ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5:43-48

Continuação do Sermão da Montanha

Temos aqui, por fim, uma explicação daquele grande mandamento essencial da segunda tábua da lei: ”Amarás o teu próximo”, que era o cumprimento da lei.

 I – Veja aqui como este mandamento foi corrompido pelas observações dos mestres judeus (v. 43). Deus disse: ”Amarás o teu próximo”; e por próximo eles entenderam somente aqueles do seu próprio país, nação e religião; e somente aqueles que quisessem considerar como seus amigos. Mas isto ainda não foi o pior; pois a partir deste mandamento, “amarás o teu próximo”, eles se dispuseram a pressupor o que Deus nunca pretendeu. E com: “aborrecerás o teu inimigo”, eles consideravam quem quisessem como sendo seus inimigos, consequentemente tornando vazio o grande mandamento de Deus por suas tradições, ainda que houvesse mandamentos que expressassem o contrário, como em Êxodo 23.4-5; Deuteronômio 23.7: “Não abominarás um edomita… nem um egípcio”, embora estas nações tivessem sido inimigas de Israel como qualquer outra. Ê verdade que Deus mandou-os destruir as sete nações devotadas de Canaã e não fazer aliança com eles; mas haviam razões particulares para isso: abrir caminho para Israel e também para que não servissem como um laço para Israel. Mas foi muito perverso, a partir disso, concluir que eles deveriam odiar a todos Os seus inimigos, mesmo que a filosofia moral do pagão permitisse isso. A lei de Cícero é: Nemini nocere nisi prius; lacessitum injuriae Não prejudique ninguém, a menos que você tenha sido anteriormente prejudicado. De Offic. Veja como os sentimentos corruptos condescendentes procuram obter uma aprovação a partir das palavras de Deus, e buscam uma ocasião – através dos mandamentos – para se justificar:

II – Veja como isso é esclarecido pelo mandamento de Jesus, que nos ensina uma outra lição: “Eu, porém, vos digo”. Eu, que vim para ser o grande Pacificador, o general Reconciliador, que vos amou quando éreis estranhos e Inimigos, Eu digo: “Amai a vossos inimigos” (v. 44). Ainda que os homens sejam sempre maus e se comportem sempre de modo desprezível para conosco, ainda assim isto não nos desobriga da grande dívida de amor que temos com os nossos semelhantes, amor por nossos parentes. Não podemos evitar nos achar inclinados a desejar o mal, ou, de qualquer modo, ser muito indiferentes para desejar o bem àqueles que nos odeiam e são violentos conosco; mas o que está no fundo de todo procedimento odioso é uma raiz de amargura, que deve ser extirpada, e o vestígio da natureza corrupta que a graça deve derrotar. O maior dever dos cristãos é amar a seus inimigos, não podemos ter complacência com aquele que é abertamente perverso e profano, nem ter confiança naquele que sabemos que é mentiroso, nem amar a todos da mesma maneira, mas devemos levar em consideração a natureza humana, e, até certo ponto, respeitar todos os homens. Devemos atentar, com alegria, naquilo que, nos nossos inimigos, é agradável e louvável: a sinceridade, o bom humor, o conhecimento, e a virtude moral, a bondade com os outros, a profissão da religião etc., e amar estas qualidades, embora sejam nossos inimigos. Devemos ter compaixão e boa vontade com eles. Aqui aprendemos:

1.Que devemos falar bem deles. “Bendizei os que vos maldizem”. Quando falamos com eles, devemos responder aos seus insultos com palavra s amistosas e cordiais, e não retribuir os insultos com insultos. Quando não estivermos na presença de tais pessoas, devemos elogiar o que nelas é elogiável e, quando já tivermos dito tudo que há de bom nelas, não devemos nos precipitar a dizer mais nada (veja 1 Pedro 3.9). Aqueles cuja língua é a lei da bondade podem oferecer boas palavras para aqueles que lhes oferecem palavras ruins.

2.Que devemos fazer o bem a eles: “Fazei bem aos que vos odeiam”, e isto será uma prova de amor melhor do que as boas palavras. Esteja disposto a dar a todos a verdadeira bondade que você pode dar, e alegre-se pela oportunidade de fazê-lo, a seus corpos, bens, nomes, famílias; e principalmente a suas almas. Isto foi dito a respeito do arcebispo Cranmer, que a maneira de torná-lo um amigo era dar-lhe um tratamento cruel; ele serviu àqueles que o afrontaram.

3.Devemos orar por eles: “Orai pelos que vos mal­ tratam e vos perseguem”. Observe que: (1) Não é nenhuma novidade que a maioria dos santos foi odiada, amaldiçoada e tratada com desrespeito pelas pessoas más; o próprio Cristo foi tratado assim.

(2) Que quando, a qualquer momento, nos encontramos em tal situação, temos a oportunidade de mostrar nossa concordância, não só como preceito, como também com o exemplo de Cristo, orando por aqueles que nos insultam. Se, de outra maneira, não podemos testemunhar o nosso amor por eles, desta maneira, porém, poderemos fazê-lo sem ostentação e de tal forma que certamente não nos arriscaríamos a fingir. Devemos pedir a Deus que os perdoe, para que nunca passem pelo pior, por qualquer coisa que tenham feito contra nós, e que Ele os faça ficar em paz conosco; e esta é uma forma de alcançarmos esta paz. Plutarco, em seu apotegma lacõnico, fala isto de Aristarco; quando alguém elogia as palavras de Cleômenes, que, respondendo o que um bom rei deveria fazer, disse: Tous men philous euergetein, tous de echthrous kakos poiein Tornar o bem para os seus amigos, e o mal para os seus inimigos, disse ele: Como é melhor tous menphiloiis eiwrgetein, tous de echthrnus philous poie­ in fazer o bem para os nossos amigos, e tomar o nossos inimigos amigos. Isto é um monte de brasas sobre as suas cabeças.

Duas razões são dadas aqui para reforçar o mandamento (que parece tão difícil) de amar os nossos inimigos. Devemos fazê-lo:

[l ] Para que possamos ser como Deus, nosso Pai; “para que sejais filhos do Pai que está nos céus”. Podemos escrever um texto melhor? É um texto no qual o amor pelo pior dos inimigos é reconciliado, e está em harmonia com a pureza e a santidade infinitas. Deus “faz que o s eu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos” (v. 45). Observe que, em primeiro lugar, o sol e a chuva são uma grande bênção para o mundo, e vêm de Deus. É o seu sol que brilha, e a chuva é enviada por Ele. Eles não vêm naturalmente ou por acaso, mas de Deus. Em segundo lugar, as bênçãos comuns devem ser estimadas como exemplos e provas da bondade de Deus, que, por meio delas, se mostra um benfeitor generoso para com o mundo em que vive a humanidade – que seria muito infeliz sem estas bênçãos – e que é completamente indigno da menor delas. Em terceiro lugar, estas dádivas da providência com um são distribuídas indiferentemente, para os bons e os maus, para os justos e os injustos; para que possamos distinguir o amor do ódio não pelo que está diante de nós, mas pelo que há dentro de nós; não pelo brilho do sol sobre as nossas cabeças, mas pela ascensão do Sol da Justiça em nossos corações. Em quarto lugar, os piores homens compartilham os confortos desta vida juntamente com os demais, embora eles os maltratem e lutem contra Deus com as suas próprias armas; este é um exemplo surpreendente da paciência e da generosidade de Deus. Uma única vez Deus proibiu o seu sol de brilhar sobre os egípcios, enquanto os israelitas tinham luz em suas habitações. Deus poderia fazer tal distinção todos os dias. Em quinto, as dádivas da generosidade de Deus para os homens maus, que estão em rebelião contra Ele, nos ensinam a fazer o bem àqueles que nos odeiam; especialmente considerando que embora haja em nós uma mente lasciva, que é inimiga de Deus, ainda assim compartilhamos de sua generosidade. Em sexto lugar, só serão aceitos como filhos de Deus aqueles que procuram se assemelhar a Ele, particularmente em sua bondade.

[2] Para que possamos fazer mais do que os outros (vv. 46,47). Em primeiro lugar, os publicanos amavam os seus amigos. A natureza os levava a fazer isto; o interesse os conduzia a isto. Fazer o bem àqueles que fazem o bem a nós é um exemplo simples de humanidade. Mesmo aqueles a quem os judeus odiavam e desprezavam poderiam dar provas tão boas ou até mesmo melhores do que as deles. Os publicanos tinham má fama, embora fossem gratos àqueles que os ajudavam em suas posições e educados com aqueles que dependiam deles. E nós não devemos ser melhores do que eles? Ao fazermos isto, nós serviríamos a nós mesmos e deliberaríamos em nosso próprio benefício. E que recompensa podemos esperar por isto, a não ser o respeito a Deus, um senso de dever que nos conduziria muito além da nossa inclinação natural e do nosso interesse terreno? Em segundo lugar, devemos, consequentemente, amar os nossos inimigos para que possamos superá-los. Se devemos ser melhores do que os escribas e fariseus, devemos ser também muito melhores que os publicanos. Observe que o cristianismo é algo além da humanidade. Eis algumas perguntas sérias que deveríamos nos fazer frequentemente: O que fazemos mais do que os outros? Que coisas distintas nós fazemos? Nós sabemos mais que os outros; falamos mais das coisas de Deus que os outros; professamos e prometemos mais que os outros? Deus fez mais por nós, e, portanto, espera, justamente, mais de nós que dos outros; a glória de Deus se dedica mais a nós que aos outros. Mas o que fazemos a mais que os outros? De que maneira vivemos acima da média dos filhos deste mundo? Será que não somos carnais, e não andamos de acordo com os homens, em um nível inferior ao do caráter dos cristãos? Nisto, especialmente, devemos fazer mais que os outros, pois enquanto cada um retribui o bem com o bem, nós devemos retribuir o mal com o bem; e isto expressará um princípio nobre, e estará de acordo com um preceito mais elevado do que aquele que a maioria dos homens segue. Outros saúdam seus irmãos, acolhem aqueles que são do seu próprio partido, trajetória e opinião, porém não podemos restringir o nosso respeito, mas sim amar os nossos inimigos. De outra maneira, que recompensa teriam as? Não poderemos esperar pela recompensa dos cristãos, se não nos elevarmos acima do padrão dos publicanos. Observe que aqueles que prometem a si mesmos uma recompensa superior à dos outros devem se disciplinar para fazerem mais que eles.

Por último, o nosso Salvador conclui este tema com esta exortação (v. 48): “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus”. O que pode ser interpretado:

1.De maneira geral, incluindo todas as coisas nas quais devemos ser seguidores de Deus como filhos amados. Observe que é dever dos cristãos desejar, aspirar e perseverar em direção à perfeição na graça e na santidade (Filipenses 3.12-14). E devemos estudar este assunto para que possamos estar de acordo com o exemplo de nosso Pai Celestial (1 Pedro 1.15-16). Ou:

2.Neste caso particular, mencionado anteriormente, “fazei o bem aos que vos odeiam” (veja Lucas 6.36). A perfeição de Deus é mostrada à medida que Ele perdoa as ofensas, recebe os estranhos, e faz o bem aos iníquos e ingratos. A nossa responsabilidade consiste em procurarmos ser perfeitos, assim como Ele é perfeito. Nós, que devemos tanto, que devemos tudo o que somos à generosidade divina, devemos imitá-la tão bem quanto pudermos.

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MATEUS 5: 38-42

Continuação do Sermão da Montanha

Nestes versículos, se explica a lei ela retaliação, e ela é, de certa maneira, rejeitada. Observe:

I – Qual era a permissão do Antigo Testamento, em caso de ofensa. Aqui a expressão é somente: “Ouvistes o que foi dito”; não, como antes, a respeito dos mandamentos do decálogo, aquilo que foi dito pelos antigos, ou para eles. Era um mandamento que todos deveriam, em caso de necessidade, exigir esta satisfação; mas eles podiam, legitimamente, insistir nela, se quisessem. “Olho por olho e dente por dente”. Encontramos este conceito em Êxodo 21.24; Levítico 24.20; Deuteronômio 19.21; em todas estas passagens, está indica do que isto é algo que deve ser feito pelo magistrado, que não traz debalde a espada, porque é ministro de Deus e vingador para castigar aquele que faz o mal (Romanos 13.4). Os juízes da nação judaica eram orientados sobre qual punição infligir em caso de mutilação; por um lado, ela era um terror para aqueles que fizessem o mal, e, por outro, uma restrição àqueles que sofrem o mal, para que eles não pudessem insistir em uma punição mais severa do que fosse adequado: não deve ser um a vida por um olho, nem um membro por um dente, mas deve-se observar a proporção; e fica implícito (Números 35 .31) que a perda, neste caso, pode ser redimida com dinheiro, pois quando fica determinado que nenhum resgate pode ser aceito pela vida de um assassino, se supõe que para as mutilações era permitida uma satisfação pecuniária.

Mas alguns dos professores judeus, que não eram os homens mais piedosos do mundo, insistiam que era necessário que tal vingança fosse exigida, até mesmo pelas próprias pessoas, e que não havia lugar para remissão, nem a aceitação de qualquer compensação. Mesmo agora – estando sob o governo dos magistrados romanos, em que, consequentemente, a lei judicial estava a critério desses dominadores – eles ainda eram zelosos por tudo o que parecesse difícil e severo.

Este poder que temos é uma orientação aos magistrados, para usarem a espada da justiça de acordo com as leis boas e saudáveis da terra, para o terror dos malfeitores e a vindicação dos oprimidos. O juiz descrito no Evangelho de Lucas não temia a Deus nem respeitava homem algum, e não promoveria a vingança da pobre viúva contra o adversário dela (Lucas 18.2,3). Ela está em vigor corno uma regra para os legisladores, para que ajam coerente e sabiamente para distribuírem punições pelos crimes, para limitarem os roubos e a violência, e para fornecerem proteção à inocência.

II – O preceito do Novo Testamento é: quanto ao próprio reclamante, a sua obrigação é perdoar a ofensa que lhe foi feita e não mais insistir na punição, não mais do que for necessário para o bem comum. E este preceito está de acordo com a mansidão de Cristo e a suavidade do seu jugo.

Cristo aqui nos ensina duas coisas:

1.Não devemos ser vingativos (v. 39). “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal”; à pessoa má que lhe ofende. Aqui se proíbe, de maneira expressa e geral, a resistência a qualquer mal dirigido a nós, como se proíbe resistir à autoridade (Romanos 13.2), e ainda assim isto não revoga a lei de autopreservação, e o cuidado que devemos ter com as nossas famílias. Nós devemos evitar o mal, e podemos resisti!’ a ele, até onde isto seja necessário para a nossa própria segurança, mas não devemos pagar o mal com o mal, não devemos guardar ressentimento, nem nos vingar, nem tentar nos igualar àqueles que nos trataram de maneira injusta , mas devemos ser melhores do que eles, perdoando-os (Provérbios 20.22; 24.29; 25.21,22; Romanos 12.7). A lei da retaliação deve ser coerente com a lei do amor: se alguém nos ofendeu, a recompensa não está nas nossas mãos, mas sim nas mãos de Deus, a cuja ira devemos dar lugar; e algumas vezes nas mãos dos seus vices regentes, onde isto seja necessário para a preservação da paz pública. Mas isto não justificará que firamos o nosso irmão, dizendo que foi ele quem começou, pois é o segundo golpe que cria a briga; e quando formos ofendidos, temos uma oportunidade não de justificar que o ofendemos, mas de nos mostrar verdadeiros discípulos de Cristo, perdoando o ofensor.

O nosso Salvador especifica três coisas para mostrar que os cristãos devem ceder, pacientemente, àqueles que lhes trazem dificuldades, em lugar de disputar, e estas incluem outras.

(1) Um tapa no rosto, que é uma ofensa a mim, no meu corpo. “Se qualquer te bater na face direita”, o que não somente é um ferimento, mas também uma ofensa e uma indignidade (2 Coríntios 11.20). Se um homem, com ira ou desprezo, lhe atacar desta maneira, “oferece-lhe também a outra”, isto é, em outras palavras, “em lugar de vingar aquela ofensa, prepare-se para outra e suporte-a pacientemente; não dê ao homem rude o que ele traz; não o desafie, nem entre em alguma ação contra ele. Se for necessário, para a paz pública, que ele seja limitado no seu comportamento; deixe isto para o magistrado. Mas quanto à sua parte, será, normalmente, mais prudente deixar que isto passe, não tomando maior conhecimento do fato. Se não há ossos quebrados, nenhum grande mal foi produzido, perdoe e esqueça; e se os tolos orgulhosos pensarem o pior de você, e zombarem de você por causa disto, todos os homens sábios irão lhe valorizar e honrar por isto, como um seguidor do bendito Jesus, que, embora fosse o Juiz de Israel, não feriu aqueles que o feriram no queixo” (Miqueias 5.1). Embora isto talvez possa, com pessoas pobres de espírito, nos expor a alguma afronta semelhante em alguma ocasião, isto será, na verdade, oferecer a outra face; ainda assim não devemos deixar que isto nos perturbe, mas confiar em Deus e na sua providência para nos proteger no caminho do nosso dever. Talvez perdoar uma ofensa possa evitar outra, quando a vingança não faria nada além de atrair outra; alguns serão vencidos pela submissão, aqueles que, pela resistência, seriam apenas os mais exasperados (Provérbios 25.22). No entanto, a nossa recompensa está nas mãos de Cristo, que irá nos recompensar com a glória eterna pela vergonha que suportarmos pacientemente; e embora ela não seja atribuída diretamente, ela será tranquilamente suportada pelo bem da consciência, e de acordo com o exemplo de Cristo, será somada ao que se sofre por Cristo.

1.A perda de uma vestimenta – que é um mal causado a mim, nos meus bens (v. 40). “O que quiser pleitear contigo e tirar-te a vestimenta”. Este é um caso difícil. Observe, é comum que os processos legais sejam usados para o caso de ofensas graves. Embora os juízes sejam justos e sérios, ainda assim é possível que os homens maus, que não têm consciência de juramentos e falsificações, retirem, pelo curso da lei, a vestimenta dos ombros de um homem. Não te maravilhes de semelhante caso (Eclesiastes 5.8), mas, neste caso, em lugar de procurar a lei como uma forma de vingança, em lugar de exibir uma contra-acusação, ou de resistir ao máximo, na defesa daquilo que é o seu direito indiscutível, deixe-o levar também a capa. Se a questão for pequena, algo que possamos perder sem um dano considerável às nossas famílias, é bom sujeitarmo-nos a isto, pelo bem da paz. Em outras palavras: “Não lhe custará tanto comprar outra vestimenta, quanto irá lhe custar o curso da lei para recuperá-la; portanto, a menos que você possa obtê-la novamente, por meios justos, é melhor deixar que ele a leve”.

2.Caminhar uma milha forçadamente – que é urna ofensa a mim, na minha liberdade (v. 41). “Se qualquer te obrigar a caminhar uma milha”, isto é, se alguém lhe obrigar a fazer alguma tarefa para ele ou a servi-lo, não reclame, mas “vai com ele duas”, em lugar de brigar com ele. Não diga: “Eu faria isto, se não fosse obrigado a isto, mas detesto ser forçado”; em vez disto, diga: “Eu o farei, pois de outra maneira haverá urna briga”, e é melhor servirmos a ele do que servirmos aos nossos próprios desejos de orgulho e vingança. Alguns interpretam desta maneira: os judeus ensinavam que os discípulos dos sábios e os estudantes da lei não deviam ser pressionados pelos oficiais do rei, como os outros podiam ser, a viajar a serviço público; Cristo não ensinará os seus discípulos a insistir neste privilégio, mas os fará concordar, em lugar de ofender o governo. O resumo de tudo isto é que os cristãos não devem ser litigiosos; devem submeter-se às pequenas ofensas e não prestar atenção a elas; e se a ofensa for tal que exige que procuremos reparação, que seja com uma boa finalidade, e sem pensamento de vingança. Embora não devamos motivar e provocar as ofensas, nós devemos enfrentá-las alegremente no caminho do dever, e aproveitá-las ao máximo. Se alguém disser que a carne e o sangue não podem tolerar uma ofensa assim, faça com que esta pessoa se lembre de que a carne e o sangue não herdarão o Reino de Deus.

3.Devemos ser caridosos e beneficentes (v. 42). Não devemos apenas não ferir o nosso próximo, mas devemos procurar lhe fazer todo o bem que pudermos.

(1) Devemos estar dispostos a dar: “Dá a quem te pedir”. Em outras palavras, se você tem a capacidade, encare o pedido do pobre como uma oportunidade para cumprir o dever de dar esmolas. Quando alguém que realmente precisa de caridade se apresenta, devemos dar ao primeiro pedido: dar uma porção a sete, e também a oito; ainda assim, a questão da nossa caridade deve ser orientada com juízo (SaImos 112.5), para que não demos aos ociosos e indignos o que deveria ser dado aos que têm necessidade e o merecem. O que Deus nos diz é que devemos estar prontos para dizer aos nossos irmãos pobres: “Pedi, e dar-se-vos-á”.

(2) Devemos estar prontos para emprestar. Às vezes, isto é uma caridade tão grande quanto dar; pois não apenas alivia a necessidade atual, mas obriga ao que toma emprestado à providência, ao empenho e à honestidade. Por tanto, “não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” algo para viver ou para negociar; não se afaste daqueles que você sabe que têm um pedido a lhe fazer, nem invente desculpas para livrar-se deles. Seja acessível àqueles que vem tomar emprestado. Embora alguém passa estar envergonhado e não ter a confiança necessária para tornar o seu caso conhecido e pedir o favor se você conhecer a sua necessidade, como também o seu desejo, ofereça-lhe a gentileza. Exorabor antequam rogor; honestis precibus occuram Eu serei persuadido antes que me peçam; eu irei prever o pedido que se aproxima Sêneca, De Vita Beata. É conveniente que nos antecipemos nos atos de caridade, pois antes de pedirmos Deus nos ouve, e nos concede as bênçãos da sua bondade.

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MATEUS 5: 33-37

Continuação do Sermão da Montanha

Aqui temos uma explicação do terceiro mandamento, que devemos nos preocupar em compreender, porque está dito, especificamente, que quem infringir este mandamento, de não tomar o nome do Senhor em vão, não será considerado inocente pelo Senhor, não importando como a pessoa mesmo se considere. Quanto a este mandamento:

I – Sempre se concordou que ele proíbe o perjúrio, os falsos juramentos e a violação de juramentos e votos (v. 33). Foi dito aos antigos, e este é o verdadeiro significado e a verdadeira intenção do terceiro mandamento. Não tomarás, ou usarás, o nome de Deus (como quando fazemos um juramento) em vão, ou por bobagens, ou numa mentira. Aquele que não entrega a sua alma à vaidade e que não jura enganosamente está descrito nas palavras acima (Salmos 24.4). O perjúrio é um pecado condenado à luz da natureza, como uma complicação da impiedade com relação a Deus e da injustiça com relação aos homens, e como resultado de um homem altamente insolente à ira divina, que sempre foi considerada como caindo tão infalivelmente sobre o pecado que todas as formas de juramentos se transformavam normalmente em execrações ou imprecações; como Deus me fez isto, e outras frases semelhantes a estas. A expressão “e assim Deus faça” significa: que eu nunca tenha qualquer ajuda de Deus, se jurar em falso. Assim, com o consentimento de nações, têm havido homens que têm amaldiçoado a si mesmos, duvidando que Deus iria amaldiçoá-los, se eles mentissem sobre a verdade quando solenemente invocaram a Deus para ser sua testemunha.

De outras partes das Escrituras, se acrescenta: “mas cumprirás teus juramentos ao Senhor” (Números 30.2); o que pode querer significar:

1.Quanto a outras promessas, das quais Deus participa, devemos nos lembrar que os votos ou juramentos feitos a Deus devem ser cumpridos pontualmente (Eclesiastes 5.4,5); ou:

2.Promessas feitas a nossos irmãos, de que Deus é testemunha, sendo chamado para atestar a nossa sinceridade, devem ser feitas ao Senhor, prestando atenção a Ele, e por Ele: pois, para Ele, ao ratificar as promessas com um juramento, nós nos tornamos devedores; e se quebrarmos uma promessa assim ratificada, não mentimos apenas aos homens, mas também a Deus.

II – Aqui se acrescenta que o mandamento não somente proíbe o juramento em falso, mas também todos os juramentos intempestivos e desnecessários: “De maneira nenhuma jureis” (v. 34). Compare com Tiago 5.12. Nem todos os juramentos são pecaminosos; até agora, o juramento, se feito corretamente, é parte da adoração religiosa, e nele damos a Deus a glória devida ao seu nome (veja Deuteronômio 6.13; 10.20; Isaias 45.23; Jeremias 4.2). Vemos que Paulo confirma aquilo que ele dizia com tal solenidade (2 Coríntios 1.23), quando havia necessidade disto. Ao jurar, hipotecamos a verdade de alguma coisa conhecida, para confirmar a verdade de alguma coisa duvidosa ou desconhecida; se juramos de maneira enganosa, apelamos para um conhecimento maior, para um tribunal superior, e rogamos a vingança de um Juiz justo.

A determinação de Cristo sobre este assunto é:

1.Que não devemos jurar, de maneira nenhuma, exceto quando estivermos devidamente obrigados a isto, e quando a justiça ou a caridade para com o nosso irmão, ou o respeito pela comunidade tornarem necessário o juramento para o fim da contenda (Hebreus 6.16). O magistrado civil deve ser, normalmente, o juiz desta necessidade. Nós podemos ser jurados, mas não devemos jurar; podemos ser intimados, e desta maneira estar obrigados ao juramento, mas não devemos nos atirar a ele em busca de alguma vantagem terrena.

2.Que não devemos jurar superficial e irreverentemente, nas conversas comuns. É um pecado muito grande fazer um apelo absurdo à gloriosa Majestade do céu, que, sendo sagrada, sempre deve ser muito séria. É uma grande profanação do santo nome de Deus, e uma das coisas sagradas que os filhos de Israel santificam ao Senhor. Este é um pecado que não tem disfarce; não há desculpa para ele, e, portanto, é um sinal de um coração desprovido da graça do Senhor, onde reina a inimizade contra Deus: “Os teus inimigos tornam o teu nome em vão”.

3.Que devemos, de uma maneira especial, evitar juramentos ao fazer alguma promessa, dos quais Cristo particularmente fala aqui, pois estes juramentos devem ser cumpridos. A influência de um juramento afirmativo cessa imediatamente quando descobrimos fielmente a verdade e toda a verdade; mas um juramento de promessa compromete por tanto tempo, e pode ser rompido de tantas maneiras, pela surpresa e pela força de uma tentação, que não deve ser usado, exceto em algum caso de grande necessidade. O uso frequente de juramentos se reflete sobre os cristãos, que deveriam ter uma fidelidade reconhecida a ponto das suas palavras sóbrias serem tão sagradas quanto os seus juramentos solenes.

Que não devemos jurar por nenhum a outra criatura. Parece que havia alguns que} como cortesia (pensavam eles) ao nome de Deus, não fariam uso dele nos juramentos, mas juravam pelo céu, ou pela terra etc. Isto Cristo proíbe aqui (v. 34), e mostra que não há nada por que possamos jurar, mas que isto está de uma maneira ou de outra relacionada com Deus. que é a origem de todos os seres, e, portanto, é igualmente perigoso jurar por eles, quanto jurar pelo próprio Deus. É a veracidade da criatura que é posta em jogo; isto não pode ser um instrumento de testemunho, mas tem relação com Deus, que é a Verdade principal. Como, por exemplo:

(1) De maneira nenhuma jureis pelo céu. Isto é tão verdadeiro quanto é verdade que existe um céu, pois é o trono de Deus, onde Ele reside, e de uma maneira particular manifesta a sua glória, como um príncipe em seu trono. Sendo esta a dignidade inseparável do mundo superior, não se pode jurar pelo céu, pois quem o faz acaba jurando pelo próprio Deus.

(2)  Nem pela terra, porque é o escabelo dos seus pés. Ele governa os movimentos deste mundo inferior. Da mesma maneira como Ele governa o céu, Ele também governa a terra; e embora a terra, esteja sob os seus pés, ela também está sob os seus olhos e os seus cuidados, e é dele (SaImos 24.1). A terra pertence ao Senhor; de modo que, ao jurar por ela, se está jurando pelo seu proprietário.

(3) Nem por Jerusalém, um lugar pelo qual os judeus tinham tanta veneração que não conseguiam  pensar em nada mais sagrado por que jurar; mas, além da referência comum que Jerusalém tem para Deus, corno parte da terra, ela tem uma relação especial com Ele, porque é a cidade do grande Rei (SaImos 48.2), a cidade de Deus (Salmos 46.4), portanto Ele tem interesse nela e em todo juramento feito por ela.

(4) “Nem jurarás pela tua cabeça”; embora esteja próxima de você e seja uma parte essencial de você, é mais de Deus do que sua, pois Ele a criou e formou todas as suas origens e os seus

poderes. Enquanto você mesmo não consegue, por nenhuma influência intrínseca natural, mudar a cor de um cabelo, para torná-lo branco ou preto, você também não pode jurar pela sua cabeça, mas sim por Ele, que é a vida da sua cabeça, e o que exalta a sua cabeça (SaImos 3.3).

(5)Que, portanto, em todas as nossas comunicações, devemos nos contentar com “sim, sim, não, não” (v. 37). Nas conversas normais, se afirmamos alguma coisa, devemos somente dizer: “Sim”, é assim; e, E se for necessário, para evidenciar a nossa certeza de alguma coisa, podemos nos manifestar dizendo: “Sim, sim”, realmente é assim. “Na verdade, na verdade” era o “sim, sim” do nosso Salvador. Da mesma forma, para negar urna coisa, é suficiente dizer: “Não”, ou, se for necessário, repetir a negação e dizer: ” Não, não”; e se a nossa fidelidade for conhecida, que isto seja suficiente para termos crédito; e se ela for questionada, reforçar o que dizemos com juramentos não será nada além de torná-lo mais duvidoso. Aquele que é capaz de engolir um juramento profano, não conseguirá discernir uma mentira. E uma pena que isto que Cristo coloca na boca de todos os seus discípulos precise ser fortalecido, segundo alguns, por outras maneiras, quando (como diz o Dr. Hammond) qualquer coisa além de sim e não nos é proibido, e não somos orientados a fazer uso de outras palavras.

É fácil perceber a razão: porque o que passa disso é de procedência maligna, embora não chegue ao pecado de um juramento. Isto vem ek tou Di abolou; conforme uma cópia antiga apresenta: isto vem do Diabo, o maligno; vem da corrupção da natureza do homem, da paixão e da veemência; de uma vaidade reinante na mente, e do desprezo pelas coisas sagradas; vem daquela falsidade que há nos homens. ”Todo homem é mentiroso” (Romanos 3.4), e, consequentemente, os homens usam estas declarações porque desconfiam uns dos outros e pensam que sem estas palavras não se pode acreditar neles. Observe que os cristãos devem, para crédito da ima religião, evitar não somente o que é mal em si mesmo, mas o que vem do mal e aquilo que tem aparência de mal. É necessário evitar aquilo que possa ser suspeito, aquilo que vem de alguma causa ruim. Um juramento é algo físico, e, portanto, pressupõe alguma deficiência.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5:27-32

Continuação do Sermão da Montanha

Aqui temos uma explicação do sétimo mandamento, que nos é dada pela mesma mão que fez a lei, e que, portanto, era a mais adequada para ser a intérprete do mandamento: é o mandamento contra a impureza, que adequadamente segue o anterior; que coloca uma restrição às paixões pecaminosas. Isto com relação aos desejos pecaminosos, que precisam sempre est ar sob o controle tanto da razão quanto da consciência, e que, se tolerados, são igualmente perniciosos.

 I – O mandamento é apresentado aqui (v. 27): “Não cometerás adultério”, o que inclui uma proibição de todos os outros atos de impureza, e o desejo deles; mas os fariseus, em suas interpretações deste mandamento, tornaram a sua abrangência limitada somente ao ato do adultério, sugerindo que se o pecado somente fosse considerado no coração, e não passasse disso, Deus não o ouviria, não o consideraria (Salmos 66.18), e, portanto, eles pensavam que isto era suficiente para que pudessem dizer que não eram adúlteros (Lucas 18.11).

II – Aqui está explicada a severidade, em três aspectos, que agora podem parecer novos e estranhos àqueles que sempre foram governados pela tradição dos anciãos e que assumiam o que eles ensinavam como sendo palavras de oráculo.

1.Aprendemos que existe o adultério no coração, os pensamentos e tendências adúlteros, que nunca dão origem ao ato do adultério ou da fornicação; e talvez a impureza que eles causam à alma, que aqui está tão claramente declarada, não estivesse incluída no sétimo mandamento, mas tinha sentido e objetivo em muitas das profanações cerimoniais sujeitas à lei, pelas quais eles deviam lavar as roupas e a sua carne na água. Qualquer pessoa que olhasse para uma mulher (não somente a esposa de outro homem, como alguns interpretam, mas qualquer mulher) para cobiçá-la, teria come tido adultério com ela em seu coração (v. 28). Este mandamento proíbe não apenas os atos de fornicação e adultério, mas:

(1) Todos os apetites impuros, toda a cobiça do objeto proibido. Este é o início do pecado, a concepção da concupiscência (Tiago 1.15); é um mal passo em direção ao pecado. E onde se aprova e se lida com a cobiça, e o desejo devasso é tratado pela língua como algo doce, ali está a comissão do pecado, até onde o coração pode tê-la – não faltando nada – a não ser uma oportunidade conveniente par a o próprio pecado. Adultera mens est A mente é corrupta, Ovídio. A cobiça é frustrada ou influenciada pela consciência: influenciada, se ela não diz nada sobre o pecado; frustrada, se ela não comanda o que diz.

(2) Todas as abordagens deste caso. Alimentar os olhos com a visão do fruto proibido; não apenas procurando este fim, que eu possa cobiçar, mas olhando até que eu cobice realmente, ou procurando gratificar a cobiça, onde nenhuma satisfação adicional possa ser obtida. Os olhos são, ao mesmo tempo, a entrada e a saída de uma grande quantidade de pecados deste tipo, como testemunham a mulher que tentou José (Genesis 39.7), a mulher que se entregou a Sansão (Juízes 16.1), e a amante de Davi (2 Samuel 11.2). Há olhos cheios de adultério que não cessam de pecar (2 Pedro 2.14). Que necessidade temos nós, portanto, como o santo Jó, de fazer um concerto com os nossos olhos, de fazer este acordo com eles, para que tenham o prazer de contemplar a luz do sol e as obras de Deus, com a condição de que nunca se fixem ou residam sobre qualquer coisa que possa provocar imaginações ou desejos impuros. E, sob esta penalidade, pelo que eles fizessem, precisariam sofrer com lágrimas penitentes! (Jó 31.1). Para que temos a pálpebra sobre os olhos, a não ser para restringir os olhares corruptos e para evitar as impressões que possam nos contaminar? Aqui também se proíbe o uso de qualquer outro dos nossos sentidos para provocar a cobiça. Se os olhares sedutores são frutos proibidos, muito mais o são as palavras impuras e os galanteios devassos, combustível e o fole deste fogo infernal. Estes preceitos são limites sobre a lei da pureza do coração (v. 8). E se olhar é cobiçai aqueles que se vestem e se enfeitam, se exibem, com o desejo de serem vistos e desejados (como Jezabel, que pintou o rosto, enfeitou a cabeça, e olhou pela janela) não são menos culpados. Os homens pecam, mas os demônios tentam ao pecado.

2.Tais olhares e tais galanteios são tão perigosos e destrutivos para a alma, que é melhor perder o olho e mão que assim pecam do que abrir caminho ao pecado e perecer eternamente nele. Isto nos é ensinado aqui (vv 29,30). A natureza corrupta logo objetaria contra a proibição do adultério no coração, dizendo que ela é algo impossível de se controlar: “São palavras duras, que pode suportá-las? A carne e o sangue não podem evitar olhar com prazer para uma mulher bonita, e é impossível se abster de cobiçar e flertar com algo assim”. Des culpas como estas dificilmente serão vencidas pela razão, e, portanto, devem ser atacadas com os terrores do Senhor; e é assim que são atacadas aqui.

(1) Aqui é descrita uma operação severa para a prevenção desses desejos carnais. Se o teu olho direito te escandalizar ou ofender outra pessoa, com olhares devassos a coisas proibidas; se a tua mão direita te escandalizar, ou ofender outra pessoa com flertes devassos; se for realmente impossível, como se diz, controlar olho e a mão, e eles estiverem tão acostumados a estes procedimentos pecaminosos, a ponto de não poder evitá-los; se não existir outra maneira de restringi-los (que, bendito seja Deus, por meio da sua graça, existe), melhor para nós arrancar o olho e cortar a mão (ainda que sejam o olho direito e a mão direita, os mais digno de honra e os mais úteis) do que tolerar que eles pequem para a ruína da alma. E se isto tiver que ser contido- diante desta ideia, a natureza estremece – devemos no determinar ainda mais a controlar o corpo e a conter estas coisas. Viver uma vida de mortificação e de autonegação; manter constante vigilância sobre os nossos próprios corações; suprimir o surgimento de qualquer desejo e corrupção ali; evitar as oportunidades de pecados, resistir aos seus estímulos e recusar a companhia daqueles que são uma armadilha par a nós, ainda que sejam muito agradáveis; ficar afastados do caminho do mal e reduzir o uso das coisas lícitas, quando descobrirmos que são tentações para nós; buscar a Deus, buscar a sua graça; confiar diariamente na sua graça, e desta maneira andar no Espírito, para não satisfazermos os desejos da carne – isto será tão eficiente quanto cortar a mão direita ou arrancar o olho direito; e talvez igualmente eficiente em oposição à carne e ao sangue; esta é a destruição do velho homem.

(2) Um argumento estarrecedor é usado para reforçar esta prescrição (v. 29), e é repetido nas mesmas palavras (v.30), porque nos negamos a ouvir o que é reto (Isaias 30.10). E melhor para nós que um dos nossos membros pereça, ainda que seja um olho ou uma mão, que se poupado pode trazer o pior, do que todo o nosso corpo ser lançado no inferno. Observe:

[1] Não é inconveniente que um ministro do Evangelho pregue sobre o inferno e a condenação. Não. Ele precisa fazê-lo, pois o próprio Cristo o fez; e nós seremos infiéis ao que nos foi confiado, se não advertirmos sobre a ira futura.

[2] Existem alguns pecados dos quais precisamos ser salvos pelo medo, particularmente os desejos carnais, que são animais tão selvagens que não podem ser detidos, a não ser pelo medo; não podemos ser afastados de uma árvore proibida, a não ser por um querubim com uma espada flamejante.

[3] Quando somos tentados a pensar que é muito difícil negar a nós mesmos e crucificar os desejos carnais, devemos considerar quão mais difícil é estar para sempre no lago que arde com fogo e enxofre. Estas pessoas não sabem o que é o inferno, ou não acreditam em sua existência, e preferem se arriscar à ruína eterna nestas chamas a negarem a si mesmas o prazer de um desejo bruto e vil.

[4] No inferno haverá tormentos para o corpo. Todo o corpo será lançado no inferno, e haverá tormentos para todas as suas partes, de modo que se cuidarmos do nosso corpo, nós o possuiremos em santificação e honra, e não na paixão da concupiscência.

[5] Mesmo aquelas imposições que são mais desagradáveis para a carne e o sangue são boas para nós; e o nosso Mestre não exige nada de nós, exceto o que Ele sabe que é par a o nosso bem.

3.Que os homens se divorciassem de suas esposas quando não gostassem delas, ou por qualquer outro motivo que não fosse o adultério, por mais tolerado e praticado que fosse este motivo entre os judeus, era uma violação do sétimo mandamento, pois abria uma porta para o adultério (vv. 31, 32). Observe aqui:

(1) Como ficava o assunto agora, com relação ao divórcio. Foi dito (Ele aqui não diz como antes: “Foi dito aos antigos”, porque este não era um preceito, como eram aqueles. Embora os fariseus estivessem inclinados a compreendê-lo assim, cap. 19.7, esta era somente uma permissão): “Qualquer que deixar sua mulher; que lhe dê carta de desquite”. Em outras palavras, que o homem não pense em fazê-lo somente em palavras, quando estiver aborrecido, mas que o faça deliberadamente, por um instrumento legal por escrito, confirmado por testemunhas; se ele dissolver a ligação matrimonial, que ele o faça solenemente. Assim a lei tinha evitado divórcios intempestivos e apressados, e talvez no início, quando a escrita não era tão comum entre os judeus, tivesse tornado raros os divórcios. Mas com o passar do tempo, o divórcio acabou ficando muito comum, e esta orientação de como fazê-lo, quando houvesse justa causa para ele, se transformou em uma permissão para ele, com qualquer causa (cap.19.3).

(2) Corno esta questão foi corrigida pelo nosso Salvador. Ele reduziu o ritual do casamento à sua instituição primitiva: eles serão uma única carne, não facilmente separável, e, portanto, o divórcio não deve ser permitido, exceto em caso de adultério, que rompe o pacto de casamento. Aquele que repudia a sua esposa com qualquer outra desculpa faz com que ela cometa adultério, e também o faz aquele que se casa com a repudiada. Observe que aqueles que levam os outros à tentação do pecado, ou os deixam na tentação, ou ainda os expõem a ela, se tornam também culpados do pecado, que lhes será imputado. Esta é uma forma de ter a sua parte com os adúlteros (Salmos 50.18).

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MATEUS 5: 21-26

 Continuação do Sermão da Montanha

Tendo apresentado estes princípios, de que Moisés e os profetas ainda seriam os legisladores do povo, mas que os escribas e os fariseus já não mais seriam os seus governantes, Jesus passa a explicar a lei em alguns exemplos em particular, e a defendê-la das observações corruptas que aqueles intérpretes tinham colocado sobre ela. Ele não acrescenta nada novo, somente limita e restringe algumas permissões que tinham sido excessivas; e, quanto aos preceitos, mostra a amplitude, a severidade e a natureza espiritual deles, acrescentando estatutos explicativos para torná-los mais claros e tendendo mais ao aperfeiçoamento da nossa obediência a eles. Nestes versículos, Ele explica a lei do sexto mandamento, de acordo com a verdadeira intenção e a sua abrangência completa.

I – Aqui está apresentado o mandamento (v. 21). Nós o ouvimos, e o recordamos. Ele fala àqueles que conhecem a lei, que tiveram as palavras de Moisés lidas nas suas sinagogas todos os sábados: “Ouvistes o que foi dito aos antigos”, ou como está na observação à margem de algumas versões, “aos seus antepassados”, os judeus; “Não matarás”. Observe que as leis de Deus não são leis novas e surgidas do nada, mas tinham sido entregues aos antigos; são leis antigas, mas de uma natureza que nunca fica antiquada nem obsoleta. A lei moral está de acordo com a lei da natureza, com as leis e razões eternas do bem e do mal, isto é, a retidão da Mente eterna, a Mente de Deus. Matar aqui é proibido, matar a nós mesmos, matar a qualquer pessoa, direta ou indiretamente, ou de qualquer maneira ajudar a fazê-lo. Alei de Deus, o Deus da vida, é uma cerca de proteção ao redor da nossa vida. Este foi um dos preceitos de Noé (Genesis 9.5,6).

II – A explicação deste mandamento sobre o qual os professores judeus discutiam. O seu comentário era: ”Aquele que matar, correrá o risco do julgamento”. Isto era tudo o que eles tinham a dizer a este respeito, que os assassinos deliberados estariam sujeitos à espada da justiça, e os ocasionais estariam sujeitos ao julgamento da cidade de refúgio. As cortes de julgamento ficavam nos portões das suas cidades principais. Os juízes, normalmente, eram vinte e três; eles julgavam, condenavam e executavam os assassinos; assim, qualquer pessoa que matasse estava sujeita ao seu julgamento. Mas este comentário sobre esse mandamento era falho, pois ele dava a entender que:

1.A lei do sexto mandamento era apenas externa, e não proibia nada além do ato de assassinato, e deveria restringir os desejos interiores, dos quais nascem as guerras e as pelejas. Este era realmente o proton pseudos – o erro fundamental dos professores judeus, dizer que a lei divina proibia somente o ato pecaminoso, e não o pensamento pecaminoso; eles estavam inclinados a haerere in conticeae descansar na letra da lei, e nunca investigaram o seu significado espiritual. Paulo, embora sendo um fariseu, não o fez, até que, pela chave do décimo mandamento, a graça divina o levou ao conhecimento da natureza divina de todas as demais coisas (Romanos 7.7,14).

2.Outro engano era o de que esta lei era meramente política e cívica, dada por causa deles, e com a intenção de ser uma orientação para os seus tribunais, e nada mais; como se somente eles fossem o povo de Deus, e a sabedoria da lei devesse morrer com eles.

 

III – A explicação que Cristo deu deste mandamento. Nós estamos certos de que, de acordo com a sua explicação, seremos julgados no futuro; portanto, devemos ser governados agora. O mandamento é extremamente amplo, e não deve ser limitado pela vontade da carne, ou pela vontade dos homens.

1.Cristo lhes diz que a ira irrefletida é assassinato no coração (v. 22). “Qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão” estará infringindo o sexto mandamento. Aqui, por “seu irmão” devemos entender qualquer pessoa, mesmo que se trate de alguém inferior a nós, como uma criança ou um servo, pois todos nós somos feitos de um único sangue. A ira é uma paixão natural; existem casos nos quais ela é lícita e salutar; mas é pecaminosa, quando nos iramos sem motivo. A palavra é eike, que significa sine causae, sine efjectu, et sine modo sem causa, sem nenhum bom efeito, e sem moderação.

Como consequência, a ira é pecaminosa:

(1) Quando ocorre sem nenhuma provocação justa; seja por nenhuma causa, ou nenhuma boa causa, ou nenhuma causa justa e adequada ; quando nos iramos com as crianças ou com os servos por aquilo que não pôde ser evitado, que foi somente uma questão de esquecimento ou de engano, de que nós mesmos poderíamos ser facilmente culpados, e pelo que não ficaríamos irados conosco; quando nos iramos devido a suspeitas infundadas ou por ofensas banais que nem merecem ser mencionadas.

(2) Quando a ira ocorre sem visar nenhuma boa finalidade, meramente para mostrar a nossa autoridade, para satisfazer uma paixão bruta, para fazer com que as pessoas conheçam os nossos ressentimentos e para nos motivar à vingança; nestes casos, a ira é vã, e só se destina a magoar. Se em alguma ocasião estivermos irados, isto deverá se destinar a despertar o ofensor ao arrependi­ mento, e a evitar que ele repita outra vez o que fez; para nos purificar (2 Coríntios 7.11) e para advertir aos outros.

(3) Quando ela ultrapassa os limites. Quando somos duros e teimosos na nossa ira, violentos e veementes, cruéis e perversos, e procuramos ferir aqueles que nos desagradaram. Isto representa uma infração ao sexto mandamento, pois aquele que se ira desta maneira chegaria a matar, se pudesse. Um homem deu o primeiro passo em direção a isto; quando Caim matou seu irmão, tudo começou com a ira; ele é um assassino aos olhos de Deus, que conhece o seu coração; pois é do coração que procede o assassinato (cap. 15.19).

2.Jesus lhes diz que o uso de uma linguagem ultrajante com o nosso irmão é o assassinato pela língua (chamá-lo de raca, e chamá-lo de louco). Quando isto é feito com moderação e com uma boa finalidade, para convencer os outros da sua vaidade e das suas tolices, não é pecaminoso. Assim, Tiago diz: “O homem vão” (Tiago 2.20), e Paulo diz: “Insensato” (1 Coríntios 15.36), e o próprio Cristo diz: “Ó néscios e tardas de coração” (Lucas 24.25). Mas quando isto nasce da ira e da maldade interior, é a fumaça daquele fogo que arde no inferno, e se enquadra na mesma característica.

(1) Raca é uma palavra de desdém, que se origina no orgulho. “Zombador é o teu nome”, é como Salomão chama aqueles que tratam com indignação e soberba (Provérbios 21.24), que desdenham do irmão para equipará-lo aos cães que possuem. ‘Esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (João 7.49).

(2) “Louco” é uma palavra de rancor, que nasce do ódio; considerando a pessoa não somente comum e indigna de ser honrada, mas como uma pessoa odiosa e indigna de ser amada; “Tu, homem iníquo, réprobo”. A primeira palavra fala de um homem desprovido de razão; ela (em termos das Escrituras) fala de um homem sem graça; quanto mais a censura tocar a sua condição espiritual, pior será; a primeira é uma zombaria arrogante do nosso irmão; esta é uma censura maldosa e uma condenação a ele, como se estivesse abandonado por Deus. Esta é uma infração do sexto mandamento; calúnias maldosas e críticas são veneno, sob a língua, que mata secreta e lentamente. As palavras amargas são como flechas que matam repentinamente (SaImos 64.3), ou como uma espada nos ossos. O bom nome do nosso próximo, que é melhor do que a vida, é, desta forma, esfaqueado e assassinado; e esta é uma evidência de uma má intenção para com o nosso próximo, a ponto de atingirmos a sua vida, se pudéssemos fazê-lo.

3.Jesus lhes diz que não importa o uso que eles façam desses pecados, certamente eles lhes serão computados. Aquele que se encolerizar com seu irmão está correndo o risco do juízo e da ira de Deus; aquele que o chama de raca estará nas mãos do conselho, passível de ser punido pelo Sinédrio por insultar um israelita; mas aquele que disser: “Louco, pessoa profana, filho do inferno”, estará em perigo do fogo do inferno, para o qual ele condena o seu irmão, segundo o erudito Dr. Whitby. Alguns pensam, em alusão às punições usadas nos diversos tribunais de julgamento entre os judeus, que Cristo mostra que o pecado da ira irrefletida expõe os homens a punições mais graves ou menos graves, de acordo com os graus da sua origem. Os judeus tinham três penas capitais, uma pior que a outra: a decapitação, que era imposta pelo julgamento; o apedrejamento, pelo conselho ou pelo Sinédrio; e o fogo no vale de Hinom, que só era usado em casos extraordinários. Isto significa, portanto, que a ira irrefletida e a linguagem ofensiva são pecados condenáveis; mas alguns são mais pecaminosos que outros, e, de maneira correspondente, existe uma condenação mais severa, e uma punição mais amarga reservada a estes. Assim, ao mostrar a punição mais temível, Cristo mostra que pecado é o mais grave.

IV – De tudo isto, pode se deduzir que nós devemos cuidadosamente preservar o amor e a paz cristãos com nossos irmãos, e, se alguma vez estes forem rompidos, devemos lutar por uma reconciliação, confessando a nossa culpa, humilhando-nos perante o nosso irmão, implorando o seu perdão, e fazendo uma indenização ou oferecendo uma compensação pelo mal feito através de atos ou palavras, de acordo com a natureza da situação; e devemos fazê-lo rapidamente, por dois motivos:

1. Porque, até que isto seja feito, nós estaremos completamente incapacitados para a comunhão com Deus, nos rituais sagrados (vv. 23,24). O caso suposto é: se “teu irmão tem alguma coisa contra ti”, ou seja, se você o injuriou e ofendeu, seja isto real ou na percepção dele. Se você é a parte ofendida, não há necessidade desta demora; se você tem alguma coisa contra o seu irmão, resolva isto rapidamente. Nada mais precisa ser feito, a não ser perdoá-lo (Marcos 11.25), e perdoar a ofensa. Mas se a disputa se iniciou no seu lado, e a culpa foi sua, no início ou ao final, de modo que “teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai reconciliar-te primeiro com teu irmão”, antes de vir fazer a oferta no altar, antes de se aproximar solenemente de Deus, nos serviços de oração e louvor, ouvindo a Palavra ou os sacramentos. Observe:

(1) Quando nos dirigimos a qualquer prática religiosa, é bom que aproveitemos a ocasião para uma séria reflexão e exame próprio. Há muitas coisas a ser em lembradas quando levamos a nossa oferta ao altar, se o nosso irmão tiver alguma coisa contra nós; então, se este for o caso, precisaremos considerar a questão para que façamos um acerto de contas.

(2) As práticas religiosas não são aceitáveis perante Deus, se forem realizadas quando sentimos ira. A inveja, a maldade e a falta de caridade são pecados tão desagradáveis a Deus, que nada que venha de um coração onde estas coisas ainda predominem pode agradá-lo (1 Timóteo 2.8). As orações feitas com ira são escritas em amargura (Isaias 1.15; 58.4).

(3) O amor ou a caridade são tão melhores que todos os holocaustos e sacrifícios, que Deus deseja que a reconciliação com um irmão ofendido ocorra antes que a oferta seja feita. Ele se satisfaz por esperar pela oferta, em lugar de tê-la quando somos culpados e estamos envolvidos em alguma disputa.

(4) Embora estejamos incapacitados para a comunhão com Deus devido a uma disputa continuada com um irmão, ainda assim isto não pode ser uma desculpa para a omissão ou para a negligência em relação ao nosso dever: “Deixa ali diante do altar a tua oferta”, em outras palavras, “para que, de outra forma, quando tiver ido embora, você não se sinta tentado a não voltar”. Muitos expressam este pensamento como a razão pela qual não vêm à igreja ou participam da Santa Ceia, por estarem com algum problema com o próximo. E de quem é a culpa? Um pecado jamais irá justificar outro, mas irá dobrar a culpa. A falta de amor jamais poderá justificar a falta de piedade. O problema pode ser facilmente superado. Nós devemos perdoar àqueles que nos fizeram mal; e àqueles a quem nós fizemos mal, devemos compensar, ou pelo menos fazer uma proposta e desejar a restauração da amizade, para que se a reconciliação não acontecer, não seja por nossa culpa; e então vir e ser bem recebido, vir e oferecer a nossa oferta, e ela será aceita. Portanto, não devemos deixar que o sol se ponha sobre a nossa ira nenhum dia, porque devemos orar antes de dormir. Também não devemos deixar que o sol nasça sobre a nossa ira em um dia que consagramos ao Senhor, porque este é um dia de oração e adoração.

2.Porque, até que isto seja feito, estaremos expostos a muitos perigos (vv. 25,26). É arriscado não procurarmos um acordo, e rapidamente, sob dois aspectos:

(1) Um aspecto temporal. Se a ofensa que causamos ao nosso irmão, ao seu corpo, aos seus bens ou à sua reputação, for tal que exija alguma ação na qual ele possa recuperar danos consideráveis, é sábio de nossa parte, e é a nossa obrigação para com a nossa família, evitar isto por meio de uma submissão humilde e uma satisfação justa e pacífica, para que, de outra maneira, ele não recupere os danos pela lei e não nos coloque numa prisão. Em um caso como este, é melhor entrar em acordo, nas melhores condições que pudermos, do que suportarmos alguma punição; pois é inútil disputar com a lei, e existe o perigo de sermos esmagados por ela. Muitos arruínam as suas propriedades e os seus bens persistindo obstinadamente nas ofensas que fizeram, que poderiam ter sido resolvidas de modo pacífico, se cedessem em algo, rapidamente, no início do problema. O conselho de Salomão no caso de responsabilidade é: “Vai, humilha-te… e li­vra-te” (Provérbios 6.1-5). E bom chegar a um acordo, pois a pena da lei é cara. Embora devamos ser misericordiosos com aqueles sobre os quais estamos em vantagem, ainda assim devemos ser justos com aqueles que têm vantagens sobre nós, desde que sejamos capazes. “Concilia-te depressa com o teu adversário”, em outras palavras, para que ele não se exaspere com a sua teimosia, e não se sinta provocado a insistir com as máximas exigências, e não deixe de fazer o abatimento que a princípio teria feito. Uma prisão é um lugar incômodo para aqueles que são levados a ela pelo seu próprio orgulho e desperdício de oportunidade, pela sua própria teimosia e tolice.

(2) Um aspecto espiritual. “Vai reconciliar-te … com o teu irmão”, seja justo com ele, seja amistoso com ele, porque enquanto continuar a disputa, assim como você estará incapacitado para trazer a sua oferta ao altar, incapacitado para participar da mesa do Senhor, também estará incapacitado para morrer. Se você persistir neste pecado, existe o perigo de você ser repentinamente levado pela ira de Deus, de cujo julgamento você não poderá escapar nem se isentar. E se você for o responsável por esta iniquidade, você estará perdido para sempre. O inferno é urna prisão para todos aqueles que vivem e morrem na maldade e na falta de amor, pois todos são contenciosos (Romanos 2.8), e desta prisão não há resgate, não há redenção, não há fuga, por toda a eternidade.

Isto se aplica à grande questão da nossa reconciliação com Deus, por meio de Cristo: “Concilia-te depressa com [ele]… enquanto estás no caminho”. Observe que:

[1] O grande Deus é um adversário para todos os pecadores, antidikos um adversário legal; Ele tem uma controvérsia com eles, uma ação contra eles.

[2] É nosso interesse estar de acordo com Ele, nos familiarizar com Ele, para podermos estar em paz (Jó 22.21; 2 Coríntios 5.20).

[3] Ê prudente fazermos isto rapidamente, enquanto estamos no caminho. Enquanto estamos vivos, estamos no caminho; depois da morte, será tarde demais para fazê-lo; portanto, não dê descanso aos seus olhos antes que isto seja feito.

[4] Aqueles que continuam em uma situação de inimizade com Deus estão continuamente expostos à prisão da sua justiça, e aos exemplos mais temíveis da sua ira. Cristo é o Juiz, a quem os pecadores impenitentes serão entregues. Pois todo o julgamento foi confiado ao Filho. Aqueles que o rejeitarem como Salvador jamais poderão escapar dele como Juiz (Apocalipse 6.16,17). É atemorizante ser entregue, desta forma, ao Senhor Jesus, quando o Cordeiro se tornará o Leão. Os anjos são os encarregados a quem Cristo os entregará (cap. 13. 41,42); os demônios também são um tipo de encarregados, tendo o poder de serem os algozes da morte de todos os incrédulos (Hebreus 2.14). O inferno é a prisão em que serão lançados todos aqueles que continuarem em um esta do de inimizade contra Deus (2 Pedro 2.4).

[5] Os pecadores condenados continuarão ali por toda a eternidade; eles não poderão partir porque jamais poderão pagar a dívida por seus pecados. Mesmo passando a eternidade em tormentos, jamais conseguirão pagá-la totalmente. A justiça divina só pode ser satisfeita através do sacrifício feito pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

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MATEUS 5: 17-20

Continuação do Sermão da Montanha

Aquelas pessoas às quais Cristo pregou, e aquelas que estão relacionadas a estas instruções que o Senhor deixou aos seus discípulos, eram indivíduos que, na sua religião observavam:

1. As Escrituras do Antigo Testamento como sua regra, e neste sentido Cristo aqui mostra que eles estão certos.

2. Os escribas e os fariseus como seu exemplo, e neste senti do Cristo aqui mostra que estão errados, pois:

 I – A lei que Cristo veio estabelecer concordava com exatidão com as Escrituras do Antigo Testamento, aqui chamada de a lei e os profetas. Os profetas eram os comentaristas da lei, e, juntos, os profetas e a lei, criaram aquela lei de fé e prática que Cristo encontrou no trono da sinagoga judaica; e aqui Ele a mantém no trono.

1. Jesus protesta contra a ideia de anular e enfraquecer o Antigo Testamento: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas”.

(1) Em outras palavras “Não deixemos que os judeus religiosos, que têm grande apreço pela lei e pelos profetas, temam que Eu tenha vindo para destruí-los”. Não deixemos que eles tenham preconceito contra Cristo e a sua doutrina, devido a uma inveja deste reino que Ele veio estabelecer, o que pode soar como um menosprezo da honra das Escrituras que eles aceitavam como vindas de Deus e das quais eles sentiam o poder e a pureza. Não. Deixemos que eles fiquem satis feitos por verem que Cristo não tem nenhum mau desígnio em relação à lei ou aos profetas. Em outras palavras:

(2) “Não permitamos que os judeus profanos, que não consideram a lei ou os profetas, e que estão cansados daquele jugo, achem que Eu vim para destruir a lei ou os profetas”. Não permitamos que os libertinos carnais imaginem que o Messias veio para libertá-los da obrigação dos preceitos divinos, e ainda assim assegurar-lhes as promessas divinas, para fazê-los felizes e dar-lhes permissão para viver como desejarem. Cristo não ordena nada agora que fosse proibido, fosse pela lei da natureza ou pela lei moral, nem proíbe qualquer coisa que aquelas leis obrigassem. É um grande engano pensar que Ele faz isto, e aqui Ele toma cuidado para corrigir este engano. “Não cuideis que vim destruir”. O Salvador das almas não destrói nada, a não ser as obras do diabo; Ele não destrói nada que venha de Deus Pai, muito menos aqueles excelentes preceitos que temos de Moisés e dos profetas. Não. Ele veio para cumpri-los. Isto é:

[l]. Ele veio par a obedecer aos mandamentos da lei, pois Ele nasceu sob a lei (Gálatas 4.4). Em todos os aspectos, Ele mostrava obediência à lei, honrava os seus pais, observava o sábado judeu, orava, dava esmolas e fazia o que ninguém mais fazia – obedecendo perfeitamente -, e jamais infringiu qualquer ponto da lei.

[2]. Para cumprir as promessas da lei e as predições dos profetas, de que todos deram testemunho dele. O concerto da graça é, basicamente, o mesmo agora que era naquela época, e Cristo é o seu Mediador.

[3]. Para responder aos símbolos da lei; assim (como expressa o bispo Tillotson), Ele não esvaziou, mas cumpriu a lei cerimonial, e se manifestou como sendo a Essência de todas aquelas sombras.

[4]. Para reparar as suas imperfeições, e assim completá-la e aperfeiçoá-la. Dessa forma, a palavra plemsai tem um significado de quando. Se considerarmos a lei como um recipiente que anteriormente continha alguma água, podemos entender que Ele não veio para jogar a água fora, mas para encher o recipiente até o topo. Ou ainda, podemos considerar a lei como uma imagem que é um primeiro esboço, e que exibe alguns traços somente para delinear a peça que se pretende confeccionar; posteriormente, estes traços são completados. Assim, Cristo aprimorou a lei e os profetas, através das suas adições e explicações.

[5]. Para prosseguir com o mesmo desígnio. As instituições cristãs estão tão longe de distorcer e contradizer aquilo que era o principal desígnio da religião judaica, que o promovem ao máximo. O Evangelho é o tempo da correção (Hebreus 9.10), não para rejeitar a lei, mas para corrigi-la e, consequentemente, estabelecê-la.

2. Ele declara a perpetuidade da lei; não apenas que Ele não desejava ab-rogá-la, mas que ela nunca dever ia ser ab-rogada (v. 18). “Em verdade, vos digo” que Eu, o Amém, a Testemunha fiel, solenemente declaro que “até que o céu e a terra passem”, quando não existir mais tempo e o estado imutável das recompensas substituir todas as leis, “nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido”. Pois o que é que Deus está fazendo em todas as operações, tanto de providência como de graça, a não ser cumprir as Escrituras? O céu e a terra se unirão, e serão completamente envolvidos em ruína e confusão, antes que qualquer palavra de Deus caia ao chão ou seja em vão. A palavra do Senhor permanece para sempre, tanto a da lei como a do Evangelho. Observe que o cuidado de Deus, a respeito da sua lei, se estende até mesmo aquelas coisas que parecem ser menos importantes nela, o jota e o til; pois o que quer que pertença a Deus, e leve a sua marca, por menor que seja, será preservado. As leis dos homens são tão patentemente imperfeitas (e todos temos consciência dessa imperfeição), que permitem urna máxima: Apicesjuris non sunt jura-o. pontos extremos da lei não correspondem à lei; porém Deus estará a postos e manterá cada jota e cada til da sua lei.

3. Ele dá aos seus discípulos a missão de preservar cuidadosamente a lei, e lhes mostra o perigo de negligenciá-la e menosprezá-la (v. 19). “Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos”, da lei de Moisés (quanto mais um dos maiores, como faziam os fariseus, que negligenciavam os aspectos mais importantes da lei), “e assim ensinar aos homens” (como eles faziam, anulando os mandamentos de Deus com suas tradições, cap. 15.3), “será chamado o menor no Reino dos céus”. Embora os fariseus pudessem se denominar os melhores professores possíveis, eles não seriam usados como professores no reino de Cristo. ”Aquele, porém, que os cumprir e ensinar” (como fariam os discípulos de Cristo, portanto provando ser melhores amigos do Antigo Testamento do que os fariseus eram, embora desprezados pelos homens), “será chamado grande no Reino dos céus”. Observe:

(1) Entre os mandamentos de Deus há alguns menores que outros; nenhum deles é pequeno de maneira absoluta, mas de forma comparativa. Os judeus reconhecem o menor dos mandamentos da lei como sendo aquele que fala do ninho de ave (Deuteronômio 22.6,7); mesmo ele, no entanto, tem um significado e uma intenção bastante considerável.

(2) É uma coisa perigosa, na doutrina ou na prática, revogar o menor dos mandamentos de Deus; infringi-lo, isto é, agir de modo a diminuir a sua abrangência ou enfraquecer a sua obrigatoriedade; quem fizer isto estará correndo riscos. Assim, invalidar qualquer um dos dez mandamentos é um golpe ousado demais para que o Deus zeloso possa condescender. É algo além de transgredir a lei, é quebrantar a lei (SaImos 119 .126).

(3) Quanto mais corrupção eles espalham, piores eles são. Infringir o mandamento já é atrevimento suficiente, mas é muito pior ensinar os homens a fazê-lo. Claramente, isto se refere àqueles que, nesta época, se assentavam na cadeira de Moisés e pelos seus comentários corrompiam e desvirtuavam o texto. Opiniões que tendem à destruição da religiosidade séria e dos fundamentos da religião cristã, por meio de observações corruptas às Escrituras, são suficientemente ruins quando defendidas, mas piores quando propagadas e ensinadas como se fossem a Palavra de Deus. Aquele que faz isto será chamado o menor no Reino dos céus, o reino da glória; ele nunca irá para lá, mas será eternamente excluído- Ele não fará parte do reino da igreja do Evangelho. Ele estará tão longe de merecer a dignidade de um professor no reino, que nem chegará a ser considerado um membro dele. O profeta que ensina estas falsidades é a cauda naquele reino (Isaias 9.15); quando a verdade aparecer em sua própria evidência, estes professores corruptos, embora valorizados como os fariseus, não serão considerados juntamente com os sábios e os bons. Nada torna os ministros mais desprezíveis e indignos do que corromper a lei (Malaquias 2.8,11). Aqueles que atenuam e incentivam o pecado, discordando e desprezando a severidade na religião, assim como a seriedade na devoção, são uma contam inação na igreja. Mas, por outro lado, são verdadeiramente honrados e de grande responsabilidade na igreja de Cristo aqueles que dedicam a sua vida e doutrina a promover a pureza e a severidade da religião prática, que tanto fazem como ensinam o que é bom, pois os que não fazem o que ensinam derrubam com uma mão o que edificam com a outra. Estes se entregam à mentira, e tentam os homens a pensar que a religião como um todo é um engano. Mas aqueles que falam com experiência, que vivem o que pregam, são verdadeiramente grandes; eles honram a Deus, e Deus os honrará (1Samuel 2.30), e no futuro irão brilhar como astros no reino do nosso Pai.

II – A justiça que Cristo veio estabelecer com esta lei deve exceder a dos escribas e fariseus (v. 20). Esta era uma estranha doutrina para aqueles que consideravam os escribas e fariseus como tendo chegado à posição mais elevada na religião. Os escribas eram os professores mais admirados da lei, e os fariseus os seus mestres mais celebrados, e ambos se assentavam na cadeira de Moisés (cap. 23.2) e tinham tal reputação entre o povo, que eram considerados como completamente adaptáveis à lei e as pessoas não se consideravam obrigadas a ser tão boas quanto eles eram. Portanto, foi uma grande surpresa para eles ouvir que deviam ser melhores do que os fariseus e os escribas, ou não iriam para o céu. Desta maneira, Cristo aqui declara com solenidade: “Vos digo”, ou seja, é assim. Os escribas e os fariseus eram inimigos de Cristo e da sua doutrina, e eram grandes opressores, e ainda assim deve ser reconhecido que eles consideravam isto um elogio. Eles oravam e jejuavam muito e davam esmolas; eram pontuais na observância dos compromissos cerimoniais e a sua função era ensinar os outros; eles tinham tal interesse pelas pessoas, que achavam necessário que, se somente dois homens fossem ao céu, um deles seria um fariseu. Mas aqui o nosso Senhor Jesus diz aos seus discípulos que a religião que Ele veio estabelecer não somente exclui a maldade, mas supera a bondade dos escribas e dos fariseus. Nós precisamos fazer mais do que eles, e melhor do que eles, ou não chegaremos ao céu. Nós éramos parciais na lei, e atribuíamos mais importância à sua parte ritual. Mas nós devemos ser universais, e não pensar que é suficiente dar à igreja o nosso dízimo, mas dar a Deus os nossos corações. Eles se preocupavam somente com o exterior, mas nós devemos ter consciência da religiosidade interior. Eles procuravam o elogio e o aplauso dos homens, mas nós devemos procurar a aceitação de Deus; eles se orgulhavam do que faziam na religião, e confiavam que o que faziam era justiça; mas nós, quando tivermos feito tudo, precisamos negar a nós mesmos e dizer: “Somos servos inúteis”, e confiar somente na justiça de Cristo, e desta forma poderemos ir além dos escribas e dos fariseus.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 13-16

Continuação do Sermão da Montanha

Cristo recentemente havia chamado os seus discípulos e lhes dito que eles seriam pescadores de homens; aqui lhes diz que Ele os designou para serem o sal da terra, e a luz do mundo, para que eles pudessem realmente ser o que se esperava que eles fossem.

I – “Vós sois o sal da terra”. Seria um incentivo para eles, e um sustento durante seus sofrimentos, o fato de que, embora fossem tratados com desprezo, ainda assim eles seriam verdadeiramente as bênçãos do mundo, e ainda mais por sofrer dessa maneira. Os profetas, que tinham vindo antes deles, eram o sal da terra de Canaã; mas os apóstolos eram o sal de toda a terra, pois deveriam ir por todo o mundo para pregar o Evangelho. Era desanimador para eles o fato de serem tão poucos e tão fracos. O que eles poderiam fazer em uma província tão grande como toda a terra? Nada, se fossem trabalhar pelo poder das armas e por golpes de espadas. Mas, começando a trabalhar tão silenciosamente como o sal, um punhado deste sal propagaria o seu sabor por todos os lugares; percorreria grandes distâncias, e trabalharia imperceptível e irresistivelmente, como o fermento (cap. 13.33). A doutrina do Evangelho é como o sal; ela é viva, eficaz e penetrante (Hebreus 4.12); ela alcança o coração (Atos 2.37). Ela purifica, dá sabor e conserva a salvo do apodrecimento. Nós lemos sobre o sabor (ou cheiro) do conhecimento de Cristo (2 Coríntios 2.14); qualquer outro conhecimento é insípido sem ele. Um concerto perpétuo é chamado de concerto de sal (Neemias 18.19); e o Evangelho é um concerto perpétuo. O sal era exigido em todos os sacrifícios (Levíticos 2.13), no templo espiritual de Ezequiel (Ezequiel 43.24). Agora, os discípulos de Cristo, tendo eles mesmos aprendido a doutrina do Evangelho, e sendo usados para ensiná-la a outros, eram como o sal. Os cristãos, como ministros especiais, são o sal da terra.

1.Se eles fossem como deveriam ser, eles seriam como um bom sal, branco e miúdo e em muitos grãos, mas muito útil e necessário. Diz Plínio: “Sem o sal, a vida humana não se mantém”. Veja nisto:

(1) Que eles devem estar, em si mesmos, temperados de acordo com o Evangelho, com o sal da graça; pensamentos e gostos, palavras e ações, tudo temperado com a graça (Colossenses 4.6). “Tende sal em vós mesmos e… uns com os outros” (Marcos 9.50).

(2) O que eles devem ser para os outros. Eles não devem apenas ser bons, mas fazer o bem, devem conquistar o seu lugar na mente das pessoas, não servir a nenhum interesse secular deles mesmos, mas devem poder se transformar no sabor e no tempero do Evangelho.

(3) As grandes bênçãos que eles representam para o mundo. A humanidade, repousando na ignorância e na maldade, era um grande amontoado de coisas insípidas e prontas a apodrecer. Mas Cristo enviou os seus discípulos para que, pelas suas vidas e doutrinas, a temperassem com conhecimento e graça, e assim a tornassem aceitável a Deus, diante dos anjos e de todos aqueles que apreciam as coisas divinas.

(4) Como eles devem esperar ser usados. Ele s não devem ficar amontoados, não devem sempre permanecer juntos em Jerusalém, mas devem se espalhar, como o sal sobre a comida, um grão aqui e outro ali; como os levitas se espalharam em Israel, para que, onde quer que vivessem, pudessem transmitir o seu sabor. Alguns observaram que, embora os supersticiosos digam, tolamente, que é um mau presságio ter sal jogado sobre nós, na verdade é um mau presságio ter o sal retirado de nós.

2.Se não fossem como deveriam ser, eles seriam como o sal que perdeu o seu sabor. Se vocês, que devem temperar os outros, não têm sabor, são vazios de vida espiritual, de tempero e de vigor. Se um cristão é assim, especialmente se um ministro é assim, a sua condição é muito triste, pois:

(1) Ele é irrecuperável: de que maneira ele poderá ser temperado? O sal é um remédio para a comida sem sabor, mas não existe remédio para o sal insípido. O cristianismo dá um gosto especial ao homem. Mas se o homem absorvê-lo e continuar a professá-lo, e ainda assim permanecer vivendo do mesmo modo como um tolo, sem graça e insípido, nenhum a outra doutrina, nenhum outro meio poderá ser aplicado para dar-lhe sabor. Se o cristianismo não puder fazê-lo, nada o fará.

(2) Ele é infrutífero: consequentemente, ele não serve para nada. Para que ele poderá ser usado, em que não cause mais mal que bem? Assim como um homem sem razão, é um cristão sem a graça. Um homem mau é a pior das criaturas, um cristã o mau é o pior dos homens; e um ministro mau é o pior dos cristãos.

(3) Ele está condenado à ruína e à rejeição. Ele será expulso da igreja e da comunhão de fé, para as quais ele representa um peso e uma mancha; e ele será pisado pelos pés dos homens. Que Deus seja glorificado através da vergonha e da rejeição daqueles por quem Ele foi rejeitado, e que não se fizeram adequados para nada, exceto para serem pisados.

II – “Vós sois a luz do mundo” (v. 14). Isto também dá indícios de que eles são tão úteis quanto o sal (“Nada é mais útil que o sol e o sal”), porém são mais gloriosos. Todos os cristãos são luz no Senhor (Efésios 5.8), e devem resplandecer como astros (Filipenses 2.15), mas ministram de uma maneira especial. Cristo chama a si mesmo de Luz do mundo (João 8.12), e eles são trabalhadores, juntamente com Ele, e têm uma parte da sua honra depositada sobre si mesmos. É verdade que a luz é doce, ela é bem-vinda; a luz do primeiro dia do mundo o foi, quando resplandeceu nas trevas; assim é a luz da manhã de cada dia; assim é o Evangelho, e aqueles que o transmitem, para todas as pessoas sensatas. O mundo estava em trevas, mas Cristo chamou os seus discípulos justamente   para brilharem neste mundo; e, para que eles possam fazer isto, é dele que eles obtêm a luz.

Esta semelhança é aqui explicada em dois aspectos:

1.Sendo a luz do mundo, eles são reconhecidos e visíveis, e têm muitos olhos sobre si. Uma cidade que está edificada sobre um monte não pode ficar escondida. Os discípulos de Cristo, particularmente aqueles que são ativos e zelosos no seu ministério, se tornam notáveis e são observados como faróis de orientação. Eles trarão sinais (Isaias 7.18), serão homens portentosos (Zacarias 3.8); todos os seus vizinhos os estarão observando. Alguns os admiram, os elogiam, se alegram por eles e estudam para imitá-los; outros os invejam, odeiam, censuram e estudam para destruí-los. Desta forma, eles devem se preocupar em agir com cuidado, por causa dos que os observam; eles são espetáculos para o mundo, e devem tomar cuidado com tudo o que pareçam mau, porque são muito observados. O s discípulos de Cristo eram homens desconhecidos antes que Ele os chamasse, mas o caráter que Ele lhes atribuiu lhes dignificou. E, como pregadores do Evangelho, eles criaram um padrão; e embora alguns os tenham condenado por isto, eram respeitados por outros, e se assentarão sobre tronos e julgarão (Lucas 22.30). Pois Cristo irá honrar aqueles que o honram.

2.Sendo a luz do mundo, eles devem iluminar e dar luz aos outros (v. 15), e, portanto:

(1) Eles se estabelecerão como luzes. Cristo acendeu estas candeias, elas não serão colocadas debaixo de alqueires (isto é, cestos), nem estarão sempre confinadas, como estão a gora, às cidades da Galileia, ou às ovelhas perdidas da casa de Israel, mas serão enviadas a todo o mundo.  As igrejas são os castiçais, os castiçais de ouro onde se colocam estas luzes, para que a sua luz possa  ser difundida, e o Evangelho é  uma luz tão forte, e transmite tanto da sua própria evidência, que, como um a cidade sobre um monte, ele não pode  ficar escondido, não pode deixar de evidenciar que é de Deus a todos aqueles que não fecharem voluntariamente seus olhos a ele. Ele dará luz a todos aqueles que estiverem na casa, àqueles que forem atraídos a ele e vierem até ele. Aqueles a quem ele não der luz, devem agradecer somente a si mesmos; eles não estarão na casa com ele, não farão uma investigação imparcial e diligente dele, mas estarão envolvidos em seus próprios preconceitos.

(2) Eles devem resplandecer como luzes: 

[1] Pela sua boa pregação.  Eles deverão transmitir o conhecimento que têm para o bem dos outros; não escondê-lo sob um cesto, mas transmiti-lo. O talento não deve ficar envolto num pano, mas deve ser transmitido. Os discípulos de Cristo não devem se esconder na privacidade e na obscuridade, com a desculpa de contemplação, recato ou autopreservação, mas, por terem recebido o dom, devem ministrá-lo (Lucas 12.3). 

[2] Pela sua vida correta. Eles devem ser candeias que ardem e alumiam (João 5.35); devem evidenciar, pelo seu comportamento, que são verdadeiramente seguidores de Cristo (Tiago 3 .13). Para os outros, eles devem representar instrução, orientação, estímulo e consolo (Jó 29.11).

Observe aqui, em primeiro lugar, como a nossa luz deve brilhar, realizando coisas boas que os homens possam ver e aprovar, obras que tenham boa reputação entre aqueles que não as têm, e que, portanto, lhes darão motivo para pensarem bem do cristianismo. Nós devemos realizar boas  obras que possam ser vistas para a edificação de outros, mas não que possam  ser vistas para a nossa própria ostentação; nós devemos orar em segredo, e o que estiver entre Deus e as nossas  almas deve  ser conservado conosco; mas aquilo que é aberto e óbvio à vista dos homens deve ser feito de modo coerente com a nossa profissão de fé, e de um modo que glorifique a Deus (Filipenses 4.8). Aqueles que estão à nossa volta não devem apenas ouvir falar das nossas boas obras, mas de vem ver as nossas boas obras, para que possam se convencer de que a religião é algo mais do que meras palavras, e que não fazemos dela somente uma profissão de fé, mas que permanecemos sob o seu poder.

Em segundo lugar, para que finalidade a nossa luz deve resplandecer. Para que aqueles que vejam as nossas boas obras possam ser levados a glorificar, não a nós (que era o que os fariseus desejavam, e que prejudicava todo o seu desempenho), mas ao nosso Pai que está nos céus. Observe que a glória de Deus é o bem supremo que devemos procurar em tudo o que fizermos na religião (1 Pedro 4.11). Neste centro, as linhas de todos os nossos atos devem se encontrar. Devemos não somente nos empenharmos para glorificar, nós mesmos, a Deus, mas também devemos fazer tudo o que pudermos para motivar os outros a glorificá-lo. A visão das nossas boas obras fará isto, dando-lhes:

1.Motivos para louvar a Deus. Em outras palavras: “Deixe que vejam as suas boas obras, para que possam enxergar o poder da graça de Deus em sua vida, e assim deem a Ele glória e ações de graças por ter concedido tal poder aos homens”.

2.Motivos de religiosidade. Em outras palavras: “Deixe que vejam as suas boas obras, para que possam se convencer da verdade e da excelência da religião cristã. Que isto provoque uma emulação sagrada, para que imitem as suas boas obras, glorificando, deste modo, a Deus”. Observe que o comportamento regular, santo e exemplar dos santos pode fazer muita coisa com relação à conversão dos pecadores; aqueles que não têm conhecimento da religião podem, por meio disso, ser levados a conhecê-la. Os exemplos ensinam. E aqueles que têm um preconceito contra a religião cristã podem, por meio deles, ser levados a amar o cristianismo. Consequentemente, existe uma virtude vitoriosa em um comportamento devoto.