A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ANDARILHOS NOTURNOS

Há muito, o comportamento de pessoas que caminham, comem e até conversam dormindo, como se estivessem num sonho, intriga tanto cientistas quanto leigos. Em algumas situações, os sonâmbulos podem ter ações agressivas, sem a menor consciência do que fazem.

Andarilhos noturnos

O sonambulismo está aumentando. Segundo psiquiatras da Universidade Stanford, só nos Estados Unidos 8,4milhões de adultos – o que representa 3.6% da população americana com mais de 18 anos – têm tendência ao sonambulismo. Especialistas falam de um aumento de 2% há uma década. Infelizmente não há dados de incidência no Brasil mas com base em pesquisas internacionais acredita-se que também existem milhões de andarilhos noturnos por aqui. Um subgrupo dessas pessoas pode apresentar um comportamento preocupante e perigoso: a violência no sono. O sonambulismo agressivo na população geral gira em torno de 2%, segundo pesquisas conduzidas nos Estados Unidos e na Europa. Nem todos os sonâmbulos têm comportamento agressivo – e o que causa essa reação ainda é um mistério -, mas identificam-se três distúrbios associados à violência no sono.

Em transtornos de sonambulismo, a pessoa opera em um estado mental que fica entre o sono e o despertar, executando comportamentos complexos sem consciência evidente. Em comparação, pessoas com epilepsia noturna do lobo frontal experimentam ações inadvertidamente violentas, repetitivas e breves, como correr ou chutar, que precedem uma convulsão. Um terceiro problema, o distúrbio comportamental do sono REM (sigla em inglês para “movimento rápido dos olhos”), ocorre quando os centros de movimento no tronco cerebral – que criam paralisia durante o sono profundo – se deterioram, geralmente devido a uma doença do sistema nervoso, como Parkinson. Sem essa paralisia, o corpo fica livre para se mover e agir como se estivesse no sonho, causando ferimentos acidentais tanto a quem dorme quanto a quem divide a cama. Há alguns anos, o pesquisador Eric Olson, do Centro Mayo de Distúrbios do Sono, revisou os registros de 93 pacientes com o distúrbio comportamental do sono REM e descobriu que 64% haviam atacado seus cônjuges e 32% se machucado durante o sono.

Como várias patologias podem estar associadas à violência no sono, investigar os incidentes é compreensivelmente difícil. O pesquisador Michael Cramer Bornemann, especialista em sono do Centro Regional de Distúrbios do Sono de Minnesota, e seus colegas do Sleep Forensics Associates já lidaram com mais de 200 casos forenses relacionados a distúrbios do sono, geralmente a pedido da lei. Desses casos, apenas os de sonambulismo foram associados a comportamentos criminosos. Ele estima que cerca de um terço dos casos que os associados forenses encontram envolve sedativos, como o Ambien, que podem aumentar o risco de transtornos de sonambulismo. Em um estado que fica entre o despertar e o sono, essas pessoas podem caminhar por aí, comer, ou até dirigir enquanto adormecidas. Porém, mesmo sendo possível avaliar a probabilidade de alguém ter distúrbios de sono, decidir se aquela pessoa estava acordada ou dormindo durante um incidente específico é outra história. Em 1997, Scott Falater, do estado do Arizona, esfaqueou repetidamente sua mulher e a empurrou na piscina do casal. Quando a polícia – acionada por um vizinho – chegou, Falater parecia inconsciente do que havia acontecido com sua mulher. Ele alegou estar adormecido durante o incidente.

A psicóloga Rosalind Cartwright – consultada pela defesa de Falater – escreveu um relatório do caso, fazendo um paralelo com um assassinato por sonambulismo no Canadá. Nos dois casos, o assassino não tinha motivo aparente e era conhecido por ter uma relação positiva com a vítima. Os dois homens alegaram não se lembrar do ataque. Cartwright acrescenta que essas pessoas estavam passando por intenso estresse pessoal e privação de sono na época do ataque, o que aumenta o risco de distúrbios do sono. Falater estava tomando pílulas de cafeína pela primeira vez em muitos anos. Cartwright observou que a adição desse estimulante à sua rotina diária pode ter aumentado ainda mais o risco de ter o sono interrompido. Os julgamentos. Porém, tiveram resultados muito diferentes. Enquanto o caso do Canadá acabou em absolvição, os jurados ficaram céticos em relação à história de sonambulismo de Falater. Ele foi considerado culpado de homicídio e condenado à prisão perpétua.

Como Cartwright aponta no relatório, não existe teste único para diagnosticar transtornos do sono com certeza. Ela conduziu uma bateria de testes psicológicos e quatro noites de estudos antes de testemunhar que um distúrbio do sono poderia estar envolvido no caso de Falater. Mesmo assim, é praticamente impossível – e eticamente problemático – reconstruir as circunstâncias de uma dada noite ou obrigar um paciente a caminhar ou falar durante o sono. Para compreender o fenômeno, é necessário ampliar os conhecimentos sobre sono, consciência e capacidade de autocontrole.

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OUTROS OLHARES

FRÁGEIS TRAMAS DO DIREITO À VIDA

A perda de vínculos coloca muitos sob o risco de privarem-se também do reconhecimento da própria semelhança com o conjunto da humanidade.

Frágeis tramas do direito à vida

Assassinatos de mendigos raramente aparecem nas primeiras páginas dos jornais. São vários os casos registrados todos os anos, mas a maioria deles tem aparecido, no máximo, em pequenas notas – ou simplesmente viram estatísticas. Quando jovens de classe média mataram um índio ateando fogo a seu corpo, em Brasília, em 1997, um deles declarou que pensavam se tratar “só de um mendigo” – como se assim pudesse justificar o crime. Um texto publicado em setembro de 2007 na revista Caros Amigos ressalta a indiferença de moradores de um condomínio em relação à morte de um homem que vivia na mesma rua, citando a afirmação de uma das crianças do prédio: “Mataram um cara aí, mas não era nada, não. Era só um desses mendigos que estavam sempre cheirando cola por aqui”. Diante da extrema conformidade com a morte do outro, surge a pergunta: como se cria tanto desprezo por vidas humanas?

Uma primeira hipótese pode ter origem na crise do modo como a sociedade se organiza em torno do trabalho remunerado. Quando as pessoas dependem dele como meio de vida, mas o mercado não consegue criar opções para todos, surge um grande problema.

Não é novidade que aqueles que não nascem ricos precisam trabalhar para sobreviver. Os sistemas de previdência e outras formas de proteção social estão, na maioria dos países (inclusive no Brasil), associados à atividade assalariada. Além disso, muitas pessoas passam grande parte do dia – e da vida – no trabalho. Em função dele, organizam-se os horários cotidianos e os ciclos de vida (estudos, carreira e aposentadoria). Assim, a atividade profissional torna-se uma referência importante na construção da identidade (é costume mesclar essência e profissão, perguntando “o que você é?” ou “o que você vai ser quando crescer?”). O local de trabalho é ainda um espaço privilegiado para a criação de laços de sociabilidade. Quem se vê desempregado sofre não só com a queda no padrão de consumo e a incerteza quanto ao futuro, mas também com a sensação de vazio, vergonha e inutilidade.

O sociólogo francês Robert Castel explica em As Metamorfoses da questão social: uma crônica do salário, de 1995, os fenômenos do aumento do desemprego duradouro e da instabilidade e precarização nas condições de trabalho na Europa desde a década de 70, como crise da sociedade salarial. As pessoas se organizaram em torno do trabalho assalariado, mas com a revolução tecnológica ele deixou de ser suficiente para cumprir aquilo que se espera dele. Na América Latina, e em particular no Brasil, as taxas de informalidade, a precariedade das relações trabalhistas e o desemprego também não são novidades. Discute-se se chegou a haver uma sociedade salarial por aqui (que hoje está em crise), ou se ela nunca se realizou de fato. De qualquer forma, a ausência de ocupações estáveis para todos traz efeitos semelhantes em várias partes do mundo.

Se a ocupação remunerada é um vetor importante de integração do indivíduo à sociedade, um dos efeitos da falta dela na vida cotidiana é a ausência de reconhecimento de uma posição socialmente legitimada para os desempregados e com poucas chances de reinserção. Como não participam das relações de produção nem têm poder de compra, os excluídos dos mercados de trabalho e de consumo também não podem exercer pressão sobre os agentes econômicos. Com dificuldades de encontrar outro modo de pertencimento, fica difícil identificar interesses comuns com outras pessoas na mesma situação e criar um projeto coletivo de futuro. Os excluídos encontram-se, assim, isolados. Trata-se não só de uma situação real, verificável, mas também de um sentimento subjetivo de solidão. Sem dúvida, essa avaliação só pode ser feita sob determinado tipo de racionalidade, que privilegia a utilidade econômica e a mede segundo a capacidade de produção de lucro.

A segunda hipótese sobre a discriminação de alguns seres humanos diz respeito justamente ao consumo. Em nossas sociedades, este é tratado como um valor, embora seja pouco acessível a muitos. Nas civilizações caracterizadas pelo consumismo, o poder de compra de cada pessoa passa a ter o papel de informar aquilo que ela é. No livro O mal-estar da pós-modernidade, de 1998, o cientista social Zygmunt Bauman mostra que atualmente as relações econômicas são centrais na definição das identidades. Hábitos de compra criam laços simbólicos entre pessoas que apresentam os mesmos desejos – e os realizam. Identidades comuns são desenvolvidas com base no uso das mesmas mercadorias, sejam elas roupas de marca, filmes ou pacotes de viagens. Quem não as partilha, seja porque não quer ou não tem dinheiro, está fora dessa identidade: é o outro que não é visto como semelhante, o estranho.

Enfim, uma pessoa que perde seus vínculos econômicos com a sociedade, atualmente, corre o risco de privar-se também do reconhecimento da própria semelhança com o conjunto da humanidade. No artigo “Hipóteses sobre a nova exclusão social: dos excluídos necessários aos excluídos desnecessários” (publicado nos Cadernos CRH, em 1994), o pesquisador brasileiro Elymar Nascimento fala desse processo como a perda da possibilidade de obtenção de direitos, chegando à negação do mais fundamental, o direito à vida. O primeiro passo desse processo está nos avanços tecnológicos que poupam mão-de-obra. Sob uma ideologia que coloca em primeiro plano a produção para o lucro, desempregar significa tornar desnecessária para o mundo grande parcela da população mundial. Na óptica economicista predominante, ser supérfluo para a economia pode levar o indivíduo a ser visto – pelos demais e até por si mesmo-como inútil. Dentro dessa lógica, os desempregados pobres tornam-se um peso econômico para o Estado e para a sociedade. E passam a ser vistos como incômodos.

Num contexto de insegurança generalizada com a violência urbana, o imaginário popular associa cada vez mais a pobreza à violência. Assim, aquelas pessoas são consideradas ameaçadoras. E, nessa condição, se tornam ameaçadas de extermínio. Basta ver, além dos casos de agressões a mendigos, as chacinas de crianças de rua e de presidiários, defendidas por muitos.

Essa espiral de desvalorização da vida humana, sem dúvida, tem outros matizes. Além das origens culturais e político-econômicas, entrelaçadas, apresenta dimensões éticas que não podem ser esquecidas. Romper essa lógica cruel requer a transformação dos valores de uma sociedade inteira. Trata-se, entre outras coisas, de aprender a valorizar o ser humano para além de seu poder de consumo e de geração de lucros. Isso demanda a ressignificação do papel do trabalho e dos sentidos da própria vida humana.

 

GIULIANA FRANCO – é doutora em sociologia pela Unicamp; atualmente é professora de sociologia geral e brasileira da Faculdade de Administração da Aeronáutica.

GESTÃO E CARREIRA

A VEZ DA REALIDADE AUMENTADA

A tecnologia que permite ver imagens virtuais sobre objetos reais ganha cada vez mais espaço nos setores industrial e de serviços, impulsionando um mercado que deve superar 60 bilhões de dólares em cinco anos.

A vez da realidade aumentada

Toda vez que uma fábrica detecta um defeito num equipamento, um diagnóstico precisa ser feito e um componente substituído. É um processo que pode levar horas ou dias, e, dependendo do problema, a produção precisa ser interrompida até que o conserto seja realizado. Para acelerar o tempo de reparo e melhorar a manutenção das máquinas, indústrias de todo o mundo começam a ver na tecnologia de realidade aumentada uma solução para esse problema. A tecnologia funciona em óculos especiais que contam com câmeras para filmar o ambiente diante do usuário. Na tela dos óculos, a pessoa enxerga uma imagem digital sobreposta aos objetos físicos – daí o nome de realidade “aumentada”. É possível ver vídeos, acessar documentos, consultar dados na internet ou assistir a transmissões ao vivo com outras pessoas. Quando o Google começou a apostar nessa tecnologia, em 2013, esperava-se que, um dia, esses óculos se tornassem tão populares quanto os smartphones. O sonho não vingou. Mas a realidade aumentada encontrou seu espaço no mercado corporativo – e, especialmente, no chão de fábrica.

Com essa tecnologia, trabalhadores braçais têm um computador completo diante dos olhos e podem seguir instruções supervisionadas por especialistas. Uma das empresas que apostam nessa tendência é a Microsoft, que oferece desde 2015 os óculos HoloLens. Para David Epp, diretor global de parcerias da Microsoft, a empresa finalmente entendeu para que o HoloLens serve. “Primeiro, acreditamos que ele seria usado para games ou para assistir a jogos de futebol. Tudo isso é interessante, mas começamos a receber pedidos de aplicação na indústria e na construção. Agora, temos um dispositivo relevante, que permite tocar em objetos digitais e isso oferece muito valor para os profissionais”. afirma Epp.

A fabricante suíça ABB, conhecida por seus robôs industriais e pela ampla gama de serviços para a indústria, é uma das empresas que hoje usam dispositivos de realidade aumentada para agilizar reparos. A solução tem sido aplicada em fábricas na Austrália e nos Estados Unidos. Numa demonstração realizada em um evento em Houston, no Texas, representantes de diferentes setores da indústria paravam diante do estande da ABB para entender como aqueles óculos futurísticos poderiam ser úteis. Os óculos podem conectar especialistas e técnicos para poupar tempo e custo de deslocamento e, assim, aumentar a produtividade nas fábricas. Funcionários têm acesso às informações digitais sem precisar usar as mãos para segurar um celular, tablet ou computador – uma facilidade que pode evitar acidentes de trabalho. “Com a realidade aumentada, é possível ensinar as pessoas a realizar reparos com o auxílio de especialistas que podem estar em qualquer lugar”, diz Guido Jouret, chefe de soluções digitais da ABB. Além disso, os óculos permitem que o funcionário faça treinamentos usando réplicas digitais dos equipamentos que vão manusear.

A aposta nessa tecnologia é um fenômeno crescente. Segundo a estimativa da consultoria britânica PwC, 29% das empresas do setor industrial terão feito algum investimento em realidade aumentada até o fim do ano que vem, ampliando quatro vezes o número registrado em 2017. Outra previsão indica que o gasto das empresas com tecnologias imersivas de realidade aumentada deverá passar de 4.3 bilhões de dólares, em 2017, para 8 bilhões, em 2019.

Com a expansão dos investimentos, será cada vez mais comum encontrar exemplos de uso como o da montadora americana Ford, que percebeu os benefícios de conectar sua força de trabalho com a tecnologia. A empresa, com sede em Detroit, usa óculos de realidade aumentada em projetos piloto em São Paulo, na Bahia, em Brasília e em Santa Catarina. O objetivo é parecido com o da ABB: nas concessionárias da Ford, os mecânicos são orientados a distância por um time de engenharia na hora de fazer consertos em veículos. Joaquim Arruda, diretor de serviço ao cliente da Ford na América do Sul, conta que o projeto já foi levado a outros países e o Brasil deve ser o primeiro a usar amplamente a tecnologia na América Latina até 2020. “‘Se o engenheiro encontra uma falha, ele pode enviar um vídeo ou um documento para auxiliar no reparo”, afirma Arruda. A solução usada pela montadora é fornecida pela empresa de tecnologia brasileira Total Power. Com base na experiência realizada até agora, os gastos com viagens dos engenheiros diminuíram até 70 % e a produtividade das equipes aumentou até três vezes com o uso da solução. “Com a tecnologia, o trabalhador aprende na prática a realizar o serviço e minimiza o risco de cometer erros”, afirma Fabiano Freitas, diretor executivo da Total Power. Não são apenas as empresas que enxergam os benefícios. Nas universidades a tendência também é vista com bons olhos. William Uricchio, professor de mídia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, é um entusiasta da tecnologia. “A imagem do mundo ao nosso redor pode ser enriquecida com informações digitais para dar mais contexto. Com tecnologias assim podemos ser muito mais criativos”, diz Uricchio. Para ele, logo será comum usar a realidade aumentada em setores como turismo, marketing, saúde, serviços e jogos. Com esse farto conjunto de mercados, o faturamento com as vendas de hardware e software de realidade aumentada deverá ultrapassar 60 bilhões de dólares em 2023, de acordo com a consultoria americana Marketsand ­ Markets. Já o número de dispositivos vendidos poderá chegar a 68 milhões em quatro anos, segundo a consultoria americana IDC. No Brasil, as vendas projetadas são de 372.000 unidades.

A vez da realidade aumentada. 2

ALÉM DOS ÓCULOS

Graças a avanços trazidos pela Apple e pelo Google, que têm ferramentas para desenvolvedores criarem aplicativos de realidade aumentada, a tecnologia não ficará restrita aos óculos. Ela pode ser usada também no smartphone. Um componente indispensável é a câmera. Qualquer que seja o celular, é pela câmera que a pessoa vê a camada digital aplicada sobre os objetos físicos. Esse é um dos motivos pelos quais o mercado de sensores de imagem – um componente que mostra o ambiente à frente e é essencial para a tecnologia de realidade aumentada – deverá passar de 18 bilhões de dólares, em 2019, para 23 bilhões, em 2023, segundo a consultoria P&S lntelligence. É uma ótima notícia para empresas como a fabricante japonesa Sony, líder do ramo de sensores de imagem. Desde 2013, a Sony oferece recursos de realidade aumentada em seus smartphones, que são usados, principalmente, para enfeitar fotografias com imagens gráficas.

A vez da realidade aumentada. 4

O crescimento do mercado de realidade aumentada também está impulsionando o surgimento de uma nova variedade de empresas de tecnologia. Um levantamento da consultoria americana Pitch Book, mostra que os investimentos de capital de risco em startups de realidade aumentada subiram 175% de 2014 a 2018, passando de 1,2 bilhão de dólares para 3,3 bilhões nesse período. A empresa que mais recebeu aportes é a americana Magic Leap, fabricante de óculos de realidade aumentada para entretenimento, que arrecadou quase 2,3 bilhões de dólares. Porém, a startup que, até agora, levantou mais recursos em uma única rodada de investimentos é a Epic Games, produtora do jogo Fortuite (a maior febre no mundo dos games da atualidade), que recebeu 1,25 bilhão de dólares de investidores em 2018. O dinheiro está sendo usado para desenvolver a tecnologia gráfica da Epic Games, bem como recursos de realidade aumentada para seus jogos. O setor de games, que teve faturamento de 110 bilhões de dólares em 2018, é um dos que mais utilizam a realidade aumentada. Um exemplo é o jogo Pokémon Go, da americana Niantic, que fez sucesso em 2016 ao incorporar a tecnologia.

Enquanto as startups utilizam a realidade aumentada para fazer sucesso nos games ou para criar aplicativos que se aproveitem dessa ferramenta, a briga entre as grandes empresas de tecnologia é para saber qual delas vai se consolidar como a plataforma líder. “A Microsoft não quer que o HoloLens seja o melhor dispositivo. Seu objetivo é demonstrar como essa tecnologia será usada no futuro. Assim como o Windows hoje reina nos PCs a Microsoft quer que sua plataforma seja dominante no mercado de realidade aumentada”, diz Tyeng Nguyen, analista sênior da consultoria americana Gartner. Pode não ser da noite para o dia, mas a realidade aumentada será cada vez mais presente, seja na indústria, seja nos smartphones, seja nos games do momento.

A vez da realidade aumentada. 3

 

 

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 29: 6-10

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 6 – Aqui, temos:

1. O perigo de um caminho pecaminoso. Não há somente uma punição no seu final, mas também um laço, uma cilada. Um pecado é uma tentação para se cometer outro, e há problemas que, como um laço, sobre­ vêm repentinamente aos homens maus, em meio às suas transgressões; na verdade, a sua transgressão frequentemente os envolve em dificuldades; o seu pecado é a sua punição, e eles ficam presos nas cordas de sua própria iniquidade (Provérbios 5.22).

2. O prazer do caminho da santidade. O laço que há na transgressão dos homens ímpios lhes estraga toda a sua alegria, mas os justos são protegidos desses laços, ou livrados deles; eles andam em liberdade, caminham em segurança, e por isto cantam e se regozijam. Os que fazem de Deus a sua principal alegria o terão como sua extrema alegria, e será sua própria culpa se não se alegrarem para sempre. Se há alguma verdadeira alegria, deste lado do céu, sem dúvida a têm aqueles que convivem com o céu.

 

V. 7 – É lamentável que nem todo aquele que move uma ação contra um pobre, tenha uma causa honesta (entre todos os outros, são indesculpáveis, se não tiverem), porque as Escrituras providenciaram que essa causa fosse ouvida devidamente, com justiça, e que o próprio juiz seguisse a justiça no caso do prisioneiro, e também do pobre.

1. O caráter de um juiz justo o levará a considerar a causa do pobre. É dever de cada homem considerar os pobres (Salmos 41.1), mas o juízo dos pobres deve ser considerado por aqueles que julgam; eles devem se esforçar tanto para descobrir o que é certo na causa de um pobre, como na de um rico. O senso de justiça deve fazer com que o juiz e também o advogado sejam solícitos e diligentes na causa do pobre, como se esperassem grandes benefícios.

2. O caráter do ímpio fará com que, por ser a causa de um pobre, e sendo assim não lhe trará nenhum benefício, ele não a considere, não se importe em conhecê-la, no seu verdadeiro estado, pois não se importa para que lado se dirige; para o certo ou para o errado. Veja Jó 29.16. 

 

V. 8 – Veja aqui:

1. Quem são os homens que são perigosos para o público – homens escarnecedores. Quando estes homens estão empregados nos negócios do estado, fazem coisas com precipitação, porque não gostam de ponderar ou deliberar, e não dedicam tempo à consulta ou consideração; fazem coisas ilegais e injustificáveis, porque desdenham ser limitados pelas leis e constituições; eles rompem a sua fé, porque não gostam de estar presos por sua palavra, e provocam as pessoas, porque desdenham agradá-las. Assim, eles abrasam a cidade, pela sua má conduta, alvoroçam-na (levam a cidade a uma cilada, conforme a anotação de margem); semeiam discórdia entre os cidadãos, e os confundem. São homens escarnecedores, que zombam da religião, das obrigações da consciência, dos temores do outro mundo, e de tudo o que é sagra­ do e sério. Estes homens são as pragas da sua geração; eles trazem os juízos de Deus sobre a terra, e assim levam todos à confusão.

2. Quem são os homens que são as bênçãos de uma terra – os sábios que, ao promoverem a religião, que é a verdadeira sabedoria, desviam a ira de Deus, e que, através de conselhos prudentes reconciliam grupos divergentes e impedem as consequências nocivas das divisões. Os homens soberbos e tolos acendem o fogo que os homens sábios e bons precisam extinguir.

 

V. 9 – Um homem sábio é aqui aconselhado a não comparar a sua inteligência à de um tolo, não discutir com ele nem debater com ele, pensando vencê-lo pela razão ou obter direitos sobre ele: se um sábio contende com outro sábio, pode esperar ser compreendido, e, se tiver a razão e a equidade do seu lado, poderá provar o seu ponto de vista, pelo menos para encerrar a controvérsia e dar-lhe um resultado amistoso; mas, se a contenda for com um tolo, não há descanso, ele não verá o fim da controvérsia, nem terá nenhuma satisfação com ela, mas deve esperar estar sempre inquieto.

1. Quer o tolo discuta com ira ou riso, quer receba com ira ou escárnio o que lhe é dito, quer ele ataque ou zombe do que lhe é dito, fará uma das duas coisas, e não haverá descanso. Não importa como lhe seja dito, será mal recebido, e até o homem mais sábio deve esperar ser repreendido ou ridicularizado, se discutir com um tolo. Aquele que luta com um monte de lixo, quer seja o vencedor ou o vencido, certamente será contaminado.

2. Quer o sábio se enfureça ou ria, quer adote o caminho sério ou o jocoso de lidar com o tolo, quer seja severo ou agradável com ele, quer venha com uma vara ou com espírito de mansidão (1 Coríntios 4.1), acontece a mesma coisa, nenhum bem é feito. “Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes”.

 

V. 10 – Observe:

1. Os homens maus odeiam seus melhores amigos: Os sanguinários, toda a semente da velha ser­ pente, que foi homicida desde o princípio, todos os que herdam a sua inimizade contra a semente da mulher, odeiam os justos; busca m a destruição dos homens bons, porque estes condenam o mundo ímpio e testemunham contra ele. Cristo disse aos seus discípulos que eles seriam odiados por todos os homens. Os homens sanguinários odeiam particularmente os magistrados justos, que os restringem e corrigem, e põem em execução leis contra eles, fazendo-lhes, na verdade, um ato de bondade.

2. Os homens bons amam seus piores inimigos: os retos, a quem os sanguinários odeiam, buscam a sua alma, oram pela sua conversão, e fariam alegremente qualquer coisa pela sua salvação. Isto, Cristo nos ensinou: “Pai, perdoa­ lhes”. O reto busca o seu bem, isto é, busca o bem da alma do justo, a quem o sanguinário odeia (assim se interpreta, normalmente), busca protegê-lo da violência, e o salva, ou o defende das mãos do sanguinário.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE É TÃO BOM ESTAR CERTO?

Sem perceber, muita gente leva a vida presumindo que está com a razão o tempo todo, sobre quase tudo: convicções políticas e intelectuais, crenças morais e religiosas, avaliação das outras pessoas e lembranças. Por trás desse funcionamento está a ideia – obviamente equivocada – de que estamos perto da onisciência.

Por que é tão bom estar certo

Descobrir que estamos certos costuma nos dar grande prazer. Ao contrário de outros deleites da vida – chocolate e beijos, por exemplo, – a satisfação de acertar não parece estar diretamente vinculada a nenhum processo bioquímico específico. E por mais que afagos ou alimentos nos atraiam, não costumamos gostar de beijar quem quer que seja ou comer qualquer coisa, mas adoramos estar certos. Trata-se de uma sensação inegável e universal .O que está em jogo não parece importar muito. O assunto também não conta: podemos ficar igualmente satisfeitos em identificar um pássaro canoro de crista laranja ou a orientação sexual de um colega de trabalho. Ainda mais estranho, conseguimos vibrar (ainda que de maneira discreta) por nossos acertos até em relação a coisas desagradáveis: a queda na Bolsa de Valores, ou o fim do relacionamento de um amigo, ou o fato de que, devido à insistência de nosso cônjuge, passamos 15 minutos arrastando a mala na direção oposta ao hotel.

Mas, como a absoluta maioria das experiências prazerosas, a condição de estarmos certos não nos pertence o tempo todo. Em algumas ocasiões somos nós que perdemos a aposta (ou o hotel). E às vezes também somos atormentados pela dúvida – uma ansiedade que, em si, reflete a urgência do desejo de não errar. Ainda assim, em geral, o contentamento indiscriminado de estarmos certos equivale ao sentimento de que, na realidade, estamos certos. Ocasionalmente, essa sensação vem à tona – quando argumentamos ou tentamos convencer alguém, fazemos previsões ou apostas. Na maioria das vezes, porém, é apenas um pano de fundo psicológico.

Muitas pessoas levam a vida presumindo que estão certas o tempo todo, sobre praticamente tudo: convicções políticas e intelectuais, crenças morais e religiosas, avaliação das outras pessoas, lembranças, entendimento dos fatos. Por mais absurdo que soe quando paramos para pensar a respeito, nosso estado habitual parece ser o de presumirmos inconscientemente que estamos bem perto da onisciência.

Para sermos exatos. essa fé serena nos leva à impressão de que não estamos apenas certos de forma rotineira, mas especulativa: no que diz respeito à existência dos átomos (pressuposta pelos pensadores da Antiguidade milhares de anos antes do surgimento da química moderna) e às propriedades de cura da aspirina (reconhecidas desde pelo menos 3.000 a.C.), por exemplo. Reunidos, esses momentos de certeza representam as marcas do apogeu humano e são fonte de inúmeras pequenas alegrias. Eles afirmam nosso senso de sermos espertos, competentes, dignos de confiança e de estarmos em sintonia com o ambiente. Mais importante: mantêm ­ nos vivos. Individual e coletivamente, nossa existência depende de nossa habilidade de chegar a conclusões precisas sobre o mundo à nossa volta. Em suma, a experiência de estarmos com a razão é imperativa para a sobrevivência, gratificante para o ego e, acima de tudo, é uma das satisfações mais baratas e intensas da vida.

MESMO SEM QUERER

Mas há o outro lado de tudo isso: se nos alegramos por estarmos certos e consideramos isso nosso estado natural, como nos sentimos quando nossas convicções desmoronam? Curiosamente, tendemos a encarar como algo raro e bizarro – uma aberração inexplicável na ordem natural das coisas. Em segundo lugar, errar faz com que nos sintamos tolos e envergonhados – e, não raro, um único equívoco nos leva a uma série de autorrecriminações e dúvidas sobre nossa capacidade nas mais diversas áreas. Não importa a idade, sentimo-nos como a criança que recebe seu trabalho escolar coberto de tinta vermelha. O fato de estarmos errados faz com que nos encolhamos e afundemos na cadeira: identificam os um peso no peito e surgem justificativas e a raiva. Na melhor das circunstâncias, consideramos a situação um incômodo; na pior, um pesadelo, mas em ambos os casos vivenciamos nossos erros como desanimadores e embaraçosos.

E isso é apenas o começo. Na fantasia coletiva, o erro está vinculado a ignorância, indolência, psicopatologia e até degeneração moral. Esse conjunto de associações foi sintetizado pelo cientista cognitivo italiano Massimo Piattelli Palmarini. Ele observou que erramos devido a (entre outras coisas) “desatenção, distração, falta de interesse, despreparo, genuína estupidez, timidez, desequilíbrio emocional, preconceitos ideológicos, raciais, sociais ou chauvinistas, assim como em razão de instintos agressivos ou de prevaricação”.

Nossas falhas seriam prova dos mais graves “defeitos”. Mas o curioso é que, entre todas as coisas sobre as quais estamos equivocados, essa ideia poderia muito bem encabeçar a lista. É nosso metaerro: estamos enganados acerca do que significa estar errado. Longe de ser um sinal de inferioridade intelectual, essa capacidade é crucial para a cognição humana. Longe de ser um defeito moral, ela é indissociável de algumas das qualidades mais honradas: empatia, otimismo, imaginação, convicção e coragem. E longe de ser sinal de indiferença ou intolerância, o erro é parte vital da aprendizagem e da possibilidade de mudança. Graças ao erro, podemos revisar nosso entendimento de nós mesmos e corrigir nossas ideias a respeito do mundo.

Dada essa centralidade para nosso desenvolvimento intelectual e emocional, o equívoco não deveria ser motivo de constrangimento ou visto como aberração. Ao contrário. Como escreveu Benjamin Franklin, o erro é uma janela para a natureza humana normal – para a mente imaginativa, as faculdades ilimitadas, a alma extravagante. Afinal por mais desorientadores, difíceis ou humilhantes que nossos erros possam ser, é, em última instância, o erro – e não o acerto – que nos pode ensinar sobre quem somos.

Essa ideia não é nova. Vivemos numa cultura paradoxal, que despreza qualquer tipo de engano e, ao mesmo tempo, insiste que ele é fundamental em nossa vida. Reconhecemos esse caráter essencial na exata maneira como falamos sobre nós mesmos – é por isso que, quando cometemos erros, damos de ombros e dizemos que somos humanos. Cerca de 1.200 anos antes de René Descartes ter escrito seu famoso “penso, logo existo”, o filósofo Santo Agostinho escreveu “fallor ergo sum”: “erro, logo existo”. Segundo essa ideia, a capacidade de errar não apenas faz parte de estar vivo, mas, de certo modo, é prova disso. Para o teólogo católico, como para Franklin, o erro não se refere somente ao que fazemos. Num sentido mais profundo, é quem somos. A falibilidade seria como a mortalidade, outra característica que está implícita na palavra “humano”: todos erramos – mesmo sem querer. O mesmo acontece com a experiência da morte.

Consequentemente, quando erros acontecem, é típico reagirmos como se não tivessem acontecido: nós os negamos, nos mantemos na defensiva, os ignoramos, os abrandamos ou colocamos a culpa nos outros. A relutância em admitir que estamos errados não é apenas uma falha individual. Com exceção daquelas iniciativas de prevenção contra erros empregadas em áreas de alto risco, como a aviação e a medicina, nossa cultura desenvolveu poucas ferramentas para abordarmos nossa propensão ao equívoco.

OUTROS OLHARES

A EXPLOSÃO VEGANA

Mais de sete milhões de brasileiros declaram-se adeptos do veganismo: não consomem qualquer produto proveniente ou testado em animais. E esse público — assim como o mercado formado em torno dele — só deve crescer.

A explosão vegana

Virou uma febre nos restaurantes, em lojas de roupas modernas, de acessórios e até em fast foods. Propagandear que os produtos são veganos parece dizer ao cliente que ele está dentro do que há de mais contemporâneo em saúde e comportamento. Assim, a explosão vegana tomou conta do mundo. Só no Brasil são sete milhões de pessoas que se consideram adeptas do estilo de vida que deixa de fora o consumo de artigos provenientes ou testado em animais. Entre eles, alimentos, bolsas e produtos de beleza. Hoje são mais de 240 restaurantes vegetarianos e veganos pelo país. A mais famosa cadeia de fast food do mundo, o Mc Donalds, entrou na onda e produz sanduíches para o nicho.

E há espaço para mais crescimento. De acordo com pesquisa feita pelo Ibope, 55% dos 2 mil entrevistados afirmaram que consumiriam mais produtos veganos se eles estivessem com rótulos bem informativos e 60% os comprariam se custassem o mesmo preço dos comuns. Em geral, eles são mais caros.

Ser vegano, na verdade, significa estar no alto de uma pirâmide que tem como base o vegetarianismo, a dieta que exclui o consumo de carne. No segundo patamar, estão os ovolactovegetarianos. Além de vegetais, eles se alimentam de ovos, leites e derivados. No terceiro ficam os chamados vegetarianos estritos, que não consomem nenhum alimento de origem animal incluindo mel, ovo e laticínios. Os veganos estão no topo e recusam, além da alimentação, todo produto que utiliza produtos feitos a partir de ou testados em animais

O que embala a escalada dos veganos é a disseminação da cultura que busca melhor qualidade de vida, incluindo no conceito o cuidado com a saúde de forma mais natural e o respeito ao meio ambiente e aos animais. “É uma mudança de dentro para fora”, diz a vegana Anna Karine Fukamizu. “Primeiro vem a informação e depois você muda seu comportamento”, completa. Barbara, filha de Anna, foi quem convenceu a mãe a adotar a filosofia de vida, há seis anos. Desde então, elas deixaram de comer produtos derivados ou testados de animais. Usam roupas de algodão e pasta de dente natural. A estudante Victoria Mayer foi outra que cortou ovos, leites e derivados e parou com carnes. “Não acho certo o maltrato aos animais.” Ela também só adquire produtos veganos.

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MERCADO EM ASCENSÃO

O aumento dos adeptos faz crescer o mercado. A Curaprox, por exemplo, especializada em produtos de limpeza bucal, lançou uma linha de pastas de dente vegana. Na composição, nenhum produto químico ou de origem ou testados em animais. “Os veganos podem usar sem medo”, afirma Hugo Lewzoy, CEO da marca. De acordo com o executivo, o creme dental possui uma enzima chamada glicose oxidase. Ela potencializaria a ação protetora da própria saliva, evitando a necessidade de antibactericidas químicos. Além disso, ela conteria extratos de ervas com propriedades regenerativas dos tecidos. O produto custa R$ 79.

Outra empresa é a Biozenthi, presente no Brasil, na Austrália, na Colômbia, no Equador e preparando-se para entrar no mercado espanhol. Ela fabrica cosméticos, artigos para cabelo e de higiene pessoal veganos. “Usamos cera de carnaúba para fazer batom, por exemplo”, explica Márcio Accordi, proprietário da companhia.

Assim como em relação ao vegetarianismo, há polêmica envolvendo a exclusão de alimentos de origem animal na dieta vegana. Médicos, nutricionistas e adeptos sabem que falta ao organismo de um vegano a vitamina B12, necessária para o bom funcionamento do sistema nervoso. “Mas mesmo quem não é vegano tem deficiência da vitamina. Normalmente, ela falta em 60% dos veganos e em 40% dos não veganos”, afirma a nutricionista Astrid Pfeiffer. Vegetariana há 14 anos, ela entrou para o veganismo há 6 meses. O prato perfeito para um vegano consiste em uma base de carboidrato (cereal integral, arroz integral, quinoa, trigo, cevada), leguminosas (feijões, lentinha, ervilha, grão de bico) e salada com muitas folhas verdes. “Conseguimos encontrar todos os nutrientes em uma refeição equilibrada”, diz Astrid. O médico Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, discorda. “É importante respeitar a liberdade de escolha individual de cada pessoa. Entretanto, do ponto de vista médico e nutricional, o que recomendamos é que, ao fazer qualquer opção alimentar restritiva, o indivíduo cheque como está sua saúde e tenha um acompanhamento regular para que todos os nutrientes necessários para mantê-la sejam contemplados na alimentação”, afirma. Ao que tudo indica, a discussão, iniciada com o vegetarianismo, se prolongará

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GESTÃO E CARREIRA

TUDO NO APLICATIVO

Os brasileiros que ganham dinheiro com aplicativos já são 5,5 milhões. Por trás dos apps estão empresas bilionárias que mudam a forma como trabalhamos, compramos, nos locomovemos e nos divertimos. O que ganhamos, e o que perdemos, com essa revolução?

Tudo no aplicativo

Não é preciso ser viciado em tecnologia para sua rotina caber num aplicativo de smartphone. Uma carona de carro ou um aluguel de patinete pode levá-lo ao trabalho enquanto um passeador busca seu pet para uma volta pelo bairro. Na hora do almoço, um motoboy entrega a refeição para dar tempo de você cortar o cabelo antes de voltar ao escritório, serviço também agendado pelo aplicativo. À noite, uma aula de inglês contratada pelo aplicativo e, depois, um jantar entregue em casa, onde as compras do supermercado estão à sua espera. Estamos em 2019, e os apps estão por toda parte. Cerca de 125 milhões de brasileiros têm acesso a internet e há 220 milhões de smartphones em circulação no país. Se a onipresença das plataformas digitais na rotina de uma parcela cada vez mais relevante da população não é novidade, seu poderio econômico nunca foi tão significativo, e tão disseminado. Em 2018, só nas regiões metropolitanas, 18 milhões de brasileiros usaram regularmente aplicativos para ganhar algum dinheiro, segundo levantamento inédito realizado pelo instituto de pesquisas Locomotiva. No país, quase 45 milhões de pessoas já usaram aplicativos para obter renda. A conta inclui os 5.5 milhões cadastrados como prestadores de serviços em plataformas como Uber, 99, iFood e Rappi, mas também os milhões de pessoas que usam as redes sociais Facebook e Instagram ou o aplicativo de mensagens WhatsApp para a prestação de serviços.

Os aplicativos são, claro, um fenômeno global. No mundo, apps de transporte e de entrega de comida deverão passar dos 130 bilhões de dólares em faturamento em 2023, segundo estimativa do site de estatísticas Statista. Em ambos, a China é a líder do mercado, seguida pela União Europeia e pelos Estados Unidos. No Brasil, as ferramentas de delivery de comida cresceram 20% em número de usuários no último ano, acima da média global, de 12%. O Brasil virou um dos terrenos mais férteis para a popularização dos apps por uma conjunção de fatores econômicos e sociais. A recessão que assola o país desde 2014 e a taxa de desemprego elevada levaram as pessoas a procurar serviços mais baratos e também a buscar novas formas de trabalho. Soma-se a esse cenário a ascensão das classes C, D e E, que passaram a consumir pela internet e, sobretudo, pelo celular. De 2010 a 2018, a penetração de smartphones na classe C passou de 42% para77%; entre as classes D e E, de 13% para 49%. É uma enorme fatia da população que vê no aparelho uma oportunidade de melhorar de vida, seja dirigindo um Uber, seja oferecendo doces e salgados pela internet. As operadoras, por sua vez, lançaram planos de internet cada vez mais baratos para fisgar esses consumidores/empreendedores – já é possível ter acesso à rede a 2 reais por dia. “É uma nova forma de conexão entre oferta e demanda, feita por meio dos aplicativos e com internautas nas duas pontas”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

A economia dos aplicativos começou a tomar corpo no Brasil em 2014. Meses antes da Copa do Mundo, chegou ao país a americana Uber; que prometia viagens baratas com motoristas não profissionais. Hoje, cinco anos depois, usar apps de transporte é um ato rotineiro para mais de 20 milhões de brasileiros. O Brasil é o segundo maior mercado da Uber no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com cerca de 600.000 motoristas. A empresa adotou inovações para o país, como o pagamento em dinheiro, que atinge um público sem conta em banco. A democratização do serviço é um fenômeno global: dados mundiais da pesquisa da Statista, referentes a 2018, mostram que, entre os usuários de aplicativos de  transporte, cerca de 60% têm renda média e baixa. “Onde mais crescemos é na periferia dos grandes centros, regiões em que fica mais evidente a falta de transporte adequado”, diz Saulo Passos, diretor de comunicação da Uber para a América Latina. A Uber e sua concorrente, a 99, acabaram sofrendo as dores dos pioneiros ao mostrar as oportunidades de uma economia voltada para os apps. “Os motoristas mal estavam acostumados a usar o celular, e muito menos para trabalhar”, diz Davi Miyake, gerente de operações da 99.

Com os apps de transporte, os brasileiros passaram a conhecer uma nova organização econômica, que se vale de avaliações dos usuários para construir uma base de confiança entre quem oferece e quem usa o serviço. É uma organização que mostrou que o futuro poderia se inspirar aos ideais libertários para tirar o governo e o poder público de cena. A lógica vai sendo, pouco a pouco, replicada para dezenas de negócios, e deve continuar ganhando força. “Antes os usuários dependiam da regulação do governo para saber se um serviço era bom ou não”, afirma o professor Sunil Johal, especialista em regulação e políticas públicas para economia compartilhada na Universidade de Toronto, no Canadá. Para Eduardo Baer, presidente da startup DogHero, esse é o grande valor da economia compartilhada. “Nas grandes cidades, as pessoas se tornam anônimas e preferem confiar em grandes empresas. Mas, com a informação que esses aplicativos criam, voltamos a saber quem presta um bom serviço”, afirma. A DogHero oferece serviços de hospedagem e caminhada de cachorros. Criada em 2014, tem 18.500 anfitriões e passeadores cadastrados para servir 800.000 cachorros, em 750 cidades da Argentina, do Brasil e do México. Para que um passeador ou um anfitrião entrem na plataforma, devem passar por treinamentos on-line que mostram, por exemplo, sintomas que indicam que o pet deve ser levado ao veterinário. A revolução dos apps não deve parar em seu labrador de estimação. “O capitalismo de multidão só tende a crescer nos próximos 20 anos. Devemos ver mais progressos em áreas como saúde e até energia, com as pessoas podendo comprar eletricidade de seus vizinhos”, diz Arun Sundararajan, professor na Universidade de Nova York e autor do livro Economia Compartilhada: o Fim do Emprego e a Ascensão do Capitalismo de Multidão.

As dez maiores plataformas de produtos e serviços em atuação no Brasil já passaram faz tempo da fase de startup que cabe em meia dúzia de mesas de um coworking. O ano de 2019, aliás, tem sido visto como um marco da maturidade dessas companhias mundo afora. A empresa americana de mobilidade urbana Lyft abriu o capital no mês passado e está avaliada em cerca de 24 bilhões de dólares. A Uber planeja sua própria abertura, projetando um valor de mercado de 120 bilhões de dólares. Do outro lado do mundo, um aplicativo como o Meituan Dian ping, da China, realiza 178 serviços por segundo, como pedidos de comida, compra de ingressos e reserva em hotéis. Considerada a “Amazon dos serviços”, a chinesa acumula 400 milhões de usuários pagantes em 2018 e um valor de mercado de 297 bilhões de dólares (mais da metade do valor do Facebook). O interesse dos investidores se repete em aplicativos brasileiros. Em janeiro do ano passado, a 99 foi adquirida pelo gigante chinês de mobilidade Didi Chuxing numa transação estimada em 1 bilhão de dólares. Em novembro do mesmo ano, uma rodada de 500 milhões de dólares recebida pelo app de entregas iFood foi o maior investimento sem aquisição já visto na América Latina. Aplicativos que ligam produtos e serviços dominaram seis dos dez maiores investimentos na América Latina de 2012 a 2018. O aumento de liquidez permite que os aplicativos consigam investir em sua expansão e deixem a busca do lucro para o futuro – bem para o futuro, só pensaremos em oportunidades futuras de lucro depois de satisfazer consumidores, restaurantes e entregadores”, diz Jason Droege, diretor da Uber Everything, divisão de novos negócios da Uber. O mercado de aplicativos coloca frente a frente empresas brasileiras e estrangeiras. Entre os brasileiros, nenhuma companhia tem números tão impressionantes quanto a Movile, que já conta com 2.300 funcionários. A empresa foi criada na virada do milênio, com mensagens de texto. Seu ecossistema de aplicativos já atingiu mais de 350 milhões de usuários. Com taxa de crescimento anual de 60%, planeja chegar a 1 bilhão de usuários até o fim de 2020. Uma de suas maiores apostas para atingir a meta é o iFood, pioneiro na transformação de pedidos telefônicos em pedidos digitais. Criado em 2011, o app foi comprado pela Movile em 2014. O iFood faz 17,4 milhões de entregas mensais para 12,6 milhões de consumidores. Eles se conectam a 66.000 restaurantes em mais de 500 cidades brasileiras por meio de 120.000 entregadores. O iFood cresce no pique de 3 dígitos por ano. Sua maior concorrente é a colombiana Rappi, que tem 60.000 entregadores no mundo e cresce cerca de 30% ao mês no Brasil. Esse mercado ainda pode crescer muitas vezes e temos o potencial de estar entre as maiores empresas de delivery do mundo”, diz Carlos Moyses, presidente do iFood. A empresa está investindo até na entrega por drone, a ser implementada quando conversas regulatórias avançarem, o computador vai decidir sua próxima refeição”, diz Fabrício Biais, fundador da Movile. Talvez nenhum dos grandes aplicativos em atuação no país seja tão brasileiro quanto o GetNinjas, ferramenta que conecta prestadores de serviços a potenciais clientes. São mais de 200 tipos de serviço de mais de 500.000 prestadores – que incluem advogados, designers, churrasqueiros, chaveiros, encanadores, e por aí vai. O aplicativo nasceu no Brasil em 2011, para formalizar os bicos, e hoje opera também no México. O fundador, o engenheiro Eduardo Chatellier, criou o GetNinjas ao ter problemas para achar um pintor no mar de classificados da internet. Na plataforma, os próprios prestadores de serviços estabelecem um preço e negociam diretamente com o cliente, e o GetNinjas cobra uma taxa que vai de 1 a 8 reais. Em 2018, os serviços contratados pela plataforma movimentaram 300 milhões de reais. Parte desse montante veio do casal Tatiana Dias Moura e Felipe Rodrigues de Oliveira, que entraram no GetNinjas pouco depois de abrir seu negócio de conserto de celulares, a FixOnline, em 2017. A empresa que começou num quarto enquanto Oliveira estava desempregado, tem hoje 11 funcionários e fatura cerca de 110.000 reais por mês. O casal abriu uma loja física em Perdizes, em São Paulo, mas só 10% dos atendimentos vêm do balcão. “Ajudamos o profissional autônomo a se enxergar como realmente é: um microempreendedor”, diz Chatellier.

O estímulo ao empreendedorismo é um fator em comum entre as diversas grandes empresas de aplicativos do país. Os apps de entregas Uber Eats e Rappi, por exemplo, estão investindo em restaurantes que operam a portas fechadas e atendem apenas a pedidos por aplicativo. A ideia seduziu a empreendedora Matilde Arruda em outubro de 2018. quando ela ainda trabalhava com os pais em uma rede de temakerias. Com início em dezembro, os dois restaurantes do Sushi Plus em São Paulo atendem apenas pelo Uber Eats e recebem 16.000 pedidos por mês, com tíquete médio de 24 a 30 reais. Matilde diz ter investido cerca de 150.000 reais para iniciar o negócio, um terço do que gastaria montando um restaurante tradicional. Estabelecimentos com histórico também resolveram investir em parcerias com aplicativos. A rede de empanadas La Guapa, comandada pelos empreendedores Benny Goldenberg e Paola Carosella, planeja para o meio do ano a abertura de uma cozinha exclusiva para o Rappi. Ela se juntará a cinco lojas de rua em São Paulo, com 90 funcionários e 85.000 empanadas vendidas por mês. Entregas em domicílio representam de 25% a 30% dos pedidos no LaGuapa, proporção que deverá chegar a 50% com a nova unidade. “Hoje, damos prioridade aos clientes que estão no restaurante nos horários de pico e, às vezes, tenho de desligar o aplicativo. Isso não vai mais acontecer”, afirma Goldenberg. A plataforma de comércio eletrônico Mercado Livre tem 296.000 vendedores que utilizam o site como principal fonte de renda, segundo a empresa. “Criamos ferramentas para que o pequeno varejista brigue de igual para igual com as lojas oficiais”, diz Julia Rueff, diretora de marketplace do Mercado Livre. A economia puxada por aplicativos serve de ponto de partida para um ciclo virtuoso que acaba por transformar diversos setores. Um exemplo está no transporte. O país gasta o equivalente a 12.7% do produto interno bruto na cadeia de armazenamento e transporte de itens. A startup Loggi criada em 2013, mira esse gargalo. O aplicativo conecta empresas donas de cargas a uma frota de 17.000 moto- fretistas e motoristas de vans e cresceu 275% em um ano, para 3 milhões de entregas em fevereiro. A expectativa é fazer 5 milhões de entregas por dia até 2023. A vertical mais recente da Loggi é a de entregas para restaurantes e supermercados. “O futuro da logística está na integração entre os varejos físicos e on-line”, diz o fundador, o francês Fabien Mendez.

Assim como Mendez está ajudando a mudar o mercado de entregas, outros aplicativos atuam para transformar seus setores para além dos olhos do consumidor. É uma revolução silenciosa. O crescimento do site de hospedagens Airbnb, por exemplo, não mudou apenas o mercado de hotelaria, mas levou à criação de novas companhias. Elas realizam check-in, checkout e gerenciamento de chaves e podem ficar responsáveis por trocar as toalhas e as roupas de cama para os hóspedes. Um exemplo é a Luckey Homes, empresa francesa adquirida pela plataforma em dezembro por valor não revelado. Criada em 2015, a startup gerencia propriedades do Airbnb em mais de 20 cidades francesas. Segundo Leo Tristão, diretor-geral do Airbnb no Brasil, o próximo passo é mudar a forma como os empreendimentos são construí dos. “As incorporadoras já estão desenvolvendo imóveis pensado em compartilhamento”, afirma Tristão. O iFood criou há dois ano o iFoodShop, marketplace que une 150 fornecedores de 15.000 ingredientes e embalagens a 55.000 restaurantes cadastrados. Pelo volume agregado de compras, o uso do iFoodShop gera uma economia de 20% aos estabelecimentos. “Queremos revolucionar o mercado de alimentação, e isso não se restringe ao delivery para os consumidores” diz o presidente Carlos Moyses. A locadoras de veículos, que inicialmente viam Uber e 99 como inimigos, descobriram novas oportunidades. Os aplicativos trouxeram um novo perfil de cliente: os próprios motoristas. “Quando esse serviço chegou ao Brasil, havia muitos motoristas sem dinheiro para financiar um carro próprio. Foi aí que ganhamos”, diz Jamyl Jarris, diretor executivo da locadora Movida. Os motoristas de aplicativo representam cerca de 10% dos carros alugados na empresa. O setor de locação movimentou, em 2018, quase 14 bilhões de reais no Brasil. A Movida criou recentemente um cartão para que o motorista sem capital inicial possa pagar a locação depois de usar o carro, com o rendimento das próprias corridas, enquanto a mineira Localiza Hertz, líder do setor, criou um aplicativo exclusivamente para os motoristas, facilitando a locação dos carros da rede. Na Grande São Paulo, a Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo (Amasp) estima que 60% da frota que serve os aplicativos seja alugada, sendo 85% vindos de locadoras. “Os outros 15% são, principalmente, motoristas que viram empresários e conseguem comprar uma frota própria e alugar para colegas”, diz Eduardo Lima de Souza, presidente da Amasp.

Uma das grandes perguntas em aberto é se estamos vivendo uma bolha de euforia que, no limite, vai estourar, deixando prestadores de serviços e consumidores na mão. O risco existe, e é mensurável. Há no planeta mais de 1 trilhão de dólares aplicados em negócios de altíssimo risco, que têm em comum o fato de não gerar um centavo de lucro. É o que acontece com quase todas as empresas citadas nesta reportagem, que dependem de aportes para continuar investindo em marketing e em promoções. Categorias mais organizadas, como a dos taxistas, alertam para o risco de, uma vez monopolistas, essas empresas aumentarem os preços.

Também há uma discussão crescente sobre as responsabilidades trabalhistas dos apps. Os empreendedores têm, até aqui, um histórico de bons resultados para apresentar. Criada em 2015, por exemplo, a Singu oferece agendamento com 3.000 manicures, pedicures, massagistas e esteticistas, um mercado eminentemente informal. Os salões de beleza não são obrigados a contratar profissionais pelo regime em carteira desde 2016, com a Lei do Salão Parceiro. “O trabalhador brasileiro já percebeu que ser empregado pela CLT não vale a pena, por causa do alto volume de impostos. Ele prefere atuar como autônomo em plataformas como Uber, Singu e Rappi”, afirma Tallis Gomes, fundador da Singu. Para ele, a vantagem da plataforma é ajudar o profissional a ganhar mais, já que fica com 35% da receita, enquanto há salões que embolsam até 70%.

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Atuar como autônomo também tem suas desvantagens, evidentemente. De acordo com uma pesquisa que Renan Kalil, pesquisador da Universidade de São Paulo, realizou com motoristas da Uber na capital paulista, 53% deles trabalham mais de 10 horas por dia e 68% dirigem mais de cinco dias na semana. O objetivo é gerar renda para pagar suas despesas imediatas, ou seja, conseguir um mínimo para sobreviver. Nesse sentido, já que na maioria das vezes não se trata de um trabalho para obtenção de renda extra, será que essas pessoas podem ser consideradas funcionárias da Uber? A companhia, como as demais de mobilidade, diz que não. Contudo, autoridades ao redor do mundo têm visto o fenômeno de forma distinta. O Reino Unido decidiu que os motoristas da Uber compõem uma categoria intermediária entre empregado e autônomo. Em janeiro, a Uber e sua concorrente Cabify anunciaram o fim das operações em Barcelona, na Espanha, pelo que consideram regulações excessivas. Nos Estados Unidos, a Uber processou neste ano a prefeitura de Nova York por causa de regulações. Em 2017, a empresa chegou a ser proibida de operar em Londres. Assim como ocorre no exterior, o Brasil também se vê em meio a esse debate. Auditores fiscais do trabalho autuaram, em meados do ano passado, empresas como a Rappido, que pertence à Movile. No fim de 2017, a Loggi também foi autuada. Recentemente, o Ministério Público do Trabalho divulgou um estudo apontando a possibilidade de reconhecimento de vínculo entre trabalhadores e plataformas, criando uma nova categoria para classificar esses profissionais que atendem aos aplicativos.

Se há um ponto positivo nessa nova relação de trabalho é o fato de que motoristas e outros prestadores de serviços têm a chance de contribuir para a Previdência – seja pagando por conta própria, seja tornando-se um microempreendedor individual (MEI). Em 2018, o setor de entrega rápida (motoboys) ganhou 44.000 novos cadastros de pessoa jurídica, um crescimento de 148% em comparação com 2017.lsso é reflexo justamente do avanço dos aplicativos que passaram a exigir que os profissionais fossem formalizados. Também é possível notar o crescimento expressivo em atividades de transporte de passageiros, como taxistas e motoristas de aplicativos como Uber e 99. Foram18.000 novos taxistas que se tornaram microempreendedores individuais, representando um aumento de 42% em relação a 2017, de acordo com dados exclusivos da companhia MEI Fácil. Segundo o Instituto Locomotiva, sete entre dez trabalhadores que geram alguma renda com aplicativo nas regiões metropolitanas não têm emprego com carteira assinada, e 67% são das classes C, D e E (enquanto só 7% são da classe A). “Por um lado, os governos não devem inibir plataformas que empoderam as pessoas. Por outro lado, plataformas como Uber e Lyft não permitem que seus motoristas definam preços nem tomem decisões de marketing. É nessa fatia que os governos deveriam atuar para evitar um aumento das desigualdades”, diz Sundararajan, da Universidade de Nova York. É uma realidade nova, que colocará empresas, prestadores de serviços, consumidores e governos diante de questões novas. Como mostra a próxima reportagem, a realidade insiste em se adiantar às regulações. Em muito pouco tempo, separar a economia dos aplicativos do restante da sociedade será simplesmente impossível. Para um país com 13milhões de desempregados e com uma economia que insiste em não decolar, uma coisa é certa: quanto mais inovação, melhor.

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