ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 46-50

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Quem São os Parentes de Cristo

Muitas palavras admiráveis e úteis saíram dos lábios de nosso Senhor Jesus Cristo em ocasiões especiais; até as suas divagações eram educativas, assim como os seus discursos, como aqui:

Observe:

I – Como Cristo foi interrompido, em suas pregações, por sua mãe e seus irmãos, que estavam fora, e desejavam falar com Ele (vv. 40-47); esse desejo deles lhe foi transmitido pela multidão. É desnecessário indagar quais eram os seus irmãos que vieram com Maria (talvez fossem aqueles que não criam nele, João 7.5); ou qual era o assunto deles. Talvez tivessem somente a intenção de interrompê-lo, por temerem que Ele se cansasse, ou para adverti-lo de que prestasse atenção para não ofender com o seu discurso os fariseus, ou ainda se envolvesse em apuros; como se eles pudessem lhe ensinar sabedoria.

1.Ele estava ainda falando com o povo. Observe que a pregação de Cristo estava sendo proferida; era simples, fácil, familiar e condizia com a capacidade e exemplo dos ouvintes. Aquilo que Cristo dizia, era criticado, e ainda assim Ele continuou. Note que a oposição que encontramos no nosso trabalho não deve nos afastar dele. Ele parou de falar com os fariseus, porque viu que não poderia fazer nada de bom por eles; mas continuou a falar com as pessoas comuns, que, não tendo tal presunção de seu conhecimento como os fariseus tinham, estavam desejosas de aprender.

2.Sua mãe e irmãos estavam do lado de fora, desejando falar com Ele, quando deveriam estar do lado de dentro, ouvindo-o. Eles tinham a vantagem de sua conversa diária em particular, e, por consequência, não se preocupavam tanto em comparecer à sua pregação pública. Observe que frequentemente aqueles que estão muito próximos dos meios do conhecimento e da graça, são mais negligentes. A familiaridade e a facilidade de acesso originam doses de desdém. Nós somos capazes de negligenciar, neste dia, aquilo que achamos que podemos ter em qualquer dia, esquecendo-nos de que só podemos ter certeza do tempo presente; o amanhã não nos pertence. Há muita verdade neste provérbio simples: “Quanto mais próximo da igreja, mais longe de Deus”; é uma pena que este provérbio seja verdadeiro, em alguns casos.

1.Eles não somente não o ouviriam, mas também interromperiam outros que o ouviam satisfeitos. O diabo era um inimigo declarado à pregação do Salvador. Ele procurou frustrar o seu discurso com a crítica ir racional dos escribas e fariseus, e quando não conseguiu marcar o seu ponto desta maneira, se empenhou em interrompê-lo com a visita inoportuna dos seus parentes. Observe que frequentemente nos deparamos com impedimentos e obstáculos em nosso trabalho, por parte dos nossos amigos que estão ao nosso redor, e que tentam nos remover de nosso relacionamento espiritual através das relações civis. Aqueles que realmente desejam o bem para nós e para o nosso trabalho, podem, às vezes, por sua indiscrição, se tornar falsos amigos, nos obstruindo em nosso dever; assim como Pedro foi ofensivo com Cristo, através de sua expressão: “Senhor, tem compaixão de ti”. O apóstolo pensou que estivesse sendo muito agradável ao Senhor ao proferir estas palavras. A mãe de nosso Senhor desejava falar com Ele; parecia que ela não tinha aprendido a controlar o seu Filho, conforme a iniquidade e a idolatria da igreja romana desejariam ensiná-la; nem ela não estava tão livre das faltas e da insensatez como eles supunham. Era a prerrogativa de Cristo, e não a de sua mãe, fazer tudo sabiamente, e bem, e no momento propício. Certa vez Ele disse à sua mãe: “Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” E então foi dito que “sua mãe guardava no coração todas essas coisas” (Lucas 2.49,51). Mas se ela tivesse se lembrado disso nesse momento, não o teria interrompido quando estava tratando dos negócios de seu Pai. Observe que há muitas verdades úteis que pensávamos ter sido bem guardadas quando as ouvimos; porém, elas parecem estar fora do nosso alcance, quando temos a oportunidade de usá-las.

II – Como Jesus reprovou esta interrupção (vv.48-50).

1.Ele não daria atenção a ela porque estava tão absorto em seu trabalho que nenhum motivo natural ou civil o afastaria dele. “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?” Isto não significa que a afeição natural possa ser evitada, ou que, sob a desculpa da religião, possamos ser desrespeitosos com os pais, ou indelicados com outros parentes, mas cada coisa é bela no momento propício, e o dever menor deve esperar, enquanto o maior é realizado. Quando a nossa atenção aos nossos parentes compete com o serviço a Deus, e temos a oportunidade de fazer o bem, em tal situação devemos dizer a nosso Pai: “Nunca o vi”, como disse Levi (Deuteronômio 33.9). Os parentes mais próximos devem ser tratados dessa forma, isto é, devemos amá-los menos do que a Cristo (Lucas 14.26), e o nosso dever para com Deus deve ter a preferência. Cristo nos deu aqui um exemplo sobre isso; a dedicação à casa de Deus o consumiu, a ponto de fazer com que Ele se esquecesse não apenas de si mesmo, mas também dos seus parentes mais queridos. E nós não devemos nos sentir ofendidos com os nossos amigos, nem exagerar por causa de suas maldades, se eles preferirem agradar a Deus antes de nos agradar; mas devemos prontamente perdoar estas negligências que podem facilmente ser atribuídas a uma dedicação religiosa à glória de Deus e ao bem dos outros. Nós devemos negar a nós mesmos e à nossa própria satisfação, em vez de fazer aquilo que pode, de alguma maneira, desviar nossos amigos, ou afastá-los do seu dever para com Deus.

2;Jesus aproveitou aquela ocasião para dar preferência aos seus discípulos – que eram a sua família espiritual -, e não aos seus parentes naturais. Esta é uma boa razão que explica por que Ele não deixaria de pregar para falar com seus irmãos, preferindo favorecer os seus discípulos a agradar os seus parentes. Observe:

(1). A descrição dos discípulos de Cristo. Eles faziam a vontade do seu Pai; não somente a ouviam, mas a conheciam e falavam dela, e também a praticavam; porque fazer a vontade de Deus é o melhor preparativo para o discipulado (João 7.17), e a melhor prova dele (cap. 7.21) ­ é o que nos estabelece como seus verdadeiros discípulos. Cristo não diz: “Qualquer que fizer a minha vontade”, porque Ele não veio realizar ou fazer a sua própria vontade, uma vontade distinta da vontade do seu Pai: a sua vontade e a do seu Pai são as mesmas. Mas Ele nos conduz a fazer a vontade do seu Pai, porque, naquele momento, vivendo aqui na terra, Ele também se sujeitou a esta preciosa vontade (João 6.38).

(2). A dignidade dos discípulos de Cristo: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos”. Os seus discípulos, que deixaram tudo para segui-lo e aceitaram a sua doutrina, eram mais queridos por Ele do que qualquer um com quem tivesse um parentesco segundo a carne. Ao invés de seus parentes, eles tinham dado preferência a Cristo; deixaram seus pais (cap. 4.22; 10.37); e agora para compensá-los, e mostrar que não havia amor perdido, Ele dava preferência a eles ao invés de aos seus parentes. Por causa disso, eles não haviam de receber “cem vezes tanto”? (cap. 19.29). Era muito encorajador e afetuoso para Cristo dizer: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos”; mas este privilégio não era só deles, pois todos os santos têm esta honra. Observe que todos os crentes obedientes são parentes próximos de Jesus Cristo. Eles usam o seu nome, trazem em si mesmos a sua imagem, têm a sua natureza, são a sua família. Ele os ama, e conversa livremente com eles como se fossem seus parentes. Ele os recebe em sua mesa, cuida deles, provê o seu sustento, e se certifica de que não queiram nada que não seja bom para si mesmos. Quando Ele morreu, deixou-lhes uma rica herança. E agora que está no céu, Ele continua a manter contato com eles, todos estarão com Ele no final, e Ele desempenhará a função de parente remidor (Rute 3.13). O Senhor não se envergonhará de seus parentes pobres, mas os confessará diante dos homens, diante dos anjos, e diante do seu Pai.

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 38-45

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Os Fariseus Pedem um Sinal

É provável que esses fariseus com quem Cristo se deparou na ocasião desse sermão não fossem os mesmos que o criticaram (v. 24), e não acreditaram nos sinais que Ele fez; mas outro grupo deles, que viram que não havia razão para desacreditá-los, mas não se contentariam com eles, nem admitiriam a sua evidência, a menos que Ele lhes desse mais provas de acordo com a exigência deles. Aqui está:

 

I – A saudação deles para com Ele (v. 38). Eles o saudaram com o título de “Mestre”, fingindo ter respeito por Ele, quando, na verdade, pretendiam maltratá-lo; pois nem todos eram servos de Cristo para chamá-lo de Mestre. A solicitação deles foi: “Quiséramos ver da tua parte algum sinal”. Era muito razoável que eles vissem um sinal, e que o Senhor Jesus pudesse, através dos milagres provar a sua missão divina (veja Êxodo 4.8-9). Ele veio para anular um modelo de religião que estava baseado em milagres, e, consequentemente, era necessário que Ele produzisse as mesmas referências; mas era extremamente irracional exigir um sinal agora, quando Ele já tinha dado tantos sinais que provavam copiosamente que Ele tinha sido enviado por Deus. Observe que é natural para o homem arrogante exigir de Deus, e fazer disso uma desculpa para não aceitá-lo; mas a ofensa de um homem nunca será a sua defesa.

 II – A resposta de Jesus para esta saudação, esta exigência insolente:

1.Ele condena a exigência, classificando-a como a linguagem de uma geração má e adúltera (v. 39). Ele impõe a acusação não somente sobre os escribas e fariseus, mas sobre toda a nação dos judeus; todos eles eram semelhantes aos seus líderes, eram uma descendência e sucessão de malfeitores. Eles, na verdade, eram uma geração má, pois não somente se obstinaram contra a convicção dos milagres de Cristo, como também se uniram para maltratá-lo e desprezar os seus milagres. Eles eram uma geração adúltera:

(1) Como uma descendência adúltera, estavam tão miseravelmente degenerados quanto à fé e a obediência de seus antepassados, que Abraão e Israel não os reconheceriam. Veja Isaias 57.3. Ou:

(2) Como uma esposa adúltera, eles se afastaram daquele Deus, com quem, por concerto, eles tinham se casado. Eles não eram culpados por se prostituírem pela idolatria, como tinham feito antes pela servidão, mas eram culpados pela infidelidade e por toda iniquidade que também é prostituição. Eles não procuraram deuses de sua própria criação, mas procuraram por sinais de sua própria invenção, e isto era adultério.

2.Jesus se recusa a dar-lhes qualquer outro sinal além dos que já havia apresentado, exceto o do profeta Jonas. Observe que embora Cristo esteja sempre pronto para ouvir e atender às orações e aos desejos verdadeiros, ainda assim Ele não satisfará luxúrias pervertidas e caprichos. Aqueles que pedem errado, pedem, mas não recebem. Os sinais foram concedidos para aqueles que os desejavam para a confirmação de sua fé, como Abraão e Gideão; mas foram negados para aqueles que os exigiam como desculpa para a sua incredulidade.

Com muita justiça, Cristo disse que Eles nunca presenciariam outro milagre; mas veja a bondade maravilhosa do Senhor:

(1) Eles terão os mesmos sinais ainda repetidos, para seu benefício adicional e para a sua convicção ainda mais ampla.

(2) Eles terão um tipo de sinal diferente de todos esses, que é a ressurreição de Cristo pelo seu próprio poder, aqui chamado de sinal do profeta Jonas – isto ainda estava reservado para a convicção deles, e seria uma grande prova de que Cristo era o Messias; por isso Ele foi declarado como o “Filho de Deus em poder” (Romanos 1.4). Este foi um sinal que superou todos os outros, completando-os e coroando-os. Se por acaso ainda não crerem nestes sinais, crerão neste (Êxodo 4.9), e se isto não os convencer, nada o fará. Mas ainda assim os judeus, em sua incredulidade, tentaram encontrar uma evasiva para evitar maiores constrangi­ mentos, quando disseram: “Vieram de noite os seus discípulos e, dormindo nós, o furtaram”; pois ninguém é tão irremediavelmente cego quanto aqueles que estão de­ terminados a não ver.

Agora, quanto ao sinal do profeta Jonas, Jesus esclarece aqui (v. 40): “Como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do Homem três dias e três noites no seio da terra”. E após este período, Ele saiu dali.

[1] O sepulcro era, para Cristo, o que o ventre da baleia era para Jonas. Ali Cristo ficou, como um resgate pelas vidas prestes a serem perdidas numa tempestade; lá Jonas ficou, como no ventre do inferno (Jonas 2.2), e pareceu ser banido da visão de Deus.

[2] Ele permaneceu no sepulcro exatamente o mesmo período que Jonas permaneceu no ventre da baleia, três dias e três noites; não três dias e noites inteiros. É provável que Jonas não tenha permanecido tanto tempo no ventre da baleia, mas parte dos três dias normais. Jesus foi sepultado na tarde do sexto dia da semana, e ressuscitou na manhã do primeiro dia; esta era uma maneira de falar muito comum (veja 1 Reis 20.29; Efésios 4.16; 5.1; Lucas 2.21). O mesmo período de tempo em que Jonas foi um prisioneiro por seus pecados, Cristo foi um prisioneiro pelos nossos.

[3] Assim como Jonas se consolou no ventre da baleia com a certeza de que ainda “tornaria a ver o templo da… santidade” de Deus (Jonas 2.4), também diz-se expressamente que Cristo, quando permaneceu na sepultura, repousou em esperança, como alguém que recebe a certeza de não ver a corrupção (Atos 2.26,27).

[4] Como Jonas, no terceiro dia, foi liberado de sua prisão, e retornou à terra dos vivos novamente, vindo da congregação dos mortos (diz-se que as coisas mortas estão debaixo das águas, Jó 26.5), também Cristo, no terceiro dia, retornaria para a vida, e se levantaria do seu túmulo e difundir o Evangelho aos gentios.

3.Cristo aproveita esta ocasião para revelar o caráter e a triste condição da geração em que Ele viveu, uma geração que não poderia ser transformada, e, consequentemente, só poderia ser destruída; e mostrou-lhes o seu caráter, como Ele estaria no dia do julgamento, sob as revelações e sentenças finais daquele dia. Pessoas e coisas aparecem agora sob cores falsas; condições e caráter são passíveis de transformação aqui; portanto, se pudermos fazer uma avaliação correta, deveremos tomar nossas providências sobre o último julgamento; a verdadeira identidade das coisas e pessoas é aquilo que serão eternamente, e não aquilo que são hoje.

Aqui Cristo revela o povo judeu:

(1) Como uma geração que seria condenada pelos homens de Nínive, cujo arrependimento pela pregação de Jonas se ergueria no julgamento contra eles (v. 41). A ressurreição de Cristo será para eles o sinal do profeta Jonas – mas não terá sobre eles um efeito tão favorável, como o de Jonas teve sobre os ninivitas. Por Jonas, eles foram levados ao arrependimento que evitou a sua destruição; mas os judeus serão obstinados na descrença que deverá apressar a sua destruição; e no Dia do Juízo, o arrependimento dos ninivitas será mencionado como um agravamento do pecado, e, consequentemente, a condenação daqueles para quem Cristo pregou então, e daqueles a quem Cristo está pregando agora; por esta razão, Cristo é maior que Jonas.

[1] Jonas era apenas um homem, sujeito às mesmas paixões pecaminosas que nós; mas Cristo é o Filho de Deus.

[2] Jonas era um forasteiro em Nínive, ele veio entre os forasteiros que sofreram preconceito contra seu país; mas Cristo veio aos seus quando pregou aos judeus, e muito mais quando é pregado entre os cristãos professos, que são chamados pelo seu nome.

[3] Jonas pregou apenas um curto sermão, sem grandes solenidades, à medida que andava pelas ruas; Cristo renovou os seus chamados, sentou-se e ensinou, e ensinou nas sinagogas.

[4] Jonas pregou nada além de ira e ruína no prazo de 40 dias; não deu instruções, orientações ou incentivo para que se arrependessem; mas Cristo, além de nos avisar sobre o nosso perigo, mostrou do que devemos nos arrepender, e nos assegurou da aceitação que temos mediante o nosso arrependimento, porque é chegado o Reino dos céus.

[5] Jonas não realizou nenhum milagre para confirmar a sua doutrina, nem mostrou boa vontade para com os ninivitas; mas Cristo realizou muitos milagres, e todos eles milagres de misericórdia; ainda assim, os ninivitas se arrependeram através da pregação de Jonas, mas os judeus não foram transformados pela pregação de Cristo. Note que a bondade de alguns, que têm menos amparo e benefícios para suas almas, agravará a maldade daqueles que têm muito mais. Aqueles que no crepúsculo descobrem as coisas que pertencem à sua paz envergonharão aqueles que tateiam ao meio-dia.

(2) Como uma geração que seria condenada pela Rainha do Sul, a Rainha de Sabá (v. 42). Os ninivitas se envergonhariam deles por não se arrependerem, a Rainha de Sabá, por não crerem em Cristo. Ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; embora o povo não seja persuadido a vir e ouvir a sabedoria de Cristo, mesmo assim Ele é mais do que Salomão.

[l] A Rainha de Sabá não tinha convite para vir até Salomão, ou qualquer promessa de ser bem recebida; mas nós somos convidados por Cristo para nos sentarmos aos seus pés e ouvirmos suas palavras.

[2] Salomão era apenas um homem sábio, mas Cristo é sabedoria em si, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria”.

[3] A Rainha de Sabá teve muitas dificuldades para chegar até Salomão: ela era uma mulher, inapta para fazer uma viagem longa e perigosa; era uma rainha, e o que seria do seu país na sua ausência? Nós não temos tais preocupações que nos impeçam.

[4] Ela não podia ter certeza de que valeria a pena ir tão longe nessa missão; a fama costuma adular os seres humanos, e talvez ela tivesse em seu país ou corte homens suficientemente sábios para instruí-la; ainda assim, tendo ouvido falar sobre a fama de Salomão, foi vê-lo; mas nós não vamos até Cristo com tais incertezas.

[5] Ela veio dos confins da terra, mas nós temos Cristo entre nós, e a sua palavra próxima de nós: “Eis que estou à porta e bato”.

[6] Aparentemente, a sabedoria pela qual a Rainha de Sabá veio de tão longe era somente filosofia e política; mas a sabedoria que se deve ter em Cristo é a sabedoria para a salvação.

[7] Ela só poderia ouvir a sabedoria de Salomão; ele não poderia dar sabedoria a ela; mas Cristo dá sabedoria para aqueles que vêm até Ele; mais ainda, Ele mesmo será a sabedoria de Deus para eles; de maneira que, com todos estes relatos, se nós não ouvirmos a sabedoria de Cristo, a audácia da Rainha de Sabá em vir e ouvir a sabedoria de Salomão se erguerá em julgamento contra nós e nos condenará; porque Jesus Cristo é mais e maior que Salomão.

(3) Como uma geração que resolveu continuar no domínio, e sob o poder, de Satanás, apesar de todos os métodos que foram usados para expulsá-lo e salvá-los. Eles são comparados a alguém de quem o diabo se foi, mas retorna com força multiplicada (vv. 43-45). O demônio é chamado aqui de espírito imundo, porque perdeu toda a sua pureza e promove todas as formas de impureza entre os homens, e se deleita com elas. Aqui:

[l] A parábola representa a possessão que o demônio faz dos corpos dos homens – Cristo havia recentemente expulsado um demônio, porém eles disseram que Ele tinha um demônio; isto mostrou o quanto eles estavam sob o poder de Satanás. Esta é mais uma prova de que Cristo não expulsou os demônios por ter um acordo com o diabo, porque se fosse assim, ele teria logo retornado; mas a expulsão dele por Cristo foi final, e de tal modo que barrava uma reentrada; nós o encontramos ordenando ao espírito imundo que saísse, e não entrasse novamente (Marcos 9.25). Provavelmente, algumas vezes, o demônio estava acostumado a zombar dessa maneira daqueles que eram possuídos; ele saía e retornava com mais fúria; por isso os intervalos lúcidos daqueles que estavam nessas condições eram comumente seguidos dos mais violentos ataques. Quando o demônio sai, ele fica inquieto, porque, como os ímpios, não repousa se não fizer mal (Provérbio 4.16); anda por lugares áridos, como alguém que está muito melancólico; busca repouso, e não o encontra, até retornar novamente. Quando Cristo baniu a legião de demônios do homem, eles imploraram para sair e entrar em uma manada de porcos, e já não foram para lugares áridos, mas para dentro do lago.

[2] A aplicação da parábola serve para representar o caso do corpo da religião judaica e a nação: ”Assim acontecerá também a esta geração má”, que agora resiste e finalmente rejeitará o evangelho de Cristo. O demônio, que, pelo trabalho de Cristo e dos seus discípulos, foi expulso de muitos judeus, procurou abrigar-se entre os pagãos, tendo saído daquelas pessoas e templos de onde os cristãos o expulsariam. Conforme o Dr. Whitby, pode ser que eles não tenham encontrando outro lugar, no mundo pagão, onde sentissem tal prazer, habitações agradáveis, para a sua satisfação, como aqui no coração dos judeus. Conforme o Dr. Hammond, Satanás deverá, portanto, entrar novamente neles, pois Cristo não encontrou acesso entre eles, e eles, por sua prodigiosa maldade e descrença obstinada, não estavam, de forma alguma, prontos para recebê-lo. E então sofreriam aqui uma possessão duradoura, e a condição desse povo provavelmente seria mais desesperadamente deplorável (conforme o Dr. Hammond) do que era antes que Cristo viesse a eles, ou mais do que teria sido se Satanás nunca tivesse sido expulso.

A comunidade dessa nação está aqui representada. Em primeiro lugar, como um povo apóstata. Depois do cativeiro na Babilônia, eles começaram a transformação, abandonaram os seus ídolos e apareceram com algum tipo de religião; mas logo se corromperam novamente; embora nunca tivessem reincidido na idolatria, caíram em todas as formas de irreligiosidade e profanação, pioraram cada vez mais, e adicionaram a todo o resto de sua maldade um desprezo intencional para com Cristo e o seu Evangelho. Em segundo lugar, como um povo marcado pela destruição. Uma nova comissão estava sendo enviada contra esta nação hipócrita, o povo da ira de Deus (como em Isaias 10.6), e sua destruição pelos romanos seria provavelmente maior do que qualquer outra, como os seus pecados tinham sido mais evidentes: foi então que “a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Tessalonicenses 2.15,16). Que isto seja um aviso para todas as nações e igrejas, para que prestem atenção e não abandonem o seu primeiro amor, não deixem que se perca a excelente obra de transformação que começou entre eles, retornando para a maldade que pareciam ter abandonado; pois a última condição dessas pessoas será pior do que a primeira.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 22-37

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O Pecado contra o Espírito Santo

 Nestes versículos, temos:

I – A gloriosa derrota de Satanás imposta por Cristo, na cura graciosa daquele que, por permissão divina, estava sob o poder e a possessão de Satanás (v. 22). Aqui observe:

1.O caso desse homem era muito triste, ele estava endemoninhado. Casos desse tipo ocorriam na época de Cristo mais do que era usual, para que o poder de Cristo pudesse ser mais enaltecido, e o seu objetivo de opor-se a Satanás e expulsá-lo, manifesto; e para que pudesse parecer mais evidente que Ele veio para desfazer as obras do diabo. Este pobre homem que estava endemoninhado era cego e mudo; um caso infeliz! Ele nem conseguia ver, para fazer as coisas, nem falar, para que os outros o ajudassem. Uma alma sob o poder de Satanás, e mantida cativa por ele, está cega às coisas de Deus, e muda para o trono da graça; não vê nada e não diz nada quanto a isto. Satanás cega os olhos da fé, e veda os lábios da oração.

2.A sua cura foi muito estranha, e ainda mais, porque foi repentina. Ele o curou. A derrota e a expulsão de Satanás são a cura das almas. E sendo removida a causa, imediatamente cessa o efeito; o cego e mudo viu e falou. A misericórdia de Cristo é diretamente contrária à maldade de Satanás; a sua graça, aos truques do diabo. Quando o poder de Satanás na alma se rompe, os olhos se abrem para ver a glória de Deus, e os lábios se abrem para dizer louvores a Ele.

II – A convicção que isso deu a toda a multidão: “Toda a multidão se admirava”. Cristo tinha realizado vários milagres deste tipo antes. Mas as suas obras não são menos maravilhosas, nem menos admiráveis, por serem frequentemente repetidas. A partir disso, as pessoas deduziram: “Não é este o Filho de Davi?” Em outras palavras: Não é este o Messias prometido, que nasceria de Davi? Este não é aquele que viria? Nós podemos interpretar isso:

1.Como uma pergunta de investigação; eles perguntaram: “Não é este o Filho de Davi?” Mas eles não esperaram uma resposta: as impressões eram convincentes, mas temporárias. A pergunta foi um bom início, mas, aparentemente, logo foi perdida e não se perseverou nela. Convicções como essas devem ser conduzidas à mente, e então provavelmente serão levadas ao coração. Ou:

2.Como uma pergunta afirmativa: “Não é este o Filho de Davi”? “Sim, certamente é, não pode ser outro; milagres como estes evidenciam claramente que o reino do Messias está se estabelecendo”. E essas eram as pessoas, o tipo comum de espectadores, que chegaram a tal conclusão, com base nos milagres de Cristo. Os ateus dirão: “Isto era porque eles eram menos observadores que os fariseus”. Não. A verdade era óbvia, e não exigia muita pesquisa. Mas era porque eles tinham menos preconceitos e eram menos influenciados pelos interesses mundanos. Tão claro e fácil foi feito o caminho para esta grande verdade de Cristo ser o Messias e Salvador deste mundo, que as pessoas comuns não poderiam se enganar; “os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (veja Isaias 35.8). Quem o procurou, o encontrou. É um exemplo da condescendência da graça divina, que as coisas que estavam ocultas aos sábios e prudentes fossem reveladas aos pequeninos. O mundo não conheceu a Deus através de sua própria sabedoria, e os sábios foram confundidos pelas coisas mais simples.

III – A crítica blasfema dos fariseus (v. 24). Os fariseus eram homens que aparentavam ter mais conhecimento da lei, e mais zelo por ela, que as demais pessoas; mas eles eram os inimigos mais inveterados de Cristo e da sua doutrina. Eles se orgulhavam da reputação que tinham entre o povo; isso alimentava o seu orgulho, sustentava o seu poder e enchia os seus bolsos; e quando ouviram as pessoas dizendo: “Não é este o Filho de Davi?”, eles ficaram extremamente irritados, mais do que pelo milagre em si – isso os fez sentir inveja do nosso Senhor Jesus, e os deixou apreensivos de que, à medida que crescesse a figura dele na consideração do povo, a deles, naturalmente, seria eclipsada e diminuída. Por isso eles o invejaram, como Saul se sentiu em relação ao seu genro, Davi, por causa do que as mulheres falavam sobre ele (1 Samuel 18.7,8). Aqueles cuja felicidade depende do elogio e do aplauso dos homens se expõem a uma situação de desconforto perpétuo em relação a cada palavra favorável que ouvirem a respeito de outra pessoa. A sombra da honra seguia a Cristo, que fugia dela, e fugia dos fariseus, que ansiosamente a perseguiam. Eles disseram: “‘Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios’, e, portanto, não é o Filho de Davi”. Observe:

1.O menosprezo com que eles falam de Cristo, “este”; como se o seu precioso nome, que é um precioso unguento derramado sobre os seus seguidores, não fosse digno de ser levado aos seus lábios. E um exemplo do orgulho e da arrogância deles, e também da sua inveja diabólica, o fato de que, quanto mais as pessoas enalteciam a Cristo, mais eles se empenhavam para difamá-lo. É uma impiedade falar com desdém de homens bons somente por serem pobres.

2.A maneira blasfema corno eles falam dos milagres de Jesus. Eles não podiam negar a verdade; era tão claro como o sol, que os demônios eram expulsos pela palavra de Cristo; nem podiam negar que era uma coisa extraordinária, e sobrenatural. Sendo, dessa maneira, forçados a aceitar as premissas, eles não tinham outra maneira de evitar a conclusão de que este é o Filho de Davi, exceto sugerir que Cristo expulsava os demônios por Belzebu; que havia um pacto entre Cristo e o diabo – de acordo com este pacto, o demônio não era expulso, mas se afastava voluntariamente e consentia em devolver a pessoa – ou como se, por um acordo com o príncipe dos demônios, Ele tivesse poder para expulsar os demônios inferiores. Nenhuma conjetura poderia ser mais falsa e infame do que esta; que Ele, que é a própria verdade, estivesse de acordo com o pai da mentira, para enganar o mundo. Este era o último refúgio, ou melhor subterfúgio, ou uma infidelidade obstinada, que estava decidida a se opor à mais clara convicção. Observe que entre os demônios há um príncipe, o líder da apostasia contra Deus e da rebelião contra Ele; mas este príncipe é Belzebu, o deus das moscas, ou o deus das esterqueiras. Como tu decaíste, ó Lúcifer! De um anjo de luz para ser o senhor das moscas! Mas este também é o príncipe dos demônios, o líder da gangue dos espíritos infernais.

 IV – A resposta de Cristo a esta insinuação vil (vv. 25- 30). Jesus conheceu os pensamentos deles. Jesus Cristo sabe o que nós estamos pensando em qualquer ocasião, pois Ele conhece o que há nos homens; Ele compreende os nossos pensamentos à distância. Pode ser que os fariseus, por vergonha, não disseram isto, mas guardaram estes pensamentos; eles não podiam esperar satisfazer as pessoas com isto, portanto reservaram este pensamento para silenciar a convicção das suas próprias consciências. Observe que muitos são afastados de seus deveres por aquilo que se envergonham de possuir, mas que não conseguem ocultar de Jesus Cristo; ainda assim, é provável que os fariseus tenham sussurrado entre si o que pensavam, para ajudarem-se, uns aos outros, a permanecerem insensíveis. Mas a resposta de Cristo denunciou os pensamentos daqueles iníquos, porque Ele sabia que com aquele pensamento, e a partir daquele princípio, eles o disseram; eles não disseram nada com afobação, mas aquele era o produto de uma maldade enraizada.

A resposta de Cristo a esta acusação é abundante e convincente, para que cada boca possa ser interrompida com sensatez e razão, antes de ser interrompida com fogo e enxofre. Aqui estão três argumentos pelos quais Ele demonstra a irracionalidade dessa ideia:

1.Seria muito estranho, e altamente improvável, que Satanás fosse expulso por um pacto como este, porque então o reino de Satanás seria dividido contra si mesmo, o que, considerando a sua astúcia, não é algo que se deva imaginar (vv. 25,26).

 (1). Aqui está registrada uma lei conhecida, de que em todas as sociedades uma ruína comum é a consequência de disputas mútuas: “Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa” também: Pois qual família é tão forte, qual comunidade é tão firme, a ponto de não ser arruinada pela inimizade e pelas disputas?  Normalmente, as divisões acabam em devastações; se nós nos chocarmos, nos quebraremos; se nos separarmos uns dos outros, nos tornaremos uma presa fácil para um inimigo comum: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros” (Gálatas 5.15). As igrejas e as nações sabem disso por suas tristes experiências.

(2). A aplicação da lei ao caso em questão (v. 26). Se Satanás expulsa a Satanás, se o príncipe dos demônios estiver em desacordo com os demônios inferiores, todo o reino e os interesses em breve estarão destruídos. Se Satanás viesse a fazer um pacto com Cristo, isto seria a sua própria ruína; pois o desígnio e a tendência manifestos da pregação e dos milagres de Cristo eram para derrotar o reino de Satanás, como um reino de trevas, maldade e inimizade a Deus; e para estabelecer, sobre as ruínas, um reino de luz, santidade e amor. As obras do diabo, como um rebelde contra Deus e um tirano sobre as almas dos homens, foram destruídas por Cristo, e, portanto, era o maior absurdo imaginar ou pensar que Belzebu permitiria tal desígnio, ou se envolveria com ele: se ele concordasse com Cristo, como, então, ficaria o seu reino? Ele mesmo contribuiria para a derrota do seu reino. Observe que o diabo tem um reino, um interesse comum, em oposição a Deus e a Cristo, que ele cuidará, com o máximo de suas forças, para que permaneça, e não concordará nunca com os interesses de Cristo; ele deve ser derrotado e destruído por Cristo, e, portanto, não pode se submeter ou se render a Ele. Que acordo ou comunhão pode existir entre a luz e as trevas, entre Cristo e Belial, entre Cristo e Belzebu? Cristo irá destruir o reino do diabo, mas Ele não precisa fazer isto usando nenhuma artimanha como a de um pacto secreto com Belzebu; não, a sua vitória deve ser obtida por meio de métodos mais nobres. Mesmo que o príncipe dos demônios reúna todas as suas forças, mesmo que ele use todos os seus poderes e toda a sua política, e mantenha os seus interesses em uma confederação fechada, ainda assim Cristo será demais para a sua força reunida, e o seu reino não permanecerá.

2.Não era completamente estranho, ou improvável, que os demônios fossem expulsos pelo Espírito de Deus, pois:

(1) “Por quem os expulsam, então, os vossos filhos?” Havia aqueles, entre os judeus, que, invocando o nome do Deus supremo, ou do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, algumas vezes expulsavam demônios. Josefo fala de alguns que o faziam, na sua época. Nós lemos a respeito de exorcistas judeus (Atos 19.13) e de alguns que expulsavam demônios em nome de Cristo, embora não o seguissem (Marcos 9.38), ou não fossem fiéis a Ele (cap. 7.22). Os fariseus não condenavam essas pessoas, mas atribuíam o que elas faziam ao Espírito de Deus, e com isso valorizavam a si mesmos e à sua nação. Sendo assim, era meramente por despeito e inveja de Cristo que eles admitiam que outras pessoas expulsavam demônios pelo Espírito de Deus, mas sugeriam que Ele o fazia por ter um pacto com Belzebu. Observe que a atitude das pessoas maldosas, especialmente os maldosos perseguidores de Cristo e do cristianismo, é de condenar, nas pessoas a quem odeiam, a mesma coisa que aprovam ou aplaudem naqueles por quem têm alguma amizade ou boa relação. Os julgamentos de inveja se fazem, não pelas coisas, mas pelas pessoas; não por razões, mas por preconceitos. Mas aqueles homens eram muito pouco qualificados para ocupar a cadeira de Moisés, pois só conheciam os rostos e não tinham mais quaisquer elementos para julgar: “Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes”. “Esta contradição que vocês mesmos apresentam se erguerá em julgamento contra vocês no último dia, e condenará a cada um de vocês”. Note que, no juízo final, não somente cada pecado, mas também cada agravação de pecado, será trazido para a prestação de contas, e algumas das nossas noções do que era correto e bom serão postas em evidência contra nós, para nos condenar por parcialidade.

(2) Estas expulsões de demônios eram um sinal e uma indicação certos da aproximação e da manifestação do Reino de Deus (v. 28): “Se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o Reino de Deus”. Outros milagres que Cristo realizou provaram que Ele tinha sido enviado por Deus, mas isso provava que Ele tinha sido enviado por Deus para destruir o reino do demônio, e as suas obras. Então aquela grande promessa evidentemente se cumpria, a de que a semente da mulher iria ferir a cabeça da serpente (Genesis 3.15). “Portanto, aquela gloriosa revelação do reino de Deus, que durante tanto tempo foi esperada, agora se iniciou; desprezem-na, e correrão riscos”. Observe que:

[1] A destruição do poder do demônio se realiza pelo Espírito de Deus; aquele Espírito que trabalha para a obediência da fé, destrói o interesse do espírito que trabalha nos filhos da descrença e da desobediência.

[2] A expulsão dos demônios é uma apresentação segura do Reino de Deus. Se o interesse do diabo por uma alma for não apenas desafiado pelos costumes ou por restrições morais, mas também destruído e rompido pelo Espírito de Deus, como um Santificador, sem dúvida somente o Reino de Deus virá àquela alma, o reino da graça, uma antecipação bendita do reino da glória.

3.A comparação dos milagres de Cristo (particularmente este da expulsão dos demônios) com a sua doutrina e o desígnio e a tendência da sua santa religião evidenciava que Ele estava muito longe de estar em uma aliança com Satanás, mas sim que Ele estava em inimizade e hostilidade abertas contra ele (v. 29): “Como pode alguém entrar em casa do homem valente e furtar os seus bens, se primeiro não manietar o valente, saqueando, então, a sua casa?” Então ele pode fazer o que quiser com os bens. O mundo, que estava nas trevas, e vivia na maldade, era possessão de Satanás, e estava sob o seu poder. Como uma casa possuída por um homem valente, e sob o seu poder; assim é cada alma pecadora; ali vive Satanás, ali ele reina. Agora:

(1) O desígnio do Evangelho de Cristo era saquear a casa do diabo, a qual, como um homem valente, ele tinha no mundo; levar as pessoas das trevas à luz, do pecado à santidade, deste mundo a um melhor, do poder de Satanás a Deus (Atos 26.18); alterar a propriedade das almas.

(2) De acordo com este desígnio, Ele manietou o homem valente, quando expulsou os espíritos imundos pela sua palavra: assim Ele arrancou a espada da mão do diabo, para poder arrancar também o cetro. A doutrina de Cristo nos ensina como interpretar os seus milagres – e quando Ele mostrou com que facilidade e eficácia Ele podia expulsar o demônio dos corpos das pessoas, Ele incentivou todos os crentes a ter esperança de que, qualquer que fosse o poder que Satanás pudesse usurpar e exercer sobre as almas dos homens, Cristo, pela sua graça, romperia tal poder. Ele irá saquear as coisas de Satanás, pois Ele pode manietá-lo. Quando as nações se afastaram da idolatria aos ídolos para servir ao Deus vivo, quando alguns dos piores pecadores foram santificados e justificados e se tornaram os melhores santos, Cristo saqueou a casa do demônio e irá saqueá-la mais e mais.

4.Aqui se sugere que esta guerra santa, que Cristo está conduzindo com vigor contra o diabo e o seu reino, era tal que não admitia neutralidade (v.30): “Quem não é comigo é contra mim”. Nas pequenas diferenças que podem surgir entre os discípulos de Cristo, nós somos ensinados a reduzir as questões de divergência e a procurar a paz, considerando como favoráveis a nós aqueles que não estiverem contra nós (Lucas 9.50). Mas na grande disputa entre Cristo e o diabo, não se deve procurar a paz, nem alguma alternativa favorável, buscando algum tipo de indiferença quanto à questão – aquele que não é por Cristo sinceramente, será considerado como realmente contra Ele: aquele que estiver indiferente à causa, será considerado como um inimigo. Quando a disputa é entre Deus e Baal, não há hesitação entre os dois (1 Reis 18.21), não há adaptações entre Cristo e Belial; pois o reino de Cristo, como é eternamente oposto ao reino do diabo, também será eternamente vitorioso sobre ele. Portanto, nessa questão, não há como estar com Gileade, além do Jordão, ou com Aser, nos portos do mar (Juízes 5.16,17); nós devemos, completa, fiel e firmemente estar do lado de Cristo; este é o lado correto, e será, finalmente, o lado vencedor. Veja Êxodo 32.26.

A última frase tem o mesmo significado: “Quem comigo não ajunta espalha”. Observe:

(1) A tarefa de Cristo neste mundo era reunir, reunir a sua colheita, reunir aqueles que o Pai lhe tinha dado (João 11.52; Efésios 1.20).

(2) Cristo espera e exige daqueles que estão com Ele, que se reúnam com Ele; que não somente se reúnam, a si mesmos, com Ele, mas também que façam tudo o que puderem para reunir os outros com Ele, e assim fortalecer os seus interesses.

(3) Aqueles que não parecerem, e agirem, como seguidores do reino de Cristo, serão considerados e tratados como obstáculos a ele. Se nós não juntamos com Cristo, espalhamos; não basta não fazer o mal, nós devemos fazer o bem. Assim se amplia a brecha entre Cristo e Satanás, para mostrar que não havia pacto entre eles, como os fariseus sussurravam.

V – Aqui está um sermão de Cristo, nessa ocasião, a respeito dos pecados da língua: “Portanto, eu vos digo”. Ele parece se voltar dos fariseus para o povo, parece passar da discussão à instrução; e a partir do pecado dos fariseus, Ele adverte as pessoas a respeito de três tipos de pecados da língua; pois os danos sofridos por outras pessoas são advertências para nós.

1;Palavras blasfemas contra o Espírito Santo são o pior tipo de pecados da língua, e são imperdoáveis (vv. 31, 32).

(1). Aqui há uma garantia graciosa do perdão de todos os pecados, nos termos do Evangelho. Isto Cristo nos diz, e são palavras de consolo, que a grandeza do pecado não será obstáculo para a nossa aceitação por Deus, se realmente nos arrependermos e crermos no Evangelho: “Todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens”. ”Ainda que os… pecados sejam como a escarlata” (Isaias 1.18), ainda que sejam de natureza odiosa, e agravados pelas suas circunstâncias, e frequentemente repetidos, ainda que se estendam até o céu, ainda assim existe misericórdia no Senhor, que se estende além do céu; a misericórdia será estendida até mesmo para a blasfêmia, um pecado que toca diretamente o nome e a honra de Deus. Paulo obteve misericórdia, tendo sido um blasfemo (1 Timóteo 1.13). Bem podemos dizer: “Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade?” (Miquéias 7.18). Mesmo as palavras proferidas contra o Filho do Homem serão perdoadas; entre aqueles que o ofenderam na sua morte, muitos se arrependeram e encontraram misericórdia. Aqui Cristo dá um exemplo a todos os filhos dos homens, para que estejam prontos a perdoar palavras proferidas contra eles: “Eu, como surdo, não ouvia”. Observe que os pecados serão perdoados aos homens, não aos demônios; este é o amor de Deus oferecido a todo o mundo, à humanidade, a um mundo que está acima do mundo dos anjos caídos, o que faz com que todo pecado seja, a eles, perdoável.

(2). Aqui está uma exceção, que é a blasfêmia contra o Espírito Santo, aqui declarada como sendo o único pecado imperdoável. Veja aqui:

[1] O que é este pecado: é falar contra o Espírito Santo. Veja quanta maldade há nos pecados da língua, pois o único pecado imperdoável é um deles. “Mas Jesus conhecia os seus pensamentos” (v. 25). O que se quer dizer aqui não é somente o falar contra a pessoa ou a essência do Espírito Santo como um todo, ou algumas das suas operações mais privadas, ou meramente resistir à sua obra interna no próprio pecador. Pois então, quem seria salvo? Está determinado na nossa lei que um ato de compensação deva sempre ser interpretado em favor da graça e da clemência que é a intenção do ato; portanto, as exceções ao ato não devem ser estendidas além das necessidades. O Evangelho é um ato de compensação; ninguém será excluído por nome, nem por descrição, mas somente aqueles que blasfemam contra o Espírito Santo; portanto, isto deve ser interpretado no sentido mais limitado: todos os supostos pecadores são efetivamente separados pelas condições da compensação, a fé e o arrependimento. Portanto, as outras exceções não devem se estender: e esta blasfêmia é excluída, não por alguma falha na misericórdia de Deus ou do mérito de Cristo, mas porque ela inevitavelmente deixa o pecador na infidelidade e na impenitência. Nós temos motivos para pensar que ninguém que creia que Cristo é o Filho de Deus, e que sinceramente deseje participar do seu mérito e da sua misericórdia, será culpado deste pecado; e aqueles que temem ter come tido este pecado, dão um bom sinal de que não o cometeram. O sábio Dr. Whitby observa muito apropriadamente que Cristo não fala do que poderia ser (Marcos 3.29; Lucas 12.10): “Qualquer que blasfemar”. Quanto àqueles que blasfemaram contra Cristo quando Ele estava na terra, e o chamaram de beberrão, de enganador, de blasfemo, e coisas semelhantes, eles tinham alguma desculpa, por causa da simplicidade da sua aparência e dos preconceitos da nação contra Ele; e a prova da sua missão divina não se aperfeiçoou até de­ pois da sua ascensão. Portanto, eles serão perdoados através do arrependimento; espera-se que aqueles que foram seus traidores e assassinos possam ser convencidos pelo derramamento do Espírito, como muitos deles foram. Mas o problema mais grave ocorre quando o Espírito Santo é dado com os seus dons internos de revelação, como falar em línguas e coisas semelhantes, além das distribuições do Espírito entre os apóstolos; aqueles que continuarem a blasfemar o Espírito da mesma maneira, como um espírito mau, não desfrutarão a esperança de serem levados a crer em Cristo. Pois, em primeiro lugar, estes dons do Espírito Santo aos apóstolos eram uma grande prova que Deus designou fosse usada para a confirmação do Evangelho, os quais foram mantidos em reserva enquanto outros métodos os precederam. Em segundo lugar, esta era a evidência mais poderosa e mais capaz de convencer, superando até mesmo os próprios milagres. Em terceiro lugar, aqueles que blasfemassem dessa distribuição do Espírito não poderiam ser levados a crer em Cristo. O que poderia convencer aqueles que iriam considerar que os apóstolos estavam em aliança com Satanás, aqueles que tiveram o mesmo comportamento que os fariseus tiveram diante dos milagres? Este é um apego tão forte à infidelidade que não pode ser derrotado em um homem, e é, portanto, imperdoável. porque com isto o arrependimento está escondido dos olhos do pecador.

[2]. Qual é a sentença para este pecado: “Não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro”. Assim como no estado da religião judaica, naquela época, não havia sacrifício de expiação para a alma que pecasse de forma arrogante, também na revelação da graça do Evangelho, que é frequentemente chamada nas Escrituras de século futuro, não haverá perdão para o ato de pisar sobre o sangue da aliança, e para o desrespeito ao Espírito da graça; não há cura para um pecado tão diretamente contrário ao remédio. Esta é uma regra na nossa lei antiga: não haverá santuário para o sacrilégio. Ou: não será perdoado nem agora, na própria consciência do pecador, nem no grande dia, quando o perdão será promulgado. Ou: este é um pecado que expõe o pecador à punição eterna e à temporal, tanto à ira presente como à ira futura.

2.Aqui Cristo fala a respeito de outras palavras más, os produtos da corrupção que reina no coração, e que dele escapa (vv. 33-35). Foi dito (v. 25) que Jesus conhecia os seus pensamentos, e aqui Ele fala, dirigindo-se a eles, mostrando que não era estranho que eles falassem coisas tão más, quando os seus corações estavam tão cheios de inimizade e maldade, que eles frequentemente se esforçavam para disfarçar e encobrir, aparentando ser apenas homens. O nosso Senhor Jesus, portanto, aponta para as fontes e as cura; deixemos que o coração seja santificado e isto se manifestará nas nossas palavras.

(1). O coração é a raiz. a linguagem é o fruto (v. 33); a árvore é boa, e o seu fruto, bom. Se a graça for o princípio reinante no coração, a linguagem será a linguagem de Canaã; e, por outro lado, qualquer desejo que reine no coração irá se manifestar; pulmões doentes soltarão uma respiração ofensiva; a linguagem dos homens revela de que país eles são, e, da mesma maneira, qual é a sua disposição de espírito. Se a árvore for boa, os frutos serão bons; consigam corações puros e vocês terão lábios puros e vidas puras; se a árvore for má, o seu fruto também o será. Você pode tentar transformar uma árvore má em uma árvore boa, enxertando nela um galho de uma árvore boa, e então o fruto será bom. Mas se a árvore for má, você pode plantá-la onde quiser, e regá-la como quiser; o fruto ainda será mau. Observe que, a menos que o coração se transforme, a vida nunca será completamente transformada. Estes fariseus tinham vergonha de expressar com palavras os seus maus pensamentos a respeito de Jesus Cristo, mas aqui Cristo dá a entender que era inútil que eles tentassem esconder esta raiz de amargura que havia neles, que trazia irritação e rancor; eles deveriam procurar extirpá-la. Observe que a nossa maior preocupação deve ser nos comportarmos como pessoas realmente boas, e não apenas parecermos ser bons.

(2). O coração é a fonte, as palavras são as correntes (v. 34). “Do que há em abundância no coração, disso fala a boca; assim como as correntes são o que transborda da fonte”. Um coração mau produz maldade, como a fonte produz as suas águas (Jeremias 6.7). Uma fonte turva e um manancial corrupto, de que fala Salomão (Provérbio 25.26), deve produzir correntes enlameadas e desagradáveis. As palavras más são o produto natural e autêntico de um coração mau. Nada, exceto o sal da graça, jogado na fonte, irá curar as águas, temperar as palavras, e purificar as comunicações contaminadas. Eles queriam isso, sendo maus. “Como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus?” Eles eram uma geração de víboras; assim os tinha chamado João Batista (cap. 3.7), e ainda eram os mesmos. Pois, “pode o etíope mudar a sua pele?” As pessoas consideravam os fariseus como uma geração de santos, mas Cristo os chama de raça de víboras, a semente da serpente que tinha inimizade com Cristo e o seu Evangelho. O que se pode esperar de uma raça de víboras, exceto o que é venenoso e maligno? Pode a víbora ser outra coisa, além de venenosa? Note que as coisas más podem ser esperadas de pessoas más, como diz o provérbio dos antigos: “Dos ímpios procede a impiedade” (1 Samuel 24.13) ou: “O louco fala loucamente” (Isaias 32.6). Aqueles que são maus não têm a habilidade nem o desejo de falar coisas boas como deveriam ser faladas. Cristo daria a conhecer aos seus discípulos o tipo de homens em meio aos quais eles iriam viver, para que eles pudessem saber o que esperar. Eles eram como Ezequiel entre os escorpiões (Ezequiel 2.6), e não deveriam achar estranho se fossem picados e mordidos.

(3). O coração é o tesouro, as palavras são as coisas tiradas deste tesouro (v. 35); e daí o caráter dos homens pode ser esboçado, e pode ser julgado.

[1]. O caráter de um homem bom é o que lhe dá um bom tesouro no seu coração, e daí ele tira coisas boas quando há oportunidade. Graças, consolos, experiências, bom conhecimento, boas afeições, boas resoluções, são um bom tesouro no coração; a palavra de Deus está escondida ali, a lei de Deus, escrita ali, as verdades divinas residem e governam e são um tesouro ali, valioso e adequado, mantido a salvo e em segredo, como o estoque do bom chefe de família, mas pronto para ser usado em qualquer ocasião. Um bom homem, assim abastecido, produzirá, como José, uma abundância de bens; falará e fará o que é bom, para a glória de Deus e a edificação de outros. Veja Provérbio 10.11,13,14,20,21,31,32. Isto é produzir coisas boas. Alguns fingem – com grandes esforços – não ter um bom tesouro, parecendo que poderão ir à falência em breve; outros fingem ter um bom tesouro interior, mas não dão provas disso: eles esperam tê-lo dentro de si, e agradecem a Deus, quaisquer que sejam suas palavras e ações, por pensarem que têm bons corações. Mas a fé sem obras é morta; e alguns têm um bom tesouro de sabedoria e conhecimentos, mas não são comunicativos, não produzem nada com ele: têm um talento, mas não sabem como negociar com ele. O cristão completo nesse aspecto traz a imagem de Deus, que é ser bom, e também faz o bem.

[2]. O caráter de um homem mau é o que lhe dá um mau tesouro no seu coração, e daí ele tira coisas más. Luxúria, desejos e corrupção residindo no coração, e nele reinando, são um mau tesouro, do qual o pecador produz más palavras e ações que desonram a Deus e magoam os outros. Veja Genesis 6.5,12; cap. 15.18-20; Tiago 1.15. Mas os tesouros da impiedade (Provérbio 10.2) serão os tesouros da ira.

3.Aqui Cristo fala a respeito das palavras ociosas e mostra que há maldade nelas (vv.36, 37); muito mais havia nas palavras más como as que os fariseus pronunciavam. Nós devemos nos preocupar em pensar no dia do juízo, quando poderá haver uma avaliação da nossa língua; e devemos considerar:

(1) Quão particular será a consideração dos pecados da língua naquele dia: “de toda palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no Dia do Juízo”. Isto significa:

[1] Que Deus observa cada palavra que nós dizemos, mesmo aquelas de que nem nós mesmos nos damos conta. Veja Salmos 139.4: “Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor tudo conheces”. Ainda que seja dita sem consideração ou objetivo, Deus toma conhecimento dela.

[2] Que a conversa inútil, ociosa e impertinente é desagradável a Deus – aquela que não leva a nenhum bom objetivo, que não serve para edificar – é o produto de um coração insignificante e vão. Estas palavras ociosas são as mesmas que as torpezas ou parvoíces, ou chocarrices, que não convêm (Efésios 5.4). Este é aquele pecado que raramente falta na abundância de palavras que de nada servem (Jó 15.3).

[3] Dentro de pouco tempo, nós prestaremos contas dessas palavras ociosas; elas serão evidências contra nós, para provar que somos servos inúteis, que não aprimoramos as faculdades da razão e do discurso, que são parte dos talentos que nos foram confiados. Se não nos arrependermos das nossas palavras ociosas, e elas não forem perdoadas pelo sangue de Cristo, estaremos perdidos.

(2) Quão rígido será o julgamento sobre esta prestação de contas (v.37): “Por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado”; uma regra comum nos julgamentos dos homens, e aqui aplicada ao juízo de Deus. Observe que o teor constante do nosso discurso, se for gracioso ou não, será uma evidência a nosso favor ou contra nós naquele grande dia. Aqueles que parecem ser religiosos, mas não dominam a sua língua, precisam atentar para as seguintes palavras: “Se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia a sua língua, antes, engana o seu coração, a religião desse é vã” (Tiago 1.26). Alguns pensam que aqui Cristo se refere ao que disse Elifaz (Jó 15.6): “A tua boca te condena, e não eu”; ou, ainda, ao que disse Salomão (Provérbio 18.21): ”A morte e a vida estão no poder da língua”.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 14-21

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A Blasfêmia dos Fariseus. Cristo se retira

Como em meio às maiores humilhações de Cristo havia provas da sua dignidade, também em meio às suas maiores honras Ele deu provas de sua humildade; e quando os milagres que Ele realizava lhe davam a oportunidade de ficar famoso, ainda assim Ele se esvaziava, e não cultivava qualquer resquício de fama popular. Aqui, temos:

 I – A maldita blasfêmia dos fariseus contra Cristo (v. 14). Irritados com a evidência convincente dos milagres de Jesus, eles saíram e realizaram uma reunião contra Ele, sobre como poderiam destrui-lo. O que os irritou não foi apenas o fato de que, pelos milagres realizados, sua honra eclipsava a deles, mas também o fato de a doutrina que Ele pregava estar em oposição direta com o orgulho, hipocrisia e interesses mundanos deles. Eles fingiram estar descontentes com a sua infração do sábado, que era, por lei, um crime sujeito à pena de morte (Êxodo 35.2). Não é novidade ver os atos mais vis ocultos pelos pretextos mais plausíveis. Observe a política deles: eles se reuniram num conselho, considerando entre si de que maneira poderiam prendê-lo, com eficácia. Eles se aconselharam, numa trama secreta a esse respeito, para que pudessem ao mesmo tempo animar e ajudar uns aos outros. Observe a crueldade deles: Eles se reuniram, não para prendê-lo ou expulsá-lo, mas para destrui-lo, para levar à morte aquele que veio para que pudéssemos ter a vida. Que indignidade era, dessa maneira, imposta ao nosso Senhor Jesus, a perseguição dele como a um malfeitor, e o tormento imposto àquele que era a maior bênção, a glória do seu povo Israel!

II – Cristo se retirou nessa ocasião, e escolheu a privacidade para evitar o confronto. Pelo fato de não ser chegada a sua hora (v. 15), Ele se retirou dali. Ele poderia ter se protegido de forma milagrosa, mas decidiu fazê-lo da maneira normal, por meio da retirada e do afastamento; porque nisso, como em outras coisas, Ele se sujeitava às fraquezas inerentes da nossa natureza. Nesse ponto, Ele se humilhou, pois foi levado à atitude comum daqueles que são mais desamparados; assim também Ele deu um exemplo da sua própria regra: “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra”. Cristo tinha dito e feito o suficiente para convencer esses fariseus (se a razão ou os milagres pudessem ter feito isso), mas em vez de se renderem à convicção, eles se enfureceram, e por isto Ele os deixou, considerando-os incuráveis (Jeremias 51.9).

Cristo não se retirou para a sua própria comodidade, nem procurou uma desculpa para deixar o seu trabalho. Não. Os seus períodos de retiro sempre estavam cheios de ocupação, e mesmo nessas ocasiões Ele estava fazendo o bem, quando era forçado a se afastar. Assim, Ele deu um exemplo aos seus ministros: eles devem fazer o que puderem, quando não puderem fazer o que gostariam de fazer, e continuar ensinando mesmo quando precisarem se afastar. Quando os fariseus, os grandes senhores e doutores da nação, afastaram Cristo de si mesmos, e o forçaram a retirar-se, as pessoas comuns o seguiram em grandes multidões, e o encontraram. Alguns transformariam este fato em uma censura a Cristo, e diriam que Ele estava incitando a multidão. Mas era realmente uma honra para Jesus que todos aqueles que não eram parciais ou preconceituosos, e não estavam cegos pelas coisas do mundo, fossem tão leais, tão zelosos por Ele, e o seguissem para onde quer que Ele fosse, sem importar os perigos que correriam ao seu lado; como também era uma honra para a sua graça que os pobres fossem evangelizados – quando eles o recebiam, Ele os recebia e curava a todos. Cristo veio ao mundo para ser uma espécie de médico-geral dos homens – como o sol para o mundo inferior-, trazendo curas consigo. Embora os fariseus perseguissem a Cristo por fazer o bem, ainda assim Ele o continuava fazendo, e não deixou as pessoas passando dificuldades por causa da maldade dos seus líderes. Embora alguns nos tratem sem piedade, não devemos, por causa disso, tratar os outros sem piedade.

Cristo tentou conciliar o proveito e a privacidade. Ele os curou a todos, e (v. 16) recomendou-lhes que não deveriam torná-lo conhecido, o que pode ser considerado como:

1.Um ato de prudência: não eram os milagres propriamente ditos, mas sim as conversas a respeito deles, que enfureciam os fariseus (vv. 23,24); dessa forma, Cristo, embora não deixasse de fazer o bem, o faria da maneira mais silenciosa quanto possível, para evitar ofendê-los e para evitar correr perigo. Os homens prudentes e bons, embora desejem fazer o bem, estão longe de desejar que o bem feito seja alvo de comentários; porque é a aceitação de Deus, e não o aplauso dos homens, que eles almejam. E em épocas de sofrimento, embora devamos corajosamente prosseguir no caminho do dever, ainda assim devemos procurar as circunstâncias adequadas, de forma a não exasperar, além do necessário, aqueles que procuram uma oportunidade contra nós: “Sede prudentes como as serpentes” (cap. 10.16).

1.Um ato de julgamento justo sobre os fariseus, que eram indignos de ouvir a respeito de qualquer dos seus milagres, tendo menosprezado aqueles que os tinham visto. Ao fecharem os seus olhos para a luz, eles tinham perdido o direito ao seu benefício.

2.Um ato de humildade e autonegação. Embora a intenção de Cristo, nos seus milagres, fosse provar que Ele era o Messias, levando dessa forma os homens a crerem nele (e para isso era necessário que os seus milagres fossem conhecidos), algumas vezes Ele recomendava que o povo os ocultasse, para nos dar um exemplo de humildade e nos ensinar a não proclamar a nossa própria bondade ou utilidade, ou desejar que elas fossem proclamadas. Cristo queria que os seus discípulos fossem o oposto daqueles que realizavam todas as suas obras para que os homens as vissem.

III – O cumprimento das Escrituras em tudo isso (v. 17). Cristo retirou-se à privacidade e à obscuridade, para que, embora Ele fosse eclipsado, a palavra de Deus pudesse cumprir-se, sendo dessa forma exemplificada e glorificada, pois esse era o objetivo do seu coração. A passagem das Escrituras aqui cumprida é Isaías 42.1-4, que é citada livremente (vv.18-21). O escopo tem o objetivo de mostrar o quão manso e tranquilo, e ainda assim bem-sucedido, o nosso Senhor Jesus foi na sua missão – temos exemplos disso nas passagens anteriores. Observe aqui:

1.O prazer do Pai em Cristo (v.18): “Eis aqui o meu servo que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz”. Consequentemente, podemos perceber:

(1). Que o nosso Salvador era servo de Deus na grande obra da nossa redenção. Neste sentido, Ele se submete à vontade do Pai (Hebreus 10.7) e se dispõe a servir aos desígnios da sua graça e aos interesses da sua glória, para consertar as brechas que foram criadas pela apostasia do homem. Como servo, Ele tinha uma grande obra para fazer, e uma grande confiança depositada nele. Isto fazia parte da sua humilhação, pois embora Ele não julgasse que fosse alguma forma de usurpação o fato de ser igual a Deus, ainda assim, na obra da nossa salvação, Ele assumiu a forma de servo, recebeu um mandamento e veio com uma obrigação. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência (Hebreus 5.8). O lema desse Príncipe era: – Eu sirvo.

(2). Que Jesus Cristo era o escolhido de Deus, como a única pessoa adequada e apropriada para cuidar da grande obra da nossa redenção. “Eis o meu servo, que escolhi”, – que está à altura da missão. Ninguém, exceto Ele, era capaz de realizar a obra da Redenção, ou era digno de usar a coroa do Redentor. Ele foi eleito do povo (Salmos 89.19), escolhido, pela infinita Sabedoria, para este cargo de serviço e honra, para o qual nenhum homem ou anjo se qualificava; ninguém, exceto Cristo, para que Ele possa, em todas as coisas, ter a proeminência. Cristo não se candidatou para essa missão, mas foi devidamente escolhido para ela. Cristo foi o escolhido de Deus para ser o cabeça da eleição, e de todos os outros eleitos, pois nós somos eleitos nele (Efésios 1.4).

(3). Que Jesus Cristo é o Filho amado de Deus; como Deus, Ele está no seu seio desde a eternidade (João 1.18). Ele era, cada dia, as suas delícias (Provérbios 8.30). Entre o Pai e o Filho já havia, antes de todos os tempos, uma relação eterna e inimaginável, e uma troca de amor, e assim o Senhor o possuiu no princípio dos seus caminhos (Provérbios 8.22). Como Mediador, o Pai o amou; quando o Pai precisou realizar um plano em que Ele seria ferido, Ele se sujeitou a isto; por isso o Pai o ama (João 10.17).

(4) Que Jesus Cristo é aquele de quem o Pai se agra­ da, em quem a sua alma se compraz; o que dá a entender a maior complacência imaginável. Deus declarou, com uma voz do céu, que Ele era o seu Filho amado, em quem se comprazia. Se comprazia nele, porque Ele era o Empreendedor, disposto e alegre, daquela obra de maravilhas à qual Deus se dedicou tanto, e Ele se compraz conosco nele; pois Ele nos fez agradáveis a si no Amado (Efésios 1.6). Todo o interesse que o homem pecador tem, ou pode ter, em Deus, está baseado, e se deve ao fato de que Deus se compraz em Jesus Cristo; pois não se vai ao Pai, senão por Ele (João 14.6).

2.A promessa do Pai a Jesus consiste em duas coisas:

(1). Que Ele seria muito bem qualificado para a sua missão: “Porei sobre ele o meu Espírito, o Espírito de sabedoria e de conselho” (Isaias 11.2,3). Deus se certificará de adequar e qualificar aqueles a quem Ele convoca para algum serviço; e assim parecerá que Ele os chamou para isso, como Moisés (Êxodo 4.12). Cristo, como Deus, tinha poder e glória igual ao Pai; como Mediador, Ele recebia do Pai poder e glória, e recebia para poder dar; e tudo o que Pai dava a Ele, para qualificá-lo para a sua missão, resumia se nisto: Ele colocou o seu Espírito sobre Ele – este é o “óleo de alegria com que Ele foi ungido, mais do que seus companheiros” (Hebreus 1.9). Ele recebeu o Espírito, não por medida, mas sem medida (João 3.34). Independentemente de quem sejam aqueles que Deus escolhe, e em quem Ele se compraz, Ele se certificará de colocar o seu Espírito sobre eles. Além de conceder o seu amor (algo que Ele faz de muitas formas), Ele concede que tenham em si mesmos a sua semelhança.

(2). Que Ele seria extremamente bem-sucedido no seu entendimento. Aqueles a quem Deus envia, certamente Ele torna seus. Já tinha sido assegurado havia muito tempo, por promessa ao nosso Senhor Jesus, que o bom prazer do Senhor prosperaria na sua mão (Isaias 53.10). E aqui temos uma explicação desse bom prazer.

[1] Ele anunciará aos gentios o juízo. Cristo, pessoalmente, pregou àqueles que eram vizinhos das nações pagãs (veja Marcos 3.6-8), e pelos seus apóstolos apresentou o seu Evangelho, aqui chamado de juízo, ao mundo gentio. O caminho e o método da salvação, o juízo que é confiado ao Filho, não é somente realizado por Ele, como o nosso grande Sumo Sacerdote, mas anunciado e transmitido por Ele, como o nosso grande Profeta. O Evangelho, sendo uma regra de comportamento e conduta, com a tendência direta de transformar e melhorar os corações e as vidas dos homens, será anunciado aos gentios. O juízo de Deus tinha sido particular aos judeus (SaImos 147.19), mas sempre foi predito, pelos profetas do Antigo Testamento, que ele seria anunciado aos gentios, e, portanto, isso não deveria ter causado tal surpresa, e muito menos aborrecimento, para os judeus incrédulos.

[2] “E, no seu nome, os gentios esperarão” (v. 21). Ele irá anunciar juízo aos gentios, para que eles prestem atenção e observem o que Ele lhes apresenta, e através disso sejam influenciados a confiar nele, sujeitando-se ao seu juízo. Note que o grande desígnio do Evangelho é levar as pessoas a confiar no nome de Jesus Cristo, no Jesus Salvador, este nome precioso pelo qual Ele é chamado, e que é como unção derramada: “O Senhor, Justiça nossa.” Aqui, o evangelista segue a Septuaginta, ou talvez as últimas edições da Septuaginta sigam o evangelista; o texto em hebraico (Isaias 42.4) é: “e as ilhas aguardarão a sua doutrina”. Fala-se das ilhas dos gentios (Genesis 10.5) como sendo habitadas pelos filhos de Jafé, de quem foi dito (Genesis 9.27): “Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem”; o que agora se cumpria, quando as ilhas (segundo o profeta), os gentios (diz o evangelista), aguardarão a sua doutrina, e confiarão no seu nome – compare essas duas passagens e observe que aqueles, e somente aqueles, que esperam pela sua lei com a determinação de serem governados por ela, podem, com segurança, confiar no nome de Cristo. Observe, além disso, que a lei pela qual esperamos é a lei da fé, a lei de confiar no seu nome. Este é agora o seu grande mandamento, que creiamos em Jesus Cristo (1 João 3.23).

3.A predição que diz respeito a Ele, e a maneira mansa e tranquila como Ele conduz a sua missão (vv. 19, 20). Esta citação está fortemente ligada à privacidade de Cristo, às ocasiões em que Ele precisou se retirar de alguns ambientes.

(1) Que Ele devia conduzir a sua missão sem estardalhaço ou ostentação. “Não contenderá, nem clamará”. Cristo e o seu reino não virão com aparência exterior (Lucas 17.20,21). Quando o Primogênito foi trazido a este mundo, não foi com cerimônia. Ele não fez uma aparição pública, não teve arautos que o proclamassem rei. Ele estava no mundo e o mundo não o conheceu. Estavam enganados aqueles que se alimentavam com esperanças de um Salvador cheio de pompa. A sua voz não era ouvida nas ruas: “Ei-lo aqui”, ou: “Ei-lo ali”. Ele falava com uma voz suave que atraía a todos, mas não atemorizava ninguém. Ele não fazia ruído, mas surgia silenciosamente como o orvalho. Quando Ele falava, e agia, era com a maior humildade e autonegação possíveis. O seu reino era espiritual e por isso não progrediria pela força ou violência, nem por elevadas pretensões. Não, “o reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder” (1 Coríntios 4.20, versão RA).

(2) Que Ele devia conduzir a sua missão sem severidade ou rigor (v. 20). “Não esmagará a cana quebrada”. Alguns interpretam isto como a sua paciência com os pecadores. Ele poderia facilmente ter esmagado estes fariseus como canas quebradas, e tê-los apagado como um marrão que fumega; mas Ele não o fará até o dia do juízo, quando todos os seus inimigos serão feitos escabelo dos seus pés. Outros preferem interpretar como sendo o seu poder e a sua graça para sustentar os fracos. Em geral, o desígnio do seu Evangelho é estabelecer um método de salvação que incentive a sinceridade, embora haja muita indecisão. Ele não insiste em uma obediência absolutamente perfeita de imediato, mas aceita uma mente disposta e justa. Quanto a indivíduos em particular que seguem a Cristo com mansidão, e com temor, e com muito tremor, observe:

[1] Como o seu caso é descrito aqui, eles são como a cana quebrada e o marrão que fumega. Os iniciantes na religião são fracos como uma cana quebrada, e a sua fraqueza parece um marrão fumegante; eles têm um pouco ele vida, mas é como a de uma cana quebrada; eles têm algum calor, mas é como o ele um marrão fumegante. Os discípulos de Cristo eram ainda fracos, e há muitas pessoas assim que têm lugar na sua família. A graça e a bondade neles são como uma cana quebrada; a corrupção e a maldade neles são como um morrão fumegante, como o pavio de uma vela quando é apagada e ainda fumega.

[2] Qual é a compaixão do nosso Senhor Jesus por eles? Ele não os desencoraja, e muito menos os rejeita ou os afasta; a cana que está quebrada não será esmagada e pisoteada, mas será sustentada, e ficará forte como um cedro ou uma palmeira próspera. A vela recentemente acesa, embora somente fumegue e não tenha chama, não será apagada, mas soprada para alimentar a chama. O dia das pequenas coisas é o dia das coisas preciosas, e por isso Ele não o desprezará, mas fará dele o dia das grandes coisas (Zacarias 4.10). Nosso Senhor Jesus lida com muita ternura com aqueles que têm a verdadeira graça, ainda que sejam fracos (Isaias 40.11; Hebreus 5.2). Ele se lembra não somente de que somos pó, mas também de que somos carne.

[3] O bom resultado e o sucesso que é dado a entender, até que Ele transforme o juízo em vitória. Aquele juízo que Ele anunciou aos gentios será vitorioso, Ele saiu vitorioso e para vencer (Apocalipse 6.2). Tanto a pregação do Evangelho no mundo como o poder do Evangelho no coração irão vencer. A graça conseguirá dominar a corrupção, e finalmente se aperfeiçoará na glória. O juízo de Cristo produzirá a vitória, pois quando Ele julgar, Ele vencerá. Ele, em verdade, produzirá o juízo, e assim será (Isaias 42.3). A verdade e a vitória são praticamente a mesma coisa, pois grande é a verdade, e ela vencerá.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 1-13

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Cristo Defende os seus Discípulos

Os mestres judeus tinham corrompido muitos dos mandamentos, dando-lhes uma interpretação menos rígida do que deveriam; um engano que Cristo revelou e corrigiu (cap. 5), no seu Sermão da Montanha. Mas em relação ao quarto mandamento, eles tinham erra­ do no outro extremo, e o tinham interpretado de maneira excessivamente rígida. Observe que é comum que homens de mentes corruptas, com o seu zelo pelos rituais e ser viços externos da religião, pensem em expiar a sua transigência moral. Mas será amaldiçoa­ do aquele que acrescentar ou remover palavras deste livro (Apocalipse 22.16,19; Provérbios 30.6).

O que o Senhor Jesus estabelece aqui é que as obras de necessidade e de misericórdia são lícitas no sábado judaico. Estas eram obras sobre as quais os judeus, em muitos casos, eram ensinados a ter escrúpulos. Quanto à habilidosa explicação de Cristo sobre o quarto manda­ mento, Ele dá a entender a obrigação perpétua à observância religiosa de um dia em sete, como um sábado santo. Ele não explicou uma lei que iria expirar em breve, mas, sem dúvida, por meio disso, esclareceu um ponto que seria usado pela igreja durante todos os tempos; e assim somos ensinados que o nosso sábado cristão, em­ bora sob a legislação do quarto mandamento, não está sujeito às leis elos anciãos judeus.

E comum definir o significado de uma lei com base em julgamentos feitos sobre casos realmente ocorridos e verídicos, e de igual modo é definido o significado dessa lei. Aqui há duas passagens unidas com est e objetivo, que ocorrem separadas por um período de tempo, e são de naturezas diferentes, mas as duas respondem a essa intenção.

 I – Cristo, ao justificar os seus discípulos colhendo espigas no sábado judaico, mostra que as obras de necessidade são lícitas neste dia. Aqui, observe:

1.O que os discípulos fizeram. Eles estavam seguindo ao seu Mestre num sábado, em meio a uma seara. Provavelmente, eles estavam se dirigindo à sinagoga (v. 9), pois não era conveniente que os discípulos de Cristo passeassem ociosamente nesse dia, e tiveram fome; que isso não represente menosprezo à supervisão de Cristo. Mas devemos imaginar que eles eram tão atentos ao trabalho no sábado, que se esqueceram de comer pão; tinham passado tanto tempo na sua adoração matinal, que não tiveram tempo para fazer a sua refeição matinal, mas saíram em jejum, porque não queriam chegar atrasados à sinagoga. A providência ordenou que eles passassem pela seara, e ali se alimentassem. Observe que Deus tem muitos meios de trazer provisões adequadas ao seu povo, quando necessário, e iria cuidar especialmente deles quando estavam a caminho da sinagoga, assim como dos antigos que subiam a Jerusalém para a adoração (Salmos 84.6,7), pois para seu uso a chuva encheu os tanques. Enquanto estamos no caminho do dever, Jeová-jiré, que o Senhor, e somente Ele, faça a provisão necessária para nós. Estando na seara, eles começaram a colher as espigas; a lei de Deus permitia isso (Deuteronômio 23.25), para ensinar as pessoas a serem hospitaleiras e amistosas, e a não insistirem sobre a propriedade em questões pequenas, quando outra pessoa poderia ser beneficiada. Isto nada mais era que uma escassa provisão para Cristo e seus discípulos, mas era o melhor que tinham, e ficaram satisfeitos com isso. O famoso Mr. Ball, de Whitmore, costumava dizer que ele tinha duas vasilhas de alimento para o seu jantar no sábado judaico, uma com leite quente, e outra com leite frio, e ele tinha mais do que suficiente.

2.Qual foi o crime que os fariseus viram nessa atitude. Foi apenas um árido desjejum, mas os fariseus não os deixariam comer em paz. Eles não discutiram com os discípulos por apanharem as espigas de outra pessoa (eles não eram grandes fanáticos por justiça), mas sim por fazerem isso no sábado judeu, pois apanhar e debulhar as espigas nesse dia era expressamente proibido pela tradição dos anciãos, porque era um tipo de colheita.

Observe que não é nenhuma novidade que as ações mais inofensivas e inocentes dos discípulos de Cristo sejam mal interpretadas, e consideradas ilícitas, especialmente por aqueles que são zelosos das suas próprias invenções e imposições. Os fariseus se queixaram dos discípulos com o seu Mestre, por fazerem o que não era lícito. Não são amigos de Cristo e de seus discípulos aqueles que procuram tornar ilícito aquilo que Deus não considera ilícito.

3.Qual foi a resposta de Cristo a essa crítica dos fariseus. Os discípulos pouco podiam se defender, especialmente porque aqueles que discutiam com eles pareciam ter a rigidez da santificação do sábado a seu favor; e é mais seguro enganar-se desse lado. Porém, Cristo veio libertar os seus seguidores, não apenas da corrupção dos fariseus, mas também das suas imposições externas às Escrituras, e, portanto, Ele tem algo a dizer em defesa deles, e pode justificar o que fizeram, embora se tratasse de uma transgressão do cânone.

(1) Ele os justifica por precedentes que foram considerados lícitos pelos próprios fariseus.

[1] Ele recorda uma circunstância ocorrida com Davi, que em uma situação de necessidade fez o que em outra situação não deveria ter feito (vv. 3,4): “Não tendes lido o que fez Davi (l Samuel 21.6), quando comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, mas só aos sacerdotes?” (Levíticos 24.5-9). Esta é uma questão santíssima para Arão e seus filhos, e (Êxodo 29.33) um estranho não a comerá; ainda assim, o sacerdote a deu a Davi e a seus homens; pois embora a exceção de um caso de necessidade não estivesse expressa, estava implícita naquela e em todas as outras instituições rituais. O que confirmou Davi, ao comer o pão da proposição, não foi a sua dignidade (Uzias, que invadiu o santuário movido pelo orgulho do seu coração. embora fosse um rei, por este motivo foi fulminado pela lepra, 2 Crônicas 26.16 etc.), mas a sua fome. Os poderosos não terão os seus caprichos tolerados, mas os pequenos terão as suas necessidades consideradas. A fome é um desejo natural que não pode ser ignorado, mas deve ser satisfeito, e não pode ser aplacado por nada, a não ser alimento; por isto dizemos que ela romperá muros de pedra. O Senhor está a favor do corpo, e permitiu que a sua própria recomendação fosse prescindida em caso de desespero; a tradição dos anciãos poderia ser ainda mais prescindida. Observe que isto pode ser feito em caso de necessidade, e não deve ser feito em outra ocasião. Há leis que a necessidade não acompanha; ela passa a ser uma lei em si mesma. Os homens não devem desprezar, mas sim ter pena de um ladrão, quando furta para saciar a sua alma, tendo fome (Provérbios 6.30).

[2] Ele recorda um exemplo diário dos sacerdotes, que, da mesma maneira, eles liam na lei, e segundo a qual era o costume comum (v. 5). Os sacerdotes no templo realizavam uma grande quantidade de trabalhos servis no sábado judaico; matando, esfolando e queimando os animais sacrificados, o que, em uma situação normal, seria profanar o sábado judaico; ainda assim, isto nunca foi reconhecido como transgressão ao quarto mandamento, porque o serviço do templo o exigia e justificava. Isso dá a entender que no sábado judaico são lícitos os trabalhos que são necessários, não apenas para o sustento da vida, mas para a adoração; como tocar um sino para convocar a congregação, ir até ao templo e coisas semelhantes. O descanso do sábado deve promover, e não impedir, a adoração no sábado.

(2) Ele os justifica com três argumentos convincentes:

[1] “Está aqui quem é maior do que o templo” (v. 6). Se o serviço do templo justificava o que os sacerdotes faziam no seu ministério, o serviço de Cristo justificava ainda mais os discípulos, no que eles faziam para ajudá-lo. Os judeus tinham uma veneração extrema pelo templo: ele santifica o ouro; Estêvão foi acusado de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar (Atos 6.13); mas Cristo, em uma seara, era maior do que o templo, pois nele residia não a presença de Deus de modo simbólico, mas toda a plenitude da divindade, corporalmente. Observe que se tudo o que fizermos for em nome de Cristo e para Ele, isto será graciosamente aceito por Cristo, por mais que possa ser censurado e criticado pelos homens.

[2] Deus quer misericórdia, e não sacrifício (v. 7). Os deveres cerimoniais devem render-se à moral, e a lei natural e real do amor e da autopreservação deve assumir o lugar das observâncias rituais. Esta é uma citação de Oséias 6.6. Foi usada antes, em Mateus 9.13, em defesa da misericórdia às almas dos homens; aqui, para a misericórdia aos seus corpos. O descanso do sábado era ordenado para o bem dos homens, para o bem do corpo (Deuteronômio 5.14). Mas nenhuma lei deve ser elaborada para contradizer o seu próprio objetivo. “se vocês soubessem o que isto quer dizer, se soubessem o que significa ter uma inclinação misericordiosa, vocês teriam lamentado que eles fossem forçados a fazer isto para satisfazer a sua fome, e não teriam condenado os inocentes”. Observe, em primeiro lugar, que a ignorância é a causa das nossas censuras precipitadas e pouco caridosas em relação aos nossos irmãos. Em segundo lugar, não é suficiente conhecermos as Escrituras, nós devemos nos esforçar para conhecer o seu significado. Que aquele que as lê, as compreenda. Em terceiro lugar, a ignorância do significado das Escrituras é particularmente vergonhoso naqueles que assumem a responsabilidade de ensiná-las a outros.

[3] “O Filho do Homem até do sábado é Senhor” (v. 8). Esta lei, como todo o resto, está colocada na mão de Cristo, para ser alterada, imposta ou prescindida, como Ele achar melhor. Foi através do Filho que Deus criou o mundo, e através do Filho Ele instituiu o sábado judaico, com boas intenções; através do Filho, Ele deu os dez mandamentos no Monte Sinai, e como Mediador, Ele confiou ao Filho a instituição dos mandamentos, fazendo as modificações que Ele julgasse adequadas; e, em especial, sendo Senhor do sábado, Ele foi autorizado a fazer tal alteração daquele dia, para que se tornasse o dia do Senhor, o dia do Cristo. E se Cristo é o Senhor do sábado, é adequado que o dia, e todo o trabalho nele realizado, sejam dedicados a Ele. Por este poder, Cristo aqui decreta que as obras de necessidade, se realmente o forem, e não se tratarem de uma necessidade fingida e inventada, são lícitas no sábado judaico; e esta explicação da lei mostra claramente que ela deve ser perpétua. Tendo silenciado os fariseus, e se livrado deles (v. 9), Cristo partiu e foi à sinagoga desses fariseus, na qual eles presidiam e para onde se dirigia quando eles iniciaram essa discussão com Ele. Observe, em primeiro lugar, que nós devemos tomar cuidado para que nada que aconteça no nosso caminho para os deveres sagrados nos incapacite ou nos desvie da devida realização de tais tarefas. Sigamos no caminho do nosso dever, apesar dos truques de Satanás, que se empenha, pelas distorcidas contendas de homens de mentes corruptas, e por muitos outros métodos, em nos perturbar e desordenar. Em segundo lugar, nós não devemos, por causa de rixas ou tristezas pessoais, nos afastar da adoração pública. Embora os fariseus tivessem criticado maldosamente a Cristo, ainda assim Ele compareceu à sinagoga deles. Satanás marca ponto se, semeando a discórdia entre os irmãos, ele conseguir afastar a qualquer um deles do templo, e da comunhão daqueles que são fiéis ao Senhor.

 

II – Cristo, ao curar o homem que tinha a mão mirrada, no sábado, mostra que as obras de misericórdia são lícitas e adequadas de serem realiza das neste dia. A obra de necessidade foi realizada pelos discípulos, e justificada por Jesus; a obra de misericórdia foi realizada por Ele mesmo; as obras de misericórdia eram as suas obras de necessidade; o seu alimento e a sua bebida eram fazer o bem. “É necessário que eu anuncie … o evangelho”, disse Ele (Lucas 4.43). Esta cura foi registrada por causa da época em que fazer isto no sábado era errado.

Aqui estão:

1.O sofrimento em que esse pobre homem se encontrava; a sua mão estava tão ressequida (ou mirrada), que ele encontrava-se totalmente incapacitado para ganhar a vida trabalhando com as mãos. Jerônimo diz que o Evangelho de Mateus em hebraico, usado pelos nazarenos e ebionitas, acrescenta à história do homem com a mão ressequida, o fato de ele ser um pedreiro, e ter se apresentado a Cristo da seguinte maneira: “Senhor, eu sou um pedreiro, e ganho a vida pelo meu trabalho; eu lhe suplico, ó Jesus, devolva-me o uso da minha mão, para que não seja obrigado a implorar pelo meu pão”. Este pobre homem estava na sinagoga. Observe que aqueles que podem fazer muito pouco, ou têm pouco a fazer pelo mundo, devem fazê-lo mais pelas suas almas, assim como os ricos, e também os idosos e os enfermos.

2.Uma pergunta rancorosa que os fariseus apresentam a Cristo, diante deste homem. Eles lhe perguntaram: “É lícito curar” Até aqui, não lemos de nenhum pedido de cura que este pobre homem tenha feito a Cristo, mas os fariseus observaram que Cristo começou a prestar atenção nele, e sabiam que era comum que Ele fosse encontrado por aqueles que não o procuravam, e dessa forma, com a sua maldade, eles anteciparam a bondade de Jesus, e iniciaram este caso como um obstáculo no caminho de fazer o bem. “É lícito curar nos sábados?” Era ou não lícito que os médicos curassem naquele dia? Este era o assunto discutido nos seus livros. Alguém poderia pensar que esta era uma discussão ultrapassada, que era lícito que os profetas curassem, que Ele curasse aqueles que percebessem um poder e bondade divinos em tudo o que Ele fazia aos seus semelhantes, e que se manifestava como enviado de Deus. Alguém perguntou se é lícito que Deus cure, que Ele envie a sua palavra e cure. É verdade, Cristo estava agora sob a lei, por submissão voluntária a ela, mas Ele nunca esteve sujeito aos preceitos dos anciãos. É lícito curar? Investigar se as ações são lícitas ou ilícitas é muito bom, e não conseguimos encontrar para nos ajudar em tal investigação ninguém mais adequado que Cristo, mas aqui os fariseus perguntavam não para que pudessem ser instruídos por Ele, mas para poderem acusá-lo. Se Ele dissesse que era lícito curar nos sábados, eles o acusariam de uma contradição com o quarto mandamento; era tão alto o grau de superstição que os fariseus tinham trazido ao descanso do sábado, que, a menos que houvesse risco de vida, eles não permitiam cirurgias nos sábados. Se Ele dissesse que era ilícito, eles o acusariam de parcialidade, tendo, recentemente, justificado os seus discípulos por colhe rem espigas naquele mesmo dia.

3.A resposta de Cristo a essa pergunta, apelando aos próprios fariseus e à sua própria opinião e costume (vv. 11, 12). Caso uma ovelha (embora apenas uma, cuja perda não seria muito grande) caísse em uma cova num sábado, eles não a tirariam de lá? Sem dúvida, eles poderiam fazê-lo, o quarto mandamento permitia isso; eles deveriam fazer isso, pois um homem misericordioso tem consideração pela vida de seus animais, e no que lhes dizia respeito, eles o fariam, em lugar de perder uma ovelha. Cristo cuida da ovelha? Sim, Ele cuida; Ele preserva e provê, tanto para os homens como para os animais. Mas aqui Ele diz isto por nós (1 Coríntios 9.9,10), e, consequentemente, pergunta: “Quanto mais vale um homem do que uma ovelha?” As ovelhas são criaturas não apenas inofensivas, mas também úteis, e são, de maneira correspondente, valorizadas e cuidadas; ainda assim, um ser humano tem preferência diante delas. Observe que o homem, com respeito ao seu ser, é melhor e mais valioso do que a melhor das criaturas selvagens: o homem é uma criatura racional, capaz de conhecer, amar e glorificar a Deus, e por isto é melhor do que uma ovelha. O sacrifício de uma ovelha, portanto, não pode expiar o pecado de uma alma. Não levam isto em consideração aqueles que se preocupam mais com a educação, com a preservação e o sustento de seus cavalos e cães do que com os pobres de Deus, ou talvez até com aqueles que fazem parte de sua própria casa.

Com isso, Cristo chega a uma verdade, que, até mesmo à primeira vista, parece muito razoável e bem-intencionada; a de que é lícito fazer bem nos sábados. Eles tinham perguntado: “É lícito curar?”. Cristo prova que é lícito fazer o bem, e deixa qualquer pessoa julgar se curar, como Ele curava, não era fazer o bem. Observe que há muitas maneiras de fazer o bem nos sábados, bem como tributar adoração imediata a Deus. Ajudar os enfermos, aliviar os pobres, ajudar aqueles que caíram em um infortúnio repentino, e precisam de auxílio rápido; isto é fazer o bem. E isto deve ser feito a partir de um princípio de amor e caridade, com humildade e autonegação, e de um estado de espírito voltado às coisas celestiais; isto é fazer o bem, e isto será aceito (Genesis 4.7).

4.A cura do homem, realizada por Cristo, apesar de prever que os fariseus iriam ver algo ilícito no seu ato (v. 13). Embora não conseguissem responder aos argumentos de Cristo, eles estavam decididos a persistir no seu preconceito e na sua inimizade; mas Cristo, apesar disso, prosseguiu com o seu trabalho. Observe que o dever não deve deixar de ser realizado, nem devem ser negligenciadas as oportunidades de fazer o bem, por medo de cometer algo ilícito. Devemos observar a maneira como se realizou a cura. Cristo disse ao homem: “Estende a mão”; em outras palavras: Esforça-te o quanto puder, e o homem o fez, e foi curado. Esta, assim como outras curas que Cristo realizou, teve um significado espiritual.

(1) As nossas mãos, por natureza, são ressequidas, nós somos completamente incapazes de fazer, por nós mesmos, qualquer coisa boa.

(2) Somente Cristo, pelo poder da sua graça, nos cura. Ele cura a mão ressequida, dando vida à alma morta; Ele opera em nós tanto o querer como o realizar.

(3) Para a nossa cura, Ele nos ordena estendermos as nossas mãos para aprimorar os nossos poderes naturais, e fazermos o melhor que pudermos; estendê-las em oração a Deus, estendê-las para nos aproximarmos de Cristo pela fé, estendê-las em esforços santificados. Este homem não conseguia estender a sua mão ressequida, não mais do que o homem paralítico conseguia levantar-se e carregar a sua cama, ou Lázaro sair da sua tumba; ainda assim, Cristo pede que ele o faça. Os mandamentos de Deus para fazermos as coisas que não conseguimos fazer por nós mesmos não são mais incríveis do que a sua ordem ao homem com a mão ressequida, para estendê-la; pois com a ordem, existe uma promessa de graça que é dada pela palavra: “Convertei-vos pela minha repreensão; eis que abundantemente derramarei sobre vós meu espírito” (Provérbios 1.23). Aqueles que perecem são tão imperdoáveis quanto este homem teria sido, se não tivesse tentado estender a mão e, dessa forma, não tivesse sido curado. Mas aqueles que são salvos não têm mais de que se vangloriar do que este homem teve, ao contribuir para a sua própria cura, ao estender a sua mão, mas estão em dívida com o poder e a graça de Cristo, tanto quanto ele estava.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 25-30

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O Convite de Cristo às Almas Oprimidas

Nestes versículos, temos Cristo elevando os olhos para o céu, agradecendo ao seu Pai pela soberania e pela segurança do concerto da redenção; e olhando à sua volta, a esta terra, com uma oferta para todos os filhos dos homens, a quem virão estas dádivas, os privilégios e os benefícios do concerto da graça.

I – Aqui Cristo agradece a Deus Pai pela sua generosidade a favor dos pequeninos, a quem foram revelados os mistérios do Evangelho (vv. 25,26). Jesus respondeu e agradeceu. Isto é chamado de resposta, embora não haja outras palavras registradas anteriormente, a não ser as suas próprias, porque é uma resposta muito consoladora às considerações melancólicas que a ante­ cedem, e contrasta com elas de maneira adequadamente equilibrada. O pecado e a destruição daquelas cidades infelizes, sem dúvida, era um pesar para o Senhor Jesus. Ele não podia fazer nada, exceto chorar por elas, como fez por Jerusalém (Lucas 19.41). Com este pensamento, portanto, Ele se alivia; e para torná-lo ainda mais animador, Ele o transforma em um agradecimento; pois apesar de tudo, existem alguns, embora ainda pequeninos, a quem as coisas do Evangelho são reveladas. Embora Israel não se una, ainda assim será uma nação gloriosa. Observe que podem os obter um grande incentivo ao erguer os olhos para Deus, quando à nossa volta não vem os nada, exceto o que nos desencoraja. É triste ver o quanto alguns homens deixam de se preocupar com a sua própria felicidade, mas é consolador pensar que aos sábios e fiéis Deus irá efetivamente assegurar os interesses da sua própria glória. Jesus respondeu e disse: “Graças te dou”. O agradecimento é uma resposta adequada aos pensamentos obscuros e inquietantes, e podem ser um meio efetivo para silenciá-los. Cânticos de louvor são alívios soberanos para as almas desalentadas, e irão ajudá-las a curar a melancolia. Quando não tem os outra resposta pronta para o que nos traz tristeza e medo, podemos recorrer a esta expressão do Senhor Jesus: “Graças te dou, ó Pai”; devemos sempre bendizer a Deus por nossa situação não ser pior do que realmente é.

Neste agradecimento de Cristo, podemos observar:

1.Os títulos que Ele dá a Deus: “Pai, Senhor do céu e da terra”. Observe:

(1) Todas as vezes que nos aproximamos de Deus – em louvor e também em oração – é bom que o vejamos como Pai, e que nos apeguemos a este relacionamento, não somente quando pedimos o que desejamos, mas também quando agradecemos pelo que recebemos. A misericórdia é, então, duplamente doce, e poderosa para abrir o coração em louvor, quando é recebida como símbolo do amor de um Pai, e como dom da mão de um Pai; dando graças ao Pai (Colossenses 1.12). É conveniente que os filhos sejam gratos e que digam: “Obrigado, Pai”, tão prontamente como “Eu oro, Pai”.

(2) Quando buscamos a Deus como Pai, devemos também nos lembrar de que Ele é o Senhor do céu e da terra; o que nos impele a nos dirigirmos a Ele com reverência, como o soberano Senhor de todas as coisas, e, além disso, com confiança, como alguém que é capaz de fazer por nós qualquer coisa que precisarmos ou pudermos desejar; de nos defender de todo o mal e de nos dar todo o bem. Cristo, representado por Melquisedeque, há muito tempo tinha agradecido a Deus como o “Possuidor dos céus e da terra”; e em todos os nossos agradecimentos pelas misericórdias que recebemos, devemos lhe dar glória, por ser a fonte superabundante.

2.Pelo que Ele dá graças: porque “ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos”. “Estas coisas” – Ele não diz quais são as coisas, mas se refere às grandes coisas do Evangelho, as coisas que pertencem à nossa paz (Lucas 19.42). Assim, Ele fala enfaticamente sobre elas, “estas coisas”, porque eram coisas que o enchiam, e devem também nos encher: todas as outras coisas são nada, comparadas a estas coisas.

Observe como:

(1) As grandes coisas do Evangelho eterno estiveram e estão ocultas de muitos que foram sábios e prudentes, que foram eminentes no aprendizado e na política do mundo – alguns dos maiores intelectuais e dos maiores estadistas têm sido os maiores estranhos aos mistérios do Evangelho. O mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria (1 Coríntios 1.21). Há uma oposição feita ao Evangelho por uma falsamente chamada ciência (1 Timóteo 6.20). Aqueles que são mais especializados em coisas concretas e seculares, normalmente são menos versados nas coisas espirituais. Os homens podem mergulhar profundamente nos mistérios da natureza e nos mistérios do Estado, e serem ignorantes e equivoca­ dos sobre os mistérios do Reino dos céus, por precisa­ rem de uma experiência com o poder destes mistérios.

(2) Embora os homens sábios e prudentes do mundo estejam nas trevas a respeito dos mistérios do Evangelho, até mesmo as crianças em Cristo têm o conhecimento salvador e santificador desses mistérios: “as revelas­ te aos pequeninos”. Assim eram os discípulos de Cristo; homens de nascimento humilde e pouca instrução; não eram intelectuais, não eram artistas, não eram políticos, eram homens sem letras e indoutos (Atos 4.13). Assim, os segredos da sabedoria, que é multiforme (Jó 11.6), são revelados às crianças e aos que mamam, para que a força possa ser suscitada das suas bocas (SaImos 8.2), e desta forma o louvor a Deus seja perfeito. Os homens instruídos do mundo não foram escolhidos para serem os pregadores do Evangelho, mas as coisas tolas do mundo (l Coríntios 2.6,8,10).

(3) Esta diferença entre os prudentes e os pequeninos é obra de Deus.

[1] Foi Ele quem ocultou estas coisas dos sábios e instruídos; Ele lhes deu funções e instrução e uma grande compreensão humana, superior à dos outros, e eles se orgulhavam disso, e descansavam sobre isso, e não procuravam nada além disso; e, portanto, Deus, com justiça, lhes nega o Espírito de sabedoria e revelação, e então, embora eles ouçam o som das notícias do Evangelho, para os tais, elas são uma coisa estranha. Deus não é o autor da sua ignorância e dos seus erros, mas Ele os deixa à sua própria sorte, e o seu pecado se torna a sua punição, e o Senhor é justo a este respeito. (veja João 12.39,40; Romanos 11.7,8; Atos 28.26,27.) Se eles tivessem honrado a Deus com a sabedoria e a prudência que tinham, Ele lhes teria dado o conhecimento dessas coisas melhore s; mas, porque eles alimentavam os seus desejos com elas, Ele ocultou esse conhecimento de seus corações.

[2] Foi também Ele quem revelou essas coisas aos pequeninos. As coisas reveladas pertencem aos nossos filhos (Deuteronômio 29.29), e a eles Deus dá uma compreensão para receber estas coisas, e as suas impressões. Desta maneira, Ele resiste aos soberbos, e “dá, porém, graça aos humildes” (Tiago 4.6).

(4) Esta dispensação deve ser decidida no âmbito da soberania divina. O próprio Cristo relacionou-a à soberania divina: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”. Aqui, Cristo se sujeita à vontade do seu Pai no que se refere a este assunto. Sim, deixemos que Deus use os métodos que Ele quiser para se glorificar, e que Ele faça de nós os instrumentos que quiser, para continuarmos a sua própria obra; a graça pertence a Ele, e Ele pode concedê-la ou retê-la, de acordo com a sua vontade. Não podemos explicar por que Pedro, um pescador deveria ter sido feito apóstolo, e não Nicodemos, um fariseu e legislador dos judeus, embora ele também cresse em Cristo; mas assim aprouve a Deus. Cristo disse isto para que os seus discípulos ouvissem, para lhes mostrar que não era devido a nenhum mérito deles que estavam sendo desta maneira dignificados e distinguidos, mas puramente devido à boa vontade de Deus. Ele os criou para que fossem diferenciados.

(5) Esta maneira de dispensar a graça divina deve ser reconhecida por nós, como foi pelo nosso Senhor Jesus, com toda a gratidão. Nós devemos agradecer a Deus:

[1] Pelo fato de essas coisas serem reveladas (o mistério oculto por século gerações agora é manifestado); pelo fato de elas serem reveladas, não a poucas pessoas, mas porque serão transmitidas a todo o mundo.

[2] Pelo fato de serem reveladas aos pequeninos; pelo fato de os mansos e humildes se embelezarem com esta salvação; e esta honra é colocada sobre aqueles a quem o mundo dedica um grande desprezo.

[3] Porque a misericórdia a eles é ampliada, com o fato de que essas coisas estão ocultas dos sábios e instruídos – as graças que distinguem são as que mais obrigam. Assim como Jó adorava o nome do Senhor quando Ele lhe dava algo, ou quando lhe tirava algo, possamos também revelar aos pequeninos estas coisas que estão ocultas dos sábios e instruídos; não como sendo a sua infelicidade, mas como sendo um método pelo qual o próprio ser se humilha, os pensa­ mentos 01·gulhosos são destruídos, toda a carne é silenciada, e o poder e a sabedoria divinos brilham de modo ainda mais intenso. Veja 1 Coríntios 1.27,31.

 

II – Aqui Cristo faz uma graciosa oferta dos benefícios do Evangelho a todos, e estes são as coisas que são reveladas aos pequeninos (v. 25 etc.). Observe aqui:

1.O prefácio solene que introduz este chamado ou convite, tanto para chamar a nossa atenção a ele como para nos incentivar a estar de acordo com ele. Para que possamos ter um forte consolo, procurando refúgio nesta esperança que é colocada diante de nós, Cristo assinala a sua autoridade apresentando as suas credenciais. Nós veremos que Ele tem autoridade para fazer esta oferta.

Ele nos apresenta duas situações (v. 27):

(1) A sua comissão da parte do Pai: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai”. Cristo, sendo Deus, é igual, em poder e glória, ao Pai; mas como Mediador, Ele recebe o seu poder e a sua glória do Pai; Ele tem todo o julgamento sujeito a si. Ele está autorizado a estabelecer um novo concerto entre Deus e os homens, e a oferecer paz e felicidade ao mundo apóstata, nos termos que Ele julga adequados. Ele foi santificado e sela­ do para ser o único plenipotenciário, para conciliar e estabelecer este grande relacionamento. Para isto, Ele tem “todo o poder no céu e na terra” (cap. 28.18); tem poder sobre toda carne (João 17.2); autoridade para todo o juízo (João 5.22,27). Isto nos incentiva a ir a Cristo, pois só Ele está designado pelo Pai para nos receber, e nos dar aquilo que precisamos. Aquele que é o Senhor de todas as coisas lhe entregou tudo para que este objetivo seja alcançado. Todos os poderes, todos os tesouros, estão na sua mão. Observe que o Pai entregou todas as suas coisas nas mãos do Senhor Jesus; só temos que entregar as nossas coisas na sua mão, e o trabalho estará feito. Deus fez de Jesus o grande Juiz, o bendito Árbitro, para estender a sua mão sobre nós; e o que nós devemos fazer é concordar com a referência, é sujeitar-nos à arbitragem do Senhor Jesus, para que esta infeliz controvérsia seja resolvida, e para que possamos receber a sua recompensa.

(2) A sua intimidade com o Pai: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho”. Isto nos dá uma satisfação a mais, e muito abundante. Os embaixadores costumam ter não apenas as suas comissões, que eles apresentam, mas as suas instruções, que eles reservam a si mesmos, para fazer uso delas quando houver oportunidades nas suas negociações. O nosso Senhor Jesus tinha as duas coisas, não somente a autoridade, mas a capacidade para a sua tarefa. Ao ordenar o grande pacto ela nossa redenção, o Pai e o Filho são as principais partes interessadas; um conselho ele paz haverá entre ambos (Zacarias 6.13). Portanto, eleve ser um grande incentivo para que sejamos assegurados ele que Eles se compreendiam muito bem a respeito deste assunto; que o Pai conhecia o Filho, e o Filho conhecia o Pai, e ambos com perfeição (uma consciência mútua, podemos dizer, entre o Pai e o Filho), para que não houvesse engano ao estabelecer esta questão; pois sempre há enganos entre os homens na conclusão de contratos e no rompimento ele medidas adotadas, por causa ela sua falta ele compreensão entre si. O Filho tinha estado no seio elo Pai desde a eternidade; Ele era um membro do conselho ele gabinete (João 1.18). Cristo estava com Ele, como seu aluno (Provérbios 8.30), ele modo que ninguém conhece o Pai, senão o Filho, acrescenta Ele, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Observe:

[1] A felicidade dos homens está no conhecimento de Deus; é a vida eterna, é a per­ feição dos seres racionais.

[2] Aqueles que desejarem conhecer a Deus, devem procurar a Jesus Cristo; pois a luz do conhecimento da glória de Deus brilha na face de Cristo (2 Coríntios 4.6). Nós somos impelidos a Cristo por toda a revelação que temos ela vontade e do amor de Deus Pai, desde que Adão pecou; não existe uma relação confortável entre um Deus santo e um homem pecador, a não ser por meio de um Mediador (João 14.6).

2.Aqui nos é feita a própria oferta, e também um convite para aceitá-la. Depois de um prefácio solene, nós podemos esperar algo muito grandioso, e são palavras leais e dignas de toda a aceitação; palavras pelas quais nós podemos ser salvos. Aqui, somos convidados a ter Cristo como nosso Sacerdote, Príncipe e Profeta, para sermos salvos. E, para alcançarmos isto, devemos ser governados e ensinados por Ele.

(1) Devemos ir a Jesus Cristo como o nosso descanso, e repousar nele (v. 28), “Vinde a mim, todos os que es­ tais cansados”. Observe:

[1] O caráter das pessoas que são convidadas: “Todos os que estais cansados, e oprimidos”. Esta é uma boa palavra ao que está cansado (Isaias 50.4). Que aqueles que reclamam do peso da lei cerimonial, que era um jugo insuportável, e ficava ainda pior pela tradição elos anciãos (Lucas 11.46), venham a Cristo, e serão aliviados. Ele veio para libertar a sua igreja deste jugo, para anular a imposição destes rituais carnais, e para apresentar uma maneira mais pura e espiritual de adorar – mas é necessário compreender o peso elo peca­ do, tanto da culpa como elo poder maligno que ele traz. Observe que são convidados para descansar em Cristo todos aqueles, e somente aqueles, que percebem que o pecado é um peso, e que gemem sob este peso; os que não somente estão convencidos elo mal do pecado, do seu próprio pecado, mas que, por esta razão, são contritos de alma; que realmente estão cansados dos seus pecados, cansados ele servir ao mundo e à carne; que veem a sua triste e perigosa condição em razão do pecado, e que sofrem e temem por isto, como Efraim (Jeremias 31.18-20), o filho pródigo (Lucas 15.17), o publicano (Lucas 18.13), os ouvintes de Pedro (Atos 2.37 ), Paulo (Atos 9.4,6,9), e o carcereiro (Atos 16.29,30). Este é um preparativo necessário para o perdão e para a paz. O Consolador deve primeiramente convencer (João 16.8). “Fez a ferida e a ligará” (Oseias 6.1). “Eu firo e eu saro” (Deuteronômio 32.39).

[2] O próprio convite: “Vinde a mim”. Esta maravilhosa demonstração da grandeza de Deus, que nós tivemos (v. 27), como Senhor de todas as coisas, pode nos afugentar dele, mas veja aqui como Ele segura o cetro de ouro, para que possamos tocar o seu topo e viver. Observe que é dever e interesse dos pecadores cansados e oprimidos vir até Jesus Cristo. Renunciando a todas aquelas coisas que estão em oposição a Ele, ou que competem com Ele, nós devemos aceitá-lo, como nosso Médico e Advogado, e desistir de nós mesmos, pela sua conduta e pelo seu governo; desejando livremente ser salvos por Ele, à sua maneira, e de acordo com as suas condições. Venha, e jogue este peso sobre Ele, este peso que lhe oprime. Este é o convite do Evangelho: “O Espírito e a esposa dizem: Vem! E quem ouve diga: Vem! E quem tem sede venha”.

[3] A benção prometida a todos aqueles que vierem: “Eu vos aliviarei”. Cristo é o nosso Noé, cujo nome significa descanso, pois Ele “nos dará descanso das nossas obras e do trabalho das nossas mãos” (Genesis 5.29; 8.9, versão TE). Verdadeiramente, o descanso é bom (Genesis 49.15), especialmente àqueles cansados e oprimidos (Eclesiastes 5.12). Observe que Jesus Cristo dará um descanso assegurando àquelas almas cansadas, que por meio de uma fé viva venham até Ele, procurando este descanso; descanso do terror do pecado, numa paz de consciência bem fundamentada; descanso do poder do pecado, numa ordem regular da alma, e do seu próprio governo; um descanso em Deus e uma complacência da alma, no seu amor (Salmos 11.6 ,7). Este é o repouso que resta para o povo de Deus (Hebreus 4.9), que se inicia na graça e se aperfeiçoa na glória.

(2) Nós devemos ir a Jesus Cristo como nosso Governante, e nos submetermos a Ele (v. 29). “Tomai sobre vós o meu jugo”. Isto acompanha o versículo anterior, pois Cristo é exaltado para ser o Príncipe e também o Salvador, o Sacerdote sobre o seu trono. O repouso que Ele promete é um alívio do trabalho árduo do pecado, não do serviço a Deus, e não deixa de ser uma obrigação e um dever que temos para com Ele. Cristo tem um jugo para os nossos pescoços, e também uma coroa para as nossas cabeças, e Ele espera que este jugo nos atraia e que o tomemos sobre nós. Convidar os que estão cansados e oprimidos para que tomem sobre si um jugo, parece aumentar a aflição dos aflitos, mas a pertinência disso está na palavra “meu” “Vocês estão sob um jugo que os deixa cansados; tirem este jugo e experimentem o meu, que será mais fácil para vocês”. Diz-se que os servos estão debaixo de um jugo (1 Timóteo 6.1), assim como os súditos (1 Reis 12.10). Tomar o jugo de Cristo sobre nós significa colocarmo-nos da mesma maneira que os servos e os súditos dele, e nos conduzir adequadamente, em uma obediência consciente a todos os seus mandamentos, e em uma submissão alegre a todas as suas vontades; é obedecer ao Evangelho de Cristo, rendermo-nos ao Senhor: é o jugo de Cristo; o jugo que Ele indicou; um jugo que Ele mesmo apresentou diante de nós, pois Ele aprendeu a obediência. Ele faz uma obra através do seu Espírito que habita e opera dentro de cada um de nós, pois Ele nos ajuda nas nossas fraquezas (Romanos 8.26). Um jugo dá a entender uma dose de dificuldades, mas se o animal precisa puxar, o jugo o ajuda. Os mandamentos de Cristo são todos a nosso favor: nós devemos tomar este jugo sobre nós para nos ajudar. Nós tomamos o jugo para trabalhar; portanto, devemos ser diligentes. Nós tomamos o jugo para nos sujeitar; portanto, devemos ser humildes e pacientes. Nós tomamos o jugo juntamente com nossos irmãos, que também são servos; portanto, devemos guardar a comunhão dos santos; e as palavras do sábio são como um incentivo para aqueles que tomam este jugo sobre si.

Esta é a parte mais difícil da nossa lição, e, por esta razão, ela é especificada (v. 30): “O meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”. Vocês não precisam ter medo dele.

[1] O jugo dos mandamentos de Cristo é um jugo suave; não apenas suave, mas gracioso, este é o significado desta palavra. É doce e agradável, não há nada nele que machuque o pescoço que ele prende, nada que nos machuque, mas, ao contrário, ele nos alivia. É um jugo que está alinhado com o amor. Esta é a natureza de todos os mandamentos de Cristo, tão razoáveis em si mesmos, tão proveitosos para nós, e tudo resumido em uma única palavra, e que palavra doce: amor. Tão pode­ rosa é a ajuda que Ele nos dá, tão adequados são os incentivos, e tão fortes os consolos, que devem ser encontrados no caminho do dever, que nós podemos verdadeiramente dizer: É um jugo de conforto. É suave para a nova natureza, muito fácil de ser carregado por aquele que tem conhecimento (Provérbios 14.6). Pode ser um pouco difícil no início, mas depois se torna fácil, suave; o amor de Deus e a esperança do céu o tornarão suave.

[2] O fardo da cruz de Cristo é um fardo leve, muito leve. As aflições de Cristo, que acontecem conosco como homens; os sofrimentos por amor a Cristo, que nos acontecem como cristãos – estes têm um significado especial. Este fardo, por si mesmo, não é alegre, mas triste; ainda assim, por ser de Cristo, é leve. Paulo o conhecia como qualquer homem, e ele o chama de leve tribulação (2 Coríntios 4.17). A presença de Deus (Isaias 43.2), a com­ paixão de Cristo (Isaias 73.9; Daniel 3.25), e especialmente a consolação do Espírito (2 Coríntios 1.5), tornam o sofrimento por amor a Cristo algo leve e suave. Quando abundam os sofrimentos, e são prolongados, também abundam os consolos, que são também prolongados. Devem os, portanto, nos reconciliar com as dificuldades, e nos ajudar em meio aos desânimos que podemos encontrar, tanto realizando o trabalho como sofrendo o trabalho: embora possamos perder algo por amor a Cristo, não seremos perdidos por Ele.

(3) Nós devemos procurar Jesus Cristo como nosso Mestre, e nos dispormos a aprender com Ele (v. 29). Cristo edificou uma grande escola e nos convidou para sermos seus alunos. Nós devemos entrar, nos relacionarmos com seus alunos e comparecer diariamente para as instruções que Ele dá, por meio da sua palavra e do seu Espírito. Nós devemos conversar muito sobre o que Ele disse, estando preparados para utilizar as suas palavras em todas as ocasiões. Devemos estar em conformidade com o que Jesus fez, e seguir as suas pisadas (1 Pedro 2.21). Alguns fazem das palavras “sou manso e humilde de coração” uma lição particular que nós devemos aprender do exemplo de Cristo. Devemos aprender dele a ser mansos e humildes, e devemos mortificar o nosso orgulho e a nossa paixão, que nos tornam tão diferentes dele. Devemos aprender as lições ensinadas por Cristo, como também as lições a respeito de Cristo (Efésios 4.20), pois Ele é, ao mesmo tempo, o mestre e a própria Lição, a Orientação e o Caminho; Ele é Tudo em Todos.

São dadas duas razões pelas quais devemos aprender mais a respeito de Cristo.

[1] “Sou manso e humilde de coração”, e, desta forma, capacitado para lhe ensinar. Em primeiro lugar, Ele é manso, e pode ter compaixão dos ignorantes, com quem os outros poderiam ter algum aborrecimento. Muitos professores capacitados são temperamentais e apressados, o que é um grande desencorajamento para aqueles que são menos inteligentes, ou lentos, mas Cristo sabe como suportar isto e como abrir o entendimento dessas pessoas. A sua maneira de lidar com os seus doze discípulos foi um exemplo disso. Ele era manso e gentil com eles, e aproveitou o máximo deles. Embora eles fossem desatentos e esquecidos, Ele não era extremado, a ponto de destacar as suas tolices. Em segundo lugar, Ele é humilde de coração. Ele condescende para ensinar a pobres alunos, e novos convertidos. Ele escolheu discípulos, não da corte, nem das escolas, mas do litoral. Ele ensina os primeiros princípios, coisa que são como leite para os bebês. Ele se curva às capacidades mais inferiores. Ele ensinou Efraim a andar (Oseias 11.3). Quem ensina como Ele? É um incentivo para nós frequentar a escola de tal professor. Esta humildade e mansidão qualificam-no para ser o Mestre, e estas serão as melhores qualificações daqueles que serão ensinados por Ele; pois Ele guiará os humildes na justiça (Salmos 25.9, versão RA).

[2] “Encontrareis descanso para a vossa alma”. Esta promessa é emprestada de Jeremias 6.16, pois Cristo gostava de se expressar usando a linguagem dos profetas, para mostrar a harmonia entre os dois Testamentos. Observe, em primeiro lugar, que o descanso para a alma é o descanso mais desejável; ter a alma descansada. Em segundo lugar a única maneira, e uma maneira garantida, de encontrar descanso para a nossa alma, é sentarmo-nos aos pés de Cristo e ouvir a sua palavra. O caminho do dever é o caminho para o descanso. O entendimento encontra descanso no conhecimento de Deus e de Jesus Cristo, e ali é abundantemente satisfeito, encontrando no Evangelho aquela sabedoria que foi buscada em vão em meio a toda a criação (Jó 28.12). As verdades que Cristo ensina são tais que nós podemos arriscar a nossa alma nelas. Os enfermos irão encontrar descanso no amor de Deus e Jesus Cristo, e neles encontrar o que lhes dará uma satisfação abundante, tranquilidade e certeza para sempre. E estas satisfações serão perfeitas e perpetuadas no céu, onde veremos e apreciaremos a Deus imediatamente, e o veremos como Ele é, e o apreciaremos como Ele nos aprecia. Este descanso se dará com Cristo, para todos aqueles que aprendem dele.

Pois bem, este é o resumo e o conteúdo do chamado e da oferta do Evangelho: aqui nós lemos, em poucas palavras, o que o Senhor Jesus deseja de nós, e isto está de acordo com aquilo que Deus disse repetidas vezes a respeito dele: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; escutai-o”.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 16-24

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Cristo Repreende Corazim e outras Cidades

Cristo ia continuar a elogiar João Batista e o seu ministério, mas aqui Ele se interrompe de repente, e transforma o que estava dizendo em uma censura àqueles que recebiam o ministério de João Batista, o seu e de seus discípulos, em vão. Quanto a esta geração, podemos observar a quem Ele a compara (vv. 16-19) – e quanto aos lugares em particular que Ele exemplifica, podemos observar com quem Ele os compara (vv. 20-24).

 I – Quanto a esta geração, era a congregação do povo judeu naquela época. Na verdade, havia muitos que se esforçavam para entrar no Reino dos céus, mas a maioria continuava na descrença e na obstinação. João era um grande homem, e um bom homem, mas a geração na qual o seu destino foi lançado era uma geração tão infértil e improdutiva quanto poderia ser, e era indigna dele. Observe que a má qualidade dos lugares onde vivem bons ministros serve de contraste para a boa qualidade deles. Foi louvável que Noé fosse justo em meio à sua geração. Tendo elogiado João, Cristo condena aqueles que o tinham em seu meio, e não aproveitaram o seu ministério. Por mais dignas de elogios que sejam as pessoas, se elas desprezarem a Cristo isto será revelado no Dia do Juízo.

O Senhor Jesus nos apresenta esta verdade em forma de parábola, mas fala como se estivesse perplexo por descobrir uma semelhança adequada para representá-la: “A quem assemelharei esta geração?” Não existe um absurdo maior do que aquele de que são culpados os que têm boa pregação em seu meio e nunca a aprovei­ tam. É difícil dizer com que se assemelham. A semelhança é obtida de um costume comum entre as crianças judias ao brincar, que, como é normal com as crianças, imitavam os costumes dos adultos nos casamentos e nos enterros, celebrando e lamentando; mas, sendo tudo uma brincadeira, não causava nenhuma impressão. Nem o ministério de João Batista, nem o de Cristo, causavam uma impressão maior sobre aquela geração. Jesus pensa particularmente nos escribas e nos fariseus, que se orgulhavam de si mesmos; portanto, para humilhá-los, Ele os compara às crianças, e o seu comportamento, à brincadeira de crianças.

A parábola é melhor explicada com o seu estudo e exemplo nestas cinco observações:

Observe:

1.O Deus do céu usa uma variedade de meios e métodos adequados para a conversão e a salvação das pobres almas. Ele deseja que todos os homens sejam salvos, e, portanto, faz todo o possível para conseguir isso. O seu grande objetivo é que as nossas vontades estejam de acordo com a vontade de Deus, e, para isto, que as nossas inclinações estejam de acordo com as descobertas que Ele nos fez de si mesmo. Tendo várias inclinações para transformar, Ele usa várias maneiras de trabalhar sobre elas, que embora sejam diferentes entre si, todas tendem para a mesma coisa, e Deus está em todas elas, realizando o mesmo desígnio. Nesta parábola, isto é, o seu tocar flauta para nós, e o seu cantar lamentações para nós. Ele tocou flauta para nós nas preciosas promessas do Evangelho, que é apropriado para trabalhar com a esperança, e cantou lamentações por nós nas terríveis ameaças da lei, que são apropriadas para trabalhar com o medo, para que Ele pudesse nos afastar do pecado pelo medo, e nos atrair para si mesmo. Ele tocou flauta para nós em providências de graça e misericórdia, e cantou lamentações para nós em providências calamitosas e aflitivas, e colocou uma contra a outra. Ele ensinou os seus ministros a mudar a sua voz (Gálatas 4.20); algumas vezes, para falar como o trovão do monte Sinai, outras vezes numa voz mais calma, do monte Sião.

Na explicação desta parábola, é apresentada a diferença de caráter entre os ministérios de João e de Cristo: tendo sido ambos as duas maiores luzes daquela geração.

(1) Por um lado, João veio até eles lamentando-se, sem comer nem beber; sem conversar amigavelmente com as pessoas, nem comendo normalmente com eles, mas sozinho, na sua cela no deserto, onde a sua refeição era composta de gafanhotos e mel silvestre. Alguém poderia pensar que isto os influenciaria, pois uma vida austera e humilde como esta, estava bastante de acordo com a doutrina que ele pregava – e este ministro, cujas palavras estão de acordo com a sua doutrina, provavelmente realizará boas obras; mas mesmo a pregação de um ministro assim nem sempre é eficiente.

(2) Por outro lado, o Filho do Homem veio comendo e bebendo, e assim Ele tocou flauta para eles. Cristo conversava amigavelmente com todos os tipos de pessoas, sem tender a nenhuma rigidez ou austeridade em particular. Ele era afável e acessível, não se intimidava com nenhuma companhia, estava sempre nas festas, tanto com os fariseus como com os publicanos, para ver se isto conquistaria aqueles que não tinham sido conquistados pela maneira reservada de João Batista. Aqueles que não tinham se intimidado pelas censuras de João, seriam atraídos pelos sorrisos de Cristo; assim, o apóstolo Paulo aprendeu a fazer-se tudo para todos (1 Coríntios 9.22). Agora, o nosso Senhor Jesus, com a sua liberdade, não condenou a João de maneira nenhuma, assim como João nunca o condenou, embora os seus procedimentos fossem muito diferentes. Note que embora nunca tenhamos clara a efetividade do nosso procedimento, ainda assim não devemos julgar os outros com base nela. Pode haver uma grande diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos (1 Coríntios 12.6), e a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil (v. 7). Observe, especialmente, que os ministros de Deus têm dons variados: a habilidade e a genialidade em alguns se mostra de uma maneira; em outros, de outra; alguns são Boanerges, filhos do trovão; outros, Barnabés, filhos da consolação; mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, e por isto nós não devemos condenar nenhum deles, mas louvar a todos, e louvar a Deus por todos, pois Ele, desta maneira, experimenta várias maneiras de lidar com pessoas de variados tempera­ mentos, para que os pecadores possam se tornar maleáveis ou deixados na condição de inexcusáveis, para que, qualquer que seja o caso, Deus seja glorificado.

Observe:

2.Os diversos métodos que Deus usa para a conversão dos pecadores, com muitos resultam infrutíferos e ineficientes. “‘Não dançastes… não chorastes’; não fostes influenciados nem de uma maneira nem de outra.” Meios particulares têm, como na medicina, as suas intenções particulares, que devem obter reações, e impressões particulares, que devem ser submetidas para o sucesso do desígnio maior e geral. Mas se as pessoas não se sentirem obrigadas por leis, nem convidadas pelas promessas e nem ainda amedrontadas por ameaças, não serão despertadas pelas coisas maio­ res, nem atraídas pelas coisas mais doces, nem atemorizadas pelas coisas mais terríveis, nem sensibilizadas pelas coisas mais comuns. Se não ouvirem a voz das Escrituras, nem a razão, nem as experiências, nem a providência, nem a consciência, nem o interesse, o que mais pode ser feito? “Já o fole se queimou, o chumbo se consumiu com o fogo; em vão vai fundindo o fundidor tão diligentemente… Prata rejeitada lhes chamarão” (Jeremias 6.29,30). Debalde o ministro terá trabalhado (Isaias 49.4), e, o que é uma perda muito maior, a graça de Deus terá sido recebida em vão (2 Coríntios 6.1). Há algum consolo para os ministros fiéis que veem pouco sucesso nos seus esforços, o fato de que não é novidade que os melhores pregadores, e a melhor pregação do mundo, não alcancem o fim desejado. “Quem deu crédito à nossa pregação?” Se do sangue dos feridos, da gordura dos valentes (2 Samuel 1.22), do arco daqueles grandes comandantes, Cristo e João voltaram tantas vezes vazios, não é de admirar se nós também voltarmos, e se profetizarmos sobre ossos secos com tão poucos propósitos.

Observe:

3.Que normalmente aquelas pessoas que não se beneficiam dos milagres da graça são pervertidas, e isto se reflete nos ministros por cujo intermédio elas desfrutam de tais milagres; e corno elas não obtêm o bem para si, elas fazem todo o mal que conseguem para os outros, criando e propagando preconceitos contra a palavra, e contra os seus fiéis pregadores. Aqueles que não estão de acordo com Deus, e que não o seguem, o confrontam e caminham em sentido contrário a Ele. Foi isto o que fez esta geração; por estarem decididos a não crer em Cr isto ou em João, e a não considerá-los os melhores entre os homens – como deveriam ter feito-, eles se dispuseram a atacá-los e a representá-los como os piores.

(1) Quanto a João Batista, eles dizem: “Tem demônio”. Eles atribuíam a sua rigidez e a sua reserva à melancolia, e a algum tipo ou grau de possessão satânica. Em outras palavras: “Por que deveríamos dar ouvidos a ele? Ele é um pobre hipocondríaco, cheio de caprichos, que está sob o poder de uma imaginação enlouquecida”.

(2) Quanto a Jesus Cristo, eles atribuíam as suas palavras livres e prestativas ao hábito depravado da luxúria e da satisfação da carne: “Eis aí um homem comilão e beberrão”. Nenhum pensamento poderia ser mais rude e preconceituoso. Esta é a acusação contra o filho rebelde (Deuteronômio 21.20): “É um comilão e beberrão”. Nenhum pensamento poderia ser mais falso e injusto, pois Cristo não agradou a si mesmo (Romanos 15.3), nem jamais fez homem algum viver uma vida de autonegação, humilhação e desprezo pelo mundo, como Ele viveu. Ele, que era imaculado e separado dos pecadores, está sendo aqui acusado de ser aliado a eles, e contaminado por eles. A inocência mais imaculada e a excelência mais incomparável nem sempre serão uma cerca contra a reprovação das línguas. Não. Os melhores dons do homem, e as suas melhores ações, que têm as melhores intenções e, ao mesmo tempo, são calculadas para a edificação, podem se tornar motivos de reprovação. A melhor das nossas ações pode se tornar a pior das acusações feitas a nós, como o jejum de Davi (Salmos 69.10). De certa maneira, era verdade que Cristo era amigo de publicanos e pecadores, o melhor amigo que eles jamais tiveram, pois Ele veio ao mundo para salvar os pecadores, os grandes pecadores, até mesmo o principal pecador – isto disse, com muita emoção, aquele que não tinha sido um publicano e pecador, mas um fariseu e pecador. Mas isto é – e será por toda a eternidade – um motivo de louvor a Cristo, e aqueles que transformaram tamanha virtude em censura contra Ele, perderam o seu benefício.

Observe:

4.Que a causa dessa grande falta de frutos e perversão das pessoas sob os milagres da graça é o fato de que elas são como crianças que se assentam nas praças. Elas são tão tolas como as crianças, rebeldes como as crianças, descuidadas e brincalhonas como as crianças. Se elas se mostrassem adultas no entendimento, haveria alguma esperança para elas. As praças onde elas se assentam é, para alguns, um lugar de ociosidade (cap. 20.3); para outros, um lugar para a realização de negócios terrenos (Tiago 4.13); para todos, um lugar de ruí­ dos e diversão. Assim, se você perguntar a razão pela qual as pessoas obtêm tão pouco benefício por meio da graça, você descobrirá que é porque elas são preguiçosas e fúteis, e não gostam de se esforçar; ou porque as suas cabeças e mãos e os seus corações estão cheios do mundo, cujas preocupações sufocam a Palavra, e, finalmente, sufocam as suas almas (Ezequiel 33.31; Amós 8.5). Elas também procuram afastar os seus pensamentos de tudo o que é sério. Assim, nas praças elas estão, e ali se assentam; e nestas coisas está o seu coração, e decidem viver de acordo com elas.

Observe:

5.Embora os milagres da graça possam assim ser menosprezados e mal-empregados por muitos, isto é, pela maioria, ainda assim há um pequeno número que pela graça os aprimoram e reagem aos seus desígnios, para a glória de Deus e para o bem das suas almas. “Mas a sabedoria é justificada por seus filhos”. Cristo é a fonte de toda a sabedoria; nele estão escondidos verdadeiros tesouros de sabedoria; os santos são os filhos que Deus lhe deu (Hebreus 2.13). O Evangelho é sabedoria, é a sabedoria que vem do alto: os verdadeiros crentes são gerados novamente por ela, e renascem para o céu também; são filhos sábios, sábios por si mesmos e para os seus próprios interesses; não são como as crianças tolas que se assentam nas praças. Estes filhos da sabedoria justificam a sabedoria; eles estão em conformidade com os desígnios da graça de Cristo, respondem positivamente às suas intenções, e são adequadamente influenciados por ela, pelos variados métodos que ela emprega, e assim evidenciam a sabedoria de Cristo ao empregar tais métodos. Isto está explicado em Lucas 7.29. Os publicanos justificaram a Deus, tendo sido batizados com o batismo de João, e posteriormente aceitando o Evangelho de Cristo. Observe que o sucesso dos métodos da graça justifica a sabedoria de Deus na escolha de tais métodos, contra aqueles que o acusam de tolice a este respeito. A cura de todo enfermo que segue as recomendações do médico justifica a sabedoria do médico; e assim Paulo não se envergonha do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Romanos 1.16). Quando a cruz de Cristo, que para muitos é escândalo e loucura, é, para aqueles que são chamados, poder de Deus e sabedoria de Deus (1 Coríntios 1.23,24), para que eles façam deste conhecimento o ápice da sua ambição (1 Coríntios 2.2), e da sua eficiência a coroa da sua glória (Gálatas 6.14), então a sabedoria é justificada pelos seus filhos. Os filhos da sabedoria são as testemunhas da sabedoria ao mundo (Isaias 43.10), e serão feitos testemunhas naquele dia, quando a sabedoria, que agora é justificada pelos santos, será glorificada nos seus santos e se fará admirável em todos os que creem (2 Tessalonicenses 1.10). Se a descrença de alguns censura a Cristo, atribuindo-lhe a mentira, a fé de outros irá honrá-lo, colocando o selo de que Ele é verdadeiro, e de que Ele também é sábio (1 Coríntios 1.25). Quer cooperemos ou não para a realização dessas coisas, elas acontecerão; não somente a justiça de Deus, mas também a sua sabedoria, será justificada quando Ele falar, quando Ele julgar.

Bem, esta é a avaliação que Cristo faz daquela geração, e aquela geração não morreu, mas permanece, em uma sucessão de semelhantes; pois assim como era naquela época, tem sido desde então, e ainda continua sendo. Alguns creem no que se diz, mas outros não (Atos 28.24).

 II – Quanto às cidades em particular; nas quais Cristo é conhecido. O que Ele disse, de maneira geral, sobre aquela geração, Ele aplicou, em particular, àquelas cidades, para influenciá-las. Em seguida, Ele começou a acusar as cidades, (v. 20, versão NTLH). Ele começou a pregar a elas muito tempo antes (cap. 4.17), mas não havia acusando-as até agora. Note que métodos rudes e desagradáveis não devem ser adotados até que métodos mais gentis tenham sido usados. Cristo não é propenso a acusar; Ele dá livremente, e não censura, até que os pecadores, com a sua obstinação, arranquem dele a censura. A sabedoria primeiramente convida, mas quando os seus convites são ignorados, ela acusa (Provérbios 1.20,24). Aqueles que começam com acusações não seguem os métodos de Cristo. Agora, observe:

1.O pecado de que elas são acusadas; não é nenhum pecado contra a lei moral, em que um recurso estaria apoiado no Evangelho, que o teria aliviado, mas um pecado contra o Evangelho, a lei corretiva – e isto é impenitência. O que Ele censurou nelas, ou a razão porque Ele as repreendeu, como sendo a coisa mais vergonhosa e ingrata que poderia haver, foi o fato de que elas não se arrependiam. Observe que a impenitência deliberada é o pecado que causa maior dano às multidões que recebem o Evangelho, e do qual (mais que qualquer outro) os pecadores serão acusados até à eternidade. A grande doutrina que tanto João Batista e Cristo como os apóstolos pregaram era o arrependimento. O que se desejava, tanto com o tocar flauta como com o lamentar-se, era levar as pessoas a modificar seus pensamentos e condutas, abandonar seus pecados e voltar-se para Deus; e isto elas não aceitavam. Ele não disse, porque eles não acreditavam (embora muitos deles tivessem algum tipo de fé) que Cristo era um Mestre vindo de Deus; mas por não se arrependerem, a sua fé não transformava os seus corações e não modificava as suas vidas. Cristo os censurou pelos seus outros pecados, pois Ele poderia levá-los ao arrependimento; mas quando não se arrependeram, Ele os acusou com a sua recusa em serem curados. Ele os censurou para que eles mesmos pudessem se censurar, e finalmente ver a tolice que isto era, o que por si só transforma um caso triste em desesperad01; e numa ferida incurável.

2.O agravamento do seu pecado. Eram cidades nas quais a maioria dos seus milagres tinha sido realizada; pois nelas funcionou a sua residência principal durante algum tempo. Note que algumas cidades aproveitam os milagres da graça com maior plenitude, poder e pureza do que outras. Deus é um agente livre, e assim age em todas as suas disposições, tanto como o Deus da natureza quanto como o Deus da graça, a graça comum e a que distingue. Por meio dos milagres de Cristo, estas cidades deveriam ter não apenas recebido a sua doutrina, mas também obedecido à sua lei. A cura das enfermidades do corpo deveria ter sido a cura das suas almas, mas não teve tal efeito. Observe que quanto mais fortes são os incentivos que temos para nos arrependermos, mais atroz será a impenitência, e mais severa será a prestação de contas, pois Cristo registra os milagres realizados entre nós e também as obras de graça realizadas para nós, pelas quais também deveríamos ser levados ao arrependimento (Romanos 2.4).

(1) Corazim e Betsaida são citadas aqui (vv.21 e 22J. cada uma delas tem o seu “ai”: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!” Cristo veio ao mundo para nos abençoar, mas se esta bênção for desprezada, Ele tem “ais” armazenados, e os seus “ais” são os mais terríveis de todos. Estas duas cidades estavam localizadas junto ao mar da Galileia, a primeira do lado leste e a última do lado oeste, eram lugares ricos e muito habitados. Betsaida tinha sido elevada a cidade por Filipe, o tetrarca; dela, Cristo tomou pelo menos três de seus apóstolos. Assim, estas cidades eram altamente favorecidas! Mas por não conhecerem o dia da sua visitação, elas caíram sob estes “ais”, que se prenderam a elas, e pouco tempo depois disto decaíram e se reduziram a aldeias comuns e obscuras. Dessa forma, o pecado arruína fatalmente as cidades, e a palavra de Cristo certamente se cumpre!

Corazim e Betsaida são aqui comparadas com Tiro e Sidom, duas cidades marítimas (sobre as quais lemos muito no Antigo Testamento) que tinham sido levadas à destruição, mas começaram a prosperar outra vez; estas cidades eram fronteiriças à Galileia, mas eram malvistas entre os judeus, pela sua idolatria e seus pecados. Algumas vezes, Cristo foi às proximidades de Tiro e Sidom (cap. 15.21), mas nunca além; os judeus teriam se horrorizado se Ele tivesse ido; portanto, Cristo, para convencê-los e humilhá-los, aqui mostra:

[l]. Que Tiro e Sidom não tinham sido tão más quanto Corazim e Betsaida. Se a mesma palavra tivesse sido pregada a elas, e se os mesmos milagres tivessem sido realizados nelas, elas teriam se arrependido, e há muito tempo, como aconteceu com Nínive, com pano de saco e com cinza. Cristo, que conhece os corações de todos, sabia que se Ele tivesse ido e vivido no meio deles, e tivesse pregado entre eles, Ele teria feito um bem maior do que onde estava; mas ainda assim, Ele continuou onde estava durante algum tempo, para incentivar os seus ministros a fazerem a mesma coisa, embora eles não pudessem ver o sucesso que desejavam. Observe que entre os filhos da desobediência, alguns são mais facilmente transformáveis que outros. Há um sério agravamento da impenitência daqueles que recebem completamente os milagres da graça, não somente porque há muitos que estão sob os mesmos milagres, que se transformam, mas porque há muitos mais que poderiam ser transformados, se tivessem recebido os mesmos milagres (veja Ezequiel 3.6,7). O nosso arrependimento é muitas vezes lento e até atrasado, mas o deles deveria ter sido rápido; eles deveriam ter se arrependido há muito tempo. O nosso foi leve e superficial; o deles deveria ter sido profundo e verdadeiro, com pano de saco grosseiro e com cinzas. Mas devemos observar, com uma maravilhada adoração da soberania divina, que os habitantes de Tiro e Sidom irão perecer justamente no seu pecado, embora, se tivessem recebido a graça, poderiam ter se arrependido; pois Deus não deve nada a nenhum homem.

[2]. Que, portanto, Tiro e Sidom não seriam tão infelizes quanto Corazim e Betsaida, mas haveria maior tolerância com elas no Dia do Juízo (v. 22). Observe que, em primeiro lugar, no Dia do Juízo, o estado permanente dos filhos dos homens será determinado, por um destino inalterável e infalível: felicidade ou infelicidade, e os diversos graus de cada uma delas. Por isto é chamado de Juízo eterno (Hebreus 6.2)1 porque decide o estado eterno. Em segundo lugar, naquele juízo, todos os milagres da graça que são recebidos quando estamos em um estado de experiência serão certamente levados em consideração, e nos será perguntado não o quanto fomos maus, mas o quanto poderíamos ter sido melhores, não fosse pela nossa própria culpa (Isaias 5.3 ,4). Em terceiro lugar, embora a condenação de todos os que perecem seja insuportável, ainda assim a condenação daqueles que tiveram as revelações mais completas e claras feitas pelo poder e pela graça de Cristo, e ainda assim não se arrependeram, será, de todas, a mais insuportável. A luz e o som do Evangelho abrem os sentidos e aumentam a capacidade de todos os que o veem e ouvem, seja para receber as riquezas da divina graça, ou (se esta graça for desprezada) para receber os mais completos derramamentos da ira divina. Se a autocondenação for a tortura do inferno, ela realmente deve ser um inferno para aqueles que tiveram uma oportunidade tão excelente de ir para o céu. “Filho, lembra-te de que… “.

(2) Aqui Cafarnaum é condenada com ênfase (v. 23). “E tu, Cafarnaum, levante as mãos e ouça a condenação”. Cafarnaum, acima de todas as cidades de Israel, foi dignificada com a residência mais frequente de Cristo; foi como a Siló dos tempos antigos, o lugar que Ele escolheu para fazer habitar o seu nome – e nisto ela era como Siló (Jeremias 7.12,14). Os milagres de Cristo aqui eram o pão de cada dia, e, portanto, como o maná no deserto, eram desprezados e chamados de pão vil. Mais de uma vez Cristo lhes fez um sermão doce e consolador sobre a graça, com pouco resultado, e por isto Ele lhes faz um sermão sobre a ira: aqueles que não ouviram o primeiro terão de sentir esta última.

Aqui temos a condenação de Cafarnaum:

[1]. Explicada de maneira absoluta: “Tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos”. Observe, em primeiro lugar, que aqueles que recebem o Evangelho em poder e pureza, são, dessa forma, exaltados aos céus; com isto, eles têm uma grande honra no presente e uma grande vantagem para a eternidade; eles são exaltados aos céus. Mas se, apesar disso, eles ainda se apegarem à terra, poderão agradecer a si mesmos por não serem elevados ao céu. Em segundo lugar, as vantagens e os aprimoramentos do Evangelho, se mal-usados, irão fazer os pecadores afundar ainda mais no inferno. Os nossos privilégios externos estarão longe de nos salvar, se os nossos corações e as nossas vidas não estiverem em conformidade com eles; eles somente a­ gravarão a prestação de contas. Quanto mais alto o precipício, mais fatal é a queda. Não tenhamos, portanto, um caráter altivo, mas temor; não sejamos indolentes, mas diligentes. Veja Jó 20.6,7.

[2]. A condenação de Cafarnaum, comparada com o destino de Sodoma, recebe um lugar ainda mais notável do que talvez qualquer outra, tanto pelo pecado como pela destruição; e assim, Cristo aqui nos diz:

Em primeiro lugar, que os prodígios operados em Cafarnaum teriam salvado Sodoma. Se esses milagres tivessem sido realizados entre os sodomitas, por mais pecadores que fossem, eles teriam se arrependido e a sua cidade teria permanecido até os dias de hoje como um monumento da misericórdia que poupa, da mesma maneira como hoje é um monumento da justiça que destrói (Judas 7). Observe que com o arrependimento sincero por meio de Cristo, até mesmo o maior pecado será perdoado, e a maior destruição será evitada, o que Sodoma não esperou. Os anjos foram enviados a Sodoma, e ainda assim ela não permaneceu; mas se Cristo tivesse sido enviado para lá, ela teria permanecido; como é bom para nós, então, que o mundo futuro esteja sujeito a Cristo e não aos anjos! (Hebreus 2.5). Ló não teria parecido um zombador, se tivesse realizado milagres.

Em segundo lugar, a ruína de Sodoma será, portanto, menor do que a de Cafarnaum, no Grande Dia. Sodoma terá muitas coisas pelas quais responder, mas não o pecado de desprezar a Cristo, como terá Cafarnaum. O Evangelho tem um cheiro de morte para alguns, um cheiro que os mata. É de morte para a morte, uma morte grande demais (2 Coríntios 2.16). Cristo disse o mesmo de todos os outros lugares que não recebessem os seus ministros nem dessem as boas-vindas ao seu Evangelho (cap. 10.15); haveria mais tolerância para a terra de Sodoma do que para tal cidade. Nós, que temos agora a palavra escrita nas nossas mãos, o Evangelho pregado e a lei do Evangelho ministrada a nós, e vivemos sob a concessão do Espírito, temos vantagens não inferiores às de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, e a prestação de contas no grande Dia será correspondente. Portanto, foi dito, com propriedade, que os professores dessa época, não importando se irão para o céu ou para o inferno, serão os maiores devedores em qualquer um desses lugares; se forem para o céu, os maiores devedores da misericórdia divina por aqueles milagres que os levaram até ali; se, para o inferno, os maiores devedores da justiça divina, por aqueles milagres que deveriam tê-los mantido afastados dali.