ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 7-14

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Advertências contra os Escândalos

 

O nosso Salvador fala aqui de ofensas, ou escândalos:

I – Em geral (v. 7). Tendo mencionado o fato de escandalizar os pequeninos, Ele aproveita para falar de forma mais geral sobre os escândalos. Um escândalo é algo:

1. Que provoca a culpa, que através da sedução ou da intimidação tende a atrair os homens, desviando-os daquilo que é bom para aquilo que é mau.

2. Que causa sofrimento, que entristece o coração do justo. Agora, em relação aos escândalos, Cristo aqui lhes diz:

(1). Que eles ocorreriam com certeza: “Porque é mister que venham escândalos”. Quando temos a certeza de que há perigo, devemos estar melhor armados. Não que a Palavra de Cristo necessite que qualquer homem escandalize, mas esta é uma predição sobre um aspecto das causas; considerando a astúcia e a malícia de Satanás, a fraqueza e a depravação dos corações dos homens, e a loucura que é encontrada ali, é moralmente impossível que não haja escândalos. E Deus determinou permiti-los para fins sábios e santos, para que tanto aqueles que são perfeitos como aqueles que não o são possam ser manifestos. Veja 1 Coríntios 11.19; Daniel 11.3. Informados com antecedência de que haverá sedutores, tentadores, perseguidores e muitos maus exemplos, estejamos vigilantes (cap. 24.24; Atos 20.29,30).

(2). Que eles seriam coisas deploráveis, e a consequência deles, fatal. Aqui está um desgosto anexado aos escândalos:

[1]. Uma desgraça para o descuidado e desprotegido, que sofre a ofensa: ”Ai do mundo, por causa dos escândalos!” As obstruções e oposições à fé e à santidade em todos os lugares são a perdição e a fonte de corrupção da humanidade, e a ruína de milhares de pessoas. Este mundo presente é um mundo maligno, e está repleto de escândalos, pecados, laços e tristezas; viajamos por uma estrada perigosa, cheia de pedras de tropeço, precipícios, e falsos guias: ”Ai do mundo”. Quanto àqueles a quem Deus escolheu e chamou do mundo, e livrou dele, eles são preservados pelo poder de Deus do dano desses escândalos, são ajudados a superar todas essas pedras de tropeço. “Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Salmos 119.165).

[2]. Uma desgraça para o ímpio, que intencionalmente participa ou gera o escândalo: “Mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” Embora seja mister que os escândalos venham, não haverá desculpa para aqueles que escandalizarem. Note que, embora Deus tenha feito os pecados dos pecadores servirem ao seu propósito, isto não lhes salvará da sua ira; e a culpa será depositada na porta daqueles que motivarem o escândalo, embora eles também se enquadrem na desgraça daqueles que o sofrem. Aqueles que de alguma forma atrapalham a salvação de outros acharão a sua própria condenação a mais intolerável, como Jeroboão, que pecou “e fez Israel pecar”. Esta desgraça é a moral daquela lei judicial (Êxodo 21.33,34-22.6), de que aquele que abriu a cova, e acendeu o fogo, foi responsabilizado por todo o dano que se seguiu. A geração anticristã, por meio da qual veio o grande escândalo, se enquadrará nessa desgraça por seu engano para com os pecadores (2 Tessalonicenses 2.11,12), e suas perseguições aos santos (Apocalipse 17.1,2,6), porque o Deus justo ajustará contas com aqueles que destruírem os interesses eternos de almas preciosas, e os interesses temporais de santos preciosos. Precioso aos olhos do Senhor é o sangue dos santos; e os homens prestarão contas, não só pelas coisas que fizeram, mas pelos frutos de suas ações, pelo mal que foi feito por eles.

I – Em particular, Cristo aqui fala dos escândalos gerados:

1. Por nós a nós mesmos, que é expresso pela nossa mão ou pé nos escandalizando; nesse caso, a mão ou o pé deve ser “cortado e lançado fora” (vv. 8 ,9). O Senhor Jesus Cristo havia mencionado essas palavras anteriormente (cap. 5.29,30), onde Ele se refere especialmente às transgressões do sétimo mandamento; aqui, o assunto é tomado de um modo mais geral. Aquelas palavras duras de Cristo são desagradáveis para a carne e o sangue, precisam ser repetidas para nós várias vezes, e ainda assim é pouco. Considere então:

(1) O que é que está aqui imposto. Devemos nos livrar de um “olho”, ou uma “mão”, ou um “pé”, isto é, aquilo, seja lá o que for, que nos for caro, quando isso inevitavelmente gerar uma ocasião de pecado para nós. Note que:

[1]. Muitas tentações para pecar surgem de dentro de nós mesmos; os nossos próprios olhos e mãos nos escandalizam; se jamais houvesse um demônio para nos tentar, de­ veríamos nos afastar da nossa própria concupiscência. As coisas que em si são boas, e podem ser usadas como instrumentos do bem, até mesmo estas, através das corrupções dos nossos corações, mostram-se como laços para nós, nos inclinam a pecar, e nos prejudicam em nossa obediência.

[2]. Nesse caso, devemos, tão legitimamente quanto pudermos, nos desfazer daquilo que não pudermos manter sem ficarmos emaranhados no pecado. Em primeiro lugar, é certo que a concupiscência interior deve ser mortificada, embora seja cara para nós como um olho, ou uma mão. “Crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5.24). O corpo do pecado deve ser destruído; as inclinações e apetites corruptos devem ser identificados e eliminados; a amada concupiscência, que tem sido colocada debaixo da língua como uma doce guloseima, deve ser abandonada com repulsa. Em segundo lugar, as ocasiões externas do pecado de­ vem ser evitadas, embora, desse modo, coloquemos uma violência muito grande sobre nós mesmos, como seria cortar uma mão, ou arrancar um olho. Quando Abraão saiu de sua terra natal, por medo de se envolver com a idolatria que havia ali, e quando Moisés saiu da corte de Faraó, por medo de se misturar com os prazeres pecaminosos que havia ali, uma mão foi cortada. Não devemos considerar nada caro demais ou valorizado demais para dele nos livrarmos, a fim de que possamos manter uma boa consciência.

(2). Sobre que incentivo ou persuasão isso é exigido:

“Melhor te é entrar na vida coxo ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno”. O argumento é tomado do estado futuro, do céu e do inferno; daí são extraídos os dissuasivos mais convincentes contra o pecado. O argumento é o mesmo do apóstolo (Romanos 8.13).

[1]. Se vivermos segundo a carne, morreremos. Tendo dois olhos, todas as transgressões feitas no corpo do pecado geram a corrupção, como no caso de Adonias. Não é possível escusar o pecado como uma inclinação natural ou inata. Todo aquele que permanecer no pecado será lançado no fogo do inferno.

[2]. Se nós, através do Espirita, mortificarmos as obras da carne, viveremos. Isto se explica por entrarmos na vida coxos, isto é, o corpo do pecado estar coxo; e é melhor ficarmos coxos enquanto estivermos neste mundo. É desejável que a mão direita do velho homem seja cortada, e seu olho direito seja arrancado, com suas políticas principais arruinadas e seus poderes destruídos. Mas ainda há um olho e uma mão sobrando, com os quais haverá luta. Aqueles que são de Cristo pregaram a carne na cruz, mas ela ainda não está morta; sua vida é prolongada, mas o seu domínio foi tirado (Daniel 7.12), e o ferimento mortal lhe foi conferido, e não poderá ser curado.

2. Com relação aos escândalos causados por nós aos outros, especialmente aos pequeninos de Cristo, do que somos aqui convocados a dar atenção, de acordo com o que Ele havia dito (v. 6). Considere:

(1).  A própria advertência: “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos”. Isto foi dito aos discípulos. Da mesma forma que Cristo irá se indignar com os inimigos de sua igreja, se eles fizerem alguma injustiça com qual­ quer dos seus membros, mesmo o menor, Ele irá se in­ dignar com os grandes da igreja, se eles desprezarem os pequeninos dela. Em outras palavras: “Vocês que estão disputando quem será o maior, tomem cuidado para que, nesta disputa, vocês não desprezem os pequeninos do reino”. Também podemos entender essas palavras literalmente, como se o Senhor estivesse falando das crianças pequenas (vv. 2,4). A semente infantil dos crentes fiéis pertence à família de Cristo, e não deve ser desprezada. Ou figuradamente: estes pequeninos são crentes verdadeiros, porém fracos em sua condição exterior, ou na estrutura de seu espirita; são como crianças peque­ nas, os cordeiros do rebanho de Cristo.

[1]. Não devemos desprezá-los, nem pensar mal deles, como cordeiros desprezados (Jó 12.5). Não devemos caçoar de suas fraquezas, nem olhar para eles com desprezo, nem agirmos com escárnio ou desdém em relação a eles, como se não nos importássemos com o que lhes aconteceu. Não devemos dizer: “Embora eles sejam o­ fendidos, e entristecidos, e tropecem, o que nos importa?” Nem devemos tomar a menor atitude que os faça ficar em dificuldades e perplexos. Este desprezo pelos pequeninos é contra o que somos grandemente advertidos (Romanos 14.3,10,15,20,21). Não devemos impor nada sobre a consciência dos outros, nem traze-los à sujeição das nossas vontades, como aqueles que dizem às almas dos homens: “Inclinem-se, para que possamos passar por cima de vocês”. Deve-se algum respeito à consciência de todo homem que parece ser consciencioso.

[2]. Devemos prestar atenção para não os desprezarmos; devemos ter medo do pecado, e ter muito cuidado com o que dizemos e fazemos, para que inadvertidamente não escandalizemos os pequeninos de Cristo, para que não os desprezemos, sem termos ciência disso. Houve aqueles que os odiavam, e os lançavam fora, e ainda diziam: “Que o Senhor seja glorificado”. Devemos temer o castigo: “Preste atenção para não desprezá-los, por­ que isto será arriscado para você”.

(2).  As razões para reforçar o cuidado. Não devemos olhar para esses pequeninos como desprezíveis, porque, na verdade, eles são dignos de consideração. Não deixe que a terra despreze aqueles a quem o céu respeita; não os olhemos com algum tipo de falta de respeito, mas consideremo-los como os favoritos do céu. Para provar que os pequeninos que creem em Cristo são dignos de res­ peito, considere:

[1]. A ministração dos anjos bons sobres eles: “Os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus”. Isto Cristo nos diz, e podemos confiar em sua Palavra. Ele veio dos céus, e nos faz saber o que é feito ali pela multidão de anjos. Duas coisas que ele nos faz saber sobre eles:

Em primeiro lugar, que os anjos são deles. Os anjos de Deus são deles; porque tudo o que é de Deus é nosso, se formos de Cristo (1 Coríntios 3.22). Os anjos são deles; porque eles têm uma ordem para servirem em favor desses pequeninos (Hebreus 1.14), armar suas tentas ao redor deles, e segurá-los em seus braços. Alguns têm imaginado que todo santo em particular tem um anjo da guarda. Mas por que de veríamos supor isso, quando sabemos que todo santo em particular, quando há necessidade, é guardado por anjos? Isto é particularmente aplicado aqui aos pequeninos, porque eles são muito desprezados e muito expostos. Eles podem contar pouco consigo mesmos, mas podem olhar, pela fé, para as hostes celestes, e chamá-las de suas. Enquanto os grandes do mundo têm homens honoráveis e guardas para o seu séquito, os pequeninos da igreja são servidos por anjos gloriosos, que anunciam não só o valor deles, mas o perigo que correm aqueles que desprezam e abusam deles. É ruim ser inimigo daqueles que são assim protegidos; e é bom termos a Deus como o nosso Deus, porque assim podemos considerar os seus anjos como sendo os nossos anjos.

Em segundo lugar, eles sempre veem a face do Pai que está nos céus. Isto indica:

1. A felicidade e a honra contínua dos anjos. A felicidade do céu consiste na visão de Deus, vê-lo face a face como Ele é, contemplando a sua beleza; os anjos possuem esse privilégio de uma forma ininterrupta. Quando eles estão nos ministrando na terra, mesmo nesses momentos, por contemplação, veem a face de Deus, porque estão cheios de olhos por dentro. Mesmo enquanto falava com Zacarias, Gabriel estava na presença de Deus (Apocalipse 4.8; Lucas 1.19). A expressão sugere, como alguns pensam, a dignidade e a honra especiais dos anjos dos pequeninos; os primeiros-ministros de estado são mencionados como aqueles que veem a face do rei (Ester 1.14). É como se os anjos mais fortes fossem encarregados dos santos mais fracos.

2. A sua contínua prontidão para ministrar aos santos. Eles contemplam a face de Deus, esperando receber ordens dele quanto ao que fazer para o bem dos santos. Como os olhos dos ser­ vos estão fixados na mão de seu senhor, prontos para ir e vir ao menor gesto, assim os olhos dos anjos estão volta­ dos à face de Deus, esperando as intimações da sua vontade, que estes mensageiros alados voam rapidamente para cumprir. Eles correm e tornam, à semelhança dos relâmpagos (Ezequiel 1.14). Se quisermos contemplar a face de Deus em glória no porvir, como fazem os anjos (Lucas 20.36), devemos então contemplar a face de Deus agora, com prontidão para cumprir o nosso dever, como eles o fazem (Atos 9.6).

O plano misericordioso de Cristo com relação a eles (v. 11): “Porque o Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido”. Esta é uma razão, em primeiro lugar, porque os anjos dos pequeninos têm tal responsabilidade com relação a eles, e os servem; os anjos agem de acordo com o plano que Cristo tem para os salvar. A ministração dos anjos é baseada na mediação de Cristo; através dele, os anjos recebem missões relativas a nós. E quando eles celebraram a boa vontade de Deus em relação aos homens, a isso juntaram a sua própria boa vontade. Em segundo lugar, porque eles não devem ser desprezados; porque Cristo veio para salvá-los, para salvar aqueles que se tinham perdido, os pequeninos que estão perdidos aos seus próprios olhos (Isaias 66.3), que trazem a incerteza dentro de si mesmos. Ou, antes, os filhos dos homens. Considere:

1. As nossas almas são, por natureza, almas perdidas. São como um viajante que está perdido, que está fora do seu caminho, como um prisioneiro condenado que está perdido. Deus perdeu o serviço do homem caído, perdeu a honra que Ele deveria ter tido da parte desse homem.

2. A missão de Cristo no mundo é salvar o que se tinha perdido, nos trazer à obediência, nos restaurar ao nosso trabalho, restabelecer os nossos privilégios, e assim nos colocar no caminho correto que nos leva ao nosso final grandioso; salvar aqueles que es­ tão espiritualmente perdidos, não deixando que permaneçam assim eternamente.

3. Esta é uma boa razão para que os crentes menores e mais fracos não devam ser desprezados ou escandalizados. Se Cristo os valoriza dessa maneira, não os desvalorizemos. Se Ele renunciou tanto a si mesmo pela salvação deles, com certeza devemos renunciar a nós mesmos em benefício de sua edificação e consolação. Veja a urgência desse argumento (Romanos 14.15; 1 Coríntios 8.11,12). Se Cristo entrou no mundo para salvar as almas, e o seu coração está tão empenhado nessa obra, Ele severamente ajustará contas com aqueles que a obstruem e a prejudicam, atrapalhando o progresso daqueles que estão voltando suas faces ao céu, e assim frustram o seu grande plano.

[3]. A terna consideração que o nosso Pai celestial tem por esses pequeninos, e a sua preocupação pelo seu bem-estar. Isto é ilustrado por uma comparação (vv. 12-14). Observe a progressão do argumento: os anjos de Deus são seus servos, o Filho de Deus é o seu Salvador, e, para completar a sua honra, o próprio Deus é o seu amigo. “Ninguém as arrebatará das minhas mãos” (João 10.28).

Aqui temos, em primeiro lugar, a comparação (vv. 12,13). O proprietário que tinha perdido uma de suas cem ovelhas não faz pouco caso disso, mas diligentemente a busca, fica grandemente feliz quando a encontra, e tem nisso uma alegria considerável e comovente, superior à alegria que sente pelas noventa e nove que não se perderam. O medo que ele teve de perder aquela ovelha, e a surpresa ao encontrá-la, são somados à alegria. Então, isso é aplicável:

1. Ao estado do homem caído em geral; ele está desviado como uma ovelha perdida. Os anjos que ficaram eram como as noventa e nove que nunca se desviaram; o homem perdido é procurado nas montanhas que Cristo, em grande fadiga, atravessou em busca dele, e assim foi encontrado. Este é um motivo de alegria. No céu, há uma alegria maior pelos pecadores que retornam do que pelos anjos que ali permanecem.

2. A crentes em particular, que são escandalizados e tirados de seu caminho por pedras de tropeço que são colocadas diante deles, ou pelos estratagemas daqueles que os atraem para fora do caminho. Então, embora apenas uma das cem ovelhas tenha se desviado do caminho – algo que acontece facilmente com elas -. esta única ovelha deveria ser protegida com muito cuidado. Ela foi recebida com muito prazer; portanto, o mal que aconteceria com ela, sem dúvida alguma, seria contado com muito desgosto. Se há alegria no céu por um desses pequeninos que foi encontrado, há ira no céu quando alguém os escandaliza. Note que Deus, de forma misericordiosa, está preocupado não só com o seu rebanho em geral, mas com cada cordeiro, ou ovelha, que lhe pertence. Embora elas sejam muitas, Ele pode sentir facilmente a falta de uma delas, porque Ele é o grande Pastor, e não a perderá facilmente, porque Ele é o bom Pastor e conhece particularmente o seu rebanho mais que qualquer outro. Ele chama as suas ovelhas pelo nome (João 10.3). Veja uma exposição completa dessa parábola (Ezequiel 34.2,10,16,19).

Em segundo lugar, a aplicação dessa comparação (v. 14): “Não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca”. Mas é sugerido do que expressado. Não é a sua vontade que qualquer se perca, mas:

1. É a sua vontade que esses pequeninos sejam salvos; é a vontade expressa pelo seu plano, e o seu deleite. Ele planejou, e colocou o seu coração nisso, e Ele o realizará. A sua vontade é que todos façam o que puderem para que o seu plano seja divulgado, e que nada o atrapalhe.

2. Esse cuidado se estende a cada membro do rebanho em particular, até mesmo àquele que é aparentemente o mais insignificante. Pensamos que se apenas um ou dois forem escandalizados, e caírem em uma armadilha, não terá muita importância, e que não precisaremos nos importar com isso; mas os pensamentos de amor e ternura de Deus estão acima dos nossos.

3. Fica a sugestão de que aqueles que fazem qualquer coisa pela qual qualquer um desses pequeninos é colocado em perigo de perecer, contradizem a vontade de Deus, e o provocam grandemente. E embora eles não possam prevalecer nesse ponto, terão que prestar contas por isso àquele que, em seus santos, como em outras coisas, é zeloso quanto à sua honra, e não suportará tê-la menosprezada (veja Isaias 3.15). “Que tendes vós que afligir o meu povo?” (Salmos 76.8,9).

Observe como Cristo se dirigiu a Deus (v. 19): “Meu Pai que está nos céus”. Ele também chama Deus Pai de “vosso Pai, que está nos céus” (v. 14). O Senhor assim sugere que Ele não se envergonha de chamar os seus pobres discípulos de irmãos. Pois Ele e os discípulos não têm um só Pai? “Subo para meu Pai e vosso Pai” (João 20.17); portanto, Deus Pai é nosso Pai porque é Pai do Senhor Jesus. Isto sugere, da mesma forma, a base da segurança de seus pequeninos: que Deus é o Pai deles, e assim está sempre disposto a socorrê-los. Um pai cuida de todos os seus filhos, mas é particularmente carinhoso com os pequeninos (Genesis 33.13). Ele é o seu Pai nos céus, um lugar de perspectiva. Portanto, Ele vê todos os insultos que são lançados contra eles. Esse também é um lugar de poder; portanto, Ele pode vingá-los. Isso conforta os pequeninos que são ofendidos: a sua testemunha está nos céus (Jó 16.19), o seu juiz está ali (Salmos 68.5).

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

O COMPLEXO DE ÉDIPO NA MODERNIDADE

O Complexo de Édipo e outras essências psicanalítica frente à nova estrutura familiar.

O complexo de Édipo na modernidade

Na opinião de Ana Maria Bittencourt, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), do ponto de vista psicanalítico, um dos problemas da atualidade acerca dos conceitos freudianos reside no estabelecimento do Complexo de Édipo e na interdição da sexualidade da criança diante das recentes modificações da estrutura familiar. Ela cita como exemplo a clássica imagem do menino apaixonado pela mãe. “Se não existe um homem que diga, ‘sua mãe é minha mulher, você não vai realizar o ato incestuoso com ela’. Se não houver a presença deste terceiro, a criança pode criar a fantasia de que todos os desejos dela podem ser realizados. Logo, tem que haver aquela pessoa que vai interditar”, explica.

Júnia Vilhena, professora do Departamento de Psicologia da PUC- Rio, também lembra que o Complexo de Édipo deve ser entendido como uma interdição que algum agente provoca na relação mãe e filho, algo que rompa a simbiose entre bebê e mãe. Segundo ela, que é também Coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPES) da PUC Rio, o papel de agente interditor pode ser desempenhado por pessoas variadas, ou até mesmo instituições. Como exemplo, ela afirma que “essa função pode ser exercida por uma vizinha, um terceiro elemento que desempenha a função de interditor, pode ser um homem ou até o trabalho”.

HOMOSSEXUALIDADE

Um exemplo claro do quão diferente é a conjuntura histórica que se apresenta à psicanálise hoje, se comparada àquela de Freud, é a polêmica em torno do direito de casais de homossexuais de adotar uma criança. Como ocorreria o processo de identificação com um pai ou uma mãe que tenha desejo por um objeto do mesmo sexo? De que maneira a sexualidade deste indivíduo seria influenciada?

Para Ana Maria Bittencourt, em primeiro lugar, deve-se chamar a atenção para o fato de que a psicanálise não trabalha com o genérico. “Dito isto, é possível que, na singularidade de um determinado casal homossexual, um funcione como aquele que vai se oferecer àquele bebê como o objeto de desejo incestuoso – que vai pegar no colo, dar banho, mamadeira – e o outro vai funcionar como o interditor”, afirma. E conclui: “Eu acho que, de fato, ainda não há tempo de observação para que se possa responder a essa questão”.

Segundo Sara Menezes Cortez, psicanalista da Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro (Aperj Rio 4), a interdição ocorre de formas distintas nas diferentes estruturas sociais. No caso de uma mãe solteira, por exemplo, o Édipo vai se construir na “figura masculina que ela tem dentro dela, no pai, no avô. E no caso de um casal de lésbicas, a construção do Édipo vai se dar na pessoa que desempenha a figura masculina’. Ela ressalta que muito mais do que na pessoa, em si, essas construções se dão na função exercida.

Na opinião da psicanalista e professora da UFRJ, Marci Dória, a reflexão sobre os casais homo parentais passa necessariamente pela compreensão de que todo ser humano, independente da sua anatomia, tem uma possibilidade bissexual intrínseca que pode ser exercida, condição muitas vezes explorada por crianças de ambos os sexos – o que ocorreria em um contexto em que pesam as leis civilizatórias, os costumes, de cada cultura. “Quando você transgride muito uma certa lei organizadora, de um certo caminho civilizatório, as consequências podem ser muito grandes, como um pai que tem relação sexual com uma filha ou uma mãe que tem relações sexuais com um filho”, exemplifica. Nesse sentido, a transgressão ocorreria também em casais heterossexuais e não apenas em casais homo parentais. Deve-se analisar, por exemplo, se o casal está bem estruturado, psiquicamente organizado, se ele sabe lidar com as diferenças e se ele não determina que a criança tem que ser como ele é. “Não acho que a questão esteja na homo parentalidade, mas na maneira como cada um é estruturado. É uma questão de como se lida com a diferença, com a alteridade, com o reconhecimento de que o outro é diferente de você, mesmo que seja um filho que nasceu de você”, defende.

Ela ressalta, entretanto, que não se trata de diminuir a complexidade da questão. “Há consequências? É lógico que sim. Provavelmente em uma sociedade onde o mais natural – se é que a gente pode falar em naturalidade, pois desde que o homem entra na civilização a natureza dele tem a ver com tradição, valores e leis civilizatórias – tudo que foge disso gera um questionamento, causa uma polêmica e o indivíduo terá que fazer um esforço para dar um sentido à situação, para se referir àquilo, àquela situação, de uma certa maneira’.

Embora a questão da interdição, do conflito, seja uma realidade na cultura e, portanto, atual, Celmy Correa, membro efetivo da SBPRJ e psicanalista de criança, lembra que o conceito de Complexo de Édipo é datado, uma vez que foi descrito por Freud com base na família burguesa do século 19. Ela afirma que para o Édipo, e de forma geral para a psicanálise, os conflitos de ambivalência são muito importantes na medida em que são questões humanas.

Se por um lado as novas organizações familiares modificam a forma de manifestação do Édipo e alteram de certa maneira alguns conflitos humanos, por outro, é preciso ressaltar que não existem estudos que demonstrem modificações na sexualidade, agora entendida como manifestação das opções sexuais, em crianças criadas em diferentes formas familiares. “Não necessariamente uma criança criada por esse casal homo genérico terá sua sexualidade comprometida, ou será pervertida”, afirma.

A suposição de que a criança criada por casais homossexuais pode apresentar alterações sexuais é inclusive um grande preconceito que afeta ainda mais os casais homossexuais masculinos, explica Júnia Vilhena. “A homossexualidade feminina é muita mais permitida do que a masculina, é mais fácil para um casal de lésbicas adotar uma criança do que para um casal de homens. Isto porque se faz muita frequentemente uma associação da homossexualidade masculina com a pedofilia”, diz.

As próprias motivações das escolhas como objeto de seu desejo por uma pessoa do mesmo sexo ou uma do outro sexo devem ser questionadas. “Essa é uma questão que a psicanálise ainda não conseguiu responder de maneira satisfatória, inclusive em função do preconceito calcado no medo que rodos nós temos de tomar contato com a nossa própria condição bissexual e, portanto, de tomar contato com fantasias e desejos homossexuais que todos nós podemos ter”, defende Ana Maria Bittencourt.

A analista defende que “a psicanálise precisa levar em conta esse preconceito na hora de refletir sobre as possíveis influências dessas novas configurações na subjetividade de uma criança para poder responder se determinadas patologias serão provocadas pelo fato de haver um casal homossexual ou o quanto isso pode se dever a pressão que tal união pode sofrer dentro de uma sociedade onde ele está inserido”, defende. Bittencourt acrescenta, ainda, que “a repressão faz com que nós alijemos os homossexuais, pois eles são uma ameaça ao tradicional. Eles representam algo que quebrou com a nossa tradição, com a família constituída por pai, mãe e filho”. E pontua: “a homossexualidade não é uma categoria e não se pode patologizá-la”.

 OUTRAS FORMAÇÕES

Se falta perspectiva histórica para analisar os possíveis efeitos da união entre homossexuais e o desenvolvimento da sexualidade do indivíduo neste contexto, outras estruturas familiares bem distintas daquelas encontradas nos pacientes analisados por Freud já se consolidaram – mas nem por isso são plenamente compreendidas. Filhos de pais separados, de pais e mães solteiros, bebês de proveta: hoje se apresenta à psicanálise uma vasta gama de novas considerações vinculares que ela se vê obrigada a levar em consideração.

Na opinião de Júnia Vilhena, os novos laços que começam a ser tecidos na contemporaneidade interferem de maneira importante na organização familiar. Um exemplo bem peculiar das novas categorias de parentesco seria o “ex-irmão”, que surgiria quando um casal que já possuía filhos com outras pessoas se une. Essas crianças, embora não tenham relações consanguíneas, acabam se tornando irmãos postiços e, quando ocorre uma separação elas, viram “ex-irmãos”. A rígida fronteira do incesto, nesse caso, torna-se menos precisa ao passo que existem envolvimentos afetivos, mas não ligação de sangue. A questão na realidade é tão singular que Celmy Correa lembra que em culturas descritas por antropólogos “o incesto entre mãe e filho, pai e filha, não é considerado incesto, ele é permitido. Em muitos casos, o que é barrado é a relação, por exemplo, com o irmão da mãe, ou o tio, ou um avô – dependendo de toda a mitologia que estrutura aquela cultura, que a organiza. Dessa forma, diferentes culturas podem apresentar uma situação edípica aparentemente distinta da nossa cultura ocidental, da organização burguesa”.

Quanto à incerteza que paira sobre o grau de influência dessas transformações, a psicanalista de crianças e adolescentes da SBPRJ Teresa Mancini concorda que ainda é necessário observar melhor as novas organizações da família. Entretanto, ela acredita que “a constituição da identidade se fará de uma maneira mais fácil dentro de uma estrutura familiar harmônica. Harmônica no sentido de ter um casal, ter pai e mãe com papéis definidos, ter uma relação afetiva bem vivida, onde a criança tenha o lugar de filho, o pai lugar de pai e a mãe lugar de mãe”. Para Mancini, essa estrutura, de certa maneira “tradicional”, acabaria favorecendo o desenvolvimento da identidade, agindo como um elemento facilitador.

Quanto às diferenciações de classe social, é interessante observar que determinadas situações podem ser bem características e dessa maneira podem manter alguma ligação com o conceito de sexualidade infantil. Sara Menezes Cortez considera que é possível identificar, nos extremos sociais – em famílias muito ricas ou muito pobres -, uma dificuldade na constituição da subjetividade infantil por conta dos longos períodos em que as crianças muitas vezes permanecem afastadas dos pais. Cortez considera também que situações como o abandono podem facilitar uma identificação por parte da criança com figuras como traficantes, por conta da falta de pais exercendo os seus papéis na construção de sua subjetividade. Os traficantes, no caso, passam a exercer para a criança o papel do pai, e uma das razões para que isso aconteça, de acordo com a especialista, é a proteção que esse traficante acaba, em alguns casos, dando às crianças. Teresa Mancini, por sua vez, considera que realmente haja muitas vezes, por parte de crianças, a identificação paterna em traficantes, mas ela acredita que esta situação é decorrente não de uma razão social, mas sim de um contexto familiar no qual a criança está inserida.

Na opinião de Marci Doria, se a princípio não se pode negar que mudanças na estrutura familiar ocorreram, não se pode afirmar também se o foi para melhor ou pior. Ela questiona inclusive a suposição de que, antes, as famílias eram mais estáveis. ”Às vezes, havia urna mãe profundamente infeliz naquela relação, totalmente amargurada e que amargurava os filhos. Ou um pai que escava em casa, mas que na verdade era muito ausente, que tinha outras famílias escondidas ou outras relações”, defende a especialista.

Doria chama a atenção, ainda, para alguns excessos que ocorreram com a consolidação da psicologia infantil, no processo de reconheci­ mento da criança enquanto sujeito. “A psicologia começou a dizer que se masturbar era normal e que isso fazia parte da descoberta do prazer do próprio órgão, das fantasias, do lidar com o próprio corpo e isso não seria algo a ser punido. No entanto, a partir daí, muitos pais acharam que tinham que ensinar o filho a se masturbar, por exemplo. Nessas circunstâncias é criado um excesso em função de um certo caráter incestuoso, algo complicado – bem diference do indivíduo descobrir as expressões do seu corpo”, explica.

A professora acrescenta que as crianças devem ser ouvidas, mas em alguns momentos criaram-se situações às vezes absurdas em que os adultos não assumiriam mais certas decisões. “Como a criança pode resolver onde é que ela quer escudar ou se ela pode parar de estudar? Os pais delegaram as decisões e as consequências das decisões para os filhos, que, por sua vez, não podem arcar com certas decisões ou consequências. Então, ocorrem determinados excessos e se começa a viver numa espécie de civilização paranoica, em que não se pode fazer nada”.

RELAÇÕES OBJETAIS

A despeito das modificações sofridas pela sociedade e dos desafios decorrentes que se impõem à psicanálise, na opinião de Ana Maria Bittencourt, os conceitos fundamentais de Freud sobre a sexualidade infantil não se modificaram. ”As postulações freudianas de que existe uma sexualidade infantil, de que o recalque desta sexualidade ocupa um lugar inconsciente e essa sexualidade recalcada produz sintomas não sofreram mudanças conceituais”, afirma.

Segundo a especialista, mesmo levando-se em consideração as diferenças entre as várias correntes psicanalíticas que se desenvolveram desde Freud, existe um ponto que as une: o trabalho com o inconsciente. “Faz parte da sexualidade infantil ter o desejo incestuoso, e esse ponto fundamental não mudou. Eu não conheço uma corrente que o negue, pois negar essa questão é negar a existência do inconsciente”, pontua.

Entretanto, se por um lado pode-se afirmar que a teoria se manteve, por outro, não se pode negar que ela sofreu acréscimos importantes. “A psicopatologia tem a ver com toda uma história e, evidentemente, a cultura em que estamos inseridos produz determinados sintomas que antes não eram expressos com tanta abundância quanto outros. Exemplos são os problemas das adições, dos distúrbios alimentares, das doenças psicossomáticas”, diz

Tais patologias, conforme explica Bittencourt, diferem das situações neuróticas à medida que se caracterizam por uma pobreza de processos simbólicos. Ela cita como exemplo o caso de jovens levados ao consultório por suas mães em função de uma bulimia e que não necessariamente, têm um sofrimento psíquico.  “Esse indivíduo tem uma queixa apenas de que vomita e de que isso é muito desconfortável para ele. Essa situação muda um pouco a técnica, pois o analista tem que partir do princípio de que neste tipo de patologia não necessariamente se está trabalhando com um recalcado. Pode-se estar diante de um outro tipo de defesa, com outro tipo de explicação para a formação desse sintoma – o que pode ter relação, por exemplo, com o que certos autores consideram como sendo falhas ambientais. Ou seja, são doenças que não são produzidas por um recalque da sexualidade, mas por uma falta da capacidade que a pessoa tem de ter uma experiência psíquica do que está se passando. A experiência passa direto para o corpo. O corpo fala de algo de que o psiquismo não consegue expressar de outro modo”, afirma. Para ela, estas seriam as “doenças da contemporaneidade” ou “patologias do vazio”. “O tipo de cultura narcísica em que estamos inseridos, com essa valorização do corpo, com essa hiper­sexualização presente das crianças, com essa sociedade muito consumista, que dá a objetos valores muito grandes, favorece que este tipo de patologia floresça mais hoje, possivelmente, do que naquela época de Freud”, diz.

A tentativa de dar conta de tais quadros, tendo em vista possíveis falhas ambientais, deu origem justamente à teoria das relações de objeto, que para muitos – entre eles Bittencourt – seria um desenvolvimento das teorias freudianas. “Winnicott, principalmente, foi um dos autores que partiram da compreensão de que existem determinados sintomas que não mais são devido a um conflito intrapsíquico relacionado às pulsões sexuais, aos recalques e a uma instância superegóica. O sintoma neurótico se daria no fundo por um conflito entre a sexualidade e uma instância censora que vai dizer que aquele desejo sexual é proibido”, destaca a psicanalista.

Bittencourt explica que, em síntese, os teóricos das relações de objeto propõem que determinadas formações sintomáticas vão se dever a uma falha ambiental, ou seja, a uma falha do objeto, do outro, em poder funcionar como um esquema de proteção às pulsões. “Digamos assim: é suposto que a esse objeto, a mãe, por exemplo, caiba ter uma função de proteger o eu infantil de um excesso pulsional. Então, se o objeto falha em atender a essa necessidade de proteção, aquela excitação que o eu infantil experimentou torna-se uma condição traumática. Há uma necessidade de que o objeto funcione com essa função de acolhimento, de dar um envolvimento àquele eu infantil para que ele não se transborde em uma excitação excessiva”, resume.

A psicanalista acrescenta, ainda, que tais teóricos propuseram um tipo de abordagem, uma técnica, uma prática clínica que supre essa limitação daquele paciente de estabelecer a neurose de transferência. “Eles acharam que esse trabalho daria conta de cercas patologias que Freud, com os instrumentais de que ele possuía na época, acreditou que não poderia abranger”, pontua. Ela acrescenta ainda que “o fato de uma pessoa ter tido falhas no ambiente precoce não significa que ela não tenha problemas relacionados à sexualidade. E os dois níveis de situação podem aparecer no material de uma determinada sessão psicanalítica”.

SEXUALIDADE HOJE

Na opinião de Marci Doria, ocorreu uma cerra ampliação conceitual do conceito de sexualidade. “Isso ampliou toda discussão e base teórica sobre o assumo, o que certamente implicou numa melhora de atendimento. Hoje já se sabe uma série de mecanismos relacionados ao desenvolvimento de psicoses que afetam o nosso relacionamento com o outro. Isto certamente torna melhor a nossa escuta e abre a possibilidade de operar analiticamente com pacientes muito mais graves. Antigamente não se tinha isso. Além disso, a psicanálise atualmente não seria só para ricos, já que existe uma série de trabalhos sociais que visam a levá-la a diversas comunidades carentes”, destaca.

Para Doria, as mudanças no que diz respeito à sexualidade infantil foram fundamentalmente técnicas e, nesse sentido, o psicanalista deve ver o que está disponível em cada paciente em termos de recursos, vocabulário, formas de dar sentido ao que está se passando. “É necessário verificar o universo cultural e os valores de cada pessoa porque aquele valor teve certamente algum efeito na vida dela. Cada pessoa tem um inconsciente, mas ele se dá de forma singular. Não é o conceito que muda, mas o modo de operá-lo. Tudo dependerá do objeto com o qual se lida e o jeito de lidar com ele. No tratamento de crianças, por exemplo, é comum a utilização de jogos e de brincadeiras de mãe e filho, enquanto que em adultos são utilizados psicodramas”, argumenta.

A ORIGEM

Apesar dos muitos direcionamentos que a pesquisa do inconsciente dinâmico tomou, na opinião de José Candido Bastos, membro da SBPRJ, o pilar central do qual saem todas as teorias é o de Freud. “Foi dito por muita gente que havia um inconsciente, mas que não haveria formas de explorá-lo e Freud, indiscutivelmente, foi a primeira pessoa do mundo a descobrir uma forma de explorar esse inconsciente”, afirma.

Dentre as contribuições dos diversos autores para o desenvolvimento da psicanálise, o estudioso destaca os esforços despendidos na tentativa de compreender o universo infantil. “Todas os teóricos que vieram depois trataram diretamente de crianças, como Melanie Klein, Winicott entre outros. Eles tiveram esse relacionamento e tentaram compreender o mundo infantil e como ele era estruturado. E descreveram isso de uma forma muito mais detalhada, muito mais aprofundada do que Freud”, afirma.

Entretanto, ele salienta que isto diminui de maneira alguma a importância do “pai” da psicanálise na contemporaneidade. “O trabalho fundamental do analista é trabalhar com o inconsciente dinâmico. Este trabalho tem tido a possibilidade de mudanças muito fecundas, muito eficientes, mas sempre apoiados naquela base sólida que Freud estabeleceu e que realmente ainda é válida até hoje”, ressalta Bastos.

Na opinião de Luiz Antônio Telles de Miranda, membro da Aperj Rio 4, muitas vezes ocorre um certo reducionismo dos autores pós-freudianos ao pensamento de Freud, quando, na verdade, eles seriam independentes. “Eu creio que o grande enriquecimento da técnica para nós, como analistas, é justamente diferenciar muitíssimo bem o que os teóricos das relações de objeto entendem que é o psiquismo, o porquê do adoecer. E mesmo dentro dos teóricos das relações de objeto, pode-se perceber, por exemplo, que Winnicott pensa diference de um Kohut, que pensam diferente do Ferenczi”, defende. Ele acrescenta que “nada disso pertence à teoria Freudiana, mas pode nos ajudar a trabalhar o complexo de Édipo, que é o que Freud propõe”.

Um ponto que diferenciaria os teóricos da relações de objeto da teoria freudiana, no ponto de vista do estudioso, é que Freud por exemplo, faz um psiquismo fundado e angústia e resolvida em princípio de prazer “O fundador das teorias das relações de objeto, que na minha opinião é Ferenczi, era um contemporâneo e um discípulo de Freud mas tinha uma compreensão diferente do adoecer psíquico e cria uma estrutura do psiquismo diferente. Se ele cria uma estrutura do psiquismo diferente, mudam a técnica, os objetivos e as indicações”, destaca Telles de Miranda. E conclui: “a teoria do Freud ser sempre a teoria do Freud, pois ele funda psiquismo de uma única maneira. Parece-me que ela continua viva”.

NEUROCIÊNCIA: CASAMENTO POSSÍVEL

De acordo com José Candido Bascos, a relação estabelecida entre a psicanálise e a neurociência é um processo controvertido. “Entre os analistas alguns acham que a neurociência não traz nenhuma contribuição para a psicanálise, alguns dizem até que seria um elemento que facilita uma destruição da análise, uma destruição do valor da psicanálise”, afirma.

Ele, entretanto, discorda dessa posição. “Na minha opinião, e na de um número cada vez maior de pessoas ligadas à nossa ciência, é evidente que essas descobertas trazem esclarecimento sobre alguma coisa que nós afiançávamos, que nós afirmávamos de uma maneira empírica e que com essas pesquisas científicas agora podem ser provadas com roda a tecnologia moderna – uma tecnologia que não pode ser negada e que, já em sua época, Freud imaginava que pudesse haver no futuro. Tanto assim, que em determinados trabalhos ele afirma:·’isso será esclarecido no futuro’. São vários os trabalhos em que ele faz essa referência e essa suposição”, ressalta o especialista.

Bastos cita como exemplo de aproximação entre as postulações freudianas e as recentes descobertas da neurociência sobre a questão do esquecimento de todos os fatos ocorridos até os cinco anos de idade. Esta questão é particular­ mente importante na medida em que é nesta fase da vida que ocorre a formação do inconsciente dinâmico, que vai dar matiz, colorido, forma à toda a vida futura.

“Freud afirmava isso, mas sem nenhuma comprovação. A neurociência moderna, por sua vez, explica que a criança não é capaz de registrar na memória aqueles acontecimentos, pois o aparelho de memorização, que é o hipocampo, ainda não está mielinizado, ou seja, não está pronto para memorizar”, afirma o psicanalista. Ele explica ainda que, depois dos cinco ou seis anos, a criança começa a possuir as características necessárias para registrar a memória. “E aí se passa a uma outra memória, a evocável. E não mais aquela memória que dinamicamente é importante, mas não pode ser evocada”, pontua.

Outro exemplo de uma possível colaboração entre as ciências, de acordo com Bastos, são os trabalhos desenvolvidos por Eric Kandell sobre a classificação das memórias. “Kandell divide as memórias em Declarativas (explícitas) e Procedurais (implícitas). As primeiras registram todos os fatos e eventos ocorridos e estão mediadas pelo córtex pré-frontal. Esta seria a área correspondente ao consciente e pré-consciente na visão de Freud”, explica o psicanalista.

A memória procedural (implícita), por sua vez, segundo a descrição de Kandell, seria composta por quatro elementos: o primeiro ligado à conduta, o segundo à parte de reconhecimento de estímulos ligados ao neocórtex, o terceiro ligado ao condicionamento clássico, que daria as respostas emocionais e as reações músculo esqueléticas, e um último componente que seria o do aprendizado automático.

“Todos esses elementos estariam contidos no que Freud chamou de inconsciente dinâmico, que nunca chega diretamente ao consciente, mas que continua mostrando sua existência, estabelecendo uma maneira de ser, um comportamento que se repete por toda a vida – e que como consequência aparece na situação analítica. Situação em que o paciente não se lembra de nada do que foi vivido e esquecido, mas age em função disco”, pontua Bastos.

Segundo ele, era este inconsciente que Freud explorava com a psicanálise e que a neurociência tenta localizar anatômica e funcionalmente, o que seria um encontro entre as duas ciências. “Na memória procedural (implícita) temos um exemplo biológico de um componente da vida mental inconsciente”, afirma Bastos, citando Kandell. “A ciência está se rejuvenescendo, com isso criando coisas muito novas e que mostram que muito do que Freud disse pode ser comprovado cientificamente”, conclui.

OUTROS OLHARES

A HERANÇA DO RACISMO

Meio século após a morte de Martin Luther King, o mundo ainda vive mergulhado em discursos de ódio contra a população negra.

A herança do racismo

Em 1963, o pastor afro-americano Martin Luther King fez um discurso histórico contra o racismo na Marcha de Washington. “Eu tenho um sonho”, disse ele. Ganhador do Nobel da Paz de 1964, o líder político foi assassinado em 4 de abril de 1968. Meio século após sua morte, o sonho de Luther King ainda se mantém, assim como o ódio que ele combateu. Provas disso são os discursos de supremacistas brancos nos Estados Unidos e na Europa, carregados de xenofobia e preconceitos raciais

“É evidente que houve evolução no que diz respeito aos direitos civis de forma que a população negra pudesse alcançar espaços de poder que antes eram inalcançáveis. Mas isso ficou muito longe de representar uma superação do racismo”, diz o professor Tiago Vinícius dos Santos, doutor em direitos humanos pela Universidade de São Paulo (USP). Ele cita como exemplo a eleição de Barack Obama nos Unidos. Ao alcançar o poder máximo no país, o ex-presidente deixou a impressão de que não era mais necessário discutir o racismo. “Há uma tentativa de excluir, de uma vez por todas o debate racial das políticas públicas”, afirma. Durante a era Obama, os insultos raciais tomaram uma proporção muito maior do que no período pré direitos civis. A ideia equivocada de que os EUA superaram a discriminação ficou evidente com o fortalecimento de discursos como o de Donald Trump. O confronto entre supremacistas brancos e militantes do movimento negro em Charlottesville, no ano passado, é um exemplo de como o atual presidente dos EUA lida com questões raciais. Trump em nenhum momento condenou os supremacistas e manteve a ideia de que houve violência das duas partes. “O grande problema é ter na presidência alguém que vai legitimar o lado mais horrível da história, algo que não pode acontecer novamente”, diz Santos.

Os discursos de ódio racial não se limitam aos EUA. Em vários países da Europa, a direita radical avança atacando imigrantes, apontados como vilões durante muitas campanhas eleitorais de partidos nacionalistas, que acusam os estrangeiros de tirar emprego das populações locais. O fenômeno das fake news está diretamente ligado a isso. Nos tempos atuais, a pregação racista só mudou de plataforma, passando da televisão para a internet. É o que afirma Virgílio Pedri Rigonatti no recém-lançado “Cravo Vermelho, livro que narra os acontecimentos que marcaram os anos 60. Ele lembra, por exemplo, de ver na TV marchas lideradas por Luther King e de, ao mesmo tempo, acompanhar a Ku Klux Klan no noticiário. “O assassinato foi um balde de água fria nos jovens”, diz o escritor.

ONTEM E HOJE

“Uma figura emblemática que ultrapassa os limites dos Estados Unidos.” É assim que o pró-reitor de assuntos comunitários da UFABC Almeida, doutor em sociologia pela USP define Luther King. Para o especialista, desde o surgimento do líder americano, o racismo foi mudando de face ao longo dos anos. “O racismo é a última fronteira do ódio e, de tempos em tempos, ele aparece mostrando sua fúria”, afirma Almeida, citando a tentativa de Israel de expulsar imigrantes africanos, em março. As investidas contra os imigrantes só acabaram com a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU), na semana passada. “Então não aprendemos nada com a história? Segundo o professor Almeida é importante considerar que o racismo é estruturante na sociedade brasileira e no mundo. E que, para resolver essa questão, é funda primeiro, reconhecer que ela existe.

 

Fonte: Revista Isto É – Edição 2520

GESTÃO E CARREIRA

MERITISSIMO ROBÔ

Meritíssimo robô

Cerca de 1050 advogados têm usado um robô para escrever as petições e dar entrada nos processos de clientes que pagaram mais ICMS nas contas de luz e querem pleitear uma restituição do governo. O Eli, de Enhanced Legal lntelligence, foi lançado no final do ano passado pela Tikal Tech, que desenvolve sistemas de inteligência artificial após seu CEO perceber a oportunidade de mercado.”[O ICMS] é uma causa que, se não tivesse essa automação, não valeria a pena para os advogados, pois os valores são baixos e o trabalho muito cansativo, já que envolve levantar faturas de luz de vários anos, diz Derek Oedenkoven, CEO da empresa. O empreendedor, entretanto, não acredita que as máquinas sejam uma ameaça significativa aos profissionais de direito. “Muitos casos judiciais são repetitivos, mas outros são totalmente novos, o que demanda uma capacidade intelectual dos advogados para a defesa de novas teses”, afirma. A inteligência artificial vai resolver os processos que são mecânicos e tomam tempo,”

 

Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 1- 6

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A Importância da Humildade

Assim como nunca houve um padrão de humildade maior, nunca houve um pregador maior que Cristo, em todos os aspectos, inclusive em termos de humildade. Ele aproveitou todas as ocasiões para ensiná-la aos seus discípulos e seguidores.

 I – A ocasião desse discurso com relação à humildade foi urna competição inconveniente entre os discípulos por preeminência; eles chegaram ao pé de Jesus, dizendo, entre si (porque estavam envergonhados para perguntar a ele, Marcos 9.34): “Quem é o maior no Reino dos céus?” Eles não quiseram dizer quem o seria pelo caráter (então a pergunta teria sido boa, de forma que eles poderiam saber em quais graças e deveres precisavam se superar), mas quem pelo nome. Eles tinham ouvido muito, e pregado muito sobre o Reino dos céus, o reino do Messias, sua igreja neste mundo; mas mesmo assim eles estavam muito distantes de ter qualquer noção clara disso, e sonhavam com um reino temporal, a pompa exterior, e o seu poder. Cristo havia recentemente predito os seus sofrimentos, e a glória que deveria se seguir; que Ele deveria ressuscitar dos mortos, que a partir daí eles esperassem o início de seu reino; então eles pensavam que era a hora de estabelecer os seus lugares no reino. É bom, nesses casos, falar logo. Surgiram debates desse tipo diante de outros discursos de Cristo (cap. 20.19,20; Lucas 22.22,24). Ele falou muitas palavras com relação aos seus sofrimentos, mas apenas uma palavra sobre a sua glória; no entanto, eles se firmaram em uma coisa, e ignoraram a outra; e em vez de lhe perguntarem como poderiam ter forças e graça para sofrer com Ele, perguntaram quem seria “o maior” ao reinar com Ele. Note que muitos amam ouvir e falar dos privilégios e da glória, e desejam ignorar os pensamentos de trabalho e dificuldade. Eles olham tanto para a coroa, que se esquecem do jugo e da cruz. Foi o que os discípulos fizeram aqui, quando perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?”

1. Eles supõem que todos os que têm um lugar naquele reino são grandes, porque é um reino de sacerdotes. Os homens verdadeiramente grandes são aqueles verdadeiramente bons; e eles aparecerão assim finalmente, quando Cristo os possuir como o seu povo, embora sejam tão maus e pobres no mundo.

2. Eles supõem que há graus nessa grandeza. Todos os santos são honoráveis, mas nem todos da mesma forma; uma estrela difere de outra estrela em glória. Nem todos os oficiais de Davi eram valorosos, nem todos os seus valorosos estavam nas três primeiras posições.

3. Eles supõem que alguns deles devam ter a posição de primeiro-ministro de estado. A quem o Rei Jesus deveria ter prazer em honrar, além daqueles que tinham deixado tudo por Ele, e que eram agora os seus companheiros na paciência e na tribulação?

4. Eles disputam quem deveria ser o quê, cada um tendo uma pretensão ou outra ao reino. Pedro sempre foi o principal orador, e já tinha recebido as chaves; ele espera ser o presidente da Câmara dos Pares ou o camareiro-mor da casa, sendo assim o maior. Judas tinha a bolsa, e assim ele espera ser o tesoureiro-mor, o qual, embora agora venha por último, espera ser o maior. Simão e Judas são meio parentes de Jesus, e esperam estar acima de todos os grandes oficiais de estado, como príncipes de sangue. João é o discípulo amado, o favorito do Príncipe; portanto, espera ser o maior. André foi chama­ do primeiro; e por que não teria a primeira preferência? Nós somos muito inclinados a nos entreter e a nos agradar com fantasias tolas de coisas que nunca acontecerão.

II – O próprio discurso, que é uma justa reprovação para a pergunta: Quem será o maior? Nós temos muitas razões para pensar que, se Cristo tivesse a intenção de que Pedro e seus sucessores em Roma fossem os chefes da igreja, e seus principais sacerdotes na terra, tendo tido uma ocasião tão boa para isso, Ele agora avisaria aos seus discípulos; mas Ele está tão distante disso, que sua resposta desautoriza e condena a própria atitude de desejar ser o maior. Cristo não conferir à tal autoridade ou supremacia em nenhum escalão de sua igreja; quaisquer que tiverem essa intenção serão usurpadores; em vez de estabelecer qualquer dos discípulos nessa dignidade, Ele adverte a todos eles a não aspirarem tal posição.

Cristo aqui os ensina a serem humildes:

1. Por um sinal (v. 2); “E Jesus, chamando uma criança, a pôs no meio deles”. Cristo frequentemente ensinava por sinais ou ilustrações sensatas (comparações visuais), como os profetas do passado. A humildade é uma lição aprendida de forma tão dura, que precisamos de todos os modos e meios para sermos ensinados. Quando olhamos uma criança pequena, devemos ter em mente a comparação que Cristo fez com essa criança. Coisas sensatas devem ser utilizadas para propósitos espirituais. “Jesus a pôs no meio deles”; não para que eles pudessem brincar com ela, mas para que pudessem aprender através dela. Os homens crescidos, e os homens grandes, não deveriam desdenhar da companhia das crianças pequenas, ou considerar como algo inferior a atitude de notá-las. Eles podem falar com as crianças, e instruí-las; ou prestar atenção nelas e receber instruções delas. O próprio Cristo, quando criança, esteve “assentado no meio dos doutores” (Lucas 2.46).

2. Por um sermão sobre esse sinal, no qual Ele mostra a eles e a nós:

(1).  A necessidade da humildade (v. 3). O seu prefácio é solene, e ordena tanto a atenção como o consentimento: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus”. Aqui observe:

[1]. O que Ele exige e no que Ele insiste.

Em primeiro lugar: “Vocês devem se converter, vocês devem ter uma outra mentalidade, e em outra estrutura e sentimento; devem ter outros pensamentos, tanto de si mesmos como do Reino dos céus, antes de estarem aptos a ocupar um lugar nele. O orgulho, a ambição e a artificialidade de honra e domínio, que apare­ cem em vocês, devem sofrer um arrependimento, uma mortificação e uma reforma, e vocês devem se dar conta disso.” Além da primeira conversão de uma alma de um estado de natureza para um estado de graça, há conversões posteriores de determinados caminhos de apostasia, que são igualmente necessários para a salvação. Todo passo fora do caminho devido ao pecado deve ser um passo de volta ao caminho através do arrependi­ mento. Quando Pedro se arrependeu de ter negado ao seu Mestre, ele se converteu.

Em segundo lugar: Vocês devem se tornar “como crianças”. A graça que converte nos faz como meninos, e não como meninos no entendimento (1 Coríntios 14.20), nem inconstantes (Efésios 4.14), nem brincalhões (cap. 11.16); mas, como crianças, devemos “desejar afetuosamente o leite racional” (1 Pedro 2.2); como crianças, não devemos nos preocupar com nada, mas deixar que o nosso Pai celestial cuide de nós (cap. 6.31). Devemos, como crianças, ser inocentes e inofensivos, e sem malícia (1 Coríntios 14.20), governáveis, e estar sob autoridade (Gálatas 4.2); e (o que aqui é a principal intenção) devemos ser humildes como crianças pequenas, que não ligam para a pompa, que não dão importância às formalidades. O filho de um nobre brincará com o filho de um mendigo (Romanos 12.16). A criança em farrapos, mas vestida, estará tão alegre quanto a outra criança, e não invejará a roupa da criança que se veste de seda; as crianças pequenas não têm grandes ambições quanto a lugares de destaque, ou a projetos de se elevarem a altas posições no mundo; elas não se exercitam em grandes assuntos, nem em coisas muito elevadas para elas. E nós devemos, da mesma maneira, calar e sossegar a nossa alma (Salmos 131.1,2). Como as crianças são pequenas no corpo e baixas em estatura, assim devemos ser pequenos e baixos no espírito, e nos nossos pensamentos a respeito de nós mesmos. Este é um sentimento que leva a outras boas disposições; a época da infância é a época do aprendizado.

[2]. Que ênfase o Senhor coloca sobre isso. Sem isso, “de modo algum entrareis no Reino dos céus”. Note que os discípulos de Cristo têm a necessidade de ser mantidos em expectativa por meio de ameaças, para temerem ficar “para trás” (Hebreus 4.1). Os discípulos, quando fazem aquela pergunta (v. 1), têm a certeza de entrar no Reino dos céus; mas Cristo os desperta para o fato de estarem enciumados uns dos outros. Eles eram ambiciosos, e queriam ser “o maior no Reino dos céus”. Cristo lhes diz que, a menos que tenham uma atitude melhor, jamais chegarão lá. Muitos que aspiram ser o maior na igreja, demonstram ser não só pequenos, mas nada, e acabam não tendo parte ou porção no assunto em questão. O nosso Senhor pretende aqui mostrar o grande perigo do orgulho e da ambição; a despeito do que os homens professem, se eles se permitirem cair nesse pecado, serão rejeitados e não entrarão nem no tabernáculo de Deus, nem em seu santo monte. O orgulho fez cair do céu os anjos que pecaram, e nos deixará de fora, se não nos convertermos. Aqueles que se exaltam com o orgulho, caem na condenação do diabo. Para evitar isso, devemos nos fazer como crianças pequenas. E para fazermos isso, devemos nascer de novo, devemos nos revestir do novo homem, devemos ser como o santo Filho Jesus; assim Ele é chamado, mesmo depois de sua ascensão (Atos 4.27).

(2).  Ele mostra a honra e o avanço que resultam da humildade (v. 4), fornecendo assim uma resposta direta, mas surpreendente, à pergunta deles. Aquele que se tornar humilde como uma criança pequena – embora possa temer que assim se apresente como alguém desprezível, como um homem de mente tímida, que desse modo se lança para fora do caminho da preferência -, esse é o maior no Reino dos céus. Os cristãos mais humildes são os melhores cristãos, os mais parecidos com Cristo, e os mais elevados em seu favor; estão melhor posicionados para as comunicações da graça divina, mais adequados para servir a Deus neste mundo, e desfrutar o mundo vindouro. Eles são grandes, porque Deus domina o céu e a terra, e não deixa de considerá-los; e certamente aqueles a serem mais respeitados e honrados na igreja são os mais humildes e os que renunciam a si mesmos; porque, embora eles não bus­ quem ser grandes, são aqueles que o merecem.

(3).  O cuidado especial que Cristo tem por aqueles que são humildes. Ele advoga a causa deles, os protege, se interessa por suas preocupações, e não permite que sejam vítimas de injustiça, sem que tenham uma futura compensação.

Aqueles que assim se tornam humildes temerão:

[1]. Que ninguém os receba; mas (v. 5): “Qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta, a mim me recebe”. Jesus considera qualquer ato de bondade feito a alguém como sendo feito a Ele mesmo. Existe um ato que deve ser aceito e recompensado como um ato de respeito a Cristo: aquele que acolhe um cristão manso e humilde, mantém-no em uma situação de tranquilidade, não o deixa perder por sua modéstia, aceita-o em seu amor e amizade, em sua companhia e cuidado, e estuda alguma maneira de lhe fazer algum gesto de bondade; aquele que faz isso em nome de Cristo, por amor a Ele, pelo fato de o cristão levar a imagem de Cristo, servir a Cristo, e porque Cristo o recebeu. Mesmo que apenas uma pequena criança seja recebida em nome de Cristo, isto será aceito. Note que a terna consideração que Cristo tem por sua igreja se estende a cada membro em particular, até mesmo ao que é aparentemente mais insignificante; não só a toda a família, mas a cada membro da família. Quanto menores forem aqueles a quem demonstrarmos bondade, mais boa vontade estaremos demonstrando em relação a Cristo. Quando fazemos algo por pessoas que naturalmente não ajudaríamos, estamos fazendo mais por amor a Cristo; e Ele aceita esta oferta. Se Cristo estivesse pessoalmente entre nós, entendemos que jamais conseguiríamos recebê-lo tão bem quanto Ele merece. Mas sempre temos conosco os pobres, os pobres de espírito; e podemos fazer a eles aquilo que faríamos pessoalmente ao próprio Cristo. Veja cap. 25.35-40.

[2]. Eles temerão que todos abusem deles; os homens mais indignos se deliciarão ao menosprezar o humilde. Ele trata dessa objeção (v. 6), e adverte a todas as pessoas quanto ao risco envolvido em sua resposta, para que não tragam qualquer injúria a algum dos pequeninos de Cristo. Esta palavra funciona como uma parede de fogo em torno deles; aquele que tocar neles, toca na menina dos olhos de Deus.

Considere, em primeiro lugar, o crime que está em foco: escandalizar um desses pequeninos que creem em Cristo. A sua crença em Cristo, embora sejam pequeninos, os une a Ele, e faz com que Ele se interesse pela causa deles, de forma que, como eles participam do benefício de seus sofrimentos, Ele também participa das injustiças que lhes são causadas. Os pequeninos que creem têm os mesmos privilégios dos grandes, porque todos eles conseguiram uma fé preciosa. Há aqueles que escandalizam estes pequeninos, fazendo-os pecar (1 Coríntios 8.10,11), afligindo e causando dor em suas almas justas, desencorajando-os, aproveitando-se de sua mansidão para fazer deles uma presa individualmente, em suas famílias, aprisionando os seus bens ou o seu bom nome. Dessa forma, os melhores homens frequentemente têm encontrado o pior tratamento da parte deste mundo.

Em segundo lugar, a punição desse crime que é sugerida nesta palavra: “Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar”. O pecado é tão horrendo, e a ruína é proporcionalmente tão grande, que seria melhor que o transgressor sofresse os castigos mais dolorosos infligidos sobre o pior dos criminosos, algo que só pode matar o corpo. Note que:

1. O inferno é pior do que a profundeza do mar, porque ele é um abismo sem fundo, e é um lago de fogo. A profundeza do mar apenas mata, mas o inferno é atormentador. Conhecemos alguém que teve conforto na profundeza do mar: Jonas (Jonas 2.2,4,9); mas ninguém jamais teve o menor grão ou vislumbre de conforto no inferno, nem o terá na eternidade.

2. A condenação irrevogável e irresistível do grande Juiz trará uma prisão mais rápida, um naufrágio mais certo e mais rápido, do que uma mó de azenha pendurada ao pescoço. Existe um grande abismo que jamais pode ser transposto (Lucas 16.26). Escandalizar os pequeninos de Cristo, embora por omissão, é apontado como o motivo para esta terrível sentença: ”Amaldiçoados sejam”, que no final será a condenação dos perseguidores orgulhosos.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

TREINO CEREBRAL

Supressão emocional para apagar memórias negativas.

Treino cerebral

Reprimir as emoções ruins relacionadas a certos fatos ocorridos parece reduzir as memórias negativas, seja consciente ou inconscientemente, dizem pesquisadores envolvidos em um novo estudo publicado no periódico científico Neuro-psychologia. A conclusão ocorreu após uma bateria de exames cerebrais por ressonância magnética funcional em 17 indivíduos que se submetiam a uma tarefa de classificação de imagem. Um grupo controle de mesma amostra da população realizou atividades idênticas, mas sem submeter-se ressonância magnética funcional.

Enquanto classificavam 180 imagens (quanto a sua negatividade), os voluntários receberam instruções para reprimir sentimentos negativos, explícitas ou dissimuladas. Ambas as formas de supressão emocional reduziram memórias negativas, contando-se uma semana depois do experimento nos exames de neuroimagem, verificou-se que, nesses casos, houve redução da conectividade em regiões do cérebro responsáveis pela codificação de memórias emocionais.

As diferentes supressões resultaram em processamentos distintos, no entanto, quanto à experiência imediata com as imagens – instruções explícitas incitara m menos respostas negativas instantâneas, diminuindo a atividade na amígdala, uma região do cérebro que auxilia no processamento emocional.

OUTROS OLHARES

A FORÇA QUE VEM DOS LIKES

Como as mensagens de apoio recebidas dos milhões de seguidores na internet ajudam a modelo Nara Almeida a enfrentar um câncer raro.

A força que vem dos likes

A carreira de modelo da maranhense Nara Almeida começava a decolar em meados de 2017 quando ela recebeu um diagnóstico desalentador. As fortes dores que ela sentia no estômago eram causadas por um câncer. Abalada, decidiu compartilhar a notícia com os milhares de seguidores que já a acompanhavam no Instagram. “A única coisa que conseguia fazer era chorar, mas não era um choro de tristeza”, escreveu. “Compartilharei tudo que servir de inspiração, tudo que faça com que vocês saiam do automático”. A decisão, ousada, fez com que um número cada vez maior de pessoas passasse a curtir e a apoiar a modelo a cada etapa do tratamento, mandando mensagens de força. Nara se tomou assim um grande exemplo da luta contra o câncer para a geração que está habituada a seguir influenciadores digitais e youtubers apenas para saber o que vestem, comem ou como se divertem. Dessa vez foi diferente.

“As pessoas têm a tendência a se mostrarem empáticas com aquelas que estão vivendo um momento mais complicado”, afirma o psicólogo Yuri Busin. Os números na conta de Nara no Instagram reforçam a ideia da empatia. Hoje, ela tem 3,2 milhões de seguidores – e suas postagens atingem cerca de 800 mil curtidas cada. Antes da doença, a média era de 7 mil. Ela recebeu também o apoio de diversas celebridades. A cantora Larissa Manoela, por exemplo, pagou uma viagem para que a mãe de Nara encontrasse a filha após quase 20 anos. Cada postagem sua recebe manifestações carinhosas de Adriane Galisteu, Sabrina Sato e outras famosas.

O grande alcance que a modelo tem nas redes sociais também ajuda a desmistificar a doença e serve de apoio para aqueles que enfrentam uma situação parecida. “Muitas pessoas buscam compensação emocional nas redes sociais para algo que estão sentindo”, diz Busin. Este é um caso em que essa busca tem um efeito benéfico. Segundo o psicólogo, muitos se sentem solitários após um diagnóstico como o de Nara. A rede que se formou em torno da modelo, que não esconde nenhuma etapa do tratamento e aborda temas como depressão e a gravidade dos tratamentos contra o câncer, pode oferecer informação e conforto.

Nara nasceu na pequena cidade maranhense de João Lisboa. Foi criada pelos avós e começou a trabalhar muito cedo. Mudou-se para Goiânia antes de se instalar definitivamente em São Paulo. Lançou uma confecção e vendia peças pela internet. Suas fotos começaram a atrair mais seguidores e ela chegou a firmar parcerias com algumas marcas. Foi nesse momento que descobriu o câncer no estômago, comum em mulheres idosas, mas bastante raro na idade de Nara. Ela vem passando por sessões de quimioterapia e radioterapia para conter o avanço do tumor. Atualmente. vive ao lado do namorado, o youtuber Pedro Rocha, e recebe o apoio da sogra e da mãe.

O RISCO DA EXPOSIÇÃO

Evidentemente, redes sociais não amplificam apenas mensagens positivas. Logo no início do tratamento. Nara foi à praia e postou fotos em que aparecia de biquíni. Recebeu mensagens de pessoas perguntando sobre a dieta que estava fazendo. “Só eu sei o quanto estou debilitada. Não consigo me alimentar mais”, escreveu. “Uma mensagem pode mudar seu dia. Para melhor…ou pior”, disse ela em outra postagem.

“Muitos pacientes sentem necessidade de compartilhar suas histórias. Mas sempre avisamos que eles precisam estar preparados para encarar comentários negativos e críticas”, afirma o psicólogo Busin. Se a pessoa estiver ciente dessa possibilidade, o compartilhamento costuma ter mais benefícios do que contraindicações.

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Fonte: Revista Isto É – Edição 2519