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SOBRE MULHERES E PORCOS

Na contramão da campanha das americanas que estimula mulheres a denunciarem casos de assédio sexual, francesas assinam manifesto que minimiza a luta das vítimas pelo fim da violência machista.

Sobre mulheres e porcos

De um lado, Oprah Winfrey, apresentadora de televisão, americana, negra. A mulher mais rica dos Estados Unidos. Ao ganhar o prêmio Cecil B. De Mille, concedido ás mais importantes figuras da indústria do audiovisual dos Estados Unidos, durante o Globo de Ouro, fez um discurso firme e inflamado pelos direitos das mulheres. “O que eu sei, com certeza, é que falar sua verdade é a ferramenta mais poderosa que todos nós temos. E eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e compartilhar suas histórias pessoais.” Oprah fala das mulheres do movimento Times Up, um fundo que pretende ajudar vítimas de assédio sexual e violência machista. Do outro, Catherine Deneuve, atriz, encabeçando um manifesto de 100 mulheres francesas questionando o uso do termo assédio pelo movimento americano, minimizando as violências sofridas pelas várias vítimas que vieram à imprensa para dar relatos sobre abusos sofridos em postos de trabalho em Hollywood. “Defendemos uma liberdade [dos homens] de importunar”, diz, em certo trecho da carta. Diante da leviandade com que tratamos casos sérios das denúncias feitas, na tentativa de diminuir um movimento que ajuda várias pessoas e dá força para que outras não tenham medo de se esconder, apanhou. E perdeu feio.

São discursos diferentes que partem de realidades antagônicas. Se as artistas francesas nunca passaram por situações de assédio, não cabe a elas dizer a uma mulher se pode ou não sentir-se ofendida com uma investida de um homem mais poderoso que ela no ambiente de trabalho – basicamente o foco do movimento Time’s Up. “Quando as americanas denunciam situações graves, não é só importunação, é um episódio que leva à interdição do trabalho e das expressões pessoais”, afirma Leila Linhares Barsted, fundadora e coordenadora executiva da ONG CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação). Leila, que participou da elaboração do texto da Lei Maria da Penha, explica as diferenças nas realidades dos dois grupos que precisam ser levadas em consideração. “Aparentemente, as francesas estão em posições de maior poder e podem reagir de forma mais contundente. Mas isso não é uma realidade em países como os Estados Unidos ou o Brasil, onde mulheres que denunciam abusos são demitidas ou constrangidas”, diz. Para Juliana de Faria, fundadora da ONG Think Olga e criadora das campanhas “Chega de Fiu e “Meu Primeiro Assédio”, essas mulheres são influentes e querem manter o status quo do qual desfrutam. “Tudo bem ter um direcionamento pessoal, mas não é certo colocar como parâmetro para todas”, diz. “Elas estão romantizando um cenário que, para outras pessoas, é de violência”.

Para o psicólogo Carlos Eduardo Zuma, um dos fundadores do Instituto Noos, que atua na prevenção da violência de gênero, o lado bom desse manifesto é suscitar a discussão sobre o que é uma investida, uma paquera, e qual a diferença disso para o assédio. “Assediar é quando alguém usa do seu poder, seja financeiro, profissional, ou de qualquer outro tipo, para obter alguma satisfação sexual”, afirma.  Cabe à mulher dizer se o que acontece a ela é ofensivo ou não. Se uma funcionária convive com um chefe que toca seu joelho, tenta roubar beijos, fala de coisas intimas e envia mensagens com conotação sexual –  situações nas quais, para as francesas, não há nada de errado – e vê nisso um constrangimento, há assédio. “Não significa radicalizar nem entrar em um puritanismo, muito menos colocar a sexualidade como algo ruim”, afirma Zuma. “Tem a ver com como cada uma se sente em determinada situação.”

 “COISAS SANTAS”

No Brasil, o Código Penal não tipifica cantadas ou outras situações em que popularmente se usa o termo assédio. Há a importunação ofensiva ao pudor, que é uma contravenção penal, e o crime de estupro. Se usado o poder ou prestigio para essa aproximação, vira assédio sexual. De outra maneira, não, segundo a promotora de Justiça Gabriela Mansur, especialista em violência contra mulher. Talvez por isso, o uso do termo dê brecha para uma discussão como a que está acontecendo agora. De qualquer maneira, ainda que não esteja incluída em nossa legislação, há um consenso entre especialistas de que, se há constrangimento, os limites do que seria paquera ou brincadeira foram ultrapassados. Gabriela salienta ainda que, dentro do próprio feminismo, é saudável que existam opiniões diferentes. “O problema é quando, como no caso do manifesto das francesas, se critica uma luta legitima e que ajuda muitas pessoas, que levou muito tempo para se configurar e ter a visibilidade de hoje”, diz. “Esse tipo de posicionamento reforça a ideia de que mulheres competem e dá força aos homens para continuarem assediando sem se importarem com o bem-estar alheio.” As críticas à Deneuve e as outras signatárias da carta foram várias, mundo afora, inclusive na própria França. Entre as poucas vozes que as apoiaram está a do ex-ministro italiano Silvio Berlusconi, envolvido em uma série de escândalos sexuais na Itália e condenado por corrupção. Para ele, Deneuve, no manifesto, disse “coisas santas”.

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INSULINA CONTRA O ALZHEIMER

Remédios que equilibram a taxa do hormônio protegem o cérebro da degeneração causada pela doença.

Insulina contra o Alzheymer

Há cerca de 46 milhões de pessoas com Alzheimer. Em 2050, segundo a Organização Mundial de Saúde, serão 131 milhões. Caracterizada pela perda progressiva da memória, a doença representa uma bomba­ relógio contra a qual a medicina ainda não encontrou um método de desarme. Na semana passada, uma notícia vinda da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, trouxe otimismo em relação ao benefício de uma estratégia a princípio inusitada: o uso de um remédio contra a diabetes. O liraglutide, integrante de uma nova classe de antidiabéticos, protegeu o cérebro da degeneração típica da doença. “Finalmente encontramos algo que realmente funciona”, disse Christian Holscher, coordenador do trabalho. A pesquisa usou cobaias. Ao final, os animais tratados com o liraglutide apresentaram, por um lado, níveis elevados de substâncias protetoras dos neurônios.  Por outro, redução da inflamação e da quantidade das placas amiloides (acúmulo de proteínas sobre as células nervosas que contribui para sua morte).

O que mais entusiasma em relação ao achado de Christian é que ele confirma patologicamente evidências clínicas de eficácia obtidas anteriormente. Há em andamento pelo menos quatro estudos em humanos sobreo impacto de drogas da classe do liraglutide em pacientes com Alzheimer. Todos demonstram bons resultados. Faltava, no entanto, um exame detalhado em laboratório, das mudanças provocadas nos neurônios pelas drogas. A análise das células nervosas extraídas das cobaias possibilitou que os cientistas enxergassem as alterações com clareza.

Os benefícios se devem a uma razão. As drogas estabilizam a taxa de insulina, hormônio que abre a porta das células para a entrada da glicose presente no sangue – o açúcar é o combustível para que elas funcionem. Nos diabéticos, a insulina não é fabricada ou atua de maneira precária. No cérebro de pessoas com Alzheimer, mesmo os não diabéticos, ela também tem sua ação prejudicada. Para agravar o problema, além de ficarem sem glicose suficiente, os neurônios são privados de uma substância importante para seu crescimento. já que o hormônio também desempenha essa função. “Sem insulina, as células nervosas começam a falhar”, diz Holscher. “Ficam mais vulneráveis e cedo ou tarde morrerão.”

 DIABETES TIPO 3

A conexão entre o Alzheimer e a diabetes vem sendo estudada mais intensamente nos últimos anos, até pela urgência em entender melhor o que está por trás da doença neurodegenerativa.  A associação entre as duas enfermidades levou, inclusive, à nomeação de um terceiro tipo de diabetes, o 3. Até recentemente. falava-se no 1, autoimune (o sistema de defesa ataca as células produtoras do hormônio), e no 2, associado à obesidade. O que os cientistas chamam agora de tipo 3 está relacionado à degeneração cerebral. “Há muito a se saber sobre os mecanismos pelos quais a insulina participa da saúde dos neurônios”, disse Na Zhao, da Clínica Mayo (EUA), que estuda o tema. Semanas atrás, o cientista Andrew McGovem, da Universidade de Surrey, na Inglaterra, publicou artigo no qual alertava para a necessidade de aprofundar as investigações. “A diabete tipo 3 é mais comum do que pensávamos. Diagnosticá-la e tratá-la trará benefícios para o controle das doenças neurodegenerativas”, afirmou. O trabalho de seu colega inglês Holscher mostra que eles estão no caminho certo.

POR QUE A DROGA FUNCIONA

DIABETES

  • O liraglutide integra classe recente de remédios que mantém estável o nível de insulina
  • O hormônio é responsável por permitir a entrada, nas células. da glicose em circulação no sangue. Sem ela, as células não têm combustível para funcionar
  • Nos diabéticos. o hormônio ou não é produzido ou não atua da maneira adequada

 ALZHEIMER

  • Além de assegurar combustível aos neurônios, a insulina funciona como um fator de crescimento que mantêm as células nervosas saudáveis
  • Porém, sua atuação encontra­ se prejudicada no cérebro de pacientes com Alzheimer
  • Isso contribui para acelerar a morte neuronal
  • Ao estabilizar a taxa de insulina disponível, as medicações ajudam a proteger o cérebro dos efeitos da enfermidade

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O VALE DO SILÍCIO CHINÊS

A história de Shenzhen, a vila de pescadores que se transformou em uma metrópole de 12,5 milhões de habitantes, com PIB igual ao da Irlanda e que lidera a inovação no país asiático.

O vale do silício chinês

Há 20 anos, o jovem Hu Chao deixava seu vilarejo na provinda de Henan, no norte da China – como milhões ainda fazem – em busca de uma vida melhor no Sul, mais abastado. Mudou-se para Shenzhen, cidade portuária. Era a primeira Zona Econômica Especial (ZEE) do país. Hoje é um dos símbolos das reformas e da abertura econômica promovidas em 1978 pelo então presidente Deng Xiaoping. O aniversário de quatro décadas tem sido alardeado pelo governo chinês, que acaba de anunciar novas reformas rumo ao que o presidente Xi Jinping chamou de “nova era” do socialismo com características chinesas, pouco antes de inaugurar seu segundo mandato consecutivo e de receber o aval constitucional para ficar no comando da segunda maior economia do mundo pelo resto da vida. O fluxo de trabalhadores do Norte e do resto da China atrás de empregos em Shenzhen foi imenso nesses anos. A vila de pescadores, com cerca de 22 mil habitantes até 1970, viu sua população dar um salto para quase 2,5 milhões de pessoas quando Hu nela chegou. Hoje são 12,5 milhões – o equivalente à população do Grande Rio. O ritmo de crescimento da cidade, não apenas populacional, parece não ter limite. Shenzhen pisou no acelerador nos últimos anos e registrou uma das maiores taxas de crescimento da China: 8,8% no ano passado, quando seu Produto Interno Bruto (PIB) ultrapassou os US$ 338 bilhões, deixando para trás Cantão e Cingapura, vizinhos com quem compete – ao que tudo indica, será  maior do que Hong Kong até 20 25, Trata-se de mais ou menos o mesmo  tamanho da economia da Irlanda. que bateu os US$ 339 bilhões. Depois de décadas crescendo na casa dos dois dígitos, a China como um todo vem pisando no freio. A meta oficial está mantida em uma expansão de 6,5% ao ano – o novo normal, como vem insistindo o Partido Comunista, para evitar o nervosismo dos mercados. Estes, por sua vez, temem que o país já não tenha o mesmo fôlego de antes. A ideia é correr menos e garantir um crescimento mais sustentável. Um dos motivos para o ritmo mais acelerado de Shenzhen são os gastos com pesquisa e desenvolvimento, os mais elevados da China, que atingiram 4,3% de seu PIB somente no ano passado. Com o foco em inovação, a antiga vila – da qual existem poucos vestígios – se transformou em um hub tecnológico que ficou conhecido mundo afora como o Vale do Silício da China.

Hu ainda lembra quando o bairro de Huaqiangbei, onde está a famosa rua dos eletrônicos, tinha apenas uma fábrica, a Huaqian. Depois dela, vieram as outras que fizeram dali o maior fabricante de eletrônicos da Ásia. Pântanos e áreas rurais inteiras ganharam novas formas. Deram lugar a arranha-céus monumentais, muitos assinados por arquitetos de renome internacional e um punhado deles listado no ranking dos mais altos da China e do mundo. Hu, mais do que ninguém, acompanhou o fenômeno da construção d vi] nesse mercado que é hoje o que mais se valoriza no país. Foi esse o setor que abriu as portas da cidade para ele e permitiu que Hu tivesse um padrão de vida muito superior à média dos chineses. Sua história se mistura com a trajetória de Shenzhen. De família pobre, desembarcou ali para trabalhar como vendedor dos imóveis que saíam do papel rapidamente, a prova do enriquecimento da cidade que se tornou uma das joias do Vale do Rio da Pérola. Não havia corretores profissionais em Shenzhen quando chegou. Lembra que o metro quadrado no bairro de Nanshan, considerado nobre, custava 4 mil yuans (RS 2.200). Agora, sai a nada menos que 120 mil yuans (R$ 67.000), uma diferença de 2.900 %. Tanta gente fez fortuna com a especulação imobiliária que o governo local impôs barreiras para quem quiser comprar mais de um imóvel. Os preços são tão proibitivos, segundo Christopher Balding, professor da Escola de Negócios de Shenzhen da Universidade de Pequim, que quem tem dinheiro prefere comprar fora da cidade ou do pais.

Homem de visão. Hu soube ganhar dinheiro, mas não revela quanto lucrou. Apenas sorri e diz ter uma vida confortável, o que suas roupas de marca e seus músculos trabalhados em academia –    um hábito recente entre os chineses – parecem confirmar. Empresário, sócio de uma empresa de exportação, hoje entra e sai de Shenzhen quando quer. Viaja para o exterior sempre que dá vontade e quando o trabalho permite.

Como a maioria dos ”shenzhenianos”, Hu não é daqui. Essa é uma particularidade da cidade, uma das raríssimas da China que não usam as palavras ” local” ou ”forasteiro” (“bendiren” e “waidiren”, em chinês, respectivamente) “É uma cidade de migrantes, com gente de todas as partes da China. Por questões profissionais e pessoais, muitos vêm e vão. Muitos fazem fortuna aqui”, disse. Mas todos se sentem filhos de Shenzhen, sejam eles nascidos na China ou não. “Não há aquela competição que vemos pelo resto do país, em que alguém vai te dizer: ‘É muito bom, não é? Foi um local que fez’. Aqui, você se sente acolhido”, disse o empresário brasileiro Alessandro Nicolau, morador de Shenzhen há uma década. Muitas nacionalidades se misturam ao sotaque da cidade, que embora esteja na província de Guangdong, onde se fala o cantonês, usa mais o mandarim e o inglês como idioma franco. “Você vem para Shenzhen, você é de Shenzhen”, diz o cartaz logo no aeroporto.

A rua dos eletrônicos é um dos redutos dos rostos estrangeiros, uma longa avenida de pedestres cercada de prédios por onde clientes e engenheiros do mundo inteiro passam apressados, dividindo o espaço com os policiais que fazem a vigilância do local de bermudas, para enfrentar o clima quase tropical, montados em seus segways – veículo individual com uma pequena prancha para os pés e duas rodas paralelas. O entra e sai é contínuo. Centenas de pequenas lojas com tudo o que se pode imaginar, de led a pequenos aparelhos, e componentes eletrônicos, compartilham a área com estúdios e fábricas. A diversidade é tamanha que deu fama a Scotty, um americano que ficou conhecido por viajar até Shenzhen para provar que poderia montar seu próprio iPhone 6S com a ajuda dos vendedores de peças e com os engenheiros de plantão no mercado local. Ele conta a experiência em um vídeo em seu canal de Youtube. “Visitar Shenzhen, é como visitar o futuro”, disse. Sua história é vista com motivo de orgulho para os shenzhenianos. É esse espírito que faz da cidade uma Meca para aqueles que tem uma ideia na cabeça. Foi assim que se tomou também o berço chinês de um novo conceito de profissionais, originado nos Estados Unidos: os makers. Inicialmente eram apenas diletantes que faziam do ócio criativo a desculpa para criar. Mas se tornaram homens de negócios, categoria tão apreciada na China, que vê nesses inventores de engenhocas do século XXI o futuro.

“Isto aqui é o paraíso dos engenheiros. Temos capital, temos todos os equipamentos e o espaço para produzir”, afirmou Saw Yee Ping, jornalista de Hong Kong, que trabalha com a conexão entre makers, clientes e o mercado para a Hong Kong Innovation Services (HKIS), uma estação de makers que conta com o apoio integral do governo chinês. “Sou uma superconectora”, disse ela, pouco antes de exibir o imenso peixe-robô de design coreano, de utilidade duvidosa, que custa USS 80 mil a unidade.

Do outro lado da rua, os concorrentes da empresa Trouble Makers criaram outro espaço criativo para quem desembarca em Shenzhen atrás de um sonho. “Tudo é possível”, disse Henk Werner, o dono do lugar. Jovens chineses e de outros países se instalam ali pelo tempo que for necessário. Não tem dinheiro? Sem problemas, porque não é necessário pagar aluguel nem luz para montar seu estúdio. Há apenas o compromisso de que, se o protótipo for para a fábrica e encontrar o cliente, o dono da ideia paga 15% de seus ganhos para a Trouble Makers. Henk disse que precisa que 20 startups funcionem ali por três meses para que seu negócio gire. O americano David Henning saiu de Atlanta, sua cidade natal, quatro anos atrás. Trabalhava com Hot Rods, carros antigos ‘turbinados”. Foi parar na China por gostar de viajar. Ia passar três semanas. Acabou pedindo demissão do emprego e hoje é sócio do ex-chefe, que continua nos Estados Unidos. Ele não é engenheiro de formação, mas usa sua capacidade de desenvolver os motores e alterações nos automóveis para criar outras coisas na Trouble Makers. Tem 11 projetos em andamento, entre eles uma churrasqueira a carvão controlada pelo telefone celular – acessório mais útil aos americanos que preparam churrasco com cozimento de até dez horas, do que aos brasileiros. Por meio dos makers, o governo de Xi Jinping pretende dar o grande salto tecnológico da “nova era”. Seu habitat são essas estações de makers, às vezes andares inteiros de um prédio, subdividas em pequenas salas, com uma área comum descontraída e com cantinas, cafés, varandas, mesas de sinuca e pingue­ pongue, onde essas cabeças que não param de criar se encontram para trocar experiências e fazer seu “guanxi” (ou rede de contatos, uma das primeiras palavras que quem quer entrar no mundo dos negócios chinês deve aprender. Muitas delas contam com algum tipo de subsídio do Estado. E esses endereços são muito valorizados hoje”, destacou Hu.

A cidade está na rota dos farejadores de novidades de sites de compras como a americana Amazon ou a chinesa Taobao. Os olheiros dessas companhias vão atrás de gadget. ou boas ideias com potencial para incrementar suas vendas on-line. Encontram fabricantes, pedem uma “adaptação” aqui ou ali para agradar aos clientes e até se oferecem para fazer embalagens mais apropriadas ou atraentes. É exatamente isso o que querem os makers: que seus produtos sejam descobertos. Muita gente vive de fazer essa ponte entre eles e o mundo exterior.

Isso porque nem tudo o que é feito ali oferece a desejada qualidade internacional. Há muitos produtos falsificados, os chamados copycat. Empresas de dentro e fora da China recorrem à variedade dos componentes disponíveis em Shenzhen e à mão de obra especializada para montar telefones, caixas e outros produtos exatamente como os de marcas conhecidas, porém bem mais baratos. Há até eufemismos usados por quem é da área para evitar a palavra ”cópia”. São os acréscimos mínimos” ou os “produtos ligeiramente mais evoluídos.

Isso explica por que empresas grandes ou pequenas guardam a sete chaves os segredos de seus negócios. Nas graúdas, os funcionários não podem frequentar as fábricas com seus telefones ou suas câmeras. Shenzhen é o quartel-general de algumas das principais empresas de tecnologia da China, como a BYD, a maior fabricantes de baterias recarregáveis do mundo, que lançou um carro elétrico hibrido em 2011; ou a Huawei, uma das maiores fabricantes de equipamentos de comunicação; e a Tencent, a gigante da internet, que produz games, aplicativos on-line e software, além de ser dona do WeChat (um cruzamento de  WhatsApp e Facebook anabolizado), que tem nada menos que 900 milhões de usuários ativos. Também estão baseadas em Shenzhen a ZTE, a gigante das comunicações, e a DJI, maior fabricante global de drones civis.

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MITOS DA COMIDA CONGELADA

Só porque está congelado não quer dizer que não seja saudável – ou gostoso. Siga estas dicas e bom apetite!

Mitos da comida congelada

MITO Nº 1 – Frutas e legumes congelados não são tão saudáveis quanto os frescos.

Essas frutas e legumes costumam ser colhidos bem maduros e depois, em seis a dez horas, rapidamente congelados, diz a nutricionista Jenna Braddock, especializada em esportes. “O congelamento conserva o valor nutritivo”, diz ela.

MITO Nº 2 –  É seguro degelar na bancada da pia.

Esse provavelmente é o maior responsável pelo degelo inseguro, diz a nutricionista Caroline Passerrello, porta-voz da Academia de Nutrição e Dietética dos EUA. Degele os alimentos dentro da geladeira, onde estará a salvo da “zona perigosa” – entre 5º C e 60 º C – da temperatura em que as bactérias prosperam. É claro que degelar dentro da geladeira leva mais tempo; portanto, planeje-se.

MITO Nº 3 –  Comida congelada é rica em sódio.

Muitos fabricantes estão atentos à preocupação dos consumidores com a saúde e vêm reduzindo o teor de sal. Examine o rótulo; talvez você se surpreenda ao ver como a quantidade é pequena.

 MITO Nº 4 – Jogar água quente sobre a comida é seguro para degelar.

Não; isso pode fazer mal à saúde. “Partes de seu item podem ficar congeladas enquanto outras estão quentes e até começaram a cozinhar”, diz Jenna. Além de ficar malcozido, parte do alimento pode entrar na zona de temperatura perigosa. Se não puder esperar o degelo na geladeira, o Ministério da Agricultura recomenda pôr o alimento congelado numa vasilha com água fria e trocar a água de meia em meia hora.

MITO Nº 5 – Recongelar não é seguro.

Se descongelou dentro da geladeira, você pode pôr o alimento de volta no congelador, diz Caroline. Mas atenção: a qualidade pode se degradar depois do segundo congelamento.

MITO Nº 6 – Depois da data de vencimento do alimento, você não deve congelá-lo.

Os supermercados usam as datas de validade para manter o giro do estoque; elas também indicam a duração da melhor qualidade do produto, mas não são um guia de segurança, de acordo com o Ministério da Agricultura. Pôr a comida no congelador nessa data não deve ter nenhuma consequência ruim para a saúde, diz Jenna.

 MITO Nº 7 –  A comida deve ir na mesma hora para o congelador.

Só porque aqueles peitos de frango foram embalados no supermercado não quer dizer que estejam prontos para o congelador. As embalagens comuns de carne permitem a entrada de ar e, com ele, de bactérias que baixam a qualidade da carne, diz Caroline. Reembale o alimento em papel próprio para o congelador e tire o máximo possível de ar antes de congelar. Quanto aos legumes frescos, escalde-os antes de congelar.

A água fervente impede a ação enzimática que tiraria o sabor e a textura de seus legumes, segundo Caroline.

MITO Nº 8 – Comida congelada expira.

O site foodsafety.gov publica diretrizes sobre o tempo em que um item pode ficar no congelador – por exemplo, 2 a 6 meses para sobras de carne cozida -, mas essa é uma questão de qualidade, não de segurança. “A comida congelada permanece segura algum tempo depois do prazo de validade”, diz Caroline.

MITO Nº 9 – Não se pode congelar tudo.

Em termos de segurança, não há nada que não se possa congelar; a questão é apenas a qualidade. A textura de alguns alimentos, como leite e queijo, pode mudar depois do congelamento, mas seu consumo ainda será perfeitamente seguro.

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MULHERES EM RISCO

Pela primeira vez no Brasil o total de óbitos femininos por causa de AVC se equipara ao de homens. E elas têm três vezes mais chance de morrer de um novo infarto.

Mulheres em risco

A exposição mais intensa aos principais fatores de risco para infarto e acidente vascular cerebral e a negligência no cuidado médico estão tornando as mulheres cada vez mais vulneráveis às principais doenças cardiovasculares. Segundo a Sociedade Brasileira de cardiologia, no ano passado, pela primeira vez, o número de mulheres que morreram de AVC equiparou-se ao de homens, alcançando a marca de 50 mil óbitos. E o total das mortes por infarto entre elas já superou os 45 mil por ano.

É um fenômeno mundial. Na semana passada, um estudo da Universidade de Leeds, no Reino Unido, em parceria com o instituto Karolinska, na Suécia, mostrou que a população feminina tem três vezes mais chance de morrer de ataque cardíaco depois de já ter sofrido um. Evidências anteriores demonstram que elas recebem tratamento preventivo inadequado mesmo quando exibem o perfil de um indivíduo de risco (hipertensivo e diabético, por exemplo), e, no momento do ataque, têm os sintomas negligenciados. Sinais da iminência de um evento cardiovascular, como pressão arterial elevada, ainda são confundidos, em mulheres, com crises de ansiedade ou de estresse. Por elas, por quem está do lado e pelos profissionais de saúde.

Mulheres em risco2

CAMPANHAS DE INFORMAÇÃO

No Rio de Janeiro, a engenheira Camila Epprecht, 33 anos, sofreu um AVC há três anos e enfrentou uma incredulidade em relação a seu quadro. “Ninguém acreditava como uma mulher tão nova tinha tido um problema desse”, conta. Na época, Camila estava sob forte estresse (fator de risco) por conta da conclusão de um trabalho acadêmico. Depois de um ano em recuperação, ela voltou ao trabalho. Em São Paulo, a comerciante Roseli De Caprio, 56 anos, demorou a reconhecer os sintomas de que estava sofrendo um infarto, em setembro de 2017. Só depois de quatro horas de dor, inclusive no peito, procurou ajuda. “Não imaginava que pudesse ser o coração”, diz. Roseli foi tabagista (outro fator de risco importante) até o episódio. Na opinião do médico Roberto Kalil Filho, presidente do Instituto do Coração (SP), faltam campanhas de conscientização dirigidas aos médicos e à população em geral. “Temos que falar da importância dos exames do coração também para as mulheres”, diz. “É fundamental ressaltar a eficácia do tratamento preventivo e do prognóstico.”

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ESCRAVOS DO SÉCULO XXI

Calcula-se que mais de 160.000 brasileiros trabalhem em condições deploráveis – e o Brasil, que já foi exemplo mundial de combate a essa chaga, está ficando cada vez pior em razão da escassez de verbas para as equipes de fiscalização.

Escravos do Século XXI

Escravos do Século XXI.1

Os 48 retratos desta reportagem formam uma galeria que o país não gosta de ver. São vários Antônios, vários Franciscos, vários Josés e uma Vicentina, que dão carne e osso a um grande drama brasileiro: o trabalho em condições análogas às de escravidão. Sim, todas essas pessoas foram escravizadas – em pleno século XXI. Enredadas em dívidas impagáveis, manipuladas pelos patrões e submetidas a situações deploráveis no trabalho, elas chegaram a beber a mesma água que os porcos e algumas sofreram a humilhação máxima de ser espancadas, para não falar de constantes ameaças de morte. Quando os livros escolares informam que a escravidão foi abolida no Brasil em 13 de maio de 1888, háexatos130 anos, fica faltando dizer que se encerrou a escravidão negra – e que, ainda hoje, a escravidão persiste, só que agora é multiétnica.

Estima-se que atualmente 160.000 brasileiros trabalhem e vivam no país em condições semelhantes às de escravidão – ou seja, estão submetidos a trabalho forçado, servidão por meio de dívidas, jornadas exaustivas e circunstâncias degradantes (em relação a moradia e alimentação, por exemplo). Comparada aos milhões de africanos trazidos para o país para trabalhar como escravos, a cifra atual poderia indicar alguma melhora, mas abrigar 160.000 pessoas escravizadas é um escândalo humano de proporções épicas. Em 1995, o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu oficialmente a continuidade daquele crime inclassificável – e criou uma comissão destinada a fiscalizar o trabalho escravo. O pior é que, em vez de melhorar, a situação está ficando mais grave.

O país caminhava razoavelmente bem no combate à prática escabrosa até 2013, quando o número de ações de fiscalização começou a cair drasticamente. Naquele ano houve verba para 185 autuações contra o trabalho escravo. Em 2014, registrou-se queda de14%, com 160. Em 2015, foram 155. Um ano depois, 106. No ano passado, realizaram-se somente 88 fiscalizações, e todas de menor porte em relação às executadas anteriormente. Em 2017, 341 trabalhadores foram resgatados. A queda no número de autuações seria uma notícia alvissareira se não representasse, na verdade, o contrário do que se imagina: não é a escravidão que está retrocedendo, é o dinheiro para fiscalizá-la que está minguando.

Em agosto do ano passado, o Ministério Público do Trabalho entrou com uma ação civil pública contra a União para garantir verba mínima até o fim de 2017, diante da ameaça de paralisação total das atividades. O chefe da Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae), André Roston, afirmou que o departamento tinha então menos de 7000 reais em caixa. O valor médio de uma única ação gira em torno de 60 000 reais. Em outubro, Roston foi exonerado, porque incomodava. Entre ex-colegas, circula a versão de que Roston era “dedicado demais” à defesa do conceito de escravidão e permanentemente atento aos abusos. Para funcionários do Detrae ouvidos, a falta de verbas é resultado de uma dupla razão. O combate à escravidão não rende votos em eleições. E a bancada governista nunca escondeu seus laços com ruralistas, parte dos quais se habituou a usar mão de obra em situação deplorável.

É o caso de Sebastião Cunha, de 48 anos, e seu filho Geovane, de 25. Eles vivem em Monção, município de 30 000 habitantes, a 300 quilômetros de São Luís, capital do Maranhão. Começaram a trabalhar na roça da família aos 9 anos, idade na qual os meninos da região costumam cair na labuta. Nela permaneceram até o fim da adolescência, quando saíram em busca de emprego fora de casa. A partir daí, ao trocarem o serviço doméstico pelo mercado, viram-se obrigados a se sujeitar ao regime escravocrata. “Pela falta de oportunidades, sempre aceitei qualquer coisa que apareceu na terra dos outros”, conta o pai.

Até 2007, Sebastião Cunha não tinha noção deque trabalhava em condições ilegais. Foi então que os fiscais o encontraram, pela primeira vez, submetido a um regime análogo ao de escravidão. Estava magérrimo, passava fome, tinha febre. Em duas outras oportunidades ele seria flagrado nessa situação desumana. Ele não é exceção: a reincidência atinge algo em torno de 60% das vítimas da escravização. Mesmo nos dias atuais, com plena ciência do contexto geral do problema, Sebastião Cunha admite que voltaria a se entregar àquela situação degradante, pois se julga como que acorrentado a um destino cruel e incontornável. “Todos os dias, pela manhã, bem cedo, minha filha de 6 anos me acorda e me pede pão”, relatou ele. “Como é que vou dizer a ela que não tenho dinheiro para comprar pão? Então tenho de aceitar qualquer coisa, mesmo que caia novamente na escravidão, para poder garantir o pão da minha filha, para garantir o pão na nossa mesa”, diz. Em Monção, mais da metade da população vive na linha de pobreza (renda inferior a 140 reais por mês), 31% estão em condições consideradas pela ONU como de extrema miséria e 64% não têm ocupação formal.

No Maranhão e no Piauí, meia centena de indivíduos que, como os Cunha, foram retirados pela Justiça de trabalhos degradantes. Setenta e cinco por cento dos trabalhadores em regime semelhante ao de escravidão atuam no setor agropecuário, mas a reportagem flagrou também escravizados urbanos, no coração de São Paulo. Vítimas de um mesmo e terrível crime, no campo e na cidade, os personagens que aparecem neste texto compõem um retrato intolerável.

A arregimentação de trabalhadores escravos segue idêntica à que existia em 1995, quando o governo FHC iniciou o ataque a essa prática. Um recrutador, chamado de “gato”, chega à região­ alvo com a promessa de uma boa oportunidade de emprego. Normalmente, o patrão paga os custos da viagem até o local de trabalho, e esse valor acaba por se tornar a primeira de muitas dívidas que o empregado acumulará. Quando ele chega à fazenda onde vai trabalhar, a comida e as ferramentas também passam a ser cobradas – e o desconto é feito do salário. Em pouco tempo, ele deve mais do que recebe, num processo que o põe inteiramente nas mãos do patrão.

A rotina típica desses trabalhadores é, por si só, abominável. Eles saem para a labuta, nas primeiras luzes do dia, com apenas um café puro no estômago. No almoço, perto do meio-dia, comem arroz, feijão, farinha e alguma proteína, em quantidade mínima. No fim da jornada, vão dormir em um barracão coberto somente por uma lona. Não há camas; só redes, no meio das quais é comum ver suínos passeando. Muitas vezes, a única água disponível é a de córregos – em que os animais se lançam para matar a sede e quase sempre urinam e defecam. Se a imagem que veio à sua mente foi a de uma senzala, saiba que não há exagero – as senzalas, em algumas casas-grandes, eram um pouco melhores. Ainda assim, uma fazenda do Maranhão denunciada em 2017 por manter uma “senzala contemporânea” conseguiu se ver livre das punições porque as autoridades não chegaram a tempo de fazer o flagrante – reflexo da dificuldade de deslocamento dos fiscais.

A evidência de que o Brasil retrocedia para valer na questão da escravização veio à tona em 16 de outubro do ano passado, quando foi publicada no Diário Oficial da União a portaria de número 1129, que alterava o conceito de trabalho escravo e as regras para a inclusão de empresas que o adotavam em uma lista suja. O texto eliminava os termos “jornada exaustiva” e “condições degradantes” da caracterização da prática, limitando a escravidão à restrição da liberdade de ir e vir. A tal lista suja, a cargo do ministro do Trabalho, passaria a ser atualizada apenas duas vezes ao ano. Antes da portaria, ela era de responsabilidade da Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae), e a atualização podia ocorrer a qualquer momento. Em abril deste ano, a Detrae divulgou o mais recente cadastro dos empregadores já autuados no crime. Essa versão incluiu pastelarias, uma empresa que vendia batata frita no Rock in Rio e construtoras ligadas ao programa Minha Casa, Minha Vida. Com 37 novos empregadores, agora a lista tem 165 patrões responsáveis por manter 2.264 trabalhadores em condições análogas às de escravidão.

A medida de 16 de outubro de 2017 tinha o propósito de socorrer o presidente Temer, que tentava obter no Congresso votos para o arquivamento da segunda denúncia contra ele por obstrução da Justiça e organização criminosa. O assunto virou moeda de negociação com a bancada ruralista da Câmara, cujos integrantes representam proprietários rurais. A pressa em resolver sua emergência política levou o Executivo a atropelar projetos de lei estacionados no Congresso com o mesmo objetivo de mudar o conceito de trabalho escravo – um deles, o PLS 432/2013, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), ex-ministro do Planejamento de Temer. O alívio do governo durou pouco: em 24 de outubro, a ministra Rosa Weber, do STF, suspendeu a portaria casuística por considerar que ela vulnerabilizava “princípios basilares da Constituição”. A suspensão e as pressões que o governo teve de enfrentar acabariam levando-o a ceder – ele publicou em dezembro uma nova portaria, que recolocava as coisas nos devidos eixos.

“O Brasil era uma referência nessa área, e podemos continuar a ser”, disse a ex-secretária de Cidadania do Ministério dos Direitos Humanos Flávia Piovesan. Jurista e procuradora do Estado de São Paulo, ela foi escolhida para o cargo em maio de 2016. Ao assumir a pasta, tinha a intenção de convencer o chefe do Executivo a investir na área, incluindo nisso a fiscalização contra a propagação do trabalho escravo. Entretanto, no tempo que passou no posto, Flávia só viu acontecer o contrário. Em agosto passado, por exemplo, em uma reunião da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Com-atrae), representantes dos empregadores defendiam o afrouxamento da lei anti- escravização com a justificativa de que os fiscais seriam tendenciosos, puniriam os fazendeiros sem razão explícita e classificariam como “escravidão” o que na verdade não passava de trabalho duro. No entanto, os porta-vozes da Confederação Nacional da Indústria e da Confederação da Agricultura e Pecuária não souberam apontar um único caso que exemplificasse a suposta parcialidade dos agentes de fiscalização. Flávia Piovesan esteve presente no encontro, assim como a então ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois (PSDB-BA), que, meses mais tarde, deixou a pasta.

A ofensiva contra Luislinda ocorreu em novembro, depois que ela disse estar trabalhando como “uma escrava”, pois não podia receber um adicional de 30.471 reais sobre seu salário de 30.934 reais, uma vez que isso a faria ultrapassar o teto do funcionalismo público. Ao contrário da condição de Luíslinda Valois, os casos reais de escravidão no Brasil do século XXI são de pobreza extrema – o que só amplia a gravidade do problema.

Ao deixar o governo, Flávia Piovesan passou a integrar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Ao comentar a atual dificuldade de reprimir o trabalho escravo no Brasil, ela é taxativa: “Quando se fala de escravidão, não há espaço para juízo de ponderação. É indiscutível do que se trata e, mais ainda, que é preciso combatê-la”.

No início de 2000, uma dupla de trabalhadores brasileiros viveu uma dessas experiências que, tal como aponta Flávia Piovesan, não deixam espaço para juízo de ponderação. Tudo começou em março daquele ano, quando José Francisco Furtado de Souza, o Zé Pitanga, e um colega fugiram da Fazenda Brasil Verde, no Pará. Naquela época, o proprietário da terra era João Luis Quagliato Neto. Seu funcionário que atuava como “gato” prometera às suas vítimas uma função na qual pagaria 10 reais por linha de alqueire transformada em pasto. Para os trabalhadores rurais isso significa um bom dinheiro. Contudo, depois de deixarem as cidades de Barras e Porto (PI), onde viviam, já devendo os custos da viagem, Zé Pitanga e o amigo viram ser descontados do salário os valores das ferramentas que utilizavam e da comida que consumiam. Depois de um mês e meio desdobrando-se em péssimas condições, e ardendo em febre, Zé Pitanga, que tem um defeito na perna direita, disse aos chefes que não trabalharia doente. Foi surrado e ameaçado de morte. Diante disso, ele e o colega decidiram fugir. Andaram três dias até chegar à cidade mais próxima e denunciaram a fazenda às autoridades.

Desde 1988, bem antes, portanto, da fuga desses trabalhadores, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) fez várias denúncias contra a Brasil Verde, que culminaram em sucessivas fiscalizações em 1989, 1992 e 2000. Em razão da incompetência do Estado para prevenir a repetição do aliciamento, a CPT e o Centro pela Justiça e o Direito Internacional enviaram, em 1998, uma petição à Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão da OEA. Em 2016, dezesseis anos após o último resgate na Brasil Verde, o Estado foi condenado por negligência. A indenização a 128 trabalhadores ultrapassou o valor de 4 milhões de dólares. O Brasil, que foi o último país das Américas a abolir a escravidão negra, tornou­ se o primeiro a ser condenado pela OEA por trabalho escravo.

Para o antropólogo americano Kevin Bales, autor de cinco livros sobre a escravização contemporânea e cofundador da ONG Free the Slaves (Liberte os Escravos), o Brasil perdeu o rumo que já teve nessa frente. “Quando pessoas de outros países me perguntavam o que elas deveriam fazer para combater a escravidão, eu dizia para seguirem o exemplo do Brasil. O que o país fez nos anos de 1990 a 2000 foi espetacular”, avaliou ele. “As atuais barreiras políticas devem ser superadas para que o governo possa voltar a acertar nesse terreno.”

Segundo a ONU, em todo o mundo os lucros obtidos com os cerca de 30 milhões de trabalhadores escravos chegam a 150,2 bilhões de dólares ao ano. O dado chama atenção – afinal, no passado, a escravidão exigia alto investimento e tinha baixo retorno; hoje em dia, é o oposto. Com a evolução tecnológica, os custos operacionais ficaram mais baixos. Antigamente, o trabalho escravo oferecia algo entre 15% e 20% de retorno anual. Hoje, esse número fica dentro de uma margem que vai de 300% a 500%. Sob essa lógica perversa, a escravização vale a pena. Não é de estranhar, portanto, que a resistência a combatê-la seja tão grande. Mesmo que isso signifique ter no país milhares de biografias devolvidas a um passado vergonhoso.

Escravos do Século XXI.2.

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Chegou ao Brasil o hábito americano de consumir bebidas à base de cúrcuma. As propriedades da especiaria podem ser benéficas – mas estão longe de fazer milagres

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Vitaminas que prometem corpo esbelto e ânimo no cotidiano vêm e vão como ondas no mar. Se não existissem, seria preciso inventá-las. A estrela da hora são as bebidas à base de cúrcuma, vendidas nos Estados Unidos em quantidades garrafais. É o golden milk, ou leite dourado. Em doses pequenas ou maiores, misturado com leite, o preparo de cor alaranjada é consumido sobretudo por quem pratica esportes, está em busca de disposição, bem-estar e, é claro, emagrecimento. O modismo já começou a desembarcar no Brasil. Aqui é possível comprar a mistura pronta em lojas de produtos naturais. Os consumidores dizem que os efeitos do leite dourado podem ser reais. A atriz americana Gwyneth Paltrow, a socialite Kourtney Kardashian e a estilista Victoria Beckham, entre outras, publicaram recentemente nas redes sociais os benefícios experimentados e receitas com o ingrediente. Diz a nutricionista Patrícia Davidson Haiat, do Instituto Brasileiro de Nutrição Funcional: “A cúrcuma tem um potencial enorme para a saúde por ser uma das especiarias mais ricas em qualidades medicinais”.

Também conhecida como açafrão-da-terra, a cúrcuma é uma raiz cultivada desde a Antiguidade na Ásia. Ela é usada especialmente como tempero, dando um sabor picante e ao mesmo tempo adocicado aos alimentos. No leite, o sabor forte se dissipa. Os estudos de benefícios para a saúde ganharam velocidade na última década. Na maior base de dados científicos do mundo, o PubMed, há 4.438 pesquisas publicadas sobre a cúrcuma – o dobro em relação ao número de trabalhos sobre outros temperos. Seu poder está em sua substância mais abundante, a curcumina. Concentram-se nela pelo menos quatro propriedades essenciais para o funcionamento do organismo. Trata-se de um poderoso antioxidante, capaz de reduzir os danos causados pelos radicais livres – partículas que danificam a membrana celular, alteram o DNA e provocam a morte das células -, o que traria como consequência mais disposição. Ela é termogênica, característica que ajuda na aceleração do metabolismo – associada ao emagrecimento. É analgésica, contribuindo para o bem-estar.

E, por fim, é anti-inflamatória, com poder de impactar no tratamento de doenças.

A curcumina é um dos anti-inflamatórios mais potentes já estudados. Tem efeito comparável ao dos corticoides, uma classe de medicamentos com essa ação controlada e estabelecida. Essa sua propriedade foi alvo de um trabalho publicado em março deste ano no The American Journal of Geriatric Psychiatry, que mostrou o papel da especiaria no combate a uma das doenças de origem neurológica mais complexas e de difícil tratamento – o Alzheimer. Em pacientes com problemas de memória, o consumo de cúrcuma ao longo de dezoito meses reduziu os sintomas e diminuiu o nível de duas proteínas cerebrais associadas ao Alzheimer, a tau e a beta­ amiloide. Os resultados do estudo foram atingidos com o equivalente a uma colher de chá diária de cúrcuma. Para os efeitos procurados por pessoas saudáveis, essa porção também seria suficiente. A ingestão de uma quantidade maior, frise-se, não controlada por um médico, pode ser arriscada, provocando agressões ao estômago e alergias. A cúrcuma faz bem – mas está longe de ser milagrosa e, em dose exagerada, faz mal.