PSICOLOGIA ANALÍTICA

SONHAR PARA RESOLVER PROBLEMAS

Sonhar para resolver problemas

É possível “escolher” as imagens oníricas que desejamos acessar quando dormimos? Focar a questão que queremos solucionar antes de dormir pode ajudar.

Sabe aquele ditado que diz “nada como um dia após o outro com uma noite no meio”? Pois é. O rebaixamento dos mecanismos de censura e da racionalidade que predomina quando dormimos – e sonhamos – pode ser fundamental para nos permitir ver a realidade de outros ângulos e encontrar soluções para questões que nos incomodam. Exames de imagem mostram que regiões cerebrais que normalmente restringem nosso pensamento ao que é familiar são menos ativadas quando sonhamos – ou seja, nos permitem experimentar soluções “absurdas”, que se estivéssemos acordados sequer nos permitiríamos cogitar. Usando uma metáfora, é possível dizer que resolver um quebra-cabeça da forma “errada” leva a insights surpreendentes. Um número significativo de voluntários que participaram de experimentos nessa área relatou ter conseguido visualizar soluções em sonho após uma semana de exercícios desenvolvidos com esse propósito. Um desses estudos foi coordenado pelo psicólogo holandês Ap Dijksterhuis, na Universidade Radboud.

Segundo ele, sonhar intencionalmente com determinado problema – processo chamado de incubação – aumenta as chances de vislumbrarmos pistas para resolvê-lo. O termo “incubação” foi tomado por empréstimo de antigas práticas gregas executadas no templo de Esculápio (ou Asclépio), onde, em sonho, os doentes buscavam curar suas enfermidades. A psicologia comportamental sugere que podemos pro- curar interferir nesse processo de forma consciente seguindo alguns passos simples, que se baseiam na hipótese de que o ritual e a concentração ajudam a estabelecer o foco de atenção, ao mesmo tempo em que a mente está livre de repressões e mais apta a encontrar respostas.

Um deles é, na hora de dormir, escrever resumidamente a questão que queremos resolver, de preferência numa frase curta, e manter papel e caneta ao lado da cama para anotar o sonho quando acordar. Depois disso, a pessoa pode se imaginar sonhando com a situação que deseja resolver, acordando e anotando tudo num papel. Já deitado, vale pensar no problema e evocar uma imagem concreta, uma cena e em repetir para si mesmo que quer sonhar com essa questão. Ao despertar, é importante permanecer imóvel por alguns segundos antes de se levantar e tentar se lembrar do que sonhou, recapitulando ao máximo os detalhes do sonho, para em seguida fazer anotações, registrando primeiro as palavras-chave e depois acrescentando detalhes. Muitas vezes, o sonho com a situação que incomoda não aparece logo na primeira noite, é preciso repetir os procedimentos – e insistir algumas noites.

  UMA PAUSA PARA TER BOAS IDEIAS

A ideia de que soluções para assuntos que nos incomodam podem aparecer durante momentos de relaxamento, como quando estamos adormecidos, encontra respaldo num fato já conhecido por pesquisadores que se dedicam ao estudo da criatividade: afastar-se mentalmente do problema ajuda a baixar expectativas, autocensura e favorece o surgimento de boas ideias. Faz sentido, portanto, que o estágio do sono conhecido como REM (movimento rápido dos olhos), ou fase de sonhos, possa ajudar a estabelecer associação entre percepções aparentemente remotas. Essas conexões são capazes de ajudar a solucionar enigmas que nos perturbam antes de adormecermos.

Benefícios semelhantes podem surgir durante a vigília, ao deixarmos a mente vagar ou nos distrairmos deliberadamente. Em um experimento, o psicólogo Ap Dijksterhuis e seus colegas propuseram a um grupo que inventassem novos nomes para produtos. Os voluntários que tiveram a tarefa dividida em duas etapas e intercalada com outra diferente criaram nomes mais originais que os que trabalharam com o problema de forma contínua. Em estudos posteriores, a equipe de Dijksterhuis demonstrou que o processamento inconsciente poderia produzir respostas para problemas complexos, que exigem acesso ao conhecimento armazenado. Estes resultados sugerem que, se estiver se debatendo com um problema difícil, vale a pena fazer uma pausa e se ocupar com outra coisa.

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GESTÃO E CARREIRA

PROCURAM-SE CARTÓGRAFOS

Procuram-se cartógrafos

Mais satélites e novas tecnologias resultaram em abundância de dados geográficos. Agora, é preciso gente que saiba interpretá-los.

 Um ofício antigo, a cartografia volta à moda. A demanda por cartógrafos deve aumentar 30% até 2024 (ao menos nos mercados mais desenvolvidos), segundo estimativas de um grupo de empresas americanas especializadas em mapas virtuais e análises por geolocalização. Antes, os especialistas na área faziam desenhos para nortear navegadores, exploradores e viajantes em geral. Agora, cartógrafos são necessários para interpretar uma infinidade de imagens (como as feitas por satélites e carros-robôs) e dados gerados por deslocamentos de pessoas e cargas. Aplicativos como Google Maps e Wase produzem dados constantemente, mas encontrar utilidade para eles exige mais cabeças. Cartógrafos importam também para companhias como Carto e Mapbox, que ajudam outros negócios a traçar estratégias de acordo coma localização de seus clientes. Nos Estados Unidos e Europa, a procura por cursos na área aumentou, em média, 40% por ano desde 2005.

A cartografia pode ser uma especialização – em aulas mais técnicas – ou ser estudada como extensão da graduação, em cursos de pós-graduação ou doutorado de áreas afins, como geografia, história, ciências sociais ou matemática.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ESCREVER PARA CURAR A DOR

Escrever para curar a dor

Registrar de forma orientada experiências traumáticas pode auxiliar as pessoas a refletir sobre si e a superar a dor da perda. Segundo estudo publicado no Journal of Paliative Medicine, a “escrita terapêutica” ajuda o paciente a descrever detalhes de experiências negativas, explicitar sentimentos, colocar os fatos em ordem cronológica e estabelecer nexos. O artigo se apoia na ideia de que descrever os próprios sentimentos e emoções em uma narração coerente dos fatos tem utilidade em situações específicas, como elaborar o luto da morte de uma pessoa querida. Para medir a eficácia da técnica, os pesquisadores avaliaram os pacientes deprimidos depois de esses voluntários terem passado por uma perda significativa e pediram que registrassem regularmente seus sentimentos. Curiosamente, foi constatada melhora no estado geral de humor e ânimo das pessoas após o exercício.

“Estudos recentes com ressonância magnética funcional demonstraram que nosso cérebro trabalha de forma diferente antes, durante e depois de escrevermos”, observa o psicólogo James Pennebaker, diretor do Departamento de Psicologia da Universidade do Texas em Austin. Pioneiro nesse tipo de pesquisa, ele investiga desde a década de 90 a ligação entre a capacidade de escrita expressiva e alterações biológicas.

A escrita terapêutica, complementar à terapia da fala, não se contrapõe à expressão oral. Pelo contrário: assim como na comunicação verbal, permite associações inesperadas, que muitas vezes levam a questões inconscientes intrincadas – e fundamentais para o tratamento.

Cientistas reconhecem, porém, que a neurobiologia da escrita terapêutica ainda apresenta muitos pontos obscuros. Algumas tentativas de registrar a atividade neural antes e depois de a pessoa escrever renderam poucas informações, pois as regiões ativas estão localizadas em áreas muito profundas do cérebro. O que se sabe é que a escrita ativa um conjunto de vias neurológicas – e vários estudiosos estão comprometidos em descobri-las. Atualmente na Universidade do Arizona, o neurocientista Richard Lane, doutor em psicologia, usa técnicas de imagem cerebral para estudar a neuroanatomia das emoções e a forma como elas são expressas.

GESTÃO E CARREIRA

A ESCOLA DO AMANHÃ

A escola do amanhã

Bilíngues, tecnológicas e atentas ao desenvolvimento socioemocional, as novas escolas de elite do ensino básico querem formar líderes cosmopolitas e sensíveis – e cobram caro por isso.

No lugar de provas individuais, projetos coletivos. Em vez de aulas de inglês duas vezes por semana, imersão total na língua estrangeira. Sai o professor como detentor único do conhecimento, entra o aluno como protagonista do aprendizado. Enquanto a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não é implementada e a reforma no ensino médio demora a sair do papel, a rede privada de educação básica faz sua própria revolução no ensino. Mais especificamente, as escolas no topo da pirâmide de preços.

Até outro dia, quando se falava em escola de elite, subentendia-se um colégio tradicional, com no mínimo seis décadas de história, onde haviam estudado integrantes de famílias ricas, pais e avós dos alunos atuais. Esse conceito mudou com a entrada de novos players no mercado, que já chegam com aura (e mensalidade) de instituições de primeiríssima linha e a ambição de for- mar os líderes de amanhã.

Algumas questões se impõem quando discutimos esse novo modelo de escola. Líderes de que tipo? De que amanhã falamos? Vale a pena pais gastarem por mês até R$ 8 mil com escola para crianças e adolescentes, na esperança que isso os beneficie décadas à frente? Se está difícil arriscar palpites para o próximo ano, que dizer do cenário que meninas e meninos de hoje encontrarão quando adultos? As instituições de ensino Eleva, Concept e Avenues, representantes da mais recente geração de grifes da área, acreditam ter boas respostas. Apostam em formar cidadãos globais, criativos e com pensamento crítico aguçado. Cidadãos que entendam questões contemporâneas complexas, possam ingressar em qual- quer universidade no mundo e estejam bem colocados para disputar a direção de organizações multinacionais – ou criar seus próprios projetos de impacto.

A abundância de informação e a difusão de conhecimentos técnicos mudaram diretrizes. Desenvolver habilidades socioemocionais ganhou mais peso no currículo do que memorizar dados. A tecnologia se torna apoio fundamental na formação de vanguarda – foi-se o tempo em que eletrônicos eram vistos como elementos de distração e prontamente confiscados pelo professor. Agora, o aluno deve ser um criador, não um mero consumidor de serviços e aparatos digitais. Programação é mais uma linguagem ensinada nas escolas bilíngues.

A filosofia faça-você-mesmo ganha forma em laboratórios com impressoras 3D e cortadoras a laser. Os estudantes são desafiados a resolver problemas em aulas de design thinking e se envolver em projetos transdisciplinares. “Essas escolas trazem a ideia do aluno como autor, realizador de projetos, e não restrito a decorar e dar respostas corretas”, diz Miguel Thompson, diretor-executivo do Instituto Singularidades, centro de formação de professores em São Paulo. “Focam em um estudante investigativo, que saiba resolver problemas, com contextualização em diferentes disciplinas interligadas e que saiba trabalhar em grupo. São habilidades adequa- das às necessidades do século 21”, completa.

Há uma corrida global para descobrir como ensinar essas habilidades. Em setembro, a WeWork, maior empresa de coworking do mundo, pretende abrir sua versão de escola do futuro, a WeGrow, em Nova York. Além de estudar temas relacionados a tecnologia e artes, as crianças aprenderão meditação e ioga. Poderão interagir com os pais no meio do dia. Quando professo- res detectarem aptidões, poderão indicar alunos como aprendizes dos profissionais da comunidade WeWork, para que eles interajam logo cedo com problemas reais. A metodologia, o formato bilíngue e o corpo docente pesaram na decisão do médico Ricardo Ishi de matricular os filhos Arthur, de 5 anos, e Pedro, de 7 anos, na Concept de Ribeirão Preto (SP). “A proposta de estimular os alunos a buscar conhecimento e trabalhar com assuntos do interesse deles para aguçar a curiosidade nos encantou.” Ele conta que a adaptação não foi fácil. “Vinha a dúvida: será que eles estão aprendendo? É um baita investimento”, diz Ishi. No segundo semestre, os pais notaram mudanças nos meninos: aumento da curiosidade e outra forma de raciocinar. Gostaram. Mas se manterão atentos. “Na educação dos filhos, a gente tem de fazer avaliação constante”, afirma Ishi.

NOVAS E CRATIVAS

A educação básica, que vem sendo bancada por grupos poderosos, tem se revelado um investimento rentável. Esse mercado movimenta cerca de R$ 67 bilhões por ano, valor que ultrapassa a renda líquida do ensino superior, de R$ 55 bilhões, de acordo com a empresa de consultoria Hoper. Poucos se- tores resistem à crise tão bem: numa pesquisa realizada pelo SPC sobre o impacto do desemprego nas famílias,

divulgada no ano passado, a opção de mudar os filhos para uma escola mais barata ou pública aparecia no fim da lista de cortes no orçamento, citada por 7% dos entrevistados. Se não tiver grandes percalços no caminho, uma empresa que investe no ensino básico conquista clientes fiéis por períodos de 12 anos ou mais.

A Concept, que inaugurou suas primeiras unidades no ano passado em Salvador (BA) e Ribeirão Preto (SP), é a aposta mais vistosa do Grupo SEB Educacional, o maior do segmento k-12 (do jardim de infância ao ensino médio). No primeiro dia de aula, os alunos encontraram as escolas caracterizadas como o saguão de embarque de um aeroporto e receberam “passa- portes” para carimbar na entrada. “A metodologia da Concept fala do protagonismo do aluno. Quisemos fazer uma analogia para mostrar que ele estava entrando numa experiência em que o ponto de partida era ele mesmo”, explica Thamila Zaher, diretora-executiva do grupo SEB e filha do dono, Chaim Zaher.

Neste mês, a Concept paulistana se juntará às outras 39 escolas do grupo, que responde pelas redes Pueri Domus e Dom Bosco, entre outras, além de ter comprado 95% da operação brasileira da rede canadense Maple Bear em 2017. Até 2020, o grupo planeja abrir uma Concept no Rio de Janeiro e outra no Vale do Silício, na Califórnia. “Nossos alunos vão ter acesso a conexões muito importantes e parcerias internacionais”, diz Thamila.

Na unidade de São Paulo, a Concept investiu R$ 75 milhões. A escola se instalou no prédio onde o colégio Sacre Coeur funcionou por quase 60 anos, no bairro nobre dos Jardins. Como a construção é tombada, a fachada permanecerá a mesma, assim como as árvores do terreno de 18 mil m2. Por dentro, não há mais vestígios da instituição católica. Paredes retráteis permitem que se redesenhe o espaço de acordo com a atividade do dia, que pode incluir um experimento com tinta invisível ou um desafio envolvendo programação. A anuidade é dividida em 12 parcelas de R$ 7,5 mil para todas as séries. De período integral, como suas concorrentes diretas, a Concept misturou metodologias de várias partes do mundo para criar a sua própria: “Na Suíça, fomos buscar a multiculturalidade; em Cingapura, vimos a customização do ensino; na Finlândia, aprendemos sobre competências e habilidades e como potencializar o aprendizado de cada aluno”, enumera a diretora-executiva do grupo.

Inspirações vindas de vários países também dão o tom ao ensino na Escola Eleva, no Rio de Janeiro. Ela responde à holding Eleva Educação, por sua vez controlada pelo fundo Gera Venture Capital (cujos investimentos na área somam 88 escolas com 44,6 mil alunos). Um dos principais investidores do Gera Venture é o empresário Jorge Paulo Lemann – que participou meses atrás de um descontraído bate-papo em sala de aula, respondendo a perguntas de alunos de 14 anos.

A escola foi inaugurada no ano passado em Bota- fogo, com 350 alunos. Em 2018, começa as aulas com 1.033 alunos – e uma fila de espera com praticamente o mesmo número de interessados, conta Márcio Cohen, diretor do conselho pedagógico. A mensalidade varia de R$ 4 mil a R$ 5 mil. Dos matriculados, Cohen calcula que de 10% a 15% tenham bolsa. “A meta é chegar a 20% de bolsistas”, conta ele. A medida, explica, é uma forma de fazer com que a valorização da diversidade cultural não fique só no discurso.

Mesmo a mais cara das representantes da nova geração de escolas garante que vai prezar a diversidade e quer criar líderes com consciência social. “Tirar esses garotos da bolha é uma parte importante de nossa missão”, diz Alan Greenberg, cofundador da Avenues, que inicia seu ano letivo em agosto (a escola segue o calendário do Hemisfério Norte), cercada de expectativas.

O valor da mensalidade para 2018/2019 será divulgado só em março, mas, para não deixar os pais no escuro, o site da escola dá como base os valores que seriam cobrados no ano letivo de 2017/2018: 13 parcelas de R$ 8,35 mil, mais uma taxa anual de R$ 7,8 mil, referente a tecnologia e serviços. Alimentação e excursões que fazem parte do currículo estão incluídas nesses valores, mas é preciso colocar na conta as viagens internacionais: os alunos da Avenues nova-iorquina, inaugurada em 2012, foram estudar mudanças climáticas na Nova Zelândia e a cultura do Marrocos in loco, por exemplo. Aqui, já há planos para roteiros na China e em Portugal. O campus de São Paulo, que teve investimento de R$ 300 milhões, ocupa 30 mil m2 no bairro nobre Cidade Jardim e tem capacidade para 2 mil estudantes. A capital paulista é a primeira de uma série de metrópoles, além de Nova York, onde a Avenues pretende fincar bandeira. “Somos parte de algo muito maior. Estamos construindo um sistema global de escolas”, diz Greenberg. A possibilidade de passar um período em outros campi do mundo é um dos grandes atrativos do colégio – não só para os alunos, mas também para os docentes. Durante a seleção, a empresa recebeu cerca de 3 mil currículos de professores, entre brasileiros e estrangeiros. Desses, aproximadamente mil foram chamados para entrevista, e 55 integraram a equipe.

Já o primeiro escalão da Avenues traz nomes pinça- dos de algumas das mais tradicionais escolas paulistanas, como a britânica St. Paul’s e a americana Graded. Cristine Conforti, chamada para ser Head of Brazilian Program (coordenadora do Programa Brasileiro), veio do Santa Cruz, onde trabalhou por 40 anos. “Meu papel na Avenues é fazer com que a cultura brasileira, a língua portuguesa, a literatura se distribuam, que escorram sobre esse projeto como chuva”, diz ela. Apesar do foco global, a Avenues quer cultivar nos alunos um orgulho do Brasil, diz o cofundador da escola. Mas será que essas crianças educadas para serem cidadãos sem fronteiras vão querer continuar no país depois de formadas? Greenberg acredita que sim: “Muitos irão sair para o mundo e vão voltar e mudar o Brasil”, diz ele.

 AS QUE SE REINVENTAM

A entrada de concorrentes novos e agressivos no ensino básico de alto padrão sacudiu o setor. Muitas novidades, porém, já faziam parte dos planos de colégios bem estabelecidos. Principalmente a ênfase no desenvolvimento das habilidades socioemocionais, incorporadas à Base Nacional Comum Curricular e que, espera-se, seja aplicada também no ensino público. “O que muitas escolas buscam oferecer agora é preparar o aluno para o mundo. Fazemos isso há 40 anos”, diz a diretora e fundadora do colégio paulistano Vértice, Walkiria Gattermayr Ribeiro.

No Colégio Santa Cruz, também em São Paulo, o currículo já inclui estudos do meio, programas de voluntariado e abordagem transdisciplinar de temas que refletem sobre sexualidade, diversidade cultural, sustentabilidade e ética, diz o diretor-geral, Fábio Aidar. Ele considera natural que surjam propostas pedagógicas que se apresentem com “a aura do novo”. “Nosso desafio atual é outro: revelar como nossos princípios fundadores são sólidos e consistentes, e manter um projeto pedagógico ágil, que dialogue com nosso tempo e vislumbre o futuro”, afirma.

Em algumas dessas escolas, o termo “tradicional” é visto com ressalvas. “Celebramos o passado, celebramos o legado, mas não somos escravos da tradição”, diz Louise Simpson, diretora da St. Paul’s School, cujo currículo inclui programação (ou coding) e se baseia em habilidades, não em conceitos.

Com forte vocação tecnológica, a Lumiar, criada pelo empresário Ricardo Semler há 15 anos, tem como metodologia a multietariedade, em que não há divisão por idade, apenas uma separação por ciclos, estimulando as crianças mais novas a aprender com as mais velhas. “Desperta a maturidade”, diz Felipe Rodrigues, CEO da Lumiar. Para Rodrigues, em breve não fará mais sentido escolher uma profissão ao sair do segundo grau: as pessoas terão múltiplas profissões. “Ou seja, se você preparar a criança para o vestibular, não estará preparando-a para o futuro, mas ficando no passado”, avalia. A vida pós-formatura das novas gerações continua uma incógnita, mas o caminho até lá, tudo indica, está ficando mais prazeroso.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A QUÍMICA SECRETA DA ATRAÇÃO

A química secreta da atração

Nervo que conecta o nariz (ou focinho) ao cérebro – resquício evolutivo descoberto durante pesquisas neuroanatômicas com roedores e mamíferos aquáticos – pode ajudar a entender o mecanismo físico do desejo.

 Além da beleza, da afinidade ou mesmo das atitudes, parece haver um componente misterioso que nos faz sentir sexualmente interessados em determinadas pessoas, sem sequer nos darmos conta do que mexe tanto com a libido. É o que cientistas chamam de atração sexual subliminar, uma reação desencadeada por um minúsculo nervo, que começou a ser estudado há pouco tempo. A “magia” é explicada pela ciência: os feromônios, mensageiros químicos inodoros, transmitem sinais ao cérebro por meio dele. A maioria dos nervos penetra no cérebro pela medula espinhal. Alguns, porém, tomam um atalho e entram diretamente no crânio, daí serem conhecidos como nervos cranianos. Hoje sabemos que eles são responsáveis pela recepção de sinais sensoriais e pela execução de movimentos de olhos, mandíbula, língua e rosto.

Em 1878, uma descoberta sacudiu o mundo da neuroanatomia. Estudando tubarões, o anatomista alemão Gustav Fritsch (1837-1927) foi o primeiro a constatar a presença de um nervo craniano bem delgado, localiza- do à frente dos outros, que foi chamado de nervo zero ou terminal. A repercussão foi quase nula. No século seguinte, porém, ele foi observado em quase todos os vertebrados e, em 1913, identificado em humanos. Foi quando se percebeu que, por ser tão discreto e delicado, o nervo não resistia aos procedimentos de dissecação. Mas qual seria a função desse filamento quase imperceptível? A primeira pista veio da forma como ele se conecta ao cérebro. À semelhança de seu congênere olfatório, o nervo zero parece ramificar-se próximo ao nariz. Para alguns pesquisadores, ele talvez seja apenas um ramo desviado do nervo olfatório, não constituindo uma entidade separada.

UM CHEIRO DIFERENTE

O olfato é o mais antigo dos sentidos. Em- bora a precisão dessa capacidade humana seja insignificante perto da de outros mamíferos, não é nada desprezível: dispomos de 347 tipos de neurônios sensoriais no epitélio olfatório. Cada um deles detecta um odor diferente. Nosso repertório de odores resulta das possíveis combinações dessas centenas de receptores.

Os feromônios estão envolvidos na seleção de parceiros e na reprodução em pratica- mente todo o reino animal. Muitas espécies distinguem pelo faro sexo, posição social, território e status reprodutivo do potencial parceiro. Em seres humanos, esses processos são mais complexos, mas há indícios de que as pessoas troquem mensagens secretas e inconscientes por meio de feromônios. Há pelo menos duas diferenças entre os feromônios e as substâncias que estimulam o olfato humano. Para sentir um odor, é necessário que moléculas muito pequenas e voláteis flutuem por grandes distâncias.

Já os feromônios podem até ser moléculas grandes e pesadas, desde que o contato entre os indivíduos seja íntimo, como nos beijos. Além disso, muitos feromônios humanos são inodoros. Eles excitam terminações neurais que transmitem sinais diretamente para as regiões do cérebro responsáveis pelo controle da reprodução sexual, contornando o córtex cerebral. Essas substâncias parecem agir como um cupido invisível que dribla a consciência e coloca um brilho romântico nos olhos do apaixonado. Ao que tudo indica, as ligações do nervo zero ao cérebro permitem tal possibilidade.

O nervo conecta os receptores situados no nariz ao bulbo olfatório, um ponto de retransmissão neural, situado no cérebro, que classifica e processa as informações sensoriais captadas pelos receptores. Em seguida, os sinais são enviados ao córtex olfatório, onde é feito um processamento mais refinado para que então surja a percepção do odor.

No caso dos feromônios, a estrutura protagonista é o órgão vomeronasal, que se liga a um minúsculo bulbo olfatório “acessório”, localizado ao lado do principal. Dali em diante, os nervos se dirigem a áreas cerebrais associadas ao comportamento sexual (como a amígdala). Embora alguns cientistas afirmem que o órgão vomeronasal humano esteja ativo, para a maioria a estrutura é apenas um vestígio da evolução. Segundo eles, ela se forma durante a vida fetal e depois atrofia, tal como ocorre com as fendas branquiais. Logo, se os feromônios enviam sinais para o cérebro, não o fazem por meio dessa estrutura. Há fortes suspeitas, porém, de que o nervo zero esteja preenchendo essa lacuna.

EVIDÊNCIAS ANATÔMICAS

Assim como seu primo olfatório (nervo I), o nervo zero tem terminações na cavidade na- sal, porém, se projeta para áreas sexuais do cérebro: as pré-ópticas e os núcleos septais medial e lateral. Essas regiões estão ligadas a “funções básicas” da reprodução, como controle da liberação de hormônios sexuais, e outros impulsos irresistíveis, entre eles sede e fome. O núcleo septal pode agir sobre a amígdala, o hipocampo e o hipotálamo, mas também é influenciado por eles. Lesões no núcleo septal alteram o comportamento sexual, a alimentação, a ingestão de líquidos e as reações de raiva. Ao ligar o nariz aos centros reprodutores do cérebro, o nervo zero contorna o bulbo olfatório.

Lesões no nervo olfatório ou no órgão vomeronasal comprometem o acasalamento de roedores, o que sugere que essas estruturas estejam envolvidas na transmissão de mensagens de feromônios. Entretanto, nos últimos anos, pesquisadores descobriram que o nervo zero envia fibras ao órgão vomeronasal e que elas passam muitíssimo próximas às fibras do nervo olfatório. Resultado: os experimentos nos quais o nervo olfatório foi deliberadamente cortado devem ter causado também o rompimento do nervo zero.

Em 1987, a neurocientista Celeste Wirsig, então na Universidade Baylor, em Waco, Estados Unidos, removeu cuidadosamente o nervo zero de hamsters machos, deixando o nervo olfatório ileso. Os animais não conseguiram se acasalar, embora fossem tão hábeis para encontrar comida quanto seus colegas do grupo de controle. De maneira semelhante, neurocientistas já haviam observado, em 1980, que a estimulação elétrica do nervo olfatório poderia deflagrar respostas sexuais em peixes e outros animais. Esse comportamento sexual não poderia ser resultado da estimulação do nervo zero, uma vez que os dois estão muito perto um do outro?

Essa foi a suspeita dos neuroanatomistas R. Glenn Northcutt, da Universidade da Califórnia em San Diego, e Leo S. Demski, hoje no New College da Flórida. Eles também sabiam que, no caminho para o cérebro, algumas fibras do nervo zero faziam um desvio inesperado, enviando ramos às retinas. Northcutt e Demski conseguiram aplicar um estímulo elétrico leve no nervo zero de peixes-dourados bem onde ocorre essa ramificação, sem afetar o nervo olfatório. Resultado: os machos responderam instantaneamente com liberação de esperma.

RESQUÍCIO EVOLUTIVO

Outra indicação que aponta o papel sexual do nervo zero viria de minha própria pesquisa em uma criatura marinha. Em 1985, enquanto eu estudava o nervo zero de uma arraia-lixa, vi algo peculiar: muitas fibras estavam repletas do que pareciam ser minúsculas esferas negras. Uma análise química revelou que elas eram feitas de hormônios de natureza proteica altamente compacta- dos. Na ponta de algumas fibras observei a liberação dessas substâncias e sua absorção por minúsculos vasos sanguíneos, sugerindo que o nervo zero poderia ser um órgão neuroendócrino.

Quando Demski e eu soubemos que uma baleia-piloto havia acabado de morrer na Base Naval de San Diego, ficamos eufóricos com a oportunidade de examiná-la. Esse animal poderia colocar fim à discussão, provando se, afinal, o nervo zero é ou não autônomo e elucidando sua real função. Isso porque baleias e golfinhos são os únicos animais marinhos com um respiradouro no alto da cabeça. eles descendem de mamíferos aquáticos que respiravam por narinas localizadas na parte anterior a cabeça, as quais, ao longo de milhões de anos de evolução, migraram gradativamente para o alto. Nesse processo, perderam o nervo olfatório e, como consequência, o sentido do olfato. Se o nervo zero estivesse envolvido na olfação, ele provavelmente teria sido abandonado na troca evolutiva de narinas por respiradouro. Caso contrário, estaria presente na baleia, como suspeitávamos.

Com muito cuidado, Demski removeu as membranas da área em que esperávamos encontrar o par de nervos zero. E lá estavam eles: dois finos nervos brancos que se dirigiam ao respiradouro da baleia. A autópsia do animal provou que o nervo zero é uma entidade neural diferenciada, não apenas um fragmento do nervo olfatório. Sua função era preciosa demais para ser abandona- da pela evolução.

Em humanos, porém, o papel do nervo zero continua um mistério. Pesquisas recentes com camundongos constataram a presença de certos neurônios sensoriais não relacionados ao órgão vomeronasal que respondem à estimulação de feromônios. Quanto desse trabalho é dividido entre o nervo olfatório e o nervo zero ninguém sabe com certeza, mas é certo que este está associado ao comportamento reprodutivo e à liberação de hormônios sexuais, particular- mente do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH), secretado pela hipófise.

Do ponto de vista embriológico, o nervo zero se desenvolve bem cedo, e vários estudos mostram que todos os neurônios que produzem GnRH usam o nervo zero fetal como eixo para migrar e descobrir seu lugar correto no cérebro. Se esse processo embrionário for interrompido, o resultado será a síndrome de Kallmann (que prejudica o olfato e impede o amadurecimento sexual, isto é, a puberdade). Provavelmente ele tem outras funções além das ligadas à reprodução – afinal, a maioria dos nervos cranianos transmite sinais sensoriais e motores. Muitas pesquisas ainda são necessárias para desvendarmos completamente seu papel no sistema nervoso. Mas pelo menos agora entendemos que a natureza criou um canal oculto de comunicação que garante a reprodução da espécie.

O PAPEL DAS PROTEÍNAS

A neurobióloga Linda Buck identificou uma família de proteínas receptoras em camundongos, especificamente na superfície de neurônios que detectam feromônios. Ao todo são 15 proteínas chamadas TAARs (do inglês, receptores associados a traços de tiamina), que respondem de forma seletiva a moléculas específicas (que contêm nitrogênio) da urina do camundongo. A concentração de uma delas é maior (tanto na urina do camundongo como na do ser humano) em condições de estresse associadas ao ritual de acasalamento.

Duas dessas TAARs são ativadas por componentes encontrados exclusivamente na urina de machos adultos, o que também sugere uma função sexual. Uma delas é capaz de acelerar o início da puberdade em fêmeas. Além disso, Buck descobriu ainda que os seres humanos têm genes para pelo menos seis TAARs identificadas em camundongos.

 

R. DOUGLAS FIELDS – é neurocientista, doutor em ciência cognitiva. Atualmente chefia a Seção de Desenvolvimento de Sistemas Nervosos nos Institutos Nacionais de Saúde, em Bethesda, Maryland.

GESTÃO E CARREIRA

LIBERTEM A ECONOMIA!

Libertem a economia

Os grupos mais poderosos vêm sufocando as inovações

Nos países mais ricos, a desigualdade de renda vem crescendo nos últimos 40 anos, e nada indica que o gap vai se estreitar. Alguns apontam como culpados a evolução tecnológica (que troca humanos por máquinas), as importações mais baratas de fornecedores, a exemplo da China, e a decadência dos sistemas educacionais. Brink Lindsey, diretor do Open Society Project, e Steven Teles, professor da Universidade Johns Hopkins, de Baltimore, em seu novo livro The Captured Economy, porém, alertam para uma possível causa do problema que consideram subestimada: a “captura” da regulamentação econômica por grupos poderosos e influentes. Por essa interpretação, grandes companhias e o setor financeiro passam a ditar o sistema regulatório de acordo com suas conveniências, em todos os níveis — internacional, nacional, estadual e municipal.

Isso prejudica a sociedade, ao dificultar o surgimento de novos negócios, aumentar a desigualdade e a esclerosar a economia. Os autores não defendem simplesmente cortar regulações ou impostos. Para eles, governos devem elaborar novas políticas para que a máquina pública funcione bem e processos de regulamentação sejam aprimorados no Congresso, na Justiça e no Executivo. Boa regulamentação é aquela que promove a competitividade e incentiva novos negócios.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

MAIS CANETA E PAPEL, POR FAVOR

Mais papel e caneta, por favor

Tomar notas à mão pode ser mais eficaz para o processo de aprendizagem do que digitar; especialistas acreditam que essa prática ajuda a reter informações.

 Em busca de comodidade, cada vez mais deixamos de lado o papel e optamos por digitar. De fato, parece mais prático escrever um e-mail do que uma carta. Mas, como tudo tem seus prós e contras, nessa área também não é diferente. E, quando se trata de redigir, um grupo de cientistas adverte que nem sempre o método mais rápido é, necessariamente, o melhor. Segundo pesquisadores da Universidade Princeton, tomar notas à mão favorece a capacidade de síntese e ajuda a focar o essencial e – melhor – a reter conceitos com mais facilidade.

O psicólogo Daniel Oppenheimer e sua equipe chegaram a essa conclusão quando pediram a alguns estudantes que assistissem a uma palestra e fizessem anotações – parte deles à mão e parte usando um notebook. Depois de 30 minutos, os pesquisadores fizeram entrevistas com os voluntários sobre aspectos factuais e conceituais do conteúdo visto e descobriram que aqueles que escreveram com papel e caneta se saíram significativamente melhor, sobretudo em relação a ideias abstratas, ainda que o restante tivesse registrado maior quantidade de informações no computador.

Os pesquisadores ressaltam que, quando tomamos notas, selecionamos determinados dados (e os codificamos) e os recordamos mais tarde (o que favorece o armazenamento e facilita a aprendizagem). Quando o registro se torna muito fácil, tendemos a nos dispersar e perdemos a oportunidade de absorver algo novo, principalmente quando se trata de conceitos, e não fatos. Escrever à mão, por outro lado, nos obriga a focar o essencial já que, em geral, não somos fisicamente capazes de escrever cada palavra do que é dito, o que termina facilitando a assimilação.

Os resultados publicados na Psychological Science ajudam a esclarecer um fenômeno que os psicólogos chamam de “dificuldade desejável”, para se referir à necessidade de esforço e investimento com o intuito de assimilar novos conteúdos. “Às vezes, os obstáculos que nos frustram nos ajudam a aprender”, diz Oppenheimer.