O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O CAPACETE DA SALVAÇÃO

Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvore agradável à vista e boa para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal… mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gênesis 2:9, 17).

Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu, e deu também ao marido, e ele comeu. Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira, e fizeram cintas para si (Gênesis 3:6, 7).

Porque a nossa glória é esta: o testemu­nho da nossa consciência, de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especial­mente para convosco (2 Coríntios 1:12). Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus (Efésios 6:17).

E vos renoveis no espírito do vosso en­tendimento (Efésios 4:23).

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Romanos 12:2).

Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz (Romanos 8:5, 6).

PRIMEIRO

No meio de todas as árvores do jardim do Éden encontravam-se a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Deus orde­nara a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gêne­sis 2:16b, 17). Isto indica quão opostas eram estas duas árvores. De um lado está a árvore da vida, do outro, a árvore do conhecimento do bem e do mal. Podemos, portanto, dizer que uma é a árvore da vida e a outra, a árvore da morte, pois ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal o homem morre.

Podemos notar um resultado tremendo na vida de Adão e Eva depois de terem pecado: ganharam conhecimento; tendo comido do fruto, ficaram conhecendo o bem e o mal. Em outras palavras, o primeiro efeito subjetivo no homem depois da queda foi o aumento da capacidade de funcionar da mente. Antes da queda, o homem possuía um tipo de mente; depois da queda seu cérebro começou a conter maior porção de coisas que era do propósito original de Deus que ele tivesse com o tempo — mas não da maneira pela qual os homens, nessa época, obtiveram tais coisas. Por este motivo Paulo menciona em Efésios 6:17 que o crente deve “tomar o capacete da salvação”. Esta pas­sagem confirma a necessidade da libertação da mente humana. Muitos, depois de crerem no Senhor Jesus, sofrem mudanças de vida, mas suas mentes ainda precisam ser libertas. Se as mentes não forem libertas, ficarão sem proteção na época de conflito espiritual. Daí ser da major importância que tomemos o capacete da sal­vação.

Ocorre um fenômeno um tanto espantoso entre os filhos de Deus: encontramos muitas pessoas de bom coração e bom comportamento que ainda levam consigo a mente que pertence à velha natureza. Em outras palavras, sua vida é a vida de Cristo mas sua mente é a de Adão. Isto diminui sua capacidade de conhecer a vontade de Deus. Portanto, a fim de medir a vida espiritual de uma pessoa, precisamos somente medir sua cabeça. Ao grau em que sua mente é liberta, a esse grau a pessoa é liberta de Adão e por conseguinte liberta da velha criatura. A diferença básica entre o viver na velha criatura e o viver na nova pode ser vista no relacionamento entre a mente da pessoa e Deus.

SEGUNDO

“Não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo” (2 Coríntios 1:12b).

Como precisamos pedir que Deus nos livre de nossa própria inteligência! O princípio do viver cristão é confiar na vontade de Deus e não na inteligência humana, depender da graça de Deus e não de nossa própria sabedoria. É necessário que aprendamos esta lição.

Suponhamos que exista algo que você tem de fazer, mas não sabe como fazê-lo, ou se não deve fazê-lo de modo nenhum. Você não tem ideia alguma de como proceder. De modo que você começa a deliberar sobre o resultado da ação que você deve tomar. Se fizer tal coisa desta ou daquela maneira, o que dirão as pessoas? De modo que você tenta ser inteligente. Como? Dizer ou fazer o que causará o mínimo de problemas e evitará o máximo de oposição. Este tipo de conduta significa que a pessoa se esqueceu de que os filhos de Deus não vivem na terra pela inteligência humana. Ser cristão é bastante simples. A pessoa simplesmente deve fazer a pergunta: “Deus, o que queres que eu faça?”

Está claro que a árvore do conhecimento do bem e do mal ainda se encontra entre os filhos de Deus hoje. Muitos ainda se alimentam de seus frutos diariamente. Não comem da árvore da vida; pelo contrário, não cessam de pergun­tar: “O que é melhor?” — Pergunta esta que procede da árvore do conhecimento do bem e do mal. Entretanto, Paulo diz-nos que hoje nossa vida perante Deus é muito simples, não depen­demos da sabedoria humana, mas da graça divina. Somos responsáveis por uma coisa so­mente: fazer a vontade de Deus.

TERCEIRO

“Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, a agradável e perfeita vontade de Deus” (Roma­nos 12:2b).

Que cada um de nós se lembre de que é responsável somente pela vontade de Deus, e que a responsabilidade de Deus é fazer com que experimentemos a consequência certa depois de termos feito sua vontade. Temos a tendência de procurar o caminho agradável. Mas com referên­cia a isto, descobrimos que o Filho de Deus trilhou a estrada mais difícil enquanto na terra, fez-se responsável pela vontade de Deus, e Deus, por sua vez, foi responsável por dar-lhe a estrada difícil. Ao testificarmos que a sabedoria humana do cristão é totalmente inútil, não sugerimos que ele deva ir em frente e praticar coisas tolas. Pois nem sua sabedoria humana nem a própria tolice possuem qualquer utilidade para Deus. Deus não necessita de nossa estultícia, assim como não precisa de nossa sabedoria. Nem todas as coisas tolas são corretas; somente as coisas que procedem da vontade divina são corretas. Devemos perceber tal distinção. Não estamos corretos de modo nenhum quando deliberadamente dizemos algumas palavras to­las ou praticamos ações bobas. Nossa responsa­bilidade é fazer a vontade de Deus. O que quer que o Senhor deseja que eu faça, isso devo fazer. O resultado é responsabilidade dele, não sua nem minha.

Assim, devemos pedir que Deus nos livre de nossa mente: que nosso pensar possa ser salvo ao tomarmos o capacete da salvação. Sempre que encontrarmos alguma coisa, primeiro devemos confessar a Deus: “Deus, minha mente ou minha inteligência não é o princípio do meu viver cristão. Tudo o que me importa é procurar a tua vontade.” Isto não significa que você deva fingir ser uma pessoa tola. Deixe-me dizer-lhe de novo que Deus não tem utilidade nem para o tolo nem para o sábio. Insistimos somente em que os cristãos neste mundo não devem viver mediante a deliberação de suas mentes mas pela boa, aceitável e perfeita vontade de Deus.

Algumas pessoas possuem tino de comercian­tes. Sempre que alguma coisa lhes vem à mente, sua primeira reação é calcular o ganho ou a perda pessoal. Esse traço é característico das coisas espirituais e também das seculares. Tal mente precisa ser admoestada. O fator decisivo das coisas espirituais não é o ganho ou a perda pessoal, mas a vontade de Deus. Oh, que realmente possamos perceber que temos um único princípio pelo qual viver, e este se encon­tra “na graça de Deus” — em fazer a vontade divina.

QUARTO

“E vos renoveis no espírito do vosso entendi­mento” (Efésios 4:23).

Isto quer dizer que a mente humana precisa de renovação. Romanos 12 dá o mesmo parecer: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente.” O resultado é que “experimenteis qual seja a boa, a agradável e perfeita vontade de Deus”. Depois de sua mente ser renovada você pode provar qual seja a vontade de Deus. De modo que o conhecer ou não a vontade de Deus não é questão de método mas de pessoa. Muitos estão familiarizados com métodos de conhecer a vontade de Deus mas sua pessoa não é correta; consequentemente, não podem conhecer a vontade dele.

Que tipo de pessoa pode conhecer a vontade de Deus? A pessoa a quem Deus libertou do poder mental. Sua mente deve ser renovada antes que você prove qual seja a vontade de Deus. Conserve isto sempre em mente: a parte mais forte da vida natural do homem é seu aparelho pensador. Algumas pessoas podem ter sua força natural na vontade, outras, na emoção. A maioria das pessoas, porém, tem sua força natural na mente. Ao conhecer uma pessoa com uma mente vigorosa, você conhece seu pensa­mento. À medida que você se aproxima dela, seus pensamentos começam a fluir. Seu pensa­mento é maior do que seu espírito. Parece ser muito inteligente, pois seu caráter é refletido pelo pensamento. Se isto que é sua força não for quebrantado pelo Senhor, não terá maneira de conhecer a vontade de Deus. Da mesma forma, devemos pedir que o Senhor faça com que não confiemos no poder de nosso entendimento.

A pessoa pode continuamente confessar quão errada é sua vida carnal ou natural, e o tempo todo dar valor ao seu entendimento e opinião. Embora admita sua fraqueza com a boca, o coração ainda está cheio dos seus próprios pensamentos e sabedoria. Pensa que seu ponto de vista é superior ao dos outros e que seu modo de vida é melhor do que o dos outros. Sua inteligência não foi quebrantada pelo Senhor e seu pensamento não foi mudado. Por causa disto, essa pessoa não tem como conhecer a vontade de Deus. Há pessoas cujos lábios estão cheios da vontade de Deus, mas na realidade nada conhecem dela. Lembremo-nos de que se a pessoa não estiver correta, não tem possibilida­de de conhecer a vontade divina. O Senhor deve executar a obra básica da cruz nas vidas dos crentes, especialmente na renovação dos seus entendimentos. Ele os quebrantará de tal modo que não mais pensem ser mais inteligentes ou melhores do que o restante. Depois de Deus lidar com sua inteligência, podem então provar e conhecer a vontade de Deus.

O problema, muitas vezes, está em substituir a vontade de Deus pelo entendimento do ho­mem. Nossa mente, portanto, precisa de reno­vação. A pessoa que não conhece a cruz, não conhece a vontade de Deus. Assim, a questão toda resume-se na necessidade da cruz. Você sabe realmente como a cruz lida com sua vida natural? Você tem alguma ideia de como Deus lida com você como pessoa? Um dia, mediante a graça do Senhor, você será levado ao lugar onde poderá ver a sua falta de confiança e admitir quão ineficaz é seu pensamento; então não ousará crer em si mesmo nem terá em grande consideração sua força natural; nesse dia muitas coisas tornar-se-ão claras. A medida que Deus lidar com sua vida natural, você começará a ver claramente a vontade dele.

QUINTO

“Os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o espírito, das coisas do espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do espírito para a vida e paz” (Romanos 8:5, 6)

Qual é o pendor da carne? Tem uma característica principal: crer em si mesmo como sabedor de tudo e capaz de tudo. O pendor do espírito no crente tem sua característica principal também: não crer em si mesmo nem ousar dizer ou fazer nada, mas sempre estar em temor e tremor. O pendor da carne está constantemente ocupado, apressado, cheio de sabedoria própria e inquieto. O resulta­do é a morte. O pendor do espírito não é controlado pela sabedoria carnal, mas governa­do pelo mandamento de Deus; não confia na carne nem ousa seguir sua própria ideia, e o resultado é a vida e paz. Nossa mente precisa ser libertada para que não mais sejamos dirigidos pelo pensamento carnal, mas guiados pela von­tade espiritual.

SEXTO

“Não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especial­mente para convosco” (2 Coríntios 1:12b).

Note esta última frase: “Mais especialmente para convosco.” Os Coríntios eram inteligentes, mas Paulo declara que não devemos viver pela sabe­doria humana, e sim, pela graça divina, e isto mais especialmente para com pessoas como os inteligentes Coríntios. Louvado seja o Senhor, não precisamos comparar nossa inteligência com pessoas inteligentes. Quanto mais calculistas forem os outros, tanto menos inteligência usare­mos; vivemos pela graça divina. Especialmente nas coisas de Deus e da igreja, estamos decidi­dos a não usar a sabedoria nem a inteligência humana.

Portanto precisamos aprender a lição de nun­ca colocar nossa mente carnal nas coisas espiri­tuais. Não temos tanta certeza se esta mente carnal é eficaz em outros assuntos, mas temos certeza disto: a mente carnal é totalmente inútil nas coisas espirituais. Os métodos e táticas carnais, a manobra e a inteligência carnal podem produzir resultados em outras áreas, mas no reino espiritual são totalmente ineficazes. Na casa de Deus não é a mão nem a sabedoria do homem que têm valor, mas, a vontade de Deus. O importante não é o que o homem diz ou pensa, mas o que diz o Senhor. Perguntaremos a Deus: “Senhor, que padrão desejas mostrar-nos? Pois não poderemos ter nenhum outro padrão a não ser o teu.”

Aprendamos a fazer a vontade de Deus e a não depender de nosso próprio entendimento. Quando realmente aprendermos a fazer a vonta­de de Deus, entregar-nos-emos a ele a fim de que nos leve por todo e qualquer problema que possamos encontrar no processo. E daí para a frente pediremos que Deus nos faça viver, não na sabedoria humana, mas na graça divina, realizando sua vontade.

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

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O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O PRIMEIRO PECADO DO HOMEM

Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boa para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:9).
E lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gênesis 2:16,17).
Então a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu, e deu também ao marido, e ele comeu. Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim (Gênesis 3:4-8).
Neste estudo gostaríamos de ver como foi que o primeiro homem pecou, e recebê-lo como admoestação para nós hoje. Pois como foi o primeiro pecado, assim serão todos os pecados depois dele. O pecado que Adão cometeu é o mesmo que todos nós cometemos. De modo que, conhecendo o primeiro pecado, podemos compreender todos os pecados do mundo. Pois segundo a perspectiva bíblica, o pecado possui um único princípio.
Em todo pecado podemos ver o “ego” em operação. Embora hoje em dia as pessoas classifiquem os pecados em um sem-número de categorias, entretanto, falando por indução, há somente um pecado básico: todos os pensamentos e ações que se constituem pecado estão relacionados com o “ego”. Em outras palavras, embora o número de pecados no mundo seja deveras astronômico, o princípio subjacente a cada pecado é somente um — tudo o que satisfaz o ego. Todos os pecados são cometidos por causa do ego. Se faltar o ego, não haverá pecado. Examinemos este ponto mais atentamente.
O que é o orgulho? Não é uma exaltação do ego? O que é o ciúme? Não é o temor de ser suplantado? O que é a emulação? Nada mais é que a luta para ser melhor do que os outros. O que é a raiva? É a reação contra a perda sofrida pelo ego. O que é o adultério? E seguir as paixões e lascívias do ego. Não é a covardia o cuidado que se dá à fraqueza do ego? Ora, é impossível mencionar todos os pecados, mas se examinássemos a todos, um por um, descobriríamos que o princípio de todos eles é o mesmo: algo que de alguma maneira se relaciona com o ego. Onde quer que se encontre pecado, aí também estará o ego. E onde quer que o ego for ativo, ali também haverá pecado à vista de Deus.
Por outro lado, ao examinarmos o fruto do Espírito Santo — que representa o testemunho cristão — facilmente veremos o oposto: nada mais é do que atos desprendidos do ego. O que é o amor? Amor é apreciar os outros sem pensar no ego. Que é a alegria? É olhar para Deus a despeito do ego. Paciência é desprezar nossa própria dificuldade. Paz é deixar a perda de lado. Gentileza é não prestar atenção a nossos próprios direitos. Humildade é esquecer-se dos méritos próprios. Temperança é o ser sob controle. Fidelidade é domínio-próprio. Ao examinarmos todas as virtudes cristãs, discerniremos que a não ser pela libertação do ego ou do seu esquecimento, o crente não possui outra virtude. O fruto do Espírito Santo é determinado por um único princípio: a perda total do ego.
Mencionei somente algumas virtudes e alguns pecados; mas acho que são suficientes para provar que pecado é seguir o ego ao passo que virtude é esquecer-se do ego. Se compreendermos estes dois princípios, poderemos diariamente observar todos os vários pecados e julgar se cada um deles relaciona-se com o ego ou não. Mas permita-me dizer-lhe claramente que à parte do “desprendimento” humano não há virtude, e à parte do seu “egoísmo” não há pecado. O ego do homem é a raiz de todos os males.
Nas passagens que lemos no início deste capítulo vimos que existiam duas árvores no jardim do Éden e que Adão, ao comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, trouxe o pecado ao mundo. Examinemos mais atentamente as duas árvores mencionadas. Usarei duas palavras para representar o significado de ambas as árvores. O significado da árvore do conhecimento do bem e do mal é independência, e o da árvore da vida é confiança.
Examinaremos primeiro a árvore do conhecimento do bem e do mal. De saída devemos compreender que o comer do fruto desta árvore em si não é grande pecado. Aqui Adão não cometeu adultério, assassínio, nem muitos outros pecados imundos. Simplesmente comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ora, embora o que Adão cometeu não fosse algum pecado horrível, não obstante, o comer do fruto desta árvore fez com que não somente ele caísse, mas também sua descendência, desta forma enchendo o mundo de pecados. Embora o pecado cometido por ele não fosse horrível, seu ato deu ensejo a toda sorte de pecados. Segundo nossa lógica, se o primeiro pecado do homem realmente for o “gerador” de todo o pecado do mundo, esse primeiro pecado deve ser o mais horrível de todos. Entretanto o que vemos aqui é meramente um homem comendo fruto demais. Em certo sentido, portanto, é de aparência inócua.
Por que isto é assim? Deus vê o pecado de Adão como espécime típico de incontáveis pecados a serem cometidos por todos os homens depois dele. Deus deseja que compreendamos não importa qual seja a natureza do pecado de Adão, essa também será a natureza dos múltiplos e variados pecados que o mundo cometerá depois de Adão. Externamente o pecado pode ser polido ou rude, mas sua natureza e princípio permanecem sempre os mesmos. O pecado de Adão não é mais que seguir sua própria vontade. Uma vez que Deus lhe havia proibido comer desse fruto particular, ele devia completamente ter-se desfeito de sua própria inclinação e obedecido a Deus. Mas ele desobedeceu a Deus e comeu o fruto, segundo sua própria vontade. E assim ele pecou. Daí se depreende que o pecado de Adão nada mais foi que agir fora de Deus e segundo sua própria vontade. Embora os pecados cometidos pela descendência de Adão diferissem grandemente do seu em aparência (pois não há outra pessoa que possa cometer o mesmo pecado que Adão cometeu), porém, em princípio, também agiram segundo sua própria vontade, logo seus pecados têm todos a mesma natureza.
É pecado conhecer o bem o mal? Não é virtude procurar conhecer o bem o mal? Deus conhece o bem e o mal (veja Gênesis 3:5, 22). É pecado ser igual a Deus? Não é algo elogiável procurar ser igual a Deus? Por que, pois, o ato de Adão torna-se a própria raiz de todo o pecado e miséria humanos? Por que motivo? Embora tal ação, aparentemente seja boa, Adão agiu sem o mandamento ou promessa de Deus. E ao tentar conseguir esse conhecimento fora de Deus, segundo seu próprio ego, Adão pecou. Agora percebemos o significado da palavra “independência”? Todas as ações independentes são pecado. Adão não tinha confiado em Deus; não tinha tomado a decisão de obedecer a Deus; havia agido independentemente de Deus; e a fim de conseguir esse conhecimento havia proclamado a independência contra Deus. E é por isso que o Senhor declarou ser isto pecado.
Portanto, compreenda isto, não é preciso cometer muitos e terríveis pecados a fim de se considerar pecador. Para Deus, todas as ações realizadas fora dele são pecado. “Ser igual a Deus”, por exemplo, é excelente desejo; mas tentar fazê-lo sem ouvir o mandamento de Deus e sem esperar pelo tempo de Deus é pecaminoso à sua vista. Quão frequentemente julgamos ser as coisas más pecados e as boas, justiça. Deus, entretanto, vê as coisas de maneira diferente. Em vez de diferenciar o bem e o mal pela aparência, ele olha para o modo com que tal ação é feita. Não importa quão excelente tal coisa possa parecer ao mundo, tudo o que for feito pelo crente sem procurar a vontade de Deus, sem esperar por seu tempo, ou sem depender de seu poder (mas feito segundo nossa própria vontade, com pressa, ou por nossa própria habilidade) — tal ação é pecado à vista de Deus.
O Senhor não olha para o bem ou para o mal da coisa em si. Antes, olha para sua fonte. Ele anota mediante que poder tal coisa é feita. A parte de seu próprio poder, Deus não se interessa por nenhum outro. Ainda que fosse possível que o crente fizesse algo melhor que a vontade de Deus, ele ainda condenaria a ação e consideraria o crente ter pecado.
É verdade que todas as suas obras e aspirações são segundo a vontade de Deus? Ou são elas simplesmente sua própria decisão? Suas obras têm origem em Deus? Ou são elas realizadas segundo seu bom prazer? Todas as nossas ações independentes, não importa quão excelentes ou virtuosas pareçam ser, não são aceitáveis a Deus. Tudo o que é feito sem saber claramente a vontade de Deus é pecado aos olhos dele. Tudo o que é realizado sem depender dele também é pecado.
Os cristãos de hoje são muito capazes de fazer coisas, são muito ativos e fazem coisas boas em excesso! Entretanto Deus não olha para a quantidade de boas obras que a pessoa realiza; interessa-se somente pelo quanto é feito por amor ao seu mandamento. Ele não indaga o quanto a pessoa trabalhou para ele; simplesmente pergunta o quanto depende dele. O prazer de Deus não se encontra na muita atividade e sim, na dependência que a pessoa tem dele. Não importa quão zelosamente você trabalhe para o Senhor, sua obra será em vão se não for feita por ele em você. Devemos fazer esta pergunta a nós mesmos: é a obra que faço realizada pelo Senhor em mim, ou sou eu mesmo quem a efetua? Todas as obras independentes de Deus são pecado.
Por favor, tenha em conta que podemos pecar até mesmo enquanto salvamos almas. Se não dependermos de Deus, mas confiarmos em nosso próprio entendimento e experiência do evangelho, à vista de Deus estaremos pecando e não salvando almas, ainda que gastemos tempo e energia persuadindo as pessoas a crerem no Senhor! Se em vez de perceber nossa total fraqueza e depender inteiramente do poder do Senhor, tentarmos edificar os santos com a força de nosso conhecimento bíblico e da excelência de nossa sabedoria, aos olhos de Deus estaremos pecando enquanto pregamos! Por melhores que todos os atos de amor e compaixão possam parecer ao público, — se forem realizados por nosso impulso ou força — aos olhos de Deus são pecaminosos. O Senhor não pergunta se fizemos um bom trabalho; somente examina se confiamos nele. Tudo o que é feito por nossa própria vontade será queimado no dia do juízo de Cristo, mas o que é realizado em Deus permanecerá.
O significado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não é outro senão o estar ativo fora de Deus, procurar o que é bom segundo o entendimento da própria pessoa, estar com pressa e ser incapaz de esperar a fim de obter o conhecimento que Deus ainda não deu; não confiar no Senhor, mas procurar avançar pelo nosso próprio caminho. Tudo isso pode ser resumido numa frase: independência de Deus. Esse foi o primeiro pecado do homem. Deus não tem prazer no homem que se aparta dele e age independentemente. Pois ele deseja que o homem confie nele.
O propósito do Senhor ao salvar o homem e também ao criá-lo é que o homem confie em Deus. Eis o significado da árvore da vida: confiança. “De toda árvore do jardim comerás livremente”, disse Deus a Adão; “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás.” Dentre todas as árvores cujos frutos podiam ser comidos, Deus menciona especialmente a árvore da vida em forte contraste com a árvore do conhecimento do bem e do mal. “E também a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” Ao notarmos a menção particular de Deus à árvore da vida, devemos reconhecer que de todas as árvores comestíveis, esta é a mais importante. E desta árvore que Adão devia ter comido primeiro. Por que é isto assim?
A árvore da vida representa a vida de Deus, a vida não criada de Deus. Adão é um ser criado, portanto não possui esta vida não criada. Embora a esta altura ele ainda esteja sem pecado, não obstante é apenas natural uma vez que não recebeu a vida santa de Deus. O propósito de Deus é que Adão escolha o fruto da árvore da vida por sua própria vontade para que se relacione com Deus pela vida divina. Assim, Adão, de simples criatura de Deus, chegaria ao novo nascimento. O que Deus requer de Adão é que negue sua vida natural e se una a ele pela vida divina, destarte vivendo diariamente pela vida de Deus. Este é o significado da árvore da vida. O Senhor queria que Adão vivesse por essa vida que não era dele originariamente.
Logo, temos aqui o sentimento distinto da dependência, confiança. Pois quando o ser criado vive por sua vida natural, não precisa depender de Deus. Esta vida criada é autônoma e autopreservadora. Mas para que o ser criado viva pela vida do Criador, ele tem de ser totalmente dependente pois a vida que levaria então não seria sua, mas de Deus. Ele não poderia ser independente de Deus, mas teria de manter constante comunhão com ele e confiar completamente nele. Essa é a vida que Adão não tem em si mesmo e logo deve confiar em Deus a fim de recebê-la. Além disso, essa vida — se recebida por Adão — é a que ele não poderia levar por seu próprio esforço; por isso teria de depender de Deus continuamente a fim de conservá-la. Assim, a condição para conservá-la tornar-se-ia a mesma condição para recebê-la. Adão teria de depender dia a dia a fim de viver esta vida santa de uma maneira prática.
Tudo isto que temos dito com respeito a Adão, Deus também o exige de nós. Na época de Adão a vida de Deus e a vida do homem estavam presentes no jardim. Hoje, a vida divina e a vida humana estão presentes em nós. Nós, os que cremos no Senhor e somos salvos, nascemos de novo — isto é, nascemos de Deus; e assim temos uma vida de relacionamento com Deus. A vida da criatura está em nós, mas também está a vida do Criador. O problema atual então, é se vivemos ou não pela vida divina — se nossa vida depende ou não totalmente de Deus. Assim como nossa carne não pode viver se estiver separada de sua vida natural, da mesma forma nossa vida espiritual não pode prosseguir se estiver separada da vida do Criador.
Deus não deseja que tenhamos nenhuma atividade fora dele. Deseja que morramos para nós mesmos e sejamos dependentes dele como se não pudéssemos nos mover sem ele. Ele não gosta que iniciemos nada sem sua ordem. Ele se agrada de que realmente percebamos nossa inutilidade e confiemos nele de todo o coração. Devemos resistir a todas as ações independentes de Deus. As obras que são feitas sem oração e espera, sem procurar conhecer claramente a vontade divina, sem confiar inteiramente em Deus, e sem examinar nossa consciência a fim de determinar se o ego ou a impureza estão misturados: tudo isto provém de nós mesmos e é pecado à vista de Deus.
O Senhor não pergunta quão boa é nossa obra; ele somente pergunta quem fez a obra. Ele não será movido pelo pequeno bem que você e eu façamos. Ele não está satisfeito com nada a não ser sua obra. Você pode estar ativamente engajado na obra dele e trabalhar muito; você pode até mesmo sofrer por causa de Cristo e de sua igreja; mas se não tiver certeza de que é Deus que deseja que você realize a obra, ou se não compreender completamente sua própria ignorância e incompetência e com muito temor e tremor se lance sobre o Senhor, então, como Adão, você estará pecando à vista de Deus. Oh! Cesse sua própria obra! Não pense que pode fazer tudo o que seja bom. Você pode labutar e se esforçar segundo seu próprio prazer, mas terá pouca ou nenhuma utilidade espiritual.
Todos nós sabemos que o incrédulo, não importa quão boa seja sua conduta, não pode ser salvo por ela. Não conhecemos nós tantos não-crentes cuja conduta é recomendável? São amáveis, gentis, humildes, pacientes; muitas vezes ultrapassam a média dos cristãos em virtude. Por que, apesar da conduta invejável, ainda não são salvos? Porque todo este bem provém de sua vida natural, logo não podem obter a aprovação de Deus. Deus somente se agrada do que pertence a ele; do que procede dele. Consequentemente, incrédulo algum pode agradar a Deus com seus próprios feitos.
O mesmo se aplica ao crente. Pensamos poder agradar ao Senhor com nossas obras boas e zelosas? Precisamos compreender que a não ser pela vida que Deus nos deu, não existe a mínima diferença entre o nosso ego e o ego dos incrédulos. Os egos são absolutamente os mesmos. A vida natural do pecador e a vida natural do santo não diferem uma da outra. Se as boas ações realizadas pelos incrédulos, mediante esta vida natural são rejeitadas por Deus, também o será o bem praticado mediante a vida natural pelos crentes.
É triste que esqueçamos tão prontamente a lição que antes tínhamos aprendido! Quando cremos no Senhor Jesus, Deus convenceu-nos por seu Espírito Santo de que nossa justiça, a seus olhos, para nada servia. Depois de sermos salvos, entretanto, de alguma forma, voltamos a imaginar que agora nossa própria justiça é útil e agradável a Deus. Devíamos saber que pelo fato de sermos salvos e nascidos de novo nossa velha vida não melhorou nem mudou em nada. A não ser pela vida nova recém-obtida de Deus, nosso antigo ego permanece o mesmo.
O princípio que aprendemos na regeneração devia ser mantido continuamente. Uma vez que nós, quando incrédulos, não fomos salvos por nossas obras independentes, da mesma forma, nós, os crentes, não ganharemos a aprovação de Deus por nossas ações independentes. Tudo o que é feito fora da dependência de Deus é desagradável a ele. Quer proceda do pecador quer do santo, a ação independente é rejeitada por Deus.
Você pode se gloriar de quanto, como crente, tem feito; o quanto tem trabalhado, e até mesmo quanta bênção e fruto tem experimentado; ainda assim, aos olhos de Deus estas não passam de obras mortas e sem utilidade alguma. Pois todas elas são realizadas por você mesmo e não pela operação divina em você. Quão difícil é depender de Deus! Quão difícil é para os sábios confiarem! Quão árduo é para os talentosos confiar em Deus! Muitas vezes tornamo-nos ativos sem esperar que Deus nos dê força especial. É-nos tremendamente difícil negar o nosso talento, tornar-nos totalmente inúteis perante Deus e não depender de nossa capacidade mas totalmente do Senhor. O Senhor deseja que neguemos a nós mesmos e a nosso poder e que reconheçamos a nossa fraqueza e a inutilidade de nossas palavras e ações. A não ser que primeiro chegue o suprimento de Deus, não podemos dizer palavra alguma nem realizar nada. É assim que ele deseja que dependamos dele. Pois o que temos em nós mesmos sem dúvida nos afastará de Deus. Nosso talento, nossa sabedoria, nosso poder e nosso conhecimento, tudo tenderá a fortalecer nossa autoconfiança excluindo nossa confiança nele. A menos que propositada e persistentemente neguemos nossa capacidade, jamais dependeremos de Deus.
Quando pequena, a criança depende de seus pais para tudo; mas quando cresce possui em si mesma tal poder e sabedoria que procura a independência em vez da dependência. Nosso Deus deseja que tenhamos com ele um relacionamento permanente como crianças para que possamos continuamente confiar nele.
Você acha que agora tem poder? Que já foi santificado? Que já foi enchido permanentemente com o Espírito Santo? Que suas obras já produziram frutos? Se assim for, essa maneira de pensar privá-lo-á de um coração dependente. É preciso que você mantenha a atitude e a postura de desamparo perante os homens a fim de fazer real progresso no caminho de Deus. Se permitir que o ego penetre sutilmente de modo que você se considere a si mesmo como tendo tudo, deve compreender que não mais estará dependendo de Deus.
Eu, que agora falo com você, não tenho certeza alguma quanto a meu futuro. Não sei se ainda estarei pregando o evangelho no ano que vem. A menos que Deus me conserve até o ano que vem, pode ser que eu não possa servir; deveras, posso até mesmo nem seguir a Cristo. Digo isto com um coração angustiado, pois sei que não tenho meios de conservar a mim mesmo. Se Deus não me conservar, confesso não ser por mim mesmo capaz de estar em pé no lugar humilde de hoje. Lembro-me de como estive a ponto de separar-me de Cristo muitas vezes desde o dia em que me tornei crente, mas louvo a Deus por ter-me conservado.
Permita-me dizer-lhe que a não ser mediante o depender de Deus e confiar nele momento a momento, não conheço outra maneira de viver uma vida santificada. Se não dependermos do Senhor não podemos saber quanto tempo continuaremos com ele. Sem depender de Deus nada podemos fazer, nem tampouco podemos viver como crentes por um único dia.
Será que realmente percebemos isto? Ou será que ainda temos um pequeno poder com o qual sustentar a nós mesmos e ter sucesso em muitas coisas? Seja manifesto a todos que a autoconfiança é o inimigo da dependência de Deus. Deus deve levar-nos até nosso fim para que saibamos não existir bem algum em nós. Não fosse por sua graça, teríamos derrotas de todos os lados. Devemos chegar ao ponto em que percebamos ser absolutamente indignos e não ter força alguma. Não ousamos ser autoconfiantes, nem ousamos tomar qualquer ação independente, fora de Deus. Devemos continuar prostrados perante ele com temor e tremor, buscando sua graça. De outra forma, nossa natureza fará com que nos consideremos competentes, tendo prazer em nossas próprias atividades e recusando-nos a depender de Deus.
O que Deus deseja que saibamos hoje é que não podemos depender absolutamente de nosso ego. Deseja que confessemos nossa fraqueza e inutilidade em todo o tempo. Deseja que tenhamos consciência do que nunca tivemos antes — isto é, deseja que estejamos cônscios de nossa total insuficiência e que admitamos que se não fosse por seu poder conservador, não podíamos permanecer nem um momento e que se não fosse por sua fortaleza nada podíamos fazer. Possamos nós ser quebrantados pelo Senhor hoje para que não ousemos tomar nenhuma ação independente ou abrigar nenhuma atitude fora dele. Doutra forma, o fim inevitável será a vaidade e a derrota. Que Deus tenha misericórdia de todos nós!

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

COMO ESTÁ SEU CORAÇÃO?

As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu! (Salmo 19:14).

E, tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade. Da descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus (Atos 13:22, 23).

Primeiro
Temos aqui duas passagens relacionadas com Davi. Salmo 19:14 é sua oração e Atos 13:22, 23 fala dele como homem. Em sua oração Davi menciona as palavras de sua boca e o meditar de seu coração. Procura fazer com que seus pensamentos íntimos e suas palavras externas sejam aceitáveis a Deus; pois as palavras da boca são a expressão do pensamento. Donde se depreende que o principal problema é o coração. A questão central não é se as palavras estejam corretas ou não, nem é também a correção da atitude externa. O problema verdadeiro jaz na intenção do coração. O pensamento e a intenção do coração é a questão que não deve ser negligenciada. Por este motivo Davi ora para que o meditar de seu coração seja aceitável a Deus assim como as palavras de sua boca. Sua oração é que Deus aceite seu desejo interior. Daí Paulo testificar ser Davi um homem segundo o coração de Deus (Atos 13).
Que tipo de pessoa é o homem segundo o coração de Deus? É aquele que permite que Deus lhe toque o coração. Se a pessoa não permitir que Deus lhe toque o coração, mui dificilmente será um homem segundo o coração de Deus. Muitos cristãos têm a tendência de perguntar: Não estou agindo corretamente ao fazer isto ou aquilo? Não é direito falar isto? Minha expressão não está correta? Entretanto a questão essencial não está no seu falar ou expressar a coisa certa ou não, mas na raiz do seu falar, expressar ou agir. Embora a pessoa externamente seja correta, ainda pode ter problemas com o coração. O interesse de Deus e seu toque estão relacionados com o coração do homem. É por este motivo que ele permite que muitas coisas aconteçam na vida de seus filhos. Ele usa estas coisas para tocar o seu coração e revelar o que aí se encontra.

Segundo
Observamos na Bíblia, que Davi viaja na vida pelo caminho da cruz, e a vida que ele vive é a vida da cruz. O Novo Testamento inicia com duas pessoas: uma é Abraão e a outra, Davi (veja Mateus 1:1, 3, 6). Isto é porque dois homens trouxeram o Senhor Jesus. Trouxeram Deus dos céus à terra. Deus precisa encontrar pessoas como estas antes de achar um meio de vir dos céus à terra.
Sabemos que Abraão é o pai da fé. Por toda a vida trilhou no caminho da fé. Somente este caminho pode trazer Deus à terra. Por outro lado, Davi andou na vida pelo caminho da cruz. Sua vida é uma vida de cruz. Ele não somente traz Deus aos homens, mas também faz com que Deus dirija os homens.
Se você vive pela fé, tem a maneira de trazer Deus ao meio dos homens; se você vive na cruz fará com que Deus reine sobre os homens. Se os filhos de Deus estivessem mais dispostos a seguir o caminho da cruz e a levar a cruz, Deus, sem dúvida, teria mais domínio sobre os homens. A menos que você viva a vida de cruz, Deus não poderá reinar sobre você. A feição especial da vida de Davi pode ser vista em seu trilhar na estrada da cruz.

Terceiro
O que Davi encontrou na vida foi um pouco estranho, mas todos esses acontecimentos revelaram o estado de seu coração. Primeiro, Davi era desprezado por sua própria família. Quando Deus enviou Samuel a ungir um dos filhos de Jessé rei sobre Israel, Jessé mandou chamar os seus filhos mas negligenciou em chamar Davi. Entretanto o coração deste jovem era correto, pois não perdeu o relacionamento adequado por causa de tal negligência. Deus disse a Samuel: “O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração” (1 Samuel 16:7b). O coração de Davi era aceitável a Deus, de modo que foi escolhido e usado por ele.
Depois de matar a Golias, Deus o colocou numa situação peculiar, pois as mulheres de Israel cantaram: “Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares” (18:7b). Com respeito a estas duas cláusulas, veremos que uma tinha o propósito de testar a Davi e a outra era para provar Saul. Diz-se em Provérbios 27 que “o homem é provado pelos louvores que recebe” (v. 21). Quando as pessoas o elogiam demais, observe atentamente a fim de ver se você fica orgulhoso; ou quando os elogios são menos do que você merece, fica magoado? Que efeito teve as declarações das mulheres israelitas no coração de Davi e de Saul? Davi não deixou se impressionar pela aclamação: “Davi feriu os seus dez milhares”; Saul, entretanto, indignou-se muito com a declaração de ter morto somente os seus milhares. É óbvio que o coração ciumento de Saul muito sofreu (1 Samuel 18:6-19).
Suponhamos que você e outro irmão façam alguma coisa juntos. Qual será sua reação se alguém lhe disser que o outro irmão fez um excelente trabalho e não mencionar o seu nome? Você, no mínimo, sentir-se-á magoado e um tanto triste. Esse incômodo e tristeza provam que você não está totalmente limpo. Você não confessa a si mesmo repetidamente que fez tal coisa para Deus e não para o homem? No entanto o louvor que a outra pessoa recebeu sacode-lhe o coração e expõe a sujeira interior. Compreendamos que muitas das situações em que nos encontramos — especialmente as atitudes dos que estão ao nosso redor — provam o nosso coração. Depois de matar Golias, Davi tornou-se o herói de Israel, e então foi perseguido por Saul. Durante este longo período de provação ele submeteu-se à mão de Deus e não ousou fazer nada a fim de contornar a situação Assim evidenciam-se a pureza e a retidão do coração de Davi.
Depois de se tornar rei, Davi enfrentou sérias tribulações por causa de seu grande fracasso Seu próprio filho procurou tirar-lhe a vida e Simei amaldiçoando-o jogava-lhe pedras. Qual foi a reação de Davi para com Simei? Novamente, seu coração era claro como cristal. Disse Davi “pois se o SENHOR lhe disse: Amaldiçoa a Davi” (veja 2 Samuel 16:5-12). Ele esperava na misericórdia de Deus. Oh, que não pensemos que tudo o que acontece em nossa vida seja para nossa perda. Por um lado, é bem verdade que se nosso coração não estiver certo sofreremos perda; mas por outro lado, se nosso coração estiver certo, seremos grandemente beneficiados, pois todas estas circunstâncias têm o objetivo de revelar o que nos vai no coração. A verdadeira condição do coração de Davi é revelada mediante as provações de uma vida vivida na cruz.

Quarto
Os filhos de Deus, pois, devem não somente ter cuidado com seu falar e com sua atitude; mais ainda, devem ter cuidado com o pensamento e intenção de seus corações. Muitas vezes nossa expressão externa não necessariamente revela o estado interior. Na maioria das vezes é nosso sentimento interior que trai o verdadeiro estado de nosso coração. Quão fútil é simplesmente guardar os nossos lábios. Se nosso coração não estiver certo, mais cedo ou mais tarde, será expresso abertamente — e, muitas vezes, quando menos esperamos. Um exemplo disto seria as palavras ociosas que proferimos a respeito dos outros. Quanto mais nosso coração se estender para Deus e quanto mais puro ele for, tanto menos serão as palavras ociosas proferidas por nós. Todas as vezes que fuxicamos ou murmuramos contra alguém traímos alguma irregularidade em nosso coração. Se o coração da pessoa fosse devotado totalmente para Deus ela não diria palavras ociosas contra os outros.
Um irmão disse certa vez: “Se um irmãozinho peca contra mim a esse posso perdoar; mas se um irmão grande peca contra mim, a esse não posso perdoar.” Outro irmão que o ouviu dizer isto olhou para o peito deste irmão e sacudiu a cabeça várias vezes. O que ele queria dizer com este gesto era: “Seu coração! Seu coração! Ao perdoar um irmãozinho mas não perdoar um irmão grande, você expõe o que lhe vai no coração. O fato de um irmãozinho pecar contra você e ser perdoado não mostra de modo nenhum o verdadeiro estado do seu coração; mas ao recusar-se a perdoar um irmão grande que peca contra você, isso realmente revela o que lhe vai no coração.” Por meio deste incidente o coração não perdoador daquele irmão foi revelado. Que possamos ver que algo pequeno pode não ser queimado por um único palito de fósforo mas será totalmente consumido numa fornalha de fogo. Isto mostra que tal coisa pode ser queimada. Usando a ilustração, um irmãozinho não podia testar o coração daquele irmão, mas um irmão grande foi usado para expor o seu verdadeiro estado interior.
Se nosso coração estiver correto, não seremos sacudidos por ninguém, pois olhamos somente para Deus. Davi provou ser um homem segundo o coração de Deus porque onde quer que o Senhor o colocava, seu coração se conservava em relacionamento direto com Deus e não com os homens. Davi aceitava tudo das mãos de Deus e tentava ver as coisas da perspectiva dele. Permita-me repetir, Deus usa as circunstâncias a fim de revelar nosso coração. Que possamos, portanto, orar: “Ó Senhor, que as palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença.”

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

 

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

CONHECENDO O EGO

Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humi¬lhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos (Deuteronômio 8:2).
Para compreender o motivo deste versículo devemos recordar do que Deus prometeu aos filhos de Israel no monte Sinai. Ao aparecer no monte Sinai Deus disse: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” (Êxodo 9:5). Ao ouvir os filhos de Israel esta palavra, responderam à uma voz e sem nenhuma hesitação: “Tudo o que o SENHOR falou, faremos” (v. 8). Pensavam que uma vez que Deus os tinha libertado de maneira tão maravilhosa e os havia conduzido, suprido suas necessidades e lhes dado proteção, que deveras lhe obedeceriam em tudo o que ele pedisse deles.
Entretanto, o que a pessoa diz e promete nem sempre é o que suas mãos e pés hão de fazer. Deus o provará em questões práticas a fim de determinar se você realmente o adora e segue sua vontade. Embora você possa pensar e até mesmo sentir estar perfeitamente disposto a ouvir a Palavra de Deus, a carne tornou-se tão corrupta que o que você pode estar pensando e sentindo não seja digno de confiança. E por isso que Deus deve prová-lo quanto à obediência aos seus mandamentos. E por isso que Moisés diz aos israelitas: “para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos.” Era como se dissesse que por ser a promessa deles inadequada, deviam ser humilhados e provados no deserto por quarenta anos. Entretanto, tal “humilhação” e “provação” não tinham o propósito de trazer-lhes queda espiritual, mas a manifestação de seu verdadeiro estado.
Sem a experiência da humilhação, sem a prova do deserto e sem a derrota e rebelião subsequentes, quem poderia saber quão inteiramente corruptos eram os corações destes filhos de Israel? A julgar por sua promessa entusiasta ao pé do monte Sinai, pensaríamos serem eles um povo muito obediente. Mas o povo que tão prontamente fez promessas no monte Sinai foi o mesmo que mais tarde no deserto adorou o bezerro de ouro, murmurou contra Deus e contra Moisés; desejou voltar para o Egito e finalmente se recusou a entrar em Canaã. Porém depois de tantos fracassos, reconheceram ser corruptos, que sua carne nada tinha absolutamente de que se orgulhar, e que sua auto importância em pensar serem eles melhores do que as outras raças era totalmente falsa porque na verdade, não eram de modo nenhum superiores a qualquer outra nação do mundo. So-mente então reconheceram que Deus os tinha escolhido não por que fossem melhores do que os outros, mas por sua graça; pois Deus havia dito a Moisés:
“Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Romanos 9:15, 16).
Ora, assim como Deus guiou os filhos de Israel no período da Antiga Aliança, da mesma forma procura ele liderar o seu povo hoje. A lição que deseja ensinar aos filhos agora é a mesma que tentou ensinar aos israelitas no deserto. Essa lição é que conheçamos a nós mesmos. Deus deseja que seu povo saiba que são corruptos a mais não poder, e que são cheios de pecado, imundícia e fraquezas. Deseja levar os crentes ao fim de si mesmos. Deseja convencê-los de que seus egos são totalmente inúteis e absolutamente sem nenhum valor para que possam lançar-se sobre Deus em seu desamparo e procurar conhecer sua vontade, depender de seu poder e realizar seu propósito.
Entretanto, poucos crentes têm consciência disto. Poucos realmente sabem que estão cheios de corrupção e de imundícia e que são totalmente inúteis. Poucos acham não ter nada. A maioria dos crentes pensam ser dignos de confiança em muitos aspectos, e pensam ser mais fortes do que outros crentes. Quem, pois, realmente conhece a si mesmo completamente?
Compreendamos que Deus não precisa de nossas derrotas e de nossos fracassos — somos nós quem precisamos; pois ele sabe muito bem quão corrupta é nossa carne e se permanecemos e vencemos ou se caímos e somos derrotados.
Ele já conhece nossa estrutura demasiadamente bem! Ele não espera que nossa carne alcance sua justiça pois reconhece ele que a não ser pecar, nada mais podemos fazer. Ao fazermos o bem, sabe ele que somos corruptos. E ao praticarmos o mal, de novo, sabe ele que somos corruptos. Ele não precisa esperar que caiamos a fim de compreender nossa corrupção. Somos nós quem precisamos dessas derrotas e dessas quedas, pois sem elas não podemos conhecer a nós mesmos. Enquanto experimentamos um navegar suave, enquanto somos vitoriosos e cheios de alegria, podemos pensar que somos bastante bons e que possuímos algo que os outros não têm. Embora não nos gabemos abertamente a respeito de nada, entretanto, ao fazermos algum progresso na vida espiritual ou termos algum êxito na obra espiritual não podemos deixar de conceber a ideia de que agora estamos verdadeiramente santos, poderosos e em excelente condição. Numa posição como esta, é fácil tornar-se descuidado e perder a atitude de dependência de Deus. Assim, o Senhor permite que caiamos da glória ao pó. Permite que pequemos, caiamos e nos afastemos. Tudo isto fará com que saibamos quão inteiramente corruptos além de qualquer ajuda natural somos nós. Aprendemos que não somos diferentes dos maiores e piores pecadores do mundo. O resultado é que não ousamos confiar em nós mesmos, glorificar a nós mesmos nem gabar a nós mesmos, mas, em todas as coisas, lançar-nos-emos sobre o Senhor com temor e tremor. Portanto, precisamos que a derrota e o fracasso nos humilhem, que nos façam conhecer a nós mesmos e a corrupção completa de nossa carne.
Lembramo-nos de que antes de ser salvos e nascer de novo o Espírito Santo convenceu-nos de que éramos pecadores e que toda a nossa bondade passada era como “trapo da imundícia” (Isaías 64:6) que não podia cobrir nossa nudez nem salvar-nos dos nossos pecados. Também ficamos conscientes de que ainda que tentássemos fazer o melhor a fim de praticar o bem daí por diante, nossa própria justiça jamais poderia satisfazer as exigências da lei. Compreendemos que jamais poderíamos estabelecer nossa própria justiça fora de Cristo (Romanos 10:3). Portanto, viemos a Deus em inutilidade total, aceitamos o Senhor Jesus como nossa justiça, e fomos salvos mediante sua redenção. Essa foi nossa experiência passada.
Mas, quão esquecidos somos! Na época em que fomos salvos e nascemos de novo, sabíamos que não podíamos depender de nosso próprio bem, mas devíamos depender inteiramente da obra de Cristo. O Espírito Santo mostrou-nos nosso estado terrível de perdição, fazendo-nos ver que estávamos cheios de imundícia e corrupção e perceber a total incerteza de nossa própria justiça. Logo depois de sermos salvos, por estarmos cheios de alegria por causa da graça do perdão que tínhamos recebido, permanecemos humildes. Mas depois de algum tempo, começamos a esquecer o primeiro princípio da salvação. Devido a um novo desejo da nova vida, uma vez mais tentamos preencher os requisitos externos com uma justiça nossa. De alguma forma voltamos à ignorância de que quando Deus nos disse, ao sermos salvos, que nossa justiça era absolutamente inútil, ele queria dizer que era ela eternamente inútil. E assim como ele declarou, no momento de nossa salvação, que ele não se alegraria em nada que saísse de nós mesmos — a despeito de sua aparência exterior — essa declaração era de valor eterno.
Jamais devemos nos esquecer de que a maneira pela qual ganhamos a vida divina deve ser a mesma usada para alimentar essa mesma vida. O princípio que aprendemos na salvação deve permanecer para sempre. O ego é sempre inútil, é sempre julgado por Deus, e, portanto, deve ser continuamente entregue à morte. Quão triste é que a justiça que desprezamos no momento em que cremos no Senhor é recebida de volta não muito tempo depois. O que então reconhecemos como ego inútil, gradativamente volta à atividade.
A intenção original de Deus para nós depois que fomos salvos é que, passo a passo, chegássemos a um conhecimento mais profundo de nossa corrupção e à rejeição maior de nossa justiça própria. A atitude que tomamos com respeito a nós mesmos na época da salvação é somente o primeiro passo da perfeita obra de Deus. Ele deseja ver essa obra aprofundar-se cada vez mais até que nós, os crentes, sejamos completamente libertos do domínio do ego. Que pena que os crentes arruínem a obra de Deus!
A primeira obra do Espírito Santo no crente, após a Salvação, é levá-lo a conhecer a si mesmo a fim de induzi-lo a obedecer à vontade de Deus e negar tudo o que procede de si mesmo. Deve aprender a confiar completamente em Deus. Mas quão difícil é essa lição! Conhecer-se a si mesmo é ser privado da glória; negar-se a si mesmo é fazer com que soframos.
De modo que, em realidade, o crente não está tão ávido de conhecer a si mesmo e logo não conhece a si mesmo muito bem; deveras, na ignorância julga-se digno de confiança. Ora, por causa da indisposição do crente em ter esse autoconhecimento, o Espírito Santo não pode revelar a ele seu caráter verdadeiro à vista de Deus. Como resultado o Senhor é forçado a usar alguns métodos dolorosos para fazer com que o crente conheça a si mesmo. E o modo mais frequentemente usado por Deus é permitir que o crente caia.
Assim como os fracassos no deserto capacitaram os filhos de Israel a conhecer seus corações, do mesmo modo fracassos similares farão com que os crentes hoje tenham conhecimento de quão miseráveis são em si mesmos. Por causa de sua autoconfiança e por ver a si mesmos como talentosos, capazes e poderosos, têm falta da completa dependência de Deus. Por isso Deus deixa que falhem em suas tentativas. Compreenderão quão indignos de confiança são ao ver que suas obras não produzem frutos verdadeiros e duradouros.
Com quanta frequência os crentes vêm-se a si mesmos como naturalmente muito pacientes, amáveis, gentis e puros! Para contra-atacar esta auto ilusão Deus permitirá que muitas coisas aconteçam em sua vida a fim de tirar-lhes a impaciência, a amabilidade, a gentileza e a pureza para que saibam que nada de valor procede do ego natural. E como os crentes pensam amar a Deus, gabando-se de sua consagração perfeita ao Senhor e de seu labor diligente por amor dele! Deus permite que o mundo e as pessoas os engodem de tal modo que são tentados em secreto ou se desviam abertamente. Assim, ficam sabendo quão vulnerável é seu amor por Deus. Os crentes também podem pensar ser totalmente dedicados ao Senhor, nada tendo para si mesmos. Em resposta, Deus faz com que recebam elogios e louvores dos homens a fim de mostrar-lhes quão sutilmente lhe roubam a glória e procuram a exaltação dos homens. Às vezes também acontece de os crentes fazerem um pequeno progresso na vida espiritual, e logo pensam ser vitoriosos e santificados. Mas no instante em que estes cristãos dão lugar à autossatisfação, Deus permite que falhem e pequem exatamente como o fazem as outras pessoas — ou até mesmo pior do que elas. O resultado é ficarem sabendo que não são melhores do que ninguém.
Embora corra o risco de ser mal interpretado, gostaria de dizer isto: Deus preferiria que seus filhos pecassem a que fizessem o bem. Repetindo, por favor, não interprete mal minha palavra aqui. Não estou, com isto, aconselhando-o a pecar, pois o Senhor não tem prazer no pecado. Mas uma vez que os crentes são tão autoconfiantes, gabadores e cheios de autossatisfação — cheios de seus próprios pensamentos, sentimentos e ações — Deus preferiria vê-los pecar a fazer o bem. Doutra forma, jamais conhecerão a si mesmos nem serão jamais libertados da vida lamentável, às vezes ridícula, e detestável do ego.
Precisamos saber a que grau Deus deseja que avancemos. De onde ele nos salva e para onde nos salvará? É bem verdade que não iremos para o inferno, mas para o céu. Mas é só isso que Deus tem para nós? Não, ele deseja salvar-nos ao ponto de sermos totalmente libertos de nós mesmos e entrarmos completamente em sua vida para que não vivamos mais pela vida da alma. A seus olhos não há nada mais imundo do que o “ego” — originador de todos os pecados. O ego é o maior inimigo de Deus, pois ele sempre declara sua independência dele. Portanto ele considera todo o ego extremamente imundo, totalmente inaceitável e absolutamente inútil.
Basicamente, o que é o ego? Tudo o que o homem possui e pode fazer sem buscar a Deus, sem esperar nem depender dele.
Embora o Senhor odeie tanto o “ego”, a atitude dos crentes para com ele é muito diferente. Têm prazer em depender do ego, acariciá-lo e gloriar-se nele. Ignoram o seu ego verdadeiro; e também não sabem quão impuro, corrupto e fraco é o ego aos olhos de Deus. Falta-lhes conhecimento do assunto. Em resumo, não conhecem a si mesmos. Numa situação como esta, se fizerem algum progresso, se experimentarem êxitos e vitórias crescentes, sua vida do ego será alimentada e crescerá, assim tornando-se mais difícil de ser negada. Cada vez que praticam uma boa ação, afastam-se um pouco mais da vida de Deus. Um pouco mais de poder próprio significa mais distância do Espírito Santo. Mais êxito resulta em mais glória para o ego, o que prolonga a vida ímpia do ego. E por esse motivo que eu disse anteriormente que Deus preferiria ver os crentes pecarem a fazerem o bem: pois quanto mais pecam, tanto mais reconhecem quão indignos de confiança são; quanto mais fracos são, tanto mais verão a vaidade do ego; quanto mais caírem, tanto mais claramente perceberão sua insuficiência e desesperança. Deus preferiria ver os crentes pecarem, a esta altura de seu caminhar, pois o pecar possibilitá-los-á a conhecer a si mesmos mais completamente e também a depender mais do Senhor.
Deus não tem outro propósito a não ser levá-lo ao fim de si mesmo para que conheça a si mesmo. Esta é a explicação do motivo pelo qual às vezes você tem lutado e falhado. Oh, como você chorou, lutou, batalhou, orou, trabalhou e fez tudo a fim de vencer o pecado e chegar à santidade; entretanto acabou em derrota. Embora às vezes você tenha experimentado um pouco de vitória, essa vitória foi somente temporária. Você fez o melhor que pôde para conservá-la, mas voou como um pássaro. Você chegou à conclusão de ser pior do que os outros, e que por isso não podia ter a vitória. Tais experiências significam que Deus o levava a conhecer o seu próprio ego. Não é que você fosse tão corrupto que não pudesse ganhar a vitória; antes, era que você não era corrupto o suficiente a seus próprios olhos a fim de ganhar a vitória. É preciso que você reconheça que foi você mesmo quem chorou, quem lutou e prosseguiu, que foi você quem batalhou e labutou. O agente era você, e tudo fez para servir ao seu próprio ego.
Quanto você realmente depende de Deus? Você sabe que verdadeiramente não pode remir a si mesmo e assim está pronto a confiar em Deus? Afinal qual é o motivo de sua luta e labor? Não se esforça por si mesmo? Sim, você procura vencer o pecado e busca a santidade; mas para quê? Não é para dar a si mesmo mais alegria mais glória e mais terreno para a vangloria? A menos que reconheça sua própria fraqueza e erro, continuará a fracassar e a cair até reconhecer ser impotente e não merecer honra alguma.
Deus deseja que você se una a ele e dependa dele em todas as coisas para que possa fazer a sua vontade e glorificar o seu nome. Mas uma vez que você não conhece seu verdadeiro caráter como evidencia o fato de continuar a considerar¬-se bom e capaz, naturalmente não confiará em Deus e assim falhará em render-lhe glória. Será autoconfiante e procurará sua própria glória. Neste mesmo instante você ainda não sabe quão fraco realmente é. Por isso Deus permite que você seja derrotado repetidamente. E com cada derrota diz-lhe que você é fraco.
Entretanto você insiste em não crer; recusa-se a desprezar a si mesmo; antes, continua a ser cheio de esperança. Sua conclusão é que a derrota foi devida à falta de esforço próprio. Se fizer mais esforço da próxima vez, diz você a si mesmo, então sem dúvida vencerá. Muitas têm sido as suas derrotas, e muitas têm sido as vezes que encontrou altos e baixos. Entretanto permanece ignorante do fato de quão fraco você verdadeiramente é. Até o presente momento, você não está pronto para aprender a lição que Deus tem para você. Ainda está planejando seu último esforço para ganhar a vitória final. Tendo sofrido tantas derrotas, por que não desiste totalmente de si mesmo e se lança inteiramente sobre Deus? Quando é que não esperará mais nada de si mesmo, entregando-se completamente nas mãos de Deus? Oh! Quando isto finalmente acontecer, você dependerá dele sem planejar nem fazer nada de si mesmo. Mas por ainda não ter aprendido sua lição, terá de incorrer em maiores e mais derrotas a fim de obter o autoconhecimento que o forçará a cessar sua própria obra para que Deus possa livrá-lo. Sabemos que nenhum salva-vidas se atreve a socorrer a pessoa que acaba de cair na água com a possibilidade de afogamento. Pois nesse instante a força da pessoa que caiu na água é grande — talvez mais forte do que de costume. Ao se aproximar o salva-vidas da pessoa que se afoga, esta pode tentar agarrar-se ao salva-vidas impedindo-lhe o movimento. O resultado é que ambos podem afundar-se e se afogar. Consequentemente o salva-vidas esperto espera até que a pessoa que se afoga lute bastante na água e comece a desistir de lutar. Somente então o salva-vidas aproxima-se dessa pessoa e a leva para a segurança.
Da mesma maneira, Deus hoje permite que seus filhos lutem e batalhem até que percebam quão fútil é seu esforço. Meramente colocam-se numa posição mais perigosa. O Senhor espera até que sua força se esgote e cheguem à conclusão de estarem perecendo. Nesse momento, suas ideias são mais ou menos as seguintes: Se Deus não me livrar, não posso sustentar minha sorte nem por mais um minuto; se Deus não me salvar, certamente morrerei! Deus não estenderá a mão até que esse momento chegue. Sempre que o crente para de confiar em si mesmo, Deus o salvará inteiramente. Pois o objetivo do Senhor não é outro senão mostrar ao crente que ele é absolutamente inútil na vida e na obra divinas. À parte do depender de Deus o crente não possui vida nem obra.
Oh quão enganosos podemos ser! Quão tenazmente interessados em nós mesmos! Quem pode dizer quantos crentes hoje vivem por seu ego enganador? Muitos são os que tomam o “ego” como princípio orientador da vida. Quase tudo é para o eu e quase tudo procede do eu. Tais crentes são muito mais perigosos do que as outras pessoas. Parece que em tudo não conseguem escapar do ego. Se aprendem uma coisa a mais é para glorificar o ego. Isto não é verdade somente com respeito às coisas espirituais; é também verdade no que se refere às coisas materiais. Tudo se transforma em motivo para elevar o ego. Oh, quem pode compreender totalmente o erro da carne? Deus precisa quebrar e destruir tais crentes. Não lhes dará um ambiente cômodo para que seu ego não seja alimentado. Deixá-los-á passar por momentos difíceis para que não se gloriem em si mesmos. Permitir-lhes-á conhecer seu motivo interior verdadeiro deixando que sejam derrotados, para que na derrota possam examinar-se a si mesmos e compreender que a maior parte de seus dias vivem para si mesmos e não para a glória de Deus. Por quarenta longos anos levou Deus os filhos de Israel pelo deserto. Deixou que caíssem e pecassem muitas vezes com o seguinte propósito em mente: que conhecessem a si mesmos. Da mesma maneira, hoje o que Deus tem feito em sua vida é para que você conheça sua imagem verdadeira. Suas derrotas passadas já o deviam tê-lo convencido da absoluta vaidade de si mesmo; no entanto até ao presente momento você insiste em apegar-se ao seu precioso ego! Por causa disso, Deus é forçado a conservá-lo no deserto um pouco mais para que você experimente mais derrotas no deserto de modo a compreender, afinal, quão totalmente corrupto, vão e fraco você é perante Deus. E se não aprender sua lição hoje, terá de continuar em derrota.
Qual foi o propósito de Deus em dar a lei aos homens? Foi dada não para que os homens a guardassem, mas a fim de que os homens a violassem; pois a lei foi estabelecida para transgressões. Não fique espantado com esta afirmativa, pois com referência à lei este é o propósito de Deus, como as Escrituras amplamente demonstram. Deus sabia de há muito que os homens são corruptos além da medida, e dete¬minou há muito tempo que devíamos ser salvos gratuitamente por sua graça. Ele sabe que somos tão corruptos que nada podemos levar a ele que seja aceitável. Mas também sabe que não percebemos tal fato. Portanto ele emprega meios e maneiras de ensinar-nos a fim de que nós também possamos conhecer de nós mesmos o que ele sempre soube. Só depois de reconhecermos nossa corrupção aceitaremos sua graça. Ora, um meio empregado por Deus é a lei, à qual nos manda obedecer. Se formos bons, certamente a cumpriremos; mas se formos corruptos, com toda a certeza a quebraremos. Pode-se dizer, portanto, que o próprio quebrar da lei revela nossa corrupção, que nossa incapacidade de fazer o que a lei exige prova que nossa carne é fraca (veja Romanos 8:3). Quando as pessoas perceberem que são tão fracas a ponto de não poderem satisfazer as exigências da lei divina, finalmente desesperarão de si mesmas, desistirão de qualquer ideia de ser salvas pelas obras, e confiarão inteiramente na graça de Deus. Por isso a Bíblia declara: “Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi adicionada por causa das transgressões” — isto é, foi acrescentada a fim de revelar a corrupção dos homens — “até que viesse o descendente a quem se fez a promessa” (Gálatas 3:19) — esta última cláusula refere-se ao Senhor Jesus e à sua salvação.
Nós, os crentes, sabemos que não podemos ser salvos pelas obras, somente pela graça. Mas sabemos o motivo? É por sermos tão corruptos, tão fracos e tão imundos que não podemos cumprir a justiça de Deus nem guardar sua lei, e consequentemente não temos boas obras algumas mas devemos depender da graça. Deus, ao salvar-nos pela graça, diz-nos que somos tão totalmente corruptos que não tem outro recurso senão dar sua graça. E quando, finalmente, adentramos o portão da graça sabíamos muito bem quão impotentes éramos.
Por que, então, hoje você começa a pensar que é tão bom? Por que você não aprendeu a lição que Deus tem tentado ensinar por meio da lei aos seus seguidores por estes milhares de anos? Você ainda não se conhece si mesmo!
Em nossa pregação e testemunho públicos, temos dado atenção especial ao princípio da cruz. Mas tenha em mente que a cruz não é uma espécie de poder mágico que o livrará de todos os seus pecados se tão-somente a invocar. A não ser que você, de livre vontade, aceite o princípio da cruz, não o verá em operação em sua vida. A cruz é um princípio, e o princípio da cruz é negar a si mesmo e depender de Deus. Se você ignorar a total corrupção do seu ego verdadeiro, não receberá a ajuda da cruz para livrá-lo do pecado no momento em que esperar seu poder numa emergência. Alguém poderá dizer:
— Estou surpreso por ter cometido tal pecado.
Esta afirmativa revela que este indivíduo não conhece a si mesmo. Ele não tem conhecimento de quão corrupto é, nem de quão capaz é de cometer qualquer pecado. Que fique compreendido que à parte da nova vida que Deus nos deu quando de nosso novo nascimento, nós mesmos não somos melhores do que ninguém mais. Reconheçamos que cada homem tem a possibilidade de ser um ladrão, e cada mulher, uma prostituta. O motivo pelo qual alguns não o são é atribuído ao ambiente que não lhes é propício a tal atividade. Não hesito em confessar que a semente de todo o pecado está dentro de mim e que eu podia cometer qualquer pecado se a vida de Deus não dominasse.
Quantas lágrimas se derramam hoje não por causa do pecado, mas por causa do “ego”, incapaz de atingir a bondade que o crente espera. Muita procura, muitas orações e muita fé parecem ser dirigidas a Deus, entretanto, em todos estes esforços é mais do que provável existir a antecipação da bondade própria. E por isso Deus permite que você seja derrotado repetidas vezes para que possa finalmente ver a corrupção total da carne. E uma vez que sua fraqueza é provada por tais derrotas, Deus espera que você possa conhecer seu ego verdadeiro, desistir dele e voltar-se para Deus e confiar nele.
Cada derrota devia dar-lhe um pouco mais de conhecimento de si mesmo. Cada fracasso devia mostrar-lhe um pouco mais de sua fraqueza. Cada pecado devia fazer com que você esperasse menos de si mesmo e ficasse mais disposto a desprezar seu ego. Entretanto, muitas vezes, a queda somente traz mais luta e mais batalha. O ego aumenta e se fortalece em vez de diminuir e se enfraquecer. Quão fútil é que a pessoa confesse com os lábios e até mesmo clame pedindo ajuda se falhar em aceitar o princípio da cruz em julgar a si mesmo!
As Escrituras já não nos preveniram de tal erro? Romanos 6 fala de nossa co-morte com Cristo; Romanos 7 fala da luta entre a vida nova e a velha e Romanos 8 fala da vitória no Espírito Santo. Com a co-morte, devemos ser vitoriosos. Entretanto, por que é que depois de termos conhecido e aceito a verdade de Romanos 6, ainda não podemos ter a vitória? E porque nos falta a derrota de Romanos 7. Tanto o versículo 6 como o 11 do capítulo 6 de Romanos dizem-nos que a morte de nosso “ego” é um fato. Por que, então, muitos — que creem nesta verdade — falham em experimentar a vitória de Romanos 8? É por não terem fracassado o suficiente. Deus nos fará passar pela derrota de Romanos 7 muitas vezes até que finalmente somos forçados a confessar: “Eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado … Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum” (Romanos 7:14b, 18a). E tal experiência é conhecimento verdadeiro do ego.
Deus permitirá que o crente caia até que de livre e espontânea vontade reconheça: “Sou vendido à escravidão do pecado! Não habita bem nenhum na minha carne!” Até que isso aconteça ele não saberá que a não ser que um poder de fora lhe socorra, ele está sem esperança e é inútil. Mas então ele clamará: “Desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte?” (7:24). Ao perceber de verdade quão corrupto é, saberá e reconhecerá que a menos que Cristo o salve não pode vencer o pecado.
No início do capítulo 8 de Romanos menciona-se a co-morte do capítulo 6 como o meio da vitória total. Oh, estamos familiarizados com a salvação mediante a co-morte, e ardentemente esperamos a glória da vitória. Entretanto, o problema de hoje é conhecer o ego. Nossas derrotas passadas não são poucas, porém não estamos dispostos a conhecer o ego em tais derrotas; antes, tentamos fazer nosso melhor a fim de melhorar e ocultar nosso ego. Se tão-somente estivéssemos dispostos a examinar essas derrotas passadas à luz da santidade de Deus, certamente saberíamos que tipo de pessoa somos. Se estamos prontos a dar um passo à frente negando o ego, Deus nos levará para o descanso de Canaã.
Naturalmente que temos algum conhecimento de nós mesmos, e em nossas experiências passadas Deus nos levou a conhecer algo de nossa corrupção. Mas, com toda a honestidade, receio que o conhecimento que muitos têm do ego não é suficientemente profundo. Não tenhamos medo de conhecer a nós mesmos claramente! Embora o ego seja muito feio e infunda temor, embora seja abominável e odioso, ainda assim devemos conhecê-lo. Nunca devemos parar de investigar e concluir que já conhecemos o ego por completo: estamos longe, muito longe do conhecimento do nosso ego!
Para o crente, o conhecer a si mesmo é uma lição que dura a vida toda. A fim de chegar a esse propósito divino o crente teimoso deve passar por muitas derrotas que outros não têm nem precisam. Ele pode até concluir que o Senhor é especialmente duro com ele, não compreendendo que isto é devido ao seu apego mais forte com o seu “ego”. Pois não muito tempo depois de ganhar uma vitória, começa a ser auto importante uma vez mais, para de confiar no Senhor com temor e tremor, e começa a glorificar a si mesmo de novo. De modo que Deus o envia para o fracasso uma vez mais. Quantos crentes verdadeiramente têm vitórias até o presente momento? Mas eles, de alguma forma, nunca parecem poder aprender a lição que Deus lhes está ensinando a respeito do verdadeiro autoconhecimento.
Percebamos que fora do autoconhecimento, do autoexame e da autonegação, realmente não há um caminho para a vida espiritual. Se constantemente julgássemos a nós mesmos por causa de nosso autoconhecimento, evitaríamos muitas derrotas e alcançaríamos o propósito de Deus.
Todos os que hoje em dia (1) seguem sua própria vontade, (2) confiam em sua própria força e (3) glorificam seu próprio ego, são pessoas que não conhecem a si mesmas. Mas uma vez que a pessoa é totalmente quebrantada por Deus, essa pessoa verá a si mesma como abominável e odiosa. Não ousará iniciar nada nem ousará fazer nada com sua própria força. Antes, esperará pela vontade de Deus em todas as coisas e em tudo dependerá do poder de Deus. Caso consiga algumas realizações, ela não ousará ser convencida porque sabe ser indigna de qualquer glória. Possa o Senhor levar todos nós a tal experiência e assim trazer glória a ele.

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O DIVIDIR ALMA E ESPÍRITO

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas (Hebreus 4:12, 13).

PRIMEIRO
O dividir alma e espírito é essencial pois relaciona-se com o crescimento espiritual. Como pode o cristão buscar o que é espiritual se não conhece a distinção entre espírito e alma? Muitas vezes confundirá o que procede da alma como procedendo do espírito, e desta forma permanece muito tempo no reino do viver da alma em vez de buscar o viver no espírito. A Palavra de Deus cita, muitas vezes, as feições do espírito e também as da alma. Por exemplo, a Bíblia registra a tristeza no espírito e também a tristeza na alma; menciona o alegrar-se no espírito tanto quanto o alegrarmo-nos na alma. Daí as pessoas tiram a conclusão que uma vez que as expressões do espírito e da alma são as mesmas, o espírito deve ser a alma. Isto é como se disséssemos: “Já que você se alimenta, e eu também, logo você deve ser eu.” Entretanto, Hebreus 4:15 diz que “a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração”. Uma vez que alma e espírito devem ser separados, a alma deve ser alma e o espírito deve ser espírito.
Gênesis 2 diz que quando Deus, no princípio, criou o homem, ele “formou ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (v. 7). Este fôlego de vida é o espírito do homem vindo diretamente de Deus, que ao tocar o corpo do homem, produziu a alma — e o homem tornou-se alma vivente. O espírito do homem tem consciência de Deus, conhece sua voz, e pode comunicar-se com ele. Mas depois da queda de Adão, seu espírito morreu para Deus; logo, o espírito de Adão, (e de todos os seus descendentes) ficou tão opresso pela alma que foi interligado intimamente com ela. Quando a pessoa é salva, seu espírito é vivificado para Deus; mas devido à união íntima do espírito com a alma por tanto tempo, é preciso que a Palavra de Deus os divida ou os separe.

SEGUNDO
Embora as expressões “da alma” e “do espírito” pareçam semelhantes, pertencem a reinos diferentes — procedem de duas fontes diversas. Se você estiver alegre hoje, esta alegria pode proceder da alma ou do espírito. A alegria está sendo expressa, mas há diferença de procedência. Da mesma forma, você pode sentir-se triste hoje. Ora, pesar é pesar; entretanto, pode advir de fontes diferentes. De onde procede? E esta a pergunta que será feita pelo próprio Deus. Procede essa emoção de sua alma ou do seu espírito?
Por exemplo, Deus prometeu um filho a Abraão. Nessa época Abraão já era avançado em idade e aparentemente não havia muita esperança. Depois de esperar muito tempo sem ver o cumprimento da promessa de Deus, sua esposa planejou para que ele se casasse com Hagar, sua criada, e assim nasceu Ismael a Abraão. Mas depois de catorze anos, Deus fez com que a esposa de Abraão, Sara, desse à luz a Isaque. Ao lermos os capítulos 15, 16, 17 e 21 de Gênesis, pode ser que não percebamos o que Isaque e Ismael representam; mas ao lermos Gálatas 4, no Novo Testamento, discernimos imediatamente o significado de ambos. Paulo nos diz que um (Isaque) é nascido da promessa e que o outro (Ismael) é nascido segundo a carne (v. 23). Percebe você, agora, a diferença? As pessoas arrazoam que se tão-somente conseguirem um filho, tudo está bem. Mas Deus perquire do modo pelo qual esse filho nasceu. Desejamos um filho, quer seja ele Isaque ou Ismael. Entretanto, a Palavra de Deus diz que Ismael representa o que é carnal e Isaque representa o espiritual. Ismael representa o que o homem obtém com sua própria sabedoria e por seu próprio poder; Isaque representa o que procede de Deus e o que é dado por ele.
Logo, o que é da alma? Da alma é aquilo que é feito pela própria pessoa. E o que é espiritual? É aquilo que é feito por Deus. Estas duas coisas são radicalmente diferentes. A pessoa pode fazer algo sem precisar esperar em Deus nem confiar nele. Tal ação procede da carne e da alma. Mas se a pessoa não pode falar antes que Deus fale, não pode agir a não ser que Deus aja primeiro; se essa pessoa olha para Deus, espera nele e dele depende — então essa pessoa e sua ação são espirituais. Portanto, perguntemos a nós mesmos se tudo o que fazemos é feito no Espírito Santo. Esta é uma pergunta muitíssimo importante. Muitas vezes nada há de errado com o que fazemos: entretanto, registra-se condenação dentro de nós ao fazermos tal coisa. O motivo desse sentimento interior não é que o que fazemos externamente seja necessariamente errado mas que a coisa que fazemos não foi iniciada em Deus — isto é, não é resultado da operação do Espírito Santo em nós.

TERCEIRO
1 Coríntios 3 trata da edificação. Refere-se à nossa obra e ao nosso serviço para Deus. Alguns edificam com ouro, prata e pedras preciosas; outros constroem com madeira, feno e palha. Qual é a obra feita com madeira, feno e palha? Nas Escrituras, o ouro, a prata e as pedras preciosas apontam para aquilo que procede de Deus. O ouro representa a glória que procede do Pai; a prata, a redenção que é obra do Filho e as pedras preciosas, a obra do Espírito Santo, uma vez que estas pedras são compostos formados no subsolo mediante calor intenso.
Aquilo que leva em si a eterna glória de Deus, a cruz do Filho, a organização do Espírito Santo é chamado de ouro, prata e pedras preciosas. Então, a que apontam a madeira, o feno e a palha? Obviamente a tudo que procede do próprio homem; a glória do homem é como a palha (feno) e como as flores; a natureza do homem é como a madeira, e a obra do homem, é como a palha.
Ora, o ouro, a prata e as pedras preciosas geralmente não aparecem na superfície da terra. Têm de ser tirados dos profundos recessos do subsolo. A madeira, o feno e a palha, por outro lado, crescem sobre a face da terra e podem ser obtidos facilmente. Daí depreendemos que tudo o que procede das profundezas, como resultado do que é realizado no profundo do coração dos homens, mostra a obra de Deus neles; mas tudo o que pode ser feito pela carne, procede do homem e não tem valor algum. O que pode ser facilmente realizado não possui muito valor espiritual, pois é de procedência externa; mas o que advém das profundezas, por ser de Deus, é de muito valor.
Pode-se notar esta diferença na pregação. Alguns, ao pregar, precisam esperar em Deus até que se forme um fardo, como na concepção. Esta é a obra de ouro, prata e pedras preciosas. Alguns pregam porque seu cérebro é brilhante e seus lábios eloquentes. E também podem lembrar-se de muitas coisas. Portanto podem levantar-se e pregar. Edificam ativamente; mas tudo é madeira, feno e palha à vista de Deus — logo tem mui pouco valor espiritual.
Certo irmão pregava em determinado lugar. Da perspectiva humana, as condições externas eram excelentes; logo ele devia estar razoavelmente alegre. Mas estranhamente, com o passar do tempo sentia-se esvaziado por dentro. Embora trabalhasse vigorosamente, dentro de si mesmo sentia mais fome, mais aridez e um vazio cada vez mais profundo. Terminada a obra, teve de confessar seus pecados perante Deus e reconhecer que a obra fora feita por ele mesmo.
A questão aqui não se refere à condição externa da obra mas, principalmente, a quem realiza a obra; isto é, sua origem. Por exemplo, certo pregador pode aprender a dizer as mesmas palavras e pregar a mesma mensagem que outro, entretanto, as pessoas vêm-no simplesmente como uma pessoa inteligente; enquanto todos percebem que o outro é uma pessoa que conhece a Deus. A presença de alguns servos de Deus abaixamos a cabeça, dizendo: “Deus está aqui”; com outros, podemos somente dizer que são inteligentes e eloquentes. Se você toca a Deus, pode fazer com que outras pessoas também o toquem; mas se você toca somente a alma, só pode fazer com que as pessoas toquem você. Quão grande é a diferença!

QUARTO
Isto não é verdade somente quanto ao ver a Deus, mas é igualmente verdade em nossa vida na terra.
Certo dia um cristão foi conversar com um servo de Deus. Temendo a crítica, esse cristão exerceu o máximo de seu poder a fim de conservar-se humilde durante a conversa. Sua atitude e também suas palavras tinham uma tonalidade bem humilde. Mas ao tentar ser humilde, os que estavam ao redor detectaram esse esforço.
Ora, se a pessoa for verdadeiramente humilde, não precisa exercer tanto esforço. Na verdade, este cristão estava simulando a humildade, portanto requeria grande esforço. Podemos dizer que ele não era humilde? Bem, parecia sê-lo, mas de fato, era humildade humana, e esse tipo de humildade pertence à alma. Se Deus tivesse operado nesse irmão, ele poderia ter apresenta¬do a humildade natural. Ele mesmo teria sentido ser humilde, e os que estavam ao seu redor também podiam ter visto a obra de Deus nele.
A senhora que empoa o rosto precisa olhar-se no espelho frequentemente, mas o rosto de Moisés brilhava sem que ele tivesse consciência disso. Aquele que manifesta os efeitos da operação de Deus, esse tal pode ser chamado de espiritual. Mas a pessoa que tenta manufaturar algo, deve empregar muita força; logo sente-se cansada por ser cristã, embora o cristão nunca devia exercer sua própria força em caso algum. Muitas vezes julgamos que enquanto algo parecer bom, provavelmente estará certo, mas Deus olha para a fonte: se procede dele ou é imitação no poder da carne.
O mesmo aplica-se em outra situação. Digamos que alguém tenta ser paciente. Entretanto, quanto mais tenta ser paciente, tanto mais a pessoa com o espírito de discernimento, sente pena dele. Mas outra pessoa pode ser paciente sem ter consciência desse fato. Nesse caso inclinamos a cabeça em agradecimento, dizendo que Deus verdadeiramente operou nessa vida. Percebemos que o segundo caso é de Deus e que o primeiro é de si mesmo. A diferença está não na aparência externa, mas na fonte.
Oh, que possamos perceber, que embora alguma coisa da vida natural pode parecer bastante espontânea, em si mesma não significa que ela seja do espírito. Por exemplo, alguém pode nascer com uma natureza amável. Entretanto, algum dia perceberá a diferença entre sua gentileza natural e a amabilidade dada por Cristo.
Outro indivíduo pode ter nascido com a capacidade natural de amar aos outros, entretanto, ele também algum dia perceberá a diferença entre seu amor e o amor que procede do Senhor.
O mesmo pode ser verdade do que nasce com a humildade natural de caráter, mas esse também, algum dia, discernirá a diferença entre a humildade dada por Deus e sua humildade natural.
Este algo com que a pessoa nasce tem a tendência de substituir com mais facilidade o que é espiritual do que o que pode ser simulado pelo homem. Com quanta frequência as pessoas tomam o que é dom natural como substituto para o que o Senhor procura operar nelas. Mas na realidade, o que procede da alma não tem ligação alguma com Deus, pois somente o que procede do espírito relaciona-se com ele.
O homem mais manso de todos, algum dia, descobrirá que a tentação é mais forte que sua mansidão natural. Algum dia sua mansidão se esgotará, sua paciência chegará ao fim: há um limite para o que ele pode suportar, há um grau para sua mansidão.
Ao passo que a força natural do homem é limitada, a força que nos é dada pelo Senhor é algo completamente diverso. O que o Senhor pode fazer, eu não posso; pois não sou eu quem o faz mas é a presença do Senhor em mim que faz com que eu realize tal coisa espontaneamente. E depois maravilho-me de tal coisa ter acontecido. Somente posso inclinar a cabeça e dizer: “Não tenho paciência, entretanto, ó Senhor, tu operas isso em mim.” E, sem dúvida alguma, o que é realizado é verdadeiramente espiritual.

QUINTO
Devemos reconhecer, entretanto, que não nos é fácil diferenciar o espiritual do que procede da alma meramente por sua aparência. É vão perguntar a nós mesmos diariamente se isto é espiritual ou se aquilo procede da alma. Tal indagação não tem valor espiritual algum. Podemos perguntar, mas não receberemos a resposta. Podemos analisar, mas não conseguiremos nenhum resultado. Se não perguntarmos, certamente jamais conheceremos; entretanto, ainda que perguntemos, não o saberemos.
Nas coisas espirituais, a autoanálise não somente falhará em mostrar-nos a realidade, mas também criará paralisia espiritual. A visão e a compreensão verdadeiras somente vêm da iluminação de Deus. Quando a luz brilha, vemos naturalmente. Portanto, não precisamos fazer perguntas a nós mesmos; tudo que precisamos fazer é pedir que Deus faça com que sua palavra brilhe em nós, pois a Palavra de Deus é viva e eficaz; e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir a alma e espírito, juntas e medulas. No momento em que a Palavra de Deus entra, imediatamente podemos separar o que é da alma e o que é do espírito. Dentro de você existe um julgamento mais cortante do que qualquer juízo humano. Quando agimos, nosso sentido interior nos diz que tal ação não é correta ou não é profunda o suficiente, que somos nós mesmos que estamos fazendo as coisas e tentando influenciar pessoas. Ao ver interiormente, vemos de verdade. Que Deus possa ter misericórdia de nós concedendo-nos a luz interior com a qual possamos distinguir interiormente.
O dividir a alma e espírito é o fundamento do poder de discernir do cristão. Entretanto, o possuir ou não esse poder de discernir depende da iluminação interior e não da instrução externa. O que devemos esperar perante Deus é que a entrada de sua Palavra traga luz para que ele possa mostrar-nos o que em nossa vida e obra é da alma e o que é espiritual.

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee  

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

ESPIRITUAL OU MENTAL?

O qual nos habilitou para sermos minis­tros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica (2 Coríntios 3:6).

A palavra “letra” aqui aponta para a lei. Comparando a lei com o Espírito Santo descobrimos que a lei nada pode fazer para o homem a não ser matá-lo, pois não possui o poder de dar a vida como o possui o Espírito. “O espírito”, diz Jesus “é o que vivifica” (João 3:63). Nada, a não ser o Espírito Santo, pode dar vida. Até a vida de Deus está no Espírito Santo. Além disso, nosso mundo físico foi restaurado, no princípio, por meio da atividade do Espírito Santo (Gênesis 1:2). E o nascimento do Senhor Jesus, como Deus na carne, aconteceu pelo poder do Altíssi­mo. Segundo a revelação da Bíblia, tudo o que possui ou concede vida está no Espírito Santo, ou é por virtude dele. Mas uma vez que a lei é estabelecida na letra e não no Espírito Santo, faz com que o homem morra. Entretanto não é só na Antiga Aliança que existe a “letra” (isto é, a lei) que mata; até a Nova Aliança tem a sua “letra”. O que a Antiga Aliança ressalta é a lei; entretanto, a lei, como nos diz a Escritura — é de Deus, sendo santa, justa e boa (Romanos 7:12). Mas por existir ausência do Espírito Santo nela, a lei torna-se a letra que mata, como as outras muitas “letras” no mundo. Entretanto descobrimos uma possi­bilidade similar na Nova Aliança. Pois embora muitas das verdades, mandamentos, exortações e ensinos do evangelho da Nova Aliança sejam de Deus e possam regular a conduta humana e influenciar a moral do comportamento dos ho­mens, não obstante, se estiverem divorciados do poder do Espírito Santo também serão transfor­mados em letra que mata.

Sem o Espírito de Deus, tudo é morto e sem poder

A verdade enunciada acima infelizmente é negligenciada por muitos crentes: fora do Espíri­to Santo não há vida, fora do Espírito de Deus tudo é morto. Devemos ver claramente que à parte de confiar totalmente na operação do Espírito de Deus, somos absolutamente inúteis. Embora reconheçamos a corrupção da carne, mui frequentemente não compreendemos o po­der do Espírito Santo. Logo, a despeito de nossa confissão, não somos libertados do domínio da carne. Deus deseja levar-nos ao ponto em que vivamos inteiramente por seu Espírito. Deseja que compreendamos que todas as nossas obras, feitos, orações e procura da verdade são empre­sas mortas se não forem o resultado da operação do Espírito Santo em nós e se não forem produ­zidos por seu poder. Aos olhos de Deus essas são obras mortas destinadas à sepultura.

O chamado de Deus hoje é que seus filhos obtenham a vida mais abundante. Deseja que nos livremos da morte, vençamos a morte. Entretanto, nossa atenção frequentemente é colocada em vencer pecados mas não em vencer a morte. Ainda assim, Deus livrar-nos-á não somente da lei do pecado mas também da lei da morte: “Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2). Somente o Espírito pode conceder essa vida. Onde existe ausência dele, não há vida alguma, antes, o enchimento da morte. Os cristãos deviam não somente refrear-se do pecar, mas também deviam vencer a morte e ser cheios de vida. Deus odeia tanto a morte como o pecado. O pecado nos separa dele; e a morte impede nossa comunhão com ele. Vencer o pecado é negativo, ser cheio de vida é positivo.

Precisamos ver que quem está em Cristo tem a vida. Como? Pelo Espírito Santo, pois “a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus…”

Assim o que o versículo 6 de 2 Coríntios 3 revela é: (1) que tudo o que é da carne é morto, e (2) que até a lei perfeita dada por Deus, se estiver fora do Espírito Santo, também é morta, pois a letra mata.

A Palavra de Deus e o Espírito de Deus

A Palavra de Deus e o Espírito de Deus são inseparáveis. Dando-nos a Bíblia, Deus dá-nos sua Palavra, mas ao mesmo tempo acrescenta uma condição: os homens devem receber sua palavra no poder de seu Espírito. Deus apoia sua Palavra com o Espírito; prova sua Palavra com seu Espírito. Usa seu Espírito a fim de preservar sua Palavra para que ninguém fique destituído. Todo aquele que entrar em contato com a Palavra de Deus sem entrar em contato com o Espírito Santo não verá o poder da Palavra de Deus. Pois sem o Espírito de Deus a Palavra de Deus torna-se letra morta.

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura” (1 Coríntios 2:14a). Para o incrédulo que examina as Escrituras com sua própria sabedoria a Bíblia não passa de um livro morto. Isto não quer dizer que a Bíblia não seja a Palavra de Deus, nem que a Palavra de Deus não tenha poder. Simples­mente significa que sem o Espírito Santo a Bíblia, na experiência desse incrédulo, simplesmente é um livro morto e sem poder.

A Palavra de Deus permanece a mesma. Para alguns, entretanto, torna-se vida, enquanto para outros é somente letra. Qual o motivo de tal diferença? Não é outro senão que o primeiro tipo de pessoas recebe a Palavra de Deus no poder do Espírito Santo enquanto o segundo tipo tenta compreender a mesma Palavra pela sabedoria de sua mente.

A Palavra de Deus é poderosa e tem vida. Entretanto quando a pessoa a recebe só por meio da mente, não experimenta o poder nem a vida da Palavra de Deus. Toda verdade aceita só com a mente torna-se mero pensamento para essa pessoa. Tal verdade não é eficaz para seu cami­nhar. Não pode depender dela em tempos de necessidade. Embora essa pessoa possa conhe­cer o argumento, o fato ou o procedimento, não poderá obter o poder que nela está. Para ela e sua vida, a verdade não é verdade mas só ensinamento vazio, porque não pode demons­trar sua veracidade.

Para que o crente saiba que recebeu a Palavra de Deus no poder do Espírito Santo, somente precisa perguntar a si mesmo se ao receber a Palavra a recebeu com poder em sua vida; porque Deus envia o Espírito Santo a fim de provar ao crente a veracidade de sua Palavra. Conseqüentemente, se a Palavra de Deus falha em ser provada, é porque o poder do Espírito está ausente dela.

O perigo, hoje em dia, é que os crentes ouçam a palavra de Deus, leiam a Bíblia ou procurem a verdade só com a sabedoria da mente. Deus une sua Palavra e seu Espírito, mas o homem tem a tendência de separar a Palavra do Espírito ou o Espírito da Palavra. O perigo dos dois extremos é igual em ambas as direções. Pois ao separar a Palavra de Deus do Espírito de Deus, o que a pessoa obtém é mera ideia ou mero ideal. E ao separar o Espírito de Deus da Palavra de Deus, a pessoa se transforma numa coisa estranha. Mais pessoas caem na armadilha do primeiro extremo que na do segundo.

Muitos lêm a Bíblia como se examinassem um livro científico. É como se, com uma mente fina, um pouco de instrução e esforço próprio, pudessem compreender a Bíblia. Tal tipo de pesquisa pode capacitar a pessoa a conhecer um pouco da história e da doutrina bíblica mas não a ajudará experimentar o poder da Palavra de Deus. O Senhor deve levar-nos ao ponto em que dependamos de seu Espírito ao lermos a sua Palavra. Então compreenderemos sua verdade e seu poder. Somente o Espírito Santo pode apli­car a Palavra de Deus com sua vida e poder ao caminhar do crente. Aceitar a verdade só com o poder mental não o capacitará a experimentar esta vida e este poder em sua experiência diária.

Diferença real

Qual é a diferença real entre receber a verdade no poder do Espírito e recebê-la no poder da mente?

(A) Se a pessoa adquire alguma verdade religiosa de um livro ou de um mestre ou mesmo da própria Bíblia sem a necessidade de oração, ou sem renunciar a seu próprio poder nem depender completamente do Espírito Santo, ela está recebendo essa verdade no poder de sua mente. Pois a aceitação da verdade no poder da mente significa recebê-la diretamente de um livro, mestre ou da Bíblia, deixando-se de lado o Espírito Santo. Os fariseus conheciam as Escritu­ras desta forma; logo acabaram possuindo algo morto, destituído de qualquer experiência viva perante Deus — pois a Palavra de Deus leva as pessoas a se aproximarem dele, e o próprio Deus é Espírito. Mas o ler a Palavra de Deus sem seu Espírito falha em efetuar qualquer contato entre o homem e Deus.

(B) Os crentes galatas voltaram a guardar a lei depois de terem crido no evangelho e começado a andar pela fé. De modo que Paulo lhes pergunta: “Recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2). O que o apóstolo queria dizer era que, deveras, haviam começado com a fé mas agora confiavam nas obras. E perguntou-lhes mais: “Tendo começado no Espírito, estais agora vos aperfeiçoando na carne?” (3:3). Ele indicava que, deveras, tinham começado dependendo do Espírito mas que agora começaram a depender da carne. Por estas duas perguntas descobrimos um princípio mui­tíssimo importante: tudo o que é do Espírito Santo é pela fé e tudo o que é da carne é pelas obras. O Espírito e a fé estão unidos num só, assim como a carne e as obras são uma.

Assim, o procurar a verdade com o poder da mente e procurar a verdade no poder do Espírito têm entre si uma diferença vital — o primeiro é sem a fé e o segundo a requer.

A fim de receber a verdade no Espírito Santo a pessoa deve ter fé. Receber no poder da mente só dá à pessoa algum conhecimento, mas rece­ber no Espírito Santo traz-lhe fé. Exemplifique­mos isto. A co-morte do crente em Cristo é a fonte da vida e do poder cristãos. A esta verdade temos dado muita ênfase e a temos pregado muitas vezes. Hoje muitos crentes já compreen­deram esta verdade, e até mesmo já testificaram dela. Mas quantos realmente receberam esta verdade no Espírito Santo? Seu falar trai a ineficá­cia de sua experiência. Conheço certo irmão, por exemplo, que pensa realmente conhecer a verda­de da co-morte. Certa vez estava pregando e disse: “E necessário que a pessoa morra; se às vezes você não puder morrer, mate-se a si mesmo no poder da cruz.” — Ora, estas pala­vras parecem muito espirituais, mas na realida­de são muito superficiais. Por quê? Porque ele não tem fé, mas ainda espera consegui-la por si mesmo. Isto mostra que no que se refere à verdade da co-morte ele só a compreende com sua mente e falta-lhe o poder do Espírito Santo.

Como podemos explicar isso? Se a pessoa realmente desejar experimentar o poder do Espírito Santo deve, em primeiro lugar, ter fé, pois o Espírito Santo somente opera por ter a pessoa crido na Palavra de Deus. A fé vem primeiro, e então a operação do Espírito no homem. Sem a fé, a verdade que a pessoa conhece não passa de uma ideia, pois o Espírito Santo ainda não operou nela o que a verdade já realizou.

Voltemos à verdade da co-morte por alguns instantes. O Espírito Santo nos ensina que quando Cristo morreu, já nos incluiu em sua morte. E assim como o morrer de Cristo por nós é um fato, também o termos morrido com Cristo é um fato. Assim como é real a morte de Cristo, assim também é real a nossa morte. Assim como somos libertos da penalidade do pecado crendo na morte de Cristo, da mesma forma somos libertos do poder do pecado crendo que já morremos com Cristo. É isto que a Palavra de Deus nos ensina. Então tudo se resume em crermos ou não. Se cremos, o Espírito Santo dará testemunho da Palavra de Deus e fará com que experimentemos a realidade de que “o pecado não terá domínio sobre” nós (Romanos 6:14). E a esta altura podemos verdadeiramente dizer que recebemos a verdade no poder do Espírito.

Donde podemos discernir a ordem necessária para receber-se a verdade no Espírito Santo: (1) o ensinamento da Bíblia, (2) a fé do crente e (3) a operação do Espírito Santo. Não pode faltar nenhum destes três fatores. Mas aquele que recebe a verdade pela mente não tem fé. Ouvin­do as Escrituras ou ouvindo outros pregarem ele pode vir a compreender o argumento da co-morte e pode conhecer que a pessoa que está morta é livre do pecado. Não obstante, em tudo isso lhe falta a fé; logo não pode ver claramente a posição do velho homem na morte de Cristo nem pode dizer ser uma pessoa já crucificada com Cristo.

De modo que está continuamente a colocar a si mesmo à morte, e ao aconselhar outros acerca deste assunto não pode deixar de dizer: “Devem morrer” (assim como o “certo irmão” de nossa ilustração anterior aconselhou em sua mensa­gem). Ainda que, às vezes, ofereça orações e comece a compreender a realidade de sua co­-morte em Cristo, o que faz com que ele confesse com sua boca ser uma pessoa crucificada, não obstante, em seu viver diário confia mais na autocrucificação do que no já ter sido crucificado com Cristo.

(C) Se a verdade é aceita no Espírito Santo, invariavelmente se tornará na experiência dessa pessoa. O Espírito não revela a verdade mera­mente para dar ao crente um pouco mais de material mental. Ele deseja, acima de tudo, levar o crente ao que a verdade diz. A compreensão mental pode fazer com que ele louve a verdade, mas não lhe dará o benefício da verdade. Muitos podem aprovar certa verdade, podem até mesmo amar tal verdade; não obstante, só a possuem mentalmente. Se a verdade não possui poder de produzir efeito na vida da pessoa, é indicação segura de que tal verdade é somente mental e não leva em si o poder do Espírito de Deus.

Precisamos perceber a diferença e também a relação entre o princípio e a prática. O princípio pode ser obtido mediante a revelação do Espírito de Deus. Devido ao acúmulo de conhecimento e à multidão de pregadores, muitos chegaram a compreender numerosos princípios da vida espiritual. Entretanto, muitas vezes, tais princípios estão só em sua mente. A fim de colocar esses princípios em prática na vida necessitam do Espírito divino. A mente pode entender os princípios, mas somente o Espírito de Deus pode colocar esses princípios em prática. Ao resolver um problema de álgebra, é fácil para o estudante resolver uma equação; entretanto é um pouco difícil adicionar um assunto a essa equação. Da mesma forma, é bastante fácil aprender um princípio espiritual com a mente, mas colocar esse princípio em prática na vida está além da capacidade mental. Aquele que estuda geografia pode saber as capitais e as grandes cidades das nações do mundo, e tam­bém suas situações agrícolas, industriais e comerciais, sem precisar talvez nem mesmo sair de casa. Pela pesquisa, mediante o poder men­tal, portanto, a pessoa pode compreender muito da Bíblia. Mas sem depender do Espírito Santo, não terá nenhuma experiência.

O perigo de hoje é que muitos buscam o conhecimento da Bíblia com a mente. Com­preendem alguns mistérios, entendem muitos princípios espirituais, colhem alguns significa­dos mais profundos da Palavra de Deus, e até mesmo apreciam, até certo grau, a obra realizada por Cristo na cruz. Entretanto, tudo isto está em sua mente. Isto não lhe foi dado pelo Espírito Santo, logo não existe nenhum poder prático envolvido. E o resultado é que a Bíblia fica reduzida ao nível de um tratado científico no qual o leitor e o escritor não têm contato pessoal algum. Por outro lado, a Palavra de Deus — embora seu conteúdo tenha sido dado oralmente muito tempo atrás, e mais tarde tenha sido registrado, formando o que hoje conhecemos como Bíblia — está, não obstante, no Espírito, da mesma forma que Deus está no Espírito. Se o leitor recebe a Palavra de Deus diretamente, sem depender do poder do Espírito Santo, não terá nenhum relacionamento com Deus. Isto reduzi­rá o valor da Palavra de Deus e torná-la-á um dentre os livros mortos do mundo.

A compreensão das Escrituras pode ajudar a esclarecer o pensamento e conceitos do homem, mas não terá eficácia prática em sua experiência e obra espirituais. Isto pode explicar, em parte, por que a verdade pode, deveras, ser pregada e no entanto não ter poder nenhum sobre o que prega nem sobre os que ouvem. Se a verdade estiver inteiramente circunscrita na mente do pregador, somente alcançará a mente dos ouvintes.

Ter a verdade sem ter o espírito da verdade é totalmente inútil. Quando o Senhor Jesus disse a seus discípulos ser ele a verdade, continuou dizendo-lhes que o Espírito da verdade viria a fim de levá-los a todas as verdades. Compreen­damos de uma vez por todas que o crente é ligado à verdade pelo Espírito da verdade; doutra forma, a verdade permanece como verda­de e o crente permanece como crente. Assim como os discípulos de antigamente não podiam compreender nem verdadeiramente experimen­tar Cristo antes de terem recebido o Espírito de Deus, assim também os crentes de hoje não podem genuinamente conhecer nem experimen­tar a Palavra de Deus a não ser pelo poder do Espírito Santo.

Obra espiritual verdadeira

Quem pode asseverar quanto da pregação de hoje procede da sabedoria do homem? A prega­ção pode ser bem profunda e incluir lições espirituais genuínas; a mesma fé apresentada por ela pode ser sã e as interpretações dadas, lógicas; além disso, tal pregação pode, às vezes, tocar os ouvintes afetando-lhes, até certo ponto, a conduta e a moral. Não obstante, tal pregação pode proceder não do Espírito Santo mas da sabedoria do homem. Devemos até mesmo estar abertos à possibilidade de que as máximas ditas pelos profundamente experientes, embora na realidade produzam algumas consequências aparentemente satisfatórias estimulando e mu­dando as pessoas, podem não ser, de fato, o resultado da operação do Espírito Santo.

A carne do homem deve ser eliminada, os esforços do homem devem ser reduzidos a nada; o homem velho com sua sabedoria e habilidade devem ser desfeitos na cruz. Uma vez que Deus possui tudo e pode fazer tudo, ele deve ser tudo.

 Tudo deve ser no poder do Espírito Santo.

 Alguns pensam que se o homem for reduzido a zero, a Palavra de Deus sofrerá grandemente — que tudo parará de progredir e que o fruto será diminuído, senão erradicado totalmente. Mas damos ênfase à obra espiritual verdadeira e ao fruto espiritual verdadeiro perante Deus. So­mente em circunstâncias como estas haverá maior utilidade espiritual. A obra feita pela sabedoria do homem pode prosperar de várias maneiras, mas falta-lhe o verdadeiro valor espi­ritual e é de pouco uso nas mãos de Deus. Somente o Espírito Santo pode fazer a obra de Deus. Quanto menos proeminência tiver o homem, tanto mais manifesto será o poder do Espírito. A obra do Espírito em cinco minutos tem mais utilidade espiritual do que todo o nosso labor de uma noite inteira, que nada consegue. Não é muito melhor esperar pelo mandamento do Senhor e retirar uma rede cheia de peixes em um só lançamento?

O lugar do poder mental

Tal sendo o caso, é o poder mental totalmente inútil na verdade de Deus? Não, o cérebro (ou a mente) tem o seu lugar. Devemos fazer diferen­ça entre o usar o espírito do homem e o usar sua inteligência. Quem revela a verdade é o Espírito Santo, e quem recebe a revelação do Espírito Santo é o espírito renovado do homem. Somente o espírito renovado do homem pode receber a revelação, o cérebro não pode recebê-la.

Notemos que o trabalho da mente é transmi­tir. A mente renovada ajuda a transmitir aos outros a verdade recebida em revelação. Mas a mente renovada por si mesma não descobre a verdade de Deus. Uma mente velha pode preju­dicar a pessoa no trabalho da transmissão, mas se o espírito dessa pessoa for renovado, ainda pode receber revelações. Deus coloca de lado a velha criação. A deficiência natural não impede que as pessoas recebam revelações, tampouco a eficiência natural ajuda as pessoas a receber revelações. Uma mente excelente pode ajudar na transmissão, mas não pode dar revelação a si mesma nem aos outros.

Vaidade do talento natural

Devido à habilidade natural surpreendente, muitos mestres da Palavra de Deus podem pesquisar, compreender e entregar algumas verdades a outros. E muitos há que dizem estar sendo ajudados por tais mestres. Entretanto, falando francamente, estes mestres nada realiza­ram de valor espiritual verdadeiro. As pessoas que têm mais talentos naturais geralmente tor­nam-se mestres dos menos talentosos, mas seu estado espiritual é exatamente o mesmo ou menos; em alguns casos, os que estão sendo ensinados são mais espirituais do que os que ensinam.

O perigo da situação da igreja hoje reside no fato de que muitos dos famosos, em lugares de destaque, estão lá não porque sejam realmente mais espirituais mas por terem talentos naturais mais elevados. Referimo-nos não somente aos eruditos e sábios do mundo secular, mas espe­cialmente aos famosos do mundo espiritual. Muitos mestres da Bíblia e líderes congregacionais hoje em dia têm êxito não por conhecerem mais do Espírito Santo do que as outras pessoas, mas por voltarem seus talentos naturais  superior­es à Bíblia e às coisas espirituais. São muitos os assim chamados espirituais que, de fato, não são espirituais! E por quê?

Porque o Espírito Santo não está neles! O conteúdo de seu ensino ou pregação simplesmente é pensamento espiritual da mente. Muito do ensino e da pregação não é senão resultado de pesquisa e não aprendizagem das lições do Espírito Santo. Naturalmente, portanto, tais lí­deres só podem ajudar as mentes das outras pessoas.

Muitos cristãos acham que enquanto o talento natural for usado no lugar certo, pode realizar o trabalho de glorificar a Deus! Entretanto, talento natural é talento natural; e ainda que esteja engajado nas coisas espirituais, tal talento não é aceitável a Deus.

O Espírito Santo pode usar o talento natural, mas esse talento deve estar completamente en­tregue a ele. Deus precisa mais de indivíduos que sejam cheios do Espírito Santo do que de qualquer outro tipo de pessoas. Devemos escla­recer bem o ponto importante levantado pela seguinte pergunta: É por nossos pensamentos serem mais inteligentes que somos capazes de liderar outras pessoas ou é porque na realidade conhecemos o Espírito de Deus?

Devemos ter o Espírito Santo

Deus deseja que saibamos com profundidade que assim como as Escrituras são inspiradas pelo Espírito Santo, da mesma forma as Escrituras requerem a revelação do Espírito Santo. Assim como a Bíblia foi escrita por homens movidos pelo Espírito de Deus, da mesma forma a Bíblia também precisa de seu espírito para mover as pessoas que a lêem. Assim como o Livro Sagra­do foi registrado pelo Espírito Santo, assim também o Livro precisa da iluminação do Espíri­to Santo. Aqui a sabedoria do homem é inútil. Deus também deseja que saibamos que até a interpretação mais clara da Bíblia não é adequa­da. Nosso poder deve advir do Espírito Santo. A sabedoria do homem pode fazer com que as pessoas compreendam o significado das Escritu­ras, mas não lhes dará o benefício da verdade.

Na procura da verdade, muitos vêm com o motivo errado. Se não buscam satisfazer seu próprio desejo de conhecimento, preparam mensagens para ensinar a outros. Seu motivo básico é resolver dificuldades mentais e não cultivar sua própria vida espiritual. Uma vez que essa é sua intenção, sentem-se muito cômodos se puderem, afinal, compreender. Pois agora podem ensinar outros. Está claro que não bus­cam a realidade espiritual.

Só depois de compreendermos que o homem pode ser salvo somente pelo Espírito Santo, que a verdade só pode ser apreendida no Espírito Santo, que a oração só pode ser ouvida mediante o Espírito Santo, e que nossa vida espiritual só pode progredir no Espírito Santo, verdadeira­mente creremos no Espírito Santo e dele depen­deremos. Quão a miúdo realmente pedimos que Deus nos dê luz? É provável que passemos mais tempo pensando, pesquisando e procurando do que orando. E por isso que o caminhar espiritual de inúmeros crentes é árido embora compreen­dam muitas verdades.

Muito da pregação moderna dá ênfase ao conteúdo mental em vez de colocá-la na vida do Espírito. Devemos saber que as obras de valor real são realizadas no espírito das pessoas e não em suas mentes. A obra que Deus reconhece só possui uma feição: a obra de seu Espírito no espírito do homem despejando no espírito do homem a vida de Cristo — quer seja dando a vida pela primeira vez quer seja outorgando a vida mais abundante. O mero receber a aprova­ção racional dos homens sem haver o derramamento da vida de Cristo neles é obra de vaidade.

Disciplina de Deus

Tal lição é muito difícil de aprender. A carne do homem rebela-se contra Deus por gostar de pecar e por não desejar obedecer à lei de Deus. Ainda que tente agradar a Deus, a carne proclama sua independência dele como se pudesse servi-lo sem esperar o poder que dele vem. Assim jamais dependerá do Espírito de Deus. Enquanto busca a verdade, a carne mental do homem tem a tendência de pensar que sua própria sabedoria já é suficiente. Deus, portan­to, é forçado a deixar que seus filhos passem por experiências dolorosas a fim de ensinar-lhes que tudo o que é obtido por seu próprio poder, com sua própria sabedoria não pode ajudá-los nem aos outros, e que se disponham a deixar toda a sua força e sabedoria carnais e buscar o Espírito Santo e seu poder. Por exemplo, muitas obras parecem ter um início promissor mas logo per­dem seu apoio entusiasta inicial e gradualmente desaparecem de modo a alertar os obreiros de Deus de que algo deve ter saído errado. O excitamento da carne dura muito pouco. Desta forma Deus leva seus servos a reconhecer quão vazias e vãs são suas obras e que comecem de novo com o Espírito Santo. Quão dolorosa deve ser tal experiência!

Ou tome como outro exemplo da disciplina de Deus a situação seguinte. Há muitos crentes que pensam saber muito. Pensam ser mais do que vencedores porque conhecem muitas verdades. Entretanto, pela vida, são derrotados vez após vez. Embora tentem com todo o seu esforço agarrar-se a estas verdades, ainda se encontram em desamparo, pois no tempo da batalha as verdades que conhecem tão bem transformam-se em armas de palha. Choram e derramam muitas lágrimas. Podem ser as verdades de Deus erradas, ou há alguma outra coisa errada? Oh, Deus quer que eles percebam que somente o Espírito Santo pode manejar a Espada do Espírito (que é a palavra e a verdade de Deus). Quando a carne tenta usar a Espada do Espírito é como Davi tentando usar a armadura de Saul, totalmente inadequada para sua batalha com Golias. Embora conheçam muito bem a verdade mentalmente, estas pessoas não dependeram do Espírito Santo para tornar sua vida em verdade.

O processo de receber a verdade

A verdade de Deus geralmente vem ao crente em dois passos sucessivos: (1) na mente e (2) no espírito. Frequentemente vem ao espírito depois de vir à mente. O espaço de tempo pode ser de vários meses ou até mesmo vários anos. Depois de Deus conceder certa verdade a um crente (isto é, depois que o crente começa a conhecer esta verdade em sua mente), ele operará no ambiente para levar o crente ao ponto de não poder vencer a não ser mediante essa verdade. Aí então o crente conhecerá a verdade no poder do Espírito Santo e terá experiência satisfatória dessa verdade. Quão triste, entretanto, é que assim que o crente conhece a verdade de Deus em sua mente, fica tão contente com isso que não procura ter uma experiência dela, ou começa ensiná-la a outras pessoas. E assim fica difícil para Deus levá-lo à realidade da verdade.

 Poder: o sinal inegável

No passado, muitas vezes demos ênfase ao fato de o Espírito Santo ser cheio de vida e de poder; logo, tudo que é do Espírito de Deus, sem exceção, terá vida e poder em si. De modo que quando vemos uma pessoa que conhece certa verdade mas essa verdade não ajuda sua vida espiritual nem lhe dá poder, uma vez que meramente lhe enche a mente com um lindo pensamento mas não o socorre no tempo de tentação, duvidamos haver nessa pessoa a obra do Espírito de Deus. Não fiquemos satisfeitos com palavras significativas. Devemos buscar o poder de Deus. São muitas as vezes em que as pessoas falam da verdade do Espírito Santo sem possuir nem um pouquinho de seu poder. O de que o crente precisa nada mais é que vida de Deus.

É interessante notar que se a pessoa com­preende a verdade de Deus com a mente, deve exercitar-se com frequência a fim de apegar-se a esta verdade. Mas se conhece a verdade no poder do Espírito Santo e a mantém nesse mesmo poder, não precisará apegar-se a ela no tempo de necessidade, como a pessoa que se afoga procura agarrar a corda que lhe é atirada; antes, ela mesma será segurada e salva pela verdade mediante o Espírito Santo. Esta distin­ção é bem evidente.

Compreendamos que a verdade de Deus, à parte do Espírito de Deus é morta. Assim como não se pode interromper a vida do homem momentaneamente, da mesma forma, o poder dado pelo Espírito deve ser sempre renovado e suprido. O que o Espírito de Deus faz em determinada ocasião pode não ser o que fará em outras. Cada contato com ele traz novo poder. Nossa comunicação com o Espírito Santo não é de uma vez para sempre. Por este motivo, ao recebermos a verdade de Deus devemos depen­der continuamente do poder de Deus. Quando, por exemplo, ouvimos as experiências  espirituais dos outros, naturalmente tentamos imitá­-las. Esperamos que Deus nos conduza da mesma maneira e dê-nos o mesmo resultado. E quantas vezes ficamos desapontados com isso!

Tal acontece porque a experiência deles proce­de do Espírito Santo e a nossa é puramente mental. Deus tem de permitir que nos desapon­temos muitas vezes para que o procuremos dependendo diretamente do Espírito Santo. A imitação mental é completamente fútil.

E esta mesma conclusão pode ser aplicada ao citarmos passagens bíblicas a fim de ganharmos poder espiritual. Presumimos que uma vez que a Bíblia foi inspirada pelo Espírito Santo, deve haver poder em citar mais palavras dela. Para surpresa nossa, entretanto, o resultado é negati­vo. E por quê? Porque o Espírito Santo deve falar de novo e com novidade.

O que devemos procurar hoje, portanto, é que o Espírito Santo nos dê vida mediante a verdade. Devemos buscar sua revelação e sua aplicação. Devemos permitir que ele transfira a verdade de nossa cabeça para nosso coração. Que possamos crer na Palavra de Deus com todo o nosso coração, acreditando que tudo o que ele diz é verdade. Que nunca possamos estar contentes com o conhecimento de meras teorias.

 

Extraído do Livro ” O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O PODER DE ESCOLHER

 

Portanto o Senhor mesmo vos dará sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel. Ele comerá manteiga e mel quando souber desprezar o mal e escolher o bem (Isaías 7:14, 15).

Em nota à margem do versículo 15 encontra­mos esta tradução: “Manteiga e mel comerá, para que possa saber desprezar o mal e escolher o bem.” De forma que não é depois de saber desprezar o mal e escolher o bem que ele come manteiga e mel; antes, é porque come manteiga e mel que ele sabe desprezar o mal e escolher o bem.

Desejamos aprender um pouco mais a respei­to do Senhor Jesus nesta passagem. Você e eu sabemos quão perfeita foi a vida de nosso Senhor aqui na terra. Ao lermos os quatro evangelhos notamos quão bom e quão perfeito foi o modo de vida de nosso Senhor aqui. Mas destes quatro relatos somente não podemos descobrir por que nosso Senhor pôde levar uma vida assim “sobre-humana” ou por que ele é tão perfeito ou por que ele é o Filho do homem. Isaías 7:15 dá-nos o motivo. Por que sabe ele desprezar o mal e escolher o bem? Por que sabe ele rejeitar o mundo e escolher a vontade de Deus? Por que sabe ele negar a glória do homem e desejar somente a glória de Deus? Tudo isto está revela­do em Isaías.

Todos nós concordamos que o versículo (“Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel”) aponta para o Messias, nosso Senhor Jesus. Infelizmente, muitos negligenciam o versículo seguinte. É preciso que compreendamos que não é somente o versículo 14 que aponta para o Senhor, o versículo 15 declara que durante toda sua vida ele comerá manteiga e mel. E por se alimentar assim por toda a vida, será capaz de escolher o bem e desprezar o mal, será capaz de obedecer a Deus e procurar a sua glória, e será capaz de ganhar a satisfação do coração de Deus.

Quais são os significados de manteiga e mel? De todos os sabores, o da manteiga é o mais rico. E de todas as coisas da terra, nada é mais doce que o mel. Assim, manteiga representa o mais rico e mel, o mais doce.

O que diz a Bíblia ser a coisa mais rica? A graça de Deus (Efésios 1:7). O que diz a Bíblia ser a mais doce? O amor de Deus (Cantares de Salo­mão 2:3). Deus coloca a riqueza de sua graça e a doçura de seu amor perante o Senhor Jesus para que ele coma, logo ele pode obedecer a Deus e escolher sua vontade, desprezar o mal e escolher o bem. Por alguns momentos, pois, gostaria de laborar sobre como o Senhor, por toda a vida, comeu manteiga e mel, e também como em consequência desprezou o mal e escolheu o bem.

PRIMEIRO: SEUS PRIMEIROS ANOS (Lucas 2:41-51)

Aos doze anos de idade, Jesus foi com seus pais a Jerusalém para a festa da páscoa. Depois de se cumprirem os dias, seus pais voltaram; mas o menino Jesus ficou em Jerusalém. Mais tarde seus pais voltaram à cidade procurando por ele. Três dias depois encontraram-no no templo. Disse-lhe sua mãe: “Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura.” Respondendo, o Senhor não disse: “Não sabíeis que me cumpria fazer a vontade de Deus?” Em vez disso, ele diz: “Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai? [ou, cuidando dos negócios de meu Pai]?” Aqui o Senhor tinha a manteiga e o mel.

Aos doze anos de idade, Jesus já conhecia ao Pai. Ele tinha a manteiga e o mel celestiais. Porque ele tinha o mais rico e o mais doce, podia viver na vontade de Deus. Se isso tivesse aconte­cido conosco, provavelmente teríamos respondi­do: “Voltem para Nazaré e continuem o trabalho de carpintaria e de cuidar da casa, mas eu não vou. Deixem-me permanecer no templo.” En­tretanto, nosso Senhor não respondeu desta maneira. Por um lado, deu seu testemunho; por outro, desceu com seus pais a Nazaré e era-lhes submisso. Ele podia fazer essa escolha difícil porque tinha provado da riqueza e da doçura de Deus.

Ora, a mãe de Jesus era uma das melhores mulheres do mundo; ao mesmo tempo, porém, era também uma mulher “pequena”. Muitas vezes as melhores pessoas são as que menos inteligência possuem. Descobrimos, nos quatro evangelhos, que Maria, com frequência, perturbava o Senhor. Quando o vinho acabou nas bodas em Cana, ela disse ao Senhor: “Eles não têm mais vinho” (João 2:3). Quando o Senhor ensinava às multidões, mandou-lhe dizer que desejava falar com ele (Marcos 3:31). Entretanto, a Escritura diz: “E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso.” Esta foi a escolha do Senhor, algo difícil para o homem. Ele podia ter-se recusado a voltar e escolhido permanecer no templo, mas preferiu voltar para casa e viver com Maria que tinha pouca compreensão. Por ter comido manteiga e mel, podia escolher o que era difícil para o homem.

 

SEGUNDO: BATIZADO COM O BATISMO DE JOÃO (Mateus 3:13-17)

Quando João Batista viu a Jesus que vinha para ele, disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29). Uma vez mais João disse dele: “Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu” (Mateus 3:11). Quanto mais poderoso? “Cujas sandálias não sou digno de levar”, disse ele (Mateus 3:11). O Senhor era assim tão poderoso, entretanto foi a João para ser batizado. Se estivéssemos em seu lugar — isto é, no lugar de sua grandeza desde a eternidade como rei do reino dos céus -— sem dúvida seríamos acompanhados por toda a pom­pa de nossa alta posição. Embora jamais reco­nhecêssemos o fato abertamente, é fácil para nós exibir nossa excelência. Nosso orgulho é inato e natural. Simplesmente adoramos expor nossa grandeza aos outros. Mas nosso Senhor foi ao Jordão e recebeu o batismo de João.

Ora, nosso Senhor era muito especial. Ele era tão diferente que surpreendeu João, que tentou dissuadi-lo, dizendo: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” Qual pensa você, foi a resposta do Senhor? “Deixa por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.” Ele preferiu vir ao Jordão e entrar na água da morte. Escolheu a humildade, escolheu a morte, assim cumprindo ele toda a justiça. Na realidade a justiça á realizada na cruz, mas estava representada na água da morte para Jesus. Ele escolheu o bem e desprezou o mal.

Você já pensou quão difícil pode ter sido para o Senhor receber o batismo de João? Pois o que podia acontecer à sua dignidade perante os pecadores, os publicanos e as prostitutas? Não recebiam eles também o batismo de João? E, mais tarde, ao começar a pregar, ele proclamava como João: “Arrependei-vos, porque está próxi­mo o reino dos céus” (Mateus 4:17). Seu auditó­rio era igual ao de João. Certo publicano podia dizer-lhe: “Não foi ele batizado conosco naquele dia? Como é que agora pretende ensinar-nos?” Outro pecador com justificação igual poderia declarar: “Ele foi batizado conosco naquele dia. Como ousa vir ensinar a nós?” Quão difícil e humilhante deve ter sido para Jesus!

De fato, mais tarde este problema surgiu. Quando o Senhor e seus discípulos estavam na Judéia batizando, alguns foram a João reclamar: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (João 3:26). Isto prova o quanto desprezavam o Se­nhor. O Senhor deveras se coloca nesta posição difícil, mas escolhe fazer isso por haver força por trás de sua decisão. Ele provara a grandeza da graça abundante e o doce amor de Deus. Ele comera manteiga e mel. Tendo provado o mais abundante e o mais doce, pode tomar o lugar mais humilde.

Também podemos humilhar-nos a nós mes­mos e tomar o lugar mais humilde porque também temos a manteiga e o mel. O que o mundo não consegue fazer, nós, os cristãos, podemos, pois temos a graça mais abundante e o amor mais doce.

 

TERCEIRO: NO TEMPO DA TENTAÇÃO (Mateus 4:1-10)

Depois de o Senhor ter sido batizado, e ao sair da água, os céus subitamente se abriram e o Espírito Santo desceu como pomba, vindo sobre ele. Foi levado pelo Espírito, ao deserto, para ser tentado pelo diabo por quarenta dias e noites. O próprio Satanás parece tê-lo tentado dizendo: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.”

Comer quando se tem fome não é pecado, mas o Senhor recusou-se a comer aqui. O tentador procurava fazer com que o Senhor fizesse alguma coisa segundo sua própria vontade. Tentou seduzir Jesus a usar seus próprios meios a fim de satisfazer a fome. Mas o Senhor respondeu: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” Ele está disposto a passar fome, e pode suportar a fome. Deixe-me dizer a todos vós hoje que se desejamos viver como nosso Senhor viveu devemos receber diariamente do céu a manteiga e o mel. O Senhor é mui capaz de transformar pedras em pães, mas não precisa disso porque já tem a manteiga e o mel.

Suponhamos que exista um pouco de prazer, um pouco de conforto ou glória ao nosso estalar dos dedos. Você pode tê-lo se disser sim, ou pode tê-lo até mesmo sem dizer nada. Já está dentro de sua esfera de influência. Pode conse­gui-lo sem esforço. O que fará? Nosso Senhor não está disposto a transformar pedras em pães, mas como desejamos poder fazê-lo — não mera­mente transformar uma pedra em pão mas todas as pedras do Jordão!

Como ansiamos exercer nossa força máxima para nós mesmos! Isto é porque não provamos da manteiga e do mel do céu. Se tivéssemos comido dessa maneira, seríamos capazes de deixar de lado o que poderia ser nosso e desistir do que está ao nosso alcance. Somente uma espécie de pessoa no mundo sabe como ofertar a Deus — são os que experimentam a graça de Deus.

A tentação que Jesus sofreu no deserto não se restringiu a uma única área. Pois Satanás disse: “Se és Filho de Deus, atira-te abaixo.” Quão maravilhoso seria descer voando do céu! As pessoas não o reconheceriam imediatamente como o Messias? Ele podia ganhar glória imensa pelo expediente mais simples. Entretanto, o Senhor recusou-se a fazer isso. Terceira vez Satanás lhe disse: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.” Não é fácil ganhar o mundo todo e toda sua glória com uma simples mesura? Não obstante, por melhor que sejam todos os reinos do mundo, nosso Senhor é capaz de deixá-los de lado e negá-los por ter poder em si. Conhece a Deus de uma maneira que vai além de nós; ele está cheio do Espírito Santo de um modo que não o possuímos; e já provou da abundância da graça e da doçura do amor a um grau que não experimentamos.

 

QUARTO: O SENHOR REPREENDE PEDRO (Mateus 16:21-34)

Em duas de três ocasiões distintas Pedro ouviu o Senhor dizer que devia ir a Jerusalém, sofrer nas mãos dos anciãos, dos sacerdotes e dos escribas, e ser morto — e que ressuscitaria dos mortos depois de três dias. Pedro não podia suportar tal ideia. Começou a ter pena do Senhor e disse-lhe: “Tem compaixão de ti, Se­nhor; isso de modo algum te acontecerá”. Pode­ríamos pensar que Jesus provavelmente haveria de confortar Pedro dizendo: “Seu amor por mim é deveras grande, Pedro, mas não posso deixar de ir a Jerusalém para morrer.” Em vez disso, o Senhor repreendeu seu discípulo com severidade: “Arreda! Satanás; tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e, sim, das dos homens”. O Senhor fez uma escolha definida aqui: escolheu a morte.

Se houver alguém neste mundo que escolheu a cruz e andou pelo caminho estreito, tenho certeza de que essa pessoa deve ter provado da abundância da graça de Deus e da doçura de seu amor.

 Deve haver um motivo por trás do martírio. Deve existir nessa pessoa um poder por demais incomum. Nunca pense, nem por um momento, que Deus nos dá os salários mais baixos enquan­to exige que nós, “fracotes”, carreguemos res­ponsabilidade insuportável. Não, nosso Deus nos dá manteiga e mel para que possamos deixar de lado todas as coisas e até mesmo morrer pela verdade. E aqui não profiro uma palavra falsa nem vazia. Eu a conheço e muitos a conhecem. Todos os que são capazes de desprezar as coisas, não procurar nada para si mesmos, mas escolher a parte difícil, possuem em si um poder tremen­do, assim como Cristo possuiu. Por causa do poder que nele existia o Senhor Jesus pôde desprezar o mal e escolher o bem.

 

QUINTO: EM SUA TRANSFIGURAÇÃO (Lucas 9:28-31)

No monte da transfiguração o Senhor mani­festou o máximo de sua humanidade perante Deus e perante os homens. A Bíblia jamais ensina que somos sem mancha nesta vida (te­mos, deveras, faltas e manchas); ela somente afirma que Deus pode manter-nos inculpáveis nesta vida. Mas nesta vida nosso Senhor é sem mancha alguma. Já mencionei a transfiguração de Jesus no monte. Muitos comentaristas concordam que o Senhor podia muito bem ter ascendido ao céu desse monte e Deus não podia ter-se recusado a recebê-lo. Com referência a isto observe esta passagem: “A terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga. E quando o fruto já está maduro, logo se lhe mete a foice, porque é chegada a ceifa” (Marcos 4:28, 29). Uma vez que o Senhor já estava maduro (isto é, a esta altura já estava completamente amadurecido), ele podia ter sido recebido de volta. Entretanto, conversou com Moisés e Elias a respeito de sua partida que estava prestes a se realizar em Jerusalém. Ao voltar para o vale abaixo, Jesus estava ainda mais decidido a ir a Jerusalém: tinha o rosto determi­nadamente voltado para seu objetivo. Escolheu a morte.

Aqui, portanto, vemos outra escolha de nosso Senhor. Jesus pôde recusar-se ascender ao céu do monte da transfiguração e escolher o cami­nho de Jerusalém e da morte porque tinha comido da manteiga e do mel celestiais. Ele pode decidir não ascender e ir ter com o Pai mas descer à cruz por ter provado da graça e também do amor de Deus.

Sem a graça e o amor de Deus quem pode suportar sofrimento como esse? Alguns filhos podem sofrer pelos pais, mas não sofrem de boa vontade. Alguns estudantes podem obedecer aos mestres sob compulsão. Somente Cristo pode fazer a escolha boa embora difícil com um coração disposto por ter provado da manteiga e do mel — do mais abundante e do mais doce.

 

SEXTO: ENTRANDO EM JERUSALÉM (João 12:12-28)

As duas ocasiões mais gloriosas da vida de nosso Senhor são a experiência do monte da transfiguração e sua entrada em Jerusalém. Ao entrar em Jerusalém muita gente tomou galhos de palmeiras e saiu a encontrá-lo, clamando: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! e que é Rei de Israel!” Estas palavras foram proferidas pelos judeus. Nessa época o Senhor ainda tinha muitos amigos. Lázaro tinha sido recentemente ressuscitado dos mortos, al­gumas pessoas haviam preparado uma festa para o Senhor, e alguns gregos vieram a Filipe dizendo: “Senhor, queremos ver a Jesus.” Até seus inimigos, os fariseus, diziam uns para os outros: “Vede que nada aproveitais! eis aí vai o mundo após ele.”

Nessa juntura, ele podia ter conseguido tudo o que quisesse. Mas quando André e Filipe vieram falar ao Senhor Jesus do desejo dos gregos, qual foi sua resposta? “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto.” Aqui fez mais uma escolha. Ele podia ganhar glória e tornar-se rei, mas escolheu o oposto. Como meu coração se comove com o que ele disse: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto”!

“Agora está angustiada a minha alma, e que direi eu?” Isto indica quanto o coração e a boca do Senhor andavam de acordo. “Pai, salva-me desta hora? mas precisamente com este propósi­to vim para esta hora.” O Senhor podia ter pedido que o Pai o livrasse dessa hora, en­tretanto ele sabia que tinha vindo para essa mesma hora. Uma vez mais desprezou o mal e escolheu o bem. Anteriormente, ao notarmos estas coisas, perguntamos a nós mesmos como é que ele podia fazer tais escolhas. Agora, en­tretanto, diz-nos a Bíblia em Isaías como é que ele pode escolher o bem e desprezar o mal: ele provou da manteiga e do mel, da abundância da graça e da doçura do amor.

 

SÉTIMO: NO GETSÊMANI (Mateus 26:36-46)

Finalmente no jardim do Getsêmani, o Senhor fez a escolha maior! Ali ele podia dizer não desejo morrer: “Meu Pai: Se possível, passe de mim este cálice!” Mas imediatamente acrescen­tou: “Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” Embora visse a hediondez do cálice, não ousou seguir sua própria vontade. Não temia o cálice; antes, sua virtude santa rebelava-se contra o levar os pecados. Antes de saber que o cálice e a vontade de Deus se tinham tornado uma, podia legitimamente pedir: “Se possível, passe de mim este cálice”; mas tal pedido foi imediatamente seguido da afirmativa: “não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” De modo que no jardim do Getsêmani, ele escolheu a vontade de Deus e rejeitou o que não era de sua vontade. E o que disse Jesus finalmente a Pedro? “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (João 18:11)

Deixe-me dizer-lhes que se não tivesse havido Getsêmani não poderia ter existido a cruz. Sem a obediência do jardim não teria havido a morte do Calvário. A obediência precedeu a cruz. Nosso Senhor “a si mesmo se humilhou, tornan­do-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). Muitos fogem da cruz por não se terem saído bem na consagração do Getsêmani. Não têm em si mesmos o poder. Mas nosso Senhor tinha a manteiga e o mel; portanto podia escolher o bem e desprezar o mal.

É preciso grande poder para ser obediente! Se Deus primeiro não lhe encher o coração, você não terá êxito, não importa quanto possa tentar externamente. Precisamos aprender a chegarmo-nos a Deus diariamente e receber do céu tanto a manteiga como o mel para que dia a dia vivamos na terra escolhendo o bem e desprezan­do o mal.

Falo a vocês hoje desta maneira porque tenho dentro em mim um profundo sentimento de que a volta do Senhor é iminente e que o reino está próximo, Logo as tentações serão maiores, os perigos se multiplicarão e as decepções serão mais profundas. Antes era questão de livrar-nos do pecado; agora é questão de livrar-nos do prazer. Antes era receber o despojamento de Deus; agora é obedecer com coração disposto. Antes era o caso de levar o jugo com relutância; agora é escolher a cruz voluntariamente.

Prevemos hoje muitas coisas que nos aconte­cerão nos dias vindouros se não soubermos como desprezar o mal e escolher o bem. Satanás nos oferecerá mais vantagens, o mundo parecerá mais gracioso dando-nos muitas coisas, e nosso ambiente também nos será mais útil. Se não desprezarmos, não venceremos. Como pode­mos vencer o mundo? Se o Senhor não tivesse escolhido morrer, poderia ter vivido porque lhe era possível não ter morrido. Oh! percebamos uma coisa: não importa o que se nos coloquem à frente, poderemos escolher com simplicidade de coração somente porque recebemos a manteiga e o mel celestiais. Daí que devemos receber man­teiga e mel diariamente do céu para que possa­mos saber o que escolher e o que desprezar. Não deixemos que nosso ambiente escolha por nós.

Extraído do Livro “O MENSAGEIRO DA CRUZ”, de Watchmann Nee