O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A VERDADEIRA LIBERDADE

Uma das melhores maneiras de compartilhar o evangelho com os homens e as mulheres de hoje é apresentá-lo em termos de liberdade. Existem pelo menos três argumentos que podem ser usados nessa abordagem.
Primeiro, a liberdade é um assunto extremamente atraente. A revolta mundial contra a autoridade, iniciada na década de sessenta, é vista como sinônimo de uma busca mundial por liberdade. Muita gente é obcecada com a liberdade e passa a vida inteira a persegui-la. Para alguns, é uma questão de libertação nacional, emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, trata-se de direitos civis, e assim protestam contra discriminação racial, religiosa ou étnica e exigem a proteção de opiniões das minorias. E ainda há outros cuja preocupação é a busca por liberdade económica, libertação da fome, da pobreza e do desemprego. Ao mesmo tempo, todos nós nos preocupamos com a nossa liberdade pessoal. Até aqueles que lutam mais ardentemente pelos outros tipos de liberdade aqui mencionadas (nacional, civil e económica) geralmente sabem que eles mesmos não são livres. Eles nem sempre conseguem dar um nome às tiranias que os oprimem. Todavia, sentem-se frustrados, não-realizados e sem liberdade.
Numa entrevista com o consagradíssimo novelista John Fowles, publicada sob o título “Uma Espécie de Exílio em Lyme Regis”, Daniel Halpern perguntou-lhe: “Existe algum retrato específico do mundo que você gostaria de desenvolver em sua obra? Alguma coisa que continua sendo importante para você?” “Sim”, respondeu John Fowles. “Liberdade. Como alcançar a liberdade. Isto me obceca.
Todos os meus livros falam sobre isso.”
Segundo, liberdade é uma tremenda palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. “O Espírito do Senhor está sobre mim”, declarou ele, aplicando a si mesmo uma profecia do Antigo Testamento, “pelo que me ungiu para evangelizar nos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” Quer Jesus estivesse se referindo aos pobres, cativos, cegos e oprimidos no sentido material ou espiritual, quer nos dois sentidos (esta questão continua se constituindo em veemente debate), as boas novas por ele proclamadas foram certamente de “liberdade” ou “libertação”. Mais tarde, em seu ministério público, ele acrescentou a promessa: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. E daí o apóstolo Paulo tornou-se o defensor da liberdade cristã e escreveu: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão”. Para aqueles que consideram “salvação” um jargão religioso e desprovido de sentido, ou mesmo algo embaraçoso, “liberdade” é um excelente substituto. Ser salvo por Jesus Cristo é ser libertado.
Terceiro, liberdade é uma palavra muito mal interpretada. Mesmo aqueles que falam mais alto e há mais tempo acerca da liberdade nem sempre param antes para definir de que é que estão falando. Um bom exemplo é o do orador marxista que, plantado numa esquina, discursava com eloquência sobre a liberdade que todos haveríamos de desfrutar depois da revolução. “Quando nós conseguirmos a liberdade”, exclamava ele, “todos vocês poderão fumar cigarros como aquele ali”, disse, apontando para um opulento cidadão que ia passando.
“Eu prefiro meu cigarro de palha”, gritou um gozador.
“Quando formos libertados”, continuou o marxista, ignorando a interrupção e esquentando mais o assunto, “todos vocês poderão andar num carro daqueles”, e apontou para um suntuoso Mercedes que ia passando.
“Eu prefiro minha bicicleta”, gritou o perturbador. E assim o diálogo continuou, até que o marxista, não suportando mais as gozações, voltou-se para o homem e disse: “Quando formos livres, você só fará aquilo que lhe mandarem!”
O aspecto negativo: libertação de
Mas, então, o que é liberdade? Uma verdadeira definição tem que começar com o lado negativo. Temos que identificar as forças que nos tiranizam e que, portanto, inibem a nossa liberdade. Somente então conseguiremos compreender como é que Cristo pode nos libertar.
Primeiro, Jesus Cristo nos oferece libertação da culpa. Nós deveríamos ser gratos pela reação generalizada contra a insistência de Freud de que os sentimentos de culpa são sintomas patológicos de doença mental. Alguns deles com certeza o são, especialmente em certos tipos de enfermidade depressiva; mas nem toda culpa é falsa. Pelo contrário, cresce cada vez mais o número de psicólogos e psicoterapeutas contemporâneos que, mesmo não professando a fé cristã, nos dizem que precisamos levar a sério as nossas responsabilidades. O falecido Dr. Hobart Mowrer, da Universidade de Illinois, por exemplo, entendia a vida humana em termos contratuais e via o “pecado” como uma quebra de contrato que deve receber uma reparação. A Bíblia certamente sempre enfatizou, tanto as nossas obrigações como seres humanos, como a nossa falha ao deixarmos de cumpri-las. Nós, em particular, temos buscado afirmação colocando-nos contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do nosso próximo. Usando uma linguagem cristã bem direta, nós, além de pecadores, somos também pecadores culpados, e a nossa consciência nos diz isso. Conforme uma das piadas de Mark Twain, “o homem é o único animal que fica envergonhado – ou que precisa fazê-lo”.
Agora, ninguém que não tenha sido perdoado é livre. Se cu não tivesse certeza da misericórdia e do perdão de Deus, não conseguiria olhar ninguém nos olhos, e muito menos a Deus (o que é mais importante). Eu iria querer fugir e esconder-me, como fizeram Adão e Eva no Jardim do Éden. Afinal, foi no Éden, e não em Watergate, que inventaram pela primeira vez o estratagema chamado “esconder”. Eu com certeza não seria livre. Um pouco antes de morrer, em 1988, em um momento de surpreendente sinceridade na televisão, Marghanita Laski, uma das mais conhecidas humanistas e novelistas seculares, declarou: “O que eu mais invejo em vocês, cristãos, é o perdão que vocês têm. Mu não tenho ninguém para me perdoar.”
“Mas”, como os cristãos bem que gostariam de gritar de cima dos telhados, fazendo eco ao salmista penitente, “em Deus está o perdão”, pois ele, em seu amor por pecadores como nós, veio participar do nosso mundo na pessoa de seu Filho. Tendo vivido uma vida de perfeita retidão, ele, na sua morte, identificou-se com os injustos. Levou o nosso pecado, a nossa culpa, a nossa morte em nosso lugar, a fim de que fôssemos perdoados.
A liberdade, portanto, começa com o perdão. Lembro-me de um estudante de uma universidade no norte da Inglaterra, que havia sido criado no espiritismo, mas fora levado por um colega a uma reunião cristã, onde ouviu o evangelho. No fim-de-semana seguinte começou uma intensa batalha pela sua alma, até que (como ele escreveria mais tarde) ele gritou em desespero para que Jesus Cristo o salvasse. Então, continuou ele, “Jesus realmente veio a mim. Eu senti um amor verdadeiro, real – nem dá para descrever. Era pura beleza e serenidade. E apesar do fato de que eu nada sabia acerca de salvação e pecado, e nem mesmo sabia o que significava isso, eu simplesmente soube que estava perdoado… Eu estava incrivelmente feliz!”
Segundo, Jesus Cristo nos oferece libertação do nosso ego. Certa vez, conversando com uns crentes judeus, Jesus lhes disse: “Se vós permanecerdes nas minhas palavras, sois verdadeiramente meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
Na mesma hora eles ficaram indignados. Como é que ele ousava dizer que eles precisavam de algum tipo de libertação? “Somos descendência de Abraão”, eles retrucaram, “e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?”
Jesus replicou: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado.”
Portanto, se a culpa é o primeiro tipo de escravidão do qual precisamos ser libertados, o segundo é o pecado. E o que significa isto? Assim como “salvação”, “pecado” é uma palavra que pertence ao vocabulário tradicional cristão. “Eu não sou pecador”, diz a maioria das pessoas, pois elas parecem associar pecado com crimes específicos e sensacionais, como matar, adulterar ou roubar. Mas “pecado” tem uma conotação muito mais ampla do que isso. Eu mesmo me recordo de quão revelador foi para mim descobrir, especialmente através dos ensinamentos de William Temple, que o que a Bíblia quer dizer com “pecado” é, antes de tudo, egocentrismo. Afinal, os dois grandes mandamentos de Deus são, primeiro, que o amemos com todo o nosso ser; e, segundo, que amemos o nosso próximo como a nós mesmos. Pecado é, portanto, inverter essa ordem. É colocar a nós mesmos em primeiro lugar, virtualmente proclamando nossa própria autonomia, depois o nosso próximo, segundo a nossa conveniência, e depois, então, Deus, em algum lugarzinho lá nos bastidores.
O egocentrismo é um fenômeno presente em toda a experiência humana. Isto se evidencia na rica variedade de palavras da nossa língua que incluem o componente “ego” ou “auto”. Quantas delas carregam em si um sentido pejorativo ou negativo? Egoísmo, egolatria, autoafirmação, autoacusação, autoagressão, auto piedade, autocomiseração, autodestruição, autoindulgência, auto¬promoção, autopunição, autossuficiência…
Além do mais, nosso egocentrismo é de uma tirania terrível. Malcolm Muggeridge costumava falar e escrever a respeito do “calabouçozinho escuro que é o meu próprio eu”. E que escuridão tem esse calabouço! Deixar-se absorver nos próprios interesses e ambições egoístas, sem qualquer consideração pela glória de Deus ou pelo bem-estar dos outros, é estar confinado na mais intrincada e insalubre das prisões.
Mas Jesus Cristo, que ressurgiu dentre os mortos e está vivo, pode nos libertar. Nós podemos conhecer “o poder da sua ressurreição”. Ou, colocando a mesma verdade em outras palavras, o Jesus que vive pode, através do seu Espírito, impregnar a nossa personalidade e virar-nos do avesso. Não que nós sejamos perfeitos, é claro; só que, pelo poder do seu Espírito que habita em nós, pelo menos já começamos a experimentar uma transformação do eu para o não-eu. Nossa personalidade, antes fechada em si mesma, começa a abrir-se para Cristo, assim como uma flor se abre para o sol nascente.
Em terceiro lugar, Jesus Cristo nos oferece libertação do medo. O velho mundo para o qual ele veio vivia atemorizado pelos poderes que, conforme se acreditava, habitavam as estrelas. Ainda hoje a religião tradicional de povos tribais primitivos é assombrada por espíritos malignos que precisam ser aplacados. A vida de homens e mulheres de hoje é igualmente atormentada pelo medo, desde os medos comuns que sempre afligiram os seres humanos — medo da doença, do luto, da velhice e da morte — até o medo do desconhecido, do oculto e da extinção nuclear. A maioria de nós também já sofreu algumas vezes de medos irracionais, e é impressionante ver quanta gente educada alimenta medos supersticiosos. Batem três vezes na madeira, cruzam os dedos, carregam amuletos e recusam-se a sentar na poltrona de número 13 porque dá azar… É por isso que em muitos hotéis nos Estados Unidos não existe o décimo-terceiro andar. Ao subir no elevador, se você observar o painel iluminado, verá que os números pulam de 10, 11, 12 para 14. As pessoas são tão supersticiosas para dormir no andar número 13 que não se dão conta de que aquele continua sendo o décimo-terceiro andar, mesmo que o tenham denominado de décimo-quarto! Já na Inglaterra, de acordo com uma recente pesquisa de opiniões, embora nove décimos da população ainda acredite em algum tipo de Deus, o número de adultos que leem o seu horóscopo toda semana é o dobro dos que leem a Bíblia.
Todo medo traz consigo uma dose de paralisia. Ninguém que tenha medo é livre. Além do mais, o medo é como o fungo: cresce mais rapidamente no escuro. É essencial, portanto, trazer à luz os nossos medos e olhar para eles, especialmente à luz da vitória e supremacia de Jesus Cristo. Afinal de contas, aquele que morreu e ressuscitou foi também exaltado à mão direita de Deus Pai, e tudo foi posto “debaixo de seus pés”. Portanto, onde estão as coisas que antes temíamos? Elas estão debaixo dos pés de Cristo, o Cristo triunfante! Quando nós as enxergamos ali, então o poder que elas tinham de nos aterrorizar é destruído.
Medo e liberdade são mutuamente incompatíveis. Para mim, isso foi bem ilustrado certa vez por um jovem palestrante africano. Tínhamos andado discutindo sobre a necessidade de os cristãos se interessarem mais pela História Natural como sendo criação de Deus. “Antes de me tornar um cristão”, disse ele, “eu tinha medo de muitas coisas — principalmente de cobra. Mas agora acho difícil matar uma cobra, pois gosto de ficar olhando para elas. Graças a Deus, agora sou livre de verdade.”

O aspecto positivo: liberdade para
Até aqui nós estabelecemos uma relação entre as tiranias que impedem a nossa libertação e os três principais eventos da experiência de Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e exaltação. Há libertação da culpa porque ele morreu por nós; libertação do ego porque podemos viver na força da sua ressurreição; e libertação do medo porque ele reina, com todas as coisas debaixo de seus pés.
É, no entanto, um equívoco muito sério definir liberdade em termos inteiramente negativos, embora o dicionário cometa este engano. Segundo o dicionário, liberdade é “supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, amoral”, enquanto que livre é aquele “que pode dispor de sua pessoa; que não está sujeito a algum senhor (por oposição a servil, escravo). Que não está privado de sua liberdade física; que não está prisioneiro; solto”. Mas tudo que é negativo tem o seu lado positivo. O verdadeiro grito de liberdade clama não somente por resgate de alguma tirania, mas também por liberdade para viver uma vida plena e significativa. Quando um país é libertado de um regime colonialista, torna-se livre para descobrir e desenvolver sua própria identidade nacional. Quando a imprensa é libertada do controle e da censura do governo, torna-se livre para publicar a verdade. E uma minoria racial, quando é libertada da discriminação, fica livre para desfrutar de respeito e dignidade própria. Afinal de contas, quando um país não é livre, o que lhe é negado é o direito de ser nação; quando não há liberdade de imprensa, o que se lhe nega é a verdade; e quando uma minoria não é livre, o que lhe é negado é o respeito próprio.
Qual é, então, a liberdade positiva dos seres humanos? Em 1970 Michael Ramsey pregou na Universidade de Cambridge uma série de quatro sermões, que foram posteriormente publicados sob o título A Liberdade, a Fé e o Futuro. No primeiro ele apresentou a questão: “Nós sabemos de que queremos libertar os homens. Será que sabemos para que queremos libertá-los?” E passou a responder a sua própria pergunta. Nossa luta por aquelas liberdades “que mais sensivelmente agitam nossos senti¬mentos” (por exemplo, ser libertos da perseguição, da prisão arbitrária, da fome e da pobreza destruidoras) deveria sempre se situar “no contexto da questão mais radical e revolucionária, isto é, que o homem seja liberto do seu ego e para a glória de Deus.”
A questão que precisamos perseguir é esta: para que é que Cristo nos liberta? Eis aqui o princípio: a verdadeira liberdade é a liberdade para sermos nós mesmos, tal como Deus nos criou e como ele tencionava que nós fôssemos. E como se pode aplicar este princípio?
Vamos começar com o próprio Deus. Você já pensou no fato de que Deus é o único ser que goza de perfeita liberdade? Até se poderia argumentar que Deus não é livre. Afinal, o certo é que a liberdade dele não é absoluta, no sentido de poder fazer absolutamente qualquer coisa. A Escritura nos diz que ele não pode mentir, tentar ou ser tentado, nem pode tolerar o mal. Não obstante, a liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que ele queira. A liberdade de Deus é liberdade para ser sempre inteiramente ele mesmo. Deus nada tem de arbitrário, taciturno, inconstante ou imprevisível. Ele é constante, estável, imutável. De fato, a coisa principal que a Escritura nos diz que ele “não pode” fazer (não pode porque nunca o fará) é contradizer-se. “Ele não pode negar-se a si mesmo.” Fazê-lo seria, não liberdade, mas autodestruição. A liberdade de Deus reside no fato de ser ele mesmo, assim como ele é.
E o que acontece com Deus, o Criador, também acontece com todas as coisas e seres criados. Liberdade absoluta, liberdade ilimitada, é pura ilusão. Se isso é impossível para Deus (como de fato o é), mais impossível ainda é para a criação de Deus. A liberdade de Deus é liberdade para ser ele mesmo; nossa liberdade é liberdade para sermos nós mesmos. A liberdade de toda criatura é limitada pela natureza que Deus lhe deu.
O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem o se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigênio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade. Suponhamos que você tenha em casa um peixe tropical. Ele vive, não num desses tanques retangulares arejados e modernos, mas num daqueles velhos aquários redondos e antiquados. E lá está o seu peixinho, nadando de um lado para outro no seu bendito aquário, até que, quando a sua frustração se torna insuportável, ele decide apostar na liberdade e salta para fora do seu confinamento. Se por acaso ele conseguir pular dentro de uma poça no seu jardim, aumentará sua liberdade. Continua sendo água, só que ali tem ainda mais água para ele nadar. Agora, se ele aterrissar no carpete ou no cimento, aí a sua tentativa de escapar acabará dando, não em liberdade, mas em morte.
E os seres humanos? Se os peixes foram feitos para a água, os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como humanos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. “Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda”, disse Mário para Morris. “Nós necessitamos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar.” E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia “tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele”.
Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e morremos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: “Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo.” Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.
O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente auto doador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verdadeira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor.
A verdadeira liberdade é, pois, exatamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a responsabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente em amor a Deus e aos outros.
Mas a mente secular não consegue captar este paradoxo cristão da liberdade através do amor. Por exemplo, a novelista francesa Françoise Sagan deu uma entrevista pouco antes de completar cinquenta anos, em 1985. Ela disse que estava perfeitamente satisfeita com sua vida e que nada tinha a lamentar.
“Você teve a liberdade que queria?”
“Sim”, disse ela, esclarecendo sua declaração: “Naturalmente, eu sempre era menos livre quando estava apaixonada por alguém…, Mas não se vive apaixonada o tempo todo. A não ser por esse tempo… Sou livre, sim.”
A implicação é clara: o amor inibe a liberdade. Quanto mais se ama, menos livre se é, e vice-versa. Presume-se, portanto, que para ser completamente livre é preciso evitar as complicações do amor, ou seja, o jeito é desistir completamente de amar.
Mas Jesus ensinou exatamente o contrário em um de seus epigramas favoritos, que ele parece ter citado em diferentes formas e contextos. “Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á”, disse ele; “e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á.” Eu achava que Jesus estivesse se referindo a mártires que dão a vida por ele. E o princípio que ele estava enunciando certamente inclui a estes. Mas a “vida” de que ele está falando, que tanto pode ser salva como perdida, não é a nossa existência física (zoe), mas a nossa alma ou ego (psyche) usada não poucas vezes em lugar do reflexivo referente à primeira pessoa (“me/mim”). Poderíamos então parafrasear o epigrama de Jesus nos seguintes termos: “Se você insiste em apegar-se a si mesmo e em viver para si mesmo, recusando-se a desligar-se do seu eu, você está perdido. Mas se estiver disposto a doar-se em amor, então, no momento do completo abandono, quando você pensar que tudo está perdido, acontecerá o milagre e você encontrará a si e à sua liberdade.” Só o serviço sacrificial, o dar-se a si mesmo em amor a Deus e aos outros, é que é a perfeita liberdade.
A verdadeira liberdade, portanto, combina o negativo (libertação de) com o positivo (liberdade para). Ou, dito de uma outra forma, ela concilia a libertação da tirania com a liberdade submetida à autoridade. Jesus ilustra isto num dos seus mais conhecidos convites:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Existem aqui, na verdade, dois convites, ligados a uma única promessa. A promessa é “descanso”, que parece abranger a ideia de libertação. “Eu vos aliviarei”, diz Jesus (versículo 28). E acrescenta: “Achareis descanso para as vossas almas” (versículo 29). Mas a quem ele promete descanso? Primeiro, àqueles que vêm a ele “cansados e sobrecarregados”, pois ele tira os seus fardos e os liberta. Depois, ele dá descanso àqueles que tomam sobre si o seu jugo e aprendem dele. Assim, o verdadeiro descanso se encontra em Jesus Cristo, nosso Salvador, que nos liberta da tirania da culpa, do ego e do medo, e em Jesus Cristo, nosso Senhor, quando nos submetemos a sua autoridade e ensino. Afinal, o seu jugo é suave, o seu fardo é leve e ele mesmo é “manso e humilde de coração”.

 

 

Anúncios

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O PARADOXO HUMANO

Duas vezes no Antigo Testamento levanta-se a ques­tão “O que é o homem?” (isto é, “O que significa ser humano?”), e duas vezes ela é respondida. E em ambas as ocasiões a indagação expressa surpresa, c até incredulidade, pelo fato de Deus prestar tanta atenção a sua criatura humana. Afinal de contas, nós somos insignificantes em comparação com a vastidão do universo, como também impuros em contraste com o brilho das estrelas — não passamos de “insetos” e “vermes”.

Há pelo menos três razões principais para a importância desta questão.

Pessoalmente falando, perguntar “O que é o homem?” é uma outra forma de indagar “Quem sou eu?”. Só assim nós podemos dar uma resposta ao antigo adágio grego gnothi seauton, “conhece-te a ti mesmo”, e à preocupação moderna ocidental com a descoberta de nosso próprio eu. Não existe área mais importante a ser buscada ou pesquisada do que a nossa identidade pessoal. Afinal, enquanto não nos encontrarmos a nós mesmos, nós nem podemos des­cobrir plenamente qualquer outra coisa, nem podemos crescer em maturidade pessoal. O clamor universal é “Quem sou eu?” e “Será que eu valho alguma coisa?”

Conta-se que certo dia Arthur Schopenhauer, o filósofo do pessimismo, estava sentado no Tiergarten, em Frank­furt, meio desgrenhado e maltrapilho, quando o guarda do parque, confundindo-o com um vagabundo, perguntou-lhe rudemente: “Quem é você?” A esta indagação, o filósofo replicou amargamente: “Por Deus, como eu gostaria de saber!”

Profissionalmente, qualquer que seja o nosso trabalho, nós sempre estamos de alguma forma servindo às pessoas. Os médicos e enfermeiras têm seus pacientes, os profes­sores têm alunos, os advogados e assistentes sociais têm clientes, os parlamentares têm seus constituintes e os negociantes, os seus fregueses. A maneira como tratamos as pessoas em nosso trabalho depende quase inteiramente de como nós as vemos.

Politicamente, pode-se argumentar que a natureza dos seres humanos tem sido um dos principais pontos de dis­cussão entre as visões rivais de Jesus e Marx. Será que os seres humanos têm um valor absoluto, em virtude do qual devem ser respeitados, ou seu valor só tem relação com o Estado, por cuja causa eles devem ser explorados? Ou, mais simplesmente: as pessoas são servas da institui­ção, ou é a instituição que é serva das pessoas? Como escreveu John S. Whale, “as ideologias … são na verdade antropologias”; elas são diferentes doutrinas acerca do homem.

A crítica cristã às respostas contemporâneas para a questão “O que é o homem?” é que elas tendem a ser, ou ingênuas demais em seu otimismo, ou negativas demais em seu pessimismo acerca da condição humana. Os humanistas seculares são geralmente otimistas. Embora creiam que o homo sapiens nada mais é que o produto de um processo de evolução ocorrido ao acaso, eles no entanto acreditam que os seres humanos continuam a evoluir, têm potencial ilimitado e algum dia assumirão o controle total de seu próprio desenvolvimento. Mas esses otimistas não levam suficientemente a sério a queda do ser humano para a perversidade moral e o egocentrismo, o que constante­mente tem retardado o progresso, levando à desilusão os reformadores sociais.

Os existencialistas, por outro lado, tendem a ser extremamente pessimistas. Já que não há Deus, dizem eles, tam­bém não há mais valores, ideais ou padrões — o que, no mínimo, tem sua lógica. E embora nós precisemos encon­trar de alguma forma a coragem para ser, nossa existência não tem nem significado nem propósito. No final das contas, tudo é um absurdo. Mas tais pessimistas não

levam em consideração o amor, a alegria, a beleza, a verdade, a esperança, o heroísmo e o sacrifício próprio que têm en­riquecido a história humana.

O que necessitamos, pois, (citando novamente J. S. Whale), não é “nem o otimismo fácil dos humanistas, nem o obscuro pessimismo dos cínicos, mas o realismo radical da Bíblia”.

Nossa dignidade humana

O valor intrínseco dos seres humanos é afirmado desde o primeiro capítulo da Bíblia.

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra.

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E Deus os abençoou, e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra.

Há muito tempo persiste o debate acerca do que sig­nifica a “imagem” ou “semelhança” divina nos seres humanos, e onde jaz sua superioridade. Keith Thomas juntou uma porção de ideias exóticas em seu livro Man and the Natural World (O Homem e o Mundo Natural). Ele destaca, por exemplo, que o ser humano foi descrito por Aristóteles como um animal político, por Thomas Willis como um animal que ri, por Benjamin Franklin como um animal que faz ferramentas, por Edmund Burke como um animal religioso e pelo gourmet James Boswell como um animal que cozinha. Outros autores têm se concen­trado em alguma característica física do ser humano. Platão explorou muito a nossa postura ereta, concluindo que os animais olham para baixo, mas só os seres humanos olham para o céu, enquanto Aristóteles acrescentou a peculiari­dade de que só os seres humanos não conseguem agitar as orelhas. Um médico escocês mostrou-se profundamente impressionado com os nossos intestinos, ou seja, com suas “sinuosas circunvoluções, curvas e reviravoltas”, ao passo que em fins do século XVIII Uvedale Price chamou atenção para o nosso nariz: “Creio que o homem é o único animal que tem uma acentuada protuberância bem no meio da face.”

Os estudiosos que conhecem bem o antigo Egito e a Assíria antiga, no entanto, salientam que nessas culturas o rei ou imperador era tido como a “imagem” de Deus, a quem representava aqui na terra, e que os reis mandavam erigir imagens suas em suas províncias para simbolizar a extensão de sua autoridade. Foi dentro desse contexto que Deus, o Criador, confiou uma espécie de responsabi­lidade real (ou pelo menos vice-real) a todos os seres humanos, designando-os para “dominarem” sobre a terra e suas criaturas e “coroando-os”, para isso, de “glória e honra”.

No decorrer da narrativa de Gênesis 1 fica claro que é a imagem ou semelhança divina que distingue os humanos (o clímax da criação) dos animais (cuja criação é registrada antes). Implica-se uma continuidade entre humanos e ani­mais. Eles compartilham, por exemplo, “o fôlego da vida” e a responsabilidade de reproduzir-se. Mas havia também entre eles uma radical descontinuidade, ao se dizer que os seres humanos são “como Deus”. Essa ênfase na distinção singular entre humanos e animais repete-se constantemen­te por toda a Escritura, sob dois diferentes tipos de argu­mento. Deveríamos nos envergonhar, tanto quando os seres humanos comportam-se como animais, baixando ao nível destes, como quando os animais se comportam como seres humanos, agindo muito melhor pelo instinto do que nós pela capacidade de escolher. Um exemplo do primeiro caso é que homens e mulheres não devem ser “embrutecidos e ignorantes”, comportando-se “como um irracional”, ou então “como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos

são dominados”. Como exem­plo do segundo caso, nós somos repreendidos pelo fato de bois e jumentos reconhecerem os seus donos muito melhor do que nós, e porque as aves de migração, ao deixarem suas casas, retornam muito mais facilmente do que nós, e as formigas são muito mais trabalhadoras e previdentes do que nós.

Voltando aos primeiros capítulos de Génesis, todas as maneiras de Deus lidar com Adão e Eva pressupõem a unicidade destes entre as criaturas de Deus. A forma como Deus se dirige a eles pressupõe que eles o compreendem. Ele lhes diz que frutos podem comer e quais não podem comer, certo de que eles são capazes de discernir entre uma permissão e uma proibição e escolher entre as duas. Ele plantou o jardim e depois colocou Adão ali “para o cultivar e guardar”, iniciando assim entre eles uma parceria cons­ciente e responsável no cultivo do solo. Criou-os macho e fêmea, declarou que a solidão não era uma coisa boa, instituiu o matrimônio para a realização do amor dos dois e abençoou sua união. Além disso, ele “passeava no jardim pela viração do dia”, deliciando-se com a sua companhia, e sentiu falta dos dois quando se esconderam dele. Portanto, não é de admirar que estes cinco privilégios (compreensão, escolha moral, criatividade, amor e comunhão com Deus) sejam todos regularmente mencionados nas Escrituras e continuem a ser reconhecidos no mundo contemporâneo como constitutivos da distinção singular da nossa “huma­nidade”.

Para começar, existe a nossa racionalidade autoconsciente. Não se trata apenas de sermos capazes de pensar e raciocinar — afinal de contas, poderíamos dizer, os computadores também fazem isso. Eles são capazes de realizar os cálculos mais fantásticos, e muito mais rápido do que nós. Além disso, têm um tipo de memória (podem arquivar informações) e um tipo de linguagem (podem comunicar seus achados). Mas ainda existe (graças a Deus!) uma coisa que eles não podem fazer: eles não podem gerar pensamentos novos; só podem “pensar” aquilo para o qual foram programados. Os seres humanos, contudo, são pensadores originais. E mais do que isso. Nós podemos fazer aquilo que nós (autor e leitor) estamos fazendo neste exato momento: podemos nos colocar fora de nós mesmos e olhar para o nosso interior, avaliar-nos, indagar-nos quem e o que somos. Somos autoconscientes e temos autocrítica. Além disso, vivemos inquirindo, incansavel­mente, acerca do universo. Está certo que, como disse a outro um certo cientista, “astronomicamente falando, o homem é infinitamente pequeno”. “É verdade”, respondeu seu colega; “só que, astronomicamente falando, o homem é que é o astrônomo.”

A seguir vem a nossa capacidade de fazer opções morais. O ser humano é um ser moral. Embora nossa consciência reflita nossa formação e cultura (sendo, portanto, falível), ela no entanto permanece alerta dentro de nós, como uma sentinela, advertindo-nos de que há uma diferença entre o certo e o errado. Ela é mais do que uma voz interior. Representa uma ordem moral fora e acima de nós, diante da qual nós sentimos uma obrigação, de tal forma que temos um estranho impulso para fazer o que percebemos ser direito, bem como sentimentos de culpa quando fazemos o que é errado. Todo o nosso vocabulário moral (ordens e proibições, valores e opções, obrigação, consciência, li­berdade e vontade, certo e errado, culpa e vergonha) não tem o menor sentido para os animais. É verdade que podemos treinar um cachorro para que ele saiba o que pode fazer e o que é proibido. E aí, quando ele desobedece e, instin­tivamente, se afasta de nós, todo encolhidinho, pode-se até dizer que ele parece “sentir-se culpado”. Mas ele não tem a mínima noção de culpa — a única coisa que sabe é que vai apanhar.

Em terceiro lugar, vem o nosso poder de criatividade artística. Deus não só nos chama para uma mordomia res­ponsável em relação ao meio ambiente, e a uma parceria com ele mesmo no que tange ao domínio e exploração da natureza para o bem comum; ele nos deu também, através da ciência e da arte, habilidades inovadoras para fazê-lo. Somos “criaturas criativas”. Isto é, como criaturas, nós dependemos do nosso Criador. Porém, tendo sido criados à semelhança do nosso Criador, ele nos deu o desejo e a capacidade de sermos também criadores. Portanto, nós dançamos, escrevemos poemas e fazemos música. Podemos apreciar o que agrada aos olhos, ao ouvido e ao nosso toque.

Depois vem a nossa capacidade para relacionamentos de amor. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem … Criou Deus, pois, o homem à sua imagem … macho e fêmea os criou.”

Embora devamos cuidar para não deduzir deste texto mais do que realmente ele diz, certamente é legítimo dizer que a pluralidade intrínseca do Criador (“Façamos o ho­mem”) foi expressa na pluralidade das suas criaturas (“ma­cho e fêmea os criou”). Ela tornou-se ainda mais clara quando Jesus orou por seu próprio povo, “a fim de que todos sejam um, como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti”. E esta unidade de amor é uma peculiaridade do ser humano. E claro que todos os animais se acasalam, muitos deles estabelecem fortes laços entre o casal, a maioria cuida dos seus filhotes e alguns deles são gregários. Mas o amor que une entre si os seres humanos é mais do que um instinto, mais do que um distúrbio das glândulas endócrinas. Ele tem inspirado a maior das artes, o maior dos heroísmos, a mais profunda das devoções. O próprio Deus é amor, e nossas experiências de amor são um reflexo essencial da nossa semelhança com ele.

Em quinto lugar, temos a nossa insaciável sede de Deus. Todo ser humano tem consciência de uma realidade pessoal suprema, a quem nós procuramos, e que sabemos que somente na relação com ele é que podemos nos realizar como seres humanos. Mesmo quando estamos fugindo de Deus, sabemos instintivamente que não existe para nós outro lugar de repouso, nem outro lar. Sem ele nós estamos perdidos, a vida não passa de refugo. Nossa maior nobreza reside na nossa capacidade criada de conhecer a Deus, de nos relacionarmos pessoalmente com ele, amá-lo e adorá-lo. Na verdade, nós só somos plena e verdadeiramente humanos quando dobramos os nossos joelhos diante do nosso Criador.

E nestas coisas, pois, que jaz a nossa humanidade distintiva: em nossas capacidades dadas por Deus para pensar, escolher, criar, amar e adorar. “No animal”, pelo contrário, escreveu Emil Brunner, “não vemos o menor indício de tendência de buscar a verdade por amor à verdade, de moldar a beleza por amor à beleza, de pro­mover a justiça por amor à justiça, de reverenciar o Santo por amor da sua santidade… O animal nada co­nhece ‘acima’ de sua esfera imediata de existência, nada pelo qual medir ou testar sua existência… A diferença entre animais e seres humanos abrange toda uma di­mensão de existência.”

Não é de admirar que Shakespeare tenha feito Hamlet irromper em seu elogio: “Que obra de arte é o homem! Quão nobre em raciocínio! Quão infinito em suas faculdades! Quão semelhante aos anjos na ação! No entendimento, quão semelhante a Deus! Oh, a beleza do mundo! O protótipo dos animais!”

Como eu gostaria de poder parar aqui e que pudéssemos passar o resto de nossas vidas resplandescendo na mais pura auto-estima! Mas eis que existe um outro lado, mais escuro, do nosso ser, do qual mal temos consciência e para o qual o próprio Jesus chamou atenção.

Nossa depravação humana

Eis aqui algumas palavras de Jesus:

Convocando ele de novo a multidão, disse-lhes: Ouvi-me todos e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina… Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostitui­ção, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem. Jesus não pregou a bondade fundamental da natureza humana. Ele certamente acreditava na verdade veterotes­tamentária,  de que o ser humano,  tanto homem como mulher, foi criado à imagem de Deus; mas também acre­ditava que essa imagem havia sido maculada. Ele pregou o valor dos seres humanos, inclusive dedicando-se a servir a eles. Mas também ensinou que não valemos nada. Ele não negou que somos capazes de dar “coisas boas” aos outros, mas também acrescentou que, mesmo que façamos o bem, nem por isso deixamos de ser “maus”. E nos versículos citados acima ele fez importantes declarações sobre a extensão, a natureza, a origem e o efeito do mal nos seres humanos.

Primeiro, ele ensinou sobre o alcance universal da maldade humana. Ele não estava descrevendo o segmento criminoso da sociedade, nem algum indivíduo ou grupo particularmente corrupto. Pelo contrário, ele estava con­versando com refinados, “justos” e religiosos fariseus, e então generalizou, falando sobre “um homem” e “homens”. De fato, geralmente são as pessoas mais honestas que têm a mais profunda consciência de sua própria degradação. Tomemos como exemplo Dag Hammarskjöld, Secretário Geral das Nações Unidas de 1953 a 1961. Ele foi um servidor público profundamente comprometido, a quem W. H. Auden descreveu como sendo “um homem bom, grande e louvá­vel”. Mesmo assim, a visão que ele tinha quanto a si mesmo era muito diferente. Em sua coleção de obras autobiográ­ficas, intitulada Markings, ele escreveu sobre “essa per­versa contraposição do mal em nossa natureza”, que nos leva a fazer até do nosso serviço aos outros “o fundamento para a nossa própria auto-estima e preservação da nossa vida”,

Em segundo lugar, Jesus ensinou sobre a natureza ego­cêntrica da maldade humana. Em Marcos 7 ele enumerou treze exemplos. O que há de comum entre todos eles é que cada um é uma afirmação do ego, seja contra o nosso próximo (inclusive homicídio, adultério, furto, falso tes­temunho e cobiça – violações da segunda metade dos Dez Mandamentos), seja contra Deus (sendo que “orgulho e insensatez” são claramente definidos no Antigo Testamen­to como negação da soberania de Deus e até da sua própria existência). Jesus resumiu os Dez Mandamentos em termos de amor a Deus e amor ao próximo, e todo pecado é uma forma de revolta egoísta contra a autoridade de Deus ou contra o bem-estar do nosso próximo.

Terceiro, Jesus ensinou que a maldade do homem é de origem interna. Sua fonte se encontra, não em um ambiente ruim, nem em uma educação falha (se bem que ambos possam exercer uma forte influência sobre jovens impres­sionáveis), mas, sim, em nosso “coração”, nossa natureza herdada e pervertida. Quase se poderia dizer que Jesus nos introduziu ao freudianismo antes mesmo de Freud. Pelo menos aquilo que ele chama de “coração” é, em termos aproximados, equivalente ao que Freud chama de “incons­ciente”. Isso nos faz lembrar um poço bem profundo. A espessa camada de lama que jaz no fundo geralmente não se vê, e muito menos se suspeita. Mas quando as águas do poço são agitadas pelos ventos da emoção violenta, a imundície mais fétida e nojenta sai borbulhando das pro­fundezas e irrompe na superfície: ódio, raiva, lascívia, crueldade, ciúmes e revolta. Em nossos momentos mais sensíveis nós somos atormentados pela nossa potencialidade para o mal. E de nada adiantam tratamentos superficiais.

Em quarto lugar, Jesus falou do efeito contaminador da maldade humana. “Todos estes males vêm de dentro”, disse ele, “e contaminam o homem”. Para os fariseus, a con­taminação era algo muito mais exterior e cerimonial; eles se preocupavam com alimentos limpos, mãos limpas e vasilhas limpas. Mas Jesus insistiu em dizer que a con­taminação é algo moral, que vem de dentro. O que nos torna impuros aos olhos de Deus não é o alimento que entra em nós (que vai para o nosso estômago), mas o mal que sai de nós (que sai do nosso coração).

Todas as pessoas que já conseguiram ver, ao menos de relance, a santidade de Deus, foram incapazes de suportar essa visão, de tão chocadas que ficaram diante da sua própria e contrastante impureza. Moisés escondeu o rosto, com medo de olhar para Deus. Isaías gritou, horrorizado, chorando sua própria impureza e perdição.

Ezequiel ficou ofuscado, quase cego, ao ver a glória de Deus, e caiu de rosto em terra. Quanto a nós, mesmo que nunca tenhamos tido, como esses homens, sequer uma visão momentânea do esplendor do Deus Todo-poderoso, sabemos muito bem que não temos condições de entrar em sua presença, seja agora ou na eternidade.

Ao dizermos isso, nós não estamos esquecendo a nossa dignidade humana, com a qual se começou este capítulo. Devemos, no entanto, fazer jus à avaliação do próprio Jesus sobre a maldade da nossa condição como seres humanos. Ela é universal (em todo ser humano, sem exceção), egocêntrica (uma revolta contra Deus e contra o próximo), íntima (brota do nosso coração, de nossa natureza caída) e aviltante (torna-nos impuros e, portanto, indignos diante de Deus). Nós, que fomos criados por Deus e como Deus, somos desqualificados a viver com Deus.

O paradoxo da condição humana

Eis aqui, pois, o paradoxo da nossa condição humana: nossa dignidade e nossa depravação. Nós somos igualmente ca­pazes do mais sublime gesto de nobreza e da mais vil cruel­dade. Num momento podemos comportar-nos como Deus, a cuja imagem fomos criados, para logo depois agirmos como animais, dos quais deveríamos diferir completamen­te. Foram os seres humanos que inventaram os hospitais para cuidar dos doentes, universidades onde se cultiva a sabedoria, assembleias e congressos para o governo justo dos povos, e igrejas onde adorar a Deus. Mas foram eles também que inventaram as câmaras de tortura, os campos de concentração e os arsenais nucleares. Estranho e in­crível paradoxo! Nobre e ignóbil, racional e irracional, moral e imoral, divino e animal! Como diz C. S. Lewis através de Aslam, o homem “descende de Adão e Eva. É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também ver­gonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra”. No que se refere ao paradoxo humano, não conheço descrição mais eloquente do que a feita por Richard Holloway na Conferência de Re­novação Católica em Loughborough, em abril de 1978:

Este é o meu conflito… Sou cinza e pó, frágil e incons­tante, um conjunto de reações comportamentais prede­terminadas… crivado de temores, acossado de necessi­dades… o requinte do pó e ao pó retornarei… Todavia, existe em mim algo mais… Posso ser pó, mas sou pó que se inquieta, pó que sonha, pó que tem estranhas premonições de transfiguração, de uma glória por vir, de um destino preparado, de uma herança que um dia há de ser minha… Assim, minha vida se estende numa penosa dialética entre cinzas e glória, entre fraqueza e transfiguração. Eu sou um mistério para mim mesmo, um incômodo enigma… Sou essa estranha dualidade de pó e glória.

Diante do horror de sua própria dicotomia, certas pes­soas são suficientemente tolas para imaginar que são capazes de depurar a si mesmas, banindo o mal e liberando o bem que há nelas. A clássica expressão, tanto da nossa ambivalência humana como das nossas esperanças de salvar a nós mesmos, foi expressa por Robert Louis Stevenson em seu famoso conto O Estranho Caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde (1886). Henry Jekyll era um rico e respeitável médico, dado à religião e à filantropia. Mas ele tinha consciência de que sua personalidade tinha um outro lado, mais obscuro, de forma que ele estava “comprometido com uma profunda duplicidade de vida”. Ele descobriu que “o homem não é verdadeiramente um, mas verdadeiramente dois”. Então começou a sonhar que poderia resolver o problema da sua dualidade se conseguisse “isolar em iden­tidades diferentes” cada um de seus “lados”, de maneira que o justo fosse para um lado e o injusto para o outro. Assim, ele inventou uma droga que lhe possibilitava as­sumir o corpo deformado e a personalidade malvada de Mr. Hyde, seu alter ego, através do qual ele dava vasão a suas paixões — ódio, violência, blasfêmia e até homicídio.

No começo Jekyll tinha pleno controle de suas trans­formações, e se vangloriava de que poderia livrar-se de­finitivamente de Hyde quando bem entendesse. Pouco a pouco, porém, Hyde foi superando Jekyll, até que este começou a transformar-se involuntariamente em Hyde, e só com muito esforço conseguia voltar a viver como Jekyll. “Aos poucos fui perdendo o controle do meu ego original e melhor, e lentamente fui me incorporando ao meu segun­do e pior.” Finalmente, um pouco antes de sua revelação e prisão, ele se suicidou.

A verdade é que todo Jekyll tem um Hyde, que ele é incapaz de controlar e que ameaça subjugá-lo. De fato, o constante paradoxo da nossa condição humana derrama muita luz sobre a nossa vida privada, como também sobre a nossa vida pública. Vejamos um exemplo de cada um dos casos.

Comecemos com redenção pessoal. Já que o mal está tão profundamente enraizado dentro de nós, é impossível salvar-nos a nós mesmos. Assim, nossa necessidade mais urgente é a redenção, ou, digamos assim, um novo começo na vida que nos ofereça uma purificação da poluição do pecado e também um novo coração, e mesmo uma nova criatura, com novas perspectivas, novas ambições e novas forças. E, já que fomos criados à imagem de Deus, tal redenção é possível. Nenhum ser humano é írredimível. Afinal de contas, Deus, através de Jesus Cristo, veio em busca de nós, e nos procurou diligentemente a ponto de sofrer a agonia da cruz, onde tomou o nosso lugar, carregou o nosso pecado e morreu a nossa morte, a fim de que fôssemos perdoados. Depois ele ressuscitou, subiu aos céus e enviou o Espírito Santo, que é capaz de penetrar em nossa per­sonalidade e transformar-nos a partir do nosso interior. Se existe para a raça humana notícia melhor do que esta, eu pelo menos nunca ouvi.

O segundo exemplo que eu quero dar quanto ao paradoxo da nossa situação humana tem a ver com o progresso social.

O fato de homens e mulheres (até mesmo as pessoas mais corruptas) conservarem vestígios da imagem divina em que foram criados é evidente. Por isso é que, de uma maneira geral, todos os seres humanos preferem a justiça à injus­tiça, a liberdade à opressão, o amor ao ódio e a paz à violência. Este fato de observação cotidiana gera em nós esperanças de mudança social. A maioria das pessoas alimenta visões de um mundo melhor. O fato complemen­tar, no entanto, é que os seres humanos são “retorcidos de egocentrismo” (como Michael Ramsey costumava de­finir o pecado original), e isto impõe limites às nossas expectativas. Os seguidores de Jesus são realistas, não utópicos. É possível melhorar a sociedade — e o registro histórico da influência do cristianismo na sociedade tem sido impressionante. Mas a sociedade perfeita, na qual só “habitará a justiça”, ainda aguarda a volta de Jesus Cristo.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

EVANGELISMO E AÇÃO SOCIAL

Eu mudo, agora, da polarização entre o conservador e o radical, para a do estruturado e o não-estruturado. As estruturas seculares estão desmoronando em todos os lugares. Há uma rebelião mundial contra formas institucionais rígidas e um sentimento universal à procura de liberdade e flexibilidade. A igreja cristã, considerada em muitas partes do mundo como uma das principais estruturas do tradicionalismo, não pode escapar a este desafio de nossos tempos. Além disso, o desafio vem tanto de dentro como de fora. Muitos jovens crentes estão requerendo um novo e não-estruturado tipo de cristianismo, despojado dos obstáculos eclesiásticos que tem sido herdado do passado.

Permita-me classificar as três expressões principais desta onda.

Referem-se à igreja e seu ministério, à direção de cultos públicos, e ao relacionamento com os outros crentes. É perigoso generalizar.

Todavia, alguém pode dizer, em primeiro lugar, que muitos estão procurando igrejas que não tenham cerimônia fixa. Grupos de crentes estão, agora, libertando-se em muitas partes do mundo, libertando-se da tradição e fazendo as coisas à sua maneira.

Em segundo lugar, há um desejo por cultos informais, nos quais o ministro não mais domina, mas onde a participação da congregação é incentivada, onde o órgão é substituído pelo violão e uma liturgia antiga, pela linguagem de hoje, onde há mais liberdade e menos formalidade, mais espontaneidade e menos rigidez.

Em terceiro lugar, há uma rejeição de denominacionalismo e uma nova ênfase bastante corrente em cortar os laços que os prendem ao passado e mesmo a outras igrejas do presente. Eles querem chamar-se “crentes”, mas sem qualquer rótulo denominacional.

Sem dúvida, estas três exigências têm alguma lógica. Elas são fortemente sentidas e poderosamente manifestadas. Não podemos simplesmente considerá-las como irresponsabilidades loucas do jovem. Há uma ampla busca para o livre, o flexível, o espontâneo, o não-estruturado. A geração dos crentes mais velhos e tradicionais precisa entender isso, ser solidária e acompanhar, na medida do possível, o que está acontecendo.  Todos nós concordamos em que o Espírito Santo pode ser (e às vezes tem sido) aprisionado em nossas estruturas e sufocado por nossas formalidades.  Contudo, há algo a ser dito em relação ao outro extremo. Liberdade não é sinônimo de anarquia.

Que argumento pode ser apresentado, então, em favor de alguns tipos de cerimônias e estruturas?

Primeiro: uma igreja estruturada.

Os crentes pertencem a diferentes origens denominacionais e apreciam tradições diferentes.

Contudo, a maioria (talvez todos nós) concorda em que o Fundador da Igreja tencionou que ela tivesse uma estrutura visível.

Verdadeiramente, a Igreja tem o seu aspecto invisível, em que somente, “o Senhor conhece os que são seus”, (II Tm. 2:19).  Mas não podemos refugiar-nos na doutrina da invisibilidade da Igreja verdadeira para negar que Jesus Cristo tinha em mente que seu povo fosse visto e conhecido como tal. Ele mesmo insistiu no batismo como a cerimônia de iniciação na sua Igreja, e batismo é um ato visível e público. Ele também instituiu sua ceia como a refeição da comunhão cristã, pela qual a Igreja identifica a si mesma e exercita disciplina sobre os membros.

Além disto, Ele consagrou pastores para alimentar o seu rebanho.

Portanto, sempre que você tiver batismo, a ceia do Senhor e um pastorado, ou, em termos tradicionais, um ministério e ordenanças, você tem estrutura. Pode ser que seja mais simples e mais flexível do que em muitas denominações históricas, mas continua uma estrutura clara e definida. De mais a mais, seu valor pode ser fortemente discutido em termos de ter-se um ministério e ordenanças que sejam reciprocamente reconhecidos pelas diferentes igrejas.

Segundo: adoração formal.

Em particular, sou completamente a favor da adoração espontânea, exuberante, alegre e barulhenta do jovem, ainda que, algumas vezes, possa ser doloroso, como experimentei uma vez, em Beirute, quando o meu ouvido direito estava a apenas algumas polegadas do trombone.  Alguns de nossos cultos são por demais formais, sérios e maçantes. Ao mesmo tempo, em algumas reuniões modernas, a quase total noção de reverência perturba-me. Parece que alguns acham que a principal evidência da presença do Espírito Santo é o barulho.

Temos nos esquecido de que uma pomba é tanto um emblema do Espírito quanto o vento e o fogo? Quando Ele visita o seu povo em poder, às vezes, traz quietude, silêncio, reverência e temor. Sua voz mansa e delicada é ouvida. Homens curvam-se maravilhados diante da majestade do Deus vivo e o adoram: “O Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra!”. Eu não estou sugerindo que reverência e formalidades sigam sempre juntas, pois reuniões informais podem também ser reverentes, ao passo que cultos formais podem ter seriedade e beleza sem ter uma verdadeira reverência espiritual. Mas onde seriedade e reverência são encontradas em conjunto, a adoração oferecida é bastante agradável a Deus.

Terceiro: um princípio de conexão.

A maioria de nós desejaria insistir em, pelo menos, um certo grau de independência para a igreja local que, em conformidade com o Novo Testamento, é uma manifestação local e visível da Igreja universal. E a igreja local (não apenas a igreja universal), é chamada o templo de Deus e o corpo de Cristo: a igreja local: (I Coríntios 3:16; 12:27) e a igreja universal: (Efésios 2:19-22; 4:14-16). Contudo, é possível levar este princípio da autonomia da igreja local longe demais e, virtualmente, ignorar todos os crentes do passado e do presente. Quando isto acontece, a igreja local tem-se tornado tão auto-suficiente que menospreza a Igreja de Deus no tempo e no espaço. Precisamos, portanto, lembrar-nos de certas verdades bíblicas que o povo cristão (especialmente o jovem) tende a esquecer. Estão eles interessados somente no presente? Estão eles, a geração de agora, fazendo eco ao famoso dito de Henry Ford que “história – discurso insincero”? Às vezes parece que sim. Mas, em que tipo de Deus crêm eles? Pois o Deus da Bíblia é o Deus da história, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, de Moisés e dos profetas, dos apóstolos e da Igreja apostólica, que cumpre seus propósitos através dos séculos. Se Deus é o Senhor da história, como podemos nós ignorá-la ou não nos interessar por ela? Ele é, também, o Deus de toda a igreja. A unidade da Igreja é derivada da unidade de Deus. E porque há um só Pai, há uma só família, e um só Senhor, há uma só fé, uma só esperança e um só batismo; e porque há um só Espírito, há somente um corpo: (Efésios 4:4-6).  Portanto, toda a questão do relacionamento com outros crentes é controversa e complicada, e certamente as Escrituras não nos dão autoridade para procurar ou assegurar unidade sem verdade. Mas não nos dá, tampouco, autoridade para buscar a verdade sem unidade.  Independência é conveniente. Mas também o é a comunhão na fé comum que professamos.

Mais uma vez meu argumento é que não polarizemos nesta questão.

Há um lugar necessário na Igreja de Cristo, tanto para o estruturado como para o não-estruturado, tanto para o formal como para o informal, tanto para o sério como para o espontâneo, tanto para a independência como para a comunhão.

A igreja primitiva apresenta-nos um exemplo saudável neste assunto.  Lemos que imediatamente depois do dia de Pentecostes, os crentes cheios do Espírito Santo estavam “unânimes todos os dias no Templo, partindo o pão em casa”, (Atos 2:46). Assim, eles não rejeitaram imediatamente a igreja institucional. Eles procuraram reformá-la em conformidade com o Evangelho.  E eles simplesmente complementavam as reuniões formais de oração do Templo com reuniões em suas próprias casas. Parece-me que cada congregação deveria incluir no programa tanto cultos mais formais na igreja quanto reuniões informais de comunhão nos lares. Os mais antigos membros tradicionais da igreja, que amam a liturgia, precisam experimentar a liberdade do culto no lar, ao passo que os mais novos, que amam o barulho e a espontaneidade, precisam experimentar a seriedade e reverência dos cultos formais da igreja. A combinação é muito saudável!

A Quarta polarização desnecessária diz respeito às nossas responsabilidades evangelísticas e sociais. Tem sido sempre uma característica dos evangélicos ocupar-se com evangelismo. Tanto assim que não é raro encontrarmo-nos com uma confusão de termos, como se “evangélico” e “evangelístico” significassem a mesma coisa. Na nossa ênfase evangélica em evangelismo, temos compreensivelmente reagido contra o tão falado “evangelho social” que substitui salvação individual por melhoramento social e, apesar do notável testemunho da ação social dos evangélicos do século dezenove, nós mesmos temos suspeitado de qualquer envolvimento deste tipo. Ou, se temos sido ativos socialmente, temos tido a tendência de concentrar-nos nas obras de filantropia (cuidando dos acidentes de uma sociedade doente) e tomado cuidado para evitar política (as causas de uma sociedade doente).

Algumas vezes, a polarização na igreja tem parecido ser completa, com alguns exclusivamente preocupados com evangelismo e outros com ações político-sociais. Como um exemplo para o primeiro, tomarei alguns grupos do tão falado “Povo de Jesus”. Ora, estou muito longe de querer ser crítico de todo o movimento. Contudo, uma das minhas inúmeras hesitações diz respeito às comunidades de Jesus que parecem ter rejeitado a sociedade e se retirado para a comunhão individual, fazendo cultos evangelísticos ocasionais, no mundo fora da comunidade. Vernon Wishart, um ministro da Igreja Unida do Canadá, escreveu sobre o Povo de Jesus em novembro de 1972, num artigo da revista “Observer”, órgão oficial da sua igreja. Ele descreveu o movimento como “uma reação ao profundo mal-estar cultural e social” e uma tentativa para “vencer uma depressão do espírito humano” causada pela tecnocracia materialista. Mostrou-se admirador do genuíno zelo cristão por eles manifestado: “Como crentes primitivos, eles simplesmente vivem de uma maneira amorosa, estudando as Escrituras, partindo o pão juntos e compartilhando os recursos’. E ele reconheceu que o intenso relacionamento pessoal deles com Jesus, e de um para com o outro era um antídoto à despersonalização da sociedade moderna. Ao mesmo tempo, ele viu este perigo: “Voltar-se para Jesus pode ser uma tentativa desesperada de desviar- se do mundo no qual ele encarnou. Como as drogas, a religião de Jesus pode ser uma fuga de nossa tecnocultura”. Nesta última frase, Vernon Wishart colocou o dedo no problema principal: Se Jesus amou o mundo de tal maneira que entrou nele através da encarnação, como podem seus seguidores proclamar que amam o mundo procurando escapar dele? Sir Frederick Catherwood escreveu: “Procurar melhorar a sociedade não é mundanismo, mas amor.

Lavar as mãos da sociedade não é amor, mas mundanismo” (Is  Revolution Charnge?, editado por Brian Griffths, IVP, 1972, p. 35).

A polarização oposta parece ter sido evidente na Assembléia da Comissão do Conselho Mundial de Igrejas sobre Missão e Evangelismo Mundial, realizada em Bangkok, em janeiro de 1973. Por ter sido intitulada “Salvação hoje”, muitos tiveram a esperança de que uma definição nova de salvação surgiria, quer seria tanto fiel às Escrituras como relevante para o mundo moderno. Porém, ficamos decepcionados: Os documentos preparatórios e a própria conferência tentaram redefinir salvação em termos quase inteiramente sociais, econômicos e políticos. É verdade que houve referências à salvação pessoal do pecado e que o propósito da convocação para uma moratória de dez anos no envio de dinheiro e pessoal missionário para as igrejas do Terceiro Mundo foi ajudá-las a tornarem-se auto- suficientes.

Contudo, a impressão geral de Bangkoki é que o labor missionário e evangelístico estão sem apoio nos círculos ecumênicos, ao passo que a missão real da igreja, segundo o Conselho Mundial de Igrejas, é identificar-se com os atuais movimentos de libertação: “Nos vemos as lutas por justiça econômica, liberdade política e renovação cultural como os elementos da libertação total do mundo, através da missão de Deus “(Bangkok Assembly 1973, p. 89).

Destes dois extremos, a falha característica dos evangélicos encontra-se mais na primeira que na Segunda polarização. Nós certamente não estamos confundindo justiça com salvação, mas temos frequentemente falado e nos comportado como se pensássemos que nossa única responsabilidade cristã para com uma sociedade não convertida fosse evangelismo, a proclamação das boas-novas de salvação. Nos últimos anos, contudo, tem havido bons sinais de mudança. Temos ficado desiludidos com a mentalidade da “tentativa abandonada” com a tendência de escolher não participar da responsabilidade social e com a tradicional obsessão fundamentalista da “micro-ética” (a proibição de coisas mínimas) e a negligência correspondente da “macro- ética” (os grandes problemas de raça, violência, pobreza, poluição, justiça e liberdade). Tem havido também, um recente reconhecimento dos princípios bíblicos para a ação social cristã, tanto teológica quanto ética.

Teologicamente, tem havido um redescobrimento da doutrina da criação. Tendemos a ter uma boa doutrina da redenção e uma péssima doutrina da criação. Naturalmente, temos tido uma reverência de lábios à verdade de que Deus é o Criador de todas as coisas, mas, aparentemente, temos estado cegos para as implicações disto. Nosso Deus tem sido por demais “religioso”, como se o seu principal interesse fosse cultos de adoração e oração frequentados por membros de igrejas. Não me entenda mal: Deus tem prazer nas orações e louvores do seu povo. Mas, agora, começamos a vê-lo, também (como a Bíblia sempre o retratou), como o Criador, que está interessado tanto pelo mundo secular quanto pela Igreja, que ama a todos os  homens e não somente os crentes, e que tem interesse na vida como um todo,  e não meramente na religião.

Eticamente, há um redescobrimento da responsabilidade do amor pelo próximo, que é o seguinte mandamento: “Amar nosso próximo como amamos a nós mesmos”. O que isto significa na prática será determinado pela definição das Escrituras sobre “o nosso próximo”. O nosso próximo é uma pessoa, um ser humano, criado por Deus. E Deus não o criou como uma alma sem corpo (para que pudéssemos amar somente sua alma), nem como um corpo sem alma (para que pudéssemos preocupar-nos exclusivamente com seu bem-estar físico), em tampouco um corpo-alma em isolamento (para que pudéssemos preocupar-nos com ele somente como um indivíduo, sem nos preocupar com a sociedade em que ele vive). Não!

Deus fez o homem um ser espiritual, físico e social. Como ser humano, o nosso próximo pode ser definido como “um corpo-alma em sociedade”.

Portanto, a obrigação de amar o nosso próximo nunca pode ser reduzida para somente uma parte dele. Se amamos nosso próximo como Deus criou (o que é mandamento para nós), então, inevitavelmente, estaremos preocupados com o seu bem-estar total, e bem-estar do seu corpo, da sua alma e da sua sociedade. Martin Luther King expressou isto muito bem:

“Religião trata tanto com o Céu como com a terra… Qualquer religião que professar estar preocupada com as almas dos homens e não está preocupada com a pobreza que os predestina à morte, com as condições econômicas que os estrangula e com as condições sociais que os tornam paralíticos, é uma religião seca como poeira” (My life wih Martin Luther King Jr. Por Coretta King, Hodder 1970, p. 127). Eu acho que deveríamos adicionar que “uma religião seca como poeira”, é na realidade, uma religião falsa.

É verdade que o Senhor Jesus ressurrecto deixou a Grande Comissão para a sua Igreja: pregar, evangelizar e fazer discípulos. E esta comissão é ainda a obrigação da Igreja. Mas a comissão não invalida o mandamento, como se “amarás o teu próximo” tivesse sido substituído por “pregarás o Evangelho”. Nem tampouco reinterpretar amor ao próximo em termos exclusivamente evangelísticos. Ao contrário, enriquece o mandamento amar o nosso próximo, ao adicionar uma dimensão nova e cristã, nomeadamente a responsabilidade de fazer Cristo conhecido para esse nosso próximo.

Ao rogar que deveríamos evitar a escolha mais do que ingênua entre evangelismo e ação social, eu não estou supondo que cada crente deva estar igualmente envolvido em ambos. Isto seria impossível. Além disso, devemos reconhecer que Deus chama pessoas diferentes e as dota com dons apropriados à sua chamada. Certamente cada crente tem a responsabilidade de amar e servir o próximo à medida que as oportunidades se manifestam, mas isto não o inibirá de concentrar-se – conforme sua vocação e dons – em alguma incumbência particular, seja alimentando o pobre, assistindo ao enfermo, dando testemunho pessoal, evangelizando no lar, participando na política local ou nacional, no serviço comunitário, nas relações raciais, no ensino ou em outras boas obras.

Embora cada crente, individualmente, deva descobrir como Deus o tem chamado e dotado, aventuro-me a sugerir que a igreja evangélica local, como um todo, deve preocupar-se com a comunidade secular local como um todo.  Uma vez que isto seja aceito, em princípio. Crentes individuais, que compartilham as mesmas preocupações, seriam incentivados a juntar-se em “grupos de ação e estudo”. Não para ação sem estudo prévio, nem para estudo sem ação consequente, mas para ambos. Tais grupos, com responsabilidade, considerariam em oração um problema particular, com a intenção de agir atacando o problema. Um grupo poderia estar preocupado com o evangelismo num novo conjunto habitacional, no qual (até onde é conhecido) não mora nenhum crente, ou com uma seção particular da comunidade local – uma república para estudantes, uma prisão, estudantes recém-formados etc. Um outro grupo poderia dedicar-se aos problemas dos imigrantes e das relações raciais, de uma favela de área e de habitações deficientes, de um asilo para velhos desamparados ou de um hospital; de pessoas idosas que têm pensão, mas se sentem sós, de uma clínica local de aborto, ou de uma casa de prostituição. A possível lista é quase interminável. Mas se os membros de uma congregação local fossem compartilhar as responsabilidades evangelísticas e sociais da igreja em conformidade com seus interesses, chamadas e dons, muito trabalho construtivo poderia certamente ser feito na comunidade.

Eu não conheço qualquer outra declaração de nossa dupla responsabilidade cristã, social e evangelística, melhor do que aquela feita pelo Dr. W.A. Visser: “Eu creio”, disse ele, “que com respeito à grande tensão entre a interpretação vertical do Evangelho como essencialmente preocupada  com o ato da salvação de Deus na vida dos indivíduos e a interpretação horizontal disto, como principalmente preocupada com as relações humanas  no mundo, devo fugir daquele movimento oscilatório mais do que primitivo  de ir de um extremo para o ouro. Um cristianismo que tem perdido sua dimensão vertical tem perdido seu sal e é, não somente insípido em si mesmo, mas sem qualquer valor para o mundo.

Mas um cristianismo que usaria a preocupação vertical como um meio para escapar de sua responsabilidade pela vida comum do homem é uma negação do amor de Deus pelo mundo, manifestado em Cristo. Deve tornar-se claro que membros de igreja que de fato negam suas responsabilidades com o necessitado em qualquer parte do mundo são tão culpados de heresias quanto todos os que negam este ou aquele artigo da Fé”. O meu argumento neste livreto tem sido a favor de um cristianismo bíblico equilibrado, no qual se evitam as polaridades comuns do mundo cristão – e especialmente do mundo evangélico.

Precisamos enfatizar, tanto o intelecto como o emocional, lembrando  que nada coloca o coração em fogo como a verdade; tanto o conservador  como o radical, resolvido a conservar as Escrituras, mas a avaliar a cultura em  conformidade com a Bíblia; tanto o estruturado como o não-estruturado, pois  um pode completar o outro; e tanto o evangelístico como o social, pois  nenhum deles pode ser um substituto, uma capa ou uma desculpa para o  outro, desde que cada um sustente a si próprio como uma expressão, para o  qual Deus, o Senhor, ainda chama o seu povo. Em pelo menos nestas quatro áreas (que não são as únicas), temos uma boa autoridade bíblica para substituir um excessivo e ingênuo “um-ou” por um maduro “ambos-e”. Coloquemos, pois, nossos pés com confiança nos dois polos, simultaneamente. Não nos permitamos polarizar!

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

TRADIÇÃO E LIBERDADE

A Segunda polarização desnecessária na igreja contemporânea refere-se a “conservadores” e “radicais”. Devemos começar pela definição dos termos. Por “conservador” estamo-nos referindo às pessoas que estão determinadas a conservar ou preservar o passado e são, por isso, resistentes a mudanças. Por “radical” referimo-nos às pessoas que estão em rebelião contra o que é herdado do passado e estão, por isso, fazendo agitações por mudanças.

Deixai-me, agora, definir mais precisamente em que sentido cada crente deveria ser um conservador e um radical, ao mesmo tempo: Cada crente deveria ser conservador porque toda a Igreja é chamada por Deus para conservar sua revelação, para “guardar o depósito” (I Timóteo. 6:20; II Timóteo 1:14), para “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”, Judas 3. A tarefa da Igreja não é continuar inventando novos evangelhos, novas teologias, novas moralidades e novos cristianismos, mas, antes, ser uma guardiã fiel do único Evangelho eterno, pois a auto revelação de Deus alcançou sua consumação no seu Filho Jesus Cristo e no testemunho apostólico de Cristo, preservado no Novo Testamento. Isto não pode ser alterado de forma alguma: É imutável em verdade e autoridade.

Os quatro autores do livro “Growing into Union” (Crescendo em União) expressaram este ponto com vigor: “A primeira tarefa da Igreja é manter as boas-novas intactas. É melhor falar do hábito mental que esta vocação requer como “conservacionista” do que como “conservador”, pois a Segunda palavra pode facilmente sugerir uma tendência antiquária: por ser antigo, por ser velho, e uma resistência cega ao pensamento novo, e não é absolutamente a respeito disso que estamos falando.

Antiquarianismo e obscurantismo são vícios da mente cristã, mas conservadorismo está entre as suas virtudes” (SPCK 1970, p. 103).

Alguns crentes, contudo, não limitam o conservantismo deles à teologia bíblica que professam. O fato é que são conservadores por natureza. Eles são conservadores na política e na perspectiva social, no estilo de vida, no estilo de vestir, no estilo de cortar o cabelo, no estilo da barba, em qualquer outro tipo de estilo que se mencione.

Não estão apenas atolados na lama, a lama deles endureceu como concreto. Mudança de qualquer tipo é anátema para eles. São como o duque inglês, o qual teria dito durante seus dias de estudante na Universidade de Cambridge: “Qualquer mudança, em qualquer tempo e por qualquer razão, deve ser deplorada!” O slogan favorito é: “Como foi no princípio, é agora e será para sempre. Amém!”

Um “radical”, por outro lado, é alguém que faz perguntas grosseiras sobre as tradições estabelecidas. Ele não considera qualquer tradição, qualquer convenção e qualquer instituição (ainda que antiga) como sendo sacrossanta. Ele não reverencia “vaca sagrada” alguma. Pelo contrário, está preparado para submeter qualquer coisa herdada do passado ao escrutínio crítico. E seu escrutínio geralmente leva-o a querer reformas, até mesmo revolução (embora, sendo um crente, opte pela não-violência). um radical reconhece a rapidez com que a cena do mundo está mudando hoje. Ele não se sente ameaçado por isto, nem é seu primeiro instinto comportar-se como o rei Canute e tentar prender a mudança da maré crescente. Alvin Toffer define “choque do futuro”, a expressão que ele inventou, como paralelo a “choque cultural”, nestes termos: “choque do futuro é a desorientação vertiginosa produzida pela chegada prematura do futuro. Pode bem ser a mais importante moléstia de amanhã…” (p.19). Mas o radical não fica chocado com isto. Sabendo que mudanças são inevitáveis, ele dá-lhes as boas-vindas e se ajusta para a chegada de qualquer mudança. E até mesmo a inicia. Parece então à primeira vista, que conservadores e radicais estão em oposição e que não podemos fazer outra coisa senão polarizar nesta questão.  Mas não é bem assim. Não é bem entendido que nosso Senhor Jesus Cristo foi conciliatoriamente um conservador e um radical, embora em esferas diferentes. Não existe a menor dúvida de que ele foi um conservador em sua atitude para com as Escrituras. As Escrituras não podem ser anuladas, “nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido”, (João 10:17; Mateus 5:17,18). Uma das principais queixas de Jesus contra os líderes judeus da sua época referia-se ao desrespeito por parte deles pelas Escrituras do Velho Testamento e à falta de uma verdadeira submissão à sua autoridade divina.

Mas Jesus pode também ser verdadeiramente descrito como um radical.  Ele foi um crítico mordaz e destemido do tradicionalismo judeu, não somente devido à insuficiente lealdade que havia para com a Palavra de Deus, mas, também, devido à lealdade exagerada às próprias tradições humanas. Jesus teve a temeridade de lançar fora séculos de tradições que tinham sido herdadas, “as tradições dos anciãos”, para que a Palavra de Deus pudesse ser apreciada e novamente obedecida. (Marcos 7:1-13). Ele foi, também, muito ousado nas violações das convenções sociais. Insistiu em preocupar-se com todas as áreas da comunidade que eram normalmente menosprezadas: falou com mulheres em público, o que não era aceito nos seus dias, convidou crianças para que viessem a Ele, embora na sociedade romana crianças rejeitadas fossem geralmente “abandonadas” ou deixadas ao relento, o que levou os discípulos a acharem que ele não gostaria de ser incomodado por elas. Ele permitiu que prostitutas o tocassem (os fariseus afastavam-se delas horrorizados) e Ele mesmo, na realidade, tocou num leproso intocável (os fariseus apedrejavam-nos para que fossem mantidos à distância). Destas e de outras maneiras, Jesus recusou-se a ser preso por costumes humanos: sua mente e consciência estavam presas unicamente à Palavra de Deus.

Por conseguinte, Jesus foi uma combinação única do conservador e do radical:  conservador em relação às Escrituras, e radical no eu escrutínio (seu escrutínio bíblico) de todas as outras coisas.

Ora, o discípulo não está acima do seu mestre, como Jesus frequentemente dizia. Portanto, se Jesus pode combinar conservadorismo e radicalismo, assim podemos nós, que afirmamos segui-lo. Verdadeiramente, devemos fazê-lo, se formos leais a Ele. Há uma necessidade urgente para que mais “CRs “surgem na Igreja; agora, não mais representando as iniciais para católicos romanos, mas para conservadores radicais. É uma necessidade que cristãos evangélicos desenvolvam um discernimento mais crítico entre o que não é possível ser modificado e o que pode, e mesmo deve ser.

Deixai-me dar um exemplo do que não é possível ser modificado:

Era costume, nos dias passados, ter o Pai Nosso, os Dez Mandamentos e o Credo dos Apóstolos pintados na parede leste de muitas igrejas inglesas, para ser visto e lido por todos. Na igreja de uma vila, as letras tinham ficado desbotadas e um pintor desenhista foi contratado para retocá-las. Na ocasião oportuna (assim a estória é contada), o conselho da igreja ficou alarmado com a conta que lhe foi apresentada.

Acontecendo isso antes da implantação do sistema decimal, a conta foi lida como segue:

Pela reparação do Pai Nosso 10 s.

Pelos três Mandamentos novos 12s.

Por ter feito um Credo completamente novo 17s 6d.

Por outro lado, embora tenhamos autoridade para alterar o Credo ou os Mandamentos que Deus tem revelado, todavia (como Leighton Ford disse corretamente, em 1959, no Congresso Americano sobre Evangelismo, em Minneápolis) “Deus não está preso ao inglês do século dezessete, nem aos hinos do século dezoito, nem à arquitetura do século dezenove, nem aos clichês do século vinte”, nem (alguém pode adicionar) a muitas outras coisas.  Embora Ele mesmo nunca mude, nem tampouco sua revelação, Ele é, também, o Deus que age, chamando sempre o seu povo para empreendimentos novos e venturosos.

Mais particularmente, todos nós necessitamos discernir com clareza entre Escrituras e cultura. As Escrituras são a Palavra de Deus eterna e imutável, mas cultura é uma mistura de tradição eclesiástica, convenção social e criatividade artística. Seja qual for a “autoridade” que a cultura possa ter, ela é derivada da Igreja e da comunidade, não podendo exigir uma imunidade ao cristianismo ou reforma. Pelo contrário, cultura muda de época para época e de lugar para lugar. Além do mais, nós crentes, que dizemos desejar viver sob a autoridade da Palavra de Deus, deveríamos submeter nossa cultura contemporânea a um contínuo escrutínio bíblico. Longe de ressentirmo-nos com a mudança cultural ou de resistirmos a ela, deveríamos estar na linha de frente, junto aqueles que trabalham por uma modificação progressiva, para fazer com que a mudança realmente expresse, cada vez mais, a dignidade do homem e seja mais agradável ao Deus que os criou. Numa recente visita aos Estados Unidos, fiquei impressionado com um grupo de estudantes que encontrei em Trinity Evangelical Divinity Shooll, em Deerfield, llinois. Eles pertenciam aos mais diversos grupos, mas achavam-se unidos no compromisso para com o cristianismo bíblico, no desencanto com muito do cristianismo americano contemporâneo e na determinação de descobrir uma aplicação radical do cristianismo bíblico aos grandes assuntos do dia. De modo que eles se reuniam num grupo de estudo e oração, do qual surgiu a coligação Cristã do Povo (The People’s Christian Coalition), cujo órgão oficial é o “The Post-American”. O primeiro número publicado em fevereiro de 1971 tinha uma representação do Senhor Jesus na primeira folha, coroado com espinhos, manietado e envolto com as estrelas e listas da bandeira americana. Muitos pensaram que o retrato fazia paralelo com a blasfêmia. Mas eu não compartilhei com a mesma reação. Pelo contrário, achei que foi uma expressão genuína que eles tinham pela honra de Cristo.  Jim Wallis publicou no seu editorial: “A ofensa da religião estabelecida é a proclamação e a prática de uma caricatura de cristianismo inculturado, domesticado e sem vida, que nossa geração fácil e naturalmente rejeita. Nós achamos que a igreja americana está cativa dos valores e estilo de vida da nossa cultura. O cativeiro da igreja americana tem resultado na desastrosa equação: a maneira americana de vida somada à maneira cristã de vida”.

Exatamente o mesmo poderia ser dito da expressão cultural do cristianismo em outras partes do mundo. Este é um dos principais problemas em muitas igrejas do Terceiro Mundo, que foram estabelecidas por missões da Europa e da América do Norte, e estão agora procurando suas próprias identidades indígenas. Estas igrejas confrontam-se com dois problemas culturais. O primeiro diz respeito à cultura nativa ou tribal, talvez especialmente na África. Os líderes nacionais reconhecem que alguns costumes africanos tradicionais refletem a origem pagã e são incompatíveis com a fé, amor e justiça cristã. O segundo problema diz respeito à cultura estrangeira (seja europeia ou americana) que, muito frequentemente, foi importada para o Terceiro Mundo com o Evangelho. É, em parte, porque esta invasão cultural tem parecido para muitos como uma afronta à própria dignidade nacional, é que muitos deles chegaram ao “fora com a religião do homem branco”. Naturalmente, o clamor está errado. Cristianismo não pertence ao homem branco e, nem tampouco, a qualquer outro grupo de homens. Jesus Cristo é Senhor de todas as raças, países e épocas, sem qualquer discriminação. Contudo, é certo para os africanos, asiáticos e latinos americanos procurar desenvolver suas próprias expressões indígenas da verdade cristã. Nesse sentido, o Dr. René Padilha fez um apelo eloquente no Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial, em Lausanne, em julho de 1974, quando atacou o que chamou de “cristianismo cultural”.

Por conseguinte, líderes cristãos de igrejas jovens necessitam de grande sabedoria para discernir não apenas entre cultura nacional e cultura importada, mas, também, entre o que em ambas as culturas é honrável a Cristo e o que não é; o que tem valor e o que não tem. Eles precisam, também, coragem para reter uma coisa e rejeitar a outra.

O cristianismo europeu cujas raízes alcançam, aproximadamente, 2000 anos, está, também, profundamente enraizado na cultura dos séculos. Não é sem sentido que podemos falar sobre luteranismo, anglicanismo, presbiterianismo, metodismo e, mesmo, irmanismo. Cada um deles é uma forma tradicional ou cultural do cristianismo histórico que colore não somente nossos formulários doutrinários, mas nossa liturgia (ou falta de liturgia) e música; o formato e a decoração dos nossos templos, nossos métodos pastorais e evangelísticos, e tudo o que fazemos como igreja. Tudo isto deve ser submetido à investigação bíblica regular e crítica.

Portanto, quando resistimos a mudanças – sejam elas na igreja ou na sociedade, devemos perguntar-nos se são, na realidade, as Escrituras que estamos defendendo (como é nosso costume insistir ardorosamente) ou, se ao contrário, é alguma tradição apreciada pelos anciãos eclesiásticos ou de nossa herança cultural. Isto não quer dizer que todas as tradições, simplesmente por serem tradicionais, devam a qualquer custo ser lançadas fora. Iconoclasmo sem crítica é tão estúpido quanto conservantismo em crítica, e é algumas vezes mais perigoso. O que eu estou enfatizando é que nenhuma tradição pode ser investida com uma espécie de imunidade diplomática à examinação.  Nenhum privilégio especial pode ser-lhe reivindicado.

Quando, por outro lado, clamamos por mudanças, devemos estar certos de que não é contra as Escrituras que estamos nos rebelando, mas contra alguma tradição não-bíblica, que é, portanto, aberta à reforma.

Se é “não-bíblica” no sentido de ser claramente contrária às Escrituras, então devemos atacar o assunto corajosamente e trabalhar muito para sua abolição. Se é “não- bíblica” no sentido de não ser requerida pelas Escrituras, então devemos mantê-la sob revisão crítica.

Mas frequentemente do que a maioria de nós sabe ou procura admitir, nós revestimos nossas ideias e costumes culturais com uma autoridade, verdade e imutabilidade que somente pertencem às Escrituras. Mas são parte da nossa segurança. Quando são ameaçados, nós nos sentimos ameaçados também. Assim, evitamos qualquer risco e lutamos vigorosamente para defender essas coisas, às quais nos agarramos.

Outras vezes, nós nos posicionamos por demais fracamente em relação às Escrituras e tratamos a Palavra de Deus como se pudéssemos colocá-la de lado tão facilmente quanto o fazemos com as opiniões e tradições humanas.  Por conseguinte, provamos que somos cristãos mundanos, que têm a tal ponto absorvido a onda antiautoritária do mundo que nem mesmo estamos preparados para viver sob a autoridade de Deus e de Sua Palavra, pela qual ele governa o seu povo.

Os crentes contemporâneos são chamados para andar nesta corda apertada. Nós não devemos resistir às mudanças totais. Além disso, mesmo em questões abertas à mudança, devido à liberdade dada pelas Escrituras, não devemos ser inconoclastas. Crentes que creem no deus da história e na atividade do Espírito Santo no decorrer da história da Igreja, não podem deleitar-se com mudanças, simplesmente por mudar. Algumas vezes, como Jesus disse, “melhor é o velho” (Lucas. 5:39), porque tem aguentado a prova do tempo. Devemos, também, ser sensíveis ao conservantismo dos crentes de gerações mais antigas; eles não puderam adaptar-se com facilidade a mudanças, mas foram mais facilmente feridos e perturbados por isso. Somos chamados para um sábio discernimento; instruídos por uma perspectiva bíblica, para que sejamos apreciadores do legado do passado e responsáveis pela disposição do presente. Somente então poderemos aplicar para toda a cultura (na Igreja e na sociedade) um cristianismo bíblico radical e procurar o que nós cremos que poderia ser mudado para melhor, sob a orientação de Deus.

 Os nossos reformadores da igreja da Inglaterra do século dezesseis entenderam bem este princípio, pelo menos na sua aplicação à reforma eclesiástica. Na pequena impressão do Livro de Oração comum há um prefácio intitulado “Das Cerimônias”, que explica porque algumas são abolidas e outras retidas. Isto foi incluído no primeiro Livro de Oração reformado de 1549, que foi provavelmente composto pelo próprio arcebispo Crammer. Ele considera que, “neste nosso tempo, as mentes dos homens são tão diferentes que alguns pensam que é um grande problema de consciência abandonar, por menor que seja, as cerimônias, pois eles estão presos aos costumes antigos, mas, por outro lado, alguns são tão modernos que inovariam todas as coisas e, assim, desprezariam as antigas, de maneira que somente o que é novo lhes é favorável’. Similarmente ao prefácio, que explica os princípios que regeram a revisão do “Livro de Oração” em 1662, começa: “Tem sido sábia por parte da igreja da Inglaterra, desde a primeira compilação da Liturgia Pública, manter um equilíbrio entre os dois extremos, de rigidez demasiada em recusar, e de facilidade demasiada em admitir, qualquer alteração disto. “Possa Deus dar-nos esta mesma sabedoria hoje e, também, dar-nos a coragem de aplicá-la não somente para os assuntos eclesiásticos, mas também nos assuntos sociais, éticos e políticos!

Talvez eu poderia expressar-me em termos biológicos para dizer que nós necessitamos de moscas varejistas cristãs para aferroar-nos e impelir-nos a agir em busca de mudanças e, também de cães de guarda cristãos que latirão, alta e longamente, se mostramos qualquer sinal de comprometimento da verdade bíblica. Nenhum dos dois, moscas varejistas e cães de guarda, são companhias fáceis de se conviver com eles, nem tampouco acham eles a companhia um do outro compatível. Contudo, as moscas varejistas não devem picar os cães de guarda, nem devem os cães de guarda comer as moscas varejistas. Eles devem aprender a coexistir na Igreja de Deus e a executarem seus papéis ao concentrar a atenção em nós, a maioria do povo de Deus, que, desesperadamente, necessitamos do ministério de ambos.

Tendo advertido sobre os perigos de mudanças demasiadas ou de nenhuma, concluo este capítulo dizendo que o perigo maior (pelo menos entre os evangélicos) é confundir cultura com Escrituras, ser conservador e tradicionalista demais, estar cego a todas as coisas, na Igreja e na sociedade, que desagradam a Deus e que deveriam, portanto, desagradar-nos, ter os pés enterrados no status quo e resistir firmemente à mais desconfortável de todas as experiências: MUDANÇAS.

Extraído do Livro “CRISTIANISMO EQUILIBRADO”, de John Sttot

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

INTELECTO E EMOÇÃO

O primeiro exemplo situa-se no campo do intelectual e do emocional.  Alguns crentes são tão friamente intelectuais que se questiona serem eles mamíferos de sangue quente, para não dizer seres humanos, ao passo que outros são tão emocionais que se deseja saber se são possuidores de uma porção mínima de massa cinzenta. Eu me sinto constrangido a dizer que o mais perigoso dos dois extremos é o anteintelectualismo de depois a entrega ao emocionalismo. Vemos isto em algumas pregações evangelísticas, que não consistem em outra coisa senão em um apelo para decisão com pouquíssima, ou nenhuma pregação do evangelho e pouca, ou nenhuma, argumentação com o povo a respeito das Escrituras, à maneira dos apóstolos.

A mesma tendência é evidente na atual busca de experiências emocionais, vividas de primeira mão, e na exaltação da experiência como critério da verdade, ao passo que a verdade deveria ser sempre o critério da experiência. O meu receio é que esta tendência seja um legado semicristianizado do existencialismo secular. O que parece Ter filtrado na consciência pública da famosa distinção de Martin Heidegger entre existência “autêntica” e “inautêntica” é que devemos abandonar cada convenção e disciplina e cada estilo de vida imposto que ameace a nossa autenticidade pessoal.

Devemos, acima de tudo, escolher que seremos nós mesmos, pensando e fazendo somente o que nos pareça ser autêntico no momento. À luz deste princípio, tenho ouvido jovens crentes argumentando assim:

“Ninguém pode esperar que eu creia numa doutrina só porque está nas Escrituras; só crerei se a doutrina autenticar-se a mim como verdadeira. Você não pode esperar que eu vá à igreja, que leia a Bíblia ou que ore só porque estes são deveres cristãos; eu somente posso fazer estas coisas se sentir vontade. E eu não posso, possivelmente, amar o meu próximo (para não dizer o inimigo) só porque sou ordenado a fazer isto, mas somente se o Espírito Santo produzir um relacionamento de amor com o próximo, autêntico e real”.

Ao lado da corrente insistência na experiência existencial, segue uma desconfiança, um menosprezo ou intelecto. A fuga da razão é um sinal distintivo da vida secular contemporânea (pelo menos é assim nos Estados Unidos). O professor Richard Hofstadter documentou isto muito bem em seu livro “Anti-intelellectualism in American Life” (Antiintelectualismo na vida americana) (Vintage, 1962). E um impressionante exemplo, recente, pode ser encontrado em Joe McGinness, quando, sob o título “The Selling of the  President 1968” (A Venda do Presidente, 1968), ele relata a campanha  eleitoral de Richard Nixon, em 1968. Os organizadores da campanha ficaram convencidos de que Nixon perdera a eleição para Kennedy, em 1960, porque Kennedy tinha uma imagem televisiva bem melhor que a de Nixton. Então, consultaram Marshall McLuham para orientá-los em como fazer com que Nixon se “projetasse eletronicamente”, e como transformá-lo de “um advogado seco e sem graça” em um “ser humano afetuoso e animado”.  “Política” – o professor MacLuham assegurou-lhes – “é apenas uma ciência racional”.

“Eleições” – insistiu – “não são ganhas na bancada eleitoral apresentada, mas nas imagens. “Faça os eleitores gostarem da cara do sujeito” e a campanha está virtualmente ganha”.

Esta é, naturalmente, uma situação séria, quando uma nação desenvolvida é, então, levada a abdicar de sua responsabilidade política, deixar de debater os assuntos do dia ou formar sua opinião e votar, não pelo que os candidatos são, mas pelo que vulgarmente é chamado de reação “instintiva” aos candidatos. Porém, este tipo de antiintelectualismo é muito mais sério na igreja evangélica, pois a Palavra de Deus ensina que a nossa razão é parte da imagem divina na qual Deus nos criou. Ele é o Deus racional que nos fez seres racionais e nos deu uma revelação racional. Negar nossa racionalidade é, portanto, negar nossa humanidade, vindo a ser menos do que  seres humanos. As Escrituras proíbem que nos comportemos como cavalos e mulas que são “sem entendimento”, e ao contrário, ordenam que sejamos “maduros” em nosso entendimento” Salmos. 32:9, I Coríntios 14:20. De fato, a Bíblia nos diz constantemente que cada área da vida cristã é dependente do uso cristão de nossas mentes. Permita-me dar um exemplo: o exercício da fé.  Muitos acham a fé e inteiramente irracional. Mas as escrituras nunca colocam fé e razão uma contra a outra, como sendo incompatíveis.

Pelo contrário, fé somente pode nascer e crescer em nós pelo uso de nossas mentes:  “em ti confiarão os que conhecem o teu nome” (Sl 9:10); a confiança deles  brota do conhecimento da fidelidade do caráter de Deus. Novamente, em Isaías 26:3: “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti, porque ele confia em ti”. Aqui, confiar em Deus e manter a mente em Deus são sinônimos e uma perfeita paz é o resultado.

À luz desta ênfase bíblica a respeito do lugar da mente na vida cristã, o que é que devemos dizer para a geração moderna dos antiintelectuais, os emocionais? Sinto muito ter de dizer que eles estão se autoproclamando intensamente, como sendo crentes mundanos.

Pois “mundanismo” não é apenas uma questão (como fui ensinado a acreditar) de fumar, beber e dançar, nem tampouco aquela velha questão sobre embelezar-se, ir a cinemas, usar minissaias, mas o espírito do século. Se absorvemos sem qualquer exame os caprichos do mundo (neste caso, o existencialismo), sem que primeiro sujeitemos isto a uma rigorosa avaliação bíblica, já nos tornamos crentes mundanos.

“Temos como princípio fundamental”, disse Wesley para um dos seus primeiros críticos, “que renunciar o uso da razão é renunciar à religião, que “religião e razão seguem de mãos dadas” e que “toda religião irracional é falsa religião” (citado por R.W. Burtner, R. E. Chiles em “A Compend of  Wesley’s Theology”, 1954, p. 26).

Sinto-me na obrigação de acrescentar, contudo, que se o antiintelectualismo é perigoso, a polarização oposta é quase igualmente perigosa. Um hiperintelectualismo árido e sem vida, uma preocupação exclusiva com ortodoxia não é cristianismo do Novo Testamento. Não há dúvida de que os crentes primitivos eram profundamente motivados pela experiência de Jesus Cristo. Se o apóstolo Paulo pode escrever sobre a “excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor”, e o apóstolo Pedro pode dizer que os crentes “alegram-se com gozo inefável e glorioso” (Filipenses. 3:8; I Pedro 1:8), ninguém pode facilmente acusá-los de tristonhos ou insensíveis.

A verdade é que Deus nos fez criaturas, tanto emocionais, como racionais. Não somos apenas mamíferos de sangue quente, mas seres humanos, capazes de sentimentos profundos de amor e de ira, de compaixão e de temor. Escrevo sobre isto com convicção pessoal, pois, de alguma forma, diverge da educação que recebi em escola particular da Inglaterra. Não tenho a menor intenção de morder a mão que me alimentou, pois reconheço o quanto devo aos privilégios educacionais que me foram concedidos. Contudo, sinto-me crítico daquela característica distintiva da tradição da escola particular, conhecida como “o lábio superior rígido”.

Visto que o primeiro sinal externo de profunda emoção interna é geralmente o tremor do lábio superior, mantê-lo rígido é reprimir as emoções e cultivar as virtudes (mais masculino que feminino, mais anglo-saxão que latino) de coragem, vigor e autocontrole. O que não poderia acontecer era um rapaz chorar em público; choramingo era reservado às moças e crianças.  Desde aqueles dias de pré-guerra, contudo, tenho lido o Novo Testamento muitas vezes e descoberto que Jesus não teve o acanhamento de demonstrar suas emoções. Em duas ocasiões diferentes somos informados de que Ele, na realidade, caiu em prantos em público, primeiro ao lado do túmulo de um amigo e, depois, na impenitente Jerusalém. Neste caso, então, Jesus não foi  educado no mesmo sistema, da escola particular britânica!

Se é um perigo negar nosso intelecto, é um perigo também negar nossas emoções. Mesmo assim, é o que muitos de nós estamos fazendo.

Alvin Toffer escreve sobre alguns jovens americanos que estão exibindo os sintomas do que ele chama de “choque do futuro”. Ele se refere a uma pequena aldeia marítima em Creta, cujas 40 ou 50 cavernas estão ocupadas por “trogloditas americanos, desertores”: rapazes e moças que, na maior parte, desistiram de fazer qualquer esforço maior para enfrentar a alta velocidade explosiva das complexidades da vida. Um repórter visitou-os em 1968 e comunicou-lhes a notícia do assassinato de Robert F. Kennedy. Resposta: silêncio: “Nenhum choque, nenhuma emoção, nenhuma lágrima!” É este o novo fenômeno:  Desertores dos Estados Unidos e desertores das emoções. Eu compreendo o não-envolvimento, o desencanto e, mesmo o não-comprometimento. Porém, para onde foi todo o sentimento?” (Future Shock, Pan Books 1971, p.331).

Pamela Hansford Johnson, que fez a reportagem dos horrores sádicos  dos assassinatos dos “Moors”, escreveu que assassinos por lucro ou  gratificação são quase sempre destituídos daquilo que os psicólogos chamam  de “comoção” – capacidade de penetrar nos sentimentos dos outros; e  continuou dizendo: “corremos o risco de criar uma sociedade sem qualquer  comoção, na qual ninguém se preocupe com o ouro, senão consigo mesmo, ou  com outra coisa que não auto-satisfaça instantâneamente.

Procuramos sexo sem amor, violência por “prazer”. Estamos encorajando o entorpecimento da sensibilidade…” (On Iniquity, McMillan 1967, pp. 18 e 24).

Uma das causas da insensibilidade da nossa sociedade é a televisão, pois ela traz para os nossos lares, numa sequência que nunca pára, cenas de violência, brutalidade e tragédia que assaltam tão poderosamente nossas emoções de maneira tal que não conseguimos suportar. Fazemos, então, duas coisas: ou nos levantamos e desligamos o aparelho, ou fazemos pior:  permitimos que a imagem continue a brilhar na tela, mas desligamos o nosso interior do que está sendo mostrado.

Continuamos assistindo, mas sem nos envolver emocionalmente.

Talvez eu possa dar um exemplo pessoal, desta vez não a respeito da televisão, mas de um concerto da peça “O Messias”, de Handel, no Royal Albert Hall. Quando o concerto atingiu seu clímax com o coro Aleluia, com a afirmações majestosas de que “o Senhor Deus onipotente reina… Rei dos reis e Senhor dos senhores” e com o “Amém “final, confesso que fiquei profundamente comovido. Quando os músicos pararam, a audiência explodiu num estrondo de aplausos, que foi uma maneira perfeitamente apropriada de expressar sua apreciação pelo maestro, coro, orquestra e solistas. Mas, então, à medida que os aplausos se extinguiam, todos começaram a pegar seus chapéus e casacos, a rir, a conversar e a empurrarem-se ao se dirigirem para as portas de saída.

Será presunção minha dizer que eu não podia mover-me?  Eu tinha sido transportado para o Céu, para a eternidade, para a presença do próprio grande Rei. Não foi suficiente para mim aplaudir os músicos; eu quis curvar a cabeça e adorar a Deus. Sou eu estranho ao reagir com tão profunda emoção religiosa? Ou será que estou certo ao perguntar o que estão as pessoas fazendo com suas emoções a ponto de ouvir um concerto ou ir a um culto e permanecer insensíveis? Eu não estou questionando por emocionalismo, pois é uma exibição artificial, uma pretensão espúria. Mas emoções, sentimentos genuínos surgidos legitimamente que devem ser expressados, e não sufocados.

Qual, então, a verdadeira relação entre o intelecto e a emoção?

Muhammed Iqbal, o jurisconsulto e poeta, que se tornou presidente da Liga Muçulmana, que preparou o caminho para um Paquistão independente e que trabalhou por um novo entendimento entre o Oriente e o Ocidente, escreveu em um dos seus poemas:

“No Ocidente, intelectos é a fonte da vida.

No Oriente, amor é a base da vida.”

Através do amor, intelecto cresce familiarizado com a realidade.

“Intelecto dá estabilidade ao trabalho do amor.

Levantai e lançai os fundamentos de um novo mundo.

Enlaçando intelecto ao amor”.

Isto está perfeitamente certo. Porém, o intelecto não é prerrogativa do Ocidente, nem o amor (ou emoção), do Oriente. Algumas nações ou raças podem verdadeiramente ter mais de intelecto e outras mais de emoção, mas intelecto e emoção não podem estar restritos a alguns temperamentos ou algumas culturas, pois ambos são parte de toda a humanidade que Deus criou.  Ambos – intelecto e emoção – pertencem à autêntica experiência humana.

Em particular, nada coloca o coração tão em fogo como a verdade.

A verdade não é fria e seca. Pelo contrário, é cheia de calor e paixão, e em qualquer que seja o momento em que novas perspectivas da verdade de Deus surgem diante de nós, não podemos ser apenas contemplativos.

Somos movidos a responder, seja em penitência, ira, amor, ou adoração.

Pense nos dois discípulos a caminho de Emaús; na primeira páscoa, á tarde, quando o Senhor ressuscitado falava com eles. Quando Ele desapareceu, eles disseram um para o outro: “Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava e quando nos abria as Escrituras?” (Lucas. 24:32). Eles tiveram uma experiência emocional durante toda a tarde. Por isso, descreveram a sensação que tiveram como um coração ardente. E qual foi a causa do ardor espiritual? Foi Cristo, abrindo-lhes as Escrituras!

É o mesmo hoje. Sempre que lemos as Escrituras e Cristo as abre para nós, para que captemos verdades novas, nossos corações devem arder dentro de nós. Como F.W. Faber disse: “Teologia profunda é a melhor lenha para a devoção, pega fogo, que é uma beleza e, uma vez acesa, queima por muito tempo” (citado por Ralph G. Turnbull, em A Minister’s Obstacles, 1946, Baker 1972, p. 97).

Esta combinação verdadeira de intelecto e emoção deveria ser visível, tanto na pregação como na compreensão da Palavra de Deus.

Ninguém expressou isto melhor do que o Dr. Martyn Lloyd Jones, que bem define o que é pregação: “Lógica em fogo! Razão eloquente! São contradições? Claro que não! Razão acerca da verdade tem de ser poderosamente eloquente, como você pode verificar no caso do apóstolo Paulo e de outros. É teologia em fogo. E uma teologia que não traz fogo (eu afirmo), é uma teologia defeituosa. Pregação é teologia vinda através de um homem em fogo” (Preaching and Preachers, Hodder & Stoughton 1971, p. 97).

 

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

Unidade, Liberdade e Caridade

Minha preocupação é chamar a atenção para uma das grandes tragédias da cristandade contemporânea, que é especialmente visível no meio de todos nós que somos chamados (e, na verdade, é como nós nos chamamos) cristãos evangélicos. Numa única palavra: essa tragédia chama-se polarização. Serei mais específico sobre o que quero dizer.

O pano de fundo para a tragédia é a nossa substancial concordância no histórico cristianismo bíblico. Nossa união nos fundamentos da fé cristã é coisa grande e gloriosa. Cremos em Deus Pai, infinito e pessoal, santo, criador e sustentador do Universo. Cremos em Jesus Cristo, o único Deus-homem; em seu nascimento virginal, em sua vida encarnada, na autoridade do seu ensino, em sua morte expiatória, na sua ressurreição histórica, e em seu retorno pessoal à terra. Cremos no Espírito Santo por cuja inspiração especial as Escrituras foram escritas e por cuja graça pecadores são hoje justificados e nascidos de novo, transformados na imagem de Cristo, incorporados à Igreja e enviados para servir no mundo. Nestas e em outras grandes doutrinas bíblicas, permanecemos firmes pela graça de Deus, e permanecemos juntos.

Contudo, nós não somos unidos. Nós nos separamos uns dos outros por assuntos pouco importantes. Algumas das questões que nos dividem são teológicas; outras temperamentais. Teologicamente, por exemplo, podemos discordar na relação exata entre soberania divina e responsabilidade humana, na ”ordem”  e ministério pastoral da igreja (se deve ser episcopal, presbiteriano ou independente) e até onde os crentes podem envolver-se numa “mistura” denominacional sem que se comprometam a si mesmos e a fé que  professam; nas relações Igreja-Estado; em quem está qualificado para ser  batizado e no volume de água a ser usado; em como interpretar profecia, em  quais dons espirituais estão disponíveis hoje e quais são os mais importantes.  Estas são algumas das questões nas quais crentes igualmente dedicados e bíblicos discordam entre si. São questões que os reformadores chamam de “adiaforia”, questões “indiferentes”. Desta forma, embora pretendemos continuar defendendo nossa própria convicção das Escrituras, em conformidade com a luz que nos tem sido dada, procuraremos não pressionar dogmaticamente a consciência de outros crentes, mas tratar a cada um com liberdade, em amor e respeito mútuo. Não se pode fazer coisa melhor do que mencionar o famoso epigrama atribuído a um certo Rupert Meldenius e citado por Richard Baxter. Em coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade.

Estamos, também, separados uns dos outros temporariamente.

Esquecemo-nos, às vezes, que Deus ama a diversidade e tem criado uma rica profusão de tipos humanos, temperamentos e personalidades. Além disso, o nosso temperamento tem mais influência na nossa teologia do que geralmente imaginamos ou admitimos. Embora a nossa compreensão da verdade bíblica dependa da iluminação do Espírito Santo, ela é inevitavelmente colorida pelo tipo de pessoa que somos, pela época na qual vivemos e pela cultura a que pertencemos. Alguns de nós, por disposição e formação, são mais intelectuais que emocionais; outros, mais emocionais que intelectuais. Repetindo, a disposição mental de muitos é conservadora (detestam mudanças e sentem-se ameaçados), enquanto outros são, por natureza, rebeldes à tradição (o que eles detestam é monotonia, considerando mudança como algo próprio de sua natureza). Questões como estas surgem de diferenças temperamentais básicas.  Porém, não devemos permitir que o nosso temperamento nos controle. Pelo contrário, devemos deixar que as Escrituras julguem nossas inclinações naturais de temperamento. Caso contrário, acabaremos por perder o nosso equilíbrio cristão.

O título deste ensaio é “Cristianismo Equilibrado”, pois uma das maiores fraquezas que os cristãos (especialmente os evangélicos) manifestam é a tendência para o extremismo ou desequilíbrio. Parece que não existe outro passatempo de que Satanás mais goste do que o de tirar o equilíbrio dos crentes. Embora eu não reivindique qualquer amizade pessoal com ele e nem tampouco qualquer conhecimento íntimo da sua estratégia, suponho ser este um dos seus hobbies favoritos.

Por “falta de equilíbrio”, entendemos o deleite que sentimos em habitar em uma ou outra das regiões extremas da verdade. Se pudéssemos apoiar-nos em ambos os polos, simultaneamente, exibiríamos um saudável equilíbrio bíblico. Em lugar disto, tendemos a “cair em extremos”. Como

Abraão e Ló, nos separamos uns dos outros. Empurramos outras pessoas para um polo, enquanto que o polo oposto é mantido como nossa propriedade.

Teologicamente falando, ninguém na história da igreja britânica nos preveniu melhor deste perigo do que Charles Simeon, professor do Kings Colige e pároco da igreja Hely Trinity, em Cambridge, no início do século passado. Considere esta conversa imaginária com o apóstolo Paulo, que ele incluiu numa carta para um amigo em 1825. “A verdade não está no meio e nem no extremo, mas nos dois extremos. Aqui estão dois extremos:  calvinismo e arminianismo. – Paulo, como te situas em relação a eles? No meio-termo intermediário? – Não. – Nos extremos? – Não. – Como então? –  Nos dois extremos: hoje eu sou um calvinista convicto: amanhã, um convicto arminiano. – Bem, bem, Paulo, compreendo a tua esperteza: vai a Aristóteles e aprende o meio termo intermediário!

Simeon continua: – “Mas, meu irmão, eu sou um desventurado. Primeiramente li Aristóteles e gostei muito; mas, desde que comecei a ler Paulo, tenho captado algo de seus estranhos conceitos, oscilações (não vacilações) de um polo para o outro. Às vezes, sou um poderoso calvinista e, outras, um débil arminiano. Desta forma, se extremos te deleitarem, sou a pessoa certa para ti; lembra-te somente: não é para um extremo que devemos ir, mas para ambos” – um adágio que Charles Smyth descreveu como “tão naturalmente desconcertante para a mente inglesa” (Memoirs of the Life of the Ver. Charles Simeon, editado por Willian Carus 1847, p. 600. Simeon and Church Order por Charles Smyth, 1940, p. 185).

As palavras de Simeon são sabedoria para hoje. Sejam nossas polarizações basicamente teológicas ou temperamentais, devemos evitá-las.  Meu irmão, permita-me dar quatro exemplos da inutilidade de polarizações desnecessárias, o que será feito nos capítulos seguintes.

Extraído do Livro “CRISTIANISMO EQUILIBRADO”, de John Sttot

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O CAPACETE DA SALVAÇÃO

Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvore agradável à vista e boa para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal… mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gênesis 2:9, 17).

Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu, e deu também ao marido, e ele comeu. Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira, e fizeram cintas para si (Gênesis 3:6, 7).

Porque a nossa glória é esta: o testemu­nho da nossa consciência, de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especial­mente para convosco (2 Coríntios 1:12). Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus (Efésios 6:17).

E vos renoveis no espírito do vosso en­tendimento (Efésios 4:23).

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Romanos 12:2).

Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz (Romanos 8:5, 6).

PRIMEIRO

No meio de todas as árvores do jardim do Éden encontravam-se a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus orde­nara a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gêne­sis 2:16b, 17). Isto indica quão opostas eram estas duas árvores. De um lado está a árvore da vida, do outro, a árvore do conhecimento do bem e do mal. Podemos, portanto, dizer que uma é a árvore da vida e a outra, a árvore da morte, pois ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal o homem morre.

Podemos notar um resultado tremendo na vida de Adão e Eva depois de terem pecado: ganharam conhecimento; tendo comido do fruto, ficaram conhecendo o bem e o mal. Em outras palavras, o primeiro efeito subjetivo no homem depois da queda foi o aumento da capacidade de funcionar da mente. Antes da queda, o homem possuía um tipo de mente; depois da queda seu cérebro começou a conter maior porção de coisas que era do propósito original de Deus que ele tivesse com o tempo — mas não da maneira pela qual os homens, nessa época, obtiveram tais coisas. Por este motivo Paulo menciona em Efésios 6:17 que o crente deve “tomar o capacete da salvação”. Esta pas­sagem confirma a necessidade da libertação da mente humana. Muitos, depois de crerem no Senhor Jesus, sofrem mudanças de vida, mas suas mentes ainda precisam ser libertas. Se as mentes não forem libertas, ficarão sem proteção na época de conflito espiritual. Daí ser da major importância que tomemos o capacete da sal­vação.

Ocorre um fenômeno um tanto espantoso entre os filhos de Deus: encontramos muitas pessoas de bom coração e bom comportamento que ainda levam consigo a mente que pertence à velha natureza. Em outras palavras, sua vida é a vida de Cristo mas sua mente é a de Adão. Isto diminui sua capacidade de conhecer a vontade de Deus. Portanto, a fim de medir a vida espiritual de uma pessoa, precisamos somente medir sua cabeça. Ao grau em que sua mente é liberta, a esse grau a pessoa é liberta de Adão e por conseguinte liberta da velha criatura. A diferença básica entre o viver na velha criatura e o viver na nova pode ser vista no relacionamento entre a mente da pessoa e Deus.

SEGUNDO

“Não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo” (2 Coríntios 1:12b).

Como precisamos pedir que Deus nos livre de nossa própria inteligência! O princípio do viver cristão é confiar na vontade de Deus e não na inteligência humana, depender da graça de Deus e não de nossa própria sabedoria. É necessário que aprendamos esta lição.

Suponhamos que exista algo que você tem de fazer, mas não sabe como fazê-lo, ou se não deve fazê-lo de modo nenhum. Você não tem ideia alguma de como proceder. De modo que você começa a deliberar sobre o resultado da ação que você deve tomar. Se fizer tal coisa desta ou daquela maneira, o que dirão as pessoas? De modo que você tenta ser inteligente. Como? Dizer ou fazer o que causará o mínimo de problemas e evitará o máximo de oposição. Este tipo de conduta significa que a pessoa se esqueceu de que os filhos de Deus não vivem na terra pela inteligência humana. Ser cristão é bastante simples. A pessoa simplesmente deve fazer a pergunta: “Deus, o que queres que eu faça?”

Está claro que a árvore do conhecimento do bem e do mal ainda se encontra entre os filhos de Deus hoje. Muitos ainda se alimentam de seus frutos diariamente. Não comem da árvore da vida; pelo contrário, não cessam de pergun­tar: “O que é melhor?” — Pergunta esta que procede da árvore do conhecimento do bem e do mal. Entretanto, Paulo diz-nos que hoje nossa vida perante Deus é muito simples, não depen­demos da sabedoria humana, mas da graça divina. Somos responsáveis por uma coisa so­mente: fazer a vontade de Deus.

TERCEIRO

“Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, a agradável e perfeita vontade de Deus” (Roma­nos 12:2b).

Que cada um de nós se lembre de que é responsável somente pela vontade de Deus, e que a responsabilidade de Deus é fazer com que experimentemos a consequência certa depois de termos feito sua vontade. Temos a tendência de procurar o caminho agradável. Mas com referên­cia a isto, descobrimos que o Filho de Deus trilhou a estrada mais difícil enquanto na terra, fez-se responsável pela vontade de Deus, e Deus, por sua vez, foi responsável por dar-lhe a estrada difícil. Ao testificarmos que a sabedoria humana do cristão é totalmente inútil, não sugerimos que ele deva ir em frente e praticar coisas tolas. Pois nem sua sabedoria humana nem a própria tolice possuem qualquer utilidade para Deus. Deus não necessita de nossa estultícia, assim como não precisa de nossa sabedoria. Nem todas as coisas tolas são corretas; somente as coisas que procedem da vontade divina são corretas. Devemos perceber tal distinção. Não estamos corretos de modo nenhum quando deliberadamente dizemos algumas palavras to­las ou praticamos ações bobas. Nossa responsa­bilidade é fazer a vontade de Deus. O que quer que o Senhor deseja que eu faça, isso devo fazer. O resultado é responsabilidade dele, não sua nem minha.

Assim, devemos pedir que Deus nos livre de nossa mente: que nosso pensar possa ser salvo ao tomarmos o capacete da salvação. Sempre que encontrarmos alguma coisa, primeiro devemos confessar a Deus: “Deus, minha mente ou minha inteligência não é o princípio do meu viver cristão. Tudo o que me importa é procurar a tua vontade.” Isto não significa que você deva fingir ser uma pessoa tola. Deixe-me dizer-lhe de novo que Deus não tem utilidade nem para o tolo nem para o sábio. Insistimos somente em que os cristãos neste mundo não devem viver mediante a deliberação de suas mentes mas pela boa, aceitável e perfeita vontade de Deus.

Algumas pessoas possuem tino de comercian­tes. Sempre que alguma coisa lhes vem à mente, sua primeira reação é calcular o ganho ou a perda pessoal. Esse traço é característico das coisas espirituais e também das seculares. Tal mente precisa ser admoestada. O fator decisivo das coisas espirituais não é o ganho ou a perda pessoal, mas a vontade de Deus. Oh, que realmente possamos perceber que temos um único princípio pelo qual viver, e este se encon­tra “na graça de Deus” — em fazer a vontade divina.

QUARTO

“E vos renoveis no espírito do vosso entendi­mento” (Efésios 4:23).

Isto quer dizer que a mente humana precisa de renovação. Romanos 12 dá o mesmo parecer: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente.” O resultado é que “experimenteis qual seja a boa, a agradável e perfeita vontade de Deus”. Depois de sua mente ser renovada você pode provar qual seja a vontade de Deus. De modo que o conhecer ou não a vontade de Deus não é questão de método mas de pessoa. Muitos estão familiarizados com métodos de conhecer a vontade de Deus mas sua pessoa não é correta; consequentemente, não podem conhecer a vontade dele.

Que tipo de pessoa pode conhecer a vontade de Deus? A pessoa a quem Deus libertou do poder mental. Sua mente deve ser renovada antes que você prove qual seja a vontade de Deus. Conserve isto sempre em mente: a parte mais forte da vida natural do homem é seu aparelho pensador. Algumas pessoas podem ter sua força natural na vontade, outras, na emoção. A maioria das pessoas, porém, tem sua força natural na mente. Ao conhecer uma pessoa com uma mente vigorosa, você conhece seu pensa­mento. À medida que você se aproxima dela, seus pensamentos começam a fluir. Seu pensa­mento é maior do que seu espírito. Parece ser muito inteligente, pois seu caráter é refletido pelo pensamento. Se isto que é sua força não for quebrantado pelo Senhor, não terá maneira de conhecer a vontade de Deus. Da mesma forma, devemos pedir que o Senhor faça com que não confiemos no poder de nosso entendimento.

A pessoa pode continuamente confessar quão errada é sua vida carnal ou natural, e o tempo todo dar valor ao seu entendimento e opinião. Embora admita sua fraqueza com a boca, o coração ainda está cheio dos seus próprios pensamentos e sabedoria. Pensa que seu ponto de vista é superior ao dos outros e que seu modo de vida é melhor do que o dos outros. Sua inteligência não foi quebrantada pelo Senhor e seu pensamento não foi mudado. Por causa disto, essa pessoa não tem como conhecer a vontade de Deus. Há pessoas cujos lábios estão cheios da vontade de Deus, mas na realidade nada conhecem dela. Lembremo-nos de que se a pessoa não estiver correta, não tem possibilida­de de conhecer a vontade divina. O Senhor deve executar a obra básica da cruz nas vidas dos crentes, especialmente na renovação dos seus entendimentos. Ele os quebrantará de tal modo que não mais pensem ser mais inteligentes ou melhores do que o restante. Depois de Deus lidar com sua inteligência, podem então provar e conhecer a vontade de Deus.

O problema, muitas vezes, está em substituir a vontade de Deus pelo entendimento do ho­mem. Nossa mente, portanto, precisa de reno­vação. A pessoa que não conhece a cruz, não conhece a vontade de Deus. Assim, a questão toda resume-se na necessidade da cruz. Você sabe realmente como a cruz lida com sua vida natural? Você tem alguma ideia de como Deus lida com você como pessoa? Um dia, mediante a graça do Senhor, você será levado ao lugar onde poderá ver a sua falta de confiança e admitir quão ineficaz é seu pensamento; então não ousará crer em si mesmo nem terá em grande consideração sua força natural; nesse dia muitas coisas tornar-se-ão claras. A medida que Deus lidar com sua vida natural, você começará a ver claramente a vontade dele.

QUINTO

“Os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o espírito, das coisas do espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do espírito para a vida e paz” (Romanos 8:5, 6)

Qual é o pendor da carne? Tem uma característica principal: crer em si mesmo como sabedor de tudo e capaz de tudo. O pendor do espírito no crente tem sua característica principal também: não crer em si mesmo nem ousar dizer ou fazer nada, mas sempre estar em temor e tremor. O pendor da carne está constantemente ocupado, apressado, cheio de sabedoria própria e inquieto. O resulta­do é a morte. O pendor do espírito não é controlado pela sabedoria carnal, mas governa­do pelo mandamento de Deus; não confia na carne nem ousa seguir sua própria ideia, e o resultado é a vida e paz. Nossa mente precisa ser libertada para que não mais sejamos dirigidos pelo pensamento carnal, mas guiados pela von­tade espiritual.

SEXTO

“Não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especial­mente para convosco” (2 Coríntios 1:12b).

Note esta última frase: “Mais especialmente para convosco.” Os Coríntios eram inteligentes, mas Paulo declara que não devemos viver pela sabe­doria humana, e sim, pela graça divina, e isto mais especialmente para com pessoas como os inteligentes Coríntios. Louvado seja o Senhor, não precisamos comparar nossa inteligência com pessoas inteligentes. Quanto mais calculistas forem os outros, tanto menos inteligência usare­mos; vivemos pela graça divina. Especialmente nas coisas de Deus e da igreja, estamos decidi­dos a não usar a sabedoria nem a inteligência humana.

Portanto precisamos aprender a lição de nun­ca colocar nossa mente carnal nas coisas espiri­tuais. Não temos tanta certeza se esta mente carnal é eficaz em outros assuntos, mas temos certeza disto: a mente carnal é totalmente inútil nas coisas espirituais. Os métodos e táticas carnais, a manobra e a inteligência carnal podem produzir resultados em outras áreas, mas no reino espiritual são totalmente ineficazes. Na casa de Deus não é a mão nem a sabedoria do homem que têm valor, mas, a vontade de Deus. O importante não é o que o homem diz ou pensa, mas o que diz o Senhor. Perguntaremos a Deus: “Senhor, que padrão desejas mostrar-nos? Pois não poderemos ter nenhum outro padrão a não ser o teu.”

Aprendamos a fazer a vontade de Deus e a não depender de nosso próprio entendimento. Quando realmente aprendermos a fazer a vonta­de de Deus, entregar-nos-emos a ele a fim de que nos leve por todo e qualquer problema que possamos encontrar no processo. E daí para a frente pediremos que Deus nos faça viver, não na sabedoria humana, mas na graça divina, realizando sua vontade.

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee