GESTÃO E CARREIRA

DEVAGAR SE VAI AO LONGE

Estabelecer objetivos de curto prazo é essencial para chegar às grandes conquistas. Aprenda como fazer isso e tire, finalmente, suas resoluções de ano-novo do papel.

Devagar se vai ao longe

É inevitável. A cada ano que começa estabelecemos metas para os meses seguintes. Afinal, essa época simboliza a chance de recomeçar. “Na tradição judaico-cristã, o final de cada ano marca o fim de um ciclo e o renascimento de outro”, afirma Hélio Deliberador, professor de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. No entanto, o que também se renova é a sensação de não termos dado conta de cumprir os objetivos. Um levantamento da Sociedade Latino Americana de Coaching mostra que menos de 8% dos brasileiros cumprem as resoluções de ano-novo. Mas isso pode ter a ver com a forma como fazemos nossa lista de desejos do que com a   capacidade de leva-la à cabo.

“Existe a fantasia de que é preciso sonhar grande – porque sonhar pequeno dá o mesmo trabalho”, diz Luiz Gaziri, consultor e professor na FAE Business School e na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Segundo ele, esse é um dos motivos pelos quais costumamos fracassar em nossas resoluções. Isso porque metas grandiosas podem causar um efeito adverso, como revela um estudo feito por Gabriele Oettingen, professora e psicóloga alemã. A pesquisadora dividiu uma turma de alunos entre aqueles que tinham alta expectativa de arranjar um emprego logo após a faculdade e os que imaginavam que iriam demorar mais para conquistar esse objetivo. Ela descobriu que, quanto maior a expectativa, menos chances eles tinham de estar empregados e, ainda quando empregados, tinham salários menores em relação ao outro grupo.

QUANTO MAIS PERTO, MELHOR

A ideia não é contentar-se com pouco. Ao contrário. O importante é traçar os objetivos de forma a aumentar as chances de cumpri-los. Um estudo dos anos 1920/30, feito pelo psicólogo americano Clark Hull pode ajudar nessa tarefa. Em seu experimento com ratos de laboratório, o cientista percebeu que, quando colocados em um labirinto, os ratinhos tendiam a correr mais quando percebiam que estavam próximos da saída. Ele fez o teste em diversas situações e viu que o comportamento se repetia: animais que ficavam presos próximos à comida, por exemplo, tendiam a se esforçar mais para alcançá-la do que aqueles que eram colocados longe do alimento. Isso levou Clark a conceber a teoria do “gradiente de metas”. “Ela descreve um cenário em que, quanto mais perto do alvo nós estamos, maior o esforço que iremos despender para atingi­ lo”, diz Enzo Bissoli, professor de psicologia comportamental da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

É o que acontece quando maratonistas, já cansados de uma longa corrida, dão aquela acelerada ao ver a linha de chegada. Sentir que estamos perto do sucesso nos convence a nos dedicar para chegar lá. “Nossa capacidade de enxergar os benefícios de longo prazo é limitada”, diz Thaís Gameiro, neurocientista e sócia da Nêmesis, que faz assessoria na área de neurociência organizacional. “Somos sensíveis a respostas imediatas, mais tangíveis.” Ou seja, quando o benefício de uma ação está muito no futuro, é fácil perder o foco e se distrair com outras recompensas próximas, com o simples prazer de assistir a uma série.

Para Rodrigo Lopes, de 32 anos, cofundador e CEO da Docket, startup que automatiza a gestão de documentos, é importante fatiar as ações para conquistar o objetivo final. Ele fez isso quando um amigo o convidou para abrir a empresa, época em que Rodrigo ainda trabalhava em uma companhia de comércio eletrônico. ”É preciso separar o sonho da meta. Dividimos as tarefas e acompanhamos o andamento de cada uma. Assim dá para medir os resultados”, diz. Isso o ajuda a se dedicar e a se motivar. “Minha energia é limitada, e preciso usá-la ele acordo com minhas prioridades.”

VALE A PENA?

Em princípio, aquilo que buscamos ainda não existe – é só uma ideia vaga de algo que desejamos. “Estipulamos metas sem pensar de onde vieram, como foram construídas”, diz Enzo. “Elas deveriam ser o produto final de pensar na sua relação com o mundo, consigo mesmo e em suas necessidades.” Não é qualquer objetivo que merece seu esforço. Responda de forma sincera quais são as expectativas por trás de cada item e o que ele representa em sua vida. Não raro, nos comprometemos com objetivos que não são importantes para nós, mas que pensamos que devemos ter ou aparentar. “O indivíduo precisa ver se vale apena. Não pode ser só questão de dinheiro”, diz Emerson Weslei Dias, coach e consultor de carreira. Com uma noção mais clara de como os desejos têm relação com nossos valores e com nossa história, aumenta a flexibilidade para adequá-los conforme o momento de vida.

Uma dose de realismo é sempre bem-vinda. Não são todos os fatores que estão sob nosso controle – os outros e o ambiente interferem na capacidade e disponibilidade para cumprir os planos. “É essencial pensar no impacto dessas metas no seu dia a dia, no tempo que você tem, na família, nas amizades”, diz Enzo. Imprevistos podem fazer com que nossas prioridades ou condições mudem. Levar tudo isso em conta é importante para poder ajustá-las. Ao pensar que quer crescer na carreira, avalie o que isso quer dizer para você. Ser promovido? Mudar de empresa ou de área? Conseguir mais reconhecimento do chefe? O prazo de cada passo também depende da natureza do objetivo. “Existem coisas que, se você encarar como metas diárias, vai se frustrar, porque se vê pouco resultado nesse tempo”, diz Emerson. Mesmo com objetivos curtos, os prazos precisam fazer sentido. É como se cada um fosse um degrau a mais no caminho para o resultado final.

SEM QUEIMAR ETAPAS

Foi assim para Cristian Arriagada Bondezani, gerente de marketing e vendas da divisão de Limpeza Doméstica na 3M, em Sumaré, em São Paulo. Em 2008, quando já completava quase dez anos na companhia, ele parou para pensar sobre sua carreira e definiu que seu objetivo era virar gerente de uma conta. “Mas eu sabia que havia coisas que eu não dominava e não sabia como eram”, diz. Era preciso se preparar. Para isso, estabeleceu que visitaria pelo menos um varejista diferente por semana. A ideia era familiarizar-se com o negócio e com o que seria demandado dele como gerente de contas. Deu certo. Cristian foi promovido no ano seguinte e, em 2011, até ganhou um prêmio de melhor vendedor da rede. Ele usa o método até hoje. A cada semana, conversa com o time para estabelecer os objetivos que ajudarão a atingir as metas definidas pela empresa. “Uma grande vantagem é corrigir erros e falhas já quando acontecem, em vez de esperar três meses para se dar conta e tentar fazer algo a respeito”, afirma.

O exercício de rever metas deve ser constante, assim estamos sempre em contato com o que buscamos. “Precisamos de feedback para ajustar nosso comportamento e tomada de decisão”, diz Thaís, da Nêmesis. “Sem isso, o cérebro fica perdido e acaba tomando atitudes mais impulsivas. “A forma como isso pode ser feito depende do gosto de cada um. Se Cristian, por exemplo, gosta de anotar tudo em post-its que ficam num quadro branco, Rodrigo prefere visualizar seu desempenho em folhas de papel. O importante é achar uma ferramenta que funcione para o seu dia a dia.

Devagar se vai ao longe. 2

LINHA DE CHEGADA

Conheça estratégias que ajudam você a conquistar seus objetivos

SEJA ESPECÍFICO

Descreva exatamente o que quer fazer. Metas focadas têm mais chances de ser cumpridas, mesmo quando são mais difíceis d0 que metas mais fáceis, porém vagas.

CUIDADO COM O OTIMISMO EXAGERADO

Imaginar grandes conquistas pode levar à frustração. A ideia, afinal, é pensar em resultados que possam ser concretizados em menos tempo, mas que ajudem a chegar mais longe.

LEVE EM CONTA SUAS EMOÇÕES.

É natural que nosso humor varie e que em certos dias não tenhamos motivação. Preveja esses descompassos e procure alternativas, como reservar um dia de folga para quando necessário.

 PENSE NAS CONTRADIÇÕES

Às vezes, uma meta entra em conflito com outras, seja porque vem de valores diferentes, seja porque demanda muito tempo e energia. analise como seus objetivos se relacionam entre si e verifique se um atrapalha o outro. De vez em quando, é preciso abrir mão de algo.

Devagar se vai ao longe. 3 ANO-NOVO, VIDA NOVA?

Os 15 principais desejos dos brasileiros para 2019 de acordo com o aplicativo 7waves, usado para gerenciar metas:

1 – Guardar dinheiro

2 – Aprender algo novo

3 – Praticar esporte

4 – Quitar débitos

5 – Ter alimentação saudável

6 – Trocar de emprego

7 – Empreender

8 – Ser fluente em inglês

9 – Viajar nas férias

10 – Comprar casa própria

11 – Subir de cargo

12 – Comprar carro

13 – Emagrecer

14 – Comprar celular

15 – Ser aprovado em concurso público

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ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 17: 1 – 5

Pensando biblicamente

A FALSIDADE E A OPRESSÃO SÃO REPROVADAS

 

V1 – Estas palavras recomendam o amor familiar e a paz, corno conduzindo para a consolação da vida humana.

1. Os que vivem em união e tranquilidade, não somente livres de ciúmes e animosidades, mas competindo em atos mútuos de ternura e gentileza uns para com os outros, vivem de maneira muito confortável, ainda que sejam humilde s no mundo, trabalhem arduamente e ganhem pouco, ainda que tenham apenas um pouco de comida para cada um, um bocado seco. Pode haver paz e quietude onde não há três refeições por dia, desde que haja uma satisfação comum na providência de Deus e uma mútua satisfação na prudência, uns dos outros. O santo amor pode ser encontrado em uma cabana.

2. Os que vivem em contendas, que estão sempre vociferando e discutindo, e criticando, uns aos outros, ainda que tenham abundância de manjares, uma casa cheia de sacrifícios, vivem desconfortavelmente; eles não podem esperar a bênção de Deus sobre eles e sobre o que têm, nem podem ter qualquer verdadeiro prazer em suas realizações, e muito menos paz em suas próprias consciências. O amor dará um doce sabor a um bocado seco, mas a contenda tornará amarga uma casa cheia de sacrifícios. Um pouco da levedura da maldade azeda todos os prazeres.

 

V. 2 – Observe:

1. O verdadeiro merecimento não se baseia na dignidade. Todos concordam que, na família, o filho é mais louvável do que o servo (João 8.35), porém, às vezes, acontece que o servo é sábio, e é uma bênção e uma honra para a família, quando o filho é um tolo, e um fardo e uma vergonha para a família. O damasceno Eliezer; embora Abrão não pudesse suportar a ideia de que ele fosse seu herdeiro, foi um esteio para a família, quando obteve uma esposa para Isaque, ao passo que Ismael, um filho, foi uma vergonha para a família, quando escarneceu de Isaque.

2. A verdadeira dignidade se baseia no merecimento. Se um servo for sábio, e administrar bem as coisas, merecerá ainda mais confiança. e não somente governará com o filho, mas governará acima de um filho que causa vergonha; pois Deus e a natureza designaram que o tolo seja servo do sábio de coração. Na verdade, um servo prudente pode, talvez. vir a achar tal graça aos olhos de seu senhor, a ponto de ser aceito para receber uma quota dos bens, como um filho, e ter parte da herança, como os irmãos.

 

V. 3 – Observe:

1. Os corações dos filhos dos homens estão sujeitos, não somente aos olhos de Deus, mas ao seu juízo; O crisol é para a prata, tanto para testá-la como para aprimorá-la; mas o Senhor prova os corações; Ele sonda para ver se estão bem ou não. e estes são os que Ele refina e purifica (Jeremias 17.10). Deus prova os corações pela aflição (Salmos 66.10.11), e frequentemente escolhe o seu povo naquela fornalha (Isaias 48.10); Ele sabe como purificá-los da melhor maneira possível.

2. É somente Deus que prova os corações. Os homens podem provar sua prata e seu ouro, com o crisol e a fornalha, mas eles não têm como provar os corações. uns dos outros; somente Deus faz isto, Deus, que é, ao mesmo tempo, o que sonda o coração e o seu soberano.

 

V4 – Observe:

1. Os que têm desígnios de fazer o mal se sustentam com falsidades e mentiras: o malfazejo atenta, com grande prazer, para o lábio iníquo, que o justificará no mal que ele praticar, como aqueles que desejam promover desordens públicas, que esperam ambiciosa­ mente as calúnias e as mentiras, que difamam o governo e a administração.

2. Os que tomam a liberdade de dizer mentiras têm prazer em ouvir mentiras: “O mentiroso inclina os ouvidos para a língua maligna”, para que possa ter algo onde enxertar suas mentiras, e com que dar-lhes algum aspecto de verdade, fundamentando-as. Os pecadores fortalecerão as mãos, uns dos outros. Aqueles que têm prazer em conhecer os iníquos, e que precisam do auxílio deles, demonstram que são realmente ímpios.

 

V. 5 – Veja aqui:

1. O grande pecado de que são culpados os que humilham os pobres, que ridicularizam suas necessidades e a simplicidade de seu modo de viver, que os censuram por sua pobreza, e se aproveitam de suas fraquezas para maltratá-los e ofendê-los. Eles insultam o seu Criador, e o desprezam e afrontam, a Ele, que designou os pobres à condição em que se encontram, e os reconhece, e toma conta deles, e pode, quando assim o desejar, reduzir qualquer pessoa a esta condição. Que aqueles que assim insultam o seu Criador saibam que terão que responder por isto (Mateus 25.40, 41; Provérbios 14.31).

2. O grande perigo que correm, de cair em dificuldades, os que se alegram por ver e ouvir os problemas dos outros: que aquele que se alegra com as calamidades – para que possa ser edificado sobre as ruínas dos outros e se satisfaça com os juízos de Deus, quando forem liberados – saiba que não ficará impune; o cálice será posto na sua mão (Ezequiel 25.6,7).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

LUGAR DE CRIANÇA É EM FAMÍLIA

A separação crônica da mãe deixa várias marcas no cérebro, modificações que levam a problemas cognitivos, ansiedade crônica e hiper-reatividade a estresses na vida adulta.

Lugar de criança é em família

Mãe é aquela pessoa de quem a gente espera sempre o melhor: colo, carinho, conforto, segurança. O que fazer, então, com uma criança ativamente maltratada pela mãe, ou sem mãe, pai ou família para abrigá-la? Transferir seu cuidado a instituições tem sido a norma – mas o que o cérebro da criança precisa para se desenvolver normalmente é de uma família, ainda que não a sua.

Um estudo recente comparou crianças romenas de 8 anos de idade, institucionalizadas quando tinham entre 6 e 31 meses de idade e adotadas ou não aos 2 anos, com outras crianças também romenas nunca institucionalizadas. Se a adoção pareceu rápida o suficiente…em termos de desenvolvimento cerebral, pouco pareceu importar. O estudo mostrou um volume da substância cinzenta cortical, onde ficam os corpos dos neurônios, cerca de 10% menor nas crianças que foram institucionalizadas no começo da vida, não importa se depois adotadas ou não, em comparação com crianças criadas por suas próprias famílias desde o começo.

Uma redução semelhante acontece na substância branca cortical das crianças institucionalizadas – aquele conjunto de feixes que interligam zonas diferentes do córtex e fazem o cérebro funcionar como um todo integrado. O amadurecimento funcional do córtex cerebral, portanto, fica para trás nas crianças institucionalizadas, mesmo que adotadas. Somem-se a isso outras evidências, como a taxa elevada de transtornos de ansiedade na vida adulta, e constata-se que a institucionalização deve ser apenas um último recurso.

Os resultados do estudo, contudo, dão margem a uma interpretação errada: de que adotar também não adianta. Adianta, sim – e a mensagem é justamente que crianças órfãs ou abandonadas precisam ser adotadas imediatamente, mesmo que por famílias temporárias, de preferência uma que saberá lhes dar carinho e atenção. A evidência mais impactante vem de… bebês ratos, que são facilmente “institucionalizáveis” em laboratório, recebendo contato com ratas-mães apenas para se alimentarem – ou sendo entregues aos cuidados de ratas­ mães adotivas.

A diferença entre o cuidado apenas burocrático e a adoção por uma mãe carinhosa ou, ao contrário, por uma mãe ausente, é evidente até mesmo com os ratos. A separação crônica da mãe deixa várias marcas no cérebro, modificações que levam a problemas cognitivos, ansiedade crônica e hiper-reatividade a estresses na vida adulta. Mães adotivas tão pouco presentes e atenciosas quanto uma cuidadora institucional ajudam um pouco, mas não muito (embora, para o cérebro, qualquer mãe seja melhor do que nenhuma mãe- mas isso é outro assunto).

Em comparação, ser criado por uma mãe-rata adotiva carinhosa, que vive recolhendo sua cria para deitar em cima dela e lamber seus filhotes, é tudo de bom para esses bichinhos e seus cérebros. E mais: ratinhas criadas por mães carinhosas, adotivas ou não, mesmo se filhas biológicas de mães que as desprezaram, se tornam adultas com bem menos problemas de ansiedade – e, quando chega sua vez, mães também carinhosas. Dar carinho ao seu filhote adotado, portanto, é investir desde já no bem-estar dos seus netos.

Por fim, pais, não se sintam excluídos. Estudos com ratos são necessariamente feitos com as mães porque os ratos pais… não dão a mínima para os filhotes. Mas vocês, homens, são diferentes: podem escolher fazer a diferença para seus filhos, biológicos ou adotivos, dando-lhes muito carinho e atenção…

 

SUZANA HERCULANO-HOVZEL – é neurocientista, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora do livro Pílulas de neurociência para uma vida melhor (Sextante, 2009).

OUTROS OLHARES

“É APENAS O COMEÇO”

Depois do decreto das armas, que terá impacto irrisório no nível alarmante de violência no país, Bolsonaro anuncia que o próximo passo é permitir o porte.

É apenas o começo

Jair Bolsonaro estava exultante na terça-feira 15/01, quando se dirigiu ao púlpito montado no 2º andar do Palácio do Planalto. O microfone falhou três vezes até que ele conseguisse pronunciar a frase de efeito que ensaiara. “Para lhes garantir o legítimo direito à defesa, eu, como presidente, vou usar esta arma aqui”, disse, sacando uma caneta Bic do bolso, com a qual assinou o decreto que facilita a posse de armas no Brasil. Pouco depois, numa evidência de que a operação de marketing estava previamente montada, o Palácio do Planalto divulgou um vídeo promocional que mostrava a caneta como a arma que deu aos “cidadãos de bem” o direito que lhes era sonegado.

A expectativa de aplausos pelo primeiro passo no cumprimento de um ponto programático da campanha de Bolsonaro, no entanto, não se realizou. O presidente foi criticado pelos que se opõem à liberação de armas, o que era previsível – mas também pelos próprios armamentistas, que consideraram o decreto suave demais. As alterações que a prosaica caneta do presidente fez em um decreto anterior, de 2004, são substantivas: na prática, a liberação da posse àqueles que vivem em estados com taxa de homicídios superior a 10 para cada 100.000 habitantes incluiu todo mundo, os 26 estados e o Distrito Federal. A licença ainda é um processo burocrático demorado – e muito caro. Este, porém, pode ser apenas o começo. O governo espera que seus aliados no Congresso levem a pauta armamentista adiante – e no horizonte está o direito não só à posse (ter uma arma em casa), mas ao porte (carregá-la na rua).

Uma pesquisa do Datafolha feita em 18 e 19 de dezembro mostrou que, mesmo entre os eleitores de Bolsonaro, só uma minoria de 31% é a favor da flexibilização das regras para a posse de arma. Mas é uma pauta que agrada aos seguidores mais aguerridos do presidente, aqueles que estão sempre eletrizados nas redes sociais. “Esse é apenas o primeiro passo”, anunciou o presidente no Twitter, para acalmar os que julgaram o decreto excessivamente tímido. Os passos seguintes serão dados no Legislativo. Parlamentares da chamada “bancada da bala” preparam um pacote de medidas que prevê direito ao porte, redução de tributos sobre armamentos e munições, anistia a donos de armas sem registro, diminuição da idade mínima de compradores de armas de 25 para 21 anos e abertura do mercado para empresas estrangeiras. Rogério Peninha Mendonça (MDB-SC), aliado do presidente, é o autor do projeto de lei que prevê a revogação do Estatuto do Desarmamento. O texto já foi aprovado em todas as comissões da Câmara e só precisa da boa vontade do presidente da Casa para entrar em votação. Rodrigo Maia (DEM-RJ), se reeleito para o cargo com o apoio do PSL, sabe que sofrerá pressões para resolver a questão. “No passado, nós penávamos para fatiar os projetos e tentar pelo menos aprovar o porte rural – e nem isso foi possível. Agora, o cenário mudou. Vamos fazer cabelo, barba e bigode”, celebra o líder da Frente Parlamentar de Segurança, Capitão Augusto (PR-SP).

Para ser aprovado, o projeto de lei precisa de maioria simples – metade mais um do plenário da Câmara e do Senado. Nos cálculos da consultoria Arko Advice, a base de apoio de Bolsonaro, formada basicamente pela bancada BBB (da bala, do boi e da Bíblia), conta com cerca de 250 parlamentares. Mas a tarefa não será tão simples. Primeiro, porque a prioridade máxima do governo é a reforma da Previdência, que deve render desgaste. Segundo, porque a opinião pública não é majoritariamente favorável. Terceiro, porque o porte não é consenso nem entre os aliados –   parte da bancada evangélica é contra e o ministro da Justiça, Sergio Moro, já disse que não há “nenhum movimento” em sua pasta nesse sentido. “Uma coisa é falar de posse, que está restrita à casa. Outra coisa é o porte, que atinge o coletivo e invade a liberdade dos outros”, diz Ilona Szabó, diretora do Instituto Igarapé, entidade que analisa a segurança pública, sediada no Rio de Janeiro.

Especialistas ouvidos consideram o decreto de Bolsonaro positivo em um sentido: definiu critérios mais objetivos para autorizar a posse de arma. Antes, a concessão da licença dependia só da decisão subjetiva de um delegado da Polícia Federal. Mas a ampliação da validade do registro de cinco para dez anos é problemática, pois enfraquece a fiscalização sobre as armas. “Muita coisa pode acontecer em dez anos. Pode-se responder a um processo, cometer um crime, ter a arma roubada”, diz Melina Risso, doutora em administração e governo pela FGV.

O direito a ter uma arma de fogo em casa pode ser defendido pelo princípio abstrato da liberdade individual. Mas é um equívoco sugerir, como Bolsonaro tem feito em entrevistas, que a medida trará melhoria efetiva à calamitosa segurança pública do Brasil país que tem batido a marca de mais de 60.000 homicídios por ano. Armas legais nem sempre são usadas para fins legais – metade das mulheres assassinadas pelo parceiro em 2016 foi vítima de armas de fogo. Com frequência, a arma registrada cai na mão de bandidos – 70% do armamento apreendido com criminosos na Região Sudeste em 2014 era de fabricação nacional e de comercialização permitida.

A posse da arma em casa também não protege o proprietário nos casos mais comuns de crime: em São Paulo, o estado mais populoso da federação, dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que apenas 2,5%dos roubos foram feitos em residências e 5,9% em estabelecimentos comerciais –   o restante acontece na rua. Ainda assim, os números de homicídio em casa são expressivos. Um levantamento nacional na base do Datasus, realizado pelo Instituto Sou da Paz, revela que, em 2016, catorze pessoas, em média, morreram por dia em casa por arma de fogo, e 87% dos casos se deram em circunstâncias criminais (a base não distingue entre casos de violência doméstica e de latrocínio). Os dados gerais revelam, portanto, que o epicentro da violência está na rua, e não em casa, razão pela qual o decreto de Bolsonaro terá efeito irrisório sobre o nível alarmante do faroeste brasileiro.

A ideia de que uma arma pode salvar seu proprietário é duvidosa. O índice de sucesso dos que tentam a autodefesa é baixo. O consultor de segurança e ex- capitão do Bope Rodrigo Pimentel está convicto de que o direito à posse (ou ao porte) não facilitará a autodefesa do cidadão comum. “Se você não vai ter tempo para treinar, nem adianta ter arma em casa. Eu sempre digo: vai comprar uma arma para quê? Para matar sua mulher numa briga ou para seu filho se matar numa crise de depressão”? Nos Estados Unidos, o país com a maior proporção de armas por domicílio, um estudo da escola de medicina de Stanford concluiu que há o dobro de mortes de crianças por arma nos estados onde as leis são mais flexíveis. Todo ano, cerca de 2.700 crianças e adolescentes morrem nos Estados Unidos vítimas de tiro. No Brasil, no início de 2019, um acidente em casa tirou a vida do menino Jackson Silva, de 11 anos. A família vive em um sítio na cidade de Olho d’Água Grande, no interior de Alagoas, e mantinha uma espingarda calibre 12 para proteção da residência. O irmão mais novo de Jackson pegou a arma quando o pai, Jadielson Silva, estava fora, trabalhando – e acertou o irmão no rosto. “Não entendo porque meu moleque foi pegar aquela arma em cima do guarda­ roupa”, lamenta-se o pai. No ano passado, pouco depois do Dia das Crianças, em 14 de outubro, Jheison Lopes Silveira, também de 11 anos, teve o mesmo destino trágico em uma chácara em Guarantã do Norte, em Mato Grosso. Um primo seu quis lhe dar um susto com uma arma de pressão. Disparou contra uma porta – mas o “chumbinho” ricocheteou e atingiu Jheison debaixo do braço, rompendo uma veia do coração. “Tive vontade de morrer no lugar do meu filho”, diz o pai, o eletricista Dione da Silva Pereira, que comprara a arma de segunda mão, por 1.000 reais. O juiz João Marcos Buch, de 49 anos, é um raro sobrevivente de acidente com arma de fogo na infância. Foi atingido no rosto pelo irmão, que brincava com a espingarda do pai, no início dos anos 1980, em Porto União, Santa Catarina. Por ser juiz – na Vara de Execução Penal, em Joinville -, João Marcos tem direito ao porte de arma. Mas ele é contra a facilitação do porte para civis.

“Não é armando a população que vamos reduzir a violência. Já condenei muitas pessoas por crimes de latrocínio, roubo, homicídio, e as armas, na maioria dos casos, eram de origem lícita”, diz. Uma pesquisa da consultoria Ideia Big Data revela que só 8% dos brasileiros têm plano de comprar uma arma neste ano. Os aspirantes à arma própria podem ser poucos, mas são entusiasmados. Em um clube de tiro na Zona Oeste de São Paulo, o professor universitário Gustavo Molina Figueiredo, de 27 anos, diz que a eleição de Jair Bolsonaro – em quem ele votou – o estimulou a buscar uma arma legal, agora facilitada pelo decreto. “Acho interessante ter a posse, para proporcionar mais segurança à família. Espero nunca precisar, mas, se um dia tiver necessidade, quero saber atirar corretamente”, afirma. Gerente de contas em uma empresa de consultoria, o paulistano Felipe Szuster, de 26 anos, chegou ao mesmo clube de tiro no início da noite da terça­ feira 15, acompanhado do irmão, Fernando, de 20 anos, que ganhou dele de presente um pacote de tiros no estande. Felipe Szuster também pretende entrar com a papelada para conseguir sua arma até o fim do ano. Planeja deixar a casa dos pais em breve, já com seu “brinquedo” – uma pistola automática, de preferência. São brasileiros que acreditam na arma como instrumento de defesa individual. No campo das estatísticas, porém, o quadro é mais complexo. A taxa de homicídios no Brasil vinha subindo ano após ano até a aprovação do Estatuto do Desarmamento, em 2003. A partir daí, passou a cair, indo de 29,1 para 25,5 em 2005, quando foi realizado o referendo sobre a comercialização de armas. De 2005 para 2016, o índice voltou a subir gradativamente, chegando ao mesmo patamar de 2003. O que explica o sobe e desce? Armamentistas usam o estudo para corroborar a tese de que o estatuto, que pretendia conter os homicídios, fracassou. Já os Desarmamentistas olham para a mesma pesquisa e enxergam números positivos: sem o estatuto, calcularam eles, a taxa de homicídios poderia ser 17% maior.

O principal ponto do estatuto, que poderia ser determinante na redução dos homicídios, não foi implementado – a aplicação de tecnologia e integração dos bancos de dados do Exército e das polícias Federal, Militar e Civil para o monitoramento de armas e munições. “Armas são diferentes de drogas. Elas nascem legais e são completamente passíveis de rastreamento. A gente só não monitora porque não quer”, diz llona Szabó, do Instituto Igarapé. Atualmente, coloca-se uma única identificação em lotes gigantes de munição, o que pouco contribui para o esclarecimento dos crimes. Munições do lote UZZ-18, comprado pelo Exército da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) em 2006, foram usadas para matar a vereadora Marielle Franco, para promover uma chacina em São Paulo e para realizar um assalto aos Correios de Serra Branca, cidade do interior da Paraíba. O lote tinha 2,4 milhões de balas. Se o lote identificado fosse menor, de no máximo 10.000 balas, seria possível aferir o momento em que saiu das mãos da polícia para o crime organizado. Atualmente, existe tecnologia até para colocar um GPS em cada arma e munição. O lobby da indústria armamentista alega que esses dispositivos aumentam demais o custo de seus produtos.

Professor da FGV, autor do Mapa da Violência e pesquisador do Ipea, o economista Daniel Cerqueira considera que uma arma é muito mais um instrumento de ataque do que de defesa e, inserida num ambiente urbano, ameaça outras pessoas. Para ele, a ciência é clara em dizer que, quanto mais armas em circulação, mais homicídios são praticados. A caneta Bic, diz Bolsonaro, é sua arma. Mas não serão canetas que estarão nas casas do país. Serão revólveres, pistolas, carabinas e espingardas que, a depender da vontade do Congresso, em breve também poderão estar na cintura dos brasileiros.

 É apenas o começo. 2

 

É apenas o começo. 3

 

É apenas o começo. 4

GESTÃO E CARREIRA

COMO SE TORNAR UM LIDER ESTRATÉGICO

Um passo a passo para ajudar você a sair da gestão operacional e alcançar uma liderança relevante e inspiradora.

Como se tornar um lider estratégico

Três etapas bem definidas separam um líder comum de um estratégico. O chefe mediano sofre as dores do crescimento de carreira não sabe lidar com as imposições do novo cargo e lamenta pelas tarefas que não deve mais fazer. Há muitos profissionais nessa situação. Poucos são os que aprenderam a manejar os recursos de que dispõem nessa nova fase da vida.

A boa notícia é que há uma trilha pela qual passa toda pessoa que sobe de cargo. A descoberta é de um grupo de pesquisadores brasileiros e pode aprimorar o exercício da liderança. Gabriela Almeandra Dutra, Tatiana Almeandra Dutra e Joel Dutra estudaram 300 executivos do Brasil durante quatro anos e perceberam que existem três estágios até alguém se tornar um gestor estratégico: a consolidação no cargo, a construção da arena política e a ampliação da complexidade. O resultado da análise foi compilado no livro Gestão de Pessoas: Realidade Atual e Desafios Futuros (Atlas, 189 reais).

Apesar dos diferentes estilos de comando e das peculiaridades de cada fase, há um denominador comum. “A fonte de poder do líder é mais sua contribuição com pares subordinados e parceiros e   menos o cargo ou a hierarquia”, diz Joel Dutra, professor livre-docente na Universidade de São Paulo.

Os pesquisadores identificaram outro aspecto: o fato de que as deficiências não estão no conhecimento técnico, mas no comportamento. Segundo o professor Joel os modelos econômicos   do país sempre foram voltados ao mercado interno e não são muito competitivos. “Por isso, valorizamos habilidades técnicas em detrimento das gerenciais”. O cenário começou a mudar na década de 90, com a abertura do País. Contudo, só em 2010 se intensificou a busca por pessoas que atendessem às exigências comportamentais. Hoje, o líder (seja de uma companhia tradicional, seja um empreendedor), tem de encarar o dilema de entregar o resultado imediato, num ambiente instável e com poucos recursos, enquanto pensa na estratégia de longo prazo, num panorama em constante transformação. No meio disso, deve entender de psicologia, se comunicar de forma clara, compreender os mecanismos de motivação e produtividade do time. Como resume Joel: “A liderança se assenta na capacidade de conciliar expectativas divergentes”.

Quem consegue manejar esses elementos com maestria se torna um gestor estratégico, aquele que é sensível ao contexto, atento às mudanças de cenário e disposto a redesenhar o modelo de trabalho quando necessário.

RITUAIS SAGRADOS

Ninguém nasce sabendo chefiar – um líder se torna líder à medida que é apresentado aos desafios do comando. Logo, qualquer um pode aprender a ser um chefe inspirador. Mas é preciso praticar. Uma boa técnica é o que o professor Joel chama de ritual: uma sequência de ações que devem ser executadas repetidamente com a intenção de exercitar alguma habilidade. Por exemplo, alguém que tenha dificuldade em escutar a equipe pode pedir que um subordinado seja seu “gatilho”. Toda vez que esse funcionário se dirigir ao gestor, ele se esforçará para ouvi-lo, sem interrupção, e repassará a conversa assegurando-se de que conseguiu entender o que foi dito.

A ideia por trás do exercício é que os gestores devem continuamente se expor a novas situações para se preparar para os próximos estágios de desenvolvimento. “As características que fazem com que se tenha sucesso em uma fase não vão levá-lo adiante. É preciso continuar crescendo e estar consciente sobre as mudanças de comportamento para dar o próximo passo”, afirma Howard Yu professor de administração e inovação na escola de negócios suíça IMD. Também é sagrado que o chefe se conheça profundamente. Primeiro, você deve se consolidar como líder de si mesmo, desenvolver sua identidade ter consciência de seus valores, de seus princípios, criar uma base de liderança sólida”, diz João Lins, professor diretor do MBA in Company da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Tomados esses cuidados, é hora de iniciar a trilha rumo à liderança estratégica. A seguir, o passo a passo para ajudar quem está nessa jornada.

 

FASE 1 – CONSOLIDAÇÃO

NOVATO NA FUNÇÃO

O primeiro passo na trilha da liderança é se consolidar na nova posição. “Essa é uma das etapas mais difíceis de transpor porque o gestor tem dificuldade em se desvincular das atribuições da posição anterior. Naturalmente ele se sente mais confortável lidando com a complexidade de trabalhos que já domina, afirma Joel. Outros impeditivos são o apego e a arrogância. “O líder não   delega, porque acha que ninguém na equipe tem capacidade de fazer melhor que ele”, completa o professor. Por isso, nessa fase, as competências críticas são: foco no resultado, desenvolvimento da equipe e delegação.

A virada de chave só acontece quando o líder entende que tem de deixar de realizar as tarefas operacionais e passar a entregar resultados por meio do trabalho do time. “Desenvolver os subordinados para ganhar confiança e passar as atividades mais operacionais gradativamente é o primeiro passo para a consolidação. O próximo é utilizar o tempo investindo em relações interpessoais, afirma João, da FGV. E é assim que o gestor vai se sentir mais confortável no cargo e conquistar a equipe. “O foco sai do ‘eu’. E ele cria um ambiente para que os outros o respeitem não só por seu conhecimento técnico, mas por sua habilidade de interagir”, afirma Anderson Sant’Anna professor das áreas de organizações e comportamento organizacional da Fundação Dom Cabral.

Além do aprendizado ativo, como os rituais que o próprio líder pode estabelecer existem no mercado ferramentas que auxiliam no autoconhecimento e no posterior desenvolvimento de competências críticas. “Assessment e coaching ajudam nessa direção, mas nada substitui a autocrítica. Exponha-se a essas situações e tente refletir sobre elas”, diz João.

Outra dica é o profissional adotar um mentor que podem ser colegas executivos ou líderes seniores que tenham vivenciado uma carreira semelhante. “Num bate-papo, eles trazem à tona questões para você refletir, dão conselhos e trocam figurinhas sobre situações similares pelas quais já tenham passado”, afirma André Freire, sócio-diretor da Exec consultoria especializada em recrutamento de executivos e desenvolvimento de liderança.

 

FASE 2 – CONSTRUÇÃO DA ARENA POLÍTICA

ENCONTRANDO ALIADOS

A segunda etapa é marcada pelo ganho de espaço político entre pares e superiores. É o momento em que o gestor começa a circular em outras esferas e ganha notoriedade pelo trabalho desempenhado. Nessa fase é essencial criar ou aumentar as interfaces. “Para crescer, o líder tem de aprender que existe um campo além de sua área e que é preciso influenciar as pessoas nesses lugares”, afirma Anderson, da Fundação Dom Cabral. As competências importantes são a ampliação sistêmica e a abertura e sustentação de parcerias.

Essa é a hora de ganhar aliados. “Levante a mão para se voluntariar a participar de projetos de grande relevância para a companhia. Dessa forma você cria relacionamentos e passa a ser visto como um indivíduo capaz de construir pontes entre diferentes partes da organização”, diz Howard, do IMD que lembra: “Ninguém sabe cada detalhe, mas é bom conhecer quem sabe o quem sabe o quê”.

Participar de projetos multidisciplinares é complexo pois em geral o líder já tem um volume significativo de atividades para executar. “No curto prazo, isso implica mais trabalho para o gestor e sua equipe. Por isso essa etapa só é iniciada após a consolidação da posição, quando o profissional já aprendeu a delegar e está pronto para assumir novos desafios, afirma Joel.

Mesmo assim, em alguns casos o volume de tarefas faz com que os chefes fujam de situações desse tipo, o que é péssimo. Para André, da Exec, muitas vezes o profissional fica escondido na área dele, pensando: “Já tenho muita coisa para fazer. Tomara que ninguém pense em mim para essa missão. Mas agir assim é errado. “O líder tem de se envolver com outros departamentos e ajudar outras pessoas para ser visto”, afirma o especialista. Às vezes dá para fazer isso em momentos de descontração. “As oportunidades podem surgir num almoço ou café, num bate-papo para ouvir onde dói nas outras áreas”.

Relacionar-se bem com os colegas, além de ajudar em uma visão geral do negócio, também é essencial para futuras promoções. “Nas organizações, a capacidade de articulação e o reconhecimento por parte dos pares são valorizados durante os processos sucessórios”, afirma Joel.

 

FASE 3 – AUMENTO DA COMPLEXIDADE

MAIS EXIGÊNCIAS

Uma vez que tenha se desapegado das tarefas as quais estava acostumado, desenvolvido a equipe e formado seus aliados políticos, o líder chega à fase mais complexa. Ele passa a receber ordens de seus superiores e assume projetos ou processos que o levam a interagir com agentes mais exigentes – como o C-level ou o conselho de administração da companhia. A terceira etapa é caracterizada por uma verticalização. Aqui as competências importantes são a ampliação da visão estratégica e o desenvolvimento de sucessores para ocupar os espaços que o gestor deixará ao assumir novas atribuições e responsabilidades.

Esse período ocorre se o líder tiver ampliado seu espaço político. “Dificilmente o gestor receberá delegação se não tiver conseguido construir legitimidade, reconhecimento e trânsito entre seus pares”, diz Joel. À medida que o profissional vai ganhando visibilidade, os demais líderes enxergam nele a pessoa certa para resolver um desafio. Contudo para que assuma as missões e possa se sentar numa cadeira estratégica tão logo a oportunidade apareça, é imprescindível que o executivo tenha formado alguém para sua atual posição.

O principal desafio nesse momento é o chefe ampliar a visão estratégica, aquela para além dos muros da organização. “Os líderes de maior sucesso são curiosos sobre o que está acontecendo fora da empresa. Dessa forma, ele pode se preparar e antever uma mudança”, diz Howard. A dica é observar diversos setores, uma vez que você pode encontrar soluções diferentes em outras indústrias e inovar.

Aqui, a autoridade se legitima por uma visão de futuro e pela preocupação com a sustentabilidade do negócio. “Esse olhar pode ser treinado com viagens, conhecendo modelos de gestão inspiradores, frequentando fóruns e eventos, a fim de conhecer como determinado tema está sendo tratado e como pode repercutir dentro da organização”, diz Anderson.

E, por fim, para dar o último passo rumo ao topo; o profissional deve ter serenidade emocional (estômago) e ambição – para si e para o negócio. “Ele precisa ter o desejo de levar o negócio para o próximo nível, e não apenas o de sustentar a companhia onde ela está”, diz Howard.

Como se tornar um lider estratégico. 2

CHEFES DO FUTURO

Dez conselhos para quem está aprendendo a liderar.

1 – Desenvolva uma percepção fina sobre o tipo de líder que deseja ser. Lembre-se de que tudo começa com o autoconhecimento.

2 – Trabalhe seus pontos fracos e potencialize e evidencie os fortes.

3 – Busque um mentor. Bata um papo com aquele chefe que o inspira.

4 – Participe de projetos com profissionais de senioridades diferentes para ampliar sua habilidade de articulação.

5 – Compartilhe conhecimentos e troque favores. Quanto mais redes construir, mais sustentável será sua carreira.

6 – Desenvolva seu poder de comunicação. Voluntarie-se para falar ou apresentar algum indicador em determinadas reuniões e fóruns.

7 – Coloque em prática a gestão de pessoas, nem que seja de maneira informal, treinando um estagiário, por exemplo.

8 – Demonstre energia e proatividade. Deixe transparecer sua sede de mudança. Não tema tentar de novo, mesmo que cometa erros.

9 – Esteja sedento por mais responsabilidades e as assuma sempre que houver oportunidade.

10 – Tenha visão do todo e aprenda a trabalhar em equipe. Ninguém constrói o resultado da empresa sozinho. E seja resiliente. Mesmo que seja difícil, não desista.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 16: 31 – 33

Pensando biblicamente

A SOBERANIA DA PROVIDÊNCIA DIVINA

 

V. 31 – Observe:

1. As pessoas mais velhas devem ter, como maior preocupação, ser encontradas no caminho da justiça, no caminho da religião e da piedade séria. Tanto Deus como o homem as procurarão nesse caminho; espera-se que os que são mais velhos sejam bons, que a multidão de seus anos tenha lhes ensinado a melhor sabedoria; portanto, devem ser encontrados nesse caminho. A morte virá; o Juiz se aproxima; o Senhor é chegado. Para que sejam por Ele encontrados em paz, devem ser encontrados no caminho da justiça (2 Pedro 3.4), servindo assim (Mateus 24.46). Que os idosos sejam velhos discípulos; que perseverem até o fim no caminho da justiça, no qual começaram a andar há muito tempo, para que possam, então, ser encontrados nele.

2. Se as pessoas mais velhas forem encontradas no caminho da justiça, a sua idade será a sua honra. A velhice, desta maneira, é honrosa, e exige respeito (Diante das cãs te levantarás, Levítico 19.32); mas, se for encontrada no caminho da iniquidade, a sua honra será perdida, a sua coroa, profanada, e atirada ao chão (Isaias 65.20). As pessoas mais velhas, portanto, se desejarem preservar a sua honra, devem ainda se apegar à sua integridade, e então os seus cabelos brancos serão, realmente, uma coroa para elas; elas são merecedora s de dupla honra. A graça é a glória da velhice.

 

V. 32 – Isto nos recomenda a graça da mansidão, da longanimidade, que bem nos convirá, a todos, particularmente às cabeças grisalhas (v. 31). Observe:

1. A sua natureza. Ela é tardia em irar-se, não se inflama facilmente, não se ressente de provocações, dedica algum tempo para considerar antes de permitir que a nossa paixão irrompa, para que não transgridamos os limites devidos, ela nos leva a ser tão lentos em nossos movimentos rumo à ira, de modo que possamos facilmente ser interrompidos e apaziguados. Ela nos capacita a ter o domínio sobre os nossos próprios espíritos, nossos apetites e sentimentos, e todas as nossas tendências, mas particularmente as nossas paixões, a nossa ira, conservando-a sob orientação e controle, e a administração rígida da religião e da razão justa. Devemos ser senhores da nossa ira, como Deus é.

2. A sua honra. Aquele que obtém e conserva o controle de suas paixões é melhor do que o valente, melhor do que aquele que depois de um longo cerco conquista uma cidade, ou depois de uma longa guerra subjuga uma cidade. Aqui está alguém melhor do que Alexandre ou César. A conquista de nós mesmos e das nossas paixões desenfreadas exige a sabedoria verdadeira, e um controle mais firme, constante e regular, do que a conquista de uma vitória sobre os exércitos de um inimigo. Uma conquista racional é mais honrosa para uma criatura racional do que uma conquista brutal. É uma vitória que não traz nenhum dano a ninguém; não sacrifica vidas nem tesouros, mas apenas alguns desejos vis. É mais difícil; portanto, mais glorioso, reprimir uma insurreição em casa, do que resistir a uma invasão de fora; na verdade, os ganhos da mansidão e da longanimidade são tais que, por elas, nós somos mais do que vencedores.

 

V. 33 – Observe:

1. A divina Providência ordena e designa aquelas coisas que, para nós, são perfeitamente casuais e fortuitas. Nada acontece por acaso, nem um só evento é determinado por um destino cego, mas tudo acontece pela vontade e conselho de Deus. Deus está intimamente envolvido naquilo de que o homem não participa.

2. Quando são feitos apelos solenes à Providência, pelo lançar de sortes, para decidir aquele problema do momento que não poderia ser decidido de outra maneira, nem tão bem decidido, Deus deve ser buscado em oração, para que o resultado seja apropriado (A sorte perfeita, 1 Samuel 14.41; Atos 1.24); e, uma vez decidido o assunto, devemos aquiescer satisfeitos com o fato de que a mão de Deus estava nele. e que esta mão o orientou, pela sabedoria infinita. Todas as disposições da Providência a respeito dos nossos assuntos devem ser consideradas como sendo a decisão da nossa sorte, a determinação do que entregamos a Deus, e devem ser apropriadamente conciliadas.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

CHAPEUZINHO VERMELHO ALÉM DA FLORESTA

Rico em significados e possibilidades de simbolizações, conto ajuda crianças a desenvolver capacidade de fazer representações dos estados mentais das outras pessoas.

Chapeuzinho vermelho além da floresta

 

Apesar da trama simples, da protagonista com traços de personalidade pouco desenvolvidos e do texto enxuto, Chapeuzinho Vermelho é uma das histórias infantis mais populares no mundo. O curioso é que não apenas fascina crianças, também motiva pesquisadores a fazer análises, comentários e interpretações. À primeira vista, o conto do escritor francês Charles Perrault passa uma mensagem clara: meninas devem ser obedientes, não conversar com estranhos, desconfiar dos meninos muito atrevidos e não se distrair com futilidades. Do contrário, estarão correndo perigo. Por causa desse teor “educativo”, o autor, político erudito e literato benquisto na corte de Luís XIV foi recriminado por ter desfigurado uma obra da cultura popular a ponto de torná-la praticamente irreconhecível.

Com exceção de alguns versos publicados em 1022 por um certo Egbert de Liege, que mencionam uma criança usando um a túnica vermelha que enfrentava filhotes de lobo, não chegou até nós nenhum vestígio desses originais. No entanto, Perrault menciona explicitamente em seus escritos que não inventou completamente a história, que faria parte desses “contos que nossos antepassados criaram para seus filhos”. Trata-se possivelmente de uma história inventada e transmitida pelas “famílias simples dos povoados e do campo”. Especialistas entendem que, apesar da ausência de versões originais, é possível entender e interpretar Chapeuzinho recorrendo ao método comparativo de padrões. Como se fossem biólogos, os pesquisadores procuraram deduzir qual seria o “antepassado comum” de cada personagem com base na análise de várias versões mais recentes.

Foi assim que Paul Delarue (1889-1956), pioneiro francês dessa abordagem, conseguiu reunir 35 versões de Chapeuzinho Vermelho, essencialmente das regiões do vale do Loire, do norte dos Alpes e da Itália, além do Tirol. Ele se interessou particularmente por aquelas que lhe pareciam completamente independentes da versão de Perrault. Se a trama geral é praticamente a mesma, nem sempre a menina usa uma capa vermelha com capuz; ou então o lobo é um bzu (espécie de lobisomem) que serve à garotinha os restos do corpo da avó como refeição; ou, ainda, antes de se enfiar na cama da avó, ele se despe. Mas o final da história é feliz, pois a menina consegue fugir, alegando uma “necessidade natural urgente”.

Segundo Delarue, todos esses elementos, ausentes no texto de Perrault, não são modificações posteriores, mas sim omissões, uma censura feita pelo autor de traços do suposto conto original. Outros pesquisadores também destacaram elementos semelhantes em contos asiáticos e africanos, mas todos são posteriores ao de Perrault. A versão dos irmãos Grimm, publicada em 1812, ou seja, mais de um século depois da de PerrauJt, é sem dúvida a outra mais conhecida. Ela também tem um final “feliz”, no qual um caçador abre a barriga do lobo e solta a menina e a avó. Todavia, sabe-se que os irmãos Grimm trabalharam com base no texto de Perrault, mas mesclaram o final do conto Os sete cabritinhos. A presença de uma cena de canibalismo em algumas versões faladas do conto, na qual o lobo oferece os restos da avó à menina, em especial chamou a atenção dos etnólogos. Não que a antropofagia fosse comum nos povoados franceses da época, mas o episódio tem certa relação com a percepção das relações familiares de então. Ao fazer uma leitura detalhada dos diferentes contos reunidos por Delarue nos anos 50, conclui-se que a protagonista se refere, na versão original, à “necessidade de transformações biológicas femininas, que levam à eliminação das mais velhas pelas mais jovens”. A tríade “menina-mãe-avó” representaria o ciclo de gerações que substituem umas às outras, em uma mescla de benevolência, transmissão de ensinamentos e rivalidade – que transcorre fora da esfera do masculino. A menina escolhe sozinha o seu caminho, mas ao fazer isso corre o risco de ser devorada pelo lobo, ou seja, para se transformar em mulher, deve compartilhar a cama de um pretendente e, dessa forma, incorporar o estatuto das gerações seguintes. O conto seria uma alegoria da sociedade matrilinear das aldeias.

Sigmund Freud destaca, em 1908, a versão dos irmãos Grimm para tratar do desenvolvimento da sexualidade infantil. Ele observa que, espontaneamente, as crianças imaginam que bebês nascem pelo umbigo ou que o ventre da mãe se abre “como o que acontece com o lobo, no conto do Chapeuzinho Vermelho”.

Em 1913, um analisando que se tornou conhecido como “o homem dos lobos” contou um sonho no qual figuravam animais que lembravam uma ilustração de Chapeuzinho Vermelho. Freud deduziu que o animal seria uma representação do pai do paciente e se perguntou se o conteúdo latente do próprio conto não seria simplesmente o medo infantil da figura paterna.

Em 1951, o psicanalista Erich Fromm afirmou que o conto tratava dos questionamentos sobre a sexualidade e que o famoso gorro vermelho simbolizava a primeira menstruação. E sugere algo questionável, talvez mais adequado ao momento histórico de sua época: “O conto seria um triunfo de mulheres que detestam os homens”. Ele ressalta que na versão dos irmãos Grimm o masculino não só é figurado como cruel, manipulador e ridicularizado por uma paródia de gravidez. O lobo “carrega” a avó em seu ventre e “dará à luz” à força, antes de ser morto. Moral da história para Fromm: o lobo é que deve ficar longe de menininhas inocentes…

COMPLEXO DE ÉDIPO

A análise psicanalítica mais conhecida desse conto é de Bruno Bettelheim, feita em seu livro Psicanálise dos contos de fada. “Chapeuzinho Vermelho de Perrault perde muito de seu encanto porque é evidente demais que o lobo da história não é um animal selvagem. Esse excesso de simplificação, somado a uma moralidade expressa sem meias palavras, enunciando tudo previamente. Assim, a imaginação do ouvinte não consegue conferir ao conto um sentido pessoal”, escreve. E faz uma leitura bastante peculiar a respeito da protagonista: “Como a garotinha, em resposta à tentativa direta e evidente de sedução (por parte do lobo), não esboça o menor movimento de fuga ou resistência, pode-se deduzir que ela quer ser seduzida. Ela não é, seguramente, uma personagem com a qual teríamos vontade de nos identificar”. Ele insinua ainda que, de certa forma, ela seria cúmplice do assassinato da avó. Temos aqui o complexo de Édipo em todo o seu esplendor: a criança quer seduzir o progenitor do sexo oposto e ser seduzida por ele, mas para isso é preciso se livrar da figura parental do mesmo sexo.

Mesmo que esse tipo de interpretação possa ser considerado excessivo ou descabido, ainda assim é difícil negar que o conto apresenta certa carga de subversão. Como, por exemplo, não perceber uma sinalização feita ao público adulto quando Perrault escreve: “Chapeuzinho Vermelho se despe e vai para a cama, onde fica bastante surpresa ao ver o corpo nu de sua vovozinha”?

Na verdade, parece ser a simplicidade do conto, e não sua profundidade, que faz de Chapeuzinho Vermelho um conto inesquecível. É perfeitamente possível compreendê-lo sem procurar nenhum “sentido oculto”, examinando de modo pragmático sua construção, o que ele diz e o que a criança vê na história. Perrault tinha especial cuidado em apresentar os contos como “narrativas agradáveis e equilibradas, bem dosadas para a delicadeza da idade do público infantil”. Por isso ele utiliza uma série de diminutivos – como “vovozinha” ou a senha para a porta da casa da avó, como um refrão com as palavras “tramelinha”, “ferrolhinho”, termos em desuso na época em que o autor escreve e que ele integra em inúmeras repetições, conferindo ritmo particular à narrativa e facilitando a memorização.

A história ganha corpo em um contexto privilegiado: é contada em voz alta por um adulto a uma criança em um momento íntimo, geralmente na hora de dormir. Nessa situação, a criança está relaxada, próxima ao adulto, aberta ao que é estranho e às surpresas, disposta a conferir plenos poderes à imaginação. Nesse contexto fica mais fácil compreender o final do conto na versão de Perrault, quando o lobo exclama “É para melhor comer você!”- e devora Chapeuzinho, num final muitas vezes considerado trágico e cruel e por isso mesmo censurado.

No manuscrito da antologia de 1695, só descoberto em 1953 em uma coleção particular, Perrault fez uma anotação na margem do texto: “Essas palavras devem ser ditas em um tom de voz forte para assustar a criança, como se o lobo fosse comê-la viva”. O final do conto se alia subitamente à realidade, em uma reviravolta inesperada, na qual a criança se transforma em personagem principal, o que em geral ela adora. Como a criança não é de fato devorada, Chapeuzinho também não é.

Da mesma forma, quando o lobo e a menina pegam caminhos diferentes para ir à casa da avó, a criança que ouve a narrativa precisa fazer um corte na história, dividindo em dois o curso dos acontecimentos. Essa capacidade pode parecer evidente para adultos, mas não é inata. A maturação neurológica e a possibilidade psíquica de transformar a realidade em histórias e a ficção em realidade, mantendo ao mesmo tempo esses domínios em universos distintos, são adquiridas gradualmente, ao longo do desenvolvimento. Dessa forma, a estrutura do conto maneja de maneira habilidosa diferentes níveis de ficção, moldando e preparando o espírito da criança para um mundo complexo.

O conto exige certa competência cognitiva. Trata-se daquilo que os pesquisadores chamam de teoria da mente, um conceito criado por primatologistas que se perguntavam se os chimpanzés tinham compreensão do que acontece na cabeça de outros da sua espécie e mesmo do que pensam os humanos. Será que eles conseguem fazer a diferença, por exemplo, entre alguém que sabe que uma caixa contém uma banana e alguém que ignora? Ou, de modo mais sutil, eles compreendem que alguém pode ter uma falsa crença ou convicção, imaginando, por exemplo, que uma caixa contém uma fruta quando na realidade o recipiente está vazio? Também tem sido questionado a partir de que idade a criança desenvolve uma teoria da mente, passando a entender que as outras pessoas têm desejos, convicções e intenções diferentes dos dela.

Um teste simples é utilizado para verificar essa aquisição. A versão mais conhecida dessa ferramenta é uma pesquisa publicada em 1983 por Heinz Wimmer e Josef Perner. No teste da transferência inesperada (unexpected transfer, em inglês), a criança deve prever que uma pessoa que ignora que determinado objeto foi mudado de lugar vai procurá-lo onde acha que ele está – e não onde ele está realmente. É apresentada à criança uma situação em que dois personagens estão em um aposento diante de duas caixas, uma verde e uma azul. Um dos protagonistas, Maxi, põe a barra de chocolate dentro da caixa verde. Ele é então orientado a sair do aposento, e em sua ausência seu irmão muda a barra de chocolate de lugar, colocando-a na caixa azul. Em seguida, Maxi volta. Pede-se então à criança, que assiste a todos esses movimentos, que diga em qual caixa Maxi vai espontaneamente procurar o chocolate. Para responder corretamente à pergunta, é preciso que a criança entenda que ela sabe de coisas que Maxi ignora. As crianças com menos de 4 anos se enganam sistematicamente e respondem em função de seu próprio conhecimento da situação: pensam que Maxi sabe, como elas, que o chocolate mudou de lugar e que o menino vai abrir a caixa azul.

A teoria da mente pode ser aplicada também ao conto Chapeuzinho Vermelho: a criança que escuta a história deve fazer constantemente a distinção entre o que sabe e o que os personagens da narrativa têm conhecimento. Ao mesmo tempo, o pequeno ouvinte deve determinar o que os personagens sabem uns dos outros. Há um jogo complexo que requer não só trabalho de memória, mas ainda capacidade de se colocar no lugar dos outros. Vejamos, por exemplo, o momento no qual o lobo chega à casa da avó. Como ele age para conseguir entrar? Eis a cena: Toc, toc. “Quem é?”, pergunta a avó. “É sua netinha, Chapeuzinho Vermelho, trazendo manteiga e biscoitos que a mamãe mandou”, diz o lobo imitando a voz da menina. Note aí a astúcia do lobo, que repete as mesmas palavras que ouviu da menina de modo a instilar uma falsa convicção na mente da avó.

A criança que ouve a história deve perceber que a avó tem uma representação errada da realidade e que o lobo continua sendo o lobo, apesar de se fazer passar por outra pessoa. O engodo é um processo complexo: para realizá-lo, constatá-lo ou frustrá-lo, é preciso saber o que passa na cabeça do outro, saber o que os outros sabem de nossas próprias convicções, guardar todas essas informações na memória e ser capaz de compará-las, além de eventualmente revisá-las em tempo real.

A protagonista cai na armadilha do lobo pois ignora o que ele já sabe; já o vilão conhece o que ela ignora. A questão que se impõe é determinar até que ponto uma criança pequena entende exatamente da história, não em termos de sexualidade emergente, de sociedade matrilinear ou do que for, mas simplesmente em relação à própria trama.

Foi isso o que procuraram entender os psicólogos Joel Bradmetz e Roland Schneider, da Universidade de Besançon. Eles narraram aversão de Perrault, assim como diversas adaptações, a crianças com idade entre 3 e 8 anos e fizeram perguntas bem simples: antes de entrar na casa da avó, quem Chapeuzinho Vermelho espera encontrar, a avó ou o lobo? Naquela hora, a menina sente medo ou não? Como previsto, a maioria das crianças com menos de 4 anos pensava que, como elas mesmas, a protagonista deveria saber que o lobo estava na cama da avó. Mas o que surpreendeu foi a evidência atestada pelos pesquisadores deque mesmo as crianças que davam a resposta correta (a avó está na cama) pensavam que Chapeuzinho Vermelho estava com medo. E essa convicção persistia mesmo em crianças com 7 ou 8 anos. O inverso não é verdadeiro: nenhuma das crianças que estavam convencidas de que Chapeuzinho não sentia medo respondia que ela acreditava que ia encontrar o lobo na cama da avó. Isso demonstra que existe uma distância entre a mentalização das convicções e a das emoções e que estas últimas exigem um período de desenvolvimento bem mais longo. Conhecendo esses resultados, fica mais fácil entender a atração psicológica que o conto de Perrault pode ter para as crianças, dependendo da idade. Longe de captar tudo de uma só vez, elas veem nessa história aparentemente tão simples uma sucessão complexa e divertida de interações mentais e afetivas entre personagens que, como elas, não têm um conhecimento perfeito das convicções e intenções de uns e de outros. O conto, admiravelmente construído e calibrado por Perrault, funciona para a mente infantil como uma intriga policial, um drama psicológico com múltiplos quiproquós.

Chapeuzinho Vermelho prepara os pequenos para o mundo da ficção e das interações, adaptando-se às capacidades cognitivas dos pequenos. Muitas vezes, os pais se surpreendem com o pedido dos filhos de contar novamente uma história que eles já ouviram dezenas de vezes. O que permite deduzir que as crianças só entendem o comportamento e as emoções de cada personagem progressivamente e, portanto, que a cada vez elas escutam uma história ligeiramente diferente. Colocar-se no lugar alheio, mentir, conceber que os outros possam mentir, imaginar alternativas, comparar pontos de vista, ser irônico e fazer “de conta” são facetas das interações sociais em ação nesse conto tão rico.

“POR QUE ESSES OLHOS TÃO GRANDES, VOVÓ?”

A mais antiga referência explícita a Chapeuzinho Vermelho está em um manuscrito de Charles Perrault sobre os Contos da Mamãe Gansa, datado de 1695. No texto, Chapeuzinho Vermelho é uma linda menininha vestida de vermelho, o que lhe vale seu codinome. Ela é encarregada pela mãe de levar um pote de manteiga e biscoitos para a avó. No caminho, cruza com um lobo na floresta. Ele não a devora na mesma hora, mas lhe pergunta para onde ela está indo e “a pobre menina, que não sabia ser perigoso parar e conversar com um lobo”, conta sobre a tarefa qual tinha sido encarregada e diz onde fica a casa da avó. Por um atalho, o vilão chega lá antes dela e devora a idosa. Enquanto isso, a garota se distrai colhendo avelãs, correndo atrás de borboletas e fazendo pequenos ramalhetes de flores e chega mais tarde à casa da avó. O lobo veste uma camisola e se deita na cama da avó, fingindo ser ela. Segue-se então o famoso diálogo, que começa com “Vovó, que olhos grandes você tem!”.

O lobo responde: “É para melhor ver você, minha querida”. E termina com ”Vovó, como são grandes seus dentes! É para melhor comer você!”.

SENTIDOS OCULTOS

As interpretações de Chapeuzinho Vermelho são múltiplas.

O próprio caráter estranho do conto – um lobo que fala, o ambiente opressivo da floresta – presta-se à evocação do mundo dos sonhos ou da loucura e ao comentário de que o conto seria simplesmente absurdo. Outras leituras focaram os aspectos históricos. A versão dos irmãos Grimm, por exemplo, chegou a ser descrita como uma representação do sentimento antifrancês do povo alemão. Um olhar feminista viu na narrativa um monumento de machismo no qual as mulheres são descritas como intrinsecamente ingênuas, manipuladoras e más, e por isso devem ser punidas. Outras análises, ainda, destacaram que naquelas épocas mais antigas os lobos constituíam uma ameaça para os humanos, e por isso o conto poderia ter meramente a função educativa de alertar as crianças. Mas foram as leituras etnológicas e principalmente psicanalíticas que abriram a possibilidade de compreensão de sentidos menos óbvios, trazendo a discussão de temas como a encenação do complexo de Édipo e o conflito de gerações, questionando o lugar das mulheres na economia familiar dos povoados e o desenvolvimento da sexualidade.

Contos de Fadas - Chapeuzinho Vermelho

 

 

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