO NARIZ

Para compreender os mecanismos da percepção, é necessário conhecer as propriedades dos neurônios envolvidos nesse pro- cesso. Meus colaboradores e eu nos concentramos no estudo dos neurônios do sistema olfativo. Há tempos sabemos que, quando um animal ou um ser humano sente o cheiro de uma substância, as moléculas desta são captadas por alguns neurônios específicos misturados aos numerosos receptores presentes nas vias nasais. Esses receptores são especializados em reagir a uma dada categoria de odores. Os neurônios excitados desencadeiam potenciais de ação, isto é, impulsos que se propagam ao longo de seus prolongamentos, os axônios, até uma área específica do córtex, o bulbo olfativo. O número de receptores ativados representa um índice da intensidade do estímulo, enquanto sua localização nas fossas nasais é associada à natureza do odor. Em resumo, cada cheiro se expressa mediante uma configuração espacial da atividade dos receptores, que, por sua vez, é transmitida ao bulbo. O bulbo olfativo é que transmite ao córtex olfativo a análise de cada estímulo. Daí, novos sinais são enviados a muitas partes do cérebro, entre as quais o córtex entorrinal, onde os sinais se combinam com os de outros sistemas sensoriais.

O resultado é uma Gestalt, uma percepção carregada de significado, única para cada indivíduo. Para um cão, reconhecer o cheiro de uma raposa pode evocar o alimento e a espera de uma refeição. Em um coelho, o mesmo cheiro desperta lembranças de fuga e o medo de ser agredido.

Todas essas noções forneceram um ponto de partida válido para uma análise mais detalhada do olfato, mas não resolvem duas questões importantes. A primeira é o clássico problema de conseguir distinguir de que maneira o cérebro diferencia um cheiro particular no meio de todos os outros que o acompanham.

Além disso, como o cérebro consegue generalizar e tratar uma informação equivalente que provém de receptores diferentes? Devido à turbulência existente nas correntes de ar que atravessam as fossas nasais, somente alguns entre os numerosos receptores sensíveis a determinado odor são excitados durante uma inspiração, e essa situação varia imprevisivelmente entre uma inspiração e outra. Como faz o cérebro para estabelecer que sinais provenientes de diversos grupos de receptores se referem todos ao mesmo estímulo? Nossas pesquisas começam a oferecer respostas para ambos os problemas.

Os experimentos demonstram claramente que todos os neurônios contribuem para a geração de cada percepção olfativa. Em outros termos, a informação sobre o estímulo é contida em uma configuração de neurônios ativados que interessa a todo o bulbo e não apenas a um pequeno subconjunto de neurônios que podem identificar as características do estímulo e excitar-se exclusivamente, por exemplo, quando expostos a odores como o da raposa.

Além disso, essa atividade coletiva dos neurônios, apesar de refletir a natureza do odor, não é determinada somente pelo estímulo. A função do bulbo se auto organiza e é bem controlada por fatores internos, entre os quais a sensibilidade dos neurônios ao estímulo.

Atualmente podemos entrever a dinâmica geral da percepção. O cérebro procura a in- formação, principalmente orientando o indivíduo a olhar, escutar e cheirar. Esse processo é produto de uma atividade que se organiza autonomamente e se realiza no sistema límbico (a parte do cérebro que inclui o córtex entorrinal, envolvida nos estados emocionais e na formação da memória), que transmite uma ordem de busca aos sistemas motores. Quando a ordem é transmitida, o sistema límbico emite a chamada mensagem de referência, que coloca em estado de alerta todos os sistemas sensoriais para que se preparem para responder à nova informação.

Efetivamente, eles respondem à descarga de impulsos com cada neurônio de uma dada área que participa da atividade coletiva. A atividade sincrônica em cada sistema é, portanto, retransmitida ao sistema límbico, onde se combina com sinais provenientes de outros sistemas sensoriais, analogamente gerados, para formar um todo rico de significado. Depois, em uma fração de segundo, pede-se outra busca de informação e os sistemas sensoriais são novamente preparados por outros estímulos aferentes.

A consciência poderia ser a experiência subjetiva desse processo recorrente de comando motor, referência e percepção. Se assim é, permite que o cérebro planeje cada ação sucessiva e se prepare para ela com base em ações passadas, estímulos sensoriais e sínteses perceptivas. Em resumo, o ato da percepção não é simplesmente a reprodução de um estímulo que está chegando, mas um passo no caminho que o cérebro percorre para crescer, organizar-se e tomar contato com o ambiente, que depois modifica em seu benefício.

O poeta William Blake escreveu: “Se as portas da percepção fossem eliminadas, cada coisa se apresentaria ao homem como efetivamente é: infinita”. Uma eliminação desse tipo não é desejável. Sem a proteção das portas da percepção, isto é, sem a atividade caótica autocontrolada do córtex do qual nas- cem as percepções, os seres humanos e os animais seriam dominados pelo infinito.

REDE DE SINAPSES

Os neurônios do sistema olfativo trocam informações através de uma rica rede de sinapses, isto é, junções   nas quais os sinais fluem de um neurônio para o outro.

De maneira geral, os sinais passam de prolongamentos chamados axônios para projeções denominadas dendritos; mas, às vezes, passam de dendrito a dendrito ou de axônio a axônio. Essa ampla troca de informações conduz a uma atividade coletiva. No desenho, bastante esquematizado, o vermelho indica que um neurônio está excitando outra célula e o preto, que o neurônio está inibindo a outra.

O cheiro da percepção2 

DENTRO DO CÉREBRO

As ondas do eletroencefalograma refletem a excitação média de grupos de neurônios. Estímulos excitatórios no nível das sinapses geram correntes elétricas que fluem em círculos fechados no interior do neurônio receptor em direção ao axônio, atravessam a membrana celular, atingem o espaço extracelular e retornam para a sinapse (setas em amarelo). Os estímulos inibitórios criam correntes que se propagam na direção oposta (setas em azul). No interior dos neurônios, a zona de disparo soma a intensidade das correntes (refletida nas diferenças de voltagem através da membrana) e disparará um potencial de ação se a soma for suficientemente positiva.

Os eletrodos aplicados ao cérebro registram essas mesmas correntes no espaço extracelular. As neuroimagens resultantes indicam a excitação de grupos inteiros de neurônios, não de células individuais, pois as áreas extracelulares nas quais são registrados contêm correntes provenientes de milhares de neurônios.

O cheiro da percepção3

WALTER J. FREEMAN – é doutor em neurobiologia, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley.

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GESTÃO E CARREIRA

PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

Gestores que apostam em estratégias para crescer ganham maior vida útil no mercado e se tornam cada vez mais competitivos.

Planejamento estratégico - vencendo os desafios diários

VENCENDO OS DESAFIOS DIÁRIOS

Assim como é importante planejar a vida sobre como e onde morar, quando engravidar e até mesmo a qual patamar profissional se quer chegar, é fundamental também planejar a organização de uma empresa. Um bom gestor sabe o caminho que quer seguir e os obstáculos que deverá ultrapassar para conquistá-lo. Não bastam apenas planilhas e documentos, também é necessário esforço da equipe e vontade única de crescer.

Muitos planos estratégicos definidos no início de cada ano não saem do papel e isso, segundo especialistas, demonstra falta de planejamento e foco por parte do gestor ou do corpo diretivo da empresa. O mesmo aplica-se a empresas que focam apenas na participação de mercado, esquecendo que o que a mantém é o lucro.

Para o consultor empresarial Celso Bernardi, empresas que não possuem cultura de planejamento estratégico dificilmente colocam em prática os projetos definidos para crescimento. “Entre os problemas enfrentados por empresas que não conseguem efetivar as estratégias de crescimento estão falta de qualificação da diretoria, falta ou deficiência na elaboração do orçamento empresarial, amarrado às estratégias, e falta de dedicação de tempo para soluções de problemas de rotina’, diz Bemardi, que complementa: “Também podemos dizer que a falta de atenção aos aspectos estruturais do negócio pode contribuir, e muito, para o insucesso das estratégias”.

De acordo com o especialista, é preciso que o gestor disponha de muito trabalho e disciplina para efetivar as ações programadas. “Estratégia é para o alto comando da empresa, pois normalmente implica em mudança de cultura na gestão dos negócios, melhoria da governança e entendimento do mercado. Não se deve deixá-la nas mãos de colaboradores sem a devida orientação”, comenta Bernardi.

A partir do momento em que o empresário opta por executar o plano estratégico da empresa, existe a necessidade do auxílio de profissionais especializados no tema. “Eles devem ter vivência e experiência em desenvolvimento de planos estratégicos, dada a complexidade do processo, além de domínio de técnicas adequadas e capacidade de mediação de conflitos pontuou o consultor empresarial. A efetiva prática das estratégias pode representar uma mudança muito grande no posicionamento da empresa perante o mercado. Essa é a diferença que normalmente falta às empresas para continuarem competitivas”, completa Bernardi.

Outra questão apontada pelos especialistas é a falta de análise de custos. Quem consegue gastar menos e produzir mais garante lucratividade e rentabilidade de capital.

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) orienta as empresas para que respondam a três questões principais para que o planejamento estratégico seja elaborado, são elas: Onde estamos? Para onde queremos ir? E como chegar lá?

De acordo com o órgão, para que haja a materialização das estratégias, a empresa deve criar um comitê interno de acompanhamento que efetivará o detalhamento do planejamento e o colocará em prática.

PLANEJAMENTO É A CHAVE

O consultor financeiro André Gracia aponta que um dos fatores que dificultam a implementação de estratégias dentro de uma empresa é a falta de planejamento. “Muitas vezes a questão é cultural. O ato de planejar não está inserido totalmente nas rotinas das empresas. Não há um costume em se fazer isso, mesmo porque muitas empresas não têm claros quais são seus objetivos”, explica.

Segundo ele, o objetivo do planejamento não é apenas gerar lucro. “Sabemos que toda empresa precisa de lucro para se manter em atividade. Mas quando falo que a empresa não tem seus objetivos claros, quero dizer que a empresa não sabe para onde ela quer ir, e é isso que torna difícil traçar qualquer estratégia”, afirma.

De acordo com Gracia, as pessoas envolvidas no planejamento devem conhecer ferramentas capazes de desenhar o cenário atual da empresa e criar o cenário futuro. “Neste momento é fundamental a direção da empresa ter conhecimento de ‘aonde ela quer chegar.’ Sem essa informação é muito difícil nortear qualquer ação. Esse norte normalmente é dado pela missão, visão e valores da em presa”, comenta.

As metas de uma organização, seja ela de pequeno, médio ou grande porte, contribuem para que sua função no mercado fique mais clara, além das características do trabalho oferecido que a coloca à frente da concorrência. De acordo com especialistas, a missão de uma empresa é definida pelos caminhos que ela oferece seus produtos e serviços, e a visão orienta o processo de criação desse caminho, que deveria ter sido estabelecido no planejamento estratégico.

ESTRATÉGIA IMPLEMENTADA. E AGORA?

Muitos gestores acabam perdendo o foco após a implementação do plano estratégico, fazendo com que a empresa deixe de alcançar as metas e de colocar os valores em ação, perdendo em competitividade e qualidade dos produtos.

O consultor empresarial Celso Bernardi lista duas grandes lições sobre estratégia para empresas. “Primeiro, sem planejamento a empresa fica totalmente sujeita a variações, riscos e oportunidades de mercado e, segundo, a definição de estratégias é somente o primeiro passo para qualquer empresa que queira ser competitiva no mercado. O passo mais importante é a implementação das ações para execução das estratégias definidas”, explica.

Isso é válido também para a redefinição das estratégias, ação necessária ao longo do ano. O mercado está em constante mudança e, da mesma forma, as necessidades dos consumidores e fornecedores são atualizadas continuamente, exigindo revisão interna dos objetivos e metas.

COMODEFINIR ESTRATÉGIA?

O consultor financeiro André Gracia explica que planejamento estratégico, segundo a literatura, são planos de ação que deverão levara empresa a atingir os objetivos desejados. “Porém, para que esse planejamento ocorra, se faz necessária uma série de conhecimentos”. De acordo com ele, planejar nada mais é do que fazer a programação dos planos de ação que deverão ser realizados. “Fazer estratégia é claro que irá diferenciar sua empresa no mercado completa.

O especialista explica que o planejamento estratégico deve ser programado pensando-se no futuro. Para isso, segundo ele, as pessoas precisam saber analisar o ambiente interno e externo da empresa.

Gracia aponta a ferramenta Matriz Swot como essencial para aplicabilidade das metas. O termo, em inglês, significa Strenghts, W’eaknesses, Opportuniities e Threats, ou seja, Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças. A finalidade do processo é detectar pontos fortes e fracos da empresa, tornando-a mais eficiente e competitiva, sem deficiências. “As pessoas precisam ser criativas em cruzar as informações das oportunidades e ameaças (ambiente externo) com os pontos fortes e fracos da empresa (ambiente interno) e definir ações ofensivas (aproveitando oportunidades e pontos fortes) e ações defensivas (se defender das ameaças)”, comenta Gracia.

A estratégia pode ser definida para alguns como um processo longo, cheio de datas, cronogramas e objetivos que engessam a empresa, por outro lado, muitos gestores enxergam o planejamento de metas como oportunidades de melhoria e como o caminho certo a seguir. “Devemos esclarecer que estratégia não é apenas isso. Hoje, ela precisa ser flexível, mesmo com a exigência de um cronograma e objetivos, pois sem eles é difícil medir se o que era esperado foi alcançado”, explica o especialista. Mas estratégia também é pensar e criar valor para o cliente, se diferenciar do mercado, reforçar o posicionamento da empresa, ou até mesmo redefini-lo, aponta Gracia.

De qualquer forma, segundo o consultor, planejar estrategicamente é ter a oportunidade de tirar a empresa de uma posição de reação para tentar antecipar as mudanças do mercado e superar as regras da competição.

 Planejamento estratégico - Vencendo os desafios diários2

Fonte: Revista Gestão & Negócios – Edição 97

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A NEUROCIÊNCIA DO AFETO

Carinho e cuidado nos primeiros anos de vida são essenciais para a formação dos circuitos cerebrais; caso não sejam ressignificadas, experiências traumáticas podem deflagrar transtornos psíquicos.

A neurociência do afeto

Hiperatividade, déficit de atenção, autismo, transtornos alimentares, esquizofrenia, ansiedade e depressão formam um rosário de problemas sobre os quais se estendia, antigamente, um véu de silêncio. Hoje, ocupam grande espaço na mídia e, em geral, são atribuídos a traumas vividos na primeira infância. Até recentemente, porém, essa afirmação carecia de evidências científicas. No entanto, está cada vez mais claro que, caso não sejam ressignificadas, as experiências traumáticas podem influir decisivamente nas conexões do cérebro infantil e no equilíbrio dos neurotransmissores e, em muitos casos, aumentar a vulnerabilidade a transtornos psíquicos em fases posteriores da vida.

Pesquisas realizadas nas últimas décadas mostram que, na primeira infância, experiências com forte conteúdo afetivo dirigem o desenvolvimento psicológico da criança. Nos anos 40, René Spitz, do Instituto Psicanalítico de Nova York, estudou centenas de bebês nascidos em um orfanato. E observou que um em cada dez manifestava uma atitude de retraimento em relação ao meio. Além disso, a maioria sofreu atraso no desenvolvimento psíquico geral.

 SENSAÇÃO DE VAZIO

Para determinar a causa desses transtornos, Spitz realizou um estudo de longo prazo com crianças de orfanato. Descobriu que, além de estímulos intelectuais, lhes faltava principalmente carinho emocional. Essas primeiras pesquisas sugerem claramente que as crianças adaptam o próprio comportamento ao meio circundante durante as primeiras experiências emocionais após o nascimento. Nos anos 50 e 60, os pesquisadores Harry e Clara Harlow, da Universidade de Wisconsin, estudaram chimpanzés para saber o que ocorria quando a cria perdia precocemente os genitores. Sem entrar na questão do quanto cruéis e antiéticos foram os experimentos, os resultados confirmaram as observações dos estudos com os bebês de orfanato: os chimpanzés que cresceram sem a mãe apresentavam distúrbios comportamentais crônicos. Brincavam menos, eram mais ansiosos e me- nos interessados em explorar o ambiente que os congêneres criados com a família. Entre as fêmeas, poucas procriaram e, quando o fizeram, não souberam cuidar da cria.

Mas uma pergunta intrigava os pesquisadores: como a presença ou ausência de experiências emocionais pode acarretar alterações drásticas de comportamento? Nos últimos anos, neurobiólogos começaram a investigar a influência das experiências emotivas e processos de aprendizagem precoces no cérebro de animais. Já se sabia que os neurônios podem estabelecer conexões distintas quando, em certas fases do desenvolvimento, faltam estímulos para as várias regiões do córtex cerebral. Pesquisadores agora invocam a intervenção do sistema límbico, que desempenha papel fundamental no controle do comporta- mento na aprendizagem e na configuração da memória.

Nosso grupo foi o primeiro a estudar como se formam os vínculos entre filhotes e progenitores, fenômeno conhecido como imprinting filial. Apresentamos a pintinhos recém-nascidos gravações que simulavam os sons de uma galinha, ao mesmo tempo que colocamos uma galinha de pano para que eles se aconchegassem. Como esperado, os pintinhos associaram o estímulo sonoro até então privado de significado – a voz artificial da mãe – à situação emocional, assimilando o imprinting. Logo foram capazes de distinguir os ruídos maternos de outros estímulos acústicos. Corriam em direção à “mãe” tão logo os ouviam.

Queríamos saber o que se passa no cérebro dos animais durante esse processo. Descobrimos mudanças consideráveis na arquitetura neuronal de algumas áreas cerebrais que, nos mamíferos, correspondem ao córtex associativo. O som aprendido ativa muito mais essas zonas nos animais que assimilaram o imprinting que nos animais do grupo de controle, isto é, sem uma mãe artificial substituta. Além disso, os neurônios dos primeiros reagem ao estímulo com impulsos elétricos menos intensos, ou seja, são mais sensíveis.

A mudança provavelmente ocorre por uma reorganização das sinapses. De fato, nos primeiros 90 minutos depois do início do imprinting filial, aumentam as conexões de uma área do cérebro dos animais que nos mamíferos corresponde ao setor anterior do córtex cingular, parte do sistema límbico. O sistema nervoso parece querer captar e fixar no maior número possível de canais o novo estímulo que carrega um valor de sobrevivência.

Durante a aprendizagem, as sinapses diminuem novamente. Com uma semana de vida, os pintinhos com imprinting apresentaram menos sinapses excitatórias nas áreas associativas do córtex que os animais do grupo de controle. Do excesso de ofertas de conexões sinápticas inespecíficas só permanecerão ativas as que processam estímulos emocionais importantes. Elas serão integradas à rede neuronal, podendo ser ainda mais reforçadas. As inúmeras conexões não envolvidas no estímulo, por sua vez, serão eliminadas. Assim, a rede neuronal poderá reagir de forma mais precisa aos estímulos significativos.

CONDIÇÕES ADVERSAS

Nos animais que cresceram sem contatos sociais, a falta dessa seleção de sinapses os impede de otimizar seus circuitos límbicos. O incremento e a eliminação sináptica só ocorrem quando o animal pode associar o estímulo acústico à situação emocional positiva. Um estímulo afetivamente neutro não basta: se os sons não são acompanhados da presença da galinha artificial, as mudanças neurais não ocorrem nos filhotes. Por outro lado, bastam 30 minutos de estímulo acústico e a presença da mãe de pano para iniciar a seleção das sinapses. As primeiras experiências emocionais contribuem para determinar o padrão fundamental dos circuitos neuronais no sistema límbico durante o início do desenvolvimento. Esses padrões determinam quais modelos de comportamento e de aprendizado serão possíveis mais tarde.

A bioquímica cerebral também é alterada no imprinting filial. A mudança afeta principalmente os neurotransmissores. Após ouvir o som da galinha, os pintinhos com imprinting produzem mais glutamato que aqueles para os quais o som carece de sentido. A substância então ativa os receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), o que serve para consolidar o vínculo emocional entre a cria e os progenitores. Se, durante a aprendizagem, o glutamato não se ligar aos receptores NMDA, os animais deixarão de associar o som à situação emocional e assim não há imprinting. Também nos humanos a seleção das sinapses é regida por processos de aprendizagem e aquisição de experiência. Nos primatas, são inúmeras as conexões criadas e de- pois eliminadas em várias áreas cerebrais e no sistema límbico em particular. Entretanto, a capacidade de adaptação do cérebro dos filhotes primatas tem um lado obscuro, pois é eficiente também em condições adversas; quando há, por exemplo, carência afetiva e experiências traumáticas. O resultado pode levar a erros de conexão no sistema límbico, capazes de provocar transtornos comportamentais e psíquicos.

Para verificar essa hipótese, estudamos filhotes de degu (Octodon degus), uma espécie de roedor comum no Chile. Os degus “falam” entre si de forma muito complexa: sua comunicação por meio de sons desempenha um papel importante na família e na colônia. Além disso, os genitores participam ativamente da criação dos filhotes.

CONVÍVIO SOCIAL

Separamos os pequenos degus da família durante períodos relativamente longos e em diversas fases do desenvolvimento. Quando examinamos o consumo de energia no cérebro dos filhotes separados, constatamos uma redução da atividade no sistema límbico. Investigamos as mudanças, ao longo do tempo, nas sinapses desses roedores. Em filhotes que crescem ao lado dos genitores e dos irmãos, o número de sinapses no córtex cerebral inicialmente aumenta, para depois diminuir. Se, ao contrário, nas primeiras se- manas de vida as crias são separadas dos pais por apenas algumas horas, observa-se um número maior dessas conexões. A situação é similar à observada nos pintinhos que não receberam imprinting filial. Também neste caso parece, portanto, que a experiência desagradável afeta as sinapses.

Outras partes do sistema límbico dos degus mudam em função da experiência emocional, como o núcleo accumbens, que colabora na gênese das compulsões; a amígdala, centro do medo e da agressividade; e o hipocampo, porta de entrada para as informações destinadas à memória. A longo prazo, o equilíbrio entre as regiões límbicas pode mu- dar com consequências imprevisíveis para a estabilidade psíquica.

O equilíbrio entre os neurotransmissores também pode ser modificado, particularmente entre dopamina e serotonina, substâncias reguladoras do processamento cerebral das emoções. Nos degus com carências emocionais alteram-se tanto a quantidade das fibras nervosas produtoras de serotonina ou de dopamina como a densidade dos respectivos receptores. Apenas três dias depois de algumas breves separações foram suficientes para aumentar o número de receptores de dopamina e serotonina em algumas partes do sistema límbico. É interessante lembrar que muitos transtornos psíquicos humanos exibem um desequilíbrio justamente dessas moléculas.

Todas essas mudanças biológicas podem influir diretamente no aprendizado e no convívio social e causar transtornos psíquicos, como sugerem os primeiros resultados das pesquisas em degus e ratos em condições de privação. Evidentemente não podemos realizar experimentos similares com humanos. Após a dissolução do bloco soviético, entre- tanto, pesquisadores estudaram bebês de orfanatos romenos e constataram redução análoga da atividade no sistema límbico anterior quando comparada à atividade nos bebês normais. Um déficit similar é encontrado em pacientes que sofrem de transtornos de atenção e de esquizofrenia.

À primeira vista, essas alterações do comportamento se assemelham incrivelmente aos sintomas de bebês hiperativos ou com déficit de atenção. É possível que experiências emocionais influam no desenvolvimento cerebral dos bebês da mesma forma que nos filhotes de outras espécies. Uma consequência dramática destas conexões cerebrais alteradas é a formação de uma rede neural mal estruturada que favoreça distúrbios comportamentais e de aprendizagem. O que poderia parecer ingênuo, portanto, tem sido comprovado: afeto faz bem à saúde mental.

 MEMÓRIA PERSISTENTE

O fenômeno do imprinting se distingue de outros processos de aprendizagem em aspectos característicos: ocorre em “fases sensíveis” da vida, bastando um breve contato com o estímulo, objeto ou situação para que fique fixado permanentemente na memória. Recém-nascidos de mães deprimidas podem se tornar emocionalmente carentes em razão da falta de tonalidade afetiva na voz materna. Os bebês podem distinguir o odor do peito da mãe do de outras mulheres, o que não ocorre naqueles amamentados com mamadeira.

 A neurociência do afeto2

KATHARINA BRAUN – é professora de neurobiologia da Universidade Otto von Guericke de Magdeburgo, Alemanha. JÖRG BOCK é neurocientista, pesquisador na mesma universidade.

 

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSÕES EM DECOLAGEM

Em plena expansão, o uso de drones pelas empresas impulsiona o surgimento de carreiras novas e promissoras.

Profissões em decolagem

A venda de drones em todo o mundo deverá chegar a 3 milhões de unidades neste ano, um aumento de 39% em comparação a 2016. Além disso, segundo a consultoria americana Gartner, esse mercado movimentará 6 bilhões de dólares, reflexo do otimismo em relação ao uso desses dispositivos. Não é só. Em um relatório intitulado Drones Go To Work, a consultoria The Boston Consulting Group (BCG) estima que até 2050 a frota de drones industriais na Europa e nos Estados Unidos passará de 1 milhão de unidades e gerará 50 bilhões de dólares por ano em receitas de produtos e serviços. Nas próximas duas décadas, as empresas colocarão esses equipamentos para trabalhar em monitoramento de plantas industriais, rastreamento de remessas, detecção de fungos na agricultura e entregas de pacotes para consumidores. O que não deve faltar, no futuro, é emprego para quem apostar no segmento.

”As aplicações do drone são inúmeras e envolvem diversos tipos de trabalhador”, diz Emerson Granemann, idealizador da feira Drone Show, maior evento do segmento no Brasil. Multidisciplinar, as possibilidades profissionais desse mercado são vastas. Há demanda por pilotos, observadores, programadores e desenvolvedores de software, além de analistas de sistemas e especialistas em inteligência embarcada, robótica e mecatrônica. Na área de mapeamento geográfico, engenheiros cartográficos, geógrafos e engenheiros agrimensores com conhecimento técnico em drones são cada vez mais requisitados. Já no agronegócio o destaque serão os agrônomos especializados.

Por ser um mercado de trabalho embrionário, especialistas dizem que não existem ainda parâmetros de remuneração para essas carreiras. O salário mensal de um piloto de drone está, hoje, na casa dos 4 500 reais. Para quem atua como autônomo – é comum profissionais da área trabalharem sob demanda, a diária varia de 400 a 900 reais, dependendo da complexidade da atividade. É consenso também que a maior parte das profissões relacionadas a drones ainda está por surgir. Gerald Van Hoy, analista de pesquisa da Gartner, de Oregon, nos Estados Unidos, diz que o setor está bem longe da maturidade. Para ele, coisas que hoje são inspecionadas por humanos serão, em breve, verificadas por drones. “Esses aparelhos fazem um trabalho mais eficiente à medida que coletam dados via dispositivo e chegam a lugares pouco acessíveis.” Nesse cenário, as áreas profissionais com maior chance de prosperar são as ligadas ao desenvolvimento de software e à inteligência analítica. No fim do dia, o que conta são os dados coletados pelo drone. os quais terão de ser analisados por um ser humano.

 LABORATÓRIO DE TESTES

Há oito anos na GTP, empresa brasileira de engenharia focada em automação industrial, o matemático Mateus Tormin, de 35 anos, de São Paulo, acaba de ser promovido de engenheiro de sistemas a diretor de desenvolvimento para levar adiante os projetos da companhia envolvendo drones. A promoção é um reconhecimento pelo trabalho realizado nos últimos três anos no desenvolvimento de sistemas embarcados. “Tive de estudar para entender como o equipamento se comporta no ar e quais são as maiores dificuldades, principalmente indoor, o foco da GTP.” Mateus não fez cursos específicos e diz que o maior desafio foi compreender como funcionavam os drones quando ainda eram novidade. “No começo, foi difícil encontrar informação”, afirma, lembrando que sua principal fonte de reconhecimento na época eram os fóruns na internet.

A GTP vem desenvolvendo e aperfeiçoando um sistema próprio de navegação para veículos aéreos não tripulados – ela presta serviços de contagem e balanço de estoque com a ajuda de drones. Ao todo, a empresa investiu 1,5 milhão de dólares. Atualmente, há uma equipe de seis pessoas voltada exclusivamente para o desenvolvimento de soluções com esses equipamentos. O chefe do time fica baseado na Califórnia, nos Estados Unidos, onde está fazendo um pós-doutorado em drones bancado pela companhia. ”Esse é um mercado novo. Antes de disponibilizar o produto aos clientes, ficamos dois anos e meio em desenvolvimento. Isso requer capital e equipe dedicada. Hoje, temos um laboratório somente para fazer testes”, diz Luiz Gonzaga de Araújo Filho, diretor e sócio-fundadorda GTP.

 Profissões em decolagem2

DEMANDA LOCAL

A expectativa é que cada vez mais empresas apostem em drones. Isso porque, em maio, foi dado o passo que faltava para impulsionar o mercado brasileiro: a aprovação, pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), do regulamento para utilização de aeronaves não tripuladas no país. “A norma viabiliza a utilização comercial de drones e é um divisor de águas no mercado. Em três meses já é possível verificar um aquecimento”, diz Felipe Calixto, diretor e fundador do Instituto de Tecnologia Aeronáutica Remotamente Controlada com unidades em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro; Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; e Bauru, no interior de São Paulo. O instituto oferece cursos de capacitação em drones desde 2014. Para ter uma ideia do aumento da procura, em 2015 e 2016, somados, foram 300 alunos nos cursos de pilotagem e montagem, programação e manutenção. De janeiro a junho deste ano, já foram l00. Segundo Felipe, 90% dos estudantes pretendem atuar profissionalmente ou empreender e 80% têm nível superior. A maioria – de 70% a 80% – opta pelo curso de pilotagem, cuja carga horária é de 70 horas, no valor de 1890 reais. O curso de montagem, manutenção e programação tem 40 horas e custo de 1 490 reais. “Tenho observado, após a regulamentação, que as empresas começam a buscar profissionais de drones ou, então, a treinar os próprios funcionários.”

Os drones têm despertado a atenção das empresas para, por exemplo, substituir trabalhos com certo grau de periculosidade. Na AES Tietê, uma das maiores companhias privadas de geração de energia do país, a chegada do Q-boat (drone subaquático usado para fazer medições da profundidade e da afluência dos rios) aumentou consideravelmente a produtividade. Antes de ser usado, era necessária uma equipe de três pessoas embarcadas para cruzar o rio e inserir o molinete na água em pontos diversos. O trabalho era demorado e levava até 3 horas. Com o drone, bastam duas pessoas na margem, e o serviço dura de 20 a 45 minutos. A empresa tem hoje quatro funcionários capacitados a manejar dois drones aéreos, um Q-boat e outro modelo subaquático – e mais quatro em treinamento. “Nossa ideia é que os cerca de 30 técnicos de campo sejam treinados para operar drones”, diz Anderson de Oliveira, diretor de operações da AES Tietê.

O engenheiro civil Paulo Roberto Rosa Silva, de 45 anos, é um dos que foram treinados. Ele começou a pilotar drones em 2014, quando a AES Tietê adquiriu o Ebee (drone aéreo usado para identificar áreas com ocupações irregulares e desmatamentos). Para isso, fez os cursos teórico e prático oferecidos pela empresa com carga horária total de 24 horas. “O drone é uma ferramenta que veio para incorporar produtividade, segurança e qualidade à realização de diversas atividades. Ter conhecimento das possibilidades de uso do aparelho significa estar atualizado para o mercado de trabalho”, afirma Paulo Roberto.

Profissões em decolagem3

CHANCE DE EMPREENDER  

Aquecido, o segmento oferece possibilidades também para quem deseja empreender. De acordo com a MundoGeo, empresa especializada em drones e geotecnologia, o Brasil tem hoje 700 empresas atuando nesse nicho. ”A maioria delas tem menos de três anos de vida e emprega até três profissionais”, diz Emerson Granemann, CEO da MundoGeo e idealizador da DroneShow, feira de negócios referência no país.

A Dron Drones Tecnologies, de Fortaleza, é um caso típico de sucesso. Começou a operar em 2015, com um investimento de 150 000 reais, oferecendo serviços de imagens aéreas a agências de propaganda. Logo vislumbrou novas oportunidades – a Região Nordeste é o maior polo de geração de energia eólica do Brasil, por exemplo. “Depois de estudar o setor, abrimos vertentes para a inspeção em parques eólicos, subestações de energia, estações petrolíferas de óleo e gás, entre outras. Já fomos acionados até para inspecionar uma área com incêndio”, diz Márcio Régis Galvão, um dos sócios.

Deu certo. A empresa passou de um faturamento de 25 000 reais, em 2015, quando trabalhava com imagens aéreas de eventos, para 458 000 reais, em 2016. A expectativa para 2018 é crescer 35%.

A alta demanda levou a outra sócia, Suyan Campos, de 26 anos, que antes só cuidava da parte financeira, a fazer um curso de pilotagem. “No começo, eu não sabia nada. Mas fui me especializando. Para aprender de verdade. no entanto, eu precisei praticar’, diz Suyan, que hoje dá treinamento a outros profissionais Depois de identificar um apagão de indivíduos qualificados, a formação virou um dos braços do negócio da Dron Drones Tecnologies. “As profissões de piloto e observador de drone são muito novas. Quando vamos contratar, saímos com a pessoa para analisar o nível de pilotagem e damos um curso de capacitação para nivelar os profissionais”, afirma a empreendedora. Em estágio inicial, o setor realmente carece de gente especializada. Uma boa notícia para quem tem interesse na área e disposição para se qualificar.

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Fonte: Revista Você S.A – Edição 234

PSICOLOGIA ANALÍTICA

CEGOS PARA A DIFERENÇA

 Muita gente tem grande dificuldade para reconhecer pessoas com cor de pele e traços étnicos diversos dos seus; alguns chegam mesmo a não apreender situações que parecem não combinar com modelos preestabelecidos.

Cegos para a diferença

Nos últimos anos, vários estudos mostraram que temos menor habilidade para distinguir rostos de pessoas de origem diferente da nossa etnia. Pesquisas recentes revelaram, porém, que alguns indivíduos são completamente cegos nesse quesito. Cognitivamente, seu cérebro registra a variedade de características, mas não reconhece nas pessoas algo que pode ter importantes implicações – por exemplo, no testemunho de situações envolvendo suspeitos de outra etnia.

A capacidade de identificar membros da própria etnia varia de forma considerável: alguns podem perceber desconhecidos sem esforço algum, enquanto outros, em situações extremas, não conseguem nem mesmo reconhecer o rosto de amigos ou de gente da família – uma condição rara, conhecida como prosopagnosia. Para entender melhor essa dinâmica, o doutor em psicologia Lulu Wan e seus colegas da Universidade Nacional Australiana decidiram quantificar essa habilidade. Os pesquisadores solicitaram a 268 voluntários caucasianos, todos nascidos e criados na Austrália, que memorizassem uma série de seis rostos asiáticos. Durante o experimento, foram apresentadas também fotos de rostos de indivíduos brancos a um grupo de 176 asiáticos que haviam crescido na Ásia, mas tinham se mudado para a Oceania para estudar. Na sequência, cada participante deveria visualizar um conjunto de três rostos e apontar para algum que tivesse visto na tarefa anterior. O teste foi repetido 72 vezes.

Os cientistas observaram que 26 caucasianos e 10 asiáticos (8% da população do estudo) se saíram tão mal no teste que sua percepção poderia ser considerada “comprometida”, segundo critérios clínicos. “Já sabíamos que temos dificuldade de reconhecer feições de outros grupos étnicos, mas o experimento mostra a dimensão do problema”, diz o professor de psicologia da Universidade de Victoria Jim Tanaka, na Colúmbia Britânica, que não participou da pesquisa. “Os resultados revelam que pode não haver valor legal nenhum no testemunho ocular, em situações que envolvam justiça”, afirma a psicóloga Elinor McKone, professora de psicologia da Universidade Nacional Australiana e coautora do estudo. Ela observa que, apesar dessas evidências, os sistemas jurídicos de nenhum país levam em conta as diferenças individuais do reconhecimento de face de pessoas de outras culturas.

Para McKone, a frequência da exposição a indivíduos de outras origens pode influenciar a capacidade de reconhecer as diferenças, segundo os resultados publicados na edição de janeiro do Journal of Experimental Psychology: General. Entre os 106 participantes asiáticos nascidos e criados na Austrália, apenas 3% eram “cegos” para os rostos caucasianos. Esse número subiu para quase 6% entre os nascidos e criados na Ásia.

O psicólogo Daniel Levin, que tem se dedicado com afinco à pesquisa de mecanismos de reconhecimento de rostos por brancos, negros e asiáticos, na Universidade Estadual Kent, em Ohio, discorda do ponto de vista de McKone. Ele acredita que o déficit não aparece porque as pessoas tendem a ter mais contato com gente da própria etnia: trata-se, em sua opinião, de uma questão cultural. Ao olhar o rosto de alguém de outra raça, nosso cérebro busca automaticamente informações para classificá-la racialmente – e não para individualizá-la.

O efeito se estende a outras culturas. Um artigo publicado em 2001 no Psychology, Public Policy and Law trata de um estudo no qual cientistas convidaram algumas pessoas negras (que passeavam por shoppings sul-africanos) a participar de um experimento. Os autores observaram que os voluntários que tinham contato com outros grupos étnicos com pouca frequência reconheciam com mais dificuldade o semblante de pessoas de outras ascendências.

COM CARA DE JOELHO

A prosopagnosia é uma inabilidade perceptiva, uma acentuada “cegueira para feições”. Pessoas com o distúrbio podem ver o rosto dos outros quase sempre tão bem quanto qualquer um, mas não conseguem retê-los na memória ou reconhecê-los. Para elas, essa parte do corpo fica praticamente isenta de peculiaridades: é como se a face equivalesse ao joelho ou à panturrilha. Esse grau de dificuldade é variável e, em muitos casos, as pessoas nem sequer se dão conta de que têm um distúrbio – acreditam que os demais veem o mundo exatamente como elas, povoado de faces indistintas.

O conceito de prosopagnosia é uma invenção moderna. A palavra resulta da junção do vocábulo grego prosopon (face) e agnosia (não reconhecimento). Foi cunhada pelo neurologista alemão Joachim Bodamer, que iniciou seus estudos sobre o tema durante a Segunda Guerra, quando trabalhou no Sanatório Winnental, um hospital psiquiátrico perto de Stuttgart. Ele observou em dois soldados com lesões graves na cabeça uma acentuada inabilidade de reconhecimento facial. Eles olhavam o rosto dos companheiros, mas não conseguiam coordenar a percepção com a capacidade de identificá-los.

Projeções feitas pelo Instituto de Genética Humana da Universidade de Münster, na Alemanha, sugerem que aproximadamente 2% da população é afetada por essa inabilidade em algum grau. Em amostragem realizada com 689 estudantes, 17 apresentaram indícios do distúrbio. Em 14 dos indivíduos pesquisados, foram descobertos sintomas de prosopagnosia tanto em parentes próximos quanto nos do círculo familiar ampliado.

“Sabemos hoje que, se o pai ou a mãe apresenta essa inabilidade perceptiva, a probabilidade de ela aparecer também nos filhos será de 50%; o sinal característico é, portanto, hereditário dominante”, afirma o neurocientista Thomas Grüter, professor da Universidade de Münster. E, uma vez que a prosopagnosia afeta igualmente homens e mulheres, evidencia-se que nela não tem participação nenhum cromossomo sexual, mas provavelmente um “autossomo”.

O especialista ressalta que a inabilidade congênita de reconhecer rostos não necessariamente tem a mesma base neuronal da prosopagnosia adquirida por lesão cerebral. “Até o momento, só sabemos que ela parece responsável pelo distúrbio hereditário de uma única mutação genética; a exemplo de todos os primatas, os seres humanos têm pouca habilidade olfativa em comparação com outras espécies, o que em geral não nos permite reconhecer nossos semelhantes pelos odores, como fazem, por exemplo, os cães”, observa Grüter.

Em vez disso, temos uma visão altamente aperfeiçoada para identificá-los.

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TÃO ÓBVIO QUE NINGUÉM ENXERGA

Imagine que você faz parte de uma plateia que assiste a pessoas driblando e passando entre si uma bola de basquete. Sua tarefa é contar durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Você descobre que precisa se concentrar, porque a bola se movimenta muito rapidamente. Então, alguém com fantasia de gorila atravessa o lugar, caminha entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai embora.

Surpreendentemente, de acordo com um estudo realizado pelos pesquisadores Daniel J. Simons, da Universidade de Illinois, e Christopher F. Chabris, da Universidade Harvard, 50% dos voluntários que participaram desse estudo não notaram o gorila. Muitos acreditam que nossos olhos funcionam como câmeras que produzem um registro impecável do mundo ao redor, mas essa pesquisa demonstra que são poucas as informações que realmente apreendemos em um relance.

O resultado desse experimento é o ponto culminante de uma série de estudos sobre atenção e visão iniciados há mais de três décadas por alguns pesquisadores como Ulric Neisser, da Universidade Cornell, Ronald A. Rensink, da Universidade da Colúmbia Britânica, Anne Treisman, da Universidade Princeton, Harold Pashler, da Universidade da Califórnia, e Donald M. MacKay, da Universidade de Keele, na Inglaterra. Os estudiosos se referem ao “efeito gorila” como uma “cegueira por desatenção” ou “cegueira para mudanças”. Nosso cérebro tenta, constantemente, construir narrativas significativas daquilo que vemos. As coisas que não se encaixam muito bem no roteiro ou têm pouca relevância são eliminadas da consciência. (Por Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-Ramachandrann, neurocientistas, pesquisadores do Centro para o Cérebro e a Cognição na Universidade da Califórnia em San Diego)

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GESTÃO E CARREIRA

SEM GLUTEN, SEM LACTOSE, SEM CRISE

Empresas investem na produção de alimentos para dietas restritivas, aumentam o faturamento e ofertam vagas em tempos de recessão.

Sem glútem, sem lactose, sem crise

Quem tem um olhar atento às prateleiras dos supermercados percebe que elas estão abarrotadas de linhas especiais: sem glúten, sem lactose, sem açúcar. Impulsionadas pela demanda de consumidores cada vez mais conscientes e exigentes, empresas do segmento perceberam o potencial do nicho de alimentação restritiva e passaram a investir pesado em produtos destinados a atender quem sofre de alergias, intolerâncias ou doenças como diabetes. Dados da consultoria Euro monitor, que realiza pesquisas sobre produtos e serviços ao redor do mundo, apontam que, nos últimos dez anos, esse mercado cresceu 524% no Brasil. Só em 2016 esses alimentos movimentaram 1 bilhão de reais. O valor é quatro vezes superior ao registrado no segmento de orgânicos, que fechou o ano com faturamento de 266 milhões de reais no país. E o crescimento não deve parar por aí. A expectativa é que, até 2021, a venda de restritivos tenha uma alta de 47,6% no Brasil – mesmo considerando-se o atual cenário político e econômico. A busca por uma vida mais saudável, tendência observada globalmente, é o principal gatilho para o avanço. “Até pouco tempo atrás, a doença celíaca, que traz complicações gastrintestinais por causa da baixa tolerância do organismo ao glúten, mal era diagnosticada. Hoje, a informação é mais fácil e a oferta de alimentos acompanha esse movimento”, diz Ticiana Menezes, diretora de marketing e vendas da Dr. Schãr Brasil, de Curitiba. A empresa de origem italiana tem como carro-chefe a produção de alimentos sem glúten. No Brasil desde 2012, cresceu 300% e espera um incremento de mais 10% em sua receita neste ano. “Fechamos 2016 com faturamento global de 350 milhões de euros. Hoje, comercializamos 40 dos 150 produtos da marca no Brasil. A distribuição se dá em mais de 5 000 pontos de venda.”

A Dr. Schãr não é a única a prosperar. A mineira NHD Foods, detentora das marcas GoodSoy e BeLive – e que comercializa, desde 2006, 40 produtos sem glúten, sem lactose e sem açúcar – registra um crescimento significativo nos resultados. Segundo Samuel Ma, diretor de marketing do grupo, só no primeiro semestre deste ano, o faturamento da empresa foi 43% superior ao do mesmo período do ano passado. “O movimento free­from [alimentos livres de] não é moda, mas questão de saúde, bem-estar e qualidade de vida.”

Gigantes também estão de olho no nicho. Na Danone, a categoria de lácteos frescos diet, light, zero gordura e zero lactose representou, em 2016, 11,3%do faturamento total da marca. Conforme aponta Marilia Zanoli, diretora de marketing da divisão de produtos lácteos frescos da empresa, a linha sem lactose foi a que mais se destacou. “Frente a 2015, ela cresceu 69% em volume e 75% em valor.”

Com todo esse movimento, as contratações do segmento seguem aquecidas. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), 157.915 pessoas foram contratadas para trabalhar em empresas que atuam na fabricação e comercialização dos chamados produtos especiais (formulados para atender consumidores com demandas específicas, como carências, restrições, alergias e intolerância) em 2016, um número nada mal para um país que, nesse período, via o quadro de muitas empresas minguar por causa da recessão.

“Toda vez que ocorre uma mudança no comportamento do consumidor, a indústria responde à altura. Contrata novos profissionais, capacita o próprio time e cria áreas internas específicas para ter vantagem competitiva ante os concorrentes, diz Juliana Gomes, gerente de negócios da De Bernt, consultoria especializada em recrutamento executivo, de São Paulo. Na indústria de alimentação com foco em restritivos, as áreas mais positivamente impactadas pela alteração de comportamento do cliente são as de negócios, marketing e vendas, e os cargos mais ofertados são os de pesquisa e desenvolvimento e inteligência de mercado. Profissionais com carreiras relacionadas à saúde são os mais visados. “Biomédicos, farmacêuticos, engenheiros de alimentos, nutricionistas e enfermeiros são priorizados, pois trazem um olhar cientifico sobre o produto e sobre o consumidor”, afirma a consultora. Também há preferência por candidatos que tenham interesse genuíno pelo assunto. Ou seja, muitas companhias querem pessoas que acreditem na importância de uma alimentação diferenciada.

A preocupação é levada tão a sério que não é raro em entrevistas de emprego o candidato enfrentar perguntas que, na verdade, são pegadinhas para calibrar seu alinhamento com o propósito do setor. “Há companhias que questionam se a pessoa lê os rótulos das embalagens para saber se o produto contém glúten ou corantes e, caso a resposta seja negativa a descartam do processo”, afirma lsis Borge, gerente de divisão da empresa de recrutamento Robert Half, de São Paulo.

Entre as competências chave para trabalhar no segmento estão conhecimento em legislação alimentar, normas de qualidade e segurança de alimentos; fluência em inglês e espanhol para atuar em multinacionais e especialização em saúde. Visão de mercado e empatia para entender questões e desejos dos clientes também contam pontos –   Já que se trata de um negócio relativamente novo no Brasil. “Um engenheiro de alimentos pode ser chamado a desenvolver uma nova linha e, ao mesmo tempo, requisitado a ajudar o marketing na elaboração da campanha”, afirma Isis.

“Nas linhas de alimentos especiais, buscamos candidatos que consigam transitar entre o mundo médico e o de consumo”, diz André Rapoport, diretor de recursos humanos da Danone. Segundo ele, por se tratar de uma área que exige alto grau de especialização, nem sempre é fácil achar profissionais para divisões de produtos especiais e restritivos. “Nesse caso, oferecemos treinamentos no Brasil e na matriz da empresa, na Holanda, para aprimorar o conhecimento.” A Danone registrou em 2016 um aumento de 21% em suas oportunidades de emprego na área ante 2015 e hoje tem 63 posições em aberto.

Se por um lado, a crise econômica estabilizou o valor dos salários no setor alimentício nos últimos três anos, por outro não alterou a oferta de vagas – que continua alta. A Dr. Schãr aumentou em 2.596 seu quadro de colaboradores no último ano e hoje conta com 50 funcionários. A nutricionista Inês Camila Alves, de 29 anos, foi contratada no início de 2017. Após três anos de atividades terceirizadas para a multinacional italiana, ela foi convidada a integrar o quadro de funcionários efetivos, num cargo superior. “Fui promovida para a função de key account manager em janeiro e passei a receber 25% mais de remuneração, fora benefícios”, diz a profissional, de São Paulo, que atua no atendimento de vendas a redes de supermercados. O conhecimento sobre alimentos sem glúten ajudou na promoção. “Meu trabalho de conclusão de curso na faculda.de foi sobre esse tema’, diz Camila, que vê na atividade uma chance de oferecer uma vida mais saudável a quem tem restrições.

Outra que também foi conquista da pela possibilidade de atuar num segmento que promove a saúde e viu os ganhos crescer foi Maria ne Caroline Bento, de 30 anos, de Curitiba. A engenheira de alimentos, que começou como analista e hoje responde pela coordenação de pesquisa e desenvolvimento da Jasmine Alimentos, empresa paranaense e uma das pioneiras no segmento saudável, deixou seu emprego em uma indústria de alimentos tradicional, em 2013, para trabalhar com uma linha mais natural, sem glúten e sem açúcar. “Poder oferecer bons alimentos às pessoas que possuem restrições é o que mais me motiva”, diz Mariane, que em quatro anos de atividades já foi promovida e aumentou os rendimentos em 40%. “Minha função é buscar tendências em ingredientes e processos para realizar melhorias na fábrica e inovação nos produtos”, afirma a engenheira, que fez pós­-graduação na área de desenvolvimento de produtos e cursos voltados para a produção de alimentos para quem tem restrição alimentar.

Quem acredita que as oportunidades estão apenas na indústria, a Mundo Verde mostra que há vagas em toda a cadeia produtiva, incluindo o varejo. A franqueadora de alimentos naturais, que conta com 62 colaboradores em sua equipe administrativa, não divulga dados específicos sobre vendas de restritivos, mas afirma que há um notório interesse do consumidor pela linha “free”. Neste ano, a empresa já contratou 15 pessoas e está com duas vagas em aberto: uma para analista de expansão e outra para a coordenação de treinamento. Além disso, dez lojas foram abertas, gerando seis novas vagas por unidade inaugurada, um total de 60 contratações. Até o fim do ano, a previsão é mais ousada: 312 novos postos de trabalho. ”Temos mais oportunidades para atendentes e vendedores, mas há demanda também para nutricionistas formados ou em formação’, diz Vanessa Nascimento, gerente-geral de recursos humanos da Sforza, holding que controla a marca Mundo Verde. A julgar pela crescente preocupação dos consumidores com o que colocam à mesa, o mercado de alimentos especiais só tende a crescer.

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PARA O ALTO E AVANTE

A projeção de alta no faturamento com alimentos restritivos se destaca quando comparada a outras categorias de produtos considerados saudáveis.

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CRESCIMENTO PROJETADO – (Em percentual até 2021 –

1 – Restritivos (sem glúten, sem lactose e afins) – 47,6 %

2 – Orgânicos – 25,7%

3 – Naturalmente saudáveis, como mel e azeite – 24,1%

4 – Com teor reduzido de açúcar, sal e gordura – 13%

5 – Fortificados com vitaminas, cálcio, ômega-3 – 13%

Fonte: Euro monitor Internacional

 

 

Fonte: Revista Você S.A – Edição 234

 

 

 

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O DILEMA DE DORIAN GREY

Nos próximos anos, cada vez mais pessoas poderão pagar pelas benesses da biologia e estender seu tempo de existência muito além do que se crê possível hoje. Mas estamos preparados para as consequências desse novo cenário?O dilema de Dorian Grey

Acabou de sair na Nature: a revolucionária tecnologia CRISPR-Cas9, que permite editar genomas – com a praticidade das funções de copiar, cortar e colar de um processador de texto –, pode ser usada para corrigir mutações patogênicas hereditárias em embriões humanos. No futuro próximo, doenças causadas por mutações persistentes em determinadas famílias poderão ser eliminadas do pool genético da espécie. Será possível ativar programas de expressão gênica para adicionar, eliminar ou modificar características específicas. Eventos metabólicos próprios do envelhecimento celular serão revertidos.

Milionários californianos têm feito reuniões para financiar ensaios clínicos de substâncias antienvelhecimento, como o resveratrol e a metformina. Prospectam pesquisas sobre reposição de órgãos feitos em laboratório com células reprogramadas do próprio paciente. Até mesmo descobriu-se que o acoplamento sanguíneo entre dois animais com idades bem diferentes, conhecido tecnicamente pela alcunha de parabiose heterocrônica, tem a intrigante capacidade de rejuvenescer o animal mais velho. O arcano conde Drácula não faria melhor.

Para os muito ricos, morrer parecerá cada menos um destino e mais uma opção, configurando aquilo que o historiador Yuval Harari chama de “Projeto Gilgamesh”, nome do herói sumério obcecado com a conquista da imortalidade. Dentro de alguns anos talvez mesmo a classe média tenha acesso franco a essas benesses da biologia, estendendo o tempo de existência de cada indivíduo muito além do que se crê possível hoje.

Não se trata simplesmente de viver mais, pois as pessoas querem mesmo é viver melhor. Quando alimentação, exercício físico e sono ocorrem em qualidade e quantidade adequadas, vive-se mais e melhor. Some-se isso ao reparo constante de danos celulares ou sistêmicos, e a imortalidade estará ao nosso alcance.

E o que faremos com ela? Estamos preparados para suas consequências? Como lidaremos com a superpopulação? E que doenças psicológicas terríveis podem advir de não morrer?

Qual será a saúde mental de uma pessoa com trezentos anos de vida e um corpinho de trinta? Como será a interação dos verdadeiramente jovens com pessoas tão velhas, ricas e poderosas que podem habitar corpos aparentemente virgens? Haverá ainda espaço para a inocência? Como impedir que os neo imortais mesmerizem e manipulem os mais jovens?

Esses dilemas do futuro próximo evocam O retrato de Dorian Gray, romance de Oscar Wilde em que o protagonista deixa de envelhecer após desejar que um retrato envelheça em seu lugar. Ele passa a viver na devassidão, mas seu corpo não acusa o desgaste da vida de excessos. Enquanto Gray permanece belo e jovem, o retrato ilustra cada vez mais crueldade, feiura e decrepitude. Acumulada por décadas, a corrupção moral e física do retrato só é exposta quando o próprio Gray, consumido pela culpa, esfaqueia o retrato para destruir o último resquício de consciência. Pela manhã, os criados da casa acharam apenas um corpo retorcido de ancião esfaqueado no coração, diante do retrato restaurado em sua beleza original. A história ilustra a difícil escolha ética que se avizinha.