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O REALIZADOR DE UTOPIAS

Há pouco mais de 500 anos, o padre alemão Martinho Lutero sonhava em reformular o catolicismo. Acabou sendo excomungado e criou uma nova Igreja, a luterana. Hoje, religiões derivadas dos princípios defendidos por ele, como as evangélicas e protestantes, contam com um terço dos brasileiros.

O realizador de utopias

O monge alemão Martinho Lutero queria apenas realizar um sonho e transformar a igreja católica à qual pertencia, mas acabou mudando a história do Cristianismo. Ele não concordava com as diretrizes impostas por Roma, na Itália, onde ficava o Papa, chefe da sua igreja. Lutero elaborou então um elenco com 95 teses que gostaria de ver aplicadas ao catolicismo e afixou o documento na porta do castelo de Wittenberg, na Alemanha, onde era padre, para que os fiéis tomassem conhecimento de suas ideias revolucionárias. Era dia 31 de outubro de 1517, há exatamente 501 anos. Entre outras coisas, Lutero criticava a “venda de indulgências”, com os pecadores sendo perdoados desde que fizessem contribuições em dinheiro para a congregação. A Igreja Católica não acatou suas sugestões e passou a combatê-las. Nascia ali o embrião de um novo movimento. Hoje, a igreja inspirada na reforma protestante de Lutero, está espalhada no mundo todo. No Brasil, os adeptos das Igrejas evangélicas já somam 32% da população.

Nascido em 10 de novembro de 1483, Martinho Lutero vinha de uma família pobre. O pai queria que ele fosse jurista. Lutero, contudo, acabou virando monge recluso num mosteiro em Wittenberg. Sempre foi multo temente a Deus. Em 1505, quase foi atingido por um raio. Por ter escapado com vida, passou a ser mais devoto ainda. Mas logo o monge começou a mostrar seu inconformismo com dogmas e orientações vindas do Papa. Fez duras críticas à indulgência concedida pela igreja, na qual o perdão divino só seria alcançado em troca de colaborações em dinheiro pelos fiéis. “Assim que o dinheiro entra no cofre, a alma sai voando do purgatório”, pregou Lutero à época.

Depois de lançar seu manifesto, em 1517, Lutero casou-se com uma freira que largou o convento, provocando a ira do Papa. Outros gestos de Lutero também desagradaram a igreja. Ele traduziu a Bíblia para o alemão e acabou com as missas em latim, para que as pessoas pudessem compreender melhor o que os pregadores diziam. Passou a usar a imprensa para propagar seus escritos pela Alemanha e outros países. Apesar de discordar do Papa, Lutero não rompeu com a doutrina cristã. Ele sempre acreditou no “poder do diabo” e considerava justo que as bruxas fossem queimadas nas fogueiras. Entendia que Deus tomava o homem bom e justo e que a salvação só viria com a fé em Cristo. Queria uma fidelidade absoluta aos ensinamentos dos evangelhos. Por isso, seus seguidores passaram a ser chamados de luteranos, evangélicos ou protestantes.

EVASÃO DE FIÉIS

A disputa com a igreja católica aumentou e Lutero passou a sofrer ameaças vindas de Roma. Ele precisou ficar um ano escondido num castelo no interior da Alemanha. Quando voltou, não se dizia mais católico romano. Começaram a surgir então as igrejas com orientação luterana, onde não havia mais o culto às imagens e não se reconhecia mais a presença do corpo e do sangue de Cristo na Eucaristia. Lutero foi repreendido, mas somente em 1521 foi excomungado pelo Papa Leão X. Com isso, estava oficializada a cisão da igreja.

A ação de Lutero provocou uma crise no catolicismo, coma evasão de fiéis. Por isso, o papa Paulo III convocou, em 1542, o Concílio de Trento para discutir os caminhos da igreja católica. Realizado em Trento, na Itália, o Concílio durou de 1545 a 1563 e marcou a contra- reforma. Apesar de condenar a venda de indulgências, como combatia Lutero, a igreja manteve teses condenadas pelos evangélicos: confirmou o culto às imagens de santos e à Virgem Maria, ressaltou a importância das missas, confirmou a existência do purgatório, manteve a proibição do casamento para membros do clero e a indissolubilidade do casamento. Esses dogmas são mantidos até hoje pelo Vaticano. As divergências entre as duas igrejas existem até hoje, 501 anos depois do documento de Lutero. Alguns dos seus ensinamentos, contudo, não são respeitados na maioria das congregações evangélicas brasileiras atualmente, onde o fiel é obrigado a pagar o dízimo de seu salário para “alcançar o reino do céu”. É o mercantilismo da fé tão combatido por Lutero há 501 anos.

Assim caminha a humanidade.

O realizador de utopias.2

 

O realizador de utopias.3

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AS ESCRAVAS SEXUAIS DA NXIVM

Escândalo envolvendo a herdeira do império de bebidas Seagram e uma atriz de Hollywood revela os sórdidos rituais em que mulheres eram abusadas e marcadas a ferro como gado – com as iniciais do líder Keith Raniere. Ele pode ser condenado à prisão perpétua.

As escravas sexuais da nxivm

Bem-vindo à nexium. Ou melhor, Nxivm, a macabra academia de auto ajuda fundada em 1998 em Colonie, Estados Unidos, pelo ex-progarmador de computadores e supostamente génio precoce Keith Raniere, hoje com 57 anos. Depois de desenvolver um método que prometia revelar os segredos do triunfo pessoal e trazer sucesso e prosperidade, Raniere caiu nas graças de ricas e famosas, ascendendo ao status de guru. Por meio de ciclos de palestras e treinamentos que combinavam doses de filosofia, alguma religiosidade e programação neurolinguística, a organização prosperou atraindo jovens inseguras em busca de auto – afirmação. Por trás das falsas promessas, porém, havia uma armadilha para aliciar mulheres e submetê-las a uma sórdida rotina de trabalhos forçados e escravidão sexual. Como se fossem gado, as vítimas eram marcadas a ferro com as iniciais do líder em rituais frequentados por socialites. Na terça-feira 24, o FBI efetuou uma série de prisões – e acrescentou nomes antes insuspeitos ao núcleo central da Nxivm. Entre as detidas está a herdeira da destilaria Seagram, Clare Bronfman, de 39 anos. A atriz de Hollywood Allison Mack, famosa pelo seriado “Smallville”, fora detida em abril, acusada de ser uma das integrantes do que se mostrou ser uma seita de horrores. Raniere, que havia se refugiado no México, também está preso e irá a julgamento em 10 de outubro.

Junto com a bilionária Clare Bronfman foram detidas três mulheres, entre elas Nancy Salzman, de 64 anos, cofundadora da Nxivm. Pesam contra elas acusações de extorsão, roubo de documentos de identidade e participação em um esquema de entrada ilegal de estrangeiras que se tornariam vítimas do círculo interno da empresa, onde funcionava a seita sexual The Vow (O Voro) ou DOS, acrônimo em latim para Dominus Obsequious Sororium”, algo como “Mestre de Mulheres Submissas”. Próxima de Raniere, Clare é suspeita de arrecadar cerca de USS 100 milhões para a seita. Parte desse dinheiro seria de sua própria herança. Edgar Bronfman, ex-acionista maioritário da Seagram, morreu em 2013. Dez anos antes, ele Já havia denunciado a existência do culto à revista “Forbes”. Ele acreditava que as técnicas da Nxivm o distanciaram de suas filhas Clare e Sara. A advogada de Clare, Susan Necheles, alega que ela é vítima de abuso de poder por parte das autoridades: “Apenas porque o governo discorda de algumas crenças da Nxivm”. No dia das prisões, o diretor-assistente do FBI em Nova York William Sweeney afirmou que os “detalhes desses supostos crimes se tornam cada vez mais sombrios”.

CHANTAGEM

Detida e liberada após pagar uma fiança de US$5 milhões, a atriz Allison Mack entrou para a Nxivm em 2017 pelas mãos da colega Kristin Kreuk, também integrante do elenco de “Smallville”. Enquanto Kristin deixou o culto sem maiores queixas, Allison mergulhou no esquema, ajudando a atrair mulheres para Raniere. Seu julgamento está marcado para 7 de janeiro de 2019. Diante de uma pena que pode ir de 15 anos à prisão perpétua, ela poderia até negociar um acordo judicial, porém preferiu se declarar inocente. Nas redes sociais é possível assistir a alguns de seus vídeos, nos quais fala ao mundo sobre felicidade e autorrealização.

A realidade era bem outra para as vítimas. As que escaparam sequer conseguiam convencer as autoridades de que havia um esquema que as escravizava sexualmente. As denúncias não iam adiante, pois Raniere afirmava que as “tatuagens” com suas iniciais eram consensuais. No ano passado, cinco mulheres apresentaram as mesmas queixas, com marcas em suas virilhas e quadris, o que alertou a promotoria federal de Justiça. As marcas seriam feitas sem anestésicos em cerimônias organizadas na cidade de Albany, no estado de Nova York. Mack participaria como mestra, segundo contou uma das vítimas, Sarah Edmondson, ao “The New York Times”. Sarah relatou ter passado por treinamentos “motivacionais” para superar “fraquezas”. Ela foi obrigada a jurar obediência total ao líder, fez confissões íntimas e até entregou fotos suas sem roupas – que seriam usadas como instrumento de chantagem. Só depois passou pelo ritual de tatuagem. Deitada nua em uma maca e com os olhos vendados, ela teve braços e pernas seguros por outras mulheres. Entre os crimes, Raniere também obrigava as vítimas a seguir dietas de fome para se adequarem aos seus ideais de beleza feminina. Todas tinham a obrigação de saciar o desejo sexual do guru quando melhor lhe conviesse, sem a mínima opção de dizer não.

No esquema da pirâmide, cada mestre deveria arranjar seis escravas, e essas, mais seis cada uma, a fim de subir na hierarquia. Não se sabe o número de mulheres que caíram na armadilha. Em 2016, por mensagem no Twiter, Allison Mack tentou atrair a estrela Emma Watson, da série “Harry Potter”. Não houve qualquer indício de sucesso. Segundo as investigações, como Mack exercia o papel de recrutadora, seus depoimentos serão fundamentais para desvendar outros crimes. Agora as autoridades querem detalhes de como toda essa operação era financiada, já que o estilo de vida de Raniere não era barato. Em seu site, a Nxivm informa que suspendeu suas atividades diante de “eventos extraordinários”.

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AS EMERGÊNCIAS SILENCIOSAS

Paramédica relata como é lidar com um fio de vida numa ambulância e nunca saber como terminou a história.

As emergências silenciosas

“Eu acho que é encefalite”, ela me disse. ” Porque dói aqui atrás, no meu pescoço.” A senhora apontou para a nuca, na linha do cabelo grisalho e seco.

Susan tem 70 anos e ligou para o 911 por causa do nariz escorrendo e da dor. Estava doente havia alguns dias, mas não foi ao médico. Ela mora numa “ocupação de um quarto” num conjunto habitacional no centro da cidade e divide o espaço pequeno com um homem mais novo que, de acordo com ela, é seu amigo. Estamos numa cidade litorânea populosa, com antigos hotéis colados a arranha-céus de novos-ricos, condomínios e casas enfileiradas idênticas. Um casal de jovens bêbados talvez escolha caminhar algumas quadras a mais para evitar um bairro como o de Susan.

Ela estava usando um suéter grande e laranja e arregaçou uma manga com o polegar enquanto conversávamos. A roupa não estava tão suja quanto a da maioria das pessoas que tratamos, mas não estava limpa. Verifiquei seus sinais vitais e liguei o monitor cardíaco. Aumentei a temperatura da ambulância.

Susan é igual à maioria de meus pacientes: solitária, pobre e sem queixas sérias. Trabalhei numa ambulância por cinco anos em três países diferentes. Urbano e rural, rico e pobre, seco e molhado. Meu trabalho não é bem o que se pensa.

Na tela da TV, paramédicos estão sempre correndo para tentar salvar uma mulher presa debaixo de escombros, um homem sangrando ou um bebê sem fôlego. Há muitas sirenes, muita gritaria, um bêbado engraçado de vez em quando, mas a maior parte do trabalho é retratada com muita adrenalina. Geralmente, as pessoas arregalam os olhos quando conto qual é meu emprego.

A verdade sobre meu trabalho é, ao mesmo tempo, menos e mais interessante. Hoje em dia, a categoria de paramédico é mal definida, uma mistura de médico de combate, assistente social e gari. Atendemos muitas chamadas sem ligar as sirenes e nos sentamos com pessoas que têm problemas distantes da medicina. Há pouco tempo deparei com uma retratação surpreendentemente fiel da alma dos serviços de emergência médica num livro que não tem nada a ver com emergência. Em Evicted (Despejado), best-seller do New York Times, o autor, Matthew Desmond, acompanha oito famílias que estão sendo despejadas em Millwaukee, Wisconsin. O livro sobre economia e habitação logo se torna uma história comovente sobre a pobreza americana. Nas três primeiras páginas, pensei: “Ah, este livro aborda meu trabalho”. Desmond escreve sobre Arlene, mãe solteira de cinco ou seis crianças. Ela depende de programas sociais porque o dinheiro é mais fixo do que em qualquer emprego. Seu filho mais novo tem asma, e ela sempre se esquece de seus remédios. Ele fica doente o tempo todo e, sem um médico de família, é levado à emergência. Eu sei. Já fiz um atendimento desses.

A história das moradias, dos bairros em que as pessoas moram e por que elas moram lá é a história da pobreza americana. Como uma médica de rua, nunca vou saber o resultado de exames da maioria de meus pacientes – mas verei seus quartos e os de seus vizinhos. Verei a pilha de fotos no canto escuro do armário antes de ver uma radiografia de tórax. Subo três lances de escada com minha maleta e passo por vasos de plantas, certificados emoldurados e fotos de família. Sei quais casas têm construções ilegais, laboratórios de metanfetamina ou terraços lindos. Procuro por insulina na geladeira. Uma paciente me leva até seu armário, e eu escolho um casaco para ela usar; ela não gosta do amarelo, pego o azul atrás dele. Um boné da infantaria do Vietnã cai quando pego o cabide. Ela pede que eu o guarde, era de seu marido. As bordas estão finas de tanto uso.

Vemos cozinhas reformadas, sótãos apodrecidos. Eu deixo comida para os animais de estimação, desligo as luzes e a boca do fogão embaixo da panela com rabada. Uma vez, li metade de um poema deixado na máquina de escrever de uma mulher que morreu.

Serviços de ambulância, no fundo, são serviços de transporte. Fazemos muitas avaliações e poucas intervenções, mas nossa função principal é levar as pessoas do lugar onde estão até o hospital. Chamamos de “cenário”. Como estava o cenário? O cenário é seguro? Estamos numa casa, numa clínica, num beco atrás de várias lixeiras? Num mês normal, atendo cerca de 70 a 100 pacientes. Normalmente, dois ou três são emergências do tipo luzes e sirenes, pisa no acelerador, “Johnny, traz o desfibrilador”. Você sofre um acidente de carro, um ataque cardíaco. O resto dos pacientes é igual a Susan: pobres, velhos, bêbados e sem casa – pessoas que se distanciaram ou foram expulsas da sociedade e não sabem a quem pedir ajuda.

Geralmente vejo cada paciente por cerca de uma hora, da rua ao hospital. Temos alguns clientes fiéis, mas eles só aparecem em seus dias ruins. Quando passamos um tempo sem ver uma pessoa, a maioria das vezes é porque elas ficaram sóbrias, foram presas ou morreram. Chegamos num momento de crise de uma história e quase nunca testemunhamos seu final.

Quase nunca vemos uma história ser resolvida.

À noite, depois de terminar o livro de Desmond, anotei todas as chamadas de meu turno. Eu trabalho no centro, das 16h30 às 4h30. As chamadas incluíam Tag, de 41 anos, que estava numa clínica e sofria de dores nas costelas havia um mês. Depois de Tag, vinha Ronnie, um homem de 58 anos de um abrigo para veteranos sem teto. Ele estava sofrendo de surto psicótico e coriza, nessa ordem. Falando rápido e com sentido na maioria das vezes, se ele conduzia a conversa por muito tempo, a paranoia começava. Seu nariz estava escorrendo havia uma semana e seu vizinho havia roubado suas calças e as pintara de outra cor. “Estas calças?” Eu apontei para o jeans que usava. Ele não tinha certeza. Disse que o homem rastejava por debaixo de sua porta toda noite, pintava as calças e então rastejava de volta. Demos a Ronnie uns lenços de papel e o levamos para o Departamento de Assuntos de Veteranos.

Em seguida, foi a vez de um mendigo bêbado com um corte na cabeça; a ligação foi feita por uma turista que nem parou o carro, só pegou o celular e continuou dirigindo. Depois, Susan, com a dor na nuca e o suéter laranja. E uma russa de 91 anos com um ataque de asma que estava mais ou menos resolvido quando chegamos. Mas seu filho estava preocupado: ela mora sozinha, ele não poderia passar a noite lá, e eles não tinham dinheiro para pagar uma cuidadora que ficasse com ela.

Todos esses pacientes enfrentam sérios problemas de moradia, comida, competências. A ligação ao 911 não é tanto uma emergência quanto uma incapacidade de sustentar a si mesmos. A falta de acesso a necessidades básicas como comida, água e higiene se tornará problema de saúde se ignorada por tempo suficiente. Geladeiras vazias levam à desnutrição, encanamento defeituoso traz infecções. Vício se torna overdose. Algumas pessoas nos ligam com esperança de ser levadas à emergência quando não querem passar mais uma noite sozinhas.

Susan contou que tomava remédios para pressão alta, problemas psicológicos e dor. Já teve um ataque cardíaco. A maioria de seus remédios tinha acabado havia uma semana, e ela não conseguira ir a uma farmácia para comprar mais. Susan olhou para mim um pouco envergonhada. “Eu achava que não estavam fazendo efeito mesmo.”

Ela disse que sobrou um pouco de Haldol, mas não tomava sempre porque não gostava. Seus joelhos balançavam para a frente e para trás na maca, provavelmente um efeito colateral do medicamento. Pacientes que tomam remédios psiquiátricos a vida toda costumam ser um pouco inquietos. Ela disse que a braçadeira para medir pressão arterial estava um pouco apertada.

Susan é beneficiária de programas de auxílio do governo desde os 24 ou 25 anos por causa de alucinações. Ela morava no Sul naquela época. Passou um ano em Tulsa, dois em Sacramento, indo de um lado para o outro. Às vezes recebe benefício por causa da deficiência e outros auxílios financeiros. Divide o quarto com Marcos há muitos anos. Procurei por seu nome em nosso sistema: transportamos Susan quatro vezes neste mês. Ela explicou que costuma ir de cadeira de rodas à farmácia, mas nesta semana havia feito frio.

Quando estávamos indo embora, perguntei: “Se esteve doente a semana inteira, o que foi que mudou para você ter ligado para o 911 hoje?”.

“Eu fico assoando o nariz, mas ele continua escorrendo”, respondeu.

Em comunidades pobres, acesso constante a medicamentos é raro. Mudanças de casa frequentes levam a mudanças no seguro, na elegibilidade ao Medicare – o sistema de seguros de saúde gerido pelo governo americano – e no fornecimento de transporte até um novo médico.

Quando a comida acaba, quando não têm mais casa, quando os relacionamentos terminam, somos a última alternativa.

Temos uma paciente regular em minha cidade chamada Leena. Ela tem o temperamento de uma criança desnutrida. Passa de feliz a zangada num piscar de olhos, rindo e chorando, nos ajudando ou cuspindo em nós. Liga no meio da noite porque a vodca acabou ou o motorista do ônibus olhou feio para ela. Gosta de descrever suas aventuras sexuais em detalhes desconfortáveis e já socou paramédicos do nada.

Uma série de leis severas impede o “abandono de pacientes”, que é o tempo legal usado para o caso de eu sentar na frente dela e dizer “Não”. De dizer: “Querida, você já ligou nove vezes nos últimos quatro dias. Você foi expulsa do pronto-socorro hoje de manhã porque cuspiu numa enfermeira. Você foi expulsa do último abrigo por brigar com um vigia. Você não tem uma queixa de saúde, só está cansada. Eu entendo, o sol está se pondo, a calçada está rachada e os ratos vão aparecer, e isso é um saco, eu sei. Eu queria poder fazer alguma coisa. Mas o pronto-socorro é para emergências de saúde, para pessoas que estão morrendo mais rápido que você. E a ambulância serve para dirigir rapidamente, para quem está tão perto da morte que não consegue esperar no sinal vermelho porque pode não sobreviver até ficar verde. E talvez alguém assim esteja tentando ligar para nós agora, mas não podemos ajudá-lo porque estamos aqui com você. De novo”.

Queria poder ser a pessoa que leva esses pacientes a clínicas de atendimento a longo prazo e à terapia, que, sozinha, os tira da escuridão. Mas tudo que posso fazer é colocá-los na maca e levá-los ao hospital.

Fui treinada para reagir a situações de vida ou morte em segundos. Abra a via aérea, pare o sangramento. Salve o coração que está precariamente à beira da morte, estenda a mão e agarre a última chance de vida. Emergências. Para alguém como Leena, porém, estar cansada e sozinha é uma emergência. Sua vida está tão fora de seu controle que ela não consegue pensar além de uma hora daqui para a frente. E, na próxima hora, o sol vai se pôr e a neblina vai tomar conta da noite. Em vez de deixá-la na rua, tentei colocar juízo em sua cabeça e lhe dei um cobertor e uma carona até o pronto-socorro. Pode ser que desta vez algo tenha mudado. Três horas depois, Leena ligou novamente, a uma quadra do hospital. Uma equipe diferente atendeu a chamada.

O número de overdoses sempre sobe nos dias 1 e 15. Eu sei mais sobre seguridade social do que sobre câncer, com certeza. E a quantidade de pessoas que não têm mais nada, que estão perdidas, com medo e sozinhas, sempre será maior que a de pessoas que acabam tendo um derrame ou um infarto. Sempre. Enquanto o serviço de 911 permanecer gratuito e rápido, a maior parte do trabalho não vai se tratar de transporte rápido.

Em Evicted, Desmond escreve: “Há duas formas de desumanização: a primeira é privar as pessoas de toda virtude; a segunda é purificá-las de todo pecado”. Desmond escreve sobre seu povo, meu povo, com compaixão e em detalhes. Ele evoca seus dias bons, os momentos alegres entre períodos complicados. Preenche a história daquele mês em que Leena não ligou, quando estava bem alimentada e morando com sua tia em algum lugar ao norte. Para mim é bom ver essa parte da história. Lembrar que existe um ser humano por trás da ligação.

Quando deixamos Susan na sala de emergência, meu parceiro e eu elogiamos seu suéter. Dissemos que ficava bonito nela e era aconchegante naquele inverno. Ela sorriu abertamente. “Tenho ele há muitos anos”, disse. “É meu favorito.” Puxou as mangas e apoiou o queixo na mão escondida dentro do suéter. Eu ajeitei o cobertor e desejei tudo de bom para ela. Esperava que ela se sentisse melhor, organizasse seus remédios e ficasse longe do hospital por um tempo. Em outras palavras, eu esperava nunca mais vê-la de novo.

As emergências silenciosas.2

OUTROS OLHARES

QUEBRANDO A CARA

A técnica do reconhecimento de rostos, aposta para flagrar criminosos nas ruas, tem falhado mais do que o esperado e confunde a maioria dos inocentes com bandidos.

Quebrando a cara

O filme de 1985 do americano Terry Gilliam, a distopia futurista Brazil – que não faz referência direta ao país, mas ao gingado da música brasileira -, traz um protagonista, Buttle, que é preso erroneamente depois que um sistema automatizado de identificação do governo ditatorial o confunde com um bandido foragido. Roteiros de ficção científica costumam prever tecnologias que mais tarde se tornam rotineiras. Foi assim com a inteligência artificial, com os carros autônomos, com os smartphones, todas essas inovações imaginadas previamente em livros e no cinema. Agora, o amanhã torto descrito em Brazil começou ase concretizar. Descobriu-se que sistemas de reconhecimento facial utilizados na China para flagrar criminosos são muito menos precisos do que o celebrado pelo Partido Comunista.

A potência asiática é pioneira no uso dessa tecnologia em larga escala. Desde 2015, uma rede de 170 milhões de câmeras de segurança foi espalhada por vias públicas. Por meio de um banco de dados com 1,3 bilhão de fotos de rostos, o governo alega conseguir identificar até 700 milhões de cidadãos, com precisão que ultrapassa 80% de acerto. A China ainda informa que, após uma primeira abordagem de um suspeito, o cruzamento de informações extras de seus sistemas elevaria a probabilidade de correção para 97%. Mas não é bem assim.

Levantamentos recentes escancararam a fragilidade do mecanismo. As autoridades chinesas teriam mentido, falsificando os dados, o que não é lá grande novidade. No ano passado, o Reino Unido passou a testar a mesma técnica de identificação facial no País de Gales. Os resultados foram tenebrosos: de 2.470 alertas de detecção de suspeitos de crimes, 90% eram falhos. Em Londres, o mesmo programa foi usado em eventos de grande público, como partidas de futebol, com taxa de 98% de falso-positivos.

Nos Estados Unidos, a inovação começou a ser testada pela Amazon. No entanto, antes mesmo de algumas cidades adotarem o sistema, a União Americana para as Liberdades Civis (Aclu, na sigla em inglês) protestou. A entidade fez a contraprova da tecnologia de forma inusitada: cruzou as fotos de todos os 535 senadores e deputados federais com as imagens de 25.000 criminosos arquivadas num banco de dados. A falha foi grotesca, visto que 28 dos legisladores foram reconhecidos como bandidos – e nenhum dos parlamentares, diga-se, era foragido da Justiça.

Espera-se que a tecnologia evolua, como sempre. Contudo, é perigosa a forma como o aprimoramento deve ocorrer. Para a identificação ter índice de acerto superior, é crucial que o banco de retratos usado como base seja ampliado. Uma taxa de precisão de quase 100% só seria possível, em teoria, se fosse escaneada a face de todos os cidadãos, incluindo aí a maioria inocente. Uma invasão de privacidade que já ocorre sem que se perceba. Explica o engenheiro José Guerreiro, chefe de tecnologia da brasileira FullFace, fornecedora do programa de reconhecimento facial da polícia de São Paulo: “Ao cederem imagens a uma empresa como o Google ou o Facebook, essas companhias têm o direito de repassá-las para as autoridades”. Em outras palavras, as fotos nas redes sociais podem em breve ser usadas para fichamento na polícia.

Nos Estados Unidos, um relatório do Center on Privacy and Technology (Centro de Privacidade e Tecnologia) da Faculdade de Direito de Georgetown, mostrou que, no ano passado, esse método já possibilitaria que 117 milhões de americanos, entre a população de 325 milhões, tivessem o rosto digitalizado pelo governo. Uma distopia como a de Brazil parece cada vez mais próxima da realidade.

Quebrando a cara. 2

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VAIDADE EM RISCO

Como uma perigosa combinação de sociedades médicas clandestinas, desinformação de pacientes e desejo de obter beleza a qualquer custo tem resultado em complicações e mortes que ameaçam a confiança em cirurgias e procedimentos estéticos.

vaidade em risco

Casos recentes de erros médicos e óbitos decorrentes de cirurgias plásticas expuseram os riscos de uma atividade que tem atraído uma parcela crescente da população, sobretudo feminina. Dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) mostram uma explosão de queixas envolvendo a especialidade. Em 2015, foram10 denúncias. O número saltou para 27 em 2016 e chegou a 68 no ano passado. Apesar do aumento, as reclamações ainda não refletem a realidade: muitos pacientes prejudicados preferem o silêncio. Não denunciam seus médicos e nem ingressam com ação judicial mesmo quando há comprovação de erro durante o procedimento. As razões para não levar processos adiante são muitas. “Há descrença no Judiciário, indisposição para enfrentar um processo que pode ser custoso e demorado, além da falta de estrutura emocional para as vítimas reviverem os fatos infelizes e trágicos pelos quais passaram”, diz Fernando Polastro, voluntário responsável pelos primeiros atendimentos, triagem e direcionamento de pacientes que procuram a Associação Brasileira de Vítimas de Erro Médico (Abravem). “Outros não denunciam por desconhecimento de seus direitos ou dúvida sobre ter havido ou não erro médico em seu caso”. Como resultado dessa omissão, mais e mais pessoas se tornam sujeitas a procedimentos inseguros, negligência, imperícia e imprudência de médicos. A falta de bom senso na busca por um corpo perfeito, modelado por implantes de silicone ou lipoesculturas é outro fator que contribui para o aumento de casos sem final feliz. Para atender a uma crescente demanda por transformações estéticas, surgiram no País até sociedades médicas clandestinas, que colocam em risco a vida de pacientes.

CÓDIGO ULTRAPASSADO

A divulgação de procedimentos cirúrgicos por meio de redes sociais deve ser vista com desconfiança. “Cirurgia plástica só com cirurgião plástico. Procedimento estético pode ser com dermatologista”. afirma Alexandre Senra, cirurgião do Hospital Albert Einstein e membro da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética (ASAPS). “Não existe mágica. Desconfie de preços muito abaixo da média, afinal é a sua vida”, adverte. Segundo ele, o código de 1957 sobre o exercido da medicina que diz que após os seis anos de formação o médico pode exercer qualquer especialidade está ultrapassado. “Existe uma jurisprudência que diz que o médico que faz procedimento sem estar habilitado pode ser penalizado. A relação médico – paciente continua primordial, mas está se perdendo. O médico precisa conhecer o paciente e vice-versa. Sem isso, somos apenas técnicos.” A filosofia da cirurgia plástica é gerar bem-estar, auto estima e contribuir para a harmonia da auto – imagem do paciente. Bem diferente da venda de fantasias e ilusões feita por profissionais não habilitados colocando em risco pacientes. O presidente da SBCP, Níveo Steffen afirma que a Sociedade é frontalmente contra a banalização dos procedimentos cirúrgicos. “Cabe ao cirurgião plástico ser honesto ao examinar e escutar o paciente para identificar a indicação ou não da cirurgia plástica, informando sobre as reais possibilidades de resultado, riscos cirúrgicos e pós-operatório”, Segundo Steffen, a SBCP tem cerca de 6.500 membros. Apenas seis cirurgiões plásticos e um dermatologista estão entre os 289 médicos processados por problemas em procedimentos relacionados à cirurgia plástica entre 2001 e 2008.

CORPORATIVISMO

Ainda que poucos cometam erros, o corporativismo da classe costuma proteger os negligentes. Uma empresária de campo Grande de 36 anos, que pediu para não ser identificada, tem vivido esse drama. Ela colocou prótese nas mamas em 2006. No ano passado, depois de amamentar dois filhos, achou que os seios estavam um pouco assimétricos e consultou um renomado cirurgião plástico da cidade, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, indicado por várias pessoas. “Combinamos a retirada das próteses com correção estética no mesmo procedimento: Segundo ela, consta no prontuário médico que foi uma cirurgia de retirada de implantes mamários com correções estéticas. “Não sei no que ele errou, mas sei que o resultado foi um pesadelo na minha vida”.

Segundo a paciente, o cirurgião se negou a dar fotos do pós-cirúrgico e a cópia do contrato de prestação de serviço. Ele disse que após seis meses suas mamas voltariam ao normal, o que não aconteceu. Quando ela voltou a procurar o médico, ele deixou de atendê-la e a bloqueou no WhatsApp. A empresária consultou outros médicos que constataram lesão muscular em uma das mamas, mas quando pedia um laudo, se negavam, por serem colegas do renomado cirurgião e não quererem se comprometer. “O que vai valer é a avaliação judicial, mas os peritos serão os colegas do cirurgião que fez minha plástica. Será difícil encontrar um que aceite se comprometer.” Depois da perícia médica, ela fará cirurgia reparadora nos Estados Unidos. “‘Não confio mais nos médicos daqui”, diz, frustrada.

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ERROSFATAIS

Denis Furtado, Dr. Bum­bum, expôs a realidade da cirurgia plástica no Brasil. Médico sem nunca ter feito residência médica e sem título de especialista em qualquer área da Medicina, ele tem no currículo pós-graduações não reconhecidas pelo Ministério da Educação. Denis (na foto com a mãe, Maria de Fátima) foi preso no dia 19 de julho acusado de ter causado a morte de sua paciente, a bancária Lilian Calixto (foto), de 46 anos, após um procedimento estético realizado no apartamento do médico no Rio de Janeiro.

PRECAUÇÕES QUE SALVAM VIDAS

Casos atuais de erros e mortes em procedimentos estéticos chamam a atenção para escolha criteriosa do profissional, esclarecimento do paciente sobre possíveis riscos e os cuidados no pós-operatório.

  • Certifique-se de que o profissional é registrado como cirurgião plástico no site do Conselho Regional de Medicina de sua localidade e/ou no site da SBCP.
  • Sempre pesquise sobre antecedentes e idoneidade do profissional.
  • Dê preferência a cirurgiões conhecidos ou próximos de sua família. Cuidado com recomendações feitas por falsos pacientes criados para elogiar profissionais em mídias sociais e blogs.
  • Exija o Termo de Consentimento Informado. Médico e hospital têm a obrigação de informar o paciente com linguagem clara sobre todas as possibilidades de sua cirurgia, incluindo os riscos e fatores imponderáveis, até mesmo a morte.
  • Siga criteriosamente as orientações médicas antes e após a cirurgia.

vaidade em risco.3 FONTE: Níveo Steffen, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

OUTROS OLHARES

O PLANETA RESPONDE AOS EFEITOS DA AÇÃO HUMANA.

Altas recordes de temperatura são registradas em todo o mundo e eventos climáticos extremos confirmam as previsões dos cientistas sobre as consequências do aquecimento global. Arcar com os custos para mitigar os efeitos dessas mudanças sobre as populações é apenas parte do problema.

O planeta responde aos efeitos da ação humana

Nas últimas semanas, o mundo tem experimentado uma anomalia climática. Na segunda, feira 23, o Japão registrou 41.1oC, a maior temperatura de sua história. Desde o começo de julho, mais 70 pessoas morreram devido à onda de calor que atingiu o país. Os japoneses ainda lutam para se recuperar da destruição causada pelas chuvas do início do mês que causaram mais de 200 mortes. No Círculo Polar Artico, as temperaturas atingiram picos de 300 C e a Sibéria teve em junho uma média oito graus acima do normal. No Canadá, mais de 70 pessoas, a maioria idosos, morreram devido às temperaturas elevadas depois que uma massa de ar quente dominou cidades acostumadas ao frio. O calor é dramático por provocar consequências desastrosas como racionamento de água, cortes de energia e, muitas vezes, incêndios florestais. A Suécia precisou pedir ajuda internacional para debelar mais de 50 focos de incêndios. Eventos extremos no clima são a resposta do planeta aos efeitos da contínua degradação provocada pelas atividades do homem – e confirmam que a Terra está mais quente a cada ano.

Em 1990, o primeiro relatório do Painel lntergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU já previa os efeitos do aquecimento global. Quase 30 anos depois, elas parecem se concretizar. “Nós sabemos que as mudanças climáticas aumentam a frequência e a intensidade dos eventos climáticos extremos, além da linha de base da temperatura do planeta”, diz Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e membro do IPCC. “O aumento de 3oC já está acontecendo e não há dúvida de que uma fração da riqueza global terá de ser utilizada para os países se protegerem. Não é o fim do mundo, mas as próximas gerações terão um clima muito menos propício ao desenvolvimento, diz ele.

As alterações no clima já são percebidas no Brasil. Diversas regiões enfrentam um inverno mais quente e seco, o que se refletiu em aumento no número de incêndios florestais. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que os focos de fogo em 2018 cresceram 52% em relação a 2017. Em abril, antes mesmo do período de seca ser considerado crítico, o Distrito Federal decretou estado de emergência ambiental por conta do risco de incêndios. As bacias hidrográficas do País também estão sofrendo com as alterações climáticas. Apenas no Nordeste, dos cerca de 521 reservatórios monitorados pela Agência Nacional de águas (ANA), 214 estão abaixo de 30%, mesmo com as medidas de restrição de uso da água. Em São Paulo, o sistema Cantareira preocupa com o acúmulo de apenas 40.62% de sua capacidade – em julho no ano passado, ele possuía 63.89%. Menos é sinônimo de menos desenvolvimento. Um estudo realizado pela ANA em parceria com a FGV analisou os impactos das mudanças climáticas na bacia do rio Pirambas-Açu. que vai da Paraíba ao Rio Grande do Norte. A pesquisa a ser divulgada, traz as seguintes conclusões: de junho de 2012 a Junho de 2017, a crise hídrica que atingiu essa bacia causou R$ 3 bilhões em perdas econômicas, um valor expressivo que leva a um jargão comum no semi- árido: “água cara é aquela que não se tem”, diz Sérgio Aymoraes, superintendente de Planejamento de Recursos Hídricos da ANA. “Precisamos de mais controle na demanda da água e mais investimentos em infraestrutura para aumentar a oferta. É uma soma de ações que vai nos preparar para as mudanças”.

Os prejuízos causados pelo aumento do calor também estão afetando as produções agrícolas do

País. Esse ano, as perdas na safrinha de milho, que ocorre de janeiro a abril, chegaram a 10 milhões de toneladas, quase o dobro de 2017. Produções de feijão, laranja e café também sofrem com as altas temperaturas, pois as plantas não podem produzir a flor e consequentemente, o fruto. “Há mais de 20 anos estamos avisando e mostrando para todo mundo que a temperatura mínima está subindo”, diz Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e professor de mudanças climáticas no mestrado de negócios da FGV. “O Brasil está muito vulnerável às ondas de calor e cada ano que passa são mais frequentes as temperaturas elevadas. Os empresários do agronegócio estão preocupadíssimos”, diz ele, que defende, entre outras medidas, sistemas de manejo de solo e água mais adaptados e tolerantes a temperaturas elevadas e revegetação de áreas degradadas, principalmente no sul do Pará e na Bacia do Rio São Francisco. As dificuldades, no entanto, se encontram no Congresso. “A Embrapa investe dois terços do seu orçamento em soluções para o aquecimento global no Brasil e está sendo achincalhada por deputados e senadores da bancada ruralista que olham apenas para o seu próprio umbigo”, diz ele. Como pouco foi feito no passado, os desastres climáticos chegaram. Para que não sejam ainda maiores, o mundo precisa agir.

 O planeta responde aos efeitos da ação humana.2

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O INFERNO CHEGOU

O calor extremo que castiga o Hemisfério Norte pode servir para transformar em cinzas os argumentos de quem nega os perigos das mudanças climáticas.

O inferno chegou

Nada como saber de antemão quando uma mudança com potencial catastrófico vai acontecer para poder, se possível, evitá-la ou, ao menos, preparar-se adequadamente. Os cientistas que, desde 1990, alertam para os riscos do aquecimento global causado pela ação humana tentam fazer exatamente isso: convencer governantes de todo o planeta a adotar medidas para enfrentar ou amenizar o fenômeno. O problema das previsões, e que os argumentos para agir não são palpáveis para a maioria da população (e dos políticos que dependem do seu voto) enquanto não se tornam realidade. Aproveitando-se disso, os céticos do aquecimento global dizem, jocosamente, que as previsões sobre as mudanças climáticas de longo prazo são tão críveis quanto as que afirmam que vai chover no fim de semana, mas faz um sol de rachar. Recorrer a esse sofisma pode ficar mais difícil depois do atual verão no Hemisfério Norte – que vem batendo sucessivos recordes de temperatura em diferentes regiões, muitas vezes com resultados desastrosos.

Na Finlândia, os habitantes de Sodankyla, localizada a menos de 100 quilômetros do Círculo Polar Ártico, experimentaram neste ano um dia de verão com características tropicais: 32 graus, mais que o dobro do esperado. No Japão, 65 pessoas, em sua maioria idosos, não resistiram ao verão mais quente da história do país e morreram. Na Grécia, 91 pessoas perderam a vida em incêndios causa­ dos pela combinação de calor intenso, vegetação seca e ventos fortes. Há dezesseis dias, foram registradas temperaturas próximas a 50 graus no sul da Califórnia, nos Estados Unidos, e a temporada de incêndios florestais, própria desta estação, está se provando mais longa que o normal. Os alemães também enfrentaram, neste ano, o mês de abril mais quente da história de seu país. Com os termômetros marcando mais de 40 graus, nem os peixes dos rios Reno e Elba resistiram ao fenômeno – milhares morreram por causa da falta de oxigênio provocada pelo aquecimento da água. Os meteorologistas preveem que a temperatura na Península Ibérica será, neste mês, a mais alta já registrada na Europa continental, batendo o recorde de 48 graus, observado em 1977, em Atenas, na Grécia. Até o que era quente se tornou ainda mais infernal –   no início de julho fez 51,3 graus à sombra no Deserto do Saara, a temperatura mais elevada já medida pelos termômetros na África.

Não é possível afirmar que cada um dos eventos acima foi ou é causado diretamente pelo aquecimento global. Há inúmeros fatores regionais que podem tê-los influenciado. O que está claro é que situações climáticas extremas como essas vêm se tornando mais frequentes – e isso não acontece por acaso. A explicação se encontra na emissão dos gases do efeito estufa, que contribuíram para o aumento de mais de 1 grau na média da temperatura na Terra desde o século XIX. Segundo um estudo divulgado na quarta-feira lº pela Sociedade Americana de Meteorologia, 2017 foi o ano mais quente de que se tem registro sem influência do El Nino, fenômeno natural que começa com o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e tem impacto global no clima. E quais foram os anos mais quentes com El Nino? Aqueles imediatamente anteriores: 2016 e 2015. “As temperaturas que estamos experimentando podem não ser ainda o ‘novo normal’, mas podem vir a ser em algumas décadas”, avisou Stephen Belcher, cientista-chefe do serviço nacional de meteorologia britânico.

A janela de oportunidade para combater as causas das alterações climáticas está se fechando. “Muitos cientistas dizem que temos apenas vinte anos para mudar nosso comportamento e partir para um mundo com balanço zero nas emissões de carbono na atmosfera. Isso significa que a cada ano que passa perdemos 4% dessa margem de segurança”, diz o ecólogo Daniel Nepstad, diretor do Earth Innovation Institute, ONG com sede na Califórnia. Se outros efeitos já visíveis do aquecimento global – como a retração do gelo marítimo do Ártico, o aumento do nível dos mares, o encolhimento das geleiras e a morte de corais – não foram ainda suficientes para persuadir políticos e outras personalidades influentes que negam a ação do homem nas mudanças climáticas, quem sabe a atual onda de calor cumpra esse papel. O presidente americano Donald Trump, que tirou seu país de um acordo internacional de redução de emissões, deveria ser o primeiro a cair na real. O problema, como observou o jornal britânico TheGuardian em editorial, é que é mais fácil mudar o clima do que as opiniões de Trump.