O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

ESPIRITUAL OU MENTAL?

O qual nos habilitou para sermos minis­tros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica (2 Coríntios 3:6).

A palavra “letra” aqui aponta para a lei. Comparando a lei com o Espírito Santo descobrimos que a lei nada pode fazer para o homem a não ser matá-lo, pois não possui o poder de dar a vida como o possui o Espírito. “O espírito”, diz Jesus “é o que vivifica” (João 3:63). Nada, a não ser o Espírito Santo, pode dar vida. Até a vida de Deus está no Espírito Santo. Além disso, nosso mundo físico foi restaurado, no princípio, por meio da atividade do Espírito Santo (Gênesis 1:2). E o nascimento do Senhor Jesus, como Deus na carne, aconteceu pelo poder do Altíssi­mo. Segundo a revelação da Bíblia, tudo o que possui ou concede vida está no Espírito Santo, ou é por virtude dele. Mas uma vez que a lei é estabelecida na letra e não no Espírito Santo, faz com que o homem morra. Entretanto não é só na Antiga Aliança que existe a “letra” (isto é, a lei) que mata; até a Nova Aliança tem a sua “letra”. O que a Antiga Aliança ressalta é a lei; entretanto, a lei, como nos diz a Escritura — é de Deus, sendo santa, justa e boa (Romanos 7:12). Mas por existir ausência do Espírito Santo nela, a lei torna-se a letra que mata, como as outras muitas “letras” no mundo. Entretanto descobrimos uma possi­bilidade similar na Nova Aliança. Pois embora muitas das verdades, mandamentos, exortações e ensinos do evangelho da Nova Aliança sejam de Deus e possam regular a conduta humana e influenciar a moral do comportamento dos ho­mens, não obstante, se estiverem divorciados do poder do Espírito Santo também serão transfor­mados em letra que mata.

Sem o Espírito de Deus, tudo é morto e sem poder

A verdade enunciada acima infelizmente é negligenciada por muitos crentes: fora do Espíri­to Santo não há vida, fora do Espírito de Deus tudo é morto. Devemos ver claramente que à parte de confiar totalmente na operação do Espírito de Deus, somos absolutamente inúteis. Embora reconheçamos a corrupção da carne, mui frequentemente não compreendemos o po­der do Espírito Santo. Logo, a despeito de nossa confissão, não somos libertados do domínio da carne. Deus deseja levar-nos ao ponto em que vivamos inteiramente por seu Espírito. Deseja que compreendamos que todas as nossas obras, feitos, orações e procura da verdade são empre­sas mortas se não forem o resultado da operação do Espírito Santo em nós e se não forem produ­zidos por seu poder. Aos olhos de Deus essas são obras mortas destinadas à sepultura.

O chamado de Deus hoje é que seus filhos obtenham a vida mais abundante. Deseja que nos livremos da morte, vençamos a morte. Entretanto, nossa atenção frequentemente é colocada em vencer pecados mas não em vencer a morte. Ainda assim, Deus livrar-nos-á não somente da lei do pecado mas também da lei da morte: “Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2). Somente o Espírito pode conceder essa vida. Onde existe ausência dele, não há vida alguma, antes, o enchimento da morte. Os cristãos deviam não somente refrear-se do pecar, mas também deviam vencer a morte e ser cheios de vida. Deus odeia tanto a morte como o pecado. O pecado nos separa dele; e a morte impede nossa comunhão com ele. Vencer o pecado é negativo, ser cheio de vida é positivo.

Precisamos ver que quem está em Cristo tem a vida. Como? Pelo Espírito Santo, pois “a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus…”

Assim o que o versículo 6 de 2 Coríntios 3 revela é: (1) que tudo o que é da carne é morto, e (2) que até a lei perfeita dada por Deus, se estiver fora do Espírito Santo, também é morta, pois a letra mata.

A Palavra de Deus e o Espírito de Deus

A Palavra de Deus e o Espírito de Deus são inseparáveis. Dando-nos a Bíblia, Deus dá-nos sua Palavra, mas ao mesmo tempo acrescenta uma condição: os homens devem receber sua palavra no poder de seu Espírito. Deus apoia sua Palavra com o Espírito; prova sua Palavra com seu Espírito. Usa seu Espírito a fim de preservar sua Palavra para que ninguém fique destituído. Todo aquele que entrar em contato com a Palavra de Deus sem entrar em contato com o Espírito Santo não verá o poder da Palavra de Deus. Pois sem o Espírito de Deus a Palavra de Deus torna-se letra morta.

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura” (1 Coríntios 2:14a). Para o incrédulo que examina as Escrituras com sua própria sabedoria a Bíblia não passa de um livro morto. Isto não quer dizer que a Bíblia não seja a Palavra de Deus, nem que a Palavra de Deus não tenha poder. Simples­mente significa que sem o Espírito Santo a Bíblia, na experiência desse incrédulo, simplesmente é um livro morto e sem poder.

A Palavra de Deus permanece a mesma. Para alguns, entretanto, torna-se vida, enquanto para outros é somente letra. Qual o motivo de tal diferença? Não é outro senão que o primeiro tipo de pessoas recebe a Palavra de Deus no poder do Espírito Santo enquanto o segundo tipo tenta compreender a mesma Palavra pela sabedoria de sua mente.

A Palavra de Deus é poderosa e tem vida. Entretanto quando a pessoa a recebe só por meio da mente, não experimenta o poder nem a vida da Palavra de Deus. Toda verdade aceita só com a mente torna-se mero pensamento para essa pessoa. Tal verdade não é eficaz para seu cami­nhar. Não pode depender dela em tempos de necessidade. Embora essa pessoa possa conhe­cer o argumento, o fato ou o procedimento, não poderá obter o poder que nela está. Para ela e sua vida, a verdade não é verdade mas só ensinamento vazio, porque não pode demons­trar sua veracidade.

Para que o crente saiba que recebeu a Palavra de Deus no poder do Espírito Santo, somente precisa perguntar a si mesmo se ao receber a Palavra a recebeu com poder em sua vida; porque Deus envia o Espírito Santo a fim de provar ao crente a veracidade de sua Palavra. Conseqüentemente, se a Palavra de Deus falha em ser provada, é porque o poder do Espírito está ausente dela.

O perigo, hoje em dia, é que os crentes ouçam a palavra de Deus, leiam a Bíblia ou procurem a verdade só com a sabedoria da mente. Deus une sua Palavra e seu Espírito, mas o homem tem a tendência de separar a Palavra do Espírito ou o Espírito da Palavra. O perigo dos dois extremos é igual em ambas as direções. Pois ao separar a Palavra de Deus do Espírito de Deus, o que a pessoa obtém é mera ideia ou mero ideal. E ao separar o Espírito de Deus da Palavra de Deus, a pessoa se transforma numa coisa estranha. Mais pessoas caem na armadilha do primeiro extremo que na do segundo.

Muitos lêm a Bíblia como se examinassem um livro científico. É como se, com uma mente fina, um pouco de instrução e esforço próprio, pudessem compreender a Bíblia. Tal tipo de pesquisa pode capacitar a pessoa a conhecer um pouco da história e da doutrina bíblica mas não a ajudará experimentar o poder da Palavra de Deus. O Senhor deve levar-nos ao ponto em que dependamos de seu Espírito ao lermos a sua Palavra. Então compreenderemos sua verdade e seu poder. Somente o Espírito Santo pode apli­car a Palavra de Deus com sua vida e poder ao caminhar do crente. Aceitar a verdade só com o poder mental não o capacitará a experimentar esta vida e este poder em sua experiência diária.

Diferença real

Qual é a diferença real entre receber a verdade no poder do Espírito e recebê-la no poder da mente?

(A) Se a pessoa adquire alguma verdade religiosa de um livro ou de um mestre ou mesmo da própria Bíblia sem a necessidade de oração, ou sem renunciar a seu próprio poder nem depender completamente do Espírito Santo, ela está recebendo essa verdade no poder de sua mente. Pois a aceitação da verdade no poder da mente significa recebê-la diretamente de um livro, mestre ou da Bíblia, deixando-se de lado o Espírito Santo. Os fariseus conheciam as Escritu­ras desta forma; logo acabaram possuindo algo morto, destituído de qualquer experiência viva perante Deus — pois a Palavra de Deus leva as pessoas a se aproximarem dele, e o próprio Deus é Espírito. Mas o ler a Palavra de Deus sem seu Espírito falha em efetuar qualquer contato entre o homem e Deus.

(B) Os crentes galatas voltaram a guardar a lei depois de terem crido no evangelho e começado a andar pela fé. De modo que Paulo lhes pergunta: “Recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2). O que o apóstolo queria dizer era que, deveras, haviam começado com a fé mas agora confiavam nas obras. E perguntou-lhes mais: “Tendo começado no Espírito, estais agora vos aperfeiçoando na carne?” (3:3). Ele indicava que, deveras, tinham começado dependendo do Espírito mas que agora começaram a depender da carne. Por estas duas perguntas descobrimos um princípio mui­tíssimo importante: tudo o que é do Espírito Santo é pela fé e tudo o que é da carne é pelas obras. O Espírito e a fé estão unidos num só, assim como a carne e as obras são uma.

Assim, o procurar a verdade com o poder da mente e procurar a verdade no poder do Espírito têm entre si uma diferença vital — o primeiro é sem a fé e o segundo a requer.

A fim de receber a verdade no Espírito Santo a pessoa deve ter fé. Receber no poder da mente só dá à pessoa algum conhecimento, mas rece­ber no Espírito Santo traz-lhe fé. Exemplifique­mos isto. A co-morte do crente em Cristo é a fonte da vida e do poder cristãos. A esta verdade temos dado muita ênfase e a temos pregado muitas vezes. Hoje muitos crentes já compreen­deram esta verdade, e até mesmo já testificaram dela. Mas quantos realmente receberam esta verdade no Espírito Santo? Seu falar trai a ineficá­cia de sua experiência. Conheço certo irmão, por exemplo, que pensa realmente conhecer a verda­de da co-morte. Certa vez estava pregando e disse: “E necessário que a pessoa morra; se às vezes você não puder morrer, mate-se a si mesmo no poder da cruz.” — Ora, estas pala­vras parecem muito espirituais, mas na realida­de são muito superficiais. Por quê? Porque ele não tem fé, mas ainda espera consegui-la por si mesmo. Isto mostra que no que se refere à verdade da co-morte ele só a compreende com sua mente e falta-lhe o poder do Espírito Santo.

Como podemos explicar isso? Se a pessoa realmente desejar experimentar o poder do Espírito Santo deve, em primeiro lugar, ter fé, pois o Espírito Santo somente opera por ter a pessoa crido na Palavra de Deus. A fé vem primeiro, e então a operação do Espírito no homem. Sem a fé, a verdade que a pessoa conhece não passa de uma ideia, pois o Espírito Santo ainda não operou nela o que a verdade já realizou.

Voltemos à verdade da co-morte por alguns instantes. O Espírito Santo nos ensina que quando Cristo morreu, já nos incluiu em sua morte. E assim como o morrer de Cristo por nós é um fato, também o termos morrido com Cristo é um fato. Assim como é real a morte de Cristo, assim também é real a nossa morte. Assim como somos libertos da penalidade do pecado crendo na morte de Cristo, da mesma forma somos libertos do poder do pecado crendo que já morremos com Cristo. É isto que a Palavra de Deus nos ensina. Então tudo se resume em crermos ou não. Se cremos, o Espírito Santo dará testemunho da Palavra de Deus e fará com que experimentemos a realidade de que “o pecado não terá domínio sobre” nós (Romanos 6:14). E a esta altura podemos verdadeiramente dizer que recebemos a verdade no poder do Espírito.

Donde podemos discernir a ordem necessária para receber-se a verdade no Espírito Santo: (1) o ensinamento da Bíblia, (2) a fé do crente e (3) a operação do Espírito Santo. Não pode faltar nenhum destes três fatores. Mas aquele que recebe a verdade pela mente não tem fé. Ouvin­do as Escrituras ou ouvindo outros pregarem ele pode vir a compreender o argumento da co-morte e pode conhecer que a pessoa que está morta é livre do pecado. Não obstante, em tudo isso lhe falta a fé; logo não pode ver claramente a posição do velho homem na morte de Cristo nem pode dizer ser uma pessoa já crucificada com Cristo.

De modo que está continuamente a colocar a si mesmo à morte, e ao aconselhar outros acerca deste assunto não pode deixar de dizer: “Devem morrer” (assim como o “certo irmão” de nossa ilustração anterior aconselhou em sua mensa­gem). Ainda que, às vezes, ofereça orações e comece a compreender a realidade de sua co­-morte em Cristo, o que faz com que ele confesse com sua boca ser uma pessoa crucificada, não obstante, em seu viver diário confia mais na autocrucificação do que no já ter sido crucificado com Cristo.

(C) Se a verdade é aceita no Espírito Santo, invariavelmente se tornará na experiência dessa pessoa. O Espírito não revela a verdade mera­mente para dar ao crente um pouco mais de material mental. Ele deseja, acima de tudo, levar o crente ao que a verdade diz. A compreensão mental pode fazer com que ele louve a verdade, mas não lhe dará o benefício da verdade. Muitos podem aprovar certa verdade, podem até mesmo amar tal verdade; não obstante, só a possuem mentalmente. Se a verdade não possui poder de produzir efeito na vida da pessoa, é indicação segura de que tal verdade é somente mental e não leva em si o poder do Espírito de Deus.

Precisamos perceber a diferença e também a relação entre o princípio e a prática. O princípio pode ser obtido mediante a revelação do Espírito de Deus. Devido ao acúmulo de conhecimento e à multidão de pregadores, muitos chegaram a compreender numerosos princípios da vida espiritual. Entretanto, muitas vezes, tais princípios estão só em sua mente. A fim de colocar esses princípios em prática na vida necessitam do Espírito divino. A mente pode entender os princípios, mas somente o Espírito de Deus pode colocar esses princípios em prática. Ao resolver um problema de álgebra, é fácil para o estudante resolver uma equação; entretanto é um pouco difícil adicionar um assunto a essa equação. Da mesma forma, é bastante fácil aprender um princípio espiritual com a mente, mas colocar esse princípio em prática na vida está além da capacidade mental. Aquele que estuda geografia pode saber as capitais e as grandes cidades das nações do mundo, e tam­bém suas situações agrícolas, industriais e comerciais, sem precisar talvez nem mesmo sair de casa. Pela pesquisa, mediante o poder men­tal, portanto, a pessoa pode compreender muito da Bíblia. Mas sem depender do Espírito Santo, não terá nenhuma experiência.

O perigo de hoje é que muitos buscam o conhecimento da Bíblia com a mente. Com­preendem alguns mistérios, entendem muitos princípios espirituais, colhem alguns significa­dos mais profundos da Palavra de Deus, e até mesmo apreciam, até certo grau, a obra realizada por Cristo na cruz. Entretanto, tudo isto está em sua mente. Isto não lhe foi dado pelo Espírito Santo, logo não existe nenhum poder prático envolvido. E o resultado é que a Bíblia fica reduzida ao nível de um tratado científico no qual o leitor e o escritor não têm contato pessoal algum. Por outro lado, a Palavra de Deus — embora seu conteúdo tenha sido dado oralmente muito tempo atrás, e mais tarde tenha sido registrado, formando o que hoje conhecemos como Bíblia — está, não obstante, no Espírito, da mesma forma que Deus está no Espírito. Se o leitor recebe a Palavra de Deus diretamente, sem depender do poder do Espírito Santo, não terá nenhum relacionamento com Deus. Isto reduzi­rá o valor da Palavra de Deus e torná-la-á um dentre os livros mortos do mundo.

A compreensão das Escrituras pode ajudar a esclarecer o pensamento e conceitos do homem, mas não terá eficácia prática em sua experiência e obra espirituais. Isto pode explicar, em parte, por que a verdade pode, deveras, ser pregada e no entanto não ter poder nenhum sobre o que prega nem sobre os que ouvem. Se a verdade estiver inteiramente circunscrita na mente do pregador, somente alcançará a mente dos ouvintes.

Ter a verdade sem ter o espírito da verdade é totalmente inútil. Quando o Senhor Jesus disse a seus discípulos ser ele a verdade, continuou dizendo-lhes que o Espírito da verdade viria a fim de levá-los a todas as verdades. Compreen­damos de uma vez por todas que o crente é ligado à verdade pelo Espírito da verdade; doutra forma, a verdade permanece como verda­de e o crente permanece como crente. Assim como os discípulos de antigamente não podiam compreender nem verdadeiramente experimen­tar Cristo antes de terem recebido o Espírito de Deus, assim também os crentes de hoje não podem genuinamente conhecer nem experimen­tar a Palavra de Deus a não ser pelo poder do Espírito Santo.

Obra espiritual verdadeira

Quem pode asseverar quanto da pregação de hoje procede da sabedoria do homem? A prega­ção pode ser bem profunda e incluir lições espirituais genuínas; a mesma fé apresentada por ela pode ser sã e as interpretações dadas, lógicas; além disso, tal pregação pode, às vezes, tocar os ouvintes afetando-lhes, até certo ponto, a conduta e a moral. Não obstante, tal pregação pode proceder não do Espírito Santo mas da sabedoria do homem. Devemos até mesmo estar abertos à possibilidade de que as máximas ditas pelos profundamente experientes, embora na realidade produzam algumas consequências aparentemente satisfatórias estimulando e mu­dando as pessoas, podem não ser, de fato, o resultado da operação do Espírito Santo.

A carne do homem deve ser eliminada, os esforços do homem devem ser reduzidos a nada; o homem velho com sua sabedoria e habilidade devem ser desfeitos na cruz. Uma vez que Deus possui tudo e pode fazer tudo, ele deve ser tudo.

 Tudo deve ser no poder do Espírito Santo.

 Alguns pensam que se o homem for reduzido a zero, a Palavra de Deus sofrerá grandemente — que tudo parará de progredir e que o fruto será diminuído, senão erradicado totalmente. Mas damos ênfase à obra espiritual verdadeira e ao fruto espiritual verdadeiro perante Deus. So­mente em circunstâncias como estas haverá maior utilidade espiritual. A obra feita pela sabedoria do homem pode prosperar de várias maneiras, mas falta-lhe o verdadeiro valor espi­ritual e é de pouco uso nas mãos de Deus. Somente o Espírito Santo pode fazer a obra de Deus. Quanto menos proeminência tiver o homem, tanto mais manifesto será o poder do Espírito. A obra do Espírito em cinco minutos tem mais utilidade espiritual do que todo o nosso labor de uma noite inteira, que nada consegue. Não é muito melhor esperar pelo mandamento do Senhor e retirar uma rede cheia de peixes em um só lançamento?

O lugar do poder mental

Tal sendo o caso, é o poder mental totalmente inútil na verdade de Deus? Não, o cérebro (ou a mente) tem o seu lugar. Devemos fazer diferen­ça entre o usar o espírito do homem e o usar sua inteligência. Quem revela a verdade é o Espírito Santo, e quem recebe a revelação do Espírito Santo é o espírito renovado do homem. Somente o espírito renovado do homem pode receber a revelação, o cérebro não pode recebê-la.

Notemos que o trabalho da mente é transmi­tir. A mente renovada ajuda a transmitir aos outros a verdade recebida em revelação. Mas a mente renovada por si mesma não descobre a verdade de Deus. Uma mente velha pode preju­dicar a pessoa no trabalho da transmissão, mas se o espírito dessa pessoa for renovado, ainda pode receber revelações. Deus coloca de lado a velha criação. A deficiência natural não impede que as pessoas recebam revelações, tampouco a eficiência natural ajuda as pessoas a receber revelações. Uma mente excelente pode ajudar na transmissão, mas não pode dar revelação a si mesma nem aos outros.

Vaidade do talento natural

Devido à habilidade natural surpreendente, muitos mestres da Palavra de Deus podem pesquisar, compreender e entregar algumas verdades a outros. E muitos há que dizem estar sendo ajudados por tais mestres. Entretanto, falando francamente, estes mestres nada realiza­ram de valor espiritual verdadeiro. As pessoas que têm mais talentos naturais geralmente tor­nam-se mestres dos menos talentosos, mas seu estado espiritual é exatamente o mesmo ou menos; em alguns casos, os que estão sendo ensinados são mais espirituais do que os que ensinam.

O perigo da situação da igreja hoje reside no fato de que muitos dos famosos, em lugares de destaque, estão lá não porque sejam realmente mais espirituais mas por terem talentos naturais mais elevados. Referimo-nos não somente aos eruditos e sábios do mundo secular, mas espe­cialmente aos famosos do mundo espiritual. Muitos mestres da Bíblia e líderes congregacionais hoje em dia têm êxito não por conhecerem mais do Espírito Santo do que as outras pessoas, mas por voltarem seus talentos naturais  superior­es à Bíblia e às coisas espirituais. São muitos os assim chamados espirituais que, de fato, não são espirituais! E por quê?

Porque o Espírito Santo não está neles! O conteúdo de seu ensino ou pregação simplesmente é pensamento espiritual da mente. Muito do ensino e da pregação não é senão resultado de pesquisa e não aprendizagem das lições do Espírito Santo. Naturalmente, portanto, tais lí­deres só podem ajudar as mentes das outras pessoas.

Muitos cristãos acham que enquanto o talento natural for usado no lugar certo, pode realizar o trabalho de glorificar a Deus! Entretanto, talento natural é talento natural; e ainda que esteja engajado nas coisas espirituais, tal talento não é aceitável a Deus.

O Espírito Santo pode usar o talento natural, mas esse talento deve estar completamente en­tregue a ele. Deus precisa mais de indivíduos que sejam cheios do Espírito Santo do que de qualquer outro tipo de pessoas. Devemos escla­recer bem o ponto importante levantado pela seguinte pergunta: É por nossos pensamentos serem mais inteligentes que somos capazes de liderar outras pessoas ou é porque na realidade conhecemos o Espírito de Deus?

Devemos ter o Espírito Santo

Deus deseja que saibamos com profundidade que assim como as Escrituras são inspiradas pelo Espírito Santo, da mesma forma as Escrituras requerem a revelação do Espírito Santo. Assim como a Bíblia foi escrita por homens movidos pelo Espírito de Deus, da mesma forma a Bíblia também precisa de seu espírito para mover as pessoas que a lêem. Assim como o Livro Sagra­do foi registrado pelo Espírito Santo, assim também o Livro precisa da iluminação do Espíri­to Santo. Aqui a sabedoria do homem é inútil. Deus também deseja que saibamos que até a interpretação mais clara da Bíblia não é adequa­da. Nosso poder deve advir do Espírito Santo. A sabedoria do homem pode fazer com que as pessoas compreendam o significado das Escritu­ras, mas não lhes dará o benefício da verdade.

Na procura da verdade, muitos vêm com o motivo errado. Se não buscam satisfazer seu próprio desejo de conhecimento, preparam mensagens para ensinar a outros. Seu motivo básico é resolver dificuldades mentais e não cultivar sua própria vida espiritual. Uma vez que essa é sua intenção, sentem-se muito cômodos se puderem, afinal, compreender. Pois agora podem ensinar outros. Está claro que não bus­cam a realidade espiritual.

Só depois de compreendermos que o homem pode ser salvo somente pelo Espírito Santo, que a verdade só pode ser apreendida no Espírito Santo, que a oração só pode ser ouvida mediante o Espírito Santo, e que nossa vida espiritual só pode progredir no Espírito Santo, verdadeira­mente creremos no Espírito Santo e dele depen­deremos. Quão a miúdo realmente pedimos que Deus nos dê luz? É provável que passemos mais tempo pensando, pesquisando e procurando do que orando. E por isso que o caminhar espiritual de inúmeros crentes é árido embora compreen­dam muitas verdades.

Muito da pregação moderna dá ênfase ao conteúdo mental em vez de colocá-la na vida do Espírito. Devemos saber que as obras de valor real são realizadas no espírito das pessoas e não em suas mentes. A obra que Deus reconhece só possui uma feição: a obra de seu Espírito no espírito do homem despejando no espírito do homem a vida de Cristo — quer seja dando a vida pela primeira vez quer seja outorgando a vida mais abundante. O mero receber a aprova­ção racional dos homens sem haver o derramamento da vida de Cristo neles é obra de vaidade.

Disciplina de Deus

Tal lição é muito difícil de aprender. A carne do homem rebela-se contra Deus por gostar de pecar e por não desejar obedecer à lei de Deus. Ainda que tente agradar a Deus, a carne proclama sua independência dele como se pudesse servi-lo sem esperar o poder que dele vem. Assim jamais dependerá do Espírito de Deus. Enquanto busca a verdade, a carne mental do homem tem a tendência de pensar que sua própria sabedoria já é suficiente. Deus, portan­to, é forçado a deixar que seus filhos passem por experiências dolorosas a fim de ensinar-lhes que tudo o que é obtido por seu próprio poder, com sua própria sabedoria não pode ajudá-los nem aos outros, e que se disponham a deixar toda a sua força e sabedoria carnais e buscar o Espírito Santo e seu poder. Por exemplo, muitas obras parecem ter um início promissor mas logo per­dem seu apoio entusiasta inicial e gradualmente desaparecem de modo a alertar os obreiros de Deus de que algo deve ter saído errado. O excitamento da carne dura muito pouco. Desta forma Deus leva seus servos a reconhecer quão vazias e vãs são suas obras e que comecem de novo com o Espírito Santo. Quão dolorosa deve ser tal experiência!

Ou tome como outro exemplo da disciplina de Deus a situação seguinte. Há muitos crentes que pensam saber muito. Pensam ser mais do que vencedores porque conhecem muitas verdades. Entretanto, pela vida, são derrotados vez após vez. Embora tentem com todo o seu esforço agarrar-se a estas verdades, ainda se encontram em desamparo, pois no tempo da batalha as verdades que conhecem tão bem transformam-se em armas de palha. Choram e derramam muitas lágrimas. Podem ser as verdades de Deus erradas, ou há alguma outra coisa errada? Oh, Deus quer que eles percebam que somente o Espírito Santo pode manejar a Espada do Espírito (que é a palavra e a verdade de Deus). Quando a carne tenta usar a Espada do Espírito é como Davi tentando usar a armadura de Saul, totalmente inadequada para sua batalha com Golias. Embora conheçam muito bem a verdade mentalmente, estas pessoas não dependeram do Espírito Santo para tornar sua vida em verdade.

O processo de receber a verdade

A verdade de Deus geralmente vem ao crente em dois passos sucessivos: (1) na mente e (2) no espírito. Frequentemente vem ao espírito depois de vir à mente. O espaço de tempo pode ser de vários meses ou até mesmo vários anos. Depois de Deus conceder certa verdade a um crente (isto é, depois que o crente começa a conhecer esta verdade em sua mente), ele operará no ambiente para levar o crente ao ponto de não poder vencer a não ser mediante essa verdade. Aí então o crente conhecerá a verdade no poder do Espírito Santo e terá experiência satisfatória dessa verdade. Quão triste, entretanto, é que assim que o crente conhece a verdade de Deus em sua mente, fica tão contente com isso que não procura ter uma experiência dela, ou começa ensiná-la a outras pessoas. E assim fica difícil para Deus levá-lo à realidade da verdade.

 Poder: o sinal inegável

No passado, muitas vezes demos ênfase ao fato de o Espírito Santo ser cheio de vida e de poder; logo, tudo que é do Espírito de Deus, sem exceção, terá vida e poder em si. De modo que quando vemos uma pessoa que conhece certa verdade mas essa verdade não ajuda sua vida espiritual nem lhe dá poder, uma vez que meramente lhe enche a mente com um lindo pensamento mas não o socorre no tempo de tentação, duvidamos haver nessa pessoa a obra do Espírito de Deus. Não fiquemos satisfeitos com palavras significativas. Devemos buscar o poder de Deus. São muitas as vezes em que as pessoas falam da verdade do Espírito Santo sem possuir nem um pouquinho de seu poder. O de que o crente precisa nada mais é que vida de Deus.

É interessante notar que se a pessoa com­preende a verdade de Deus com a mente, deve exercitar-se com frequência a fim de apegar-se a esta verdade. Mas se conhece a verdade no poder do Espírito Santo e a mantém nesse mesmo poder, não precisará apegar-se a ela no tempo de necessidade, como a pessoa que se afoga procura agarrar a corda que lhe é atirada; antes, ela mesma será segurada e salva pela verdade mediante o Espírito Santo. Esta distin­ção é bem evidente.

Compreendamos que a verdade de Deus, à parte do Espírito de Deus é morta. Assim como não se pode interromper a vida do homem momentaneamente, da mesma forma, o poder dado pelo Espírito deve ser sempre renovado e suprido. O que o Espírito de Deus faz em determinada ocasião pode não ser o que fará em outras. Cada contato com ele traz novo poder. Nossa comunicação com o Espírito Santo não é de uma vez para sempre. Por este motivo, ao recebermos a verdade de Deus devemos depen­der continuamente do poder de Deus. Quando, por exemplo, ouvimos as experiências  espirituais dos outros, naturalmente tentamos imitá­-las. Esperamos que Deus nos conduza da mesma maneira e dê-nos o mesmo resultado. E quantas vezes ficamos desapontados com isso!

Tal acontece porque a experiência deles proce­de do Espírito Santo e a nossa é puramente mental. Deus tem de permitir que nos desapon­temos muitas vezes para que o procuremos dependendo diretamente do Espírito Santo. A imitação mental é completamente fútil.

E esta mesma conclusão pode ser aplicada ao citarmos passagens bíblicas a fim de ganharmos poder espiritual. Presumimos que uma vez que a Bíblia foi inspirada pelo Espírito Santo, deve haver poder em citar mais palavras dela. Para surpresa nossa, entretanto, o resultado é negati­vo. E por quê? Porque o Espírito Santo deve falar de novo e com novidade.

O que devemos procurar hoje, portanto, é que o Espírito Santo nos dê vida mediante a verdade. Devemos buscar sua revelação e sua aplicação. Devemos permitir que ele transfira a verdade de nossa cabeça para nosso coração. Que possamos crer na Palavra de Deus com todo o nosso coração, acreditando que tudo o que ele diz é verdade. Que nunca possamos estar contentes com o conhecimento de meras teorias.

 

Extraído do Livro ” O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

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O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O PODER DE ESCOLHER

 

Portanto o Senhor mesmo vos dará sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel. Ele comerá manteiga e mel quando souber desprezar o mal e escolher o bem (Isaías 7:14, 15).

Em nota à margem do versículo 15 encontra­mos esta tradução: “Manteiga e mel comerá, para que possa saber desprezar o mal e escolher o bem.” De forma que não é depois de saber desprezar o mal e escolher o bem que ele come manteiga e mel; antes, é porque come manteiga e mel que ele sabe desprezar o mal e escolher o bem.

Desejamos aprender um pouco mais a respei­to do Senhor Jesus nesta passagem. Você e eu sabemos quão perfeita foi a vida de nosso Senhor aqui na terra. Ao lermos os quatro evangelhos notamos quão bom e quão perfeito foi o modo de vida de nosso Senhor aqui. Mas destes quatro relatos somente não podemos descobrir por que nosso Senhor pôde levar uma vida assim “sobre-humana” ou por que ele é tão perfeito ou por que ele é o Filho do homem. Isaías 7:15 dá-nos o motivo. Por que sabe ele desprezar o mal e escolher o bem? Por que sabe ele rejeitar o mundo e escolher a vontade de Deus? Por que sabe ele negar a glória do homem e desejar somente a glória de Deus? Tudo isto está revela­do em Isaías.

Todos nós concordamos que o versículo (“Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel”) aponta para o Messias, nosso Senhor Jesus. Infelizmente, muitos negligenciam o versículo seguinte. É preciso que compreendamos que não é somente o versículo 14 que aponta para o Senhor, o versículo 15 declara que durante toda sua vida ele comerá manteiga e mel. E por se alimentar assim por toda a vida, será capaz de escolher o bem e desprezar o mal, será capaz de obedecer a Deus e procurar a sua glória, e será capaz de ganhar a satisfação do coração de Deus.

Quais são os significados de manteiga e mel? De todos os sabores, o da manteiga é o mais rico. E de todas as coisas da terra, nada é mais doce que o mel. Assim, manteiga representa o mais rico e mel, o mais doce.

O que diz a Bíblia ser a coisa mais rica? A graça de Deus (Efésios 1:7). O que diz a Bíblia ser a mais doce? O amor de Deus (Cantares de Salo­mão 2:3). Deus coloca a riqueza de sua graça e a doçura de seu amor perante o Senhor Jesus para que ele coma, logo ele pode obedecer a Deus e escolher sua vontade, desprezar o mal e escolher o bem. Por alguns momentos, pois, gostaria de laborar sobre como o Senhor, por toda a vida, comeu manteiga e mel, e também como em consequência desprezou o mal e escolheu o bem.

PRIMEIRO: SEUS PRIMEIROS ANOS (Lucas 2:41-51)

Aos doze anos de idade, Jesus foi com seus pais a Jerusalém para a festa da páscoa. Depois de se cumprirem os dias, seus pais voltaram; mas o menino Jesus ficou em Jerusalém. Mais tarde seus pais voltaram à cidade procurando por ele. Três dias depois encontraram-no no templo. Disse-lhe sua mãe: “Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura.” Respondendo, o Senhor não disse: “Não sabíeis que me cumpria fazer a vontade de Deus?” Em vez disso, ele diz: “Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai? [ou, cuidando dos negócios de meu Pai]?” Aqui o Senhor tinha a manteiga e o mel.

Aos doze anos de idade, Jesus já conhecia ao Pai. Ele tinha a manteiga e o mel celestiais. Porque ele tinha o mais rico e o mais doce, podia viver na vontade de Deus. Se isso tivesse aconte­cido conosco, provavelmente teríamos respondi­do: “Voltem para Nazaré e continuem o trabalho de carpintaria e de cuidar da casa, mas eu não vou. Deixem-me permanecer no templo.” En­tretanto, nosso Senhor não respondeu desta maneira. Por um lado, deu seu testemunho; por outro, desceu com seus pais a Nazaré e era-lhes submisso. Ele podia fazer essa escolha difícil porque tinha provado da riqueza e da doçura de Deus.

Ora, a mãe de Jesus era uma das melhores mulheres do mundo; ao mesmo tempo, porém, era também uma mulher “pequena”. Muitas vezes as melhores pessoas são as que menos inteligência possuem. Descobrimos, nos quatro evangelhos, que Maria, com frequência, perturbava o Senhor. Quando o vinho acabou nas bodas em Cana, ela disse ao Senhor: “Eles não têm mais vinho” (João 2:3). Quando o Senhor ensinava às multidões, mandou-lhe dizer que desejava falar com ele (Marcos 3:31). Entretanto, a Escritura diz: “E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso.” Esta foi a escolha do Senhor, algo difícil para o homem. Ele podia ter-se recusado a voltar e escolhido permanecer no templo, mas preferiu voltar para casa e viver com Maria que tinha pouca compreensão. Por ter comido manteiga e mel, podia escolher o que era difícil para o homem.

 

SEGUNDO: BATIZADO COM O BATISMO DE JOÃO (Mateus 3:13-17)

Quando João Batista viu a Jesus que vinha para ele, disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29). Uma vez mais João disse dele: “Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu” (Mateus 3:11). Quanto mais poderoso? “Cujas sandálias não sou digno de levar”, disse ele (Mateus 3:11). O Senhor era assim tão poderoso, entretanto foi a João para ser batizado. Se estivéssemos em seu lugar — isto é, no lugar de sua grandeza desde a eternidade como rei do reino dos céus -— sem dúvida seríamos acompanhados por toda a pom­pa de nossa alta posição. Embora jamais reco­nhecêssemos o fato abertamente, é fácil para nós exibir nossa excelência. Nosso orgulho é inato e natural. Simplesmente adoramos expor nossa grandeza aos outros. Mas nosso Senhor foi ao Jordão e recebeu o batismo de João.

Ora, nosso Senhor era muito especial. Ele era tão diferente que surpreendeu João, que tentou dissuadi-lo, dizendo: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” Qual pensa você, foi a resposta do Senhor? “Deixa por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.” Ele preferiu vir ao Jordão e entrar na água da morte. Escolheu a humildade, escolheu a morte, assim cumprindo ele toda a justiça. Na realidade a justiça á realizada na cruz, mas estava representada na água da morte para Jesus. Ele escolheu o bem e desprezou o mal.

Você já pensou quão difícil pode ter sido para o Senhor receber o batismo de João? Pois o que podia acontecer à sua dignidade perante os pecadores, os publicanos e as prostitutas? Não recebiam eles também o batismo de João? E, mais tarde, ao começar a pregar, ele proclamava como João: “Arrependei-vos, porque está próxi­mo o reino dos céus” (Mateus 4:17). Seu auditó­rio era igual ao de João. Certo publicano podia dizer-lhe: “Não foi ele batizado conosco naquele dia? Como é que agora pretende ensinar-nos?” Outro pecador com justificação igual poderia declarar: “Ele foi batizado conosco naquele dia. Como ousa vir ensinar a nós?” Quão difícil e humilhante deve ter sido para Jesus!

De fato, mais tarde este problema surgiu. Quando o Senhor e seus discípulos estavam na Judéia batizando, alguns foram a João reclamar: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (João 3:26). Isto prova o quanto desprezavam o Se­nhor. O Senhor deveras se coloca nesta posição difícil, mas escolhe fazer isso por haver força por trás de sua decisão. Ele provara a grandeza da graça abundante e o doce amor de Deus. Ele comera manteiga e mel. Tendo provado o mais abundante e o mais doce, pode tomar o lugar mais humilde.

Também podemos humilhar-nos a nós mes­mos e tomar o lugar mais humilde porque também temos a manteiga e o mel. O que o mundo não consegue fazer, nós, os cristãos, podemos, pois temos a graça mais abundante e o amor mais doce.

 

TERCEIRO: NO TEMPO DA TENTAÇÃO (Mateus 4:1-10)

Depois de o Senhor ter sido batizado, e ao sair da água, os céus subitamente se abriram e o Espírito Santo desceu como pomba, vindo sobre ele. Foi levado pelo Espírito, ao deserto, para ser tentado pelo diabo por quarenta dias e noites. O próprio Satanás parece tê-lo tentado dizendo: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.”

Comer quando se tem fome não é pecado, mas o Senhor recusou-se a comer aqui. O tentador procurava fazer com que o Senhor fizesse alguma coisa segundo sua própria vontade. Tentou seduzir Jesus a usar seus próprios meios a fim de satisfazer a fome. Mas o Senhor respondeu: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” Ele está disposto a passar fome, e pode suportar a fome. Deixe-me dizer a todos vós hoje que se desejamos viver como nosso Senhor viveu devemos receber diariamente do céu a manteiga e o mel. O Senhor é mui capaz de transformar pedras em pães, mas não precisa disso porque já tem a manteiga e o mel.

Suponhamos que exista um pouco de prazer, um pouco de conforto ou glória ao nosso estalar dos dedos. Você pode tê-lo se disser sim, ou pode tê-lo até mesmo sem dizer nada. Já está dentro de sua esfera de influência. Pode conse­gui-lo sem esforço. O que fará? Nosso Senhor não está disposto a transformar pedras em pães, mas como desejamos poder fazê-lo — não mera­mente transformar uma pedra em pão mas todas as pedras do Jordão!

Como ansiamos exercer nossa força máxima para nós mesmos! Isto é porque não provamos da manteiga e do mel do céu. Se tivéssemos comido dessa maneira, seríamos capazes de deixar de lado o que poderia ser nosso e desistir do que está ao nosso alcance. Somente uma espécie de pessoa no mundo sabe como ofertar a Deus — são os que experimentam a graça de Deus.

A tentação que Jesus sofreu no deserto não se restringiu a uma única área. Pois Satanás disse: “Se és Filho de Deus, atira-te abaixo.” Quão maravilhoso seria descer voando do céu! As pessoas não o reconheceriam imediatamente como o Messias? Ele podia ganhar glória imensa pelo expediente mais simples. Entretanto, o Senhor recusou-se a fazer isso. Terceira vez Satanás lhe disse: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.” Não é fácil ganhar o mundo todo e toda sua glória com uma simples mesura? Não obstante, por melhor que sejam todos os reinos do mundo, nosso Senhor é capaz de deixá-los de lado e negá-los por ter poder em si. Conhece a Deus de uma maneira que vai além de nós; ele está cheio do Espírito Santo de um modo que não o possuímos; e já provou da abundância da graça e da doçura do amor a um grau que não experimentamos.

 

QUARTO: O SENHOR REPREENDE PEDRO (Mateus 16:21-34)

Em duas de três ocasiões distintas Pedro ouviu o Senhor dizer que devia ir a Jerusalém, sofrer nas mãos dos anciãos, dos sacerdotes e dos escribas, e ser morto — e que ressuscitaria dos mortos depois de três dias. Pedro não podia suportar tal ideia. Começou a ter pena do Senhor e disse-lhe: “Tem compaixão de ti, Se­nhor; isso de modo algum te acontecerá”. Pode­ríamos pensar que Jesus provavelmente haveria de confortar Pedro dizendo: “Seu amor por mim é deveras grande, Pedro, mas não posso deixar de ir a Jerusalém para morrer.” Em vez disso, o Senhor repreendeu seu discípulo com severidade: “Arreda! Satanás; tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e, sim, das dos homens”. O Senhor fez uma escolha definida aqui: escolheu a morte.

Se houver alguém neste mundo que escolheu a cruz e andou pelo caminho estreito, tenho certeza de que essa pessoa deve ter provado da abundância da graça de Deus e da doçura de seu amor.

 Deve haver um motivo por trás do martírio. Deve existir nessa pessoa um poder por demais incomum. Nunca pense, nem por um momento, que Deus nos dá os salários mais baixos enquan­to exige que nós, “fracotes”, carreguemos res­ponsabilidade insuportável. Não, nosso Deus nos dá manteiga e mel para que possamos deixar de lado todas as coisas e até mesmo morrer pela verdade. E aqui não profiro uma palavra falsa nem vazia. Eu a conheço e muitos a conhecem. Todos os que são capazes de desprezar as coisas, não procurar nada para si mesmos, mas escolher a parte difícil, possuem em si um poder tremen­do, assim como Cristo possuiu. Por causa do poder que nele existia o Senhor Jesus pôde desprezar o mal e escolher o bem.

 

QUINTO: EM SUA TRANSFIGURAÇÃO (Lucas 9:28-31)

No monte da transfiguração o Senhor mani­festou o máximo de sua humanidade perante Deus e perante os homens. A Bíblia jamais ensina que somos sem mancha nesta vida (te­mos, deveras, faltas e manchas); ela somente afirma que Deus pode manter-nos inculpáveis nesta vida. Mas nesta vida nosso Senhor é sem mancha alguma. Já mencionei a transfiguração de Jesus no monte. Muitos comentaristas concordam que o Senhor podia muito bem ter ascendido ao céu desse monte e Deus não podia ter-se recusado a recebê-lo. Com referência a isto observe esta passagem: “A terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga. E quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque é chegada a ceifa” (Marcos 4:28, 29). Uma vez que o Senhor já estava maduro (isto é, a esta altura já estava completamente amadurecido), ele podia ter sido recebido de volta. Entretanto, conversou com Moisés e Elias a respeito de sua partida que estava prestes a se realizar em Jerusalém. Ao voltar para o vale abaixo, Jesus estava ainda mais decidido a ir a Jerusalém: tinha o rosto determi­nadamente voltado para seu objetivo. Escolheu a morte.

Aqui, portanto, vemos outra escolha de nosso Senhor. Jesus pôde recusar-se ascender ao céu do monte da transfiguração e escolher o cami­nho de Jerusalém e da morte porque tinha comido da manteiga e do mel celestiais. Ele pode decidir não ascender e ir ter com o Pai mas descer à cruz por ter provado da graça e também do amor de Deus.

Sem a graça e o amor de Deus quem pode suportar sofrimento como esse? Alguns filhos podem sofrer pelos pais, mas não sofrem de boa vontade. Alguns estudantes podem obedecer aos mestres sob compulsão. Somente Cristo pode fazer a escolha boa embora difícil com um coração disposto por ter provado da manteiga e do mel — do mais abundante e do mais doce.

 

SEXTO: ENTRANDO EM JERUSALÉM (João 12:12-28)

As duas ocasiões mais gloriosas da vida de nosso Senhor são a experiência do monte da transfiguração e sua entrada em Jerusalém. Ao entrar em Jerusalém muita gente tomou galhos de palmeiras e saiu a encontrá-lo, clamando: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! e que é Rei de Israel!” Estas palavras foram proferidas pelos judeus. Nessa época o Senhor ainda tinha muitos amigos. Lázaro tinha sido recentemente ressuscitado dos mortos, al­gumas pessoas haviam preparado uma festa para o Senhor, e alguns gregos vieram a Filipe dizendo: “Senhor, queremos ver a Jesus.” Até seus inimigos, os fariseus, diziam uns para os outros: “Vede que nada aproveitais! eis aí vai o mundo após ele.”

Nessa juntura, ele podia ter conseguido tudo o que quisesse. Mas quando André e Filipe vieram falar ao Senhor Jesus do desejo dos gregos, qual foi sua resposta? “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto.” Aqui fez mais uma escolha. Ele podia ganhar glória e tornar-se rei, mas escolheu o oposto. Como meu coração se comove com o que ele disse: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto”!

“Agora está angustiada a minha alma, e que direi eu?” Isto indica quanto o coração e a boca do Senhor andavam de acordo. “Pai, salva-me desta hora? mas precisamente com este propósi­to vim para esta hora.” O Senhor podia ter pedido que o Pai o livrasse dessa hora, en­tretanto ele sabia que tinha vindo para essa mesma hora. Uma vez mais desprezou o mal e escolheu o bem. Anteriormente, ao notarmos estas coisas, perguntamos a nós mesmos como é que ele podia fazer tais escolhas. Agora, en­tretanto, diz-nos a Bíblia em Isaías como é que ele pode escolher o bem e desprezar o mal: ele provou da manteiga e do mel, da abundância da graça e da doçura do amor.

 

SÉTIMO: NO GETSÊMANI (Mateus 26:36-46)

Finalmente no jardim do Getsêmani, o Senhor fez a escolha maior! Ali ele podia dizer não desejo morrer: “Meu Pai: Se possível, passe de mim este cálice!” Mas imediatamente acrescen­tou: “Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” Embora visse a hediondez do cálice, não ousou seguir sua própria vontade. Não temia o cálice; antes, sua virtude santa rebelava-se contra o levar os pecados. Antes de saber que o cálice e a vontade de Deus se tinham tornado uma, podia legitimamente pedir: “Se possível, passe de mim este cálice”; mas tal pedido foi imediatamente seguido da afirmativa: “não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” De modo que no jardim do Getsêmani, ele escolheu a vontade de Deus e rejeitou o que não era de sua vontade. E o que disse Jesus finalmente a Pedro? “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (João 18:11)

Deixe-me dizer-lhes que se não tivesse havido Getsêmani não poderia ter existido a cruz. Sem a obediência do jardim não teria havido a morte do Calvário. A obediência precedeu a cruz. Nosso Senhor “a si mesmo se humilhou, tornan­do-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). Muitos fogem da cruz por não se terem saído bem na consagração do Getsêmani. Não têm em si mesmos o poder. Mas nosso Senhor tinha a manteiga e o mel; portanto podia escolher o bem e desprezar o mal.

É preciso grande poder para ser obediente! Se Deus primeiro não lhe encher o coração, você não terá êxito, não importa quanto possa tentar externamente. Precisamos aprender a chegarmo-nos a Deus diariamente e receber do céu tanto a manteiga como o mel para que dia a dia vivamos na terra escolhendo o bem e desprezan­do o mal.

Falo a vocês hoje desta maneira porque tenho dentro em mim um profundo sentimento de que a volta do Senhor é iminente e que o reino está próximo, Logo as tentações serão maiores, os perigos se multiplicarão e as decepções serão mais profundas. Antes era questão de livrar-nos do pecado; agora é questão de livrar-nos do prazer. Antes era receber o despojamento de Deus; agora é obedecer com coração disposto. Antes era o caso de levar o jugo com relutância; agora é escolher a cruz voluntariamente.

Prevemos hoje muitas coisas que nos aconte­cerão nos dias vindouros se não soubermos como desprezar o mal e escolher o bem. Satanás nos oferecerá mais vantagens, o mundo parecerá mais gracioso dando-nos muitas coisas, e nosso ambiente também nos será mais útil. Se não desprezarmos, não venceremos. Como pode­mos vencer o mundo? Se o Senhor não tivesse escolhido morrer, poderia ter vivido porque lhe era possível não ter morrido. Oh! percebamos uma coisa: não importa o que se nos coloquem à frente, poderemos escolher com simplicidade de coração somente porque recebemos a manteiga e o mel celestiais. Daí que devemos receber man­teiga e mel diariamente do céu para que possa­mos saber o que escolher e o que desprezar. Não deixemos que nosso ambiente escolha por nós.

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

EM CRISTO

Não devemos jamais nos esquecer de que todos nós fomos pecadores porque todos estivemos em Adão. Todo aquele que nasceu de Adão herdou a natureza de Adão. Quando pecadores, não precisávamos esforçar-nos para perder a calma, contar uma mentira, e assim por diante uma vez que a vida, natureza e comportamento de Adão fluíam em nós. Ora, a nossa salvação não vem do fato de Deus nos ter tornado bons, mas de ter-nos salvo de Adão colocando-nos em Cristo. De modo que agora, tudo o que é de Cristo flui para dentro de nós. A Bíblia mostra-nos que no momento em que estamos em Adão, pecamos, e que somente permanecendo em Cristo praticamos a justiça. Permita-me lembrar a você e a mim que à espreita, no secreto de muitos de nossos corações, está o erro: a ideia de esperar que Deus nos mude. Mas Deus não faz e jamais fará nada dentro de nós; antes, colocar-nos-á em Cristo.
Nosso padrão de pensamento é que uma vez que a raiz do pecado está em nós, devemos pedir a Deus — depois de sermos salvos — que arranque a raiz do pecado assim como pedimos que o dentista extraia um dente doído de nossa boca. Talvez alguns até mesmo digam a você e a mim que devemos orar pedindo que Deus extraia a raiz de nosso pecado. Talvez possam também informar-nos que depois de longo tempo em oração eles mesmos tiveram êxito nisto e desta forma alcançaram a santidade.
Mas deixe-me apressar-me a dizer-lhe que se você espera que Deus desarraigue o seu pecado, ficará desapontado, pois Deus jamais o fará. O que a Bíblia nos mostra é que todas as obras de Deus foram realizadas em Cristo. Desde o dia em que Cristo morreu, todas as coisas do mundo espiritual foram completadas nele. Deus não pode fazer mais. De modo que se você pedir que Deus faça algo parecido em você, ele não o pode fazer. Você somente pode receber o que ele já fez em Cristo.
Tudo está em Cristo. Você espera, em oração, ver uma luz especial ou ouvir alguma voz especial dizendo-lhe que seu pecado particular agora está sendo erradicado? Ou procura uma sensação distinta que o encha de alegria? Você pode pensar que estas coisas sejam boas; em verdade, entretanto, isto mostra que seu coração é ímpio e incrédulo. Pois tudo o que Deus faz ele o faz em Cristo, não em você. De modo que agora não é mais o que Deus faz em você mas o que Deus fez em Cristo.
E ao crer nesta última alternativa, você a receberá. Somente a possuirá apropriando-se dela em Cristo.
Amiúde quando enferma a pessoa pensa que ficará bem se tão somente Deus a tocar com o dedinho. Mas Deus já o curou em Cristo; não pode fazer mais nada em você. Se você crer nisto e apropriar-se deste fato em Cristo, deveras ficará são e saudável. Você está pensando em vitória? A vitória de Cristo somente é seu triunfo. Deseja vencer o mundo? Outra vez, foi Cristo quem venceu o mundo. Ou você espera que Deus faça algo para você algum dia? Permita-me dizer uma vez mais: não; Deus já fez tudo para você em Cristo. Logo a vitória não é questão do dia atual, porque Cristo já triunfou. Que Deus nos possa dar revelação tal que possamos ver o que já temos em Cristo.
Se não cremos, nada recebemos; mas se cremos temos tudo. Em Cristo estão a vitória, a justificação, a santificação, o perdão e todas as outras bênçãos espirituais. Deus não pode fazer mais do que isto por nós. Se estivermos em Cristo, tudo o que é de Cristo será nosso. Não é como se tirássemos alguma coisa de Cristo a fim de nutrir a nós mesmos, mas é entrarmos em Cristo de modo a permitirmos que flua em nós o que já está nele.
Ao sermos batizados, somos batizados em Cristo — não meramente somos batizados na água, mas somos batizados em Cristo. Segundo a última cláusula de Romanos 6:3 (“fomos batizados na sua morte”), a água do batismo mencionada nesse versículo aponta para a morte. Mas segundo a primeira cláusula do mesmo versículo (“fomos batizados em Cristo”), a água também se refere a Cristo. Frequentemente vamos a Deus buscando um copo d’água. Não, Deus quer que entremos em Cristo. Se esclarecermos este ponto, saberemos que não é uma questão de nós mesmos, nem o nosso pedir que Deus faça algo em nós; é, antes, Cristo, e todas as coisas estão nele.

I. O QUE TEMOS EM CRISTO:
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
Como não podemos ser condenados? Estando em Cristo. Você pode dizer a Deus: “Sou pecador, por favor, perdoa-me e não me condenes”? Não, Deus não pode fazer isto diretamente para você, ele somente pode perdoá-lo em Cristo. Você não deve olhar para si mesmo; deve olhar para Cristo. Permita-me perguntar: — Como é que você sabe que não será condenado no futuro? Pode você confiar na experiência que teve em certa época, em determinado dia?
É claro que você somente pode firmar-se e estar seguro no que as Escrituras dizem. Então nem eu nem todos os pregadores do mundo nem o próprio Deus podemos refutá-lo; e isto porque a Palavra de Deus afirma: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”
“E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Coríntios 5:17).
Diz esta passagem o quanto fui mudado? De maneira nenhuma. Simplesmente diz que se alguém está em Cristo, é nova criatura. Alguém pode asseverar ter sido um cristão fraco por vários anos até que em certo ano e em determinado mês foi vivificado, assim tornando-se uma nova criatura. A tal pessoa perguntaria: — Qual é o fundamento para sua afirmação de que em tal tempo você se tornou uma nova criatura?
A única base verdadeira reside não no fato de que, em certa hora de reavivamento a pessoa transformou-se em nova criatura, mas no que a Palavra de Deus declarou; a saber, se alguém está em Cristo Jesus, é nova criatura.
Talvez alguém argumente que a despeito do que as Escrituras dizem a respeito de ser ele uma nova criatura, examinando-se a si mesmo não parece ser muito novo.
Talvez alguém argumente que a despeito do que as Escrituras dizem a respeito de ser ele uma nova criatura, examinando-se a si mesmo não parece ser muito novo.
Novamente minha resposta seria: — São muitos os pecadores e os santos que têm falta de fé!
Permitam-me encorajar a todos nós a ajoelhar-nos e orar: “Deus, louvo-te e dou-te graças; tua Palavra diz que se alguém está em Cristo é nova criatura. Estou em Cristo, portanto sou nova criatura.” Sempre que lhe vier a tentação que lhe diz que você ainda é uma velha criatura, você precisa somente responder com a Palavra de Deus que diz que você está em Cristo e logo é nova criatura; Satanás baterá apressadamente em retirada. Ou se você simplesmente ficar do lado da Palavra de Deus e não der nenhuma atenção à tentação, você também terá a vitória. Pois a vitória não depende de sentimentos, mas da Palavra de Deus.
Permita-me reiterar uma vez mais a verdade que Deus nada fará em você. Se ele extraísse a raiz de nosso pecado, não teríamos necessidade de confiar nele desse dia em diante. Mas Deus realizou todas as coisas em Cristo a fim de que possamos ir a ele dia após dia. Ele não pode mentir; o que ele diz é verdade. E se crermos, tal confiança será nossa. Este é o segredo da vitória.
“Para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado” (Efésios 1:6).
Deus aceita-nos somente eu seu Amado — a saber, em Cristo. Ninguém pode ser aceito por Deus fora de Cristo, pois Deus somente pode receber-nos e aceitar-nos nele.
“No qual [o Filho do amor de Deus] temos a redenção, a remissão dos pecados” (Colossenses 1:14).
Redenção e remissão são algo que só se encontra em Cristo. Suponhamos que um crente tenha pecado e peça a Deus que lhe perdoe. Você sabe quando Deus lhe perdoa? Alguns dizem que oremos até recebermos paz no coração, pois é esta a evidência do perdão. Não existem muitos que têm cometido muitos pecados e, no entanto, seus corações estão em paz? Não há muitos também cujos pecados já foram perdoados, mas ainda se sentem conturbados? Quão totalmente incerto é o sentimento humano! Caso o cristão tenha pecado, por quanto tempo você lhe dirá que deve orar a fim de receber o perdão? Que se saiba que há mais de mil e novecentos anos Cristo já tinha levado nossos pecados: que você já tinha morrido na morte de Cristo, e assim já recebeu o perdão. Tudo está bem se simplesmente você se apropriar do que Cristo já realizou por você. Se esperar que Deus faça algo novo em você, poderá ter de esperar até que chegue a eternidade. Hoje, quando pedimos perdão a Deus, isto significa simplesmente deixar que o perdão que já está em Cristo flua para dentro de nós. Recebemos perdão por crermos que Deus já nos perdoou em Cristo. Isso não depende de sentimento.
“Aquele [Cristo] que não conheceu pecado, ele [Deus] o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21).
Somos justificados por estarmos em Cristo. Não é por termos feito boas obras que Deus nos justifica. Deus nos justifica em seu Filho. Se esperarmos até sermos justos para crer, jamais creremos.
“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Coríntios 1:2).
Assim como somos justificados por estarmos em Cristo, também somos santificados por estarmos nele. O grande erro de muitos é presumir que em dado mês ou em certo dia Deus lhes concede santificação e assim são santificados. Permita-me dizer-lhe que se você hoje espera que Deus o santifique, você jamais será santificado. Você somente pode apropriar-se do que Cristo já realizou por você.
Preferiríamos ser como a luz de um carro que provém da pouca eletricidade armazenada no carro. Mas se estamos em Cristo, seremos como uma luz de uma casa. Embora a eletricidade não esteja na lâmpada, flui para ela; pois assim que se liga o interruptor, a conexão é feita e a luz se acende. Mas quando se desliga o interruptor e a conexão é desfeita, a luz se apaga. Ora, enquanto permanecemos unidos com Cristo, temos tudo; mas se houver interrupções, seremos como os gentios. Nunca obra alguma foi feita em nós, uma vez que tudo foi feito em Cristo. Somos simples condutores.
“Porque eu estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:38, 39).

Nenhuma destas coisas pode separar-nos do amor de Deus por um motivo muito importante — e este é o amor em Cristo Jesus. “Nele [Cristo] estais aperfeiçoados” (Colossenses 2:10).
Nosso aperfeiçoamento não é devido a alguma coisa feita em nós, mas devido ao nosso estar em Cristo. “Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2). Somos libertos não por causa de nós mesmos, mas por estarmos em Cristo. Bem-aventurado é aquele que crê nisto,
Deus “nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Efésios 1:3). Podemos desfrutar deste versículo sem limite de tempo. toda sorte de bênção que existe, está em Cristo. Tendo um versículo como este, a pessoa pode continuamente dizer: “Graças e louvor a Deus, pois Ele me deu toda a sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo.”
A extensão de sua fé no que Deus disse, a essa extensão, tudo o que Ele disse será real para você.
“Para que tenhais paz em mim [Jesus]” (João 16:33). Não se encontra paz fora do Senhor. Enquanto permanecemos no Senhor temos a paz do Senhor.
“Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias” (Filipenses 2:1). Tudo está em Cristo.
“Conheço um homem em Cristo” (2 Coríntios 12:2). Eis um homem em Cristo, um homem que está totalmente nele.
Oh, se cuidadosamente lermos a Bíblia, não pediremos que Deus faça nada em nós. No caso de estarmos esperando que ele faça algo em nós, ficaremos desapontados não somente hoje e amanhã, mas até o dia em que partirmos deste mundo. No reino natural, se o interruptor estiver desligado, como é que alguém pode esperar que a luz brilhe? Mas assim que ligamos o interruptor, a luz chega imediatamente. Assim também é no reino espiritual; sem crer constantemente em Cristo, não temos a vitória. Precisamos de Cristo em cada momento. Nele temos tudo.

II. COMO ESTAR EM CRISTO
(1) Aquele que crê em Cristo está em Cristo. “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Isto é união. Cremos em Cristo.

(2) Tendo crido em Cristo, devemos também ser batizados nele. Ser batizado na água é ser batizado em Cristo: “Ou, porventura, ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte?” (Romanos 6:3). Assim como a pessoa é batizada na água, também é batizada em Cristo. Se colocássemos uma moeda de cobre numa garrafa de ácido sulfúrico, a moeda de cobre desapareceria porque se derreteria no ácido. Da mesma forma, quando a pessoa é batizada em Cristo torna-se uma com ele. Isto é fé.

(3) De Deus somos um em Cristo (veja 1 Coríntios 1:30). É Deus quem nos batiza em Cristo. Ao crermos interiormente e sermos batizados externamente, Deus nos une a Cristo. E assim temos a justiça, a santificação e a redenção. Não temos justiça nenhuma, porém Cristo é a nossa justiça. Não temos santificação alguma, mas Cristo é nossa santificação. Não temos redenção alguma, mas ele é nossa redenção. Veremos Cristo em todas as coisas. Possa Deus tirar o véu que nos cobre para que vejamos quão perfeita é a obra que realizou para nós.
Hudson Taylor despendeu grande esforço na busca da vitória. Ele reconheceu que a despeito de seu pedir constante, Deus não lhe concedia vitória. Certo dia ele leu as palavras de Cristo em João 15:5: “Eu sou a videira, vós os ramos.” Instantaneamente recebeu a luz. Ajoelhando-se, orou: “Sou a pessoa mais boba do mundo inteiro. A vida vitoriosa que procuro é algo que já possuo. Vós sois os ramos, disse Jesus; ele não disse que nos tornaríamos um ramo.” Por muitos anos ele pediu que fosse ligado à árvore como um ramo, sem perceber que já era um ramo ligado à árvore. Mas foi somente depois de receber a revelação de Deus que teve fé real. Desse dia em diante teve uma vida vitoriosa e realizou grandes coisas para o Senhor. Algum tempo mais tarde, pediram-lhe que falasse na Convenção de Keswick, na Inglaterra, e foi essa a história que ele contou lá. Ele disse: “Eu estava derrotado, logo procurava a vitória; mas a vitória nunca chegava. Mas no dia em que eu cri, a vitória chegou.”
Percebamos que não é preciso esforçar-nos a fim de receber a seiva da raiz para alimentar-nos, pois já somos ramos unidos à árvore. Não precisamos nos preocupar com nada, exceto permanecermos ramos. Não devemos tentar conseguir algo da árvore, mas simplesmente que somos os ramos. Deus nos uniu a Cristo, a árvore. E tudo o que é de Cristo é nosso. Crendo, temos a vitória. Por um lado, somos batizados em Cristo e por outro, mantemos contato com ele por meio do pão e do cálice. Assim fazendo, permitimos que sua vida flua através de nós.

 

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A MANEIRA PELA QUAL A PESSOA CRUCIFICADA PROCLAMA A CRUZ

Quanto ao lado prático. Sempre que o Senhor nos envia a certo lugar em certa época a fim de testemunhar dele, devemos, de novo, livrar-nos da inclinação ao amor e à dependência de nossa vida natural, e estar dispostos a deixar de lado nossa emoção ou sentimento. Embora, às vezes, nada sintamos, ou nos sintamos frios como gelo, podemos ajoelhar perante o Senhor e pedir que a cruz faça seu trabalho mais profundo em nós para que possamos controlar nosso sentimento — seja ele frio ou quente em cumprir o mandamento do Senhor. Podemos pedir ainda mais que o Senhor fortaleça nosso espírito. E enquanto a vida da alma nesse instante recebe seu golpe fatal na cruz, o Senhor conceder-nos-á mais graça. Ainda que conheçamos a verdade que vamos pregar, não ousamos tirá-la de nosso cérebro e entregá-la às pessoas. Antes, prostrar-nos-emos humildemente perante Deus, pedindo-lhe que dê vida novamente à verdade que já conhecíamos.
Assim a verdade será impressa em nós de novo de modo que o que falamos não é mera recordação de nossa experiência passada, mas uma nova experiência de vida. Desta forma o Espírito Santo com seu poder controlará o que pregamos.
É melhor esperarmos perante o Senhor antes de falarmos, permitindo assim que sua palavra (ou às vezes aquilo que já conhecemos) impressione nosso espírito de novo. Ainda que tenhamos pouco tempo, o Senhor é capaz de imprimir a mensagem em nosso espírito em poucos minutos. Tal experiência requer a abertura constante de nosso espírito ao Senhor em nossa caminhada diária.
Devemos ressaltar este ponto, pois ele é a chave de nosso êxito ou de nosso fracasso. No caso de um crente desviado, se pedirmos que fale de sua experiência passada, ele pode fazê-lo pelo poder da memória e pode até mesmo falar com bastante propriedade. Mas todos nós sabemos que o Espírito Santo não operará mediante ele. Entretanto, percebamos que a obra que fazemos pelo poder da memória não é muito diferente da pregação ou palestra do crente desviado. Devemos rapidamente reconhecer que a obra feita com a mente, na maioria das vezes, é desperdício de energia. Pois o que procede da mente só pode alcançar a mente das outras pessoas. Nunca pode tocar o espírito nem dar vida. Experiências antigas, não renovadas nem avivadas, são inadequadas para nossa obra. Devemos pedir que Deus renove a experiência antiga em nosso espírito.
O que acabamos de dizer é ainda mais verdadeiro com referência à pregação da salvação da cruz aos pecadores. Pode ser que tenhamos sido salvos há muito tempo. Se operarmos somente pelo poder da memória, não será nossa mensagem demasiadamente antiga e sem sabor? Mas se pudermos ver de novo em nosso espírito a fealdade dos pecados e provar de novo o amor da cruz, ficaremos assim tocados pela compaixão de Cristo para que os pecadores creiam nele e podemos retratar a cruz vividamente perante as pessoas (veja Gálatas 3:1) para que creiam nele. Como poderemos emocionar os outros com o amor e com a compaixão de Cristo se nós mesmos somos tão duros e frios? Pode ser que ao proclamarmos o sofrimento da cruz, nosso coração não está de modo algum tocado e amolecido por tais sofrimentos!
Portanto devemos ir à presença do Senhor com nosso espírito aberto para que o Espírito Santo faça com que sua palavra e mensagem passem através de nosso espírito, fazendo com que nos derretamos por sua palavra antes de a entregarmos. Não devemos depender de nosso sentimento, do talento natural nem de nossa mente; antes, depender do poder do Espírito Santo. Deixemos que sua mensagem impressione o espírito dos que o ouvem e também o nosso espírito. Oh! Toda vez que pregarmos devemos ser como Isaías, que sempre tinha o fardo da profecia antes de profetizar. Ao ler Isaías capítulos 13 a 23, notaremos que cada profecia é precedida da palavra “fardo” ou “peso”. Isto devia ser significativo para nós. Toda vez que proclamamos a Palavra de Deus, primeiro devemos receber em nosso espírito o fardo da mensagem que devemos entregar como se não pudéssemos livrar-nos do fardo até que nosso trabalho seja feito.
Além disso, devemos pedir que o Senhor nos dê o fardo para que a obra que fizermos não proceda de nosso sentimento natural, de nosso talento nem de nossa mente. Devemos também passar pela experiência de Jeremias: “Quando pensei: Não me lembrarei dele e já não falarei no seu nome, então isso me foi no coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; já desfaleço de sofrer, e não posso mais” (Jeremias 20:9). Como podemos nós descuidar-nos ao proclamar a Palavra de Deus? Devemos permitir primeiro que sua palavra queime nosso espírito para que não deixemos de proclamá-la. Mas se não estivermos dispostos a entregar a vida de nossa alma e seu poder à morte, jamais receberemos de novo a palavra do Senhor em nosso espírito.
Se nós, como servos, desejamos ser usados por Deus a fim de salvar os pecadores e de reavivar os santos — isto é, proclamar a mensagem da cruz — devemos deixar que primeiro a cruz opere em nós: fazer-nos, por um lado, desejosos de entregarmo-nos diariamente à morte por causa do Senhor e por outro lado, dispostos a colocar o poder e a vida da nossa alma no lugar da morte — aborrecendo a força que pertence à vida natural, não confiando de modo algum em nós mesmos, nem em tudo que procede do ego.
Então veremos a vida de Deus e seu poder fluindo para o espírito das pessoas mediante nossas palavras.
A despeito de todas as preparações de parte do evangelista ou pregador, algumas vezes ainda pode falhar. Entretanto, não será devido a um fracasso total de parte dele. Por que, então? Por causa da opressão e do ataque de Satanás.

A OPRESSÃO E O ATAQUE DE SATANÁS
Satanás odeia a pregação da palavra da cruz. Se proclamarmos fielmente a cruz do Senhor, sofreremos sua oposição. Ele, frequentemente, assalta o mensageiro da cruz das seguintes maneiras. Ele pode atacar, enfraquecendo a saúde do mensageiro — fazendo com que ele perca a voz e encontre muitos perigos físicos — ou oprimindo lhe o espírito ao ponto de sufocá-lo. Ele pode operar no ambiente criando incompreensão, oposição e até mesmo perseguição. Ele pode perturbar o tempo, impedindo que as pessoas assistam às reuniões. Ele pode causar desordem ou confusão na reunião. Pode incitar os cães a latir ou os bebês a chorar. Às vezes ele pode operar na atmosfera, fazendo com que a reunião seja pesada, sufocante, opressiva ou lúgubre. Tudo isso são obras do inimigo que o mensageiro da cruz deve reconhecer.
Já que temos tal inimigo e podemos encontrar esse tipo de oposição, é preciso que conheçamos a vitória da cruz. O Senhor Jesus, na cruz, fez mais do que simplesmente resolver o problema do pecador. Ali ele pronunciou a sentença de juízo sobre Satanás; ali ele derrotou o inimigo:
“…para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse a todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hebreus 2:14b, 15).

“Despojando os principados e as potestades [o Senhor Jesus], publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Colossenses 2:15).
Na cruz Satanás foi vencido, pois ali ele sofreu o golpe fatal. Sabemos que “Para isto se manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do diabo” (1 João 3:8). E onde isto acontece? A resposta simples é: na cruz. Também sabemos que o Senhor Jesus veio para amarrar o homem valente (Mateus 12:29). Onde? Na cruz no Calvário, naturalmente. E preciso que compreendamos que o Senhor Jesus ganhou a batalha na cruz. Devemos conhecer:

A VITÓRIA DA CRUZ
Precisamos reconhecer que Satanás é um inimigo derrotado. Donde se depreende que não precisamos ser derrotados e que o inimigo não deve vencer. Satanás não tem direito de vencer outra vez! Não deve ter nada, a não ser uma derrota total de si mesmo. Que nós, portanto, levantemos a vitória da cruz, tanto antes como depois de vermos a obra de Satanás. Louvemos em voz alta a vitória de Cristo. Antes de começarmos a operar, podemos declarar perante o Senhor: “Louvado seja o Senhor, pois dele é a vitória! Cristo é o triunfador! Satanás já está derrotado! O inimigo já foi destruído! Calvário é a vitória! A cruz é a vitória!” Devemos repetir isto até que em nosso espírito saibamos que o Senhor ganhará outra vez a luta. Devemos permanecer ao pé da cruz, pedindo a vitória e também a destruição das obras do diabo. Devemos pedir que Deus nos cubra, e também àqueles que assistem à reunião, com o precioso sangue de nosso Senhor Jesus para que não sejamos atacados por Satanás, mas o vençamos.
“Eles, pois, o venceram [Satanás] por causa do sangue do Cordeiro” (Apocalipse 12:11).
Se estivermos realmente unidos à cruz — permitindo que ela realize uma obra mais profunda em nossa vida e serviço, confiando com todo o coração na vitória da cruz — Deus fará com que triunfemos em todos os lugares. Que Deus possa levar-nos, servos indignos, a ser obreiros “que não têm de que se envergonhar” (2 Timóteo 2:15).

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee 

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A cruz e seu mensageiro: o modo de proclamação

Sabemos que Paulo não somente é uma pes­soa crucificada que prega a cruz, mas também prega a cruz no espírito da cruz. Na vida diária ele é uma pessoa crucificada; nas horas de prega­ção, permanece uma pessoa crucificada, pois usa o espírito da cruz a fim de pregar a cruz. Ele é um homem cuja experiência de vida tem sido de crucificação com Cristo. Ao proclamar a cruz, não depende de “linguagem persuasiva de sabe­doria” (1 Coríntios 2:1, 4). Paulo compreende que isto não é vantagem no que se refere a ser canal para a vida de Deus. Em vez disso, ele depende da “demonstração do Espírito e de poder”. E só assim que a palavra da cruz é proclamada com a atitude adequada.

No que se refere ao gênio e à experiência de Paulo, ele pode anunciar a verdade da cruz com discurso persuasivo e argumentos inteligentes. Ele pode apresentar a cruz trágica de modo tão comovedor que atraia grande atenção. Ele pode desenvolver o mistério da cruz usando todos os tipos de parábolas e observações convincentes. Ele também pode citar a Escritura a fim de fundamentar a filosofia da cruz para que as pessoas possam compreender os aspectos vários da morte substitutiva e da co-morte na cruz. Tudo isso Paulo pode fazer muito bem. Mas escolhe não o fazer. Seu coração recusa-se a confiar nestas habilidades, pois sabe que estas jamais outorgarão vida às pessoas. Ele está totalmente consciente de que se depender destas vantagens estará pregando a palavra da cruz por meios que não “pertencem à cruz”. Aos olhos do mundo, a cruz é algo humilhante, baixo, louco e desprezível. Entretanto, é exatamente isto que a cruz é. Pregá-la com linguagem persuasiva e com a sabedoria do mundo é totalmente contrário a seu espírito e pode, pois, não ter valor algum. Mas Paulo está disposto a desprezar sua habilidade natural e tomar a atitude e espírito da cruz em sua pregação, por conseguinte Deus pode usá-lo grandemente.

Todos nós temos talento natural — alguns mais, outros menos. Depois de termos alguma experiência da cruz, temos a tendência, a princí­pio, de depender de nossos dons naturais a fim de proclamar a cruz que acabamos de experi­mentar. Quão ansiosamente esperamos que nos­sos ouvintes adotem o mesmo ponto de vista e partilhem da mesma experiência. Entretanto, as pessoas parecem tão frias e não receptivas, e ficam aquém de nossa expectativa. Não compre­endemos que nossa experiência de cruz é um pouco nova, e que nossos bons talentos naturais também precisam morrer com Cristo. Ignoramos o fato de que a cruz deve operar de tal forma em nós que não somente deve manifestar-se em nossas vidas, mas também expressar-se por meio de nossas obras? Antes que possamos chegar a esse estado de maior maturidade, geralmente vemos nosso talento natural como inofensivo e muito lucrativo no serviço do reino. Então, por que não usá-lo? Mas até que descubramos que a obra realizada por meio da habilidade natural agrada aos homens só por algum tempo, mas não concede ao espírito a obra real do Espírito Santo, não percebemos quão insuficiente é nosso lindo talento natural e quão necessário é que procure­mos maior poder divino. E quantos há que proclamam a cruz em seu próprio poder!

Não digo que estes não tenham nenhuma experiência da cruz; sem dúvida possuem tal experiência. Nem estou dando a entender que abertamente afirmem confiar em seu próprio dom e poder a fim de realizar a obra. Pelo contrário, podem gastar horas em oração, supli­cando a bênção de Deus e a ajuda do Espírito Santo. Podem mesmo ter consciência, até certo ponto, de sua incapacidade de depender de si mesmos. Entretanto, tudo isso não os ajuda muito se nos recessos profundos de seu coração ainda confiam que sua eloquência ou análise, suas ideias e ilustrações não podem falhar em mover as pessoas!

Nossa crucificação é expressa por nosso desamparo, nossa fraqueza, nosso temor e tremor. Em resumo, a crucificação significa morte. Consequentemente, se manifes­tarmos a vida de cruz em nosso viver diário, também devemos exibir o espírito da cruz no trabalho do Senhor. Devemos sempre ver a nós mesmos como desamparados. No serviço do Senhor devemos andar em temor e tremor, para nosso próprio bem, a fim de não confiarmos em nós mesmos. Em tal estado, sem dúvida, depen­deremos do Espírito Santo, e assim produzire­mos fruto.

A menor porção de autoconfiança certamente desfará nossa dependência do Espírito Santo. Somente aqueles que foram crucificados sabem e estão dispostos a aprender a dependência do Espírito de Deus e de seu poder. Paulo, por exemplo, foi crucificado com Cristo; logo, quan­do trabalha exibe o espírito da cruz sem nenhu­ma auto dependência. E porque ele usa a manei­ra da cruz a fim de proclamar o Salvador da cruz, o Espírito Santo e seu poder dão apoio ao testemunho de Paulo. Que possamos dizer com nosso irmão Paulo: “…nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas sobretudo em poder, no Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 1:5). Embora possamos falar de modo convincente, que proveito trará se o Espí­rito Santo não estiver operando por meio de nossas palavras? Portanto, que possamos não dar tanto valor à nossa habilidade natural, mas estar dispostos a tudo perder a fim de obter o poder do Espírito de Deus.

Jaz aqui a chave à fertilidade ou infertilidade do evangelista. Às vezes podemos examinar dois pregadores do evangelho. Sua apresentação e expressão podem ser exatamente as mesmas. Mas um é usado por Deus a fim de produzir muito fruto, enquanto o outro — embora o que diga seja espiritual e bíblico e os ouvintes pare­çam prestar bastante atenção — não consegue fruto algum e nada parece advir de sua pregação. Não é difícil descobrir o motivo. Posso dizer, por minha própria observação, que um deles foi verdadeiramente crucificado e teve verdadeira experiência espiritual, e que para o outro a apresentação inteira do evangelho é meramente uma ideia. Aquele que somente possui ideias não pode pregar a cruz à maneira da cruz., Mas, à medida que aquele que possui a vida da cruz anunciar com seu espírito a experiência que possui, terá, operando a seu favor, o Espírito Santo.

Ora, algumas pessoas podem ser mais elo­quentes e mais hábeis na análise e no uso de ilustrações; não obstante, se não possuírem a operação da cruz em sua vida, o Espírito Santo não operará por seu intermédio. O que lhes falta é a operação mais profunda do Espírito Santo para que, ao proclamarem o evangelho, o Espíri­to Santo opere mediante elas e faça fluir sua vida por intermédio delas. Precisam ver que apesar de às vezes o Senhor usar suas habilidades naturais, a fonte de toda a fertilidade não está aí. Toda obra realizada mediante a vida natural é vã; mas a obra realizada no poder da vida sobrenatural dá muito fruto.

Leiamos outra passagem da Escritura a fim de ajudar-nos a compreender a diferença entre depender da vida natural e depender da vida sobrenatural.

“Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo,” preservá-la-á para a vida eterna” (João 12:24, 25)

Aqui o Senhor Jesus revela o princípio da produção de fruto: o grão de trigo primeiro deve morrer antes de produzir muito fruto. Donde se depreende que a morte é processo indispensável na produção de fruto. Verdadeiramente a morte é a única maneira de produzir frutos. Tantas vezes pedimos ao Senhor o maior poder a fim de produzir mais fruto; mas o Senhor nos diz que precisamos morrer, que se desejamos o poder do Espírito Santo devemos experimentar a cruz. Muitas vezes em nossa tentativa de chegar ao Pentecoste desviamo-nos do Calvário, não per­cebendo que sem a crucificação e a perda de tudo o que pertence ao mundo natural, o Espíri­to Santo não pode operar conosco para ganhar muitas almas. Eis o princípio espiritual: morra, e então produza fruto.

A própria natureza do produzir fruto prova o que afirmamos antes: o propósito da obra é que as pessoas recebam vida. Este grão de trigo simplesmente morreu, e como resultado produ­ziu muitos outros grãos. Todos estes muitos grãos agora têm vida; mas a fonte da vida que obtiveram foi o grão de trigo morto. Se estamos verdadeiramente mortos, seremos canais da vi­da de Deus a fim de transmiti-la a outros. Ora, essa vida não é questão de vã terminologia; faz com que o poder de Deus emane de nós a fim de dar vida aos outros.

O fruto que esse grão de trigo produz é múltiplo. Jesus disse: Muito fruto” — isto é, muitos grãos. Enquanto estamos envolvidos em nossa própria vida, podemos ganhar uma ou duas pessoas exercendo ao máximo nossa força (não digo que não podemos absolutamente sal­var a ninguém). Mas se morrermos como morre o grão de trigo, ganharemos “muito fruto”. Em qualquer lugar, às vezes com uma ou duas palavras, as pessoas são salvas ou edificadas. Que esperemos, portanto, produzir muito fruto.

Mas o que realmente significa a frase “Cair na terra e morrer”? Ao ler as palavras seguintes aqui proferidas pelo Senhor, podemos pronta­mente compreender: “Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna” (João 12:25). O original grego usa duas palavras diferentes para a palavra “vida” aqui mencionada. A palavra psyche refere-se à vida da alma ou à vida natural; zoe, significa a vida do espírito ou a vida sobrenatural. Portanto, o que o Senhor está realmente dizendo aqui é: “Quem ama a sua vida da alma, perde a vida do espírito; mas aquele que odeia a sua vida da alma neste mundo, preservará a vida do espírito para a vida eterna.” Simplificando, devemos entregar à morte a vida da alma, assim como o grão de trigo cai na terra e morre; e então, por meio da vida do espírito muitos grãos serão produzidos e preser­vados para a eternidade. É nosso desejo produ­zir muito fruto, porém não sabemos deixar que nossa vida da alma morra e que viva a vida do espírito.

A vida da alma é a nossa vida natural. É a vida da alma que conserva a vida da carne, portanto, é o fator da vida do homem natural. Os dons naturais da pessoa pertencem à alma — elementos como a vontade, o vigor, as emoções, o pensamento e assim por diante. Estas coisas que todas as pessoas naturais possuem em comum são acessórios da vida da alma. A inteligência, o raciocínio, a eloquência, a afeição e a capacidade pertencem à vida da alma. A vida do espírito, pois, é a vida de Deus. Não procede de nenhu­ma parte da vida da alma, mas é uma vida especialmente dada a nós pelo Espírito Santo quando cremos na obra consumada da cruz do Senhor Jesus e somos salvos. Deus então está em nós a fim de vivificar esta vida do espírito para que possa crescer e assim tornar-se o poder motivador de todas as nossas boas ações e obras. É a vontade de Deus colocar nossa vida da alma no lugar da morte (note, entretanto, que esta é uma morte diferente da que 2 Coríntios 4 pres­creve).

Quão frequentemente o poder para nossa obra provém de nosso dom natural ou da vida de nossa alma! Quanto dependemos de nossa elo­quência, sabedoria, conhecimento, habilidade e assim por diante! Entretanto, o mais grave é que toda a força que usamos na pregação procede da vida de nossa alma. Usamos nossa força natural, e isto diminui sobremaneira nossos frutos. Quando servimos, não sabemos como usufruir do poder da vida do espírito; de fato, muitas vezes confundimos a vida da alma com a vida do espírito. E desta forma encontramo-nos depen­dendo de nossa força natural. Só depois de termos esgotado a força natural de nossos cor­pos começamos a confiar no poder da vida do espírito. E triste, mas muitos nem mesmo che­gam a este estágio de compreensão, pois quando sua força do corpo é exaurida, incorretamente concluem que não mais podem trabalhar para Deus. Felizmente, entretanto, alguns são mais adiantados na vida espiritual: quando fracos, aprendem a confiar no poder do Senhor a fim de continuar. Entretanto, se desde o começo real­mente soubéssemos como morrer para nossa força natural (da alma) e depender inteiramente do poder da vida do espírito que Deus colocou em nós, jamais operaríamos no poder da vida da alma, quer tivéssemos ou não o vigor natural.

Causa-me grande dor compreender quanto das obras dos crentes — não importa quão zelosas e sinceras sejam suas obras — são realizadas no reino da alma em vez de esses crentes irem ao reino do espírito a fim de realizá-las. E difícil diferenciar o poder do espírito do poder da alma. Somente o podemos compreen­der com o coração, porém quando somos instruí­dos pelo Espírito Santo compreenderemos isto mais claramente por meio da experiência.

Para ajudar alguns dos mais fracos filhos de Deus, tentaremos explanar melhor este proble­ma; entretanto, para verdadeiramente conhecê-lo na experiência devemos pedir que o Espírito de Deus o revele a nós. As características da obra da alma podem ser classificadas de três maneiras; primeiro, talento natural, segundo, emoção; terceiro, mente.

Talento natural

Já discorremos um pouco sobre este assunto. Alguns possuem dons naturais mais elevados do que outros; simplesmente são mais naturalmen­te alertas. Alguns são muito eloquentes, e po­dem apresentar seus argumentos de modo convincente. Outros possuem a habilidade da análise/ capacidade de dissecar o problema e colocar tudo em boa ordem. Outros são fisica­mente fortes: podem trabalhar o dia inteiro sem parar. E ainda outros são altamente capazes de gerenciar negócios. Ora, prontamente com­preendemos que Deus usa os talentos naturais do homem; mas ao ser usado por Deus, o homem tem a tendência de confiar em seus talentos.

Por exemplo, um crente pode ter dificuldade com as palavras, mas ser bom gerente, enquanto outro crente pode ser eloquente, mas não ter tino comercial. Se o Senhor enviasse ambos a pregar a palavra de Deus, o primeiro, sem dúvida, oraria muito e dependeria muito do Senhor, pois conhece sua dificuldade. O segundo crente, embora também orasse e também dependesse do Senhor, sua dependência não seria tão total como a do primeiro, pois um crente como ele invariavelmente confiaria um pouco em sua eloquência. Ou se o Senhor pedisse que ambos fizessem algo, o primeiro crente não seria tão dependente do Senhor quanto o segundo. Nosso talento natural é o poder de nossa vida da alma. Pouco percebemos o quanto confiamos e o quanto dependemos do poder da alma para nossas obras no serviço do Senhor. Do ponto de vista de Deus, muitas são as obras realizadas no poder da alma!

Emoção

As emoções podem proceder de dentro de nós mesmos ou podem ser causadas por outras pessoas. Às vezes, devido ao fato de que aqueles a quem amamos não são salvos ou então não chegam ao lugar que antecipávamos para eles, somos levados a exercer nosso esforço máximo a fim de salvá-los ou edificá-los. Esse tipo de trabalho geralmente é infrutífero, entretanto, por ser motivado por nossa afeição natural. Outras vezes podemos receber graça especial de Deus. Como resultado, nosso coração fica tão cheio de luz e alegria que sentimos como se um fogo nos queimasse por dentro dando-nos ale­gria indizível. É nesse momento que a presença de Deus mais se manifesta; nossa alma fica tão excitada que desperta dentro de nós muitas emoções. E extremamente fácil trabalhar para o Senhor em tal atmosfera. Nosso coração trans­borda; e mal podemos conter a vontade de falar aos outros das coisas do Senhor. Em situações normais podemos saber que não devemos falar demais, mas por termos recebido luz especial agora falamos incessantemente acerca das coisas de Deus. Reconheçamos que este tipo de traba­lho procede principalmente de nossas emoções. Só quando nosso coração está cheio deste “fogo” e nos sentimos como se tivéssemos subido ao terceiro céu podemos trabalhar. Mas se o Senhor não nos der tal alegria, imediatamente nos tornamos pessoas que parecem levar um fardo insuportável e que não podem dar nenhum passo. Então o estado de nosso coração é frio como gelo, não temos um estímulo emocional, e não podemos pregar o evangelho. Nesse mo­mento nossa vida interior parece tão árida que simplesmente não podemos trabalhar. Ainda que forçássemos a nós mesmos a operar, tal trabalho seria feito com desânimo.

Percebemos, pois, que o trabalho para Deus é quase que inteiramente controlado por nosso sentimento. Quando o sentimento de calor, como descrito antes, invade-nos podemos voar tão alto como a águia; quando há ausência desse sentimento, mal podemos nos arrastar. E uma vez que o sentimento, excitação e afeição perten­cem à parte emocional de nosso ser, todos os santos que são governados por estes impulsos interiores operam pelo poder da vida da alma. Ainda têm de entregar estas coisas à morte e operar no espírito.

Mente

Nossa obra para o Senhor frequentemente é afetada ou governada por nossa mente. Às vezes, não sabendo como procurar a vontade de Deus, tomamos nosso pensamento como sua vontade, e assim nos desviamos. Determinar nossa caminhada obedecendo à mente é muito perigoso.

Se ao preparar-nos para falar quebra­mos a cabeça a fim de desenvolver muitos pontos, fazer esboços e divisões, prever reações, apresentar princípios e parábolas, tal palestra acaba ficando sem vida. Embora possa despertar algum interesse no auditório, não poderá outor­gar vida às pessoas.

Há outra função da mente que, creio eu, muitos servos do Senhor têm usado erradamente — a memória. Quantas vezes na pregação usamos nosso poder de recordar! Decoramos o que ouvimos, e mais tarde pregamos, o que por esse meio, temos armazenado na mente. Às vezes entregamos às pessoas o ensinamento bíblico que decoramos; e outras vezes pregamos às pessoas usando nossas notas. Tudo isso é operação da mente. Entretanto, não sugiro aqui que nós mesmos não tenhamos experiência nenhuma do que pregamos. Talvez o que sabe­mos e decoramos sejam deveras as lições que Deus nos ensinou no passado, logo, as experi­mentamos de verdade. Não obstante, se as entregamos de memória ou somente por meio de notas, pertencem, inegavelmente, à obra da mente.

Por que digo isto? Porque logo após termos tido experiência de certa verdade, embora originariamente tivesse ela sido incorporada em nossa vida, somente o conhecimento dessa verda­de foi armazenado em nosso cérebro. E se, depois, usarmos o poder da memória a fim de recordar e pregar a verdade que experimenta­mos no passado, nossa obra permanece no reino da mente. Ora, uma vez que a mente e a memória pertencem à alma, nossa dependência delas significa que confiamos no poder da vida da alma. Ainda estamos sob o controle da vida natural.

As três características acima são as obras da alma mais proeminentes. Tais obras não são pecado, nem são totalmente ineficazes para salvar as pessoas; entretanto, os frutos que produzem são muito limitados. Devemos vencer estes tipos de obras da alma dependendo da cruz. O Senhor Jesus ensinou-nos que nossa vida natural, ou vida da alma devia, como o grão de trigo, cair no chão e morrer. Quando falamos segundo nossa experiência, é natural que demos grande valor a nosso talento, nos deleitemos em nosso sentimento e confiemos em nosso pensa­mento. Mas nosso Senhor nos disse que deve­mos odiar essa vida da alma; doutra forma, amando-a, perderemos o poder da vida sobrenatural do espírito que Deus nos concedeu. A morte da cruz deve operar profundamente nesta área de nossas naturezas. Devemos estar dispos­tos a entregar à cruz a vida da alma que tanto amamos, estar dispostos a morrer com Cristo nesta área, a fim de livrarmo-nos da dependên­cia do talento natural, do sentimento e do pensamento, de modo que possamos odiar este tipo de obra com todo o nosso coração. Enquan­to servimos ao Senhor, devemos considerar o talento, o sentimento e o pensamento como nada. Detestamos este tipo de poder da vida natural e estamos prontos a entregá-lo à morte de cruz.

Se, no lado negativo, sempre mantivermos a atitude de ódio para com a vida da alma, aprenderemos, experimentalmente, como depender do poder da vida do espírito e desta forma, produziremos frutos para a glória de Deus.

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

VOCÊ TEM CERTEZA DA SALVAÇÃO?

Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo os corações purificados de má consciência, e lavado o corpo com água pura (Hebreus 10:19-22).
Esta passagem bíblica diz-nos, primeiramente, o que o Senhor realizou por nós e a seguir o que devemos fazer. Visto que recebemos tanto devemos aproximar-nos de Deus com sincero coração, em plena certeza de fé.
Aqui está algo especial que requer nossa atenção. Devemos conhecer a diferença entre a antiga e a nova aliança. Na nova aliança os homens prosseguem, passo a passo, a partir da posição que já obtiveram, enquanto na antiga aliança devem avançar passo a passo até conseguir a posição correta. Em outras palavras, durante a época do Antigo Testamento os homens não tinham absolutamente nenhuma posição perante Deus. Eram semelhantes a alunos que fazem exame de admissão e não sabem se vão passar ou não. Os homens dos tempos antigos não tinham certeza alguma na presença de Deus e em sua tentativa de agradá-lo, eram constantemente provados. Tinham de exercer seu esforço máximo a fim de chegarem-se a Deus em adoração e culto, esperando com isso que algum dia pudessem afinal chegar à posição de vida eterna no futuro.
Mas na nova aliança verifica-se o inverso. E a pessoa que conhece esta mudança é, deveras, abençoada. A nova aliança é totalmente diferente da antiga pois sob a nova aos homens é dada uma posição, posição essa que nunca muda. De forma que todos os crentes hoje que estão sob a nova aliança têm garantida uma posição em Cristo. E com base nesta posição de vida eterna, já concedida, chegam-se a Deus com sincero coração, em plena certeza de fé.
Hoje, nós, os crentes em Cristo, devemos firmar-nos na posição que Deus nos concedeu. Depois que a pessoa é salva, o primeiro passo que deve dar é reconhecer qual é, de verdade, a posição que ocupa. A Palavra de Deus diz que todo o que está em Cristo já conseguiu esta posição. Em outras palavras, tendo-nos tornado filhos de Deus, agora chegamo-nos a ele. As obras que agora praticamos têm base na posição que primeiro recebemos. Não nos esforçamos para praticar o bem a fim de sermos salvos. Os que ainda abraçam tal conceito não conhecem a Deus nem compreendem sua Palavra.
Examinemos, pois, cuidadosamente a questão de se o crente pode ou não ter a certeza da vida eterna. Pode o cristão saber com certeza absoluta que é salvo? Com respeito a este assunto vital, porém, nada desejo dizer de mim mesmo, mas apenas permitir que o Livro Sagrado — a Bíblia — fale. Leiamos e examinemos juntos algumas passagens das Escrituras a fim de vermos se realmente podemos saber se temos a vida eterna.
“Estas cousas vos escrevi a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1 João 5:13). Apeguemo-nos ao que nos é dito aqui. Diz o versículo que a pessoa pode esperar? De maneira nenhuma. Pelo contrário, diz que a pessoa pode saber que tem a vida eterna. Para quem João escreve esta carta? Para os que creem em o nome do Filho de Deus. Quem é este Filho de Deus? É Cristo. Logo, João escreve para os que já creram em Jesus Cristo para que saibam que têm a vida eterna. Logo, a Bíblia afirma que podemos conhecer este assunto. Tudo o que João escreve tem o propósito de fazer com que os que creem em o nome do Filho de Deus saibam, com toda certeza, que têm a vida eterna.
“Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncia a remissão de pecados por intermédio deste; e por meio dele todo o que crê é justificado de todas as cousas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés” (Atos 13:38, 39). Como é que inicia esta passagem? Começa ela dizendo: “Esperai” ou “Possais crer?” Não, não diz nada disto. Antes, começa da seguinte maneira: “Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncia a remissão de pecados por intermédio deste.” Podemos saber que estamos perdoados dos pecados? Paulo, na passagem acima, declara, inequivocamente, que podemos saber e devemos ter o conhecimento de que estamos perdoados e justificados. Todos os que creem devem conhecer este fato e não precisar que ninguém mais lhes diga.
“Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2 Coríntios 5:1). Esta passagem é diferente da de Atos, citada acima, que traz uma palavra de ordem dizendo que a pessoa deve saber. Aqui, em vez disso, afirma-se claramente que já sabemos — isto é, sabemos sem necessidade de que ninguém mais no-lo diga. O que sabemos? Paulo diz que sabemos que se este tabernáculo terrestre (nosso corpo físico) se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus (nosso corpo de ressurreição). Paulo sabe, sem sombra de dúvida, que depois que nosso corpo terrestre morre, teremos um corpo eterno e ressurreto no céu. Em outras palavras, seremos salvos. Paulo, ao fazer a afirmativa acima, toma bastante cuidado para que ninguém o interprete mal pensando que ele, como apóstolo que sabe como servir, definitivamente haveria de ir para o céu depois da morte, mas que as pessoas como nós, que não somos zelosos nem amamos ao Senhor, provavelmente não receberiam um corpo ressurreto depois da morte e assim não seriam salvas. Mas Paulo toma todo o cuidado na maneira de expressar-se. Ele não diz: “Sei que, se a minha casa terrestre deste tabernáculo se desfizer”; antes, ele diz: “Sabemos” — não somente eu mas vocês também; isto é, todos os que creem no Senhor terão um edifício da parte de Deus, todos teremos uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus, depois que a casa terrestre deste nosso tabernáculo se desfizer. Logo, mostra-se aqui que todo o que crê pode ter a certeza da vida eterna e, portanto, é salvo.
Este pensamento continua nos versículos 6 e 8: “Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor… Entretanto estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor.” Paulo não tem dúvida alguma do lugar para onde vai ao deixar o corpo. Ele sabe que ele e todos os que crerem jamais irão para o lugar eternamente temido; antes, irás a estar com o Senhor para sempre. É por isso que ele podia ter bom ânimo e não temer a morte. Mostra também que no assunto da salvação, não precisamos esperar até o futuro para sabermos estas coisas. Podemos conhecê-las agora.
“E por isso estou sofrendo estas cousas, todavia não me envergonho; porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” (2 Timóteo 1:12). Por que Paulo diz isso? Que confiou ele ao Senhor no dia em que creu? Entregou seu futuro, a vida eterna e a salvação ao Senhor. Ele crê no Senhor e está certo de que o Senhor é poderoso para guardar o seu depósito até aquele dia. Ele sabe com toda certeza e compreende muito claramente que tudo o que entregou nas mãos do Senhor será guardado.
Estas poucas passagens bíblicas que examinamos testificam do fato de que podemos saber aqui na terra se temos ou não a vida eterna e se somos salvos ou não. Portanto, todo crente deve saber hoje se é salvo ou não. Logo não dê desculpas, dizendo: “Não sei se irei para o céu ou para o inferno depois de ser julgado por Deus no futuro.”
Com respeito à certeza da salvação, precisamos discutir algumas coisas mais. Como saber quem tem a vida eterna e é salvo? Precisamos saber como conseguir a vida eterna. Se conhecemos o caminho da justificação e do perdão dos pecados, poderemos determinar se já o palmilhamos. Se já andamos por este caminho, temos a vida eterna; se ainda não andamos, não temos a vida eterna. Examinemos, pois, o caminho da vida eterna.
Há, no Novo Testamento, pelo menos cerca de cento e cinquenta lugares onde os escritores declaram que a pessoa que crê tem a vida eterna, tem a vida, não é julgada, ou está salva. O que João 3:16, um dos versículos mais conhecidos, tem a dizer sobre isto? Diz-nos que Deus nos ama. Como nos ama ele? A quanto chega seu amor? Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, Jesus, que morreu pelos pecadores e realizou a obra da redenção. De modo que agora “todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
Este precioso versículo levanta três questões: um grande fato, uma grande condição e uma grande consequência. O grande fato é que Deus enviou Jesus como propiciação pelos pecados dos homens, como Salvador do mundo. A grande condição é o que todo homem deve fazer: crer. A grande consequência é, na verdade, tão boa que vai além do pensar humano: todo aquele que crê não perece, mas tem a vida eterna. Não há outro fato no mundo, maior ou mais real do que o que acabamos de mencionar. A grande condição ou exigência agora é posta perante todos os homens para que a cumpram — crer no fato do que Deus fez e realizou. Essa é a única condição. O grande fato é realizado por Deus mas a grande condição é cumprida pelos homens. E com a grande consequência de não perecer, mas ter a vida eterna, a pessoa entra na posse da salvação. Ora, já que o Senhor disse isto em sua Palavra, poderá alguém pensar que se uma pessoa crer, seja homem ou mulher, não obstante, há de perecer? Isso tornaria Deus injusto, o que ele não é. Ele é o Deus da justiça. Logo, a Palavra de Deus é certa: todo aquele que crê em Jesus não perecerá, mas tem a vida eterna.
Tendo crido no Senhor e depois dizer que não tem a vida eterna não é sinal de humildade e, sim, marca de descrença. Tal posição é duvidar da Palavra de Deus, de sua justiça e do seu caráter imutável. Todo aquele que está em Cristo tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. No dia em que crê, a pessoa nasce de novo para a nova vida. Este é o evangelho. Coloco este assunto na sua presença para que saiba que tem a vida eterna.
Examinemos também João 6:47: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê, tem a vida eterna.” Se todos os versículos das Escrituras desaparecessem e restasse somente este, seria o suficiente para resolver o problema da certeza da salvação. Fé não é expectativa. Não espera o futuro nem requer a realização de obra alguma, pois a Bíblia diz: “Quem crê, tem a vida eterna”, e a Palavra de Deus jamais muda.
Muitos que creem não ousam dizer que estão salvos por não compreenderem o fundamento de sua salvação. É certo que as pessoas sabem que as coisas más que praticaram antes de crerem no Senhor foram, de fato, lançadas sobre Jesus, mas incorretamente pensam que tudo de mal que fizerem daí em diante fará com que pereçam. Daí voltam à posição da antiga aliança.
A nova aliança, contudo, dá-nos primeiro uma posição. Por meio da fé recebemos a plenitude da nova vida e depois aproximamo-nos de Deus com sincero coração em plena certeza de fé. Os homens não vêm a Deus mediante boas obras; ao contrário, é-lhes dada uma posição antes que se aproximem de Deus. E esta posição jamais será perdida, nem na eternidade.
Hoje em dia as pessoas não têm a alegria da salvação porque confiam em suas boas ações para conservar a salvação que uma vez receberam. Mas a salvação não se ganha por uma vida de boas obras. Se perguntarmos a uma pessoa verdadeiramente salva, como foi que recebeu a salvação, sua resposta indubitavelmente será:
— É Jesus quem me salva porque não tenho absolutamente nenhum poder pelo qual salvar-me. Tudo me foi dado pelo Senhor.
Só os que assim agem podem regozijar-se sempre.
Sabemos que o ladrão que foi crucificado com o Senhor foi salvo naquele dia. Ao aceitar a Jesus, ele foi salvo instantaneamente na cruz. Sua salvação dependeu inteiramente da morte substitutiva de Jesus. Suponhamos que ele não tivesse morrido naquele dia mas vivesse mais cinquenta anos. E suponhamos que ele tivesse tido a oportunidade de praticar as boas obras como o fez o apóstolo Paulo, e permanecer firme como Pedro e manifestar tão grande amor como João. Em outras palavras, suponhamos que toda a força de Paulo, Pedro e João se concentrassem neste ladrão. Acha você que essas habilidades e boas obras tê-lo-iam ajudado a alcançar o Paraíso? Torná-lo-iam estes esforços mais digno de ser salvo? Não. Ainda que ele pudesse ter vivido e praticado o bem, salvo muitas pessoas como o fizeram os apóstolos mencionados, estas obras não lhe serviriam de base para salvação. Pois o único fundamento da salvação é o Senhor Jesus e não as obras do próprio ladrão. Por conseguinte, aquele que crê pode ousar dizer que é salvo. E daqui em diante pode viver uma vida santa e boa como o fez o seu Senhor porque está salvo.
Suponhamos que uma pessoa caia na água e os que estão na praia tentem salvá-la. Tirando-a da água aplicam-lhe respiração artificial, proveem-lhe roupas secas, acendem um fogo para ela se aquecer e dão-lhe alimento a fim de que viva. Se depois, alguém perguntar a essa pessoa: “Onde você está agora? Em terra?” e se essa pessoa responder: “Embora eu não esteja na água, contudo sinto-me como se ainda estivesse lá. Se disser, porém, que agora estou em terra, seria culpado de arrogância; portanto, posso somente esperar que esteja em terra”, você acha que tal pessoa realmente está sendo humilde? Permita-me dizer-lhe que isto não é humildade. Da mesma forma, se aquele que de fato creu em Jesus como Salvador não ousa confessar que está salvo, também não é sinal de humildade, mas de ingratidão para com a graça espantosa do Senhor. Além disso, é negar a grande obra da redenção de Deus. Tal atitude insinua que o Senhor é incapaz de salvar o crente por completo.
Permita-me observar que os crentes que tomam tal atitude nunca poderão louvar a Deus. De suas bocas não sairá o som de ação de graças, pois se os tais não sabem para onde se dirigem, não é de admirar que não possam louvar a Deus nem glorifica-lo. Quão triste é que o louvor dos lábios não se encontre nas vidas de muitos cristãos. Mas os que sabem que estão salvos louvarão continuamente a Deus e dar-lhe-ão graças. Quem poderá louvar a Deus no inferno? O inferno está cheio de ruído de maldição. Não há aí palavras de louvor. Se as pessoas não louvarem a Deus agora, quando é que o louvarão?
Estou bem cônscio de que algumas pessoas dizem ser perigoso ao que crê afirmar que tem a vida eterna, que é salvo e que não perecerá. Pois após ser salvo, alegam essas pessoas, ousará fazer tudo sem o espírito de temor e precaução.
Entretanto, os que expressam tal sentimento têm-se exposto como sendo miseravelmente ignorantes da salvação e da graça de Deus.
Saiba, com certeza e compreenda de uma vez por todas que a salvação segundo a Bíblia tem os seus lados subjetivo e objetivo. Cristo foi crucificado e Deus declara que os pecados de todos os que creem em Cristo foram levados por ele na cruz; portanto, seus pecados são completamente perdoados e não irão para o inferno mas são justificados e salvos. Este é o lado objetivo. Ao mesmo tempo, contudo, a salvação do Senhor tem sua obra subjetiva, a saber, crucificar para a morte nossa vida antiga que gosta de pecar e tem prazer na impureza. Além disso, Deus dá-nos sua vida — uma nova vida. E tal é a salvação no lado subjetivo.
O Senhor não somente nos dá a salvação objetiva, ele também nos regenera. Não é que nossos pecados sejam apenas perdoados, também nascemos de novo. Deus coloca em nós uma nova vida, um novo espírito. Todo crente tem o Espírito Santo habitando nele. Logo, sabe o que é certo e o que é errado. Sua vida é de bondade e alegria. Jamais a pessoa se sentirá incomodada por algo santo e bom depois que seus pecados são perdoados e receber a vida de Deus. Antes, não ousava pecar abertamente por medo de má reputação; agora não pratica o mal por saber que é pecado e impuro. Hoje ela despreza o pecado uma vez que o Espírito Santo agora habita nela e por isso não ousa pecar.
Se a pessoa professa crer no Senhor Jesus e continua a pecar sem nenhum sentimento de ódio contra o pecado, tal pessoa não nasceu de novo. E o que não nasceu de novo não tem a vida e, portanto, não é salvo. Sua fé não é real. Percebamos que a vida de Deus não nos permite pecar. Logo, todos os que creem -podem não pecar, embora nem todos os crentes sejam perfeitamente sem pecados. Portanto, apeguemo-nos a esta palavra: o crente não apenas recebeu a salvação objetiva de Deus; foi-lhe também garantida a salvação subjetiva.
Que viajante haveria de decorar seu quarto de hotel — que ocupa apenas por algum tempo — com perfeição de beleza e equilíbrio? Mas ele decoraria sua habitação -permanente com alto grau de beleza e conforto. Há tempos tive um colega de escola que nunca se vestia decentemente. Deixou o cabelo crescer, não lavava o rosto, seu corpo era imundo e não amarrava os sapatos. Seus colegas o criticavam, dizendo que ele não era humano. Até as pessoas da rua o desprezavam. Mas dois anos mais tarde, ao encontrá-lo certo dia na rua, notei que o seu rosto estava barbeado e o cabelo penteado e ele usava roupas decentes. Mal pude reconhecê-lo. Pensei comigo mesmo: “Será este o mesmo que foi meu colega de escola por sete anos?” E ao falar com ele, para surpresa minha, perguntou-me acerca da vida e costumes do Ocidente. Por que uma pessoa tão descuidada como ele agora desejava aprender a etiqueta do Ocidente? Não pude conter-me, de modo que fui perguntar ao seu tio. Descobri que o motivo de tal interesse era que logo ele estaria de partida para o exterior, temporariamente, a fim de estudar. Por isso começou a vestir-se bem e desejava aprender tudo sobre os costumes ocidentais.
Se a pessoa que vai para o exterior a fim de estudar por apenas dois ou três anos veste-se no estilo ocidental e aprende a falar a língua desse país, pergunta acerca da vida no Ocidente e dá atenção à etiqueta do país a que se dirige, quanto mais devíamos nós, os crentes — que no futuro habitaremos -permanentemente nosso lar brilhante, lindo e glorioso no céu — preparar-nos para aprender a respeito da vida e dos costumes celestiais?
Todo crente deve saber que é salvo e que em breve voltará para o lar celestial a fim de encontrar-se com o Pai Celeste. E se tal for verdade (e certamente é), então é concebível que o crente haveria de pensar que uma vez que não terá oportunidade de pecar no céu, poderia muito bem pecar mais e experimentar mais a amargura e a escravidão do pecado enquanto na terra? Não, jamais! Sabendo que vamos para o lar celestial a fim de habitar na linda cidade de Deus, nós, os salvos, procuraremos, pelo contrário, abandonar os prazeres do pecado e as coisas da carne e seus desejos de modo que não nos impeçam nem perturbem nosso progresso.
Que todos nós saibamos que somos salvos e que temos a vida eterna de Deus. E manifestemos a vida de Deus em nós e para fora de nós como prova de nossa salvação. Com nossa vida devemos testificar perante os homens e ser usados por Deus para salvar a muitos.