ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 9: 35-38

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Jesus Prega por todo o País

Aqui está:

I – Uma conclusão do relato precedente da pregação e dos milagres de Cristo (v. 35): Ele andou por todas as cidades ensinando e curando. Isto é algo que Jesus já havia feito antes (cap. 4.23). Aqui está sendo enfatizado o registro mais específico da pregação (caps. 5, 6 e 7) e das curas (caps. 8 e 9), que aqui é repetido de forma elegante no fechamento dessas ocorrências, como o ponto a ser provado ; como se o evangelista dissesse: ”Agora eu espero que tenha tido sucesso, através da generalização de casos particulares em que Cristo pregou e curou; pois vocês tiveram acesso à parte mais importante de seus sermões e a alguns exemplos de suas curas, que foram realizadas para confirmar a sua doutrina. Tudo isto foi escrito para que vocês pudessem crer”.

Alguns pensam que esta foi uma segunda viagem pela Galileia, igual à anterior. Jesus visitou novamente aqueles a quem Ele havia pregado. Embora os fariseus o criticassem e o confrontassem, Ele continuou com seu trabalho. Ele pregou o evangelho do reino. Ele lhes falou de um reino de graça e glória, que agora seria estabelecido sob o governo do Mediador. Este sem dúvida era o Evangelho, as boas-novas de grande alegria.

Observe os vários tópicos a que o Senhor Jesus Cristo se referiu em suas pregações:

1.As cidades isoladas. Ele visitou não apenas as cidades grandes e ricas, mas também as aldeias pobres e obscuras. Nelas Ele pregou, nelas Ele curou. A alma daqueles que são menos importantes no mundo são tão preciosas para Cristo (e devem ser também para nós) como as almas daqueles que são grandes personalidades. Ricos e pobres se encontra m junto s nele. Habitantes das cidades e camponeses: as justiças que Deus fez aos habitantes das suas aldeias devem ser repetidas (Juízes 5.11).

2.A adoração pública. Ele ensinou em suas sinagogas:

(1) Para que pudesse dar testemunho às igrejas formais, mesmo quando havia corrupção nelas. Não devemos abandonar a nossa congregação, como é costume de alguns.

(2) Para que tivesse uma oportunidade de pregar ali, onde as pessoas se reuniam com a expectativa de ouvir. Por esta razão, mesmo nos locais onde o Evangelho estivesse estabelecido e as assembleias cristãs em pleno andamento, os apóstolos frequentemente pregavam nas sinagogas dos judeus. A sabedoria do prudente consiste em conseguir fazer o melhor entre aquilo que estiver disponível.

II – Um prefácio ou introdução, para o relato no capítulo seguinte, do envio, por parte de Jesus, de seus apóstolos. Ele prestava atenção nas multidões (v. 36), não apenas nos grupos que o seguiam, mas no vasto número de pessoas com as quais (enquanto Ele passava) observava o país ser repovoado. Ele notou como as cidades e aldeias eram um formigueiro de almas, e como eram densamente povoadas. Ele observava a abundância de pessoas que havia em cada sinagoga, e que as redondezas dos portões eram locais de grandes ajuntamentos.

Quão populosa era a nação agora desenvolvida; este era o efeito da bênção de Deus a Abraão. Ao ver isso:

1.Ele teve compaixão deles, preocupou-se com eles (v. 36). Ele era movido pela compaixão por eles; não em uma versão transitória, como a compaixão pelos cegos, coxos e doentes, mas em uma versão espiritual. Ele se compadeceu por vê-los desgarrados e errantes, e a ponto de serem destruídos pela falta de visão. Jesus Cristo é um amigo muito misericordioso para as almas preciosas. Aqui, as suas entranhas, de forma especial, se enterneceram. Foi a compaixão pelas almas que o trouxe do céu à terra, e daqui para a cruz. A aflição é o objeto da compaixão; e a aflição das almas pecaminosas e autodestrutivas é a maior de todas: Cristo se compadece daqueles que tem menos compaixão de si mesmos. Nós também devemos proceder assim. A maior compaixão cristã é a compaixão pelas almas; esta é a característica que mais nos assemelha a Cristo.

Veja o que movia essa compaixão.

(1). Eles eram fracos; eles estavam desgarrados, desamparados e aflitos.

Eles eram errantes, pelo menos alguns; desgarrados uns dos outros; os laços estavam rompidos (Zacarias 11.14). Eles queriam ajuda para as suas almas, e não tinham nada à mão que lhes pudesse servir. Os escribas e os fariseus os enchiam com noções inúteis, os sobrecarregavam com as tradições dos antigos, os iludiam para que cometessem muitos enganos, ao mesmo tempo em que não eram instruídos em seus deveres, nem familiarizados com a extensão e a natureza espiritual da lei divina.

Por isso eles desmaiavam de fome. Pois, que saúde, vida espiritual e vigor podem haver nessas almas, que são alimentadas com cascas e cinzas, ao invés do pão da vida? Almas preciosas desmaiando de fome quando há trabalho por fazer, tentações a resistir, aflições a ser suportadas, não sendo alimentadas com a palavra da verdade.

(2). Ele s estava m amplamente dispersos, desgarrados, corno ovelhas que não têm pastor. Essa expressão é emprestada de 1 Reis 22.17, e expõe a triste condição daqueles que são destituídos de um guia confiável para liderá-los nas coisas de Deus. Nenhuma criatura é mais sujeita a se perder do que uma ovelha, e, quando está perdida, mais desesperançada, incapaz e exposta, ou mais inapta para encontrar o caminho de volta para casa. Almas pecadoras são como ovelhas perdidas; elas precisam dos cuidados de um pastor para trazê-las de volta. Os professores, os judeus, fingiam, então, ser pastores; porém Cristo diz que eles não tinham pastores, pois tê-los era pior do que não ter nenhum; eram pastores preguiçosos que os dispersavam ao em vez de trazê-los de volta, e que tosquiavam o rebanho em vez de alimentá-lo – pastores semelhantes aos descritos em Jeremias 23.1 e Ezequiel 34.2. A situação dessas pessoas é muito lastimável, pois elas não têm sacerdotes, ou quando têm eles são tão ruins que é como se não tivessem nenhum; são obreiros que procuram os seus próprios interesses, e não os interesses de Cristo e das almas.

2.Ele incitou os seus discípulos a orar por eles. A sua compaixão fez com que Ele criasse planos para o bem dessas pessoas. Parece (Lucas 6.12,13) que nessa ocasião, antes de enviar seus apóstolos, Ele próprio passou muito tempo em oração. Nós devemos orar por aqueles por quem temos compaixão. Tendo orado a Deus por eles, Jesus se volta para os seus discípulos e diz:

(1) Como estava a situação. A seara é realmente grande, mas poucos são os ceifeiros”. O povo desejava uma boa pregação, mas havia poucos pregadores bons. Havia muito trabalho a ser feito, e igualmente muito bem a ser feito, mas faltavam mãos para fazê-los.

[1] Era um alento que a colheita fosse tão abundante. Não era de se estranhar que houvesse multidões que precisassem de instrução, mas o estranho era algo que não acontece com muita frequência: aqueles que dela necessitavam, a desejavam e estavam ávidos por recebê-la. Aqueles que eram ensinados de forma imprópria estavam desejosos por serem ensinados de uma maneira melhor. As expectativas das pessoas haviam subido, e havia uma agitação tal como se houvesse a promessa de que tudo ficaria bem. É uma bênção ver o povo apaixonado pela boa pregação. Os vales estão, dessa forma, cobertos com milho e há esperança de que Ele possa ser bem recolhido. Esta é uma gigantesca oportunidade que requer cuidado dobrado e diligência para que haja um aproveitamento eficaz. Um dia de colheita deveria ser um dia atarefado.

[2] Era urna pena que nessa situação os trabalhadores fossem tão poucos; que o milho caísse, estragasse e apodrecesse sobre o solo por falta de ceifeiros; havia muitos ociosos, mas pouquíssimos trabalhadores. A igreja pode ser considerada enferma quando a boa obra não anda ou apenas progride lentamente por falta de bons obreiros; quando isso ocorre, os obreiros existentes são obrigados a permanecer ocupados demais.

(2) Qual era o dever dos discípulos neste caso (v. 38): “Rogai, pois, ao Senhor da seara”. Note que o aspecto melancólico do período e o estado deplorável das almas preciosas deveriam instigar e apressar muito a oração. Quando as coisas parecem desanimadoras, devemos orar mais e, ao mesmo tempo, devemos reduzir os nossos temores e queixas. Devemos também adaptar as nossas orações às necessidades atuais da igreja; devemos entender o momento para sabermos não apenas o que Israel deve fazer, mas pelo que Israel deve orar. Considere que:

[1]. Deus é o Senhor da seara: “Meu Pai é o Lavrador” (João 15.1). Israel é a vinha do Senhor dos Exércitos (Isaias 5.7). É por Ele, para Ele, e a seu serviço e honra, que a colheita é recolhida. “Vós sois lavoura de Deus” (1 Coríntios 3.9); “sua malhada e trigo da sua eira” (Isaias 21.10). Ele ordena todas as coisas da colheita como lhe agrada; quando e onde os operários trabalharão e por quanto tempo; e é muito confortador para aqueles que desejam o melhor para o trabalho de colheita que o próprio Deus o dirija, assegurando que tudo se encaminhe para melhor.

[2]. Os ministros são e devem ser obreiros na seara de Deus. O ministério é um trabalho e deve ser tratado dessa maneira; é trabalho de colheita, que é muito importante; trabalho que requer que cada coisa seja feita a seu tempo, além da diligência para fazê-lo por completo; mas é um trabalho agradável. Eles colhem com alegria e a alegria dos pregadores do Evangelho é comparada à alegria da colheita (Isaias 9.2,3). Aquele que ceifa deve receber salário; o salário dos obreiros que ceifam os campos de Deus não será diminuído, como já aconteceu (Tiago 5.4).

[3]. É trabalho de Deus enviar os obreiros; Cristo forma os ministros (Efésios 4.11); o cargo é de sua nomeação, as qualificações são obra sua, o chamado é dádiva sua. Eles não serão pagos como operários que andam a esmo, desqualificados, não chamados. Como pregarão se não forem enviados?

[4]. Todos os que amam a Cristo e às almas devem mostrar isso através de orações fervorosas a Deus, especialmente quando a seara é abundante, para que Ele envie mais obreiros habilidosos, fiéis, sábios e diligentes para a sua seara. E que Ele os levante em benefício da conversão dos pecadores e da edificação dos santos. Que Ele lhes dê energia para o trabalho, os chame para o trabalho e os faça ter sucesso nele. Par a que Ele lhes dê sabedor ia para ganhar almas. Para que Ele envie o número de obreiros necessário; obreiros que não se entreguem ao desânimo demonstrando relutância ao trabalho, por causa de sua própria fraqueza e da impiedade das pessoas e da resistência dos homens, que se esforçam para lançá-los para fora da colheita. Mas devemos orar para que todas as contradições interiores e exteriores possam ser derrotadas e superadas. Cristo leva os seus amigos a orar sobre este assunto, pouco antes de enviar apóstolos para trabalhar na seara. É um bom sinal da parte de Deus – de que Ele está prestes a conceder alguma misericórdia especial a um povo – quando Ele desperta aqueles que se interessam pelo trono da graça para orar em busca de suas bênçãos (SaImos 10.17). Além do mais, observe que Cristo disse isto aos seus discípulos, que trabalhariam como obreiros. Eles deveriam orar pedindo, em primeiro lugar, que Deus os enviasse. “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Isaias 6.8). As nomeações, dadas em resposta à oração, são mais passíveis de terem sucesso. Paulo é um vaso escolhido; então ele ora (Atos 9.11,15). Em segundo lugar, devemos pedir que o Senhor envie outros obreiros. Não apenas o povo, mas também aqueles que são obreiros, devem orar pelo aumento no número de obreiros. Não obstante, o egoísmo faz com que aqueles que procuram os seus próprios interesses desejem ficar sozinhos (quanto menos obreiros, menor será a concorrência pelas “promoções”). Porém, aqueles que buscam os interesses de Cristo quer em que haja mais obreiros, para que mais trabalho possa ser feito, mesmo que eles possam ser eclipsados por isso.

GESTÃO E CARREIRA

LIBERTEM A ECONOMIA!

Libertem a economia

Os grupos mais poderosos vêm sufocando as inovações

Nos países mais ricos, a desigualdade de renda vem crescendo nos últimos 40 anos, e nada indica que o gap vai se estreitar. Alguns apontam como culpados a evolução tecnológica (que troca humanos por máquinas), as importações mais baratas de fornecedores, a exemplo da China, e a decadência dos sistemas educacionais. Brink Lindsey, diretor do Open Society Project, e Steven Teles, professor da Universidade Johns Hopkins, de Baltimore, em seu novo livro The Captured Economy, porém, alertam para uma possível causa do problema que consideram subestimada: a “captura” da regulamentação econômica por grupos poderosos e influentes. Por essa interpretação, grandes companhias e o setor financeiro passam a ditar o sistema regulatório de acordo com suas conveniências, em todos os níveis — internacional, nacional, estadual e municipal.

Isso prejudica a sociedade, ao dificultar o surgimento de novos negócios, aumentar a desigualdade e a esclerosar a economia. Os autores não defendem simplesmente cortar regulações ou impostos. Para eles, governos devem elaborar novas políticas para que a máquina pública funcione bem e processos de regulamentação sejam aprimorados no Congresso, na Justiça e no Executivo. Boa regulamentação é aquela que promove a competitividade e incentiva novos negócios.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

MAIS CANETA E PAPEL, POR FAVOR

Mais papel e caneta, por favor

Tomar notas à mão pode ser mais eficaz para o processo de aprendizagem do que digitar; especialistas acreditam que essa prática ajuda a reter informações.

 Em busca de comodidade, cada vez mais deixamos de lado o papel e optamos por digitar. De fato, parece mais prático escrever um e-mail do que uma carta. Mas, como tudo tem seus prós e contras, nessa área também não é diferente. E, quando se trata de redigir, um grupo de cientistas adverte que nem sempre o método mais rápido é, necessariamente, o melhor. Segundo pesquisadores da Universidade Princeton, tomar notas à mão favorece a capacidade de síntese e ajuda a focar o essencial e – melhor – a reter conceitos com mais facilidade.

O psicólogo Daniel Oppenheimer e sua equipe chegaram a essa conclusão quando pediram a alguns estudantes que assistissem a uma palestra e fizessem anotações – parte deles à mão e parte usando um notebook. Depois de 30 minutos, os pesquisadores fizeram entrevistas com os voluntários sobre aspectos factuais e conceituais do conteúdo visto e descobriram que aqueles que escreveram com papel e caneta se saíram significativamente melhor, sobretudo em relação a ideias abstratas, ainda que o restante tivesse registrado maior quantidade de informações no computador.

Os pesquisadores ressaltam que, quando tomamos notas, selecionamos determinados dados (e os codificamos) e os recordamos mais tarde (o que favorece o armazenamento e facilita a aprendizagem). Quando o registro se torna muito fácil, tendemos a nos dispersar e perdemos a oportunidade de absorver algo novo, principalmente quando se trata de conceitos, e não fatos. Escrever à mão, por outro lado, nos obriga a focar o essencial já que, em geral, não somos fisicamente capazes de escrever cada palavra do que é dito, o que termina facilitando a assimilação.

Os resultados publicados na Psychological Science ajudam a esclarecer um fenômeno que os psicólogos chamam de “dificuldade desejável”, para se referir à necessidade de esforço e investimento com o intuito de assimilar novos conteúdos. “Às vezes, os obstáculos que nos frustram nos ajudam a aprender”, diz Oppenheimer.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 9: 27-34

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Dois Cegos e Um Mudo São Curados

Nestes versículos, temos um relato de mais dois milagres realizados em conjunto pelo nosso Salvador.

I – A dádiva da visão a dois cegos (vv. 27-31). Cristo é a fonte de luz bem como da vida; e como tal, ao ressuscitar os mortos, mostrou ser aquele mesmo que inicialmente soprou no homem o fôlego da vida; assim, ao dar a visão aos cegos, Ele mostrou ser o mesmo que no início ordenou que a luz se se parasse das trevas. Observe:

1.O importuno clamor dos cegos a Cristo. Ele estava voltando da casa do chefe da sinagoga para o seu próprio alojamento, e esses cegos o seguiram, como fazem os mendigos, com seus clamores incessantes (v. 27). Ele, que cura doenças com tanta facilidade, tão eficazmente, e além disso gratuitamente, deve ter pacientes suficientes. Dentre outras grandes qualidades, Ele também era afamado como aquele que curava as vistas. Observe:

1.O título que esses cegos deram a Cristo: “Tem compaixão de nós, Filho de Davi”. A promessa feita a Davi, de que de seus lombos viria o Messias, era bem conhecida; e o Messias era então comumente chamado de Filho de Davi. Naquela época havia uma expectativa geral pelo seu aparecimento. Esses cegos sabem, reconhecem e proclamam isso nas ruas de Cafarnaum – que Ele chegou, e que este é Ele (o que agrava a insensatez e o pecado dos sumos sacerdotes e dos fariseus que o negavam e confrontavam). Eles não podiam vê-lo, e aos seus milagres, mas a fé veio através da audição. Eles que, pela providência divina, foram desprovidos da visão material, podem mesmo assim, pela graça de Deus, ter os olhos do entendimento grandemente esclarecidos, capazes de enxergar aqueles notáveis atos de Deus, que estão escondidos dos sábios e inteligentes.

2.O pedido dos cegos: “Tem compaixão de nós”. Fora profetizado que o Filho de Davi seria misericordioso (SaImos 72.12,13), e nele brilharia a suave misericórdia do nosso Deus (Lucas 1.78). Quaisquer que sejam nossas necessidades e aflições, não precisamos mais do que uma fração da misericórdia de nosso Senhor Jesus para nosso sustento e suporte. Quer Ele nos cure ou não, se Ele tiver compaixão de nós, temos o suficiente. Quanto aos exemplos e métodos particulares da misericórdia, devemos nos remeter com segurança à sabedoria de Cristo. Eles não disseram, cada um por si: “Tem compaixão de mim”; mas ambos, um pelo outro, clamavam: “Tem compaixão de nós”. Note que é típico daqueles que estão sob a mesma angústia, concordar nas mesmas orações de consolo. Os companheiros de sofrimento devem compartilhar as suas súplicas. Em Cristo há bênçãos suficientes para todos.

(3) O incômodo daquele pedido. Eles o seguiram, clamando. Parece que, de início, Jesus não os havia notado, pois Ele testa a fé deles (que Ele sabia ser forte); aviva seus pedidos e assim dá às suas curas um valor maior ao não realizá-las ao primeiro pedido, e com isto nos ensina a insistir na oração, e a não esmorecer. Embora a resposta não venha de imediato, mesmo assim devemos esperar por ela e seguir a providência, mesmo nos passos e ações que parecem negar ou contradizer as nossas orações. Cristo não os curaria em público, nas ruas, pois esta era uma cura que Ele queria manter em segredo (v. 30); mas quando Ele chegou à sua casa, eles o seguiram até lá, e falaram com Ele. As portas de Cristo estão sempre abertas aos crentes suplicantes e importunas. Parecia rude da parte dos cegos correr para dentro da casa, atrás de Jesus, quando Ele desejava descansar; porém, tamanha é a ternura de nosso Senhor Jesus, que eles não foram considerados ousados, mas sim bem-vindos.

3.A confissão de fé que Cristo extraiu deles nesta ocasião. Quando os cegos vieram a Jesus pedindo compaixão, Ele lhes perguntou: “Credes vós que eu possa fazer isto?” Note que a fé é a grande condição para se obter o favor de Cristo. Aqueles que desejam receber a misericórdia e compaixão de Cristo devem crer firmemente no seu poder. Precisamos ter confiança de que Ele é capaz de fazer aquilo que lhe pedimos. Eles seguiram a Cristo e o seguiram clamando, mas a grande questão é: “Vocês creem?” A natureza pode gerar emoções intensas, mas somente a graça pode gerar a fé – bênçãos espirituais somente são obtidas através da fé. Eles tinham anunciado sua fé no ministério de Cristo como Filho de Davi e em sua misericórdia; mas Cristo exige, da mesma maneira, uma profissão de fé em seu poder. Credes vós que eu possa fazer isto, conceder este presente, dar a visão a cegos, bem como curar a paralisia e ressuscitar os mortos? Devemos ser específicos no exercício da fé ao aplicarmos as garantias gerais do poder, da boa vontade, e das promessas gerais de Deus para o atendimento de nossas necessidades particulares. Todas as coisas devem cooperar juntamente para o bem; e, sendo assim, cabe a pergunta: “Credes vós que Eu sou capaz, não só de ser vitorioso com Deus Pai, como um profeta, mas que Eu possa fazer isso através do meu próprio poder?” Esta confissão se somará à crença deles de que Ele era não só o Filho de Davi, mas o Filho de Deus; pois é prerrogativa de Deus abrir os olhos dos cegos (SaImos 46.8). Ele cria o que vê (Êxodo 4.11). Já era como olhos par a os cegos (Jó 29.15); ele era, para eles, como os seus olhos, mas não podia dar vista aos cegos. Ainda assim nos é questionado: será que cremos que Cristo pode agir por nós pelo poder de sua virtude e intercessão no céu, por seu Espírito e graça no coração, e por sua providência e autoridade no mundo? Crer no poder de Cristo não é somente nos assegurarmos de que este poder realmente existe; mas é nos comprometermos com este poder, e nos encorajarmos através dele.

A esta pergunta, os cegos deram uma resposta imediata, sem hesitação; eles disseram: “Sim, Senhor”. Embora Jesus os tivesse mantido em suspense por algum tempo, e não os tivesse ajudado inicialmente, eles honestamente atribuíram isso à sua sabedoria, e não a alguma fraqueza da parte dele, e ainda estavam confiantes em sua capacidade. Note que os tesouros da misericórdia, que estão guardados no poder de Cristo, estão reservados para aqueles que creem nele (SaImos 31.19).

4.A cura que Cristo realizou neles. Ele tocou os olhos deles (v. 29). Ele o fez para encorajar a fé dos cegos – que Ele havia testado através de sua demora – e para mostrar que Ele dá a visão às almas cegas pela operação de sua graça, que acompanha a Palavra, ungindo os olhos com unguento oftálmico; e Ele atribui a cura à fé deles: “Seja-vos feito segundo a vossa fé”. Quando eles pediram uma cura, Ele os interrogou sobre sua fé (v.28): “Credes vós que eu possa fazer isto?” Ele não perguntou sobre as suas riquezas, se eles podiam pagá-lo pela cura; nem sobre a sua reputação, se Ele obteria crédito por curá-los; mas sobre a sua fé; e agora que eles haviam professado a sua fé, Ele mudou o foco de sua atenção, dizendo: “Seja-vos feito segundo a vossa fé”. Em outras palavras: “Eu sei que vocês realmente creem e a força da sua fé será manifestada em vocês”. Isto mostra:

(1) O conhecimento de Jesus da sinceridade da fé deles e sua aceitação e aprovação dela. Note que é um grande consolo par a os verdadeiros crentes que Jesus Cristo conheça a sua fé e esteja satisfeito com ela. Embora seja fraca, embora outros não a enxerguem, embora eles próprios estejam prontos a questioná-la, Ele a conhece.

(2) Sua insistência na necessidade da fé deles: “Se vocês creem, peguem o que vieram buscar”. Aqueles que recorrem a Jesus Cristo serão tratados de acordo com a sua fé; não de acordo com suas fantasias, não conforme a sua profissão de fé, mas conforme a sua fé; ou seja, os incrédulos não podem esperar obter nenhuma graça junto a Deus, mas os verdadeiros crentes podem estar certos de encontrar todas as graças oferecidas no Evangelho; e os nossos consolos fluem ou cessam, conforme a intensidade de nossa fé – mais forte ou mais fraca. Nós não somos limitados em Cristo, não sejamos, então, limitados em nós mesmos.

5.A ordem que Jesus lhes deu para que a cura ficasse em segredo (v. 30): “Olhai que ninguém o saiba”. Ele lhes deu essa ordem:

(1) Para nos dar um exemplo da humildade e modéstia que Ele quer que aprendamos com Ele. Note que no bem que fazemos, não devemos procurar nossa própria exaltação, mas somente a glória de Deus. Deve ser nossa preocupação e empenho ser mais úteis do que conhecidos, e se tivermos que ser notados, que seja por agirmos assim (Provérbios 20.6; 25.27). Assim, Cristo apoiava a regra que Ele nos deu: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”.

(2) Alguns pensam que Cristo, ao manter a cura em segredo, mostrava seu descontentamento com o povo de Cafarnaum, que havia visto tantos milagres e mesmo assim não acreditava. O silêncio daqueles que deveriam proclamar as obras de Cristo é um julgamento para qualquer lugar ou povo. E é prerrogativa exclusiva de Cristo negar os meios de convicção àqueles que são obstinados em sua falta de fé, e esconder a luz daqueles que fecham os seus olhos para ela.

(3) Ele a realizou com discrição, para sua própria proteção; pois quanto mais Ele era anunciado, mais os líderes dos judeus sentiam ciúmes do crescente interesse por Ele entre o povo.

(4) O Dr. Whitby fornece outra razão, que deve ser considerada: Por que Cristo, às vezes, ocultava seus milagres e mais tarde proibiu a divulgação de sua transfiguração? Porque Ele não cederia àquela perniciosa presunção que era ‘vigente entre os judeus de que o seu Messias deveria ser um príncipe terreno e, assim, dar oportunidade ao povo de tentar estabelecer o seu reinado através de tumultos e revoltas, como eles se ofereceram para fazer (João 6.15). Porém, após a sua ressureição (que era a prova completa da sua missão), quando seu reino espiritual foi estabelecido, e esse perigo acabou, os seus milagres deveriam ser divulgados para todas as nações. O Dr. Whitby também observa que os milagres que Cristo realizou entre os gentios e os gadarenos puderam ser livremente divulgados porque, com eles, não havia esse perigo.

Mas a honra é como a sombra, que foge dos que a perseguem, e persegue aqueles que dela fogem (v. 31). Eles divulgaram a sua fama. Este era um ato mais de zelo que de prudência; e embora possa ser explicado como a intenção honesta de honrar a Cristo, mesmo as­ sim, não pode ser justificado, pois foi feito contrariamente a uma ordem específica. Sempre que manifestamos o desejo de direcionar as nossas intenções para a glória de Deus, devemos verificar se o ato está de acordo com a vontade de Deus.

II – A cura de um mudo que estava endemoninhado. Observe aqui:

1.A situação dele, que era muito triste. Ele estava sob o poder do diabo, que neste caso em particular o impedia de falar (v. 32). Veja a calamitosa situação deste mundo e quão variadas são as tribulações daqueles que estão atormentados! Mal nos despedimos de dois cegos e já encontramos um mudo. Quão agradecidos devemos ser a Deus por nossa visão e fala! Veja a maldade de Satanás contra a humanidade e de quantas formas ele a mostra. A mudez deste homem era o efeito de estar possuído por um demônio; mas era melhor que ele fosse incapaz de dizer qualquer coisa do que ser forçado a falar, como fizeram os outros endemoninhados (cap. 8.29): “Que temos nós contigo?” Entre os dois, é melhor um demônio mudo do que um que blasfema. Quando o demônio se apossa de uma alma, esta se torna muda para qualquer coisa que seja boa; muda para as orações e louvores, dos quais o demônio é um inimigo juramentado. Eles levaram aquela pobre criatura a Cristo. O Senhor recebia não somente os que vinham por si mesmos, por sua própria fé, mas aqueles que lhe eram trazidos por seus amigos, pela fé dos outros. Embora o justo deva viver eternamente pela sua fé, as clemências terrenas podem nos ser concedidas levando em conta a fé daqueles que intercedem a nosso favor. O mudo foi trazido a Jesus logo após o cego sair. Veja como o infatigável Cristo agia ao praticar o bem; com que proximidade uma boa obra seguia outra! Os tesouros da misericórdia, maravilhosa misericórdia, estão ocultos nele. Suas misericórdias podem ser continuamente transferidas, sem jamais se esgotar.

2.A cura foi muito rápida (v. 33): “E, expulso o demônio, falou o mudo”. Note que as curas realizadas por Cristo atacam o mal pela raiz, e removem o efeito através da eliminação da causa; elas abrem os lábios, quebrando o poder de Satanás sobre a alma. No processo de santificação, Ele trata as águas, lançando sal à fonte. Quando Cristo, pela sua graça, expulsa o demônio daquela alma, na mesma hora o mudo fa.la. Observe que assim que Paulo se converte, ele ora; na mesma hora o mudo falou.

3. As consequências dessa cura.

1.”A multidão se maravilhou”, e tinha razão para isso. Embora poucos acreditassem, muitos se surpreendiam. A admiração do povo aparece antes de qualquer outra emoção. Foi profetizado que um novo cântico, o cântico do Novo Testamento, deveria ser cantado para as maravilhas feitas pelo Senhor (Salmos 98.1). Eles diziam: “Nunca tal se viu em Israel” e, consequentemente, nunca fora visto em qualquer lugar; pois nenhum povo conheceu tais maravilhas de misericórdia como Israel. Existiram em Israel aqueles que foram famosos por realizar milagres, mas Cristo superou a todos eles. Os milagres realizados por Moisés eram referentes a Israel como povo, mas os de Cristo eram destinados a pessoas específicas.

2.Os fariseus blasfemaram (v. 34). Quando eles não conseguiram negar a evidência convincente desses milagres, eles os atribuíram ao demônio, como se eles tivessem sido realizados através de algum pacto ou fraude: “Ele expulsa os demônios (dizem eles) pelo príncipe dos demônios”; uma sugestão horrível, além do que se possa imaginar. Falaremos mais a esse respeito posteriormente, assim como sobre a resposta de Cristo a ela (cap. 12.25). Apenas observe aqui como os perversos e enganadores vão de mal a pior (2 Timóteo 3.13), e isso é tanto o seu pecado como a sua punição. Suas disputas com Cristo – pelo fato de o Senhor ter assumido a responsabilidade pelo perdão dos pecados (v. 3), por conversar com publicanos e pecadores (v. 11), por não jejuar (v. 14), embora bastante rancorosas, apresentavam ainda alguns aspectos de religiosidade, assim como da pureza e devoção deles; mas isto (que é o que lhes resta e pelo que serão castigados) tem um ar de malícia, falsidade e hostilidade satânica no grau mais elevado; as atitudes daqueles opositores eram completamente satânicas e foram, portanto, de forma justa, declaradas imperdoáveis. Como o povo se maravilhava, eles deviam tentar dizer alguma coisa que diminuísse o milagre – e isso era tudo que eles podiam dizer.

GESTÃO E CARREIRA

RECRUTE COM Q. I.

Recrute com Q.I.

Avaliar a capacidade cognitiva de candidatos ajuda a selecionar melhor.

Obcecado por autopromoção e auto louvação, Donald Trump tuitou, em outubro passado, ter quociente de inteligência (Q.I.) mais alto que seu secretário de Estado, Rex Tillerson. Trump já havia lembrado dessa gasta medição em 2013, quando também se gabou de ter Q.I. maior que os dos ex-presidentes Barack Obama e George W. Bush. O Q.I. já passou por todas as interpretações erradas possíveis – muitos rejeitam completamente esse tipo de medição –, e Trump exagera sua importância. Há muito tempo Q.I. não é a principal definição de inteligência. Mas eis que um estudo publicado na revista científica Industrial and Organizational Psychology constata que recrutadores de empresas deveriam incluir essa medição em seu trabalho. Segundo o artigo, o habitual hoje é que o Q.I. seja completamente ignorado, em favor de traços de personalidade e conhecimento técnico. Para os autores, isso impede a devida mensuração de uma característica básica para um bom desempenho profissional – a capacidade cognitiva, de apreensão e reconhecimento de padrões, mudanças e informações. Essa capacidade, fundamental para assimilar conhecimento, é parcialmente medida pelo Q.I.

Isso não significa que o Q.I. deva direcionar o recrutamento – apenas que precisa ser considerado. Estudo publicado pela americana Harvard Business School destaca os três traços conjuntos que devem nortear a escolha de um candidato: habilidade cognitiva (outra denominação para Q.I.), habilidades sociais e energia para agir.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

(RE) ORIENTAÇÃO SEXUAL

(Re)orientação sexual

Várias tentativas de normatizar e “curar” orientações homossexuais têm efeitos iatrogênicos, ou seja, além de serem ineficazes, prejudicam o paciente; nesse contexto, a tarefa do psicoterapeuta é separar o sujeito de sua alienação de ideais sociais que lhe impõem a renúncia ao desejo.

 Estes tempos de pós-verdade e vale-tudo jurídico habilitaram o retorno de antigas teses regressivas em matéria de psicologia. Recentemente, o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho expediu uma liminar suspendendo as disposições do Conselho Federal de Psicologia (CFP), de 1990, que vetavam o tratamento e a cura das homossexualidades. Ele indica textualmente que tal resolução não deve ser interpretada de modo a impedir psicólogos de “promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada, pertinente à (re) orientação sexual, garantindo-lhes assim, a plena liberdade científica acerca da matéria, sem qualquer censura ou necessidade de licença prévia por parte do Conselho Federal de Psicologia (CFP)”. Os argumentos remontam à liberdade de pesquisa científica, à inquietação social em torno de “práticas sexuais desviantes”, à censura, ao preconceito e à discriminação praticada pelo CFP e ao direito dos “eventuais interessados neste tipo de assistência psicológica”. A ciência, o interesse social, as instituições reguladoras e o direito do “consumidor” ficaram assim “agraciados” com essa nova forma de liberdade.

Por um truque retórico, o magistrado separa “tratamento, cura das homossexualidades”, sua patologização ou “ação coercitiva para tratamentos não solicitados” do que seria o “estudo ou atendimento profissional pertinente à (re) orientação sexual”. Ora, desde que na edição de 1973 da terceira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-III) a homossexualidade foi retirada da condição de transtorno (disorder), iniciou-se um processo de renomeação de abordagens com o intuito de justificar a prática como reconversão, reorientação e reparação. Quase todas essas tentativas provêm de grupos que alinham princípios psicoterapêuticos com abordagens religiosas. É o caso também dos dois projetos de lei que tramitam no Congresso com o objetivo de alterar o veto do CFP.

Ocorre que esta não é apenas uma matéria inócua, que a experiência poderia resolver deixando-se a deliberação livre para o mercado dos consumidores de psicoterapias. Pouco se debate, mas várias delas têm efeitos iatrogênicos, ou seja, não apenas não apresentam eficácia ou eficiência reduzida, mas prejudicam o paciente. A apresentação de uma liminar desse tipo também deveria ser incluída como um desserviço social de nosso sistema judiciário. Isso ocorre porque nossa relação com a sexualidade, seja no âmbito da identidade de gênero, seja na esfera de nossas modalidades preferenciais de prazer ou, ainda, de nossas escolhas de fantasia, depende de como somos lidos e como nos interpretamos em relação ao Outro. Portanto, o sentimento de adequação ou inadequação e o reconhecimento ou a derrogação de reconhecimento alteram efetivamente nossa relação com a sexualidade.

Um prazer proibido é diferente de um prazer auto imposto ou socialmente sancionado. A sexualidade humana é sempre dissonante de si mesma, e quase sempre envolve demandas de adequação, se não do ponto de vista comportamental, em relação aos efeitos das fantasias pessoais que os outros fazem sobre as nossas fantasias. Por isso, a tentação de utilizar instâncias socialmente universalizantes como o direito, a religião ou a ciência para manipular tais disposições será muito grande. Isso ocorre por querermos trocar o sentimento de inadequação pelo trabalho de adequação à fantasia alheia.

Diante dessa injunção, a tarefa do psicoterapeuta é separar o sujeito de sua alienação de ideais sociais que lhe impõem a renúncia ao desejo. Por isso, o pedido, a reza, a mais sólida deliberação do espírito, a soberana vontade do consumidor, ou a mais grotesca justificativa jurídico-moral não são suficientes para nos fazer colocar o sujeito contra seus próprios desejos, sejam eles homo, hetero, bi ou n-sexuais.

 

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER – é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

 

 

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 9: 18-26

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 A Ressurreição da Filha de um Chefe

Temos aqui duas histórias colocadas juntas: a da ressurreição da filha de Jairo e a da cura da mulher que tinha um fluxo de sangue, enquanto Jesus se encaminhava para a casa de Jairo, esta inserida em um parêntese, no meio da primeira história; pois os milagres de Cristo eram muito espalhados e entrelaçados; a obra daquele que o enviou era seu trabalho diário. Ele era convocado a fazer essas boas obras, dizendo o que aconteceria no futuro, e respondendo aos sofismas dos fariseus (v. 18). Enquanto Ele falava dessas coisas, foi interrompido e podemos supor que esta foi uma agradável interrupção em meio ao desagradável trabalho de debater, pois, às vezes, é necessário que um homem bom abandone uma discussão, com prazer, até que cuide de algum ato de oração ou caridade. Neste ponto, temos:

I – O chefe dirigindo-se a Cristo (v.18). Um certo administrador, um chefe da sinagoga, chegou e o adorou. Algum dos chefes cria nele? Sim, aqui estava um, um chefe da sinagoga, cuja fé denunciava a incredulidade dos demais chefes. Este chefe tinha uma filha pequena, de doze anos de idade, que acabara de falecer, e esta violência contra o aconchego da sua família foi a oportunidade que ele teve para ir a Cristo. Note que quando temos problemas devemos buscar a Deus. A morte de nossos parentes deve nos levar a Cristo, que é a nossa vida; seria bom se tudo nos levasse a Ele. Quando a aflição atinge as nossas famílias, não devemos ficar sentados atônitos, mas, como Jó, devemos nos ajoelhar e orar.

Agora observe:

1.Sua humildade ao dirigir-se a Cristo. Ele próprio foi até Cristo com sua missão. Ele não enviou um de seus criados. Note que não é depreciativo para os maiores governantes ir pessoalmente até o Senhor Jesus. Esse o adorou, ajoelhou-se diante dele e lhe prestou todo o respeito. Aqueles que recebem a compaixão de Cristo devem reverenciar a Cristo.

2.Sua fé: “Minha filha faleceu agora mesmo”. Embora a chegada de qualquer outro médico fosse agora muito tardia (nada mais absurdo do que a medicina pós-morte), Cristo, entretanto, chegou a Ele é o médico da pós-morte, pois Ele é a ressurreição e a vida: “Mas vem, impõe-lhe a tua mão, e ela viverá”. Isto estava bem acima do poder natural, mas ao alcance dos poderes de Cristo, que tem em si mesmo a vida, e o poder de dar a vida a quem Ele quiser. Cristo opera hoje de uma forma tão poderosa quanto no passado. Às vezes, Ele não age de acordo com a natureza, a natureza que Ele criou e que lhe pertence. Portanto, sempre podemos lhe fazer um pedido desse tipo. Humanamente falando, enquanto houver vida, haverá esperança e espaço para a oração; mas quando nossos parentes e amigos morrem, o caso está humanamente decidido; nós iremos a eles, mas eles não retornarão a nós. Porém, quando Cristo está presente, Ele age realizando milagres; uma confiança como essa não é somente admissível, mas muito louvável.

II – A prontidão de Cristo em concordar com o pedido daquele homem (v. 19). Jesus se levantou imediatamente, deixou seus acompanhantes e o seguiu. Ele não só queria conceder o que o homem desejava, ressuscitando a sua filha, mas gratificá-lo a ponto de ir à sua casa para fazê-lo. Certamente, Ele nunca disse à semente de Jacó: Vós me buscais em vão. Ele se negou a ir com o nobre que disse: “Senhor, desce, antes que meu filho morra” (João 4.48-50), todavia Ele acompanhou o chefe da sinagoga que disse: Senhor “vem… e [minha filha] viverá”. A variedade de métodos que Cristo usa par a realizar seus milagres talvez deva ser atribuída às diferentes disposições de espírito e humor em que se encontravam aqueles que recorriam a Ele, algo que Ele, que examina o coração, conhecia perfeitamente, e à qual se adequava. Ele conhece tudo sobre cada pessoa, inclusive todos os pensamentos do homem e qual é a melhor direção para conduzir cada um. Observe que quando Jesus seguiu o homem, seus discípulos também o fizeram; eles eram aqueles que Ele havia escolhido como os seus companheiros constantes. Não era para fazer declarações ou observações que Ele levava seus acompanhantes consigo, mas para que aqueles que seriam os pregadores da sua doutrina no futuro pudessem ser testemunhas de seus milagres.

III – A cura da pobre mulher que tinha um fluxo de sangue. Eu a chamo de pobre mulher, não apenas porque seu caso era comovente, mas porque ela havia gastado tudo com médicos, na busca da cura para sua enfermidade, sem nunca ter ficado melhor; o que dobrava a sua condição de miséria, pois ela tivera muito, mas nada tinha agora; e empobrecera tentando recuperar a sua saúde e não conseguiu. Essa mulher estava doente de um fluxo de sangue há doze anos (v. 20); uma doença que não era somente debilitante e destruidora, e sob a qual o corpo necessita de descanso total, mas que a tornara cerimonialmente impura e a mantinha fora das dependências da casa do Senhor; porém não a impedira de se aproximar de Cristo. Ela própria recorreu a Cristo e recebeu a sua misericórdia no caminho, enquanto seguia o chefe da sinagoga, cuja filha estava morta, e para quem isso seria um grande encorajamento e uma ajuda para preservar a sua fé no poder de Cristo. Com que benevolência Cristo considera a situação e leva em conta a situação dos crentes frágeis! Observe:

1.A grande fé da mulher em Cristo e em seu poder. A doença da mulher era de tal natureza, que a sua modéstia não lhe permitia falar abertamente com Cristo sobre uma cura, corno faziam os outros, mas por um impulso peculiar do Espírito de fé, ela acreditou que Ele tinha uma tão completa abundância de virtude, que o simples toque em sua vestimenta traria a sua cura. Alguns podem considerar que talvez a atitude da mulher tivesse sido um tanto fantasiosa, ou seja, um sentimento fantasioso misturado com fé; pois não havia um precedente dessa maneira de pedir a Cristo, a menos que, como alguns pensam, ela tivesse em vista a ressurreição de um morto pelo toque nos ossos de Eliseu (2 Reis 13.21). Mas qualquer que fosse a falta de entendimento aqui, Cristo ficou contente ao considerar e aceitar a sinceridade e a força de sua fé; pois Ele come o favo e o mel (Cantares 4.11). Ela acreditava que seria curada se apenas tocasse a orla de suas vestes, a simples borda da roupa do Senhor. Note que existe virtude em cada coisa que pertence a Cristo. O óleo precioso com que o sumo sacerdote era ungido, descia até a orla de suas vestes (SaImos 133.2). A plenitude de graça que há em Cristo é tamanha, que todos nós podemos dela receber virtude (João 1.16).

2.A notável generosidade de Cristo para com essa mulher. Ele não suspendeu (como poderia ter feito) suas influências curativas, mas tolerou que esta tímida paciente conseguisse um a cura desconhecida de todos os outros, embora ela não pudesse fazê-lo sem que Ele o soubesse. E agora ela partia muito contente, pois tinha alcançado o que viera buscar, mas Cristo não queria que ela partisse assim. Ele não só teria seu poder engrandecido na cura dela, mas a sua graça engrandecida no bem-estar e admiração da mulher: as vitórias da sua fé devem ser para honra e elogio dela. Ele se voltou para vê-la (v. 22), e logo a achou. Note que é um grande incentivo para os cristãos humildes saber que mesmo estando imperceptíveis aos homens, são amplamente conhecidos por Cristo, que vê em segredo a sua dedicação às coisas celestiais, mesmo quando estão isolados. Nessas circunstâncias:

(1) Ele põe alegria no coração da mulher, através desta palavra: “Tem bom ânimo, filha” (versão RA). Ela temia ser censurada por chegar de forma clandestina, mas é encorajada.

[1] Ele a chama de filha, pois Ele falava com ela com a ternura de um pai, como fez com o paralítico (v. 2), a quem Ele chamou de filho. Cristo tem alívio pronto para as filhas do Sião, que são tristes de espírito, como Ana (1 Samuel 1.15). As mulheres que creem são filhas de Cristo, e Ele as reconhece como tais.

[2] Ele a convida a ter ânimo. Uma vez que Cristo a reconhece como uma filha, ela tem razão para se sentir assim! A consolação dos santos é baseada em sua adoção como filhos. O incentivo de Jesus para que ela tivesse ânimo trazia em si consolo (assim como suas palavras, “a tua fé te salvou”, traziam saúde). A vontade de Cristo é que o seu povo seja confortado, e é sua prerrogativa ordenar o consolo a espíritos perturbados. “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz” (Isaias 57.19).

(2) Ele honra a fé dela. A fé honra a Cristo acima de todas as demais coisas; por tanto, Ele a honra: ”A tua fé te salvou”. Dessa maneira, através da fé, ela conseguiu uma boa notícia. E, de todas as graças, Cristo coloca a maior honra sobre a fé; portanto Ele atribui maior honra àqueles crentes mais humildes, como acontece aqui com esta mulher que tinha mais fé do que pensava ter. Ela tinha razão para se sentir aliviada, não só porque estava curada, mas porque sua fé a curara; ou seja:

[1] Ela foi espiritualmente curada. A cura realizada nela foi o fruto e o efeito apropriado da fé, do perdão dos pecados, e da obra da graça. Note que podemos, então, ter um conforto abundante em nossas graças temporais quando elas são acompanhadas por essas bênçãos espirituais que são semelhantes a elas. Nossa comida e nossas vestes serão confortáveis quando, pela fé, formos alimentados com o pão da vida e vestidos com a justiça de Jesus Cristo. Nosso descanso e sono serão confortáveis quando, pela fé, repousamos em Deus e habitamos em paz nele. Nossa saúde e prosperidade serão confortáveis quando, pela fé, nossas almas prosperarem e tiverem saúde. Veja Isaias 38.16,17.

[2] Sua cura física foi fruto de sua fé e isso sem dúvida tornou a cura feliz e confortável. Aqueles de quem demônios foram expulsos, foram ajudados pelo soberano poder de Cristo; alguns, pela fé de outros (como no v. 2); mas alguns, por sua própria fé- “a tua fé te salvou”. Note que as graças temporais são, sem dúvida, alívios para nós quando são recebidas pela fé. Se, quando buscarmos a graça, orarmos por ela com fé, tendo em vista a promessa e a confiança nela, se a desejarmos por amor à glória de Deus e com submissão à sua vontade, e tivermos nossos corações ampliados por ela na fé, no amor e na obediência, poderemos dizer, então, que ela foi recebida pela fé.

IV – A condição em que Jesus encontrou a casa do chefe da sinagoga (v. 23): Ele viu “… os instrumentistas e o povo em alvoroço”. A casa estava agitada: quanto trabalho a morte causa quando atinge uma família. Talvez os cuidados necessários que surge m nessa ocasião, quando o morto precisa ser sepultado decente­ mente, longe da nossa vista, tragam alguma distração proveitosa ao pesar que tende a nos vencer, tornando-se como um tirano. As pessoas da vizinhança se juntam para dar as condolências pela perda, para confortar os pais, para preparar e acompanhar o funeral, que os judeus não costumavam adiar por muito tempo. Os músicos estavam entre eles, conforme o costume dos gentios, com suas canções tristes e melancólicas, para aumentar o pesar e incitar as lamentações daqueles que compareciam a esta ocasião. Dessa maneira, eles se entregavam a uma paixão que é capaz, por si só, de sair de controle, e eram influenciados pela tristeza como os desesperançados. Veja como a religião cristã fornece medicamentos estimulantes onde a descrença administra medicamentos cáusticos. O paganismo agrava a dor que a cristandade busca suavizar. Ou talvez esses músicos tentassem, por outro lado, desvira a dor e alegrar a família; mas “o que entoa canções junto ao coração aflito é como… vinagre sobre salitre” (Provérbios 25.20). Observe que os pais, que foram tocados imediatamente pela aflição, estavam em silêncio, enquanto as pessoas e os instrumentistas, cujas lamentações eram forçadas, faziam um grande alarido. A dor mais escandalosa nem sempre é a mais profunda; os rios são mais ruidosos quando estão rasos. Mas isto é mencionado para mostrar pela indubitável apreensão de todos pela menina, que ela estava, de fato, morta.

V – A reprovação de Cristo a essa confusão e barulho (v. 24). Ele disse: “Retirai-vos”. Note que, às vezes, quando a tristeza do mundo prevalece, é difícil para Cristo e seu conforto adentrarem a vida das pessoas. Aqueles que se endurecem na tristeza, e, como Raquel, se recusam a ser consolados, devem pensar que estão ouvindo Cristo dizendo a seus pensamentos angustiantes: “Retirem-se, abram espaço para aquele que é a Consolação de Israel e traz consigo alívios poderosos, fortes o suficiente para superar a confusão e a tirania desses sofrimentos terrenos”. Ele dá uma boa razão pela qual eles não devem inquietar-se, ou aos outros: ”A menina não está morta, mas dorme”.

1.Esta era a verdade no caso dessa jovem, que seria imediatamente trazida de volta à vida. Ela estava de fato morta, mas não para Cristo, que já sabia o que poderia e iria fazer, e que havia determinado que a morte dela não fosse nada mais que um sono. Há pouca diferença entre o sono e a morte, exceto na duração; qualquer outra diferença que exista, nada mais é do que um sonho. Esta morte deve ser de curta duração e, portanto, nada mais é do que um sono, como o descanso de uma noite. Aquele que vivifica os mortos, pode bem chamar as coisas que não são, como se já fossem (Romanos 4.17).

2.Isto é verdade, sob certo sentido, em relação a todos os que morrem, especialmente aqueles que morrem no Senhor. Note:

(1) A morte é comparada a um sono. Todas as nações e línguas, para suavizar aquilo que é tão terrível e também tão inevitável, e para se reconciliarem com ela, concordaram em chamá-la assim. É dito, mesmo dos reis perversos, que eles dormiram com seus pais; e daqueles que ressuscitarão para o desprezo eterno, que eles dormem no pó da terra (Daniel 12.2). Não se trata de um sono da alma, pois a sua atividade não pára; mas é o sono do corpo, que descansa no túmulo, imóvel, silencioso, indiferente e negligenciado, agasalhado pela escuridão e obscuridade. O sono é uma morte curta, e a morte é um sono longo. Mas a morte dos justos deve ser olhada de modo especial como um sono (Isaias 57.2). Eles dormem em Jesus (1 Tessalonicenses 4.14); eles não só descansam dos trabalhos e das labutas diárias, mas descansam na esperança de um despertar prazeroso na manhã da ressurreição, quando acordarão renovados, acordarão para uma vida nova, acordarão para serem ricamente vestidos e coroados, e acordarão para nunca mais dormir.

(2) A reflexão sobre isto deveria suavizar o nosso sofrimento por ocasião da morte de nossos entes queridos: “Não diga que eles estão perdidos. Não. Eles apenas partiram antes. Não digam: Eles estão mortos; não, eles apenas dormem; e o apóstolo fala disso como uma coisa absurda, imaginar que aqueles que dormem em Cristo, estão perdidos (1 Coríntios 15.18). Dê espaço, portanto, para os consolos ministrados pelo pacto da graça, trazidos do esplendor futuro e da glória que há de ser revelada”.

Entretanto, como se poderia pensar que uma palavra de conforto como esta, da boca de nosso Senhor Jesus Cristo, fosse ridicularizada como foi? Eles riram dele em escárnio. Essas pessoas que viviam em Cafarnaum conheciam o caráter de Cristo, e que Ele nunca dizia uma palavra irrefletida ou insensata. Eles sabiam quantas obras importantes Ele havia feito; de modo que se não entendiam o que Ele quis dizer, poderiam pelo menos ter permanecido em silêncio aguardando o desenrolar do caso. Note que mesmo as palavras e as obras de Cristo que não podem ser compreendidas não podem ser menosprezadas. Devemos venerar o mistério das palavras divinas, mesmo quando elas parecem contradizer aquilo em que mais confiamos. Isto levava à confirmação do milagre: ela estava de fato morta, e as pessoas tinham tanta certeza desse fato, que consideravam muito ridículo afirmar o contrário.

 VI – A ressureição da menina pelo poder de Cristo (v. 25). As pessoas foram retiradas. Os zombeteiros que riem do que veem, e do que ouvem, e do que está acima de sua capacidade, não são testemunhas apropriadas das maravilhosas obras de Cristo, cuja glória se apoia não na ostentação, mas no poder. Lázaro e o filho da viúva de Naim foram ressuscitados em público, mas esta menina, em particular; pois Cafarnaum, que havia desdenhado os milagres melhores de restauração da saúde, não era digna de ver o maior, a restauração de uma vida. Essas pérolas não deveriam ser espalhadas diante daqueles que as pisoteariam sob seus pés.

Cristo entrou e a tomou pela mão, como se fosse para acordá-la e ajudá-la a levantar-se, persistindo na sua própria metáfora de que ela estava dormindo. O sumo sacerdote, que tipificava Cristo, não deveria se aproximar nem tocar um corpo morto (Levíticos 21.10,11), mas Cristo tocava os mortos. O sacerdócio levítico abandona os mortos em sua impureza; por esta razão, as pessoas se mantêm distantes deles, pois não podem curá-los; mas Cristo, tendo o poder de ressuscitar os mortos, está acima das enfermidades e, portanto, não tem qualquer receio de tocá-los. Ele a tomou pela mão e a menina se levantou. O milagre foi realizado fácil e eficazmente; não através da oração, como fizeram Elias (1 Reis 17.21) e Eliseu (2 Reis 4.33), mas através de um toque. Eles o fizeram como servos, porém Ele como o Filho, como Deus, a quem pertencem as questões relacionadas à morte. Note que Jesus Cristo é o Senhor das almas, Ele as leva de um lado para o outro, quando e como lhe agrada. As almas dos mortos não ressuscitam para a vida espiritual, a menos que Cristo as tome pela mão: isto é feito no dia do seu poder. É Ele que nos eleva, ou permanecemos mortos.

VII – O amplo comentário feito sobre este milagre, embora tenha sido realizado em particular (v. 26). A fama desse milagre se espalhou por toda aquela terra. Ele se tornou um objeto comum de discussão. As obras de Cristo são mais discutidas do que avaliadas e cultivadas. E, sem dúvida, aqueles que apenas ouviram o relato dos milagres de Cristo eram tão responsáveis quanto os que foram testemunhas oculares. Embora não tenhamos visto os milagres de Cristo, mas tendo uma autêntica versão deles, estamos obrigados, por essa fé, a aceitar sua doutrina; e bem-aventurados os que não viram e creram (João 20.29).

GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO COM EMOJIS

Cuidado com os emojis

Troca de mensagens de trabalho deve ser clara e direta.

 Pesquisadores das universidades de Amsterdã (na Holanda), Ben-Gurion e Haifa (as duas últimas em Israel) lançaram o estudo The Dark Side of a Smiley, alertando para o perigo de usar, no trabalho, emojis, memes e siglas típicas de conversas em meio digital, como LOL (caindo na risada). Mesmo considerando que na era digital seja difícil resistir ao uso desses códigos em e-mails, o estudo constatou que mensagens assim geram nos colegas a percepção de que o autor é menos competente.

Experimentos com mais de 200 universitários holandeses mostraram que sorrisos digitais não despertam as mesmas reações e prejudicam a comunicação. Diferentemente dos sorrisos “virtuais”, sorrir pessoalmente é uma manifestação emocional positiva, que expressa não só simpatia, mas também competência. O ditado “sorria e o mundo vai sorrir com você” só vale para o mundo não virtual. Se num primeiro encontro uma pessoa que sorri indica ser aberta, confiável e afetuosa, o uso de emojis em e-mails profissionais faz o oposto. O estudo se concentrou em testar a primeira impressão causada por mensagens formais, em ambientes de trabalho, que usavam emojis. E comparou essa impressão coma causada por fotos de pessoas sorrindo.

Plataformas de trabalho online precisam ser usadas intensamente como meio de diálogo entre colegas e times. Para ser eficiente, organizações e equipes precisam de políticas claras sobre a forma e o conteúdo das mensagens, sobretudo na comunicação entre membros de um mesmo projeto que estejam separados pela distância. A comunicação se torna ainda mais delicada se os colegas pertencem a culturas distintas. As plataformas são de uso interno, mas seus usuários devem se preocupar com postura e conteúdo como se fossem públicas. E, como resume o estudo, todo conteúdo que não for relevante para o trabalho é apenas ruído.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUANDO A BUSCA PELA SAÚDE FAZ ADOECER

Quando a busca pela saúde faz adoecer

Ficar atento à procedência e à qualidade dos alimentos que ingerimos, assim como escolher opções condizentes com nossas crenças na hora de comer, parece – pelo menos em princípio – um comportamento saudável tanto para o corpo quanto para a mente. No entanto, a preocupação excessiva com esse tema pode se transformar em obsessão. A ortorexia é uma síndrome insidiosa, difícil de ser diagnosticada e cada vez mais comum entre pessoas bem informadas.

 “Eu vivia numa rede de proibições.  Seguia uma dieta completamente vegana, baseada apenas em legumes, totalmente livre de glúten, óleo, açúcares refinados, farinhas, condimentos. A minha vida dependia daquilo que eu podia e não podia comer e de quais ali- mentos podia ou não associar.” Com essas palavras, Jordan, uma garota culta e atlética, encerrou seu blog The Blonde Vegan, com milhares de seguidores, em 23 de junho de 2014. Nos meses anteriores, ela havia perdido peso, estava sempre cansada e com fome, não menstruava mais e estava obcecada pela qualidade da comida. Jordan estava ortoréxica.

A ortorexia – literalmente “apetite correto” – é uma obsessão compulsiva por uma alimentação saudável. Descrito pela primeira vez em 1997 pelo nutrólogo americano Steven Bratman numa revista de ioga, o quadro alcançou visibilidade no meio acadêmico em 2004, com a publicação de um artigo a respeito do primeiro estudo sobre o assunto no periódico científico Eat and Weight Disorders, de autoria de um grupo italiano coordenado pelo pesquisador Lorenzo Maria Donini.

“Eram os tempos da vaca louca; havia muita preocupação com o tema na Europa   e decidimos entender melhor o fenômeno”, conta o nutrólogo e docente de alimentação e nutrição humana na Universidade de Roma La Sapienza. “O estudo revelou uma realidade além de nossas expectativas”, diz. Geralmente, tudo começa com o desejo de controlar a própria alimentação, na ilusão de alcançar um nível de saúde “perfeita”. Diferentemente das pessoas anoréxicas ou bulímicas, os ortoréxicos não se preocupam com a quantidade de comida que consomem, mas com a sua qualidade. Para eles, a perda de peso não é um objetivo fundamental. Em alguns casos, porém, jejuam (em geral sem orientação médica) para evitar in- gerir alimentos que consideram contamina- dos ou perigosos para a saúde – chegando, raramente e em casos extremos, à morte por inanição.

 O BRÓCOLIS MÁGICO

A síndrome insidiosa leva profissionais da saúde a questionar: em que momento o interesse numa dieta saudável, algo em princípio tão benéfico, se torna patológico? “Quando essa preocupação é marcada por uma rigidez excessiva e pelo evitamento arbitrário de certos alimentos, a ponto de provocar carências nutricionais e energéticas graves”, responde Liliana Dell’Osso, psiquiatra e diretora da Escola de Especialização em Psiquiatria da Universidade de Pisa. A., um homem de 28 anos, pesava 43 quilos (a metade de seu peso ideal, de acordo com sua altura) quando passou a ser acompanhado pelo psiquiatra Ryan Moroze, professor da Universidade do Colorado em Denver, que em 2015 descreveu o caso no periódico científico Psychosomatics. Por três anos, A. ingeriu apenas shakes proteicos que preparava em casa, dissolvendo em água envelopes de aminoácidos em pó. O rapaz começou a limitar sua dieta devido a uma constipação intestinal, mas com o tempo seus motivos mudaram e ele passou a escolher a comida com base na sua origem, insistindo que seu corpo era “um templo” e que aquilo que comia deveria fornecer “tijolos puros” que o mantivessem saudável. A teoria parecia boa, mas no momento da hospitalização ele não apenas estava gravemente malnutrido, mas também sofria de constipação, tinha um déficit grave de testosterona, os dentes e ossos fracos, os glóbulos brancos e as plaquetas estavam bastante baixos e o coração batia muito lentamente. Parecia confuso e continuava a falar do brócolis e das suas propriedades mágicas.

Ideias que não se sustentam racionalmente são típicas de pacientes ortoréxicos. Com base em informações corretas, muitos elaboram teorias mirabolantes. Se a pessoa lê num livro que o corpo humano é constituído de 70% de água, pode deduzir que 70% daquilo que come deve conter muita água. Um pensamento ilógico, porque a água ingerida com os alimentos corresponde só a uma porcentagem mínima da água corporal, que é fisiologicamente regulada pelo organismo.

Segundo uma teoria crudivorista, mastigar muito rápido impede a digestão gástrica das proteínas e a absorção dos aminoácidos. Entretanto, ainda que seja verdade que a digestão começa na boca, graças à mastigação e à presença de algumas enzimas na saliva, só conseguimos digerir os alimentos graças ao sistema gastrointestinal.

Dietas mais leves poderiam favorecer experiências mais sutis. Faz sentido se pensarmos que, se o organismo não gasta tanta energia com a digestão de alimentos mais pesados, a pessoa fique mais desperta para práticas de meditação, por exemplo. O risco, porém, é reduzir um conceito no outro, de forma simplista.

No entanto, a obsessão com a qualidade dos alimentos geralmente não é ligada a crenças religiosas ou a preocupações com o meio ambiente e o bem-estar dos animais – mas sim ao medo de doenças transmitidas pela comida, como a vaca louca ou a gripe aviária, bem como à desconfiança em relação aos conservantes ou corantes”, explica Dell’Osso. Ela reconhece que muitas dessas preocupações são justificáveis, o que prejudica é o excesso de autorrestrições.

Inicialmente, os ortoréxicos estão – de forma mais ou menos racional – preocupados de fato com a saúde. Depois, essa preocupação, como afirma Dell’Osso, “vai ficando mais invasiva, obsessiva, a ponto de se tornar, se não o único, certamente o seu principal ponto de interesse; um verdadeiro e total fanatismo alimentar”. A comida deve ser pura, ou seja, genuína, incontaminada, não processada, natural. No supermercado, controlam atentamente a origem dos ali- mentos, buscam saber como são produzidos, conservados e embalados. O problema é que o escrutínio se torna implacável e as compras, uma investigação.

O limite é tênue: procurar saber se os tomates foram tratados com pesticidas, se o leite vem de uma criação na qual as vacas recebem hormônios, se as verduras grelha- das conservaram os nutrientes durante o cozimento e se a embalagem da salada contém plástico cancerígeno é válido, mas, se essas preocupações se tornam o centro da vida de uma pessoa, é sinal de que algo não vai bem.

A preparação das refeições, por exemplo, pode se transformar numa operação extremamente complexa: somente algumas comidas podem ser consumidas juntas, ou então certo alimento pode ser ingerido somente em determinado momento. Fora das refeições, a comida é pesquisada, catalogada, pesada, planejada; torna-se um pensamento constante a ponto de prejudicar até mesmo os estudos, o trabalho, as relações pessoais.

O alimento tem grande valor social, mas, para um ortoréxico, ir a um restaurante equivale a perder o controle sobre a alimentação e se torna motivo de profunda angústia. “Imerso no próprio fanatismo, o ortoréxico torna-se intolerante com aqueles que não seguem as suas regras, e isso leva inevitavelmente ao isolamento social”, diz Dell’Osso. O que preocupa especialistas é que o comportamento surge de uma preocupação legítima e saudável, mas pode evoluir de tal forma que prejudica os âmbitos físico, psicológico e social. “Já temos registros de casos em que essa visão obsessivo-paranoica a respeito da pureza da comida afeta famílias inteiras e as crianças, muitas vezes desde o nascimento”, observa Dell’Osso.

MAL NUTRIDOS E SOLITÁRIOS

Aos 28 anos, M. se afastou da família por causa do distúrbio. A jovem só comia verduras cruas por acreditar que misturar diversos tipos de proteínas e nutrientes na mesma refeição produziria toxinas. O seu caso, descrito em um artigo científico de 2005 pela psiquiatra Catalina Zamora, é emblemático. O texto relata que aos 14 anos um nutricionista aconselhou a paciente a eliminar da dieta todas as gorduras para controlar a acne. Aos 16 anos, ela decidiu seguir uma dieta ovolactovegetariana. Aos 24, eliminou ovos e laticínios. Quando foi hospitalizada, pesava apenas 27 quilos.

“Na tentativa de se alimentar apenas de comida considerada genuinamente saudável, o ortoréxico acaba excluindo de seu cardápio um número cada vez maior de alimentos, chegando a restrições quantitativas muitas vezes comprometedoras”, afirma Dell’Osso. Esse comportamento pode levar a déficits nutricionais graves e às mesmas complicações que caracterizam as formas mais graves de anorexia: perda de massa óssea, alterações metabólicas como a acidose, déficits hormonais, braquicardia, anemia e pancitopenia (redução das células do sangue que pode levar, entre outras consequências, a um aumento do risco de hemorragias e infecções).

Do ponto de vista psicológico, as pessoas ortoréxicas costumam experimentar forte sentimento de frustração quando as regras alimentares são quebradas, ficam com nojo se a presumida pureza da comi-  da parece comprometida e sentem culpa e desprezo por si mesmas se cometem transgressões. Tudo é rodeado de uma constante preocupação com a saúde. Se o ortoréxico violar as suas prescrições, pode acabar experimentando o desejo de autopunição, que se manifesta com normas ainda mais rígidas ou práticas purificadoras como o jejum, ministrado de forma excessiva.

QUEM SE TORNA ORTORÉXICO?

A ortorexia é, com frequência, o espelho de um distúrbio mais profundo. “Que uma pessoa não beba leite se ele for pasteurizado não é por si só um problema. Mas por trás dessa linha de pensamento pode haver algum raciocínio específico, uma motivação mais profunda”, afirma Donini. Pessoas perfeccionistas, ansiosas, com tendências obsessivas e hipocondríacas podem ser mais propensas à ortorexia. Aqueles que se interessam muito pela alimentação, seja por motivos profissionais, para evitar doenças ou pela preocupação com a forma física, são os que correm mais risco de desenvolver um quadro ortoréxico. Ainda há poucos estudos sobre o tema, mas alguns levantamentos indicam que a patologia é mais frequente entre estudantes de nutrição e medicina e profissionais dessas áreas, além de artistas plásticos, atores e atletas. Um estudo publicado na Rivista di Psichiatria em 2016, realizado com 2.826 estudantes e funcionários da Universidade de Pisa, revelou que 32,7% dos participantes tinham “traços” ortoréxicos. Segundo o texto, as mulheres parecem mais inclinadas à ortorexia. A investigação foi conduzida por meio de um questionário autoaplicável, o ORTO-15. O teste, útil para identificar o “fanatismo alimentar”, foi idealizado em 2005 pelo grupo de Donini e é constituído por 15 perguntas que investigam hábitos alimentares, emoções e as preocupações ligadas à comi- da. A ferramenta, validada pela primeira vez em italiano e depois traduzida para diversas línguas, constitui o principal instrumento de diagnóstico para a ortorexia. A sua aplicação apresentou, porém, resultados heterogêneos, observando-se uma prevalência da doença entre 7% e 57% na população geral e até 82% em grupos de alto risco.

Especialistas advertem que, dentro de um espectro de comportamentos anormais, somente os casos mais extremos são realmente patológicos. Pode ser associada ao ORTO-15 uma versão modificada do MMPI (Minnesota Multiphasic Personality Inventory), um teste para a avaliação de traços obsessivo-compulsivos. Pensamentos invasivos relativos à comida, preocupações com qualidade e tendência a transformar as refeições em rituais parecem ser elementos bastante característicos do paciente ortoréxico. As obsessões do paciente ortoréxico são basicamente de caráter egossintônico, ou seja, congruentes com as suas necessidades e desejos e, portanto, não costumam ser consideradas um desconforto ou uma limitação, até que surjam efeitos colaterais graves desse comportamento. A incapacidade de compreender as consequências e os riscos aproxima os ortoréxicos dos anoréxicos. Há algo comum entre os dois distúrbios: a busca por um ideal, seja de magreza ou de saúde – no primeiro caso, com a alimentação reduzida e, no segundo, na escolha de comida da melhor qualidade. A obsessão dos anoréxicos pela imagem corporal e pela perda de peso em geral é estranha ao ortoréxico. O que é comum às duas condições é a ruminação contínua, o fato de retornar constantemente às próprias preocupações e sentimento de culpa depois da quebra, mesmo que involuntária, das rígidas regras alimentares, o que leva, geralmente, a um endurecimento ainda maior delas. Em raros casos, a ortorexia pode ser precursora de um distúrbio mais importante, como aconteceu com S., uma mulher de 33 anos. Em 2012, o psiquiatra indiano Sahoo Saddichha acolheu no Instituto para a Saúde Mental e Neurociências de Bangalore a paciente muito abaixo do peso e em estado de confusão mental. O caso foi reportado no Schizophrenia Research. Nos oito anos anteriores, S. havia seguido uma dieta baseada exclusivamente em frutas frescas, verduras e legumes crus e ovos não cozidos, na convicção de que cozinhar os alimentos os privaria das suas propriedades nutricionais. Rompeu relações com todos os parentes e amigos, exceto com a mãe, a quem convenceu a seguir a mesma dieta. Nos últimos meses, desenvolveu sintomas aparentemente esquizofrênicos, com ideias paranoicas recorrentes sobre sofrer perseguição da família e de conhecidos. O evento, no entanto, é excepcional; geralmente, os casos de pacientes ortoréxicos descritos na literatura são poucos e extremos e poderiam ser apenas a ponta do iceberg de um fenômeno difuso. “Numa sociedade na qual a alimentação saudável é um culto, esses problemas em geral não vêm à tona”, comenta Donini.

 SINTOMA ATUAL

Embasadas em convicções profundas e irracionais, as escolhas dos ortoréxicos não são discutidas com médicos ou especialistas, permanecendo invisíveis. “Lembro-me de pacientes que recusavam o leite pasteuriza- do acreditando que fosse um produto insalubre, porque era processado”, diz Donini. Mas quem é que vai ao médico porque não confia no leite UHT? Ninguém, porque essa ideia não é vista como um problema”.

Numa sociedade em que programas de TV e blogs fazem da alimentação “saudável” a sua bandeira, em que somos bombardeados por informações sobre os riscos de comer de forma incorreta e por recomendações sobre quanta fruta, gordura e proteína podem ser consumidas, um fenômeno como o da ortorexia não pode surpreender. “Hoje a manipulação da imagem corporal e a preocupação com a saúde tornaram-se tão importantes que constituem um terreno fértil para a manifestação de problemas psicológicos”, comenta Donini.

Nesse sentido, distúrbios alimentares podem ser considerados um fenômeno cultural; a sua manifestação depende da sociedade na qual se manifestam e se difundem. “O aumento de casos de anorexia, por exemplo, coincidiu com a ascensão de um padrão estético andrógino de mulher”, afirma Dell’Osso. “Já o transtorno da com- pulsão alimentar periódica veio após a difusão de ofertas de alimentos que contrapõem a extrema palatabilidade e a acessibilidade econômica à comida.” Alguns profissionais acreditam mesmo que a ortorexia seja uma espécie de “herdeira” da anorexia e se torne cada vez mais frequente.

FANATISMO NA REDE

O Instagram é um dos palcos preferidos dos apaixonados por gastronomia que querem exibir as próprias proezas culinárias: pratos típicos, doces feitos em casa, cafés da manhã elaborados. Mas a plataforma de imagens é também o espaço ideal para inventores

de dietas sem nenhuma competência científica com intenção de difundir a própria crença. Segundo uma pesquisa setorial da rede social, realizada nos Estados Unidos, 54% dos usuários utilizam o compartilhamento nas mídias para expor as próprias experiências culinárias e 42% o fazem para buscar conselhos sobre alimentação.

Um estudo da Universidade College London publicado este ano no Food and Weight Disorders revela que entre os usuários mais assíduos do Instagram os sintomas da ortorexia são mais frequentes. Segundo os autores, os motivos podem ser diversos.

Sobretudo, trata-se de uma iconografia social, e as imagens são mais memoráveis do que os textos. A hipótese é que a exposição contínua a fotografias de receitas saudáveis poderia surtir um efeito maior sobre as escolhas alimentares do que a leitura de posts sobre como seguir uma dieta balanceada.

Outra característica típica das mídias sociais é o efeito eco: o usuário tende a seguir perfis que reflitam a sua visão de mundo, ficando exposto a conteúdos que reforçam as suas ideias. Ao seguir apenas determinados perfis, a pessoa pode ser induzida a acreditar que certas dietas sejam mais difundidas do que realmente são, além sentir uma pressão social para encaixar-se num tipo específico de comportamento alimentar. Segundo essa linha de raciocínio, pessoas com alguma fragilidade emocional estariam mais vulneráveis, podendo ser encorajadas pela interação com outros usuários com ideias similares.

O ortoréxico corre o risco de déficits nutricionais graves, inclusive com consequências sérias para a saúde, enquanto do ponto de vista psicológico a sua obsessão por regras auto impostas pode se tornar um inferno.

 CRIANÇAS QUE RECUSAM COMIDA

Dificilmente os pequenos rejeitam biscoitos recheados e bolo, mas convencê-los a comer frutas e verduras pode ser muito difícil.

Sabe-se hoje que escolhas alimentares na infância derivam de uma complexa interação entre experiências emocionais, preferências gustativas individuais e de seus pais, habilidades cognitivas, capacidade de atenção e hábitos culturais. Nos últimos anos, porém, as proporções de cada um desses aspectos têm intrigado especialistas. Um estudo desenvolvido na Universidade de Roma La Sapienza e publicado pelo Journal of the American College of Nutrition revelou que, numa amostra de 127 crianças entre 2 e 6 anos, 20% recusavam uma ampla gama de alimentos, tanto os mais comuns quanto os desconhecidos, o que restringia significativamente sua dieta.

Uma pesquisa britânica publicada no periódico científico Appetite indicou que os obstáculos mais importantes ao aumento da variedade na dieta são representados pela neofobia alimentar (recusa em comer comidas nunca provadas antes). Esse é um comportamento determinado evolutivamente pela necessidade de evitar a ingestão de substâncias tóxicas quando as crianças se tornam suficientemente autônomas para pegar objetos na ausência dos pais.  As comidas vistas como desconhecidas são rejeitadas e, em geral, somente a exposição repetida ao novo alimento as convence a prová-lo.

O componente visual é parte essencial também na recusa dos enjoados para comer. Elementos como cor, forma, consistência e cheiro determinam a recusa ou a aceitação do alimento. A apresentação é importante: algumas crianças não gostam de comidas misturadas. Se as cenouras e o arroz, por exemplo, não estão bem distantes no prato, o pequeno percebe como uma “contaminação” e sente nojo. A reação pode ser evocada também pela associação de diferentes consistências, como a do iogurte e de pedaços de fruta. Evolutivamente, essa reação é compreensível, já que a mistura poderia (pelo menos teoricamente) mascarar algo nocivo, que faria mal a nossos ancestrais, de quem os pequenos teriam herdado o asco.

A criança costuma ser influenciada também pelas preferências da mãe e da forma como é educada, mas ser resistente para comer pode ser um traço da sua personalidade. Os alimentos mais evitados são aqueles de origem vegetal, por isso há o risco de uma carência de vitaminas, sais minerais e fibras. Para alívio dos pais, depois dos 6 anos a frequência desses comportamentos tende a diminuir.

Para driblar a dificuldade de aceitação de alimentos pelos pequenos, uma saída bastante eficiente costuma ser insistir no alimento recusado, apresentando-o de outras maneiras, além de envolver as crianças no seu preparo.

Talvez o mais importante, porém, seja mesmo a chamada “facilitação social”, ou seja, ver os outros consumirem o alimento evitado. Já forçar a ingestão é contraproducente.

POLÊMICAS DO JEJUM

Nos últimos anos, a adoção de dietas restritivas, nas quais a pessoa opta por se abster de alimentos por alguns períodos, tem ganhado adeptos. Embora a privação não seja consenso entre médicos e pesquisadores, vários cientistas argumentam que o jejum pode ser um aliado importante para a saúde, ajudando a combater a depressão e a estimular a reciclagem dos neurônios. Estudos feitos em animais revelam que a prática tem potencial para fortalecer a memória, aumentar a vitalidade e até diminuir sintomas de demência.

O pesquisador Dieter Melchart, professor de medicina complementar e alternativa da Universidade Técnica de Munique, afirma que o excesso de ingestão de alimentos ao qual nos habituamos nas últimas décadas deixa marcas que podem se traduzir em patologias como obesidade, diabetes, acidentes vasculares cerebrais (AVC), hipertensão, cardiopatias e Alzheimer. Mas ressalta: “Quem simplesmente ficar sem comer durante três dias, sem preparação para isso, provavelmente adoecerá e, em certos casos, pode até morrer”.

Em países da Europa e nos Estados Unidos já existem “clínicas de jejum”. De acordo com o especialista em biologia celular Valter Longo, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles, a restrição alimentar desacelera o envelhecimento e pode também ter efeito positivo no tratamento de alguns tipos específicos de câncer. “Há casos em que o jejum ajuda a combater a doença, mas também existem situações em que pode agravá-la; o limite entre o que faz bem e o que faz mal é muito tênue”, observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. (Por Ulrike Gebhardt, bióloga especializada em divulgação científica)

DIFICULDADE DE ACEITAR O TRATAMENTO

A ortorexia não figura nas classificações da edição mais recente do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), adotado para o diagnóstico das patologias psiquiátricas. Ainda assim, especialistas argumentam que o paciente ortoréxico tem, antes de tudo, necessidade de suporte psicológico. Caso apresente também carências nutricionais, esteja abaixo do peso ou tenha problemas orgânicos, a abordagem deverá ser também médica, com direcionamento para a reeducação alimentar. “Mas sabemos que 90% da terapia é psicológica”, enfatiza o nutrólogo Lorenzo Donini, professor da Universidade de Roma La Sapienza. “Esses pacientes têm, sobretudo, problemas emocionais e sociais, agravados porque terminam se isolando.” Um tratamento psicoterápico combinado com medicação farmacológica e reeducação parece ideal, embora ainda não haja um número significativo de estudos que tenham verificado a eficácia dessas abordagens.

Talvez a maior dificuldade não seja tratar, mas sim diagnosticar o distúrbio, já que dificilmente o ortoréxico reconhece que tem um problema. “Observamos que essas pessoas veem o seu modo de se relacionar com a comida como um valor positivo, não como um valor negativo”, diz Donini.

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Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição – 297

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 9: 14-17

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A Resposta de Cristo aos Discípulos de João

As objeções que foram feitas contra Cristo e seus discípulos deram margem a alguns dos mais profícuos de seus discursos. É assim que os interesses da verdade são frequentemente satisfeitos, pela própria resistência que recebe dos opositores. Perceba que a sabedoria de Cristo é capaz de extrair o bem do mal. Este é o terceiro exemplo disso neste capítulo. Seus sermões sobre seu poder para perdoar os pecados e sua disposição em receber os pecadores foram ocasionados pelas críticas dos escribas e dos fariseus; assim, aqui, a partir de uma reflexão sobre a conduta de sua família, eleva-se um sermão relativo à ternura que Ele sente pelas famílias. Observe:

I – A objeção que os discípulos de João fizeram contra os de Cristo por não jejuarem tão frequentemente como eles o faziam. Eles são acusados de negligência em relação à sua fé por comerem com publicanos e pecadores; então lhes foi sugerido que deveriam trocar aquela fé por outra mais austera. De acordo com outros evangelistas (Marcos 2.18; Lucas 5.33), parece que os discípulos dos fariseus uniram-se a eles, e temos razões para suspeitar que eles os instigaram, fazendo uso dos discípulos de João como seus porta-vozes, porque estes, estando mais próximos do favor de Cristo e de seus discípulos, podiam fazer isso de um modo mais plausível. Note que não é nenhuma novidade para homens maus atrair homens bons pela palavra. Se o povo de Deus diverge em seus sentimentos, homens insidiosos aproveitarão essa ocasião para semear a discórdia, atirá-los uns contra os outros, e separá-los uns dos outros, e então fazer deles presas fáceis. Se os discípulos de João e os de Jesus entraram em conflito, temos razões para suspeitar que os fariseus trabalharam de forma desleal, soprando as brasas. Agora a reclamação é: Por que nós e os fariseus jejuamos frequentemente, e os teus discípulos não? É uma pena que os deveres da religião, que deveriam ser a confirmação do amor sagrado, se tornem oportunidades de conflito e disputa; mas infelizmente eles muitas vezes são assim, como é mostrado aqui. Assim, podemos observar:

1.Como eles se vangloriaram de seu próprio jejum. “Nós e os fariseus jejuamos com frequência”. O ato de jejuar tem sido consagrado em todos os períodos da igreja, em ocasiões especiais, a serviço da religião. Os fariseus o praticavam muito; muitos deles observavam dois dias de jejum por semana, muito embora em sua maioria fosse m hipócritas e homens maus. Note que frequentemente adeptos falsos e formais superam outros em atos externos de devoção, e até mesmo de penitência. Os discípulos de João jejuavam frequentemente, em parte de acordo com a prática de seu mestre, pois ele veio não comendo nem bebendo (cap. 11.18); e as pessoas são hábeis em imitar seus líderes, muito embora nem sempre com o mesmo princípio interior; em parte em conformidade com a doutrina de arrependimento do seu mestre. Note que a parte mais rígida da religião, aquela que comete excessos em relação à Palavra de Deus, é geralmente composta por aqueles que ainda estão sob a disciplina de um espírito que é como um espírito de servidão. E embora possam até parecer bons dentro de alguns limites, devemos passar à vida de deleite e dependência em Deus a que devemos ser conduzidos. Agora eles vêm até Cristo para dizer-lhe que jejuavam frequentemente; pelo menos pensavam nisso com frequência. Note que a maioria dos homens apregoará a todos a sua própria bondade (Provérbios 20.6). Há uma tendência dos adeptos de gabarem-se das suas próprias realizações na religião, especialmente se houver algo de extraordinário nelas; eles não apenas se vangloriam delas diante dos homens, mas tentam advogar diante de Deus, confiando nelas como obras justas.

2.Como eles censuravam os discípulos de Cristo, por não jejuarem tão frequentemente como eles o faziam. “Teus discípulos não jejuam”. Eles não sabiam que Cristo havia instruído seus discípulos a manterem seus jejuns em segredo, e cuidarem para que os homens não notassem que eles jejuavam; portanto, era muito injusto para com os discípulos concluir que não jejuavam por não declararem seu jejum. Note que não devemos julgar a fé das pessoas por aquilo que elas aparentam diante dos nossos olhos e pelos comentários do mundo. Mas suponha que fosse assim, que os discípulos de Cristo não jejuassem tão frequentemente, ou por períodos tão longos, como eles o faziam; em verdade, eles pensariam então que tinham mais fé que os discípulos de Cristo. É comum que adeptos vaidosos façam de si um padrão de fé, pelo qual testar e avaliar pessoas e coisas – como se todos os que diferem deles estivessem profundamente errados; como se todos os que fizessem menos que eles, fizessem muito pouco, e todos aqueles que fizessem mais que eles, tivessem feito em demasia – o que é uma clara evidência de sua falta de humildade e misericórdia.

3.Como eles levaram esta queixa a Cristo. Note que se os discípulos de Cristo, por omissão ou por comissão, incorreram em uma ofensa, de certo o próprio Cristo teria se certificado que ouviria e refletiria sobre a questão. Ó, Senhor Jesus, são esses os teus cristãos?

Portanto, ao glorificarmos a Cristo, estamos interessados em nos comportar bem. Observe que a disputa com Cristo foi levada aos discípulos (v. 11), e a disputa com os discípulos foi levada a Cristo (v. 14). Este é o modo de semear discórdia e destruir o amor, de atirar pessoas contra sacerdotes, sacerdotes contra pessoas, e um amigo contra o outro.

II – A defesa que Cristo fez de seus discípulos neste assunto. Cristo poderia ter repreendido os discípulos de João com a parte anterior da pergunta deles: Por que vocês jejuam frequentemente? “Não, você sabe melhor que ninguém por que faz isso; mas a verdade é que muitos se excedem em demonstrações externas de devoção, e dificilmente eles próprios conhecem a razão daquilo que estão fazendo”. Mas Ele apenas defende a prática dos seus discípulos; quando eles não tinham nada a dizer em favor de si mesmos, Ele tinha algo preparado para dizer. Assim como a glória da sabedoria está em ser justificada por todos os seus filhos, a alegria de seus filhos é serem justificados pela sabedoria. Aquilo que nós fazemos de acordo com o preceito e o padrão de Cristo, Ele, na verdade, confirmará, e poderemos, com convicção, deixar que Ele justifique a nossa integridade.

Mas tu responderás por mim, Senhor. –  Herbert. Cristo alega duas coisas em defesa de não jejuarem.

1.Aquela não era uma ocasião apropriada para tal atitude (v. 15): “Podem, porventura, andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?” Observe que a resposta de Cristo é de tal forma construída que pode justificar amplamente o comportamento de seus próprios discípulos, e mesmo assim não condenar a instituição de João ou a prática dos discípulos deste. Quando os fariseus incentivaram essa discussão, eles esperavam que Cristo colocasse culpa em seus próprios discípulos ou nos de João, mas Ele não culpou nenhum dos dois grupos. Note que quando, em qualquer momento, somos injustamente criticados, nossa preocupação deve ser somente a de justificar a nós mesmos, não recriminar ou jogar a culpa nos outros; e pode haver tal variedade de circunstâncias que justifiquem nosso comportamento, sem que condenemos aqueles que se comportam de outra maneira.

Agora seu argumento usa o hábito comum de alegrar-se e rejubilar-se durante as solenidades das núpcias, quando todas as ocasiões de melancolia e tristeza são vistas como inadequadas e absurdas, como nas bodas de Sansão (Juízes 14.17). Nesta ocasião:

(1) Os discípulos de Cristo eram os filhos das bodas, convidados para a festa do casamento e bem-vindos a ela; os discípulos dos fariseus nada mais eram do que os filhos da escrava (Gálatas

4.25,31), que continuavam sob a dispensação das trevas e do terror. Note que os fiéis seguidores de Cristo, que têm o Espírito de adoção, estão permanentemente em festa, enquanto aqueles que têm o espírito da servidão e do medo, não podem rejubilar-se na alegria, como os outros povos (Oséias 9.1).

(2) Os discípulos de Cristo tinham a esposa com eles, o que os discípulos de João não tinham; seu mestre estava agora na prisão e permanecia ali com sua vida permanentemente em risco, e era, portanto, razoável para eles jejuarem com frequência. Tal dia chegaria para os discípulos de Cristo, quando o esposo lhes seria tirado, quando seriam despojados de sua presença física, e deveriam, então, jejuar. Os pensamentos da partida os entristeciam, quando ele estava para partir (João 16.6). A tribulação e a aflição sobrevieram sobre eles quando Ele se foi, dando-lhes a oportunidade de lamentarem e orarem, ou seja, um jejum religioso. Note que:

[l] Jesus Cristo é o Esposo da sua Igreja, e seus discípulos são os filhos das bodas. Cristo fala de si mesmo aos discípulos de João considerando essa semelhança, porque João a havia usado quando chamou a si mesmo de amigo do Esposo (João 3.29). E se eles, através dessa sugestão, se lembrassem do que o seu mestre havia dito, então responderiam a sua própria pergunta.

[2] A situação daqueles que são os filhos das bodas está sujeita a muitas mudanças e alterações neste mundo; o tema de sua vida e canções é a compaixão e o juízo.

[3] Os filhos das bodas estão felizes ou melancólicos, conforme tenham maior ou menor presença do Esposo. Quando o Esposo está com eles, a luz de Deus brilha sobre as suas cabeças e tudo está bem; mas quando Ele se retira, mesmo que por um breve momento, eles se aborrecem e caminham pesarosamente. A presença e a proximidade do sol trazem o dia e o verão; sua ausência, a noite e o inverno. Cristo é o motivo de alegria da igreja.

[4J Cada atividade deve ser feita em sua época apropriada (veja Eclesiastes 7.14; Tiago 5.13). Há um tempo para chorar e um tempo para rir, aos quais nós devemos adaptar e dar o fruto no devido tempo. Nos jejuns, o respeito deve ser mantido para com os métodos da graça de Deus para conosco; quando Ele pranteia por nós, devemos lamentar. Também devemos considerar a distribuição de sua providência naquilo que nos diz respeito; há tempos em que o Senhor Deus nos convoca para prantear e lamentar; devemos ter respeito para com qualquer trabalho especial que se apresente diante de nós (cap. 17.21; Atos 13.2).

2.Eles não tinham força suficiente para aquela tarefa. Isto é exposto em duas comparações: uma consistindo de colocar um remendo novo em uma veste velha, o que rompe a velha em pedaços (v. 16); outra consistindo de colocar vinho novo em odres velhos, o que simplesmente rompe os odres (v. 17). Os discípulos de Cristo não eram capazes de suportar esses exercícios rigorosos tão bem quanto os de João e os fariseus. O erudito Dr. Whitby explica o fato através deste raciocínio: havia entre os judeus não apenas sectários dos fariseus e dos essênios, que levavam uma vida austera, mas também muitos da escola dos profetas, que frequentemente viviam em montanhas e desertos, e muitos deles eram nazireus; eles tinham, também, academias particulares para educar homens em uma rígida disciplina; e, possivelmente, muitos dos discípulos de João e dos fariseus vinham desses grupos; enquanto que os discípulos de Cristo, sendo acolhidos imediatamente após o seu chamado, não estavam acostumados a tais austeridades religiosas, e não estavam preparados para elas, pois os deixariam um tanto incapacitados para o seu outro trabalho. Note que:

(1) Alguns deveres da religião são mais árduos e difíceis do que outros. Isto ocorre no caso das roupas novas e do vinho novo, exigindo uma maior força da alma, e são desagradáveis à carne e ao sangue no mais alto grau; assim são o jejum e os deveres que o acompanham.

(2) Os melhores discípulos de Cristo passam por um est ágio de infância; nem todas as árvores no jardim de Cristo são do mesmo tamanho, nem todos os seus aprendizes têm a mesma forma; há bebês e adultos em Cristo.

(3) Ao impor práticas religiosas, a fraqueza e a debilidade dos cristãos novatos devem ser consideradas: assim como a comida que lhes é dada deve ser adequada à sua idade (1 Coríntios 3.2; Hebreus 5.12), o trabalho deve ser adequado para eles. Cristo não falava a seus discípulos o que eles não podiam suportar naquele momento (João 16.12). Iniciantes novatos na religião não devem ser submetidos inicialmente aos deveres mais difíceis para não serem desencorajados. Tal como Deus foi cuidadoso com o seu Israel, quando os tirou do Egito, para que não passassem pelo caminho dos filisteus (Êxodo 13.17,18), e assim como Jacó cuidou de seus filhos e do seu gado, para não os cansar (Genesis 33.13), assim é o cuidado de Cristo com as crianças de sua família e os cordeiros de seu rebanho: Ele os conduz gentilmente. Por falta desse cuidado, muitas vezes, os odres se rompem e o vinho é derramado – a religião de muitos fracassa e se transforma em nada, primeiramente por falta de prudência. Note que pode haver exagero, mesmo ao fazermos algo bem feito; é necessário termos o cuidado de não parecermos excessivamente justos, pois tal excesso pode se tornar um fracasso através da astúcia e das sutilezas de Satanás.

GESTÃO E CARREIRA

MULTITAREFA, MULTIERROS

Multitarefas, multierros

Concentre-se em um só trabalho e renda mais.

 Virou hábito disseminado, durante o trabalho (seja em que local for), navegar pela internet, ouvir música, pesquisar, escrever e manter-se conectado a redes sociais, tudo ao mesmo tempo. Cuidado. Um estudo do Bryan College, dos Estados Unidos, questiona o mito de uma pessoa ser capaz de realizar “multitarefas” seguidas. Nada indica que esse indivíduo produza mais que outro concentrado em uma só obrigação. Funcionários que costumam alternar tarefas mais de 20 vezes durante o período de uma hora acabam perdendo 15 pontos de Q.I. durante testes cognitivos feitos pelos autores. É uma pancada séria, equivalente ao efeito de uma noite de insônia. Os profissionais de 18 a 34 anos incluídos na pesquisa mudaram o foco de atenção mais vezes ainda, cerca de 27 por hora. Os resultados ruins vêm em cadeia – baixa capacidade de decisão, aumento de estresse e queda de criatividade. O prejuízo é perceptível também na qualidade do trabalho. Os autores detectaram ainda correlação entre os hábitos multitarefa e uma baixa densidade em áreas do cérebro ligadas a controle emocional.

O estudo sugere que o profissional administre melhor como gasta atenção e tempo. Já o empregador deve conter as jornadas da equipe dentro de limites saudáveis e ajudar o funcionário a exercitar a concentração – ioga e meditação podem contribuir para esse esforço.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

RIR É COISA SÉRIA

Rir é coisa séria

O riso infantil – uma manifestação automática, independentemente da cultura ou língua nativa – pode revelar como os bebês pensam.

 

Meu filho tinha 3 meses quando deu sua primeira gargalhada. O fato de ele ter feito isso num funeral foi mais do que irônico: foi constrangedor. Seu riso era tão poderoso que transformou a tristeza das pessoas ao redor em alegria – de forma simultânea e quase que instantaneamente.

Essa observação me motivou a fazer pesquisas empíricas sobre o surgimento do riso tão cedo na vida e o grande impacto que pode causar. Sou psicóloga do desenvolvimento e estudo o assunto há quase uma década em meu laboratório da Faculdade Estadual Johnson, em Vermont. Como eu, vários cientistas se sentem intrigados com a manifestação precoce da risada dos bebês e se perguntam o que isso pode revelar sobre os pequenos.

O riso é universal. É uma resposta automática que aparece nos primeiros meses de vida, independentemente da cultura ou língua nativa. Não importa se uma criança é criada no Canadá ou na Coreia, no Peru ou no Paquistão, sua primeira risada vai deleitar seus pais entre as 14 e 18 semanas de vida. Mas os cientistas, por outro lado, só começaram a compreender seu significado recentemente. Claro, a risada não é exclusivamente uma expressão de prazer. Em adultos, pode ocorrer em muitos contextos emocionais, como quando estamos nervosos, por exemplo, em resposta ao riso de terceiros ou simplesmente quando encontramos alguém. Mas por que as crianças riem? Talvez não tenha tanto a ver com o que acham engraçado. Até onde sabemos, não existe uma piada universal para bebês. (A gargalhada durante o funeral foi provocada pelo espirro de uma pessoa.) Devemos, portanto, considerar como os pequenos extraem o humor do ambiente em que estão.

Diferentemente do choro, que claramente incita o cuidador a entrar em ação, o riso parece ser um luxo emocional. O fato de um ser humano de apenas 3 meses acessar essa habilidade – muito antes de outros marcos significativos, como adquirir a linguagem e andar – sugere que os gracejos têm função importante e podem revelar muito sobre como as crianças compreendem o mundo físico e social.

 UMA COISA ENGRAÇADA

Não parece ser obra do acaso o riso ter sido priorizado e preservado na cadeia evolutiva. De fato, várias espécies, como chimpanzés, macacos, esquilos e outros primatas, fazem vocalizações em momentos de descontração que se assemelham a gargalhadas. Esses mamíferos (principalmente os mais jovens) exibem sons rítmicos próprios enquanto brincam juntos, com tom emocional.

O neuropsicólogo evolutivo Jaak Panksepp, pesquisador das universidades Estadual Bowling Green e Estadual de Washington, afirma que o cérebro de qualquer animal guarda circuitos neurais, similares aos nossos, relacionados com o riso. Essas áreas incluem centros emocionais e de memória, como a amígdala e o hipocampo. O riso parece “caminhar” pela superfície do córtex como uma resposta involuntária, ativando os sistemas neurais associados com o prazer. Um famoso estudo no qual Panksepp usou de tecnologias que permitem ouvir frequências altíssimas mostra que ratos emitem sons rítmicos quando lhes fazem “cócegas”.

Nos humanos, as risadas infantis ganharam a atenção de alguns estudiosos proeminentes. No século IV a.C., Aristóteles postulou que o primeiro sorriso marcava a transição da criança para a humanidade e servia de evidência primária de que ela tinha adquirido uma alma. Em 1872, Charles Darwin levantou a hipótese de que os gracejos, como outras expressões de emoção posturais, faciais e comportamentais, “serviam como um sinal social de mera felicidade ou alegria”. Em seu volume histórico, A expressão das emoções no homem e nos animais (Companhia de Bolso, 2009), o autor descreve meticulosamente o riso de seu próprio filho. Escreve: “Com 113 dias de vida, esses pequenos ruídos, que sempre eram feitos durante a expiração, as- sumiram caráter ligeiramente diferente e foram mais quebrados ou interrompidos, como no soluço; e isso foi certamente uma incipiente risada”.

A psicologia, no entanto, negligenciou o tema por décadas. Durante a maior parte de sua história, pesquisadores se concentraram principalmente em questões consideradas negativas, como raiva, depressão, ansiedade e doenças mentais. Essa tendência começou a mudar aproximadamente há 40 anos, quando alguns psicólogos decidiram estudar a felicidade, a psicologia do bem-estar e a resiliência à adversidade. A partir daí, nasce um subcampo conhecido como psicologia positiva.

Somente nos últimos 30 anos, os psicólogos do desenvolvimento adquiriram metodologias para fazer inferências sobre a cognição e as emoções das crianças. Num desses métodos, o “paradigma do olhar”, é cronometrado o tempo que os pequenos passam encarando algo. Vários estudos demonstram que os bebês tendem a focar mais um objeto novo, o que, no nível mais básico, revela que podem diferenciá-lo de algo familiar.

Em 1985, as psicólogas Elizabeth Spelke, agora na Universidade Harvard, e Renée Baillargeon, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, utilizaram a noção de paradigma do olhar para estudar o conhecimento conceitual dos bebês. As pesquisadoras apresentavam aos pequenos participantes do estudo cenários possíveis e impossíveis – por exemplo, um objeto que, de acordo com as leis naturais, não penetraria em uma barreira sólida. E, em seguida, mostravam uma situação semelhante que indica o contrário. Spelke e Baillargeon observaram que os bebês contemplavam os eventos inesperados por mais tempo. Os resultados levaram as psicólogas a deduzir que as crianças pequenas têm algumas expectativas simples sobre como os objetos se comportam – e, quando o que esperam não acontece, sua atenção é despertada. O fato é que essas mudanças são poderosos estímulos em relação ao humor.

Comediantes stand-up costumam explorar as expectativas para fazer o público rir. Fazem suspense e forçam os limites das normas e aceitabilidade para provocar a risada, seja com trocadilhos, críticas ou chistes. Para que algo seja cômico, a pessoa que conta e a que ouve a piada precisam de algum conhecimento comum. O humor, portanto, exige pelo menos alguma compreensão rudimentar do mundo físico e social. Esse entendi- mento pode se apoiar em experiência e observação, que oferecem o suporte para o que é “compartilhado”. Com essa base, podemos diferenciar o comum do absurdo.

A pesquisa que fiz em meu laboratório mostra que apenas quatro semanas depois que o riso aparece crianças de até 5 meses podem apresentar a diferença perceptual básica de forma independente. Em 2014, meus colegas e eu publicamos resultados de um experimento em que apresentamos eventos comuns e absurdos a 30 bebês. Por exemplo, um auxiliar pressionava e rolava uma bola de espuma vermelha (cenário comum) e, em seguida, a usava como um nariz (repetição absurda). Os bebês não só faziam distinção entre as cenas, como riam da última. A principal constatação foi que as risadas não eram uma imitação: ocorriam mesmo quando o ajudante e os pais eram instruídos a permanecer emocionalmente neutros.

Apenas alguns meses depois, por volta dos 8 meses, a maioria já sabe como ser engraçada e entende como fazer que os outros deem risada sem usar nenhuma palavra. A psicóloga Vasudevi Reddy, da   Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, chama de “clowning” (fazer palhaçada) essa forma de humor não verbal. Ela documentou crianças de 8 a 12 meses envolvidas com esse comportamento em suas mais variadas formas – por exemplo, ao fazer o movimento de vai e vem com a cantiga “Serra-serra-serrador” ou ao pegar uma fralda limpa, fingir nojo e soltar uma gargalhada.

Bebês com essa idade também sabem fazer provocações, como sorrir timidamente enquanto desobedecem de forma intencional às ordens da mãe ou do pai de, por exemplo, não subir as escadas ou oferecer sucrilhos ao cachorro. Esse “fingimento” foi observa- do em crianças ainda mais novas, de aproximadamente 6 meses, momento em que os pequenos já podem dissimular risadas (ou choro) para receber atenção.

Mais importante, os bebês podem criar interações e decidir quando e com quem empregar essas técnicas. O mais interessante é que essas brincadeiras e provocações podem oferecer uma janela para entendermos o funcionamento da consciência das crianças. Particularmente, o ato de desafiar exige pelo menos compreensão rudimentar da mente alheia; desejo de se envolver; e criação de hipótese de como atingir outra pessoa. Dissimular significa saber que alguém pode, na verdade, ser enganado. Essa compreensão refinada, chamada de teoria da mente, era, até alguns anos atrás, creditada apenas a crianças com pelo menos 4 anos. Embora os bebês não apresentem a sofisticação mental dos mais velhos, sua capacidade de provocar os outros sugere que tenham pelo menos algum nível desse tipo de consciência.

GRANDES EXPECTATIVAS

Clowning e provocação refletem a natureza essencialmente social do humor, mas, para que algo nos faça cair na gargalhada, precisamos mais do que apenas a presença de outros. Afinal, os bebês passam a maior parte do tempo com pessoas, mas proporcionalmente pouco tempo rindo. Isso ocorre porque o humor – seja para adultos ou crianças pequenas – requer um componente cognitivo: a incongruência.

Trata-se de uma situação que expressa uma espécie de contradição, que a psicóloga Elena Hoicka, professora da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, descreve como “misexpected” (mal antecipada, em tradução livre), o que significa criar um desalinhamento entre o que a criança supõe e o que experimenta. Eventos assim não são tão comuns. Por outro lado, acontecimentos verdadeiramente inesperados são completamente chocantes ou surpreendentes – e, como tais, podem ser percebidos como mais perturba- dores ou extraordinários do que engraçados. Por exemplo, quando um copo é usado como chapéu, não combina com a experiência prévia do bebê com copos (ou com chapéus). Mas, se o copo se transformasse em um antílope, a situação seria totalmente imprevisível. Bebês, crianças maiores e adultos consideram eventos inesperados interessantes, mas não necessariamente engraçados. Várias explicações surgem das pesquisas com o paradigma da quebra de expectativa. Quando alguém apresenta violações de leis físicas naturais a crianças pequenas – como gravidade, solidez, inércia –, elas costumam observar esses eventos “mágicos”, mas não riem. Contextualizando as ideias de Hoicka com a pesquisa sobre o olhar e o interesse infantil, podemos conjecturar que o humor se relaciona com as expectativas de comportamento social. Um brinquedo que voa pelo espaço e desafia a gravidade é motivo de admiração. Mas e a avó usando esse objeto na cabeça? Pode ser absolutamente hilário.

Teóricos do humor apresentam uma possível explicação com a ajuda de um fenômeno que chamam de resolução de incongruência. Perceber uma incoerência como humorística exige que ela seja resolvida, o que significa entender sua causa ou chegar ao “sentido da piada”. O instante em que o ouvinte decodifica a nuance ou o duplo sentido de um chiste verbal, por exemplo, é o momento de conclusão. É o ponto em que a natureza ilógica de “por que a galinha atravessou a rua” se torna humorística, seja ou não acompanhada por risadas.

Há 40 anos, muitos psicólogos cognitivos estavam convencidos de que os bebês não tinham sofisticação suficiente para resolver a incongruência. As psicólogas Diana Pien e Mary Rothbart, ambas então da Universidade de Oregon, propunham que a percepção do humor não exigia necessariamente habilidades mentais avançadas. Em um estudo publicado em 2012, meus alunos e eu decidimos testar a ideia.

Pedimos a 30 pais que “agissem como de costume” para fazer seu bebê sorrir ou dar risada e observamos que eles recorriam exageradamente ao clowning. Faziam barulho com a boca, caretas estranhas, caminhavam como pinguins – na maioria das vezes, interações cotidianas comuns. O comportamento, no mínimo, chamava atenção da criança. Começamos a monitorar essas famílias quando os filhos estavam com 3 ou 4 meses e continuamos até completarem o primeiro ano. No início, 40% davam risada em resposta às brincadeiras dos pais; por volta dos 6 meses, esse número havia subido para 60%.

Os bebês não precisam de muito para resolver situações mal antecipadas e achar graça delas. De fato, eles se baseiam em pelo menos três pistas disponíveis. O contexto social é um deles: atos absurdos feitos por um parceiro social podem ser suficientes para a criança interpretar o comportamento como positivo. Meus colegas e eu observamos que os pais praticam clowning, às gargalhadas, em 65% das vezes. Essa combinação sinaliza que as travessuras são seguras, satisfatórias e alegres.

O segundo fator é a familiaridade. As pessoas que convivem com os bebês costumam repetir “ações tolas” até que a criança dê risada e, então, continuar justamente porque ela riu. Talvez a reiteração do cuidador permita que o bebê preveja a ação e seu resultado ou que faça inferência sobre o ato de forma intencional. Equilibrar a colher no nariz, brincadeira comum dos pais, não é interpretado por quem assiste como algo inesperado se a cena acontece inúmeras vezes. A psicóloga Amanda Woodward, agora da Universidade de Chicago, demonstra que, a partir do primeiro aniversário, as crianças podem inferir a intenção da fala e das ações dos outros.

Por último, bebês diferenciam incongruências extraordinárias e humorísticas considerando que estas últimas são possíveis. Ou seja: não há nada de mais em ver a mamãe usar um copo como chapéu. A natureza comum dos eventos engraçados pode levar as pessoas (incluindo os bebês), para além dessa condição inicial de admiração, a um estado final de humor.

Seja qual for a estratégia, evidências experimentais mostram que, embora os bebês comecem a rir com aproximadamente 5 meses, eles podem começar a achar graça ainda mais cedo. As crianças de 4 meses que participaram do nosso estudo observavam situações cômicas com fascínio, registrando uma significativa desaceleração da frequência cardíaca. Essa resposta fisiológica é exibida quando mostram o mesmo interesse em um estímulo, bem como quando sorriem.

 CALMA FISIOLÓGICA

O psicólogo Stephen Porges, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, argumenta que a desaceleração da frequência cardíaca não reflete necessariamente a alegria, mas a disposição da criança para o prazer. Quando confrontados com algo novo, os bebês costumam encarar, uma resposta acompanhada por uma desaceleração da frequência cardíaca. Segundo o pesquisador, essa calma fisiológica funciona como estratégia que permite à criança permanecer orientada para um estímulo desconhecido e não ameaçador. Quando essa reação é combinada com seu viés para a sociabilidade, os bebês podem se beneficiar dessa resposta tranquila, encontrando prazer no absurdo.

Nosso trabalho sugere que as crianças realmente podem perceber e fazer humor., mas nem todo riso se relaciona com diversão. Embora não existam provas de que as crianças deem risada em momentos de desconforto, sabemos que os adultos têm a capacidade de sorrir sem alegria – e que, de fato, muitas vezes, agem assim. Essa observação pode ajudar a conhecer o propósito mais profundo do fenômeno.

Independentemente de como se desenvolve, sabemos que a risada é social. Os psicólogos Robert Kraut e Robert Johnston, falecido em 2014, ambos da Universidade Cornell, inauguraram o campo da psicologia evolutiva com um estudo histórico de 1979, demonstrando, entre outras coisas, que joga- dores de boliche eram mais propensos a sorrir não após um strike, mas depois de encarar o público logo em seguida à jogada de sucesso. O psicólogo Robert Provine, da Universidade de Maryland, do Condado de Baltimore, revela que a risada é 30 vezes mais provável de ocorrer na companhia de alguém, independentemente de algo divertido acontecer. A pesquisa de Provine mostra que o sorriso geralmente vem logo depois de comentários banais, como “Melhor me apressar” ou “Bom te ver!” – mais frequentemente até do que no final de uma piada. Além disso, podemos nos divertir sem dar nenhuma risada.

Para os mais novos, o riso parece indicar tanto emoções positivas como vínculos afetivos. E, na fase adulta, nos mantém conectados e em harmonia, propõem os psicólogos evolucionários Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, e Guillaume Dezecache, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça. A ideia é apoiada, sobretudo, pela característica contagiante do riso em contextos grupais, mesmo entre estranhos. As gargalhadas, portanto, servem como uma espécie de cola social, com muitos significados possíveis. O riso nervoso de um pode induzir o outro a oferecer uma palavra de conforto, enquanto uma risada irreverente pode sinalizar que a provocação é apenas uma brincadeira. Elena Hoicka descreve o que chama de “quadro humorístico”, em que parceiros sociais podem interagir de tal maneira que ambos interpretem uma interação, por exemplo, a pirraça, como positiva.

De fato, a maioria das crianças de 4 a 6 meses espera por emoções positivas. Ainda sem desconfiar de estranhos ou da separação dos cuidadores primários, os bebês em geral estão prontos para a interação com qualquer um, o que aumenta as oportunidades de brincar, dar risada e sorrir exatamente no momento em que esse tipo de resposta está disponível. Do ponto de vista evolutivo, esse surgimento conjunto de riso e sociabilidade é sábio.

O fato é que rir tem um lado sério. Seu valor como sinal social e supercola de mamíferos explica por que acreditamos que seja uma “peça de fábrica”, uma parte de algo nato dos bebês. Aos 4 meses, é mais provável que o riso dos pequenos seja o início neurológico de seu intenso interesse para a novidade e a valorização do contexto social de forma mais ampla. Mas, depois de um mês, eles já têm sofisticação cognitiva suficiente para detectar e interpretar eventos sociais novos e não ameaçadores como engraçados por si mesmos. Algumas semanas mais tarde, os bebês também podem produzir essas situações – para a alegria de quem está ao redor.

 

 GINA C. MIREAULT – é doutora em psicóloga do desenvolvimento, professora da Johnson State College, em Vermont.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 9: 9-13

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O Chamado de Mateus

Nestes versículos, temos uma descrição da graça e da benignidade de Cristo para com os pobres publicanos, especialmente Mateus. Aquilo que Ele fez pelos corpos das pessoas teve a finalidade de abrir caminho a um desígnio bondoso para com as suas almas. Isto posto, observe aqui:

I – O chamado de Mateus, o escritor deste Evangelho.

Marcos e Lucas o chamam de Levi. Era comum para uma pessoa ter dois nomes. Talvez Mateus fosse o nome pelo qual ele era mais conhecido como publicano, e, por essa razão, em sua humildade, ele chamava a si mesmo por aquele nome, em vez de pelo nome mais ilustre, Levi. Alguns pensam que Cristo deu-lhe o nome de Mateus quando o chamou para ser apóstolo; tal como Simão, que foi cognominado Pedro. Mateus significa “presente do Senhor”. Os obreiros são presentes de Deus para a igreja; seu ministério e sua capacidade para desenvolvê-lo são presentes de Deus para eles. Agora observe:

1.A postura de Mateus por ocasião do chamado de Cristo. Ele estava sentado na recebedoria da alfândega, pois era um publica no (Lucas 5.27). Ele era um funcionário da alfândega no porto de Cafarnaum, ou um coletor de impostos, ou coletor de imposto territorial.

(1) Ele estava trabalhando, como os outros a quem Cristo chamou (cap. 4.18). Assim como Satanás escolhe vir, com suas tentações, para aqueles que estão ociosos, da mesma forma Cristo escolhe vir, com seu chamado, para aqueles que estão trabalhando. Mas:

(2) era um trabalho de má reputação entre as pessoas sérias; pois estava ligado a muita corrupção e tentação, e havia poucos naquele ramo que eram honestos. O próprio Mateus confessa o que ele era antes de sua conversão, assim como Paulo (1 Timóteo 1.13), para que a graça de Cristo, ao chamá-lo, possa ser ainda mais engrandecida. Ele também mostra que Deus tem os seus remanescentes entre todos os tipos de pessoas. Ninguém pode se justificar em sua incredulidade, pelo seu chamado neste mundo; pois não existe uma chamada pecaminosa. Alguns foram salvos do mundo através de uma chamada pessoal, enquanto outros foram redimidos nele.

2.A força preventiva desse chamado. Não sabemos se Mateus procurava por Cristo, ou tinha qualquer inclinação para segui-lo, muito embora alguns de seus parentes já fossem discípulos de Cristo. Mas Cristo se antecipou a ele com as bênçãos de sua bondade. Ele foi encontrado por aqueles que não o procuravam. Cristo disse em certa ocasião: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós”. Ele disse: “Segue-me”; e o mesmo poder divino e onipotente acompanhou essa palavra para converter Mateus, que obedeceu à convocação (v: 6). “Levanta-te e anda” foi a palavra que curou o paralítico. Note que uma mudança é formada na alma por Cristo como Autor, e por sua palavra, como o meio. Seu Evangelho é o poder de Deus para a salvação (Romanos 1.16). O chamado foi eficaz, pois Mateus o atendeu, levantou-se e o seguiu imediatamente. Ele não se negou, nem demorou a obedecer (o poder da graça divina logo responde e supera todas as objeções); nem a sua nomeação para o seu cargo, nem os ganhos conseguidos através dele, puderam detê-lo, quando Cristo o chamou. Ele não consultou nem carne nem sangue (Gálatas 1.1 5,16). Ele abandonou seu posto e suas esperanças de promoção através daqueles meios; e, embora mais tarde, ocasionalmente, encontremos discípulos que haviam sido pescadores pescando novamente, não encontramos Mateus novamente na alfândega.

 II – A conversa de Cristo com publicanos e pecador es nessa ocasião. Cristo chamou Mateus para torná-lo conhecido entre as pessoas daquele grupo. Jesus sentou-se à mesa (v. 10). Os outros evangelistas nos contam que Mateus fez um banquete tão grande que os pobres pescadores, ao serem convidados, não eram capazes de imaginar. Mas quando ele próprio fala disso, nem sequer nos conta que isso aconteceu em sua própria casa, nem que era um banquete, mas apenas que se sentou à mesa para uma refeição em casa; preservando a lembrança do tratamento preferencial de Cristo aos publicanos, contrariamente ao respeito que ele havia dedicado a Cristo. Convém que falemos moderadamente de nossas próprias boas obras.

Agora observe:

1.Quando Mateus convidou a Cristo, ele convidou os discípulos do Senhor para que o acompanhassem. Aqueles que dão as boas-vindas a Cristo têm que dar boas-vindas a todas as coisas que são dele, por amor a Ele, e permitir que elas tenham um lugar em seus corações.

2.Ele convidou muitos publicanos e pecadores para encontrá-lo. Este era o ponto principal que Mateus visava neste banquete – que ele pudesse ter a oportunidade de trazer seus antigos companheiros para conhecer a Cristo. Ele sabia, por experiência própria, o que a graça de Cristo podia fazer, e não se preocuparia com eles. Aqueles que são efetivamente trazidos para Cristo, não podem deixar de desejar que outros também sejam trazidos a Ele, e contribuir de alguma forma nesse sentido. A verdadeira graça é aquela que não nos levará a comer alegremente a nossa parte sozinhos, mas nos levará a convidar a outros. Quando a fraternidade se rompeu – pela conversão de Mateus – a sua casa estava repleta de publicanos, e certamente alguns deles o seguiriam, como ele seguiu a Cristo. Assim o fizeram André e Filipe (João 1.41,45; 4.29. Veja Juízes 14.9).

III – O descontentamento dos fariseus com isso (v. 11). Eles se queixaram disso, e perguntaram: “Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?” Observe aqui:

1.Que Cristo foi provocado. Este não era o menor dos seus sofrimentos, suportar a contradição dos pecadores contra si. Ninguém era mais provocado pelos homens do que Ele, que veio para mediar o grande conflito entre Deus e os homens. Assim, Ele negou a si mesmo a honra devida a uma Divindade encarnada, que era a de ser justificado no que Ele falava e ter tudo o que Ele falava imediatamente aceito, pois embora nunca falasse ou fizesse qualquer coisa errada, tudo o que Ele disse e fez foi contestado. Assim, Ele nos ensinou a esperar e estar preparados para a repreensão, e suportá-la pacientemente. 2. Aqueles que discutiram com eles eram os fariseus; uma geração de homens orgulhosos, convencidos de si mesmos, e críticos dos demais; do mesmo temperamento que aqueles dos tempos dos profetas, que disseram: “Retira-te, e não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu”. Eles eram muito rígidos em evitar os pecadores, mas não em evitar o pecado. Não havia maiores fanáticos do que eles no que se refere à forma da devoção, nem maiores inimigos do poder que ela tem. Eles defendiam a manutenção das sutilezas das tradições dos antigos, propagando, assim, o mesmo espírito através do qual eram governados.

2.Eles levaram as suas críticas, não para o próprio Cristo – eles não tinham coragem para fazê-las diante dele -, mas para seus discípulos. Os discípulos estavam na mesma companhia, mas a disputa era com o Mestre, pois eles não teriam feito isso, se Ele também não o fizesse; eles pensavam que isso ficava pior para Ele, que era um profeta, do que para eles. Sua dignidade, eles pensavam, devia mantê-lo, mais que aos outros, a uma distância maior de tal companhia. Escandalizados com o Mestre, eles discutem com os discípulos. Note que cabe aos cristãos defender e justificar a Cristo e suas doutrinas e leis, e estar sempre prontos para dar uma resposta àqueles que lhes perguntam a razão da esperança que há neles (1 Pedro 3.15). Enquanto Ele é o nosso defensor no céu, sejamos seus defensores na terra, e permitamos que as acusações contra Ele também pesem contra nós.

3.O protesto era por Ele ter comido com publicanos e pecadores. Ser amigo de pessoas más é contra a lei de Deus (SaImos 119.115; 1.1). E talvez, ao fazerem essa acusação contra Cristo aos seus discípulos, eles esperassem influenciá-los para que se afastassem dele e ficassem descontentes com Ele, fazendo-os passar para o lado deles, tornando-se seus discípulos, como se assim andassem em melhor companhia. Pois eles andavam por terra e mar para fazer prosélitos. Ser íntimo dos publicanos era contra a tradição dos anciãos, e, por isso, eles viam isso como algo odioso. Eles estavam furiosos com Cristo pelo seguinte:

(1) Porque desejavam causar dano a Ele – eles buscavam urna oportunidade para deturpar sua imagem. Note que é fácil e muito comum interpretar da pior maneira as melhores palavras e ações.

(2) Por que eles não desejavam nenhum bem aos publicanos e pecadores, mas invejavam a preferência de Cristo por eles, e estavam aflitos por vê-los levados ao arrependimento. Era legítimo suspeitar que eles próprios não possuíam a graça de Deus, invejavam a participação dos outros nessa graça, e estavam insatisfeitos com isso.

IV – A defesa que Cristo fez de si e de seus discípulos ao justificar a conversa que manteve com os publicanos e os pecadores. Os discípulos, ao que parece, sendo ainda fracos, tinham que procurar uma resposta para a crítica dos fariseus, e depois levá-la a Cristo, e Ele a ouviu (v. 12). Também é possível que o Senhor tenha ouvido aqueles homens sussurrando aos seus discípulos. Que Ele próprio se justifique e defenda a sua própria causa, respondendo a cada um de nós. Duas coisas que Ele ressalta em sua defesa:

1.A necessidade e a urgência do caso dos publicanos, que pediram sua ajuda em voz alta, e, por tanto, justificavam a sua conversa com eles para o próprio bem deles. Foi a extrema necessidade dos pobres pecadores perdidos que trouxe Cristo das puras regiões celestiais para estas regiões impuras; o mesmo motivo que o trouxe para esta companhia que era considerada impura. Nesse momento:

(1) Ele prova a necessidade da causa dos publicanos: “Não necessitam de médico os sãos, mas sim, os doentes”. Os publicanos estão doentes, e eles necessitam de alguém para ajudá-los e curá-los – o que os fariseus achavam que não precisavam. Note:

[I] O pecado é a doença da alma; os pecadores são espiritualmente doentes. As corrupções originais são as doenças da alma, transgressões efetivas são suas feridas, ou as erupções da doença. É algo deformante, debilitante, inquietante, destrutivo, mortal, mas, bendito seja Deus, não incurável.

[2] Jesus Cristo é o grande médico das almas. Sua cura das doenças do corpo significa que Ele surgiu com a cura sob seus braços. Ele é um médico hábil, dedicado e misericordioso, e é sua missão e tarefa curar os doentes. Homens bons e sábios deveriam ser como médicos em tudo o que lhes diz respeito. Cristo era assim.

[3] As almas pecadoras têm necessidade desse médico, pois a enfermidade delas é perigosa. Eles não se curarão por si mesmos; nenhum homem pode ajudar-nos; nós temos tal necessidade de Cristo, que estamos arruinados, eternamente arruinados, sem Ele. Pecadores conscientes percebem sua necessidade, e consequentemente dedicam-se a Ele.

[4] Existe um grande número de pessoas que se imaginam saudáveis e perfeitas, que pensam não ter necessidade de Cristo, que podem cuidar de si mesmas sem Ele, como os crentes de Laodiceia (Apocalipse 3.17). Portanto, os fariseus não desejavam o conhecimento dos métodos e da palavra de Cristo, não por que não precisassem, mas porque pensavam que não tinham nenhum pecado. Veja João 9.40,41.

(2) Ele prova que a necessidade dos publicanos e pecadores justificou suficientemente a sua conduta ao conversar de modo amigável com eles, e que Ele não deve ser culpado por isso, pois aquela necessidade tornou este ato um ato de caridade, que deve sempre ser preferido às formalidades de uma profissão de fé religiosa, na qual caridade e generosidade são muito melhores do que grandeza, tanto quanto conteúdo é melhor do que dar espetáculos ou se esconder. Esses deveres, que são obrigações morais naturais, chegam a ter lugar até mesmo junto às leis divinas que são positivas e formais; assim, devem substituir essas imposições humanas bem como as tradições dos mais velhos, que tornam a lei de Deus mais rígida do que Ele a fez. Isso Ele prova (v. 13) citando uma passagem extraída de Oséias 6.6: “Porque eu quero misericórdia e não sacrifício”. Essa separação ressentida da sociedade em relação aos publicanos, que os fariseus impuseram, era menos do que um sacrifício; mas o fato de Cristo conversar com eles era mais do que um ato de simples misericórdia, e, portanto, deveria ser preferido. Se fazer o bem é algo melhor do que o sacrifício, como Samuel expressa (1 Samuel 15.22,23), quão bom é fazer o bem aos outros. A conversa de Cristo com os pecadores é chamada aqui de misericórdia: promover a conversão de almas é o maior ato de misericórdia imaginável; é salvar da morte uma alma (Tiago 5.20). Observe corno Cristo menciona isso: “Ide, porém, e aprendei o que significa”. Não é suficiente ser familiarizado com a letra da Escritura, mas precisamos aprender a entender o seu significado. E eles aprenderam melhor o significado das Escrituras agora ao aplicá-las como uma reprovação a seus próprios erros, e corno uma regra para suas próprias práticas. Essa passagem da Escritura citada por Cristo servia não apenas para vindicá-lo, mas:

[1] Para mostrar em que consiste a verdadeira religião: não em práticas externas, não em comidas e bebidas e demonstrações de santidade, não em pequenas opiniões particulares e disputas duvidosas, mas em fazer todo o bem que pudermos para os corpos e almas das outras pessoas; em paz e em retidão; visitando órfãos e viúvas.

[2] Para condenar a hipocrisia farisaica daqueles que colocam a ênfase da religião em rituais, mais do que no comportamento (cap. 23.23). Eles apoiam essas formas de religiosidade que podem se tornar consistentes com (e talvez subservientes ao) seu orgulho, cobiça, ambição, e malícia, enquanto odeiam aquele poder dela que é mortal para suas concupiscências.

1.Ele ressalta a natureza e a finalidade da sua própria missão. Ele deve expressar as suas ordens, e prosseguir com aquilo para o que foi designado – ser o grande Professor. Agora Ele diz: “Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento”, e, portanto, devo conversar com os publicanos. Observe:

(1) Qual era a sua incumbência; era chamar ao arrependimento. Este foi o seu primeiro tema (cap. 4.17), e esta era a sua tendência em todos os seus sermões. O chamado do Evangelho é um chamado para o arrependimento; um convite para mudarmos nossas mentes e nossos caminhos.

(2) A quem a sua missão se estende. Não aos justos, mas aos pecadores. Isto quer dizer:

[1] Se os filhos dos homens não fossem pecadores, não teria havido nenhuma oportunidade ou necessidade para a vinda de Cristo entre eles. Ele é o Salvador, não do homem como homem, mas do homem arruinado. Se o primeiro Adão tivesse continuado em sua retidão original, não teríamos precisado de um segundo Adão.

(2] Portanto, suas maiores atividades se relacionam com os grandes pecadores. Quanto mais perigoso o caso do homem doente é, mais ocasiões existem para a ajuda do médico. Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, até mesmo aquele que se considera o principal (1 Timóteo 1.15); chamar não tanto aqueles que, apesar de pecadores, são relativamente Justos, mas o pior dos pecadores.

[3] Quanto mais conscientes quaisquer pecadores forem de suas próprias iniquidades, mais bem-vindos serão, para eles, tanto Cristo como o seu Evangelho. Geralmente as pessoas se dirigem a lugares onde a sua companhia é desejada, não procurando aqueles que não as querem. Cristo não veio com a expectativa de ser bem-sucedido entre os justos, aqueles que consideram a si mesmos como tais, mas que em pouco tempo estarão mais cansados de seu Salvador que de seus pecados. Ele preferiu vir para os humildes pecadores assumidos; para eles Cristo veio, porque para os tais Ele é bem-vindo.

GESTÃO E CARREIRA

CIRCULE PARA CRIAR

Circule para criar

Equipes confinadas, mesmo que pareçam produtivas, têm ideias mais estreitas.

 Grupos trabalhando confinados num mesmo ambiente, sob supervisão de chefias, podem gerar na organização uma sensação de controle e eficiência. Esse modo tradicional de organizar o trabalho, porém, tende a tolher a capacidade de inovar. A conclusão resultou de um estudo conjunto do King’s College, de Londres, com a Universidade de Amsterdã. O trabalho inclui algumas recomendações: gestores que desejem incrementar a criatividade dos funcionários devem incentivá-los a sair mais vezes dos limites do local de trabalho. Isso porque chefes que exigem constantes avanços e propostas da equipe geralmente não permitem os períodos necessários para que se pense com calma, o que impede a formulação de ideias novas. Longe dessa pressão, os profissionais mostram maior capacidade de refletir.

O estudo, publicado no Journal of Organisational Behaviour, avaliou o desempenho de mais de mil consultores e 200 trabalhadores em assistência de saúde. Constatou que as melhores propostas surgiam quando a pessoa tinha tempo para checar suas ideias com múltiplos interlocutores (incluindo amigos e familiares), sem a pressão do cubículo do escritório e a vigilância do chefe. É o fenômeno chamado de “variedade de fontes de feedback”, que estimula a criatividade a partir do acesso a uma variedade maior de opiniões. Quanto mais referências houver, mais a criatividade se desenvolve. Por isso, gestores devem também promover regularmente seminários internos de feedback para encorajar suas equipes a refletir.

Fonte: Revista Época – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOTERAPIA BREVE

Psicoterapia breve

Já usado por Freud no século retrasado, esse tipo de tratamento se consolidou na contramão das análises prolongadas e hoje reúne diversas modalidades de intervenção focal, usadas por correntes psicanalíticas, psicodrama, fenomenologia e cognitivas. Embora tenha tempo delimitado, a técnica não se restringe ao atendimento de curta duração; exige planejamento terapêutico específico, objetivo definido e grande empenho do terapeuta.

 Cada vez mais o mundo contemporâneo solicita modalidades de assistência psicológica capazes de oferecer soluções rápidas e eficazes para situações complexas, urgentes, críticas ou, ainda, de caráter preventivo. Essa demanda suscita questões de diferentes naturezas – teórico-clínicas, políticas, éticas, pedagógicas e econômicas. Nesse contexto, a psicoterapia breve (PB) é uma das alternativas que podem dar conta da crescente demanda de volume de atendimento.

Não se trata apenas de uma psicoterapia de curta duração. A técnica tem tempo delimitado, exige planejamento terapêutico específico, foco, objetivo definido e maior atividade do terapeuta. Além disso, seria mais adequado falar em psicoterapias breves (PBs), no plural, dada a grande diversidade de propostas em relação aos aspectos citados, e diferenciá-las de intervenções breves. Apesar dos preconceitos e da histórica resistência da psicanálise às tentativas de abreviar o tempo do processo terapêutico, as psicoterapias breves são reconhecidas hoje como técnicas válidas.

Um dos pioneiros das PBs, David H. Malan, que teve grande influência na consolidação dessa técnica, escreveu que “o divã de Procusto era tão inflexível quanto seu leito”, para ilustrar o questionamento do uso exclusivo de uma técnica para todo e qualquer caso clínico. O autor referia-se ao uso indiscriminado de psicoterapias psicanalíticas nas clínicas psiquiátricas no período após a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, muitas vezes caricaturas de psicanálise. Cabe uma ressalva: as terapias breves só puderam se desenvolver devido à experiência clínica adquirida em tratamentos longos. Foi a partir de tratamentos fundamentados nas técnicas tradicionais que se delineou a compreensão da dinâmica da personalidade, dos padrões de doença e processos terapêuticos, base para o desenvolvimento de terapias breves.

Ainda hoje, em instituições como hospitais, ambulatórios, centros específicos de atendimento público e clínicas-escolas, é visível o descompasso entre a enorme demanda e a escassez de recursos. A psicologia e a psicanálise conquistaram credibilidade e amplo campo de atuação para além dos consultórios particulares, sendo obrigadas a repensar os modelos clássicos de formação profissional e atendimento clínico. Se, de um lado, há grande entusiasmo com a aplicação das PBs como solução para as demandas atuais, de outro, elas são alvo de frequentes críticas que, em geral, as acusam de não passarem de trabalhos adaptativos, superficiais, limitados ao ego, com resultados transitórios, pouco pro- fundos ou incapazes de propiciar mudanças psíquicas significativas e duradouras.

É interessante examinar a história das psicoterapias breves de base psicanalítica que são as fontes de inspiração de outras propostas desenvolvidas atualmente no Brasil e no mundo. Vale ressaltar que uma única corrente fundada na teoria psicanalítica pode propiciar diversas propostas de psicoterapia breve. Aliás, no conjunto da própria psicanálise encontramos diferentes formulações e proposições. Desde Freud, o aparelho psíquico tem sido o objeto de estudo da teoria psicanalítica, cuja construção ocorreu principalmente por meio do estudo dos fenômenos como os sintomas, os atos falhos e os sonhos. O conceito central é a teoria do inconsciente e seu funcionamento. Porém, tendo como origem comum a teoria das motivações inconscientes, surgiram estudos que enfatizaram diferentes aspectos, tais como a teoria das pulsões, a teoria das relações de objeto e a organização estrutural. Essas variações conduziram às diferentes abordagens psicanalíticas. Assim, a partir de uma noção central (o inconsciente) surgiram diferentes abordagens ou correntes de pensamento.

Percorrendo a história do surgimento das psicoterapias breves de base psicanalítica, observa-se que muitas das questões, a favor ou contra as PBs, com as quais nos deparamos hoje, já estavam presentes nos momentos iniciais do aparecimento dessas técnicas; seja baseada na teoria das pulsões, seja na teoria das relações de objeto ou na teoria psicanalítica estrutural. Questiona-se não só a relevância e a eficácia da técnica, como também seus limites. Discute-se, além disso, aspectos relacionados à prática e à teoria, como o número de sessões (desde uma sessão até no máximo um ano de psicoterapia), conceito e definição de foco para o trabalho terapêutico, atitude adotada pelo terapeuta ao longo do processo (neutralidade, atitude mais ativa, atitude docente etc.), regras abstratas do enquadre (associação livre do paciente ou direcionamento do terapeuta, atenção flutuante ou seletiva etc.) indicação, contraindicação e objetivos da psicoterapia breve, entre outros.

Em pronunciamento no V Congresso Psicanalítico em Budapeste, em 1918, Freud anuncia a necessidade de a psicanálise desenvolver novas técnicas de atendimento para dar conta da demanda social e do prolongamento excessivo das análises clássicas. O modelo então vigente de formação e atendimento não era suficiente para a demanda (o número de analistas habilitados era inferior às necessidades da população). Outras questões, também anunciadas no pronunciamento em Budapeste, dizem respeito à atitude do analista diante da reação terapêutica negativa à exacerbação de sintomas, bem como à evolução do pro- cesso analítico.

Experiências traumáticas como a Segunda Guerra Mundial e algumas catástrofes ocorridas nos Estados Unidos criaram uma enorme procura de atendimento para problemas de ordem psíquica, o que foi determinante para o desenvolvimento e a consolidação das psicoterapias breves.

Nas décadas de 10 e 20, a psicanálise vi- vera o fenômeno que Malan chamou de “inflação dos tratamentos psicanalíticos”, ou seja, o aumento da frequência das sessões e do tempo de duração das análises. Esse é um ponto ainda polêmico no meio psicanalítico. Em Psychoanalytic therapy: principles and application (1946), Franz Alexander afirma: “Não há correlação entre os resultados terapêuticos e a duração e intensidade do tratamento”. A partir dessa constatação, ele formulou dois eixos principais de posicionamento dos psicanalistas diante da questão. O primeiro, chamou de posição construtiva, usando como exemplo reformulações técnicas propostas por Sándor Ferenczi. O segundo, denominou posição de crença quase supersticiosa de que os resultados rápidos são apenas transitórios. É interessante observar que as principais crenças apresentadas na época persistem até hoje: a profundidade da terapia é diretamente proporcional ao tempo do tratamento e frequência de sessões; os resultados terapêuticos obtidos em número reduzido de sessões são necessariamente superficiais e temporários; justifica-se o prolongamento da análise com base no princípio de que a resistência do paciente será finalmente superada, obtendo-se o resultado terapêutico desejado.

Os primeiros casos de Freud foram “breves”. A obra Estudos sobre a histeria (1895) o autor descreve terapias de curta duração, que oscilam entre uma única sessão e alguns meses. Em 1990, o atendimento do caso Dora durou 11 semanas; o do pequeno Hans, dois meses; em 1906, o atendimento do maestro Bruno Walter e a “cura” de uma paralisia em seu braço direito deram-se em seis sessões; em 1908, uma única conversa de quatro horas à beira de um penhasco “curou” a impotência sexual de Gustav Mahler. Mas, se os primeiros casos eram breves, o que provocou o alonga- mento das análises? Qual o divisor de águas? Dois casos clínicos de Freud podem ser citados como fontes de inspiração das PBs. O primeiro é o caso Katharina, descrito em Estudos sobre a histeria e resgatado por Michael Balint no seu livro Terapia focal (1972) como exemplo de atendimento breve e focal. Nesse caso, Freud teve uma única conversa com Katharina que lhe permitiu relacionar suas crises atuais de angústia histérica com duas séries de episódios passados de caráter sexual suprimidos de sua memória consciente/pré-consciente por meio de mecanismos de recalque. Num primeiro momento, a jovem Katharina descreve as crises com sintomas de falta de ar, chegando a se sentir sufocada. A partir das perguntas formuladas por Freud, baseadas em pressupostos sobre a patologia histérica, Katharina fornece mais detalhes da crise atual, caracterizando uma crise de angústia, mais precisamente, “ataque histérico cujo conteúdo era a angústia”. Na sequência, diz ver nesses momentos sempre um rosto medonho. Então, com mais perguntas, recorda- se da primeira crise similar, dois anos antes. Nesse ponto, Freud sugere à paciente ter visto ou ouvido algo que a constrangeu e de que preferia não tomar conhecimento.

Ela recorda da situação na qual ocorreu a crise, quando vira pela janela o tio deitado sobre uma moça, sua prima. O episódio desencadeou a separação dos tios por “culpa” dela, a responsável pela revelação do fato. Freud segue indagando se ela tinha sentido repulsa pelo o que vira, fazendo-a recuperar a lembrança da cena, o significado e o impacto afetivo do que vira, e a dolorosa lembrança de episódios anteriores, reativadas com a compreensão do caráter sexual da cena. Quando ainda mais jovem, sofrera investidas de caráter sexual desse mesmo tio, com quem morava e fizera algumas viagens. Ela não sentia repulsa pela visão da cena do tio com a prima, mas pela lembrança que despertara, ou seja, as investidas dele contra ela própria. A conversa com Freud possibilitou associar tais lembranças com seus sintomas atuais, e no final sentia-se revigorada e aliviada. Podia ver- balizar que o rosto que via era o do tio furioso, que a ameaçava por ter revelado tudo à tia, culminando no divórcio.

Anos mais tarde, Freud reviu sua com- preensão das histéricas, ‘deixou de “acreditar” nas histórias narradas por elas e desenvolveu a teoria das fantasias. Abandonou a técnica da catarse, empregada na época, e criou a técnica da associação livre. Balint usa esse caso para ilustrar e legitimar como um atendimento breve e focal permite relacionar o conflito atual a experiências passadas (infantis), interpretá-las, e liberar o paciente de seu sintoma ou padecimento.

O segundo caso é o do Homem dos Lobos, um jovem russo neurótico obsessivo, apresentando em História de uma neurose infantil (1918) e rediscutido em Análise terminável e interminável (1937). Freud propõe estabelecer uma data fixa para o término da análise, visando assim acelerar o processo, então estagnado. Se, em um primeiro momento, Freud entendeu ter sido produtiva sua atitude, ele mais tarde a reavalia, considerando-a inadequada. Em 1937, ele chama de “trabalho de bombeiro” a rapidez para eliminar sintomas e desqualifica as tentativas de abreviar o tratamento analítico por meio de atividades do analista que visem ativar conflitos para trabalhá-los em análise.

Podemos agora responder à questão sobre o divisor de águas em relação ao prolongamento das análises. Diante das dificuldades encontradas na clínica, em especial a reação terapêutica negativa, Freud recorre à metapsicologia e reformula a teoria, mantendo a técnica. Abandona a concepção inicial do conflito entre pulsão sexual e pulsão de auto conservação, e desenvolve o conceito de pulsão de morte, de compulsão à repetição (justificando o prolongamento das análises), passando a ver no jogo pulsional um conflito entre as pulsões de vida e as pulsões de morte. Em 1937, Freud aponta três fatores decisivos para o sucesso terapêutico: o prognóstico mais favorável dos casos de origem traumática; a importância das considerações quantitativas, ou seja, da força constitucional dos instintos; e as alterações do ego.

Contudo, as discussões mantidas com Freud a respeito do caso do Homem dos Lobos e o pronunciamento de 1918 motivaram Ferenczi, entre outras coisas, a fazer experiências e reformulações técnicas para abreviar e intensificar os tratamentos, depois conhecidas como “técnica ativa”. Ferenczi e Otto Rank questionaram a rigidez da técnica psicanalítica e da atitude do analista, além do prolongamento excessivo dos tratamentos, sendo considerados por isso como precursores das PBs. Assinalaram a discrepância entre o grande desenvolvimento da teoria psicanalítica e a parca literatura sobre a técnica. Identificaram uma importante lacuna no que diz respeito a soluções práticas e técnicas para dificuldades encontradas na clínica. Mais do que a recuperação das lembranças e as reconstruções que caracterizavam a técnica psicanalítica corrente, Ferenczi e Rank enfatizaram a experiência emocional do paciente na relação transferencial. Inspiraram outros autores, como Alexander e Balint, também preocupados com a duração das análises, com a aplicação de um único modelo para todos os quadros psicodinâmicos e com o alcance social desse modelo.

Psychoanalytic therapy: principles and application (1946), de Franz Alexander e Thomas French, foi um marco histórico para as PBs. Apesar da péssima repercussão no meio psicanalítico, uma vez que apresenta a proposta da experiência emocional corretiva (EEC) como a etapa seguinte nas reformulações da técnica psicanalítica, a obra contribuiu para a definição da técnica da PB. Para os autores, a sequência histórica do desenvolvimento da técnica psicanalítica seria constituída pelas seguintes etapas: hipnose, sugestão, associação livre, análise da transferência e, finalmente, a EEC. Desconsiderando o impacto negativo, que levou à desvalorização das PBs no meio psicanalítico, o livro tem o mérito de provar a eficácia de tratamentos breves. A obra foi resultado de sete anos de pesquisas do corpo docente do Instituto de Psicanálise de Chicago, cujo objetivo era formular princípios básicos que tornariam possível o tratamento breve e eficiente, e desenvolver técnicas específicas de atendimento.

Os autores indicam, para isso, o uso consciente de várias técnicas. Defendem a flexibilização da técnica e sua adaptação à natureza de cada caso, levando em conta a psicodinâmica, os conflitos atuais e o objetivo terapêutico desejado, o que pressupõe um planejamento terapêutico. Para eles, tal atitude tornaria a psicanálise mais útil e atingiria um maior número de pessoas. Além disso, assumem uma nova atitude visando a prevenção de “doenças emocionais”. Apresentam o princípio da flexibilidade e o princípio da EEC, cujos aspectos fundamentais seriam o controle e a manipulação da relação transferencial. Para Alexander, o objetivo terapêutico é sempre a melhoria das habilidades do paciente para encontrar satisfações às suas necessidades subjetivas, de uma maneira aceitável para ele mesmo e para o mundo em que vive, e, assim, liberá-lo para desenvolver suas capacidades.

A EEC pressupõe o terapeuta ativo desde os momentos iniciais. Considera que todos os conflitos antigos não resolvidos surgem na relação transferencial, cabendo ao analista assinalar as diferenças entre as reações das figuras parentais e as reações dele (analista) como a chave para produzir mudanças. Nessa técnica, o analista assume consciente- mente uma atitude diferente daquela adotada pela figura parental na experiência passada não resolvida, visando possibilitar uma nova e mais saudável solução. Alexander e French definem o conflito da situação atual do paciente (na transferência ou mundo externo) como o conflito focal a ser trabalhado, que se encontra mais próximo da superfície em qualquer sessão, contrapondo-se ao conflito nuclear originado na infância. Sustentam que a experiência emocional substituiria a busca de lembranças e a reconstrução intelectual. A decisão de tratar ou não estava diretamente ligada à reação do paciente às primeiras interpretações, o que poderia resultar em tratamentos que poderiam ser desde terapias de apoio até terapias profundas com alterações da organização psíquica. O grupo de Chicago considerava o uso cuidadoso da interpretação como o melhor método para controlar a intensidade do tratamento. Para a indicação de terapia, avalia fatores externos (deficiência física, deficiência intelectual, idade avançada) e fatores internos (força egoica, desenvolvimento da personalidade, forma de lidar com a crise).

Os anos 50 marcam o início de vários programas de pesquisa em psicoterapias breves (principalmente na Europa, Estados Unidos, e América do Sul) e a expansão dos serviços psiquiátricos de urgência nos Estados Unidos. No pós-guerra, na Clínica Tavistock, em Londres, Balint e Malan dão continuidade aos estudos de Ferenczi sobre reformulações técnicas e questionam a aplicação de um mesmo tratamento-padrão, sejam quais forem o diagnóstico e as necessidades clínicas do paciente. Repudiam, também, a atitude frequente de atribuir ao paciente – “por sua falta de cooperação” – a culpa pelo insucesso ou pela falha terapêutica, e alertam para as regressões prejudiciais a que a técnica-padrão induzia. Além desses questionamentos, destacam a importância da prevenção primária.

Com o estudo de um caso clínico, Balint formulou o que ficou conhecido como terapia focal. Seu objetivo era investigar a psicoterapia em nível profundo e intenso, porém em tempo breve. Considerava a necessidade de a técnica ser praticada por terapeutas com conhecimento teórico e prático em psicanálise. Para Balint, todas as atividades do terapeuta deveriam estar restritas às intervenções interpretativas. A atividade do terapeuta deveria ser alcançar o foco apropriado dentro do que o paciente oferece e aproximar-se desse problema focal somente pela interpretação. Nessa proposta técnica, o terapeuta utiliza-se da atenção seletiva e da negligência seletiva. O que não está relacionado com o foco é deixa- do sem interpretação.

Malan – que integrava o Laboratório de Terapia Focal na Tavistock – desenvolveu vasta pesquisa buscando estabelecer critérios de seleção e avaliação dos resultados. Para tanto, realizou entrevistas clínicas durante anos, com intervalos regulares, em dois grupos de pacientes atendidos em períodos subsequentes na referida clínica. Para pesquisa, Malan realizou extenso levantamento sobre psicoterapias breves propostas na época e classificou-as em dois campos opostos, que nomeou de visão “conservadora” e visão “radical”. Podemos encontrar até hoje posições nesses dois extremos. Grosso modo, a visão conservadora indica a PB para patologias mais leves e de início recente, as técnicas utilizadas devendo ser superficiais, e a interpretação transferencial, especialmente evitada. A visão radical considera a possibilidade de mudanças psíquicas profundas em pacientes com enfermidades mais severas e/ou crônicas, por meio da técnica de interpretação ativa que contenha a maior parte de elementos essenciais de uma análise nos moldes tradicionais.

Os resultados da pesquisa de Malan ratificaram os aspectos da visão radical. Porém, é importante destacar que um dos principais aspectos a ser considerado como critério de seleção foi a alta motivação para o insight; e o fator mais importante relacionado à técnica, a interpretação da transferência durante todo o tratamento, com ênfase na ligação da transferência com a infância e com a elaboração da raiva e do sofrimento pela perda do terapeuta na ocasião da alta.

Muitos trabalhos foram desenvolvidos nesse campo. Na Universidade Harvard, Erich Lindemann iniciou pesquisas com psicoterapia dinâmica breve, estudando processos de luto e possíveis reações patológicas dos sobre- viventes e parentes de vítimas de um incêndio ocorrido em Boston. Além de Lindemann, outra influência importante na consolidação das PBs nos Estados Unidos é Erick H. Erikson, autor de uma teoria sobre o desenvolvimento humano e a crise emocional evolutiva ou acidental. Suas ideias fundamentam as intervenções breves no campo da saúde mental comunitária.

Com base nas concepções desses dois autores, Peter E. Sifneos apresentou grandes contribuições nessa área. Seu primeiro livro, Short–term psychotherapy and emotional crisis (1972) é resultado de pesquisas realizadas no período de 1954 a 1968. A partir da constatação de diversas formas de trabalhar com psicoterapia breve, Sifneos identifica duas formas distintas: a psicoterapia breve supressora de ansiedade e a provocadora de ansiedade. Para a PB provocadora de ansiedade, ele estabeleceu critérios rigorosos de indicação, aceitando apenas pacientes que desenvolvem força de caráter adequada e que apresentavam questões edípicas (o foco do trabalho). A PB supressora de ansiedade, ou de apoio na crise, é indicada para pessoas que por causas genéticas ou ligadas ao desenvolvimento nunca foram capazes de alcançar um nível de funcionamento psicológico adaptado para lidar com as vicissitudes da vida. Para esses casos, o foco do trabalho é a resolução da crise ou o alívio sintomático, ou seja, a volta ao equilíbrio anterior. Sifneos caracterizou a PB como: brevidade, reeducação emocional, resolução de problemas e objetivos limitados.  Ele defende a ideia de evitar sistematicamente questões pré-edípicas e pré-genitais. Para ele, a atividade do terapeuta restringe-se às confrontações e interpretações apropriadas, valorizando o componente didático – concepção que foi alvo de crítica de outros autores.

O psiquiatra e psicanalista Edmond Gilliéron, diretor da Policlínica Psiquiátrica de Lausanne, é outro personagem de destaque na psicoterapia breve psicanalítica. Ele parte do princípio de que é justificável o desejo de abreviar o tratamento analítico; porém, considera fundamental levar em conta o fator contrário a esse desejo – a lentidão das modificações psíquicas profundas, decorrentes do funcionamento atemporal dos processos psíquicos inconscientes.

Em 1968 Gilliéron iniciou os estudos mais sistemáticos das PBs, formalizando o que ficou conhecido como técnica de Lausanne. Em um primeiro momento, a proposta seguiu orientação muito próxima à de Balint e Malan. Em seguida, dedicou atenção para as questões relativas ao enquadre, ou seja, para as influências do settings no processo terapêutico. Estudou o impacto das mudanças, principalmente a passagem da posição poltrona-divã para face a face (F-F) e a delimitação temporal com data marcada para o término. Avaliou como as modificações contextuais simples influenciam o processo associativo.

Com base nas evidências clínicas encontradas, propôs a manutenção da atenção flutuante do analista e da associação livre do paciente, pois constatou que as variações do enquadre são suficientes para modificar o funcionamento psíquico e intensificar os afetos. A função do enquadre é criar uma situação psíquica apropriada para favorecer a eficácia da interpretação. Gilliéron conclui ser possível, em diversas formas de psicoterapia, tal como a PB, respeitar estritamente as regras básicas da psicanálise, desde que se compreenda a especificidade das resistências que aí surgem.

O psicanalista suíço continua trabalhando com o método interpretativo, garantindo as condições adequadas de trabalho com as mudanças de enquadre. Posiciona-se de forma diferente em relação às indicações e contraindicações. Para ele, não há contraindicações absolutas, pois se deve considerar sempre a psicodinâmica de cada caso e, principalmente, a motivação para mudanças. Gilliéron fala de focalização pelo próprio paciente, ou seja, com as delimitações do enquadre (F-F e de- limitação de tempo) já ocorre um processo associativo que segue as motivações inconscientes que levaram à busca por ajuda.

Outra contribuição importante de Gilliéron diz respeito ao diagnóstico psicodinâmico precoce e à possibilidade de já na primeira entrevista se formular uma hipótese interpretativa. Baseado em sua experiência clínica e com influências da teoria da comunicação, ele desenvolveu um modelo de sessões iniciais. Nestas, observam-se atentamente os comportamentos verbais e não verbais do paciente desde os movimentos iniciais, antes mesmo do encontro com o terapeuta para consulta (cartas de encaminhamento, telefonemas, in- formações provenientes da instituição, secretaria etc.), até as primeiras falas significativas e a reação emocional do terapeuta. A formulação de Gilliéron pressupõe que o equilíbrio psíquico se apoia no ambiente afetivo. A ruptura desse equilíbrio leva à procura por ajuda e a buscar desse apoio perdido na figura do terapeuta. A interpretação inicial abarca esses elementos e abre a possibilidade da avaliação da indicação ou não de psicoterapia breve ou longa. Observam-se a elaboração do paciente ao longo das sessões iniciais, seu desejo de mudança ou retorno ao equilíbrio anterior, ou ainda, a possibilidade de a intervenção psicológica se esgotar nas sessões iniciais. Em tais sessões, outros elementos são avaliados, como a história de vida, a organização da personalidade, a capacidade de elaboração e o desejo de iniciar trabalho elaborativo mais longo (Gilliéron considera PB um tratamento de até um ano de duração).

O modelo de avaliação inicial proposto por Gilliéron é uma ferramenta técnica especialmente útil para avaliar a demanda por atendimentos psicológicos em instituições ou consultório, e definir quais modalidades são mais adequadas para diferentes procuras. Esse recurso pode evitar o abandono do trata- mento e prolongamentos desnecessários.

No panorama apresentado neste artigo, examinamos alguns modelos de psicoterapia breve, que apresentam profundas diferenças entre si. As propostas consideram desde a intervenção voltada para uma população muito restrita – quadros neuróticos, como indica Sifneos – até a possibilidade de indicação de PB para quadros mais “graves” e crônicos, dependendo da motivação, como sugerido por Malan e Gilliéron. Outras discrepâncias se verificam: por exemplo, a adoção, pelo terapeuta de uma atitude docente, ou a interpretação da relação transferencial desde o início. Esses últimos posicionamentos estão relacionados como o cuidado no estabeleci- mento de dependência ou com a neurose de transferência a ser evitada. Tais proposições técnicas baseiam-se na experiência clínica, na fundamentação teórica dos diferentes autores e nas realidades históricas, sociais e culturais nas quais se situam.

Hoje, além da aplicação e adaptação desses modelos pioneiros, considerados clássicos das PBs, encontramos propostas de práticas ecléticas – cuja adoção não é consensual – que podem estar associadas a hipnose, psicodrama, relaxamento, medicação (é importante frisar que os psicotrópicos se desenvolveram muito nas últimas décadas e seu uso se disseminou), ou adaptadas a diferentes realidades. É de fundamental importância que os terapeutas reflitam criteriosamente sobre o que propõem e como, considerando as implicações decorrentes da escolha adotada no processo psicoterapêutico.

 A CLÍNICA TAVISTOCK

Fundada em Londres em 1920, a Clínica Tavistock tinha como objetivo levar ao campo da prática médica a experiência acumulada pela psicanálise durante a Primeira Guerra Mundial. Oferecia psicoterapia sistêmica a pacientes com transtornos neuróticos. No começo dos anos 30, além da assistência, iniciaram-se as atividades de ensino e pesquisa para profissionais de diversos campos, como cientistas sociais, médicos, psicólogos e psiquiatras. Depois da Segunda Guerra, as equipes da Clínica Tavistock e do então recém-fundado

Tavistock Institute of Human Relations começaram a se dedicar ao estudo da estrutura e do funcionamento de pequenos grupos, com a importante contribuição de W. R. Bion.

Além de explorarem do funcionamento de grupos e da formulação de propostas de intervenção social, as equipes passaram a se dedicar a formas de abordagem e compreensão clínica de casais, famílias e outros grupos da comunidade.

Entre eles está presente o grupo de clínicos gerais que desde 1950, frequentam programas coordenados por Michael Balint, os quais abordam os problemas psicológicos no campo da medicina geral. Em meados da década de 50, um grupo de especialistas liderado por ele desenvolveu o novo método de psicoterapia, a terapia focal.

 O MENINO TERRÍVEL DA PSICANÁLISE

Psicoterapía breve2

Sándor Ferenczi, cujo verdadeiro nome era Sándor Fraenkel, nasceu em 1873 em Miskolcz, pequena cidade da Hungria, em uma família de 11 filhos. Seu pai, Bernàt Fraenkel, imigrante judeu polonês nascido em Cracóvia, era entusiasta da Revolução Liberal de 1848 e participou da insurreição húngara contra a dominação austríaca. Estabeleceu-se depois como livreiro; o negócio prosperou, e ele passou a exercer também o ofício de gráfico e editor. Em 1879 mudou o nome de Fraenkel (judaico) para Ferenczi (húngaro). Morreu em 1888. A viúva, Rosa Eibenschutz, assumiu, com sucesso, a direção dos negócios. A infância de Ferenczi parece ter transcorrido num ambiente familiar intelectualmente estimulante.

Após os estudos secundários, foi para Viena, onde se diplomou em medicina em 1894. Até então jamais encontrara ou ouvira falar de Freud. Formado, estabeleceu-se em Budapeste como clínico geral e psiquiatria. Exerceu a clínica geral até 1910, dedicando-se depois apenas à psicanálise. A primeira leitura de A interpretação dos sonhos não o animou; só mais tarde, em 1907, ao saber de um método elaborado em Zurique (a associação de palavras de Jung, com quem estão estabeleceu os primeiros contatos) escreveu a Freud solicitando uma entrevista. Inaugurava-se assim a longa correspondência entre eles, de 25 anos e cerca de 1.250 cartas.

Embora a técnica do tratamento tenha sido objeto de preocupação constante de Ferenczi, seu interesse maior foi sempre o tratamento propriamente dito, e não a elaboração de um sistema meticuloso. Muitas de suas experiências técnicas vieram a fazer parte da chamada técnica clássica. Seu conceito de introjeção, sua noção de trauma, suas reflexões acerca da transferência e da contratransferência justificam as palavras de André Green, para quem Ferenczi é “o pai da psicanálise contemporânea”. Michael Balint, seu discípulo e amigo, divide a produção de Ferenczi em três agrupamentos quase correspondentes aos períodos: até 1919, contribuições à técnica clássica; até 1926, a “técnica ativa”; a partir de 1927, indicações para futuros desenvolvimentos.

No primeiro, Ferenczi busca a ampliação considerável de seu campo de observação e maior compreensão e conhecimento do inconsciente humano. Já no período da “técnica ativa”, ele exigiu de si observações mais rigorosas e um conhecimento maior para melhor compreender os pacientes e desenvolver uma forte empatia, capacitando-o a intervir na hora exata e da forma correta. Tendo como preocupação fundamental a situação do paciente em seu sofrimento, em sua urgência de “curar-se”, e pouco satisfeito com as práticas lentas e intelectuais da psicanálise oficial, Ferenczi não hesitava em buscar novas formas de atender. Tais tentativas, aliás, fizeram dele o enfant terrible dos psicanalistas.

Quase no fim da Primeira Guerra Mundial, logo depois de sua análise com Freud, Ferenczi começou seus experimentos técnicos chamados, inicialmente, de “técnica ativa”, com o apoio de Freud. De acordo com essa técnica, no momento exato, o analista encorajaria o paciente a se expor ou mesmo a produzir, intencionalmente, situações nas quais ele chegaria a um considerável estado de tensão. Com isso, deveria irromper na consciência um desejo ou pulsão até então recalcados, transformando um sistema desagradável em satisfação agradável, e permitindo às associações do paciente, até ali interrompidas, a possibilidade de fluir novamente. Embora tivesse aderido de início à ideia, Freud rapidamente se convenceu de tratar-se apenas de um sucesso ilusório e imprevisível, e abandonou-a.

É desse período, embora com diferente perspectiva, outra de suas “criações”: a bioanálise, nova ciência cuja proposição teórica seria estender as teorias analíticas à biologia. Em sua obra Talassa, publicada em 1924, mas cuja elaboração remonta a 1914, quando o serviço militar o obrigou a abandonar a atividade clínica, Ferenczi formula a hipótese segundo a qual a existência intrauterina constituiria a repetição das formas anteriores da vida, cuja origem seria marinha. O nascimento representaria a perda desse estado originário, ao qual todos os seres aspiram retornar.

Para Edmond Gilliéron, as diferentes técnicas de psicoterapia breve se inspiram, todas, na “técnica ativa” de Ferenczi, por ele desenvolvida com o intuito de evitar certos benefícios secundários inerentes às perturbações neuróticas. Tratava-se, pois, de lutar contra as resistências dos pacientes, a técnica ativa visando elevar o nível de angústia do paciente para favorecer o processo psicanalítico. Isso não equivale   a dar ênfase apenas ao sintoma, e sim, ao processo psicanalítico.

Os temores de Freud em face das inovações de Ferenczi se justificam pelo fato, realmente ocorrido em muitas variedades de terapia surgidas, de se dar maior ênfase ao conflito externo e menor atenção ao conflito interno. Mas, vale insistir, isso em nada coincide com as ideias de Ferenczi, cujo foco de estudo e análise eram os sintomas surgidos no curso do tratamento. (Os autores cujas ideias correspondem melhor à linha traçada por Ferenczi acentuaram os problemas técnicos gerais, e não sintomas; são eles: Franz Alexander, Michael Balint e David. H. Malan.)

Uma vez convencido da insuficiência da técnica ativa, a reação de Ferenczi foi novamente exigir de si observações ainda mais precisas, buscando conhecimento mais sólido. É o terceiro período – a partir de 1926 até sua morte –, no qual busca atingir uma forma especial de paciência, de bondade e até mesmo de indulgência.

A ligação com Georg Groddeck (a quem procurou após a morte da mãe, Rosa) teve, nessa fase, impacto decisivo, e Ferenczi orienta-se para uma técnica da indulgência e do relaxamento, destinada a devolver ao paciente o amor do qual fora privado durante a infância. Tal posição viria a comprometer suas relações com Freud. Em seu último artigo – “Confusão de língua entre os adultos e a criança (A linguagem de ternura e da paixão)” –, definiu a honestidade e a sinceridade absolutas como dois fatores indispensáveis para atingir tal forma especial de paciência e indulgência. Ele morreu em Budapeste, em maio de 1993. Apesar de sua obra ter tido pouca divulgação nas décadas seguintes, ao seu falecimento, atualmente tem ganhado reconhecimento entre estudiosos e pesquisadores.

 

MARTA S. DANTAS – é psicóloga, especialista em psicoterapia breve pelo Instituto Sedes Sapientiae, doutora em psicologia clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). É professora e supervisora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro da Society for Psychotherapy Research.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 8: 14-17

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A Cura da Sogra de Pedro

Todos aqueles que pretendem ser críticos em relação à harmonia dos Evangelhos, colocam esta passagem, e todas as que se seguem, até o final do capítulo 9, antes do Sermão da Montanha, conforme a ordem observada por Marcos e Lucas. O Dr. Light foot coloca apenas esta passagem antes do Sermão da Montanha, e o versículo 18 e seguintes, depois. Aqui temos:

I – Urna versão particular da cura da sogra de Pedro, que estava doente com febre, na qual observamos:

1.O caso, que não era aparentemente tão difícil, pois a febre é uma doença comum. Mas, sendo a paciente alguém próximo a Pedro, o fato é registrado como um exemplo do cuidado e carinho especiais de Jesus para com as famílias dos seus discípulos. Aqui descobrimos:

(1) Que Pedro tinha urna esposa, e ainda assim foi chamado para ser um apóstolo de Cristo. Mostra também que Cristo, ao ser gentil com um parente da esposa de um de seus discípulos, apoiava o casamento. A igreja de Roma, ao proibir que os sacerdotes se casem, vai, portanto, em direção oposta ao apóstolo do qual alega derivar uma infalibilidade.

(2) Que Pedro tinha uma casa, embora Cristo não tivesse (v. 20). Dessa maneira, o discípulo estava mais bem provido do que o seu Senhor.

(3) Que Pedro tinha uma casa em Cafarnaum, embora fosse originaria mente de Betsaida. Provavelmente porque se mudou para Cafarnaum quando Cristo se mudou para lá, e fez dela a sua residência principal. Note que vale a pena mudarmos o nosso local de moradia para que possamos ficar próximos de Cristo e ter a oportunidade de conversar com Ele. Quando a arca se mudava, Israel devia se mudar e segui-la.

(4) Que a sogra de Pedro era parte de sua família, o que é um exemplo para casais de que devem ser gentis e amáveis com os parentes um do outro como são com os seus próprios. Provavelmente, esta boa mulher era idosa e, contudo, era respeitada e cuidada, como devem ser as pessoas idosas, com toda a ternura possível.

(5) Que estava acamada por causa de uma febre. Nem a força da juventude, nem a fragilidade e o frio da idade, serão uma barreira contra doenças desse tipo. A paralisia era uma doença crônica, a febre, uma doença aguda, mas ambas foram levadas a Cristo.

  1. A cura (v. 15).

(1) Como foi realizada. Jesus “tocou-lhe na mão”; não para saber qual era a doença, como fazem os médicos através do pulso, mas para curá-la. Isto foi uma indicação da sua bondade e ternura. Ele próprio se sensibiliza ao sentir as nossas fraquezas. Isso mostra igualmente o modo da cura espiritual, pelo exercício do poder de Cristo com a sua Palavra, e a dedicação de Cristo para conosco. A Escritura nos traz a Palavra; e o Espírito toca – toca o coração, toca a mão.

(2) Como isso foi evidenciado: a febre a deixou, ela se levantou e os serviu. Assim, nos parece:

[1] Que a misericórdia foi aperfeiçoada. Aqueles que se recuperam de febre pelo poder da natureza geralmente se mostram debilitados e impotentes, ineptos para o trabalho durante muito tempo depois. Mas para mostrar que essa cura estava acima do poder da natureza, a sogra de Pedro ficou imediatamente recuperada, a ponto de poder cuidar dos afazeres da casa.

[2] Que a misericórdia era santificada; e as misericórdias que são assim são verdadeiramente aperfeiçoadas. Embora a mulher tenha sido, desse modo, dignificada por uma graça especial, ainda assim ela não se vangloria, mas está pronta, junto à mesa, para servir, se houver necessidade, como qualquer criado. Aqueles a quem Cristo concedeu uma graça ou uma honra devem ser humildes – sendo assim libertada, a sogra de Pedro planeja como deverá retribuir. Ê muito apropriado que aqueles que são curados por Cristo devam servir a Ele, como seus humildes servos, por todos os dias de suas vidas.

II – Aqui está um relato geral das muitas curas que Cristo realizou. Esta cura da sogra de Pedro trouxe-lhe pacientes em grande número. “Ele curou alguém assim, por que não eu? O amigo de alguém, por que não o meu?” Agora nos é contado:

1.O que Cristo fez (v. 16).

(1) Ele expulsou os demônios. Ele expulsou os espíritos malignos “com a sua palavra”. Deve haver muitos representantes de Satanás, por permissão divina, naquelas doenças para as quais causas naturais são apontadas (como no caso das feridas de Jó), especialmente nas doenças mentais; mas, na época em que Cristo estava no mundo, parece ter ocorrido urna maior liberdade do diabo para possuir e atormentar os corpos das pessoas. Ele veio com grande ira, pois sabia que seu tempo era curto. E Deus sabiamente ordenou que assim fosse, para que Cristo pudesse ter oportunidades mais frequentes e claras de mostrar o seu poder sobre Satanás, e o propósito e desígnio de sua vinda ao mundo, que eram desarmar e despojar Satanás, para acabar com o seu poder e destruir as suas obras. E o sucesso do Senhor Jesus foi tão glorioso quanto o seu desígnio.

(2) Ele “curou todos os que estavam enfermos”; todos sem exceção, embora os pacientes tivessem sempre uma condição muito ruim, e os casos fossem sempre muito difíceis.

2.Como as Escrituras foram cumpridas neste caso (v. 17). O cumprimento das profecias do Antigo Testamento era o grande objetivo que Cristo tinha em vista, e a grande prova de que Ele era o Messias. Dentre outras coisas que foram escritas a respeito dele, temos (Isaias 53.4): “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si” – isto se refere a 1 Pedro 2.24, e neste texto é interpretado que Ele levou os nossos pecados; aqui podemos interpretar que Ele levou as nossas enfermidades; os nossos pecados se tornam as nossas enfermidades, em meio aos nossos sofrimentos. Cristo levou embora o pecado por meio da sua morte e levou embora as doenças por meio dos milagres da sua vida. Assim, podemos dizer que Ele, então, levou sobre si as nossas enfermidades quando carregou os nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro; pois o pecado é a causa e o aguilhão das enfermidades. Muitas são as doenças e flagelos aos quais o nosso corpo está sujeito: e há mais sobre este assunto nos evangelhos – para nos apoiar e confortar – do que em todos os escritos dos filósofos. Ele “tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si”; Ele os levou, ou seja, Ele os tirou de nós. Embora Ele nunca tenha estado doente, Ele sentia fome, sede e cansaço, foi atormentado em espírito, aflito e muito oprimido. Ele os carregou por nós em sua paixão e os sofreu conosco em sua compaixão, sendo tocado com o sentimento de nossas fraquezas; e desse modo Ele as carrega de nós e as torna leves, a não ser que retenhamos a nossa própria culpa. Observe quão enfaticamente isso está expresso aqui: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças”. Ele tinha tanto a capacidade como o desejo de intervir nesse assunto, e, como nosso médico, está interessado em lidar com nossas fraquezas e doenças. Essa parte do flagelo da natureza humana era uma preocupação particular que Ele evidenciou através da sua grande disposição para curar enfermidades. E Ele não é menos poderoso ou menos compassivo agora, pois sabemos que a dificuldade para se chegar ao céu não foi reduzida com o passar do tempo.

GESTÃO E CARREIRA

QUANDO EXPERIMENTAR É MAIS IMPORTANTE QUE PLANEJAR

Quando experimentar é mais importante do que planejar

Teste e falhe. Mais de uma vez. Você não vai conseguir inovar se não agir assim.

 Cada vez mais vemos fundos de Venture Capital buscando investir em startups de empreendedores que já falharam. Como se falhar fosse um pré-requisito para se chegar ao sucesso. Como um ex- empreendedor que viveu os dois lados, falhou e foi bem-sucedido, posso dizer que, se não é um pré-requisito, a falha é, no mínimo, ingrediente muito importante para o sucesso. Especialmente nos dias atuais, em que tudo muda em grande velocidade, e que é mister testar muito mais do que planejar. Décadas atrás, havia tempo nas organizações para longos planejamentos, que exigiam detalhadas discussões. Até era comum ouvir dos especialistas que as discussões de planejamento eram mais relevantes do que o plano, o produto final das intermináveis reuniões. Mas esse tempo se foi. Não que planejamento não seja mais importante. Ele continua sendo fundamental para qualquer empresa. A diferença é que vivemos, atual- mente, a era da experimentação. Em vez de longos estudos e desenhos, precisamos gerar protótipos, para serem rapidamente testados e validados no mercado. Entretanto, experimentar pressupõe que haverá falhas. Não há inovação sem falha. E isso impõe um desafio às empresas que historicamente se acostumaram a punir aqueles que falhavam, porque sua busca sempre foi pela eficiência. A eficiência é que entregava retorno aos stakeholders. Como então compatibilizar inovação e eficiência? Dois conceitos aparentemente antagônicos, mas que precisam conviver nas novas organizações da era digital, chamadas IDE (innovation-driven enterprises). Todos os caminhos passam pelo entendimento da diferença entre risco e incerteza. Há um jogo que explica de forma quase lúdica o que quero dizer. Chama-se Jogo das 3 Caixas. Imagine que, numa primeira caixa, existam cem bolas, sendo metade delas verdes e a outra metade, azuis. Você precisa colocar a mão, com os olhos vendados, e retirar uma bola verde. Uma conta simples, ensinada na primeira aula de Estatística Básica, resolve a equação e nos aponta a probabilidade de você ser bem-sucedido. Vamos para a segunda caixa, onde você encontrará cem bolas de cores aleatórias. Sua missão continua a mesma, retirar uma bola verde. Assumimos então uma premissa: as bolas possuem dez cores diferentes, igualmente distribuídas. E novamente calculamos a probabilidade de você acertar.

Chegamos então à terceira e última caixa. Nesta, os objetos são aleatórios. Não sabemos quais são, muito menos de que cor. E a missão não muda: retirar uma bola verde. Para calcularmos sua chance de ser bem-sucedido, neste caso, será necessário assumirmos uma série de premissas. Na prática, isso significa que esta- remos nos distanciando da realidade. Serão tantas premissas, todas ocorrendo simultaneamente, que a chance desse cenário ser real será muito pequena.

Nas duas primeiras caixas, temos uma situação onde podemos calcular o risco. Não significa que sabemos de antemão se você será bem-sucedido ou não, mas podemos estimar qual o risco dessa operação. No terceiro caso, é bem diferente. Não temos números, não temos cálculos, não há indícios concretos que nos ajudem a fazer qual- quer estimativa. Porque este é tipicamente um ambiente de incerteza. E incerteza é muito diferente de risco.

Incerteza é o mundo das startups. Elas não têm história, não têm clientes, não têm processos, não têm sistemas. Tudo é novo. Este cenário é diferente do contexto de uma grande organização, onde todo o seu passado, o conheci- mento acumulado, a experiência dos profissionais que nela trabalham, a história dos clientes, tudo isso ajuda a construir um mundo onde existe muito mais informação. E esta profusão de informações é que tornará possível a esta empresa falhar com baixo impacto. Falhar de forma que se gere um aprendizado. Que sirva para mostrar que aquele não era o caminho. Que permita à organização conhecer os NÃOS antes desconhecidos. Isso tem um enorme valor para as empresas. Isso é inovar e ser eficiente.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O GPS DENTRO DA CABEÇA

O GPS dentro da cabeça

Saber onde estamos e para onde vamos é fundamental para sobreviver. Em geral não nos damos conta de que a habilidade de navegação requer do cérebro cálculos complexos, em frações de segundo. Apenas quando nos perdemos ou algo compromete esse mecanismo nos damos conta do quanto esse sistema é importante.

 Nossa capacidade de pilotar um carro ou avião, ou até caminhar pelas ruas de uma cidade, foi completamente transformada pela invenção do Sistema de Posicionamento Global (GPS). Mas como nos orientávamos antes do advento da tecnologia? Novos estudos mostram que o cérebro de mamíferos utiliza seu próprio sistema incrivelmente sofisticado de posicionamento, semelhante a um GPS, para nos nortear e conduzir de um lugar para outro.

Assim como o mecanismo instalado em nossos celulares e carros, o sistema de nosso cérebro determina onde estamos e para onde estamos nos dirigindo integrando múltiplos sinais relacionados à nossa posição e à passagem do tempo. O cérebro normalmente faz esses cálculos com um mínimo de esforço, por isso quase não estamos cientes deles. Somente quando nos perdemos ou quando nossa destreza de navegação fica comprometida por uma lesão ou doença neurodegenerativa percebemos o quanto esse sistema de mapeamento e deslocamento é crucial para nossa existência.

A capacidade de saber onde estamos e para onde precisamos ir é fundamental para a sobrevivência. Sem ela, nós, como todos os animais, seríamos incapazes de encontrar ali- mentos ou nos reproduzir. Pessoas, e, de fato, espécies inteiras pereceriam.

A sofisticação do sistema de orientação de mamíferos se torna particularmente evidente quando comparada à de outros animais. O simples verme nematódeo Caenorhabditis elegans, que tem apenas 302 neurônios, navega quase exclusivamente em resposta a sinais olfativos, seguindo o caminho de um gradiente crescente ou de- crescente de odor.

Animais com sistemas nervosos mais sofisticados, como formigas do deserto ou abelhas melíferas, se orientam com a ajuda de estratégias adicionais. Um desses métodos é chamado integração por caminhos, um mecanismo similar a um GPS, em que neurônios calculam a posição de um animal com base em um monitoramento constante de sua direção e velocidade de movimento em relação a um ponto de partida, uma tarefa executada sem o auxílio de indicadores externos, como pontos de referência, ou marcos geográficos físicos. Em vertebrados, particularmente em mamíferos, o repertório de comportamentos que permitem a um animal se localizar em seu meio ambiente expandiu ainda mais.

Mais do que qualquer outra classe de animais, mamíferos dependem da capacidade de formar mapas neurais do ambiente; padrões de atividade elétrica no cérebro em que grupos de células nervosas disparam de um jeito que reflete o layout, ou a disposição do ambiente circundante e a posição de um animal nele. Acredita-se que a formação desses mapas mentais ocorre principalmente no córtex, as enrugadas camadas superiores do cérebro que se desenvolveram bastante tarde no processo evolutivo.

Ao longo das últimas décadas, pesquisadores adquiriram um profundo entendimento de como, exatamente, o cérebro elabora e depois revisa esses mapas à medida que um animal se move. As pesquisas mais recentes, conduzidas principalmente em roedores, revelaram que os sistemas de navegação consistem em vários tipos de células especializadas que calculam continuamente a localização de um animal, a distância que percorreu, a direção em que está se movendo e sua velocidade. Coletiva- mente essas diferentes células formam um dinâmico mapa do espaço local que não opera somente no presente, mas também pode ser armazenado como uma memória para utilização posterior.

 NEUROCIÊNCIA DE ESPAÇO

O estudo dos mapas espaciais do cérebro começou com Edward C. Tolman, professor de psicologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, de 1918 a 1954. Antes de seu trabalho, experimentos laboratoriais em ratazanas domésticas pareciam sugerir que animais se movem e norteiam ao responde- rem a, e memorizarem, estímulos sucessivos ao longo do caminho que perfazem. Ao aprenderem a percorrer um labirinto, por exemplo, acreditava-se que elas se lembravam das viradas (mudanças de direção) que haviam feito desde seu ponto de partida até o final, ou saída do mesmo. Essa ideia, porém, não levou em conta a possibilidade de os animais talvez visualizarem uma “imagem” geral de todo o labirinto, o que lhes permitiria planejar o melhor caminho, ou percurso.

Tolman contradisse radicalmente as opiniões prevalecentes. Ele tinha observado ratazanas tomarem atalhos ou fazerem desvios, comportamentos que não seriam esperados se elas tivessem aprendido apenas uma longa sequência de comportamentos. Baseado em suas observações, ele propôs que animais formam mapas mentais do ambiente, que espelham a geometria espacial do mundo exterior. Esses mapas cognitivos faziam mais do que apenas ajudá-los a encontrar o caminho; eles também pareciam registrar informações sobre acontecimentos pelos quais haviam passado em lugares, ou pontos específicos.

As ideias de Tolman, propostas originalmente por volta de 1930, permaneceram controversas durante décadas. Sua aceitação ocorreu lentamente, em parte porque elas eram baseadas inteiramente na observação do comportamento de animais experimentais, que podia ser interpretado de várias maneiras. Tolman não dispunha dos conceitos ou das ferramentas para testar se um mapa interno do ambiente de fato existia no cérebro de um animal.

Levou cerca de 40 anos para que surgis- se uma evidência direta de um mapa desses em estudos de atividade neural. Na década de 1950, o progresso no desenvolvimento de micro eletrodos possibilitou monitorar a atividade elétrica de neurônios individuais em animais despertos. Esses eletrodos extremamente delgados permitiram que pesquisadores identificassem o disparo de neurônios isolados, individuais, à medida que os animais se comportavam como de costume. Uma célula “dispara” quando ativa um potencial de ação, uma breve e passageira mudança na voltagem da membrana celular neuronal. Potenciais de ação fazem neurônios liberar moléculas neurotransmissoras que transmitem sinais de um neurônio a outro.

John O’Keefe, da Universidade College London (UCL), no Reino Unidos, usou micro eletrodos em ratazanas domésticas para monitorar potenciais de ação em seus hipocampos, uma área do cérebro conhecida há décadas por sua importância para funções de memória. Em 1971, ele relatou que células neuronais ali disparavam quando um animal em uma caixa, ou cercado, passava algum tempo em um determinado local; por essa razão, ele as chamou “células de localização” (place cells, em inglês), também conhecidas como “células de posicionamento”. O’Keefe observou que diferentes células de localização disparavam em pontos, ou lugares distintos no cercado e que o padrão de disparo das células coletivamente formava um mapa de locais do interior da caixa. A atividade combinada de diversas células de posicionamento podia ser “lida” dos eletrodos para identificar a localização exata do animal a qualquer momento. Em 1978, O’Keefe e seu colega Lynn Nadel, agora na Universidade do Arizona, sugeriram que células de localização eram, de fato, uma parte integrante do mapa cognitivo imaginado por Tolman.

 UM MAPA CORTICAL

A descoberta de células de posicionamento abriu uma janela para as partes mais profundas do córtex, nas áreas mais distantes dos córtices sensoriais (que recebem inputs, ou estímulos, informações dos sentidos) e do córtex motor (que emite os sinais que iniciam ou controlam movimentos). No final da década de 1960, quando O’Keefe começou seu trabalho, o conhecimento sobre quando neurônios se ligavam e desligavam era restrito, em grande parte, a áreas chamadas córtices sensoriais primários, onde a atividade neural é controlada diretamente por estímulos sensoriais (inputs) como luz, som e tato (toque).

Neurocientistas daquela época especulavam que o hipocampo estava localizado longe demais dos órgãos sensoriais para pro- cessar suas informações de qualquer maneira que pudesse ser facilmente entendida a partir de um registro de micro eletrodos. A descoberta da existência de células no hipocampo que criavam um mapa do meio ambiente imediato de um animal acabou com essa suposição.

Embora isso fosse notável e sugerisse um papel para as células de localização na navegação (orientação), durante décadas depois de sua descoberta ninguém soube dizer que função poderia ser essa. As células de posicionamento se localizavam em uma área chamada CA1 e esse era o ponto final em uma cadeia de sinalização que se originava em algum outro lugar do hipocampo. Foi teorizado que elas recebiam muitos dos cálculos, ou registros fundamentais para a navegação de outras regiões do hipocampo. No início dos anos 2000, nós dois decidimos explorar essa ideia mais a fundo no novo laboratório que tínhamos montado na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU), em Trondheim. Esse empreendimento acabou levando a uma importante descoberta.

Em colaboração com Menno Witter, agora em nosso instituto, e um grupo de estudantes altamente criativos, começamos nosso estudo ao usarmos micro eletrodos para monitorar a atividade de células de localização no hipocampo de ratazanas domésticas, depois de termos interrompido (bloqueado) parte de um circuito neuronal que já se sabia que repassava informações para essas células. Esperávamos que o trabalho confirmasse que esse circuito era importante para o bom funcionamento das células de posicionamento. Mas, para nossa surpresa, os neurônios no fim desse circuito, em CA1, continuaram disparando mesmo quando os animais chegavam a locais específicos.

A inevitável conclusão de nossa equipe foi que células de localização não dependem desse circuito no hipocampo para avaliar, ou estimar a direção/posição de um animal. Nossa atenção então se voltou para o único caminho neural que havia sido poupado em nossa intervenção: as conexões diretas do córtex entorrinal, uma área adjacente que oferece uma interface para o resto do córtex, para CA1.

Ainda em colaboração com Witter, inserimos micro eletrodos no córtex entorrinal dos animais e começamos a registrar sua atividade enquanto eles desempenhavam tarefas semelhantes às que havíamos empregado em nossos estudos de células de posiciona- mento. Conduzimos os eletrodos para uma área do córtex entorrinal que tem conexões diretas com as partes do hipocampo onde haviam sido registradas células de localização em quase todos os estudos anteriores ao nosso. Constatamos que muitas células no córtex entorrinal disparavam quando um animal estava em um determinado ponto, ou lugar do cercado, de um jeito bem pareci- do com o das células de localização no hipocampo. Mas, ao contrário de uma célula de posicionamento, uma única célula no córtex entorrinal disparava e não apenas em um determinado local visitado por um roedor, mas em muitos.

A propriedade mais notável dessas células, porém, foi o jeito como elas disparavam. Seu padrão de atividade só se tornou óbvio para nós quando, em 2005, ampliamos as dimensões do cercado em que estávamos fazendo os registros. Depois de expandi-lo até um determinado tamanho, constatamos que os múltiplos locais em que uma célula entorrinal disparava formavam os vértices de um hexágono. Em cada um desses pontos, a célula, que chamamos uma “célula de grade” (grid cell, em inglês), disparava quando o animal passava por cima dele.

Os hexágonos, que cobriam todo o cercado, pareciam formar as unidades individuais de uma grade, como os quadrados formados pelas linhas de coordenadas em um mapa rodoviário. O padrão de disparos levantou a possibilidade de que células de grade, ao contrário de células de localização, fornecem informações sobre distância e direção, ajudando um animal a monitorar sua trajetória com base em “instruções” internas dos movimentos do corpo, sem depender de inputs, ou informações adicionais do meio (ambiente).

Vários aspectos da grade também mudaram à medida que examinamos a atividade celular em regiões distintas do córtex entorrinal. Na parte dorsal, perto do topo dessa estrutura, as células geravam uma grade do cercado que consistia de hexágonos muito próximos, pouco espaçados.  O tamanho dos hexágonos aumentava em uma série de sequências, ou módulos, à medida que fomos descendo rumo à parte inferior, ou ventral, do córtex entorrinal. Os elementos hexagonais da grade em cada módulo tinham um espaçamento único e singular.

O espaçamento das células de grade em cada módulo sucessivo em direção descendente podia ser determinado ao se multiplicar a distância entre as células no módulo anterior por um fator de cerca de 1,4, aproximadamente a raiz quadrada de 2. No módulo na parte superior do córtex entorrinal, uma ratazana doméstica que ativasse uma célula de grade em um vértice de um hexágono teria de se locomover de 30 a 35 centímetros para chegar a um vértice adjacente. No módulo descendente seguinte, o animal precisaria andar de 42 a 49 centímetros, e assim por diante. No módulo mais baixo, a distância chegava a vários metros de extensão.

Ficamos extremamente empolgados com as células de grade e sua disposição tão organizada. Na maioria das regiões do córtex, os neurônios têm padrões de disparo que parecem caóticos e inacessíveis, mas aqui, em seu interior profundo, havia um sistema de células que disparavam em um padrão previsível e ordenado. Estávamos ansiosos para investigar. Mas essas células e as células de localização ou posicionamento não eram as únicas envolvidas no mapeamento do mundo de mamíferos; outras surpresas também nos aguardavam.

Em meados da década de 1980 e no início dos anos 90, James B. Ranck do Centro Médico Downstate da Universidade Estadual de Nova York (SUNY) e Jeffrey S. Taube, agora na Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire, haviam descrito células que disparavam quando um roedor virava a cabeça para uma direção específica. Ranck e Taube tinham descoberto essas chamadas “células de direção da cabeça” (head-direction cells ou HD, em inglês) no presubículo, outra região do córtex adjacente ao hipocampo.

Nossos estudos constataram que essas células também estavam presentes no córtex entorrinal, misturadas em meio às células de grade. Muitas células HD no córtex entorrinal também funcionavam como células de grade: os pontos, ou lugares no cercado em que disparavam também formavam uma grade, mas elas só ficavam ativas nesses locais quando o animal estava voltado para uma determinada direção. Essas células pareciam fornecer uma bússola para o roedor; ao monitorá-las podíamos deter- minar para qual direção o animal estava voltado a qualquer dado momento em relação ao seu ambiente circundante.

Alguns anos mais tarde, em 2008, descobrimos outro tipo de célula no córtex entorrinal. Essas chamadas “células limítrofes” (border cells, em inglês) disparavam sempre que o animal se aproximava de uma parede ou margem do cercado, ou de alguma outra divisória. Elas pareciam calcular a distância a que o animal se encontrava de um limite, ou linha fronteiriça. Essa informação então podia ser usada pelas células de grade para calcular o quanto o animal tinha se afastado da parede, e também podia ser estabelecida como um ponto de referência para, posteriormente, “lembrar” o roedor de onde ficava a parede; ou seja, sua localização.

Por fim, em 2015, um quarto tipo de célula entrou em cena. Esta respondia especificamente à velocidade de locomoção, independentemente da localização ou direção do animal. As taxas de disparos desses neurônios aumentavam proporcionalmente à velocidade de movimentação. De fato, podíamos determinar com que rapidez um animal se movia a qualquer dado momento ao olharmos para as taxas de disparo de apenas algumas poucas células de velocidade (speed cells, em inglês). Em conjunto com células de direção da cabeça (HD), células de velocidade talvez desempenhem o papel de fornecer às células de grade continuamente informações atualizadas sobre os movimentos do animal; sua velocidade, direção e distância de seu ponto de partida.

DECIFRANDO CÓDIGOS

Nossa descoberta de células de grade resultou de nosso desejo de desvendar os inputs que permitem às células de localização, ou posicionamento fornecer aos mamíferos uma imagem interna de seu ambiente. Agora entendemos que elas integram os sinais de vários tipos de células no córtex entorrinal à medida que o cérebro tenta “mapear” a rota percorrida por um animal e para onde este está indo em seu ambiente. Porém nem esses processos contam toda a história de como os mamíferos navegam.

Nosso trabalho inicial se concentrou no córtex entorrinal medial (interior). Células de localização, ou posicionamento também podem receber sinais do córtex entorrinal lateral, que retransmite informação (input) processada de diversos sistemas sensoriais, inclusive sobre odor e identidade de objetos. Ao integrarem as informações das partes medial e lateral do córtex entorrinal, células de localização interpretam sinais de todo o cérebro. A complexa interação de mensagens que chegam ao hipocampo e a formação de memórias específicas de posiciona- mento que isso possibilita são questões que ainda estão sendo investigadas por nosso e outros laboratórios, e essa pesquisas sem dúvida ainda continuará por muitos anos.

Um jeito de começar a entender como os mapas espaciais do córtex entorrinal medial e do hipocampo se combinam para auxiliar a navegação é perguntar como os mapas diferem. Na década de 1980, John Kubie e o falecido Robert U. Muller, ambos então no Centro Médico Downtown da SUNY, mostraram que mapas no hipocampo formados por células de localização podem mudar inteiramente quando um animal migra para um novo ambiente, mesmo que seja para um cercado de cor diferente no mesmo local e no mesmo recinto.

Experimentos realizados em nosso próprio laboratório, em que ratazanas domésticas forrageiam em até 11 cercados em diversos recintos diferentes, mostraram que cada sala, de fato, rapidamente origina seu próprio mapa independente, sustentando ainda mais a noção de que o hipocampo forma mapas espaciais customizados, ajustados a ambientes específicos.

Comparativamente, os mapas no córtex entorrinal medial são universais. Células de grade, assim como células HD e limítrofes, que disparam juntas em um determinado conjunto de localizações no mapa de grade para um ambiente também disparam em posições análogas no mapa para outro meio, como se as linhas de latitude e longitude do primeiro mapa fossem “impostas”, ou sobrepostas à nova configuração. A sequência de células que disparam quando o animal se move em direção nordeste em um espaço da gaiola se repete quando o roedor caminha nessa mesma direção em outro recinto. O que o cérebro usa para navegar por seus arredores é o padrão de sinalização entre essas células no córtex entorrinal.

Esses códigos são então transmitidos do córtex entorrinal ao hipocampo, onde são utilizados para formar mapas específicos de, ou para um determinado lugar. Do ponto de vista da evolução, dois conjuntos de mapas que integram suas informações para nortear animais parecem ser uma solução eficaz para um sistema utilizado por eles para a navegação espacial. As grades formadas no córtex entorrinal medial, que medem distância e direção, não mudam de um recinto para outro. Comparativamente, as células de posicionamento do hipocampo formam mapas individuais para cada recinto separado.

 MAPAS LOCAIS

Compreender o sistema navegacional neural ainda é um esforço em andamento. Quase todo nosso conhecimento de células de posicionamento ou localização e grade foi obtido em experimentos nos quais a atividade elétrica de neurônios é registrada quando ratazanas domésticas ou camundongos caminham sem rumo, aleatoriamente, em ambientes altamente artificiais; ou seja, caixas (ou cercados) com fundo plano, desprovi- das de estruturas internas para servir como pontos de referência.

Um laboratório difere substancialmente de ambientes naturais, que mudam constantemente e estão cheios de objetos tridimensionais. O reducionismo dos estudos levanta questões sobre se as células de localização e de grade disparam do mesmo jeito quando animais estão fora do laboratório.

Experimentos em labirintos complexos, que tentam imitar o habitat natural dos animais, fornecem algumas pistas do que pode estar acontecendo. Em 2009, monitoramos células de grade enquanto os roedores se moviam por um labirinto intrincado, em que encontraram uma curva (virada) muito fechada no final de cada caminho que marcava o início da próxima passagem. O estudo mostrou que, como esperado, as células de grade formavam padrões de hexágonos para mapear distâncias em caminhos individuais do labirinto para as ratazanas. Mas toda vez que um animal virava de uma passagem para outra ocorria uma transição abrupta, em que um padrão de grade separado era sobreposto ao novo caminho, quase como se a ratazana estivesse entrando em um recinto completamente diferente.

Trabalhos posteriores em nosso laboratório mostraram que mapas de grade também se fragmentam em mapas menores em ambientes abertos quando esses espaços são suficientemente amplos. Agora estamos pesquisando como esses mapas menores se fundem para formar um mapa integrado de uma determinada área. Porém mesmo es- ses experimentos são simplificados demais, porque os cercados são planos e horizontais. Experimentos conduzidos em outros laboratórios, para observar morcegos voando e roedores que escalam obstáculos em gaio- las, estão começando a fornecer algumas pistas: células HD e de localização parecem disparar em locais específicos espalhados por qualquer espaço tridimensional, e as células de grade muito provavelmente fazem o mesmo.

ESPAÇO E MEMÓRIA

O sistema de navegação no hipocampo faz mais do que ajudar animais a se moverem do ponto A ao ponto B. Além de receber informações sobre posição, distância e direção do córtex entorrinal medial, o hipocampo faz um registro do que está localizado em um lugar em particular, seja um carro ou um mastro de bandeira, assim como dos eventos que ocorrem ali. Portanto, o mapa espacial criado pelas células de posicionamento não contém apenas informações sobre a localização de um animal, mas também detalha suas experiências, mais ou menos como a concepção que Tolman tinha de um mapa cognitivo.

Algumas dessas informações adiciona- das parecem vir de neurônios localizados na parte lateral do córtex entorrinal. Pormeno- res sobre objetos e eventos se fundem com as coordenadas de um animal e são “arquivadas” como uma memória. Quando esta é recuperada posteriormente, tanto o evento como a posição são relembrados.

Essa associação de lugar e memória lembra uma estratégia de memorização in- ventada pelos antigos gregos e romanos. O chamado “método de loci” (loci é o plural de locus e significa lugar em latim) permite que uma pessoa memorize uma lista de itens ao imaginar colocar cada um deles em um determinado lugar/posição ao longo de um caminho bem conhecido através de um espaço, digamos, uma paisagem ou um edifício; uma disposição muitas vezes chamada “palácio da memória”. Participantes de concursos de memória ainda utilizam essa técnica mnemônica para memorizar longas listas de números, letras ou cartas de baralho.

Infelizmente, o córtex entorrinal está entre as primeiras áreas a falhar em pessoas com doença de Alzheimer. A enfermidade faz com que células cerebrais localizadas ali morram, e uma redução em seu tamanho é considerada uma medida confiável para identificar pessoas que estão em risco de desenvolvê-la. A tendência de vaguear e se per- der também está entre os primeiros sinais da doença. Nos estágios mais avançados de Alzheimer, células morrem no hipocampo, produzindo uma incapacidade de recordar experiências ou de se lembrar de conceitos como nomes de cores. De fato, um estudo recente forneceu evidências de que pessoas jovens portadores de um gene que os coloca em elevado risco de Alzheimer podem ter deficiências no funcionamento de suas redes de células de grade; uma descoberta que pode levar a novas maneiras de diagnosticar a doença.

UM RICO REPERTÓRIO

Hoje, mais de 80 anos depois de Tolman propor originalmente a existência de um mapa mental de nossos entornos, está claro que as células de posicionamento, ou localização são apenas um componente de uma complexa representação que o cérebro produz de seu ambiente espacial para calcular posição, distância, velocidade e direção. Os diversos tipos de células que foram                                                                                                                    encontradas no sistema navegacional do cérebro de roedores também estão presentes em morcegos, macacos e em todas as ordens taxonômicas de mamíferos sugere que células de grade e outras células envolvidas em navegação, orientação espacial, surgiram cedo no processo evolutivo de mamíferos e que algoritmos neurais similares são utilizados para calcular o posicionamento pelas mais diversas espécies.

Muitos dos blocos de construção do mapa de Tolman foram descobertos, e estamos começando a entender como o cérebro os cria, posiciona e emprega. O sistema de representação espacial tornou-se um dos circuitos mais bem entendidos do córtex de mamíferos, e os algoritmos que ele utiliza estão começando a ser identificados para ajudar a desvendar os códigos neurais que o cérebro usa para navegar, ou determinar localização.

Como ocorre em tantas outras áreas de pesquisa, novas descobertas levantam novas questões. Sabemos que o cérebro tem um mapa interno, mas ainda precisamos entender melhor como seus elementos funcionam em conjunto para produzir uma representação coerente de posicionamento e como a informação é lida por outros sistemas cerebrais para tomar decisões sobre aonde ir e como chegar lá.

Há muitas outras questões. A rede espacial do hipocampo e do córtex entorrinal está limitada à navegação de espaços locais? Em roedores, examinamos áreas que têm raios de apenas alguns metros. Células de localização e de grade também são utilizadas para a navegação de longa distância, como quando morcegos migram centenas ou milhares de quilômetros?

Por fim, nos perguntamos como células de grade se originam, se existe um período formativo crítico para elas no desenvolvi- mento de um animal e se células de posicionamento e de grade podem ser encontradas em outros vertebrados ou invertebrados. Se invertebrados também as utilizam, essa constatação implicaria que a evolução usou esse sistema de mapeamento espacial durante centenas de milhões de anos. O GPS do cérebro continuará oferecendo uma rica e valiosa coleção de pistas para novas pesquisas que ocuparão gerações de cientistas nas próximas décadas.

 O GPS dentro da cabeça2O GPSdentro da Cabeça3

O GPS dentro da cabeça4

 MAY-BRITT MOSER e EDVARD I. MOSER são professores de psicologia e neurociência na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, em Trondheim. Os dois são cofundadores do Instituto Kavli para Neurociência de Sistemas, em 2007, e do Centro para Computação Neural, em 2013, ambos localizados na universidade. Em 2014, eles compartilharam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina com John O’Keefe, da University College London, por sua descoberta do sistema de posicionamento do cérebro.

VOCACIONADOS

02 DE ABRIL – DIA NACIONAL DE CONSCIENTIZAÇÃO DO AUTISMO

Dia mundial de Conscientização do Autismo

AUTISMO E OUTROS TRANSTOPRNOS DO ASPECTRO AUTISTA

O Autismo Infantil foi descrito inicialmente por Kanner em 1943 quando ele identificou crianças apresentando prejuízos nas áreas da comunicação, do comportamento e da interação social, e caracterizou essa condição como sendo única e não pertencente ao grupo das crianças com Deficiência Mental.

Propôs o nome de Autismo para chamar a atenção para o prejuízo severo na interação social que era muito evidente desde o início da vida desses pacientes.

Deixou claro que, embora a causa dessa condição não fosse conhecida, acreditava que o ambiente desfavorável seria o responsável. No mesmo trabalho, entretanto, refere-se que, em alguns casos, o transtorno era tão precoce que não haveria tempo para a interferência do ambiente a respeito da criança, de modo que poderia haver uma etiologia biológica.

Um ano após a descrição de Kanner outro médico austríaco, Asperger, descreveu crianças semelhantes às descritas por seu colega, mas que eram, aparentemente, mais inteligentes e sem atraso significativo no desenvolvimento da linguagem. Esse quadro foi mais tarde denominado de Síndrome de Asperger.

Com o passar do tempo e maior conhecimento a respeito desse tipo de condição, surgiu a denominação de Transtornos Globais ou Invasivos do Desenvolvimento (TGD) que incluía, além do Autismo e da Síndrome de Asperger a Síndrome de Rett e o Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação (TGDSOE).

A síndrome de Rett é uma entidade inteiramente diversa das demais, de modo que em breve será retirada deste grupo.

Mais recentemente cunhou-se o termo Transtorno do Espectro Autista (TEA) para englobar o Autismo, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação.

As mais recentes estatísticas, realizadas em várias partes do mundo, referem prevalência dos TGD como sendo de 1:160 indivíduos, número muito superior aos citados em décadas anteriores e que suscitou a hipótese de que estaríamos vivendo uma epidemia de autismo.

A mais provável explicação para este aumento no número de pessoas identificadas é o maior reconhecimento dessa condição e, acima de tudo, a maior abrangência do conceito dos TGD.

Outro dado relevante é que os TGD afetam mais os meninos na proporção de 4 meninos para 1 menina. Sabemos hoje que a causa dos quadros dos TGD é multifatorial dependendo de fatores genéticos e ambientais.

José Salomão Schwartzman – é médico neuropediatra, doutor em Neurologia, professor titular do programa de pós-graduação em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Também é editor científico da revista Temas sobre Desenvolvimento.

LIVROS E FILMES SOBRE O AUTISMO:

LIVROS:

1.Autismo — Não espere, aja logo!

Editora: M. Books (COMPRAR)
Autor: PAIVA JUNIOR

Ano: 2012
Número de páginas: 136

2.Autismo Infantil: Fatos e Modelos

Editora: Papirus
Autor: MARION LEBOYER
Ano: 2002
Edição: 3
Número de páginas: 192

3.O Mundo da Criança Com Autismo

Idioma: Português Europeu
Editora: Porto
Ano: 2008
Número de páginas: 432

4.Autismo e Outros Atrasos do Desenvolvimento

Editora: Revinter
Autor: ERNEST CHRISTIAN GAUDERER
Ano: 1997
Número de páginas: 358

5.Autismo e Inclusão: Psicopedagogia e Práticas Educativas na Escola

Editora: Wak
Autor: EUGÊNIO CUNHA
Ano: 2009
Número de páginas: 140

6.Dificuldades de Relacionamento Pessoal, Social e Emocional

Editora: Artmed
Autor: MICHAEL FARRELL
Ano: 2008
Número de páginas: 104

7.Autismo e Educação: Reflexões e Propostas de Intervenção

Editora: Artmed
Autor: CARLOS ROBERTO BAPTISTA
Ano: 2002
Número de páginas: 180

8.Autismo Infantil: Novas Tendências e Perspectivas

Editora: Atheneu
Autor: FRANCISCO BAPTISTA ASSUMPÇÃO JÚNIOR & EVELYN KUCZYNSKI
Ano: 2007
Número de páginas: 306

9.Vivências Inclusivas de Alunos com Autismo

Autor: Suplino, Maryse
Editora: Inovação Distribuidora de Livros Ltda
Ano: 2009

10. 150 Jogos para a Estimulação Infantil

Editora: Ciranda Cultural
Autor: JORGE BATLLORI
Ano: 2003
Número de páginas: 192

11.Autismo Esperança pela Nutrição

Editora: M. Books
Autor: CLAUDIA MARCELINO
Ano: 2010
Número de páginas: 296

12.Autismo Infantil

Editora: Memnon
Autor: JOSE SALOMAO SCHWARTZMAN
Ano: 2003
Número de páginas: 157

13. Comunicação Alternativa

Editora: Memnon Edições Científicas
Autoras: Débora Deliberato; Maria de Jesus Gonçalves; Eliseu Coutinho de Macedo.
Ano: 2009
Número de páginas: 354

14.Eu Falo Sim

Livro: Eu falo sim
Autoras: Silmara Rascalha Casadei e Vera Lucia Mendes Bailão
Ilustrações: Marilei Moreira Vasconcellos Fernandes
Páginas: 48

15.Não Fala Comigo – A História de um Autista

Autor: Rômulo Nétto
Editora: Carlini & Caniato Editorial
Ano: 2011

 

16.Convivendo com Autismo e Síndrome de Asperger. Estratégias práticas para Pais e Profissionais.

Editora: M. Books
Autor: CHRIS WILLIAMS & BARRY WRIGHT
Ano: 2008
Número de páginas: 326
Acabamento: Brochura
 

FILMES:

1.Autismo – O Musical

Ano: 2010
Duração: 165 min
O filme acompanha os esforços de 11 crianças autistas que se preparam para montar um musical ao vivo em Los Angeles.

2.Temple Grandin

Ano: 2010
Duração: 120 min
Cinebiografia da jovem autista Temple Grandin (Claire Danes) que tinha sua maneira particular de ver o mundo, se distanciou dos humanos, mas chegou a conseguir, entre outras conquistas, defender seu doutorado. Com uma percepção de vida totalmente diferenciada, dedicou-se aos animais e revolucionou os métodos de manejo do gado com técnicas que surpreenderam experientes criadores e ajudaram a indústria da pecuária americana.

3.Um Amigo Inesperado

(After Thomas)
Ano: 2006
Duração: 93 min
Kyle Gram é um menino frágil que sofre de autismo. Seus pais fazem de tudo para tentar se comunicar com ele, até que um cachorro chamado Thomas consegue criar uma relação com o menino que o ajudará a escapar do seu silêncio.

4.Rain Man

Ano: 1988
Duração: 132 min.

Rapaz (Tom Cruise) viaja a asilo e descobre que tem um irmão autista (Dustin Hoffman) para quem o pai deixou toda sua fortuna. Resolve então ‘raptar’ o irmão para tentar forçar um ‘acordo’ financeiro com os tutores do irmão, porém em sua viagem de volta, passa a conhecer as dificuldades e os ‘dons’ do irmão e surge um sentimento de amor e carinho. Oscars de melhor filme, ator, direção e roteiro. Inspirando em vários autistas adultos.

5.Meu Filho Meu mundo

(Son-Rise, A miracle of Love)
Ano: 1979
Duração: 98 min
Raun parecia um saudável bebê mas, com o passar do tempo, vai ficando claro o porquê de seu ar sempre ausente: ele sofre de autismo. Começa então o comovente e difícil trabalho dos pais para penetrar no mundo particular de Raun. História autobiográfica da família que fundou o método Son-rise

6.Molly Experimentando a Vida

(Molly)
Ano: 1999
Duração: 102 min
Molly McKay é uma mulher de 28 anos que é intelectualmente “lenta”, pois sofre de autismo desde a infância. Ainda muito jovem foi internada, mas agora, com o fechamento da instituição, Buck McKay, seu irmão, fica com sua guarda. Buck não a via desde quando ela era criança, assim apesar de irmãos eram dois estranhos. Além disto, Buck está atravessando problemas em sua vida profissional. Quando Buck fica sabendo através dos médicos de uma arriscada cirurgia experimental que pode curar Molly, ele dá seu consentimento. A operação é um sucesso e Molly deixa de sofrer de autismo, sendo que paralelamente revela um genial intelecto. Mas a intensa concentração da sua personalidade autista permanece e Buck constata que a nova Molly vai enfrentar outro grande desafio.

7.Uma Família Especial

(Magnificent 7)
Ano: 1985
Duração: 84 min.
Dos sete filhos de Maggi, quatro são autistas em maior ou menor grau. Determinada, Maggi empreende então uma surpreendente luta, repleta de momentos mágicos, alegres e tristes, para ajudar seus filhos especiais a ter uma vida feliz. Drama baseado na história de Jackie Jackson.

8.O Balão Preto

(The Black Baloon)
Ano: 2008
Duração: 97 min
Quando Thomas e sua família mudam-se para uma nova casa ele tem de começar em uma nova vida, nova escola, tudo que ele quer é que continue a normalidade de sua vida Quando sua mãe fica grávida seu pai Simon o coloca para cuidar de seu irmão mais velho Charlie, que é autista

9.Adam

Ano : 2009
Duração: 99 min
Adam (Hugh Dancy) é um jovem nascido com Síndrome de Asperger que vivem em Manhattan. Seus pais morreram, mas ele tem um amigo Harlan (Frankie Faison), que está sempre lá para Adam. Ele tem dificuldades de comunicar com os outros e gosta de fugir para o seu amor pela exploração do espaço. Quando Beth (Rose Byrne), uma professora da escola, se muda para o apartamento em cima dele, ele começa a construir o relacionamento pessoal com ela que ele tão desesperadamente desejos.

10.Um certo olhar

Ano : 2006
Duração: 112 minutos
Quando Alex (Alan Rickman) relutantemente decide dar boleia à jovem e energética Vivienne (Emily Hampshire), mal imagina que o mundo dele irá virar-se do avesso. Durante a viagem, eles sofrem um terrível acidente de automóvel e Vivienne tem morte instantânea. Alex visita a mãe de Vivienne, Linda (Sigourney Weaver), e vem a descobrir que esta é autista; e mesmo compreendendo o sucedido, ela não demonstra qualquer emoção. Aos poucos Alex começa a compreender e a sentir carinho por Linda mas à medida que o funeral de Vivienne se aproxima os segredos obscuros do passado de Alex emergem. Com a ajuda e compreensão de Maggie (Carrie-Anne Moss), e com a visão única de Linda em relação ao mundo, ele consegue reconciliar-se com o seu passado possibilitando-o de confrontar tanto a tristeza como o rancor que foram crescendo nele

11.O menino e o cavalo

Ano: 2009
Duração: 93 min.
Rupert Isaacson tinha sonhado o melhor para o filho, imaginava as brincadeiras, as conversas, os passeios… Depois de Rowan nascer, porém, começou a perceber que o seu sonho nunca se iria realizar. O menino não falava, não reagia, refugiava-se no seu mundo, fechado numa concha invisível. Era autista.  O Menino e o Cavalo é a história real, extraordinária, de um pai que vai até aos confins do mundo para curar o filho. É a aventura de uma família única, que arrisca tudo, movida por uma fé inabalável. E que, nas distantes estepes da Mongólia, consegue finalmente o milagre de abrir a concha, e entrar no mundo misterioso de Rowan.

12.Querido John (Dear John)

Ano: 2010
Duração: 105 min.
Dirigido por Lasse Hallström e baseado no romance do aclamado autor Nicholas Sparks, Dear John conta a história de John Tyree (Channing Tatum), um jovem soldado que foi para casa durante uma licença e de Savannah Curtis (Amanda Seyfried), a jovem universitária idealista por quem ele se apaixona durante as férias de faculdade. Durante os próximos sete tumultuosos anos, o casal é separado pelas missões cada vez mais perigosas de John. Apesar de se encontrarem apenas esporadicamente, o casal mantém o contato por meio de uma enxurrada de cartas de amor. Essa correspondência acaba por provocar uma situação com consequências nefastas.

13.Forrest Gump – O contador de historias

Ano : 1994
Duração: 142 minutos
Quarenta anos da história dos Estados Unidos, vistos pelos olhos de rapaz com QI abaixo da média que, por obra do acaso, consegue participar de momentos cruciais, como a Guerra do Vietnã e Watergate.

14.Documentario – Coragem de mãe: falando sobre o autismo.

(A Mother’s Courage: Talking Back to Autism)
Ano: 2011
http://www.amotherscourage.org/the-film – ainda não lançado no Brasil.

15.Ocean Heaven

Ano: 2010
Duração: 96 minutos
A história do amor incansável de um pai pelo seu filho autista, Dafu, que parece distraído, repete o que as pessoas lhe dizem, nada com maestria, mantém tudo em casa em lugares determinados e talvez não esteja totalmente ciente da morte de sua mãe, ocorrida há alguns anos.

Fonte: http://www.revistaautismo.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 9: 1-8

Cristo Cura um Paralítico

As primeiras palavras deste capítulo nos obrigam a olhar para o fechamento do que o precede, onde encontramos os gadarenos tão desgostosos com a companhia de Cristo, e se ressentindo tanto da perda de seus suínos, que lhe pediram para sair de seu território, E agora vemos que Ele entrou em um barco e atravessou para a outra margem. Os gadarenos ordenaram-lhe que fosse embora. Ele tomou as suas palavras ao pé da letra, e nós jamais lemos que Ele tenha pisado naquele território novamente. Neste ponto, observe:

1.Sua justiça ao dei­xá-los. Note que Cristo não permanecerá muito tempo onde não é bem-vindo. Em um julgamento justo, Ele abandona aqueles lugares e pessoas que estão cansados dele, mas permanece com aqueles que desejam e cortejam a sua presença. Se o descrente quer afastar-se de Cristo, que se afaste; ele está por sua conta (1 Coríntios 7.15).

2.Sua tolerância ao não deixar atrás de si nenhum castigo de destruição para puni-los, como mereciam, por seu desprezo e obstinação. Quão facilmente, e de forma merecida, Ele poderia ter dado a eles o mesmo destino dos seus porcos, que já estavam totalmente sob o poder do diabo. A provocação, realmente, era muito grande, mas Ele a suportou e ignorou; e, sem qualquer ressentimento exasperado ou censuras, Ele entrou em um barco, e atravessou para o outro lado. Este foi o dia de sua paciência. Ele não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-la; não para matar, mas para curar. Os julgamentos espirituais estão mais de acordo com as condições da época do início do Evangelho; alguns ainda observam que, naquelas guerras sangrentas que os romanos moveram contra os judeus, iniciadas não muitos anos depois disso, eles primeiro sitiaram a cidade de Gadara, onde esses gadarenos habitavam. Aqueles que afastaram Cristo para longe deles, atraíram para si mesmos toda sorte de sofrimentos. Ai de nós, se Deus nos deixar!

Ele entrou em sua própria cidade, Cafarnaum, o principal local de sua residência no momento (Marcos 2.1), e, portanto, chamada de sua cidade. Ele mesmo havia testemunhado que um profeta é menos apreciado em seu próprio país e cidade, mas apesar disso Ele foi para lá; porque procurava não sua própria glória, mas, estando em um estado de humilhação, Ele estava satisfeito em ser menosprezado pelas pessoas. Em Cafarnaum, ocorreram todas as circunstâncias registradas neste capítulo, e estão, portanto, reunidas aqui, embora, na harmonia dos evangelistas, outros eventos interviessem. Quando os gadarenos quiseram que Cristo partisse, Cafarnaum o recebeu. Se Cristo é insultado por alguns, há outros para quem Ele será glorioso; se alguns não o quiserem, outros vão querer.

O primeiro acontecimento, depois do retorno de Cristo para Cafarnaum, como registrado nestes versículos, foi a cura do paralítico. Nela, podemos observar:

I – A fé de seus amigos ao trazê-lo até Cristo. Tal era sua enfermidade, que ele não podia vir até Cristo por si mesmo, mas apenas carregado como foi. Note que mesmo os mancos e os aleijados podem ser trazidos a Cristo, e eles não serão rejeitados por Ele. Se fizermos tanto quanto pudermos, Ele nos aceitará. Cristo estava atento à fé deles. Criancinhas não podem ir por si mesmas a Cristo, mas Ele ficará de olho na fé daqueles que as trouxerem, e isso não será em vão. Jesus viu a fé deles, a fé do próprio paralítico, bem como a dos que o trouxeram. Jesus viu a sua fé, embora a sua enfermidade, talvez, tenha debilitado seu intelecto e prejudicado seu raciocínio. A fé deles era:

1.Uma fé poderosa. Eles acreditavam firmemente que Jesus Cristo podia e iria curá-lo; caso contrário eles não teriam trazido o homem doente a Ele tão ostensivamente, e com tanta dificuldade.

2.Uma fé humilde. Embora o doente não fosse capaz de dar um passo sequer, eles não pediram a Cristo para fazer-lhe uma visita, mas o trouxeram à presença dele. É mais adequado virmos a Cristo, do que Ele a nós.

3.Uma fé ativa e diligente. Na crença no poder e na bondade de Cristo, eles trouxeram o doente à sua presença, deitado em uma cama, o que não poderia ser feito sem muitas dificuldades. Observe que urna grande fé não considera nenhum obstáculo ao perseverar para chegar mais perto de Cristo.

II – A bondade de Cristo, naquilo que disse ao paralítico: “Filho, tem bom ânimo; perdoados te são os teus pecados”. Este era um soberano cordial para com um doente, cordial o suficiente para responsabilizar a doença pela sua condição de acamado, facilitando as coisas para ele. Não lemos sobre qualquer coisa dita a Cristo; provavelmente o pobre enfermo não podia falar, e aqueles que o trouxeram preferiram falar mais através de ações do que com palavras; eles o colocaram diante de Cristo; isso era o suficiente. Observe que não é em vão que apresentamos a nós mesmos e a nossos amigos a Cristo, como objetos de sua compaixão. O sofrimento clama tanto quanto o pecado; e, quando se trata de ouvir, a misericórdia é tão rápida quanto a justiça. Essa verdade está evidente nas palavras de Cristo:

1.Uma gentil saudação: “Filho”. Note que em exortações e consolações aos aflitos devemos falar como se es tivéssemos falando com os nossos filhos, pois as aflições são disciplinas paternas (Hebreus 12.5).

2.Um generoso encorajamento: “Tem bom ânimo”. Tenha esperança; alegre o seu espírito. Provavelmente o pobre homem, quando foi baixado entre eles em sua cama, estava desconcertado, com medo de uma repreensão por ter sido trazido assim tão rudemente. Mas Cristo não se baseia em formalismos; Ele o convida a ficar de bom ânimo; tudo ficaria bem, ele não ficaria deitado diante de Cristo em vão. Cristo convida-o a ter bom ânimo; e então o cura. Aqueles a quem Ele distribuiu a sua graça ficarão felizes em segui-lo, e em confiar nele; e terão coragem.

3.Uma boa razão par a aquele encorajamento: “Perdoados te são os teus pecados”. Neste momento, isso deve ser considerado:

(1) Como uma introdução para a cura da enfermidade corporal do homem. “Perdoados te são os teus pecados”, e, portanto, tu serás curado. Note que como o pecado é a causa da doença, assim o perdão dos pecados é o conforto da recuperação da doença. O pecado pode ser perdoado, e mesmo assim a doença pode não ser removida; há casos em que a doença é removida, e o pecado não é perdoado. Mas se tivermos o conforto da nossa reconciliação com Deus junto com o conforto de nossa recuperação das doenças, isso se torna realmente uma grande misericórdia para nós, como foi para Ezequias (Isaias 38.17). Ou:

(2) Como uma razão para a ordem de ter bom ânimo, esteja ele curado de sua doença ou não, temos o seguinte raciocínio: “Mesmo que eu não te cure, não dirás que me buscaste em vão se eu te assegurar que os teus pecados estão perdoados. Não verás isto como um alívio suficiente, mesmo que continues paralítico?” Aqueles que, através da graça, têm alguma evidência do perdão de seus pecados, possuem razões para ter bom ânimo, quaisquer que sejam os aparentes problemas ou aflições que estejam enfrentando (veja Isaias 33.24).

III –  A crítica dos escribas ao que Cristo disse (v. 3). Eles disseram interiormente, em seus corações, entre eles, em seus murmúrios secretos: “Ele blasfema”. Veja como o maior exemplo do poder e graça do céu é marcado a ferro com a nota mais negra da hostilidade do inferno. O perdão de Cristo aos pecados é chamado de blasfêmia; não teria sido nada menos que isso, se Ele não tivesse sido designado por Deus para realizar tal obra. Os seus acusadores, então, é que são culpados de blasfêmia, por não terem tal autoridade e ainda fingirem que perdoavam pecados.

IV – A convicção que Cristo lhes deu da irracionalidade dessa objeção, antes que prosseguisse.

  1. Ele os acusou. Embora somente tivessem falado entre eles, Ele conhecia seus pensamentos. Note que o nosso Senhor Jesus tem o conhecimento perfeito de tudo o que pensamos. Os pensamentos são secretos; porém, de repente, mesmo assim são desnudados e abertos diante de Cristo, a Palavra eterna (Hebreus 4.12,13), e Ele os entende à distância (SaImos 139. 2). Ele poderia dizer a eles (o que nenhum homem poderia): “Por que pensais mal em vosso coração?” Existe muito mal em pensamentos pecaminosos, que são muito ofensivos ao Senhor Jesus. Sendo Ele o Soberano do coração, pensamentos pecaminosos violam seu direito e perturbam sua posse; Ele os percebe e fica muito descontente com eles. Neles aloja-se a raiz da amargura (Genesis 6.5). Os pecados que começam e terminam no coração, e não vão além, são tão perigosos quanto quaisquer outros.
  2. Ele discutiu com eles por causa disso (vv. 5,6). Onde se observa:
  • Como Ele afirma sua autoridade no reino da graça. Ele toma para si a incumbência de provar que o Filho do Homem, o Mediador, tem poder na terra para perdoar pecados; pois, por essa razão, o Pai confiou ao Filho todos os julgamentos, e lhe deu essa autoridade, porque Ele é o Filho do Homem (João 5.22,27). Se Ele tem poder para conceder a vida eterna, como certamente tem (João 17.2), Ele tem poder para perdoar os pecados; porque a culpa é uma barreira que deve ser removida, ou nunca poderemos chegar ao céu. Que estimulo para os pobres pecadores se arrependerem: o poder de perdoar os pecados está colocado nas mãos do Filho do Homem, que tem ossos como os nossos ossos! E se Ele tinha esse poder na terra, muito mais agora que está exaltado à direita do Pai, como Príncipe e Salvador, para dar o arrependimento e a remissão dos pecados (Atos 5.31).
  • Como Ele prova isso: através de seu poder no reino da natureza; seu poder de curar doenças. “Pois o que é mais fácil? Dizer ao paralítico: Perdoados te são os teus pecados, ou: Levanta-te e anda?”. Ele que pode curar das doenças, quer declaradamente como um profeta, quer de maneira impositiva como Deus, pode, da mesma forma, perdoar os pecados. Ora:

[1] Este é um argumento comum para provar que Cristo tinha uma missão divina. Seus milagres, especialmente suas curas milagrosas, confirmam o que Ele disse de si mesmo, que Ele era o Filho de Deus. O poder evidenciado em suas curas prova que Ele foi enviado por Deus; a misericórdia mostrada nelas prova que Ele foi enviado por Deus para curar e salvar. O Deus da verdade não colocaria o seu selo em uma mentira.

[2] Havia um a peculiar força de persuasão neste caso. A paralisia não era mais que um sintoma da doença do pecado; e agora Ele deixou claro que poderia efetivamente curar a doença original, pela remoção imediata daquele sintoma; havia uma ligação muito próxima entre o pecado e a doença. Aquele que tinha poder para retirar o castigo, sem dúvida, tinha poder para perdoar o pecado. Os escribas se apoiavam muito em uma justiça legalista, e depositavam sua confiança nisso. Eles não davam muita importância ao perdão dos pecados, a doutrina que Cristo tencionava exaltar aqui, mostrando que a sua grande missão no mundo era salvar o seu povo dos pecados que praticavam.

 

V – A cura instantânea do homem enfermo. Cristo desviou-se da discussão com eles e disse ao paralítico palavras de cura. As discussões mais necessárias não devem nos desviar de fazer o bem que a nossa mão procura fazer. Ele disse ao paralítico: “Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa”; e uma força vivificadora acompanhou esta palavra (v. 7): “E, levantando-se, foi para sua casa”. Agora:

1.Cristo lhe ordena que tome a sua cama, para mostrar que ele estava perfeitamente curado e que não só não teria mais motivo para ser carregado em sua cama, como também tinha força para carregá-la.

2.Ele o mandou para casa, para ser uma bênção para sua família, onde ele havia sido um fardo por muito tempo; e não o levou consigo para o exibir, o que fariam em tais situações aqueles que buscam a glória que vem dos homens.

VI – A impressão que isso causou na multidão (v. 8): ”A multidão, vendo isso, maravilhou-se e glorificou a Deus”. Todo o nosso assombro deveria ajudar a aumentar em nossos corações a glorificação a Deus, que sozinho faz tantas coisas maravilhosas. Eles glorificaram a Deus pelo que Ele tinha feito por esse pobre homem. Deveríamos louvar a Deus pela misericórdia concedida aos outros e deveríamos agradecer por ela, pois somos parte uns dos outros. Embora poucos nessa multidão estivessem convencidos disso a ponto de chegar a crer em Cristo, mesmo assim eles o admiravam, não como Deus, ou o Filho de Deus, mas como um homem a quem Deus tinha dado tal poder. Note que Deus deve ser glorificado em todo o poder que é dado aos homens para fazer o bem. Por que todo poder se origina dele; está nele, como fonte, e nos homens, como cisternas.

GESTÃO E CARREIRA

O fator idade

O FATOR IDADE

Empresas perdem ao se concentrar apenas nos consumidores jovens.

No mundo dos negócios, grande parte dos inovadores costuma cultuar um alvo: os jovens, vistos como mais dispostos a experimentar e pagar por novidades. Joseph F. Coughlin, diretor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e autor de The Longevity Economy, afirma em seu ensaio que, nas últimas décadas, estabeleceu-se com força uma ideia nociva: a de que idosos formam uma população com poder de consumo desprezível e pouca inclinação a experimentar.

Alguns dados reforçam essa percepção: um estudo do National Institutes of Health americano revela que apenas 20% dos idosos com problemas auditivos usam aparelhos. Coughlin ataca o senso comum. Ele alerta que empresas deveriam olhar para idosos como uma população crescente, formada por grupos diversos, com poder de consumo e interesses variados, que exige estratégias de negócios específicas.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Adivinhe quem vem para jantar

ADVINHA QUEM VEM PARA JANTAR?

Diferentemente do que se imaginava que seriam no passado, os robôs têm hoje inteligência, agilidade e força; montam carros, fazem cirurgias, jogam xadrez, buscam informações na internet, apostam na bolsa de valores e elegem presidentes em países estrangeiros.

 Na época em que eu era criança, acreditava-se que, no futuro, robôs seriam misturas de geladeiras e aspiradores de pó com antenas saindo das orelhas. Fariam barulhos estranhos, teriam rodinhas e prestariam serviços domésticos a seus donos. A robô Rosie dos Jetsons, sempre uniformizada e solícita, era uma simpática escrava metálica que a classe média poderia aspirar a possuir sem culpa.

No presente de nossas crianças, os robôs têm a inteligência dos sábios, a agilidade dos linces e a força dos titãs. Montam carros, fazem cirurgias, jogam xadrez, realizam chamadas telefônicas, buscam receitas na internet, apostam na bolsa de valores e elegem presidentes em países estrangeiros. Quem será o escravo depois que o futuro chegar?

A boa notícia se espalha por todo o planeta: os robôs nos livrarão em breve de todos os trabalhos que não gostamos de fazer. A notícia ruim ainda escapa à maioria das pessoas: os Empregos vão acabar.  Todos (ou quase todos) os trabalhos serão robotizados. Inclusive os que gostamos de fazer.

Pesquisa com as palavras “robô” e “cérebro” no principal site de busca de publicações biomédicas do mundo, o PubMed, encontrou 1.037 artigos, quase todos publicados nos últimos 20 anos. A novidade mais recente, desenvolvida pelo neurocientista Ed Boyden no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), é um robô capaz de fazer registros intracelulares extremamente delicados, que requerem controle microscópico de finíssimas pipetas de vidro para tocar ou penetrar as membranas de neurônios, a fim de registrar sua atividade elétrica com máxima precisão. Trabalho que antes requeria pesquisadores altamente especializados agora pode ser feito – com muitas vantagens – por máquinas.

Motoristas e cobradores. Pedreiros e gestores. Médicos e professores. Seguranças e pastores. Advogados e promotores. Pintores, jogadores, doutores. Psicólogos e assessores. Soldados e pecuaristas. Polícias e diaristas. Prostitutas e artistas. CEOs e cientistas. Não há profissão nem ofício impermeável à automação progressiva do terceiro milênio.

A face robótica que se apresenta ao público ainda se parece com Rosie. O ChowBot, preparador automático de saladas frescas ao gosto do freguês, se populariza pelas empresas do Vale do Silício sem que a maioria atente para o desaparecimento dos empregos de cozinheiro. Pinches mexicanos…

Mas a verdadeira face do futuro é amorfa e está na nuvem. Em 2014 foi anunciada a criação do RoboBrain, gigantesco repositório de informações colhidas na internet pelas Universidades Cornell, Stanford, Brown e da Califórnia em Berkeley, para treinar robôs com informações já aprendidas por qualquer outro robô. Bilhões de imagens, vídeos e documentos já foram adicionados à plataforma, permitindo que novos robôs aprendam rapidamente o que os mais experientes já sabem. Um megacérebro online para todos os robôs do mundo.

Há cerca de 600 milhões de anos começaram a evoluir sistemas nervosos capazes de representar internamente o mundo exterior. Há alguns milhares de anos, na linhagem humana, surgiram cérebros capazes de criar representações de suas próprias representações, gerando uma mente que observa a si mesma. Agora, com os robôs, criamos a representação da representação da representação. Uma mente que nos observa. Salve-se quem puder… Os robôs e seus algoritmos maravilhosos vêm aí.

 

SIDARTA RIBEIRO – é neurobiólogo, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professor titular da UFRN.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 28-34

 Os Demônios Expulsos de Dois Homens

Temos aqui a história de Cristo expulsando os demônios de dois homens que estavam endemoninhados. O propósito do capítulo é mostrar o divino poder de Cristo, pelos exemplos de sua autoridade sobre as doenças do corpo (o que para nós é atraente), sobre os ventos e as ondas (que é ainda mais irresistível). e, por último, sobre os demônios (o que é o mais formidável para nós). Cristo tem não apenas todo o poder nos céus e na terra e nos lugares profundos, mas tem também as chaves do inferno. Principados e potestades estavam sujeitos a Ele, mesmo enquanto estava em uma condição de humilhação, como um sinal de como seria a sua entrada em sua glória (Efésios 1.21). Ele os derrotou (Colossenses 2.15). Foi comentado de forma geral (v.16) que Cristo expulsa espíritos malignos com a sua palavra; aqui temos um exemplo particular que possui alguns detalhes mais singulares do que os demais. Este milagre foi realizado no território dos gadarenos; alguns acreditam que estes eram os remanescentes dos antigos girgaseus (Deuteronômio 7.1). Embora Cristo tivesse sido enviado principalmente “às ovelhas perdidas da casa de Israel”, Ele realizou algumas visitas aos habitantes das regiões fronteiriças, como aqui, para obter a sua vitória sobre Satanás. Esta era uma amostra da vitória sobre as legiões malignas no mundo gentílico.

Além do exemplo geral que isto nos dá do poder de Cristo sobre Satanás, e seu desígnio de desarmá-lo e expulsá-lo, temos aqui, especialmente revelado para nós, o estilo e o modo de agir dos demônios em sua hostilidade contra o homem. Observe, com respeito a esta legião de demônios: A obra que realizaram, onde estavam e para onde foram.

I – A obra que realizaram e onde estavam; o que mostra a condição deprimente desses dois que estavam possuídos por eles. Alguns pensam que esses dois eram marido e mulher, pois os outros evangelistas falam somente de um.

1.Eles viviam entre os sepulcros. Daquele lugar, eles vieram ao encontro de Cristo. O demônio, tendo o poder da morte, não como juiz, mas como carrasco, deleita-se em conservar, entre os troféus da sua vitória, os cadáveres dos homens; mas ali, onde ele se considerava em seu momento de maior triunfo e grandeza, como posteriormente no Gólgota, o lugar da caveira, Cristo o derrotou e subjugou. Viver entre os túmulos aumentava a melancolia e o frenesi dos pobres endemoninhados. Assim era fortalecida a posse que o diabo tinha deles através da perturbação espiritual e física, que também os tornava mais temíveis para as outras pessoas, que geralmente se assustam com qualquer coisa que se mova entre os sepulcros.

2.Eles eram muito ferozes; não apenas incontroláveis, mas prejudiciais aos outros, assustando a muitos, tendo ferido alguns; de modo “que ninguém podia passar por aquele caminho”. Note que o diabo espalha a maldade entre a humanidade e mostra isso tornando os homens maus e mal-intencionados uns contra os outros. Inimizades mútuas, onde deveria haver ajuda e apreço mútuos, são efeitos e evidências da inimizade de Satanás para com toda a raça. Ele transforma um homem em um lobo, um urso, um demônio, diante de seus semelhantes. Quando Satanás controla um homem espiritualmente, as concupiscências que estão em luta em seus membros – o orgulho, a inveja, a malícia e a vingança – tornam-no inadequado à sociedade humana, indigno dela e um inimigo do seu bem-estar, como eram essas pobres criaturas endemoninhadas.

3.Eles oferecem resistência a Jesus Cristo e negam qualquer ligação com Ele (v. 29). Podemos ver aqui um exemplo do poder de Deus sobre os demônios; não obstante o mal que eles planejavam realizar a essas pobres criaturas, e através delas, ainda assim não puderam impedi-las de se encontrar com Jesus Cristo, que preparou as coisas de forma a se encontrar com elas. Foi a irresistível mão do Senhor que arrastou esses espíritos imundos à presença daquele que eles temiam mais do que qualquer outra coisa. Suas afirmações puderam con­tê-los, enquanto as correntes que os homens fizeram para eles não puderam fazê-lo. Mas sendo levados à presença dele, os demônios protestaram contra a sua autoridade e romperam em um acesso de ira: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” Aqui está:

(1) Uma palavra que o demônio disse como se fosse um santo. Ele se dirigiu a Cristo como “Jesus, Filho de Deus”; uma boa palavra que não foi revelada a Pedro pela carne e pelo sangue (cap. 16.17). “Os demônios creem e estremecem”, e confessam a Cristo como o Filho de Deus, e ainda assim permanecem demônios, o que toma a inimizade deles a Cristo muito mais grave e, sem dúvida, um perfeito tormento para eles próprios. Pois como pode ser diferente, uma vez que eles se opõem àquele que eles sabem ser o Filho de Deus? Note que aquilo que distingue os santos dos demônios não é o conhecimento, mas o amor. Satanás é o primogênito do inferno que conhece a Cristo, e ainda assim o odeia e não se submete a Ele e à sua lei. Devemos recordar que não fazia muito tempo que o demônio havia duvidado que Cristo fosse o Filho de Deus e tentou convencê-lo a duvidar disso (cap. 4.3). Mas agora Ele confessa isso imediatamente. Note que embora os filhos de Deus possam ficar muito mais desassossegados em uma hora de tentação pelo questionamento de Satanás a respeito do seu relacionamento com Deus como Pai, ainda assim o Espírito de adoção esclarecerá toda a questão para eles, satisfazendo-os por completo, colocando a verdade acima da contradição do diabo.

(2) Duas palavras que Satanás disse como um demônio, que ele realmente é.

1.Uma palavra de rebeldia: “Que temos nós contigo?” Agora, em primeiro lugar, é verdade que os demônios nada têm a ver com Cristo como Salvador, pois Ele não tomou para si a natureza dos anjos caldos, nem se apegou à descendência deles (Hebreus 2.16). Eles nada têm com Ele, não têm nem esperam qualquer benefício por parte dele. Oh! Como é profundo este mistério do amor divino em que homens caídos têm tanto a ver com Cristo, enquanto anjos caídos nada têm com Ele! Certamente aqui existia tormento suficiente antes do tempo, a ponto de o diabo ser forçado a confessar a excelência que existe em Cristo, e ainda que ele nada tinha com o Senhor Jesus. Note que é possível chamar a Jesus Cristo de Filho de Deus, e ainda assim não ter nada a ver com Ele. Em segundo lugar, também é verdade que os demônios desejam não ter nada a ver com Cristo como o Soberano; eles o odeiam, eles estão cheios de hostilidade contra Ele, eles permanecem em oposição a Ele, e estão em rebelião aberta contra o seu poder e dignidade. Veja a linguagem que eles utilizam, que nada tem a ver com o Evangelho de Cristo, com suas leis e ordenanças, que não faz com que tomem o seu jugo sobre si mesmos, que não rompe as suas amarras em duas partes, e não faz com que o aceitem para reinar sobre si mesmos; que diz ao Onipotente Jesus: Afasta-te de nós ; eles são de seu pai, o demônio, eles realizam as suas concupiscências e falam a sua linguagem. Em terceiro lugar, não é verdade que eles nada tenham a ver com Cristo como Juiz, porque eles têm, e eles o sabem. Esses demônios não podiam dizer: Que tens conosco? Não podiam negar que o Filho de Deus é o Juiz dos demônios. Em seu julgamento, eles estão aprisionados com correntes das trevas, das quais eles alegremente se livrariam, e que querem tirar de seus pensamentos.

1.Uma palavra de desaprovação e protesto: “Vieste aqui atormentar-nos”, para nos expulsar destes homens e nos impedir de fazer o mal que faríamos?” Note que ser expulso e impedido de fazer a maldade é um tormento para o demônio, cujo consolo e satisfação são o sofrimento e a destruição do homem. ” Não devemos, então, considerar como bem-aventurança estarmos bem, e considerar como causa de nosso tormento, seja interno ou externo, o que nos impede de fazer o bem?” “Nessas circunstâncias, temos de ser atormentados, por ti, antes do tempo”. Perceba que, em primeiro lugar, há um tempo no qual os demônios serão mais atormentados do que são agora, e eles o sabem. O grande julgamento no último dia é a hora determinada para a sua tortura completa no fogo eterno que está preparado – há muito tempo – para o diabo e seus anjos (Isaias 30.33; cap. 25.41); eles estão reservados para o julgamento daquele dia (2 Pedro 2.4).

Aqueles espíritos malignos que são, pela permissão divina, prisioneiros à solta e andam de um lugar para o outro por toda a terra (Jó 1.7), mesmo agora estão sob controle; o poder deles alcançará até aqui, e não além. Eles se tornarão, então, prisioneiros trancafiados. Eles têm, agora, alguma liberdade; mas estarão, depois, em um tormento sem descanso. Isto eles aqui têm como certo e jamais pedem para ser torturados (a falta de esperança de alívio é a maior angústia da situação deles), mas pedem que não sejam atormentados antes do tempo. Pois embora não saibam quando será o dia do julgamento, eles sabiam que ainda não havia chegado. Em segundo lugar, os demônios têm uma certa antecipação pavorosa desse julgamento, e uma revolta furiosa contra toda atitude de Cristo a cada restrição ao poder e à ira deles. A simples visão de Cristo e a sua palavra de ordem para saírem do homem os deixava, neste caso, apreensivos pelo tormento que sofreriam. Desse modo, “os demônios creem e estremecem” (Tiago 2.19). É a própria hostilidade para com Deus e o homem que os coloca sob tortura e tormentos antes do tempo. Nem mesmo os pecadores mais desesperados, cuja condenação está selada, podem tornar os seus corações totalmente insensíveis à surpresa do terror, quando veem “que se vai aproximando aquele Dia”.

II – Vejamos, agora, que obra eles realizaram, para onde foram após terem sido expulsos do homem possuído. Foram para uma manada de porcos, que estava distante (v. 30). Esses gadarenos, embora vivendo do outro lado do Jordão, eram judeus. O que tinham eles a ver com os porcos, que de acordo com a lei eram imundos, e não deveriam ser comidos nem tocados? Provavelmente, nos arredores da terra, viviam entre eles muitos gentios a quem esta manada de porcos pertencia. Estes os criavam para serem vendidos ou trocados com os romanos, que eram apreciadores da carne de porco, e com quem eles tinham agora um grande comércio. Agora, observe:

1.Como os demônios dominaram os porcos. Embora os porcos estivessem distantes, e, talvez, fora de perigo, ainda assim os demônios os espreitavam para lhes causar danos: pois eles andam para um lado e para o outro, buscando devorar, procurando uma oportunidade, e não precisam procurar muito para encontrá-la. Aqui, nesse momento:

(1) Eles pediram permissão para entrar nos porcos (v. 31). Eles imploraram a Jesus, com toda a sinceridade: “Se nos expulsas, permite-nos que entremos naquela manada de porcos”. Através disto:

[1]. Eles mesmos estão conscientes de sua própria tendência a fazer o mal, e do prazer que isto lhes traz. Portanto, aqueles que se as­ semelham a eles são seus filhos: “Pois não dormem, se não fizerem mal, e foge deles o sono, se não fizerem tropeçar alguém” (Provérbios 4.16). Em outras palavras: “Permite-nos que entremos naquela manada de porcos – qualquer lugar em vez do lugar de tormento, qualquer lugar onde fazer o mal”. Se não lhes é permitido agredir os homens em seus corpos, eles os agridem através de seus pertences, e nisso, também, eles pretendem prejudicar suas almas, ao tornarem Cristo um fardo para eles. Quão maliciosas artimanhas aquela velha serpente insidiosa possui!

[2] Os demônios reconhecem o poder de Cristo sobre si mesmos, a ponto de, sem o seu consentimento e permissão, não poderem sequer ferir um porco. É reconfortante para todo o povo do Senhor saber que, embora o poder do diabo seja muito grande, ainda assim é limitado, e não é tão livre quanto a sua malícia (o que seria de nós, se o fosse?). Devemos perceber, especialmente, que o poder do inimigo está sob o controle de nosso Senhor Jesus, nosso fiel e poderoso amigo e Salvador, e que Satanás e seus instrumentos não podem ir além daquilo que o Senhor lhes permite; aqui eles têm que parar de brandir com arrogância.

(2) Eles tiveram permissão. Jesus Cristo lhes disse: “Ide” (v. 32), como Deus fez com Satanás quando ele pediu autorização para afligir a Jó. Entenda que Deus realmente, muitas vezes, por finalidades sábias e santas, autoriza as tentativas da ira de Satanás, e permite que ele faça o mal que deseja, e através disso até mesmo atenda aos seus propósitos. Os demônios não são apenas prisioneiros de Cristo, mas seus vassalos; seu domínio sobre eles aparece no dano que eles fazem, bem como no impedimento de que façam mais. Desse modo, até a ira deles serve para louvar a Cristo, e o excesso dela Ele reprime e sempre reprimirá. Cristo permitiu isto:

[1]. Para o convencimento dos saduceus que viviam, então, entre os judeus, e que negavam a existência dos espíritos e não reconheciam que havia tais seres, porque eles não os podiam ver. Agora Cristo realizaria, através disto, na medida do possível, uma demonstração visual da existência, da multidão, do poder e da maldade dos espíritos malignos. E assim, se os saduceus não fossem convencidos por esse meio, poderiam se tornar indesculpáveis em sua infidelidade. Nós não vemos o vento, mas seria absurdo negá-lo ao vermos as árvores e as casas derrubadas por ele.

[2]. Para a punição dos gadarenos, que talvez, a pesar de serem judeus, tinham tomado a liberdade de comer carne de porco, contrariando a lei. De qualquer forma, sua atitude de criar porcos atinge as raias do mal. Cristo também mostraria de que bando infernal eles foram libertos e que, se Ele tivesse permitido, logo os teriam sufocado, como fizera m com os seus porcos. Os demônios, em obediência à ordem de Cristo, saíram dos homens, e tendo a autorização, quando foram expulsos, imediatamente entraram na manada de porcos. Veja que inimigo hábil é Satanás, e como é desembaraçado; ele não perde tempo para fazer o mal. Observe:

2.Para onde eles levaram os porcos, quando se apossaram deles. Eles não desejavam salvar suas vidas e, por isso, fizeram com que se precipitassem violentamente por um despenhadeiro no mal; onde todos morreram, chegando a um número de quase dois mil (Marcos 5.13). Entenda que o diabo busca a possessão para destruir. Por isso ele incita as pessoas ao pecado, as incita em direção àquilo contra o que elas se decidiram e que sabem que lhes causarão vergonha e sofrimento. Com que força o espírito maligno “opera nos filhos da desobediência”, enquanto por tantas concupiscências insensatas e perniciosas eles são levados a agir em contradição direta, não apenas à religião, mas à justa razão e a seus interesses neste mundo! Assim, da mesma maneira, ele os impele para a ruína, pois ele é Apoliom e Abadom, o grande destruidor. Através das suas concupiscências, praticadas pelos homens, eles submergem na “perdição e ruína”. Esta é a vontade de Satanás, engolir e devorar; deprimente, portanto, é a condição daqueles que são feitos cativos por ele, de acordo com a sua vontade. Eles são impelidos para um lago pior do que este, um “lago que arde com fogo e enxofre”. Observe:

3.O efeito que este fato teve sobre os donos dos porcos. Um relato do ocorrido foi logo levado a eles pelos porqueiras, que pareciam estar mais preocupados com a perda dos porcos do que com qualquer outra coisa, pois eles não foram contar “o que acontecera aos endemoninhados”, até que os porcos tivessem desaparecido (v. 33). Cristo não entrou na cidade, mas a notícia de sua presença ali, sim, e através dela, Ele desejava sentir qual era a disposição do povo dali, e que influência ela tivera sobre eles. Então o Senhor agiria de acordo com a situação.

Nesse momento:

(1) A curiosidade dos habitantes da cidade os levou para fora, a ver Jesus. “Toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus”, para que eles fossem capazes de dizer que tinham visto um homem que realizou obras tão maravilhosas. Assim, muitos que não tinham nenhuma afeição por Cristo, nem o desejo de conhecê-lo, saíram ao seu encontro.

(2) A avareza fez com que desejassem se livrar dele. Ao invés de convidá-lo a entrar em sua cidade, ou trazer seus doentes a Ele para serem curados, eles desejaram que Ele partisse de seus limites, corno se tivessem tomado emprestado as palavras dos demônios: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” E agora os demônios tinham o que eles visavam ao afogar os porcos; eles fizeram isso, e depois fizeram as pessoas acreditarem que Cristo o havia feito. E assim fizeram com que elas tivessem uma predisposição contra Ele. Satanás seduziu os nossos primeiros ancestrais ao imbuí-los de pensamentos injustos a respeito de Deus, e afastou os gadarenos de Cristo ao sugerir que Ele havia ido até o seu território para destruir os seus animais, e que Ele lhes faria mais mal do que bem. Pois embora Ele houvesse curado dois homens, Ele havia afogado dois mil porcos. Dessa forma, o diabo semeia o joio no campo de Deus, causa danos à igreja cristã, e depois coloca a culpa na cristandade e inflama os homens contra ela. Os gadarenos rogaram que Jesus se retirasse para que não sofressem alguma outra praga, como no caso de Moisés no Egito. Note que há um grande número de pessoas que prefere os seus porcos ao Salvador e assim ficam sem Cristo e sem a salvação que somente Ele pode proporcionar. Eles desejam que Cristo vá embora de seus corações e não permitem que a sua Palavra tenha um lugar neles, porque Ele e a sua Palavra serão a destruição de suas concupiscências animalescas – aqueles porcos que eles decidiram se es­ forçar para alimentar. E, de forma justa, Cristo abandonara á aqueles que desta forma estão cansados dele, e lhes dirá daí por diante: ”Apartai-vos de mim, malditos”, que dizem agora ao Todo-poderoso: “Retira-te de nós”.

GESTÃO E CARREIRA

Boas ou más, dê-me a verdade

BOA OU MÁ, DÊ-ME A VERDADE

Equipes perdem motivação ao não saber o que ocorre na empresa.

Ocultar informações negativas numa empresa, mesmo na intenção de preservar o ânimo da equipe, é perigosíssimo. Pesquisadores da Warwick Business School, no Reino Unido, concluíram num estudo que honestidade e transparência são cruciais para obter o engajamento de cada profissional envolvido. O conhecimento dos desafios profissionais em jogo mostrou-se mais motivador do que a percepção de que coordenadores omitem informação ou agem com otimismo infundado. O estudo constatou que chefias mostram tendência a omitir informações negativas na ilusão de que pouparão a equipe de desgaste, mas isso gera insegurança. Um chefe que expõe problemas ganha confiança e respeito da equipe, o que tende a se refletir em melhores resultados no longo prazo, mesmo com obstáculos imediatos. Há regras fundamentais para que isso funcione: as informações devem ser compartilhadas regularmente e a equipe deve poder se expressar.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A terapia da auto estima

A TERAPIA DA AUTO ESTIMA

Com base num princípio budista, psicólogos começam a aplicar uma técnica orientada pela ideia de que ser gentil consigo mesmo pode aumentar a resiliência, que se traduz na capacidade de enfrentar dificuldades de forma saudável, sem sucumbir a elas. Na prática, o desenvolvimento da compaixão por si mesmo diminui as consequências nocivas do estresse e melhora a qualidade dos relacionamentos.

Em 2015, Miriam, na época com 28 anos, formada e pós-graduada em administração de empresas, passou por uma série de situações difíceis. Ela perdeu o emprego quando a empresa em que trabalhava encerrou suas atividades e, ansiosa para voltar a trabalhar, aceitou uma vaga de gerente numa loja que exigia muito dela fisicamente. Semanas depois, Miriam machucou o quadril enquanto carregava algumas caixas com mercadorias.

Com dificuldade de caminhar, pediu demissão com a intenção de encontrar outro trabalho. Mas sem conseguir participar de entrevistas de emprego, sentindo-se triste e estressada, passou a se dedicar a um jogo lógico de cartas online. No entanto, até mesmo a diversão lhe causava angústia. Ingressar num torneio foi um dos últimos atos de um padrão que costumava ter na vida: estabelecer grandes metas e, posteriormente, julgar-se duramente por não cumpri-las.

Sentia-se deprimida, ansiosa, e a sensação de derrota reforçava a autocrítica. Apesar de ser boa jogadora, não conseguia perdoar as próprias falhas. Mais tarde ela se deu conta de que por esse motivo já havia abandona- do as aulas de balé e os treinos de vôlei: errar era insuportável para ela.

Hoje, frequentando sessões de psicoterapia duas vezes por semana, Miriam acredita que esse comportamento estava relacionado com o modo como foi criada pelos pais, que a pressionavam para se destacar no que quer que fizesse. Durante uma das sessões de terapia, uma associação a ajudou significativamente: recordou-se de um livro que tinha lido sobre comunicação não violenta, que enfatizava a importância de ter sensibilidade na hora de escolher as palavras – inclusive para si mesma. Essa lembrança funcionou como um insight para Miriam, que passou a incluir em seu vocabulário uma palavra revolucionária para sua autoestima: compaixão por si mesma.

No nível mais básico, significa tratar a si mesmo com bondade e compreensão que se dedicaria a um amigo. Quem tem dificuldade nesse aspecto não é necessariamente insensível – mas tende a manter padrões muito elevados para si mesmo, o que pode ser bastante prejudicial. Ser gentil consigo mesmo permite reconhecer e aceitar os próprios sentimentos, em vez de se desafiar constantemente a “fazer melhor”.

Miriam faz parte de um crescente número de pessoas que começam a descobrir que praticar a autocompaixão pode ser uma alternativa surpreendentemente eficaz ao hábito comum e paralisante da autocrítica associada ao sentimento de fracasso e à culpa. Desde que esse conceito surgiu como uma construção científica – com um artigo da psicóloga Kristin D. Neff, da Universidade do Texas em Austin, em 2003 –, o volume de publicações acadêmicas que investigam o assunto tem aumentado significativamente.

Em especial nos últimos anos, o tema da autocompaixão ganhou notoriedade. Psicólogos e pesquisadores, como Neff, desenvolveram estudos para entender melhor o conceito. Muitos psicólogos e psicanalistas enxergam a prática de tratar a si mesmo com amabilidade como um componente natural de tratamentos bem embasados, que focam a aceitação, a elaboração e o amadurecimento psíquico, que resulta na mudança gradual de padrões repetitivos.

No entanto, na cultura competitiva em que vivemos, atitudes cuidadosas consigo mesmo podem ser confundidas (até pela própria pessoa) com egoísmo, num extremo, ou autoindulgência, em outro. Por isso mesmo, alguns resistem à ideia da autocompaixão, associando-a erroneamente a egocentrismo, fragilidade e auto complacência. Mas será que o fato de sermos gentis conosco, após um contratempo, tende a nos deixar fracos e condescendentes? Essa é uma de muitas perguntas que as pesquisas sobre o assunto se propõem responder. Evidências revelam que a autocompaixão costuma ser uma fonte de força pessoal e interpessoal que favorece a estabilidade emocional e a motivação para o auto aperfeiçoamento.

 ANTIGAS RAÍZES

Pioneira no estudo científico da autocompaixão, Neff se interessou pelo assunto na década de 90. Como se não bastasse a preocupação com o doutorado, na época ela enfrentava a separação no primeiro casamento. Apesar do sentimento de fracasso e das duras críticas que dirigia a si mesma, a psicóloga encontrou forças para iniciar sessões de meditação e passou a interessar-se pela filosofia budista.

Ela sabia que a compaixão envolvia a preocupação com a dor do outro e o desejo de aliviar o sofrimento dessa pessoa, mas nunca pensou em dirigir essa energia para si mesma até ler o livro Bondade: a arte revolucionária da felicidade, sem tradução em português, da professora de meditação Sharon Salzberg. Neff se sentiu transformada pela mensagem de que ser gentil consigo mesma é essencial para ter amor genuíno pelos outros. E logo começou a estabelecer as bases para estudar o tema cientificamente.

Durante suas pesquisas, distinguiu três elementos indispensáveis da autocompaixão: a tolerância consigo mesmo em tempos difíceis; o hábito de prestar atenção ao sofrimento de maneira consciente, sem preocupação excessiva; e o reconhecimento de que a dor é parte da experiência humana, não algo exclusivo de um único ser. Esses três componentes se tornaram a base das perguntas que Neff usou para desenvolver uma escala de autocompaixão, um teste que publicou em 2003 na revista Self and Identity e que agora é amplamente utilizado por pesquisadores para avaliar essa característica. Com a ajuda da escala, Neff observou que quem tem altos níveis de autocompaixão é menos propenso a desenvolver ansiedade e depressão. E demonstrou que ser delicado consigo mesmo pode provocar grandes efeitos no mundo a nossa volta. A psicóloga Juliana Breines, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley, teve o primeiro contato com o trabalho de Neff durante a graduação na Universidade de Michigan. Breines suspeitava que o hábito de olhar a si próprio com bons olhos pudesse ajudar a evitar a montanha-russa da “autoestima contingente” – isto é, relacionar o modo como nos enxergamos a fatores flutuantes, como realização acadêmica, condição financeira e aprovação alheia. Muitos estudos já haviam demonstrado que esse tipo de pensamento não favorece a autoestima nem a aprendizagem. Breines, porém, tinha receio de que a autocompaixão pudesse prejudicar a motivação. “Esse sentimento pode ser reconfortante, mas não nos tira de um problema muito rapidamente?”, perguntou-se.

Breines decidiu investigar essa questão. Em uma série de experimentos, ela e seus colegas aplicaram um difícil teste de vocabulário a 86 universitários. Para avaliarem os efeitos da autocompaixão no estudo, eles dividiram os voluntários em três equipes. Aos integrantes do primeiro grupo, disseram ser comum ter dificuldades na hora da avaliação e aconselharam os participantes a se esforçar sem serem excessivamente exigentes consigo mesmos. O segundo grupo ouviu uma argumentação lógica: “Se você entrou nesta universidade e foi selecionado para este grupo, então deve ser inteligente”. O terceiro não teve nenhuma informação.

Em seguida, os pesquisadores avaliaram quanto tempo os universitários estudariam para um segundo teste semelhante. De acordo com o que relataram no periódico científico Personality and Social Psychology Bulletin, o grupo que recebeu orientações sobre a autocompaixão utilizou 33% de tempo a mais estudando para o questionário seguinte do que aquele que foi estimulado a perceber racionalmente o quanto era capaz, e 51% a mais do que o grupo neutro (de controle) – uma evidência de que a autocompaixão pode reforçar a motivação. Ou seja: ser amável consigo mesmo pode ajudar a tolerar as falhas, o que aumenta a disposição para tentar novamente – e acertar.

Em duas pesquisas de 2012 lideradas pela psicóloga social Ashley Batts Allen, então na Universidade Duke, cientistas investigaram a autocompaixão em adultos mais velhos e encontraram benefícios psicológicos. No primeiro estudo, com 132 participantes entre 67 e 90 anos, foi observado que aqueles indivíduos que expressavam essa característica com frequência relatavam maior senso de bem-estar, mesmo quando a saúde não ia tão bem. No segundo experimento, com 71 idosos, a autocompaixão ajudou a prever a disposição para usar um andador em caso de necessidade. “Eles se sentiam menos incomodados pelo fato de precisar de ajuda”, afirma Allen, agora na Universidade da Carolina do Norte em Pembroke.

“Quem não costuma praticar um olhar generoso consigo mesmo tende a usar muita energia emocional pensando em coisas desagradáveis, mas não de forma produtiva, focando problemas reais”, observa o psicólogo Mark Leary, da Universidade Duke, que colaborou com a pesquisa. Por exemplo: negar uma dificuldade (como se recusar a usar um andador) pode trazer mais complicações, como uma fratura no quadril. A autocompaixão, por outro lado, tende a nos levar a perceber e aceitar a realidade – e nossos limites – sem julgamentos ou a sensação de que fracassamos porque temos fragilidades.

Em 2014, Leary e seus colegas acompanharam 187 pessoas, principalmente afro–americanos, que vivem com o HIV. Os pacientes com maior nível de autocompaixão apresentavam reações mais saudáveis à convivência com o vírus potencialmente mortal: demonstravam menos estresse, diziam sentir menos vergonha e eram mais propensos a expressar sua condição, além de aderir ao tratamento médico. Uma meta-análise de 2015 que envolvia 15 estudos com 3.252 participantes publicada na Health Psychology encontrou ligação entre comportamentos auto compassivos e hábitos saudáveis relacionados com alimentação, exercícios físicos, sono e formas de lidar com o estresse.

As pesquisas indicam que a autocompaixão pode favorecer a resiliência (resistência emocional) e permite recuperar o bem-estar emocional após as adversidades. Pessoas que usavam consigo mesmas uma linguagem mais generosa após o divórcio, por exemplo, costumavam se recuperar mais rapidamente do luto da separação do que aquelas que tinham uma visão mais autocrítica ou de auto piedade (“Por que eu?”, “A culpa é minha” ou “A culpa é do outro que me causou esse sofrimento”), segundo um estudo de 2012 com 109 adultos.

DE VOLTA AOS TRILHOS

Cuidar de pessoas que requerem cuidados especiais costuma exigir grande dedicação e equilíbrio emocional. Criar uma criança autista, por exemplo, pode demandar mais, do ponto de vista emocional, do que outras formas de parentalidade e, em alguns casos, causar altos níveis de estresse e abatimento. No entanto, um estudo de 2015 com 51 famílias que tinham crianças autistas demonstra que a capacidade dos pais de olhar a si mesmos com generosidade era um preditor mais importante do bem-estar deles do que a gravidade das deficiências ou mesmo o sofrimento da criança.

Uma pesquisa com 115 veteranos americanos das guerras do Iraque e do Afeganistão oferece outro exemplo interessante. Um estudo de 2015 publicado no Journal of Traumatic Stress constatou que os soldados com maior autocompaixão demonstravam sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) muito menos graves do que aqueles que apresentavam o traço com menor intensidade, independentemente da exposição ao combate. “Essa é uma poderosa evidência da ideia de que não somos influenciados somente pelo que enfrentamos na vida, mas também pela maneira como nos relacionamos com nós mesmos quando passamos por momentos difíceis”, destaca Neff.

Estudos recentes com pessoas diagnosticadas com outros distúrbios psiquiátricos, como compulsão alimentar e transtorno de personalidade borderline, sugerem que tratar a si mesmo com gentileza é importante para manter o equilíbrio. A psicóloga Allison Kelly, da Universidade de Waterloo, em Ontário, que estudou o efeito de intervenções relacionadas com a autocompaixão no transtorno de com- pulsão alimentar, ressalta a importância não apenas de um aprendizado de tolerância em relação aos próprios impulsos, mas também da descoberta de formas de recuperar depois de ceder a eles. “A crítica severa, acompanhada de auto ameaças e desmerecimento de si mesmo, dificulta a reflexão e afasta a possibilidade de aprender com as dificuldades”, afirma. Segundo ela, a primeira coisa a fazer é acolher a si mesmo, reconhecer que foi feita uma escolha ruim e comprometer-se de forma consciente com a necessidade de agir de forma diferente.

“E não se trata de condescendência, mas sim de aproveitar a consciência do mal que somos capazes de fazer a nós mesmos para buscar outras opções.”

Ou seja: tratar a nós mesmos com delicadeza nos fortalece e ameniza a falta de confiança na própria capacidade. Em um estudo longitudinal de 2015 liderado pela psicóloga Sarah Marshall, da Universidade Católica Australiana, os pesquisadores acompanharam um grupo de 2.448 adolescentes que passavam da nona para a décima série. Marshall observou que o hábito de se valorizar era um precursor de saúde mental, independente- mente do nível de autocompaixão. E, quando crianças com baixa autoestima conseguiam ser generosas consigo mesmas, tendiam a se tornar menos tensas e mais equilibradas.

Muitas vezes, desenvolver habilidades sociais ou mesmo conseguir um emprego melhor parece momentaneamente fortalecer a autoestima. Mas não basta, pois, situações externas não sustentam o bem-estar emocional. Se a pessoa não compreender – por meio de associações com suas experiências e a história da própria família – o lugar que a auto depreciação ou a sensação de não ser boa o suficiente ocupa em sua dinâmica psíquica, a confiança em si mesma não dura. Se durante esse processo de autoconhecimento a pessoa for generosa consigo mesma, a evolução tende a ser muito mais rápida.

 RELACIONAMENTOS MAIS FORTES

Pesquisas mostram que tratar a si mesmo com delicadeza favorece também as trocas interpessoais. Em 2013, Kristin Neff liderou um estudo com 104 casais, em que analisou como indivíduos auto compassivos tratavam seu par romântico – segundo a avaliação do parceiro. Em geral, os homens e as mulheres que pontuavam alto numa escala que media o traço eram vistos como mais carinhosos e solidários, além de pouco controladores e me- nos verbalmente agressivos, em comparação àqueles com baixa autocompaixão.

Seria mais fácil mostrar compaixão aos outros do que a nós mesmos? Neff acredita que, embora pareça que sim, a longo prazo essa postura não se sustentará se não tivermos cuidado também conosco. Não raro, os efeitos dessa atitude surgem como depressão, crises de ansiedade e sintomas psicossomáticos. “Quando oferecemos tudo o que temos ao parceiro e somos muito duros com nós mesmos, dificilmente vamos conseguir manter uma relação saudável”, argumenta.

Essa interpretação não está de acordo com as descobertas que, publicadas em 2013 na Self and Identity, revelam como pessoas auto compassivas lidam melhor com conflitos interpessoais. Num estudo desenvolvi- do com 506 universitários, a estatística Lisa Yarnell, do Instituto Americano de Pesquisa (AIR, na sigla em inglês), observou que os voluntários com altos índices de autocompaixão equilibravam bem as próprias necessidades com a dos outros e se sentiam melhor em relação à resolução de conflitos, em comparação com aqueles com baixa pontuação nessa característica. Os indivíduos auto compassivos relatavam pouca turbulência emocional e bem-estar nas relações.

Essas descobertas têm implicações para os cuidadores em tempo integral, que, como sabemos há muito tempo, estão em risco de burnout e “fadiga de compaixão”, uma redução da capacidade de praticar a generosidade por causa do excesso de exigências emocionais a que estão submetidos. De fato, um levantamento transversal de 2016 com 280 enfermeiros de Portugal sugere que, embora os profissionais com níveis mais altos de empatia estivessem em maior risco de desenvolver fadiga de compaixão, a capacidade de se colocar no lugar do outro não era um fator de risco se estivesse acompanhada da auto compreensão.

 UM APRENDIZADO POSSÍVEL

Se praticar a generosidade consigo mesmo pode trazer tantos resultados positivos, será que podemos aprender essa habilidade? A autocompaixão consciente (MSC, na sigla em inglês) é uma intervenção promissora, desenvolvida por Neff, numa parceria com o psicólogo clínico Christopher Germer, professor da Escola de Medicina Harvard. A dinâmica projetada para o público em geral foi estruturada para ocorrer em oito semanas, abordando as pesquisas sobre o tema e apresentando exercícios, como usufruir de experiências agradáveis, praticar automassagem, usando uma voz calorosa e gentil, e escrever uma carta a si mesmo, como se fosse um amoroso amigo imaginário.

Em um pequeno estudo publicado em 2013, Neff e Germer mostram que 25 pessoas (a maioria mulheres de meia-idade) que completaram uma oficina de MSC relataram maiores ganhos na capacidade de ser generosas consigo mesmas e maior bem-estar do que um grupo similar alocado aleatoriamente para a lista de espera da oficina. O mais interessante: um ano depois os participantes mantinham os benefícios obtidos. Curiosamente, os do grupo de controle apresentaram também alguns ganhos em relação à autocompaixão – os escores deles subiram 6,5% entre as fases de pré e pós-teste, enquanto no grupo experimental esse número chegou a 42,6%. Inicialmente, o resultado confundiu os pesquisadores – até descobrirem que o grupo da lista de espera usou o tempo livre para aprender (de forma independente, com a ajuda de livros e da internet) como ser mais benevolente consigo mesmo.

“Ainda não está claro o quanto o sucesso dos participantes do “treinamento de auto- compaixão” está relacionado com a atividade em si, em oposição a participar de um grupo ou ter professores atenciosos”, observa a psiquiatra Julieta Galante, pesquisadora associada da Universidade de Cambridge.

Germer e Neff contam com a possibilidade de os participantes da oficina se darem conta da própria fragilidade durante as dinâmicas e sofrerem e os preparam para isso. Os pesquisadores usam a metáfora da “zona de risco” de combates a incêndio para explicar o fenômeno: assim como as chamas correm pelo cômodo à medida que o oxigênio retorna, uma antiga dor pode surgir em meio a um influxo de compaixão em pessoas famintas de afeto. É possível que, antes de entrarem nesse tipo de atividade, alguns indivíduos precisem praticar a autocompaixão aos poucos, em sessões individuais de psicoterapia.

O professor de psicologia clínica Paul Gilbert, da Universidade de Derby, na Inglaterra, concorda. Com experiência no atendimento a crianças vítimas de abuso ou negligência, ele observou que a gentileza pode produzir efeitos imediatos aparentemente contrários ao esperado. Há casos em que a estimulação de sistemas afetivos frágeis desencadeia memórias traumáticas, particularmente em casos de abuso infantil. “Há tantos medos e resistências ao ato de tratar bem a si mesmo que, no início, praticar exercícios com o público em geral pode despertar explosões emocionais”, afirma Gilbert.

A psicoterapia focada na compaixão (TFC), utilizada por ele para esses casos, foi testada com estudos de pequena escala. Gilbert trabalha com a ideia de que a autocrítica pode ser adotada pela pessoa como forma de se proteger de pais sentidos como ameaçadores. “À medida que o paciente se apropria do fato de que nem os genes nem o ambiente inicial são culpa deles, pode começar a lidar com a insegurança e assumir a responsabilidade pelo seu futuro”, afirma o psicólogo. Foi o que fez Miriam, quando passou a olhar para si mesma como se encarasse alguém querido com muitas qualidades – e, claro, algumas fragilidades.

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METÁFORA DA “ZONA DE RISCO”: quando bombeiros combatem um incêndio, as chamas parecem se espalhar antes de o fogo ser contido; da mesma forma, pessoas muito carentes podem se sentir ainda mais doloridas quando começam a olhar para o que as incomoda, mas esse efeito tende a diminuir com o avanço da psicoterapia.

NÃO É PARA TER PENA DE SI MESMO

Ser gentil não significa ser complacente ou cair na armadilha da vitimização, pelo contrário, o autocuidado está relacionado a autonomia.

Uma das preocupações dos profissionais da área da saúde mental em relação à terapia centrada no desenvolvimento da autocompaixão é que pacientes (e leigos em geral) façam uma leitura equivocada da proposta, confundindo o cuidado consigo mesmo com o incentivo à pena ou à autocondescendência. No entanto, o que os pesquisadores da área sugerem é justamente o oposto: um dos aspectos mais importantes na construção da autoestima é a possibilidade de assumir o fato de que somos responsáveis por nossas escolhas, boas ou más. Muitas vezes, o melhor que podemos fazer é optar pelo que de fato precisamos – e não simplesmente pelo que queremos.

Há situações em que as duas coisas se complementam, mas nem sempre. Ser gentil conosco pode ser, por exemplo, recorrer à própria inteligência na hora de escolher alimentos saudáveis em vez de fast-food, que pode até parecer a pedida mais prática e saborosa, mas comprovadamente traz consequências nocivas para a saúde. O mesmo se aplica não apenas a hábitos relativos à saúde, mas também ao que dizemos sabendo que, invariavelmente, vamos nos arrepender mais tarde. O doutor em psicologia Mark Muraven, professor da Universidade do Estado de Nova York, em Albany, salienta o risco de tomarmos decisões de forma compensatória: “Quando nos sentimos mal por qualquer motivo, tendemos a entrar num ciclo perigoso: tendemos a ser condescendentes conosco porque ‘já sofremos demais’ e fazemos o que sabemos que faz mal, isso nos deixa ainda mais insatisfeitos e nos leva ao auto ataque, o que fere a autoestima.” Muraven ressalta que é especificamente nos momentos de fragilidade emocional que precisamos pensar em nós mesmos como alguém que precisa de apoio. E se não damos conta é hora de pedir ajuda a um amigo ou um psicólogo. “Obviamente há inúmeras situações que não dependem de nossas escolhas imediatas (dificuldades concretas e emocionais, perdas etc.); ainda assim, sempre há a possibilidade de nos tratarmos bem, como talvez outras pessoas não tenham feito”, ressalta. Mas isso não é desculpa para não nos acolhermos, em especial nos momentos de dificuldade.

VOCÊ TEM AUTO COMPAIXÃO?

As afirmações abaixo fazem parte de uma avaliação criada pela psicóloga Kristin D. Neff. Na versão completa (http://bit.ly/SlfCompassion), você pode se classificar em uma escala de 1 a 5, em que 1 é “quase nunca” e 5, “quase sempre”.

Declarações associadas à alta autocompaixão

  • Tento ver minhas falhas como parte da condição humana
  • Quando estou passando por um momento muito difícil, busco manter minhas emoções equilibradas
  • Procuro ser compreensivo e paciente em relação aos aspectos da minha personalidade de que não gosto

 

Declarações ligadas à baixa autocompaixão

  • Quando falho em algo importante para mim, eu me sinto consumido por sentimentos de inadequação
  • Quando me sinto mal, minha tendência é acreditar que a maioria das pessoas provavelmente está mais feliz do que eu
  • Desaprovo e julgo minhas próprias falhas e inadequações

 A terapia da auto estima3

MARINA KRAKOVSKY – é jornalista e cientista social. É autora de The middleman economy: how brokers, agents, dealers and everyday matchmakers create value and profit (Palgrave Macmillan, 2015, sem tradução para o português).

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 8: 23-27

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Jesus Apazigua uma Tempestade

Cristo havia ordenado a seus discípulos “que passassem para a outra margem” (v. 18), para que fossem para o outro lado do mar de Tiberíades, no território de Gadara, na tribo de Gade, que se estende ao leste do Jordão. Para lá, Ele iria para resgatar duas pobres criaturas de uma legião de demônios, apesar de antever como Ele seria desafiado ali. Nesse momento:

1.Ele optou ir por água. Não seria muito diferente se tivesse ido por terra; mas Ele decidiu cruzar o lago, para que pudesse ter a oportunidade de se manifestar como o Deus do mar, bem como da terra seca, e para mostrar que todo o poder lhe pertence, no céu e na terra. E um alívio para todos aqueles que vão para o alto-mar em barcos, e muitas vezes correm perigos por lá, saber que têm um Salvador em quem confiar e a quem orar, que sabe como é estar no mar, e ali passar por tempestades. Mas observe que, ao ir por mar, Jesus não tinha nenhum iate ou barco de passeio para levá-lo, mas fez uso dos barcos de pesca de seus discípulos; isto mostra a pobreza a que Ele estava sujeito, em todos os aspectos.

2.”Seus discípulos o seguiram”. Os doze se mantiveram junto a Ele, enquanto outros ficaram para trás sobre a terra firme, onde o chão era ma.is está vel. Note que somente serão considerados verdadeiros discípulos de Cristo aqueles que de­ sejam ir com Ele para o mar, para segui-lo nos perigos e nas dificuldades. Muitos ficariam satisfeitos em pegar o caminho da terra, que se mantém tranquila, ou dar meia-volta para chegar ao paraíso, do que se aventurar em um mar perigoso; mas aqueles que descansarão com Cristo na vida futura devem, agora, segui-lo para onde quer que Ele os conduza, a um barco ou a uma prisão, bem como a um palácio. Observe:

I – A exposição ao perigo e a perplexidade dos discípulos nesta viagem nisto apareceu a verdade do que Cristo acabara de dizer: que aqueles que o seguem de­ vem esperar dificuldades (v. 20).

1.”No mar se levantou uma grande tempestade” (v. 24). Cristo poderia ter evitado essa tempestade, providenciando uma travessia agradável, mas isso não teria contribuído o suficiente para a sua glória e para a confirmação da fé dos discípulos, como ocorreu neste livramento. Esta tempestade aconteceu por causa deles, como em João 11.4. Era de se esperar que, tendo Cristo consigo, os discípulos teriam um vento forte muito favorável, mas ocorreu exatamente o oposto; pois Cristo mostraria que aqueles que estão fazendo, com Ele, a travessia para o outro lado do oceano deste mundo, devem esperar tempestades pelo caminho. A igreja é “arrojada com a tormenta” (Isaias 54.11). Somente a região superior aprecia uma calma perpétua; esta camada inferior é continuamente perturbada e perturbadora.

2.Jesus Cristo estava dormindo durante a tempestade. Nunca lemos sobre Cristo dormindo, exceto esta vez. Ele estava frequentemente em vigília, e a prolongava em oração a Deus durante a noite. Este era um sono, não de segurança, como o de Jonas na tempestade, mas de serenidade divina e confiança em seu Pai. Ele dormia para mostrar que era de fato e verdadeiramente um homem, e sujeito às fraquezas não pecaminosas da nossa natureza – seu trabalho o deixara cansado e sonolento, e Ele não tinha culpa, não tinha um medo interior para perturbar o seu repouso. Aqueles que podem descansar suas cabeças sobre o travesseiro com a consciência limpa, podem dormir serena e suavemente durante uma tempestade (Salmos 8), como Pedro (Atos 12.6). Desta vez, Ele dormia, testando a fé de seus discípulos, para verificar se eles confiavam nele quando parecia estar fazendo pouco a favor deles. Ele dormia, não tanto para descansar, mas com o propósito de ser acordado.

3.Os pobres discípulos, embora acostumados com o mar, foram acometidos de súbito terror, e em seu medo foram ter com o Mestre (v. 25). Para onde mais eles deveriam ir? Ainda bem que eles o tinham tão perto de si mesmos. Eles o acordaram com suas orações: “Senhor, salva-nos, que perecemos”. Note que aqueles que desejam aprender a orar devem ir para o mar. Os perigos iminentes e concretos conduzirão as pessoas a Jesus Cristo, o único que pode ajudar na hora da dificuldade. A oração dos discípulos tem vida: “Senhor, salva-nos, que perecemos”.

(1) A solicitação deles é: Senhor, salva-nos. Eles acreditavam que Ele podia salvá-los e pediram que Ele o fizesse. A missão de Cristo neste mundo é salvar, mas somente aqueles que invocarem o nome do Senhor serão salvos (Atos 2.21). Aqueles que, pela fé, estão interessados na salvação eterna preparada por Cristo, podem, com humilde confiança, recorrer a Ele para obterem libertações terrenas. Observe que os discípulos o chamam de Senhor e depois eles oram: Salva-nos. Note que Cristo não salvará ninguém, a não ser aqueles que desejarem aceitá-lo como seu Senhor; pois Ele é o Príncipe e o Salvador.

(2) A expressão dos discípulos é: “perecemos”; este termo:

[1] Representa a linguagem de seu medo. Eles viam a sua condição como desesperadora e davam tudo como perdi­ do; eles haviam recebido uma sentença de morte interiormente e por isso pediam: “Nós pereceremos, se tu não nos salvares; portanto, olha para nós com misericórdia”.

[2] Era a linguagem do seu fervor; eles oram como homens sinceros, que pedem por suas vidas; cabe a nós, portanto, nos esforçar e lutar em oração; por isso Cristo dormia, para que Ele pudesse prolongar esta situação.

II – O poder e a graça de Jesus Cristo vieram socorrê-los; então o Senhor acordou, como alguém renovado (SaImos 78-65). Cristo pode dormir enquanto sua igreja passa por uma tormenta, mas Ele não dormirá demais: a hora, o tempo determinado para ajudar sua angustia da igreja, chegará (Salmos 102.13).

1.Ele repreendeu os discípulos (v. 26): “Por que temeis, homens de pequena fé?” Ele não os censura por perturbá-lo com suas preces, mas por se inquietarem com seus medos. Cristo os reprovou primeiro, e depois os salvou. Este é o seu método: nos prepara para receber a sua misericórdia, e então no-la concede. Observe:

(1) Seu desagrado pelos temores deles: “Por que temeis… vós, meus discípulos? Que os pecadores em Sião temam, que os marinheiros pagãos est remeçam na tempestade, mas não deveis ser assim. Pesquisai as razões do vosso medo e pesai-as”.

(2) A descoberta de Jesus da causa e da fonte dos medos dos discípulos: “Homens de pequena fé”. Muitos que têm uma fé verdadeira são fracos nela, e por esta razão a fé lhes traz pouco proveito. Note:

[1] Os discípulos de Cristo têm a tendência de se inquietar com os medos em um dia tempestuoso, de se atormentar com a desconfiança de que as coisas vão mal para eles, e com as sombrias conclusões de que elas ficarão piores.

[2] A preponderância de nossos medos exagerados em um dia de tempestade se deve à fraqueza de nossa fé, que seria uma âncora para a alma e manejaria o remo da oração. Pela fé, podemos ver através da tempestade a margem tranquila e nos encorajar com a esperança de que chegaremos à região do vento favorável.

[3] O temor dos discípulos de Cristo em meio a uma tempestade, a sua incredulidade e a causa desta, são muito desagradáveis par a o Senhor Jesus, pois lançam uma espécie de desonra sobre Ele, e geram inquietação para eles próprios.

2.Jesus “repreendeu os ventos”. No ato anterior, Ele havia agido como o Deus da graça e o Soberano do coração, que pode fazer conosco aquilo que lhe aprouver. Neste, Ele age como o Deus da natureza, o Soberano do mundo, que pode fazer por nós aquilo que lhe agradar. Este é o mesmo poder “que aplaca o ruído dos mares, o ruído das suas ondas” e a confusão do medo (SaImos 65.7). Considere: 

(1)  Como isto foi realizado com facilidade, com a expressão da palavra. Moisés comandou as águas com uma vara; Josué, com a arca da aliança; Eliseu, com a capa do profeta; mas Cristo, com uma palavra. Veja seu domínio absoluto sobre todas as criaturas, o que evidencia tanto a sua glória como a alegria daqueles que o têm a seu lado.

(2) Quão eficazmente foi feito.  Houve “uma grande bonança” de repente. Normalmente, depois de uma tempestade, as águas se agitam de tal maneira, que leva tempo até que elas se acalmem; mas se Cristo pronuncia a sua palavra, não apenas a tempestade cessa, mas todos os efeitos dela, todos os resquícios dela também cessam. Grandes tempestades de dúvida e medo na alma, sob o poder do espírito da servidão, às vezes terminam em uma calma maravilhosa, gerada e declarada pelo Espírito de adoção.

3.O milagre instigou a perplexidade dos discípulos (v. 27): ”Aqueles homens se maravilharam”. Eles estavam, havia muito, acostumados com o mar, e durante toda a sua vida nunca tinham visto uma tempestade se acalmar tão imediatamente. Este fato tinha em si todos os sinais e marcas de um milagre. “Isso foi feito pelo Senhor e é coisa maravilhosa aos nossos olhos”. Observe:

(1) A admiração dos discípulos por Cristo: “Que homem é este!” Note que Cristo é sem igual; cada detalhe nele é admirável. Ninguém é tão sábio, tão poderoso, e tão amável quanto Ele.

(2) A razão da admiração: ”Até os ventos e o mar lhe obedecem?” Cristo deve ser admira do por ter poder de comandar até mesmo os ventos e os mares. Alguns fingiam curar doenças, mas Ele simplesmente se incumbiu de comandar os ventos. Não sabemos para onde vai o vento (João 3.8), muito menos podemos controlá-lo; mas Ele “tira os ventos dos seus tesouros” (SaImos 135.7), e “encerra os ventos nos seus punhos” (Provérbios 30.4). Aquele que pode fazer isto, pode fazer qual­ quer coisa, pode fazer o que for preciso para inspirar a nossa confiança e consolo em si mesmo no dia mais agitado pelas tormentas – sejam elas internas ou externas (Isaias 26.4). O Senhor se senta muito acima das mar és, e “é mais poderoso do que o ruído das grandes águas e do que as grandes ondas do mar”. Cristo, ao comandar o mal; mostrou que Ele é o mesmo que fez o mundo. Por sua repreensão, as águas fugiram (SaImos 104.7,8); agora, à sua repreensão, elas cederam.

 

GESTÃO E CARREIRA

GENIAL, MAS POBRE

Genial, mas pobre

Milhares de Einsteins em potencial são perdidos pela origem humilde.

O que invenção tem a ver com origem social? O estudo Who Becomes an Inventor in America? feito por acadêmicos do projeto Equality of Opportunity (“Igualdade de oportunidade”), avaliou as origens econômicas e sociais de inventores e inovadores, descobrindo que crianças do topo de 1% de famílias mais ricas têm dez vezes mais chances de criar e registrar patentes do que crianças igualmente inteligentes, mas vindas de famílias mais pobres. E mais: uma criança branca tem chance três vezes maior de entrar nesse grupo do que uma criança negra. Para os autores, que avaliaram 2 mil crianças, pode haver milhares de “Einsteins perdidos” — pessoas inventivas, mas tolhidas por sua origem.

O ambiente no qual o indivíduo foi criado é fundamental. O estudo constatou que crianças mais ricas convivem mais com pessoas criativas. Natural, portanto, que elas fiquem mais motivadas a inovar. Como solução, os governos deveriam aumentar as oportunidades para os inteligentes mais pobres, impulsionando a economia e beneficiando a sociedade.

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Somos todos um pouco colecionadores

SOMOS TODOS UM POUCO COLECIONADORES

A maioria das pessoas guarda objetos ou mesmo conteúdos digitais, como músicas e fotos, por prazer. Outras se sentem “forçadas” a acumular coisas sem valor, das quais não conseguem se separar. Pesquisadores buscam entender os processos cerebrais que tornam esse comportamento patológico.

 Talvez você não guarde bonequinhos, rolhas, selos, vidros de perfume, ursos de pelúcia ou relógios, nem carros ou obras de arte. Mas é possível que tenha um celular abarrotado de fotos ou músicas das quais não consegue se livrar, mesmo que raramente acesse esse material. Quem sabe mantenha mais sapatos do que pode usar nos próximos anos ou até livros em excesso. E na maioria dos casos esse comportamento não é especialmente prejudicial, desde que seja possível manter tais paixões sem grandes sacrifícios. Mas o que pensar de pessoas que enchem a casa de televisores usados, frigideiras velhas ou até sacos de lixo e simples- mente não conseguem resistir à vontade de juntar objetos sem nenhuma utilidade ou valor? A diferença entre colecionar e acumular pode ser sutil, mas em geral, no primeiro caso existe uma organização, uma lógica dentro do conjunto de objetos. Já o acumulador simplesmente estoca coisas de forma compulsiva e desordenada, sem dar sentido a elas.

No século 19, uma barra de ferro perfurou a parte anterior do cérebro de Phineas Gage. O incidente alterou seu caráter e o jovem operário americano, antes delicado e introspectivo, tornou-se violento e agressivo, incapaz de reagir racionalmente ou tomar decisões apropriadas às situações vividas.

Desde então, muitos estudos confirmam que os lobos frontais determinam em grande parte nossa capacidade de tomar decisões adaptadas ao contexto. Lesões nessa região do cérebro acarretam comportamentos estereotipados (com a repetição incessante do mesmo ato). Um deles nos interessa especialmente: o comportamento de preensão, no qual a pessoa pega maquinalmente todos os objetos que estiverem ao alcance da mão.

Há mais de três décadas o neurologista Pierre Lhermitte demonstrou que esse comportamento resulta de perda de atividade dos lobos frontais. Isso porque o córtex frontal introduz uma escolha em nossas ações e nos impede de agir como autômatos. Sem ele, agiríamos como autômatos: diante de comida, comeríamos; sentindo desejo sexual, copularíamos; caso apreciássemos um anel de brilhante exposto, simplesmente pegaríamos a joia. No âmbito psíquico, é a instância denominada superego, por Sigmund Freud, que é responsável por esse controle. Em linhas gerais, a voz introjetada de figuras de autoridade da infância, em especial nossos pais, nos diz que nem sempre é possível fazer o que desejamos e nossas atitudes têm consequências.

Do ponto de vista neurológico, o córtex frontal permite a deliberação, ao nos “lembrar” que o roubo é proibido, e nos dá meios para medirmos as consequências de nossos atos. Em pessoas que pegam objetos de modo incontrolável, essa região do cérebro deixa de inibir o reflexo de pegar, que existe desde quando somos bebês. O lobo frontal desses pacientes não reprime os lobos parietais, que podem comandar de maneira autônoma a preensão de objetos. Disso resulta uma maior dependência do sujeito a estímulos visuais e táteis. A simples visão de um objeto ou seu contato físico desencadeia um esquema comportamental automático de pegá-lo: a capacidade de selecionar um ou outro comportamento dependendo do contexto e de suas próprias capacidades se perde.

Para decidir por uma ação, o córtex pré-frontal recebe informações provenientes de regiões ditas associativas (áreas sensoriais táteis e visuais que fornecem dados sobre o exterior) e outras próprias do estado interno, as quais são tratadas pelo córtex para-límbico orbito frontal. Em conjunto, esses dados explicam por que os pacientes que sofreram lesões frontais se distraem tão facilmente, já que o córtex frontal é responsável pela capacidade de concentração. O colecionismo pode ser entendido, portanto, como uma forma de automatismo decorrente de uma disfunção do lobo frontal?

Com frequência, a obsessão por colecionar foi diagnosticada em pacientes com demência frontotemporal, síndrome consecutiva à degeneração dos neurônios do córtex frontal, caracterizada por distúrbios de comportamento e perda de memória. Um estudo feito com 133 pessoas com demência verificou que 22,6% delas sofriam de colecionismo. Esses pacientes muitas vezes tinham outros comportamentos repetitivos, como a bulimia ou a cleptomania. Em quase todos os casos, o funcionamento do córtex frontal estava alterado. Clinicamente, o colecionismo não diminui a ansiedade, mas impedir que a pessoa mantenha seus objetos desencadeia sentimentos de frustração e, eventualmente, manifestações de agressividade.

P., de 25 anos, apresenta um quadro autista desde a infância, e revela tendência colecionista. Ele acumula desordenadamente jornais velhos e guarda nos armários de seu quarto objetos que pega no lixo. Em seu caso, o colecionismo entra no plano dos atos repetitivos, automáticos e estereotipados, como o balançar incessante do corpo ou o consumo excessivo de líquidos, em geral água, a potomania. Em 73% dos psicóticos crônicos (por exemplo, pacientes com esquizofrenia), encontram-se condutas repetitivas, tais como as de acumulação. Segundo o psiquiatra Daniel Luchins e seus colegas da Universidade de Chicago, esses sintomas resultariam de anomalias no hipocampo; certas pesquisas, feitas com animais, demonstram que lesões hipocampais provocam a aparição de condutas repetitivas. Entretanto, na maior parte das vezes, é o lobo frontal que apresenta falhas.

Segundo o que se sabe hoje sobre os mecanismos fisiopatológicos dos comportamentos de preensão automática e de demências frontotemporais, os lobos frontais têm papel central no colecionismo. Contudo, é preciso ir além dessa simples descrição, pois a obsessão em acumular coisas é bem mais complexa que o fato de levar algo para casa. O neurologista Bruno Dubois, do Hospital de la Pitié-Salpêtrière, em Paris, examinou um paciente que sofria de colecionismo e apresentava lesões cerebrais particulares. Casado, pai de quatro crianças, o técnico em eletrônica de 40 anos foi operado duas vezes, num intervalo de cinco anos, de um meningioma olfativo, tumor benigno situado na base do crânio. Os primeiros distúrbios de comportamento apareceram dois anos após a segunda operação, quando ele passou a percorrer a cidade à procura de eletrodomésticos diversos.

COISA DE BICHO

Essas expedições seguiam um circuito específico e na véspera das coletas da prefeitura, dia em que tinha mais chances de encontrar os tais aparelhos. Depois de tê-los armazenado na sala, corredor e banheiro, passou a guardá-los no quarto da filha. Antes de ser hospitalizado, começou a empilhar televiso- res nos tubos de circulação de ar de sua casa. Ele tinha então 50 televisores usados, dez aparelhos de som quebrados, três geladeiras, sete máquinas de lavar roupa, seis aspirado- res de pó, três batedeiras, nove interfones e uma dezena de telefones.

O paciente acumulava também garrafas vazias, jornais velhos e sacos plásticos. Fora dos momentos de “coleta”, ele não fazia absolutamente nada. Houve vezes em que foi capaz de passar horas tomando banho e de ficar sentado quase metade do dia dentro do carro estacionado. Imagens de seu cérebro revelaram que o paciente apresentava volumosas lesões bilaterais nas regiões orbito- frontais, assim como lesões na cabeça dos dois núcleos caudados. Uma tomografia por emissão de pósitrons (PET) confirmou a hipoatividade dessas regiões.

Apesar das lesões, o relatório neuropsicológico destinado a avaliar a capacidade cognitiva desse paciente estava quase normal. Ele não era como os pacientes “autômatos” mencionados, podia definir seus atos em função do contexto e fazer raciocínios normais. Aparentemente, sua capacidade intelectual estava intacta: apesar das lesões frontais, ele não tinha síndrome de automatismo. Entre- tanto, era colecionista.

Os neurocientistas Paul Eslinger e António Damásio, então na Universidade de Iowa, já haviam constatado esse paradoxo em outro paciente. Também colecionista, o homem apresentava lesões no córtex orbito frontal (situado acima dos olhos), consequência da extração de um meningioma. Mais recentemente, ao descrever um caso de colecionismo consecutivo à ruptura de um aneurisma que havia causado lesão orbito frontal e do estriado, uma equipe coreana relatou o mesmo fenômeno: apesar das lesões, as faculdades cognitivas foram conservadas. Especialistas acreditam que, em certos casos, outras lesões além das do córtex frontal podem causar o mesmo comportamento. A questão é saber se existe um “circuito” do colecionismo. Chama atenção, por exemplo, a seletividade do objeto procura- do e do uso de estratégias de busca.

A estocagem teve função importante para a sobrevivência de nossa espécie. Ao longo dos séculos, muitos povos só conseguiram enfrentar períodos de escassez porque acumularam alimentos. Casos de colecionismo também estão presentes em animais. Não raro, são localizados objetos variados, como bolas de golfe, brinquedos e até mesmo de armas de fogo, em tocas de furões.

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Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 298

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 18-22

A Resposta de Cristo a um Escriba e a outro Homem

Aqui vemos:

I – A passagem de Cristo para o outro lado do mar de Tiberíades e a ordem dada a seus discípulos, cujos barcos o acompanharam, para que estivessem prontos (v. 18). A influência do Sol da Justiça não se restringiria a um único lugar, mas se espalharia por todo o país. Ele deve cuidar de fazer o bem; as necessidades das almas o chamavam: “Passa… e ajuda-nos” (Atos 16.9). Ele se retirava quando se via rodeado por grandes multidões. Embora o pedido do escriba desse a impressão de que eles o quisessem ali. Ele sabia que havia outros tão desejosos de tê-lo consigo, e que estes deveriam ter a sua parte. Para Jesus, ser aceito e útil em um lugar não era uma objeção, mas a razão para partir para outro. Dessa maneira, Ele testava as multidões que o cercavam, se o entusiasmo delas faria com que o seguissem e o acompanhassem quando a sua pregação se deslocasse para mais longe. Muitos ficariam contentes por tal ajuda, se pudessem tê-lo por perto, e não poupariam esforços para o seguirem até o outro lado. Desse modo, Cristo separava aqueles que eram menos zelosos, e os perfeitos se manifestavam.

II – A conversa de Cristo com dois homens que, com a sua passagem para o outro lado, relutavam em ficar para trás, e tinham em mente segui-lo, não como outros, que eram seguidores à distância. Eles queriam se envolver profundamente com o discipulado, o que a maioria tinha vergonha de fazer, pois isso transmitia um aspecto de rigor do qual eles poderiam não gostar, nem aceitar. Este é um relato sobre dois homens que pareciam desejosos de entrar em comunhão, embora não agissem corretamente. Aqui são mencionados exemplos dos obstáculos que impedem muitos de se aproximarem de Cristo, e de se dedicarem a Ele. E também um alerta para nós, para começarmos a seguir a Cristo, não deixando de colocar esse alicerce, para que a nossa casa espiritual possa estar firme.

Aqui temos Cristo cuidando de dois temperamentos diferentes, um rápido e ansioso, outro lento e pesado; e suas instruções são adequadas a cada um deles e preparadas para o nosso uso.

1.Aqui temos alguém que é rápido demais em prometer; e este era um certo escriba (v.19), um estudioso, um homem culto, um daqueles que estudavam e explicavam a lei; descobrimos nos Evangelhos que, geralmente, não eram homens de bom caráter; eram habitualmente associados com os fariseus, como inimigos de Cristo e de sua doutrina. “Onde está o escriba? (1 Coríntios 1.20). Os escribas raramente seguiam a Cristo; porém aqui estava um que era bastante promissor para o discipulado, um “Saul entre os profetas”. Observe:

2.Como ele expressou sua precipitação: “Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei”. Não conheço ninguém que pudesse ter dito melhor. A sua declaração sobre a sua dedicação a Cristo foi: [1] Muito ansiosa, e parece ser de sua tendência equilibrada. Ele não foi chamado por Cristo, nem encorajado por qualquer dos discípulos; mas por iniciativa própria, ele confessa ser um seguidor próximo de Cristo; ele não é um homem pressionado, mas um voluntário.

[2] Muito decidida. Ele parece ter tomado uma decisão quanto a este assunto. Ele não diz: “Eu tenho intenção de te seguir”, mas: “Estou decidido, eu o farei”.

[3] Ilimitada e sem reservas: “Aonde quer que fores, eu te seguirei”; não apenas ao outro lado do país, mas até as regiões mais remotas do mundo. Devemos pensar em nós mesmos como pessoas tão seguras de si como este homem; e ainda assim parece, pela resposta de Cristo, que esta resolução foi precipitada, e suas finalidades, vulgares e materiais. Ou ele não refletiu, ou não considerou o que dever ia ser considerado. Ele viu os milagres que Cristo realizou e esperava que Ele estabelecesse um reino terreno, e desejava se candidatar imediatamente a Ele. Note que existem muitas resoluções relativas à religião, produzidas por alguma angústia repentina de condenação, e tomadas sem a devida consideração; no final, elas fracassam e não resultam em nada. O que cedo amadurece, cedo apodrece.

1.Como Cristo testou sua presteza – se era sincera ou não (v. 20). Ele o fez saber que o Filho do Homem, a quem ele estava tão ansioso para seguir “não tem onde reclinar a cabeça” (v. 20). Neste ponto, a partir desta descrição da profunda pobreza de Cristo, observamos:

[1] Que é inerentemente estranho que o Filho de Deus, quando veio a este mundo, se colocasse em uma condição tão ruim, a ponto de não ter a conveniência de um lugar fixo para descansar, coisa que as mais humildes criaturas possuem. Uma vez que Ele decidiu adotar para si a nossa natureza, era de se esperar que Ele a adotasse em suas melhores condições sociais e circunstanciais; mas não, Ele a adota no seu pior aspecto. Veja aqui, em primeiro lugar, quão bem providas estão as criaturas inferiores: ”As raposas têm covis”; embora elas não sejam úteis, mas prejudiciais ao homem, ainda assim Deus lhes proporciona covis nos quais se refugiam: o homem se esforça para destrui-las, mas por essa razão elas são protegidas; seus covis são seus castelos. As aves do céu, embora não se cuidem, são cuidadas, e ” têm ninhos” (Salmos 104.17); ninhos no campo; algumas delas, ninhos nas casas; nos altares de Deus (SaImos 8 4.3). Em segundo lugar, quão pobres eram as provisões do Senhor Jesus. O fato de os animais terem provisões tão boas pode nos encorajar, e caso não tenhamos o necessário, o fato de nosso Mestre ter passado por isso antes de nós pode nos confortar. Note que o nosso Senhor Jesus, quando esteve neste mundo, submeteu-se às degradações e agonias da extrema pobreza. Por nossa causa, Ele se tornou pobre, muito pobre. Ele não tinha uma cidade, não tinha um lugar de repouso, nem uma casa sua, para reclinar a cabeça, nem seu próprio travesseiro sobre o qual apoiar sua cabeça. Ele e seus discípulos viviam da caridade de pessoas bem-intencionadas, que contribuíam para a sua subsistência (Lucas 8.2,3). Cristo se submetia a isto, não apenas para que pudesse, de todas as formas, se humilhar e cumprir as Escrituras, que falavam dele como pobre e necessitado, mas também para que pudesse nos mostrar a futilidade das riquezas do mundo, olhando para elas com um desprezo santo, para que Ele possa comprar para nós coisas melhores, e assim nos tornar ricos (2 Coríntios 8.9).

[2] É estranho que tal afirmação tenha sido feita nesta ocasião. Quando um escriba se ofereceu para seguir a Cristo, seria de se pensar que Ele o teria encorajado e dito: “Venha, e eu cuidarei de você”. Um escriba poderia lhe dar mais crédito e lhe prestar mais serviços do que doze pescadores. Mas Cristo viu o seu coração e respondeu aos seus pensamentos, e nesse ponto nos ensina como devemos nos chegar a Deus. Em primeiro lugar, a decisão do escriba parece ter sido repentina; e Cristo deseja que, se assumirmos uma profissão religiosa, nos sentemos e consideremos os custos (Lucas 14.28), para que o façamos com inteligência e reflexão, e que escolhamos o caminho da piedade, não porque não conheçamos outro, mas por não conhecermos um caminho melhor. Não é bom para a fé pegar os homens de surpresa, antes que eles estejam conscientes. Aqueles que assumem uma profissão religiosa angustiados a descartarão devido ao primeiro aborrecimento; permita, então, que gastem algum tempo, e eles decidirão o quanto antes; deixemos que aqueles que seguirão a Cristo conheçam o lado mais difícil desta decisão, e que estejam dispostos a viver em condições desfavoráveis. Em segundo lugar, a sua resolução parece ter se baseado em um avarento princípio material. Ele viu a abundância de curas realizadas por Cristo, e concluiu que Ele  recebia altos honorários, e assim logo juntaria muitos bens. Portanto, ele o seguiria na esperança de enriquecer junto com Ele; mas Cristo corrige seu erro e lhe diz que estava tão distante de ficar rico que não possuía sequer um lugar para reclinar a cabeça; e se aquele homem o seguisse, não poderia esperar ter uma condição melhor que a do próprio Senhor. Note que Cristo não aceitará como um de seus seguidores alguém que aspire benefícios materiais ou planeje alcançar, por meio da sua fé, algo que não seja o céu. Temos razão para acreditar que este escriba, depois disso, tenha se retirado triste, ficando desapontado com uma negociação da qual ele pensava tirar proveito – Ele não seguiria a Cristo, a menos que pudesse alcançar alguma vantagem material através do Salvador.

2.Aqui está outro que demora muito para atender o chamado. A demora na execução é tão má, por um lado, quanto a precipitação nas decisões o é, por outro. Quando pensamos e depois decidimos, jamais devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Este candidato ao ministério já era um dos discípulos de Cristo (v. 21), um seguidor à distância. Clemente de Alexandria nos conta, a partir de uma antiga tradição, que este era Filipe. Ele parece ser mais qualificado e disposto do que o anterior, pois não era tão confiante e presunçoso. Um caráter arrojado, ansioso e excessivamente entusiasmado pode não ser, necessariamente, o mais promissor quando se trata de fé; às vezes, os últimos são os primeiros, e os primeiros, os últimos. Agora observe aqui:

(1).A desculpa dada por este discípulo para adiar a decisão de seguir a Cristo de imediato (v. 21): “Senhor, permite-me que, primeiramente, vá sepultar meu pai”. Em outras palavras: “Antes que me torne teu seguidor fiel e permanente, permita-me que realize esse último ato de respeito ao meu pai; e, por enquanto, permita que seja suficiente que eu seja um ouvinte ocasional teu, quando dispuser de algum tempo”. Alguns pensam que seu pai estava doente ou mor rendo, ou morto; outros pensam que era apenas idoso e que, em um curso natural, não viveria por muito mais tempo; e que, sendo as­ sim, este discípulo desejava partir para cuidar dele em sua enfermidade, sua morte e seu funeral, e depois serviria a Cristo. Isto parecia um pedido razoável, porém ainda assim não foi apropriado. Ele não teve o zelo que devia ter pelo reino e por isso fez esse pedido, pois parecia um pedido plausível. Note que a uma mente relutante, nunca faltam desculpas. A falta de tempo livre vem da falta de disposição. Nós temos a tendência de supor que isso vinha de um verdadeiro afeto filial e respeito por seu pai, porém ainda assim a preferência deveria ter sido dada a Cristo. Note que muitos são impedidos e obstruídos de ter uma devoção sincera, por se preocuparem em excesso com suas famílias e parentes; essas coisas legítimas arruínam a todos nós, e nosso dever para com Deus é negligenciado e postergado, sob o pretexto de pagarmos nossas dívidas para com o mundo; neste ponto, portanto, temos a necessidade de dobrar a nossa guarda.

(2).A reprovação dessa desculpa por Cristo (v. 22). Jesus lhe disse: “Segue-me”; e, sem dúvida, esta palavra estava envolta pelo poder do Senhor, como ocorreu no caso de outros, e ele realmente seguiu a Cristo e permaneceu fiel a Ele, como Rute a Noemi, enquanto o escriba, nos versículos anteriores, como Orfa, o abandonou. Este disse: “Eu te seguirei”; a este Cristo disse: “Segue-me”. Comparando-os um ao outro, fica sugerido que somos levados a Cristo pela força do chamado que Ele nos faz, e não pelas promessas que fazemos a Ele: “Pois isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”. Ele chama a quem quiser (Romanos 9.16). E, ainda mais, note que embora vasos escolhidos possam dar desculpas, e atrasar a sua adesão aos chamados divinos por muito tempo, mesmo assim Cristo responderá, detalhadamente, às suas desculpas, subjugará suas relutâncias, e os trará a seus pés. Quando Cristo chama, Ele domina e torna o chamado efetivo (1 Samuel 3.1O). A desculpa desse discípulo é posta de lado como inadequada: “Deixa aos mortos sepultar os seus mortos”. É uma expressão proverbial: “Deixe que um morto enterre a outro; mais exatamente, deixe-os insepultos, em vez de negligenciar a obra de Cristo. Deixe que os espiritualmente mortos enterrem os fisicamente mortos; deixe que os trabalhos terrenos fiquem para as pessoas terrenas; não se sobrecarreguem com eles. Enterrar os mortos, especialmente um pai, é urna boa obra, mas não é o seu trabalho neste momento; ele pode, muito bem, ser feito por outros que não sejam qualificados e chamados como vocês para a obra de Cristo; vocês têm outra coisa a fazer, e não devem adiá-la”. Note que a devoção a Deus deve ter preferência em relação à devoção aos pais, embora essa seja uma parte importante e indispensável da religião. Os nazireus, de acordo com a lei, não deveriam lamentar por seus próprios pais, pois eles eram “separados para o Senhor” (Números 6.6-8); nem devia o sumo sacerdote se contaminar com os mortos, nem mesmo por causa de seus pais (Levíticos 21.11,12). E Cristo requer que aqueles que quiserem segui-lo aborreçam “a seu pai, e mãe” (Lucas 14.26); ame-os menos do que a Deus. Nós devemos, comparativamente, desconsiderar os nossos parentes mais próximos quando eles entram em competição com Cristo, com aquilo que fazemos por Ele, ou com os sofrimentos que enfrentamos por amor a Ele.

GESTÃO E CARREIRA

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DIVÃ DIGITAL

O Grupo de Pesquisa em Computação Afetiva, do MIT, trabalha para que relógios deem conta do estresse do cotidiano.

Imagine-se, além de mostrar as horas, seu relógio de pulso oferecer uma “previsão meteorológica” do seu humor para os próximos dias. Imagine se esse relógio informar que seu nível de tensão subirá 40% no dia seguinte. De posse dessa informação, você decidirá deitar mais cedo e ter uma boa noite de sono? Ou marcará um café da manhã com aquele amigo divertido, que sempre faz você dar risada e relaxar?

Esse relógio é o sonho de Rosalind Picard, engenheira de computação, fundadora e diretora do Affective Computing Research Group (Grupo de Pesquisa em Computação Afetiva), que funciona no Media Lab do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Rosalind e sua equipe estudam formas de prever tensão e ansiedade. Batizada de Empática, a startup criada por ela vende sensores vestíveis — os famosos wearables — que identificam e interpretam sinais psicológicos emitidos pelo estresse. O principal pro- duto da Empática é o Embrace, um relógio inteligente, de design moderno, dotado de um sensor médico avançado e algoritmos de aprendizado de máquinas. Criado originalmente para portadores de epilepsia, o aparelho usa a atividade elétrica da pele do usuário para rastrear crises. No início de fevereiro, o Embrace tornou-se o primeiro smartwatch a ganhar o selo de dispositivo médico da FDA (a Agência de Alimentos e Drogas, braço do governo americano que regula os dois setores e também equipamentos de saúde). Um ensaio clínico comparou a eficácia do relógio com a de três neurologistas. Num acompanhamento de 135 pacientes ao longo de 272 dias, o Embrace identificou as crises dos participantes em 100% das ocasiões. Embora o aparelho tenha cravado um importante marco, a empresa quer ampliar sua atuação para outras condições neurológicas, como autismo e depressão. A Empática pretende, um dia, ajudar também pessoas sem nenhum problema importante de saúde a enfrentar o estresse do cotidiano. CEO e um dos fundadores da companhia, Matteo Lai usa as ondas do mar como metáforas para explicar o desafio enfrentado pela Empática. Quem estuda ondas começa pelos tsunamis, e só depois compreende o funcionamento de movimentos menores e sutis. O tsunami escolhido pela empresa foi a epilepsia. Agora, a ideia é prever ondas menores, como depressão e autismo. Quando comparadas à intensidade de uma crise epilética, as mudanças fisiológicas ocorridas no corpo de alguém estressado parecem discretas marolas.

Embora seja mais difícil identificar ansiedade e tensão do que um surto, a previsão dessas situações obedece a uma lógica inversa. Há muito mais informação disponível sobre o estresse, e é possível usar também outras fontes de dados além do corpo — tais como a intensidade e a frequência do uso do celular. Em agosto do ano passado, Rosalind e um grupo de integrantes do laboratório publicaram um estudo sobre a aplicação do aprendizado de máquinas na previsão do humor de estudantes universitários. Os resultados alcançaram uma precisão que variou de 78% a 86%. As pesquisas sobre previsões, porém, não estão maduras o bastante para ser aplicadas ao Embrace. Para a diretora do laboratório, o trabalho só será útil aos usuários do relógio se vier acompanhado de sugestões para melhorar o humor — encontrar amigos, caminhar, dormir cedo. Por isso, embora a tecnologia de previsões esteja avançando, a ideia é postergar a aplicação da “previsão meteorológica” de humores aos aparelhos vestíveis até o momento em que seja possível oferecer, também, maneiras de ajudar o consumidor a se sentir melhor. Ainda que o Embrace tenha sido certificado pela FDA como um dispositivo capaz de identificar crises, antecipar esses surtos — ou qualquer episódio relacionado a estresse, como os ataques que às vezes acometem autistas — é bem mais complicado. Mesmo assim, o desafio está na mira da Empática.

“A personalização permite acumular dados específicos sobre cada pessoa, alimentados por um relógio ou celular”, explica Rosalind. “Com o tempo, esse conhecimento científico vai ajudar cada indivíduo a entender os próprios padrões, e não a média de um grupo de pessoas — porque algumas podem ser um ponto fora da curva. Não será possível dizer com 100% de certeza: ‘você vai ter uma crise de tal tipo, em tal horário’. Mas poderemos dizer que, amanhã, a probabilidade é mais alta. E isso talvez ajude a pessoa a ter um dia melhor.” A capacidade dos algoritmos de aprender sobre os hábitos e padrões de seres humanos específicos significa trazer informações verdadeiramente personalizadas. Isso só é possível graças ao aprendizado das máquinas (via algoritmos) e a volumes gigantescos de dados. Lai explica que prever crises é especialmente complicado, já que elas não são acontecimentos costumeiros do dia a dia. Por isso, é preciso mais tempo até que o algoritmo aprenda quais fatores causam surtos numa pessoa — pois esses fatores variam de um indivíduo para o outro. A despeito dessas dificuldades, existe um tremendo potencial na ideia de que as máquinas podem ajudar portadores de epilepsia a entender melhor os gatilhos que disparam seus ataques, e fazer com que eles saibam quando estão mais suscetíveis.

A epilepsia, continua Lai, é usada há anos como um caminho para descobrir os segredos do cérebro humano. Um exemplo: pacientes com epilepsia foram fundamentais para estudos sobre o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais. Por extensão, os dados sobre epilepsia acumulados pelo Embrace podem ser aplicados a pessoas com autismo e depressão — e até mesmo a quem experimenta situações de estresse com grande frequência. Pouca gente compreende ou estuda a relação entre diferentes fatores do cotidiano, como sono e atividade física, e o impacto disso na sensação geral de bem-estar. “Não importa se estamos falando de dor, tensão ou depressão. De maneira geral, é difícil compreender ou explicar o que está acontecendo nessas situações”, afirma Rosalind. “Muita gente não entende muito bem o que acontece no próprio organismo. ‘Tudo bem, estou meio cansada ou irritadiça. É assim com todo mundo’, pensamos. ‘É o noticiário político, é esse tempo maluco.’ Em todas essas circunstâncias, o ambiente ao nosso redor oferece micro indícios do que pode acontecer. Mas eles são tão pequenos que a gente nem percebe. No entanto, se somarmos 100 mil micros indícios ocorridos nos últimos meses, a coisa pode chegar a um estado preocupante.” Um wearable pode dar às pessoas mais conhecimentos sobre os próprios padrões. Isso representa a possibilidade de ajustar aquilo que não vai bem. Quase nunca descrevemos nosso próprio humor de maneira precisa, explica Rosalind. Uma máquina capaz de acompanhar essas variações pode ser uma ferramenta para enfrentar o estresse, não importa a forma com que ele se apresenta. Aí o Embrace entra em cena. Ele é uma plataforma com a habilidade de registrar e extrair padrões de tudo o que acontece no cérebro. Um único e pequeno aparelhinho médico, que carregamos junto ao corpo, com a capacidade de entender e organizar todas essas in- formações. Isso se as pessoas toparem participar.

Rosalind é inflexível: a empresa nunca vai coletar ou usar dados pessoais para pesquisas sem a autorização expressa dos usuários do Embrace. “É fundamental sermos absolutamente respeitosos e tratar essas informações com o mais alto grau de sensibilidade e privacidade”, diz. Um aparelho que coleta dados pessoais pode organizá-los e ajudar quem sofre de um complicado distúrbio neurológico. Mas vivemos num mundo em que cidadãos estão   cada vez mais preocupados com a privacidade dos dados pessoais. Diante disso, teremos de decidir: estamos dispostos a oferecer ainda mais e mais informações particulares em troca de uma vida mais saudável?

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA

Aquém da mente para além do corpo

AQUÉM DA MENTE PARA ALÉM DO CORPO

Todos nós apresentamos marcas físicas e mentais resultantes de vínculos e experiências acumulados desde o início da vida. Vivências perturbadoras, conflitos, frustrações, perdas e traumas também deixam vestígios, causando carência ou empobrecimento de recursos emocionais, que se expressam por vias psíquicas e somáticas

 A organização pulsional marca a transcendência do humano da condição biológica para a condição de sujeito. Atravessada pelo desejo, ela é modulada, desde o nascimento, e talvez mesmo antes disso, pelas marcas das relações da criança com seu semelhante. São também essas relações que tecem em torno do corpo a trama entre as pulsões de vida e de morte, forjando a diversidade de formas e organizações que constituem a economia psicossomática, em suas infinidades de expressões normais e patológicas de dor e de prazer. Fluidez e rigidez, precariedade e consistência, organização e desorganização caracterizam a plasticidade da trama pulsional que pauta a clínica contemporânea, muitas vezes marcada por dinâmicas mais primitivas, aquém da linguagem e da representação.

Dinâmicas arcaicas, atuações e somatizações revelam pacientes refratários aos enquadres psicanalíticos e psicoterapêuticos clássicos. A clínica médica e a de outras especialidades da saúde também são desafiadas por essas dinâmicas na anamnese, no diagnóstico e nas mais diversas modalidades terapêuticas.

Tanto nas instituições de saúde como na clínica particular, profissionais são confrontados com dificuldades semelhantes, que se manifestam por meio de quadros que vão desde doenças orgânicas até distúrbios comportamentais, passando por manifestações borderlines, adicções, transtornos de caráter e alimentares e inúmeros outros. Muitos desses sintomas, doenças e pacientes revelam-se inacessíveis aos recursos em pregados para compreendê-los e tratá-los.

Em alguns casos, há dificuldades para se chegar a um diagnóstico, apesar de investigações exaustivas e consultas a vários especialistas, comprometendo a definição das estratégias terapêuticas. Em certos pacientes, a história da doença ou os prognósticos de um tratamento subitamente apresentam mudanças bruscas e surpreendentes. Dificuldades como essas, evoluções inesperadas e quadros clínicos inespecíficos são frequentemente caracterizados como “psicossomáticos”, “somatizações”, quadros “idiopáticos”, “funcionais”, “sem explicação médica”, entre outros.

Na clínica médica, a dificuldade em apreender e compreender a etiologia do adoecimento dos pacientes, apesar dos avançados recursos diagnósticos e terapêuticos, leva a atribuir o que lhes escapa a fatores ditos “emocionais”, “psicológicos” ou “psicogênicos”.

No campo da saúde mental, os profissionais, psicoterapeutas e psicanalistas em particular, são desafiados por formas bastante desorganizadas de expressão do sofrimento humano. Não apenas por manifestações corporais mais graves e distintas dos clássicos quadros histéricos, mas, também, por expressões onipotentes e indiferenciadas do narcisismo, manifestações exacerbadas do ego ideal e formações primitivas do superego, e muitas outras que evidenciam a carência ou a precariedade dos mecanismos do recalcamento, a impossibilidade do reconhecimento da castração e da alteridade, a ausência  de transicionalidade  que tornam o sujeito dependente e cativo do desejo do outro, impermeável à transferência e à interpretação.

Essas manifestações somáticas e psíquicas são frequentemente acompanhadas por expressões precárias de recursos psíquicos, fantasmáticos, oníricos e relacionais, denotando limitações dos recursos de ligação pulsional, dos afetos e representações, dinâmicas que favorecem descargas pelo comportamento e desorganizações somáticas, em casos extremos graves e mortíferas. Elas revelam uma complexidade que solicita uma compreensão mais profunda que a dos usos coloquiais e, algumas vezes, científicos do termo “psicossomática”, que reduzem essa concepção a sintomas e doenças orgânicas que seriam determinadas ou agravadas por fatores psíquicos.

 ORGANIZAÇÃO E DESORGANIZAÇÃO

Tanto doenças como manifestações típicas do desenvolvimento revelam a existência de uma continuidade funcional do que denominamos economia psicossomática. Algumas circunstâncias da vida humana são predominantemente marcadas por expressões e manifestações orgânicas (como fome, riso, choro, tremores, dores de cabeça, indigestão ou cardiopatias) e outras, por meio de funções mentais (como pensamentos, fantasias, sonhos e neuroses). Em ambas, articuladas em diferentes formas e proporções, estão implicados processos biológicos, fisiológicos, comportamentais e psíquicos constituindo uma mesma e única economia psicossomática do indivíduo.

Desde a concepção, durante a gestação, após nascimento e ao longo do desenvolvimento, observamos em cada pessoa movimentos e marcas de integração, organização e hierarquização de funções e vivências corporais, relacionais e psíquicas. Quando as pessoas enfrentam vivências perturbadoras de conflitos, frustrações, perdas (algumas vezes traumáticas), é possível constatar movimentos de sentido oposto, de desintegração, desorganização e precarização de funções e hierarquias estabelecidas. Esses movimentos se manifestam por meio da carência ou do empobrecimento de recursos representativos, relacionais e emocionais desenvolvidos ao longo da vida e revelam a continuidade evolutiva de diferentes dimensões da experiência de cada indivíduo, que se expressa, por vias somáticas, psíquicas e comportamentais, normais ou patológicas.

A natureza, a qualidade, a consistência e a fluidez dos recursos da economia psicossomática estruturam-se ao longo da história de cada um, a partir de fatores constitucionais, por meio das interações com o ambiente e com os outros. Na infância e no puerpério, principalmente, a mãe e todo aquele que cuida da criança tem uma função primordial na mediação e promoção desses processos.

O equilíbrio psicossomático é fruto da relação entre a qualidade, complexidade e consistência dos recursos desenvolvidos pelo indivíduo ao longo de sua vida e a natureza e intensidade de experiências pessoais, sociais e orgânicas que podem perturbá-lo.

Quando da existência de recursos mais organizados e complexos da economia psicossomática, de ordem representativa, afetiva e mental, a perturbação causada por uma vivência pode encontrar um equilíbrio por meio de manifestações psicopatológicas (neuroses, psicoses e outras). Quando os recursos mais organizados e evoluídos da economia psicossomática não foram suficientemente desenvolvidos ou quando se perdem em função da intensidade desorganizadora de uma experiência, um novo equilíbrio pode ser buscado, por meio de movimentos regressivos no sentido contra evolutivo do desenvolvimento, em patamares menos organizados e mais primitivos, por descargas pelo comportamento (transtornos alimentares, toxicomanias, descargas impulsivas e outros) ou no extremo, de desorganizações somáticas (dores, sintomas e doenças orgânicas, agudos ou crônicos). Apesar de capazes de colocar em risco a integridade funcional, anatômica e mesmo a vida da pessoa, é importante considerar que mesmo as formas mais desorganizadas e patológicas do fenômeno psicossomático são ainda tentativas de (re) equilibrar essa economia.

Assim, é possível compreender e tratar o adoecimento, em suas diferentes formas de expressão – psíquica, somática ou comportamental –, como um processo multifatorial que resulta de uma combinação de fatores internos, externos, pessoais, ambientais, familiares, de movimentos de desorganização interna da economia psicossomática, potencialidades somáticas constituídas por eventuais fragilidades ou predisposições somáticas a doenças específicas, rebaixa- mento do tônus vital, falhas transitórias ou crônicas nas relações com objetos privilegiados investidos pelo indivíduo. Esses processos podem ser potencializados por experiências de vida perturbadoras e traumáticas, e também por mudanças próprias a diferentes fases da vida como na infância (nascimento de irmãos, mudanças de escola), adolescência (mudanças corporais e questões de identidade), na passagem para a idade adulta (escolhas vocacionais, experiências profissionais, casamentos, separações e parentalidade), e o envelhecimento (mudanças corporais, aposentadoria, morte de pessoas próximas), perdas e outras situações que sobrecarregam os recursos da economia psicossomática.

 DESAFIOS TERAPÊUTICOS

A teoria e a clínica psicanalíticas há muito revelaram as articulações entre as funções corporais e mentais, bem como os desdobramentos patológicos das perturbações dessas articulações. Elas evidenciam diferentes aspectos das relações intrínsecas entre as bases anatômicas e fisiológicas do organismo e o funcionamento psíquico, destacando seu papel de mediador de experiências, processos e estímulos oriundos tanto do organismo como do mundo exterior.

No corpo originam-se e se articulam os instintos, as pulsões, a sexualidade, a libido, as funções psíquicas, assim como as marcas e consequências do encontro do sujeito com o outro humano e com o mundo, configurando, assim, as dimensões metapsicológicas do aparelho psíquico, do narcisismo, das relações de objeto e da economia psicossomática. É também a partir da cena corporal que são vividas as experiências de prazer e desprazer, fundando e delineando a possibilidade de subversão e transcendência do corpo anatômico para as vivências do corpo erógeno, passível, em certas circunstâncias, de desorganizar funções fisiológicas e orgânicas.

Apesar da riqueza dessas hipóteses referentes ao corpo, é curioso constatar que durante muito tempo prevaleceram na psicanálise as restrições inicialmente preconizadas por Freud para o tratamento de uma ampla gama de manifestações corporais.

Por um lado, pautada pela perspectiva do recalcamento e dos mecanismos psíquicos de defesa, a clínica freudiana desenvolveu recursos importantes para o trabalho de elaboração dos sentidos simbólicos e representativos dos sintomas e seus derivados de uma ampla gama de manifestações psicopatológicas, no campo das psiconeuroses (histeria, neurose obsessivas, fobias), psicoses e perversões. Porém, ao mesmo tempo, Freud evidenciou as dificuldades e, mesmo, a impossibilidade da utilização da técnica psicanalítica, tal como a preconizava, no tratamento das neuroses atuais (de angústia e traumática, neurastenia e hipocondria), bem como doenças orgânicas, nas quais a descarga pulsional se dá diretamente pelas vias corporais, com pouca ou nenhuma derivação ou elaboração mental da excitação, ou seja, dinâmicas “aquém do recalcamento”, distintas e mais primitivas que as dos mecanismos neuróticos.

Os quadros derivados da neurose atual, descritos por Freud e ainda mais frequentes na clínica contemporânea, são marcados pelo vazio, pelo desamparo, pela hiperadaptação à realidade, pela autodepreciarão, por comportamentos de risco e pela violência larvada ou explícita das anorexias, das adicções, das descargas impulsivas e da sintomatologia somática, entre outros. Eles são frequentemente refratários ao trabalho livre associativo e à atenção flutuante, dificilmente acessíveis ao trabalho de figuração, ao discurso e aos enquadres clássicos e regressivos de uma análise e de muitas psicoterapias. Nessas condições ficam também perturbadas, não apenas em processos analíticos, condições diagnósticas, condutas terapêuticas e a adesão aos tratamentos, clínicos, farmacológicos e de outras ordens. As contribuições do psicanalista Sándor Ferenczi foram fundamentais para a superação desses impasses terapêuticos. Reconhecendo o potencial teórico e clínico da psicanálise para compreender as relações entre o corpo e o psiquismo, mesmo em suas formas não representativas, ele preconizou mudanças na postura, na forma de observação e de escuta do analista, e também modificações no dispositivo clínico para lidar com traumatismos e dimensões mais primitivas, pré-verbais e corporais, do funcionamento dos pacientes com manifestações das neuroses atuais e doenças orgânicas e com dinâmicas a elas assemelhadas. Ao mesmo tempo, ele convidou os médicos a perceberem a importância das vivências psíquicas e da história de vida de seus pacientes, a serem somados aos recursos da medicina para melhor compreendê-los e tratá-los. Muitos dos pioneiros da psicossomática, como Groddeck, Franz Alexander, Ballint foram inspirados por essas concepções.

Graças a essa ampliação, e também ao interesse crescente da psicanálise pela compreensão do infantil, das primeiras vivências do bebê e suas relações com o ambiente, psicanalistas como D. Winnicott, P. Marty, L. Kreisler, Ch. Dejours, O. Kerneberg, J. McDougall, P. Fédida, A. Green, M. Aisenstein entre muitos outros, dedicaram-se à reflexão metapsicológica e ao desenvolvimento de recursos clínicos para o tratamento das manifestações primitivas e não representativas da linhagem das neuroses atuais, como transtornos alimentares, impulsivos, ansiosos, adicções e quadros borderlines.

A partir de novas hipóteses e manejos clínicos, progressivamente consolidou-se a compreensão da plasticidade pulsional que permite vislumbrar e entender a continuidade funcional e as oscilações entre formas mais desorganizadas de manifestações da economia psicossomática (somáticos e comporta- mentais) e os quadros clássicos da psicopatologia (nos quais predominam expressões mentais). Fruto de diferentes níveis e formas de integração entre vivências corporais e o tecido psíquico, esses movimentos podem ser acompanhados nos processos terapêuticos por meio de suas manifestações transferenciais e contratransferências.

Em processos psicanalíticos ou psicoterapêuticos, é possível observar, entre diferentes pacientes e, ao longo do tempo, em um mesmo paciente, alterações da consistência, da intensidade e dos afetos transferenciais, moduladas pelo ritmo, conteúdo e coloração afetiva da associação livre, dos sonhos e de fantasias, reflexos das oscilações da economia psicossomática. As mudanças de padrões associativos, discursivos, afetivos e transferenciais são sinalizadores preciosos para identificar movimentos de organização e de desorganização dessa economia, indicando tanto avanços no trabalho terapêutico como alertando para riscos de descargas pelo comportamento e sintomatologia somática.

As dinâmicas mais primitivas, aquém do recalcamento e da resistência neurótica manifestam-se pelo empobrecimento da trama transferencial e pelo retraimento libidinal, algumas vezes extremo, “aquém do narcisismo”, confrontando o terapeuta com descargas pulsionais diretas sem mediação representativa. Nessas condições o espaço terapêutico precisa se constituir como espaço de continência, depositário de experiências corporais, perceptivas, sensoriais e motoras mais primitivas, para permitir que, por meio da relação terapêutica, elas possam adquirir densidade representativa através de um trabalho ativo de figuração, passível de elaboração e de transformação.

Por sua vez, a contratransferência é um importante recurso para a apreensão de vivências primitivas não representadas do paciente que, muitas vezes, mobilizam sensações corporais do terapeuta. Uma vez elaboradas pelo terapeuta e compartilhadas na relação, elas podem passar a ser representa- das pelo paciente. Na trama transferencial, mediadas pela função materna do terapeuta e pelo holding, a elaboração dessas formas de comunicação mais primitivas podem propiciar a reorganização narcísica e objetal do paciente, promovendo os recursos de ligação entre as pulsões de vida e de morte, necessários para lidar com conflitos e vivências traumáticas, bem como para estancar e reorganizar os movimentos desorganizadores da economia psicossomática.

Apesar das diferenças de enquadre e de contexto, movimentos semelhantes podem ser observados em processos terapêuticos com outros profissionais de saúde. Nas for- mas mais graves e manifestas das desorganizações psicossomáticas, são naturalmente necessárias intervenções e terapêuticas específicas, médicas e de outras áreas. A ampliação da observação e da escuta do médico desses processos pode aumentar a eficácia de suas estratégias diagnósticas e terapêuticas. A complexidade de tais desorganizações convida a reconhecer, para além de técnicas específicas, a importância da relação terapêutica com o profissional como instrumento adicional para a reorganização e o fortalecimento dos recursos da economia psicossomática do paciente, com vistas a promover o equilíbrio dessa economia em patamares mais organizados, diminuindo o risco à integridade funcional do paciente.

De forma semelhante, o trabalho terapêutico adjuvante em uma perspectiva interdisciplinar, com outras especialidades (fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, psicopedagogia, e outras, adequadas ao quadro do paciente) e atividades mediadoras complementares (artísticas, esportivas, sociais) podem também contribuir para tais objetivos. No contexto institucional, a compreensão dos movimentos da economia psicossomática é favorecida pela integração entre os diferentes profissionais que acompanham o paciente e pela atenção às transferências paralelas estabelecidas com cada um deles. O reconhecimento da equipe terapêutica como caixa de ressonância das vivências do paciente permite a identificação, a elaboração e a possível transformação dos processos de desorganização psicossomática.

Todas essas experiências revelam que nos processos naturais da vida, do desenvolvimento, da saúde e da doença, a com- preensão da plasticidade pulsional manifesta nas oscilações e diferentes expressões da economia psicossomática permite a ampliação dos horizontes não apenas clínicos, mas também educacionais, sociais e ambientais do humano.

 

 RUBENS MARCELO VOLICH – é psicanalista, doutor pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot, professor do curso de especialização em psicossomática psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. É autor, entre outros livros, de Psicossomática: de Hipócrates à Psicanálise (Casa do Psicólogo – Coleção Clínica Psicanalítica, 2000) e Co organizador e autor dos livros da série Psicossoma (Casa do Psicólogo).

 

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 5-13

Cristo Cura o Servo do Centurião

Temos aqui um relato da cura realizada por Cristo do criado de um centurião. Ele era paralítico. Isso aconteceu em Cafarnaum, onde Cristo morava agora (cap. 4.13). Cristo andava fazendo o bem, e veio para casa fazer o bem também; todo lugar aonde Ele ia era bom para Ele.

As pessoas com quem Cristo tinha agora que tratar eram:

1.Um centurião. Este era um suplicante, um gentio, um romano, um oficial do exército; provavelmente comandante-em-chefe daquela parte do exército romano que estava aquartelada em Cafarnaum, e mantinha soldados ali.

(1) Embora fosse um soldado (homens dessa profissão geralmente são pouco piedosos), ainda assim ele era um homem religioso; ele era eminentemente religioso. Note que Deus tem seus remanescentes em meio a todos os tipos de pessoas. Nem a profissão nem o lugar de um homem no mundo serão uma desculpa para a sua incredulidade e impiedade; ninguém dirá no grande dia: Eu teria sido consciencioso se não tivesse sido um soldado; pois existem soldados entre “os resgatados do Senhor”. E, às vezes, onde a graça conquista as pessoas mais improváveis, ela se mostra como uma graça mais do que conquistadora; esse soldado, que era bom, passou a ser muito melhor.

(2) Embora ele fosse um soldado romano, e o próprio fato de habitar entre os judeus fosse um símbolo da subserviência destes ao jugo romano, Cristo, que era o “Rei dos judeus”, o favoreceu; e desse modo nos ensinou a fazer o bem aos nossos inimigos, e a não procurarmos inimizades desnecessárias entre as nações.

(3) Embora ele fosse um gentio, mesmo assim Cristo o auxiliou. É verdade, Ele não entrou em nenhuma das cidades dos gentios (era a terra de Canaã, a terra do Emanuel, Isaías 8.8), mas ainda assim Ele aceitava que os gentios se dirigissem a Ele; agora a profecia do velho e bom Simeão começava a se cumprir: que ele deveria ser uma “luz para alumiar as nações e para glória de teu povo Israel”. Mateus, ao mencionar esta cura juntamente com a do leproso que era judeu, sugeriu isso: Cristo tocou e curou os leprosos judeus, pois ele pregou pessoalmente para eles; mas Ele curou o gentio paralítico à distância, pois a eles Ele não foi em pessoa, mas enviou a sua palavra e o curou. Apesar disso, Ele foi mais exaltado entre os gentios.

2.O criado do centurião. Era o paciente. Nisto também parece não haver preferência de Deus pelas pessoas; pois como em Jesus Cristo “não há circuncisão nem incircuncisão”, assim também não há “servo ou livre”. Ele está pronto para curar tanto o mais pobre criado, como o senhor mais rico; pois Ele “tomou a forma de servo” para mostrar sua consideração para com os mais pobres.

Na história da cura desse criado, nós podemos observar uma relação ou alternância de graças, muito digna de nota entre Cristo e o centurião. Veja aqui:

I – A graça do centurião atuando em relação a Cristo. Pode qualquer coisa boa advir de um soldado romano? Qualquer coisa tolerável, e, mais ainda, qualquer coisa louvável? Venha ver, e você encontrará uma abundância de bondade surgindo desse centurião, que era eminente e exemplar. Observe:

1.Sua retórica cortês para com Jesus Cristo, que se expressa em:

(1) Uma humilde saudação ao nosso grande Mestre, corno alguém capaz e disposto a socorrer e a aliviar solicitantes pobres. Ele veio a Cristo suplicando, não como Naamã, o sírio (também um centurião) veio a Eliseu, exigindo a cura, fazendo imposições e apoiando-se em questões de honra; mas humildemente como um pobre solicitante. Por isso parece que ele viu em Cristo mais do que Ele aparentava à primeira vista; viu aquilo que os comandados respeitam, embora para aqueles que não olhassem mais atentamente, seu semblante não teria uma aparência melhor do que a de qualquer outro homem. Os oficiais do exército, estando no controle da cidade, sem dúvida eram muito importantes. Mesmo assim, este centurião coloca de lado a mentalidade típica do seu alto posto quando se dirige a Cristo, e chega a Ele implorando. Note que os maiores homens devem se tornar como pedintes, quando precisam tratar com Cristo. Este reconhece a soberania de Cristo, ao chamá-lo de Senhor, e ao entregar o caso a Ele, à sua vontade e sabedoria, através de uma modesta apresentação, sem qual­ quer apelo formal e expresso. Ele sabia que precisava tratar com um médico sábio e benevolente, a quem a exposição da doença era equivalente ao pedido mais fervoroso e sincero. Uma humilde confissão de nossas necessidades e enfermidades espirituais e físicas não deve ficar sem uma resposta tranquilizadora. Derrame a sua queixa, e a misericórdia será derramada.

(2) Uma atenção caridosa para como seu pobre criado. Nós lemos sobre muitos que vieram a Cristo pedindo por seus filhos, mas este é o único caso de alguém que veio a Ele por causa de um criado: “Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico e violentamente atormentado”. Note que é dever dos senhores preocuparem-se com os seus criados quando estes estão aflitos. A paralisia incapacitou o criado para o seu trabalho, e o tornou tão problemático e tedioso quanto qualquer doença grave é capaz de fazer. Ainda assim este centurião não o mandou embora quando estava doente (como aquele amalequita fez com seu criado, 1 Samuel 30.13), não o enviou para seus amigos, nem o negligenciou como a alguém inútil, mas procurou o melhor socorro que podia para ele; o criado não poderia ter feito mais pelo seu senhor do que o seu senhor fez aqui por ele. Os criados do centurião eram muito obedientes a ele (v. 9), e aqui vemos o porquê disso; o centurião era muito gentil com eles, e isso os tornou carinhosamente obedientes a ele. Assim como não devemos desprezar os motivos de nossos criados, quando estes contendem conosco (Jó 31.13,15), da mesma forma não podemos desprezar a sua situação, quando Deus contende com eles; porque somos feitos nos mesmos moldes, pela mesma mão, e estamos nos mesmos níveis que eles diante de Deus, e não devemos colocá-los junto com os cães do nosso rebanho. O centurião não apelou por seu criado a bruxas ou feiticeiros, mas a Cristo. A paralisia é uma doença na qual a habilidade do médico geralmente falha; esta era, portanto, uma grande evidência de sua fé no poder de Cristo, vir a Ele em busca de uma cura, cuja realização estava acima dos meios naturais. Observe quão piedosamente ele descreve o caso de seu criado como sendo muito triste; “o meu criado jaz em casa paralítico e violentamente atormentado”, uma enfermidade que geralmente torna o paciente insensível à dor, mas essa pessoa estava dolorosamente atormentada; sendo jovem, havia disposição para lutar contra o derrame, o que o tornava doloroso (não era uma paralisia simples, mas virótica). Nós deveríamos nos interessar dessa forma pelas almas de nossos filhos e criados que estejam espiritualmente doentes de paralisia – uma paralisia total, uma paralisia cerebral; insensíveis aos males espirituais, inertes para aquilo que é espiritualmente bom – fornecendo-lhes os recursos para que obtenham a cura e a saúde.

2.Observe a grande humildade e auto humilhação do centurião. Depois que Cristo havia anunciado sua disposição de ir e curar seu criado (v. 7), o centurião se expressou com o mais humilde dos pensamentos. Note que almas humildes se tornam mais humildes pela generosa condescendência de Cristo para com elas. Observe o modo de expressar a sua humildade: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado” (v. 8), o que expressa o quão inferior ele se achava e o quão superior considerava nosso Senhor Jesus. Ele não diz: “Meu criado não é digno que entres em seu quarto, por que este fica no sótão”, mas: “Não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”. O centurião era um grande homem, ainda assim ele reconheceu sua indignidade diante de Deus. Note que a humildade fica bem em pessoas de caráter. Cristo, tendo se esvaziado de sua glória, personificava não mais do que uma pobre figura no mundo; ainda assim o centurião, olhando-o como a um profeta, sim, “muito mais do que profeta”, conferiu a Ele esse respeito. Note que deveríamos ter consideração e veneração pelo que vemos da parte de Deus, mesmo naqueles que, na aparência externa, nos são de todas as formas inferiores. O centurião veio a Cristo com uma súplica e então se expressou humildemente. Observe que em todas as nossas abordagens a Cristo e a Deus, através de Cristo, cabe a nós nos humilharmos e sermos discretos ao percebermos a nossa própria insignificância – como criaturas más e pecadores vis – para fazer qualquer coisa por Deus, para receber qualquer bem dele, ou para ter qualquer relacionamento com Ele.

2.Observe a grande fé do centurião. Quanto mais humildade mais fé; quanto mais inseguros formos, mais forte será nossa confiança em Jesus Cristo. Ele teve uma convicção de fé, não apenas de que Cristo podia curar seu criado, mas:

  • Que Ele podia curá-lo à distância. Não seria preciso qualquer contato físico, como em cirurgias naturais, nem qualquer curativo para a parte afetada; mas a cura, ele acreditava, poderia ser realizada sem reunir médico e paciente. Nós lemos posteriormente sobre aqueles que levaram um paralítico a Cristo, com muita dificuldade, e o colocaram diante dele; e Cristo elogiou a sua fé, classificando-a como uma fé prática. Esse centurião não levou o seu paralítico e Cristo elogiou a sua fé como uma fé caracterizada pela confiança: a fé verdadeira é aceita por Cristo, embora varie na aparência. Cristo interpreta da melhor maneira os diferentes métodos de fé que as pessoas adotam, e nos ensinou a fazer assim também. Esse centurião cria, e é indubitavelmente verdadeiro que o poder de Cristo não conhece limites, e, consequentemente, proximidade ou distância são iguais para Ele. A distância de um lugar não pode obstruir nem o conhecimento nem o trabalho daquele que enche todos os lugares. “Sou eu apenas Deus de perto, diz o Senhor, e não também Deus de longe? (Jeremias 23.23).
  • Que Ele podia curá-lo com ”uma palavra”, não lhe enviando um remédio, muito menos um feitiço; “Dize somente uma palavra” e eu não tenho dúvida de que “o meu criado sarará”. Neste ponto, o centurião reconhece que Jesus tem um poder divino, uma autoridade para controlar todas as criaturas e forças da natureza, que lhe permite fazer tudo aquilo que lhe agrade no reino da natureza; da mesma forma como Ele inicialmente levantou esse reino através de uma palavra onipotente, quando disse: “Haja luz”. Entre os homens, dizer e fazer são duas coisas; mas não é assim com Cristo, que é “o braço do Senhor”, porque Ele é a “palavra eterna”. Sua palavra, “aquentai-vos e fartai-vos” (Tiago 2.16), e curai-vos, nos aquece, alimenta e cura.

O centurião ilustra aqui a sua fé no poder de Cristo pela autoridade que ele tinha sobre os seus soldados. Como centurião, como um mestre sobre seus criados, ele diz para um: ”Vai, e ele vai” etc. (v. 9). Eles estavam todos sob suas ordens e comando, de modo que através deles ele podia executar coisas à distância; sua palavra era lei para eles –; soldados bem disciplinados sabem que as ordens de seus superiores não devem ser discutidas, mas obedecidas. Portanto, Cristo podia falar, e estaria feito; tal o poder que Ele tinha sobre todas as doenças tisicas. O centurião tinha essa autoridade sobre seus soldados, embora ele próprio fosse um homem sob autoridade; não um comandante-em-chefe, mas um oficial subalterno. Quanto mais de tal poder tinha Cristo, que é o supremo e soberano Senhor de tudo. Os criados do centurião eram muito subservientes, iam e viam, ao menor indicio da vontade de seu senhor. Isto posto:

[1] Todos nós deveríamos ser como esses criados diante de Deus. Nós devemos ir e “ir ao seu comando, de acordo com as orientações da sua Palavra e as disposições da sua providência; correr para onde Ele nos mandar, retornar quando Ele nos ordenar, e fazer o que Ele determinar: “Que diz meu Senhor ao seu servo?” Quando a vontade do Senhor contradiz a nossa, a dele deve prevalecer, e a nossa ser colocada de lado.

[2] Tais enfermidades físicas dos criados devem ser curadas por Cristo. Elas nos acometem quando Ele as permite; elas nos deixam quando Ele as cura; elas produzem em nós aqueles efeitos que Ele ordena, em nossos corpos, em nossas almas. E uma questão de bem-estar para todos os que pertencem a Cristo, para cujo bem a sua força é manifestada e empregada. É necessário que cada doença tenha a autorização do Senhor, execute a sua ordem, esteja sob o seu controle, e seja criada para servir às intenções de sua graça. Não devemos temer as enfermidades, nem o que elas podem fazer; devemos entregá-las nas mãos daquele amigo tão bom, o nosso Salvador.

II – Aqui está a graça de Cristo apresentada a este centurião; pois ao generoso, Ele se mostrará generoso.

1.O centurião concordou com o discurso do Senhor desde a sua primeira palavra. Ele não havia feito mais do que lhe contar o caso de seu criado e ia implorar uma cura, quando Cristo o impediu, com a sua boa e confortadora palavra: “Eu irei e lhe darei saúde” (v. 7). Jesus não disse: “Eu irei vê-lo” – o que o teria evidenciado como um bondoso Salvador; mas: “Eu irei e lhe darei saúde” – o que o revela como um poderoso e onipotente Salvador. Era uma palavra poderosa, compatível com o bem que Ele podia fazer; pois Ele tem a cura “debaixo de suas asas”; a sua vinda é a cura. Aqueles que realizavam milagres através de um poder recebido, não falavam assim afirmativamente, como Cristo, que os realizava através do seu próprio poder, como alguém que tinha autoridade. Quando um ministro visita um amigo doente, ele não pode dizer mais do que: Eu irei e orarei por ele; mas Cristo diz: “Eu irei e lhe darei saúde”. É bom que Cristo possa fazer mais por nós do que os nossos ministros. O centurião desejou que Jesus curasse seu criado; o Senhor diz: “Eu irei e lhe darei saúde”; expressando, desse modo, uma ajuda maior do que o centurião pediu ou pensou. Note que Cristo frequentemente supera as expectativas dos pobres que suplicam. Veja um exemplo da humildade de Cristo, que fez uma visita a um soldado pobre. Ele não desceu para ver o filho doente de um nobre que insistia para que Ele descesse (João 4.47-49), mas Ele se oferece para descer para ver um criado doente; desse modo, Ele res peita a baixa condição social (ou a condição humilde) de seu povo, e “dá muito mais honra ao que tem falta dela”. A humildade de Cristo, por estar disposto a vir, serviu corno um exemplo ao centurião, e originou a sua humildade de se confessar indigno de sua vinda. Note que a generosa condescendência de Cristo para conosco deveria nos tornar mais humildes, e nos levar a nos humilharmos diante dele.

  1. Jesus elogia a fé do centurião e aproveita essa oportunidade para falar alguma coisa agradável sobre os pobres gentios (vv. 10-12). Veja que grandes coisas uma fé vigorosa, porém abnegada, pode obter de Jesus Cristo, mesmo quando se tratar de um interesse de caráter geral e popular.

(1) Quanto ao próprio centurião, ele não só o aprovou e aceitou (esse respeito todos os verdadeiros crentes têm), mas admirou e louvou ao Senhor: ele demonstrou aquele respeito que os grandes crentes têm, como Jó. Não há ninguém semelhante ao Senhor, nos céus ou na terra.

  • Cristo o elogiou, não por sua grandeza, mas por suas virtudes. Quando Jesus ouviu isso, maravilhou-se; não como se isso fosse novo e surpreendente para Ele – Ele conhecia a fé do centurião, porque Ele a criou –  mas ela era grande e extraordinária, rara e atípica, e Cristo falou  dela como algo maravilhoso, para nos ensinar o que devemos admirar; não pompa terrena e ornamentações, mas a beleza da santidade e os ornamentos que são “preciosos diante de Deus”. Note que as maravilhas da graça deveriam nos afetar mais que as maravilhas da natureza ou da providência, e as realizações espirituais, mais que qualquer empreendimento neste mundo. Deveríamos dizer que os “ricos na fé” são os que receberam toda a sua glória; aqueles que são ricos em ouro e prata nem sempre têm a maior riqueza, que é a presença do Senhor (Genesis 31.1). Mas o que quer que exista de admirável na fé de alguém deve contribuir para a glória de Cristo, que será em breve admirado na vida de todos aqueles que creem, por ter feito coisas maravilhosas neles e para eles.
  • Jesus “maravilhou-se ” do que ouviu e elogiou o centurião diante daqueles “que o seguiam”. Todos os crentes serão, no outro mundo (alguns crentes são neste mundo), confessados e reconhecidos por Cristo diante dos homens, em suas célebres aparições para eles e com eles. “Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé”. Isto indica, em primeiro lugar, respeito ao centurião, que, embora não sendo um filho da descendência de Abraão, era um herdeiro da fé de Abraão, e Cristo o considerou assim. Note que o que Cristo procura é a fé, e onde quer que ela esteja, Ele a encontra, mesmo que ela seja como “um grão de mostarda”. Ele não havia encontrado uma fé tão grande, considerados todos os fatos, e guardadas as proporções; pois foi dito que a pobre viúva “lançou mais do que todos” (Lucas 21.3). Embora o centurião fosse um gentio, ainda assim ele foi elogiado. Note que devemos estar tão afastados da inveja, que devemos nos adiantar a prestar os devidos elogios até mesmo àqueles que não estão dentro de nosso grupo denominacional, ou em nossos limites sociais. Em segundo lugar, isso significa vergonha para Israel, a quem pertencia “a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas” e todos os auxílios e encorajamentos da fé. Observe que quando o Filho do Homem vier, Ele encontrará pouca fé, e, então, encontrará poucos frutos. Note que as realizações de alguns, que têm tido somente pouca ajuda para suas almas, agravarão o pecado e a ruína de muitos que recebera m uma grande quantidade de recursos através da graça e não fizera m bom proveito delas. Cristo disse isto “aos que o seguiam”, para, de alguma maneira, poder incitá-los à sagrada emulação, como diz Paulo (Romanos 11.14). Eles eram sementes de Abraão, tão zelosos dessa glória, que não toleravam ser sobrepujados por um gentio, especialmente naquela graça pela qual Abraão era célebre.

(2) Quanto aos outros. Cristo aproveita a ocasião, portanto, para fazer uma comparação entre judeus e gentios, e dizer a eles duas coisas que só poderiam ser muito surpreendentes para aqueles a quem havia sido ensinado que “a salvação vem dos judeus”.

[1] Que um grande número de gentios seria salvo (v. 11). A fé do centurião nada era senão mais um exemplo da conversão dos gentios, e um prólogo para a sua aceitação na igreja. Este foi um ponto em que o nosso Senhor Jesus tocou com frequência; Ele fala disso com segurança. “Em verdade vos digo”: Eu conheço todos os homens. Ele não podia dizer qualquer coisa mais agradável a si mesmo, ou mais desagradável aos judeus – uma insinuação desse tipo enfureceu os nazarenos contra Ele (Lucas 4.27). Cristo nos dá aqui uma ideia, em primeiro lugar das pessoas que serão salvas: “muitos virão do Oriente e do Ocidente”. Ele tinha dito (cap. 7.14): “Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem”. Poucos ao mesmo tempo, e em um único lugar; ainda assim, quando se juntarem, eles serão muito numerosos. Agora, nós vemos apenas um ou outro, traz idos à graça; mas nós veremos brevemente o Capitão da nossa salvação trazendo “muitos filhos à glória” (Hebreus 2.10). “Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos” (Judas 14), “e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar” (Apocalipse 7.9); e “as nações andarão à sua luz” (Apocalipse 21.24). Eles “virão do Oriente e do Ocidente”; lugares distantes uns dos outros; e ainda assim eles se encontrarão à destra de Cristo, o centro de sua unidade. Note que Deus tem seus remanescentes em todos os lugares: “Desde o nascente do sol até ao poente” (Malaquias 1.11). Os escolhidos serão ajuntados “desde os quatro ventos” (cap. 24.31). Eles estão se­ meados na terra, alguns espalhados em cada extremidade do campo. O mundo gentílico se estende do Oriente ao Ocidente, e eles são especialmente citados aqui. Embora agora eles fossem “estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança”, e o tenham sido por muito tempo, ainda assim quem sabe quantos Deus tinha ocultado entre eles até então? Como no tempo de Elias em Israel (1 Reis 19.14), logo depois do qual eles se arrebanharam na igreja em grandes multidões (Isaias 60.3,4). Observe que quando formos para o paraíso, assim como sentiremos ali a falta de muitos que pensávamos que tivessem ido para lá, também encontraremos um grande número que não esperávamos encontrar ali. Em segundo lugar, Cristo nos dá uma ideia da salvação em si. Os santos irão juntos, irão juntos a Cristo (2 Tessalonicenses 2.1). 1. Eles serão admitidos no reino da graça na terra, no pacto da graça feito com Abraão, Isaque e Jacó; eles serão “benditos com o crente Abraão”, cuja bênção chega aos gentios (Gálatas 3.14). Isso torna Zaqueu um filho de Abraão (Lucas 19.9).

2.Eles serão admitidos “no Reino dos céus”. Eles virão alegremente, “voando como pombas, às suas janelas”; eles se sentarão para descansar de suas labutas, como se tivessem terminado seu trabalho diário. Sentar-se indica algo que per dura, uma continuidade: enquanto estamos de pé, estamos indo; onde nos sentamos, pretendemos ficar; o céu é um descanso permanente, é uma cidade perpétua; eles se sentarão, como sobre um trono (Apocalipse 3.21); como a uma mesa; que aqui é uma metáfora. Eles deverão se sentar para se banquetear, o que denota tanto a plenitude de comunicação, como a liberdade e a intimidade da comunhão (Lucas 22.30). Eles se sentarão com Abraão. Todos aqueles que neste mundo estiveram sempre tão distantes uns dos outros, no tempo, na localização, ou na aparência externa, se encontrarão no céu; antigos e modernos, judeus e gentios, ricos e pobres. O homem rico no inferno vê Abraão, mas Lázaro está sentado com ele, reclinado em seu peito. Note que a sociedade sagrada é uma parte da felicidade do céu; e aqueles a quem já são chegados os fins dos séculos, e que têm menos destaque, compartilharão uma gloriosa comunhão com os renomados patriarcas.

[2] Que um grande número de judeus perecerá (v. 12). Observe:

Em primeiro lugar, um veredicto singular foi transmitido: “Os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores”. Os judeus que persistirem na incredulidade, ainda que por nascimento sejam “filhos do Reino”, ainda assim serão cortados e impedidos de ser membros da igreja visível; “o Reino de Deus”, do qual eles se vangloriaram de ser filhos, lhes será tirado, e eles não serão um povo, não obtendo perdão (Romanos 11.20; 9.31). No grande dia, terem sido filhos do Reino não beneficiará os homens, seja como judeus ou como cristãos; porque os homens serão então julgados, não pelo que eram chamados, mas pelo que eles eram. Se filhos de fato, então herdeiros; mas muitos são filhos que só oferecem um louvor de lábios, outros apenas fazem parte de uma família cristã, mas não servem de fato ao Senhor, e assim ficarão sem herança. Ser nascido de pais que professam a fé nos traz o título de “filhos do Reino”; mas se nos acomodarmos nisso, e não tivermos nada mais para mostrar ao céu além disso, seremos “lançados nas trevas exteriores”.

Em segundo lugar, é descrito um castigo incomum para os praticantes da iniquidade. Eles “serão lançados nas trevas exteriores”, nas trevas daqueles que estão excluídos, dos gentios que estão fora da igreja; naquelas em que os judeus foram lançados, e ainda pior; seus olhos foram cegados, e endurecidos, e aterrorizados, como mostra o apóstolo (Romanos 11.8-10). Um povo tão afastado de Deus, e que abre mão de julgamentos espirituais, já está em trevas absolutas. Mas considerando detalhadamente a condição dos pecadores amaldiçoados no inferno, podemos perceber que este é um prefácio lúgubre. Eles serão lançados fora da presença de Deus, e de todo consolo verdadeiro, e atirados nas trevas. No inferno existe fogo, mas nenhuma luz; é escuridão absoluta; escuridão extrema; o mais alto grau de escuridão, sem qualquer resquício, mescla ou esperança de luz; nem o menor vislumbre ou reflexo dela; é uma escuridão que resulta de sua exclusão do céu, o reino da luz; aqueles que estão no lado de fora, estão nas regiões das trevas; todavia isso ainda não é o pior, “ali haverá pranto e ranger de dentes”.

1.No inferno haverá grande aflição, dilúvios de lágrimas derramadas em vão; tormento do espírito consumindo eternamente os órgãos vitais, no sentido de que a ira de Deus seja o tormento dos amaldiçoados.

2.Grande indignação: pecadores amaldiçoados rangerão os seus dentes por ódio e tormento, “cheios do furor do Senhor”; vendo com inveja a felicidade dos outros, e pensando com horror e pesar na antiga possibilidade de serem felizes, que agora é passada.

1.Ele cura seu criado. Ele não apenas elogia seu pedido a ele, mas lhe assegura aquilo que ele pede, o que significa uma resposta concreta (v. 13). Observe:

  • O que Cristo disse ao centurião. Ele disse aquilo que tornou a cura um benefício tão importante para ele como era para o seu criado, e muito maior: “Como creste, te seja feito”. O criado recebeu a cura da sua doença, mas o centurião teve a confirmação e a aprovação da sua fé. Note que Cristo frequentemente dá respostas encorajadoras para aqueles que oram, à medida que estão intercedendo por outros. Isto é bondade para conosco, sermos ouvidos em favor de outros. “O Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos” (Jó 42.10). Cristo outorgou uma grande honra a esse centurião quando lhe deu um cheque em branco: “Como creste, te seja feito”. O que mais poderia ele querer? Não obstante, o que foi dito a ele é dito a todos nós: Creia e receberá; “crê somente”. Veja aqui o poder de Cristo e o poder da fé. Como Cristo pode fazer o que quiser, um crente diligente pode obter o que desejar de Cristo; o óleo da graça se multiplica, e não se esgota até que tenha enchido t odos os vasos que forem trazidos pela fé.
  • Qual foi o efeito dessa declaração: a oração da fé foi uma oração bem-sucedida – isso sempre foi assim – e sempre será. Parece, pela rapidez da cura, que foi milagrosa – isto também é reforçado pela declaração de Cristo, que o milagre era seu: Ele “falou, e tu do se fez”. E isso foi uma prova de sua onipotência, de que Ele tinha e tem um braço poderoso. Um médico experiente comentou que as doenças que Cristo curou eram, sobretudo, as mais difíceis de serem curadas por quaisquer meios naturais, particularmente a paralisia.

GESTÃO E CARREIRA

Diversidade racial derrapa

DIVERSIDADE RACIAL DERRAPA

Os líderes negros se aposentam e são substituídos por brancos.

 Embora a primeira década deste século tenha registrado avanços na diversidade racial no meio empresarial, um levantamento sobre lideranças da revista americana Fortune soa o alerta: atualmente há apenas quatro negros ocupando cargos de CEO no universo das 500 maiores empresas americanas, e o número em 2018 cairá para três, com a aposentadoria de Ken Chenault, atual CEO da American Express. Explica-se. Quando Chenault assumiu seu posto, em 2001, havia apenas três CEOs negros na lista da Fortune, número que atingiu o ápice em 2007, com sete. Os líderes negros se aposentaram e estão sendo substituídos por brancos. Ao mesmo tempo, não houve ascensão de novos altos executivos negros. Para o sociólogo Richard L. Zweigenhaft, que assessorou os autores do estudo, o retrocesso pode ser resumido na frase “últimos a entrar, primeiros a sair” – fórmula também aplicada às mulheres.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA

Psicossomática psicanalítica

 

OUTRAS FORMAS DE ESCUTAR O SOFRIMENTO.

Muitas vezes, pacientes com manifestações somáticas procuram a psicoterapia encaminhados por médicos ou por insistência de parentes e outras pessoas de seu convívio, em busca de ajuda para se livrar dos sintomas do adoecimento físico, mas se mostram distantes de suas próprias angústias. Cabe ao analista encontrar maneiras de lidar com dor psíquica, nem sempre óbvia.

 A psicanálise é instigada constantemente a se reinventar. Há mais de um século, quando criou esse método – para tratar inicialmente pacientes histéricas –, Sigmund Freud apresentou a escuta como principal instrumento de trabalho. Ele pedia para que seus pacientes se deitassem no divã, de forma confortável, e falassem “aquilo que lhes viesse à cabeça”. Essa técnica, conhecida como associação livre, facilitaria a emergência para a consciência de conteúdos recalcados.

Quando falamos em recalque, longe de seu significado popularizado, que se aproxima da inveja, nos referimos a uma defesa bastante elaborada, própria à neurose. Resumidamente, seu mecanismo se baseia em retirar da esfera consciente (e manter inconscientes) conteúdos de difícil elaboração, sentidos como intoleráveis ou incompatíveis com os próprios valores, mas que emergem, como afirmam os psicanalistas franceses Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, “sob a forma de sintomas, sonhos, atos falhos etc.”.

A psicossomática psicanalítica considera que apresentamos outras formas de organização psíquica que diferem da neurose e podem ser incluídas no campo das desorganizações psicossomáticas. Caracterizadas pela prevalência de sintomas que incidem diretamente sobre o corpo, costumam desencadear afecções somáticas crônicas e até mesmo progressivas, o que torna o manejo clínico com esses pacientes um desafio a mais para o método analítico.

Destacam-se aqui particularidades do campo transferencial, refletindo impasses na relação terapeuta-paciente, específicos ao tratamento de pessoas que apresentam processos de desorganização psicossomática. Inúmeras se apresentam ao terapeuta: Como contribuir para que este paciente possa construir e dar sentido às palavras? Como se tornar um “outro” diante de um paciente que preserva o investimento maciço em si próprio? Como evitar que o acompanha- mento psicoterápico caia no vazio refletido pela vida psíquica ausente de símbolos, com grandes inconsistências nas relações com o mundo externo?

Com frequência, esses pacientes chegam aos consultórios encaminhados por médicos e muitas vezes por insistência de familiares e outras pessoas de seu convívio. Apresentam alguma manifestação somática para a qual buscam auxílio para tratar seus sintomas. Porém, se revelam distantes de suas angústias, diferentes dos chamados “neuróticos clássicos” que alcançaram a capacidade de simbolização e conseguem, das mais variadas maneiras, metabolizar as angústias. Pacientes que manifestam diretamente no corpo suas questões psíquicas não parecem entrar em contato com conflitos, tampouco com processos de pensa- mento ou fantasias. O paciente parece estar movido por seus instintos mais primitivos e necessita de cuidados que acolham seus excessos.

Segundo o psicanalista inglês Donald W. Winnicott, é possível supor que esses adultos foram crianças que não experimentaram um ambiente suficientemente bom, nem tiveram um cuidador devotado, capaz de integrar os sentimentos infantis de amor e de raiva, algo fundamental para o desenvolvimento psicossomático saudável. Ao contrário: podemos supor a presença de um adulto preponderantemente intrusivo ou ausente (certamente um reflexo de carências resultantes da história de vida do próprio cuidador), incapaz de se adaptar ao tempo ou ao ritmo das necessidades da criança pequena.

Nesse sentido, podemos pensar sobre os conceitos de verdadeiro self e falso self propostos por Winnicott. Se o primeiro resulta da aceitação dos gestos espontâneos da criança por parte de quem cuida, o segundo revela uma submissão da criança aos gestos e vontades do adulto, incapaz de entender e satisfazer as necessidades do filho. Quando isso ocorre pela ausência de reconhecimento, podemos supor que se constrói um falso self como defesa contra o excesso de intrusão, impedindo o surgimento de manifestações espontâneas.

Assim, na relação terapêutica, o analista se vê diante da necessidade de um manejo que, diferentemente da técnica clássica baseada na interpretação do material inconsciente, se orienta por acolher o paciente e acompanhar cuidadosamente suas expressões e comunicações aparentemente mais singelas e triviais. Nestes casos, a técnica clínica mais clássica poderia contribuir para a manutenção de cisões do ego. O que impede a integração dos afetos e facilita a consequente desorganização psicossomática. Isso nos leva a pensar que a interpretação seja uma forma intrusiva de agir, que poderia ser comparada aos atos invasivos do cuidador.

Ciente das defesas primitivas respeitando a maneira peculiar de relação objetal, com toda a violência que as identificações carregam e das quais o analista é alvo, este poderá então exercer a escuta por meio das sensações que impregnam seu próprio corpo. Segundo o filósofo e psicanalista Fédida, o corpo do analista se concretiza como palco onde se encenam os “fantasmas” do paciente. Como já observou R. Volich, as sensações ocorridas no corpo do terapeuta se põem como caminho importante para a compreensão da dinâmica do paciente e contribuem para futuras possibilidades de interpretação. Ao suportar tais desconfortos (a exemplo da mãe que realiza sua função materna), o terapeuta metaboliza os conteúdos agressivos, transformando-os em elementos mais “palatáveis” ao paciente. Há grande importância na autopercepção do analista em relação a sensações corpóreas, com vistas a uma transformação em sua atividade interna como ferramenta construtiva do processo de estruturação subjetiva e da mentalização do paciente.

Parece fundamental, portanto, colocar o corpo a serviço da relação analítica, pois, se o corpo “fala” por meio dos sinais patológicos, será por meio do corpo tanto do paciente quanto do terapeuta que o diálogo será inicialmente instaurado. A psicanalista Joyce Mc Dougall traz essa ideia em sua obra: como se fosse um aparelho psíquico com- partilhado, dois corpos tornam-se apenas um no trabalho conjunto do ato de pensar e buscar significados.

Cabe ao terapeuta, portanto, tornar-se intérprete desses conteúdos, no momento em que os identifica, os toma como seus e, delicadamente, permite a construção de um ambiente acolhedor no qual o paciente poderá se sentir, gradativamente, capaz de suportar seus próprios conteúdos agressivos, na medida em que abre mão de defesas primitivas como a cisão e a projeção para defesas mais elaboradas. “É por meio da delicadeza da escuta, de uma leitura em filigrana das palavras, na sutileza da busca dos detalhes, dos gestos, do olhar, do silêncio, que o analista vai reencontrar as marcas das imagens internas do paciente. Tudo se passa como se a palavra do analista devesse incentivar o paciente a desenvolver seu poder imaginativo de tal forma que o acontecimento que toca o corpo não fique privado de possibilidades metafóricas”, escreve a psicanalista Maria Helena Fernandes, em seu livro Corpo (Casa do Psicólogo, 2008).

É na qualidade do vínculo psicoterapeuta-paciente que encontramos as condições de um recomeço. A ideia é que, aos poucos, o paciente adquira a possibilidade de expressar em palavras a parte que foi vivida como má, iniciando um processo de integração entre os próprios pensamentos e sentimentos – antes insuportáveis e assustadores –, e que aos poucos adquirem sentidos e significados. É por meio da relação com o terapeuta que aparecem novas capacidades, expressões menos regredidas, mais espontâneas e criativas.

Após algum tempo de análise, por vezes, surgem comentários dos pacientes sobre como se sentem acolhidos no espaço analítico. Isso nos lembra Winnicott, quando enfatiza que “na prática psicanalítica, as mudanças que ocorrem nesta área podem ser profundas. Elas não dependem do trabalho interpretativo, mas sim da sobrevivência do analista” a este tipo de relação fragilizada. Não é raro observar a necessidade de o paciente sentir-se fisicamente próximo ao terapeuta. Sobre isso, Fernandes escreve: “Não é por acaso que esse tipo de paciente tem necessidade de constatar a presença viva do analista; é essa presença que lhe assegura que o analista não está “morto”.

 

LÉDICE LINO DE OLIVEIRA – é psicóloga, mestre em ciências da saúde, professora do curso de psicologia da Universidade Paulista (Unip).

RAFAEL PICCOLO FELICIANO – é psicólogo clínico, autor do livro digital Escritos psicanalíticos da vida. (ePub, 2017).

ROSA JUNQUEIRA – é psicanalista. Os três são membros-fundadores do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 1-4

O Leproso Curado

O primeiro versículo refere-se ao final do sermão anterior: as pessoas que o ouviram “ficaram maravilhadas da sua doutrina”; e o efeito foi que quando Ele desceu do monte, “seguiu-o uma grande multidão”. Embora Ele fosse um Legislador tão rígido e um Admoestador tão preciso, eles diligentemente se aglomeravam em volta dele, e se recusavam a se dispersar e afastar-se dele. Note que aqueles a quem Cristo se manifestou não podem deixar de desejar estar mais familiarizados com Ele. Aqueles que sabem bastante sobre Cristo, deveriam desejar saber mais: “Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor”. É gratificante ver pessoas tão apegadas a Cristo, a ponto de pensar que elas nunca conseguem saber o suficiente a respeito dele; tão apegadas às melhores coisas, a ponto de se congregar depois de um bom sermão, e seguir o Cordeiro aonde quer que Ele vá. Agora a profecia de Jacó relativa ao Messias foi cumprida: ”A ele se congregarão os povos”; até mesmo aqueles que se juntaram a Ele e não foram fiéis a Ele. Aqueles que o seguiam constantemente de perto eram poucos, comparados com as multidões que nada mais eram do que seguidores à distância.

Nesses versículos, nós temos um relato da purificação de um leproso por Cristo. Pode parecer, comparando com Marcos 1.40 e Lucas 5.12, que este parágrafo, embora colocado por Mateus depois do sermão da montanha (pois ele faz primeiro um relato da doutrina de Cristo, e depois de seus milagres), tenha acontecido algum tempo antes; mas isso não é, de modo algum, importante. Isto é apropriadamente relatado como o primeiro dos milagres de Cristo:

  1. Porque a lepra era considerada, entre os judeus, como um sinal do descontentamento de Deus; consequentemente, encontramos Miriam, Geazi e Uzias, castigados com lepra por algum pecado em particular; e, portanto, Cristo, para mostrar que veio para afastar a ira de Deus, ao remover o pecado, começou com a cura de um leproso.
  2. Porque essa doença, como se supunha vir diretamente da mão de Deus, supunha-se também ser removida diretamente por sua mão, e então não se tentava curá-la através dos médicos, mas ela era colocada sob a inspeção dos sacerdotes, ministros do Senhor, que aguardavam para ver o que Deus iria fazer. E o fato da sua existência estar ligada a uma roupa, ou às paredes de uma casa, era completamente sobrenatural – e deveria parecer ser uma enfermidade de uma natureza totalmente diferente do que agora chamamos lepra. O rei de Israel disse: “Sou eu Deus, para matar e para vivificar; para que este envie a mim, para eu restaurar a um homem da sua lepra?” (2 Reis 5.7). Cristo provou ser Deus, ao curar muitos leprosos, e ao autorizar seus discípulos, em seu nome, a também fazer o mesmo (cap. 10.8), e isso é colocado entre as provas de que Ele é o Messias (cap. 11.5). Ele mostrou ser, Ele mesmo, o Redentor dos pecados de seu povo; porquanto cada doença tanto é fruto do pecado, como também um símbolo deste, como uma doença da alma. Ainda assim, a lepra era considerada de uma forma especial; pois ela contaminava de tal forma, que obrigava a uma separação das coisas sagradas, como nenhuma outra fazia; e, portanto, nas leis relativas a ela (Levíticos 13 e 14), a lepra é tratada, não como uma doença, mas como uma impureza; o sacerdote declararia a pessoa pura ou impura, de acordo com os sintomas; mas a honra de purificar os leprosos foi reservada a Cristo, que o faria como o “Sumo Sacerdote da nossa confissão”. Ele veio para fazer aquilo “que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne” (Romanos 8.3). A lei revelava o pecado (pois através da lei se conhece o pecado) e declarava os pecadores impuros; isso os encerrava (Gálatas 3.23), como o sacerdote fazia com o leproso, mas não podia ir além disso; a lei não podia aperfeiçoar os que a eles se chegavam (Hebreus 10.1). Mas Cristo tira o pecado. Ele purifica e aperfeiçoa para sempre os que são santificados. Aqui nós temos:

I – Como o leproso se dirige a Cristo. Considerando que isso aconteceu, como entendemos que está estabelecido aqui, depois do sermão na montanha, nós podemos supor que o leproso, embora impedido de entrar nas cidades de Israel devido à sua doença, mesmo assim estava a uma distância em que podia ouvir o sermão, e por meio dele foi encorajado a fazer o seu apelo a Cristo; pois aquele que falava corno tendo autoridade, podia curá-lo de longe; e então ele veio e o adorou. Seu apelo foi: “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo”. A purificação deste leproso pode ser considerada:

  1. Como uma misericórdia temporal; uma misericórdia para o corpo, livrando-o de uma doença, que, embora não ameaçasse a vida, a amargurava. E assim isso nos leva não apenas a recorrer a Cristo, que tem poder sobre doenças corporais para curá-las, mas também nos ensina de que maneira devemos recorrer a Ele: com a garantia de seu poder, crendo que Ele é capaz de curar doenças agora, com o fazia quando estava na terra, mas mediante a nossa submissão à sua vontade: “Senhor, se quiseres, podes”. No que se refere às misericórdias terrenas ou temporais, nós não podemos estar sempre tão certos da vontade de Deus em concedê-las, como estamos de seu poder, pois seu poder nelas é ilimitado e está relacionado à sua glória e ao nosso bem – embora não possamos estar certos de sua vontade, nós podemos estar seguros de sua sabedoria e misericórdia, às quais podemos animadamente recorrer. “Seja feita a tua vontade”. Isso torna a espera tranquila, e os acontecimentos confortáveis. Devemos sempre confiar e pedir ao Senhor tudo o que precisarmos, pois Ele sempre nos abençoará.
  2. Como uma misericórdia típica. O pecado é a lepra da alma; ela nos exclui da comunhão com Deus, para a qual, a fim de que possamos ser reconduzidos, é necessário que sejamos purificados dessa lepra – e essa deveria ser nossa grande preocupação. Agora observe que é nosso consolo quando recorremos a Cristo, como o grande Médico, que se Ele quiser, Ele pode nos purificar; e nós deveríamos, com humilde e confiante ousadia, ir a Ele e dizer-lhe isso. Ou seja:

(1) Nós devemos nos apoiar em seu poder; devemos estar certos de que Cristo pode nos purificar. Nenhuma culpa é tão grande que a sua justiça não seja capaz de reparar; nenhuma perversão é tão forte que a sua graça não possa subjugar. Deus não designaria um médico para seu hospital que não fosse, de todas as formas, qualificado para a incumbência.

(2) Nós devemos nos recomendar à sua misericórdia; não podemos exigir isso como uma dívida, mas devemos humildemente pedir como um favor: “Senhor, se quiseres”. “Lanço-me a teus pés; e se eu perecer, perecerei aos teus pés”.

II – A resposta de Cristo a essa abordagem, que foi muito gentil (v. 3).

  1. “Jesus, estendendo a mão, tocou-o”. A lepra era uma doença nociva e repugnante, ainda assim Cristo o tocou. Ele não desdenhou a atitude de conversar com publicanos e pecadores, para lhes fazer o bem. Havia uma contaminação cerimonial contraída pelo toque de ou em um leproso; mas ao conversar com os pecadores Cristo mostra que Ele não corria nenhum risco de ser contaminado por eles, pois o príncipe deste mundo nada tinha nele. Se nós tocarmos em piche, nos sujaremos; mas Cristo era “separado dos pecadores”, mesmo vivendo entre eles.
  2. Ele disse: “Quero, sê limpo”. Ele não disse, como Eliseu para Naamã: “Vai, e lava-te no Jordão”; não o colocou sob uma cansativa, desagradável e incômoda ação de um medicamento, mas disse a palavra e o curou.

(1) Eis aqui uma palavra de bondade: “Quero”; eu desejo tanto te ajudar, quanto desejas ser ajudado. Note que aqueles que pela fé recorrem a Cristo por graça e misericórdia, podem estar certos de que Ele está desejando, desejando espontaneamente, dar-lhes a misericórdia e a graça pelas quais vieram a Ele. Cristo é um Médico que não precisa ser solicitado, Ele está sempre por perto; não precisa ser pressionado com insistência, pois enquanto ainda estamos falando, Ele ouve; não precisa ser pago, Ele cura de bom grado, não por preço nem por recompensa. Ele deu todas as demonstrações possíveis, de que Ele tanto deseja como pode salvar os pecadores.

(2) Uma palavra de poder: “Sê limpo”. São exercidos, nessa palavra, um poder ligado à autoridade, e um poder ligado à força. Cristo cura através de uma ordem que nos dá: “Sê limpo” – “Queira ser, e use os meios; limpa-te de toda imundície”; mas junto com isso vai uma palavra de ordem que nos diz respeito, uma palavra que faz o milagre acontecer: “Quero, sê limpo”. Uma palavra tal como essa é necessária para a cura, e é capaz de produzir o efeito desejado; e a graça Onipotente, que a pronuncia, não deve faltar àqueles que realmente a desejam.

III – A alegre mudança realizada através disso: “E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra” (ver são RA). A natureza trabalha gradativamente, mas o Deus da natureza age imediatamente. Ele fala, e está feito; e desse modo Ele trabalha eficazmente. Ele dá a ordem, e ela permanece firme. Um dos primeiros milagres que Moisés realizou foi curar a si próprio de uma lepra (Êxodo 4.7), porque de acordo com a lei os sacerdotes ofereciam sacrifícios primeiro por seus próprios pecados; mas um dos primeiros milagres de Cristo foi curar outra pessoa de lepra, pois Ele não tinha nenhum pecado para expiar.

IV – As orientações posteriores dadas por Cristo ao homem curado. É adequado que aqueles que são curados por Cristo, a partir de então sejam governados por Ele.

  1. “Não o digas a alguém”. “Não digas a ninguém até haveres te mostrado ao sacerdote, e ele te declarar limpo; e assim terás uma prova legal de que antes eras um leproso, e agora estás completamente purificado”. Cristo somente permitia que seus milagres fossem expostos após terem sido confirmados como verdadeiros. Note que aqueles que pregam as verdades de Cristo devem ser capazes de prová-las, para defender o que pregam e “convencer os contradizentes”. “Não o digas a alguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote”, para que se ele ficar sabendo quem te curou, não se negue – por despeito – a te dar um certificado da cura, e assim continue lhe mantendo sob confinamento. Assim eram os sacerdotes no tempo de Cristo, de modo que aqueles que tinham alguma coisa a tratar com eles tinham necessidade de serem prudentes como as serpentes.
  2. “Vai, mostra-te ao sacerdote”, de acordo com a lei (Levítico 14.2). Cristo tomou cuidado em observar a lei, para não transgredi-la, e para mostrar que Ele manterá a ordem, a boa disciplina, e o respeito àqueles que estão no poder. Isso pode ser útil àqueles que foram purificados de sua lepra espiritual, por haverem recorrido aos ministros de Cristo, submetendo o seu caso a eles, para que possam ajudá-los em suas investigações sobre a sua condição espiritual, aconselhando-os, confortando-os e orando por eles.
  3. ”A presenta a oferta que Moisés determinou” como prova de gratidão a Deus, e recompensa ao sacerdote por seus sofrimentos; e “para lhes servir de testemunho”; ou:

(1) ”Apresenta a oferta que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho”: as leis cerimoniais eram testemunhos da autoridade de Deus sobre eles, dos seus cuidados para com eles, e daquela graça que seria revelada posteriormente. Ou:

(2) “Faça a tua oferta como um testemunho e faça o sacerdote saber quem te purificou, e como; e isso será um testemunho de que há uma pessoa entre eles que faz aquilo que o sumo sacerdote não consegue fazer. Faça com que ela seja registrada como um testemunho do meu poder, e um testemunho a meu respeito para eles, se eles o registrarem; mas este testemunho será contra eles, se não o fizerem”, pois a Palavra e as obras de Cristo são testemunhos.

GESTÃO E CARREIRA

Bem diferente do Brasil

BEM DIFERENTE DO BRASIL

Recolocação rápida de demitidos impulsiona a economia sueca.

 sumiço de postos de trabalho, por assustador que pareça, tem um papel a desempenhar. Numa economia funcional, novas formas de trabalhar e novos negócios sucedem aos anteriores. Se forem mais produtivos, contribuem com a prosperidade geral. No Brasil, ciclos de aquecimento e esfriamento se alternam sem que o país passe a trabalhar melhor – um mal da economia fechada, travada e pouco inovadora que somos. Já a Suécia vem conseguindo tornar a rotatividade de profissionais um fator de aumento de produtividade, graças a um modelo agressivo de recolocação de desempregados.

Segundo um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade que inclui a maioria dos países desenvolvidos), 85% dos demitidos na Suécia reencontram emprego em menos de um ano, graças à política pública dos conselhos de segurança do emprego (ou TRR, na sigla em sueco). Esses grupos reúnem representantes de empresas e entidades sociais e se sustentam com recursos privados. Mais ágeis que órgãos governamentais, os conselhos atuam logo após a demissão e se mobilizam para encontrar um novo emprego para o trabalhador. Aí entra a diferença essencial: em vez de tentar recolocá-lo na mesma função (muitas vezes ultrapassada por tecnologia ou mudanças de mercado), os conselhos abrem para ele novas opções profissionais. Fazem isso por meio de novos treinamentos, testes de personalidade, avaliação e reorganização de currículo, entre outras ações. Também prestam ajuda psicológica no período de transição e fornecem auxílio financeiro durante o desemprego, sobre- tudo àqueles com mais de 40 anos.

O modelo fortalece a economia como um todo, pois facilita o fechamento de vagas improdutivas sem provocar reações de sindicatos – fortes e combativos na Suécia. Afinal, o demitido rapidamente se recoloca em outra função (um efeito nefasto do desemprego prolongado é que o profissional, defasado, tem dificuldade crescente em se recolocar). O acesso aos conselhos se limita aos profissionais sindicalizados, que correspondem a 70% da força de trabalho no país.

A política sueca parece tomar a dianteira ante à de outros países da Europa. Nos modelos tradicionais, escritórios do governo tentam dar treinamento aos desempregados, enquanto sindicatos tentam defender postos de trabalho, em vez de ajudar o profissional a se adaptar. Na Suécia, como reza o principal lema dos conselhos, “a meta não é defender empregos, mas dar apoio aos trabalhadores”.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Muito mais que um beijo

MUITO MAIS QUE UM BEIJO

O toque dos lábios desencadeia a liberação de substâncias químicas ligadas à estimulação sexual e às interações sociais; o mais curioso, porém, é que este gesto também transmite ao parceiro informações sobre o DNA.

 Nos momentos de intensa paixão o beijo na boca prende duas pessoas numa troca de cheiros, sabores, toques, segredos e emoções. Beijamos lascivamente, de modo gentil, tímido, faminto, intenso, furtivo. Em plena luz do dia e na calada da noite. Damos beijos cerimoniosos, afáveis, polidos, de rostos que não se tocam; a literatura e a história registram beijos da morte e, ao menos nos contos de fada, beijocas fazem princesas reviver.

Do ponto de vista da ciência, os lábios podem ter evoluído primeiro para favorecer a alimentação e, mais tarde, para a fala, mas no beijo eles satisfazem tipos diferentes de apetite. No corpo, o toque dos lábios ativa uma sucessão de mensagens neurais e químicas que transmitem sensações táteis e excitação sexual, e desperta sentimentos de intimidade, motivação e até euforia.

Nem todas as mensagens são internas. A fusão de dois corpos transmite sinais intensos passíveis de serem reconhecidos tanto pela própria pessoa quanto pelo parceiro ou parceira. Beijos podem, inclusive, enviar informações significativas sobre as condições presentes e futuras de uma relação amorosa. Muitos psicólogos especializados em terapia de casais garantem que, se o primeiro beijo não for considerado agradável e prazeroso para os dois envolvidos, dificilmente o relacionamento evoluirá.

Alguns cientistas acreditam que a união dos lábios evoluiu porque facilita a seleção de parceiros. “O beijo envolve uma troca bem complicada de informações – olfativa, tátil e ajustes de postura – que costuma acionar mecanismos neurológicos sofisticados e também inconscientes, permitindo às pessoas determinar subjetivamente até que grau elas são geneticamente incompatíveis”, afirma o psicólogo evolucionista Gordon G. Gallup, professor da Universidade de Albany e da Universidade do Estado de Nova York. Beijar pode ainda revelar até que ponto o outro está disposto a se comprometer na relação. Esse comprometimento significa, em alguns casos, a predisposição para estabelecer parcerias, aprofundar o grau de confiança e até mesmo a intenção de criar filhos – uma questão central em relacionamentos de longo prazo e crucial para a sobrevivência da espécie.

 MENSAGEIRO SILENCIOSO

Independentemente do que mais esteja acontecendo quando beijamos, nossa história evolucionária está incorporada nesse ato terno e tempestuoso. Nos anos 60, o zoólogo e escritor britânico Desmond Morris sugeriu, pela primeira vez, que o beijo pode ter evoluído da prática de algumas mães primatas de mastigar a comida para seus filhotes e alimentá-los boca a boca, com os lábios comprimidos. Os chimpanzés se alimentam dessa maneira, e nossos ancestrais hominídeos, provavelmente, também o faziam. A pressão de lábio contra lábio evoluiu posteriormente para uma forma de confortar crianças famintas em períodos de escassez de comida e, com o tempo, derivou para um modo de expressar amor e afeição. A espécie humana levou esses beijos protoparentais por outros caminhos, até criar as variedades mais apaixonadas que temos hoje.

Mensageiros químicos silenciosos chamados feromônios podem ter acelerado a evolução do beijo “íntimo”. Muitos animais e plantas usam os feromônios para se comunicar com outros membros da mesma espécie. Insetos, em particular, são conhecidos por emitir a substância como um alarme, para sinalizar, por exemplo, a presença de alimento ou a atração sexual. Se os seres humanos detectam feromônios ou não – e com que precisão isso aconteceria – é assunto controverso. Diferentemente de ratos ou porcos, não temos um detector de feromônios “especializado”, o órgão vomeronasal, entre o nariz e a boca.

No entanto, a bióloga Sarah Woodley, da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, na Pensilvânia, sugere que podemos captar feromônios pelo sistema olfativo. Segundo ela, a comunicação química inconsciente explicaria descobertas curiosas, como a tendência de os ciclos menstruais de mulheres que convivem de forma muito próxima, como companheiras de dormitório, se sincronizarem, ou como a atração das mulheres pelo cheiro da camiseta usada por homens cujo sistema imunológico é geneticamente compatível com o delas. Feromônios humanos podem incluir androstenol (componente químico do suor masculino que, para algumas mulheres, amplia a excitação sexual) e hormônios vaginais femininos chamados copulinas (que aumentam os níveis de testosterona e o apetite sexual dos homens). Se os feromônios realmente representam um papel na procriação humana, então beijar seria uma maneira extremamente eficiente de transmiti-los.

Podemos também ter herdado o beijo íntimo de nossos ancestrais primatas. Bonobos, que são geneticamente muito semelhantes a nós (embora não sejamos seus descendentes diretos), são especialmente apaixonados. O primatólogo Frans B. M. de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia, lembra-se de um guarda de zoológico que aceitou de um bonobo o que ele achava que seria um beijo amigável, até sentir a língua do macaco em sua boca!

Os lábios humanos têm a camada mais fina de pele do corpo humano e estão entre as áreas corporais em que se encontram as maiores concentrações de receptores e transmissores sensoriais. Quando beijamos, as células da língua e de outras regiões da boca disparam mensagens para o cérebro e para o corpo, provocando emoções e reações físicas intensas.

Dos 12 ou 13 nervos cranianos que afetam a função cerebral, cinco estão em ação quando beijamos, carregando mensagens de nossos lábios, língua, bochechas e nariz para o cérebro – que capta informações sobre temperatura, sabor, cheiro e movimentos de toda a situação. Parte dessa informação chega ao córtex somatossensorial, faixa de tecido na superfície cerebral que representa a informação tátil no mapa do corpo. Nessa representação os lábios aparecem desproporcionalmente grandes em relação ao tamanho real porque cada região do corpo aparece de acordo com a densidade de suas terminações neurais.

Beijar desencadeia um coquetel de substâncias químicas que governam o estresse, a motivação, as relações sociais e a estimulação sexual. Em um novo estudo, a psicóloga Wendy L. Hill e sua aluna Carey A. Wilson, do Lafayette College, compararam os níveis de oxitocina e cortisol, dois hormônios-chave, em 15 casais heterossexuais antes e depois de eles se beijarem e antes e depois de conversarem de mãos dadas. A oxitocina está ligada às relações sociais e o cortisol é considerado o hormônio do estresse. Hill e Wilson supunham que beijar ampliaria os níveis do primeiro hormônio, que influencia também o reconhecimento social, o orgasmo e o parto. Elas esperavam que esse efeito fosse particularmente pronunciado nas mulheres participantes do estudo que relataram um grau maior de intimidade em seus relacionamentos. Também previam uma queda no cortisol, porque, presumivelmente, beijar aliviaria o estresse.

 BARÔMETRO EMOCIONAL

As pesquisadoras, porém, se surpreenderam ao descobrir que os níveis de oxitocina aumentaram apenas nos homens e diminuíram nas mulheres, tanto depois de beijar quanto ao conversar de mãos dadas. Concluíram, então, que elas precisam bem mais do que um beijo para se sentir ligadas emocionalmente ou excitadas sexualmente durante o contato físico. As autoras inferiram que as mulheres podem, por exemplo, precisar de uma atmosfera mais romântica. Mas, de fato, uma suspeita das pesquisadoras se confirmou: o estudo reportado por Hill e Wilson, em novembro de 2007 na reunião anual da Sociedade para a Neurociência, em Nova Orleans, revelou que os níveis de cortisol caíam para ambos os sexos, não importando a forma de intimidade, o que indica que o beijo realmente reduz o estresse.

Na medida em que o beijo está ligado à afetividade, pode aumentar a produção de substâncias químicas do cérebro associadas ao prazer, à euforia e à motivação para estabelecer ligações específicas. A antropóloga Helen Fisher e colaboradores da Universidade Rutgers registraram, por meio de tomografias do cérebro, a reação de 17 voluntários enquanto olhavam para fotos de pessoas pelas quais diziam estar profundamente apaixonados. Os pesquisadores descobriram uma atividade incomum em duas regiões cerebrais que governam o prazer, a motivação e a recompensa: a área tegumentar ventral direita e o núcleo caudado direito. Drogas como a cocaína estimulam de maneira semelhante esses centros de recompensa, por meio da liberação do neurotransmissor dopamina. Uma primeira conclusão seria, então, a de que o amor funciona, para humanos, como um tipo de droga. E o beijo evoca reações primais. Pode aumentar a pulsação e a pressão sanguínea; as pupilas se dilatam; a respiração fica mais profunda e o pensamento racional recua. Assim como o desejo, o ato de beijar suprime (ou pelo menos torna mais tênue) a prudência e a inibição. Durante um beijo a maioria das pessoas fica, provavelmente, encantada demais para se importar com isso. Talvez o superego (instância psíquica proposta por Sigmund Freud, guardiã das normas e proibições que aprendemos e adotamos) seja solúvel em beijos.

Pode mesmo um beijo ser algo tão poderoso? Algumas pesquisas indicam que sim. Num levantamento recente, Gallup e seus colaboradores descobriram que 59% de 58 homens e 66% de 122 mulheres admitiram que houve ocasiões em que, embora estivessem atraídos por alguém, o interesse logo sumiu depois do primeiro beijo. Os beijos “ruins” não tinham nenhuma falha específica; simplesmente não passavam a “sensação certa”. Resultado: deflagravam o fim do romance.

Gallup também acredita que o beijo carrega tal peso porque transmite informações subconscientes sobre a compatibilidade genética de um possível companheiro. Sua hipótese é consistente com a ideia de que ele evoluiu como uma estratégia de acasalamento que ajuda a avaliar potenciais parceiros.

Da perspectiva darwiniana, a seleção sexual é a chave para a transmissão dos genes. Para nós, humanos, a escolha do parceiro frequentemente implica apaixonar-se. Fisher escreveu em seu artigo de 2005 que o “mecanismo de atração nos humanos evoluiu para permitir aos indivíduos concentrar sua energia de acasalamento em pessoas específicas, o que facilita a escolha do parceiro – e satisfaz um aspecto primário da reprodução”.

Com base em descobertas recentes, Gallup argumenta que o beijo desempenha um papel crucial na progressão de um relacionamento, mas de forma diversa para homens e mulheres. Num estudo – que teve os resultados publicados – ele e seus colaboradores entrevistaram 1.041 universitários de ambos os sexos a respeito do beijo. Para a maioria dos rapazes ouvidos, acariciar a boca da outra pessoa com a língua é uma maneira de avançar no relacionamento sexual. Para os pesquisadores, porém, o ato serve para conduzir o casal ao próximo nível emocional e para avaliar não apenas se a outra pessoa seria uma fonte excelente de DNA, mas um bom parceiro a longo prazo. O encontro dos lábios é, portanto, um tipo de barômetro emocional: quanto mais entusiasmado, mais saudável é o relacionamento.

Como as mulheres têm menores possibilidades biológicas de perpetuar seus genes, já que necessitam investir mais energia para ter filhos, é fundamental que sejam mais criteriosas na escolha de seus parceiros – e não podem se permitir muitos equívocos. Dentro dessa lógica evolucionista, quanto mais apaixonado o beijo, maior a chance de o parceiro ser um bom companheiro não só para a procriação – mas suficientemente comprometido também para ficar por perto e criá-los. Por outro lado, o beijo talvez não seja tão necessário do ponto de vista evolutivo. Afinal, a maioria dos animais não se beija e, mesmo assim, produz muitas crias. E nem todos os humanos beijam. Na virada do século 20, o cientista dinamarquês Kristoffer Nyrop descreveu tribos finlandesas cujos membros se banhavam juntos, mas consideravam o beijo indecente. Em 1897, o antropólogo francês Paul d’Enjoy relatou que os chineses consideravam o toque das bocas tão horrendo quanto é o canibalismo para a maioria das pessoas. Na Mongólia, por exemplo, é raro que os pais beijem seus filhos em vez disso, cheiram a cabeça dos pequenos. O pioneiro da etologia humana Irenäus Eibl-Eibesfeldt escreveu em seu livro de 1970 Love and hate: the Natural History of behavior patterns (Amor e ódio: história natural dos padrões elementares do comportamento), considerado um clássico, que pelo menos 10% da humanidade não beija.

 INCLINAÇÃO À DIREITA

O psicólogo Onur Güntürkün, da Universidade Ruhr, de Bochum, Alemanha, realizou recentemente uma pesquisa curiosa. Observou 124 casais enquanto se beijavam em lugares públicos dos Estados Unidos, Alemanha e Turquia e constatou que eles tombavam levemente a cabeça para a direita com o dobro de frequência do que para a esquerda antes de seus lábios se tocarem. Güntürkün suspeita que os beijos inclinados para a direita resultem de uma preferência geral desenvolvida no final da gestação e na primeira infância. Essa “assimetria” é relacionada à lateralização das funções cerebrais, tais como a fala e a percepção espacial.

A educação e a cultura também podem influenciar essa tendência de curvar-se para a direita. Estudos mostram que até 80% das mães, quer sejam destras, quer sejam canhotas, acalentam do lado esquerdo seus bebês. Bebês aninhados com o rosto para cima, à esquerda, viram-se para a direita para ser amamentados ou se aconchegar. Como resultado, a maioria de nós pode ter aprendido a associar calor e segurança com o inclinar para a direita.

Alguns cientistas propuseram que aqueles que viram a cabeça para a esquerda quando beijam podem estar mostrando menos afeto do os que o fazem para o lado oposto. Um estudo realizado pelo naturalista Julian Greenwood e seus colaboradores da Universidade Stranmillis College, em Belfast, na Irlanda, contrapõe essa ideia. Os pesquisadores constataram que 77% de 240 graduandos inclinavam a cabeça para a direita quando beijavam uma boneca na bochecha ou nos lábios. Curvar-se para a direita com uma boneca, ato que não denota emoção, foi quase tão predominante entre os participantes como entre os 125 casais observados enquanto se beijavam em Belfast que se inclinaram para a direita em 80% das vezes. A conclusão: beijar inclinado para a direita provavelmente resulta de uma facilidade motora, como Güntürkün sugeriu – e não de uma preferência emocional.

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HOMÚNCULO SENSORIAL: O MAPA DO CORPO

Informação tátil da pele chega ao córtex somatossensorial primário do cérebro, que contém um mapa distorcido do corpo chamado “homúnculo sensorial”.

Nesta representação, os lábios são desproporcionalmente grandes porque têm uma enorme concentração de receptores sensoriais e, portanto, são muito sensíveis ao toque.

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Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 299

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 21-29

 O Sermão da Montanha

Temos aqui a conclusão desse longo e excelente sermão cujo escopo foi mostrar a indispensável necessidade da obediência aos mandamentos de Cristo. Ele tinha o propósito de cravar suas palavras, par a que elas pudessem se firmar num lugar seguro. Ele falava aos discípulos, que se sentavam aos seus pés todas as vezes que pregava, e o seguiam para qualquer lugar onde fosse. Se Ele buscava receber os louvores dos homens, somente isso teria sido suficiente. Mas a religião que Ele veio estabelecer vem com poder, e não apenas em palavras (1 Coríntios 4.20, versão RA); portanto, algo mais se fazia necessário.

I – Ele mostra, através de uma clara exposição de razões, que uma visível profissão de fé, embora seja digna de nota, não basta para nos levar ao céu, a não ser acompanhada por uma correspondente conduta (vv. 21-23). Todo julgamento pertence ao Senhor Jesus, as chaves foram colocadas em suas mãos. Ele tem o poder de prescrever novos termos de vida ou morte e de julgar os homens de acordo com eles. Essa é uma solene declaração que está em conformidade com esse poder. Portanto, observe que:

  1. A lei de Cristo foi estabelecida (v. 21). “Nem todos aqueles que dizem Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus”, no reino da graça e da glória. Esta é uma resposta ao Salmo 15.1. “Quem habitará no teu tabernáculo?” A igreja militante. E quem morará no teu santo monte? A igreja triunfante. Cristo está mostrando aqui:

(1) Que não basta dizer as palavras “Senhor, Senhor” para ter Cristo como nosso Mestre, ou para se dirigir a Ele professando nossa religião. Nas orações a Deus e nas conversas com os homens, devemos invocar o Senhor Jesus Cristo. Quando dizemos “Senhor, Senhor”, estamos dizendo bem, pois é isso que Ele é (João 13.13). Mas será que imaginamos que isso é suficiente para nos levar ao céu, que essa expressão de formalidade deveria ser recompensada ou que Ele sabe e exige que o coração esteja presente nas demonstrações essenciais? Os cumprimentos entre os homens são uma demonstração de civilidade, retribuída com outros cumprimentos, e nunca são expressos como se fossem serviços reais. E o que dizer destes em relação a Cristo? Pode haver uma aparente impertinência na oração “Senhor, Senhor”, mas se as impressões interiores não forem acompanhadas pelas correspondentes expressões exteriores, nossas palavras serão como o metal que soa ou como o sino que tine. Isso não nos deve impedir de dizer “Senhor, Senhor”, de orar, e de sermos sinceros nas nossas orações, de professar o nome de Cristo, com toda clareza; porém jamais devemos expressar alguma forma de piedade sem o poder de Deus.

(2) Que será necessário – par a nossa felicidade – fazer a vontade de Cristo, que, na verdade, é a vontade do Pai celestial. A vontade de Deus, como Pai de Cristo, é a verdade que está no Evangelho, onde Ele é conhecido como Pai do nosso Senhor Jesus Cristo e, através dele, o nosso Pai. Esta é a vontade de Deus: que creiamos em Cristo, nos arrependamos dos nossos pecados, vivamos uma vida santa e amemos uns aos outros. Essa é a sua vontade: a nossa santificação. Se não obedecermos à vontade de Deus, estaremos zombando de Cristo ao chamá-lo de Senhor, da mesma forma como fizeram aqueles que o vestiram com um manto suntuoso e disseram: “Salve, Rei dos Judeus”. Dizer e fazer são duas coisas que muitas vezes estão separadas nas palavras dos homens: existe aquele que diz: “Eu vou, senhor”, porém jamais dá sequer um passo na direção prometida (cap. 21.30). Mas Deus reuniu essas duas coisas no seu mandamento, e nenhum homem poderá separá-las se quiser entrar no Reino dos céus.

  1. O argumento dos hipócritas contra o rigor dessa lei oferece outras coisas no lugar da obediência (v. 22). Esse argumento deve se referir àquele dia, àquele grande dia, quando cada homem irá comparecer exibindo todas as suas cores, quando o segredo dos corações irá se manifestar e, entre outras, irão aparecer as secretas pretensões com as quais os pecadores dão suporte às suas vãs esperanças. Cristo conhece a força da causa deles, que, na realidade, não passa de uma fraqueza. O que eles agora abrigam no seu seio será revelado para impedir o julgamento e suspender o seu destino, mas isso será em vão, pois irão apresentar seu argumento com grande impropriedade. “Senhor, Senhor” e, a esse respeito, irão apelar a Cristo com grande confiança. Senhor, não sabes:

(1) “Não profetizamos nós em teu no­ me?” Pode ser que sim. Balaão e Caifás foram dominados pela profecia e, contra a sua vontade, Saul se encontrou entre os profetas. No entanto, isso não bastou para salvá-los. Eles profetizaram no nome do Senhor, mas Ele não os havia enviado. Fizeram uso do seu nome apenas para servir a uma circunstância. Veja bem, o homem pode ser um pregador, pode ter os dons do ministério e até um chamado externo para exercê-lo; pode até ser bem-sucedido nisso e, ao mesmo tempo, ser um homem vil; pode ajudar os outros a ir para o céu e, no entanto, estar desqualificado e ficar fora dele.

(2) “Em teu nome, não expulsamos demónios?” Isso também pode acontecer. Judas expulsou os demônios, no entanto, era filho da perdição. Orígenes diz que em seu tempo o nome de Cristo era tão prevalecente para expulsar os demônios que, às vezes, esse nome também ajudava, mesmo quando era pronunciado por cristãos indignos. Um homem pode expulsar o demônio de outros homens e ainda ter, ou ser, o próprio demônio.

(3) “Em teu nome, não fizemos muitas maravilhas?” Pode haver alguma fé nos milagres, onde não existe nenhuma fé para a justificação; nenhuma fé que opera através do amor e da obediência. Os dons de línguas e de cura podem recomendar os homens ao mundo, mas somente a verdadeira piedade e santidade serão aceitas por Deus. A graça e o amor são a maneira mais eficiente de remover montanhas, ou de falar as línguas dos homens e dos anjos (1 Coríntios 13.1,2). A graça irá levar o homem para o céu mesmo sem milagres; porém os milagres nunca irão levar o homem para o céu sem a ajuda da graça. Observe que aqueles que confiam e colocam os seus corações na prática dessas obras, veem muitas maravilhas. Simão, o mágico, ficou atônito com os milagres (Atos 8.13), portanto daria qualquer quantia para ter o poder de fazer o mesmo. Veja que eles não tinham muitas boas obras para pleitear, nem podiam fingir que tinham feito muitas obras de piedade ou de caridade. Qualquer uma destas teria sido melhor para sua avaliação do que muitas e maravilhosas obras, que de nada serviriam enquanto persistissem na desobediência. Atualmente, os milagres continuam a acontecer. Mas será que o coração humano ainda encontra o encorajamento em esperanças infundadas, com seus vãos esteios? Aqueles que são descritos nesse versículo pensam que vão para o céu porque têm tido uma boa reputação entre os mestres da religião, observam o jejum, dão esmolas e têm sido promovidos na igreja, como se isso fosse suficiente para reparar seu permanente orgulho, mundanismo, sensualidade e a falta de amor a Deus e ao próximo. Betel é a sua confiança (Jeremias 48.13), eles se ensoberbecem no monte santo de Deus (Sofonias 3.11), e se vangloriam de ser o templo do Senhor (Jeremias 7.4). Devemos prestar atenção nos seus privilégios e performances externos para não nos enganarmos e não perecermos eternamente, como ocorre com as multidões, que seguram uma mentira em sua mão direita.

  1. A rejeição desse argumento por ser frívolo. Aquele que é o Legislador (v. 21) está aqui como Juiz e, de acordo com essa lei (v.23), irá publicamente anular esse argumento. Irá comunicar a eles, com toda solenidade possível, a sentença emitida pelo Juiz: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”. Observe:

(1) A razão e os fundamentos que Ele usa para rejeitá-los, e aos seus argumentos, se resume no fato de praticarem a iniquidade. Observe que é possível a um homem adquirir um nome notável como pessoa piedosa, e ainda assim ser um praticante de iniquidades. Aqueles que agem assim irão receber uma condenação maior. Quaisquer esconderijos secretos do pecado, guardados sob o manto de uma evidente profissão de fé, são a ruina dos homens. Anulam as pretensões dos hipócritas. Viver deliberadamente em pecado anula as pretensões dos homens, por mais capciosas que sejam.

(2) A maneira como esse argumento é expresso: “Nunca vos conheci”. “Nunca me pertencestes como servos, nem mesmo quando profetizáveis em meu nome, quando estáveis no auge da vossa profissão de fé, e éreis elogiados”. Isso indica que, se alguma vez o Senhor os tivesse conhecido, como Ele conhece aqueles que são seus, se os tivesse possuído e amado como se fossem seus, Ele os teria conhecido e possuído e amado até o fim. Mas Ele nunca os reconheceu, pois sempre soube que eram hipócritas e tinham o coração corrompido, como aconteceu com Judas. Portanto, Ele diz: “Apartai-vos de mim”. Será que Cristo precisava de tais convidados? Quando Cristo veio em carne e osso, Ele chamou a si os pecadores ao arrependimento (cap. 9.13), e quando voltar novamente, coroado de glória, irá afastar de si os pecadores. Aqueles que não forem até Ele para serem salvos deverão partir para serem condenados. Afastar-se de Cristo será o verdadeiro inferno do inferno, será a razão fundamental da miséria de ser condenado, de ter sido desprovido de toda esperança dos benefícios da mediação de Cristo. Ele não irá aceitar nem trazer a si no grande dia aqueles que, a seu serviço, não vão além de uma simples profissão de fé. Veja a que ponto um homem pode cair das alturas da esperança ao abismo da desgraça. Como pode ir para o inferno através das portas do céu! Essas deveriam ser palavras de alerta a todos os cristãos. Se um pregador que expulsa os demônios e realiza milagres for rejeitado por Cristo porque praticou iniquidades, o que será dele, e o que seria de nós, caso isso acontecesse conosco? Se agirmos assim, isto certamente acontecerá conosco. No tribunal de Deus, uma profissão de fé nunca irá defender homem algum da prática e do vício do pecado, portanto todo aquele que pronuncia o nome de Cristo deve abandonar toda iniquidade.

II – Ele mostra, através de uma parábola, que apenas ouvir essas palavras de Cristo não nos fará felizes, se não tomarmos a decisão de praticá-las, e que, se ouvirmos e praticarmos, seremos abençoados pelas nossas obras (vv. 24-27).

  1. Aqueles que ouviram as palavras de Cristo foram divididos em dois grupos; o grupo daqueles que ouvem e praticam o que ouviram, e o grupo daqueles que ouviram, mas não praticam. Cristo pregava para uma multidão mista, por tanto separou um grupo do outro, da mesma forma como irá fazer no grande dia, quando todas as nações estarão reunidas perante Ele. Cristo ainda fala do céu através da sua Palavra e do seu precioso Espírito; Ele fala através dos ministros e das providências aos dois tipos de pessoas que o ouvem.

(1) Aqueles que escutam suas palavras e as praticam: Bendito seja Deus porque eles existem, embora, comparativamente falando, ainda sejam muito poucos. Ouvir Cristo não significa apenas prestar atenção às suas palavras, mas obedecê-lo. Repare bem que é muito importante que todos nós pratiquemos as palavras de Cristo. É um sinal de misericórdia poder ouvir suas palavras. Bem-aventurados aqueles que ouvem (cap. 13 .16,17). Porém, se não praticarmos o que ouvimos, receberemos essa graça em vão. Praticar as palavras de Cristo é se abster conscientemente, dos pecados que Ele proíbe, e executar os deveres que Ele exige. Nossos pensamentos e sentimentos, nossas palavras e atos, a disposição da nossa mente e o curso da nossa vida devem estar em sintonia com o Evangelho de Cristo, e essa é a obrigação que Ele exige de nós. Todas as palavras de Cristo, não só as leis que Ele promulgou, mas também as verdades que revelou, devem ser praticadas por nós. Elas representam um exemplo, não só para os nossos olhos, mas também para os nossos pés, e foram destinadas não só a esclarecer nossos julgamentos, mas também a transformar o nosso coração e a nossa vida. Não podemos realmente acreditar nas palavras de Cristo se não agirmos de uma forma que corresponda a elas. Observe que não basta ouvir as palavras de Cristo, compreendê-las e lembrar-se delas, ouvir, comentar, repetir ou discutir essas palavras; mas ouvi-las e praticá-las. “Faze isso e viverás”. Aqueles que ouvem e praticam são abençoados (Lucas 11.28; João 13.17) e se tornam parentes de Cristo (cap. 12.50).

(2) Existem outros que ouvem as palavras de Cristo, mas não as praticam. Sua religião está apoiada numa simples audição e não vai além disso. Assim como crianças raquíticas, sua cabeça está repleta de noções vazias e de opiniões indigestas, enquanto suas juntas são fracas, pesadas e lânguidas. Elas não podem se movimentar; nem se importam em praticar nenhum dever útil. Ouvem as palavras de Deus, como se quisessem conhecer os seus caminhos, como se fossem pessoas justas, mas não estão dispostas a colocarem-nas em prática (Ezequiel 33.30,31; Isaias 58.2). Dessa forma, elas estão se enganando, como Mica, que acreditava ser feliz, por ter um levita como seu sacerdote, embora não tivesse o Senhor como o seu Deus. A semente foi lançada, mas nunca brotou. Eles veem as suas manchas no espelho da palavra, mas preferem ignorá-las (Tiago 1.22,24). Dessa forma, colocam um engodo sobre suas próprias almas, pois é certo que se o que ouvimos não trouxer nossa obediência, isso irá agravar a nossa desobediência. Aqueles que apenas ouvem as palavras de Cristo, mas não as praticam, é como se estivessem sentados a meio caminho do céu sem nunca chegar ao fim da jornada. É como se fossem meio-irmãos de Cristo; e as nossas leis não lhes dão direito a herança.

  1. Esses dois tipos de ouvintes foram aqui representados, com seu verdadeiro caráter e com a situação do seu caso, através de uma comparação entre dois construtores. Aquele que era prudente construiu a sua casa sobre uma rocha, e ela resistiu a uma tempestade. O outro, que era insensato, construiu a sua casa na areia, e ela desmoronou.

Agora:

(1) O escopo geral dessa parábola é ensinar que a única maneira de assegurar a nossa alma em relação à eternidade é ouvir e praticar as palavras do Senhor Jesus, as palavras contidas no Sermão da Montanha, que é totalmente prático. Algumas delas podem parecer difíceis para o homem, mas mesmo assim devem ser praticadas. Dessa forma, estaremos entesourando um bom fundamento para o futuro (1 Timóteo 6.19). Elas representam uma boa ligação, conforme alguns entendem, que foi feita por Deus e que garante uma salvação baseada nos termos do Evangelho. O fruto da nossa própria invenção não será uma ligação que traz salvação, nem será capaz de satisfazer as nossas próprias fantasias. Aqueles que, como Maria, se sentam aos pés de Cristo para ouvir as suas palavras, em completa sujeição, asseguram para si mesmos a “boa parte”. “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”.

(2) Algumas partes peculiares dessas palavras nos ensinam diversas e boas lições.

[l] Cada um de nós tem uma casa para construir, e essa casa representa a nossa esperança em relação ao céu. Deve ser nosso principal e constante cuidado fazer com que nosso chamado e eleição fiquem garantidos, assim como nossa salvação. Devemos assegurar um título para a felicidade celestial, e depois obter uma confortável prova disso. Ter certeza de que, mesmo se falharmos, ainda assim seremos recebidos na habitação eterna. Muitos nunca se importam com isso; é o que está mais longe do seu pensamento. Eles estão construindo para esse mundo, como se fossem permanecer aqui para sempre, e não se importam em construir algo em um outro mundo. Todos aqueles que assumem uma profissão de fé também desejam descobrir o que deverão fazer para ser salvos; eles precisam saber como poderão chegar finalmente ao céu, e precisam ter uma esperança bem fundada sobre este assunto, à medida que crescem na fé.

  • Existe uma rocha providenciada para nós, sobre a qual podemos construir essa casa essa rocha é Cristo. Jesus Cristo foi colocado como a sua fundação, e nenhuma outra fundação pode ser colocada (Isaias 28.16; 1 Coríntios 3.11). Ele é a nossa Esperança (1 Timóteo 1.1). Esse é o Cristo que está em nós. Devemos fundamentar a esperança que temos em relação ao céu sobre a plenitude do mérito de Cristo, do perdão dos pecados, do poder do seu Espírito, da santificação da nossa natureza e da prevalência da sua intercessão e da transmissão de tudo que é bom que Ele adquiriu para nós. Ele nos deu a conhecer tudo que existe nele para nos transformar segundo o Evangelho, e que é suficiente para retirar todas as nossas angústias e suprir todas as nossas necessidades, pois Ele é o Supremo Salvador. A Igreja foi edificada sobre essa rocha, assim como todo aquele que é crente. Ele é forte e tão imutável como essa Rocha, e podemos nos aventurar junto a Ele, pois não ficaremos envergonhados da nossa esperança.
  • Existem alguns remanescentes que ouvem e praticam as palavras de Cristo, que edificam as suas esperanças sobre essa Rocha. E ela passou a representar toda a sua sabedoria. Cristo é o único Caminho para o Pai, e a obediência à fé é o nosso único caminho para Cristo. Pois, para aqueles que obedecem a Ele, e somente a Ele, Ele se torna o Autor da eterna salvação. Aqueles que edificam sobre Cristo, que têm sinceramente aceitado a Ele como seu Príncipe e Salvador, têm como preocupação constante sujeitar-se a todas as regras da sua santa religião. Portanto, estes dependem inteiramente dele para obter a ajuda necessária diante de Deus, para que sejam aceitos. É necessário levar em conta aqui tudo que não seja pernicioso, para poder conquistar Cristo e ser encontrado nele. Construir sobre uma rocha exige muito cuidado e trabalho. Aqueles que desejam assegurar sua eleição e seu chamado devem agir com toda diligência. Eles são os construtores prudentes que começam a construir de forma a serem capazes de terminar (Lucas 14.30); portanto, precisam se estabelecer sobre a fundação mais sólida que existe.
  • Existem muitos que professam sua esperança de ir para o céu, mas desprezam essa Rocha e constroem suas esperanças sobre a areia. Isso não exige muito es­ forço, mas é o espelho da sua insensatez. Tudo que não está em Cristo é areia. Alguns constroem sua esperança na prosperidade da vida terrena, como se esta fosse um sinal do favor de Deus (Os 12.8). Outros edificam sobre a sua profissão exterior de fé, sobre os privilégios que gozam, as performances que executam nessa profissão de fé, e a reputação que adquiriram. Eles têm o nome de cristãos, receberam o batismo, vão à igreja, ouvem as palavras de Cristo, oferecem as suas orações e não fazem mal a ninguém. Contudo, é curioso observar que a morte de alguns deles pode ser considerada um alívio para outros! Essa é a luz do seu próprio fervor, sobre o qual caminham. É nesta vereda que eles se aventuram, com uma grande dose de segurança. Mas tudo isto não passa de areia, algo demasiadamente fraco para suportar a estrutura das suas esperanças celestiais.
  • Uma tempestade se aproxima, e ela testará os alicerces das nossas esperanças, e também toda obra do homem (1 Coríntios 3.13). Ela descobrirá a fundação (Habacuque 3.13). A chuva, a inundação e o vento irão se abater sobre a casa. Muitas vezes a provação está nesse mundo e, quando surgirem a tribulação e a perseguição por causa da palavra, veremos quem apenas ouviu a palavra, e quem, além de ouvi-la, a praticou. Então teremos ocasião de usar nossas esperanças. Elas serão experimentadas, sejam elas justas e bem fundamentadas ou não. Entretanto, quando chegarem a morte e o juízo, e chegar também a tempestade, pois não há nenhuma dúvida de que ela virá, as coisas ficarão tão calmas para nós como estão agora. Quando tudo o mais falhar, podemos ter certeza de que essas esperanças jamais falharão. Elas se transformarão em um gozo que durar á para sempre; um gozo eterno.
  • Aquelas esperanças que forem construídas sobre a Rocha de Cristo irão se sustentar, e também ao construtor, quando a tempestade chegar. Elas irão preservá-lo, tanto do abandono como de uma inquietude permanente. Sua profissão não irá definhar e o ânimo não lhe faltará. Elas serão sua força e seu cântico, como uma âncora da alma, segura e firme. Quando ele chegar para o último encontro, essas esperanças irão afastar o terror da morte e do sepulcro, irão levá-lo alegremente através do vale sombrio, serão aprovadas pelo Juiz, irão enfrentar o teste do grande dia e serão coroadas com eterna glória (2 Coríntios 1.12; 2 Timóteo 4.7,8). Bem-aventurado aquele servo a quem o Senhor encontrar absolutamente esperançoso, quando voltar.
  • Aquelas esperanças que são edificadas sobre um outro fundamento, e não sobre Cristo, certamente lhes faltarão em um dia de tempestade. Estas esperanças não produzirão um verdadeiro conforto e satisfação em meio às provações, não formarão uma muralha contra as tentações da apostasia na hora da perseguição, e na hora da morte e no dia do juízo final não terão qualquer valor. Onde estará a esperança do hipócrita quando Deus lhe arrancar a alma? (Jó 27.8). Ela será como uma teia de aranha, ou como a falta de esperança do espírito. Eles se apoiarão sobre a casa, e ela não se manterá firme (Jó 8.14,15). Ela desmoronará em meio à tempestade, quando o construtor mais precisará dela, esperando que represente um abrigo seguro para ele. Ela cairá quando for demasiadamente tarde para construir uma outra. Quando um pecador morre, suas expectativas morrem também. Quando se pensa que elas se transformarão em um gozo eterno, elas desmoronam e grande é a sua queda. O construtor fica muito desapontado e a vergonha pela perda é muito grande. Quanto mais elevadas forem as esperanças dos homens, depositadas em suas próprias invenções, maior será a sua queda. A ruína de todos aqueles que praticam uma profissão formal de fé que não esteja alicerçada em Cristo consistirá em ser uma testemunha da condenação de Cafarnaum.

III – Nos dois últimos versículos, tomamos conhecimento da impressão criada pelo discurso de Cristo nos seus ouvintes. Foi um excelente sermão, e é provável que Ele tenha falado muito mais, porém estas palavras não foram registradas. Sem dúvida, as palavras que saíram da sua boca, de cujos lábios se derramava a graça, contribuíram poderosamente para isso. Portanto:

  1. Eles ficaram admirados com a sua doutrina. Acredita-se que poucos tenham sido levados a segui-lo, mas naquele momento todos ficaram maravilhados. Veja bem: Será que é possível acreditar que as pessoas admirem um bom sermão e ainda assim permaneçam na ignorância e na incredulidade? Ficam admiradas, mas não se tornam santificadas?
  2. Talvez a razão disso seja que, apesar de ensinar com autoridade, Ele não era como os escribas. Os escribas pretendiam ter a mesma autoridade de qualquer um dos mestres, e eram apoiados por todas as vantagens externas que conseguiam. Porém, a sua pregação era pobre, vazia e insípida. Falavam como se não fossem mestres daquilo que pregavam, suas palavras não vinham de alguém que tivesse força ou vida, e repetiam as palavras como os alunos repetem as lições. Mas Cristo pronunciava o seu discurso da mesma maneira que um juiz pronuncia uma sentença. Ele realmente fazia seus discursos com um tom de autoridade. Suas lições eram leis, e a sua palavra era uma palavra de comando. Cristo, sobre a montanha, mostrava mais autoridade que os escribas na cadeira de Moisés. Dessa forma, quando Cristo ensina às almas através do seu Espirito, Ele ensina com autoridade. Ele disse: “Haja luz. E houve luz”.

GESTÃO E CARREIRA

As feras da Savana do Silício

AS FERAS DA SAVANA DO SILÍCIO

Novos negócios em alguns países africanos chamam a atenção de investidores e gigantes de tecnologia. Todos vão à caça de ideias para enfrentar grandes problemas (e algumas servem para o Brasil).

 Pela Rodovia Mombasa, uma das principais do Leste Africano, os carros avançam devagar. O trânsito é lento o tempo todo. Perto da Land Rover blindada, transporte-padrão dos estrangeiros que vêm trabalhar no Quênia, segue um matatu, ônibus multicolorido que roda sobre velhos chassis de caminhão. A estrada corta a capital, Nairóbi. Vacas e cabras pastam no acostamento largo de terra batida e o esgoto segue a céu aberto por longos trechos. Muita gente caminha ao longo da estrada e o comércio de rua oferece quase tudo, de sofás, camas e fogões a lápides de cemitério. Alguns comerciantes, a pé, arriscam-se pelos vãos do trânsito para incentivar a compra. Gritam em swahili (o idioma oficial do país, junto com o inglês) ou em algum dos 43 dialetos locais. Conforme o carro se aproxima de um bairro elevado no centro da cidade, a paisagem começa a mudar.

A Land Rover avança por Upper Hill, onde se vê menos gente caminhando, mais árvores e muito mais obras em andamento. A área já foi mais residencial e abrigou principalmente brancos, executivos expatriados e diplomatas. Agora, o bairro se transforma. Operários e máquinas de construtoras chinesas duplicam vias e levantam novos edifícios comerciais. A demanda por espaço multiplicou por seis o preço do metro quadrado na área desde 2010. Upper Hill vem acomodando escritórios de companhias estrangeiras, investidores e pequenas empresas de base tecnológica. É o bairro da moda para quenianos e estrangeiros bem formados que querem criar novos negócios. Em comum, tentam resolver problemas locais – e enriquecer ao fazer isso. Tudo bem pedagógico para quem vive no Brasil. Os problemas e as oportunidades soam familiares: territórios extensos e pouco povoados, que exigem investimento em cobertura de telecomunicações e internet; lacunas sérias e potencial imenso para inovações em transporte, energia, saneamento, habitação, agronegócio; grande população jovem, pobre e mal instruída, porém culturalmente inventiva, receptiva a tecnologia e ansiosa por consumir. Para completar, o Quênia, especificamente, passa por um período que combina instabilidade política (emperrada por defeitos velhos) e efervescência empreendedora (acelerada por ideias novas). Quem chega do Brasil pode se sentir meio em casa.

No sexto andar de um desses novos edifícios envidraçados, o Senteu Plaza, fica o iHub, mistura de coworking e incubadora. É peça-chave para Nairóbi merecer o apelido de Savana do Silício. Tem fama de ambiente de inovação mais produtivo da África. Em sete anos de existência, abrigou 170 startups e gerou uma rede que conecta 17 mil profissionais. Começou em 2010, como projeto social de um grupo de jovens quenianos que queriam um espaço para trabalhar e discutir ideias. Operou graças a doações de fundações e empresários, como o francês Pierre Omidyar, fundador do eBay. Nessa fase, o iHub ajudava a treinar programadores e oferecia gratuitamente espaço a quem precisasse de internet rápida para montar seu negócio (sem fins lucrativos, o espaço também havia acumulado dívidas e gerado acusações de gestão ruim contra seus administradores). Em dezembro de 2017, o perfil mudou.

O iHub recebeu aporte de US$ 2 milhões da Invested Development, gestora de recursos dos Estados Unidos que investe exclusivamente em projetos de países em desenvolvimento, e tornou-se ele próprio um negócio com fins lucrativos.

Com o novo estatuto, seus gestores esperam acelerar a linha de produção de startups. “Estávamos recebendo mais de 200 pedidos por mês de gente querendo usar o espaço. Não dava para atender todo mundo apenas com doações”, diz Njoki Gichinga, diretora de parcerias do iHub, enquanto mostra as novas instalações. A infraestrutura para as empresas incubadas se espalha por 7 mil metros quadrados recém-inaugurados, decorados com tubulação hidráulica e elétrica expostas, paredes de tijolo aparente e luminárias em diferentes alturas. “Agora, temos estrutura muito melhor e condições de cumprir nossa missão – ser um polo de tecnologia para a África, reunindo gente com diferentes perfis, do mundo todo”, diz Njoki.

A comunidade de profissionais ligados à inovação ganha força em vários países africanos. Os setores em que trabalham seguem uma dinâmica particular, na contramão dos negócios tradicionais no continente. Nos últimos anos, caiu o fluxo de capital estrangeiro para a África. Isso ocorreu, entre outros motivos, por causa do fim do ciclo de valorização das mercadorias básicas, por volta de 2010 (o Quênia, por exemplo, exporta muito café e petróleo) e pela desaceleração da economia da China – um fenômeno que também afetou o Brasil. A comunidade tem outra história para contar, bem mais interessante.

Conforme secou o dinheiro para setores tradicionais, fluiu o investimento para nichos criativos. Só em 2016, startups africanas levantaram US$ 367 milhões, na estimativa da gestora Partech Ventures – valor quase dez vezes superior ao registrado quatro anos antes. O simples surgimento desse tipo de estimativa mostra uma mudança no jeito de avaliar a região. “Há tanta dificuldade [na África] de as pessoas terem acesso a serviços básicos, a produtividade é tão baixa, que as possibilidades de melhoria são inúmeras”, diz Miguel Granier, diretor-geral do Invested Development, o fundo que apostou no iHub e colocou US$ 20 milhões no continente. “Nos negócios, esses desafios se traduzem em ganhos exponenciais. Os riscos são altos, mas as perspectivas de lucro, gigantescas.”

Se os valores envolvidos parecem pequenos para os padrões do Vale do Silício, bastam para fazer florescer startups em países pobres. África do Sul e Nigéria, as maiores economias da África subsaariana, também têm cena empreendedora vibrante e costumam abocanhar, junto com o Quênia, as maiores fatias de capital vindo de fora do continente (numa rodada de investimento em 2015, a empresa de varejo online e de entregas Jumia, fundada na Nigéria por Tunde Kehinde e Raphael Afaedor, foi avaliada em mais de US$ 1 bilhão e tornou-se o primeiro unicórnio da África, bem antes de o Brasil ter o seu, o aplicativo de táxis 99). O exemplo do iHub fez surgir incubadoras em outras cidades quenianas, como a SwahiliBox, em Mombasa, e a Dlab Hub, em Eldoret. Unem-se a um ecossistema que inclui Wennovation e Co-Creation Hub, em Lagos, na Nigéria, blueMoon, em Adis-Abeba, na Etiópia, e Bandwidth Barn, na Cidade do Cabo, África do Sul. Não se trata de euforia local. Há consistência, percebida mundo afora.

Em dezembro, durante um encontro em Adis-Abeba, na Etiópia, Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou as inovações que vêm da África e ressaltou a importância de cultivar as iniciativas na região. “Além de ser uma oportunidade sem paralelo para a geração de empregos aos mais jovens, a inovação é uma forma eficiente de reduzir o hiato de infraestrutura do continente”, disse Christine. Ela destacou que a tecnologia “molda a África de agora” e que, com os investimentos corretos, “poderá ser a ferramenta mais poderosa para fortalecer a África do futuro”.

O FMI acompanha o Banco Mundial, que escolheu startups como um meio relativamente barato de fomentar o desenvolvimento na região. Em dezembro, por meio do infoDev, um programa que visa organizar e expandir negócios locais ligados à tecnologia, o banco selecionou 20 empresas (de 900 inscritas) para receber até US$ 1,5 milhão em investimentos de um grupo de sete fundos. “O total de inscrições e a qualidade dos casos apresentados são uma mostra de como as startups africanas podem ser competitivas e importantes para o crescimento da economia”, disse Klaus Tilmes, diretor de mercado e competitividade do Banco Mundial, durante a premiação. Destacaram-se fintechs, agritechs e empresas dedicadas a saúde e transportes. Uma nova rodada do infoDev deve acontecer em breve.

É preciso sempre dosar as expectativas, ao avaliar bons momentos em países subdesenvolvidos. Essas nações, com instituições e economias frágeis, costumam cambalear. No caso da África, estamos tratando do continente mais pobre do mundo, acossado por doença, violência, radicalismo e instabilidade política. Entre quenianos, há um debate público bem vivo – será que o ímpeto inovador pode perder o fôlego? É bem possível, dado o histórico de vaivéns comum em países emergentes. Basta lembrar a diferença entre o Brasil eufórico dos anos 2000 e a crise atual. Mas, por enquanto, os quenianos podem celebrar. O país avança há três anos seguidos no ranking Doing Business, do Banco Mundial, que mede a facilidade para fazer negócios. Depois de perder posições, entre 2008 e 2013, o Quênia voltou a avançar e subiu da 129ª para a 80ª posição (ultrapassando o Brasil, que está em 125º). O bom momento, por enquanto, faz as histórias inspiradoras proliferarem mais rapidamente que as previsões pessimistas.

Casos de diferentes dimensões agitam a cena local. No ano passado, após receber investimento de US$ 4 milhões, a BRCK, do engenheiro e empreendedor Erik Hersman, lançou um roteador wi-fi à prova d’água e que se alimenta de energia solar. O equipamento ultrarresistente, projetado para uso em localidades isoladas na África, oferece até cem conexões de internet e consegue sustentar streaming de vídeo para 50 dispositivos no entorno. Sua em- presa já havia lançado um kit educativo que inclui tablets resistentes e com baixo consumo de energia. Os produtos receberam cobertura elogiosa da mídia, na Europa e nos Estados Unidos. Hersman é um dos integrantes da turma original de criadores do iHub e passou a infância entre Quênia e Sudão. Subindo os degraus da pirâmide de investimentos, encontram-se casos como o da plataforma B2B de comércio de alimentos Twiga Foods, criada por Peter Njonjo, que captou US$ 10,3 milhões em 2017, e o da M-Kopa Solar, que no ano passado foi apontada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, como uma das 50 startups mais inovadoras do mundo. A empresa criou um dispositivo de fornecimento pré-pago de energia solar, com manutenção baratíssima, após captar US$ 33 milhões em investimento, em 2015. A M-Kopa foi fundada por três executivos – os ingleses Chad Larson e Nick Hughes, com o canadense Jesse Moore – que haviam trabalhado por anos no Quênia, com telecomunicações e finanças, e decidiram empreender. Se o Quênia dispara startups em série, na Nigéria parece haver outra gigante em gestação, no rastro do unicórnio Jumia.

Trata-se da empresa de e-commerce Fashpa, fundada pela ex-executiva Honey Ogundeyi. Depois de viver anos na Europa, onde trabalhou em companhias como McKinsey, Ericsson e Google, Honey decidiu criar algo que ela mesma gostaria de ter encontrado quando voltou à Nigéria, em 2015 – um canal para compra de roupas online. Partiu de uma ideia simples e a incrementou, com análise de dados detalhada de suas potenciais consumidoras. Em vez de simples- mente revender peças, a Fashpa reuniu artesãs para fabricá-las, depois que Honey descobriu que valeria a pena trabalhar com design exclusivo e inspirado em peças tradicionais. “Logo, logo, teremos mais um unicórnio”, anuncia ela em seu blog, acompanhado por centenas de africanas.

As oportunidades vistas pelos empreendedores nativos não escapam do radar de companhias globais. Elas veem na África duas possibilidades atraentes – a primeira, a expansão de negócios num ritmo impensável em mercados maduros e mesmo na China (a África abriga seis das 12 economias que mais cresceram no mundo de 2014 a 2017, segundo o Banco Mundial); a segunda, um campo de testes de condições extremas para experimentar produtos e serviços.

Por isso o governo chinês apresentou no ano passado uma estratégia de investimento de US$ 60 bilhões no continente. Em 2017, a China superou os Estados Unidos como maior investidor na África, pelos cálculos do jornal britânico Financial Times. Apenas uma fração desse dinheiro vai para empreendimentos de base tecnológica. Mesmo assim, a dinâmica desses negócios parece ser mais benéfica aos africanos do que se pensava anteriormente. A consultoria McKinsey fez uma pesquisa de campo, no ano passado, em oito países africanos. Avaliou a atuação de companhias chinesas de diversos setores, como as fabricantes de equipamentos de telecomunicações Huawei e de celulares Tecno. Concluiu que, na maioria dos casos, elas geram empregos de boa qualidade para africanos, inclusive em cargos de gestão, e que há transferência de tecnologia. Trata-se de uma versão distinta da apresentada pelos que viam o avanço da China apenas como uma nova onda colonialista.

Os mesmos fatores que atraem os chineses levam Microsoft, IBM, Google e Facebook, entre outras, a ter planos ambiciosos por lá. As quatro ajudaram o iHub no início e continuam a fazer parte do ecossistema – mas agora como parceiras de negócios em vez de doadoras. “Elas usam o iHub para prospectar novas oportunidades ou profissionais capacitados para alguns de seus empreendimentos pelo continente”, diz Njoki. Mark Zuckerberg visitou o espaço de co-working em 2016, ainda nas antigas instalações. Saiu de lá falando bem. “É inspirador ver como os engenheiros estão conseguindo criar soluções para ajudar a comunidade”, disse. Em outra parada, na Nigéria, país mais populoso da África, concluiu: “É aqui que o futuro será construído”.

O discurso tem tido resultados práticos. No ano passado, a Microsoft apresentou seu projeto de abrir, em 2018, seus dois primeiros data centers no continente, na Cidade do Cabo e em Johannesburgo, na África do Sul. Facebook e Google anunciaram planos independentes para instalar redes de fibra ótica – respectivamente, 800 quilômetros em Uganda, em parceria com as operadoras locais Airtel e BCS, e mil quilômetros em Gana (o Google já havia instalado outros mil quilômetros em Uganda). As duas empresas avaliam estratégias mais mirabolantes de oferecer cobertura de internet a grandes áreas com custo menor – já falaram em usar drones e balões. Enquanto avaliam essas possibilidades, porém, movimentam-se de forma pragmática, conectando cidades importantes com a boa e velha fibra ótica.

Ao mesmo tempo, a IBM cria um banco de dados sem igual a respeito de uso da água e recursos naturais por tribos no norte do Quênia. O trabalho é conduzido a partir de um centro de inovação em Nairóbi, com coordenação do cientista Jonathan Lenchner, que se instalou na cidade em 2016. Ele foi um dos responsáveis pelas demonstrações públicas da capacidade da inteligência artificial Watson e continua a usar IA em seu trabalho na África. Sua equipe em Nairóbi inclui a engenheira americana Aysha Walcott-Bryant. Parte da rotina dela é sair a campo em busca de dados sobre malária. “O maior desafio é convencer enfermeiras, agentes de saúde pública e a população em geral sobre a importância de preservar informações”, diz Aysha. “Ainda não há aplicação comercial para o que fazemos aqui”, diz Lenchner. “Mas a partir desse trabalho temos subsídios para muitas inovações.” Outra equipe, num centro de inovação similar, em Johannesburgo, África do Sul, estuda políticas de saúde e urbanismo. Os laboratórios da IBM na África produziram, em poucos anos, 22 patentes.

É nas micro finanças, porém, que a África subsaariana se mostra o maior front de experiências do mundo. A região abriga um décimo do total global de assinantes de telefonia móvel e segue com a maior taxa de crescimento no mundo, 6,5% ao ano, segundo a consultoria GSMA. Até 2020, haverá quase 1 bilhão de telefones, metade deles smartphones. O acesso a redes 4G, hoje ainda raro, deverá chegar a quase metade da população. A difusão de serviços móveis tem efeitos mensuráveis em bem-estar e crescimento econômico. Com 250 mil habitantes, Kawangware forma uma das maiores favelas de Nairóbi. As habitações são erguidas com placas de ferro, papelão ou barro. Não há rede de esgoto e o índice de violência é altíssimo. Os desafios para tocar um negócio ali são imensos. Mãe solteira, com duas filhas, Edi Mgaiga, de 33 anos, herdou do pai uma barraca, uma duka, em uma esquina. As dukas, geralmente informais, vendem frutas, vegetais, peixe seco, sabão em barra e arroz à comunidade local. Até pouco tempo, todo dia, antes de abrir a barraca, Edi tinha de fazer longas caminhadas até um kaskazi (espécie de atacadão) para comprar as mercadorias. Voltava com quilos de produtos nas costas, sob o risco de ser assaltada. “A violência é muito complicada por aqui”, conta Edi. “Tinha medo de pedir para minhas filhas fazerem isso. Mas o tempo que gastava para ir e vir do kaskazi era um tempo que eu deixava de vender. Ganhava menos.”

Recentemente, Edi descobriu o Kionect, um sistema que permite a pequenos comerciantes pedir e pagar por pedidos de produtos usando o celular. Agora, logo pela manhã, ela aciona o aplicativo, escolhe o que vai querer e em 20 minutos recebe um motoqueiro com suas mercadorias. “Estou achando uma maravilha”, diz Edi. Criado por iniciativa da Mastercard em parceria com uma startup especializada em micro finanças, a Musoni, o Kionect já atende a mais de mil dukas das regiões mais pobres de Nairóbi. “Foi um grande desafio desenvolver um produto viável economicamente e que pudesse ao mesmo tempo atender a população mais carente do país”, afirma Michael Elliott, vice-presidente da Mastercard para inclusão financeira. “Mas com essa experiência abrimos oportunidades para oferecer esse tipo de solução a vários outros mercados emergentes.” Iniciativas como o Kionect ajudam a fazer do Quênia uma referência mundial em meios de pagamento digitais. O caminho começou a ser traçado em 2007, quando a Safaricom, subsidiária da Vodafone e maior operadora do Quênia, lançou o M-Pesa. O serviço foi o primeiro do mundo a oferecer a comerciantes e clientes a possibilidade de pagar contas usando um aparelho de telefone, e contribuiu de forma decisiva para a inclusão financeira do país. Um estudo do MIT apontou que, simplesmente por ter acesso ao M-Pesa, 2% dos domicílios quenianos foram retirados da pobreza entre 2008 e 2014. Também graças ao M-Pesa o Quênia surgiu pela primeira vez no mapa das grandes empresas de tecnologia, e a África passou a se destacar como um bom destino para investimentos no setor. A alta conectividade (mesmo que por redes 2G e 3G) desempenha hoje um papel fundamental no desenvolvimento social e econômico da África e é a principal plataforma para inovação em vários países. Não se pode dizer quanto vai durar bom momento, mas há algo em construção – multiplica-se rapidamente o número de ícones locais do empreendedorismo. “A inovação vem do conhecimento, geralmente é um processo que pode ser construído sobre experiências anteriores”, diz Kamal Bhattacharya CIO da operadora queniana Safaricom. Atual presidente do conselho de administração do iHub e mentor de várias startups africanas, Bhattacharya conta que ele próprio passou de incrédulo a entusiasta do movimento de inovação. “No começo, quando vi aqueles jovens em pufes coloridos, tomando café gratuito e discutindo aleatoriamente um monte de ideias, duvidei do que estava acontecendo”, diz. “Hoje, posso afirmar: não há time mais engajado para promover mudanças.”

Da varanda do iHub, Njoki aponta para a vista. “Não é bom estar aqui?”, pergunta. Ela mesma res- ponde: “Os ventos estão favoráveis. Havia espaço para evoluir e estamos abraçando essa possibilidade com todas as nossas forças”.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

Influência do ambiente sobre a percepção

INFLUÊNCIA DO AMBIENTE SOBRE A PERCEPÇÃO

Psicólogos da Universidade Yale tentam descobrir como características dos lugares que frequentamos nos afetam; cientistas já constataram, por exemplo, que cômodos abafados e lotados costumam deixar as pessoas mais tensas.

 Muitos pesquisadores costumam torcer o nariz para assuntos como canais energéticos e cristais. Alguns chegam a admitir que embora não endossem essas práticas, preferem aguardar comprovações para se pronunciarem. Há, porém, prática não comprovada cientificamente – pelo menos por enquanto que desafiam os estudiosos. É o caso, por exemplo, do feng shui, a antiga arte chinesa da ambientação, baseada na crença de que o espaço, a distância e a disposição dos objetos podem afetar as emoções e a sensação de bem-estar. Pessoalmente, a ideia faz sentido para muita gente que se sente mais equilibrada psicologicamente em alguns espaços que em outros, embora não saiba por quê. Alguns pesquisadores já admitem a conexão entre o espaço físico, o pensamento e a emoção, considerando que nossos vínculos, muitas vezes, se misturam à percepção da geografia espacial.

Dois psicólogos da Universidade Yale, nos Estados Unidos, decidiram explorar o poder dessa habilidade em laboratório, para verificar se a influência emocional de um espaço ordenado e aberto é diferente do efeito causado por um ambiente fechado e apertado. Lawrence E. Williams e John A. Bargh investigaram o tema em uma série de experimentos. As pesquisas começaram com o chamado estímulo subliminar, usado para criar uma atitude ou sensação inconsciente. Foi empregada uma técnica simples e eficaz: as pessoas deviam dispor dois pontos em um gráfico, como em um pedaço de papel diagramado. Em alguns casos, as marcações estavam bem próximas, enquanto em outros os pontos apareciam em lugares distantes. Sabe-se que o exercício estimula a percepção inconsciente de espaço congestionado ou amplo.

Em seguida, os pesquisadores testaram os voluntários de outras formas. Em um dos procedimentos, por exemplo, os participantes deviam ler um trecho embaraçoso de um livro e, logo após, eram indagados se a passagem era agradável ou divertida e se gostariam de ler mais sobre o gênero. Williams e Bargh queriam determinar se o senso de distância ou liberdade psicológica podia anular o desconforto emocional. Foi exatamente isso que ocorreu. Os voluntários estimulados pelo ambiente espaçoso se mostraram menos perturbados pela experiência embaraçosa, considerando-a mais agradável do que aqueles que tiveram percepção mais opressiva do mundo.

Os psicólogos realizaram outra versão do mesmo experimento, na qual o trecho do livro era extremamente violento e não embaraçoso. Os resultados foram similares. Os participantes estimulados pelo espaço fechado consideraram os eventos violentos muito mais repugnantes, assim como achamos um acidente aéreo em nossa vizinhança mais perturbador que outro que ocorre a milhares de quilômetros de nós. Williams e Bargh acreditam que essa tendência está ligada às conexões do cérebro entre distância e segurança, um hábito mental que provavelmente evoluiu para ajudar nossos ancestrais a sobreviver em condições precárias.

COMIDA CALÓRICA

Os psicólogos também tentaram explorar mais diretamente a relação entre distância psicológica e perigo real. Os participantes deviam avaliar a quantidade de calorias contidas em alimentos saudáveis e em junk food. Os estudiosos conjeturaram que as calorias da batata frita e do chocolate seriam avaliadas como uma ameaça à saúde, diferentemente das calorias contidas no arroz integral e no iogurte; raciocinaram ainda que as pessoas estimuladas pelo espaço fechado seriam mais sensíveis à ameaça. A pesquisa confirmou essas expectativas: participantes levados a se sentir confinados e em espaços abarrotados avaliaram que havia mais calorias na junk food do que as estimuladas a se sentir livres e em espaços abertos. Quanto à comida saudável, a percepção dos dois grupos foi idêntica.

Publicada na Psychological Science, a pesquisa pareceu convincente. Mas Williams e Bargh decidiram realizar mais um experimento que abordasse diretamente a questão da segurança pessoal. Os pesquisadores perguntaram aos voluntários sobre a força de seus vínculos emocionais com os pais, irmãos e a cidade natal, verificando que os expostos a maior distância psicológica relataram elos frouxos com esses importantes esteios emocionais. Ou seja: a proximidade física revelou também maior ligação emocional. O notável é que tudo se dá de forma inconsciente: a distância espacial entre dois objetos arbitrários tem, aparentemente, força suficiente para ativar um símbolo abstrato de proximidade e segurança no cérebro, que, por sua vez, tem energia suficiente para moldar nossas respostas ao mundo.

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 300

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 15-20

O Sermão da Montanha

Temos aqui uma advertência contra os falsos profetas. Devemos prestar atenção para não sermos enganados ou nos deixar impressionar por eles. Profetas são aqueles que preveem as coisas que vão acontecer. Existem alguns, mencionados no Antigo Testamento, que tinham a pretensão de fazer previsões, sem dar nenhuma garantia, e os acontecimentos desmentiram as suas pretensões; dentre eles, estão Zedequias (1 Reis 22.11) e um outro Zedequias (Jeremias 29.21). Os profetas também ensinavam ao povo o seu dever, de modo que os falsos profetas mencionados aqui também eram falsos mestres. Cristo, que além de Messias era um Profeta e um Mestre enviado por Deus com a missão de enviar outros mestres que com Ele aprendessem, está nos advertindo a prestar atenção nos impostores. Ao invés de terem a pretensão de curar as almas com uma doutrina saudável, eles não fazem mais do que envenená-las.

Os falsos mestres e os falsos profetas:

  1. São todos aqueles que afirmam ter certas incumbências, não as tendo. Aqueles que fingem que possuem garantia e orientação imediatas, supostamente enviadas por Deus e divinamente inspiradas; eles estão mentindo. Embora sua doutrina possa ser verdadeira, devemos ter cuidado, pois são falsos profetas. Falsos apóstolos são aqueles que dizem ser apóstolos, mas estão mentindo (Apocalipse 2.2); eles são falsos profetas. “Tome cuidado com aqueles que fingem ter revelações; não os aceite sem provas suficientes, para que um absurdo não seja aceito, seguido de outra centena deles”.
  2. São todos aqueles que pregam uma falsa doutrina sobre tudo aquilo que é essencial à religião. Que ensinam aquilo que é contrário à verdade que está em Jesus, a verdade que está de acordo com a santidade. A primeira dissertação parece ser a verdadeira noção do que é um pseudoprofeta, ou de alguém que finge ser um profeta, enquanto geralmente a última também está de acordo com ela. Pois aquele que exibe cores falsas, a pretexto delas, e com maior sucesso, ataca a verdade. “Tenha cuidado com eles, suspeite deles e, quando tiver descoberto sua falsidade, afaste-se e nada tenha a ver com eles. Fique em guarda contra essa tentação, que nos é geralmente dirigida nos dias da reforma, e do alvorecer de uma luz divina que possui imensa força e esplendor”. Quando a obra de Deus é reavivada, Satanás e seus agentes ficam mais ocupados. Aqui temos:

I – Uma boa razão para ter esse cuidado. Tenha cuidado com eles, pois são lobos vestidos como ovelhas (v. 15).

  1. Precisamos ter muito cuidado por que suas pretensões são muito justas e plausíveis e, assim sendo, irão nos enganar se não estivermos em guarda. Eles aparecem vestidos como ovelhas, usando a mesma vestimenta dos profetas, que era simples, grosseira e tosca. Usarão trajes rudes para enganar (Zacarias 13.4). A Septuaginta chama o manto de Elias de manto de pele de ovelha. Devemos prestar atenção para não sermos iludidos com as vestes e a aparência dos homens, como as dos escribas, que preferiam andar usando vestes longas (Lucas 20.46). Ou, falando figurativamente, eles pretendem ser cordeiros, e externamente parecem ser totalmente inocentes, inofensivos, humildes, úteis e tudo mais que é bom, e se colocam acima de todos os homens. Eles fingem ser homens justos e, por causa da sua aparência, são aceitos entre as ovelhas e isso lhes dá a oportunidade de fazer-lhes o mal sem que ninguém perceba. Eles e suas mentiras estão cercados de ilusórias pretensões de santidade e devoção. Satanás se transforma num anjo de luz (2 Coríntios 11.13,14). O inimigo tem chifre s como um cordeiro (Ap13.11), e as feições de um homem (Apocalipse 9.7,8). Sua linguagem é sedutora e suas maneiras são suaves como a lã (Romanos 16.18; Isaias 30.10).
  2. Também precisamos ter muito cuidado porque sob essas pretensões seus desígnios são mal-intencionados e enganadores e, no seu interior, eles não passam de lobos devoradores. Todo hipócrita a é um lobo com pele de ovelha. Ele não é uma ovelha, mas o seu pior inimigo, que aparece apenas para destruir, devorar e espantar as ovelhas (João 10.12), para levá-las para longe das suas companheiras e de Deus, conduzidas por atalhos tortuosos. Aqueles que pretendem nos enganar com qualquer verdade, e nos dominam com terror, sob qualquer que seja seu propósito, têm a intenção de fazer mal à nossa alma. Paulo dá a eles o nome de lobos cruéis (Atos 20.29). Eles são glutões e servem ao próprio ventre (Roma 16.18), eles lucram conosco e fazem de nós a sua presa. Como isso é muito fácil, e também muito perigoso, tenha cuidado com os falsos profetas.

II – Eis aqui uma boa regra para ser obedecida em nossos cuidados; devemos examinar todas as coisas (1 Tessalonicenses 5.21), e provar todos os espíritos (1 João 4.1). Aqui temos uma prova fundamental, iremos conhecê-los pelos seus frutos (vv. 16-20). Observe:

  1. O exemplo dessa comparação – o fruto serve para revelar a árvore. Nem sempre podemos distinguir a árvore pelo tronco ou pelas folhas, nem pela distribuição dos seus ramos. Somente através dos frutos ficaremos conhecendo a sua natureza, pois o fruto está de acordo com a árvore. Os homens podem, através da sua religião, influir na sua natureza e contradizer princípios interiores, porém a corrente e a inclinação das suas práticas estarão de acordo com ela. Cristo insistiu nesse ponto, sobre a concordância entre a, árvore e o seu fruto.

(1) Se você conhece a árvore, sabe também qual fruto deve esperar. Nunca procure colher uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos. Não faz parte da sua natureza produzir esses frutos. Podemos confundir uma maçã, e um cacho de uvas pode estar pendurado num espinheiro, da mesma maneira que uma boa verdade, ou uma boa palavra ou ação, podem ser encontradas num homem mau, mas esteja certo de que elas nunca nasceram lá. Veja bem:

[1] Corações corruptos, malvados e pecadores são como o espinheiro e o abrolho, que vieram com o pecado, esses corações são inúteis, inquietos e destinados ao fogo.

[2] As boas obras são como os bons frutos, como as uvas e os figos, elas são agradáveis a Deus e proveitosas ao homem.

[3] Nunca podemos esperar um bom fruto de um homem mau, e coisas limpas de coisas impuras, pois a eles falta a influência de um princípio reconhecido. Um mau tesouro irá produzir coisas más.

 (2) Por outro lado, se você conhecer como o fruto é, poderá conhecer como é a árvore que o produziu. Uma boa árvore não poderá produzir maus frutos, assim como uma árvore corrompida não poderá produzir bons frutos, mas apenas frutos maus. Devemos considerar o fruto que é produzido natural e genuinamente por uma árvore, e de forma constante e abundante. Os homens não são conhecidos através de atos particulares, mas pelo curso e teor da sua conduta e pelos atos praticados com mais frequência, especialmente aqueles que parecem ser livres, próprios e isentos da influência de qualquer persuasão ou motivos externos.

  1. A aplicação dessas verdades aos falsos profetas.
  • Através do terror e da ameaça (v. 1 9). Toda árvore que não produz bons frutos deve ser cortada. O próprio João Batista usou essa citação (cap. 3.10). Cristo poderia ter falado a mesma coisa com outras palavras, poderia ter feito alguma alteração ou lhe dado um a nova forma. Mas acreditou que não havia nenhum descrédito para Ele se repetisse o que João Batista havia afirmado antes. Os ministros não devem ser ambiciosos a ponto de produzir novas expressões, nem o ouvido das pessoas ansiar por novidades. Falar e escrever as mesmas coisas não deve ser penoso, pois é mais seguro. Eis aqui:

[1] A descrição de árvores estéreis, árvores que não produzem bons, frutos. Embora os frutos possam existir, se não forem bons a árvore será considerada estéril. Mesmo que as ações representadas por estes frutos sejam provenientes de boas intenções, elas não serão aceitáveis se não forem realizadas da maneira correta, e com os propósitos corretos.

[2] O destino das árvores estéreis. Elas certamente serão cortadas e lançadas ao fogo. Deus irá fazer com eles o mesmo que o homem faz com as árvores secas que ocupam inutilmente terreno. Ele irá marcá-los com algum sinal da sua insatisfação, despindo-os das suas partes e dos seus dons, irá abatê-los até a morte e lançá-los ao fogo do inferno, um fogo atiçado com a ira de Deus e alimentado com a madeira das árvores estéreis. Compare isso com Ezequiel 31.12,13; Daniel 4.14; João 15.6.

  • Através do julgamento. Pelos seus frutos iremos conhecê-los.
  • Pelos seus frutos como pessoas, isto é, suas palavras e atos, e pelo curso da sua conduta. Se você não sabe se estão certos ou errados, observe como vivem. Suas obras irão testificar a favor ou contra eles. Os escribas e fariseus sentavam-se na cadeira de Moisés e ensinavam a lei, mas eram orgulhosos, falsos, opressores e cobiçosos, portanto Cristo preveniu os apóstolos para tomar cuidado com eles e com sua influência (Marcos 12.38). Se os homens fingem ser profetas, mas são imorais, isso irá contradizer as suas pretensões. Qualquer que seja a religião que professam, se o deus a que servem estiver no seu ventre, se só pensarem nas coisas terrenas, não serão verdadeiros amigos da cruz de Cristo (Filipenses 18,19). Não foram ensinados, nem enviados pelo Deus Santo, e suas vidas provam que são guiados por um espírito imundo. Deus coloca tesouros em vasos de barro, mas não em vasos corrompidos como estes. Eles podem declarar os estatutos de Deus, mas de que mane ira devem fazê-lo?
  • Através dos frutos da sua doutrina, dos seus frutos como profetas. Porém, essa não é a única maneira de provar sua doutrina, sejam eles enviados por Deus ou não. O que eles tendem a fazer? A quais sentimentos ou práticas guiarão aqueles que os aceitam? Se a doutrina for de Deus, ela promoverá uma sincera piedade, humildade, caridade, santidade e amor, além de outras virtudes cristãs. Mas, se ao contrário, as doutrinas pregadas por esses profetas revelarem uma manifesta tendência para tornar as pessoas orgulhosas, mundanas e provocadoras, negligentes e descuidadas em suas condutas, injustas, exigentes, revoltadas ou perturbadoras da ordem pública, se elas toleram a liberdade sexual, e afastam as pessoas do autocontrole e das suas famílias, de acordo com as rigorosas leis do caminho estreito, podemos concluir que essa persuasão não vem daquele que nos chamou (Gálatas 5.8). Essa sabedoria não vem do alto (Tiago 15). A fé e uma boa consciência sempre caminham juntas (1 Timóteo 1.19; 3.9). Veja que as doutrinas de duvidosa controvérsia devem ser comprovadas através de graças e deveres devidamente confessados. Essas opiniões não vêm de Deus e levam ao pecado. Se não pudermos conhecê-los pelos seus frutos, devemos recorrer à grande pedra fundamental, à lei e ao testemunho. Será que eles falam de acordo com essa regra?

GESTÃO E CARREIRA

A revolução na educação executiva

A REVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO EXECUTIVA

Escolas de negócio tradicionais viram seus currículos do avesso para se manter relevantes em um mundo onde já é possível aprender (quase) tudo pela internet. Enquanto isso, as nascidas na era digital crescem e multiplicam seus lucros – e discípulos. Aonde vai dar a nova corrida pelo conhecimento.

Na era pré-smartphone – e lá se vai pouco mais de uma década –, tudo parecia mais fácil. A estrada rumo ao topo da pirâmide era sinalizada por meia dúzia de escolas de grife, cursos de línguas estrangeiras e temporadas no exterior. Para um trainee, a diferença entre o descarte do currículo e um telefonema do RH para a ambicionada entrevista poderia estar no inglês fluente e na chancela de “uma boa faculdade”. A fim de escapar do cruel funil das empresas, pais aconselhavam filhos a prestar concursos públicos (garantia de estabilidade) ou a se tornar profissionais liberais (garantia de prestígio). Sonhos de consumo, medicina, engenharia e direito garantiam status ad infinitum. Para quem se decidia por carreiras executivas, por vocação ou falta de alternativa, a saída era chegar “por baixo” à selva corporativa, coma certeza de que a promoção dependeria de outros fatores. Para a diretoria, um diploma de MBA sempre contou pontos decisivos. Melhor ainda se viesse com o brasão das top 10 do ranking do Financial Times. Harvard e Insead arrancavam suspiros de pares, recrutadores e chefias. Estudantes não tinham dúvida alguma sobre o retorno sobre o investimento, de tempo e dinheiro, a curto, médio e longo prazos. Conquistas escolares, portanto, exerciam efeito calmante na trajetória profissional, sustentavam cargos e mantinham a ordem e o progresso do lucrativo mercado de educação executiva.

Grosso modo, esse roteiro funcionou por décadas como o alarme do bedel (ok, vale um Google aqui). Agora, contudo, despontam inequívocos sinais de esgotamento. Em um momento de previsões nefastas sobre o futuro do trabalho e o progressivo desaparecimento dos empregos (800 milhões até 2030, segundo os cálculos da McKinsey) e de profissões tal qual as conhecemos hoje por conta do avanço da tecnologia, as garantias simplesmente aca-ba-ram. Para escolas, estudantes e empresas. A estrada deixou de ser linear e cedeu lugar ao sinuoso espectro das angústias. O escritor Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, capturou esse novo estado de ânimo: “Nem todos vão conseguir se reinventar. Até 2050 veremos o surgimento de uma nova classe, a dos inúteis”, escreveu, em artigo publicado no The Guardian e lido por milhões de usuários únicos na internet. Em um país como o Brasil, em que a taxa média de desemprego anual atingiu 12,7%, a maior da série histórica do IBGE, as apocalípticas palavras de Yuval atingem volume mais alto. O fantasma não é só o desemprego – e sim a completa inutilidade. E ronda cada escalão da vida corporativa. “O problema é que o modelo de educação tradicional foi construído segundo a lógica industrial. E isso não funciona mais”, pondera Pascal Finette, chefe do programa de empreendedorismo e inovação aberta da Singularity University (SU)

A SU foi fundada há dez anos, por Peter Diamandis e Ray Kurzweil, no auge da crise financeira internacional, e logo se tornou referência no ensino de inovação e tecnologia. Instalada no Vale do Silício, tem como investidores empresas como Google, Cisco e Nokia. O indiano Salim Ismail, ex-CEO da SU, ajudou a fazer a fama internacional da escola ao escrever o best-seller Organizações Exponenciais, em 2014. O lançamento foi sucedido por um boom de popularidade. No livro, ele fala sobre a competição entre empresas em um mundo que muda em altíssima velocidade – e em que concorrentes (leia se startups) podem devorar uma corporação antes mesmo desta se dar conta da existência deles. Sua mensagem central, de tom otimista, é que uma empresa pode multiplicar seu crescimento por dez com mudanças de gestão e tecnologia. Por isso, precisam de líderes que saibam fazê-las. No campus da SU, os alunos aprendem a pensar exponencialmente

em soluções para os grandes problemas da humanidade – e não necessariamente nos consumidores dos produtos da sua empresa. É com essa proposta, humanista, mas de forte viés tecnológico, focada em cursos curtos e corpo docente que muda a cada temporada, que a SU tem atraído a elite corporativa global para o seu campus, instalado numa base de pesquisa da Nasa. Dezenas de brasileiros, a exemplo de Rodrigo Galvão, presidente da Oracle no Brasil, e Paula Bellizia, da Microsoft, já foram para lá ao custo de pequenas fortunas. Uma semana sai por US$ 14,5 mil. Os brasileiros, aliás, têm se tornado público cativo e, hoje, respondem por cerca de 20% da clientela. Não à toa, atraiu a atenção de grupos como HSM (o braço de educação executiva da Anima) e Mirach, de Porto Alegre, fundado por um dos embaixadores da SU, Francisco Milagres. Juntos, eles vão realizar o SU Global Summit, em São Paulo, em abril deste ano. O evento consumiu US$ 1 milhão em investimentos. “A Singularity é uma escola muito especial. Atrai os líderes porque tem um propósito claro: usar a tecnologia para gerar impacto na vida de milhões de pessoas”, diz o CEO da HSM, Guilherme Soárez, fazendo coro ao que é frequentemente dito por Diamandis.

No Brasil, a SU conta com seis embaixadores, em São Paulo, Recife, Brasília, Porto Alegre, Uberlândia e Belo Horizonte. “Durante uma semana, aprendi mais do que em um ano inteiro”, diz Conrado Schlochauer, ex-aluno da escola e, agora, o seu embaixador paulista. Por lá, as disciplinas que pautam o programa acadêmico são bem diferentes das encontradas nas tradicionais escolas de negócio: neurociências, genética, inteligência artificial, cyber segurança. Ex-CEO do LinkedIn no Brasil, Osvaldo Barbosa diz ter voltado da SU com a cabeça bem mais aberta. “Saí com conhecimentos sobre aspectos do setor de tecnologia que nunca tinha reparado antes, ainda que tenha dedicado toda a minha carreira à área”, afirma ele, que voltou ao Brasil para estruturar um fundo de investimento em startups. A Singularity também subverte a ideia clássica que temos a respeito de um professor, e recruta biomédicos, hackers, gerontologistas e astronautas, com uma quedinha por empreendedores. Todos são entusiastas do que vem por aí, desde que façamos a nossa parte. Em um trecho do documentário The University, que conta a história da escola, o ex-astronauta e professor de robótica da SU, Dan Barry, diz: “Você está preocupado, achando que os robôs vão dominar o mundo? Se você sair da sala e trancá-los, 99% deles não vão conseguir sair. Vão bater na porta até ficar sem bateria”. Mas alerta. “Não se esqueça de que eles têm potencial.” O lançamento dos cursos da SU no Brasil, no fim do ano passado, foi feito à boca pequena, mas lotou o auditório da IBM em uma noite quente de dezembro, em São Paulo. Na plateia, formada pela “galera exponencial” de potenciais interessados, como diziam os organizadores, estava o executivo Jean Saghaard, 44 anos, que há um ano procura recolocação. Com experiência no mercado financeiro e no de educação, além de um MBA da HEC, de Paris, na bagagem, Jean explica o que o atraiu. “A Singularity goza das mesmas vantagens de uma startup. Foi criada com um modelo voltado para o futuro. Nas escolas tradicionais, a inovação acaba sendo incremental. O currículo não muda na velocidade necessária. Por isso, fico muito mais tentado a estudar lá que reprisar um MBA”, afirma Jean. Ele acabou de fazer um curso de Digital Product Leadership, com a duração de dois meses, no Tera, uma edtech (como são chamadas as novas startups de educação) com um cardápio de cursos inteiramente voltado para novas habilidades digitais. Fundada pelo empreendedor Leandro Herrera, 32 anos, a Tera aposta em um novo modelo para ensinar “habilidades do século 21” para seus alunos. Um dos mais populares é o Boot Camp, em que o aluno desenvolve competências em pouco tempo e de forma bastante pragmática: o formato atende quem tem por objetivo encontrar emprego em novas carreiras. Dois exemplos: cientista de dados e designer de experiência do usuário (UX). “Você não vai achar um programador com MBA em negócios. Um MBA para designer UX faz zero diferença. O mercado de tecnologia não olha para títulos, e sim para capacidade de entrega”, diz Herrera, que fundou há pouco mais de um ano a escola, que está, segundo ele, em franca expansão. Na mesma praia está a Gama Academy, de Guilherme Junqueira, 29 anos. Sua startup só atua sob demanda de empresas que não estão conseguindo encontrar os profissionais certos no mercado. “O mundo andou mais rápido que as escolas normais, e as empresas não conseguem achar pessoas com o perfil que precisam. É aí que eu entro”, diz Junqueira. Depois de ser reconhecido como o melhor professor da pós-graduação do Insper, uma das escolas de negócio mais prestigiadas do Brasil, Liao Yu Chieh, 41 anos, também decidiu fundar a sua própria edtech, a Idea9, plataforma de treinamento corporativo. Funciona como um Netflix empresarial. A diferença é que tanto empresas quanto alunos pagam pelo acesso aos conteúdos. “Vi que existia um gap no mercado para habilidades específicas, e que as universidades não teriam condições de oferecer os cursos na velocidade que os executivos precisam”, diz Liao, que já colocou módulos inteiros no WhatsApp.

Uma outra modalidade de ensino que tem crescido substancialmente são os MOOCs, ou massive open online courses (veja quadro na pág. 64). Nesse caso, os cursos são oferecidos em plataformas online, de forma gratuita ou a baixo custo. É o caso da Coursera, da edX (fruto de uma parceria entre MIT e Harvard) e da Udacity. Navegar pelo menu de ofertas dessas plataformas é uma experiência interessante. Os temas que desfilam na tela são bitcoin, python, ciências de dados… Destaque para uma diferença fundamental: é o próprio aluno quem monta o roteiro de aprendizado, e não a escola. “O objetivo é oferecer flexibilidade e personalização”, diz o CEO da edX, Anant Agarwal. Ao final, o aluno não recebe um só diploma, válido para a vida inteira, e sim um “nanodegree”. A intenção é que os estudantes colecionem tantos micro certificados quanto forem necessários ao longo de sua carreira.

Responsabilizar os alunos, e não somente os professores, pelo aprendizado, é a pegada da Hyper Island, da Suécia (veja entrevista exclusiva com a CEO, Sofia Wingren, na pág. 70), que ganhou o honroso apelido de Harvard Digital. Aqui, contudo, o foco não são habilidades técnicas, e sim os chamados soft skills, como a capacidade de adaptação mencionada por Finette no início desta reportagem. A Hyper chegou ao Brasil há quatro anos. Não tem sede física (exceto na Suécia, Reino Unido e Cingapura), professores fixos ou grades curriculares. Oferece workshops, consultoria e as chamadas máster classes, que duram não mais de três dias e têm por público-alvo executivos de alto escalão de diferentes indústrias. Seus instrutores não são celebridades do mundo acadêmico. Podem muito bem ser mágicos, performers e até crianças. As aulas são sempre diferentes, uma “experiência”. “Nós entendemos que 50% do conhecimento está entre os próprios alunos. E os ensinamos a fazer as perguntas certas”, diz a guatemalteca Nathalie Trutmann, diretora-executiva da Hyper Island para a América Latina. Apesar da curta duração, os cursos de três dias chegam a custar mais de US$ 3mil. “A experiência que oferecemos é um produto de luxo”, diz Nathalie, que tem em sua lista de clientes empresas como Itaú, Bayer, Gerdau e Philips. Dona ela mesma de um MBA no Insead, Nathalie explica que os executivos chegam pautados pela urgência da “transformação digital”. “O C-Level vem até nós em busca da realidade prática, e não de teoria”, diz. A abordagem tem dado certo: só no ano passado, a escola viu o interesse dos brasileiros dobrar. Mais de 2 mil executivos passaram por seus treinamentos. Entre eles, Enzo Devoto, vice-presidente de marketing para a América Latina da Unilever, entusiasta do método. “A Hyper é o melhor parceiro para te ajudar a hackear o seu negócio e ter sucesso em um mundo volátil”, diz Enzo, usando um verbo moderninho. Faz alusão à sigla VUCA, usada para descrever a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) dos tempos atuais.

Assim como a Hyper Island, a Berlin School of Creative Leadership começou fazendo sucesso entre a turma da economia criativa antes de conquistar alunos de outras indústrias. No Brasil desde o início de 2017, a escola alemã foi fundada em 2006 por um grupo de executivos que se diziam cansados da “tirania da mediocridade”. Entre eles, o publicitário Michael Conrad. Neste ano, a escola deve colocar em prática o conceito de Co-Teaching, em que empreendedores digitais trocam conhecimento com profissionais criativos. “Aprender é um processo de interação”, afirma a CEO, Susann Schronen. O MBA da Berlin School custa ¤ 55 mil.

Um ativo importante embutido no preço de todas essas escolas é a potencial rede de contatos formada pelo aluno durante as “experiências”. Não importa apenas o que você está aprendendo, mas com quem está aprendendo. Uma grande sacada é misturar profissionais de diferentes indústrias, até então acostumados a conviver somente em seus silos. Ao colocá-los em um mesmo barco para viver experiências “memoráveis”, são construídos laços profissionais mais fortes. Com todo mundo junto e misturado, forma-se uma comunidade que, em certa medida, aplaca a angústia trazida pelo VUCA.

A startup Knowledge Exchange Sessions (KES) foi idealizada justamente para tocar nesse nervo, explicam os sócios-fundadores Maria Juliana Giraldo e Ricardo Al Makul, ambos sem experiência prévia em educação, mas muita em marketing. “A essência da nossa proposta é a troca de conhecimento entre os próprios alunos”, afirma Maria, enquanto celebra o terceiro ano de vida da empresa. “Até ontem, isso era um ppt”, brinca, em meio a dezenas de executivos, de CEOs a conselheiros de empresas, que pagaram R$ 22 mil (combo válido para duas pessoas) pelo “trek” de seis palestras, incluindo a de Finette. No terraço, enquanto esperam que o guru comece a falar sobre startups, eles trocam cartões e aproveitam a farta mesa do café da manhã. Garçons servem espumante; à mesa, há frutas, doces, diversos tipos de pães e até um panetone gigante, intocado. Além das palestras com “figurões digitais”, o cardápio inclui viagens para o Vale do Silício e Tel-Aviv, ao custo de US$ 6 mil per capita. “Estamos dando certo porque não ficamos presos aos modelos engessados das escolas de negócios”, diz Makul. No começo deste mês, mais um grupo partiu rumo ao Vale – entre eles, Arthur Grynbaum, CEO de O Boticário. Um alto executivo que preferiu não se identificar baixou a voz e cochichou para a reportagem: “Se eu não aprender nada, pelo menos aumento as chances de emprego”.

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 Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Na cabeça de quem voltou da morte

EQM – NA CABEÇA DE QUEM VOLTOU DA MORTE  

O fenômeno fascina leigos com relatos da visão do próprio corpo observado do teto, imagens de túneis que levam à luz e o encontro com parentes e amigos já falecidos. Para psicólogos, médicos e neurocientistas, esse estado de consciência tão específico, relatado por pessoas em todo o planeta, pode revelar informações importantes sobre o funcionamento do cérebro e da mente.

Em 1943, Georgie Ritchie escreveu o livro Voltar do amanhã (Nórdica, 1980), no qual conta que, quando era um jovem soldado, foi convocado para se apresentar num batalhão cuja sede ficava no meio do deserto. Durante vários dias foi açoitado por uma tempestade de areia e contraiu pneumonia, numa época em que ainda não havia antibióticos. Após um período de febre intensa e violentas dores no peito, foi declarado morto e colocado num pequeno cubículo, envolvido por lençóis. Um enfermeiro, porém, convenceu o médico de plantão a aplicar uma injeção de adrenalina no coração do jovem soldado. Depois de ter estado “morto” durante nove minutos, Ritchie recobrou a consciência, para grande espanto de todos, e confessou que durante esse tempo viveu uma experiência intensa, da qual se lembrava perfeitamente bem.

No início ele evitava falar sobre o assunto, pois temia a opinião alheia. Mais tarde escreveu o livro sobre o que lhe aconteceu naqueles nove minutos. Posteriormente, formou-se em medicina e fez residência em psiquiatria. Tornou-se professor e passou a evocar sua experiência durante as aulas. Um desses futuros médicos, Raymond Moody, ficou de tal forma intrigado com o relato de Ritchie que começou a pesquisar o que poderia se passar com os pacientes durante situações críticas. Em 1975, Moody publicou A vida depois da vida (Butterfly Editora, 2004), na qual cunhou o termo near death experience – em português, experiência de quase morte (EQM).

Depois do relato de Moody, numerosos casos de EQM foram descritos na literatura médica. O cardiologista holandês Pin van Lommel, autor de Consciousness beyond life: the science of the near-death experience (Harper, 2010), publicou em 2001 na revista The Lancet uma série de 344 casos de EQM num estudo prospectivo em hospitais da Holanda. Van Lommel e sua equipe revisaram os prontuários e ouviram o relato desses pacientes. Foram analisados o tempo de parada cardiorrespiratória (PCR), as drogas utilizadas na reanimação e o resultado dos exames realizados no período de reanimação.

Ao publicar seu primeiro livro, em 1975, Moody descreveu os elementos característicos das EQMs, enfatizando que a maior parte das pessoas experimenta apenas alguns deles. Cada EQM é uma experiência única, vivida de forma coerente, e não como uma série de elementos distintos. A ordem em que as vivências são citadas pode variar. Há trabalhos comparativos entre os elementos descritos antes e depois de 1975. Esses estudos procuraram averiguar se a enorme publicidade dada ao livro de Moody teria influenciado o conteúdo dos relatos de EQM. Autores concluíram que os relatos são semelhantes, exceto talvez a referência ao túnel, menos frequentemente citado antes de 1975. Mas as EQMs e seus efeitos sobre as pessoas que a vivenciaram parecem ser os mesmos no mundo inteiro. Algumas poucas diferenças podem ser atribuídas à cultura. Um estudo transcultural mostra que alguns elementos, como o filme da vida do sujeito e a experiência do túnel, são menos comumente relatados pelas populações indígenas da América do Norte, da Austrália e das ilhas do Pacífico Sul.

POR QUE ISSO ACONTECE?

Várias hipóteses têm sido aventadas para explicar o fenômeno. Em 2001, o doutor em medicina Sam Parnia e seus colaboradores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, realizaram estudo prospectivo de EQMs ocorridas durante PCR. Durante um ano, eles entrevistaram sobreviventes das unidades coronariana e de emergência do Hospital Geral de Southampton. Dos 63 pacientes ouvidos, apenas sete (11%) do total relataram alguma memória do momento da reanimação, dos quais quatro preencheram os critérios para EQM (6,3%), e a citaram como agradável. Embora o estudo de Parnia não obtivesse um número de pacientes com EQM suficiente para comparações estatísticas, houve uma pequena diferença entre os grupos quanto aos níveis médios de sódio e potássio, pressão parcial de CO2 (pCO2) ou medicamentos administrados durante a parada cardíaca. Curiosamente, pessoas que passaram por EQMs tiveram pressão parcial de oxigênio no sangue arterial (pO2) duas vezes mais elevada do que no grupo de controle.

No amplo trabalho prospectivo realizado por Van Lommel, também em 2001, foram analisados 344 pacientes em dez hospitais da Holanda. Todos estiveram clinicamente mortos e foram submetidos à ressuscitação cardiorrespiratória (RCR) bem-sucedida. Do total, 62 (18%) relataram alguma recordação durante o tempo de morte clínica, 21 (6%) tiveram uma EQM superficial e 41 (12%), EQM significativa. Entre estes últimos, 23 (7%) relataram EQM profunda ou muito profunda. Van Lommel não conseguiu associar nenhuma causa psicológica, neurofisiológica ou farmacológica para explicar a experiência.

Em pesquisa publicada em 2003, o pesquisador da Universidade de Michigan Bruce Greyson, autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs, entrevistou pacientes nos primeiros seis dias de internação na unidade de tratamento cardíaco e na unidade semi-intensiva de cardiologia do Hospital da Universidade da Virgínia. Dos 1.595 incluídos na amostra, 27 (2%) preencheram os critérios para a EQM. Daqueles que relataram EQM, 41% tiveram parada cardíaca, 26%, infarto do miocárdio, 22%, angina instável e 11%, outros diagnósticos cardíacos. Dos 105 com parada cardíaca, 10% tiveram EQM; outros 81 (5%) descreveram EQM que ocorreram durante um episódio anterior que envolveu risco de vida. Greyson não encontrou nenhuma correlação entre várias medidas médicas, incluindo proximidade objetiva da morte (por exemplo, perda de sinais vitais), índice de prognóstico coronariano e classificação da função cardíaca com a incidência de EQMs. No entanto, os pacientes internados com parada cardíaca relataram, de forma enfática, mais EQMs (10%) do que os pacientes internados com outros diagnósticos cardíacos (3%).

A alteração de oxigênio e gás carbônico ocorrida durante a parada cardíaca em pacientes que tiveram EQM foi pesquisada por Klemenc-Ketis e colaboradores da Universidade de Maribor, na Eslovênia, em 2010. Eles pesquisaram medidas de pressão parcial de CO2 exalado no final da expiração (petCO2), pCO2, pO2 e níveis de sódio e de potássio séricos. Pacientes com petCO2 e pCO2 mais elevados relataram significativamente mais EQM. As pontuações das EQMs também foram positivamente correlacionadas com os níveis de pCO2 e potássio sérico. Os pacientes com pO2 mais baixo tiveram mais EQM, porém a diferença não foi expressiva.

Citado por Van Lommel, um dos mais emblemáticos casos de EQM se refere a uma jovem mulher que, operada de um aneurisma cerebral, teve uma EQM profunda na cirurgia. Durante o procedimento, seu corpo foi resfriado e foi realizada circulação extracorpórea. Ela estava sob efeito de anestesia geral, os olhos estavam cobertos por bandagens para evitar ressecamento e foram colocados tampões nos ouvidos. Apesar de não ter nenhuma atividade elétrica cortical e no tronco encefálico, a paciente passou por uma profunda EQM. Ela se surpreendeu ao ver que um médico tentava realizar algum procedimento na região de sua virilha direita e o ouviu dizer ao neurocirurgião que “não estava conseguindo…”. Seu interlocutor sugeriu então que ele que fosse para o outro lado da mesa cirúrgica. Tratava-se da canalização da artéria femoral para realizar a circulação extracorpórea. A moça havia sido informada de que sua cabeça seria aberta com uma serra, mas o que viu na mão do médico foi um objeto parecido com sua escova de dentes elétrica. Ela descreveu inúmeras situações ocorridas na sala de cirurgia – as quais, estando ela anestesiada, com o corpo resfriado, o coração parado e o cérebro inativado, jamais poderiam ter sido percebidas. A equipe cirúrgica confirmou todos os relatos, embora nenhum profissional conseguisse explicar como a jovem pôde ter acesso a todas essas informações.

A mais abrangente pesquisa sobre EQM realizada até o momento foi o estudo multicêntrico dirigido por Sam Parnia, diretor do The Human Consciousness Project, da Universidade de Southampton, o AWARE (Awareness during Resuscitation), concluído em 2008 e publicado em 2014. Durante quatro anos foram entrevistados 2.060 sobreviventes de parada cardíaca em 15 hospitais dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Todos foram submetidos a testes específicos com o propósito de identificar a incidência e a validade de relatos de consciência durante parada cardíaca. Para avaliar a precisão das alegações de percepção visual durante a parada cardíaca, cada hospital instalou entre 50 e 100 prateleiras em áreas onde a ressuscitação de paradas cardíacas era considerada provável de ocorrer. Cada prateleira continha uma imagem apenas visível acima dela. Estas imagens foram instaladas para permitir a avaliação de relatos de consciência visual.

Entre as 2.060 pessoas, 140 sobreviventes fizeram as entrevistas da fase 1, enquanto 101 dos 140 pacientes completaram a etapa 2. Do total, 46% relataram memórias com sete temas cognitivos principais: medo; animais/ plantas; luz brilhante; violência/perseguição; déjà-vu; família; recordações de eventos pós-parada cardíaca. Apenas 9% tiveram EQM e 2% descreveram a recordação explícita de ver e ouvir eventos reais relacionados à sua ressuscitação. Entre os que apresentaram EQM não houve registro de pacientes que contaram ter visto os alvos colocados nas prateleiras. O argumento para a não visualização desses objetos é que 78% das paradas cardíacas ocorreram em locais onde não havia prateleiras com alvos previamente colocados.

Os autores do estudo concluíram que os sobreviventes de parada cardíaca vivenciaram ampla gama de memórias após PCR, incluindo experiências assustadoras e persecutórias, e que tiveram momentos em que acreditavam estar conscientes. Os pesquisadores reconhecem, porém, que outros estudos são necessários para delinear o papel explícito e implícito da parada cardíaca e seu impacto na ocorrência de eventuais transtornos de estresse pós-traumático (TEPT) entre os sobreviventes.

PESSOAS CEGAS

Os doutores em psicologia Sharon Cooper, professora da Universidade de Nova York, e o professor Kennety Ring, da Universidade de Connecticut, cofundador e ex-presidente da Associação Internacional para Estudos de Quase-Morte, analisaram vários casos de pessoas cegas que relataram o fenômeno. Um dos casos é o de Vicki Umipeg, uma mulher de 43 anos, moradora do estado de Washington, que teve duas EQMs. A primeira, quando ela tinha 12 anos de idade, ocorreu em 12 de fevereiro de 1962, quando teve uma crise de apendicite e peritonite. A segunda foi quase exatamente uma década depois, na noite de 2 de fevereiro de 1973, quando foi gravemente ferida num acidente de automóvel.

Vicki nasceu prematura, com apenas 1,5 kg, na 22a semana de gestação. Como era comum ocorrer com crianças prematuras na metade do século 20, foi colocada numa incubadora para administração de oxigênio, mas houve falha na regulagem da quantidade de oxigênio e Vicki recebeu uma dose excessiva, que provocou lesão definitiva nos nervos ópticos dos dois olhos. Em razão disso, ela nunca teve experiência visual durante toda a sua vida.

Das duas EQMs, a mais vívida e detalhada foi a ocorrida aos 22 anos. No início de 1973, Vicki, trabalhava eventualmente como cantora em uma casa noturna em Seattle. Uma noite, após a apresentação, ela não conseguiu chamar um taxi para levá-la para casa. A única opção era aceitar carona do casal de patrões, embora ambos estivessem embriagados. Na viagem ocorreu um sério acidente e Vicki foi jogada para fora do veículo. Sofreu fratura de crânio e concussão cerebral, lesões no pescoço e nas costas e quebrou uma perna.

Vicki lembra-se claramente dos segundos que antecederam o acidente, mas tem lembranças nebulosas de ter estado “fora do corpo” – foi quando diz ter visto, de vislumbre, o veículo amassado. Foi nesse momento que ela afirma ter tido a sensação de que se encontrava num corpo não físico “como se fosse feito de luz”. Ela não se recorda da sua ida para o hospital na ambulância, mas, quando chegou à sala de emergência, recobrou a consciência e estava no teto do cômodo, assistindo a um médico e a uma mulher (ela não soube especificar se era médica ou enfermeira) trabalhando em seu corpo. Ela ouvia a conversa entre eles, que comentavam a ocorrência de um possível dano do tímpano e falavam do receio de que, além de cega, ela se tornasse surda. Vicki tentou desesperadamente se comunicar com eles dizendo que estava bem, mas obviamente não obteve resposta. Ela estava consciente de ver o próprio corpo abaixo dela.

Ela primeiro percebeu uma imagem muito fraca de si mesma deitada na maca de metal e estava segura de que fosse ela, embora tenha levado um momento para registrar esse fato com certeza. Em seu relato diz: “Sabia que era eu… Eu era muito magra, na época. Era muito alta e magra. E eu reconheci que era um corpo, mas nem sabia que era o meu, inicialmente. Quando eu percebi, estava no teto e pensei: ‘Isso é meio estranho. O que estou fazendo aqui em cima? ’. Em seguida pensei: “Bem, este deve ser eu, será que estou morta”? ’. Só vi esse corpo brevemente, sabia que era o meu porque eu estava fora dele. Eu estava longe dele”.

Ela relata que depois disso se viu subindo pelo teto do hospital até que alcançou do telhado do edifício. Desfrutou da vista panorâmica e sentiu-se inundada por uma intensa sensação de alegria, liberdade e movimento. Em seguida se deu conta de que ouvia uma música harmoniosa, bastante agradável, “semelhante ao som de sinos ao vento” e percebeu que estava sendo sugada pela cabeça para dentro de um túnel. “O lugar era escuro, mas estava ciente de que me movia em direção a uma luz”, diz.

Quando alcançou a abertura do túnel, a música que tinha ouvido antes se transformara em hino (semelhante ao que ela escutou anos mais tarde, na EQM posterior). Então ela “rolou para fora” e deu-se conta de que estava deitada na grama. Estava rodeada por árvores e flores e grande número de pessoas, em um lugar de intensa luz, que podia sentir tão bem quanto ver. Até as pessoas que ela viu eram brilhantes. “A luz transmitia paz, amor e era como se isso viesse do ambiente, dos pássaros e das árvores.”

Vicki então tomou consciência da presença de pessoas que ela havia conhecido em vida e a estavam acolhendo naquele lugar. Havia cinco pessoas já falecidas que ela conhecera. Diane e Debby eram colegas cegas da escola, com 6 e 11 anos, respectivamente, na época de sua morte. Além de cegas, ambas tinham um retardo mental profundo, mas agora pareciam brilhantes, belas, saudáveis – e muito vivas. E já não eram crianças. Vicki distinguiu ainda um casal de cuidadores seus na infância, o senhor e senhora Zilk. Finalmente, Vicki viu sua avó, que se aproximou para abraçá-la. Vicki disse que, nesses encontros, nenhuma palavra foi dita: mas tinha consciência dos sentimentos de amor e bem-estar. No meio desse arrebatamento, ela de repente foi dominada por uma sensação de conhecimento total. “Tive a impressão de que sabia tudo e de que tudo fazia sentido. Eu só sabia que este era o lugar onde eu iria encontrar as respostas para todas as perguntas sobre a vida, sobre os planetas, sobre Deus e sobre tudo… Era como se o lugar fosse o próprio conhecimento.”

Ela relata que, em dado momento, se viu na presença de um “ser de luz”, profundamente amoroso, que lhe mostrou uma espécie de filme de toda a sua vida e a advertiu de que ela deveria voltar. “Em seguida, fui conduzida de volta ao meu corpo, que estava terrivelmente doloroso, muito pesado, e me lembro que eu me senti muito mal.”.

O ponto mais discutível na EQM de Vicki e de todos os pacientes cegos de nascença é a questão de como alguém que nunca teve experiência da visão possa, de repente, ver – e compreender o que está vendo. O cego de nascença tem a experiência das formas (pois pode tocar), do olfato, da audição e das palavras, mas nunca viu absolutamente nada. E nem sequer tem a experiência do que significa ver. Em última análise, pode-se perguntar como uma pessoa em coma devido a graves lesões cerebrais, cega desde o nascimento, pode ter visões tão nítidas, algumas das quais puderam ser comprovadas. O que se sabe com certeza é que os relatos de pessoas cegas que passaram por EQM constituem um desafio para a ciência e nos obriga a repensar o que sabemos sobre consciência e cérebro.

CASOS DE EPILEPSIA

Pacientes com epilepsia do lobo temporal têm sido objeto de estudo por apresentarem manifestações críticas parecidas com as descritas em EQM. Os doutores em psicologia e neurociência Willoughby B. Britton e Richard R. Bootzim, da Universidade do Arizona, analisaram 43 pacientes com epilepsia temporal, dos quais 23 apresentaram EQM com pontuação mínima na escala de Greyson.

Um trabalho publicado na Nature por Olaf Blanke, diretor do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Instituto Cérebro-Mente, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, teve grande repercussão nos meios científicos e na mídia em geral. Ele descreveu o caso de uma paciente epiléptica que, após estimulação elétrica do córtex do giro angular, viveu a sensação de sair do corpo. Como ela se viu no teto do centro cirúrgico, mas teve uma visão deformada de suas pernas, o fenômeno é chamado pelos especialistas de “incompleto”.

Em outro artigo, Blanke propôs uma nova explicação neurológica para esse fenômeno. O pesquisador descreveu seis pacientes, três com relatos de saídas do corpo atípicas e incompletas, que não tiveram percepção “a partir do teto” de elementos verificáveis concernentes a eles mesmos ou ao ambiente. Quatro deles relataram ter tido a visão de seu próprio duplo a partir do seu corpo. Blanke considerou a de corporação como “uma ilusão causada pela disfunção temporária ou lesão no lobo temporal e ou parietal”.

O pesquisador Michael Persinger, que realizou grande número de experimentos de estimulação magnética transcraniana, afirma ter desencadeado fenômenos psíquicos causados pelo bloqueio ou pela estimulação de campos eletromagnéticos do cérebro. Os fenômenos são episódios próximos do sonho, semimísticos, com luz ou música e sensação da presença de outros seres. Essas informações guardam alguma semelhança com as descrições de uma EQM. Por outro lado, o trabalho de Persinger não foi corroborado por experimentos semelhantes realizados na Suécia, onde os pacientes nem sequer sabiam que seriam estimulados.

SOB EFEITO DE DROGAS

Apesar de intensos esforços de cientistas, nenhum estudo esclarece completamente ainda como um indivíduo é capaz de manter a consciência de forma aguda ou mais alerta em uma situação de quase morte. Mas algumas situações são capazes de provocar experiências parecidas, como o aumento de concentração sanguínea de CO2 (hipercapnia) e a hipóxia cerebral por baixa perfusão sanguínea resultante da aceleração rápida de pilotos de avião, bem como a hiperventilação seguida por manobra de Valsava (diminuição do fluxo sanguíneo venoso para o coração, o que faz com que os batimentos sejam acelerados e a pressão arterial se eleve de modo a não faltar sangue e oxigênio para o cérebro; para pessoas saudáveis e treinadas, essa manobra não traz nenhuma consequência prejudicial).

O efeito foi constatado também após a ingestão de algumas drogas, como ketamina. O papel das endorfinas, das encefalinas e da serotonina também tem sido mencionado, da mesma forma que experiências fora do corpo foram relatadas com o uso de LSD, psilocarpina e mescalina. Essas vivências induzidas podem consistir em períodos de inconsciência, sensação de estar fora si, flash ou luzes e recordações de cenas do passado. Tais lembranças, no entanto, consistem em fragmentos e memórias aleatórias, e não em uma revisão panorâmica da própria vida relatada durante a EQM. Por outro lado, a transformação pessoal do modo de vida e a perda do medo da morte raramente ocorrem nas situações induzidas. É sabido que drogas de fato podem produzir efeitos alucinógenos e sensações muito parecidas com as descrições de pessoas que tiveram EQM. É o caso do LSD e da dimetiltriptamina (DMT), porém, no caso desta última, os efeitos são muito breves porque é rapidamente decomposta pelo organismo.

Pim van Lommel enfatiza que é muito provável que o DMT naturalmente produzido pelo corpo pode ter papel importante na experiência de consciência ampliada durante EQM. Sua liberação, provocada ou estimulada por acontecimentos dos quais temos consciência, reduziria as inibições naturais de nosso organismo e proporcionaria a ampliação da consciência – como se ela fosse capaz de bloquear ou interromper a interface entre consciência e corpo (e cérebro). O autor salienta que o zinco é indispensável à síntese da serotonina e outras substâncias do mesmo tipo, como o DMT, por exemplo. Com o avançar da idade, a taxa desse metal no organismo diminui – o que talvez ajude a explicar o fato de que a taxa de EQM diminui com a idade. Tudo indica, no entanto, que algum outro mecanismo neurofisiológico desconhecido e neuro-humoral, no nível subcelular do cérebro, pode exercer papel importante em situações críticas, como a morte clínica.

Com a falta de evidências ou outra teoria sobre EQM, a ideia até agora assumida – mas nunca comprovada – de que a consciência e as memórias estão localizadas no cérebro deve ser discutida. Como poderia uma consciência claramente fora do corpo ser experimentada no momento em que o cérebro já não funciona durante um período de morte clínica, sem registro de atividade elétrica no cérebro? Por outro lado, durante parada cardíaca, o eletroencefalograma (EEG) torna-se isoelétrico, na maioria dos casos, após dez segundos do início da síncope. Além disso, pessoas cegas descreveram a percepção visual durante experiências fora do corpo no momento dessa vivência. As EQMs vão ao limite das ideias médicas a respeito da consciência e da relação mente-cérebro. Alguns autores, entretanto, admitem que as experiências de quase morte podem ocorrer em decorrência do estado de mudança da consciência, no qual a identidade, a cognição e a emoção funcionam independentemente do corpo inconsciente, mas retêm a possibilidade de percepção não sensorial. Qualquer que seja a explicação para os relatos de EQM, o fato é que os conhecimentos atuais excluem a possibilidade de formular uma teoria integrada para explicar esse fenômeno, o que deve servir de motivação e estímulo para novas pesquisas.

O QUE É EQM?

Uma experiência de quase morte (EQM) é a lembrança (recontada) de todas as impressões experimentadas durante um estado de consciência particular, marcada por elementos específicos como visão de túnel, luz, filme da própria vida, personagens mortos ou associados ao momento da reanimação. Segundo o médico Pim van Lommel, esse estado mental pode se produzir durante uma parada cardíaca, o chamado período de morte clínica, mas também durante uma doença grave ou mesmo sem causa médica aparente. A experiência provoca quase sempre mudanças essenciais e duráveis na atitude da pessoa em relação à vida, incluindo a perda do medo da morte.

Trata-se de uma vivência altamente subjetiva e pessoal, mas fatores individuais, culturais e religiosos determinam a maneira como esses fenômenos são descritos e interpretados. Uma criança provavelmente não empregaria as mesmas palavras que um adulto, e o testemunho de um cristão certamente é diferente do de um budista ou de um agnóstico.

“As experiências de quase morte são eventos psicológicos profundos, contendo elementos transcendentais e místicos, que se produzem geralmente nos indivíduos próximos da morte ou em situação de dano físico ou emocional grave”, diz o psiquiatra Bruce Greyson, pesquisador da Universidade de Michigan e autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs.

MEMÓRIAS DO OUTRO LADO

Na cabeça de quem voltou da morte3

Moody e outros autores destacam pontos em comum encontrados nos relatos de pessoas que passaram por essa situação.

  • Apesar de os pacientes estarem em situação de doença grave ou acidente, a sensação emocional prevalente é de bem-estar, paz e alegria.
  • A atividade mental se torna mais aguçada; a lembrança é clara e as pessoas têm a convicção de que ela é até mais real do que as vividas no estado de vigília.
  • Ainda assim, apresentam dificuldade para explicar a vivência e relatam que não conseguem expressar com palavras a amplitude do que viveram.
  • Pessoas se referem à sensação de viver experiências fora do corpo (EFCs) como se observassem “de fora de si” eventos que transcorreram próximos a elas ou em um local distante
  • Muitos falam de ter, em algum momento, passado por uma região de escuridão ou por um túnel sem luz.
  • É frequente citarem que, após essa travessia pela escuridão, veem um cenário de grande beleza.
  • Geralmente, em algum momento da experiência encontram parentes e amigos já falecidos.
  • Fazem referência a uma luz extraordinariamente brilhante que, no entanto, não ofusca a visão, às vezes percebida como um “ser de luz” que emana aceitação, amor incondicional e pode comunicar-se telepaticamente – Pacientes costumam se lembrar de ver e reviver acontecimentos importantes e incidentais de sua vida como se fosse um filme.
  • Em dado momento da vivência, percebem que chegaram a uma espécie de fronteira além da qual não podem ir.
  • Têm a sensação de ter “retornado” ao corpo físico de forma involuntária, algo muitas vezes vivido com desagrado, dada a paz que sentiam antes.

FELIPE LEAL é psiquiatra, mestrando em antropologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

MATEUS SILVESTRIN é psicólogo, mestrado em neurociência e cognição pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

RAQUEL GIACÓIA LEAL é psiquiatra do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise (Nesme).

EDSON AMÂNCIO é neurocirurgião, pós-graduado pela Unifesp. Os autores agradecem ao físico teórico Carlos de Moura Ribeiro Mendes as inúmeras sugestões e o entusiasmo com esta publicação.

ALIME3NTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 12-14

O Sermão da Montanha

Aqui nosso Senhor está insistindo conosco sobre a justiça dos homens, que é um ramo essencial da verdadeira religião, e que a fé em Deus é um ramo essencial da justiça universal.

I – Devemos fazer da justiça a nossa lei, e ser governados por ela (v. 12). Portanto, estabeleça isso como seu princípio, agindo em relação aos outros da mesma forma como gostaria que eles agissem com você. Como regra geral, e a fim de obedecer a esse princípio especial, procure não julgar ou censurar o seu próximo (não censure, se não deseja ser censurado) para alcançar o benefício das promessas feitas. A lei da justiça se mostra adequada quando aliada à lei da oração, pois, a não ser que sejamos sinceros em nossas palavras, Deus não ouvirá as nossas orações (Isaias 1.15-17; 58.6,9; Zacarias 7.9 ,13). Não podemos esperar receber coisas boas de Deus, se nós mesmos não as praticarmos, bem como tudo aquilo que for honesto, gracioso e de boa reputação entre os homens. Devemos ser, além de piedosos, também sinceros, caso contrário nossa devoção será apenas hipocrisia. Temos, então, que:

1.As regras da justiça foram estabelecidas. Você deve fazer às outras pessoas tudo aquilo que gostaria que elas lhe fizessem. Cristo veio para nos ensinar aquilo que devemos saber e acreditar, mas também como devemos agir em relação não só aos amigos e discípulos que fazem parte da nossa religião, como também aos homens em geral, entre os gurus exercemos alguma atividade. O conceito moral da igualdade é agir com os outros como gostaríamos que agissem conosco. Alexandre Severo, um imperador pagão, era um grande admirador desse conceito e mandou que fosse escrito nas paredes dos seus aposentos. Ele o citava muitas vezes quando expressava as suas decisões e, por conta dele, honrava a Cristo e ajudava os cristãos. Não devemos retribuir aos outros o mal que eles nos fizeram ou que poderiam nos fazer, se isso estivesse em seu poder. Nem devemos fazer aquilo que pensamos que tenha sido feito contra nós. Podemos suportar com alegria tudo aquilo que nos seja feito. Isso está fundamentado naquele grande mandamento: amar ao próximo como a si mesmo. Da mesma forma como devemos sentir pelo nosso próximo o mesmo amor que sentimos por nós, devemos também praticar as mesmas boas obras. O significado dessa regra está baseado em três coisas.(1) Devemos praticar com nosso próximo aquilo que nós mesmos reconhecemos que é próprio e razoável. Quando se trata da nossa pessoa, essa súplica é feita à nossa consciência, e a manifestação do nosso juízo corresponde ao nosso próprio desejo e expectativa.

(2) Devemos colocar as pessoas em um nível igual ao nosso e reconhecer que somos devedores a elas pelo muito que fazem por nós. Estamos tão presos à justiça quanto elas, e elas têm igual direito aos seus benefícios.

(3). Em nossos relacionamentos com os nossos semelhantes, devemos nos colocar na mesma circunstância e situação especial daqueles com os quais tratamos, e também precisamos agir adequadamente em relação a eles. Se você estivesse negociando com alguém, ou enfrentando alguma enfermidade ou aflição, como desejaria ser tratado? Essa é uma justa suposição, pois não sabemos se muito em breve esse caso poderá realmente acontecer conosco. Pelo menos podemos temer que, em sua justiça, Deus faça conosco aquilo que fizermos aos outros, se não lhes tivermos feito aquilo que gostaríamos que fosse feito conosco.

2.Existe uma razão que reforça essa lei; “essa é a lei e os profetas”. Ela representa o resumo daquele segundo grande mandamento, de um daqueles dois mandamentos dos quais depende toda a lei e os profetas (cap. 22.40). Não o temos com tantas palavras, tanto na lei como nos profetas, embora exista uma linguagem concomitante entre ambos. Tudo que foi dito a respeito do nosso dever em relação ao próximo (e que não é pouco) pode ser resumido nessa lei. Ela foi introduzida por Cristo na sua lei, de modo que tanto o Antigo Testamento como o Novo estão de acordo em prescrevê-la para nós, para fazermos aquilo que gostaríamos que nos fosse feito. Através dela, a lei de Cristo fica comprovada, e a vida dos cristãos também, quando comparada a ela. Se não estiverem de acordo com o Evangelho, não serão cristãos.

II –  Devemos fazer da religião nossa vocação e nos dedicarmos a ela, e devemos ser rigorosos e circunspectos em nossas palavras. A religião está aqui representada como se estivéssemos entrando por uma porta estreita, ou caminhando ao longo de uma estrada apertada (vv. 13,14). Observe então:

1.O relato é sobre o caminho que conduz à perdição e sobre o bom caminho da santidade. Existem apenas dois caminhos, o certo e o errado, o bom e o mau, o caminho para o céu e o caminho para o inferno. Seja qual for o caminho em que cada um de nós esteja andando agora, não existe um meio-termo. Os filhos dos homens – sejam santos ou pecadores, religiosos ou ímpios – serão traga­ dos pela eternidade.

Eis aqui:

(1) Um relato que nos foi dado sobre o caminho do pecado e os pecadores, incluindo tanto o que existe em termos de esperança como o que há de pior nele.

[1] O caminho que atrai as multidões e não as deixa se afastar; a porta é larga e o caminho é amplo, e nele existem muitos viajantes. Em primeiro lugar: “Você terá abundante liberdade nesse caminho; a porta é larga e se mantém aberta para tentar aqueles que procuram esse caminho. Você pode atravessar essa porta com toda sua luxúria, ela não restringe os seus apetites ou suas paixões. Você terá bastante espaço par a seguir o caminho do seu coração e a visão dos seus olhos”. É um caminho amplo e nada existe que possa limitar aqueles que o percorrem. No entanto, eles vagueiam sem parar: Trata-se de um caminho cheio de atalhos, existe a possibilidade de escolher os diferentes atalhos do pecado. Em segundo lugar: “Você terá muitos companheiros nesse atalho, pois existem muitos que entram por essa porta e seguem esse caminho”. Se seguirmos a multidão, será para praticar o mal. Se acompanharmos essas pessoas, estaremos percorrendo o caminho errado. Faz parte da nossa natureza a inclinação de seguir a corrente e agir de acordo com os nossos semelhantes. Mas estaremos sendo excessivamente complacentes, se estivermos dispostos a receber a condenação e ir com eles para o inferno só pelo privilégio da sua companhia. Eles não irão para o céu conosco. Devemos ser muito cuidadosos, pois muitos irão perecer.

[2] O caminho que nos amedronta é o que nos leva à destruição. A morte, a morte eterna, é o que nos espera ao chegarmos ao seu término (e o caminho do pecado leva a ela), à eterna desolação e à separação da presença do Senhor. Seja ele a estrada para uma vida evidentemente profana, ou o retorno a uma hipocrisia reservada, será sempre o caminho do pecado e da nossa ruína, se não nos arrependemos.

(2) Temos aqui o relato que nos foi dado sobre o caminho da santidade.

[1] O que existe nele que leva muitos a ficar temerosos. Vamos conhecer o pior que pode nas acontecer para podermos sentar e avaliar as consequências. Cristo cuida fielmente de nós e nos ensina:

Em primeiro lugar, que a porta é estreita. A conversão e a regeneração representam a porta pela qual entramos nesse caminho, no qual começamos uma nova vida de fé e sincera piedade. Para sair de um estado de pecado para um estado de graça devemos passar pelo novo nascimento (João 3.3,5). A porta é estreita e difícil de ser encontrada e de atravessar, como uma passagem entre dois rochedos (1 Samuel 14.4). Deve haver um novo coração e um novo espírito e as coisas antigas devem ser deixadas para trás. A disposição da alma deve ser mudada e os hábitos e os costumes antigos devem ser abandonados. Tudo aquilo que temos estado fazendo deve ser refeito. Devemos nadar contra a correnteza, e toda a oposição deve ser combatida e destruída, aquela que está no nosso interior e a que está fora de nós. E mais fácil colocar um homem contra o mundo do que contra si mesmo; no entanto, isto deve ocorrer na sua conversão. E uma porta estreita e devemos nos humilhar para poder passar. Devemos nos tornar tão pequenos como as crianças. Os pensamentos orgulhosos devem ser suprimidos, devemos nos desnudar, nos anularmos, abandonar o mundo e tudo que éramos antes. Devemos estar dispostos a desistir de tudo pela nossa atração a Cristo. A porta é estreita para todos, mas para alguns ela é mais estreita ainda, como para os ricos, para alguns que durante muito tempo têm estado predispostos contra a religião. A porta é estreita. Bendizemos a Deus por ela não estar fechada, nem trancada contra nós, nem guardada com urna espada flamejante, como irá acontecer dentro de pouco tempo (cap. 25.10).

Em segundo lugar, que o caminho é estreito. Não estaremos no céu logo que atravessarmos a porta estreita, nem em Canaã, assim que tivermos cruzado o Mar Vermelho. Na verdade, precisamos atravessar o deserto, viajando por um caminho estreito cercado pela lei divina, que é excessivamente extensa e torna o caminho estreito. A personalidade deve ser negada, o corpo mantido sob controle e as corrupções dominadas. As tentações diárias devem ser resistidas e os deveres devem ser executados, mesmo aqueles que vão contra nossas inclinações. Devemos suportar as situações difíceis, lutar e nos afligir, vigiar em todas as coisas e caminhar com cuidado e circunspeção. Iremos atravessar muitas tribulações. Será um caminho cercado por espinhos, abençoado por Deus, mas cheio de dificuldades. Os corpos que carregamos, cheios de corrupção, dificultam a prática do nosso dever; mas à medida que o entendimento e a vontade crescem, esse dever se torna mais firme. Ele se ampliará e se tornará cada vez mais agradável.

Em terceiro lugar, sendo a porta tão estreita, e o caminho tão apertado, não é de admirar que poucos o encontrem. Muitos passarão por ele descuidadamente e não farão um grande esforço para achá-lo, pois acreditam estar muito bem e não veem necessidade de mudar sua maneira de viver. Outros chegam a considerar esse caminho, mas se desviam, pois não gostam de ser limitados ou restringidos. Muito poucos serão os que irão para o céu, comparados aos que irão para o inferno. Serão apenas os remanescentes de um grande rebanho, como as respigas de uvas de uma vindima ou como aqueles oito que foram salvos na arca (1 Pedro 3. 20). Por isso muitos ficam desanimados, anseiam por ser diferentes, solitários, e preferem dizer: Se tão poucos irão para o céu, sobrará mais lugar para mim.

[2] Vejamos o que existe nesse caminho, o qual, embora apresente tudo isso, nos convida a percorrê-lo. Ele leva à vida, nos conforta com o favor de Deus, que representa a vida da alma, a bem-aventurança eterna, a esperança de que ao final vencerem os todas as dificuldades e transtornos da estrada. A vida e a piedade foram reunidas (2 Pedro 1.3). A porta é estreita e o caminho é apertado e íngreme, mas apenas uma hora no céu ser virá para no s compensar por ele.

2.A grande preocupação e o dever de cada um de nós ao considerarmos tudo isso. “Entrai pela porta estreita”. Esse assunto foi claramente explicado – a vida e a morte, o bem e o mal foram expostos à nossa frente, tanto os seus caminhos como as suas consequências e os seus resultados finais. Vamos então examinar esse assunto cuidadosamente, considerá-lo com imparcialidade, e depois decidir andar de acordo com esses caminhos. Trata-se de assunto definitivo, que não admite discussão. Nenhum homem, dentro do seu juízo perfeito, iria escolher a prisão só pelo fato de o caminho que leva até ela ser suave e agradável, nem recusar a oferta de um palácio ou de um trono porque o caminho que leva a ele é áspero ou desagradável. No entanto, o homem é culpado de cometer tais absurdos no que se refere à sua alma. Portanto, não demore, não pense mais, entre já pela porta estreita. Use as suas orações constantes e sinceras para bater nela, e assim ela lhe será aberta; isto é, uma porta grande e valiosa se abrirá. É verdade que não podemos nem entrar, nem caminhar, sem a ajuda da graça divina, mas também é verdade que ela nos é oferecida gratuitamente e não faltará àqueles que a procuram e se submetem a ela. A conversão é uma tarefa árdua e necessária, mas é abençoada por Deus e totalmente possível, se nos esforçarmos (Lucas 13.24).

GESTÃO E CARREIRA

A farsa do expediente

A FARSA DO EXPEDIENTE

Mostre ao chefe: Trabalhar menos horas por dia pode ser mais produtivo.

Em vez do clássico expediente de trabalho de oito horas, que tal reduzi-lo para três? Parece sonho de preguiçosos, mas tem respaldo científico: estudo da consultoria britânica Vouchercloud, que avaliou o desempenho de quase 2 mil funcionários de vários setores, constatou que, em média, os pesquisados trabalham realmente apenas duas horas e 53 minutos por dia. O restante do expediente se escoa em outras atividades não relacionadas ao trabalho, como checar redes sociais, tomar lanchinhos ou socializar. A neurociência explica o fato: nosso cérebro não consegue manter o foco em alguma tarefa por muito tempo. A maioria de nós mal resiste durante minutos. O problema se agrava ao longo do dia. Conforme se aproxima o fim do expediente, declina o poder de concentração.

O estudo põe em dúvida o que diz a sabedoria convencional sobre jornadas longas e a tentativa de evitar qualquer distração (que, normalmente, fracassa). A intensidade da dedicação deve ser administrada com critério: pessoas mais produtivas não necessariamente se dedicam o tempo todo, sem interrupções, mas sim se concentram na tarefa por um tempo e depois se permitem uma pausa planejada, conforme constataram os autores. Eles sugerem redução de expediente como um caminho possível para melhores resultados. A Amazon avalia isso. A empresa começou uma experiência com algumas dezenas de funcionários: permite jornadas de cinco horas durante quatro dias por semana e folgas às sextas-feiras. Os resultados dessa experiência permanecem em sigilo.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Onde não moram as lembranças

ONDE NÃO MORAM AS LEMBRANÇAS

Não basta usar drogas para apagar lembranças dolorosas, como durante muito tempo cientistas acreditaram, pois elas persistem profundamente no interior de células cerebrais; a constatação abre novas perspectivas para a compreensão do Alzheimer.

Apesar de abstratas, intangíveis e muitas vezes pouco consistentes, nossas memórias têm uma sólida base biológica. Segundo a neurociência clássica, elas se formam quando células cerebrais enviam às suas vizinhas, sinais de comunicação química através das sinapses (espaços entre as células), ou para entroncamentos que as conectam. Toda vez que uma memória é ativada, a conexão é fortalecida. A noção de que sinapses armazenam memórias dominou a ciência por mais de um século, mas um novo estudo realizado por especialistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles pode derrubar essa interpretação ao sugerir que memórias talvez residam no interior de células do cérebro. Se for corroborado, esse trabalho pode ter implicações – para o bem e para o mal – no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático, condição marcada por memórias dolorosamente vívidas e intrusivas. Há mais de uma década cientistas começaram a examinar a droga propranolol para o tratamento do distúrbio. Acreditava-se que ela impedisse a formação de memórias ao bloquear a produção de proteínas necessárias ao armazenamento de longo prazo. Infelizmente a pesquisa logo deparou com um problema: a não ser que fosse ministrado imediatamente após o evento traumático, o procedimento era totalmente ineficaz.

Ultimamente, pesquisadores têm trabalhado em uma solução alternativa: evidências sugerem que, quando alguém ativa uma memória, a conexão não só é fortalecida como também se torna temporariamente suscetível a mudanças, um processo chamado reconsolidação da memória. Ministrar propranolol (acompanhado de terapia, e talvez estimulação elétrica e até outras drogas) durante essa “janela” pode permitir que cientistas bloqueiem a reconsolidação, apagando ou eliminando a sinapse no local.  A possibilidade de eliminar lembranças chamou a atenção de David Glanzman, neurobiólogo da Universidade da Califórnia que começou a estudar o processo em Aplysia, um molusco parecido com uma lesma-do-mar utilizado comumente em pesquisas neurocientíficas. Ele e sua equipe aplicaram leves choques elétricos nos animais, criando uma memória do evento expressada como novas sinapses no cérebro. Em seguida, transferiram neurônios do molusco para uma placa de Petri e ativaram quimicamente a lembrança dos choques, ministrando, em seguida, uma dose de propranolol.

De início, a droga pareceu confirmar pesquisas anteriores ao neutralizar a conexão sináptica, mas, quando as células foram expostas a um lembrete dos choques, a memória voltou com força total em 48 horas. “Ela foi completamente restabelecida; isso parece significar que a memória não estava armazenada na sinapse”, diz Glanzman. Os resultados foram divulgados recentemente na publicação científica eLife, de acesso aberto. Se a memória não está localizada na sinapse, então onde está? Quando os neurocientistas investigaram mais de perto as células cerebrais, descobriram que mesmo quando a sinapse era apagada mudanças moleculares e químicas persistiam após o disparo inicial dentro da própria célula. O traço mnêmico, ou engram, podia ser preservado por essas alterações permanentes. Alternativamente, ele podia ser codificado em modificações no DNA da célula responsáveis pelo modo como genes específicos são expressos. Glanzman e outros favorecem esse raciocínio.

O neurocientista alemão Eric R. Kandel, ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2000 por seu trabalho sobre memória e atualmente na Universidade Colúmbia, adverte que os resultados do estudo foram observados nas primeiras 48 horas após o tratamento, um período em que a consolidação ainda é sensível. Embora preliminares, os resultados sugerem que, para pessoas com estresse pós-traumático, simplesmente tomar certos medicamentos muito provavelmente não elimina memórias dolorosas – até por- que, ainda que o fato em si fique esmaecido na lembrança, as emoções (ou afetos, como dizem os psicanalistas) ligadas à situação que causou sofrimento – bem como seus efeitos – permanecerão até que haja elaboração.

“Se tivessem me perguntado há dois anos se seria possível tratar o estresse pós-traumático com um bloqueio medicamentoso, eu teria dito sim, mas agora não penso mais assim”, admite Glanzman. Segundo ele, a constatação de que as memórias persistem profundamente no interior de células oferece novos caminhos para estudar e compreender transtornos ligados à memória, como a doença de Alzheimer.

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 300

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 7-11

O Sermão da Montanha. A Bondade de Deus

No capítulo anterior, nosso Senhor falou sobre a oração como a obrigação de um mandamento pelo qual Deus é honrado, e que, se for feita corretamente, será recompensada. Aqui, Ele diz que ela é uma maneira de obtermos aquilo que precisamos, especial mente a graça para obedecermos aos preceitos que Ele nos deu, alguns dos quais bastante desagradáveis à carne e ao sangue.

I – Eis aqui um preceito feito com três palavras e com o mesmo significado: “Pedi, Buscai e Batei” (v. 7), ou em uma única palavra: “Ore, ore muitas vezes, ore com sinceridade e seriedade; ore e ore novamente; tome consciência da oração e seja constante nela. Dedique-se à oração, e ore com fervor. Peça como um mendigo pede esmolas. Aquele que deseja ser rico em graças deve se valer da humilde função de pedir, e descobrirá que ela é repleta de sucessos”. Peça; apresente seus desejos e obrigações a Deus e peça seu apoio e auxílio, pois isso está de acordo com a sua promessa. Peça como um viajante que pergunta sobre o caminho. Orar é pedir a Deus (Ezequiel 36.37). Busque, como se tivesse perdido uma coisa de grande valor, ou como um mercador procura pérolas preciosas. Busque através da oração (Daniel 9.3). Bata, como aquele que deseja entrar na casa bate na porta. Seremos admitidos para conversar com Deus, introduzidos no seu amor, no seu favor e no seu reino. O pecado fechou e travou a porta contra nós. Através da oração nós batemos e chamamos: Senhor, Senhor, abre para nós. Cristo bate à nossa porta (Apocalipse 3.20; Cantares 5 .2) e nos deixa bater na dele – um favor que não concedemos aos mendigos comuns. Buscar e bater implica alguma coisa além de pedir e orar.

1.Não devemos apenas pedir, mas buscar. Devemos acompanhar nossas orações com nossos esforços, e usando os meios indicados. Buscar pelo que pedimos para não desafiar a Deus. Quando o vinhateiro pediu mais um ano para a figueira estéril, ele acrescentou: Irei escavá-la e estercá-la (Lucas 13.7,8). Deus concede o conhecimento e a graça àqueles que o procuram nas Escrituras, e aguardam nas portas da Sabedoria. E também o poder contra o pecado àqueles que evitam as suas ocasiões.

2.Não devemos apenas pedir, mas bater. Devemos ir até a porta de Deus e pedir insistentemente. Não devemos apenas orar, mas suplicar e lutar com Deus. Devemos buscar diligentemente e continuar batendo. Devemos perseverar na oração e no uso dos seus meios, devemos perseverar até o fim nesse dever.

II – Aqui foi incluída uma promessa: nosso esforço ao orar, se realmente isso representar algum esforço, não será em vão. Onde existe um coração piedoso, ele encontrará um Deus atento. Ele nos dará uma resposta de paz. O preceito é tríplice: pedi, buscai e batei. Mas existe uma norma para esse preceito. A promessa tem seis partes, regra após regra, para nos encorajar; porque uma sólida crença nessa promessa nos tornará alegres e constantes na nossa obediência. Agora vejamos:

1.A promessa foi feita de modo a dar uma resposta exata ao preceito (v. 7). “Pedi, e dar-se-vos-á”. Aquilo que foi pedido não será emprestado e nem vendido, mas concedido, e o que pode valer mais que um presente? De acordo com essa promessa, qualquer coisa pela qual você estiver orando será concedida, se Deus julgar que ela lhe ser á conveniente, e o que mais você pode desejar? Basta pedir para receber. Se não recebermos, é porque não pedimos, ou não pedimos corretamente. O que não é digno de ser pedido, não vale a pena ter, pois de nada vale. Busque e encontrará, e seu esforço não será perdido. Quando buscamos a Deus, sempre o encontramos, e isso nos será suficiente. “Batei, e abrir-se-vos-á”. A porta da misericórdia e da graça se abrirá, e nunca mais se fechará diante de você como se fosse algum inimigo ou intruso, mas se abrirá como se fosse um amigo ou uma criança. Alguém perguntará: “Quem está à porta?” Se for capaz de responder que é um amigo, e tiver o bilhete da promessa nas mãos, pronto para ser mostrado com fé, não tenha dúvidas de que será admitido. Se a porta não se abrir à primeira batida, continue a perseverar em oração. E uma afronta a um amigo bater em sua porta, e logo se retirar. Mesmo que pareça que Ele está demorando a atender, espere.

2.Essa promessa é repetida no versículo 8 com a mesma intenção, embora com algumas inclusões.

(1) Ela foi feita para se estender a todos que oram correta mente. ”Não só vocês, meus discípulos, receberão o que pedem, mas também todos os outros que pedirem irão receber, sejam eles judeus ou gentios, jovens ou velhos, ricos ou pobres, nobres ou plebeus, senhores ou escravos, cultos ou ignorantes. Todos eles serão igualmente bem recebidos no trono da graça, se vierem com fé, pois Deus não respeita a aparência humana”.

(2) Ela foi feita de modo a significar uma concessão, sendo expressa no presente, e isso vale mais do que uma promessa par a o futuro. Todo aquele que pedir, não só irá receber, como já recebeu. Ao se apropriar da promessa, e aplicá-la, através da fé, estaremos realmente atraídos e envolvidos por ela. Tão certas e invioláveis são as promessas de Deus, que elas real e efetivamente concedem uma posse. Um crente ativo tomará posse imediatamente, e fará das bênçãos prometidas algo que já é seu. De acordo com a promessa, aquilo que esperamos é tão certo, e deve ser tão doce, como aquilo que já temos em mãos. Deus falou no seu santuário: “Meu é Gileade, meu é Manasses” (SaImos 108.7,8); tudo será meu, se eu acreditar. Dádivas condicionais se tornam definitivas de acordo com a nossa atitude em relação às condições; portanto, aquele que pede, recebe. Dessa forma, Cristo aprova as petições que lhe são feitas e, como Ele tem todo o poder, isto nos basta.

3.Ela foi ilustrada com um exemplo retirado dos pais terrenos e da sua inata disposição de conceder aos filhos tudo que pedem. Cristo apela a seus ouvintes: “E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente?” (vv. 9,10). Em seguida, Ele conclui (v. 11): “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” Agora, algumas coisas práticas:

(l)Para dirigir as nossas orações e expectativas.

[1] Devemos nos aproximar de Deus como as crianças se aproximam do Pai celestial, com reverência e confiança.  É muito natural que uma criança procure o pai quando tem alguma necessidade ou aflição para lhe apresentar suas queixas. ”Ai, a minha cabeça! ai, a minha cabeça!” Dessa maneira, a nova natureza deveria nos direcionar a Deus para pedir a sua ajuda e as suas bênçãos. 

[2] Devemos ir até Ele em busca de coisas boas, daquelas que Ele concede àqueles que lhe pedem. Isto nos ensina que devemos confiar a nossa vida a Ele. Não sabemos o que é melhor para nós (Eclesiastes 6.12); portanto, devemos deixar estas escolhas a critério dele. Pai seja feita a tua vontade. Seu filho está aqui para pedir o pão que é necessário, e um peixe, que é saudável. Mas se, insensatamente, o filho pedir uma pedra, uma serpente, uma fruta verde para comer, ou uma faca afiada para brincar, seu pai, embora seja bondoso, deverá ser prudente e negar. Muitas vezes pedimos a Deus alguma coisa que nos faria mal, se a tivéssemos. Ele sabe disso, portanto irá negar. É melhor uma negativa feita com amor do que uma dádiva concedida com ira. A nossa vida não seria tão saudável se já tivéssemos recebido tudo que desejamos.

(2) Para encorajar nossas orações e expectativas. Podem os esperar que não existam recusas ou desapontamentos. Não teremos uma pedra em lugar do pão para quebrar nossos dentes (embora tenhamos uma crosta dura para aplicar a nossa mordida), nem uma serpente para nos morder, no lugar do peixe. Na verdade, temos razão para ter medo deles, porque merecemos a ambos. Mas Deus fará melhor por nós que o deserto pelos nossos pecados. O mundo sempre oferece pedras em lugar de pão, e serpentes em lugar de peixe, mas isso nunca acontece com Deus. Seremos ouvidos e atendidos, como fazem os pais com os filhos.

[1] Deus colocou no coração dos pais uma amorosa inclinação para socorrer e ajudar seus filhos de acordo com suas necessidades. Mesmo aqueles que têm pouca consciência do dever, ainda assim agem como por instinto. Nenhuma lei jamais foi necessária para obrigar os pais a cuidarem dos seus filhos legítimos, e nem dos seus filhos ilegítimos, mesmo no tempo de Salomão.

[2] Ele adotou a posição de um Pai em relação a nós, e nos considera seus filhos. Da mesma maneira como nos encontramos prontos para socorrer nossos filhos, podemos nos sentir estimulados a buscar o nosso socorro em Deus, para obtermos o nosso alívio. Todo amor e ternura que existem nos pais provêm dele. Eles não vêm da natureza, mas do Deus da natureza. Portanto, devem ser infinitamente maiores nele. Ele compara seus cuidados para com o seu povo aos cuidados de um pai para com os seus filhos (SaImos 103.13). E também com aqueles de uma mãe, que são geralmente mais carinhosos (Isaias 49.14,15). Podemos supor que nele, esse amor, ternura e bondade em muito excedam aos de qualquer pai terreno. Portanto, se eles se manifestam com mais intensidade é porque estão baseados nessa indubitável verdade, de que Deus é o melhor Pai. Infinitamente melhor do que qualquer pai terreno, pois seus pensamentos se colocam acima dos pensamentos terrenos. Nossos pais terrenos podem cuidar de nós, assim como cuidamos dos nossos filhos. Mas Deus irá cuidar ainda mais dos seus filhos, porque eles são originalmente pecadores, descendentes da degenerada semente de Adão. Eles perderam grande parte da boa natureza que pertencia à humanidade e, entre outros tipos de corrupção, têm dentro de si mesmos a má disposição e a maldade. No entanto, eles transmitem coisas boas aos seus filhos e sabem como dar de forma adequada e oportuna. Mas Deus é capaz de dar muito mais, pois Ele os irá recolher quando estiverem desamparados (SaImos 27.10). Em primeiro lugar, Deus conhece bem todas as coisas, ao passo que os pais são, muitas vezes, levados por seus sentimentos, mostrando -se insensatamente amorosos. Deus é infinitamente mais sábio. Ele sabe do que precisamos, aquilo que queremos e o que é melhor para nós. Em segundo lugar, Deus é mais bondoso. Se a somatória da compaixão de todos os pais do mundo pudesse ser reunida nas entranhas s de um único pai, quando comparada à terna misericórdia do nosso Deus ela não seria mais que a luz de uma vela perto do sol, ou uma gota no oceano. Deus é mais rico e está disposto a dar mais aos seus filhos que os pais humanos, pois Ele é o pai do nosso espírito, um pai eternamente amoroso e presente. As entranhas do nosso Pai anseiam até pelos filhos ingratos e pelos pródigos, como o anseio de Davi por Absalão. Será que tudo isso não basta para calar os incrédulos?

GESTÃO E CARREIRA

Tuas ideias n]ao correspondem aos fatos

SUAS IDEIAS NÃO CORRESPONDEM AOS FATOS?

A dificuldade em ler corretamente o cenário e ficar preso no autoengano pode prejudicar sua trajetória profissional. Aprenda como se proteger desse problema.

“Mentir para os outros é exceção. A principal mentira é aquela que contamos para nós mesmos!” A frase é do filósofo alemão Friedrich Nietzsche e está nas pequenas distorções da realidade que aparecem em todos os momentos desde adiantar o relógio para acordar mais cedo até adiar por mais um dia o começo de uma dieta ou o término de um relacionamento. Mas viver “negando as aparências e disfarçando as evidências”, como diz a música sertaneja, pode ser muito danoso para a vida profissional. É o que mostra o resultado de uma pesquisa da consultoria Leadership IQ, feita durante quatro anos com 1085 conselheiros de 286 empresas, que descobriu que23% dos CEOs demitidos perderam o emprego por que negavam a realidade. Esses executivos sentiam dificuldade em perceber os fatores negativos das companhias que lideravam, o que prejudicava a tomada de decisões. Alguns deles, segundo os pesquisadores, também omitiam os acontecimentos ruins.

Esse comportamento está associado ao autoengano, quando nos forçamos a fechar os olhos para o que está acontecendo ao nosso redor ou quando mentimos para nós mesmos. ” O enganador embarca nas próprias mentiras, deixa se levar por elas de modo gradual e crescente e, enfim, passa a acreditar nelas com toda a inocência e boa-fé deste mundo”, escreveu o economista Eduardo Giannetti no livro Autoengano (Companhia das Letras, 256 páginas). Não se trata de um ato deliberado. Uma pessoa que está passando por isso fica cega. E ninguém está livre de enfrentar a situação.

EVITAR A DOR

O erro em ler o cenário acontece porque queremos fugir da dor que um problema ou um rompimento vai causar. É um mecanismo de defesa: ignoramos os sinais do que vai acontecer se as consequências forem negativas. Mas nem todo mundo faz isso da mesma forma. Segundo Roberto Ayimer, professor na Fundação Dom Cabral e consultor de desenvolvimento humano, do Rio de Janeiro, as pessoas reagem normalmente de três maneiras: com a negação dos fatos desagradáveis, que consiste em esconder de si mesmo a realidade; com a minimização, que diminui o problema achando que é algo passageiro; e com a projeção do mal, ou seja, a transferência de responsabilidades para outras pessoas, passando a culpa do problema ao chefe, aos colegas ou até ao mercado.

Flavia Gamonar, de 33anos, acreditou que o problema que estava vivendo não fosse tão ruim assim. Especializada em marketing, a paulista trabalhou como gerente da área numa empresa de tecnologia – e tinha uma trajetória em ascensão. Mas, quando a companhia foi comprada, a sobreposição de funções apareceu. “Vi pessoas novas chegando e fazendo meu trabalho. De repente, o CEO parou de responder aos meus e-mails e eu mudava de chefe toda semana. Apesar de todos os indícios, acreditava que nada ameaçaria meu emprego”, diz Flávia. Ela ignorou até os sinais do próprio corpo: acordou um dia sem a capacidade de interpretar textos por causa do estresse e ficou afastada durante dez dias. Duas semanas depois de retornar ao trabalho, recebeu uma carta, uma medalha e um crachá de cor diferente: tinha acabado de completar quatro anos de companhia A felicidade pelo reconhecimento mal durou 24 horas: no dia seguinte, foi demitida. “Sentia o clima pesado, sabia que tinha algo errado, mas preferi esconder de mim mesma. Fiquei chocada com o desligamento”, afirma Flavia. Desempregada, seu comportamento não mudou rapidamente. “Acreditava que apareceria uma vaga do céu. Mandava um ou outro currículo para alguém e achava que tinha feito a minha parte. Demorei seis meses para entender que dependia de mim”, diz. Ela acionou contatos, começou a escrever sobre o assunto nas redes sociais e conseguiu se recolocar. “Quando voltei a trabalhar, entendi que uma nova demissão poderia vir e que era necessário fazer a leitura do ambiente e ter um plano B”, afirma. Os textos que postava em suas redes começaram a fazer tanto sucesso que, de plano B, viraram plano A. Hoje, Flavia tem o segundo perfil mais seguido do Brasil no LinkedIn, com 700000 inscrições, e dedica-se ao doutorado em mídia e tecnologia e à carreira de docente na ESPM.

APRENDER COM OS ERROS

Essa falha em ler a realidade não surge de uma hora para a outra – é uma crença que nós sedimentamos ao longo de nossas trajetórias. “Quando o ser humano tem sucesso na repetição de determinada atividade, ele passa a realizar aquele comportamento de forma automática, esperando um resultado especifico”, afirma Guy Cliquet, coordenador de pós-graduação lato sensu do Insper, de São Paulo. E se, no passado, a pessoa teve sorte deque tudo desse certo, apesar das más noticias, pode ser que, agora, acredite que basta ignorar os problemas para conquistar seus objetivos. Só que Isso é péssimo para a carreira – e para os negócios das companhias.  “A falha é parar de questionar suas decisões e escolher uma opção baseada apenas nas experiências anteriores. Tal atitude aumenta a chance de autoengano”, diz Guy. O importante é perceber que se está trilhando um caminho irreal e corrigir a rota.

Foi o que fez Eduardo Fregonesi, de 39anos, CEO da Synapcom, empresa de serviços de gestão de e-commerce, de São Paulo, que usou sua experiência de autoengano para se tornar um líder melhor. Durante sete anos, ele investiu numa marca de roupas. Apesar dos resultados negativos, colocava mais dinheiro, abria novas frentes do negócio, fazia reestruturações, acreditava numa mudança milagrosa de mercado. Mas as coisas não iam para a frente. Até que não havia mais nada a fazer a não ser encerrar as operações. “Essa situação fez com que eu aprendesse a separar a resiliência da teimosia. Eu era tão apegado ao negócio que fiquei cego para os fatos. Ser otimista e acreditar na empresa é muito bom, mas só quando os números comprovam essa percepção, diz Eduardo. “Aprendi que é preciso sempre estudar o cenário e me cercar de pessoas que saibam mais do que eu sobre determinadas áreas. Ninguém precisa fazer tudo, mas precisa saber escolher os profissionais certos.”

DE OLHO NOS SINAIS

Esse comportamento está associado até mesmo ao nível de engajamento que um profissional tem dentro de uma companhia. Quando o nível é baixo, o problema pode ser o fato de a pessoa desconfiar de tudo e todos. Mas, às vezes, o nível de confiança é perigosamente alto demais. Foi o caso de Léo Alves, de 40 anos. Coordenador de remuneração da Odebrecht durante oito anos, ele viu a companhia inundar as manchetes dos jornais com informações sobre o envolvimento da empreiteira em grandes esquemas de corrupção. Mas Léo não acreditava que aquilo fosse verdade – nem mesmo depois da prisão do presidente Marcelo Odebrecht em junho de 2015. Do episódio em que os funcionários se reuniram na frente da empresa usando uma camiseta com a frase “Somos todos Odebrecht”, ele só não participou porque estava viajando. Foi sua terapeuta que o alertou para o autoengano. Mas levou um tempo até o profissional reconhecer que estava mentindo para si mesmo. Apenas em agosto de 2016 Léo pedi demissão e passou a se dedicar a uma formação de coach. “É um processo doloroso. Quando você percebe que está racionalizando os fatos, se sente traído por si mesmo”, afirma.

Para não cair nessa armadilha, é importante ficar aberto aos sinais internos e externos. Conversar com pessoas da área e de fora dela, com históricos diferentes, é fundamental. Afinal, como escreveu Eduardo Giannetti, “o autoengano não é a ignorância simples de não saber e reconhecer que não sabe. Ele é a pretensão ilusória e infundada do autoconhecimento”. Contra esse veneno, só o questionamento constante e o conhecimento de si próprio podem servir de antídotos.

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AJUSTE DE FOCOS

As atitudes para passar a enxergar a realidade como ela é

DIVERSIFIQUE SUA REDE DE CONTATOS – Quanto mais visões diferentes, menos iscos de você se fechar em uma bolha e parar de enxergar o ambiente e o que acontece ao seu redor.

FIQUE ATENTO AOS FATOS – Pessoas que estão se auto enganando tendem a distorcer ou a inventar razões para legitimar seus pensamentos. Observe a situação como ela realmente é. A tendência de quem está nessa situação é racionalizar os problemas e os comportamentos equivocados.

LIDE COM OS PROBLEMAS IMEDIATAMENTE – Procrastinar decisões ou conversas difíceis porque elas são desagradáveis só aumentarão o problema e seus impactos.

CERQUE-SE DE CRÍTICOS – É muito comum, principalmente na liderança, que os profissionais busquem se rodear dos que concordam com sua forma de pensar. Quando não há ninguém questionando suas decisões, fica mais fácil cair no autoengano.

PENSE À LONGO PRAZO – Quem está num ciclo de autoengano tem tendência a olhar para o curto prazo e esperar mudanças milagrosas. Analise os fatos e pense em quais podem ser as consequências para o futuro se o cenário se mantiver exatamente assim.

 

Fonte: Revista Você S.A – Edição 238

PSICOLOGIA ANALÍTICA

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LÍDERES NÃO NASCEM PRONTOS

Diferenças muito grande de remuneração abalam a equipe, minando qualquer disposição de pensar coletivamente e se esforçar para algo além do próprio interesse imediato; o grupo passa a enxergar aquele que ganha significativamente mais como adversário, não como um colega.

Não é possível determinar um conjunto de traços de personalidade que garantam a boa liderança: as características desejáveis dependem da natureza do grupo. Os mais hábeis são os que se adaptam e aprendem a despertar nos colegas o desejo de cooperação.

Características como carisma e inteligência sempre foram consideradas fundamentais para o exercício do comando eficaz. Durante muitos anos especialistas afirmaram que bons líderes teriam talentos inatos, usados para conquistar seguidores e despertar o entusiasmo da equipe ou conseguir obediência. Essa teoria sugeria que pessoas com perfil de líder poderiam ser bem-sucedidas em qualquer situação. Nos últimos anos, porém, vem surgindo uma nova imagem de liderança. Em vez de simplesmente desfrutar o “dom” da autoridade inata, os líderes contemporâneos precisam se esforçar para entender valores e opiniões das pessoas que pretendem comandar, se quiserem estabelecer relações produtivas.

Essa conduta permite compreender o funcionamento do grupo, o que resulta em intervenções mais eficazes, sobretudo a longo prazo. O conceito de liderança, portanto, está relacionado à capacidade de direcionar os interesses do grupo onde se está inserido, e não à obediência em troca de recompensas ou obtida com punições; os mais hábeis não são os que conseguem impor o que pensam, mas sim aqueles que despertam nos colegas o desejo de cooperação. Para ganhar credibilidade, os líderes de hoje devem se posicionar na equipe, não acima dela.

Segundo essa nova abordagem, não é possível determinar um conjunto de traços de personalidade que garantam a boa liderança: as características desejáveis de um líder dependem da natureza do grupo. Pesquisas recentes revelam, porém, que a maioria das empresas ainda leva em conta o conceito antigo, segundo o qual pessoas em postos de comando devem trabalhar para “moldar” a identidade do grupo subalterno de acordo com os próprios interesses.

Para entender melhor o tema, os doutores em psicologia Stephen D. Reicher, S. Alexander Haslam e Michael J. Platow (respectivamente professores das universidades de St. Andrews, na Escócia, de Exeter, na Inglaterra, e da Universidade Nacional Australiana) resolveram investigar o assunto realizando um experimento. Eles formaram três equipes e determinaram diferentes formas de remuneração em cada um. Num dos grupos todos recebiam os mesmos valores; no segundo o salário do líder correspondia ao dobro e, no terceiro, ao triplo do dos demais. Embora a diferenciação não tenha afetado os esforços dos coordenadores, o rendimento dos membros da equipe caía de maneira significativa e sob condições de desigualdade mais acentuada. O pesquisador americano Peter F. Drucker, doutor em administração, professor da Universidade Claremont Graduate, argumentou que “salários muito altos no topo abalam a equipe, que passa a considerar o próprio gerente como adversário, em vez de colega. Essa estratégia apaga qualquer disposição das pessoas em pensar coletivamente e se esforçar para algo além do próprio interesse imediato”. Obviamente, a diferença de remuneração é vista pelos integrantes da equipe como injusta. O conceito de comando ético, em geral, está relacionado à capacidade de se sacrificar pelos outros e não obter vantagens individuais. Mahatma Gandhi (1869-1948) costuma ser citado como exemplo: conquistou admiradores em todo o mundo usando vestimenta de aldeão indiano, como símbolo de sua recusa a bens materiais.

 Líderes não nascem prontos

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 301

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 1-6

Continuação do Sermão da Montanha.

O Hábito de Julgar os Outros

Nesse sermão, nosso Salvador está ensinando como devemos nos conduzir em relação aos erros dos outros, e suas expressões parecem ser uma censura dirigida aos escribas e fariseus. Eles eram rígidos e severos, muito autoritários e arrogantes, e condenavam a todos que os cercavam, como fazem geralmente todos aqueles que se mostram orgulhosos e convencidos quando querem se justificar. Temos aqui:

I – Uma advertência contra julgar os outros (vv. 1,2). Existem aqueles cuja ocupação é ju1gar – juízes, magistrados e ministros. Cristo, embora não pretendesse ser um juiz, não veio para desfazer deles, pois acreditava que os príncipes devem decretar a justiça. Ele estava se dirigindo às pessoas em particular, aos discípulos que mais tarde iriam ocupar a cátedra de juízes, mas isso ainda não tinha acontecido. Veja, então:

1.A proibição: “Não julgueis”. Nosso julgamento deve ser dirigido a nós mesmos e aos nossos atos, e não ao nosso irmão. Também não devemos assumir tiranicamente tal autoridade sobre o próximo, e nem deixar que o façam, pois a nossa lei nos diz que devemos estar sujeitos uns aos outros. ”Não sejam mestres” (Tiago 3.1). Não devemos nos assentar na cátedra de um juiz, e fazer da nossa palavra uma lei universal. Não devemos julgar nosso irmão, isto é, não devemos falar mal do nosso irmão, pois isso já foi explicado (Tiago. 4.11). Não devemos desprezá-lo, nem fazer pouco dele (Romanos 14.10). Não de­ vemos julgar precipitadamente, nem transferir injustamente tal julgamento para o nosso irmão, se isso for apenas o produto do nosso ciúme e da nossa natureza ruim. Não devemos esperar o pior das pessoas, nem supor coisas tão odiosas – em palavras e atos – que elas não tenham praticado. Não devemos julgar maldosamente, impiedosamente ou com a disposição de prejudicai: Não devemos julgar a condição de um homem, nem aquilo que ele realmente é, através de um único ato, nem julgá-lo por aquilo que ele representa para nós, porque, devido aos nossos interesses, estamos sempre prontos a ser parciais. Não julguemos o coração dos outros, nem suas intenções, pois pertence a Deus a prerrogativa de testá-los e não devemos ocupar o seu lugar. Nem devemos ser o juiz do estado eterno deles, nem chamá-los de hipócritas, réprobos ou inúteis, pois isso seria avançar além dos nossos limites. O que devemos fazer, então, para avaliar o servo de outro senhor? Aconselhar e ajudar, mas nunca julgar.

2.A razão de cumprirmos essa proibição: “Para não sermos julgados”. Isso indica que:

(1) Se tivermos a presunção de julgar os outros, podemos esperar também sermos julgados. Aquele que usurpa o cargo de um juiz será chamado ao tribunal na condição de réu. Em geral, ninguém é mais censurado do que aqueles que se mostram como os mais rigorosos, e todos terão uma pedra para lhes atirar. Aquele que, como Ismael, tem a mão e a língua contra todos os homens terá igualmente a mão e a língua de todos contra ele (Genesis 16.12), e nenhuma misericórdia será mostrada quanto à reputação daqueles que nenhuma misericórdia mostraram quanto à reputação dos outros. Mas isso não é o pior, pois eles serão julgados por Deus e dele receberão uma grande condenação (Tiago 3.1). Os dois lados comparecerão perante o tribunal de Cristo (Romanos 14.10) o qual, enquanto socorre o humilde sofredor, irá também resistir ao arrogante zombador e dar-lhe suficiente julgamento.

(2) Se formos modestos e caridosos nas censuras que fazemos aos outros, declinando de julgá-los para julgar a nós próprios, não seremos julgados pelo Senhor. Assim como Deus perdoa aqueles que perdoam aos seus irmãos, Ele também não irá julgar a quem não julga seus irmãos. O misericordioso encontrará misericórdia, ele estará dando uma prova de humildade, caridade e deferência a Deus, e será devidamente reconhecido e recompensado por Ele. Veja Romanos 14.10.

O julgamento daqueles que julgam os outros está de acordo com a lei da retaliação. Com o mesmo critério que julgamos, nós também seremos julgados (v. 2). Nos seus julgamentos, muitas vezes a justiça de Deus observa uma regra de proporção como, por exemplo, no caso de Adoni-Bezeque (Juízes 1.7). Veja também Apocalipse 8.10; 13.6. Dessa maneira, Ele fica ao mesmo tempo justificado e exaltado nos seus julgamentos, e todos os homens irão silenciar perante Ele. A mesma medida que usarmos para medir o próximo será usada para nos medir, talvez ainda nesse mundo, para que os homens possam tomar conhecimento do seu pecado pelo castigo que receberem. Que esse pensamento nos dissuada de todo rigor ao lidar com nosso irmão. O que faremos quando Deus se levantar? (Jó 31.14). O que seria de nós, se Deus fosse tão rigoroso e severo ao nos julgar como somos ao julgar os nossos irmãos? Se Ele fosse nos pesar na mesma balança? Podemos justamente esperar que isso venha a acontecer, se formos exagerados a o registrar o que nossos irmãos fazem de errado. Nisso, como em outra s coisas, o violento comportamento dos homens irá recair sobre suas próprias cabeças.

II – Alguns cuidados sobre a censura. O fato de nos abstermos de julgar os outros, pois isso seria um grande pecado, não quer dizer que não devemos reprová-los, porque isso representa um grande dever. E também pode ser a forma de salvar uma alma da morte e de evitar que as nossas almas participem da sua culpa. Agora, observe:

1.Nem todos estão aptos a censurar. Aquele s que são culpados das mesmas faltas que acusam nos outros, ou pior, que trazem vergonha sobre si mesmos, não são aqueles que têm a melhor condição de fazer o bem àqueles que reprovam (vv. 3-5). Aqui temos:

(1) Uma justa reprovação aos censuradores que contendem com seus irmãos pelas pequenas faltas, permitindo-se, ao mesmo tempo, praticar as grandes faltas. Estes são pressurosos em achar um argueiro no olho do próximo, mas não percebem uma trave no seu próprio olho. Eles se mostram muito dispostos a retirar esse argueiro, mas totalmente cegos quando se trata deles mesmos. Observe que:

[1]. Existe uma graduação nos pecados. Alguns pecados podem ser comparados a um argueiro (ou cisco), outros, a traves (ou vigas); alguns, a um inseto, outros, a um camelo. Não é que algum pecado possa ser pequeno, por quanto não existe pecado pequeno; não há um “Deus pequeno” contra o qual alguém possa pecar. Se for um argueiro (ou um cisco, para melhor entendimento), ele fica nos olhos. Se for um inseto, ele fica na garganta. Mas ambos são dolorosos e perigosos, e não será fácil, nem nos sentiremos bem, até serem retirados.

[2] Nossos próprios pecados podem parecer que são maiores em nós do que nos outros. Aquilo que a caridade nos ensina chamar de argueiro no olho do nosso irmão, um verdadeiro arrependimento e um santo pesar nos ensina a chamar de trave quando se trata do nosso próprio olho. Pois os pecados dos outros devem ser atenuados, enquanto os nossos devem ser agravados.

[3] Existem muitos que têm traves nos seus próprios olhos, e ainda assim não as reconhecem. Eles estão sob a culpa e o domínio dos grandes pecados, mas não se deram conta deles. Ao contrário, procuram se justificar como se não precisassem se arrepender ou corrigir. É estranho que um homem possa se encontrar numa condição tão miserável e pecadora, que possa ter uma trave nos olhos e não se importar com ela. Mas o deus desse mundo é capaz de cegar com tanta arte a sua mente que, apesar disso, ele diz com grande segurança: Posso ver.

[4) É muito comum observar que aqueles que são os maiores pecadores, e menos sensíveis à sua presença, são também os primeiros e os mais arbitrários ao censurar os outros. Os fariseus, que eram os mais arrogantes ao se justificar, eram também os mais sarcásticos ao condenar os outros. Eram muito rigorosos com os discípulos porque comiam sem lavar as mãos, mas isso nada mais representava que um argueiro, enquanto encorajavam os homens a desprezar os seus pais, o que não deixava de ser uma trave. O orgulho e a falta de caridade representam, em geral, as traves nos olhos daqueles que pretendem criticar os outros. Muitos são culpados de cometer, em segredo. Mas:

[5] Ser muito severo em relação às faltas dos outros, e ser demasiadamente indulgente com as próprias, é um sinal de hipocrisia. Não seja como os hipócritas (v.5). A despeito de qualquer coisa que este possa desejar é certo que ele não se comportará como um inimigo do pecado (se fosse, seria inimigo do seu próprio pecado); portanto, ele não será digno de louvor. Parece que seria inimigo do seu irmão e, nesse caso, merecedor de toda culpa. Essa caridade espiritual deve começar em casa, “Pois como podes tu dizer, como podes tu, por vergonha, dizer ao teu irmão: Deixa-me corrigir-te, quando tu mesmo não tiveste nenhum cuidado para corrigir a ti mesmo? Teu próprio coração te reprovará por causa desse absurdo, tu o farás com má vontade e esperarás que todos te digam que o hábito corrige o pecado. ‘Médico, cura-te a ti mesmo”. Vá primeiro, que eu irei em seguida. Veja Romanos 2.21.

[6] A consideração do que existe de errado dentro de nós deve nos levar a oferecer uma amável reprovação e impedir uma censura autoritária, tornando-nos caridosos e sinceros no nosso julgamento dos outros. Portanto, “vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão, olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado” (GáIatas 6.1). Pense naquilo que foste, naquilo que és, e naquilo que serias, se Deus te deixasse por tua própria conta.

(2) Eis aqui uma boa regra para aqueles que censuram o próximo (v. 5). Procure o método correto, mas primeiro retire a trave dos teus próprios olhos. A nossa própria maldade está longe de nos escusar por não reprovarmos aquilo que é errado. Ela nos impede e nos desqualifica para fazermos esta reprovação; e isto, por sua vez, agrava ainda mais a nossa maldade. Não devo dizer: “Tenho uma trave nos olhos, portanto não ajudarei meu irmão a tirar o seu argueiro”. O pecado de um homem nunca servirá para sua defesa. Devo primeiro corrigir-me para depois estar qualificado e totalmente isento de qualquer culpa e ofensas. Aqueles que censuram de início, e que são reprovadores por ofício, magistrados e ministros, estão preocupados em caminhar com circunspeção e ser muito metódicos em suas conversas. Um bispo, ou obreiro, deve ser irrepreensível e ter bom testemunho (1 Timóteo 3.2,7). As lâmpadas do santuário eram feitas de ouro puro.

2.Não é qualquer um que está em condições de ser censurado. “Não deis aos cães as coisas santas” (v. 6). Isso pode ser entendido como:

(1) Uma regra para os discípulos ao pregar o Evangelho. Não é que eles não devam pregá-lo aos que são profanos e pecadores (o próprio Cristo pregou para publicanos e pecadores), mas a referência é que não devem perder muito tempo com aqueles que permanecem obstinados depois de ouvirem o Evangelho, ou que tenham blasfemado contra ele e perseguido os pregadores, pois isso redundaria na perda de todo o trabalho. Deixe que eles se voltem a outros (Atos 13.41). Assim disse o Dr. Whitby. Ou:

(2) Como uma regra para todos que estão censurando. O zelo contra o pecado deve ser guiado pela nossa prudência. Não devemos sair por aí distribuindo instruções, conselhos e censuras, e menos ainda consolação, a empedernidos zombadores a quem certamente essas dádivas de nada iriam adiantar.  Isso iria provocar irritação e raiva contra nós. Atire uma pérola a um porco e ele irá ficar tão ofendido como se você tivesse atirado uma pedra. Censuras, por assim dizer, serão consideradas afrontas (Lucas 11.45; Jeremias 6.10), portanto não dê coisas santas aos cães e aos porcos (criaturas imundas). Veja:

[1] Os bons conselhos e as censuras podem ser consideradas coisas santas, preciosas como pérolas. Eles são decretos divinos, são preciosos. “Como árvore da vida” (Provérbios 3.18) e “como pendentes de ouro e gargantilhas de ouro fino, assim é o sábio repreensor” (Provérbios 25.12), e a repreensão feita por um justo é como excelente óleo (Salmos 141.5).

[2] Entre a geração dos pecadores, existem alguns que chegam a tal ponto de iniquidade que são considerados como cães e porcos. São imprudentes e notoriamente depravados. Caminham por muito tempo no caminho dos pecadores e se colocam no lugar dos zombadores. Eles claramente odeiam e desprezam os conselhos e se opõem a eles, pois são irrecuperáveis e obstinadamente perversos. Estes são como os cães que voltam ao seu próprio vômito, e como a porca lavada que volta ao espojadouro de lama.

[3] Quaisquer instruções relativas à reprovação estarão sendo desperdiçadas, expondo o reprovador a todo o desprezo e maldade próprios dos cães e porcos. Tudo que se espera deles é que irão esmagar debaixo dos pés aqueles que os reprovam, zombar deles e enfurecer-se. Não toleram o controle e a contestação, e novamente se voltarão para destruir seus censores, destruir seu bom nome através de insultos, devolver-lhes palavras que ferem como uma retribuição pelo bem recebido; desejam destruí-los com perseguições. Herodes destruiu João Batista por causa da sua fidelidade. Veja aqui as provas de como os homens podem ser como cães e porcos. Aqueles que assim são considerados odeiam a censura e aqueles que as fazem, e se opõem aos que, movidos pela bondade da sua alma, se atrevem a lhes mostrar o perigo do pecado. Eles pecam contra a reparação. Quem iria curar e ajudar aqueles que não desejam ser curados e ajudados? Não há dúvida de que Deus deliberou que deviam ser destruídos (2 Crônicas 25.16). A regra aqui estabelecida se aplica aos reconhecidos e ratificados mandamentos do Evangelho, que não devem ser distorcidos ou desobedecidos por aqueles que são abertamente iníquos e profanos, para que as coisas santas não sejam desprezadas e pessoas pecadoras se tornem ainda mais endurecidas. Não é apropriado tirar o pão das crianças para lançá-lo a os cães. No entanto, devemos ser cuidadosos com quem condenamos como cão ou porco, e não fazê-lo antes de um cuidadoso julgamento e somente com evidências indiscutíveis. Muitos pacientes são perdidos, quando são assim considerados. Se os devidos meios tivessem sido usados, eles poderiam ter sido salvos. Da mesma forma que devemos tomar cuidado para não chamar o bom de mau, julgando todos os ensinadores como hipócritas, devemos também prestar atenção par a não chamarmos os desesperados de maus, julgando que todos os iníquos sejam cães e porcos.

[4] Nosso Senhor Jesus é muito cuidadoso com a segurança do seu povo, e não admite que ele se exponha desnecessariamente à fúria daqueles que irão novamente se voltar para destruí-lo. Eles não podem ser demasiadamente justos a ponto de se destruírem. Cristo fez da lei da autopreservação uma das suas próprias leis, e para Ele o sangue dos seus súditos é precioso.

GESTÃO E CARREIRA

Dilemas profissionais

DILEMAS PROFISSIONAIS

VOCÊ S.A acompanhou cinco pessoas durante cinco meses para resolver questões relacionadas ao trabalho. As soluções, propostas por dois mentores, podem ajudá-lo com os próprios anseios.

Optar por urna profissão para o resto da vida é quase sempre uma escolha de Sofia. Tanto que mais da metade dos brasileiros com ensino superior não atua na área de formação, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2013. O que faz um indivíduo deixar de lado a carreira que almejava quando ingressou na faculdade vai desde a mudança no mercado de trabalho até a desilusão com a realidade da ocupação. “As pessoas escolhem prematuramente e acabam não gostando do que fazem”, diz Tania Casado, professora e diretora no Escritório de Desenvolvimento de carreira da Universidade de São Paulo. O resultado é urna legião de desgostosos. Segundo uma pesquisa da Isma-Brasil, associação que visa combater o estresse, 7296 dos profissionais estão Infelizes no emprego. Tamanha infelicidade, já se sabe, leva a transtornos psicológicos, corno depressão, ansiedade e burnout (a maneira de o corpo dizer “basta”). “Além dos componentes Individuais, excesso de pressão e cobrança, dificuldade em ver perspectiva de crescimento, qualidade da liderança e das relações Inter­ pessoais, e a Incompatibilidade de valores, são alguns dos fatores que podem levar uma pessoa a esse esgotamento”, afirma Tania.

Foi isso o que aconteceu com Glaucia Santos, de 27 anos, de Barueri (SP). Formada em marketing, ao viver o dia a dia de uma agência de publicidade sentiu na pele a angústia da insatisfação com o trabalho, com o ambiente e até mesmo com alguns colegas. Como numa panela de pressão, a tensão acumulada a fez explodir. Acabou afastada um mês e meio por depressão – doença que será a mais incapacitante do mundo até 2020, segundo a Organização Mundial da Saúde. Doente e frustrada com a área que considerava seu sonho, Glaucia tinha dúvidas se deveria retornar a carreira. Nesse meio tempo, fez cursos de crochê e até de manicure; pensou em empreender. Mas o fato é que ela não sabia exatamente o que buscar.

Tendo em mente histórias corno a de Glaucia, VOCÊ S.A criou uma iniciativa para ajudar nos dilemas profissionais. A equipe da revista selecionou, entre 50 relatos, cinco pessoas para ser acompanhadas durante cinco meses por dois mentores: Fernando Mantovani, diretor-geral da empresa de recrutamento e seleção Robert Hall, e Rafael Souto, CEO da consultoria Produtive. O resultado desse projeto você confere a seguir.

Dilemas profissionais2

 

 

Dilemas profissionais4

 

Dilemas profissionais4

Fonte: Revista Você S.A. – Edição 238

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Violência contra mulheres

6 APLICATIVOS PARA COMBATER A VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES

 

REDE DE PROTEÇÃO

Rede de proteção

Disponível para Android e iOS, o Agentto permite à usuária formar uma rede de confiança com 12 pessoas para emitir um alerta com sua localização e pedido de ajuda se houver uma situação em que se sentir em perigo. Na mesma linha, o app Circle of 6 propõe criar um círculo de seis amigas, que oferece rapidamente a localização em GPS em ocasiões de maior vulnerabilidade, como encontros marcados por meio de aplicativos de relacionamentos: www.circleof6app.com.

 

VÍTIMA DE AGRESSÃO

Vítima de agressão

O aplicativo Bem querer mulher é voltado para vítimas de agressão doméstica e assédio sexual. Traz lista de serviços de atendimento psicológico e de delegacias por região e de agentes cadastradas no site para oferecer apoio nessas situações, além de uma linha direta para o 180, serviço de proteção à mulher. Disponível para Android, na Google Play Store.

 

ASSÉDIO NAS RUAS

Assédio nas ruas

Chega de fiu fiu é um mapa para marcar locais onde ocorreram casos de assédio, de verbal a estupro. Muito intuitivo, permite à usuária preencher um rápido formulário para denunciar anonimamente o que sofreu ou viu e também contar a história em detalhes. Também traz orientações sobre como a vítima pode se comportar nessas situações: chegadefiufiu.com.br.

 

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

Violência obstétrica

O app Parto humanizado possibilita que usuárias façam um plano de parto que podem enviar para seu médico e se informem sobre procedimentos comuns em maternidades que na verdade são práticas de violência obstétrica, como pressão para optar por cesárea, anestesia sem conhecimento da gestante e excesso de exames de toque. Traz orientações sobre como fazer denúncias de agressão durante e após o parto e indicações de acompanhantes profissionais para parto humanizado. Pode ser baixado na Google Play Store, apenas para Android.

 

CAMINHO MAIS SEGURO

O caminho mais seguro

O Malalai ajuda a escolher o trajeto mais seguro, principalmente à noite. Com informações feitas por mapeamento colaborativo, de forma que uma usuária ajuda a outra, reúne informações sobre movimento na rua, presença de policiamento fixo nas proximidades, prédios com porteiros e estabelecimentos comerciais abertos, trechos mal iluminados e ocorrências anteriores de assédio. Também é possível enviar uma mensagem avisando que chegou a seu destino. O mapeamento colaborativo estará disponível em breve. Para Android e iOS: malalai.com.br.

 

“UBER” PARA MULHERES

Uber para mulheres

A ideia do aplicativo Lady Driver surgiu diante dos casos de assédio por motoristas de táxi e do Uber. Apenas mulheres sem antecedentes criminais dirigem. A plataforma já conta com duas mil motoristas cadastradas em São Paulo e em breve será expandido para outras cidades. Para Android e iOS: ladydriver.com.br.

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 297

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 6: 19-24

O Sermão da Montanha

O materialismo é um sintoma comum e fatal de hipocrisia como qualquer outro, porque por nenhum pecado Satanás pode ter um domínio mais seguro e mais rápido da alma, sob a capa de uma profissão de religião visível e admissível, do que por meio do materialismo. Portanto, tendo nos alertado contra cobiçar o louvor dos homens, Cristo, em seguida, nos alerta contra cobiçar a riqueza do mundo; também devemos prestar atenção a isto par a que não sejamos como os hipócritas e não façamos o que eles fazem. O erro fundamental de que eles são culpado s consiste em escolher o mundo como seu galardão. Devemos, portanto, estar alertas contra a hipocrisia e o materialismo, na escolha que fazemos do nosso tesouro, do nosso fim, e dos nossos senhores.

I – Ao escolher o tesouro que acumulamos. Tudo o que homem tem compõe o seu tesouro, a sua porção. O seu coração está nesta porção. É para lá que ele transporta tudo que puder conseguir, e é dele que o homem depende para o futuro. É sobre este bem, este bem principal, que Salomão fala enfaticamente (Eclesiastes 2.3). Este bem é algo que a alma terá, algo que ela considera como a melhor coisa, que tem a sua complacência e a sua confiança acima de outras coisas. Cristo não planeja nos privar do nosso tesouro, mas nos guiar na escolha dele; e aqui temos:

1.Uma boa advertência contra fazer das coisas que são vistas, que são temporais, as nossas melhores coisas, e colocar nelas a nossa felicidade. “Não ajunteis tesouros na terra”. Os discípulos de Cristo haviam deixado tudo para segui-lo, mantendo uma boa consciência. Um tesouro é a abundância de algo que é, em si, ao menos em nossa opinião, precioso e valioso, e que poderá nos ser útil no futuro. Entretanto, não devemos acumular tesouros na terra, isto é:

(1) Não devem os considerar as coisas terrenas como as melhores, ou as mais valiosas em si mesmas, nem as mais proveitosas para nós. Não devemos chamá-las de glória, como fizeram os filhos de Labão, mas devemos ver e possuir as coisas terrenas que não têm glória, em comparação com a glória que é a mais excelente.

(2) Não devemos cobiçar a abundância destas coisas, nem estar tomando posse delas cada vez mais, e acrescentando-as, como fazem os homens com aquilo que é o seu tesouro, sem nunca saberem quando já têm o suficiente.

(3) Não devemos confiar nas coisas terrenas para o futuro, para serem a nossa segurança e suprimento no tempo por vir – não devemos dizer ao ouro: “Tu és a minha esperança”.

(4) Não devemos nos satis fazer com as coisas terrenas, como tudo o que precisamos ou desejamos; devemos nos contentar com o suprimento de nossas necessidades neste mundo, não desejando que a nossa porção seja exagerada. Não devemos fazer destas coisas a nossa consolação (Lucas 6.24). Também não devemos nos sentir consolados pelos nossos bens (Lucas 16.25). Consideremos que estamos acumulando, não para a nossa posteridade neste mundo, mas para nós mesmos no porvir. Precisamos fazer a nossa escolha, como se fôssemos os escultores de nossa própria vida; isto é, seremos aquilo que nós mesmos delinearmos. Cabe a nós escolher sabiamente, pois estaremos escolhendo para nós mesmos, e teremos aquilo que escolhermos. Se soubermos o que somos e considerarmos a nós mesmos; se conhecermos para o que fomos feitos, qual é a dimensão da nossa capacidade, e a duração da nossa continuidade, e que a nossa alma corresponde a nós mesmos, veremos que é tolice acumular os nossos tesouros na terra.

2.Aqui está um bom motivo do por que não devemos olhar para as coisas terrenas como o nosso tesouro, porque ele está sujeito à perda e à obsolescência:

(1) Pela corrupção. Aquilo que é considerado tesouro na terra, a traça e a ferrugem consomem. Se o tesouro acumulado consistir de roupas boas, a traça as corrói, e quando pensamos que elas estão acumuladas da forma mais segura, elas desaparecem e se estragam insensivelmente. Se o tesouro acumulado consistir de grãos ou outras coisas comestíveis, como o tesouro daquele homem rico, que tinha os seus celeiros cheios (Lucas 12.16,17), a ferrugem (assim lemos) os corrói (versão RA). Brasis consumido, consumido pelos homens, porque quando os bens aumentam, eles aumentam para serem consumidos (Eclesiastes 5.11); consumidos pelos ratos ou outros vermes (o próprio maná criou vermes). Eles ficam mofados ou embolorados, são atacados, ou ficam cheios de fuligem, ou se estragam; no caso das frutas, elas logo apodrecem. Ou, se entendermos como tesouro a prata e o ouro, eles perdem o brilho e sua pureza; eles se desgastam com o uso, e também ao serem guardados (Tiago 5.2,3); a ferrugem e a traça crescem no próprio metal e na própria roupa. Note que as riquezas do mundo têm em si a corrupção e a decadência; elas se deterioram e desaparecem.

(2) Pela violência exterior. Os ladrões minam e roubam. Toda mão violenta estará direcionada para a casa onde há algum tesouro acumulado. Nada pode ser acumulado de forma muito segura, e qualquer riqueza material pode ser subtraída de seu possuidor. É loucura fazer do nosso tesouro algo que pode ser tão facilmente roubado.

3.Um bom conselho: Devemos fazer das alegrias e das glórias do mundo porvir – aquelas coisas que não são vistas e que são eternas – as nossas melhores coisas, e colocar a nossa felicidade nelas. Ajuntai tesouros no céu. Note que:

(1) Há tesouros no céu, assim como há tesouros nesta terra; e os tesouros do céu são os únicos tesouros verdadeiros. As riquezas, as glórias e os prazeres que estão à mão direita de Deus estão preparados para aqueles que são verdadeiramente santificados, e que os receberão quando chegarem à presença do Senhor, onde serão perfeitamente santificados.

(2) A nossa sabedoria deve nos fazer acumular estes tesouros. Devemos empregar toda a diligência para nos certificar de que temos o nosso título para a vida eterna através de Jesus Cristo, dependendo dele para a nossa felicidade, olhando par a todas as coisas aqui na terra com um desprezo santo, corno indignas de serem comparadas a Ele. Devemos crer firmemente que há tal felicidade, ficando satisfeitos com ela, e não nos contentar com nada menos. Se, portanto, nos apropriarmos destes tesouros, eles serão acumulados, e poderemos confiar em Deus para mantê-los em segurança para nós; a partir daí, vamos considerar todos os nossos planos, e entender todos os nossos desejos; a partir daí, vamos empreender os nossos melhores esforços, e aplicar os nossos melhores sentimentos. Não devemos nos sobrecarregar com o dinheiro deste mundo (que somente nos sobrecarregará e nos contaminará), que está sujeito a nos fazer naufragar, mas devemos acumular bons valores. As promessas são letras de câmbio, pelas quais todos os crentes verdadeiros remetem o seu tesouro ao céu. São como títulos pagáveis no estado futuro; e assim passamos a possuir a herança que com toda a certeza será concedida a cada cristão.

(3) A possibilidade de acumularmos o nosso tesouro no céu é um grande encorajamento par a nós. Estando ali seguro, ele não se deteriorará, nenhuma traça ou ferrugem o corroerá; não seremos privados dele pela força ou por fraude; ali os ladrões não minam nem roubam. É uma felicidade que está acima e além das mudanças e das circunstâncias do tempo; trata-se de uma herança incorruptível.

4.Um bom motivo pelo qual devemos escolher, e uma evidência de que o temos feito (v. 21): “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Devemos, portanto, estar preocupados em escolher sabiamente o nosso tesouro, porque a disposição da nossa mente, e, consequentemente, o sentido da nossa vida, serão desta forma carnal ou espiritual, terreno ou celestial. O coração segue o tesouro, como a agulha segue o ímã, ou como o girassol segue o sol. Onde estiver o tesouro, ali estarão o valor e a estima, o amor e a afeição (Colossenses 3.2). Dessa forma, o desejo e as buscas se seguem, os objetivos e os intentos são equilibrados, e tudo é feito tendo isto em vista. Onde estiver o nosso tesouro, ali estarão os nossos cuidados e os nossos medos, para que não nos privemos dele; sobre ele seremos mais solícitos. Ali estará a nossa esperança e a nossa confiança (Provérbios 18.10,11); ali estarão as nossas alegrias e os nossos deleites (SaImos 119.111). E ali estarão os nossos pensamentos, como também o nosso pensamento interior, o primeiro pensamento, o livre pensamento, o pensamento fixo, o pensamento frequente e familiar. Deus tem todos os direitos sobre o nosso coração (Provérbios 23.26), e esta é uma grande bênção para nós. Ele deve ser o nosso tesouro, e então as nossas almas serão elevadas a Ele.

Esta instrução de acumular o nosso tesouro pode muito adequadamente ser aplicada à precaução anterior, de não fazermos nada na religião para sermos vistos pelos homens. O nosso tesouro são as nossas esmolas, orações e jejuns, e o galardão que estas atividades nos trazem. Se fizermos tudo isso somente para ganhar o louvor dos homens, acumularemos este tesouro na terra, estaremos depositando-o nas mãos dos homens, e jamais deveremos esperar receber algo além dele. Entretanto, é loucura fazer isso, porque o louvor dos homens, que tanto cobiçamos, está sujeito à corrupção; logo estará enferrujado, corroído pela traça, e desgastado; uma pequena loucura ou tolice, como uma mosca morta, estragará tudo (Eclesiastes 10.1). A difamação e a calúnia são ladrões que minam e roubam, e assim perdemos todo o tesouro que receberíamos. Corremos em vão, e trabalhamos em vão, porque posicionamos mal as nossas intenções. Os serviços hipócritas não acumulam nada no céu (Isaias 58.3); o ganho deles desaparece quando a alma é chamada à eternidade (Jó 27.8). Mas se orarmos, jejuarmos e dermos esmolas em verdade e retidão, com os olhos em Deus e em sua aceitação, e formos aprovados na presença dele, acumularemos este tesouro no céu. Há um memorial escrito ali (Malaquias 3.16), e estando ali registrado, será ali recompensado, e encontraremos novamente o conforto do outro lado da morte e da sepultura. Os nomes dos hipócritas estão escritos sobre a terra (Jeremias 17.13), mas os fiéis a Deus têm os seus nomes escritos no céu (Lucas 10.20). A aceitação na presença de Deus é um tesouro no céu que não pode ser corroído nem roubado. O bem que o Senhor fará àqueles que o buscam permanecerá para sempre; portanto, se acumularmos o nosso tesouro na presença dele, com Ele estarão os nossos corações. E será que haveria um outro lugar em que alguém poderia estar melhor do que na presença do Senhor?

II – Devemos nos acautelar contra a hipocrisia e o materialismo ao escolhermos o fim que desejamos. A nossa preocupação quanto a isso é representada por dois tipos de olhos que os homens podem ter: um olho bom ou um olho mau (vv. 22,23). As expressões aqui são um pouco tenebrosas por serem concisas; devemos, portanto, considerá-las em diversas interpretações. A luz do corpo é o olho, que é reto; o olho descobre e guia; a luz do mundo nos proporcionaria pouco sem esta luz do corpo; a luz dos olhos alegra o coração (Provérbios 15.30), mas vejamos o que é aqui comparado ao olho no corpo.

1.O olho, isto é, o coração (segundo alguns), se for singelo (versão inglesa KJV) – generoso e abundante (assim as palavras deste grupo são frequentemente traduzidas, como em Romanos 12.8; 2 Coríntios 8.2; 9.11,13; Tiago 1.5, e também lemos sobre o olho generoso em Provérbios 22.9). Se o coração for dado à liberalidade e à generosidade, e permanecer inclinado à bondade e a caridade, ele guiará o homem a ações cristãs. Toda a sua conduta será cheia de luz, cheia de evidências e exemplos do verdadeiro cristianismo, a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai (Tiago 1.27). Ela estará cheia de boas obras, que são a nossa luz brilhando diante dos homens; mas se o coração for mau, cobiçoso, duro, invejoso, dominador e rancoroso (esse estado de espírito é frequentemente expressado por um olho mau, cap. 20.15; Marcos 7.22; Provérbios 23.6,7), o corpo será cheio de trevas, e assim toda a sua conduta será pagã, e não cristã. Os instrumentos do avarento serão sempre maus, mas o generoso projeta coisas nobres (Isaias 32.5-8). Se a luz que está em nós, aqueles sentimentos que devem nos guiar para o que é bom, forem trevas, se eles forem corruptos e mundanos, se não houver no homem uma boa natureza, uma disposição gentil, a corrupção do homem será muito grande, assim como as trevas em que ele estará! Este sentido parece concordar com o contexto; devemos acumular tesouros no céu através da nossa generosidade ao darmos esmolas, e não com rancor, mas com alegria (Lucas12.33; 2 Coríntios 9.7). Mas estas palavras na passagem paralela não aparecem em nenhuma ocasião desse modo (Lucas 11.34). Portanto, a coerência aqui não se torna o sentido delas.

2.O olho, isto é, o entendimento (segundo alguns); é o juízo prático, a consciência, que é para as demais capacidades da alma aquilo que o olho é para o corpo, guiando e dirigindo os seus movimentos. Se este olho for bom, se ele fizer um juízo verdadeiro e correto, e discernir coisas que diferem, especialmente na grande preocupação de acumular tesouros de modo a fazer escolhas certas, ele guiará corretamente os sentimentos e as ações, que estarão repletas de luz, de graça e conforto. Mas se este for mau e corrupto, e ao invés de conduzir os poderes inferiores for conduzido, subornado e afastado, se for equivocado e mal informado, o coração e a vida estarão repletos de trevas, e toda a conduta será corrompida. Aqueles que não entendem isto são citados corno aqueles que andam em trevas (SaImos 82.5). É triste quando o espírito de um homem, que deveria ser a candeia do Senhor, é um ignisfatuus: quando os líderes do povo, os líderes das capacidades, fazem com que as pessoas errem, é uma infelicidade, por que aqueles que são guiados por eles serão destruídos (Isaias 9.16). Um erro no juízo prático é fatal, é chamar de bom o que é mau, e chamar de mau o que é bom (Isaias 5.20); portanto, precisamos entender as coisas de modo certo, tendo os nossos olhos ungidos com o colírio do Senhor.

3.O olho, isto é, os propósitos e as intenções; pelos olhos fixamos o nosso propósito diante de nós mesmos, a marca que estabelecemos, o lugar para onde vamos. Mantemos o nosso objetivo em vista, e, consequentemente, dirigimos os nossos movimentos. Em todas as coisas que fazemos em nossa caminhada cristã, há uma coisa ou outra que temos em vista. Se o nosso olho é bom, se contemplamos todas as coisas honestamente, fixamos propósitos certos, e nos movemos corretamente em sua direção. Se miramos puramente e somente a glória de Deus, buscamos a sua glória e o seu favor, e dirigimos tudo inteiramente para Ele, então o nosso olho é bom. O olho de Paulo estava nesta condição, quando o apóstolo disse: “Para mim o viver é Cristo”. E se formos corretos aqui, todo o nosso corpo será cheio de luz, todas as ações serão regulares e bondosas, agradando a Deus e nos confortando; mas se o olho for mau, se, em vez de mirarmos somente a glória de Deus, e a nossa aceitação por parte dele, desviarmos o nosso olhar para o aplauso dos homens, e se enquanto professamos honrar a Deus, tramarmos honrar a nós mesmos, e buscarmos as nossas próprias coisas, sob o pretexto de buscarmos as coisas de Cristo, isto estragará tudo, e toda a conduta será perversa e instável. Os fundamentos estarão assim fora de posição. Só poderá haver confusão e toda obra má na sua, estrutura. Se você traçar retas em uma circunferência a partir de qualquer outro ponto que não seja o centro, elas se cruzarão. Se a luz que está em ti for não só fraca, mas as próprias trevas, haverá um erro fundamental que será destrutivo para tudo o que vier a seguir: Os nosso s objetivos especificam as nossas ações. E da maior importância que, na religião, estejamos certos em nossos propósitos, e que façamos das coisas eternas – e não das temporais – o nosso objetivo (2 Coríntios 4.18). O hipócrita é como o remador que olha para uma direção e rema para outra; o verdadeiro cristão é como o viajante, que tem bem claro, diante de seus olhos, o destino de sua jornada. O hipócrita voa alto como o pássaro milhano, com o seu olhar sobre a presa que está abaixo. Ele está pronto para descer quando tiver uma boa oportunidade; o verdadeiro cristão voa alto como a cotovia, cada vez mais alto, esquecendo-se das coisas que estão abaixo.

III – Devemos prestar atenção na hipocrisia e no materialismo ao escolhermos o senhor a quem serviremos (v. 24). Nenhum homem pode servir a dois senhores. Servir a dois senhores é contrário ao olho bom; porque o olho atenta para a mão do seu senhor (SaImos 123.1,2). O Senhor Jesus aqui expõe o engano que alguns colocam sobre as suas próprias almas: eles pensam que podem se dividir entre Deus e o mundo, para terem um tesouro na terra e também um tesouro no céu, para agradarem a Deus e também aos homens. Por que não? dizem os hipócritas; é bom “ter duas cordas em um arco”. Eles esperam fazer com que a sua religião sirva aos seus interesses seculares, e assim procuram tirar proveito de ambas as coisas. A falsa mãe estava disposta a permitir que Salomão mandasse partir a criança ao meio; os samaritanos estarão dispostos a fazer algum tipo de acordo entre Deus e os ídolos. Não, diz Cristo, isto não servirá; isto é apenas uma suposição de que a piedade seja causa de ganho (1 Timóteo 6.5). Aqui está:

1.Um princípio geral estabelecido; é provável que este fosse um provérbio entre os judeus: Nenhum homem pode servir a dois senhores, muito menos a dois deuses; porque as suas ordens, em um momento ou outro, serão contraditórias ou conflitantes, e haverá uma interferência inevitável. Enquanto dois senhores caminham juntos, um servo pode seguir a ambos; mas quando eles se separam, você verá a qual deles ele realmente serve; ele não poderá amar, e observar, e manter-se fiel a ambos como deveria. Dedicando-se a um, não se dedicar á a outro; um ou outro será comparativamente odiado e desprezado. Esta verdade é clara o suficiente nos casos comuns.

2.A aplicação deste conceito à situação em questão. “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Mamom é uma palavra siríaca que significa ganho; ela pode se referir a qualquer coisa neste mundo que reputemos como um ganho (Filipenses 3.7). Tudo aquilo que o mundo valoriza – como, por exemplo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida – é mamom. Para alguns, o seu ventre é o seu mamom, e eles o servem (Filipenses 3.19); para outros, a sua tranquilidade, seu sono, seus esportes e passatempos, são o seu mamom (Provérbios 6.9); para outros, as riquezas deste mundo (Tiago 4.13); para outros, honras e cargos honoríficos. O louvor e o aplauso dos homens eram o mamom dos fariseus. Em uma palavra, a própria pessoa, a unidade na qual a trindade do mundo se centraliza, o ego sensual e secular, é o mamam que não pode ser servido juntamente com Deus; porque se ele for servido, haverá uma competição com o Senhor e uma contradição em relação a ele. Jesus não diz: Não devemos ou não deveríamos, mas não podemos servir a Deus e a Mamom; não podemos amar a ambos (1 João 2.15; Tiago 4.4), ou nos manter fiéis a ambos, ou colocar ambos em observância, obediência, assistência, confiança e dependência, porque eles são contrários um ao outro. Deus diz: “Dá-me, filho meu, o teu coração”. Mamom diz: “Não, dê o seu coração a mim”. Deus diz: “Contentai-vos com o que tendes”. Mamom diz: ”Apanhe tudo o que puder. Deus diz, em outras palavras: Não defraudeis, nunca mintais, sejais honestos e justos em todos os assuntos. Mamom diz: “Engane a teu próprio Pai, se isto te trouxer ganho”. Deus diz: “Seja caridoso”. Mamom diz: “Guarda para ti mesmo: este ato de dar nos prejudica a todos”. Deus diz: “Não estejais inquietos por coisa alguma”. Mamom diz: “Estejais inquietos por todas as coisas”. Deus diz: “Santifique o teu sábado”. Mamom diz: “Faça uso deste dia da mesma forma que qualquer outro dia para o mundo”. Portanto, as instruções de Deus e de Mamom são incoerentes, de forma que não podemos servir a ambos. Não vacilemos, então, entre Deus e Baal, mas escolhamos hoje a quem iremos servir, e perseveremos na nossa escolha.

 

GESTÃO E CARREIRA

FILME: ONDE NASCE A ESPERANÇA

21 DE MARÇO: DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN

Síndrome de Down

SINOPSE

Calvin Campbell (Kristoffer Polaha), um ex-jogador de beisebol que teve sua carreira interrompida por uma série de problemas pessoais se vê em um estado de depressão. Desacreditado da vida, tudo muda quando ele conhece Produce (David DeSanctis), um jovem com síndrome de Down, atendente do mercado local que ajuda Calvin a sentir novamente inspiração pela vida.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

21 DE MARÇO: DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN 

Diferente e especiais

DIFERENTES E ESPECIAIS

Com educação e cuidados personalizados desde cedo, crianças nascidas com síndrome de Down têm mais chances de crescer como indivíduos independentes, criativos e sociáveis.

No século XIX, o médico inglês John Langdon Down foi nomeado diretor de uma clínica para crianças com deficiência mental nos arredores de Londres. Ali, teve oportunidade de estudar os sintomas dos pequenos pacientes. Em 1862, registrou o caso de um deles: baixa estatura, dedos curtos e pálpebras atípicas. Mais tarde, a doença do garoto ficaria conhecida pelo nome do médico, o primeiro a descrevê-la.
A causa genética da síndrome de Down, porém, só seria descoberta um século depois. Em 1959, o pediatra francês Jérome Lejeune constatou que crianças com a síndrome possuíam três cópias do cromossomo 21, em vez de duas.
Por muito tempo, pessoas com síndrome de Down – ou trissomia do cromossomo 21 – foram consideradas “retardadas” e, portanto, incapazes de levar vida normal. Mas essa visão começou a mudar. Psicólogos, médicos e professores especializados em educação especial sabem hoje que um diagnóstico na infância não significa necessariamente que a criança terá poucas opções na vida – desde que ela tenha acesso a uma educação especial. E na sociedade, crianças com Down vêm sendo mais aceitas como normais.
Limitações físicas continuam a ser um desafio para quem tem a síndrome. O tônus muscular baixo em geral faz com que a língua fique para fora da boca. Há também problemas nas juntas, na visão, audição e tireoide, além de sensibilidade maior da pele, em geral muito clara. Cerca de metade dos portadores de síndrome de Down sofre de cardiopatias congênitas. Mas os avanços da medicina na segunda metade do século XX dobraram sua expectativa de vida de 25 para 50 anos e ela será ainda maior no caso da ausência de problemas cardíacos. Para a maioria, no entanto, o maior desejo – e o maior desafio – é ter uma vida mental e social satisfatória.

EFEITO DA TERCEIRA CÓPIA
A trissomia do 21 é a anomalia cromossômica mais frequente em humanos. Ela afeta uma em cada 800 a mil crianças. Atualmente, mais de 350 mil americanos são portadores da síndrome de Down. Mas por que as três cópias do cromossomo 21 causam a doença? Com um mapa completo do genoma humano, os pesquisadores estão chegando perto da resposta.
No ano 2000, logo após os cientistas do Projeto Genoma Humano terem terminado de descrever o cromossomo 21, foi confirmado que nele estão tanto os genes causadores da síndrome de Down como da doença de Alzheimer. Neurologistas já haviam aventado uma relação entre os dois distúrbios, pois ambos envolvem uma produção inadequada do neurotransmissor acetilcolina. Em um balanço das pesquisas recentes, Nancy Roizen, da Clínica Cleveland, e David Patterson, da Universidade de Cleveland, concentraram-se em um determinado gene que é crucial para a produção de energia e utilização de oxigênio no interior das células. Eles levantaram a hipótese de que um defeito nesse sistema poderia levar à produção de radicais livres de oxigênio bastante agressivos – moléculas que prejudicam as células -, influenciando tanto a síndrome de Down como a doença de Alzheimer.
Em 2004, Guilherme Neves e Andrew Chess, atualmente no Centro de Pesquisa sobre Genética Humana do Hospital Geral de Massachusetts, rastrearam a influência de outros genes sobre o cromossomo 21 – utilizando como modelo, nesse caso, uma mosca-das-frutas. Eles descobriram um gene – denominado Dscam (molécula de adesão celular da síndrome de Down, na sigla em inglês) – que parece conferir a toda célula nervosa uma identidade única durante o desenvolvimento uterino, assegurando que cada célula se localize no lugar certo do corpo e do cérebro. A hipótese dos pesquisadores é que uma versão diferente desse gene talvez afete humanos de modo similar. Pelo fato de as pessoas portadoras de trissomia do cromossomo 21 terem uma cópia a mais do gene, esse excesso pode impedir o estabelecimento das conexões corretas entre as células cerebrais durante o desenvolvimento fetal.
Pouco antes do nascimento, o cérebro começa a conferir toda a sua rede neural e a separar as conexões supérfluas, que são então eliminadas. No entanto, de acordo com uma das explicações do problema, na trissomia do cromossomo 21 muitas das conexões improdutivas continuam presentes.
Elas formam “becos sem saída” que atrasam o desenvolvimento físico e os processos de aprendizado e de pensamento de pessoas portadoras da síndrome de Down.

Atraso no desenvolvimento
Após o nascimento, as crianças com trissomia passam pelas mesmas fases de desenvolvimento de outras crianças, mas seu ritmo é menor e varia muito. Essa variação foi bastante estudada por pesquisadores como Hellgard Rauh, psicólogo da Universidade de Potsdam, na Alemanha, que tem acompanhado há anos o desenvolvimento de mais de 30 crianças portadoras de Down.
Rauh descobriu que o desenvolvimento mental durante os primeiros três anos de vida de crianças com Down se dá, em média, na metade da velocidade normal, o que significa que a maioria dessas crianças, aos 2 anos, está, em média, no mesmo estágio atingido por bebês entre 12 e 14 meses. Nos anos seguintes, o ritmo do desenvolvimento mental reduz-se a um terço daquele de uma criança normal. Agarrar com as mãos, engatinhar e andar são enormes desafios nos primeiros dois ou três anos de vida.
Apesar de o ritmo de desenvolvimento mental tender a se normalizar após os três anos de vida, a evolução física também atrasa. A fala é, com frequência, um problema: a maioria dos portadores da síndrome aos 5 ou 6 anos – pouco antes do início do ensino fundamental, portanto – está apenas começando a pronunciar frases de duas ou três palavras. Por exemplo, quando querem seu brinquedo favorito, dizem apenas “bola!”. E demonstram ter medo do cachorro do vizinho gritando “cão!”. Atrasos na linguagem continuam a afetar muitos jovens com Down até a idade adulta.
Para muitas dessas crianças, pensar abstratamente – a habilidade de lidar com números ou figuras geométricas – pode ser bastante árduo. Elas têm dificuldades também com símbolos visuais e linguísticos, mesmo no caso de conceitos simples como igual e diferente ou mais e menos.
Por outro lado, quando Wolfgang Jantzen, pesquisador de educação especial da Universidade de Bremen, Alemanha, realizou testes de noções espaciais com portadores de Down de 11 anos – com habilidades linguísticas no nível das de uma criança de 4 -, seu desempenho foi praticamente igual ao esperado para a idade. Por exemplo, ele dava a elas problemas de apenas uma etapa, como “Ponha o círculo amarelo na frente do quadrado azul”, e elas se saíam muito bem. Contudo, se acrescentasse “antes de pegar o círculo amarelo, toque no quadrado azul”, a maioria delas era incapaz de realizar a tarefa. As crianças não tinham nenhum problema com a localização espacial, mas a sequência temporal complicava a realização da atividade.

Outra característica de crianças com síndrome de Down é o processamento mental mais lento. Quase todas as suas reações demoram mais que o normal, o que deve ser levado em conta quando trabalhamos ou vivemos com elas. Caso contrário, a confusão logo se instalará.
Imagine, por exemplo, um pai perguntando ao filho de 7 anos se ele quer um hambúrguer no jantar. O menino talvez não responda imediatamente.
O pai pode interpretar o silêncio como um “não”. “Então você prefere queijo?” “Sim”, responderia o menino, mas quando recebesse um prato com queijo choraria, porque queria mesmo hambúrguer.
Um dos aspectos mais delicados é que as crianças com Down em geral sabem que não conseguem fazer muitas coisas que seus colegas da mesma idade fazem. Por conta disso, procuram se proteger sempre que apresentadas a um desafio – e, segundo Rauh, podem adotar diferentes estratégias. Algumas tentam, empregando uma combinação de charme e encenação de desamparo, fazer com que outras pessoas as ajudem. Outras manipulam as pessoas à sua volta fazendo gracinhas ou birra. E algumas ficam simplesmente desanimadas e desistem. Essa forma de resignação pode ser forte o suficiente para desencadear reações psicossomáticas, como dores de estômago crônicas.
Animadas e imaginativas
Enquanto os psicólogos aprendem mais sobre os pensamentos de crianças portadoras da síndrome de Down, pais, amigos e professores precisam continuar aprendendo a ajudar esses meninos a desenvolver suas capacidades mental e social. Está ficando cada vez mais claro que o melhor jeito de incentivar esse crescimento é interagir com essas crianças de modo vívido e imaginativo.

Esse apoio positivo começa com os pais. Rauh observou que algumas mães respondiam às brincadeiras de seus filhos de maneira tranquila e serena; eram atenciosas e amigas sem tentar controlar o que estava acontecendo, o que permitia a criação de vínculos fortes entre a mãe e a criança. Outras se mantinham afastadas de seus filhos, o que, por sua vez, deixava as crianças deslocadas. Por outro lado, quando as mães demonstravam necessidade de envolvimento e controle excessivos, isso tornava as crianças inseguras. Filhos seguros quanto ao interesse de suas mães eram mais tranquilos, o que, presume-se, lhes permitia melhor adaptação ao meio em que estavam inseridos.
“Jogos” especiais também podem ajudar. Jutta Hatzer, professora de educação especial de Bremen, chama a atenção para gestos criados para reforçar a autopercepção durante o primeiro ano de vida da criança. A pesquisadora colocou Tom, 1 ano, de pé num cesto contendo feijões em quantidade suficiente para alcançar a cintura do menino. Os grãos agiam como bolinhas de massagem. O bebê ficou quieto e feliz em seu aconchegante refúgio. “O feijão que o envolvia o deixava seguro”, diz Hatzer. “Ele pode sentir seu corpo, seus limites e ter uma noção direta de si mesmo.”
Depois de algum tempo, Hatzer incentivou Tom a apanhar alguns grãos. Tudo com calma, passo a passo – o garoto precisava de bastante tempo para lidar com cada situação nova. Hatzer cantava musiquinhas, inventadas por ela, que descreviam cada um dos passos (“Tom está no cesto”). Ela repetia as frases várias vezes e acalmava Tom com palavras e gestos. Por meio dessa comunicação e de brincadeiras contínuas a criança aprendia a entender as relações entre seu mundo interior e o ambiente. Esse tipo de apoio logo cedo, que no caso de Tom começou pouco depois de seu nascimento, foi pensado para estimular seu desenvolvimento mental, facilitando o processo de aprender a andar e, depois, a falar.
Alguns terapeutas recomendam aos que convivem com essas crianças usar gestos junto com as palavras. Elas parecem aprender rápido a linguagem gestual, o que ajuda a compreender as palavras. Por exemplo, o garoto que ganhou queijo em vez de hambúrguer talvez entendesse melhor um gesto para hambúrguer – como fingir segurar e morder um pedaço de pão.
Para lidar com portadores de Down, os adultos devem tomar cuidado para não demonstrar medo ou intimidação. As pessoas com a síndrome não “sofrem” com esse distúrbio, mas com as altas exigências colocadas pelo ambiente em que vivem. Elas são apenas um pouco diferentes: pensam de um jeito diverso, lidam de outra forma com as emoções, não veem as coisas do mesmo modo, não se parecem com as pessoas “normais” e às vezes reagem de maneira inesperada. São muito originais e criativas, mas precisam de incentivo para que essas características apareçam. Se aqueles à sua volta as aceitam e lidam com elas de forma positiva, essas crianças desenvolvem plenamente sua personalidade e aprendem a escolher o que querem e o que não querem.

ANOMALIA DO CROMOSSOMO 21 DETERMINA SÍNDROME

Nosso mapa genético está guardado nos cromossomos do núcleo das células do corpo. Há 23 feixes de DNA que, em condições normais, formam pares – uma cópia do pai, outra da mãe. Eles determinam a aparência dos indivíduos, como eles se desenvolvem e as doenças às quais são mais vulneráveis.

O óvulo e o espermatozoide possuem um conjunto de 23 cromossomos cada. A formação dos pares ocorre durante a fertilização, quando o óvulo e o espermatozoide se fundem. Algumas vezes, no entanto, um óvulo ou um espermatozoide pode fornecer duas cópias de um cromossomo qualquer, dando ao óvulo fertilizado – e, portanto, a todas as células do corpo do futuro indivíduo – três cópias, e não duas, daquele cromossomo, num total de 47 cromossomos em vez dos 46 normais.
A maioria dos casos de trissomia resulta em consequências tão desastrosas que o embrião não consegue sobreviver e é rejeitado. No entanto, o 21 é o menor dos 23 cromossomos, e três cópias dele talvez não sejam um problema tão grave, já que os embriões com trissomia do 21 sobrevivem.
Os geneticistas descobriram que em 95% dos bebês nascidos com trissomia do cromossomo 21 todas as células do corpo têm 47 cromossomos. Cerca de 2% têm trissomia em mosaico, caso em que apenas algumas células do corpo possuem a terceira cópia. Os outros 3% têm trissomia por translocação, único tipo hereditário de síndrome de Down. Neste caso, apenas algumas partes do cromossomo 21 são duplicadas e se ligam a outros cromossomos.
Bebês com síndrome de Down podem nascer em qualquer família e de pais de qualquer idade e origem étnica. No entanto, já se sabe que um fator de risco importante é a idade da mãe. Ernest B. Hook, da Universidade da Califórnia em Berkeley, estima que o risco de ter uma criança com Down é de 1 em 1.500 em mulheres de 20 anos, mas sobe para 1 em 20 em mulheres de 45.

NO BRASIL, CENÁRIO É DE CONTRASTES

De acordo com estimativas do IBGE baseadas no Censo 2000, existem 300 mil pessoas com síndrome de Down no país. A incidência de trissomia em nascimentos (1 em cada 600 bebês), o aumento da ocorrência em gestações após os 35 anos e a expectativa de vida dos portadores (aproximadamente 50 anos) acompanham as estatísticas mundiais. Trata-se de uma alteração genética sem características endêmicas. Mas o quadro muda de figura no que se refere à realidade brasileira. Do diagnóstico à inclusão social, imperam contrastes.
De um lado, há boas notícias. “O Brasil tem produção científica relevante sobre o assunto e os profissionais são bem preparados”, afirma o pediatra e geneticista Marco Antônio de Paula Ramos, do Centro de Genética Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na profissionalização, acompanha-se a tradição dos países desenvolvidos.
Embora o diploma universitário habilite diferentes especialistas – fonoaudiólogos, fisioterapeutas, pedagogos, entre outros – a trabalhar com portadores, a excelência é atingida com treinamento prático. “A maioria dos que trabalham com síndrome de Down teve uma vivência importante em instituições especializadas”, completa o médico.
Outra conquista é a maior disponibilidade de informação sobre a síndrome. “Desde os anos 80 estudos e descobertas científicas têm ajudado a reduzir o preconceito, e os pais buscam auxílio cada vez mais cedo.
Alguns chegam até nós no dia seguinte à saída do bebê da maternidade. Isto é fundamental para o desenvolvimento da criança e de sua qualidade de vida”, ressalta a geneticista clínica Silvia Bragagnolo Longhitano, coordenadora do Centro de Atenção Integral à Saúde da Apae-SP (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo).
A Apae é símbolo e agente dos avanços. Oferece serviços exemplares e reúne mais de 2 mil entidades por todo o país. A Apae de São Paulo atende por mês cerca de 1.600 pessoas, de crianças a idosos. Por ano, realiza exames em 30 mil bebês.
A filosofia da Apae está alinhada com a tendência mundial de “desinstitucionalizar” pacientes com a síndrome. Antigamente previa-se o desenvolvimento do portador dentro da instituição, que proporcionava recursos de saúde, trabalho e educação. Hoje, é o contrário. “Nosso objetivo é ser apenas um centro de apoio de caráter transitório. A verdadeira inclusão social depende da ampla participação do portador nas atividades e instituições comuns a todos”, explica Longhitano.

Nesse ponto, o Brasil ainda está atrás de Estados Unidos, Inglaterra e Espanha, onde existe inclusão social há mais de dez anos. Aqui ela é feita há cinco. Escolas e empresas brasileiras são obrigadas, por lei, a ter portadores de deficiências em seus quadros. As indústrias são pioneiras na inclusão e contratam portadores de deficiências há cerca de quatro anos, mas faltam oportunidades em outros setores.
“A mesma diversidade de talentos e ambições que existe entre as pessoas ditas \\`normais\\` valem para pessoas com Down”, esclarece Longhitano. A Apae-SP tem projetos de treinamento para portadores da síndrome em atividades comerciais e pequenos negócios familiares, como os de artesanato e alimentação.
Nas escolas, a inclusão é ainda mais recente e desigual. Na rede pública, professores e escolas vêm sendo preparados para receber o aluno especial e em algumas ele já frequenta as aulas regularmente, com colegas da mesma idade. Eventuais defasagens no aprendizado são trabalhadas com o apoio de instituições especializadas. No ensino particular, entretanto, ainda há muito preconceito. “Poucas escolas aceitam a matrícula de portadores de deficiência”, diz Longhitano.
“Precisamos lembrar que na escola não se aprende só matemática e português, mas também cidadania e respeito à diferença.” Devido à resistência do ensino particular, o MEC e a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo estão revisando a lei de inclusão escolar, e a escola especializada será caracterizada como centro de apoio. Assim, espera-se que a escola comum torne-se definitivamente comum a todos.

Fonte: Revista Mente e Cérebro

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Bem mais que 5 sentidos

BEM MAIS QUE 5 SENTIDOS

Não importa quantas “portas sensoriais” temos. Atualmente, cientistas acreditam que o que realmente conta é a maneira como nos relacionamos com essas capacidades, como se fosse uma espécie de “valor agregado” que o cérebro confere aos dados sensoriais brutos – e envolve não só sensações, mas também memória, experiência e processamentos cognitivos sofisticados.

Quantos sentidos você tem? É muito provável que tenha respondido cinco, com base numa ideia que vem desde os tempos de Aristóteles e ainda é muito presente na cultura popular. Mas é preciso saber que sua resposta está equivocada. Tente pegar um cubo de gelo com uma das mãos e um garfo aquecido com a outra e poderá comprovar que tato é pouco para descrever as duas sensações. Ande num trem-fantasma, desses que existem nos parques temáticos, e diga se tudo o que vivenciou pode ser explicado apenas com a visão, a audição e o toque. Não há dúvida de que nossos sentidos não cabem apenas em cinco categorias. No entanto, determinar quantos são depende de como entendemos os sistemas sensoriais.

Uma possibilidade é classificá-los segundo a natureza do estímulo. Assim, haveria apenas três tipos, em vez de cinco: mecânico (tato e audição), luminoso (visão) e químico (gustação, olfação). Alguns animais também contam com a eletro recepção. Esses três grupos de sensações exigem sistemas sensoriais bem diferentes. Algo que se dissolve na língua, produz um aroma que penetra no nariz e se encaixa em um receptor não tem nada a ver com o movimento de uma célula pilosa no ouvido interno ou com um fóton que atinge a retina.

Em geral, estamos cientes de nossa capacidade de sentir as variações de temperatura e de pressão, a posição das articulações (propriocepção), o movimento corporal (cinestesia), o equilíbrio e outras sensações, como sede ou estômago vazio. Mas existem outros sistemas de monitoração dos quais nunca teremos a menor noção, como a detecção do PH do fluido cerebrospinal ou do nível de glicose na circulação.

Também poderíamos, com a mesma facilidade, definir “sentido” como um sistema formado por um tipo celular especializado que reage a um sinal específico e se reporta a certa parte do cérebro. Assim, o paladar não seria único sentido, teria quatro divisões, cada uma voltada para a distinção de um sabor: doce, salgado, azedo e amargo. Os neurologistas classificam a dor como cutânea, somática ou visceral, dependendo de onde é sentida, mas isso significa que estariam em diferentes sistemas sensoriais ou que seria simplesmente uma questão de geografia corporal?

Considere o exemplo da audição. Seria um único sentido ou várias centenas, um para cada célula pilosa coclear? Talvez isso seja levar as coisas um pouco longe demais, mas é interessante notar que podemos perder a audição de alta frequência sem perder a acuidade de baixa frequência e vice-versa. Portanto, talvez devêssemos pensar nelas separadamente. À medida que estudamos em detalhes as estruturas dos órgãos sensoriais, parece que temos cada vez mais sentidos.

Entretanto, por mais intrigante que tudo isso seja, a sensação sozinha não é realmente tão importante assim. Quando falamos de sentidos, o que realmente queremos dizer são sensações ou percepções. Do contrário, não estaríamos muito acima do nível de uma ameba ou de uma planta. A maioria dos seres vivos se vira muito bem com apenas dois canais sensoriais: tato e luz (não necessariamente visão). Uma planta cujo crescimento segue a luminosidade está meramente reagindo mecanicamente a um estímulo.

Já os humanos veem luzes e sombras. Além disso, percebemos objetos e pessoas e suas respectivas posições no espaço. Ouvimos sons e identificamos vozes, músicas ou diversos ruídos. Sentimos o gosto ou o cheiro de uma complexa mistura de sinais químicos, e sabemos reconhecer a diferença entre um sorvete, uma laranja ou uma berinjela. A percepção é o “valor agregado” que o cérebro organizado confere aos dados sensoriais brutos. Ela vai muito além da paleta de sensações e envolve memória, experiência e processamentos cognitivos sofisticados.

ESCUTA SELETIVA

O que ouvimos, por exemplo, é bem mais que o simples somatório de sons coletados por cada ouvido. Vários processos entram em cena, alguns dos quais permitem que o cérebro identifique de onde vem o barulho. Filtros complexos nos permitem barrar um tipo de som enquanto prestamos atenção a outro. No conhecido “fenômeno da festa”, por exemplo, ignoramos todos os ruídos irrelevantes enquanto participamos de uma conversa, e conseguimos mudar rapidamente de foco se mais alguém mencionar nosso nome. Isso significa que estamos sempre “ouvindo” o som ambiente, mas nem sempre o estamos “escutando”, a menos que ele se torne subitamente significativo. Nossa percepção vai muito além da sensação pura e simples.

A vida dos animais é bem mais fácil. Em geral o dilema de sobrevivência deles, quando deparam com outro ser vivo, se resume a três perguntas: devo comê-lo, fugir ou me acasalar? Nessa tomada de decisão, eles contam com tudo que puderem deduzir dessa nova experiência, bem como com a memória de outras semelhantes. Contudo, animais mais primitivos, com equipamento neural mais limitado, são facilmente engana- dos por flores de cores brilhantes ou por adversários que conseguem inchar e aumentar de tamanho, que têm marcas que parecem olhos ou exalam cheiros bizarros, para citar apenas alguns truques que a evolução elaborou. Quanto mais alto na escala filogenética − o que significa processos perceptivos mais complexos −, menos o organismo está à mercê de seus sentidos primitivos.

 NÃO É O QUE PARECE

O ponto básico é que cometemos um erro ao nos concentrar nos sentidos e, até, em discutir a quantidade deles. O que importa é a percepção – a sensação é o que a acompanha. Para os seres humanos, isso tem implicações dia a dia. Uma delas é nosso julgamento de tamanho.

A coerência de nossa visão de mundo nasce do fato de os objetos geralmente não mudarem de tamanho rapidamente. Assim, para objetos com os quais estamos familiarizados, como um carro, quanto maior ele parece, mais perto o percebemos. E mesmo quando o vemos na televisão ou numa foto, isto é, numa imagem pequena, “sabemos” que ele não encolheu. Coisas que não fazem parte de nosso cotidiano, no entanto, costumam nos enganar. As nuvens podem ter qualquer tamanho e forma, portanto, é difícil julgar sua distância. Trens são familiares, mas a maioria de nós não percebe exata- mente o quanto eles são grandes, julgamos erroneamente sua velocidade e a que distâncias se encontram, o que, aliás, é uma causa constante de acidentes. Não resolvemos esses problemas nos torturando internamente sobre quais ou quantos sentidos estão envolvidos, mas com a criação de um todo perceptual. Isto é função cerebral superior, ou seja, cortical.

Tomemos o estranho caso da sinestesia, fenômeno de contaminação dos sentidos que não chega a ser uma doença. As formas mais frequentemente relatadas são sentir sons, letras, números ou palavras associados a cores. Até bem recentemente as pessoas com sinestesia eram ignoradas, considera- das delirantes e, às vezes, confundidas com doentes mentais. Elas são capazes de falar, com a maior naturalidade, sobre a textura de um aroma, o sabor das diferentes letras ou a melodia do gosto de um pêssego. O que isso nos informa é que os sentidos não são entidades independentes e que a percepção é seu produto final.

É bem possível que o cérebro esteja organizado para fazer exatamente essa espécie de “mistura dos sentidos” como parte do processamento perceptivo. Acumulam-se as evidências de que a conversa cruzada entre diferentes áreas sensoriais mistura muito mais coisas do que podemos imaginar. Identificamos ou reconhecemos objetos mais facilmente se ouvirmos um som relevante ao mesmo tempo. Somos capazes até de acre- ditar que ouvimos algo diferente se formos enganados por uma falsa leitura labial, que não condiz com o que é falado. Pergunte a qualquer pessoa que sofra de enxaqueca sobre como um perfume pode desencadear a dor. Possivelmente, todos nós temos essa facilidade em maior ou menor grau e é por isso que o blues é azul.

Obviamente, a confusão da nomenclatura não ajuda. Algumas coisas comumente rotuladas como “sentido” não são nada disso (sentido de perda, sexto sentido etc.). Em compensação, nosso relógio biológico, que marca o tempo interno do organismo, deveria ser incluído nessa lista. Ou seria isso parte da percepção, e não de um sentido? Como de hábito, a ciência contesta crenças cotidianas e se empenha em desfazer mitos. Dependemos muito de nosso aparato sensorial, e dizer que ele não é tão importante a princípio pode parecer maluquice. Mais cedo ou mais tarde, porém, essa história de cinco sentidos vai parar na lata de lixo científica.

ESCRITORES, PINTORES E MÚSICOS.

O escritor russo Vladimir Nabokov (1889-1977) ainda era pequeno quando explicou a sua mãe que as cores das letras do alfabeto dos cubinhos de madeira que ganhara estavam “todas erradas”. A mãe entendeu perfeitamente o drama do filho porque, além de lhe ocorrer o mesmo, ela tinha outras sensações estranhas, como ver cores enquanto ouvia música.

O compositor russo Alexander Scriabin (1872-1915) incluiu um teclado mudo e luminoso na sinfonia Prometeu, o poema do fogo. O instrumento deveria acender e apagar luzes coloridas organizadas em forma de raios e nuvens, que se difundiriam pelo ambiente até culminar numa luz branca tão forte que provocaria dor nos olhos da plateia. Contemporâneo de Scriabin, o pintor russo Vassily Kandinsky (1866-1944) desenvolveu mais profundamente o conceito de fusão sensorial, explorando a relação entre som e cor e valendo-se de termos musicais para descrever suas obras. O som amarelo, de 1912, é uma mistura de cores, luz, dança e ritmo. “Abandona teu ouvido à música, abre teus olhos à pintura e para de pensar! Pergunta- te somente se o pensamento te tornou incapaz de entrar em um mundo até agora desconhecido. Se a resposta for sim, o que queres mais?”, escreveu o pintor.

A mistura entre sons e cores esteve presente na vida do compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886), que costumava se dirigir aos músicos com frases do tipo “Não tão violeta, por favor”. Sem compreender, muitos deles preferiam levar na brincadeira, embora Liszt afirmasse que realmente via cores enquanto regia ou tocava. Outro músico sinestésico foi o americano Duke Ellington (1899-1974).

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 301