ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 14: 1 – 12

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A Morte de João Batista

Aqui temos a história do martírio de João. Observe:

I – A ocasião da história aqui relatada (vv. 1, 2). Lemos aqui sobre:

1.O relato trazido a Herodes sobre os milagres que Cristo realizou. Herodes, o tetrarca, principal governador da Galileia, ouviu falar sobre a fama de Jesus. Naquela época, enquanto os seus compatriotas o desprezavam, por causa da sua simplicidade e obscuridade, Ele começou a ficar famoso na corte. Deus honra aqueles que são desprezados por sua causa. E o Evangelho, como o mar, consegue em um lugar o que perde em outro. Cristo já estava pregando e realizando milagres há mais de dois anos; ainda assim, aparentemente Herodes não ouvira falar dele até aquele momento, e somente então soube da sua fama. A infelicidade das pessoas importantes do mundo é que elas não ouvem as melhores coisas (1 Coríntio 1.26); ” nenhum dos príncipes deste mundo conheceu” (1 Coríntios 2.8). Os discípulos de Cristo eram enviados para pregar, e para realizar milagres em seu nome, e isto espalhou a sua fama mais do que nunca, o que era uma indicação de como seria a pregação do Evangelho, por eles, depois da ascensão de Jesus.

2.O s ignificado que Herodes atribui aos fatos (v. 2); ele disse aos seus servos que lhe contaram sobre a fama de Jesus: “Este é João Batista; ressuscitou dos mortos”. O fermento de Herodes não era a doutrina dos saduceus, pois eles diziam que não havia ressurreição (Atos 23.8. A consciência culpada de Herodes (como é comum com os ateus), nessa ocasião, obteve o controle da sua opinião, e ele concluiu que, quer existisse uma ressurreição geral ou não, João Batista certamente havia ressuscitado, e, portanto, milagres poderosos se manifestavam nele. João, enquanto viveu, não realizou nenhum milagre (João 10.41); mas Herodes conclui que, tendo ressuscitado dos mortos, ele estava revestido de um poder maior do que tinha anterior mente. E adequadamente ele chama os milagres que imagina que foram realizados por João, não de maravilhas, mas sim de “maravilhas que operam nele”. Considere, a respeito de Herodes:

(1) Como ele ficou desapontado em relação ao que

pretendia quando mandou decapitar João. Ele pensou que se pudesse tirar aquele impertinente do caminho, poderia continuar com seus pecados, sem que ninguém o perturbasse ou controlasse; tão logo isso aconteceu, ele ouviu de Jesus e seus discípulos pregando a mesma doutrina que João pregava; e, além disso, até mesmo os discípulos confirmando-a por milagres em nome do seu Mestre. Ministros podem ser silenciados, e aprisionados, expulsos e assassinados, mas a Palavra de Deus não pode ser detida. Os profetas não viveram para sempre, mas sua palavra nos alcança (Zacarias 1.5,6; veja 2 Timóteo 2.9). Às vezes, Deus levanta muitos ministros fiéis das cinzas de um ministro. Há esperança para as árvores de Deus, mesmo que sejam cortadas (Jó 14.7-9).

(2) Como Herodes foi tomado por temores sem fundamento, meramente devido à culpa da sua própria consciência. Assim o sangue clama, não somente da terra sobre a qual foi derramado, mas do coração daquele que o derramou, e o torna um terror por todos os lados, um terror em si mesmo. Uma consciência culpada sugere tudo o que é assustador e, como um turbilhão, chama para si tudo o que se aproxima dela. “Assim fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga” (Provérbio 28.1); acham-se em grade pavor (Salmos 114.5), onde ele não existe. Herodes, com uma pequena investigação, poderia ter descoberto que este Jesus existia muito tempo antes da morte de João Batista, e por isto não poderia ser João de volta à vida; e assim ele poderia ter descoberto o seu engano; mas Deus, com justiça, deixou-o entregue a este desvario.

(3) Como, apesar disso, ele continuou insensível na sua maldade. Embora ele estivesse convencido de que João era um profeta, e propriedade de Deus, ainda assim ele não expressa o menor remorso ou tristeza pelo seu pecado de tê-lo levado à morte. Os demônios creem e estremecem, mas nunca creem e se arrependem. Observe que pode existir o terror das fortes convicções onde não existe a verdade de uma conversão salvadora.

II – A própria história da prisão e do martírio de João. Estes sofrimentos extremos daquele que foi o primeiro pregador do Evangelho mostram claramente que as prisões e aflições sobrevirão a muitos daqueles que ensinam a Palavra de Deus. Assim como o primeiro santo do Antigo Testamento. o primeiro ministro do Novo Testamento também morreu como mártir. E se o precursor de Cristo foi tratado assim, os seus seguidores não devem esperar ser tratados pelo mundo com carinho. Observe aqui:

1.A fidelidade de João ao reprovar Herodes (vv. 3, 4). Herodes era um dos que ouviam a João (Marcos 6.20), e por isso João podia ser mais ousado com ele. Os ministros, que têm por função censurar, são especialmente obrigados a censurar aqueles que estão sob a sua responsabilidade, e não permitir que o pecado recaia sobre eles; eles têm a oportunidade mais justa e imparcial para lidar com eles, e é deles que poderão esperar a aceitação mais favorável.

O pecado que João reprovou, em especial em Herodes, foi o fato de ele se casar com a esposa do seu irmão Filipe, e não com a sua viúva (isto não teria sido tão pecaminoso). Filipe estava vivo, e Herodes seduziu a sua esposa, e a afastou dele, tomando-a para si. Aqui havia uma mistura de maldade, adultério e incesto. além do mal feito a Filipe, que tinha um filho com essa mulher; e em um agravo do mal o fato de ser seu irmão, seu meio-irmão por parte de pai, mas não de mãe (veja Salmos 50.20). Foi por este pecado que João o censurou; não por insinuações tácitas e indiretas, mas em termos claros. “Não te é lícito possuí-la”. Ele lhe imputa isto como um pecado; ele não disse: Não é honrado, ou: Não é seguro, mas sim: Não é lícito – a corrupção do pecado, por ser a transgressão da lei, é a pior coisa que há. Esta era a iniquidade de Herodes, o seu pecado apreciado, e por isso João Batista lhe fala desse particular. Observe:

(1) Aquilo que pela lei de Deus é ilícito às outras pessoas, pela mesma lei é ilícito par a os príncipes e para os homens mais importantes. Aqueles que governam não devem esquecer que nada são, além de homens, e sujeitos a Deus. Em outras palavras, corromper a esposa de outro homem não é lícito para você, nem para o seu menor súdito. Não existe a prerrogativa de infringir as leis de Deus – nem mesmo para os reis maiores e mais tirânicos.

(2) Se os príncipes e homens importantes infringirem a lei de Deus, é muito adequado que eles sejam informados disso pelas pessoas apropriadas, e de uma maneira apropriada. Assim como eles não estão acima dos mandamentos da Palavra de Deus, também não estão acima das censuras dos seus ministros. Não é adequado, na verdade, dizer a um rei: “Tu és vil” (Jó 34.18, versão TB), não mais do que chamar a um irmão de raca, ou chamá-lo de louco; não é adequado, enquanto o rei se conservar na esfera na sua própria autoridade, denunciá-lo. Mas é adequado que, por aqueles cujo ministério seja este, eles saibam o que é ilícito, e que saibam com adequação: “Tu és este homem”; pois o versículo que segue (Jó 34.19) diz que Deus (cujos agentes e embaixadores são ministros leais) não faz acepção da pessoa de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre.

2.A prisão de João devido à sua fidelidade (v. 3). Herodes prendeu João quando ele estava pregando e batizando. Fez com que o seu trabalho chegasse ao fim, manietou-o e encerrou-o no cárcere; parcialmente para satisfazer a sua própria vingança, e parcialmente para agradar a Herodias, que, entre os dois, parecia ser a mais inflamada contra João; foi por ela que ele fez isso. Observe:

(1) As censuras leais, se não traz em frutos, normalmente provocam; se não fazem o bem, são interpretadas como afrontas, e aqueles que não se curvam à censura se imporão diante de quem os censura e os odiarão, como Acabe odiou a Micaías (1 Reis 22.8; veja Provérbio 9.8; 15.10.12). A verdade produz ódio.

(2) Não é novidade que os ministros de Deus sofram o mal por fazerem o bem. Os problemas persistem sobre aqueles que são mais diligentes e fiéis na realização do seu dever (Atos 20.20). Talvez alguns dos amigos de João o culpassem por ter sido imprudente ao censurar o tetrarca, e lhe dissessem que ele teria feito melhor ficando calado em lugar de provocar Herodes, cujo caráter ele conhecia muito bem. João foi, assim, privado da sua liberdade. Mas rejeitemos essa prudência que impede que os homens realizem o seu trabalho corno magistrados, ministros, ou amigos cristãos; eu acredito que o próprio coração de João não o censurava por isso, mas esse testemunho da sua consciência tornou mais fácil o seu sofrimento, pois ele sofreu por fazer o bem, e não “como o que se entremete em negócios alheios” (1 Pedro 4.15).

3.A restrição que impedia Herodes de descarregar toda a sua ira contra João (v. 5).

(1) Ele teria mandado matá-lo. Talvez essa não fosse a sua intenção a princípio, quando o aprisionou, mas a sua vingança foi gradativamente chegando a este nível. Observe que o caminho do pecado, especialmente o pecado da perseguição, é descendente; e quando o respeito aos ministros de Cristo é abandonado e esquecido em alguma situação, o resultado final faz com que o homem prefira ser um cão a ser o culpado por tal situação (2 Reis 8.13).

(2) O que impedia Herodes era o seu medo da multidão, porque eles consideravam João um profeta. Não foi porque ele temesse a Deus (se ele temesse a Deus, não teria aprisionado a João), nem porque temesse a João, embora tivesse senti do certo respeito por ele (a sua luxúria superou isso), mas porque ele temia a multidão – ele tinha medo por si mesmo, pela sua própria segurança e pela segurança do seu governo, pois sabia que o seu abuso de poder já o tinha tornado odioso ao povo, cuja raiva, já bastante inflamada, poderia, com uma provocação suficiente – como a de matar o profeta -, explodir em uma revolta. Observe que:

[1]. Os tiranos têm os seus medos. Aqueles que são, e fingem ser, o terror dos poderosos são, muitas vezes, o maior de todos os terrores para si mesmos; e quando eles mais desejam ser temidos pelo povo, é quando sentem mais medo.

[2] Os homens maus evitam os atos mais malévolos simplesmente pelo seu próprio interesse secular, e não por qualquer consideração a Deus. Uma preocupação pelo seu conforto, crédito, riqueza e segurança, como seu princípio dominante, assim como os afasta de muitos deveres, também os afasta de muitos pecados, os quais, não fosse por isto, não evitariam; e esta é a única razão pela qual os pecado­ res não são demasiadamente ímpios (Eclesiastes 7.17). O perigo do pecado que se insinua aos sentidos, ou somente à imaginação, é que ele influencia mais os homens do que aquilo que pode levá-los à fé. Herodes temia o fato de que levar João à morte pudesse suscitar uma revolta do povo, o que não ocorreu; mas ele nunca temeu que isto pudesse suscitar uma revolta na sua própria consciência, o que realmente veio a acontecer (v. 2). Os homens temem ser mortos por determinadas coisas; porém, mu­ itas vezes, não temem ser amaldiçoados por elas.

4.O estratagema de levar João à morte. João Batista ficou muito tempo na prisão e, contra a liberdade individual (que, bendito seja Deus, nos é garantida por lei nesta nação), não podia ser julgado nem libertado sob fiança. Avalia-se que ele tenha permanecido um ano e meio como prisioneiro, o que era praticamente o mesmo período de tempo que ele tinha passado no seu ministério público, desde o seu início. Aqui nós temos o relato da sua libertação, não por nenhuma absolvição, mas pela morte, que põe fim a todos os problemas de um bom homem, onde “os presos juntamente repousam e não ouvem a voz do exator” (Jó 3.18).

Herodias traçou o plano; a sua vingança implacável estava sedenta do sangue de João, e não seria satisfeita com menos do que isto. Interfira com os apetites carnais, e eles se transformam nas mais bárbaras paixões. Herodias era uma mulher, uma prostituta e mãe das prostituições, que estava sedenta do sangue dos santos (Apocalipse 17.5,6). Herodias planejou executar o assassinato de João de maneira tão artificial para, simultaneamente, salvar o nome de Herodes e pacificar o povo. Uma desculpa ruim ainda é melhor do que nenhuma. Mas eu penso que se a verdade fosse conhecida, o próprio Herodes faria parte do plano, e com todas as suas desculpas de surpresa e tristeza, estava secretamente de acordo com o plano, e sabia de antemão o que lhe seria pedido. E a sua desculpa do juramento e do respeito aos seus convidados não era nada além de fingimento. Mas se ele caiu na cilada antes de ter se dado conta, porque isto era o tipo de coisa que ele podia ter evitado e não o fez, ele é, com justiça, considerado culpado de toda a trama. Embora Jezabel tenha levado Nabote ao seu fim, ao tomar posse da vinha, o próprio Acabe se torna participante do assassinato. Assim, embora Herodias tenha planejado a decapitação de João, se Herodes consentiu com isto, e ficou satisfeito com isto, ele não foi apenas um auxiliar, masco-autor do assassinato com ela. Bem, com a cena se desenrolando nos bastidores, vejamos como ela foi encenada, e de que maneira. Aqui, temos:

(1) A dança da jovem como um presente a Herodes, no seu aniversário. Aparentemente, o aniversário de Herodes era celebrado com alguma solenidade – para honrar o dia precisa haver, como é usual, um baile na corte; e, para dar graça à solenidade, a filha de Herodias dançou diante dos convidados; e sendo a filha da rainha, houve uma condescendência maior do que a usual. Observe que as ocasiões de festa e celebração carnal são ocasiões convenientes para se colocar em execução os planos malignos contra o povo de Deus. Quando o rei ficou embriagado pelas muitas garrafas de vinho que consumiu, ele estendeu a sua mão com os escarnecedores (Oseias 7.5), pois “um divertimento é para o tolo praticar a iniquidade” (Provérbio 10.23). Quando o coração dos filisteus estava alegre, chamaram Sansão para ofendê-lo. O massacre parisiense ocorreu durante a celebração de umas bodas. A dança dessa jovem agradou a Herodes. Não sabemos quem dançou com ela, mas ninguém agradou a Herodes mais que ela, com a sua dança. Observe que um coração vaidoso e grosseiro está apto a apaixonar-se profundamente pela luxúria da carne e dos olhos, e quando isto acontece, cede ainda mais à tentação; pois é dessa maneira que Satanás consegue se apossar de alguém (veja Provérbio 23.31-33). Herodes estava alegre, e nada lhe era mais agradável que aquilo que alimentasse a sua vaidade.

(2J A promessa impensada e tola que Herodes fez a essa jovem devassa, de que lhe daria qualquer coisa que ela lhe pedisse, confirmando a promessa com juramento (v. 7). A obrigação que Herodes assumiu era muito extravagante; de maneira alguma, ele agiu como o homem prudente que tem medo de se prender com as palavras da sua boca (Provérbio 6.2), muito menos um homem bom que teme o juramento (Eclesiastes 9.2). Colocar esta promessa em branco na mão da jovem e permitir que ela extraísse dele o que bem desejasse era uma recompensa grande demais para uma obra de mérito tão pequeno; e sou levado a pensar que Herodes não teria sido culpado de tal absurdo se não tivesse sido instruído por Herodias, assim como o tinha sido a jovem. Observe que os juramentos e promessas são coisas que enredam, e, quando feitos de forma impensada, são o resultado da corrupção interior, e dão ocasião a muitas tentações. Portanto, não jure nunca, de maneira nenhuma, para que você não tenha a chance de dizer: “Foi erro” (Eclesiastes 5.6).

(3) O pedido sangrento que a jovem fez da cabeça de João Batista (v. 8). Ela tinha sido instruída pela sua mãe de antemão. Triste é a situação dos filhos cujos pais são seus conselheiros para que procedam impiamente, como os pais de Acazias (2 Crônicas 22.3); que os orientam a pecar, e incentivam o seu pecado, e lhes dão maus exemplos; pois a natureza corrupta será mais prontamente despertada por más orientações do que será restrita e envergonhada por boas orientações. As crianças não devem obedecer aos seus pais contra o Senhor, mas, se estes ordena­ rem que seus filhos pequem, eles devem dizer, como Levi disse ao seu pai e à sua mãe: “Nunca os vi”.

Tendo Herodes concedido um pedido à jovem, e Herodias lhe dado as instruções, ela pede, num prato, a cabeça de João Batista. Talvez Herodias temesse que Herodes se cansasse dela (pois a luxúria costuma enjoar e trazer enfado), e então faria da censura de João Batista uma desculpa para livrar-se dela. Para impedir isso, Herodias planejou firmar o compromisso de Herodes com ela, envolvendo-o no assassinato de João. Então, João devia ser decapitado – esta seria a morte pela qual ele deveria glorificar a Deus; e por ser ele o primeiro que morreu depois do início do Evangelho, embora os mártires morressem de diversas maneiras, nem tão fáceis nem tão honrosas quanto esta, a sua é apresentada para todo o resto (Apocalipse 20.4), onde se lê sobre as almas daqueles que foram “degolados pelo testemunho de Jesus”. Mas isto não bastava, o ato também deveria ser agradável, e não apenas uma vingança, mas um capricho que deveria ser satisfeito; a cabeça deveria ser dada a ela num prato, servida em sangue, como um prato de carne no banquete, ou molho para os outros pratos. Ele estaria reservado como o terceiro prato da noite, servido junto com as raridades. João não deve ter um julgamento, nem audiência pública; nenhuma forma de lei ou justiça deve acrescentar uma solenidade à sua morte; mas ele é julgado, condenado e executado num instante. João Batista estava tão mortificado para o mundo, que a morte não seria nenhuma surpresa para ele, mesmo que ocorresse de forma tão repentina. Herodes tinha que conceder à jovem a cabeça de João Batista, e ela consideraria isto como uma recompensa pela sua dança, e não desejaria mais nada.

(4) Herodes atende ao pedido da jovem (v. 9). O rei estava pesaroso, pelo menos foi isto que ele demonstrou; mas, devido ao juramento, ordenou que ela fosse atendi­ da. Aqui estão:

[1]. Uma preocupação fingida por João. O rei estava pesaroso. Observe que muitos homens pecam com pesar, nunca tendo nenhum pesar verdadeiro pelos seus pecados; eles sentem pesar por pecar, mas são completamente estranhos ao pesar piedoso; pecam com relutância, e ainda assim continuam pecando. O Dr. Hammond sugere que um dos motivos do pesar de Herodes era o fato de ser este o banquete do seu aniversário, e seria um mau agouro derramar sangue nesse dia, que, como outros dias de alegria, costumava ser honrado com atos de clemência.

[2]. Uma consciência fingida pelo seu juramento, com uma demonstração ilusória de honra e honestidade. Ele precisa fazer alguma coisa, devido ao juramento. Trata-se de um grande engano pensar que um juramento mal-intencionado irá justificar uma ação mal-intencionada. Estava tão necessariamente implícito, de maneira que não precisava ser expresso, que ele faria por ela qualquer coisa que fosse lícita e honesta; e quando ela exigiu algo que não o era, ele devia ter declarado (e o teria feito honradamente) que o juramento era nulo e vazio, e teria cessado a sua obrigação para com ele. Nenhum homem pode se colocar na obrigação de pecar, porque Deus já ordenou enfaticamente que os homens não pequem.

[3]. Uma maldade real em conformidade com as más companhias. Herodes cedeu, não tanto pelo juramento, mas porque ele era um homem público, e como uma atitude de respeito àqueles que se sentavam para a refeição com ele. Ele concedeu a exigência para não dar a impressão, diante deles, de que tinha rompido o seu compromisso. Observe que uma questão de honra, para alguns, é muito superior a uma questão de consciência. Aqueles que se sentavam para a refeição com ele provavelmente estavam tão satisfeitos com a dança quanto ele, e, portanto, teriam desejado que ela fosse satisfeita nessa brincadeira, e talvez estivessem tão desejosos quanto ela de ver João Batista decapitado. No entanto, nenhum deles teve a honestidade de intervir, como deveriam ter feito, para impedir isso, como fizeram os príncipes de Jeoaquim (Jeremias 36.25). Se tivessem estado ali pessoas do povo, elas teriam livrado este Jônatas, como em 1 Samuel 14.45.

[4]. Uma verdadeira má intenção para com João Batista por trás da concessão do desejo, caso contrário Herodes teria encontrado desculpas suficientes para desobrigar-se da sua promessa. Observe que embora uma mente pecadora nunca deseje uma desculpa, ainda assim a verdade é que todo homem “é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1.14). Talvez Herodes – refletindo sobre a extravagância da sua promessa, na qual ela poderia basear uma exigência de uma grande soma em dinheiro, algo que ele adorava muito mais do que a João Batista – estivesse satisfeito por se livrar da promessa tão facilmente; e, portanto, imediatamente dá a autorização da decapitação de João Batista, aparentemente não por escrito, mas apenas verbalmente; tão pouca consideração foi dedicada àquela preciosa vida; ele “ordenou que se lhe desse”.

(5) A execução de João, em seguida à autorização (v. 10). Ele enviou alguém para decapitar João Batista na prisão. Provavelmente a prisão era muito próxima, às portas do palácio; e até lá foi enviado um oficial para cortar a cabeça desse grande homem. João deve ter sido decapitado rapidamente, para agradar a Herodes, que estava à espera, até que isto fosse feito. Aconteceu à noite, pois era a hora da ceia, provavelmente depois da ceia. Realizou-se na prisão, e não no lugar usual para as execuções, por medo de uma revolta. Uma grande quantidade de sangue inocente, de sangue de mártires, foi igualmente derramado às escondidas, sangue que, quando Deus vier para inquirir do derramamento de sangue, “a terra descobrirá o seu sangue e não encobrirá mais aqueles que foram mortos” (Isaias 26.21; veja Salmos 9.12).

Assim essa voz foi silenciada, assim essa luz ardente e brilhante foi extinta; assim esse profeta, esse Elias do Novo Testamento, foi sacrificado pelo rancor de uma mulher infiel e dominadora. Assim aquele que era grande diante do Senhor morreu como morre um tolo, com suas mãos amarradas e seus pés acorrentados; e assim como um homem cai diante dos homens maus, também ele caiu, um verdadeiro mártir, diante das más intenções e dos maus propósitos; morrendo não pela profissão de sua fé, mas pelo cumprimento do seu dever. No entanto, embora o seu trabalho tenha passado tão rapidamente, ele se realizou e o seu testemunho foi concluído, pois até então nenhuma das testemunhas de Deus tinha sido assassinada. E Deus extraiu algo de bom disso, pois os discípulos de João Batista que, enquanto ele viveu, mesmo na prisão, se mantinham próximos a ele, agora, depois da sua morte, se uniram sinceramente a Jesus Cristo.

5.O que foi feito dos pobres restos desse bendito santo e mártir. Sendo a sua cabeça separada do corpo:

(1) A jovem trouxe triunfalmente a cabeça à sua mãe, como um troféu das vitórias da sua maldade e vingança (v. 11). Jerome ad Rufin relata que quando Herodias recebeu a cabeça de João Batista, ela se dedicou à bárbara diversão de furar a sua língua com uma agulha, como Fúlvia fez com a de Túlio. As mentes sanguinárias se satisfazem com visões sangrentas, aquelas que os espíritos piedosos evitam e temem. Algumas vezes, a ira insaciável de perseguidores sanguinários caiu sobre os cadáveres dos santos, e se divertira m com eles (Salmos 79.2). Quando as testemunhas são assassinadas, aqueles que habitam na terra se regozijam sobre eles, e se alegram (Apocalipse 11.10; Salmos 14.4,5).

(2) Os discípulos sepultaram o corpo, e, em lágrimas, foram anunciar a notícia ao Senhor Jesus. Os discípulos de João jejuavam frequentemente enquanto o seu mestre estava na prisão, enquanto o esposo estava afastado deles, e eles oravam fervorosamente pela sua libertação, como a igreja fez pela libertação de Pedro (Atos 12.5). Eles tinham livre acesso a ele na prisão, o que era um consolo para eles; mas eles queriam vê-lo em liberdade, para que ele pudesse pregar aos outros; mas agora, de repente, todas as suas esperanças são frustradas. Os discípulos choram e lamentam, enquanto o mundo se alegra. Vejamos o que eles fizeram.

[1]. Eles sepultaram o corpo. Observe que existe um respeito devido aos servos de Cristo, não somente enquanto eles vivem, mas aos seus corpos e às suas memórias, quando morrem. Sobre os dois primeiros mártires do Novo Testamento, é particularmente registrado que eles foram sepultados decentemente: João Batista, por seus discípulos, e Estêvão, por varões piedosos (Atos 8.2). Mas não houve consagração dos seus ossos ou de outros restos como relíquias, uma superstição que surgiu muito tempo depois, quando o inimigo já havia semeado as ervas daninhas. Este exagero, a respeito dos cadáveres dos santos, destrói; embora eles não devam ser desonra­ dos, também não devem ser divinizados.

[2] Eles foram e anunciaram a Jesus – não tanto para que Ele pudesse fugir para a sua própria segurança (sem dúvida, Ele tinha ouvido isso de outros, todo o povo falava disso), mas para que pudessem receber consolo dele, e serem aceitos entre os seus discípulos. Devemos considerar que, em primeiro lugar, quando alguma coisa nos aflige, em qualquer ocasião, é nosso dever e nosso privilégio informar isso a Cristo. Será um alívio para o nosso espírito sobrecarregado poder desabafar com um amigo com quem nos sentimos à vontade. A morte de um amigo ou a falta de cortesia de alguém, um consolo perdido ou a amargura, devemos contar a Jesus, que já conhece o fato, mas saberá, por nossa boca, a per­ turbação que aflige as nossas almas em meio à adversidade. Em segundo lugar, nós devemos tomar cuidado para que a nossa religião e a profissão dela não pereçam com os nossos ministros; quando João morreu, os discípulos dele não retornaram aos seus familiares, mas resolveram perseverar na fé. Quando os pastores são mortos, as ovelhas não precisam se espalhar enquanto tiverem o grande Pastor para seguir, aquele que ainda é o mesmo (Hebreus 13.8,20). A remoção de ministros deveria nos levar para mais perto de Cristo, em uma comunhão mais próxima com Ele. Em terceiro lugar, o consolo, em outras circunstâncias altamente valioso, algumas vezes nos é negado, porque se coloca entre nós e Cristo, e pode afastar aquele amor e aquele afeto que são devidos somente a Ele. João tinha, durante muito tempo, orientado seus discípulos em direção a Cristo, e os tinha entregado a Ele, mas eles não poderiam abandonar o seu antigo mestre enquanto ele vivesse; por isso João foi removido, para que eles pudessem ir a Jesus, a quem algumas vezes eles tinham imitado e invejado, por causa de João. É melhor ser levado a Cristo pela falta ou pela perda, do que não ser levado a Ele por motivo nenhum. Se os nossos mestres deixarem de ser a nossa cabeça, este será o nosso consolo: nós temos um Mestre no céu, e Ele mesmo é a nossa Cabeça.

Josefo menciona a história da morte de João Batista (Antiq., liv. 18, cap. 7) e acrescenta que a destruição do exército de Herodes, na sua guerra com Aretas, rei da Petréia (cuja filha era a mulher de Herodes, que ele rejeitou para poder receber Herodias), em geral era considerada pelos judeus como sendo um justo julgamento sobre ele, por levar João Batista à morte. Tendo Herodes se recusa­ do a obedecer ao imperador, instigado por Herodias, foi destituído do seu governo e ambos foram expulsos para Lyon, na França; o que, segundo Josefo, foi o seu justo castigo por ter dado ouvidos aos pedidos dela. E, finalmente, a respeito da filha de Herodias, diz-se que, quando andava sobre o gelo, no inverno, o gelo se rompeu, e ela mergulhou até o pescoço, que foi cortado pelo gelo pontiagudo. Deus exigiu a sua cabeça (diz Dr. Whitby) em troca da de João Batista; o que, se for verdade, pode ser considerada uma providência admirável.

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 13: 53-58

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Cristo É Desprezado pelos seus Compatriotas

Encontramos aqui Cristo em seu próprio país. Ele se dedicou a fazer o bem, mas não deixou nenhum lugar até que tivesse terminado o seu testemunho ali. Seus próprios compatriotas o haviam rejeitado uma vez, mas mesmo assim Ele veio até eles novamente. Cristo não considera como final a palavra daqueles que o recusam pela primeira vez, mas por sua misericórdia repete as suas ofertas àqueles que várias vezes as rejeitaram. Nisto, como em outras coisas, Cristo é como os seus irmãos. Ele demonstrou uma afeição natural pelo seu próprio país. O tratamento dado ao Senhor Jesus foi o mesmo de antes: desdenhoso, iníquo e rancoroso. Observe:

 I – Como eles expressaram o desprezo que sentiam por Ele. Quando o Senhor Jesus os ensinou na sinagoga, eles ficaram chocados; não que eles tenham se impressionado com a sua pregação, ou admirado a sua doutrina em si, mas apenas porque era dele; eles não o consideravam como o precioso Mestre que Ele realmente era.

Eles o censuravam por duas razões:

1.Por sua falta de formação acadêmica. Eles admitiam que Ele tinha sabedoria, e que realizava grandes feitos; mas a questão era: Onde Ele os conseguiu? Pois eles sabiam que Ele não havia sido criado aos pés dos rabinos. Ele nunca havia estado na escola, não havia sido diplomado, nem era chamado pelos homens de Rabi, Rabi. Note que as pessoas de espírito pequeno e preconceituoso se dispõem a julgar os homens pela sua educação, e a inquirir mais sobre o seu destaque do que sobre aquilo que expressam. “De onde esse homem tira esses prodígios? Ele os obteve honestamente? Será que ele não tem estudado a magia negra?” Assim, eles procuravam voltar contra o Senhor aquilo que de fato estava a favor dele; pois se não tivessem sido propositadamente cegos, teriam concluído que Ele era divinamente designado e assistido, por ter dado, sem a ajuda dos estudos, tantas provas de sabedoria e poder extraordinários.

1.A pouca importância e pobreza de suas relações (vv. 55,56).

(1). Eles o censuravam de vido ao seu pai. “Não é este o filho do carpinteiro?” Sim, é verdade que assim eles o reputavam. E qual era o mal nisso? Não havia desonra para Ele por ser o filho de um trabalhador honesto. Eles não se lembraram (apesar de terem o dever de lembrar disso) que esse carpinteiro era da casa de Davi (Lucas 1.27), um filho de Davi (cap. 1.20); apesar de ter uma profissão simples, José era um homem honrado. Aqueles que estiverem dispostos a causar discussões vão desconsiderar tudo aquilo que for de valor e honroso, e se concentrarão naquilo que apenas aparenta ser de pouco valor. Aqueles que têm um espírito sórdido não consideram ramo nenhum, nem mesmo o Ramo do tronco de Jessé (Isaias 11. 1), a não ser que lhes pareça que seja o ramo principal.

(2). Eles o censuravam devido à sua mãe. E qual era o problema deles com ela? Sim, verdadeiramente sua mãe se chamava Maria, e esse era um nome muito comum, e todos a conheciam, e sabiam que ela era uma pessoa comum; ela era chamada de Maria, não rainha Maria, ou Sra. Maria, nem mesmo Dona Maria, mas simplesmente Maria. E isso foi usado como uma crítica a Ele, como se os homens não tivessem nada a ser valorizado, a não ser uma origem estrangeira, um berço nobre, ou títulos esplêndidos; todas estas coisas são pobres quando se trata de medir o valor de uma pessoa.

(3). Eles o censuravam devido aos seus irmãos, cujos nomes eles sabiam, e podiam pronunciá-los prontamente; Tiago, José, Simão e Judas, bons homens, mas homens pobres, e por isso desprezados. E Cristo foi desprezado por causa deles. Estes irmãos, é provável, eram filhos de José com uma esposa anterior; ou, qualquer que fosse a sua relação com ele, parece terem sido criados com ele na mesma família. E daí a chamada de três deles, que eram dos doze, para aquela honra (Tiago, Simão e Judas, o mesmo que Tadeu), não foi expressa em particular, porque eles não precisavam de um chamado específico para conhecer a Cristo, já que haviam passado a sua juventude com Ele.

(4). Suas irmãs também estão todas conosco; assim, eles deveriam tê-lo amado e respeitado ainda mais, pois Ele era um deles. Mas, por esta razão, eles o desprezaram. Eles se escandalizaram nele; eles se detinham nessas pedras de tropeço, pois Ele foi posto como um sinal que seria contraditado (Lucas 2.34; Isaias 8.14).

II – Observe como o Senhor Jesus se portava diante daquele desprezo (vv. 57,58).

1.Isso não perturbava o seu coração. Parece que Ele não estava muito preocupado com isso; ele desprezava a vergonha (Hebreus 12.2). Em vez de piorar a afronta, ou expressar qualquer ofensa por causa dela, ou dar uma resposta às tolas sugestões deles, como mereciam, Ele calmamente atribuía esta atitude aos procedimentos dos filhos dos homens, que não dão o devido valor às pessoas e coisas excelentes que lhes são oferecidas gratuitamente, considerando-as comuns e de casa. Geralmente é assim. O profeta não tem honra em seu próprio país. Observe que:

(1) Os profetas deveriam ser honrados, e isto geralmente acontece. Os homens de Deus são grandes homens, e homens honrados. Eles despertam o respeito daqueles que os conhecem. De fato, deve-se estranhar que haja pessoas que não honrem os profetas.

(2) Apesar disso, eles são normalmente os menos respeitados e reverenciados em seus próprios países. E, mais ainda, às vezes são muito invejados. A familiaridade cria o desprezo.

2.Naquele momento (falando com reverência), a atitude deles lhe atou as mãos: “E não fez ali muitas maravilhas, por causa da incredulidade deles”. Note que a incredulidade é a grande obstrução para se receber os favores de Cristo. Todas as coisas são possíveis a Deus (cap. 19.26), e Ele as concede de uma forma específica àqueles que creem (Marcos 9.23). O Evangelho é o poder de Deus para a salvação, mas para a salvação de todo aquele que crê (Romanos 1.16). Desse modo, se os prodígios não forem realizados em nossa vida, não será por falta de poder ou graça em Cristo, mas pela nossa própria incredulidade. “Porque pela graça sois salvos”, e isso é um prodígio; mas ele se realiza através da fé (Efésios 2.8).

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MATEUS 13: 44-52

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Várias Parábolas

Temos quatro breves parábolas nesses versículos.

 I – A do “tesouro escondido num campo”. Até aqui, temos comparado o Reino dos céus com coisas pequenas, porque o seu início foi pequeno; mas, para evitar que por isso se pense nele corno algo pequeno ou desprezível, nessa parábola e na próxima, o Senhor o representa como tendo grande valor por si próprio, e como sendo de grande vantagem para aqueles que o abraçam, e que estão dispostos a aceitar os seus termos. O Reino de Deus é aqui comparado com um tesouro escondido no campo, que pode ser nosso, se o quisermos.

1.Jesus Cristo é o verdadeiro tesouro; nele há urna abundância de tudo que é rico e útil, e haverá urna parte para nós: toda a plenitude (Colossenses 1.19; João 1.16). Estes são tesouros de sabedoria, conhecimento (Colossenses 2.3), justiça, graça e paz; tudo isto está reservado para nós em Cristo; e, se nos interessarmos pelo Senhor, todas estas bênçãos serão nossas.

2.O Evangelho é o campo no qual o tesouro está escondido: está escondido na Palavra do Evangelho, tanto no Antigo Testamento corno no Evangelho que está expresso no Novo Testamento. Nas ordenanças do Evangelho, esse tesouro está escondido como o leite no peito, como a medula nos ossos, como o maná no orvalho, como a água no poço (Isaias 12.3), e como o mel no favo. Ele está escondido, não em um jardim cercado, nem em uma fonte que foi fechada, mas em um campo, em um campo aberto; quem quiser pode vir e buscá-lo nas Escrituras. Todos podem cavar nesse campo (Provérbio 2.4); e quaisquer minas valiosas que achemos serão nossas, desde que tornemos o caminho certo.

3.É algo valioso descobrir o tesouro escondido nesse campo, e o valor indescritível que ele possui. A razão de tantos darem pouca importância ao Evangelho, e não desejarem se dedicar a ele, não se sujeitarem a correr riscos por ele, é por que só estão olhando para a superfície do campo, e o julgam superficialmente. E assim não estão enxergando a excelência que está contida nas instituições cristãs, que são muito superiores às dos filósofos; e mais que isso, as mais ricas minas estão frequentemente nos solos que parecem ser os mais estéreis. Assim, eles se recusam a fazer qualquer oferta pelo campo, e muito menos se dispõem a pagar o preço que devem pagar para tê-lo. Por que é o teu amado mais que o amado de outrem? Por que a Bíblia Sagrada é superior a outros bons livros? Por que o Evangelho de Cristo é superior à filosofia de Platão, ou às sentenças morais de Confúcio? Mas aqueles que têm pesquisado as Escrituras com a finalidade de encontrar nelas Cristo e a vida eterna (João 5.39), descobriram um tesouro nesse campo que o torna infinitamente mais valioso do que qualquer outro.

4.Aquele que discerne esse tesouro no campo, e o avalia corretamente, não sossegará até que o faça seu em quaisquer termos. Aquele que encontrou o seu tesouro, o esconde. Isto denota um ciúme sagrado, que tem a finalidade de evitar que fiquemos para trás (Hebreus 4.1), tomando o cuidado necessário (Hebreus 7.15) para evitar que Satanás se coloque entre nós e o nosso tesouro. Então aquele que encontra este tesouro se delicia, como se a barganha ainda não tivesse sido feita; ele está contente por haver uma barganha como esta a ser feita. Ele está ficando interessado por Cristo. Os termos dessa negociação estão sendo negociados: alegre-se o coração daqueles que buscam ao Senhor (Salmos 105.3). Então aquele que encontrou o tesouro no campo decide comprá-lo: aqueles que abraçam as ofertas do Evangelho, nos termos do Evangelho, compram esse campo, fazem-no seu, devido ao valor do tesouro que está escondido nele. É em Cristo – que está no Evangelho que devemos manter os nossos olhos bem fixos; nós não precisamos subir ao céu, pois o Senhor Jesus Cristo está bem perto de nós, em sua Palavra. Então aquele que encontrou o tesouro no campo está tão interessado nele, que vende tudo o que tem para comprar esse campo. Aqueles que desejam o benefício da salvação em Cristo devem estar dispostos a se separar de tudo, para assegurarem este precioso tesouro para si. Eles devem considerar todas as coisas como perda, para que possam ganhar a Cristo, e ser achados nele.

 

II – A da” pérola de grande valor” (vv.45,46), que tem o mesmo significado da anterior, falando de um tesouro. O sonho é assim dobrado, pois a coisa é certa.

Considere que:

1.Todos os filhos dos homens estão ocupados, buscando boas pérolas: um quer ser rico, outro quer ter honras, outro quer ser sábio; mas a maioria sofre imposições, e se afeiçoa a pérolas falsificadas.

2.Jesus Cristo é a pérola de grande valor, a joia de valor inestimável, que fará os que a possuem ricos, verdadeiramente ricos, ricos em relação a Deus; se o tivermos, teremos o suficiente para sermos felizes aqui e na eternidade, para sempre.

3.Um cristão verdade iro é um mercador espiritual, no bom sentido do termo, pois procura e encontra essa pérola valiosa. Ele não se afeiçoa a nada que não leve a um interesse em Cristo, e, como alguém que está deter­ minado a ser espiritualmente rico, negocia alto: ele foi e comprou aquela pérola. Não só ofertou um lance por ela, mas a adquiriu. De que irá nos ajudar conhecer a Cristo, se nós não o conhecermos como nosso, “feito para nós sabedoria” (1 Coríntios 1.30).

4.Aqueles que têm interesse na salvação através de Jesus Cristo, devem estar desejosos de se separar de tudo por amor a Ele, de deixar tudo por Ele. Devemos deixar, com alegria – mesmo que se trate de algo que seja muito estimado por nós -, qualquer coisa que se opuser a Cristo, ou que vier a entrar em competição com Ele pelo nosso amor e serviço. Um homem pode comprar ouro por um alto preço, mas não essa pérola de grande valor.

 

III – A da “rede lançada ao mar” (vv. 47-49).

1.Eis aqui a parábola. Observe nela que:

(1) O mundo é um mar vasto, e os filhos dos homens são seres inumeráveis, animais pequenos e grandes, nesse oceano (Salmos 104.25). Os homens, em seu estado natural, são como os peixes dos mares que não têm um soberano sobre si (Habacuque 1.14).

(2) A pregação do Evangelho consiste em se lançar uma rede para dentro desse mar, mas para pegar algo dele, para a glória daquele que tem a soberania sobre esse mar. Os ministros são pescadores de homens, empregados para lançar e recolher essa rede; e então eles prosperam quando, pela Palavra de Deus, lançam a rede. De outro modo, eles trabalhariam e não pegariam nada.

(3) Essa rede junta peixes de todos os tipos, assim como fazem as grandes redes de arrasto. Na igreja visível, há uma determinada quantidade de lixo e detritos, sujeira, vermes e ervas daninhas, e também peixes.

(4) Aproxima-se o tempo em que esta rede estará cheia, e será levada à praia; um tempo determinado quando o Evangelho terá cumprido o objetivo pelo qual foi enviado; e temos a certeza de que ele não retornará vazio (Isaias 55.10,11). A rede está se enchendo agora; às vezes, ela enche mais rápido do que em outros momentos, mas ainda está enchendo, e quando estiver cheia, será levada à praia, tempo em que o mistério de Deus concluíra sua obra.

(5) Quando a rede estiver cheia e for levada à praia, haverá uma separação entre o bom e o ruim que estão recolhidos nela. Os hipócritas e os cristãos verdadeiros serão então separados; os bons serão juntados em cestos, como valiosos, e por isso serão cuidadosamente guardados. Porém os maus serão lançados para fora, como vis e inúteis. A condição daqueles que serão lançados fora naquele dia será miserável. Enquanto a rede estiver no mar, não se saberá o que está dentro dela, nem mesmo os próprios pescadores poderão distinguir. Mas então eles a recolhem cuidadosamente, levando tudo o que está nela para a praia, por amor e consideração aos bons que estão nela. Tal é o cuidado de Deus para com a igreja visível, e tal deve ser a preocupação dos ministros por aqueles que estão sob a sua responsabilidade, apesar de todos estarem misturados.

2.Aqui está a explicação da última parte da parábola. A primeira é óbvia e clara o suficiente; nós vemos juntos, na igreja visível, pessoas de todos os tipos. Mas a última parte se refere àquilo que ainda está por vir, e por isso é mais detalhadamente explicada (vv. 49,50). Assim será no fim do mundo; então, e não antes disso, será o dia da divisão e da descoberta. Não devemos procurar pela rede cheia apenas de todos os tipos de peixes bons; os cestos serão assim; mas na rede eles estão misturados. Veja aqui:

(1) A distinção entre os justos e os ímpios. Os anjos do céu virão para fazer aquilo que os anjos das igrejas nunca puderam fazer; eles separarão os justos e os ímpios. E não precisamos perguntar como é que eles farão esta distinção quando estiverem cumprindo as instruções daquele que conhece todos os homens, que conhece particularmente aqueles que são seus, e aqueles que não o são. Devemos ter a certeza de que não haverá engano ou confusão, de forma alguma.

(2) A ruína dos ímpios, quando forem assim separados. Eles serão lançados para dentro da fornalha. Note que um sofrimento eterno e tristezas eternas certamente serão a parte que caberá aos ímpios que vivem entre os santificados. Esta é a mesma situação que vimos anteriormente (v. 42). O próprio Cristo pregava frequentemente a respeito dos tormentos do inferno, como a punição eterna dos hipócritas; desse modo, é bom sermos frequentemente relembrados dessa verdade que nos revigora e desperta.

 

IV – Aqui está a parábola do bom “pai de família”, que tem a finalidade de fazer com que gravemos todas as demais.

1.A sua ocasião era a boa proficiência que os discípulos haviam atingido em aprender, e o ganho deles com esse sermão em particular.

(1) O Senhor lhes perguntou: “Entendestes todas estas coisas?”, sugerindo que estava pronto para explicar aquilo que eles não tivessem entendido. A vontade de Cristo é que todos aqueles que leem e ouvem a Palavra a entendam. Pois, de outro modo, como poderiam ser beneficiados por ela? Portanto, será bom se ao lermos ou ouvirmos a Palavra, nos examinarmos, para verificar se a entendemos ou não. Ser discipulados não foi nenhum demérito para os apóstolos de Cristo. O Senhor Jesus Cristo nos convida a buscar nele a instrução de que necessitamos, e os ministros devem estar sempre dispostos a ajudar aqueles que tenham qualquer boa indagação, oferecendo-se para explicar os seus ensinos detalhadamente.

(2) Eles responderam: “Sim, Senhor”, e nós temos motivos para crer que eles falaram a verdade, porque, quando não haviam compreendido, pediram uma explicação (v. 36). E a explicação dessa parábola foi a chave para as demais. A compreensão correta de um bom sermão será uma importante ajuda para que possamos compreender outro; pois as boas verdades se explicam mutuamente, e ilustram umas às outras. E o conhecimento é fácil para aquele que tem entendimento.

2.O próprio objetivo da parábola foi dar a sua aprovação e elogiar a proficiência deles. Cristo está pronto para encorajar aqueles que tiverem o desejo de aprender em sua escola, mesmo que sejam fracos. O Senhor tem sempre uma palavra de elogio e estímulo aos seus seguidores: “Bem está, servo bom e fiel”.

(1). O Senhor os elogia como escribas instruídos sobre o Reino dos céus. Eles estavam agora aprendendo o que poderiam ensinar; e os professores, entre os judeus, eram os escribas. Esdras, que preparou o seu coração para ensinar em Israel, é considerado um escriba muito hábil (Esdras 7.6,10). Agora, um habilidoso e fiel ministro do Evangelho também é um escriba. Mas, por distinção, ele é chamado de escriba instruído sobre o Reino dos céus, bem versado nas coisas do Evangelho, e bem capacitado para ensinar essas coisas. Perceba que:

[1]. Aqueles que vão instruir outros precisam ser bem instruídos. Se os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, é necessário que ele tenha, primeiramente, o conhecimento.

[2]. O ministro do Evangelho deve ser instruído a respeito do Reino dos céus, pois este é um pré-requisito para que ele seja bem-sucedido em sua tarefa, que consiste em contribuir para o crescimento desse reino. Um homem pode ser um grande filósofo e orador; porém, se não for instruído a respeito do Reino dos céus, ele não será mais do que um mau ministro.

(2). Ele os compara com um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas; os frutos da estação passada e os frutos da colheita desse ano – abundância e variedade, para o enriquecimento de seus amigos (Cantares 7.13). Observe aqui:

[1]. Quais são os recursos que um ministro deve ter: um tesouro de coisas novas e velhas. Aqueles que têm tantas e tão variadas ocasiões, têm a necessidade de armazenar, bastante em seus dias de colheita, guardando verdades antigas e novas, extraídas tanto do Antigo como do Novo Testamento. É necessário ter em mente as melhorias modernas e antigas, para que o homem de Deus esteja amplamente capacitado (2 Timóteo 3.16-17). Tanto as experiências antigas como as observações novas têm o seu uso. E não devemos nos contentar com velhas descobertas, mas devemos estar adicionando novas. Viver e aprender.

[2]. Que uso ele deve fazer de suas posses. O obreiro deve saber administrar; é necessário armazenar para que se possa gastar em benefício de outros. – Vocês devem armazenar, mas não para si próprios. Muitos estão cheios de recursos, mas eles não têm um “respiradouro” (Jó 32.19); têm um talento, mas o enterram. Assim se comportam os servos inúteis. Mas veja a diferença: o próprio Senhor Jesus Cristo recebeu para que pudesse dar; assim devemos agir, e teremos cada vez mais para compartilhar. Quando o objetivo é produzir, as coisas antigas e novas devem estar juntas, pois trarão um ótimo resultado; verdades antigas, mas métodos e expressões novas, especialmente afeições novas.

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MATEUS 13: 24-43 – PARTE 2

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A Parábola do Trigo e do Joio, do Grão de Mostarda, e do Fermento – Parte 2

 

III – Aqui está a parábola do grão de mostarda (vv. 31,32). O escopo dessa parábola é mostrar

que o início do Evangelho seria pequeno, mas que, no seu final, ele aumentaria grandemente. Desse modo, a igreja cristã, o Reino de Deus entre nós, seria implantado no mundo; desse modo, a obra ela graça no coração, o Reino de Deus dentro de nós, seria implantado dentro de cada cristão.

A respeito da obra do Evangelho, observe:

1.Que ela é geralmente muito frágil e pequena no início, como ocorre com a semente de mostarda, que é uma das menores sementes. O reino do Messias, que estava então sendo implantado, tinha pouca expressão. Cristo e os seus apóstolos, comparados com os grandes do mundo, se pareciam com a semente de mostarda, com as coisas mais frágeis do mundo. Em alguns lugares em particular, os primeiros raios da luz do Evangelho são como a aurora do dia; e nas almas em particular, o Evangelho é, inicialmente, o dia das coisas pequenas, como uma cana quebrada. Os recém-convertidos são como cordeiros que têm que ser carregados nos braços (Isaias 40.11). Nesse caso, a fé está presente, mas ainda lhes faltam muitas coisas (1 Tessalonicenses 3.10). E os gemidos, que não podem ser sequer expressos, são muito pequenos. Estes podem ser considerados o início de uma vida espiritual, e a evidência de algum movimento, mas são raramente discerníveis.

2.Que ela ainda assim está crescendo e se desenvolvendo. O reino de Cristo se firmou de uma forma surpreendente. Grandes adições lhe foram feitas, nações nasceram de uma vez, apesar de toda oposição imposta pelo inferno e pela terra. Na alma onde a graça é verdadeira, ela crescerá verdadeiramente; contudo, ela talvez nem seja sentida. Um grão de mostarda é pequeno, mas é uma semente, e tem em si uma disposição para crescei A graça estará ganhando terreno, brilhando mais e mais (Provérbio 4.18). Observe como a semente cresce: os hábitos da graça são confirmados, ocorre um avivamento que leva as pessoas à ação e a um conhecimento mais claro, a fé é cada vez mais confirmada, e o amor fica mais inflamado.

3.Que ela finalmente chegará a um grande grau de força e utilidade; quando ela tiver crescido e alcançado uma certa maturidade, ela se tornará uma árvore, bem maior em alguns países do que em outros. A igreja, como a vinha trazida do Egito, lançou raízes e encheu a terra (SaImos 80.9-11). A igreja é como uma grande árvore, em que os pássaros do céu se abrigam; o povo de Deus tem, nela, um grande auxílio para a obtenção de alimento, repouso, proteção e abrigo. Em algumas pessoas em particular, o princípio da graça, se for verdadeiro, perseverará e será finalmente aperfeiçoado. A graça que cresce será um a graça forte, e fará com que muitas coisas aconteçam. Os cristãos mais maduros devem ter o anseio de serem úteis aos outros, assim como o grão de mostarda que, quando crescido, é útil para os pássaros. Para que aqueles que vivem perto, ou sob a sua sombra, possam desfrutar preciosas bênçãos (Oseias 14.7).

 

IV – Aqui está a parábola do fermento (v. 33). O escopo é basicamente o mesmo da parábola anterior, para mostrar que o Evangelho deveria prevalecer e ter um sucesso gradual, silencioso, e sem ser sentido; a pregação do Evangelho é como o fermento, e trabalha como fermento nos corações daqueles que a recebem.

1.Uma mulher pegou esse fermento; era o trabalho dela. Os ministros são empregados para fermentar as almas com o Evangelho. A mulher é o vaso mais fraco, e nós temos este tesouro em vasos frágeis.

2.O fermento foi escondido em três medidas de farinha. O coração é, como a farinha, leve e maleável. E é o coração macio que tende a ser beneficiado pela Palavra. O fermento, no meio de grãos que não estão moídos, não tem efeito. Da mesma forma, o Evangelho, em almas altivas e não quebrantadas em relação ao pecado, não traz os benefícios que estão disponíveis. A lei mói o coração, e então o Evangelho age nele como fermento. Aqui se fala de três medidas de fermento, que é uma grande quantidade, pois um pouco de fermento faz crescer a massa toda. A farinha deve ser sovada, antes que receba o fermento. Da mesma forma, os nossos corações devem ser quebrantados e umedecidos, e devemos ter o cuidado de prepará-los para a Palavra, para que recebam as bênçãos que estão disponíveis. O fermento deve ser escondido no coração (SaImos 119.11), nem tanto pelo segredo (pois ele se mostrará), mas por segurança; o nosso pensamento interior deve estar nele, e devemos guardá-lo como Maria guardou as palavras de Jesus (Lucas 2.51). Quando a mulher esconde o fermento na farinha, a intenção é que ele transmita a sua essência, para que possa agir nela. Ê assim que devemos guardar e reverencial’ a Palavra em nossas almas, para que sejamos santificados por ela (João 17.17).

3.O fermento assim escondido na massa ali trabalha, ele fermenta; a Palavra é rápida e poderosa (Hebreus 4.12). O fermento trabalha velozmente, como a Palavra, mas ele trabalha gradualmente. Que súbita mudança o manto de Elias causou na vida de Eliseu! (1 Reis 19.20). A Palavra trabalha silenciosa e imperceptivelmente (Marcos 4.26), mas também forte e irresistivelmente; ela faz o seu trabalho sem barulho – pois esse é o modo do Espírito, mas o faz sem falhar. Basta esconder o fermento na massa, e nem mesmo o mundo todo poderá impedi-lo de passar o seu gosto e fazer com que seja saboreado. Embora ninguém veja como isso é feito, aos poucos tudo se torna levedado.

(1). Assim foi no mundo. Os apóstolos, pela sua pregação, esconderam um punhado de fermento na grande massa da humanidade, e ele teve um poderoso efeito; ele colocou o mundo em um processo de fermentação, e, de certa forma, virou-o de ponta cabeça (Atos 17.6), e aos poucos fez uma mudança incrível no gosto e no apetite. O sabor do Evangelho se manifestou em todos os lugares (2 Coríntios 2.14; Romanos 15.19). Assim, ele foi eficaz, não por alguma força exterior, por alguma força resistível e conquistável, mas pelo Espírito do Senhor dos Exércitos, que trabalha e ninguém pode impedir.

(2). Assim é no coração. Quando o Evangelho entra na alma:

[1] Ele causa uma mudança, não na essência (pois a massa continua sendo a mesma), mas na qualidade; ele nos traz um paladar diferente daquele que temos, e faz com que saboreemos as coisas de uma forma diferente da que fazíamos antes (Romanos 8.5).

[2] Ele causa uma mudança universal; ele se difunde em todos os poderes e faculdades da alma, alterando até mesmo as propriedades dos membros do corpo (Romanos 6.13).

[3] Essa mudança é tal que faz com que a alma compartilhe a natureza da Palavra, assim como a massa compartilha a natureza do fermento. Nós somos postos nele como em um molde (Romanos 6.17), e assim somos transformados na mesma imagem (2 Coríntios 3.18), como a impressão de um selo sobre a cera. O Evangelho tem o sabor de Deus, de Cristo, da graça e das bênçãos gratuitas, e de outro mundo; e essas coisas agora se misturam com a nossa alma, trazendo um sabor extremamente agradável. A Palavra de Deus é uma palavra de fé e arrependimento, santidade e amor, e estas virtudes são trabalhadas na alma por esta Palavra. Este sabor tão precioso é transmitido de uma forma imperceptível, pois a nossa vida está escondida. Mas a graça que permeia todo este processo, e que está na alma de cada um de nós, é inseparável, pois é uma boa pa1·te que jamais será tirada daqueles que a possuem. Quando a massa recebe a ação do fermento, ela é levedada. Então ela é levada ao forno; as provas e as aflições geralmente participam dessa mudança. Mas é assim que os santos são preparados para que se tornem pão para a mesa do nosso Mestre.

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MATEUS 13: 24-43 – PARTE 1

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A Parábola do Trigo e do Joio, do Grão de Mostarda, e do Fermento – Parte 1

Nesses versículos, nós temos:

I – Uma outra razão pela qual Cristo pregava em parábolas (vv. 34,35). O Senhor proferiu todos estes ensinos através de parábolas, porque não havia chegado o tempo para a descoberta mais clara e direta dos mistérios do Reino. Para manter as pessoas comparecendo e esperando, o Senhor Jesus Cristo pregava utilizando parábolas, e não lhes falou sem utilizar parábolas, como, por exemplo, na ocasião desse sermão. Note que Cristo tenta todos os modos e métodos para fazer o bem às almas dos homens, e para fazer o melhor por elas. Se os homens não quiserem ser instruídos e influenciados por uma pregação direta, o Senhor tentará instruí-los através de parábolas. E a razão dada aqui é muito importante: para que as Escrituras fossem cumpridas. A passagem aqui mencionada é parte do prefácio para aquele Salmo histórico (78.2): ”Abrirei a boca numa parábola”. As palavras que o salmista Davi, ou Asafe, expressa em sua narrativa estão em harmonia com os sermões de Cristo; e este grande precedente serviria para justificar esse modo de pregar, mostrando que ele não era ofensivo, como alguns o consideravam. Aqui está:

1.O tema da pregação de Cristo; Ele pregava coisas que haviam sido mantidas em segredo desde a fundação do mundo. O mistério do Evangelho havia estado escondido em Deus, nos seus conselhos e decretos, desde o começo do mundo (Efésios 3.9; compare Romanos 16.25; 1 Coríntios 2.7; Colossenses 1.26). Se nos deliciamos com as descrições de coisas da antiguidade, e com a revelação de coisas secretas, quão bem-vindo o Evangelho deve ser para nós, pois ele tem em si tanta antiguidade e mistério! Elas estavam – desde a fundação do mundo – envoltas em tipos e sombras que agora passaram; e aquelas coisas secretas se tornaram aquilo que foi manifesto a nós e aos nossos filhos (Deuteronômio 29.29). 2. A maneira como Cristo pregou. Ele pregou por parábolas, que eram discursos sábios, mas figurativos, e que ajudavam a prender a atenção e levar a uma busca diligente. As pomposas instruções de Salomão, que estão repletas de analogias, são chamadas de provérbios, ou parábolas. Ê a mesma palavra. Mas tanto em palavras como em obras, “eis que está aqui quem é mais do que Salomão”; no Senhor Jesus Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria.

 

II – A parábola do joio, e a sua elucidação; elas devem ser tomadas juntas, pois a elucidação explica a parábola e a parábola ilustra a elucidação.

Observe:

1.O pedido dos discípulos ao Mestre; eles queriam que a parábola lhes fosse explicada (v. 36). O Senhor Jesus dispensou a multidão; e é de se temer que muitos deles tenham ido embora sem terem se tornado mais sábios do que quando vieram; eles ouviram um som de palavras, e isso foi tudo. Ê triste pensar que muitos ouvem os sermões sem que a Palavra da graça penetre em seus corações. Cristo foi para dentro de casa, nem tanto para seu próprio repouso, mas para uma conversa particular com os seus discípulos; a instrução era o objetivo maior de todas as suas pregações. Ele estava pronto para fazer o bem em todos os lugares; os discípulos aproveitaram a oportunidade e vieram a Ele. Aqueles que desejam ser sábios em todas as coisas, devem ser sábios para discernir e melhorar as suas oportunidades, especialmente de conversar com Cristo, de conversar com Ele a sós, meditando e orando de forma secreta. É muito bom, quando retornamos da assembleia sagrada, conversarmos uns com os outros sobre a mensagem que ali ouvimos, e em linguagem familiar nos ajudarmos uns aos outros a entendê-la e lembrá-la, e sermos tocados por ela; pois nós perdemos o benefício de muitos sermões através de conversas vãs e inúteis que temos depois de ouvi-lo. Veja Lucas 24.32; Deuteronômio 6.6,7. É especialmente bom, se possível, perguntar aos ministros da Palavra o significado da palavra escrita e pregada, pois os seus lábios devem guardar o conhecimento (Malaquias 2.7). As conversas particulares contribuiriam muito para que aproveitássemos melhor os discursos públicos. A frase proferida por Natã: “Tu és este homem”, foi o que tocou o coração de Davi.

O pedido dos discípulos ao Mestre foi: “Explique-nos a parábola do joio do campo”. Isso implicava em um reconhecimento de sua ignorância, algo que eles não tiveram vergonha de fazer. E provável que tenham captado o escopo geral da parábola, mas desejassem compreendê-la com mais detalhes, tendo a certeza de que a haviam compreendido corretamente. Aqueles que estão inteiramente predispostos aos ensinos de Cristo, são aqueles que estão conscientes da ignorância em que vivem, e desejam, sinceramente, ser ensinados. Ele ensinará os humildes (Salmos 25.8, 9), mas é necessário pedir isso. Se qualquer homem necessitar de instrução, peça-a a Deus. Cristo havia explicado a parábola anterior sem que eles pedissem; mas no caso desta parábola do joio, eles pediram a explicação.  As misericórdias que nós recebemos devem ser melhoradas, tanto por orientação como ao que pedir em oração, para o encorajamento em oração. A primeira luz e a primeira graça são dadas de um modo preventivo; porém, a sequência das bênçãos, os graus mais elevados da luz e da graça do Senhor, tem que ser pedida diariamente em oração.

2.A explicação que o Senhor Jesus Cristo deu da parábola, atendendo ao pedido deles. Jesus está sempre pronto para atender tais pedidos de seus discípulos. O sentido da parábola é representar para nós o estado presente e futuro do Reino dos céus, a igreja cristã. O cuida­ do de Cristo com ela, a inimizade do diabo contra ela, a mistura de futuros eventos bons e maus relacionados a ela. A igreja visível é uma parte do Reino dos céus; apesar de haver alguns hipócritas nela, Cristo a governa como Rei. E há um grupo nela – formado pelos súditos e herdeiros do céu – que a domina, por serem a sua melhor parte. A igreja é o reino dos céus sobre a terra.

Examinemos os detalhes da explicação da parábola.

(1). “O que semeia a boa semente é o Filho do Homem”. Jesus Cristo é o Senhor do campo, o Senhor da colheita, o semeador da boa semente. Quando Ele ascendeu ao céu, deu dons aos homens em todo o mundo; não só aos bons ministros, mas a outros bons homens. Note que toda e qualquer boa semente que houver no mundo veio das mãos de Cristo, veio de sua semeadura: verdades pregadas, graças plantadas, almas santificadas, são boas sementes, e tudo isto pertence a Cristo. Os ministros são instrumentos nas mãos de Cristo para semear a boa semente. Eles são empregados por Ele e estão sob as ordens dele; e o sucesso de seus labores só depende da bênção dele. E assim podemos dizer, com toda razão: É Cristo, e ninguém mais, que semeia a boa semente; Ele é o Filho do Homem, um de nós, para que não nos sintamos amedrontados pela sua grandeza. Ele é o Filho do Homem, o Mediador, e Ele tem toda a autoridade.

(2). “O campo é o mundo”; o mundo da humanidade, um grande campo, capaz de produzir bons frutos; muito se deve lamentar que ele produza tantos frutos ruins. Porém, nesta parábola, entendemos que o mundo é a igreja visível, que está espalhada pelo mundo todo, e que não está confinada a uma só nação. Observe que, na parábola, o mundo é chamado de “seu campo”; o mundo é o campo de Cristo, pois todas as coisas lhe foram entregues por Deus Pai. Qualquer poder e interesse que o diabo tenha no mundo, foi usurpado e obtido de modo injusto. Quando Cristo vier tomar posse, Ele virá para aquilo que é seu por direito. O campo é dele; e, pelo fato de ser dele, Ele teve o cuidado de semeá-lo com a boa semente.

(3). “A boa semente são os filhos do Reino”, os verdadeiros santos. Eles são: [

[1] Os filhos do Reino; não só em profissão de fé, como os judeus o eram (cap. 8.12), mas em sinceridade; judeus por dentro, israelitas de fato, incorporados em fé e obediência a Jesus Cristo, o grande Rei da Igreja.

[2] Eles são a boa semente, preciosos como sem entes (Salmos 126.6). A semente é a essência do campo, e o mesmo ocorre com a semente sagrada (Isaias 6.13). A semente é espalhada, e o mesmo ocorre com os santos. Eles estão dispersos, um está aqui e outro ali, apesar de em alguns lugares estarem semeados mais juntos do que em outros. A semente é aquilo de que se espera fruto; qualquer fruto de honra e serviço que Deus tenha desse mundo, Ele o obtém dos santos. Ele os semeou para si na terra (Oseias 2.23).

(4). “O joio são os filhos do Maligno”. Aqui está o caráter dos pecadores, hipócritas, e também de todos aqueles que são profanos e iníquos.

[1]. Eles são os filhos do diabo, como o maligno. Apesar de não levarem seu nome, eles têm a sua imagem, satisfazem as suas luxúrias, e dele têm a sua educação; o maligno domina sobre eles, e trabalha neles (Efésios 2.2; João 8.44).

[2]. Eles são o joio no campo desse mundo; eles não fazem o bem, mas ferem. São inúteis por si só, e danosos à boa semente, tanto pelas tentações corno pelas perseguições. Eles são ervas daninhas no jardim, embora tenham a mesma chuva, estejam no mesmo solo, e recebam o mesmo brilho do sol que as plantas boas recebem. Eles não servem para nada: o joio está entre o trigo. Deus assim ordenou que o bem e o mal estejam misturados nesse mundo, que o bem seja exercitado, que o mal seja inescusável, e uma diferença seja feita entre a terra e o céu.

(5). “O inimigo que o semeou é o diabo”; um inimigo jurado de Cristo e de tudo que é bom, da glória de Deus e do conforto e da alegria de todos os homens bons. Ele é um inimigo do campo do mundo, mesmo se esforçando para se apossar deste, ao semear nele o seu joio. Desde que Satanás se tornou um espírito mau, ele tem se dedicado a promover a iniquidade, e fez disso a sua ocupação, esforçando-se, assim, para trabalhar contra Cristo.

A respeito da semeadura do joio, observe na parábola:

[1]. Que ele foi semeado enquanto o homem dormia. Os magistrados dormiam, e, pelo seu poder, os ministros dormiam. Mas eram os ministros que, através de sua pregação, deveriam ter evitado esse dano. Satanás está atento a todas as oportunidades, e aproveita tudo o que possa ser vantajoso à propagação dos vícios e da profanação. O prejuízo que o diabo causa às pessoas em particular se dá quando a razão e a consciência estão adormecidas, quando estas virtudes baixam a guarda. Portanto, precisamos estar sóbrios e vigilantes. O joio foi semeado à noite, pois essa é a hora de dormir. Satanás governa nas trevas deste mundo; elas lhe dão a oportunidade de semear o joio (Salmos 104.20). Este triste evento ocorreu enquanto os homens dormiam; e não há remédio, pois os homens precisam ter um tempo para dormir. É impossível impedir que os hipócritas estejam na igreja. Da mesma forma, o lavrador, enquanto dorme, não pode impedir que um inimigo mine ou estrague o seu campo.

[2]. O inimigo se retirou logo após ter semeado o joio (v. 25), para que ninguém soubesse quem o fez. Quando Satanás está causando o maior dano, ele faz o máximo para se ocultar; pois, se ele for visto, os seus planos podem ser frustrados. E assim, quando vem semear o joio, ele se transforma em um anjo de luz (2 Coríntios 11.13,14). O inimigo seguiu o seu caminho, corno se não tivesse causado nenhum dano; este é o procedimento da mulher adúltera (Provérbio 30.20). Observe que esta é a propensão que os homens caídos têm ao pecado; se o inimigo semeia o joio, ele pode até mesmo se retirar, pois o joio brotará por si só, e causará grandes danos. Porém, quando a boa semente é semeada, ela precisa receber vários cuidados; ela precisa ser regada e cercada, caso contrário não frutificará.

[3]. O joio não apareceu até que a folha se formou, e produziu frutos (v. 26). Há muita maldade em segredo nos corações dos homens que está bem escondida, sob o manto de uma profissão de fé plausível, mas que aparece no final. Como a boa semente, também o joio fica bastante tempo sob os torrões, e assim que brota é difícil diferenciá-lo. Mas quando vêm os tempos de adversidade, quando o fruto tem que ser produzido, quando o bem deve ser feito mesmo que haja dificuldade e perigo para fazê-lo, então você poderá discernir entre o sincero e o hipócrita. Então você poderá dizer: Isto é trigo, e aquilo é joio.

[4]. Quando os servos se deram conta, reclamaram ao seu senhor (v. 27): “Senhor; não semeaste boa semente em vosso campo?”. Sem dúvida que ele o fez; seja lá o que houver de errado na igreja, nós temos a certeza de que não foi Cristo quem semeou o mal. Considerando a semente que Cristo semeou, nós bem que podemos perguntar, com surpresa: De onde vem esse joio? Note que o surgimento de erros, o aparecimento de escândalos e o crescimento da profanação são motivos de grande sofrimento para os servos de Cristo, especialmente para os seus ministros fiéis, que devem reclamar disso ao dono do campo. É triste ver tal joio, tais ervas daninhas, no jardim do Senhor; ver o bom solo desperdiçado, a boa semente sufocada, e tal imagem refletida contra o nome e a honra de Cristo, como se o seu campo não fosse melhor do que o do preguiçoso, que está repleto de espinhos.

[5]. O Senhor logo se deu conta de onde isso vinha (v. 28): “Um inimigo é quem fez isso”. Ele não coloca a culpa nos servos; eles não o podem evitar, pois fizeram o que estava ao seu alcance para evitá-lo. Os ministros de Cristo que forem fiéis e diligentes não serão julgados por Cristo, e, por esta razão, não devem ser criticados pelos homens devido à mistura do mal com o bem, dos hipócritas com os sinceros, no campo da igreja. É necessário que essas ofensas venham, e elas não serão postas contra nós, se cumprirmos o nosso dever, mesmo que não tenhamos o sucesso desejado. Apesar de dormirmos, não amamos o sono; apesar do joio ser semeado, não fomos nós que o semeamos nem o regamos, nem os aceitamos. Assim, a culpa não será posta à nossa porta.

[6]. Os servos foram muito solícitos em arrancar o joio pela raiz. “Queres, pois, que vamos arrancá-lo?” Note o zelo precipitado e a falta de ponderação dos servos de Cristo. Eles se mostraram prontos a agir; mesmo antes de terem consultado o Mestre. Eles se dispuseram a arrancar pela raiz tudo o que presumissem que era joio; esta ação representaria um perigo iminente para a igreja. Em outra situação, chegaram a dizer: “Senhor, queres que peçamos fogo do céu?”

[7]. O Senhor com muita sabedoria, impediu isso (v. 29). “Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.” Não é possível a nenhum homem distinguir infalivelmente entre joio e trigo, pois ele pode se confundir; e assim aqui está a sabedoria e a graça de Cristo. Ele permitirá que o joio cresça, para que não coloque, de maneira alguma, o trigo em perigo. Certamente os ofensores escandalosos devem ser censurados, e devemos nos separar deles; aqueles que são, abertamente, filhos do maligno, não devem ter o acesso permitido às ordenanças especiais. Mas ainda assim é possível haver uma disciplina que seja tão equivocada em suas regras, ou tão condescendente em sua aplicação, a ponto de ser perturbadora para muitos que são, verdadeiramente, servos de Deus e conscienciosos. Grande cautela e moderação devem ser usadas pela igreja ao infligir e manter censuras, para que o trigo não seja pisado, nem arrancado. A sabedoria do alto é tão pura quanto pacífica, e aqueles que se opõe não devem ser desligados, mas instruídos, e isto deve ser feito com mansidão (2 Timóteo 2.25). Alguns entendem que se o joio continuar sob os meios da graça, ele pode se tornar um bom grão; portanto, tenha paciência com ele.

(6). “A ceifa é o fim do mundo” (v. 39). Este mundo terá um fim; apesar de continuar por muito tempo, ele não continuará para sempre; o tempo será, em breve, engolido pela eternidade. No fim do mundo haverá uma grande colheita, um dia de julgamento; na colheita, tudo está maduro e pronto para ser cortado: tanto o bem como o mal estarão prontos naquele grande dia (Apocalipse 6.11). Esta é a colheita da terra (Apocalipse 14.15). Na colheita, os segadores cortam tudo que estiver à sua frente; nem um campo, nem uma esquina é deixada para trás; assim, no grande dia, tudo deve ser julgado (Apocalipse 20.12,13). Deus preparou a colheita (Oseias 6.11), e ela não falhará (Genesis 8.22). Na colheita, todo homem colherá aquilo que plantou; o solo, a semente, a habilidade, e a dedicação de cada homem será manifestada (veja Gálatas 6.7 ,8). Então, aquele que semeou uma boa semente virá com alegria (Salmos 126.5,6), com a felicidade da colheita (Isaias 9.3). Nessa ocasião, os preguiçosos, que não araram devido ao frio, implorarão, e não terão nada (Provérbio 20.4). Eles clamarão: “Senhor, Senhor”, mas este clamor será em vão. Nessa ocasião, a colheita daqueles que semearam para a carne será um dia de pesar, de desespero e tristeza (Isaias 17.11).

(7). “Os ceifeiros são os anjos”: eles serão empregados, no grande dia, na execução da sentença correta de Cristo, tanto de aprovação como de condenação, como ministros da sua justiça (cap. 25.31). Os anjos são habilidosos, fortes e ágeis. São servos obedientes a Cristo, inimigos sagrados do maligno, e amigos fiéis dos santos; por isso, estão aptos a serem assim empregados. Aquele que colhe recebe um pagamento, e os anjos não serão deixados sem um pagamento pelo seu trabalho, pois aquele que semeou, e aquele que colheu, se alegrarão juntos (João 4.36); haverá alegria no céu, na presença dos anjos de Deus.

(8). O tormento infernal é o fogo, dentro do qual o joio será então lançado, e no qual será queimado. No grande dia, uma distinção será feita, e com ela haverá uma grande diferença; este será, de fato, um dia notável.

[1] O joio será então reunido e lançado fora. Os ceifeiros (cujo trabalho fundamental é juntar o grão) serão primeiro encarregados de juntar o joio e colocá-lo para fora. Note que apesar do bem e do mal estarem juntos nesse mundo, sem distinção, no grande dia eles serão separados. Nenhum joio estará então entre o trigo; nenhum pecador, entre os santos; então será possível discernir facilmente entre o justo e o ímpio, o que aqui é, às vezes, difícil de fazer (Malaquias 3.18; 4.1). Cristo não os tolerará para sempre (Salmos 1. 1 ss.). Eles juntarão e colocarão para fora do Reino todas as coisas perversas que ofendem, e todas as pessoas ímpias que cometem iniquidades. O Senhor iniciará este processo, e irá até o final. Toda doutrina, adoração e prática corrupta que ofenderam, que foram escândalos para a igreja, e pedras de tropeço para a consciência dos homens, serão condenadas pelo justo Juiz naquele dia, e consumidas pelo brilho da sua vinda. Toda a madeira, feno, e palha serão consumidos (1 Coríntios 3.12). E então ai daqueles que cometem iniquidades, e fazem disso um negócio, e persistem nisso; não só aqueles que viveram na última era do reino de Cristo na terra, mas também aqueles que viveram em todas os períodos. Talvez haja aqui uma alusão a Sofonias 1.3: “Consumirei… os tropeços com os ímpios”.

[2]. Eles serão então atados em fardos (v. 30). Peca­ dores do mesmo tipo serão atados juntos no grande dia: um monte de ateístas, um monte de hedonistas, um monte de perseguidores, e um grande monte de hipócritas. Aqueles que estiveram juntos no pecado, assim estarão na vergonha e na dor; e isso será um agravo de sua miséria. Mas o grupo dos santos glorificados terá a sua bênção aumentada. Oremos como Davi: “Não colhas a minha alma com a dos pecadores, nem a minha vida com a dos homens sanguinolentos” (Salmos 26.9), mas ajunte-a no feixe dos que vivem com o Senhor (1 Samuel 25.29).

[3]. Eles serão lançados em uma fornalha de fogo; tal será o fim dos perversos e nocivos, que são, na igreja, como joio em meio ao trigo; eles não servem para nada, a não ser para o fogo. E para lá irão, pois é o melhor lugar para eles. O inferno é uma fornalha de fogo, acesa pela ira de Deus, e mantida pelos montes de joio que são lançados dentro dela, e que estarão sendo eternamente consumidos. Mas o Senhor passa da metáfora para uma descrição dos tormentos que são concebidos para serem causados por ela. Haverá pranto e ranger de dentes; um sofrimento inconsolável e uma indignação incurável em relação a Deus, a si mesmos, e de uns para com os outros. Esta será a tortura infindável das almas condenadas. Conhecendo, assim, esses terrores do Senhor, sejamos persuadidos a não cometer nenhuma iniquidade.

(9). O céu é o celeiro no qual todo o trigo de Deus será reunido no grande dia da colheita. “Mas o trigo, ajuntai-o no meu celeiro”, diz a parábola (v. 30). Considere que:

[1]. No campo deste mundo, as pessoas boas são o trigo, o grão mais precioso, e a parte valiosa do campo.

[2]. Esse trigo será juntado em breve, juntado do meio do joio e das ervas daninhas: todos serão juntados em uma assembleia geral, todos os santos do Antigo Testamento, todos os santos do Novo Testamento, nenhum deles faltará. Reunirá os seus santos junto a si (Salmos 50.5).

[3] Todo o trigo de Deus será armazenado junto no celeiro de Deus. Alguns entendem que as almas são guardadas, na morte, como uma pilha de grãos (Jó 5.26), mas a reunião geral ocorrerá no fim dos tempos. O trigo de Deus então será reunido, e não estará mais espalhado. Haverá feixes de grãos, como também montes de joio. Os grãos de trigo serão, então, colocados a salvo, e não serão mais expostos ao vento e ao tempo, ao pecado e à dor; não serão mais separados, e embora estejam distantes no campo, estarão próximos no celeiro. O céu é um celeiro de grãos (cap. 3.12), no qual o trigo será não só separado do joio das más companhias, mas separado da palha de suas próprias corrupções.

Na explicação da parábola, isso é gloriosamente representado (v. 43): “Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai”. Em primeiro lugar, eles têm uma grande honra no presente: Deus é Pai deles. Agora somos os filhos de Deus (1 João 3.2); o nosso Pai celestial é o Rei ali. Quando Cristo foi para o céu, Ele foi para o seu Pai, e nosso Pai (João 20.17). O céu é a casa de nosso Pai, e não somente isto, mas é o palácio de nosso Pai; é o seu trono (Apocalipse 3.21). Em segundo lugar, a honra que ali está reservada para eles é que brilharão como o sol naquele reino. Aqui eles estão obscuros e escondidos (Colossenses 3.3), o seu brilho é eclipsado pela sua pobreza, e pela pequenez de sua condição exterior; as suas próprias fraquezas e enfermidades, assim como a reprovação e a desgraça que são lançadas contra eles, os ocultam. Mas então eles brilharão como o sol por detrás de uma nuvem escura; na m01te, eles brilharão para si mesmos; porém no grande dia, eles brilharão publicamente perante todo o mundo, e os seus corpos serão semelhantes ao corpo glorioso de Cristo. Eles brilharão por reflexo, com uma luz emprestada da Fonte da luz. A sua santificação será aperfeiçoada, e a sua justificação se tornará pública. Eles pertencerão a Deus como seus filhos, e Ele mesmo produzirá o registro de todos os serviços e sofrimentos que enfrentaram por amor ao seu glorioso nome. Eles brilharão como o sol, a mais gloriosa de todas as coisas visíveis. A glória dos santos é, no Antigo Testamento, comparada com o firmamento e com as estrelas, mas aqui ela é comparada com o sol; pois a vida e a imortalidade são trazidas a uma luz muito mais clara pelo Evangelho, do que pela lei de Moisés. Aqueles que brilham como luzes nesse mundo, para que Deus possa ser glorificado, brilharão como o sol no outro mundo, para que possam ser glorificados. O nosso Salvador conclui, como antes, mandando que prestemos atenção; aqueles que têm ouvidos para ouvir, ouçam. A nossa felicidade está em ouvirmos essas palavras tão preciosas. A nossa obrigação é darmos ouvidos a elas.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 13: 1-23 – PARTE 2

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As Parábolas de Jesus – Parte 2

II – Nesses versículos, temos uma das parábolas que o nosso Salvador apresentou: a do semeador e da semente. Temos tanto a parábola em si, como também a sua explicação. As parábolas de Jesus eram tiradas de coisas comuns, habituais, não de alguma noção ou especulação filosófica, ou de fenômenos incomuns da natureza, apesar de serem suficientemente aplicáveis ao ponto em questão. Porém, as suas parábolas estavam fundamentadas nas coisas mais óbvias, aquelas que podemos observar todos os dias, e que estão até mesmo ao alcance daqueles que possuem a menor capacidade de entendimento. Muitas delas foram tiradas do ofício do agricultor, como a do semeador e do joio. Cristo escolheu fazer assim:

1.Para que as coisas espirituais estivessem mais claras, e, por similitudes mais familiares, fossem ainda mais fáceis de alcançar o nosso entendimento.

2.Para que as coisas mais comuns pudessem ser aplicadas à vida espiritual, e nós pudéssemos prestar atenção às coisas que tão frequentemente passam pela nossa vista. Para que meditássemos com prazer nas coisas de Deus, e assim, quando as nossas mãos estiverem mais ocupadas com o mundo, nós possamos – não só apesar disso, mas até mesmo com a ajuda disso – ter os nossos corações dirigidos ao céu. Assim, a Palavra de Deus falará conosco de modo familiar (Provérbio 6.22).

A parábola do semeador é suficientemente explicada (vv. 3-9). A sua explicação é feita pelo próprio Senhor Jesus Cristo, que sabia melhor do que todos o que era que Ele próprio queria dizer. Quando os discípulos perguntaram: “Por que lhes falas por parábolas?” (v. 10), eles sugeriram um desejo de que a parábola fosse explicada por causa das pessoas; porém, não era um descrédito ao conhecimento deles o desejo de que o Senhor Jesus explicasse a parábola para eles mesmos. O nosso Senhor Jesus graciosamente aceitou aquele pedido, e explicou o significado, e fez com que eles compreendessem a parábola. Ele dirigiu o seu discurso aos discípulos, mas a multidão continuava ouvindo, pois não nos é relatado que Ele a tenha dispensado, até o versículo 36. “‘Escutai vós, pois, a parábola do semeador, (v.18); vós a ouvistes, mas vamos revê-la”. Note que é de bom uso, e contribui muito para o nosso benefício e para a compreensão da Palavra, ouvir novamente aquilo que já ouvimos (Filipenses 3.1). “Vocês a ouviram, mas ouçam a sua interpretação”. Note que somos abençoados apenas quando ouvimos a Palavra corretamente, e com bons propósitos, e quando compreendemos o que ouvimos. Pode-se considerar que uma pessoa não estará ouvindo, se não estiver ouvindo com entendimento (Neemias 8.2). É, de fato, a graça de Deus que dá o entendimento; mas o nosso dever é prestar toda a atenção, dirigindo o nosso pensamento ao entendimento.

Vamos, portanto, comparar a parábola com a exposição.

(1). A semente semeada é a Palavra de Deus, aqui chamada de a palavra do reino (v. 19): o reino dos céus é o reino; os reinos do mundo, comparados a ele, não podem sequer ser chamados de reinos. O Evangelho vem do reino, e conduz a esse reino; a palavra do Evangelho é a palavra do reino; é a palavra do Rei, e onde ela estiver, ali estará o poder; ela é uma lei, pela qual nós devemos ser regidos e governados. Essa palavra é a semente semeada, o que para alguns parece uma coisa morta e seca, mas ela tem, de fato, uma riqueza dentro de si. Ê uma semente incorruptível (1 Pedro 1.23); é o Evangelho que produz frutos nas almas (Colossenses 1.5,6).

(2). O semeador que lança a semente é o nosso Senhor Jesus Cristo, e Ele mesmo o faz, ou o faz através de seus ministros (veja v. 37). As pessoas são a lavoura de Deus, o seu cultivo, este é o significado da palavra; e os ministros são cooperadores de Deus (1 Coríntios 3.9). Pregar a uma multidão é semear o grão; não sabemos onde a semente cairá, apenas cuidamos para que a semeadura seja boa, que seja limpa, e nos certificamos de que haja semente suficiente. Semear a preciosa Palavra é semear um povo no campo de Deus, o grão da sua eira (Isaias 21.10).

(3). O solo no qual essa semente é semeada são os corações dos filhos dos homens, que são de disposições e qualidades diferentes; da mesma maneira, o sucesso da palavra é diferente em cada um deles. Note que o coração do homem é como o solo, capaz de melhorar, de produzir bons frutos. É uma pena que muitos corações estejam como um solo não semeado, ou seja, como o campo do preguiçoso (Provérbio 24.30). A alma é o lugar apropriado para a Palavra de Deus residir, e trabalhar, e governar; a sua operação se dá na consciência. É o mesmo que acender ali a luz do Senhor. Agora, de acordo com o que somos, assim é a palavra para nós: A recepção depende do receptor. O mesmo ocorre com a terra; alguns tipos de solo dão muito trabalho, e por mais sementes que lancemos neles, não produzem frutos que sirvam para algum propósito. Porém, o solo bom produz abundantemente. O mesmo ocorre com os corações dos homens, cujos diferentes caracteres es­ tão aqui representados pelos quatro tipos de solo, dos quais três são ruins, e apenas um é bom. Note que muitos ouvintes não darão frutos, mesmo em se tratando daqueles que ouviram o próprio Cristo. Quem creu em nossa pregação? Quem deu crédito ao nosso relato? Essa parábola nos traz uma perspectiva melancólica sobre aqueles que ouvem o Evangelho ser pregado; ela sugere que um entre quatro produz frutos perfeitos. Muitos são chamados com um chamado comum, mas em poucos a escolha eterna está evidenciada pela eficácia desse chamado (cap. 20.16).

Observe agora os tipos de pessoas representadas por esses quatro tipos de solo.

[1] O solo ao pé do caminho (vv. 4-10). Havia trilhas através de seus campos (cap. 12.1), e a semente que nelas caiu nunca penetrou o solo, e assim os pássaros as pegaram. O lugar onde os ouvintes de Cristo estavam representava o caráter da maioria deles; para a semente, a areia na beira da praia era como o solo do caminho.

Observe, em primeiro lugar, que tipo de ouvintes é comparado com o solo do caminho; os que ouvem a Palavra e não a compreendem. Eles são os únicos culpados por esta situação. Eles não a levam em consideração, não a retém; eles não se comportam como se desejas­ sem receber o bem. São como a estrada; nunca houve a intenção de semeá-la. Eles vêm à presença de Deus como os seus filhos vêm, e se sentam diante dele como os seus filhos se sentam, mas o fazem simplesmente por costume, ou ainda para verem e serem vistos. Eles não se importam com o que é dito; as palavras entram por um ouvido e saem pelo outro, e não deixa neles nenhuma impressão duradoura.

Em segundo lugar, como eles chegam a ser ouvintes ineficazes. O iníquo, ou seja, o diabo, veio e levou aquilo que foi semeado. Esses ouvintes mecânicos, descuida­ dos e levianos, são uma presa fácil para Satanás; como ele é o grande assassino, também é o grande ladrão de sermões, e certamente nos roubará a Palavra se não ti­ vermos o cuidado de guardá-la. Esta situação é como a dos pássaros que pegam as sementes que caem no solo que não foi inicialmente arado, nem tratado depois de semeado. Precisamos revolver a terra do solo que não está cultivado, preparando os nossos corações para a Palavra, humilhando-nos a ela, dando-lhe toda a nossa atenção. Mas seremos como o solo da estrada se não tomarmos alguns cuidados: devemos cobrir a semente depois que a recebemos, através da meditação na Palavra de Deus e das nossas orações. Também precisamos dar atenção, com dedicação, às coisas que ouvimos. O diabo é um inimigo jurado, que luta para não recebermos os benefícios que nos são trazidos pela Palavra de Deus. E ninguém é mais amigo de suas intenções malignas do que os ouvintes descuidados, que estão pensando em alguma outra coisa, quando deveriam estar pensando nas coisas que pertencem à sua paz.

[2] O solo rochoso. Algumas caíram em locais pedregosos (vv. 5,6), que representam os ouvintes que vão além dos anteriores, que recebem algumas boas impressões da palavra, mas estas não permanecem (vv. 20,21). Note que é possível sermos melhores do que alguns outros, porém ainda não somos tão bons quanto deveríamos ser. Podemos ir além dos nossos vizinhos, e ainda não alcançar o céu. Observe, a respeito dos ouvintes que são representados pelo solo pedregoso: Em primeiro lugar, quão longe eles foram.

1.Eles ouviram a Palavra; eles não dão as costas a ela, nem se comportam como se fossem surdos para ela. O fato de alguém ouvir a Palavra, ainda que muito frequentemente, ainda que com seriedade, não levará a pessoa ao céu; é necessário crer na Palavra e confiar nela.

2.Eles ouvem bem, são rápidos para ouvir, e logo recebem a Palavra, estão prontos para recebê-la, e assim ela brota rapidamente (v. 5). Logo aparece sobre a terra aquilo que foi semeado em solo bom. Os hipócritas frequentemente têm um início na fé cristã que é semelhante ao dos verdadeiros cristãos, em termos de profissão de fé, mostrando-se até mesmo empolgados. Eles a recebem imediatamente, sem prová-la; “engolem-na” sem mastigar, e por esta razão não pode haver uma boa digestão. Aqueles que provam todas as coisas têm mais facilidade para se apegar àquilo que é bom (1 Tessalonicenses 5.21l. 3. Eles a recebem com alegria. Observe que existem muitos que ficam felizes por ouvir um bom sermão, mas que, contudo, não tiram proveito dele; eles podem gostar da Palavra, e ainda não serem transformados ou governados por ela. O coração pode se derreter sob a Palavra, mas ainda assim não ser derretido pela Palavra, muito menos derreter-se sobre a palavra, como em um molde. Muitos provam a boa palavra de Deus (Hebreus 6.5), e dizem encontrar doçura nela; mas alguma luxúria que lhes é querida (com a qual a Palavra não combina) se esconde por baixo da língua, e assim eles a cospem para fora.

3.Eles a suportam por um tempo, como um movimento violento, que continua enquanto a impressão da força permanece, mas logo ela se esgota. Muitos perseveram por um tempo, porém não perseveram até o final, e assim não alcançam a felicidade que é prometida àqueles que perseveram (cap. 10.22); eles corriam bem, mas algo os deteve (Gálatas 5.7).

Em segundo lugar, eles se retiraram, de modo que nenhum fruto chegou à perfeição. A vida deles se assemelhou ao grão, que, não tendo profundidade na terra para dela retirar a umidade, seca e murcha sob o calor do sol. E a razão para isto é:

1.Eles não têm raízes em si mesmos, nenhum princípio fixo e determinado em seus julgamentos, nenhuma resolução firme em seus desejos, e nenhum hábito enraizado em suas afeições. Não possuem nada firme que seja a seiva da força de sua profissão de fé. Observe:

(1) É possível que haja a folha verde de uma profissão de fé, mas sem que haja a raiz da graça; a dureza prevalece no coração, e o que há de solo e maciez está apenas na superfície; por dentro, eles não foram mais afetados do que uma pedra o seria. Eles não têm raiz; não são, pela fé, unidos a Cristo, que é a nossa Raiz; eles não provêm dele, e não dependem dele.

(2) Onde não houver um princípio, mesmo que haja uma profissão de fé, não podemos esperar que haja perseverança. Aqueles que não tiverem raízes não suportarão por muito tempo. Um navio sem lastro, apesar de a princípio navegar melhor que um navio carregado, certamente fracassará no teste das intempéries, e jamais chegará ao seu porto.

1.Os tempos de adversidade sempre chegam, e então aqueles que foram semeados entre as pedras não são bem-sucedidos. Quando a tribulação e a perseguição começam por causa do mundo, eles se sentem ofendidos.

Essa é uma pedra de tropeço no caminho que eles não conseguem transpor, e assim o abandonam. É nisto que resulta a profissão de fé dessas pessoas. Observe:

(1) Depois de um considerável vento de oportunidade, geralmente se segue uma tempestade de perseguições, para testar aqueles que receberam a Palavra com sinceridade, e aqueles que não agiram desse modo. O teste ocorre quando a Palavra do Reino de Cristo se torna a Palavra da paciência de Cristo (Apocalipse 3.10). Nesse teste, se verifica quem guarda a Palavra do Senhor, e quem não a guarda (Apocalipse 1.9). A verdadeira sabedoria consiste em nos prepararmos para esse dia.

(2) Quando chegam os tempos de adversidade, aqueles que não têm raízes se ofendem rapidamente. Eles primeiramente discutem com a sua profissão de fé, e então a abandonam; primeiro encontram algo de errado nela, e depois lançam-na fora. E, dessa forma, lemos a respeito da ofensa da cruz (Gálatas 5.11). Observe que a perseguição é representada, na parábola, pelo sol abrasador (v.6). Este é o mesmo sol que aquece e alegra aquilo que está bem enraizado, mas que queima e faz murchar aquilo que não tem a raiz de que precisava. Assim como a Palavra de Cristo, a cruz de Cristo também é, para alguns, o sabor da vida para a vida, e para outros é o sabor da morte para a morte. Desse modo, a mesma tribulação que leva alguns à apostasia e à ruína, funciona para outros como um peso de glória muito maior e eterno. As provas que agitam alguns, confirmam outros (Filipenses 1.12). Observe como, no final, eles logo se vão; como apodrecem tão rapidamente quanto amadureceram. Uma profissão de fé assumida sem a devida consideração também é geralmente abandonada sem a devida consideração: “Ela vem de forma leviana, e se vai de forma leviana”.

[3] O solo espinhoso. Algumas caíram entre espinhos (que são um bom guarda para a semente, quando está junto a uma cerca, mas uma má companhia, quando está no campo); e os espinhos brotaram, o que sugere que eles não apareceram, nem apenas se destacaram quando a semente foi semeada. Mais tarde, estes espinhos se mostraram prejudiciais à semente (v. 7). Essa semente vai mais longe que a anterior, pois ela tem raiz. Ela representa a condição daqueles que não chegam a rejeitar a sua profissão de fé, mas que não chegam a obter dela nenhum benefício de salvação. O bem que eles recebem através da Palavra é insensivelmente recoberto e sobreposto pelas coisas do mundo. A prosperidade pode destruir os preciosos efeitos da Palavra no coração, assim como a perseguição o faz. E o grande perigo é que ela o faz silenciosamente: as pedras prejudicaram a raiz; os espinhos prejudicam a frutificação.

No entanto, o que são esses espinhos que sufocam a semente?

Em primeiro lugar, as preocupações desse mundo. Preocupar-se com outro mundo apressaria a germinação dessa semente, mas o cuidado com esse mundo a sufoca. As preocupações mundanas são adequadamente comparadas com espinhos, pois elas vêm com o pecado, e são um fruto da maldição. Elas são boas até certo ponto, para preencher uma lacuna, no sentido de precaução; mas o homem que lida muito com elas deve estar bem prevenido (2 Samuel 23.6,7); elas são ardilosas, ofensivas e ferem, e o fim daqueles que se entregam às preocupações é amargo (Hebreus 6.8). Esses espinhos sufocam a boa semente. Note que os cuidados mundanos são grandes empecilhos para que desfrutemos a Palavra de Deus, e para que cresçamos na graça e no conhecimento do Senhor. Eles consomem aquele vigor da alma que deveria ser usado em coisas divinas. Eles nos distraem quanto ao nosso dever, e mais tarde nos causam os maiores problemas. Os espinhos apagam as centelhas das boas afeições, e acabam com a determinação que está contida nas boas decisões. Aqueles que são excessivamente atarefados, e que se mostram cuidadosos em relação a muitas coisas, normalmente negligenciam aquilo que é o mais necessário.

Em segundo lugar, o engano das riquezas. Há alguns que estão correndo o risco de cair em uma grande armadilha; são aqueles que, pela sua dedicação e trabalho, aumentam as suas posses, e assim o perigo que vem dos cuidados deste mundo parece ter acabado. Mas eles continuam dando ouvidos ao mundo, e aí está o grande laço (Jeremias 5.4,5). É difícil para tais pessoas entrarem no Reino dos céus: eles tendem a prometer a si mesmos aquilo que não está neles, mas nas riquezas. E assim passam a confiar nas riquezas, demonstrando uma complacência excessiva por elas; e isso sufoca a Palavra tanto quanto o cuidado o faz. Observe que o problema não é tanto a riqueza, mas sim a falsidade que a riqueza traz; isso sim causa o problema. Mas também não podemos acusar as riquezas de serem falsas conosco, a menos que depositemos nelas a nossa confiança, e aumentemos as expectativas que temos em relação a elas. E aí que elas sufocam a boa semente.

[4] O solo bom (v.18). Outras caíram em solo bom, e é uma pena que nem toda semente encontre um solo bom, pois assim não haveria nenhuma perda. Estes são os bons ouvintes da Palavra (v.23). Note que apesar de haver muitos que recebem a graça de Deus e a sua Palavra em vão, Deus ainda tem um remanescente que a recebe para um bom propósito; pois a Palavra de Deus não retornará vazia (Isaias 55.10,11).

Vemos que aquilo que distingue o solo bom dos demais tipos de solo é, em uma palavra, a frutificação. É por ela que os verdadeiros cristãos se distinguem dos hipócritas, por produzirem os frutos da justiça. ”Assim se­ reis meus discípulos” (João 15.8). O Senhor não diz que esse solo bom não tenha pedras nem espinhos; mas não há nenhum que prevaleça a ponto de prejudicar a frutificação. Os santos, os fiéis seguidores do Senhor nesse mundo, não são perfeitamente livres de pecar; mas, felizmente, são libertos do domínio do pecado.

Os ouvintes que representam o solo bom são:

Em primeiro lugar, ouvintes inteligentes; eles ouvem a Palavra e a entendem, eles entendem não só o seu sentido e significado, mas o seu próprio envolvimento com a Palavra. Eles a entendem como um homem de negócios entende do seu negócio. O Senhor Deus, em sua Palavra, trata com os homens como homens, de uma maneira racional, e Ele ganha a posse da vontade e da afeição abrindo o entendimento dos homens. Porém, o inimigo, Satanás, que é um ladrão e salteador, não vem por essa porta, mas procura chegar por outro caminho.

Em segundo lugar, ouvintes que frutificam, o que é uma evidência de sua boa compreensão: e esta também produz frutos. O fruto é, para cada semente, o seu próprio corpo, um produto substancial no coração e na vida, e que combina com a semente da palavra recebida. Nós, então, damos frutos quando agimos de acordo com a Palavra; quando o temperamento de nossas mentes e o senso de nossas vidas estão de acordo como o Evangelho que recebemos, e nós agimos conforme aquilo que nos é ensinado.

Em terceiro lugar, nem todos frutificam igualmente; alguns produzem 100 vezes, outros 60, e alguns 30. Note que, entre os cristãos, alguns são mais produtivos do que outros. Onde existe a verdadeira graça, também existem os seus graus; alguns alcançam maiores realizações em conhecimento e ações do que outros; nem todos aqueles que se dedicam a estudar a vida e o Evangelho do Senhor Jesus Cristo estão no mesmo nível. Nós devemos almejar o mais elevado dos graus, para produzir a cem por um, como aconteceu com o solo de Isaque (Genesis 26.12), sendo assim abundantes na obra do Senhor (João 15.8). Mas se o solo for bom, e o fruto vier na estação certa, se o coração for honesto, e a vida estiver de acordo com ele, aqueles que produzirem à razão de trinta por um serão graciosamente aceitos por Deus, e estes frutos serão abundantemente contabilizados para eles, pois nós estamos sob a graça, e não sob a lei de Moisés.

Finalmente, Ele conclui a parábola com um solene chamado à atenção (v. 9): “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”. Observe que o sentido da audição não pode ser empregado melhor do que em ouvir a Palavra de Deus. Alguns vivem para ouvir uma doce melodia, seus ouvidos são somente “as filhas da música” (Eclesiastes 12.4, versão inglesa KJV): não há melodia semelhante àquela da Palavra de Deus; outros vivem para ouvir coisas novas (Atos 17.21); não novas como aquelas.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 13: 1-23 – PARTE – I

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As Parábolas de Jesus – Parte 1

Vemos aqui Jesus pregando, e podemos observar:

1.Quando Cristo pregou esse sermão: foi no mesmo dia em que havia pregado o sermão do capítulo anterior isto mostra como Ele estava bem-disposto em fazer o bem, e em realizar a obra daquele que o havia enviado. Jesus era a favor que se pregasse do começo ao fim do dia, e pelo seu exemplo esta prática foi recomendada à sua igreja. Nós devemos semear a nossa semente pela manhã e também à tarde (Eclesiastes 11.6). Um sermão à tarde, bem ouvido, estará longe de repor o sermão da manhã; ele irá, na verdade, fixá-lo, e segurar o prego em um lugar firme. Apesar de Jesus ter sido, pela manhã, capciosamente contestado pelos seus inimigos, perturbado e interrompido pelos seus amigos, Ele ainda perseverou com seu trabalho; e não verificamos ter Ele encontrado tais desencorajamentos na parte final do dia. Aqueles que com coragem e zelo vencem dificuldades no nome do Senhor, vão notar que elas não tendem a voltar como eles temem. Resista-lhes e elas desaparecerão.

2.A quem Ele pregava: ajuntava-se muita gente ao redor dele, e eram os ouvintes. Não vemos nenhum dos escribas ou fariseus presentes. Estes estavam dispostos a ouvi-lo quando Ele pregava na sinagoga (cap. 12.9,14), mas acreditavam ser algo abaixo deles ouvir um sermão à beira-mar, apesar do próprio Cristo ser o pregador. E verdadeiramente Ele preferia a ausência à companhia deles, pois quando eles estavam ausentes, Ele podia seguir calmamente e sem ser contraditado. Às vezes, há mais poder do Evangelho quando existe o mínimo de sua pompa: os pobres recebiam o Evangelho. Quando Cristo ia à praia, multidões rapidamente se ajuntavam ao seu redor. Onde o rei está, ali está a corte; onde Cristo está, ali está a igreja, mesmo que seja na praia. Aqueles que se beneficiam das palavras devem estar dispostos a segui-la em todos os lugares – quando a arca mudar, mude-se também, seguindo-a. Os fariseus haviam estado em ação, com calúnias e sugestões baixas, para evitar que as pessoas seguissem a Cristo, mas elas o seguiam tanto quanto antes. Cristo será glorificado apesar de toda a oposição; Ele será seguido.

1 – Onde Ele pregou esse sermão.

(1) Seu ponto de encontro era a praia. Ele saiu de dentro de casa (porque não havia espaço para a audiência), indo para o ar livre. Era uma pena, mas tal pregador devia ter tido o local mais espaçoso, suntuoso e conveniente para pregar que pudesse ser concebido, como um dos teatros romanos; mas Ele estava agora no seu estado de humilhação; e nisso, como em outras coisas. Ele se negava as honras que lhe eram devidas; nem uma casa própria para morar Ele tinha, assim como não tinha um templo próprio onde pudesse pregar. Com isso, Ele nos ensina – através das circunstâncias exteriores de adoração – a não invejar aquilo que é majestoso, mas aproveitar o melhor possível das facilidades que Deus, na sua providência, nos distribuiu. Quando Cristo nasceu, Ele estava apertado em um estábulo, e agora vemo-lo em uma praia, na areia, onde todas as pessoas podiam vir a Ele livremente. Ele, que a era a própria verdade, não buscava santuários, como os mistérios pagãos faziam. ”A suprema Sabedoria altissonantemente clama de fora” (Provérbio 1.20; João 13.20).

(2) Seu púlpito era um barco; não como o púlpito de Esdras, que havia sido feito para esse propósito (Neemias 8.4), mas convertido para esse uso, por falta de outro melhor. Não havia lugar impróprio para esse pregador, cuja presença dignificava e consagrava qualquer lugar. Aqueles que pregam a Cristo não devem se envergonhar, apesar de terem locais simples e inconvenientes para pregar. Alguns observam que as pessoas estavam em pé, em solo seco e firme, enquanto o pregador estava na água, com algum risco. Os ministros estão mais expostos aos perigos. Vemos que havia aqui uma verdadeira tribuna, o barco-púlpito.

4.O quê e como o Senhor Jesus pregava.

(1) Ele “falou-lhe de muitas coisas”. É provável que muito mais do que está registrado aqui, mas todas coisas excelentes e necessárias, coisa s que pertencem à nossa paz, coisas a respeito do Reino dos céus: elas não eram irrelevâncias, mas sim de importância eterna. Cabe a nós dar a mais sincera atenção quando Cristo tem tantas coisas a nos dizer, de modo a não perdemos nada.

(2) Ele falou por parábolas. Uma parábola, às vezes, significa qualquer ditado sábio e importante que seja instrutivo; mas aqui nos Evangelhos geralmente significa uma similitude ou comparação contínua, pela qual coisas espirituais ou divinas são descritas com uma linguagem emprestada das coisas da vida cotidiana. Era uma maneira muito usada de ensinar, não só pelos rabinos judeus, mas pelos árabes, e por outros homens sábios do Oriente; e era considerada muito proveitosa, em grande parte devido ao fato de ser agradável. O nosso Salvador a usava muito, e com isso condescendia com a capacidade das pessoas, e se dirigia a elas em sua própria linguagem. Há muito tempo Deus usava símiles através dos seus servos, os profetas (Oseias 12.10), e, às vezes, com pouco proveito; agora Ele usa símiles através de seu Filho, pois certamente eles reverenciarão aquele que fala do céu, e de coisas divinas, mas as reveste com expressões emprestadas de coisas terrenas. Veja João 3.12. Observe:

 I – Nós temos aqui a razão geral pela qual Cristo ensinou por parábolas. Os discípulos estavam um pouco surpresos com isso, pois até aquele momento, em suas pregações, Jesus não as havia usado muito, e por isso perguntam: “Por que lhes falas por parábolas?” Porque eles estavam verdadeiramente desejosos que as pessoas ouvissem e compreendessem. Eles não dizem: Por que falas a nós? (eles sabiam como ter as parábolas explicadas), mas a eles. Note que nós devemos estar preocupados com a edificação de outros, e com a nossa, pela palavra pregada; e devemos ser fortes para que possamos “suportar as fraquezas dos fracos”.

Cristo responde amplamente a essa questão (vv. 11-17). Ele lhes diz que pregava por parábolas, para que assim as coisas de Deus fossem expostas de uma maneira fácil e clara para aqueles que eram propositadamente ignorantes; e dessa forma o Evangelho seria “cheiro de vida” para alguns, e de morte, para outros. Uma parábola, com o a coluna de nuvem e fogo, volta um lado escuro para os egípcios, o qual os confunde, mas um lado claro para os israelitas, que os conforta, e assim atende a um duplo propósito. A mesma luz dirige o olhar de alguns, mas ofusca os olhos de outros. Note que:

1.Essa razão é exposta (v. 11): “Porque a vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não lhes é dado”. Ou seja:

(l].  Os discípulos tinham conhecimento, mas as pessoas não. Vocês já sabem algo desses mistérios, e não precisam ser instruídos dessa maneira familiar; mas as pessoas estão desprovidas de conhecimento, são como bebês, e devem ser ensinadas como tais, através de símiles claras, sendo ainda incapazes de receber instruções de qualquer outra maneira: pois apesar de terem olhos, elas não sabem como usá-los. Ou:

(2) Os discípulos estavam bem familiarizados com o conhecimento dos mistérios do Evangelho, e analisariam as parábolas, e por elas seriam levados a um conhecimento mais íntimo desses mistérios. Mas os ouvintes carnais, que só contavam com o que podiam ouvir, e não se dariam ao trabalho de pesquisar mais, nunca seriam mais sábios, e assim sofreriam merecidamente por seu enfraquecimento. Uma parábola é como uma casca que protege o bom fruto para os diligentes, mas o guarda dos preguiçosos. Note que existem mistérios no Reino dos céus, e “sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade”: a encarnação de Cristo, expiação, intercessão, nossa justificação e santificação pela união com Cristo, e, de fato, toda a questão da redenção, da primeira à última, são mistérios que nunca poderiam ter sido descobertos senão pela revelação divina (1 Coríntios 15.51). Eles foram nessa ocasião revelados, em parte, aos discípulos, e não seriam completamente descobertos até que o véu fosse rasgado. Mas o mistério da verdade do Evangelho não deve desencorajar, e sim estimular, a nossa busca dele, e os nossos estudos a seu respeito.

[1] O conhecimento dos mistérios do Reino dos céus é, de graça, dado aos discípulos de Cristo, para se familiarizarem com esses mistérios. O conhecimento é o primeiro presente de Deus, e é um presente que distingue (Provérbio 2.6); ele foi dado aos apóstolos, por que eles eram os seguidores e apoiadores constantes de Cristo. Note que quanto mais próximo nos chegamos a Cristo, e quanto mais conversamos com Ele, tanto mais nos familiarizamos com os mistérios do Evangelho.

[2] Ele é dado a todos os verdadeiros crentes, que têm um conhecimento experimental dos mistérios do Evangelho, e esse é, sem dúvida, o melhor conhecimento – um princípio de graça no coração, é o que faz com que os homens tenham uma rápida compreensão do temor ao Senhor, e da fé em Cr isto, e do significado das parábolas. Pela falta dessa bênção, Nicodemos, um mestre em Israel, falava do novo nascimento como um homem cego fala das cores.

[3) Há aqueles para os quais esse conhecimento não é dado: “O homem não pode receber coisa alguma, se lhe não for dada do céu” (João 3.27). Devemos nos lembrar de que Deus não é devedor a homem algum; a graça pertence somente a Ele. E Ele a dá ou a retém como lhe convém (Romanos 11.35); esta questão deve ser decidida pela soberania de Deus, como já vimos anteriormente (cap. 11.25,26).

2.Essa razão é melhor ilustrada pela regra que Deus observa ao distribuir seus dons. Ele os dá àqueles que os aperfeiçoam, mas os tira daqueles que os enterram. É uma regra entre os homens preferir confiar seu dinheiro àqueles que aumentam seus bens através de seu trabalho, do que àqueles que os diminuem pela sua preguiça.

(1). Aqui vemos a promessa àquele que tem a verdadeira graça, de acordo com a escolha da graça, e que usa aquilo que tem; ele terá maior abundância. Os favores de Deus são a garantia de mais favores; Ele construirá onde Ele colocar os alicerces. Os discípulos de Cristo usavam o conhecimento que tinham agora, e teriam maior abundância quando recebessem o Espírito (Atos 2). Aqueles que têm a verdade da graça, terão o aumento da graça, chegando a uma abundância de glória (Provérbio 4.18). José – Ele acrescentará (Genesis 30.24).

(2). Aqui há uma ameaça àqueles que não desejam a graça, que não fazem bom uso dos dons e talentos que têm: não têm raiz, não têm princípios sólidos; têm, mas não usam o que possuem; destes, será tirado aquilo que têm ou parece que têm. Suas folhas murcharão, seus dons decairão; os meios de graça que têm, e dos quais não fazem uso, lhes serão tirados. Deus tirará os seus talentos das mãos daqueles que correm o risco de sucumbir rapidamente.

3.Essa razão é explicada, em particular, com referência aos dois tipos de pessoas com quem Cristo entrou em contato.

(1) Alguns eram intencionalmente ignorantes; e esses se divertiam com as parábolas (v. 13): “Porque eles, vendo, não veem”. Eles cerraram seus olhos à clara luz das pregações mais óbvias de Cristo, e assim foram agora deixados no escuro. Ao verem a pessoa de Cristo, eles não viam sua glória, não viam diferença entre Ele e outro homem qualquer. Vendo seus milagres, e ouvindo a suas pregações, eles não viam; não ouviam com qualquer preocupação ou dedicação; eles não compreendiam nem a Cristo nem os seus milagres. Observe que:

[1) Existem muitos que veem a luz do Evangelho, ouvem o som do Evangelho, mas nunca permitem que o Evangelho alcance os seus corações, nem abrem os seus corações para ele.

[2) É justo da parte de Deus retirar a luz daqueles que cerram os seus olhos a ela. E aqueles que preferem ser ignorantes, que sejam. Ao lidar dessa maneira com eles, o Senhor Deus aumenta a sua graça para com os seus discípulos, distinguindo-os.

Nisto se cumpririam as Escrituras (vv. 14,15). Esta é uma citação de Isaías 6.9,10. O profeta messiânico que falou mais claramente da graça do Evangelho previu o desprezo a ele, e a consequência de tal desprezo. São citadas não menos que seis vezes no Novo Testamento que, nos tempos do Evangelho, o julgamento espiritual seria muito comum. Isto faz menos ruído, mas é uma situação mais terrível. Aquilo que foi dito dos pecadores no tempo de Isaías foi cumprido no tempo de Cristo, e está se cumprindo todos os dias; pois enquanto o perverso coração do homem se mantém no mesmo pecado, a justa mão de Deus inflige a mesma punição. Vemos isso aqui:

Em primeiro lugar, temos uma descrição da cegueira e dureza propositais dos pecadores, que é o pecado de que são culpados: “O coração deste povo está endurecido”, ou seja, está engrossado; isto denota tanto sensualidade como insensatez (SaImos 119.70). Sentindo-se seguro sob a Palavra e a vara de Deus, um escarnecedor como Jesurum engordou e se engrossou (Deuteronômio 32.15). E quando o coração está assim pesado, não é de surpreender que os ouvidos ouçam mal; eles não ouvem nada dos gemidos do Espírito; os altos clamores da Palavra. Apesar de a Palavra estar próxima deles, eles não a levam em consideração, nem são afetados em nada por ela: eles têm seus ouvidos tapados (SaImos 58.4,5). E por estarem decididos a ser ignorantes, eles bloqueiam ambos os sentidos do aprendizado; pois também fecharam os seus olhos, decididos de que não veriam a luz vir ao mundo, quando o Filho da Justiça se manifestou, mas cerraram as suas janelas, pois “amaram mais as trevas do que a luz” (João 3.19; 2 Pedro 3.5).

Em segundo lugar, temos a descrição dessa cegueira dos sentidos, que é a sua justa punição. “Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis”. Quaisquer meios de graça que tenham não lhes serão proveitosos, de modo nenhum. Embora prossigam recebendo misericórdias por causa de outros, quando entram em juízo, a bênção lhes é negada. A condição mais triste que um homem pode ter desse lado do inferno é estar sob as ordenanças mais vivas com um coração morto, estúpido e insensível, perdendo a oportunidade de ser tocado pelo Senhor nosso Deus. Ouvir a Palavra de Deus, e ver as suas providências, e ainda não entender nem perceber a sua vontade, é o maior pecado e a maior condenação que pode haver. Observe que é o trabalho de Deus dar um coração compreensivo, e Ele, muitas vezes, em um julgamento justo, o nega àqueles a quem Ele deu ouvidos que ouvem, e olhos que veem, em vão. Assim, Deus escolhe as ilusões dos pecadores (Isaias 66.4), e os entrega à sua grande ruína, ao abandoná-los aos desejos dos seus próprios corações (Salmos 81.11,12), deixando-os sós (Oseias 4.17). “O meu espírito não permanecerá para sempre no homem” (Genesis 6.3, versão TE).

Em terceiro lugar, o doloroso efeito e a causa da cegueira e dureza propositais: “Para que não veja com os olhos”. Eles não verão porque não se voltarão ao Senhor; e Ele mesmo diz que eles não verão, porque não se voltarão: “Para que não… compreenda com o coração, e se converta, e eu o cure”.

Note que:

1.Ouvir; ver e compreender são atitudes necessárias à conversão; pois Deus, ao agir conforme a sua graça, lida com homens como homens, como agentes racionais. Ele atrai o homem, muda o seu coração, abrindo-lhe os olhos, e o converte do poder de Satanás a Deus, ao convertê-lo primeiro das trevas à luz (Atos 26.18).

2.Todos aqueles que estão verdadeiramente convertidos a Deus, serão certamente curados por Ele. “Se eles se converterem, eu os curarei, eu os salvarei”. Assim, se os pecadores perecem, que isto não seja imputado a Deus, mas a eles mesmos. Eles tolamente esperam ser curados, sem se converterem.

3.Ê justo da parte de Deus negar a sua graça àqueles que têm recusado, há muito tempo e frequentemente, as propostas da sua graça, e resistido ao poder dela. O Faraó, por um bom tempo, endureceu o seu próprio coração (Êxodo 8.15,32), e posteriormente o próprio Deus o endureceu (Êxodo 9.12; 10.20). Que temamos então, para que não pequemos contra a graça divina; pois se assim procedermos, ela se retirará da nossa vida.

(2) Outros foram efetivamente chamado s para ser discípulos de Cristo, e estavam realmente desejosos de ser ensinados por Ele; estes foram instruídos, e seu conhecimento grandemente aumentou por essas parábolas, especialmente quando elas foram explicadas; e por elas as coisas de Deus se tornaram mais claras e fáceis, mais inteligíveis e familiares, e mais propícias de se­ rem lembradas (vv. 16,17). “Os vossos olhos… veem, e os vossos ouvidos… ouvem”. Eles viram a glória de Deus na pessoa de Cristo; eles ouviram qual era o pensamento de Deus, pois estava expresso na doutrina de Cristo; eles viram muito, e estavam desejosos de ver mais, e assim estavam preparados para receber mais instruções – eles tiveram oportunidade para isso, por estarem constantemente na companhia de Cristo. E eles receberiam as suas preciosas instruções diariamente, e elas estariam acompanhadas pela graça. Agora Cristo fala dessa situação:

[1] Como uma bênção: “Bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem” – isso é uma felicidade, e é uma felicidade pela qual estais em dívida com os peculiares favores e bênçãos de Deus. Essa é uma bênção que foi prometida no Antigo Testamento – de que nos dias do Messias “os olhos dos que veem não olharão para trás” (Isaias 32.3). Os olhos do menor crente que já experimentou a graça de Cristo são mais bem-aventurados do que os dos maiores sábios, dos maiores mestres da filosofia experimental, que são estranhos a Deus; estes, como os deuses a quem eles servem, “têm olhos, mas não veem”. A verdadeira bênção envolve o entendimento correto e um adequado aperfeiçoamento na compreensão dos mistérios do reino de Deus. “O ouvido que ouve e o olho que vê” são obra de Deus naqueles que são santificados; eles são obra de sua graça (Provérbio 20.12), e são uma obra abençoada, que será realizada com poder, quando aqueles que hoje veem “por espelho, em enigma”, verão “face a face”. Foi para ilustrar essa bem-aventurança que Cristo falou tanto da miséria daqueles que são deixados na ignorância; eles têm olhos e não veem; mas “bem-aventurados os vossos olhos, porque veem”. O conhecimento de Cristo é um favor que distingue aqueles que o têm, e, por conta disso, eles estão sob grandes obrigações (veja João 14.22). Os apóstolos deveriam ensinar a outros, e assim eles mesmos seriam abençoados com as mais claras descobertas da verdade divina. Os “atalaias… olho a olho verão” (Isaias 52.8).

[2] Como uma bênção transcendente, desejada (mas não alcançada) por muitos profetas e justos (v. 17). Os santos do Antigo Testamento, que tinham alguns vislumbres, algumas ideias vagas, da luz do Evangelho, desejavam ardentemente maiores descobertas. Eles tinham tipos, sombras e profecias, mas queriam ver a Essência, o final glorioso daquelas coisas para as quais eles não poderiam olhar fixamente; o glorioso interior daquelas coisas dentro das quais eles não podiam olhar. Eles desejavam ver a grande Salvação, a Consolação de Israel, mas não a viram, pois o tempo certo ainda não havia chegado. Note, em primeiro lugar, que aqueles que sabem algo de Cristo, não podem deixar de ansiar por saber mais. Em segundo lugar, que as descobertas da graça divina são feitas, mesmo pelos profetas e justos, somente de acordo com o que lhes é dispensado. Apesar de eles serem os favoritos do céu, com os quais estava o segredo de Deus, mesmo assim eles não viram as coisas que desejavam ver, porque Deus havia determinado não trazê-las à luz ainda; e seus favores não anteciparão seus desígnios. Havia, naquela época, como ainda há, uma glória a ser revelada; algo reservado, de modo que eles, sem nós, não poderiam ser aperfeiçoados (Romanos 8.18; Hebreus 11.40). Em terceiro lugar, para estimular a nossa gratidão e apressar a diligência, é bom considerarmos de que meios dispomos. e que revelações nos foram feitas, agora, sob o Evangelho, acima das que tinham e dispunham aqueles que viviam sob a dispensação do Antigo Testamento, especialmente no que tange à revelação da expiação do pecado. Vejamos quais são as vantagens do Novo Testamento acima do Antigo (2 Coríntios 3.7ss.; Hebreus 12.18); e vivamos de modo que o nosso aperfeiçoamento esteja de acordo com as vantagens que temos na Nova Aliança.