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O ESCÂNDALO ALÉM DO ESCÂNDALO

Um esquema de compra de vagas em universidades de elite nos Estados Unidos põe em evidência um problema ainda maior, lá como aqui: uma meritocracia falha, que favorece as classes mais ricas.

O escândalo além do escândalo

Se existe matéria na qual o Brasil se tornou autossuficiente é a produção de escândalos. Neste quesito, não houve nos últimos anos nem mesmo uma leve estiagem no país. Por que deveríamos, então, nós, que somos tão pródigos em surrupias e conchavos, prestar atenção no escândalo que eclodiu no dia 11 de março nos Estados Unidos, da compra de vagas em universidades de elite? O número de envolvidos – cerca de 50, até agora – é baixo, embora haja entre eles duas atrizes razoavelmente célebres e um punhado de respeitados empresários do ramo dos investimentos e do direito. O montante embolsado, cerca de 25 milhões de dólares entre 2011e o início deste ano, também não faz frente às falcatruas nacionais.

Mesmo assim, é um caso que não se pode subestimar. O que define um escândalo é o desvio de conduta em relação às convenções sociais; a indignação é o mecanismo pelo qual as convenções são reafirmadas. Algumas vezes, porém, a má conduta coloca a própria norma na berlinda. Isso é mais comum na área dos costumes – o biquíni, escandaloso nos anos 50, virou trivial, por vezes quase invisível; o divórcio, um pecado, tornou-se uma probabilidade. Em casos de roubo, o fenômeno é mais raro. Mas acontece. E este é um desses casos: a fraude chamou a atenção para os vícios do próprio sistema de admissão às universidades e para as falhas de um dos valores mais caros à sociedade ocidental: a meritocracia.

Em linhas gerais, o esquema funcionava assim: William Singer, dono de um colégio especializado em preparar alunos para ser admitidos em universidades de ponta, descobriu um método, digamos, mais eficiente de garantir o sucesso de seus clientes. Ou melhor, dois métodos. O primeiro consistia em burlar as provas de SAT e ACT, testes padronizados que as universidades usam como elemento de avaliação; um especialista fazia a prova pelo aluno ou alterava suas respostas depois que ele a entregava (para isso, alegava-se que o aluno estava impossibilitado de comparecer ao local da prova e tinha de fazê-la em um centro separado, onde Singer subornava os bedéis).

O segundo método era inventar um talento esportivo para que o jovem fosse admitido pela via olímpica, um dos atalhos para as melhores universidades. Nesse caso, era preciso subornar os técnicos responsáveis pelas seleções. Nas documentações, recorria-se à manipulação de imagens para submeter aos comitês de avaliação fotos dos candidatos em ação. Assim uma adolescente sem nenhuma intimidade com a bola foi recrutada por Yale como uma estrela do futebol e uma jovem que não remava entrou para a Universidade do Sul da Califórnia (USC) graças a suas fictícias habilidades no barco. Para apimentar o escândalo, algumas ironias: Singer recebia o dinheiro através de sua fundação de caridade, a Key Worldwide Foundation, cuja meta declarada era ajudar estudantes pobres. Ele confessou a culpa e, após o pagamento da fiança, vai esperar o julgamento em liberdade. Não foi o único envolvido que pregava a filantropia em público, a trapaça em conversas privadas. O executivo financeiro William McGlashan, um dos clientes da fraude, foi o criador de um fundo de investimento focado em empresas e causas éticas. Perdeu o cargo na firma de private equity TPG.

A atriz Lori Loughlin, famosa por ter participado da série Três É Demais (Full House, no original), também perdeu dois trabalhos por seu envolvimento no escândalo: foi tirada da continuação da série Full House, pela Netflix, e o canal Hallmark cortou-a de sua programação de shows e filmes. Sua filha, Olivia Jade, uma celebridade com seu canal do YouTube, chegou a dizer que não dava muita importância à faculdade, mas lucrou com a admissão na USC: recebeu dinheiro de empresas de decoração para dar dicas de como enfeitar um dormitório de universidade em seu videoblog. Com o escândalo, ela perdeu contratos de patrocínio com três companhias de beleza.

Segundo a acusação, os jovens eram inocentes. A maioria deles acreditava ter feito as provas normalmente. Mesmo assim, correm o risco de perder a vagas na universidade. Para os pais, há ameaça de prisão. Lori foi solta sob uma fiança de 1 milhão de dólares; McGlashan pagou 500.000 dólares. Outra atriz, Felicity Huffman, da série Desperate Housewives, pagou 250.000 dólares de fiança. Nove técnicos esportivos de universidades envolvidos foram demitidos.

Por mais chamativo que tenha sido o caso, porém, a reação mais notável entre especialistas e analistas é de crítica ao próprio sistema que foi burlado. O grande argumento dessas críticas foi amplamente explicitado por um ato falho do promotor Andrew Lelling ao anunciar as acusações, como notou Matt Levine, articulista financeiro da Bloomberg. Primeiro, Lelling disse: “Não pode haver um sistema de admissão em faculdades diferente para os ricos, e eu acrescento que também não haverá um sistema judicial diferente para eles”. Menos de um minuto depois, porém, ele afirmou: “Não estamos falando de doar um prédio à universidade de forma que ela fique mais propensa a aceitar seu filho ou filha. Estamos falando de trapaça e fraude”.

Quer dizer: não está certo uma pessoa rica comprar a entrada de seus filhos na universidade… A não ser que ela seja muuuito rica. Algo assim como Jared Kushner, genro e conselheiro do presidente americano, Donald Trump. Em 1998, seu pai, o empresário do ramo imobiliário Charles Kushner, prometeu doar 2,5 milhões de dólares à Universidade Harvard (a qual ele não havia cursado). Um ano depois, Jared foi admitido. Segundo Daniel Golden, que escreveu um livro sobre os mecanismos de admissão nas escolas de elite americanas, os professores de Jared ficaram surpresos, uma vez que suas notas e seu histórico acadêmico não pareciam indicar essa possibilidade.

Pode haver aí uma prática condenável, especialmente por aqueles que não gostam do governo Trump nem dos conselhos que Kushner fornece ao sogro. Mas nova ela não é. As universidades de elite dos Estados Unidos gostam de ser conhecidas como formadoras da elite intelectual, mas na realidade estão mais para agregadoras da elite econômica. Mais do que a educação, são as ligações sociais que elas fornecem, o networking, a base mais sólida para a futura criação de riqueza.

Essa mentalidade de clube dos privilegiados já foi bem mais explícita. Até algumas décadas atrás, as faculdades de elite recrutavam seus alunos pelo puro critério da riqueza e do “berço”. Com o tempo, porém, a sociedade mudou, e o mérito começou a contar. Vem daí a criação dos testes padronizados, com especial foco no raciocínio lógico.

A evolução seguinte foi a ênfase na diversidade e no empreendedorismo, com a percepção de que notas altas em testes padronizados não garantem o sucesso nos caminhos não padronizados da vida. O sistema de admissão atual mistura um tanto de ação afirmativa (o relativo favorecimento de representantes das minorias), um bocado de resultados acadêmicos, capacidade lógica (medidos pelo currículo escolar e pelas notas nos testes padronizados) mais uma série de variantes que compõem uma avaliação “holística” dos candidatos.

Em tese, isso levaria a uma distribuição mais justa das vagas. Na prática, não é bem assim. Ao longo do tempo, formou-se um mercado de escolas que preparam os filhos de famílias mais afluentes para os testes. Um bom tutor em Nova York cobra algo de 300 a 450 dólares por hora, o que pode atingir dezenas de milhares de dólares. A preparação, segundo algumas escolas, resulta em uma nota média 11% mais elevada no SAT ou no ACT. Isso não é tudo. A avaliação “holística” também incentiva um mercado de preparadores de currículos, gente que ensina o que escrever na carta de apresentação, como se mostrar uma pessoa auto motivada e empreendedora, socialmente responsável, culturalmente aberta, naturalmente líder, espiritualmente rica e intensamente curiosa. Esse serviço pode sair até mais caro do que o dos tutores.

Para completar o quadro, as escolas de elite mantêm uma lista secreta de candidatos que são parentes de grandes doadores, conforme revelou um processo contra Harvard movido no ano passado por uma associação de alunos de origem asiática que se sentem prejudicados pelos critérios subjetivos de admissão. Não é que as doações vultosas garantam as admissões, mas quem está na lista tem uma taxa de aceitação de 42%, quase dez vezes mais alta do que a chance geral. Não à toa. As universidades de elite têm custos altíssimos e suas fontes de renda (pequenas doações de ex-alunos e grandes verbas federais para pesquisa, por exemplo) declinaram ao longo dos anos. Para funcionar, dependem cada vez mais das grandes doações.

Isso explica por que em 38 universidades de ponta dos Estados Unidos há mais alunos provenientes das famílias do 1% mais rico do que dos 60% mais pobres, de acordo com uma análise feita pelo jornal The New York Times em 2017. Mesmo após décadas de políticas de ação afirmativa, há proporcionalmente menos alunos negros e hispânicos nas faculdades de elite do que 35 anos atrás.

Para ter condições de competir com as famílias mais abastadas, pais de classe média, sem condições de pagar tutores e escolas privadas, investem suas economias na compra de casas na vizinhança certa, onde seus filhos possam cursar escolas públicas mais gabaritadas e ter mais chance de ser admitidos em uma universidade de ponta.

A situação não é muito diferente no Brasil. Embora aqui não tenhamos a avaliação “holística”, uma porta para a subjetividade, a diferença de oportunidades durante todos os anos pré-universidade (boas escolas, contatos com gente bem-sucedida, professores particulares de atividades extracurriculares, além da ausência do estresse proveniente de situações de pobreza, da carência emocional à necessidade de trabalhar) faz com que 18% dos alunos da USP, universidade brasileira mais bem cotada em rankings internacionais, venham do 1% de famílias mais ricas, que ganham acima de 15 salários mínimos, de acordo com um estudo realizado em 2015. Nas carreiras de maior procura, o índice sobe bastante: 42% dos calouros de medicina, 37% dos de engenharia, 39% dos de direito pertencem à camada da população que ganha acima de 15 salários mínimos. O problema da meritocracia é saber como defini-la de forma que não se preste a justificar (e reforçar) privilégios. Não é que os processos de admissão não tenham avançado – a própria necessidade de criar um sistema de avaliações é sinal de como o mundo mudou, e ter uma pequena chance de ingressar nos clubes de elite é infinitamente melhor do que não ter chance nenhuma. Mas há um longo caminho a percorrer, e aqui talvez mais do que nos Estados Unidos. Essa fraude é um grito de alerta.

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BRASIL CAMINHA PARA SER UM DOS MAIORES EM ENERGIA LIMPA

Brasil caminha para ser um dos maiores em energia limpa

O Brasil entrou para o mapa global das energias renováveis. Segundo números divulgados pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), com base nos anos de 2017 e 2018, o País já faz parte para o clube das 10 maiores nações em termos de aumento de capacidade instalada. Já são mais de 2,5 GW em funcionamento, quase 2 GW em plantas de grande porte e 0,5 GW em placas distribuídas pelos telhados e estacionamentos do país. De acordo com projetos já contratados em leilões no mercado regulado de energia elétrica, pelo menos R$ 21,3 bilhões serão investidos pela iniciativa privada até 2022, o que adicionará mais 3,7 GW de potência instalada às usinas solares brasileiras. Um sinal de que o Brasil será possivelmente um dos maiores propulsores de energias limpas no mundo.

Brasil caminha para ser um dos maiores em energia limpa. 2

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NUNCA É TARDE

Estudo inédito mostra que começar a se exercitar entre 40 e 60 anos traz benefícios semelhantes aos obtidos por quem faz ginástica regular desde a adolescência.

Nunca é tarde

Se você ainda é jovem, tem menos de 40 anos e corre para a academia em busca de um futuro saudável, um conselho: calma, não se apresse tanto assim. Os benefícios para o organismo de quem começa a se exercitar na maturidade, a partir da quarta década de vida, são semelhantes aos alcançados por aqueles que malham desde o brotar das primeiras espinhas da puberdade. Conclusão: tanto faz praticar atividade física na juventude ou um pouco mais tarde, em especial para a proteção contra algumas das doenças mais letais do mundo moderno, como os problemas de coração e os cânceres. Essa é a surpreendente conclusão do mais completo estudo já conduzido sobre o impacto da ginástica ao longo dos anos, feito com base no depoimento de 315.050 americanos cuja vida foi acompanhada desde os anos 1990. O trabalho foi realizado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e publicado na revista IAMA Network Open. De acordo com o levantamento, homens e mulheres que começam a malhar regularmente entre 40 e 61 anos têm uma queda no risco de morte por doenças cardiovasculares de 43%, e de 16% no caso de tumores malignos. As taxas são semelhantes, quase idênticas, em relação àqueles que praticaram esporte desde os 15 anos (veja o quadro abaixo). “Os resultados são extraordinários porque comprovam que o corpo mais velho reage muito melhor do que se imaginava aos estímulos dos exercícios”, diz Bernardo Garicochea, oncologista do grupo Centro Paulista de Oncologia /Oncoclínicas, em São Paulo.

Os efeitos foram obtidos a partir de duas horas semanais de atividade moderada, o que corresponde a apenas cerca de vinte minutos diários de caminhada rápida, bicicleta, musculação e dança, por exemplo. Os especialistas ainda não identificaram com 100% de certeza os mecanismos que levaram aos resultados observados, mas há uma hipótese central: a capacidade de regeneração celular mesmo para quem já não é um brotinho. “O exercício regular agiria como deflagrador de uma espécie de stress benéfico para o metabolismo, estimulando a renovação e as defesas naturais do organismo”, diz o cardiologista Marcus Bolívar Malachias, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

Explica-se: o envelhecimento é determinado por uma intrincada cascata de acontecimentos que afetam diferentes estruturas do corpo, em rápida desaceleração. A pressão arterial, o colesterol e o acúmulo de gordura aumentam. As artérias perdem elasticidade e ficam mais suscetíveis a danos provocados pelo fluxo sanguíneo.

A capacidade de renovação das células diminui, o que exige dos músculos, incluindo o coração, e dos pulmões mais esforço para desempenhar suas funções. O sistema imunológico é afetado. A atividade física eliminaria, portanto, as estruturas celulares que reduzem a produção de energia com o envelhecimento – e estimularia o surgimento de novas cadeias restauradoras. Para Paulo Zogaib, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo, “o efeito só é mantido se a atividade for continuada”. Daí a importância da constância nos exercícios.

Não se trata de conferir a corpos quarentões o tônus da mocidade. A decadência muscular é inexorável: dos 50 aos 80 anos, perde-se, em média, 40% da massa muscular. O que se descobriu é a capacidade de proteção do organismo contra doenças, e não um elixir estético. Disse o pesquisador do NIH Pedro Saint-Maurice, autor do estudo: “A mensagem é que nunca é tarde para começar a se mexer, mas milagres não existem”.

Nunca é tarde. 2

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MIL E UMA UTILIDADES

Inaugurada na China, a era dos superaplicativos – assim chamados os apps que realizam uma vasta gama de funções – ganha força no mercado brasileiro.

Mil e uma utilidades

A popularização dos aplicativos para smartphones é um fenômeno relativamente recente. Nasceu com a App Store, lançada em 2008, com apenas 500 opções. Hoje, são mais de 6,3 milhões de aplicativos em todo o mundo, que funcionam em qualquer marca de celular. O crescimento assombroso do mercado criou um problema para os desenvolvedores de apps (termo em inglês que acabou adotado entre nós): o excesso de concorrência. Pesquisas mostram que as pessoas têm até 100 programas baixados em seus smartphones, mas raramente usam mais do que dez deles por dia. Uma solução encontrada na China – país muito acostumado a lidar com excessos de todo tipo – tem se espalhado pelo mundo: os superaplicativos. É como são chamados os aplicativos para celulares e tablets capazes de realizar várias funções, como, por exemplo, fazer compras, pedir pizza, agendar um táxi, transferir dinheiro, gerenciar uma conta digital – tudo na mesma plataforma. A disputa para ser o primeiro grande superapp brasileiro e, assim, criar no consumidor local o hábito de usar os seus serviços começou e já envolve empresas graúdas.

O mais novo competidor é a Dotz. Fundada, em 2000, pelos irmãos Roberto e Alexandre Chade como um programa de fidelidade voltado para a internet, ela não só se transformou na maior empresa do ramo no país como montou uma rede abrangente de parceiros com cerca de 300 varejistas no mundo físico e virtual. O DotzPay (nome ainda provisório) chegará ao público em maio para enfrentar concorrentes como o Mercado Pago, o superaplicativo do Mercado Livre (o maior site de compra e venda de produtos do país), e estrelas ascendentes como a colombiana Rappi.

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A inspiração de todos é o mercado chinês, no qual os superapps AliPay e WeChat já ultrapassaram a impressionante marca de 200 milhões de usuários diários. É como se a população brasileira inteira, hoje em 209 milhões de pessoas, entrasse no mesmo aplicativo todos os dias. O AliPay, que pertence ao grupo Alibaba, é a carteira digital mais utilizada do mundo. Ela oferece uma série de serviços financeiros, do pagamento de contas a transferências. O WeChat, por sua vez, pertence ao gigante de tecnologia Tencent e nasceu como uma plataforma de mensagens instantâneas, mas hoje permite os mais variados tipos de serviço – entre eles, reservas em restaurantes e salões de beleza, aluguel de bicicletas e, claro, pagamentos e transferências.

Toda essa atividade dentro do programa de uma só empresa gera uma avalanche de informações sobre os hábitos dos consumidores. Não demora para o usuário começar a receber propagandas e ofertas de serviço customizadas, que devem ser usadas e pagas dentro do próprio superapp. O AliPay e o WeChat tiraram proveito de uma característica da China que se assemelha com a realidade brasileira: uma parcela considerável da população não tinha conta em banco nem cartão de crédito. Metade das operações no Brasil ainda é realizada com dinheiro, o que dá a dimensão do potencial desse mercado. São brasileiros que fazem compras regularmente, mas não passam pelos bancos. E, se o plano dessas empresas der certo, nunca vão passar.

O superaplicativo da Dotz pretende repetir o sucesso de suas inspirações chinesas, e já nasce com uma vantagem: dispõe de uma base ampla de consumidores que fazem uso recorrente dos seus serviços. A Dotz conta com mais de 40 milhões de usuários, dos quais 11milhões de maneira regular, mensalmente. São consumidores atraídos pela moeda virtual que, desde a sua criação, batiza a empresa e funciona como pontos de fidelidade: compras realizadas nas redes parceiras dão direito a um certo número de dotz, que, por sua vez, podem ser utilizados para novas aquisições com descontos. Trata-se de um ciclo que se auto alimenta, servindo de impulso para a moeda virtual. E este é mais um ingrediente fundamental para o sucesso: o estímulo à frequência de uso do aplicativo. Com dezenove anos de experiência e presença em todos os estados, a Dotz desenvolveu uma rara capacidade de coletar e analisar informações detalhadas dos hábitos de consumo dos brasileiros. Houve mais de 650 milhões de transações nos últimos dois anos, em cerca de 10.000 pontos de venda. Como já ensinaram Facebook, Amazon e Google, não há nada mais valioso nos dias de hoje do que os dados dos internautas, e a Dotz vai começar a fazer uso desse manancial de informações. “Cada vez mais, o consumidor concentra as suas compras no celular. O superapp permite gerar valor para ele, por meio dos descontos, além de conveniência”, diz Roberto Chade, CEO da empresa.

Como o mercado digital tem escala global, é natural que estrangeiros também tentem conquistar público no Brasil. A startup colombiana Rappi estreou por aqui em julho de 2017 como um serviço de entrega tradicional de comida. Hoje oferece desde massagem e manicure até test drive em carro novo. E transações financeiras, naturalmente. Seus números são invejáveis. Ela tem crescido 30% ao mês, o que significa que a cada três meses dobra de tamanho. “Estamos sempre mapeando novas oportunidades e parcerias. O grande segredo desse negócio é desenvolvê-las rapidamente e colocar no aplicativo”, explica Fernando Vilela, executivo-chefe de crescimento da Rappi no Brasil. A empresa não divulga os seus números separados por país, mas, nos sete mercados da América Latina em que atua, o aplicativo teve mais de13milhões de downloads. Como se trata de uma novata, a Rappi tem sido agressiva em oferecer descontos para atrair usuários e aumentar a frequência de utilização daqueles que já estão na sua base. Um exemplo é o seu serviço Rappi Prime, em que o consumidor paga uma mensalidade de 19 reais e tem direito a um número ilimitado de fretes grátis. A empresa opera no vermelho, mas isso não é um problema no atual estágio porque conta com capital à disposição – sua última rodada de captação a elevou ao status de unicórnio, com avaliação de pelo menos 1 bilhão de dólares.

O Mercado Livre, a maior plataforma de compra e venda de produtos do país, adotou uma estratégia diferente: optou por oferecer a sua conta digital em um braço à parte, o Mercado Pago. Nele, disponibiliza ao consumidor opções como deixar o dinheiro rendendo, fazer transferências, pedir crédito, obter descontos com redes parceiras e, claro, pagar ou receber por compras no Mercado Livre. Ele já conta com 2,4 milhões de usuários, e esse número não para de crescer. O volume de transações subiu quase 70% no ano passado. “Nosso objetivo é que o aplicativo seja um substituto natural do banco para o público que não tem acesso aos serviços financeiros tradicionais”, diz Túlio Oliveira, diretor do Mercado Pago.

Evidentemente, não é um jogo para todos. Que o diga a startup espanhola Glovo, que deixou o Brasil em março alegando que precisaria de mais recursos para ser competitiva em um mercado tão disputado. “É muito difícil sair do zero e se tornar relevante”, diz Caio Camargo, sócio-diretor da consultoria GS&UP. Em paralelo, empresas de grande porte, como o Magazine Luiza e o Grupo Pão de Açúcar, já anunciaram que estão desenvolvendo os próprios superapps. Trata-se de uma disputa que está apenas começando.

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A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SUPERAÇÃO DE TRAGÉDIAS

É preciso aceitar o vazio em torno do processo de luto, e, por isso, a inteligência emocional é um fator determinante para que a pessoa encontre força para passar pela perda e recomeçar.

Superação de tragédias

Embora a morte seja a única certeza da humanidade, lidar com ela é um grande desafio. Nossa relutância em falar sobre a morte é frequentemente interpretada como uma evidência de que estamos com medo, e, por isso, reprimimos os pensamentos sobre ela: aprendemos a negá-la e nos sentimos aterrorizados. Isso se deve ao fato de a ligarmos diretamente com a perda;

Alguns estudos recentes apontaram que nós nos sentimos mais preocupados com a possibilidade de perdermos um ente querido do que com nossa própria morte. Em geral, o processo do falecimento, a ausência, a dor e a solidão causam uma angústia maior do que o fim da vida em si.

Por isso, diante de uma perda significativa, desenrola-se um processo necessário e fundamental para que o vazio deixado, com o tempo, possa voltar a ser preenchido. Esse processo é denominado de luto e consiste numa adaptação à perda e à ausência.

O luto vem do latim lucto, e tem como sua definição o conjunto de reações diante de uma perda significativa. Ademais, em uma visão mais analítica, o luto nada mais é do que a perda de um elo significativo entre uma pessoa e a fonte desse sentimento. Portanto, é um fenômeno natural e constante durante todo o desenvolvimento humano.

A ideia de luto não se limita apenas à morte, mas ao enfrentamento das sucessivas perdas reais e simbólicas durante o desenvolvimento humano. Desse modo, pode ser vivenciado através de perdas que perpassam pela dimensão física e psíquica, como os elos significativos com aspectos pessoais, profissionais, sociais e familiares do ser humano. O luto está relacionado à dificuldade de lidar com mudanças drásticas, e isso se deve principalmente por conta de um dos maiores conflitos emocionais atuais: a dependência emocional!

O que define a dependência emocional não é o desejo em si, mas sim a incapacidade de renunciar a determinado elo ou vínculo. Quanto sofrimento não é causado pelo fato de não sermos realistas e aceitarmos as coisas como são?

Mesmo sabendo que nada dura para sempre, existe uma grande relutância em assentir que a pessoa partiu. É uma contradição entre a razão e a emoção, já que nossa mente diz para aceitarmos a ausência, mas nosso coração não se permite conformar.

Isso ocorre porque tanto a presença quanto a ausência de uma pessoa querida provocam reações em áreas onde temos pouco controle: existem alguns processos fisiológicos envolvidos e alterações químicas que excedem o que podemos entender e gerenciar. Isso é o que explica a chamada “teoria do processo oponente”.

A teoria do processo oponente foi desenvolvida por Solomon e Corbit em 1974. De acordo com essa tese, nosso cérebro tende sempre a buscar o equilíbrio emocional, e o caminho que escolhe para fazer isso é neutralizando as emoções. Para conseguir isso, ele realiza uma operação recorrente: quando surge uma emoção intensa, que nos tira a estabilidade usual, a resposta é dar lugar à emoção oposta ou a um estímulo emocional corretivo.

Superação de tragédias. 2

FORÇA

O estímulo de resposta é fraco no início, mas aos poucos vai ganhando força. A partir desses princípios é possível explicar, em parte, o que acontece no processo do vício e o que acontece no cérebro após uma perda. A emoção inicial é muito intensa – não tem oposição e, por isso, atinge um nível máximo. É o que acontece, por exemplo, quando nos apaixonamos. No entanto, pouco a pouco, o estímulo oposto aparece, embora no início não seja percebido. Gradualmente, vai ganhando força para neutralizar essa emoção inicial.

No entanto, se ocorre uma ausência, seja porque essa pessoa se afasta ou porque morre, ocorre uma descompensação. O estímulo inicial desaparece e fica apenas o “estímulo corretivo” que, por sua vez, se intensifica. Esse é experimentado de uma maneira muito desagradável: com tristeza, irritabilidade e todas as emoções envolvidas em um luto.

Cada emoção corresponde a um processo fisiológico no corpo e a mudanças químicas no cérebro. A ausência de alguém amado não é apenas um vazio emocional, porque há muita oxitocina, dopamina e serotonina que as pessoas amadas geram. Quando não estão lá, o corpo sofre uma desordem que, em princípio, não pode ser equilibrada. É necessário tempo para que um novo processo oponente ocorra, e que, diante da intensa emoção negativa, surja um “estímulo corretivo” para alcançar novamente o equilíbrio.

Mais do que uma fase, o luto é um sofrimento útil que permite olhar para a frente. A dor da perda não deve impossibilitar a pessoa de continuar a viver e prosseguir com suas experiências. Pode ser muito doloroso – aceitar a situação e aprender a conviver com a ausência e com a saudade, e, nesse sentido, ter maturidade e independência emocional é fundamental para superar a perda de um ente querido e continuar a viver.

O luto decorrente de mortes provocadas por tragédias é intensificado pela forma abrupta e violenta com que ocorreram, e, por isso mesmo, exigem maior atenção. Especialistas alertam que  o processo pode afetar as dimensões física, psíquica, emocional, comportamental, social e  espiritual. Como bem colocado pela psicóloga especialista em luto, Nazaré Jacobucci, “o processo  de luto apresenta diferenças quando a morte é algo que  já se espera, como em casos de doença  crônica grave, ou decorre de uma tragédia, como as que se abateram recentemente sobre o país. Quando temos a possibilidade de nos despedir de alguém que amamos, nos sentimos mais confortados. Mas quando a morte surge de forma abrupta, o estado de choque inicial é desconcertante. Os questionamentos também podem permanecer por um período ainda maior, sendo mais um fator de angústia e podendo levar a distúrbios psicossomáticos.

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LUTO COLETIVO

O estado de choque inicial é desconcertante e o impacto emocional causado em todos é enorme. Tragédias com grande número de mortes trazem muito sofrimento às pessoas de forma geral porque existe uma identificação com os familiares das vítimas e, dessa forma, sofrem como se também fossem vítimas. Num luto coletivo todos se emocionam e sentem a dor no coração. É também um momento de reviver as perdas pessoais, extravasar emoções abafadas anteriormente. Nós tomamos emprestado um pouco desse luto para chorar as nossas próprias dores.

Por isso, é extremamente importante falar sobre o luto e enfrentar os fantasmas do ocorrido. É fundamental aprender a conviver com a ausência e a saudade para seguir em frente.

Elisabeth Kluber-Ross, ao estudar como as pessoas lidavam com perdas pessoais catastróficas – desde a morte de um ente querido até um divórcio-, percebeu que existem cinco estágios comuns que a maior parte das pessoas passa, e com base nisso criou o modelo de Huber-Ross, ou, como também ficou conhecido, as cinco fases do luto. A intensidade das etapas varia de acordo com o grau de afetividade entre a pessoa e o ente querido e, principalmente, com o nível de inteligência emocional de cada um. Isso porque as fases não são lineares e, portanto, a pessoa pode voltar a uma fase anterior a qualquer momento. As cinco fases do luto são:

NEGAÇÃO – Esse momento é marcado pela dificuldade em acreditar que o fato realmente aconteceu. A dor é intensa e existe uma grande dificuldade para lidar com a perspectiva de um futuro sem a pessoa. Por isso, é um mecanismo de defesa, consciente ou inconsciente, que nos faz não acreditar que certa situação é realmente verdade.

RAIVA – Ao perceber que o fato realmente aconteceu e não existe nada que possa ser feito a respeito, é comum sentir uma revolta muito grande. Nesse período, a pessoa percebe que não é possível reverter a situação, e a tendência é que a dificuldade em se conformar seja canalizada em raiva. O estágio de raiva pode se manifestar de diversas formas. Uma pessoa lidando com uma decepção emocional pode sentir raiva dela mesma, da pessoa que se foi ou mesmo da vida ou da entidade maior na qual acredita.

NEGOCIAÇÃO – A fase de negociação é quase que um implorar e barganhar para que a tragédia ou mudança não seja tão drástica. É uma tentativa de fugir do acontecimento, de buscar alguma forma de ele ser menos doloroso. Nessa fase a pessoa tenta aliviar a dor e começa a fazer algumas ponderações, imaginando possíveis soluções e fazendo “acordos” internos. Essa negociação acontece dentro da própria pessoa e, muitas vezes, é voltada para questões religiosas.

DEPRESSÃO – O estágio de depressão tende a acontecer quando a pessoa realmente percebe que a tragédia aconteceu, não sendo uma ilusão ou algo negociável, e reage com um “choque” emocional. A forma de reagir depende muito de cada caso, mas é comum sentir tristeza, angústia, medo, até um vazio. É uma etapa dura, mas ao menos simboliza que a pessoa caiu em si e que está começando a aceitar a realidade, mesmo que ainda de forma não saudável. Geralmente é a fase mais longa do processo e é caracterizada por um sofrimento intenso. Além disso, é comum que a pessoa passe por um período de isolamento e apresente uma grande necessidade de introspecção.

ACEITAÇÃO – Durante essa fase a pessoa consegue ter uma visão mais realista e passa a aceitar o fato. O desespero em relação à perda dá lugar a uma maior serenidade, e a pessoa começa a enfrentar a saudade com mais consciência. É só a partir da aceitação que a pessoa consegue ter o impulso para reagir e trazer mudanças positivas para a sua vida.

Entender esses cinco estágios do luto nos ajuda a ter maior consciência do que estamos passando ao enfrentar uma adversidade como essa, nos traz lucidez e força para enfrentar as dificuldades. Saber o que se passa não fará um estágio desaparecer, mas pode ajudar a lidar de uma forma mais natural e menos dolorosa com ele.

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ARMADILHAS

Algumas armadilhas emocionais nos impedem de seguir em frente em um momento de perda. Não se permitir expressar suas dores, por exemplo, por acreditar que é necessário fingir que está tudo bem, é uma bomba-relógio: inevitavelmente, as emoções explodem em outras pessoas ou implodem em doenças.

O sentimento de culpa é outra barreira, já que, ao perder alguém que amamos, automaticamente pensamos nas coisas que deixamos de dizer e fazer a ela. É comum ter a sensação de que falhamos em determinados momentos e que cometemos erros com a pessoa que foi embora. Lembre-se de que as relações humanas não são perfeitas e as falhas sempre estarão presentes.

É preciso saber se perdoar, focando em tudo de bom e positivo que foi feito ou vivido com a pessoa que se foi, para alcançar a superação.

O medo dessa nova realidade pode ser paralisante, mas viver todas as fases do luto é fundamental.

Quando não temos consciência desse processo e não sabemos como lidar com as emoções, podemos nos perder e ficar paralisados em alguma delas. Algumas pessoas direcionam toda sua atenção e energia para a dor, deixando de fazer as coisas que gostam. Com o tempo, a tendência é que elas percam todo o prazer, se tornando depressivas. Quem se sente vítima da perda acaba encontrando justificativas para permanecer na dor, sem se esforçar para dar a volta por cima.

É preciso aprender a viver sem a presença da pessoa e isso exige que sejam feitas algumas adaptações para enfrentar as mudanças. Para se acostumar com a ausência, é importante mudar alguns hábitos ou lugares e enfrentar o medo que essas modificações podem causar. Seguir em frente e continuar vivendo é fundamental para superar a saudade de forma saudável. Mesmo convivendo com a dor, encontre maneiras para ser feliz com distrações, como, por exemplo, convivendo com pessoas queridas, traçando novos planos e indo em busca dos seus sonhos. Com o tempo a intensidade das emoções diminuirá, mas é preciso investir nesse processo dando um novo passo a cada dia.

Cuidar das próprias emoções é muito importante durante o luto, pois permite que a pessoa encontre coragem e força para recomeçar. A inteligência emocional é uma soma de habilidades que tornam as pessoas capazes de administrar as pequenas e grandes adversidades que a vida impõe, de modo a perceber e aceitar suas emoções, direcionando-as para obter melhores resultados e relacionamentos.

O segredo para se tornar uma pessoa emocionalmente inteligente é desenvolver seu autoconhecimento. Ou seja, conhecer a sua história de vida – não a partir do seu aspecto racional e adulto, mas, sim, se permitir aceitar e descobrir o que foi vivido e interpretado pela sua emoção de criança – é o pilar base para adquirir um controle maior em todos os tipos de situações da vida cotidiana, já que todas as nossas emoções e comportamentos são fruto da forma como um dia “interpretamos” as nossas experiências vividas durante nossa gestação e primeira infância.

A inteligência emocional é fundamental na superação de tragédias como as de Brumadinho e Mariana, porque permite que o ser humano pare para olhar para as próprias emoções e estilo de vida, para tomar decisões importantes em relação à maneira como vinha vivendo e usando seu tempo. No decorrer deste artigo, o luto foi caracterizado como um processo não linear e não temporal, que varia de acordo com a fase emocional em que a pessoa se encontra e sua consequente intensidade. Porém, o que determina o andamento desse processo é a capacidade que cada um tem de lidar com suas emoções para enfrentar a dor da ausência. A inteligência emocional promove a resiliência necessária para atravessar essa jornada de dor e aceitação.

Superação de tragédias. 5

SOFRIMENTO

Viver o luto de forma saudável é sofrer – e seria estranho se não houvesse sofrimento. Só o tempo pode amenizar a dor da perda, mas é importante ressaltar que o luto é um processo individual, e que cada um elabora a dor de maneira diferente. Não existe um tempo exato para vivenciar cada uma das fases, e elas variam de acordo com cada pessoa e seu nível de inteligência emocional. Compreender isso é importante para que a dor de uma pessoa e de outra não seja comparada.

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OS EFEITOS DA PERDA

Em termos cerebrais, a ausência de um ente querido tem efeitos semelhantes aos da síndrome de abstinência, experimentados por aqueles que são viciados em alguma substância. Em ambos os casos, há um estímulo inicial e um “estímulo corretivo”. No caso das emoções, o estímulo inicial é  o próprio afeto: há apego, necessidade dessa pessoa e alegria ao vê-la. Nos casais, especialmente,  esse estímulo emocional inicial é muito intenso. Ao mesmo tempo, aparece o estimulo oposto. É por isso que ao longo do tempo a intensidade do começo dá lugar a uma certa “neutralidade” nas emoções.

Superação de tragédias. 7

CÉREBRO EMOCIONAL É MAIS RÁPIDO QUE O RACIONAL

Racionalmente, ninguém escolheria ser ansioso, depressivo, explosivo, machucar alguém que ama ou não saber lidar com as próprias emoções para superar um momento difícil como a perda de um ente querido –  mas a maioria das pessoas faz isso constantemente. Se essas reações não são escolhidas, por que as pessoas não têm controle sobre elas? De modo geral, isso acontece porque  o cérebro emocional é muito mais rápido que o cérebro racional. Enquanto as emoções levam o ser humano à ação, sua razão continua apenas pensando e analisando.

 

RODRIGO FONSECA – é doutorando em Neuromarketing pela Flórida Christian University. comunicador social graduado pela USP e presidente da Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional. É autor dos livros Emoções a Inteligência Emocional na Prática, 27 Chaves para a Realização Pessoal e Inteligência Emocional para Pais. além de idealizador da primeira formação de inteligência emocional do Brasil e da Sbie Academy.

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SABE A APPLE? ESQUEÇA. MUDOU TUDO

Empresa construiu fama e glória criando dispositivos icônicos, inovadores e invejados. Hoje quer se posicionar como prestadora de serviços – inclusive financeiros.

Sabe a Apple. Esqueça, Mudou tudo

Imagine se duas tradicionais fabricantes de automóveis — a BMW e a Daimler, por exemplo — se unissem para atuar no segmento de mobilidade urbana porque acreditam que seus produtos perderão espaço enquanto os serviços ganharão relevância. Bem, não precisa mais imaginar, pois foi exatamente isso que a BMW e a dona da Mercedes-Benz fizeram, há um mês. Agora, a Apple faz o mesmo: tirou o pé do portfólio de produtos para acelerar a oferta de serviços. A tech giant comandada por Tim Cook parece ter entendido que num mundo em que toda empresa será de tecnologia, empresas de tecnologia precisam ser outra coisa. Por esse motivo apresentou seu cartão de crédito, serviço de streaming de vídeos, um de assinatura de notícias e uma plataforma de games.

CARTÃO DE CRÉDITO 

Para entender o anúncio de um cartão de crédito é preciso olhar para o Apple Pay, o sistema de pagamentos da empresa, lançado em outubro de 2014 — e disponível no Brasil desde o ano passado, depois de similares de Google e Samsung. Apesar de crescente, o número de usuários da carteira virtual não deslumbra: 252 milhões de pessoas no mundo. É fato que esse mercado deve dar um salto. Projeções apontam que 80% dos usuários globais de smartphones acabarão usando seus aparelhos como carteiras, em comparação com menos de 20% agora. Mas esse futuro ainda não chegou. Hoje, o Apple Pay representa menos de 2% do volume de redes como Mastercard e Visa. Muitos comerciantes ainda não aceitam esse modelo de pagamento.

Começar pelo cartão de crédito é uma maneira de a Apple contornar um hábito que ainda não se alterou por parte de consumidores do mundo inteiro. Para lançar o Apple Card, a empresa se uniu ao banco Goldman Sachs e à operadora Mastercard. É claro que o cartão não viria sem novidades. Não trará número estampado, nem código de segurança, data de expiração ou espaço para a assinatura. Não haverá também taxas, anuidades ou mensalidades e permitirá um programa de recompensas de devolução de dinheiro conforme for utilizado. E um dos pontos altos, e mais bacanas, resvalando naquela Apple de produtos disruptivos, é a ferramenta de educação financeira para os usuários do cartão controlarem seus gastos. Ele terá mapa interativo para melhor visualização de onde as compras foram efetuadas, ampliando o controle das movimentações e a segurança.

STREAMING DE VÍDEOS

A Netflix não quer saber da Apple, então a Apple está tratando de ser um pouco Netflix. O aguardado anúncio do serviço de streaming da empresa de tecnologia é uma reformulação da Apple TV, que vai virar um agregador de 100% do que for conteúdo audiovisual — produção própria ou de parceiros. Haverá de tudo no balaio. Canais de TV por assinatura, conteúdos de outras plataformas de streaming (como Amazon Prime, ESPN Watch, Hulu, já que a Netflix se recusou a fazer parceria) e programação original. O serviço de streaming com conteúdos originais, que se chamará Apple TV+, reúne produções comandadas por pesos pesados, como M. Night Shyamalan, Oprah Winfrey, Steve Carrel e Steven Spielberg. Deve ser lançado no segundo semestre em mais de 100 países, mas os preços das assinaturas não foram divulgados.

Ele funcionará nos dispositivos da marca (iPhones, iPads e Macs), mas também em TVs inteligentes (LG, Samsung e Sony). Não ficou claro se estará disponível para Android, sistema operacional que domina 74% do mercado global de smartphones (dados de fevereiro de 2019). A Netflix, líder em streaming de vídeo, talvez tenha fornecido uma pista caso o sistema Android não seja mesmo contemplado: 70% de seus assinantes assistem ao conteúdo em uma TV, 15% em PCs, 5% em tablets e 10% em celulares. A Apple provavelmente decidiu que valeria a pena o risco de ignorar o Android como opção de canal de distribuição.

GAMES

Talvez tenha sido a novidade menos reluzente no pacote. Não pela importância, mas por ser um modelo muito parecido com o recém-anunciado Stadia, do Google. O serviço de assinatura de jogos para iPad, iPhone e Mac, chamado Arcade, promete mais de 100 jogos no lançamento, no segundo semestre, em 150 países. O preço da assinatura também não foi divulgado. O dado para entrar de forma mais contundente nesse mercado veio da própria Apple Store: os 300 mil games disponíveis já foram baixados 1 bilhão de vezes.

NOTÍCIAS

De certa forma será um streaming de notícias, com material de mais de 300 publicações e disponível inicialmente nos Estados Unidos (US$ 9,99 ao mês) e no Canadá (US$ 12,99 ao mês). Tim Cook, CEO da Apple, diz que mais de 5 bilhões de reportagens já foram consumidas no Apple News. O novo serviço, News+, pretende ser uma espécie de Spotify do jornalismo. Mas há alguns poréns nessa promessa. Publicações bem-sucedidas vendem cada vez mais assinaturas digitais e não querem compartilhar receita e, especialmente, dados de assinantes. Assim como os consumidores encontram o conteúdo jornalístico com mecanismos de busca ou nas redes sociais. E, pelo menos inicialmente, só dispositivos Apple oferecerão o News+.

CORAÇÃO NO HARDWARE

 “A Apple, em seu coração, ainda é uma empresa de hardware relutante em dar aos consumidores mais razões para escolher um telefone Android”, afirma uma reportagem da Bloomberg. A questão é que a empresa precisa crescer em serviços. As receitas nessa linha aumentaram 24% entre 2018 e 2017 (ano fiscal encerrado em setembro) contra 18% de alta nas receitas com vendas de iPhones no mesmo período. De certa maneira a Apple começou a seguir os passos da Microsoft, que desde a ascensão de Satya Nadella ao posto de CEO, há cinco anos, se reorientou para vender serviços.

Quando virou CEO, Nadella liderava as frentes de serviço da empresa, incluindo a divisão Cloud. No ano fiscal de 2018, encerrado em junho, as receitas fora da linha de produtos já atingiram US$ 45,8 bilhões (41,5% do total de US$ 110,3 bilhões). No ano fiscal anterior elas representavam apenas 33,9%. “Imagine um futuro em que todos os seus aplicativos e suas experiências girem em torno de você e transcendem qualquer dispositivo”, disse Nadella em sua carta aos investidores do ano passado. Não deixa de ser muito irônico a Apple querer ser um pouco mais Microsoft. Afinal, Steve Jobs dizia que nos anos 80 Bill Gates havia surrupiado a ideia original do Mac para desenvolver o Windows

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CONTAMINAÇÃO “MATA” RIOS DA MATA ATLÂNTICA

Contaminação “mata” rios da Mata Atlântica

O dia 22 de março entrou para o calendário como Dia Mundial da Água. Apesar da importante celebração, a situação dos rios do País não é de se comemorar. A Fundação SOS Mata Atlântica publicou um retrato atualizado sobre os cursos d’água do bioma, que cortam 103 municípios em 17 estados. Dos 220 rios, 75,4% apresentam qualidade de água apenas regular e 16,9%, ruim. Três rios foram considerados péssimos e apenas 15 rios apresentaram boas condições e estado de conservação – nenhum deles, no entanto, foi considerado “ótimo”. Quando comparado ao levantamento de 2018, há uma esperança. O número de rios com qualidade boa subiu 1,7 ponto percentual (p. p). Por outro lado, também houve avanço dos rios considerados “mortos”. A quantidade de cursos com péssima qualidade subiu de 0 para 1,3% este ano. Um deles é o rio Paraopeba, atingido pela lama que jorrou da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). A expedição de campo da ONG encontrou, inclusive, vestígios dos rejeitos no reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Marias, no rio São Francisco (onde deságua o Paraopeba), a 331 km da barragem que se rompeu.

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