ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 13: 1-23 – PARTE 2

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As Parábolas de Jesus – Parte 2

II – Nesses versículos, temos uma das parábolas que o nosso Salvador apresentou: a do semeador e da semente. Temos tanto a parábola em si, como também a sua explicação. As parábolas de Jesus eram tiradas de coisas comuns, habituais, não de alguma noção ou especulação filosófica, ou de fenômenos incomuns da natureza, apesar de serem suficientemente aplicáveis ao ponto em questão. Porém, as suas parábolas estavam fundamentadas nas coisas mais óbvias, aquelas que podemos observar todos os dias, e que estão até mesmo ao alcance daqueles que possuem a menor capacidade de entendimento. Muitas delas foram tiradas do ofício do agricultor, como a do semeador e do joio. Cristo escolheu fazer assim:

1.Para que as coisas espirituais estivessem mais claras, e, por similitudes mais familiares, fossem ainda mais fáceis de alcançar o nosso entendimento.

2.Para que as coisas mais comuns pudessem ser aplicadas à vida espiritual, e nós pudéssemos prestar atenção às coisas que tão frequentemente passam pela nossa vista. Para que meditássemos com prazer nas coisas de Deus, e assim, quando as nossas mãos estiverem mais ocupadas com o mundo, nós possamos – não só apesar disso, mas até mesmo com a ajuda disso – ter os nossos corações dirigidos ao céu. Assim, a Palavra de Deus falará conosco de modo familiar (Provérbio 6.22).

A parábola do semeador é suficientemente explicada (vv. 3-9). A sua explicação é feita pelo próprio Senhor Jesus Cristo, que sabia melhor do que todos o que era que Ele próprio queria dizer. Quando os discípulos perguntaram: “Por que lhes falas por parábolas?” (v. 10), eles sugeriram um desejo de que a parábola fosse explicada por causa das pessoas; porém, não era um descrédito ao conhecimento deles o desejo de que o Senhor Jesus explicasse a parábola para eles mesmos. O nosso Senhor Jesus graciosamente aceitou aquele pedido, e explicou o significado, e fez com que eles compreendessem a parábola. Ele dirigiu o seu discurso aos discípulos, mas a multidão continuava ouvindo, pois não nos é relatado que Ele a tenha dispensado, até o versículo 36. “‘Escutai vós, pois, a parábola do semeador, (v.18); vós a ouvistes, mas vamos revê-la”. Note que é de bom uso, e contribui muito para o nosso benefício e para a compreensão da Palavra, ouvir novamente aquilo que já ouvimos (Filipenses 3.1). “Vocês a ouviram, mas ouçam a sua interpretação”. Note que somos abençoados apenas quando ouvimos a Palavra corretamente, e com bons propósitos, e quando compreendemos o que ouvimos. Pode-se considerar que uma pessoa não estará ouvindo, se não estiver ouvindo com entendimento (Neemias 8.2). É, de fato, a graça de Deus que dá o entendimento; mas o nosso dever é prestar toda a atenção, dirigindo o nosso pensamento ao entendimento.

Vamos, portanto, comparar a parábola com a exposição.

(1). A semente semeada é a Palavra de Deus, aqui chamada de a palavra do reino (v. 19): o reino dos céus é o reino; os reinos do mundo, comparados a ele, não podem sequer ser chamados de reinos. O Evangelho vem do reino, e conduz a esse reino; a palavra do Evangelho é a palavra do reino; é a palavra do Rei, e onde ela estiver, ali estará o poder; ela é uma lei, pela qual nós devemos ser regidos e governados. Essa palavra é a semente semeada, o que para alguns parece uma coisa morta e seca, mas ela tem, de fato, uma riqueza dentro de si. Ê uma semente incorruptível (1 Pedro 1.23); é o Evangelho que produz frutos nas almas (Colossenses 1.5,6).

(2). O semeador que lança a semente é o nosso Senhor Jesus Cristo, e Ele mesmo o faz, ou o faz através de seus ministros (veja v. 37). As pessoas são a lavoura de Deus, o seu cultivo, este é o significado da palavra; e os ministros são cooperadores de Deus (1 Coríntios 3.9). Pregar a uma multidão é semear o grão; não sabemos onde a semente cairá, apenas cuidamos para que a semeadura seja boa, que seja limpa, e nos certificamos de que haja semente suficiente. Semear a preciosa Palavra é semear um povo no campo de Deus, o grão da sua eira (Isaias 21.10).

(3). O solo no qual essa semente é semeada são os corações dos filhos dos homens, que são de disposições e qualidades diferentes; da mesma maneira, o sucesso da palavra é diferente em cada um deles. Note que o coração do homem é como o solo, capaz de melhorar, de produzir bons frutos. É uma pena que muitos corações estejam como um solo não semeado, ou seja, como o campo do preguiçoso (Provérbio 24.30). A alma é o lugar apropriado para a Palavra de Deus residir, e trabalhar, e governar; a sua operação se dá na consciência. É o mesmo que acender ali a luz do Senhor. Agora, de acordo com o que somos, assim é a palavra para nós: A recepção depende do receptor. O mesmo ocorre com a terra; alguns tipos de solo dão muito trabalho, e por mais sementes que lancemos neles, não produzem frutos que sirvam para algum propósito. Porém, o solo bom produz abundantemente. O mesmo ocorre com os corações dos homens, cujos diferentes caracteres es­ tão aqui representados pelos quatro tipos de solo, dos quais três são ruins, e apenas um é bom. Note que muitos ouvintes não darão frutos, mesmo em se tratando daqueles que ouviram o próprio Cristo. Quem creu em nossa pregação? Quem deu crédito ao nosso relato? Essa parábola nos traz uma perspectiva melancólica sobre aqueles que ouvem o Evangelho ser pregado; ela sugere que um entre quatro produz frutos perfeitos. Muitos são chamados com um chamado comum, mas em poucos a escolha eterna está evidenciada pela eficácia desse chamado (cap. 20.16).

Observe agora os tipos de pessoas representadas por esses quatro tipos de solo.

[1] O solo ao pé do caminho (vv. 4-10). Havia trilhas através de seus campos (cap. 12.1), e a semente que nelas caiu nunca penetrou o solo, e assim os pássaros as pegaram. O lugar onde os ouvintes de Cristo estavam representava o caráter da maioria deles; para a semente, a areia na beira da praia era como o solo do caminho.

Observe, em primeiro lugar, que tipo de ouvintes é comparado com o solo do caminho; os que ouvem a Palavra e não a compreendem. Eles são os únicos culpados por esta situação. Eles não a levam em consideração, não a retém; eles não se comportam como se desejas­ sem receber o bem. São como a estrada; nunca houve a intenção de semeá-la. Eles vêm à presença de Deus como os seus filhos vêm, e se sentam diante dele como os seus filhos se sentam, mas o fazem simplesmente por costume, ou ainda para verem e serem vistos. Eles não se importam com o que é dito; as palavras entram por um ouvido e saem pelo outro, e não deixa neles nenhuma impressão duradoura.

Em segundo lugar, como eles chegam a ser ouvintes ineficazes. O iníquo, ou seja, o diabo, veio e levou aquilo que foi semeado. Esses ouvintes mecânicos, descuida­ dos e levianos, são uma presa fácil para Satanás; como ele é o grande assassino, também é o grande ladrão de sermões, e certamente nos roubará a Palavra se não ti­ vermos o cuidado de guardá-la. Esta situação é como a dos pássaros que pegam as sementes que caem no solo que não foi inicialmente arado, nem tratado depois de semeado. Precisamos revolver a terra do solo que não está cultivado, preparando os nossos corações para a Palavra, humilhando-nos a ela, dando-lhe toda a nossa atenção. Mas seremos como o solo da estrada se não tomarmos alguns cuidados: devemos cobrir a semente depois que a recebemos, através da meditação na Palavra de Deus e das nossas orações. Também precisamos dar atenção, com dedicação, às coisas que ouvimos. O diabo é um inimigo jurado, que luta para não recebermos os benefícios que nos são trazidos pela Palavra de Deus. E ninguém é mais amigo de suas intenções malignas do que os ouvintes descuidados, que estão pensando em alguma outra coisa, quando deveriam estar pensando nas coisas que pertencem à sua paz.

[2] O solo rochoso. Algumas caíram em locais pedregosos (vv. 5,6), que representam os ouvintes que vão além dos anteriores, que recebem algumas boas impressões da palavra, mas estas não permanecem (vv. 20,21). Note que é possível sermos melhores do que alguns outros, porém ainda não somos tão bons quanto deveríamos ser. Podemos ir além dos nossos vizinhos, e ainda não alcançar o céu. Observe, a respeito dos ouvintes que são representados pelo solo pedregoso: Em primeiro lugar, quão longe eles foram.

1.Eles ouviram a Palavra; eles não dão as costas a ela, nem se comportam como se fossem surdos para ela. O fato de alguém ouvir a Palavra, ainda que muito frequentemente, ainda que com seriedade, não levará a pessoa ao céu; é necessário crer na Palavra e confiar nela.

2.Eles ouvem bem, são rápidos para ouvir, e logo recebem a Palavra, estão prontos para recebê-la, e assim ela brota rapidamente (v. 5). Logo aparece sobre a terra aquilo que foi semeado em solo bom. Os hipócritas frequentemente têm um início na fé cristã que é semelhante ao dos verdadeiros cristãos, em termos de profissão de fé, mostrando-se até mesmo empolgados. Eles a recebem imediatamente, sem prová-la; “engolem-na” sem mastigar, e por esta razão não pode haver uma boa digestão. Aqueles que provam todas as coisas têm mais facilidade para se apegar àquilo que é bom (1 Tessalonicenses 5.21l. 3. Eles a recebem com alegria. Observe que existem muitos que ficam felizes por ouvir um bom sermão, mas que, contudo, não tiram proveito dele; eles podem gostar da Palavra, e ainda não serem transformados ou governados por ela. O coração pode se derreter sob a Palavra, mas ainda assim não ser derretido pela Palavra, muito menos derreter-se sobre a palavra, como em um molde. Muitos provam a boa palavra de Deus (Hebreus 6.5), e dizem encontrar doçura nela; mas alguma luxúria que lhes é querida (com a qual a Palavra não combina) se esconde por baixo da língua, e assim eles a cospem para fora.

3.Eles a suportam por um tempo, como um movimento violento, que continua enquanto a impressão da força permanece, mas logo ela se esgota. Muitos perseveram por um tempo, porém não perseveram até o final, e assim não alcançam a felicidade que é prometida àqueles que perseveram (cap. 10.22); eles corriam bem, mas algo os deteve (Gálatas 5.7).

Em segundo lugar, eles se retiraram, de modo que nenhum fruto chegou à perfeição. A vida deles se assemelhou ao grão, que, não tendo profundidade na terra para dela retirar a umidade, seca e murcha sob o calor do sol. E a razão para isto é:

1.Eles não têm raízes em si mesmos, nenhum princípio fixo e determinado em seus julgamentos, nenhuma resolução firme em seus desejos, e nenhum hábito enraizado em suas afeições. Não possuem nada firme que seja a seiva da força de sua profissão de fé. Observe:

(1) É possível que haja a folha verde de uma profissão de fé, mas sem que haja a raiz da graça; a dureza prevalece no coração, e o que há de solo e maciez está apenas na superfície; por dentro, eles não foram mais afetados do que uma pedra o seria. Eles não têm raiz; não são, pela fé, unidos a Cristo, que é a nossa Raiz; eles não provêm dele, e não dependem dele.

(2) Onde não houver um princípio, mesmo que haja uma profissão de fé, não podemos esperar que haja perseverança. Aqueles que não tiverem raízes não suportarão por muito tempo. Um navio sem lastro, apesar de a princípio navegar melhor que um navio carregado, certamente fracassará no teste das intempéries, e jamais chegará ao seu porto.

1.Os tempos de adversidade sempre chegam, e então aqueles que foram semeados entre as pedras não são bem-sucedidos. Quando a tribulação e a perseguição começam por causa do mundo, eles se sentem ofendidos.

Essa é uma pedra de tropeço no caminho que eles não conseguem transpor, e assim o abandonam. É nisto que resulta a profissão de fé dessas pessoas. Observe:

(1) Depois de um considerável vento de oportunidade, geralmente se segue uma tempestade de perseguições, para testar aqueles que receberam a Palavra com sinceridade, e aqueles que não agiram desse modo. O teste ocorre quando a Palavra do Reino de Cristo se torna a Palavra da paciência de Cristo (Apocalipse 3.10). Nesse teste, se verifica quem guarda a Palavra do Senhor, e quem não a guarda (Apocalipse 1.9). A verdadeira sabedoria consiste em nos prepararmos para esse dia.

(2) Quando chegam os tempos de adversidade, aqueles que não têm raízes se ofendem rapidamente. Eles primeiramente discutem com a sua profissão de fé, e então a abandonam; primeiro encontram algo de errado nela, e depois lançam-na fora. E, dessa forma, lemos a respeito da ofensa da cruz (Gálatas 5.11). Observe que a perseguição é representada, na parábola, pelo sol abrasador (v.6). Este é o mesmo sol que aquece e alegra aquilo que está bem enraizado, mas que queima e faz murchar aquilo que não tem a raiz de que precisava. Assim como a Palavra de Cristo, a cruz de Cristo também é, para alguns, o sabor da vida para a vida, e para outros é o sabor da morte para a morte. Desse modo, a mesma tribulação que leva alguns à apostasia e à ruína, funciona para outros como um peso de glória muito maior e eterno. As provas que agitam alguns, confirmam outros (Filipenses 1.12). Observe como, no final, eles logo se vão; como apodrecem tão rapidamente quanto amadureceram. Uma profissão de fé assumida sem a devida consideração também é geralmente abandonada sem a devida consideração: “Ela vem de forma leviana, e se vai de forma leviana”.

[3] O solo espinhoso. Algumas caíram entre espinhos (que são um bom guarda para a semente, quando está junto a uma cerca, mas uma má companhia, quando está no campo); e os espinhos brotaram, o que sugere que eles não apareceram, nem apenas se destacaram quando a semente foi semeada. Mais tarde, estes espinhos se mostraram prejudiciais à semente (v. 7). Essa semente vai mais longe que a anterior, pois ela tem raiz. Ela representa a condição daqueles que não chegam a rejeitar a sua profissão de fé, mas que não chegam a obter dela nenhum benefício de salvação. O bem que eles recebem através da Palavra é insensivelmente recoberto e sobreposto pelas coisas do mundo. A prosperidade pode destruir os preciosos efeitos da Palavra no coração, assim como a perseguição o faz. E o grande perigo é que ela o faz silenciosamente: as pedras prejudicaram a raiz; os espinhos prejudicam a frutificação.

No entanto, o que são esses espinhos que sufocam a semente?

Em primeiro lugar, as preocupações desse mundo. Preocupar-se com outro mundo apressaria a germinação dessa semente, mas o cuidado com esse mundo a sufoca. As preocupações mundanas são adequadamente comparadas com espinhos, pois elas vêm com o pecado, e são um fruto da maldição. Elas são boas até certo ponto, para preencher uma lacuna, no sentido de precaução; mas o homem que lida muito com elas deve estar bem prevenido (2 Samuel 23.6,7); elas são ardilosas, ofensivas e ferem, e o fim daqueles que se entregam às preocupações é amargo (Hebreus 6.8). Esses espinhos sufocam a boa semente. Note que os cuidados mundanos são grandes empecilhos para que desfrutemos a Palavra de Deus, e para que cresçamos na graça e no conhecimento do Senhor. Eles consomem aquele vigor da alma que deveria ser usado em coisas divinas. Eles nos distraem quanto ao nosso dever, e mais tarde nos causam os maiores problemas. Os espinhos apagam as centelhas das boas afeições, e acabam com a determinação que está contida nas boas decisões. Aqueles que são excessivamente atarefados, e que se mostram cuidadosos em relação a muitas coisas, normalmente negligenciam aquilo que é o mais necessário.

Em segundo lugar, o engano das riquezas. Há alguns que estão correndo o risco de cair em uma grande armadilha; são aqueles que, pela sua dedicação e trabalho, aumentam as suas posses, e assim o perigo que vem dos cuidados deste mundo parece ter acabado. Mas eles continuam dando ouvidos ao mundo, e aí está o grande laço (Jeremias 5.4,5). É difícil para tais pessoas entrarem no Reino dos céus: eles tendem a prometer a si mesmos aquilo que não está neles, mas nas riquezas. E assim passam a confiar nas riquezas, demonstrando uma complacência excessiva por elas; e isso sufoca a Palavra tanto quanto o cuidado o faz. Observe que o problema não é tanto a riqueza, mas sim a falsidade que a riqueza traz; isso sim causa o problema. Mas também não podemos acusar as riquezas de serem falsas conosco, a menos que depositemos nelas a nossa confiança, e aumentemos as expectativas que temos em relação a elas. E aí que elas sufocam a boa semente.

[4] O solo bom (v.18). Outras caíram em solo bom, e é uma pena que nem toda semente encontre um solo bom, pois assim não haveria nenhuma perda. Estes são os bons ouvintes da Palavra (v.23). Note que apesar de haver muitos que recebem a graça de Deus e a sua Palavra em vão, Deus ainda tem um remanescente que a recebe para um bom propósito; pois a Palavra de Deus não retornará vazia (Isaias 55.10,11).

Vemos que aquilo que distingue o solo bom dos demais tipos de solo é, em uma palavra, a frutificação. É por ela que os verdadeiros cristãos se distinguem dos hipócritas, por produzirem os frutos da justiça. ”Assim se­ reis meus discípulos” (João 15.8). O Senhor não diz que esse solo bom não tenha pedras nem espinhos; mas não há nenhum que prevaleça a ponto de prejudicar a frutificação. Os santos, os fiéis seguidores do Senhor nesse mundo, não são perfeitamente livres de pecar; mas, felizmente, são libertos do domínio do pecado.

Os ouvintes que representam o solo bom são:

Em primeiro lugar, ouvintes inteligentes; eles ouvem a Palavra e a entendem, eles entendem não só o seu sentido e significado, mas o seu próprio envolvimento com a Palavra. Eles a entendem como um homem de negócios entende do seu negócio. O Senhor Deus, em sua Palavra, trata com os homens como homens, de uma maneira racional, e Ele ganha a posse da vontade e da afeição abrindo o entendimento dos homens. Porém, o inimigo, Satanás, que é um ladrão e salteador, não vem por essa porta, mas procura chegar por outro caminho.

Em segundo lugar, ouvintes que frutificam, o que é uma evidência de sua boa compreensão: e esta também produz frutos. O fruto é, para cada semente, o seu próprio corpo, um produto substancial no coração e na vida, e que combina com a semente da palavra recebida. Nós, então, damos frutos quando agimos de acordo com a Palavra; quando o temperamento de nossas mentes e o senso de nossas vidas estão de acordo como o Evangelho que recebemos, e nós agimos conforme aquilo que nos é ensinado.

Em terceiro lugar, nem todos frutificam igualmente; alguns produzem 100 vezes, outros 60, e alguns 30. Note que, entre os cristãos, alguns são mais produtivos do que outros. Onde existe a verdadeira graça, também existem os seus graus; alguns alcançam maiores realizações em conhecimento e ações do que outros; nem todos aqueles que se dedicam a estudar a vida e o Evangelho do Senhor Jesus Cristo estão no mesmo nível. Nós devemos almejar o mais elevado dos graus, para produzir a cem por um, como aconteceu com o solo de Isaque (Genesis 26.12), sendo assim abundantes na obra do Senhor (João 15.8). Mas se o solo for bom, e o fruto vier na estação certa, se o coração for honesto, e a vida estiver de acordo com ele, aqueles que produzirem à razão de trinta por um serão graciosamente aceitos por Deus, e estes frutos serão abundantemente contabilizados para eles, pois nós estamos sob a graça, e não sob a lei de Moisés.

Finalmente, Ele conclui a parábola com um solene chamado à atenção (v. 9): “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”. Observe que o sentido da audição não pode ser empregado melhor do que em ouvir a Palavra de Deus. Alguns vivem para ouvir uma doce melodia, seus ouvidos são somente “as filhas da música” (Eclesiastes 12.4, versão inglesa KJV): não há melodia semelhante àquela da Palavra de Deus; outros vivem para ouvir coisas novas (Atos 17.21); não novas como aquelas.

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MATEUS 13: 1-23 – PARTE – I

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As Parábolas de Jesus – Parte 1

Vemos aqui Jesus pregando, e podemos observar:

1.Quando Cristo pregou esse sermão: foi no mesmo dia em que havia pregado o sermão do capítulo anterior isto mostra como Ele estava bem-disposto em fazer o bem, e em realizar a obra daquele que o havia enviado. Jesus era a favor que se pregasse do começo ao fim do dia, e pelo seu exemplo esta prática foi recomendada à sua igreja. Nós devemos semear a nossa semente pela manhã e também à tarde (Eclesiastes 11.6). Um sermão à tarde, bem ouvido, estará longe de repor o sermão da manhã; ele irá, na verdade, fixá-lo, e segurar o prego em um lugar firme. Apesar de Jesus ter sido, pela manhã, capciosamente contestado pelos seus inimigos, perturbado e interrompido pelos seus amigos, Ele ainda perseverou com seu trabalho; e não verificamos ter Ele encontrado tais desencorajamentos na parte final do dia. Aqueles que com coragem e zelo vencem dificuldades no nome do Senhor, vão notar que elas não tendem a voltar como eles temem. Resista-lhes e elas desaparecerão.

2.A quem Ele pregava: ajuntava-se muita gente ao redor dele, e eram os ouvintes. Não vemos nenhum dos escribas ou fariseus presentes. Estes estavam dispostos a ouvi-lo quando Ele pregava na sinagoga (cap. 12.9,14), mas acreditavam ser algo abaixo deles ouvir um sermão à beira-mar, apesar do próprio Cristo ser o pregador. E verdadeiramente Ele preferia a ausência à companhia deles, pois quando eles estavam ausentes, Ele podia seguir calmamente e sem ser contraditado. Às vezes, há mais poder do Evangelho quando existe o mínimo de sua pompa: os pobres recebiam o Evangelho. Quando Cristo ia à praia, multidões rapidamente se ajuntavam ao seu redor. Onde o rei está, ali está a corte; onde Cristo está, ali está a igreja, mesmo que seja na praia. Aqueles que se beneficiam das palavras devem estar dispostos a segui-la em todos os lugares – quando a arca mudar, mude-se também, seguindo-a. Os fariseus haviam estado em ação, com calúnias e sugestões baixas, para evitar que as pessoas seguissem a Cristo, mas elas o seguiam tanto quanto antes. Cristo será glorificado apesar de toda a oposição; Ele será seguido.

1 – Onde Ele pregou esse sermão.

(1) Seu ponto de encontro era a praia. Ele saiu de dentro de casa (porque não havia espaço para a audiência), indo para o ar livre. Era uma pena, mas tal pregador devia ter tido o local mais espaçoso, suntuoso e conveniente para pregar que pudesse ser concebido, como um dos teatros romanos; mas Ele estava agora no seu estado de humilhação; e nisso, como em outras coisas. Ele se negava as honras que lhe eram devidas; nem uma casa própria para morar Ele tinha, assim como não tinha um templo próprio onde pudesse pregar. Com isso, Ele nos ensina – através das circunstâncias exteriores de adoração – a não invejar aquilo que é majestoso, mas aproveitar o melhor possível das facilidades que Deus, na sua providência, nos distribuiu. Quando Cristo nasceu, Ele estava apertado em um estábulo, e agora vemo-lo em uma praia, na areia, onde todas as pessoas podiam vir a Ele livremente. Ele, que a era a própria verdade, não buscava santuários, como os mistérios pagãos faziam. ”A suprema Sabedoria altissonantemente clama de fora” (Provérbio 1.20; João 13.20).

(2) Seu púlpito era um barco; não como o púlpito de Esdras, que havia sido feito para esse propósito (Neemias 8.4), mas convertido para esse uso, por falta de outro melhor. Não havia lugar impróprio para esse pregador, cuja presença dignificava e consagrava qualquer lugar. Aqueles que pregam a Cristo não devem se envergonhar, apesar de terem locais simples e inconvenientes para pregar. Alguns observam que as pessoas estavam em pé, em solo seco e firme, enquanto o pregador estava na água, com algum risco. Os ministros estão mais expostos aos perigos. Vemos que havia aqui uma verdadeira tribuna, o barco-púlpito.

4.O quê e como o Senhor Jesus pregava.

(1) Ele “falou-lhe de muitas coisas”. É provável que muito mais do que está registrado aqui, mas todas coisas excelentes e necessárias, coisa s que pertencem à nossa paz, coisas a respeito do Reino dos céus: elas não eram irrelevâncias, mas sim de importância eterna. Cabe a nós dar a mais sincera atenção quando Cristo tem tantas coisas a nos dizer, de modo a não perdemos nada.

(2) Ele falou por parábolas. Uma parábola, às vezes, significa qualquer ditado sábio e importante que seja instrutivo; mas aqui nos Evangelhos geralmente significa uma similitude ou comparação contínua, pela qual coisas espirituais ou divinas são descritas com uma linguagem emprestada das coisas da vida cotidiana. Era uma maneira muito usada de ensinar, não só pelos rabinos judeus, mas pelos árabes, e por outros homens sábios do Oriente; e era considerada muito proveitosa, em grande parte devido ao fato de ser agradável. O nosso Salvador a usava muito, e com isso condescendia com a capacidade das pessoas, e se dirigia a elas em sua própria linguagem. Há muito tempo Deus usava símiles através dos seus servos, os profetas (Oseias 12.10), e, às vezes, com pouco proveito; agora Ele usa símiles através de seu Filho, pois certamente eles reverenciarão aquele que fala do céu, e de coisas divinas, mas as reveste com expressões emprestadas de coisas terrenas. Veja João 3.12. Observe:

 I – Nós temos aqui a razão geral pela qual Cristo ensinou por parábolas. Os discípulos estavam um pouco surpresos com isso, pois até aquele momento, em suas pregações, Jesus não as havia usado muito, e por isso perguntam: “Por que lhes falas por parábolas?” Porque eles estavam verdadeiramente desejosos que as pessoas ouvissem e compreendessem. Eles não dizem: Por que falas a nós? (eles sabiam como ter as parábolas explicadas), mas a eles. Note que nós devemos estar preocupados com a edificação de outros, e com a nossa, pela palavra pregada; e devemos ser fortes para que possamos “suportar as fraquezas dos fracos”.

Cristo responde amplamente a essa questão (vv. 11-17). Ele lhes diz que pregava por parábolas, para que assim as coisas de Deus fossem expostas de uma maneira fácil e clara para aqueles que eram propositadamente ignorantes; e dessa forma o Evangelho seria “cheiro de vida” para alguns, e de morte, para outros. Uma parábola, com o a coluna de nuvem e fogo, volta um lado escuro para os egípcios, o qual os confunde, mas um lado claro para os israelitas, que os conforta, e assim atende a um duplo propósito. A mesma luz dirige o olhar de alguns, mas ofusca os olhos de outros. Note que:

1.Essa razão é exposta (v. 11): “Porque a vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não lhes é dado”. Ou seja:

(l].  Os discípulos tinham conhecimento, mas as pessoas não. Vocês já sabem algo desses mistérios, e não precisam ser instruídos dessa maneira familiar; mas as pessoas estão desprovidas de conhecimento, são como bebês, e devem ser ensinadas como tais, através de símiles claras, sendo ainda incapazes de receber instruções de qualquer outra maneira: pois apesar de terem olhos, elas não sabem como usá-los. Ou:

(2) Os discípulos estavam bem familiarizados com o conhecimento dos mistérios do Evangelho, e analisariam as parábolas, e por elas seriam levados a um conhecimento mais íntimo desses mistérios. Mas os ouvintes carnais, que só contavam com o que podiam ouvir, e não se dariam ao trabalho de pesquisar mais, nunca seriam mais sábios, e assim sofreriam merecidamente por seu enfraquecimento. Uma parábola é como uma casca que protege o bom fruto para os diligentes, mas o guarda dos preguiçosos. Note que existem mistérios no Reino dos céus, e “sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade”: a encarnação de Cristo, expiação, intercessão, nossa justificação e santificação pela união com Cristo, e, de fato, toda a questão da redenção, da primeira à última, são mistérios que nunca poderiam ter sido descobertos senão pela revelação divina (1 Coríntios 15.51). Eles foram nessa ocasião revelados, em parte, aos discípulos, e não seriam completamente descobertos até que o véu fosse rasgado. Mas o mistério da verdade do Evangelho não deve desencorajar, e sim estimular, a nossa busca dele, e os nossos estudos a seu respeito.

[1] O conhecimento dos mistérios do Reino dos céus é, de graça, dado aos discípulos de Cristo, para se familiarizarem com esses mistérios. O conhecimento é o primeiro presente de Deus, e é um presente que distingue (Provérbio 2.6); ele foi dado aos apóstolos, por que eles eram os seguidores e apoiadores constantes de Cristo. Note que quanto mais próximo nos chegamos a Cristo, e quanto mais conversamos com Ele, tanto mais nos familiarizamos com os mistérios do Evangelho.

[2] Ele é dado a todos os verdadeiros crentes, que têm um conhecimento experimental dos mistérios do Evangelho, e esse é, sem dúvida, o melhor conhecimento – um princípio de graça no coração, é o que faz com que os homens tenham uma rápida compreensão do temor ao Senhor, e da fé em Cr isto, e do significado das parábolas. Pela falta dessa bênção, Nicodemos, um mestre em Israel, falava do novo nascimento como um homem cego fala das cores.

[3) Há aqueles para os quais esse conhecimento não é dado: “O homem não pode receber coisa alguma, se lhe não for dada do céu” (João 3.27). Devemos nos lembrar de que Deus não é devedor a homem algum; a graça pertence somente a Ele. E Ele a dá ou a retém como lhe convém (Romanos 11.35); esta questão deve ser decidida pela soberania de Deus, como já vimos anteriormente (cap. 11.25,26).

2.Essa razão é melhor ilustrada pela regra que Deus observa ao distribuir seus dons. Ele os dá àqueles que os aperfeiçoam, mas os tira daqueles que os enterram. É uma regra entre os homens preferir confiar seu dinheiro àqueles que aumentam seus bens através de seu trabalho, do que àqueles que os diminuem pela sua preguiça.

(1). Aqui vemos a promessa àquele que tem a verdadeira graça, de acordo com a escolha da graça, e que usa aquilo que tem; ele terá maior abundância. Os favores de Deus são a garantia de mais favores; Ele construirá onde Ele colocar os alicerces. Os discípulos de Cristo usavam o conhecimento que tinham agora, e teriam maior abundância quando recebessem o Espírito (Atos 2). Aqueles que têm a verdade da graça, terão o aumento da graça, chegando a uma abundância de glória (Provérbio 4.18). José – Ele acrescentará (Genesis 30.24).

(2). Aqui há uma ameaça àqueles que não desejam a graça, que não fazem bom uso dos dons e talentos que têm: não têm raiz, não têm princípios sólidos; têm, mas não usam o que possuem; destes, será tirado aquilo que têm ou parece que têm. Suas folhas murcharão, seus dons decairão; os meios de graça que têm, e dos quais não fazem uso, lhes serão tirados. Deus tirará os seus talentos das mãos daqueles que correm o risco de sucumbir rapidamente.

3.Essa razão é explicada, em particular, com referência aos dois tipos de pessoas com quem Cristo entrou em contato.

(1) Alguns eram intencionalmente ignorantes; e esses se divertiam com as parábolas (v. 13): “Porque eles, vendo, não veem”. Eles cerraram seus olhos à clara luz das pregações mais óbvias de Cristo, e assim foram agora deixados no escuro. Ao verem a pessoa de Cristo, eles não viam sua glória, não viam diferença entre Ele e outro homem qualquer. Vendo seus milagres, e ouvindo a suas pregações, eles não viam; não ouviam com qualquer preocupação ou dedicação; eles não compreendiam nem a Cristo nem os seus milagres. Observe que:

[1) Existem muitos que veem a luz do Evangelho, ouvem o som do Evangelho, mas nunca permitem que o Evangelho alcance os seus corações, nem abrem os seus corações para ele.

[2) É justo da parte de Deus retirar a luz daqueles que cerram os seus olhos a ela. E aqueles que preferem ser ignorantes, que sejam. Ao lidar dessa maneira com eles, o Senhor Deus aumenta a sua graça para com os seus discípulos, distinguindo-os.

Nisto se cumpririam as Escrituras (vv. 14,15). Esta é uma citação de Isaías 6.9,10. O profeta messiânico que falou mais claramente da graça do Evangelho previu o desprezo a ele, e a consequência de tal desprezo. São citadas não menos que seis vezes no Novo Testamento que, nos tempos do Evangelho, o julgamento espiritual seria muito comum. Isto faz menos ruído, mas é uma situação mais terrível. Aquilo que foi dito dos pecadores no tempo de Isaías foi cumprido no tempo de Cristo, e está se cumprindo todos os dias; pois enquanto o perverso coração do homem se mantém no mesmo pecado, a justa mão de Deus inflige a mesma punição. Vemos isso aqui:

Em primeiro lugar, temos uma descrição da cegueira e dureza propositais dos pecadores, que é o pecado de que são culpados: “O coração deste povo está endurecido”, ou seja, está engrossado; isto denota tanto sensualidade como insensatez (SaImos 119.70). Sentindo-se seguro sob a Palavra e a vara de Deus, um escarnecedor como Jesurum engordou e se engrossou (Deuteronômio 32.15). E quando o coração está assim pesado, não é de surpreender que os ouvidos ouçam mal; eles não ouvem nada dos gemidos do Espírito; os altos clamores da Palavra. Apesar de a Palavra estar próxima deles, eles não a levam em consideração, nem são afetados em nada por ela: eles têm seus ouvidos tapados (SaImos 58.4,5). E por estarem decididos a ser ignorantes, eles bloqueiam ambos os sentidos do aprendizado; pois também fecharam os seus olhos, decididos de que não veriam a luz vir ao mundo, quando o Filho da Justiça se manifestou, mas cerraram as suas janelas, pois “amaram mais as trevas do que a luz” (João 3.19; 2 Pedro 3.5).

Em segundo lugar, temos a descrição dessa cegueira dos sentidos, que é a sua justa punição. “Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis”. Quaisquer meios de graça que tenham não lhes serão proveitosos, de modo nenhum. Embora prossigam recebendo misericórdias por causa de outros, quando entram em juízo, a bênção lhes é negada. A condição mais triste que um homem pode ter desse lado do inferno é estar sob as ordenanças mais vivas com um coração morto, estúpido e insensível, perdendo a oportunidade de ser tocado pelo Senhor nosso Deus. Ouvir a Palavra de Deus, e ver as suas providências, e ainda não entender nem perceber a sua vontade, é o maior pecado e a maior condenação que pode haver. Observe que é o trabalho de Deus dar um coração compreensivo, e Ele, muitas vezes, em um julgamento justo, o nega àqueles a quem Ele deu ouvidos que ouvem, e olhos que veem, em vão. Assim, Deus escolhe as ilusões dos pecadores (Isaias 66.4), e os entrega à sua grande ruína, ao abandoná-los aos desejos dos seus próprios corações (Salmos 81.11,12), deixando-os sós (Oseias 4.17). “O meu espírito não permanecerá para sempre no homem” (Genesis 6.3, versão TE).

Em terceiro lugar, o doloroso efeito e a causa da cegueira e dureza propositais: “Para que não veja com os olhos”. Eles não verão porque não se voltarão ao Senhor; e Ele mesmo diz que eles não verão, porque não se voltarão: “Para que não… compreenda com o coração, e se converta, e eu o cure”.

Note que:

1.Ouvir; ver e compreender são atitudes necessárias à conversão; pois Deus, ao agir conforme a sua graça, lida com homens como homens, como agentes racionais. Ele atrai o homem, muda o seu coração, abrindo-lhe os olhos, e o converte do poder de Satanás a Deus, ao convertê-lo primeiro das trevas à luz (Atos 26.18).

2.Todos aqueles que estão verdadeiramente convertidos a Deus, serão certamente curados por Ele. “Se eles se converterem, eu os curarei, eu os salvarei”. Assim, se os pecadores perecem, que isto não seja imputado a Deus, mas a eles mesmos. Eles tolamente esperam ser curados, sem se converterem.

3.Ê justo da parte de Deus negar a sua graça àqueles que têm recusado, há muito tempo e frequentemente, as propostas da sua graça, e resistido ao poder dela. O Faraó, por um bom tempo, endureceu o seu próprio coração (Êxodo 8.15,32), e posteriormente o próprio Deus o endureceu (Êxodo 9.12; 10.20). Que temamos então, para que não pequemos contra a graça divina; pois se assim procedermos, ela se retirará da nossa vida.

(2) Outros foram efetivamente chamado s para ser discípulos de Cristo, e estavam realmente desejosos de ser ensinados por Ele; estes foram instruídos, e seu conhecimento grandemente aumentou por essas parábolas, especialmente quando elas foram explicadas; e por elas as coisas de Deus se tornaram mais claras e fáceis, mais inteligíveis e familiares, e mais propícias de se­ rem lembradas (vv. 16,17). “Os vossos olhos… veem, e os vossos ouvidos… ouvem”. Eles viram a glória de Deus na pessoa de Cristo; eles ouviram qual era o pensamento de Deus, pois estava expresso na doutrina de Cristo; eles viram muito, e estavam desejosos de ver mais, e assim estavam preparados para receber mais instruções – eles tiveram oportunidade para isso, por estarem constantemente na companhia de Cristo. E eles receberiam as suas preciosas instruções diariamente, e elas estariam acompanhadas pela graça. Agora Cristo fala dessa situação:

[1] Como uma bênção: “Bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem” – isso é uma felicidade, e é uma felicidade pela qual estais em dívida com os peculiares favores e bênçãos de Deus. Essa é uma bênção que foi prometida no Antigo Testamento – de que nos dias do Messias “os olhos dos que veem não olharão para trás” (Isaias 32.3). Os olhos do menor crente que já experimentou a graça de Cristo são mais bem-aventurados do que os dos maiores sábios, dos maiores mestres da filosofia experimental, que são estranhos a Deus; estes, como os deuses a quem eles servem, “têm olhos, mas não veem”. A verdadeira bênção envolve o entendimento correto e um adequado aperfeiçoamento na compreensão dos mistérios do reino de Deus. “O ouvido que ouve e o olho que vê” são obra de Deus naqueles que são santificados; eles são obra de sua graça (Provérbio 20.12), e são uma obra abençoada, que será realizada com poder, quando aqueles que hoje veem “por espelho, em enigma”, verão “face a face”. Foi para ilustrar essa bem-aventurança que Cristo falou tanto da miséria daqueles que são deixados na ignorância; eles têm olhos e não veem; mas “bem-aventurados os vossos olhos, porque veem”. O conhecimento de Cristo é um favor que distingue aqueles que o têm, e, por conta disso, eles estão sob grandes obrigações (veja João 14.22). Os apóstolos deveriam ensinar a outros, e assim eles mesmos seriam abençoados com as mais claras descobertas da verdade divina. Os “atalaias… olho a olho verão” (Isaias 52.8).

[2] Como uma bênção transcendente, desejada (mas não alcançada) por muitos profetas e justos (v. 17). Os santos do Antigo Testamento, que tinham alguns vislumbres, algumas ideias vagas, da luz do Evangelho, desejavam ardentemente maiores descobertas. Eles tinham tipos, sombras e profecias, mas queriam ver a Essência, o final glorioso daquelas coisas para as quais eles não poderiam olhar fixamente; o glorioso interior daquelas coisas dentro das quais eles não podiam olhar. Eles desejavam ver a grande Salvação, a Consolação de Israel, mas não a viram, pois o tempo certo ainda não havia chegado. Note, em primeiro lugar, que aqueles que sabem algo de Cristo, não podem deixar de ansiar por saber mais. Em segundo lugar, que as descobertas da graça divina são feitas, mesmo pelos profetas e justos, somente de acordo com o que lhes é dispensado. Apesar de eles serem os favoritos do céu, com os quais estava o segredo de Deus, mesmo assim eles não viram as coisas que desejavam ver, porque Deus havia determinado não trazê-las à luz ainda; e seus favores não anteciparão seus desígnios. Havia, naquela época, como ainda há, uma glória a ser revelada; algo reservado, de modo que eles, sem nós, não poderiam ser aperfeiçoados (Romanos 8.18; Hebreus 11.40). Em terceiro lugar, para estimular a nossa gratidão e apressar a diligência, é bom considerarmos de que meios dispomos. e que revelações nos foram feitas, agora, sob o Evangelho, acima das que tinham e dispunham aqueles que viviam sob a dispensação do Antigo Testamento, especialmente no que tange à revelação da expiação do pecado. Vejamos quais são as vantagens do Novo Testamento acima do Antigo (2 Coríntios 3.7ss.; Hebreus 12.18); e vivamos de modo que o nosso aperfeiçoamento esteja de acordo com as vantagens que temos na Nova Aliança.

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MATEUS 12: 46-50

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Quem São os Parentes de Cristo

Muitas palavras admiráveis e úteis saíram dos lábios de nosso Senhor Jesus Cristo em ocasiões especiais; até as suas divagações eram educativas, assim como os seus discursos, como aqui:

Observe:

I – Como Cristo foi interrompido, em suas pregações, por sua mãe e seus irmãos, que estavam fora, e desejavam falar com Ele (vv. 40-47); esse desejo deles lhe foi transmitido pela multidão. É desnecessário indagar quais eram os seus irmãos que vieram com Maria (talvez fossem aqueles que não criam nele, João 7.5); ou qual era o assunto deles. Talvez tivessem somente a intenção de interrompê-lo, por temerem que Ele se cansasse, ou para adverti-lo de que prestasse atenção para não ofender com o seu discurso os fariseus, ou ainda se envolvesse em apuros; como se eles pudessem lhe ensinar sabedoria.

1.Ele estava ainda falando com o povo. Observe que a pregação de Cristo estava sendo proferida; era simples, fácil, familiar e condizia com a capacidade e exemplo dos ouvintes. Aquilo que Cristo dizia, era criticado, e ainda assim Ele continuou. Note que a oposição que encontramos no nosso trabalho não deve nos afastar dele. Ele parou de falar com os fariseus, porque viu que não poderia fazer nada de bom por eles; mas continuou a falar com as pessoas comuns, que, não tendo tal presunção de seu conhecimento como os fariseus tinham, estavam desejosas de aprender.

2.Sua mãe e irmãos estavam do lado de fora, desejando falar com Ele, quando deveriam estar do lado de dentro, ouvindo-o. Eles tinham a vantagem de sua conversa diária em particular, e, por consequência, não se preocupavam tanto em comparecer à sua pregação pública. Observe que frequentemente aqueles que estão muito próximos dos meios do conhecimento e da graça, são mais negligentes. A familiaridade e a facilidade de acesso originam doses de desdém. Nós somos capazes de negligenciar, neste dia, aquilo que achamos que podemos ter em qualquer dia, esquecendo-nos de que só podemos ter certeza do tempo presente; o amanhã não nos pertence. Há muita verdade neste provérbio simples: “Quanto mais próximo da igreja, mais longe de Deus”; é uma pena que este provérbio seja verdadeiro, em alguns casos.

1.Eles não somente não o ouviriam, mas também interromperiam outros que o ouviam satisfeitos. O diabo era um inimigo declarado à pregação do Salvador. Ele procurou frustrar o seu discurso com a crítica ir racional dos escribas e fariseus, e quando não conseguiu marcar o seu ponto desta maneira, se empenhou em interrompê-lo com a visita inoportuna dos seus parentes. Observe que frequentemente nos deparamos com impedimentos e obstáculos em nosso trabalho, por parte dos nossos amigos que estão ao nosso redor, e que tentam nos remover de nosso relacionamento espiritual através das relações civis. Aqueles que realmente desejam o bem para nós e para o nosso trabalho, podem, às vezes, por sua indiscrição, se tornar falsos amigos, nos obstruindo em nosso dever; assim como Pedro foi ofensivo com Cristo, através de sua expressão: “Senhor, tem compaixão de ti”. O apóstolo pensou que estivesse sendo muito agradável ao Senhor ao proferir estas palavras. A mãe de nosso Senhor desejava falar com Ele; parecia que ela não tinha aprendido a controlar o seu Filho, conforme a iniquidade e a idolatria da igreja romana desejariam ensiná-la; nem ela não estava tão livre das faltas e da insensatez como eles supunham. Era a prerrogativa de Cristo, e não a de sua mãe, fazer tudo sabiamente, e bem, e no momento propício. Certa vez Ele disse à sua mãe: “Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” E então foi dito que “sua mãe guardava no coração todas essas coisas” (Lucas 2.49,51). Mas se ela tivesse se lembrado disso nesse momento, não o teria interrompido quando estava tratando dos negócios de seu Pai. Observe que há muitas verdades úteis que pensávamos ter sido bem guardadas quando as ouvimos; porém, elas parecem estar fora do nosso alcance, quando temos a oportunidade de usá-las.

II – Como Jesus reprovou esta interrupção (vv.48-50).

1.Ele não daria atenção a ela porque estava tão absorto em seu trabalho que nenhum motivo natural ou civil o afastaria dele. “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?” Isto não significa que a afeição natural possa ser evitada, ou que, sob a desculpa da religião, possamos ser desrespeitosos com os pais, ou indelicados com outros parentes, mas cada coisa é bela no momento propício, e o dever menor deve esperar, enquanto o maior é realizado. Quando a nossa atenção aos nossos parentes compete com o serviço a Deus, e temos a oportunidade de fazer o bem, em tal situação devemos dizer a nosso Pai: “Nunca o vi”, como disse Levi (Deuteronômio 33.9). Os parentes mais próximos devem ser tratados dessa forma, isto é, devemos amá-los menos do que a Cristo (Lucas 14.26), e o nosso dever para com Deus deve ter a preferência. Cristo nos deu aqui um exemplo sobre isso; a dedicação à casa de Deus o consumiu, a ponto de fazer com que Ele se esquecesse não apenas de si mesmo, mas também dos seus parentes mais queridos. E nós não devemos nos sentir ofendidos com os nossos amigos, nem exagerar por causa de suas maldades, se eles preferirem agradar a Deus antes de nos agradar; mas devemos prontamente perdoar estas negligências que podem facilmente ser atribuídas a uma dedicação religiosa à glória de Deus e ao bem dos outros. Nós devemos negar a nós mesmos e à nossa própria satisfação, em vez de fazer aquilo que pode, de alguma maneira, desviar nossos amigos, ou afastá-los do seu dever para com Deus.

2;Jesus aproveitou aquela ocasião para dar preferência aos seus discípulos – que eram a sua família espiritual -, e não aos seus parentes naturais. Esta é uma boa razão que explica por que Ele não deixaria de pregar para falar com seus irmãos, preferindo favorecer os seus discípulos a agradar os seus parentes. Observe:

(1). A descrição dos discípulos de Cristo. Eles faziam a vontade do seu Pai; não somente a ouviam, mas a conheciam e falavam dela, e também a praticavam; porque fazer a vontade de Deus é o melhor preparativo para o discipulado (João 7.17), e a melhor prova dele (cap. 7.21) ­ é o que nos estabelece como seus verdadeiros discípulos. Cristo não diz: “Qualquer que fizer a minha vontade”, porque Ele não veio realizar ou fazer a sua própria vontade, uma vontade distinta da vontade do seu Pai: a sua vontade e a do seu Pai são as mesmas. Mas Ele nos conduz a fazer a vontade do seu Pai, porque, naquele momento, vivendo aqui na terra, Ele também se sujeitou a esta preciosa vontade (João 6.38).

(2). A dignidade dos discípulos de Cristo: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos”. Os seus discípulos, que deixaram tudo para segui-lo e aceitaram a sua doutrina, eram mais queridos por Ele do que qualquer um com quem tivesse um parentesco segundo a carne. Ao invés de seus parentes, eles tinham dado preferência a Cristo; deixaram seus pais (cap. 4.22; 10.37); e agora para compensá-los, e mostrar que não havia amor perdido, Ele dava preferência a eles ao invés de aos seus parentes. Por causa disso, eles não haviam de receber “cem vezes tanto”? (cap. 19.29). Era muito encorajador e afetuoso para Cristo dizer: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos”; mas este privilégio não era só deles, pois todos os santos têm esta honra. Observe que todos os crentes obedientes são parentes próximos de Jesus Cristo. Eles usam o seu nome, trazem em si mesmos a sua imagem, têm a sua natureza, são a sua família. Ele os ama, e conversa livremente com eles como se fossem seus parentes. Ele os recebe em sua mesa, cuida deles, provê o seu sustento, e se certifica de que não queiram nada que não seja bom para si mesmos. Quando Ele morreu, deixou-lhes uma rica herança. E agora que está no céu, Ele continua a manter contato com eles, todos estarão com Ele no final, e Ele desempenhará a função de parente remidor (Rute 3.13). O Senhor não se envergonhará de seus parentes pobres, mas os confessará diante dos homens, diante dos anjos, e diante do seu Pai.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 38-45

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Os Fariseus Pedem um Sinal

É provável que esses fariseus com quem Cristo se deparou na ocasião desse sermão não fossem os mesmos que o criticaram (v. 24), e não acreditaram nos sinais que Ele fez; mas outro grupo deles, que viram que não havia razão para desacreditá-los, mas não se contentariam com eles, nem admitiriam a sua evidência, a menos que Ele lhes desse mais provas de acordo com a exigência deles. Aqui está:

 

I – A saudação deles para com Ele (v. 38). Eles o saudaram com o título de “Mestre”, fingindo ter respeito por Ele, quando, na verdade, pretendiam maltratá-lo; pois nem todos eram servos de Cristo para chamá-lo de Mestre. A solicitação deles foi: “Quiséramos ver da tua parte algum sinal”. Era muito razoável que eles vissem um sinal, e que o Senhor Jesus pudesse, através dos milagres provar a sua missão divina (veja Êxodo 4.8-9). Ele veio para anular um modelo de religião que estava baseado em milagres, e, consequentemente, era necessário que Ele produzisse as mesmas referências; mas era extremamente irracional exigir um sinal agora, quando Ele já tinha dado tantos sinais que provavam copiosamente que Ele tinha sido enviado por Deus. Observe que é natural para o homem arrogante exigir de Deus, e fazer disso uma desculpa para não aceitá-lo; mas a ofensa de um homem nunca será a sua defesa.

 II – A resposta de Jesus para esta saudação, esta exigência insolente:

1.Ele condena a exigência, classificando-a como a linguagem de uma geração má e adúltera (v. 39). Ele impõe a acusação não somente sobre os escribas e fariseus, mas sobre toda a nação dos judeus; todos eles eram semelhantes aos seus líderes, eram uma descendência e sucessão de malfeitores. Eles, na verdade, eram uma geração má, pois não somente se obstinaram contra a convicção dos milagres de Cristo, como também se uniram para maltratá-lo e desprezar os seus milagres. Eles eram uma geração adúltera:

(1) Como uma descendência adúltera, estavam tão miseravelmente degenerados quanto à fé e a obediência de seus antepassados, que Abraão e Israel não os reconheceriam. Veja Isaias 57.3. Ou:

(2) Como uma esposa adúltera, eles se afastaram daquele Deus, com quem, por concerto, eles tinham se casado. Eles não eram culpados por se prostituírem pela idolatria, como tinham feito antes pela servidão, mas eram culpados pela infidelidade e por toda iniquidade que também é prostituição. Eles não procuraram deuses de sua própria criação, mas procuraram por sinais de sua própria invenção, e isto era adultério.

2.Jesus se recusa a dar-lhes qualquer outro sinal além dos que já havia apresentado, exceto o do profeta Jonas. Observe que embora Cristo esteja sempre pronto para ouvir e atender às orações e aos desejos verdadeiros, ainda assim Ele não satisfará luxúrias pervertidas e caprichos. Aqueles que pedem errado, pedem, mas não recebem. Os sinais foram concedidos para aqueles que os desejavam para a confirmação de sua fé, como Abraão e Gideão; mas foram negados para aqueles que os exigiam como desculpa para a sua incredulidade.

Com muita justiça, Cristo disse que Eles nunca presenciariam outro milagre; mas veja a bondade maravilhosa do Senhor:

(1) Eles terão os mesmos sinais ainda repetidos, para seu benefício adicional e para a sua convicção ainda mais ampla.

(2) Eles terão um tipo de sinal diferente de todos esses, que é a ressurreição de Cristo pelo seu próprio poder, aqui chamado de sinal do profeta Jonas – isto ainda estava reservado para a convicção deles, e seria uma grande prova de que Cristo era o Messias; por isso Ele foi declarado como o “Filho de Deus em poder” (Romanos 1.4). Este foi um sinal que superou todos os outros, completando-os e coroando-os. Se por acaso ainda não crerem nestes sinais, crerão neste (Êxodo 4.9), e se isto não os convencer, nada o fará. Mas ainda assim os judeus, em sua incredulidade, tentaram encontrar uma evasiva para evitar maiores constrangi­ mentos, quando disseram: “Vieram de noite os seus discípulos e, dormindo nós, o furtaram”; pois ninguém é tão irremediavelmente cego quanto aqueles que estão de­ terminados a não ver.

Agora, quanto ao sinal do profeta Jonas, Jesus esclarece aqui (v. 40): “Como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do Homem três dias e três noites no seio da terra”. E após este período, Ele saiu dali.

[1] O sepulcro era, para Cristo, o que o ventre da baleia era para Jonas. Ali Cristo ficou, como um resgate pelas vidas prestes a serem perdidas numa tempestade; lá Jonas ficou, como no ventre do inferno (Jonas 2.2), e pareceu ser banido da visão de Deus.

[2] Ele permaneceu no sepulcro exatamente o mesmo período que Jonas permaneceu no ventre da baleia, três dias e três noites; não três dias e noites inteiros. É provável que Jonas não tenha permanecido tanto tempo no ventre da baleia, mas parte dos três dias normais. Jesus foi sepultado na tarde do sexto dia da semana, e ressuscitou na manhã do primeiro dia; esta era uma maneira de falar muito comum (veja 1 Reis 20.29; Efésios 4.16; 5.1; Lucas 2.21). O mesmo período de tempo em que Jonas foi um prisioneiro por seus pecados, Cristo foi um prisioneiro pelos nossos.

[3] Assim como Jonas se consolou no ventre da baleia com a certeza de que ainda “tornaria a ver o templo da… santidade” de Deus (Jonas 2.4), também diz-se expressamente que Cristo, quando permaneceu na sepultura, repousou em esperança, como alguém que recebe a certeza de não ver a corrupção (Atos 2.26,27).

[4] Como Jonas, no terceiro dia, foi liberado de sua prisão, e retornou à terra dos vivos novamente, vindo da congregação dos mortos (diz-se que as coisas mortas estão debaixo das águas, Jó 26.5), também Cristo, no terceiro dia, retornaria para a vida, e se levantaria do seu túmulo e difundir o Evangelho aos gentios.

3.Cristo aproveita esta ocasião para revelar o caráter e a triste condição da geração em que Ele viveu, uma geração que não poderia ser transformada, e, consequentemente, só poderia ser destruída; e mostrou-lhes o seu caráter, como Ele estaria no dia do julgamento, sob as revelações e sentenças finais daquele dia. Pessoas e coisas aparecem agora sob cores falsas; condições e caráter são passíveis de transformação aqui; portanto, se pudermos fazer uma avaliação correta, deveremos tomar nossas providências sobre o último julgamento; a verdadeira identidade das coisas e pessoas é aquilo que serão eternamente, e não aquilo que são hoje.

Aqui Cristo revela o povo judeu:

(1) Como uma geração que seria condenada pelos homens de Nínive, cujo arrependimento pela pregação de Jonas se ergueria no julgamento contra eles (v. 41). A ressurreição de Cristo será para eles o sinal do profeta Jonas – mas não terá sobre eles um efeito tão favorável, como o de Jonas teve sobre os ninivitas. Por Jonas, eles foram levados ao arrependimento que evitou a sua destruição; mas os judeus serão obstinados na descrença que deverá apressar a sua destruição; e no Dia do Juízo, o arrependimento dos ninivitas será mencionado como um agravamento do pecado, e, consequentemente, a condenação daqueles para quem Cristo pregou então, e daqueles a quem Cristo está pregando agora; por esta razão, Cristo é maior que Jonas.

[1] Jonas era apenas um homem, sujeito às mesmas paixões pecaminosas que nós; mas Cristo é o Filho de Deus.

[2] Jonas era um forasteiro em Nínive, ele veio entre os forasteiros que sofreram preconceito contra seu país; mas Cristo veio aos seus quando pregou aos judeus, e muito mais quando é pregado entre os cristãos professos, que são chamados pelo seu nome.

[3] Jonas pregou apenas um curto sermão, sem grandes solenidades, à medida que andava pelas ruas; Cristo renovou os seus chamados, sentou-se e ensinou, e ensinou nas sinagogas.

[4] Jonas pregou nada além de ira e ruína no prazo de 40 dias; não deu instruções, orientações ou incentivo para que se arrependessem; mas Cristo, além de nos avisar sobre o nosso perigo, mostrou do que devemos nos arrepender, e nos assegurou da aceitação que temos mediante o nosso arrependimento, porque é chegado o Reino dos céus.

[5] Jonas não realizou nenhum milagre para confirmar a sua doutrina, nem mostrou boa vontade para com os ninivitas; mas Cristo realizou muitos milagres, e todos eles milagres de misericórdia; ainda assim, os ninivitas se arrependeram através da pregação de Jonas, mas os judeus não foram transformados pela pregação de Cristo. Note que a bondade de alguns, que têm menos amparo e benefícios para suas almas, agravará a maldade daqueles que têm muito mais. Aqueles que no crepúsculo descobrem as coisas que pertencem à sua paz envergonharão aqueles que tateiam ao meio-dia.

(2) Como uma geração que seria condenada pela Rainha do Sul, a Rainha de Sabá (v. 42). Os ninivitas se envergonhariam deles por não se arrependerem, a Rainha de Sabá, por não crerem em Cristo. Ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; embora o povo não seja persuadido a vir e ouvir a sabedoria de Cristo, mesmo assim Ele é mais do que Salomão.

[l] A Rainha de Sabá não tinha convite para vir até Salomão, ou qualquer promessa de ser bem recebida; mas nós somos convidados por Cristo para nos sentarmos aos seus pés e ouvirmos suas palavras.

[2] Salomão era apenas um homem sábio, mas Cristo é sabedoria em si, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria”.

[3] A Rainha de Sabá teve muitas dificuldades para chegar até Salomão: ela era uma mulher, inapta para fazer uma viagem longa e perigosa; era uma rainha, e o que seria do seu país na sua ausência? Nós não temos tais preocupações que nos impeçam.

[4] Ela não podia ter certeza de que valeria a pena ir tão longe nessa missão; a fama costuma adular os seres humanos, e talvez ela tivesse em seu país ou corte homens suficientemente sábios para instruí-la; ainda assim, tendo ouvido falar sobre a fama de Salomão, foi vê-lo; mas nós não vamos até Cristo com tais incertezas.

[5] Ela veio dos confins da terra, mas nós temos Cristo entre nós, e a sua palavra próxima de nós: “Eis que estou à porta e bato”.

[6] Aparentemente, a sabedoria pela qual a Rainha de Sabá veio de tão longe era somente filosofia e política; mas a sabedoria que se deve ter em Cristo é a sabedoria para a salvação.

[7] Ela só poderia ouvir a sabedoria de Salomão; ele não poderia dar sabedoria a ela; mas Cristo dá sabedoria para aqueles que vêm até Ele; mais ainda, Ele mesmo será a sabedoria de Deus para eles; de maneira que, com todos estes relatos, se nós não ouvirmos a sabedoria de Cristo, a audácia da Rainha de Sabá em vir e ouvir a sabedoria de Salomão se erguerá em julgamento contra nós e nos condenará; porque Jesus Cristo é mais e maior que Salomão.

(3) Como uma geração que resolveu continuar no domínio, e sob o poder, de Satanás, apesar de todos os métodos que foram usados para expulsá-lo e salvá-los. Eles são comparados a alguém de quem o diabo se foi, mas retorna com força multiplicada (vv. 43-45). O demônio é chamado aqui de espírito imundo, porque perdeu toda a sua pureza e promove todas as formas de impureza entre os homens, e se deleita com elas. Aqui:

[l] A parábola representa a possessão que o demônio faz dos corpos dos homens – Cristo havia recentemente expulsado um demônio, porém eles disseram que Ele tinha um demônio; isto mostrou o quanto eles estavam sob o poder de Satanás. Esta é mais uma prova de que Cristo não expulsou os demônios por ter um acordo com o diabo, porque se fosse assim, ele teria logo retornado; mas a expulsão dele por Cristo foi final, e de tal modo que barrava uma reentrada; nós o encontramos ordenando ao espírito imundo que saísse, e não entrasse novamente (Marcos 9.25). Provavelmente, algumas vezes, o demônio estava acostumado a zombar dessa maneira daqueles que eram possuídos; ele saía e retornava com mais fúria; por isso os intervalos lúcidos daqueles que estavam nessas condições eram comumente seguidos dos mais violentos ataques. Quando o demônio sai, ele fica inquieto, porque, como os ímpios, não repousa se não fizer mal (Provérbio 4.16); anda por lugares áridos, como alguém que está muito melancólico; busca repouso, e não o encontra, até retornar novamente. Quando Cristo baniu a legião de demônios do homem, eles imploraram para sair e entrar em uma manada de porcos, e já não foram para lugares áridos, mas para dentro do lago.

[2] A aplicação da parábola serve para representar o caso do corpo da religião judaica e a nação: ”Assim acontecerá também a esta geração má”, que agora resiste e finalmente rejeitará o evangelho de Cristo. O demônio, que, pelo trabalho de Cristo e dos seus discípulos, foi expulso de muitos judeus, procurou abrigar-se entre os pagãos, tendo saído daquelas pessoas e templos de onde os cristãos o expulsariam. Conforme o Dr. Whitby, pode ser que eles não tenham encontrando outro lugar, no mundo pagão, onde sentissem tal prazer, habitações agradáveis, para a sua satisfação, como aqui no coração dos judeus. Conforme o Dr. Hammond, Satanás deverá, portanto, entrar novamente neles, pois Cristo não encontrou acesso entre eles, e eles, por sua prodigiosa maldade e descrença obstinada, não estavam, de forma alguma, prontos para recebê-lo. E então sofreriam aqui uma possessão duradoura, e a condição desse povo provavelmente seria mais desesperadamente deplorável (conforme o Dr. Hammond) do que era antes que Cristo viesse a eles, ou mais do que teria sido se Satanás nunca tivesse sido expulso.

A comunidade dessa nação está aqui representada. Em primeiro lugar, como um povo apóstata. Depois do cativeiro na Babilônia, eles começaram a transformação, abandonaram os seus ídolos e apareceram com algum tipo de religião; mas logo se corromperam novamente; embora nunca tivessem reincidido na idolatria, caíram em todas as formas de irreligiosidade e profanação, pioraram cada vez mais, e adicionaram a todo o resto de sua maldade um desprezo intencional para com Cristo e o seu Evangelho. Em segundo lugar, como um povo marcado pela destruição. Uma nova comissão estava sendo enviada contra esta nação hipócrita, o povo da ira de Deus (como em Isaias 10.6), e sua destruição pelos romanos seria provavelmente maior do que qualquer outra, como os seus pecados tinham sido mais evidentes: foi então que “a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Tessalonicenses 2.15,16). Que isto seja um aviso para todas as nações e igrejas, para que prestem atenção e não abandonem o seu primeiro amor, não deixem que se perca a excelente obra de transformação que começou entre eles, retornando para a maldade que pareciam ter abandonado; pois a última condição dessas pessoas será pior do que a primeira.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 22-37

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O Pecado contra o Espírito Santo

 Nestes versículos, temos:

I – A gloriosa derrota de Satanás imposta por Cristo, na cura graciosa daquele que, por permissão divina, estava sob o poder e a possessão de Satanás (v. 22). Aqui observe:

1.O caso desse homem era muito triste, ele estava endemoninhado. Casos desse tipo ocorriam na época de Cristo mais do que era usual, para que o poder de Cristo pudesse ser mais enaltecido, e o seu objetivo de opor-se a Satanás e expulsá-lo, manifesto; e para que pudesse parecer mais evidente que Ele veio para desfazer as obras do diabo. Este pobre homem que estava endemoninhado era cego e mudo; um caso infeliz! Ele nem conseguia ver, para fazer as coisas, nem falar, para que os outros o ajudassem. Uma alma sob o poder de Satanás, e mantida cativa por ele, está cega às coisas de Deus, e muda para o trono da graça; não vê nada e não diz nada quanto a isto. Satanás cega os olhos da fé, e veda os lábios da oração.

2.A sua cura foi muito estranha, e ainda mais, porque foi repentina. Ele o curou. A derrota e a expulsão de Satanás são a cura das almas. E sendo removida a causa, imediatamente cessa o efeito; o cego e mudo viu e falou. A misericórdia de Cristo é diretamente contrária à maldade de Satanás; a sua graça, aos truques do diabo. Quando o poder de Satanás na alma se rompe, os olhos se abrem para ver a glória de Deus, e os lábios se abrem para dizer louvores a Ele.

II – A convicção que isso deu a toda a multidão: “Toda a multidão se admirava”. Cristo tinha realizado vários milagres deste tipo antes. Mas as suas obras não são menos maravilhosas, nem menos admiráveis, por serem frequentemente repetidas. A partir disso, as pessoas deduziram: “Não é este o Filho de Davi?” Em outras palavras: Não é este o Messias prometido, que nasceria de Davi? Este não é aquele que viria? Nós podemos interpretar isso:

1.Como uma pergunta de investigação; eles perguntaram: “Não é este o Filho de Davi?” Mas eles não esperaram uma resposta: as impressões eram convincentes, mas temporárias. A pergunta foi um bom início, mas, aparentemente, logo foi perdida e não se perseverou nela. Convicções como essas devem ser conduzidas à mente, e então provavelmente serão levadas ao coração. Ou:

2.Como uma pergunta afirmativa: “Não é este o Filho de Davi”? “Sim, certamente é, não pode ser outro; milagres como estes evidenciam claramente que o reino do Messias está se estabelecendo”. E essas eram as pessoas, o tipo comum de espectadores, que chegaram a tal conclusão, com base nos milagres de Cristo. Os ateus dirão: “Isto era porque eles eram menos observadores que os fariseus”. Não. A verdade era óbvia, e não exigia muita pesquisa. Mas era porque eles tinham menos preconceitos e eram menos influenciados pelos interesses mundanos. Tão claro e fácil foi feito o caminho para esta grande verdade de Cristo ser o Messias e Salvador deste mundo, que as pessoas comuns não poderiam se enganar; “os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (veja Isaias 35.8). Quem o procurou, o encontrou. É um exemplo da condescendência da graça divina, que as coisas que estavam ocultas aos sábios e prudentes fossem reveladas aos pequeninos. O mundo não conheceu a Deus através de sua própria sabedoria, e os sábios foram confundidos pelas coisas mais simples.

III – A crítica blasfema dos fariseus (v. 24). Os fariseus eram homens que aparentavam ter mais conhecimento da lei, e mais zelo por ela, que as demais pessoas; mas eles eram os inimigos mais inveterados de Cristo e da sua doutrina. Eles se orgulhavam da reputação que tinham entre o povo; isso alimentava o seu orgulho, sustentava o seu poder e enchia os seus bolsos; e quando ouviram as pessoas dizendo: “Não é este o Filho de Davi?”, eles ficaram extremamente irritados, mais do que pelo milagre em si – isso os fez sentir inveja do nosso Senhor Jesus, e os deixou apreensivos de que, à medida que crescesse a figura dele na consideração do povo, a deles, naturalmente, seria eclipsada e diminuída. Por isso eles o invejaram, como Saul se sentiu em relação ao seu genro, Davi, por causa do que as mulheres falavam sobre ele (1 Samuel 18.7,8). Aqueles cuja felicidade depende do elogio e do aplauso dos homens se expõem a uma situação de desconforto perpétuo em relação a cada palavra favorável que ouvirem a respeito de outra pessoa. A sombra da honra seguia a Cristo, que fugia dela, e fugia dos fariseus, que ansiosamente a perseguiam. Eles disseram: “‘Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios’, e, portanto, não é o Filho de Davi”. Observe:

1.O menosprezo com que eles falam de Cristo, “este”; como se o seu precioso nome, que é um precioso unguento derramado sobre os seus seguidores, não fosse digno de ser levado aos seus lábios. E um exemplo do orgulho e da arrogância deles, e também da sua inveja diabólica, o fato de que, quanto mais as pessoas enalteciam a Cristo, mais eles se empenhavam para difamá-lo. É uma impiedade falar com desdém de homens bons somente por serem pobres.

2.A maneira blasfema corno eles falam dos milagres de Jesus. Eles não podiam negar a verdade; era tão claro como o sol, que os demônios eram expulsos pela palavra de Cristo; nem podiam negar que era uma coisa extraordinária, e sobrenatural. Sendo, dessa maneira, forçados a aceitar as premissas, eles não tinham outra maneira de evitar a conclusão de que este é o Filho de Davi, exceto sugerir que Cristo expulsava os demônios por Belzebu; que havia um pacto entre Cristo e o diabo – de acordo com este pacto, o demônio não era expulso, mas se afastava voluntariamente e consentia em devolver a pessoa – ou como se, por um acordo com o príncipe dos demônios, Ele tivesse poder para expulsar os demônios inferiores. Nenhuma conjetura poderia ser mais falsa e infame do que esta; que Ele, que é a própria verdade, estivesse de acordo com o pai da mentira, para enganar o mundo. Este era o último refúgio, ou melhor subterfúgio, ou uma infidelidade obstinada, que estava decidida a se opor à mais clara convicção. Observe que entre os demônios há um príncipe, o líder da apostasia contra Deus e da rebelião contra Ele; mas este príncipe é Belzebu, o deus das moscas, ou o deus das esterqueiras. Como tu decaíste, ó Lúcifer! De um anjo de luz para ser o senhor das moscas! Mas este também é o príncipe dos demônios, o líder da gangue dos espíritos infernais.

 IV – A resposta de Cristo a esta insinuação vil (vv. 25- 30). Jesus conheceu os pensamentos deles. Jesus Cristo sabe o que nós estamos pensando em qualquer ocasião, pois Ele conhece o que há nos homens; Ele compreende os nossos pensamentos à distância. Pode ser que os fariseus, por vergonha, não disseram isto, mas guardaram estes pensamentos; eles não podiam esperar satisfazer as pessoas com isto, portanto reservaram este pensamento para silenciar a convicção das suas próprias consciências. Observe que muitos são afastados de seus deveres por aquilo que se envergonham de possuir, mas que não conseguem ocultar de Jesus Cristo; ainda assim, é provável que os fariseus tenham sussurrado entre si o que pensavam, para ajudarem-se, uns aos outros, a permanecerem insensíveis. Mas a resposta de Cristo denunciou os pensamentos daqueles iníquos, porque Ele sabia que com aquele pensamento, e a partir daquele princípio, eles o disseram; eles não disseram nada com afobação, mas aquele era o produto de uma maldade enraizada.

A resposta de Cristo a esta acusação é abundante e convincente, para que cada boca possa ser interrompida com sensatez e razão, antes de ser interrompida com fogo e enxofre. Aqui estão três argumentos pelos quais Ele demonstra a irracionalidade dessa ideia:

1.Seria muito estranho, e altamente improvável, que Satanás fosse expulso por um pacto como este, porque então o reino de Satanás seria dividido contra si mesmo, o que, considerando a sua astúcia, não é algo que se deva imaginar (vv. 25,26).

 (1). Aqui está registrada uma lei conhecida, de que em todas as sociedades uma ruína comum é a consequência de disputas mútuas: “Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa” também: Pois qual família é tão forte, qual comunidade é tão firme, a ponto de não ser arruinada pela inimizade e pelas disputas?  Normalmente, as divisões acabam em devastações; se nós nos chocarmos, nos quebraremos; se nos separarmos uns dos outros, nos tornaremos uma presa fácil para um inimigo comum: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros” (Gálatas 5.15). As igrejas e as nações sabem disso por suas tristes experiências.

(2). A aplicação da lei ao caso em questão (v. 26). Se Satanás expulsa a Satanás, se o príncipe dos demônios estiver em desacordo com os demônios inferiores, todo o reino e os interesses em breve estarão destruídos. Se Satanás viesse a fazer um pacto com Cristo, isto seria a sua própria ruína; pois o desígnio e a tendência manifestos da pregação e dos milagres de Cristo eram para derrotar o reino de Satanás, como um reino de trevas, maldade e inimizade a Deus; e para estabelecer, sobre as ruínas, um reino de luz, santidade e amor. As obras do diabo, como um rebelde contra Deus e um tirano sobre as almas dos homens, foram destruídas por Cristo, e, portanto, era o maior absurdo imaginar ou pensar que Belzebu permitiria tal desígnio, ou se envolveria com ele: se ele concordasse com Cristo, como, então, ficaria o seu reino? Ele mesmo contribuiria para a derrota do seu reino. Observe que o diabo tem um reino, um interesse comum, em oposição a Deus e a Cristo, que ele cuidará, com o máximo de suas forças, para que permaneça, e não concordará nunca com os interesses de Cristo; ele deve ser derrotado e destruído por Cristo, e, portanto, não pode se submeter ou se render a Ele. Que acordo ou comunhão pode existir entre a luz e as trevas, entre Cristo e Belial, entre Cristo e Belzebu? Cristo irá destruir o reino do diabo, mas Ele não precisa fazer isto usando nenhuma artimanha como a de um pacto secreto com Belzebu; não, a sua vitória deve ser obtida por meio de métodos mais nobres. Mesmo que o príncipe dos demônios reúna todas as suas forças, mesmo que ele use todos os seus poderes e toda a sua política, e mantenha os seus interesses em uma confederação fechada, ainda assim Cristo será demais para a sua força reunida, e o seu reino não permanecerá.

2.Não era completamente estranho, ou improvável, que os demônios fossem expulsos pelo Espírito de Deus, pois:

(1) “Por quem os expulsam, então, os vossos filhos?” Havia aqueles, entre os judeus, que, invocando o nome do Deus supremo, ou do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, algumas vezes expulsavam demônios. Josefo fala de alguns que o faziam, na sua época. Nós lemos a respeito de exorcistas judeus (Atos 19.13) e de alguns que expulsavam demônios em nome de Cristo, embora não o seguissem (Marcos 9.38), ou não fossem fiéis a Ele (cap. 7.22). Os fariseus não condenavam essas pessoas, mas atribuíam o que elas faziam ao Espírito de Deus, e com isso valorizavam a si mesmos e à sua nação. Sendo assim, era meramente por despeito e inveja de Cristo que eles admitiam que outras pessoas expulsavam demônios pelo Espírito de Deus, mas sugeriam que Ele o fazia por ter um pacto com Belzebu. Observe que a atitude das pessoas maldosas, especialmente os maldosos perseguidores de Cristo e do cristianismo, é de condenar, nas pessoas a quem odeiam, a mesma coisa que aprovam ou aplaudem naqueles por quem têm alguma amizade ou boa relação. Os julgamentos de inveja se fazem, não pelas coisas, mas pelas pessoas; não por razões, mas por preconceitos. Mas aqueles homens eram muito pouco qualificados para ocupar a cadeira de Moisés, pois só conheciam os rostos e não tinham mais quaisquer elementos para julgar: “Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes”. “Esta contradição que vocês mesmos apresentam se erguerá em julgamento contra vocês no último dia, e condenará a cada um de vocês”. Note que, no juízo final, não somente cada pecado, mas também cada agravação de pecado, será trazido para a prestação de contas, e algumas das nossas noções do que era correto e bom serão postas em evidência contra nós, para nos condenar por parcialidade.

(2) Estas expulsões de demônios eram um sinal e uma indicação certos da aproximação e da manifestação do Reino de Deus (v. 28): “Se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o Reino de Deus”. Outros milagres que Cristo realizou provaram que Ele tinha sido enviado por Deus, mas isso provava que Ele tinha sido enviado por Deus para destruir o reino do demônio, e as suas obras. Então aquela grande promessa evidentemente se cumpria, a de que a semente da mulher iria ferir a cabeça da serpente (Genesis 3.15). “Portanto, aquela gloriosa revelação do reino de Deus, que durante tanto tempo foi esperada, agora se iniciou; desprezem-na, e correrão riscos”. Observe que:

[1] A destruição do poder do demônio se realiza pelo Espírito de Deus; aquele Espírito que trabalha para a obediência da fé, destrói o interesse do espírito que trabalha nos filhos da descrença e da desobediência.

[2] A expulsão dos demônios é uma apresentação segura do Reino de Deus. Se o interesse do diabo por uma alma for não apenas desafiado pelos costumes ou por restrições morais, mas também destruído e rompido pelo Espírito de Deus, como um Santificador, sem dúvida somente o Reino de Deus virá àquela alma, o reino da graça, uma antecipação bendita do reino da glória.

3.A comparação dos milagres de Cristo (particularmente este da expulsão dos demônios) com a sua doutrina e o desígnio e a tendência da sua santa religião evidenciava que Ele estava muito longe de estar em uma aliança com Satanás, mas sim que Ele estava em inimizade e hostilidade abertas contra ele (v. 29): “Como pode alguém entrar em casa do homem valente e furtar os seus bens, se primeiro não manietar o valente, saqueando, então, a sua casa?” Então ele pode fazer o que quiser com os bens. O mundo, que estava nas trevas, e vivia na maldade, era possessão de Satanás, e estava sob o seu poder. Como uma casa possuída por um homem valente, e sob o seu poder; assim é cada alma pecadora; ali vive Satanás, ali ele reina. Agora:

(1) O desígnio do Evangelho de Cristo era saquear a casa do diabo, a qual, como um homem valente, ele tinha no mundo; levar as pessoas das trevas à luz, do pecado à santidade, deste mundo a um melhor, do poder de Satanás a Deus (Atos 26.18); alterar a propriedade das almas.

(2) De acordo com este desígnio, Ele manietou o homem valente, quando expulsou os espíritos imundos pela sua palavra: assim Ele arrancou a espada da mão do diabo, para poder arrancar também o cetro. A doutrina de Cristo nos ensina como interpretar os seus milagres – e quando Ele mostrou com que facilidade e eficácia Ele podia expulsar o demônio dos corpos das pessoas, Ele incentivou todos os crentes a ter esperança de que, qualquer que fosse o poder que Satanás pudesse usurpar e exercer sobre as almas dos homens, Cristo, pela sua graça, romperia tal poder. Ele irá saquear as coisas de Satanás, pois Ele pode manietá-lo. Quando as nações se afastaram da idolatria aos ídolos para servir ao Deus vivo, quando alguns dos piores pecadores foram santificados e justificados e se tornaram os melhores santos, Cristo saqueou a casa do demônio e irá saqueá-la mais e mais.

4.Aqui se sugere que esta guerra santa, que Cristo está conduzindo com vigor contra o diabo e o seu reino, era tal que não admitia neutralidade (v.30): “Quem não é comigo é contra mim”. Nas pequenas diferenças que podem surgir entre os discípulos de Cristo, nós somos ensinados a reduzir as questões de divergência e a procurar a paz, considerando como favoráveis a nós aqueles que não estiverem contra nós (Lucas 9.50). Mas na grande disputa entre Cristo e o diabo, não se deve procurar a paz, nem alguma alternativa favorável, buscando algum tipo de indiferença quanto à questão – aquele que não é por Cristo sinceramente, será considerado como realmente contra Ele: aquele que estiver indiferente à causa, será considerado como um inimigo. Quando a disputa é entre Deus e Baal, não há hesitação entre os dois (1 Reis 18.21), não há adaptações entre Cristo e Belial; pois o reino de Cristo, como é eternamente oposto ao reino do diabo, também será eternamente vitorioso sobre ele. Portanto, nessa questão, não há como estar com Gileade, além do Jordão, ou com Aser, nos portos do mar (Juízes 5.16,17); nós devemos, completa, fiel e firmemente estar do lado de Cristo; este é o lado correto, e será, finalmente, o lado vencedor. Veja Êxodo 32.26.

A última frase tem o mesmo significado: “Quem comigo não ajunta espalha”. Observe:

(1) A tarefa de Cristo neste mundo era reunir, reunir a sua colheita, reunir aqueles que o Pai lhe tinha dado (João 11.52; Efésios 1.20).

(2) Cristo espera e exige daqueles que estão com Ele, que se reúnam com Ele; que não somente se reúnam, a si mesmos, com Ele, mas também que façam tudo o que puderem para reunir os outros com Ele, e assim fortalecer os seus interesses.

(3) Aqueles que não parecerem, e agirem, como seguidores do reino de Cristo, serão considerados e tratados como obstáculos a ele. Se nós não juntamos com Cristo, espalhamos; não basta não fazer o mal, nós devemos fazer o bem. Assim se amplia a brecha entre Cristo e Satanás, para mostrar que não havia pacto entre eles, como os fariseus sussurravam.

V – Aqui está um sermão de Cristo, nessa ocasião, a respeito dos pecados da língua: “Portanto, eu vos digo”. Ele parece se voltar dos fariseus para o povo, parece passar da discussão à instrução; e a partir do pecado dos fariseus, Ele adverte as pessoas a respeito de três tipos de pecados da língua; pois os danos sofridos por outras pessoas são advertências para nós.

1;Palavras blasfemas contra o Espírito Santo são o pior tipo de pecados da língua, e são imperdoáveis (vv. 31, 32).

(1). Aqui há uma garantia graciosa do perdão de todos os pecados, nos termos do Evangelho. Isto Cristo nos diz, e são palavras de consolo, que a grandeza do pecado não será obstáculo para a nossa aceitação por Deus, se realmente nos arrependermos e crermos no Evangelho: “Todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens”. ”Ainda que os… pecados sejam como a escarlata” (Isaias 1.18), ainda que sejam de natureza odiosa, e agravados pelas suas circunstâncias, e frequentemente repetidos, ainda que se estendam até o céu, ainda assim existe misericórdia no Senhor, que se estende além do céu; a misericórdia será estendida até mesmo para a blasfêmia, um pecado que toca diretamente o nome e a honra de Deus. Paulo obteve misericórdia, tendo sido um blasfemo (1 Timóteo 1.13). Bem podemos dizer: “Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade?” (Miquéias 7.18). Mesmo as palavras proferidas contra o Filho do Homem serão perdoadas; entre aqueles que o ofenderam na sua morte, muitos se arrependeram e encontraram misericórdia. Aqui Cristo dá um exemplo a todos os filhos dos homens, para que estejam prontos a perdoar palavras proferidas contra eles: “Eu, como surdo, não ouvia”. Observe que os pecados serão perdoados aos homens, não aos demônios; este é o amor de Deus oferecido a todo o mundo, à humanidade, a um mundo que está acima do mundo dos anjos caídos, o que faz com que todo pecado seja, a eles, perdoável.

(2). Aqui está uma exceção, que é a blasfêmia contra o Espírito Santo, aqui declarada como sendo o único pecado imperdoável. Veja aqui:

[1] O que é este pecado: é falar contra o Espírito Santo. Veja quanta maldade há nos pecados da língua, pois o único pecado imperdoável é um deles. “Mas Jesus conhecia os seus pensamentos” (v. 25). O que se quer dizer aqui não é somente o falar contra a pessoa ou a essência do Espírito Santo como um todo, ou algumas das suas operações mais privadas, ou meramente resistir à sua obra interna no próprio pecador. Pois então, quem seria salvo? Está determinado na nossa lei que um ato de compensação deva sempre ser interpretado em favor da graça e da clemência que é a intenção do ato; portanto, as exceções ao ato não devem ser estendidas além das necessidades. O Evangelho é um ato de compensação; ninguém será excluído por nome, nem por descrição, mas somente aqueles que blasfemam contra o Espírito Santo; portanto, isto deve ser interpretado no sentido mais limitado: todos os supostos pecadores são efetivamente separados pelas condições da compensação, a fé e o arrependimento. Portanto, as outras exceções não devem se estender: e esta blasfêmia é excluída, não por alguma falha na misericórdia de Deus ou do mérito de Cristo, mas porque ela inevitavelmente deixa o pecador na infidelidade e na impenitência. Nós temos motivos para pensar que ninguém que creia que Cristo é o Filho de Deus, e que sinceramente deseje participar do seu mérito e da sua misericórdia, será culpado deste pecado; e aqueles que temem ter come tido este pecado, dão um bom sinal de que não o cometeram. O sábio Dr. Whitby observa muito apropriadamente que Cristo não fala do que poderia ser (Marcos 3.29; Lucas 12.10): “Qualquer que blasfemar”. Quanto àqueles que blasfemaram contra Cristo quando Ele estava na terra, e o chamaram de beberrão, de enganador, de blasfemo, e coisas semelhantes, eles tinham alguma desculpa, por causa da simplicidade da sua aparência e dos preconceitos da nação contra Ele; e a prova da sua missão divina não se aperfeiçoou até de­ pois da sua ascensão. Portanto, eles serão perdoados através do arrependimento; espera-se que aqueles que foram seus traidores e assassinos possam ser convencidos pelo derramamento do Espírito, como muitos deles foram. Mas o problema mais grave ocorre quando o Espírito Santo é dado com os seus dons internos de revelação, como falar em línguas e coisas semelhantes, além das distribuições do Espírito entre os apóstolos; aqueles que continuarem a blasfemar o Espírito da mesma maneira, como um espírito mau, não desfrutarão a esperança de serem levados a crer em Cristo. Pois, em primeiro lugar, estes dons do Espírito Santo aos apóstolos eram uma grande prova que Deus designou fosse usada para a confirmação do Evangelho, os quais foram mantidos em reserva enquanto outros métodos os precederam. Em segundo lugar, esta era a evidência mais poderosa e mais capaz de convencer, superando até mesmo os próprios milagres. Em terceiro lugar, aqueles que blasfemassem dessa distribuição do Espírito não poderiam ser levados a crer em Cristo. O que poderia convencer aqueles que iriam considerar que os apóstolos estavam em aliança com Satanás, aqueles que tiveram o mesmo comportamento que os fariseus tiveram diante dos milagres? Este é um apego tão forte à infidelidade que não pode ser derrotado em um homem, e é, portanto, imperdoável. porque com isto o arrependimento está escondido dos olhos do pecador.

[2]. Qual é a sentença para este pecado: “Não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro”. Assim como no estado da religião judaica, naquela época, não havia sacrifício de expiação para a alma que pecasse de forma arrogante, também na revelação da graça do Evangelho, que é frequentemente chamada nas Escrituras de século futuro, não haverá perdão para o ato de pisar sobre o sangue da aliança, e para o desrespeito ao Espírito da graça; não há cura para um pecado tão diretamente contrário ao remédio. Esta é uma regra na nossa lei antiga: não haverá santuário para o sacrilégio. Ou: não será perdoado nem agora, na própria consciência do pecador, nem no grande dia, quando o perdão será promulgado. Ou: este é um pecado que expõe o pecador à punição eterna e à temporal, tanto à ira presente como à ira futura.

2.Aqui Cristo fala a respeito de outras palavras más, os produtos da corrupção que reina no coração, e que dele escapa (vv. 33-35). Foi dito (v. 25) que Jesus conhecia os seus pensamentos, e aqui Ele fala, dirigindo-se a eles, mostrando que não era estranho que eles falassem coisas tão más, quando os seus corações estavam tão cheios de inimizade e maldade, que eles frequentemente se esforçavam para disfarçar e encobrir, aparentando ser apenas homens. O nosso Senhor Jesus, portanto, aponta para as fontes e as cura; deixemos que o coração seja santificado e isto se manifestará nas nossas palavras.

(1). O coração é a raiz. a linguagem é o fruto (v. 33); a árvore é boa, e o seu fruto, bom. Se a graça for o princípio reinante no coração, a linguagem será a linguagem de Canaã; e, por outro lado, qualquer desejo que reine no coração irá se manifestar; pulmões doentes soltarão uma respiração ofensiva; a linguagem dos homens revela de que país eles são, e, da mesma maneira, qual é a sua disposição de espírito. Se a árvore for boa, os frutos serão bons; consigam corações puros e vocês terão lábios puros e vidas puras; se a árvore for má, o seu fruto também o será. Você pode tentar transformar uma árvore má em uma árvore boa, enxertando nela um galho de uma árvore boa, e então o fruto será bom. Mas se a árvore for má, você pode plantá-la onde quiser, e regá-la como quiser; o fruto ainda será mau. Observe que, a menos que o coração se transforme, a vida nunca será completamente transformada. Estes fariseus tinham vergonha de expressar com palavras os seus maus pensamentos a respeito de Jesus Cristo, mas aqui Cristo dá a entender que era inútil que eles tentassem esconder esta raiz de amargura que havia neles, que trazia irritação e rancor; eles deveriam procurar extirpá-la. Observe que a nossa maior preocupação deve ser nos comportarmos como pessoas realmente boas, e não apenas parecermos ser bons.

(2). O coração é a fonte, as palavras são as correntes (v. 34). “Do que há em abundância no coração, disso fala a boca; assim como as correntes são o que transborda da fonte”. Um coração mau produz maldade, como a fonte produz as suas águas (Jeremias 6.7). Uma fonte turva e um manancial corrupto, de que fala Salomão (Provérbio 25.26), deve produzir correntes enlameadas e desagradáveis. As palavras más são o produto natural e autêntico de um coração mau. Nada, exceto o sal da graça, jogado na fonte, irá curar as águas, temperar as palavras, e purificar as comunicações contaminadas. Eles queriam isso, sendo maus. “Como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus?” Eles eram uma geração de víboras; assim os tinha chamado João Batista (cap. 3.7), e ainda eram os mesmos. Pois, “pode o etíope mudar a sua pele?” As pessoas consideravam os fariseus como uma geração de santos, mas Cristo os chama de raça de víboras, a semente da serpente que tinha inimizade com Cristo e o seu Evangelho. O que se pode esperar de uma raça de víboras, exceto o que é venenoso e maligno? Pode a víbora ser outra coisa, além de venenosa? Note que as coisas más podem ser esperadas de pessoas más, como diz o provérbio dos antigos: “Dos ímpios procede a impiedade” (1 Samuel 24.13) ou: “O louco fala loucamente” (Isaias 32.6). Aqueles que são maus não têm a habilidade nem o desejo de falar coisas boas como deveriam ser faladas. Cristo daria a conhecer aos seus discípulos o tipo de homens em meio aos quais eles iriam viver, para que eles pudessem saber o que esperar. Eles eram como Ezequiel entre os escorpiões (Ezequiel 2.6), e não deveriam achar estranho se fossem picados e mordidos.

(3). O coração é o tesouro, as palavras são as coisas tiradas deste tesouro (v. 35); e daí o caráter dos homens pode ser esboçado, e pode ser julgado.

[1]. O caráter de um homem bom é o que lhe dá um bom tesouro no seu coração, e daí ele tira coisas boas quando há oportunidade. Graças, consolos, experiências, bom conhecimento, boas afeições, boas resoluções, são um bom tesouro no coração; a palavra de Deus está escondida ali, a lei de Deus, escrita ali, as verdades divinas residem e governam e são um tesouro ali, valioso e adequado, mantido a salvo e em segredo, como o estoque do bom chefe de família, mas pronto para ser usado em qualquer ocasião. Um bom homem, assim abastecido, produzirá, como José, uma abundância de bens; falará e fará o que é bom, para a glória de Deus e a edificação de outros. Veja Provérbio 10.11,13,14,20,21,31,32. Isto é produzir coisas boas. Alguns fingem – com grandes esforços – não ter um bom tesouro, parecendo que poderão ir à falência em breve; outros fingem ter um bom tesouro interior, mas não dão provas disso: eles esperam tê-lo dentro de si, e agradecem a Deus, quaisquer que sejam suas palavras e ações, por pensarem que têm bons corações. Mas a fé sem obras é morta; e alguns têm um bom tesouro de sabedoria e conhecimentos, mas não são comunicativos, não produzem nada com ele: têm um talento, mas não sabem como negociar com ele. O cristão completo nesse aspecto traz a imagem de Deus, que é ser bom, e também faz o bem.

[2]. O caráter de um homem mau é o que lhe dá um mau tesouro no seu coração, e daí ele tira coisas más. Luxúria, desejos e corrupção residindo no coração, e nele reinando, são um mau tesouro, do qual o pecador produz más palavras e ações que desonram a Deus e magoam os outros. Veja Genesis 6.5,12; cap. 15.18-20; Tiago 1.15. Mas os tesouros da impiedade (Provérbio 10.2) serão os tesouros da ira.

3.Aqui Cristo fala a respeito das palavras ociosas e mostra que há maldade nelas (vv.36, 37); muito mais havia nas palavras más como as que os fariseus pronunciavam. Nós devemos nos preocupar em pensar no dia do juízo, quando poderá haver uma avaliação da nossa língua; e devemos considerar:

(1) Quão particular será a consideração dos pecados da língua naquele dia: “de toda palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no Dia do Juízo”. Isto significa:

[1] Que Deus observa cada palavra que nós dizemos, mesmo aquelas de que nem nós mesmos nos damos conta. Veja Salmos 139.4: “Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor tudo conheces”. Ainda que seja dita sem consideração ou objetivo, Deus toma conhecimento dela.

[2] Que a conversa inútil, ociosa e impertinente é desagradável a Deus – aquela que não leva a nenhum bom objetivo, que não serve para edificar – é o produto de um coração insignificante e vão. Estas palavras ociosas são as mesmas que as torpezas ou parvoíces, ou chocarrices, que não convêm (Efésios 5.4). Este é aquele pecado que raramente falta na abundância de palavras que de nada servem (Jó 15.3).

[3] Dentro de pouco tempo, nós prestaremos contas dessas palavras ociosas; elas serão evidências contra nós, para provar que somos servos inúteis, que não aprimoramos as faculdades da razão e do discurso, que são parte dos talentos que nos foram confiados. Se não nos arrependermos das nossas palavras ociosas, e elas não forem perdoadas pelo sangue de Cristo, estaremos perdidos.

(2) Quão rígido será o julgamento sobre esta prestação de contas (v.37): “Por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado”; uma regra comum nos julgamentos dos homens, e aqui aplicada ao juízo de Deus. Observe que o teor constante do nosso discurso, se for gracioso ou não, será uma evidência a nosso favor ou contra nós naquele grande dia. Aqueles que parecem ser religiosos, mas não dominam a sua língua, precisam atentar para as seguintes palavras: “Se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia a sua língua, antes, engana o seu coração, a religião desse é vã” (Tiago 1.26). Alguns pensam que aqui Cristo se refere ao que disse Elifaz (Jó 15.6): “A tua boca te condena, e não eu”; ou, ainda, ao que disse Salomão (Provérbio 18.21): ”A morte e a vida estão no poder da língua”.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 14-21

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A Blasfêmia dos Fariseus. Cristo se retira

Como em meio às maiores humilhações de Cristo havia provas da sua dignidade, também em meio às suas maiores honras Ele deu provas de sua humildade; e quando os milagres que Ele realizava lhe davam a oportunidade de ficar famoso, ainda assim Ele se esvaziava, e não cultivava qualquer resquício de fama popular. Aqui, temos:

 I – A maldita blasfêmia dos fariseus contra Cristo (v. 14). Irritados com a evidência convincente dos milagres de Jesus, eles saíram e realizaram uma reunião contra Ele, sobre como poderiam destrui-lo. O que os irritou não foi apenas o fato de que, pelos milagres realizados, sua honra eclipsava a deles, mas também o fato de a doutrina que Ele pregava estar em oposição direta com o orgulho, hipocrisia e interesses mundanos deles. Eles fingiram estar descontentes com a sua infração do sábado, que era, por lei, um crime sujeito à pena de morte (Êxodo 35.2). Não é novidade ver os atos mais vis ocultos pelos pretextos mais plausíveis. Observe a política deles: eles se reuniram num conselho, considerando entre si de que maneira poderiam prendê-lo, com eficácia. Eles se aconselharam, numa trama secreta a esse respeito, para que pudessem ao mesmo tempo animar e ajudar uns aos outros. Observe a crueldade deles: Eles se reuniram, não para prendê-lo ou expulsá-lo, mas para destrui-lo, para levar à morte aquele que veio para que pudéssemos ter a vida. Que indignidade era, dessa maneira, imposta ao nosso Senhor Jesus, a perseguição dele como a um malfeitor, e o tormento imposto àquele que era a maior bênção, a glória do seu povo Israel!

II – Cristo se retirou nessa ocasião, e escolheu a privacidade para evitar o confronto. Pelo fato de não ser chegada a sua hora (v. 15), Ele se retirou dali. Ele poderia ter se protegido de forma milagrosa, mas decidiu fazê-lo da maneira normal, por meio da retirada e do afastamento; porque nisso, como em outras coisas, Ele se sujeitava às fraquezas inerentes da nossa natureza. Nesse ponto, Ele se humilhou, pois foi levado à atitude comum daqueles que são mais desamparados; assim também Ele deu um exemplo da sua própria regra: “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra”. Cristo tinha dito e feito o suficiente para convencer esses fariseus (se a razão ou os milagres pudessem ter feito isso), mas em vez de se renderem à convicção, eles se enfureceram, e por isto Ele os deixou, considerando-os incuráveis (Jeremias 51.9).

Cristo não se retirou para a sua própria comodidade, nem procurou uma desculpa para deixar o seu trabalho. Não. Os seus períodos de retiro sempre estavam cheios de ocupação, e mesmo nessas ocasiões Ele estava fazendo o bem, quando era forçado a se afastar. Assim, Ele deu um exemplo aos seus ministros: eles devem fazer o que puderem, quando não puderem fazer o que gostariam de fazer, e continuar ensinando mesmo quando precisarem se afastar. Quando os fariseus, os grandes senhores e doutores da nação, afastaram Cristo de si mesmos, e o forçaram a retirar-se, as pessoas comuns o seguiram em grandes multidões, e o encontraram. Alguns transformariam este fato em uma censura a Cristo, e diriam que Ele estava incitando a multidão. Mas era realmente uma honra para Jesus que todos aqueles que não eram parciais ou preconceituosos, e não estavam cegos pelas coisas do mundo, fossem tão leais, tão zelosos por Ele, e o seguissem para onde quer que Ele fosse, sem importar os perigos que correriam ao seu lado; como também era uma honra para a sua graça que os pobres fossem evangelizados – quando eles o recebiam, Ele os recebia e curava a todos. Cristo veio ao mundo para ser uma espécie de médico-geral dos homens – como o sol para o mundo inferior-, trazendo curas consigo. Embora os fariseus perseguissem a Cristo por fazer o bem, ainda assim Ele o continuava fazendo, e não deixou as pessoas passando dificuldades por causa da maldade dos seus líderes. Embora alguns nos tratem sem piedade, não devemos, por causa disso, tratar os outros sem piedade.

Cristo tentou conciliar o proveito e a privacidade. Ele os curou a todos, e (v. 16) recomendou-lhes que não deveriam torná-lo conhecido, o que pode ser considerado como:

1.Um ato de prudência: não eram os milagres propriamente ditos, mas sim as conversas a respeito deles, que enfureciam os fariseus (vv. 23,24); dessa forma, Cristo, embora não deixasse de fazer o bem, o faria da maneira mais silenciosa quanto possível, para evitar ofendê-los e para evitar correr perigo. Os homens prudentes e bons, embora desejem fazer o bem, estão longe de desejar que o bem feito seja alvo de comentários; porque é a aceitação de Deus, e não o aplauso dos homens, que eles almejam. E em épocas de sofrimento, embora devamos corajosamente prosseguir no caminho do dever, ainda assim devemos procurar as circunstâncias adequadas, de forma a não exasperar, além do necessário, aqueles que procuram uma oportunidade contra nós: “Sede prudentes como as serpentes” (cap. 10.16).

1.Um ato de julgamento justo sobre os fariseus, que eram indignos de ouvir a respeito de qualquer dos seus milagres, tendo menosprezado aqueles que os tinham visto. Ao fecharem os seus olhos para a luz, eles tinham perdido o direito ao seu benefício.

2.Um ato de humildade e autonegação. Embora a intenção de Cristo, nos seus milagres, fosse provar que Ele era o Messias, levando dessa forma os homens a crerem nele (e para isso era necessário que os seus milagres fossem conhecidos), algumas vezes Ele recomendava que o povo os ocultasse, para nos dar um exemplo de humildade e nos ensinar a não proclamar a nossa própria bondade ou utilidade, ou desejar que elas fossem proclamadas. Cristo queria que os seus discípulos fossem o oposto daqueles que realizavam todas as suas obras para que os homens as vissem.

III – O cumprimento das Escrituras em tudo isso (v. 17). Cristo retirou-se à privacidade e à obscuridade, para que, embora Ele fosse eclipsado, a palavra de Deus pudesse cumprir-se, sendo dessa forma exemplificada e glorificada, pois esse era o objetivo do seu coração. A passagem das Escrituras aqui cumprida é Isaías 42.1-4, que é citada livremente (vv.18-21). O escopo tem o objetivo de mostrar o quão manso e tranquilo, e ainda assim bem-sucedido, o nosso Senhor Jesus foi na sua missão – temos exemplos disso nas passagens anteriores. Observe aqui:

1.O prazer do Pai em Cristo (v.18): “Eis aqui o meu servo que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz”. Consequentemente, podemos perceber:

(1). Que o nosso Salvador era servo de Deus na grande obra da nossa redenção. Neste sentido, Ele se submete à vontade do Pai (Hebreus 10.7) e se dispõe a servir aos desígnios da sua graça e aos interesses da sua glória, para consertar as brechas que foram criadas pela apostasia do homem. Como servo, Ele tinha uma grande obra para fazer, e uma grande confiança depositada nele. Isto fazia parte da sua humilhação, pois embora Ele não julgasse que fosse alguma forma de usurpação o fato de ser igual a Deus, ainda assim, na obra da nossa salvação, Ele assumiu a forma de servo, recebeu um mandamento e veio com uma obrigação. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência (Hebreus 5.8). O lema desse Príncipe era: – Eu sirvo.

(2). Que Jesus Cristo era o escolhido de Deus, como a única pessoa adequada e apropriada para cuidar da grande obra da nossa redenção. “Eis o meu servo, que escolhi”, – que está à altura da missão. Ninguém, exceto Ele, era capaz de realizar a obra da Redenção, ou era digno de usar a coroa do Redentor. Ele foi eleito do povo (Salmos 89.19), escolhido, pela infinita Sabedoria, para este cargo de serviço e honra, para o qual nenhum homem ou anjo se qualificava; ninguém, exceto Cristo, para que Ele possa, em todas as coisas, ter a proeminência. Cristo não se candidatou para essa missão, mas foi devidamente escolhido para ela. Cristo foi o escolhido de Deus para ser o cabeça da eleição, e de todos os outros eleitos, pois nós somos eleitos nele (Efésios 1.4).

(3). Que Jesus Cristo é o Filho amado de Deus; como Deus, Ele está no seu seio desde a eternidade (João 1.18). Ele era, cada dia, as suas delícias (Provérbios 8.30). Entre o Pai e o Filho já havia, antes de todos os tempos, uma relação eterna e inimaginável, e uma troca de amor, e assim o Senhor o possuiu no princípio dos seus caminhos (Provérbios 8.22). Como Mediador, o Pai o amou; quando o Pai precisou realizar um plano em que Ele seria ferido, Ele se sujeitou a isto; por isso o Pai o ama (João 10.17).

(4) Que Jesus Cristo é aquele de quem o Pai se agra­ da, em quem a sua alma se compraz; o que dá a entender a maior complacência imaginável. Deus declarou, com uma voz do céu, que Ele era o seu Filho amado, em quem se comprazia. Se comprazia nele, porque Ele era o Empreendedor, disposto e alegre, daquela obra de maravilhas à qual Deus se dedicou tanto, e Ele se compraz conosco nele; pois Ele nos fez agradáveis a si no Amado (Efésios 1.6). Todo o interesse que o homem pecador tem, ou pode ter, em Deus, está baseado, e se deve ao fato de que Deus se compraz em Jesus Cristo; pois não se vai ao Pai, senão por Ele (João 14.6).

2.A promessa do Pai a Jesus consiste em duas coisas:

(1). Que Ele seria muito bem qualificado para a sua missão: “Porei sobre ele o meu Espírito, o Espírito de sabedoria e de conselho” (Isaias 11.2,3). Deus se certificará de adequar e qualificar aqueles a quem Ele convoca para algum serviço; e assim parecerá que Ele os chamou para isso, como Moisés (Êxodo 4.12). Cristo, como Deus, tinha poder e glória igual ao Pai; como Mediador, Ele recebia do Pai poder e glória, e recebia para poder dar; e tudo o que Pai dava a Ele, para qualificá-lo para a sua missão, resumia se nisto: Ele colocou o seu Espírito sobre Ele – este é o “óleo de alegria com que Ele foi ungido, mais do que seus companheiros” (Hebreus 1.9). Ele recebeu o Espírito, não por medida, mas sem medida (João 3.34). Independentemente de quem sejam aqueles que Deus escolhe, e em quem Ele se compraz, Ele se certificará de colocar o seu Espírito sobre eles. Além de conceder o seu amor (algo que Ele faz de muitas formas), Ele concede que tenham em si mesmos a sua semelhança.

(2). Que Ele seria extremamente bem-sucedido no seu entendimento. Aqueles a quem Deus envia, certamente Ele torna seus. Já tinha sido assegurado havia muito tempo, por promessa ao nosso Senhor Jesus, que o bom prazer do Senhor prosperaria na sua mão (Isaias 53.10). E aqui temos uma explicação desse bom prazer.

[1] Ele anunciará aos gentios o juízo. Cristo, pessoalmente, pregou àqueles que eram vizinhos das nações pagãs (veja Marcos 3.6-8), e pelos seus apóstolos apresentou o seu Evangelho, aqui chamado de juízo, ao mundo gentio. O caminho e o método da salvação, o juízo que é confiado ao Filho, não é somente realizado por Ele, como o nosso grande Sumo Sacerdote, mas anunciado e transmitido por Ele, como o nosso grande Profeta. O Evangelho, sendo uma regra de comportamento e conduta, com a tendência direta de transformar e melhorar os corações e as vidas dos homens, será anunciado aos gentios. O juízo de Deus tinha sido particular aos judeus (SaImos 147.19), mas sempre foi predito, pelos profetas do Antigo Testamento, que ele seria anunciado aos gentios, e, portanto, isso não deveria ter causado tal surpresa, e muito menos aborrecimento, para os judeus incrédulos.

[2] “E, no seu nome, os gentios esperarão” (v. 21). Ele irá anunciar juízo aos gentios, para que eles prestem atenção e observem o que Ele lhes apresenta, e através disso sejam influenciados a confiar nele, sujeitando-se ao seu juízo. Note que o grande desígnio do Evangelho é levar as pessoas a confiar no nome de Jesus Cristo, no Jesus Salvador, este nome precioso pelo qual Ele é chamado, e que é como unção derramada: “O Senhor, Justiça nossa.” Aqui, o evangelista segue a Septuaginta, ou talvez as últimas edições da Septuaginta sigam o evangelista; o texto em hebraico (Isaias 42.4) é: “e as ilhas aguardarão a sua doutrina”. Fala-se das ilhas dos gentios (Genesis 10.5) como sendo habitadas pelos filhos de Jafé, de quem foi dito (Genesis 9.27): “Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem”; o que agora se cumpria, quando as ilhas (segundo o profeta), os gentios (diz o evangelista), aguardarão a sua doutrina, e confiarão no seu nome – compare essas duas passagens e observe que aqueles, e somente aqueles, que esperam pela sua lei com a determinação de serem governados por ela, podem, com segurança, confiar no nome de Cristo. Observe, além disso, que a lei pela qual esperamos é a lei da fé, a lei de confiar no seu nome. Este é agora o seu grande mandamento, que creiamos em Jesus Cristo (1 João 3.23).

3.A predição que diz respeito a Ele, e a maneira mansa e tranquila como Ele conduz a sua missão (vv. 19, 20). Esta citação está fortemente ligada à privacidade de Cristo, às ocasiões em que Ele precisou se retirar de alguns ambientes.

(1) Que Ele devia conduzir a sua missão sem estardalhaço ou ostentação. “Não contenderá, nem clamará”. Cristo e o seu reino não virão com aparência exterior (Lucas 17.20,21). Quando o Primogênito foi trazido a este mundo, não foi com cerimônia. Ele não fez uma aparição pública, não teve arautos que o proclamassem rei. Ele estava no mundo e o mundo não o conheceu. Estavam enganados aqueles que se alimentavam com esperanças de um Salvador cheio de pompa. A sua voz não era ouvida nas ruas: “Ei-lo aqui”, ou: “Ei-lo ali”. Ele falava com uma voz suave que atraía a todos, mas não atemorizava ninguém. Ele não fazia ruído, mas surgia silenciosamente como o orvalho. Quando Ele falava, e agia, era com a maior humildade e autonegação possíveis. O seu reino era espiritual e por isso não progrediria pela força ou violência, nem por elevadas pretensões. Não, “o reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder” (1 Coríntios 4.20, versão RA).

(2) Que Ele devia conduzir a sua missão sem severidade ou rigor (v. 20). “Não esmagará a cana quebrada”. Alguns interpretam isto como a sua paciência com os pecadores. Ele poderia facilmente ter esmagado estes fariseus como canas quebradas, e tê-los apagado como um marrão que fumega; mas Ele não o fará até o dia do juízo, quando todos os seus inimigos serão feitos escabelo dos seus pés. Outros preferem interpretar como sendo o seu poder e a sua graça para sustentar os fracos. Em geral, o desígnio do seu Evangelho é estabelecer um método de salvação que incentive a sinceridade, embora haja muita indecisão. Ele não insiste em uma obediência absolutamente perfeita de imediato, mas aceita uma mente disposta e justa. Quanto a indivíduos em particular que seguem a Cristo com mansidão, e com temor, e com muito tremor, observe:

[1] Como o seu caso é descrito aqui, eles são como a cana quebrada e o marrão que fumega. Os iniciantes na religião são fracos como uma cana quebrada, e a sua fraqueza parece um marrão fumegante; eles têm um pouco ele vida, mas é como a de uma cana quebrada; eles têm algum calor, mas é como o ele um marrão fumegante. Os discípulos de Cristo eram ainda fracos, e há muitas pessoas assim que têm lugar na sua família. A graça e a bondade neles são como uma cana quebrada; a corrupção e a maldade neles são como um morrão fumegante, como o pavio de uma vela quando é apagada e ainda fumega.

[2] Qual é a compaixão do nosso Senhor Jesus por eles? Ele não os desencoraja, e muito menos os rejeita ou os afasta; a cana que está quebrada não será esmagada e pisoteada, mas será sustentada, e ficará forte como um cedro ou uma palmeira próspera. A vela recentemente acesa, embora somente fumegue e não tenha chama, não será apagada, mas soprada para alimentar a chama. O dia das pequenas coisas é o dia das coisas preciosas, e por isso Ele não o desprezará, mas fará dele o dia das grandes coisas (Zacarias 4.10). Nosso Senhor Jesus lida com muita ternura com aqueles que têm a verdadeira graça, ainda que sejam fracos (Isaias 40.11; Hebreus 5.2). Ele se lembra não somente de que somos pó, mas também de que somos carne.

[3] O bom resultado e o sucesso que é dado a entender, até que Ele transforme o juízo em vitória. Aquele juízo que Ele anunciou aos gentios será vitorioso, Ele saiu vitorioso e para vencer (Apocalipse 6.2). Tanto a pregação do Evangelho no mundo como o poder do Evangelho no coração irão vencer. A graça conseguirá dominar a corrupção, e finalmente se aperfeiçoará na glória. O juízo de Cristo produzirá a vitória, pois quando Ele julgar, Ele vencerá. Ele, em verdade, produzirá o juízo, e assim será (Isaias 42.3). A verdade e a vitória são praticamente a mesma coisa, pois grande é a verdade, e ela vencerá.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 1-13

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Cristo Defende os seus Discípulos

Os mestres judeus tinham corrompido muitos dos mandamentos, dando-lhes uma interpretação menos rígida do que deveriam; um engano que Cristo revelou e corrigiu (cap. 5), no seu Sermão da Montanha. Mas em relação ao quarto mandamento, eles tinham erra­ do no outro extremo, e o tinham interpretado de maneira excessivamente rígida. Observe que é comum que homens de mentes corruptas, com o seu zelo pelos rituais e ser viços externos da religião, pensem em expiar a sua transigência moral. Mas será amaldiçoa­ do aquele que acrescentar ou remover palavras deste livro (Apocalipse 22.16,19; Provérbios 30.6).

O que o Senhor Jesus estabelece aqui é que as obras de necessidade e de misericórdia são lícitas no sábado judaico. Estas eram obras sobre as quais os judeus, em muitos casos, eram ensinados a ter escrúpulos. Quanto à habilidosa explicação de Cristo sobre o quarto manda­ mento, Ele dá a entender a obrigação perpétua à observância religiosa de um dia em sete, como um sábado santo. Ele não explicou uma lei que iria expirar em breve, mas, sem dúvida, por meio disso, esclareceu um ponto que seria usado pela igreja durante todos os tempos; e assim somos ensinados que o nosso sábado cristão, em­ bora sob a legislação do quarto mandamento, não está sujeito às leis elos anciãos judeus.

E comum definir o significado de uma lei com base em julgamentos feitos sobre casos realmente ocorridos e verídicos, e de igual modo é definido o significado dessa lei. Aqui há duas passagens unidas com est e objetivo, que ocorrem separadas por um período de tempo, e são de naturezas diferentes, mas as duas respondem a essa intenção.

 I – Cristo, ao justificar os seus discípulos colhendo espigas no sábado judaico, mostra que as obras de necessidade são lícitas neste dia. Aqui, observe:

1.O que os discípulos fizeram. Eles estavam seguindo ao seu Mestre num sábado, em meio a uma seara. Provavelmente, eles estavam se dirigindo à sinagoga (v. 9), pois não era conveniente que os discípulos de Cristo passeassem ociosamente nesse dia, e tiveram fome; que isso não represente menosprezo à supervisão de Cristo. Mas devemos imaginar que eles eram tão atentos ao trabalho no sábado, que se esqueceram de comer pão; tinham passado tanto tempo na sua adoração matinal, que não tiveram tempo para fazer a sua refeição matinal, mas saíram em jejum, porque não queriam chegar atrasados à sinagoga. A providência ordenou que eles passassem pela seara, e ali se alimentassem. Observe que Deus tem muitos meios de trazer provisões adequadas ao seu povo, quando necessário, e iria cuidar especialmente deles quando estavam a caminho da sinagoga, assim como dos antigos que subiam a Jerusalém para a adoração (Salmos 84.6,7), pois para seu uso a chuva encheu os tanques. Enquanto estamos no caminho do dever, Jeová-jiré, que o Senhor, e somente Ele, faça a provisão necessária para nós. Estando na seara, eles começaram a colher as espigas; a lei de Deus permitia isso (Deuteronômio 23.25), para ensinar as pessoas a serem hospitaleiras e amistosas, e a não insistirem sobre a propriedade em questões pequenas, quando outra pessoa poderia ser beneficiada. Isto nada mais era que uma escassa provisão para Cristo e seus discípulos, mas era o melhor que tinham, e ficaram satisfeitos com isso. O famoso Mr. Ball, de Whitmore, costumava dizer que ele tinha duas vasilhas de alimento para o seu jantar no sábado judaico, uma com leite quente, e outra com leite frio, e ele tinha mais do que suficiente.

2.Qual foi o crime que os fariseus viram nessa atitude. Foi apenas um árido desjejum, mas os fariseus não os deixariam comer em paz. Eles não discutiram com os discípulos por apanharem as espigas de outra pessoa (eles não eram grandes fanáticos por justiça), mas sim por fazerem isso no sábado judeu, pois apanhar e debulhar as espigas nesse dia era expressamente proibido pela tradição dos anciãos, porque era um tipo de colheita.

Observe que não é nenhuma novidade que as ações mais inofensivas e inocentes dos discípulos de Cristo sejam mal interpretadas, e consideradas ilícitas, especialmente por aqueles que são zelosos das suas próprias invenções e imposições. Os fariseus se queixaram dos discípulos com o seu Mestre, por fazerem o que não era lícito. Não são amigos de Cristo e de seus discípulos aqueles que procuram tornar ilícito aquilo que Deus não considera ilícito.

3.Qual foi a resposta de Cristo a essa crítica dos fariseus. Os discípulos pouco podiam se defender, especialmente porque aqueles que discutiam com eles pareciam ter a rigidez da santificação do sábado a seu favor; e é mais seguro enganar-se desse lado. Porém, Cristo veio libertar os seus seguidores, não apenas da corrupção dos fariseus, mas também das suas imposições externas às Escrituras, e, portanto, Ele tem algo a dizer em defesa deles, e pode justificar o que fizeram, embora se tratasse de uma transgressão do cânone.

(1) Ele os justifica por precedentes que foram considerados lícitos pelos próprios fariseus.

[1] Ele recorda uma circunstância ocorrida com Davi, que em uma situação de necessidade fez o que em outra situação não deveria ter feito (vv. 3,4): “Não tendes lido o que fez Davi (l Samuel 21.6), quando comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, mas só aos sacerdotes?” (Levíticos 24.5-9). Esta é uma questão santíssima para Arão e seus filhos, e (Êxodo 29.33) um estranho não a comerá; ainda assim, o sacerdote a deu a Davi e a seus homens; pois embora a exceção de um caso de necessidade não estivesse expressa, estava implícita naquela e em todas as outras instituições rituais. O que confirmou Davi, ao comer o pão da proposição, não foi a sua dignidade (Uzias, que invadiu o santuário movido pelo orgulho do seu coração. embora fosse um rei, por este motivo foi fulminado pela lepra, 2 Crônicas 26.16 etc.), mas a sua fome. Os poderosos não terão os seus caprichos tolerados, mas os pequenos terão as suas necessidades consideradas. A fome é um desejo natural que não pode ser ignorado, mas deve ser satisfeito, e não pode ser aplacado por nada, a não ser alimento; por isto dizemos que ela romperá muros de pedra. O Senhor está a favor do corpo, e permitiu que a sua própria recomendação fosse prescindida em caso de desespero; a tradição dos anciãos poderia ser ainda mais prescindida. Observe que isto pode ser feito em caso de necessidade, e não deve ser feito em outra ocasião. Há leis que a necessidade não acompanha; ela passa a ser uma lei em si mesma. Os homens não devem desprezar, mas sim ter pena de um ladrão, quando furta para saciar a sua alma, tendo fome (Provérbios 6.30).

[2] Ele recorda um exemplo diário dos sacerdotes, que, da mesma maneira, eles liam na lei, e segundo a qual era o costume comum (v. 5). Os sacerdotes no templo realizavam uma grande quantidade de trabalhos servis no sábado judaico; matando, esfolando e queimando os animais sacrificados, o que, em uma situação normal, seria profanar o sábado judaico; ainda assim, isto nunca foi reconhecido como transgressão ao quarto mandamento, porque o serviço do templo o exigia e justificava. Isso dá a entender que no sábado judaico são lícitos os trabalhos que são necessários, não apenas para o sustento da vida, mas para a adoração; como tocar um sino para convocar a congregação, ir até ao templo e coisas semelhantes. O descanso do sábado deve promover, e não impedir, a adoração no sábado.

(2) Ele os justifica com três argumentos convincentes:

[1] “Está aqui quem é maior do que o templo” (v. 6). Se o serviço do templo justificava o que os sacerdotes faziam no seu ministério, o serviço de Cristo justificava ainda mais os discípulos, no que eles faziam para ajudá-lo. Os judeus tinham uma veneração extrema pelo templo: ele santifica o ouro; Estêvão foi acusado de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar (Atos 6.13); mas Cristo, em uma seara, era maior do que o templo, pois nele residia não a presença de Deus de modo simbólico, mas toda a plenitude da divindade, corporalmente. Observe que se tudo o que fizermos for em nome de Cristo e para Ele, isto será graciosamente aceito por Cristo, por mais que possa ser censurado e criticado pelos homens.

[2] Deus quer misericórdia, e não sacrifício (v. 7). Os deveres cerimoniais devem render-se à moral, e a lei natural e real do amor e da autopreservação deve assumir o lugar das observâncias rituais. Esta é uma citação de Oséias 6.6. Foi usada antes, em Mateus 9.13, em defesa da misericórdia às almas dos homens; aqui, para a misericórdia aos seus corpos. O descanso do sábado era ordenado para o bem dos homens, para o bem do corpo (Deuteronômio 5.14). Mas nenhuma lei deve ser elaborada para contradizer o seu próprio objetivo. “se vocês soubessem o que isto quer dizer, se soubessem o que significa ter uma inclinação misericordiosa, vocês teriam lamentado que eles fossem forçados a fazer isto para satisfazer a sua fome, e não teriam condenado os inocentes”. Observe, em primeiro lugar, que a ignorância é a causa das nossas censuras precipitadas e pouco caridosas em relação aos nossos irmãos. Em segundo lugar, não é suficiente conhecermos as Escrituras, nós devemos nos esforçar para conhecer o seu significado. Que aquele que as lê, as compreenda. Em terceiro lugar, a ignorância do significado das Escrituras é particularmente vergonhoso naqueles que assumem a responsabilidade de ensiná-las a outros.

[3] “O Filho do Homem até do sábado é Senhor” (v. 8). Esta lei, como todo o resto, está colocada na mão de Cristo, para ser alterada, imposta ou prescindida, como Ele achar melhor. Foi através do Filho que Deus criou o mundo, e através do Filho Ele instituiu o sábado judaico, com boas intenções; através do Filho, Ele deu os dez mandamentos no Monte Sinai, e como Mediador, Ele confiou ao Filho a instituição dos mandamentos, fazendo as modificações que Ele julgasse adequadas; e, em especial, sendo Senhor do sábado, Ele foi autorizado a fazer tal alteração daquele dia, para que se tornasse o dia do Senhor, o dia do Cristo. E se Cristo é o Senhor do sábado, é adequado que o dia, e todo o trabalho nele realizado, sejam dedicados a Ele. Por este poder, Cristo aqui decreta que as obras de necessidade, se realmente o forem, e não se tratarem de uma necessidade fingida e inventada, são lícitas no sábado judaico; e esta explicação da lei mostra claramente que ela deve ser perpétua. Tendo silenciado os fariseus, e se livrado deles (v. 9), Cristo partiu e foi à sinagoga desses fariseus, na qual eles presidiam e para onde se dirigia quando eles iniciaram essa discussão com Ele. Observe, em primeiro lugar, que nós devemos tomar cuidado para que nada que aconteça no nosso caminho para os deveres sagrados nos incapacite ou nos desvie da devida realização de tais tarefas. Sigamos no caminho do nosso dever, apesar dos truques de Satanás, que se empenha, pelas distorcidas contendas de homens de mentes corruptas, e por muitos outros métodos, em nos perturbar e desordenar. Em segundo lugar, nós não devemos, por causa de rixas ou tristezas pessoais, nos afastar da adoração pública. Embora os fariseus tivessem criticado maldosamente a Cristo, ainda assim Ele compareceu à sinagoga deles. Satanás marca ponto se, semeando a discórdia entre os irmãos, ele conseguir afastar a qualquer um deles do templo, e da comunhão daqueles que são fiéis ao Senhor.

 

II – Cristo, ao curar o homem que tinha a mão mirrada, no sábado, mostra que as obras de misericórdia são lícitas e adequadas de serem realiza das neste dia. A obra de necessidade foi realizada pelos discípulos, e justificada por Jesus; a obra de misericórdia foi realizada por Ele mesmo; as obras de misericórdia eram as suas obras de necessidade; o seu alimento e a sua bebida eram fazer o bem. “É necessário que eu anuncie … o evangelho”, disse Ele (Lucas 4.43). Esta cura foi registrada por causa da época em que fazer isto no sábado era errado.

Aqui estão:

1.O sofrimento em que esse pobre homem se encontrava; a sua mão estava tão ressequida (ou mirrada), que ele encontrava-se totalmente incapacitado para ganhar a vida trabalhando com as mãos. Jerônimo diz que o Evangelho de Mateus em hebraico, usado pelos nazarenos e ebionitas, acrescenta à história do homem com a mão ressequida, o fato de ele ser um pedreiro, e ter se apresentado a Cristo da seguinte maneira: “Senhor, eu sou um pedreiro, e ganho a vida pelo meu trabalho; eu lhe suplico, ó Jesus, devolva-me o uso da minha mão, para que não seja obrigado a implorar pelo meu pão”. Este pobre homem estava na sinagoga. Observe que aqueles que podem fazer muito pouco, ou têm pouco a fazer pelo mundo, devem fazê-lo mais pelas suas almas, assim como os ricos, e também os idosos e os enfermos.

2.Uma pergunta rancorosa que os fariseus apresentam a Cristo, diante deste homem. Eles lhe perguntaram: “É lícito curar” Até aqui, não lemos de nenhum pedido de cura que este pobre homem tenha feito a Cristo, mas os fariseus observaram que Cristo começou a prestar atenção nele, e sabiam que era comum que Ele fosse encontrado por aqueles que não o procuravam, e dessa forma, com a sua maldade, eles anteciparam a bondade de Jesus, e iniciaram este caso como um obstáculo no caminho de fazer o bem. “É lícito curar nos sábados?” Era ou não lícito que os médicos curassem naquele dia? Este era o assunto discutido nos seus livros. Alguém poderia pensar que esta era uma discussão ultrapassada, que era lícito que os profetas curassem, que Ele curasse aqueles que percebessem um poder e bondade divinos em tudo o que Ele fazia aos seus semelhantes, e que se manifestava como enviado de Deus. Alguém perguntou se é lícito que Deus cure, que Ele envie a sua palavra e cure. É verdade, Cristo estava agora sob a lei, por submissão voluntária a ela, mas Ele nunca esteve sujeito aos preceitos dos anciãos. É lícito curar? Investigar se as ações são lícitas ou ilícitas é muito bom, e não conseguimos encontrar para nos ajudar em tal investigação ninguém mais adequado que Cristo, mas aqui os fariseus perguntavam não para que pudessem ser instruídos por Ele, mas para poderem acusá-lo. Se Ele dissesse que era lícito curar nos sábados, eles o acusariam de uma contradição com o quarto mandamento; era tão alto o grau de superstição que os fariseus tinham trazido ao descanso do sábado, que, a menos que houvesse risco de vida, eles não permitiam cirurgias nos sábados. Se Ele dissesse que era ilícito, eles o acusariam de parcialidade, tendo, recentemente, justificado os seus discípulos por colhe rem espigas naquele mesmo dia.

3.A resposta de Cristo a essa pergunta, apelando aos próprios fariseus e à sua própria opinião e costume (vv. 11, 12). Caso uma ovelha (embora apenas uma, cuja perda não seria muito grande) caísse em uma cova num sábado, eles não a tirariam de lá? Sem dúvida, eles poderiam fazê-lo, o quarto mandamento permitia isso; eles deveriam fazer isso, pois um homem misericordioso tem consideração pela vida de seus animais, e no que lhes dizia respeito, eles o fariam, em lugar de perder uma ovelha. Cristo cuida da ovelha? Sim, Ele cuida; Ele preserva e provê, tanto para os homens como para os animais. Mas aqui Ele diz isto por nós (1 Coríntios 9.9,10), e, consequentemente, pergunta: “Quanto mais vale um homem do que uma ovelha?” As ovelhas são criaturas não apenas inofensivas, mas também úteis, e são, de maneira correspondente, valorizadas e cuidadas; ainda assim, um ser humano tem preferência diante delas. Observe que o homem, com respeito ao seu ser, é melhor e mais valioso do que a melhor das criaturas selvagens: o homem é uma criatura racional, capaz de conhecer, amar e glorificar a Deus, e por isto é melhor do que uma ovelha. O sacrifício de uma ovelha, portanto, não pode expiar o pecado de uma alma. Não levam isto em consideração aqueles que se preocupam mais com a educação, com a preservação e o sustento de seus cavalos e cães do que com os pobres de Deus, ou talvez até com aqueles que fazem parte de sua própria casa.

Com isso, Cristo chega a uma verdade, que, até mesmo à primeira vista, parece muito razoável e bem-intencionada; a de que é lícito fazer bem nos sábados. Eles tinham perguntado: “É lícito curar?”. Cristo prova que é lícito fazer o bem, e deixa qualquer pessoa julgar se curar, como Ele curava, não era fazer o bem. Observe que há muitas maneiras de fazer o bem nos sábados, bem como tributar adoração imediata a Deus. Ajudar os enfermos, aliviar os pobres, ajudar aqueles que caíram em um infortúnio repentino, e precisam de auxílio rápido; isto é fazer o bem. E isto deve ser feito a partir de um princípio de amor e caridade, com humildade e autonegação, e de um estado de espírito voltado às coisas celestiais; isto é fazer o bem, e isto será aceito (Genesis 4.7).

4.A cura do homem, realizada por Cristo, apesar de prever que os fariseus iriam ver algo ilícito no seu ato (v. 13). Embora não conseguissem responder aos argumentos de Cristo, eles estavam decididos a persistir no seu preconceito e na sua inimizade; mas Cristo, apesar disso, prosseguiu com o seu trabalho. Observe que o dever não deve deixar de ser realizado, nem devem ser negligenciadas as oportunidades de fazer o bem, por medo de cometer algo ilícito. Devemos observar a maneira como se realizou a cura. Cristo disse ao homem: “Estende a mão”; em outras palavras: Esforça-te o quanto puder, e o homem o fez, e foi curado. Esta, assim como outras curas que Cristo realizou, teve um significado espiritual.

(1) As nossas mãos, por natureza, são ressequidas, nós somos completamente incapazes de fazer, por nós mesmos, qualquer coisa boa.

(2) Somente Cristo, pelo poder da sua graça, nos cura. Ele cura a mão ressequida, dando vida à alma morta; Ele opera em nós tanto o querer como o realizar.

(3) Para a nossa cura, Ele nos ordena estendermos as nossas mãos para aprimorar os nossos poderes naturais, e fazermos o melhor que pudermos; estendê-las em oração a Deus, estendê-las para nos aproximarmos de Cristo pela fé, estendê-las em esforços santificados. Este homem não conseguia estender a sua mão ressequida, não mais do que o homem paralítico conseguia levantar-se e carregar a sua cama, ou Lázaro sair da sua tumba; ainda assim, Cristo pede que ele o faça. Os mandamentos de Deus para fazermos as coisas que não conseguimos fazer por nós mesmos não são mais incríveis do que a sua ordem ao homem com a mão ressequida, para estendê-la; pois com a ordem, existe uma promessa de graça que é dada pela palavra: “Convertei-vos pela minha repreensão; eis que abundantemente derramarei sobre vós meu espírito” (Provérbios 1.23). Aqueles que perecem são tão imperdoáveis quanto este homem teria sido, se não tivesse tentado estender a mão e, dessa forma, não tivesse sido curado. Mas aqueles que são salvos não têm mais de que se vangloriar do que este homem teve, ao contribuir para a sua própria cura, ao estender a sua mão, mas estão em dívida com o poder e a graça de Cristo, tanto quanto ele estava.