EU ACHO …

O VÍRUS DA DESIGUALDADE NA EDUCAÇÃO

A defasagem entre os estudantes de baixa renda e os de instituições particulares requer de políticos e empresários atitudes que revertam a condenação dos menos favorecidos

A pandemia do novo coronavírus tem se revelado nada democrática no Brasil. Se a Covid-19 atinge a todos, indiscriminadamente, ela faz muito mais vítimas, causando milhares de mortes, entre as pessoas de menor renda. Como a doença desconhece classe social, a estatística revela apenas a nossa trágica e histórica desigualdade. Não que ela fosse anteriormente ignorada, mas a realidade sinistra das cerca de 90.000 mortes em poucos meses sublinha o drama nacional como poucas vezes ocorreu na história do país.

Nada e ninguém estão imunes ao poder destrutivo do inimigo comum. Invisível e descomunal como é, no entanto, tal poder tem sido amplificado pelo fator humano, que insere na triste equação a variável social. A diferença está entre ter ou não acesso a água encanada e esgoto tratado; entre ter ou não residência com cômodos suficientes para evitar aglomeração; entre ter ou não alternativa ao transporte público lotado. A crise sanitária espalha suas ventosas terríveis em todos os ambientes, da família à empresa, do espaço privado ao público, da fábrica à loja.

O setor educacional não é exceção. Com a pandemia, a desigualdade social no Brasil se tornou ainda mais escancarada em nossas escolas, justamente aquele que seria o meio mais adequado para se atingir o fim de maior justiça nessa seara, mediante o acesso democratizado à formação intelectual de uma nova geração. Em vez de cumprir sua melhor vocação, porém, o universo escolar acrescenta um item lamentável à lista de diferenças: aquela que separa os que têm dos que não têm oportunidade de frequentar escolas privadas.

Os colégios particulares conseguiram contornar bem os obstáculos colocados pela crise sem precedentes. Diante da impossibilidade de continuarem a oferecer aulas presenciais, foram ágeis ao desenvolver soluções de aprendizado remoto. Desde março, quando as atividades nas escolas foram suspensas, ferramentas digitais estão dando conta de transmitir conteúdo de qualidade a crianças e jovens matriculados em instituições privadas. É um público receptivo que, além da vontade de continuar aprendendo, tem à disposição internet com capacidade suficiente de transmitir o material didático.

O problema são os estudantes de baixa renda, sem condições de adquirir smartphones de maior potência, tablets e laptops – a parafernália eletrônica que hoje é sinônimo de aprendizado e oportunidade de ascensão social. São, em geral, jovens que também trabalham precocemente – muitos ajudando no sustento da família – e moram em casas sem a privacidade que se requer para a necessária concentração.

A defasagem acentuada entre uns e outros – entre os que têm e os que não têm – requer de políticos e empresários atitudes que revertam a condenação de tantos a um futuro incerto. A sociedade não pode assistir, inerte e anestesiada, ao desenrolar da crônica de uma calamidade anunciada.

Seria injusto, no entanto, afirmar que nada tem sido feito. Em São Paulo, a Secretaria de Educação vem realizando um trabalho exemplar para superar essa defasagem. O governo se mobilizou para criar um aplicativo que permite a interação de alunos e professores. Treinou o corpo docente e estabeleceu parcerias para mitigar os efeitos da falta de acesso à tecnologia. Uma delas foi firmada com o Grupo SEB, do qual sou fundador, para oferecer um curso preparatório, veiculado pela TV Cultura, para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a mais de 400.000 alunos da rede pública do estado. Ainda na esfera privada, o Instituto SEB oferece gratuitamente preparação para o vestibular a jovens de famílias com renda de até quatro salários mínimos, além de cursos de extensão e capacitação a seus pais. Embora sejam iniciativas pontuais, estão, acredito, na direção correta.

A pandemia gerou um forte movimento de solidariedade. Um dos sentimentos mais nobres da humanidade rompeu a retórica do politicamente correto e ganhou concretude robusta. Desde o início do isolamento social, empresas e pessoas doaram o equivalente a mais de 6 bilhões de reais em dinheiro, produtos e serviços, de acordo com a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR). O brasileiro mostrou que, quando necessário e urgente, reage com generosidade e à altura do desafio.

Pois a educação, como a saúde, também se encontra abatida, de joelhos, e não é de hoje. Não podemos esperar uma crise de proporções pandêmicas para agir, sob pena de atingirmos o ponto de não retorno. A sociedade como um todo – e não apenas os estratos de menor renda – é vítima das carências do ensino público. Afinal, a desigualdade no aprendizado inviabiliza, na prática, a aplicação da meritocracia, um princípio que pressupõe condições semelhantes de competição. Com isso, o país abre mão do seu melhor potencial, para prejuízo de todos. Se nada for feito, a conta será cobrada na forma de escassez de recursos humanos que garantam um crescimento sustentável do país. Cuidar do jovem de hoje é zelar pela sociedade de amanhã. Não é tarefa só do governo. Não é obrigação só do empresário. A responsabilidade é de todos. Cada um tem de fazer a sua parte, sob pena ser condenado, moralmente, por crime de omissão.

Da perspectiva médica, a pandemia do coronavírus é imparcial, exceção feita a fatores naturais, como idade e comorbidades. Não há razão para agravarmos a situação, introduzindo um componente social. Ao contrário. A crise pode ser a catarse que faltava para nos alertar em relação a algo que estava errado desde sempre. É hora de estreitar diferenças, não de ampliá-las. É hora de diminuir abismos, não de cavar mais fundo o chão da desigualdade.

***CHALM ZAHER é empresário do setor de educação e fundador do Grupo SEB

OUTROS OLHARES

DEIXA PARA AMANHÃ

O que não foi cancelado foi remarcado. A pandemia impôs readequação do calendário de festas, manifestações e eventos de todos os tipos

A pandemia do novo coronavírus se transformou na principal razão para mudança no calendário mundial. A necessidade de se manter o distanciamento social, condição básica para se diminuir a disseminação do vírus, obrigou que os eventos convencionais tivessem suas datas mudadas. As aulas escolares, os encontros religiosos e de negócios, as feiras e exposições, as realizações esportivas e culturais, na área turística, nos passeios em parques e em museus, e até as campanhas políticas, visando às eleições municipais deste ano, foram reagendadas. O sagrado dialogo olho no olho com o eleitor teve que mudar de data: o pleito originalmente marcado para 4 de outubro foi adiado em um mês, Até mesmo o réveillon na praia de Copacabana no Rio de Janeiro, pode ser cancelado por causa da pandemia.
As autoridades impuseram, já no início da quarentena, em março, mudanças que evitassem eventos com grandes aglomerações. As escolas, em geral, onde a proliferação da Covid-19 seria incontrolável se as aulas tivessem sido mantidas, estão fechadas há três meses. Em São Paulo, a previsão de retorno será gradual iniciando em setembro. Também na capital paulistana, o prefeito Bruno Covas e os vereadores anteciparam alguns feriados, com a finalidade de deixar as pessoas em casa e reduzir a circulação, o que, consequentemente, deixou as datas comemorativas descaracterizadas, mas com mais segurança para a saúde das pessoas.

Um dos principais eventos de entretenimento, a Virada Cultural, que se desenvolve por toda a cidade de São Paulo, conta com a participação de cinco milhões de pessoas, gerando uma receita de R$ 235 milhões e, talvez, seja realizada no final de setembro. Segundo Gabriela Fontana, coordenadora de programação da prefeitura paulistana, o desafio para a gestão da pasta da Cultura municipal é encontrar outras formas de chegar até as pessoas. “Vamos proporcionar conteúdo artístico sem gerar aglomeração”, diz. A intenção de respeitar os protocolos de saúde criados para que as pessoas não fiquem expostas, “os artistas podem performar em palcos móveis e o pessoal acompanhar das janelas, por exemplo”, contou. Os estudos para a realização dos eventos de rua também se baseiam nas manifestações internacionais, como o festival de música, em Paris. “Nós acompanhamos o que está sendo feito na Europa, com menos gente”, diz Fontana. No caso da Parada do Orgulho LGBT, uma das maiores manifestações populares de rua do mundo, que inicialmente se realizaria em 14 de junho, acabou migrando para internet na forma de múltiplas lives e seu formato presencial deve ser realizado em novembro.

Na esfera esportiva, o futebol é o carro chefe, correspondendo a 0,72% do PIB nacional, algo em torno de R$ 52 bilhões ao ano. Apesar de algumas iniciativas de retorno às atividades na Europa, especialmente na Alemanha, no Brasil não há previsão de voltarmos a ouvir os cânticos das torcidas, seja em estádios ou em ginásios. Para Rodolpho Luiz, professor na Escola de Propaganda e Marketing, o que os clubes e empresas devem buscar é o diálogo nesse momento de crise. “Devemos negociar melhor os patrocínios, aumentar a exposição das marcas na internet, por exemplo, pois as marcas continuam fortes”, diz.

IMPACTO NOS EVENTOS

Além disso, as feiras e exposições tiveram suas agendas remarcadas, a exemplo da Comic Con, evento de tecnologia, que movimenta R$ 265 milhões e que acontece em São Paulo. Ela foi remarcada de abril para a primeira semana de dezembro. No cenário internacional, a cúpula do BRICS havia sido planejada de 21 a 23 de julho, em São Petersburgo, na Rússia, mas o evento foi adiado e ainda não há uma data definida. As reuniões dos líderes de cada país que compõe o grupo são importantes para definir estratégias geopolíticas em vários setores de cooperação internacional. O que todos esperam é que a Covid-19 arrefeça e os eventos possam acontecer.

OUTROS OLHARES

BELEZA NATURAL

Cuidados com o cabelo, unhas etc. deixaram de ser prioridade para muitas mulheres, que reinventaram um novo modo de autoestima em tempos de isolamento

”Não existem mulheres feias, apenas mulheres preguiçosas”, disse a polonesa Helena Rubinstein (1872-1965), a célebre empresária do ramo de cosméticos. Revelar a própria beleza, portanto – algo indissociável de toda mulher -, dependeria apenas de não ceder a alguma eventual prostração. Por isso, tome arrumação de cabelo, pintura de unhas, batons, cremes etc. etc. Em tempos de quarentena, no entanto, com parte do planeta submetida ao distanciamento social para frear a propagação do novo coronavírus, todos aqueles cuidados deixaram de ser prioritários no dia a dia das mulheres (sim, fiquemos aqui no terreno feminino, embora o desassossego com a aparência não exclua os homens, em face, por exemplo, das portas cerradas das barbearias).

Assoberbadas de trabalho – profissional e doméstico – dentro de casa, e diante das exigências de confinamento, muitas mulheres buscam às vezes soluções inusitadas para se cuidar, como a que se vê na foto no alto, feita em Amsterdã, na Holanda. A verdade, contudo, é que elas se sentem impossibilitadas de dar a si mesmas a atenção estética, digamos desse modo, de que gostariam. Não se trata, porém, é claro, de desleixo, de desapego – ou, em uma palavra, de preguiça. E as mulheres, aos poucos, estão começando a entender isso melhor.

Para a psicanalista Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o que está ocorrendo em virtude da pandemia é um processo de inversão de valores. “A máxima do culto ao corpo martela: ‘Para que conviver com defeitos se posso mudá-los?’. Agora, diante do novo coronavírus, que já alcançou o mundo inteiro, essa lógica não faz o menor sentido. O olhar passou a ser direcionado para a sobrevivência e não mais para a aparência”, explica ela.

Antes do afastamento social, toda vez que a publicitária Julia Velo aparecia na agência onde trabalha sem nenhuma pintura no rosto, os colegas, relata ela, chegavam a perguntar se estava doente. “Era impossível sair de casa sem colocar a máscara de mulher bem cuidada. Hoje em dia, quando me olho no espelho, sinto orgulho de tudo o que faço para cuidar de mim e da minha família, mesmo que pareça esteticamente ‘quebrada’”, assegura a jovem, que vive com o namorado em São Paulo. Fios brancos de cabelo, olheiras, espinhas — tudo passou a poder ficar exposto aos olhos de quem se acostumou a esconder as imperfeições, os “defeitos” do corpo. “É preciso se sentir bem consigo mesmo para conseguir cuidar melhor do outro, como o momento exige”, acredita a publicitária.

A opinião é compartilhada com a atriz Lila Guimarães, criadora do blog Cena Crua, no qual publica posts sobre beleza natural. Passando a quarentena em São Bento do Sapucaí (SP) com o marido e a filha de 1 ano e 9 meses, Lila aposta numa renovada da autoestima para atravessar a pandemia. “Quem faz uma máscara de argila no rosto quer ficar mais bonita, é óbvio. Mas, ao mesmo tempo, está olhando para dentro de si. Olho para o espelho e vejo o reflexo de uma circunstância histórica, o terrível surto que estamos vivendo. Então, não vou me exigir ficar incrível. Vou me exigir ficar saudável”, afirma a atriz.

Desde o início do confinamento social, a maquiadora Vanessa Rozan diz que percebeu no instituto Liceu de Maquiagem, fundado por ela na capital paulista, dois movimentos: um, de desapego dos cosméticos, com o devido detox dos produtos; e o outro, que o sucede em alguns casos, marcado pelo resgate da rotina de procurar se embelezar, só que no ambiente familiar, o que pode ajudar até a diminuir a ansiedade. “Muitas mulheres passaram a fazer maquiagem em casa para dizer: ‘Comecei o dia’”, atesta Vanessa. Anos de imagem retocada evidentemente não passam impunes, observa ela. “A hora é de autoaprendizado e reaprendizagem”, sublinha.

A lição, entretanto, não precisa ser pesada. Na quarentena, a publicitária Julia se lembrou de quando, ainda menina, usava os cosméticos da mãe. “A maquiagem voltou para o lugar da brincadeira. Não ‘tenho de’, mas pode ser divertido me ver com um batonzão vermelho.” Alguém discordaria da naturalidade dessa beleza?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE AGOSTO

A RESTAURAÇÃO DO CAÍDO

Ora, o Deus de toda a graça… vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar (1Pedro 5.10).

Pedro negou a Jesus e desistiu de ser discípulo, mas Jesus não desistiu de Pedro. O que Jesus fez para restaurá-lo? Primeiro, Jesus tomou a decisão de procurar Pedro. A ovelha perdida não volta para o aprisco sozinha. Aqueles que tropeçam e caem não se recuperam sozinhos de suas quedas vergonhosas. Jesus nos ensina a ir ao encontro dos caídos. Precisamos tomar a iniciativa. Não é a ovelha ferida que procura o pastor, mas o pastor que vai em busca da ovelha perdida. Jesus não apenas nos ensinou essa verdade; também a praticou, dando-nos o exemplo. Segundo, Jesus tomou a decisão de não esmagar Pedro. Talvez o que Pedro mais esperasse fosse uma reprimenda severa de Jesus. Pedro havia prometido ir com Jesus até a morte, mesmo que os outros discípulos o abandonassem. Sua arrogância tornou-se notória. Achando-se mais forte que os outros, tornou-se mais fraco. Sua autoestima estava no pó. Ele se sentia o pior dos homens. Jesus, então, o procurou, mas não para esmagá-lo como uma cana quebrada. Ao contrário, preparou-lhe uma refeição, conversou com ele discretamente e fez-lhe perguntas endereçadas ao coração. Jesus abriu-lhe o caminho da cura e da restauração. É assim que Jesus faz com você também. Hoje mesmo o Senhor convida você a voltar-se para ele em arrependimento e fé.

GESTÃO E CARREIRA

DÊ O PLAY

Quando bem usados, os jogos ajudam as empresas a treinar os funcionários e a aumentar a mentalidade inovadora e o engajamento. Mas, como em todo game, a iniciativa só dá certo seguindo algumas regras

Já faz alguns anos que o mercado de games está em expansão pelo Brasil e pelo mundo. E o isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus impulsionou o setor ainda mais: em março de 2020, o gasto global com jogos eletrônicos chegou a 10 bilhões de dólares, um recorde mensal, de acordo com a Superdata, empresa da consultoria Nielsen especializada em games. Mas os jogos não precisam ser usados apenas por diversão: eles são ferramentas úteis para os negócios em várias frentes, como treinamento, engajamento e inovação.

Quando se trata de educação corporativa, os jogos parecem ajudar muitos a prender a atenção dos funcionários. Uma pesquisa publicada no Journal of Education for Business, em 2018, constatou que 67% dos empregados ficam mais motivados quando participam de treinamentos gamificados. Outro levantamento, feito pela consultoria americana Talent LMS em 2019 com mais de 1.000 funcionários de empresas de diferentes segmentos mapeou que 89% das pessoas se sentem mais produtivas quando há jogos nos cursos e 88% se sentem mais felizes quando podem aprender brincando. Para Adriano Mussa, reitor da escola de negócios Saint Paul, o artifício faz ainda mais sentido para gerações jovens. “De joguinhos de celular a consoles poderosos, os games fazem parte do cotidiano e do estilo de vida dos jovens”, diz.

No Brasil, a técnica já é usada por grandes companhias, principalmente pelas startups e as que atuam nos setores de tecnologia e educação. “Praticamente todas as grandes empresas já utilizam processos gamificados em suas rotinas”, diz Laila Aaltonen, diretora da Green Hat People, multinacional sueca que atua com gamificação e microlearning.

A REGRA É CLARA

Embora seja uma prática interessante e que gera bons resultados em termos de atenção e engajamento, os games precisam ser usados com cuidado e seguir algumas regras. Se a empresa estiver com problemas como falta de colaboração entre empregados, mentalidade pouco inovadora ou desalinhamento de processos, o jogo não vai funcionar. E, pior, corre o risco de aumentar as fissuras. Além disso, o game não pode se tornar um dever. “Obrigar a jogar é má ideia”, diz Brian Burke, analista da consultoria Gartner e autor de Gamify Hour Gamification Motivates People to Do Extraordinary Things.

Também é preciso tomar cuidado com a infantilização. Abuso de personagens, excesso de cores e roteiros fabulosos podem pegar mal, dependendo da audiência que se quer atingir. “É preciso dosar o nível de ludicidade oara os diferentes públicos, primar por uma interfaxe amigável, sem muitos elementos, evitando cartuns animados e humor desnecessário”, diz Laila

Além disso, é necessário ter clareza sobre as metas por trás do jogo, para que a forma não se sobreponha ao conteúdo. “Se não houver objetivo, é só liberar o videogame, o que estimula a competição e a camaradagem. Um game precisa trazer resultado efetivo para o negócio”, explica Flora Alves, especialista em gamificação e diretora jurídica da SG Aprendizagem Corporativa.

É CARO?

Gamificação não é propriamente o jogo, mas usa de elementos de recepção (como recompensas, desafios e interatividade) dentro das empresas. Por isso, o valor de investimento varia. Os projetos mais ostensivos – como óculos de realidade virtual, drones e equipes jogando simultaneamente em vários países – podem custar até 1 milhão de reais. Mas existem alternativas bem mais em conta e que também geram ótimos resultados.

Uma delas foi usada pelo Grupo Mateus, rede de supermercados maranhense com lojas no Pará e no Piauí, que tem mais de 20.000 funcionários. A companhia precisava ampliar o alcance do Mateus, aplicativo de descontos aos clientes. Para isso, dez pessoas de diferentes áreas da empresa (RH, marketing, desenvolvimento e vendas) participaram de uma imersão numa consultoria de gamificação.

A princípio, o time chegou lá achando que o importante seria criar um desafio, em forma de jogo, para que os clientes do supermercado tivessem mais pontos de descontos no aplicativo. Conversando entre si, a equipe entendeu que o problema não era fazer o consumidor usar o app, mas aumentar o número de downloads – que estava baixo. Com as dinâmicas, concluiu-se que o desafio só seria superado envolvendo quem está no trato diário com os clientes: os operadores de caixa. Melhor ainda se eles fossem envolvidos em um jogo para aumentar o engajamento.

O game em questão demandou apenas a tecnologia do Excel. Funcionou assim: se os caixas convencessem os consumidores que já podduiam o app no celular a digitar seu CPF no momento da compra, ganhariam 1 ponto por cada cliente conquistado. O convencimento a fazer o download e a habilitação do aplicativo valia 10 pontos. Os caixas anotavam os CPFs dos clientes numa planilha e, ao fim do período estabelecido, os operadores com pontuação mais alta recebiam uma bonificação de até 100 reais. Os testes foram executados na maior loja do grupo, e os resultados surpreenderam. Em uma semana, houve um aumento de 33% nas compras feitas pelo app, e os clientes dos 15 primeiros colocados no ranking de atendimento usaram a ferramenta 400% mais. “Vamos criar um jogo para os clientes agora”, diz João Gabriel, gerente responsável pelo app.

BRINCANDO DE CEO

Com mais de 30.000 funcionários, a Gerdau encontrou na gamificação uma maneira de ajudar os empregados a desenvolver pensamento estratégico. A empresa desenvolveu o GLead, que traz situações de tomadas de decisões gerenciais e estudos de caso que auxiliam na aderência de valores entre companhia e  empregados – o algoritmo do jogo mapeia se as respostas estão mais ou menos alinhadas aos princípios da companhia, Além dos desafios, os usuários também contam com textos de apoio, gráficos e vídeos. “O game coloca os jogadores no papel de CEO de uma empresa fictícia. E eles devem tomar de 10 a 15 decisões para melhor gerir a empresa em diversas situações”, explica Lísia Simon, gerente de desenvolvimento humano da Gerdau.

O objetivo é fazer com que os profissionais realmente aprendam na jornada digital – e usem os novos conhecimentos para crescer na carreira. “Ao fim do jogo, todos recebem feedback com sugestões de trilhas de desenvolvimento e comportamentos mais assertivos na direção que a empresa planeja e deseja”, diz Caroline Carpenedo, diretora de pessoas da Gerdau. De acordo com a executiva, isso acelera a formação, o que faz com que os participantes sejam promovidos e convidados a participar de projetos em outras áreas.

CINCO FASES

O que considerar no processo de gamificação

1 – É NECESSÁRIO

O game só deve ser adotado para resolver um problema, e não por ser divertido

2 – CHAME OS PROFISSIONAIS

Há ciência e metodologia por trás dos games. Implantar um jogo corporativo sem embasamento ou foco corretos pode ser desperdício de tempo e de dinheiro. Por isso, contrate especialistas para desenvolver as trilhas ideais.

3 – PENSE NO PÚBLICO

Cada audiência precisa de um estilo de jogo específico para se engajar nos desafios. Fuja de games que não possam ser padronizados para as necessidades e o perfil de sua empresa.

4 – INTEGRAÇÃO PURA

Os games só têm sentido quando dão feedbacks rápidos a cada etapa superada. Além disso, os jogos geram dados interessantes sobre os usuários – que devem ser lidos pelo RH.

5 – NEM TUDO VIRA JOGO

Temas delicados ou tecnicamente muito complex0s nã0 funcionam tão bem em jogos. Assédio sexual e racismo, por exemplo, fazem mais sentido quando debatidos por meio de rodas de conversas ou palestras com especialistas.

QUE COMECEM OS JOGOS

A consultoria Talent LMS ouviu 900 profissionais para entender qual é a relação entre games e engajamento. Veja os resultados:

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LIDANDO COM OS ERROS

Todos os dias são oportunidades para começarmos de novo

É interessante notar as diferentes formas com que Judas e Pedro lidaram com seus erros. Os dois negaram e traíram Jesus diante dos outros. Judas o vendeu aos sacerdotes fariseus e Pedro negou conhecê-lo ao ser confrontado. O objetivo era a autopreservação. A motivação, o medo. Mas eles foram diferentemente tocados por suas ações. Judas não lidou com sua falha e se enforcou. Pedro, quebrantado chorou. Judas fez justiça com suas próprias mãos, Pedro confiou no Cristo para perdoá-lo. Um terminou sua vida, o outro terminou com velha vida e começou uma nova. Pedro era de fato a rocha, mas uma rocha que quebrou, para que Cristo o alcançasse. Como um homem “quebrado”, Pedro recebeu a Graça, sendo reestabelecido como discípulo com uma nova comissão. Diante de um erro, tornamo-nos nosso promotor e juiz, sentenciamo-nos a condenação e a constante necessidade de expiação. Judas encontrou na morte, como punição máxima, a redenção de seu pecado. Pedro encontrou vida na presença de Jesus e por Sua Graça foi remido. Ações erradas não sublimam diante do perdão de Cristo, lidamos com todas as consequências, a diferença é que ao contrário de Judas, ainda que falhos, o amor de Deus permanece incondicional. Ele não muda diante de nossas escolhas, mas nós somos transformados quando escolhemos Seu perdão. Buscar o perdão de Cristo e acreditar que Ele é o único a fazê-lo é um prelúdio de profundas mudanças em nossas vidas através de Seu amor. A Palavra de Deus nos ensina que as misericórdias do Senhor se renovam em nossas vidas todas as manhãs. Diante disso, podemos concluir que todos os dias são oportunidades para começarmos de novo e isso significa que podemos escolher a forma com que lidamos com nossos desafios, como Judas, sendo nossos verdugos, ou como Pedro, nos voltando ao nosso criador, como filhos pródigos que retornam aos braços do Pai.

CÁSSIA DE FIGUEIREDO FREITAS, como Pedro, depende e busca diariamente o amor vivificador do Pai, através de Jesus, o Cristo.

cassiafreitas7@gmail.com

OUTROS OLHARES

APERTE A TECLA ZEN

O número de seguidores das aulas on-line de ioga se multiplicou na quarentena, popularizando uma prática milenar que acalma – mas, se malfeita, também pode machucar

Pessoas isoladas buscando transcender a própria existência unem duas situações separadas por milênios: a criação da ioga por volta de 3.500 a.C. e as aflições de quem, neste 2020, teve a vida revirada de cabeça para baixo (esta, aliás, uma postura típica da prática nascida na Índia) pelo novo coronavírus. Com tempo disponível, necessidade de atividade física e encanto pelas poses de celebridades no Instagram, homens, mulheres e crianças enfurnados em casa pela quarentena pegaram seu tapetinho e se puseram a se esticar e se dobrar nas aulas de ioga a distância como se não houvesse amanhã. No Google, a procura por “ioga on-line” foi, neste primeiro semestre, 25vezes maior do que em igual período do ano passado. O número de alunos inscritos em cursos no YouTube e outras plataformas cresceu 160% entre os adultos e inacreditáveis 4.500% entre as crianças. “A ioga, com sua imagem de antídoto contra o stress, foi a porta usada por muita gente para tentar se adaptar à mudança de rotina”, diz o professor Cario Guaragna.

Além da modelo Gisele Bündchen, que há anos publica fotos fazendo ioga em locais idílicos, famosas como Isis Valverde, Fernanda Lima e Grazi Massafera rechearam o Instagram de posturas (difíceis de reproduzir) durante a quarentena. “Temos tendência de estar sempre no passado ou no futuro, o que cria ansiedade. A ioga nos traz para o estado presente”, elogia Grazi. Com tal incentivo, Guaragna diz que o curso que oferece em rede social saltou de 60.000 para 113.000 seguidores nos últimos meses. “As pessoas se inspiram em outras, mas acabam desenvolvendo sua individualidade. O autoconhecimento que a ioga proporciona é justamente o caminho para cada um se aproximar de suas autenticidades”, ensina. A designer de moda Roberta Tordin, 41 anos, que nunca foi fã de exercício físico vigoroso, conta que tentou primeiro a meditação, sem sucesso, antes de aderir à ioga on-line. “Nunca pensei que ia fazer uma atividade sozinha, na minha casa, e me sentir bem. Ela serviu para me acalmar quando a pressão ficou muito pesada”, descreve.

Precursora de videoaulas de ioga em português no YouTube, onde mantém um canal há seis anos (atualmente, o maior do Brasil), Pri Leite viu seu número de inscritos, que já não era pouco, mais que dobrar, de 310.000 para 740.000. “Em geral, são pessoas que têm interesse em alinhar o autoconhecimento com o autocuidado”, explica. Pri, que mora em Los Angeles, comemora a descoberta da ioga a distância e acha que o interesse será duradouro, até porque na internet as aulas ou são gratuitas ou bem mais em conta do que as dos estúdios, com mensalidades que variam de 90 a 300 reais. Boa parte dos novos fãs da milenar prática oriental é de pequenos presos em casa, com pouco ou nada para fazer e precisando gastar energia. A professora Nataly Pugliesi, de Campinas, interior de São Paulo, conta que antes da pandemia dava aulas extracurriculares a duas turmas. Com o fechamento das escolas, a disciplina entrou no currículo e o número de alunos explodiu. “Antes eu tinha uns trinta alunos. Agora, até 200 crianças passam por mim semanalmente. As mães notam que, sem perceber, elas se acalmam”, relata Nataly.

Para os alunos, a opção pela ioga on-line, com o pouco material e o espaço pequeno que exige, o preço mais baixo (ou zero) e a promessa de menos stress, não foi difícil. Já os professores mais conservadores resistiram de início ao curso a distância, considerando que ele privilegia o esforço físico em detrimento da concentração. Marcos Rojo, ph.D. em ciência da ioga que lecionou a prática durante mais de 35 anos na Universidade de São Paulo, relutou, mas aderiu às aulas pelo aplicativo Zoom. “O aprendizado ficou muito mais acessível e abrangente. Atualmente tenho alunos de Salvador a Chicago”, diz. No entanto, ele insiste em que as aulas têm de ser muito bem conduzidas, para que a precisão no exercício possa ser alcançada. “Algumas técnicas possuem sutilezas de execução quase impossíveis de ser ensinadas a distância. Nunca consigo ir tão longe quanto na aula presencial, quando eu posso ‘sentir’ o meu aluno”, explica.

Outra preocupação dos profissionais, como em qualquer exercício físico, é o risco de lesões. Na prática diante da tela, é importante respeitar os limites do corpo e evoluir conforme esses limites. “As dificuldades nas posturas, no início, são normais. É preciso ter sempre o acompanhamento de um instrutor para superar e aprender certo”, alerta a professora e youtuber Fernanda Yoga, que tem 260.000 pessoas inscritas no seu canal, cinco vezes mais do que antes da quarentena. No mais, é inspirar, expirar e se concentrar em alcançar a calmaria no meio do caos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE AGOSTO

FILHOS REBELDES, PAIS AFLITOS

O filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe (Provérbios 10.1).

Não há maior alegria para um pai e uma mãe do que ver seus filhos andando na verdade. Bem- aventurados são os pais cujos filhos têm ouvidos para ouvir os conselhos da sabedoria. Infelizes são os pais cujos filhos escarnecem dos princípios aprendidos dentro do lar. Os filhos são a maior fonte de prazer ou a maior dor de cabeça dos pais. Há filhos que não honram nem obedecem aos pais. São ingratos e rebeldes que magoam os pais durante a vida e depois os abandonam na velhice. Há filhos que nunca tiveram ensino nem exemplo dos pais. Outros, porém, mesmo recebendo boa doutrina e tendo testemunho irrepreensível dos pais, escarnecem dessa herança e enveredam-se por caminhos perigosos. Filhos rebeldes atraem sobre si mesmos maldição. Associam-se a más companhias, apressam-se para fazer o mal e encurtam seus dias sobre a terra. Os filhos do sacerdote Eli, Hofni e Fineias, mesmo criados na Casa do Senhor, foram jovens irreverentes, profanos e adúlteros. Perderam o temor do Senhor e taparam os ouvidos à voz da advertência. A vida deles foi um pesadelo para o pai e uma maldição para a nação. Cabe aos pais ensinar os filhos no caminho em que devem andar, criando-os na disciplina e admoestação do Senhor. Cabe aos filhos amar a Deus, servir a Cristo, obedecer aos pais e andar pelas veredas da justiça.

GESTÃO E CARREIRA

A VITÓRIA DO TRABALHO REMOTO

O que era provisório vai se tornar permanente. O aumento de produtividade dos funcionários e a redução de custos levam empresas a adotar o teletrabalho de forma definitiva.

O trabalho remoto, por razões óbvias, cruzou o Brasil de maneira acelerada desde o início da quarentena, em março. Desconhecido na prática pela maioria e desejado por muitos profissionais, o modelo precisou ser adotado às pressas por indústrias, empresas, comércios e repartições públicas – uma das poucas boas notícias do mercado de trabalho nos últimos meses. Mais do que manter o ritmo dos negócios e evitar demissões, o teletrabalho proporcionou economia de tempo e de recursos financeiros, poupou desgastes físicos e emocionais em meio à pandemia e tem sido visto por patrões e empregados como uma alternativa segura e viável em um futuro de incertezas.

Mais do que oferecer uma nova perspectiva sobre a importância da casa na rotina das pessoas, o trabalho remoto tem propiciado aumento de produtividade dos funcionários. Pesquisa da consultoria KPMG com 700 executivos brasileiros mostra que, para 24,5% deles, houve crescimento de 20% no rendimento, enquanto quase metade deles (49,5%) afirmou que o nível de eficiência se manteve. Isso significa três em cada quatro lideranças.

O resultado não poderia ser outro. O que era provisório vai se tornar permanente em muitas empresas. Algumas delas já decretaram que o formato será definitivo, outras delegarão ao funcionário a decisão de continuar em casa ou optar por uma forma híbrida, em home office parcial, com alguns dias presenciais. O Google, gigante da tecnologia, por exemplo, surpreendeu na segunda-feira ao anunciar a extensão do sistema ao menos até 30 de junho de 2021. A posição da empresa americana, anunciada via e-mail pelo CEO, o indiano Sundar Pichai, pretende ajudar os colaboradores com crianças em casa e que poderiam ter dificuldades para retornar. A medida, no entanto, é opcional nos 70 escritórios em 50 países.

A decisão de Pichai vai beneficiar os 200 mil funcionários da organização pelo mundo. “Ninguém (dos 1 mil colaboradores brasileiros) vai ao escritório desde o dia 13 de março”, afirmou o presidente do Google no Brasil, Fabio Coelho, na quarta-feira, em live promovida pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Para o executivo, a pandemia redefiniu o papel da casa na vida das pessoas, e a função da tecnologia foi essencial para que pudessem estudar, trabalhar, se informar, tomar decisões. “E quando sairmos dessa situação, aprenderemos também que podemos ter uma rotina de trabalho que combine o presencial com o a distância. Que precisamos estar com as pessoas por uma questão de socialização, de transferência de valores, de interação.”

DEFINITIVO

Na Housi, startup 100% digital especializada no aluguel de empreendimentos residenciais em nove capitais, o aumento da eficiência dos cerca de 100 colaboradores na quarentena animou o CEO Alexandre Frankel, que devolveu o espaço alugado pela empresa em um coworking em São Paulo e adotou o trabalho remoto em definitivo. A decisão garantiu à empresa uma economia mensal de R$ 100 mil apenas com o aluguel. “Quando necessitamos de um espaço físico utilizamos uma das propriedades que a Housi aluga”, disse Frankel, também fundador e CEO da construtora Vitacon.

O aumento da produtividade dos colaboradores também foi constatado pelo Banco BV. Segundo Ana Paula Tarcia, diretora de Pessoas e Cultura, as áreas de operações e crédito, por exemplo, registraram crescimento de 15% desde março. “Os setores já estavam adaptados ao modelo”, afirmou. Apesar de ter implantado o trabalho remoto aos 4 mil funcionários pelo Brasil – sendo 2,5 mil em São Paulo e o restante distribuído por 40 lojas em outros estados –, a empresa já adotava o home office havia três anos, com variação de um a três dias de atividade remota dependendo da função.
De olho nos índices sobre a evolução da pandemia pelo País, a instituição financeira planeja o retorno gradual dos funcionários aos escritórios a partir de setembro. A instituição tem realizado pesquisa com os seus profissionais para definir a retomada. Certo mesmo é que o trabalho remoto será ampliado e o BV admite enxugar a estrutura física. Já o quadro colaborativo será ampliado com a contratação de 50 pessoas.

ECONOMIA

Pesquisa on-line com 800 trabalhadores de escritórios brasileiros desenvolvida pela consultoria Robert Half revelou que, para 81,36% deles, a economia de tempo e dinheiro em deslocamentos está entre os principais atrativos do trabalho remoto. O diretor de recrutamento da empresa, Lucas Nogueira, chama atenção ainda ao fato de muitas empresas estarem repassando o valor correspondente ao vale refeição para o vale alimentação dos funcionários, o que tem ajudado na hora das compras. “Já as companhias têm reduzido os custos físicos, principalmente nos grandes centros, com a devolução de espaços de escritórios, vagas de estacionamento e o fim das taxas de condomínio e de energia elétrica”, afirmou. O Banco do Brasil, por exemplo, pretende devolver 19 dos 35 prédios de escritórios. Com 32 mil colaboradores em atividade remota, a instituição vai economizar R$ 1,7 bilhão em 12 anos. “É como se o pai tivesse jogado a criança na água. E ela teve de se virar para não afundar”, disse Nogueira, que vê duas grandes lições da pandemia ao mundo do trabalho: a capacidade de adaptação dos funcionários e das organizações e o papel relevante do “senso de dono” nas atividades futuras. “É aquele que sabe se organizar, não precisa de chefe para ficar cobrando e tem ideia do impacto do trabalho dela na empresa. Ela será mais valorizada no futuro.”

EU ACHO …

OS EFEITOS DA EXCLUSÃO FINANCEIRA NA PANDEMIA

O quadro do novo coronavírus no Brasil prejudica desproporcionalmente as classes mais baixas. E existem razões que tornam a Covid-19 mais mortal para os brasileiros com menor renda

Segundo estudo publicado pelas economistas Luiza Nassif Pires, da Bard College (EUA), e Laura Carvalho, da USP, em parceria com a médica e pesquisadora Laura de Lima Xavier, da Universidade Harvard, pessoas que pertencem às classes socioeconômicas menos favorecidas têm, proporcionalmente, mais comorbidades como hipertensão, obesidade e diabetes. Esses indivíduos têm naturalmente maior probabilidade de apresentar problemas de saúde e menos acesso a hospitais.

Soma-se a isso o fato deque trabalhadores de menor renda têm poucas oportunidades de se isolar prestando serviços remotamente. Isso porque muitas das atividades que exercem nem sequer podem ocorrer fora do local físico de trabalho. É o caso de serviços como limpeza, operação de máquinas ou segurança. Um estudo recente apontou que, na região Norte, para cada trabalhador capaz de realizar suas atividades em regime de home office há cinco que desempenham funções presenciais. Além de mais numerosos, são também mais vulneráveis por estarem expostos ao transporte público.

Dados do Ministério da Saúde apontam que a desigualdade também atinge a política de testes no Brasil. Até maio, apenas 52,8% dos casos foram confirmados por laboratórios públicos.

Outra causa, quase oculta e por isso pouco discutida, é a falta de acesso ao sistema financeiro. Dados do Ministério da Economia indicam que entre 35 milhões e 45 milhões de brasileiros não possuem conta corrente ou poupança. A inclusão financeira permitiria que mais pessoas comprassem produtos essenciais pelo e-commerce. A entrada no sistema financeiro também possibilitaria acesso a serviços populares de saúde por telemedicina. Não faltam exemplos de serviços oferecidos a preços populares, incluindo a possibilidade de avaliação de diversas enfermidades, bem como acompanhamento de casos suspeitos de Covid-19 para que a busca por tratamento seja feita antes do surgimento de sintomas avançados da doença.

Um estudo publicado pela The Lancet destaca que as regiões Norte e Nordeste são as mais afetadas pelo novo coronavírus. Essas regiões também são as que concentram as maiores porcentagens de adultos desbancarizados, com 40% e 37% da população não bancarizada, respectivamente, de acordo com os dados do alt.bank. A pesquisa mostra que mais da metade dos negros (55%) internados em hospitais no Brasil com SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), com confirmação de Covid-19, morreram. Em comparação, apenas 38% da população branca em situação similar perderam suas vidas. Não por acaso, 69% dos brasileiros sem banco são negros, de acordo com dados do Instituto Locomotiva.

Por tanto, todos os fatores estão relacionados entre si e também são conectados com aumento de mortes devido ao novo coronavírus. Quando avaliamos as taxas de desbancarizados no Brasil, a correlação é clara: aqueles que são excluídos do sistema financeiro sofrem desproporcionalmente de Covid-19.

FABIO SILVA – é diretor-geral do alt.bank no Brasil

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR TRÁS DAS PALAVRAS

O cérebro lida com um fluxo constante de sinais. Expressões, gestos e palavras revelam o que desejamos e pensamos

Nenhum pensamento desagradável passa pela mente do sr. K. enquanto ele caminha para o supermercado, pouco antes do horário de o comércio fechar. Mas ao entrar no estabelecimento registra o olhar fulminante da moça do caixa, ansiosa pelo final do expediente. No momento em que pega o cartão de crédito para pagar pelas mercadorias, a funcionária é incapaz de conter a explosão: “Chega tarde e, ainda por cima, sem dinheiro! Adoro quando isso acontece…”.

Nesse momento, uma torrente de informações o atinge. O rosto vermelho da moça, sua careta de desgosto e tom de voz grosseiro. Não resta dúvida: ela está mesmo furiosa! Os sinais explosivos que o sr. K. recebe são decifrados e avaliados e m diversas regiões do cérebro com a rapidez de um raio. Logo, também ele está irritado: “Quem ela pensa que é, essa idiota?”.

Há mais de um século, psicólogos e neurocientistas investigam a natureza das emoções e a forma como nossa mente as processa. Descobriram que a comunicação emocional desempenha papel importante no convívio social. Charles Darwin já suspeitava do sentido e do propósito da exteriorização dos sentimentos. A expressão facial típica que acompanha emoções básicas como alegria, raiva ou repugnância foi descrita por ele como um código herdado, capaz de incrementar a cooperação dentro de um grupo e aumentar as chances de sobrevivência.

Um grupo de jovens pesquisadores alemães tem investigado a fundo a linguagem de nossos sentimentos. São psicólogos, médicos e físicos que procuram resposta para a seguinte pergunta: como, afinal, o cérebro processa os sinais emocionais recebidos pelos diversos órgãos dos sentidos?

 Nossa vida emocional é governada de forma decisiva pelo chamado sistema límbico, conjunto de estruturas localizadas nas profundezas do cérebro. Ali, os estímulos sensoriais recebidos ganham coloração emocional particular. Como comprovam diversos estudos, trata-se de atribuição a cargo sobretudo da amígdala. Essa componente do sistema límbico em forma de amêndoa atua como o sinal de alarme, respondendo com mobilização total a estímulos sinalizadores de perigo: o corpo se arma para fugir ou atacar.

É diante dessa escolha que K. se vê no supermercado. A expressão facial da moça do caixa, seu tom de voz malcriado, o significado de suas palavras – todos esses sinais – são interpretados como ameaça. A consequência disso é que ele começa a suar, o coração bate mais forte e ele se prepara mentalmente para o contra­ ataque. Mas, antes mesmo que possa tomar consciência dos sentimentos sinalizados, outras regiões cerebrais devem entrar em ação – em particular áreas sensoriais mais externas do córtex. Elas se distribuem por todo o córtex cerebral, separadas de acordo com o sentido em questão: visão, audição e assim por diante.

A perda de certas funções em pacientes com lesões no cérebro sugere que os hemisférios cerebrais reagem de forma diversa às emoções. Pacientes com lesões do lado direito – resultantes, por exemplo, de derrame – podem perder a capacidade de reconhecer as emoções transmitidas por expressões faciais. Descobertas como essa conduziram à formulação da chamada “hipótese dos hemisférios”. Segundo ela, o hemisfério direito seria responsável pelos sentimentos, ao passo que o esquerdo responderia pela linguagem e pela lógica.

O psicólogo Richard Davidson, da Universidade Harvard, contesta a suposição. Com o auxílio de medições efetuadas com eletroencefalografia (EEC), ele descobriu que em pessoas tristes ou deprimidas o hemisfério direito é o mais ativo, enquanto nas mais alegres e felizes, o esquerdo revela maior atividade. É possível, portanto, que o hemisfério cerebral direito processe apenas emoções chamadas negativas, como o luto, o medo ou a repugnância, cabendo ao esquerdo a parte agradável de nossa vida emocional. Essa suposição ficou conhecida como “hipótese das valências”.

Qual teoria estaria correta, então? “Para responder a perguntas dessa natureza, é necessário um amplo esforço de pesquisa”, afirma a psicolinguista Johanna Kissler, da Universidade de Constança, Alemanha. “Por isso, submetemos pessoas a diversos estímulos – imagens ou palavras portadoras de carga emocional, por exemplo e, paralelamente, medimos a atividade cerebral.” Para tanto, os pesquisadores se valem de diferentes procedimentos: além do tradicional EEC, empregam o magneto encefalograma (MEC) ou a tomografia funcional por ressonância magnética (fMRI). A combinação desses métodos permite compreender com mais exatidão o processamento dos sentimentos no cérebro.

ATENÇÃO DIRECIONADA

Seu colega Markus Junghõfer lançou-se à investigação de como percebemos imagens de conteúdo emocional. Ele mostrou a pessoas saudáveis fotos contendo cenas neutras, repugnantes e estimulantes. O detalhe da apresentação foi o fato de as cenas cintilarem às centenas numa tela, sucedendo-se à razão de até cinco por segundo. A sequência veloz permitiu ao pesquisador medir até mesmo respostas brevíssimas do cérebro ao conteúdo emocional apresentado.

Os resultados mostraram que, 200 milissegundos após terem piscado na tela, as imagens com carga emocional deflagraram um pronunciado sinal elétrico no córtex visual, tão mais forte quanto mais provocativa a imagem em questão, fosse ela uma cena de sexo ou de perigo. Portanto, o conteúdo emocional dos estímulos sensoriais influencia rapidamente o processamento cerebral em regiões sensoriais mais externas.

“É plausível supor que o sistema límbico responde a estímulos-chave antes mesmo de a informação contida na imagem chegar ao córtex visual”, acredita Junghõfer. “A amígdala, por exemplo, poderia, em frações de segundo, dirigir nossa atenção visual para estímulos importantes.” A ativação do sistema límbico, verificada em medições com fMRI, favorece essa interpretação. Do ponto de vista evolutivo, tal reação­ relâmpago da “atenção direcionada” faz sentido: quem se afasta a toda velocidade de potenciais fontes de perigo ou se aproxima rapidamente de estímulos atraentes – de uma presa, por exemplo – aumenta suas chances de sobrevivência.

A sequência de fotos revelou ainda mais. O sinal cerebral mostrou-se nitidamente mais forte do lado direito, provavelmente porque as redes neuronais responsáveis por atenção e orientação espacial se situam no hemisfério direito. Mas o que acontece quando submetemos as pessoas a palavras ou frases de conteúdo emocional? Na maioria de nós, as áreas responsáveis pelo processamento da linguagem situam- se no hemisfério esquerdo. Nesse caso, será esse lado o mais ativo ou prevalece rá ainda assim o hemisfério direito?

Os pesquisadores de Constança examinaram também essa questão. Para tanto, em vez de imagens, apresentaram aos participantes adjetivos de cargas neutra, positiva e negativa. Mais uma vez, constataram a presença do já mencionado sinal elétrico imediato no córtex visual, em resposta a estímulos emocionais – agora, porém, com predominância do lado esquerdo do cérebro. Evidencia-se, pois, que a rápida ativação do sistema límbico faz com que os sinais recebidos sejam processados com mais precisão pelas regiões cerebrais correspondentes.

Outro integrante do grupo, o neurologista Dirk Wildgruber, baseou seus experimentos na entonação das palavras. Com frequência, o modo como dizemos as coisas transmite mais informação emocional do que o que estamos dizendo. Isso se verifica quando conteúdo e entonação se apartam um do outro, como no caso da ironia. “Adoro quando isso acontece…”, diz a caixa, mas K. compreende muito bem a crítica, porque percebe mais autenticidade no tom do que no enunciado. Aos participantes de sua experiência, Wildgruber apresentou frases como “Tenho visitado a Agnes todo fim de semana”, ditas por um ator ora com alegria, ora com frustração e ora de forma neutra. Elas foram gravadas e editadas em computador de forma a diferir apenas em altura e na duração das vogais. Isso bastou para que os ouvintes percebessem a força da expressão emocional.

SECREÇÃO REDUZIDA

No entanto, para percebê-la, precisam não apenas ouvir e compreender as frases, mas também dirigir sua atenção para a qualidade sonora de cada uma, armazenando-a na memória operacional. Tudo isso pode ser constatado na leitura dos padrões de atividade registrados pelas imagens de tomografia funcional. Além disso, a coloração emocional estimulou duas áreas do córtex – uma na porção frontal do cérebro, outra no lobo parietal – e, aliás, de modo mais pronunciado do lado direito.

“O êxito na diferenciação das entonações baseia-se, no entanto, em numerosas contribuições parciais dos dois hemisférios”, salienta o pesquisador, incitando à reflexão. Está claro, portanto, que não se pode afirmar de forma cabal se cabe de fato ao hemisfério direito a primazia no trato das emoções. Isso parece depender, antes, da modalidade sensorial em questão e de como se dá a estimulação.

No futuro, os pesquisadores pretendem investigar as perturbações no processamento dos sentimentos nas pessoas que sofrem de distúrbios psíquicos. Na Universidade de Mannheim, na Alemanha, a psiquiatra Gabriele Ende estuda pacientes deprimidos. Eles têm mais dificuldade de reconhecer os sentimentos dos outros, assim como de comunicar os seus próprios, supostamente em virtude da secreção reduzida de certos neurotransmissores no cérebro. Com o auxílio da espectroscopia por ressonância magnética (ERM), a pesquisadora mede os produtos do metabolismo no tecido nervoso dos pacientes. No hipocampo – região cerebral importante para a memória de longo prazo -, os depressivos exibem uma quantidade menor de metabólitos do neurotransmissor acetilcolina do que as pessoas saudáveis. Cabe agora descobrir se as mesmas disfunções na central de sentimentos do sistema límbico poderiam explicar a perturbação no processamento de emoções.

Embora ainda haja muito por pesquisar, uma coisa é certa: a noção popular de um hemisfério direito “emocional” oposto a um hemisfério esquerdo “racional” nada mais é que uma simplificação grosseira. É fato que muitos estudos mostram um processamento mais intenso de sinais emocionais do lado direito do cérebro, mas a comunicação emocional demanda tantos canais e processos parciais diferentes que a “hipótese dos hemisférios” pode, no máximo, almejar um grau restrito de acerto.

A comunicação emocional ainda é uma equação com muitas variáveis. Por experiência própria, sabemos que também nosso estado de espírito influencia a maneira como acolhemos os sentimentos alheios. Se K. tivesse sido promovido naquele dia, talvez pouco tivesse se importado com o mau humor da moça do caixa. Mas deixou-se contagiar pelo rancor da funcionária – ainda que tenha se arrependido logo em seguida.

EMOÇÕES INSTANTÂNEAS:

O cérebro reage de forma distinta diante de cada uma das imagens menos de 200 milissegundos depois de observá-las. A intensidade das reações registradas por encefalografia variada menos intensa à mais forte.

EU ACHO …

QUE EDUCAÇÃO VAMOS CONSTRUIR?

O isolamento social trouxe à tona algo que já estávamos percebendo: as escolas não estão preparadas para desenvolver os jovens para o futuro

Nesses 150 dias de quarentena por causa do novo coronavírus, muitos de nós vivemos tudo junto e misturado cm nossa casa – inclusive a educação dos filhos. E certamente essa experiência deixou claro que o futuro demandará outras qualidades e especialidades educacionais. Embora não seja novidade que muitas das escolas do país ainda estão presas ao “paradigma do conteúdo”, foi grande o impacto de ver nossas crianças e jovens estudando dentro de casa. É inquietante que elas sejam incentivadas a memorizar, durante horas a fio, diferentes conteúdos, desde as etapas de reprodução da água viva até fórmulas matemáticas complexas. Tudo porque o currículo escolar não pode ser perdido e porque ainda estamos presos a um conceito antigo de educação.

Mas talvez tudo isso gere um lado positivo para o futuro. Quero acreditar que esse quadro de complexidade imposto às escolas e às famílias esteja trazendo à tona os principais pontos que deverão ser discutidos no mundo pós-pandemia. Muita coisa está sendo testada agora, mas o maior saldo do que vivenciamos passará pela construção de planos de educação híbridos. Isso quer dizer que o saber será construído entre o mundo intelectual e o emocional – e não apenas entre o mundo físico e o digital.

O futurista Thomas Frey, um dos grandes pensadores sobre nosso mundo, explica de forma bastante clara por que precisaremos revisitar nossos sistemas educacionais. Ele diz o seguinte: “Estaremos vivendo nas próximas décadas em um mundo que exigirá pessoas de maior calibre moral e ético para fazê-lo funcionar”. Para isso, professores não vão atuar apenas na transferência de conhecimentos. A função dos educadores será fazer a arquitetura dos saberes utilizando as tecnologias como meio – e não simplesmente como um fim em si.

Entendo que temos uma grande oportunidade em nossas mãos. Devemos usar este momento de isolamento social e de homeschooling para ir muito além de encontrar a melhor forma de utilizar tecnologias digitais nas escolas. Nosso papel será, principalmente, o de refletir sobre as maneiras de trazer novos valores para as jornadas educacionais, pois precisamos urgentemente de alunos podendo se desenvolver integral e humanamente. E não ficar decorando fórmulas que serão esquecidas em breve.

Eu já disse isso aqui algumas vezes, mas repito porque é algo em que acredito muito: é da conexão do melhor da tecnologia com o melhor do humano que evitaremos distopias tecnológicas e educacionais. Só assim conseguiremos, enfim, preparar nossos jovens para que se tornem criadores de novos paradigmas para um mundo que necessita urgentemente de reinvenção.

LIGIA ZOTINI – pensadora e pesquisadora de futuro, é fundadora do Voicers. Tem uma carreira de 15 anos em tecnologia e de 20 anos em educação.ligia@voicers.com.br

OUTROS OLHARES

É VOCÊ QUEM PAGA

Em meio à pandemia, funcionários dos Correios entraM em greve. Motivo: a direção da empresa quer acabar com o “vale-peru”, o “vale-cultura”, “o bônus de férias” e outros privilégios

No Brasil, que sofre com a pandemia do coronavírus, milhões de trabalhadores perderam o emprego, mais alguns milhões tiveram o salário suspenso ou reduzido e outros tantos milhões estão vivendo à custa do auxílio emergencial do governo. Enquanto uns sofrem, outros lutam para manter suas benesses. Funcionários dos Correios realizaram uma assembleia em Brasília. Na pauta, a aprovação de um indicativo de greve – proposta que, num primeiro momento, chamou a atenção apenas por ocorrer numa situação absolutamente inoportuna. Mas ela ganha contornos de bandalha quando se verifica que a motivação dos trabalhadores para cruzar os braços é evitar o corte de determinados privilégios e beira o escárnio quando se descobre a que se referem os tais mimos.

Os Correios têm quase 100.000 funcionários, 6.000 agências espalhadas pelo país e um faturamento superior a 18 bilhões de reais, mas, nos últimos anos, enfrentam uma crise financeira sem precedente. Se fosse uma empresa privada, provavelmente teria fechado as portas, abatida por um prejuízo que ultrapassa 2,4 bilhões de reais. Seguindo os manuais ortodoxos de administração, a estatal decidiu recentemente promover uma série de cortes de despesa. Um dos alvos da tesoura é o pacote de benefícios dos empregados. Um exemplo: a lei garante ao trabalhador o direito de receber um abono de férias correspondente a um terço de seu salário. Os Correios pagam dois terços. Além disso, mesmo em férias, o funcionário ainda recebe 1.000 reais de vale­ alimentação. Outro exemplo: a licença­ maternidade na estatal é de até 180 dias – dois meses a mais que o previsto em lei. Há ainda um auxílio-creche para crianças até 7 anos (que, nessa idade, em tese, já não estariam mais na creche), um “vale-cultura” mensal e um inusitado “vale-peru” anual, como é chamado o pagamento de um bônus natalino de 1.000 reais.

Diante dos números superlativos dos Correios, esses privilégios parecem penduricalhos sem importância. Mas, nos cálculos da própria estatal, custam cerca de 600 milhões de reais por ano. “Os benefícios estão sendo tirados porque a empresa não tem capacidade financeira nem condição de sustentar perante a sociedade a preservação deles em um momento tão difícil”, diz o general Floriano Peixoto, presidente da estatal. No ano passado, já em fase de restrições, os Correios registraram lucro, mas a recuperação, assim como aconteceu com outras empresas, foi interrompida com a chegada da pandemia. Em um comparativo com o primeiro semestre de 2019, a receita despencou. Apesar de a crise ter aumentado em 30% o movimento do setor de encomendas, o faturamento no segmento de cartas e correspondências sofreu uma redução de 820 milhões de reais, quando se compara o primeiro semestre deste ano com o mesmo período do ano anterior.

Em mensagem enviada aos funcionários, a estatal ressaltou que ainda houve gastos extras motivados pela pandemia, provocados pelo fechamento temporário de algumas unidades e a contratação de mão de obra terceirizada para compensar o afastamento de funcionários, e pediu a compreensão de todos. O argumento, no entanto, não sensibilizou a categoria, que promete paralisar as atividades em agosto. “O que está acontecendo é algo completamente fora do esquadro, coisa de ditadura, não tem cabimento. Como que, de uma hora para outra, fala-se em ignorar tudo o que foi negociado ao longo de anos?,” afirma Marcos César Alves, vice-presidente da Associação dos Profissionais dos Correios. Ele lembra que metade do quadro funcional dos Correios é formada por carteiros, que têm salário inicial de 1.757 reais, fora os benefícios. A estatal, por sua vez, calcula em 4.000 reais a remuneração média de seus funcionários. Hoje, a folha de pagamentos gira em torno de inacreditáveis 12 bilhões de reais (alô, Paulo Guedes!).

A Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) foi criada durante a ditadura militar, em 1969, época em que a maior parte das comunicações de longa distância era realizada por meio de cartas. “Por mim, privatizava tudo, porque assim vai se desmobilizando uma atividade que já está quase em extinção”, diz a economista Elena Landau. O próprio presidente Bolsonaro anunciou, logo no início da gestão em uma entrevista, a intenção de privatizar os Correios até 2021. A proposta, porém, ainda engatinha. A primeira etapa do processo, cuja responsabilidade é do BNDES, é a contratação de uma consultoria que vai se debruçar sobre a situação da empresa e traçar uma estratégia sobre o melhor formato de venda. Calcula-se que esses estudos, quando iniciados, levem de dois a três meses para ser concluídos. Na sequência, vem a parte mais complicada: a negociação política.

Ao lado do Ministério da Economia e da Secretaria do Programa de Parcerias de Investimentos, a privatização será tocada pelo Ministério das Comunicações, recém­ assumido pelo deputado Fábio Faria. A missão do ministro será convencer deputados e senadores, historicamente refratários a privatizações, a encampar a proposta. Quem acompanha de perto o Congresso demonstra total incredulidade com o avanço da medida no curto prazo. Isso porque, além da conhecida má vontade dos parlamentares em relação ao tema, o ano legislativo já está praticamente encerrado em razão do calendário eleitoral. “Além disso, o presidente não vai querer começar a discutir um projeto de privatização polêmico e desgastante faltando um ano para a eleição”, aposta um experiente parlamentar. A equipe do ministro Paulo Guedes, otimista, afirma que o processo será concluído até julho do ano que vem. Já a greve dos servidores, como estava programada, começou no dia 18.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE AGOSTO

OS CÉUS VISITAM A TERRA

E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus (Lucas 2.13).

O nascimento de Jesus foi primeiramente proclamado aos pastores que guardavam seus rebanhos nos campos de Belém. O anjo apareceu-lhes e a glória de Deus brilhou ao redor deles. Ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor (v. 10,11). A mensagem angelical enfatizou três verdades sublimes sobre o Natal:

1) Jesus é o Salvador do mundo. Não há salvação em nenhum outro nome. Só Jesus salva. Só ele é o mediador entre Deus e os homens. Só ele é o caminho, e a verdade e a vida. Só ele é a porta das ovelhas.

2) Jesus é o Cristo, o Messias, o prometido e o desejado de todas as nações. Foi prometido na eternidade, anunciado pelos patriarcas e profetas e, na plenitude dos tempos, desceu do céu à terra para nos resgatar dos nossos pecados.

3) Finalmente, Jesus é o Senhor. Aquele menino que nasceu na manjedoura, cresceu numa carpintaria e morreu numa cruz, deixou o túmulo aberto, voltou ao céu e está à destra de Deus Pai reinando soberanamente em todo o universo. Diante dele se dobra todo joelho no céu, na terra e debaixo da terra. Toda língua há de confessar que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

GESTÃO E CARREIRA

A SAÚDE NA ERA DIGITAL

O que hospitais, laboratórios, healthtechs e clínicas médicas estão trazendo de inovação tecnológica para mudar para sempre sua relação com a medicina.

Fazer contas é uma boa maneira de enxergar contextos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que os gastos no setor equivalem a 10% do PIB global. Nos países de alta renda, eles representam US$ 270 por pessoa. Nos de renda média e renda baixa caem para US$ 60. No primeiro bloco, esse valor cresce 4% ao ano. No segundo, 6%. Na média global, 51% das despesas são custeadas pelo poder público. Há hoje 7,7 bilhões de pessoas. Em dez anos a previsão é que sejamos 8,5 bilhões – alta de 10,4%. Além disso, viveremos cada vez mais. O resultado é que a conta não fechará. E o cenário da saúde de hoje será a trava do crescimento de amanhã. Em especial nos países de economias mais frágeis ou instáveis. A saída estará em saltos tecnológicos e de inovação. “O futuro será muito mais centrado no paciente e orientado a dados”, disse Tim M. Jaeger, head global de Soluções de Informações de Diagnóstico da Roche, no estudo Clinical Decision Support. Saiba o que os principais hospitais, laboratórios e healthtechs do Brasil trazem para revolucionar as práticas de saúde num motor não só de bem-estar, mas também de toda a economia.

Há seis décadas a humanidade alcançou uma marca sem precedentes. A expectativa média de vida superou os 50 anos. De 1960 até 2020 ela saltou num ritmo exponencial. No ano passado, das 141 milhões de crianças nascidas, as do gênero masculino viverão em média 69,8 anos e as do gênero feminino, 74,2 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso de um lado. De outro, a mesma OMS divulgou em 2018 a última classificação mundial de doenças, a CID-11. São 55 mil. Juntando as duas pontas o que se tem é mais pessoas vivendo mais em meio a mais doenças. É esse nó na saúde pública que precisa ser desatado. Com velocidade, volume e qualidade. E a tecnologia estará encarregada de resolver o problema.

O serviço de telemedicina do Hospital Albert Einstein já tem em sua base 1,6 milhão de brasileiros de mais de 1,2 mil cidades – cobertura muito superior à abrangência de suas unidades físicas. E isso só deve aumentar. “Dentro de um ano, mais de 50% dos médicos já terão realizado algum tipo de atendimento a distância”, disse à DINHEIRO o presidente do Einstein, Sidney Klajner. “Em três anos, esse número deve passar dos 90%.” A atuação do grupo na área vem desde 2012. Mas a explosão de interações se deu na pandemia de Covid-19. Os atendimentos virtuais saltaram de 70 para 1 mil por dia. “A telemedicina tem sido muito favorável para acompanhar pacientes com doenças crônicas ou em situações agudas de baixa complexidade”, afirmou Klajner. Em pesquisas internas, o Einstein constatou que mais de 90% dos usuários classificam a telemedicina como boa ou ótima.

Esse ponto é decisivo. A aceitação das pessoas. No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, isso vem conjugado à aceleração. “Recebi ontem [terça-feira, 28] relatório concluindo que avançamos dez anos em 90 dias”, afirmou Allan James Paiotti, superintendente do Oswaldo Cruz. A avalanche tecnológica, no entanto, não está descolada de um tema sempre sob discussão quando se trata de telemedicina: a relação de confiança e empatia entre médico e paciente. E muitas vezes a resposta vem de cuidados simples. “Algo que tem ajudado muito é o contato visual com o médico”, afirmou Paiotti. “Nossa interface foi desenhada, e os médicos treinados, para sempre existir o contato olho no olho com os pacientes. É algo muito sutil, mas que supera nossas expectativas.”

Essa era a questão que talvez mais preocupasse de pacientes a médicos renomados: a de que a tecnologia comprometesse parte da relação. No United Health Group, empresa americana presente em mais de 130 países, o mergulho tecnológico se dá em duas frentes. Numa, com seus 33 hospitais no Brasil, que incluem o Samaritano Higienópolis (São Paulo) e o Pró-Cardíaco (Rio de Janeiro), sob a bandeira Americas Serviços Médicos. Em outra, com a Amil e seus 3,5 milhões de beneficiários de planos médicos. “Utilizamos soluções de Inteligência Artificial e Inteligência Cognitiva principalmente para análise automatizada e suporte a decisões”, afirmou Jalmor Muller, vice-presidente de Tecnologia da Informação do United Health Group Brasil. Na Amil, a telemedicina começou a ser oferecida desde julho do ano passado a um grupo de 180 mil clientes do plano premium. Em março, com a explosão da pandemia no Brasil, foi lançada solução para todos os 3,5 milhões de beneficiários. Em quatro meses já foram realizados mais de 380 mil atendimentos. O diretor médico da Amil, Fernando Pedro, diz que a aprovação foi universal. “Houve aceitação de 92% entre os clientes, incluindo idosos, que já respondem por 16% dos atendimentos.”, afirmou. Ele credita os índices a um componente mais assimétrico na relação médico-paciente. “A telemedicina empodera os usuários.”

Não apenas nas grandes redes privadas as soluções de ponta se destacam. O paulista Instituto do Coração (Incor), que faz parte do complexo Hospital das Clínicas (HC), mostra que a telemedicina é um jogo ganha-ganha. Desde 2009, com a crise do H1N1, se acentuou a discussão sobre a necessidade de uniformização de atendimentos e especialmente de resultados nos tratamentos. As discussões culminaram na criação de uma Unidade de Terapia Intensiva ‘líder’. “Os membros dessa UTI respiratória, em vez de dar plantão nela, dão plantão na telemedicina e interagem com colegas de diferentes hospitais do estado. Já estamos indo para 20 hospitais da rede pública de São Paulo”, afirmou o professor Carlos Carvalho, coordenador da TeleUTI do Incor. É um ecossistema de soluções. Para ele, o avanço tecnológico levará a mudanças transformadoras no segmento. “Hospitais só terão doentes graves. Casos mais simples serão tratados em casa.”

A telemedicina na UTI também é uma solução do Hospital Moinhos de Vento. Na rede gaúcha, um projeto de TeleUTI pediátrica está conectada a parceiros em Palmas (TO) e Sobral (CE). O resultado é mais saúde à população. “Em um de nossos hospitais reduzimos em mais de 50% a mortalidade na UTI pediátrica, sendo que a redução de 5% é considerada ótima e uma de 10%, fenomenal”, disse Felipe Cabral, responsável pela área de Telemedicina do Moinhos. Ele aposta em outros procedimentos de certa forma não complexos como ferramentas tecnológicas. “Tenho certeza absoluta de que a introdução de wearables vai melhorar e ampliar o leque de diagnósticos.” O que acarretará em agilidade, conforto. Ganhos. “A tecnologia aproxima as pessoas, não afasta”, afirmou Cabral. Com muita saúde.

Em um cenário de isolamento social imposto pelo aumento de casos da Covid-19, que já infectou cerca de 2,5 milhões de pessoas no Brasil, o atendimento médico de forma virtual tornou-se mais do que uma alternativa ao contato presencial entre paciente e médico para se transformar em uma questão de saúde pública. Se antes da quarentena a dificuldade de acesso ao profissional de saúde era algo bem significativo no País, em seus 5.570 municípios, com a crise sanitária o abismo se acentuou. Mas o ponto de partida já foi definido. Nesse contexto, inovar significa garantir mais acesso a consultas, em diferentes tipos de plataformas.

Entre as principais empresas de medicina diagnóstica no País, a adoção da telemedicina é vista como caminho sem volta, independentemente da reabertura gradual da economia e flexibilização de circulação nos municípios. “Vivemos o melhor momento para o binômio médico-paciente. Num país com as nossas dificuldades de acesso, a telemedicina significa acesso à saúde”, disse Ana Elisa Siqueira, CEO da GSC, empresa que integra o grupo Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil. O trabalho de atendimento remoto foi intensificado a partir da regulamentação em caráter emergencial, no fim de março, pelo Ministério da Saúde, durante a pandemia do novo coronavírus.

Nos últimos três anos, a empresa destinou R$ 3 bilhões para ações de transformação digital e acelerou processos nos últimos meses, já durante a pandemia. Hoje, segundo a companhia, são 1 milhão de vidas com acesso à telemedicina. De março até agora, foram atendidos 13 mil pacientes por meio do Pronto Atendimento Digital, a quem manifestou sintomas da doença. Mais recentemente, a telepsicologia foi incorporada pelo GSC. “É uma oportunidade para darmos um passo além na gestão da saúde com o uso da tecnologia”, afirmou Ana Elisa.

SUSTENTABILIDADE DO SISTEMA

A SantéCorp, do grupo Fleury, ampliou a presença nessa modalidade com a plataforma Olhar Digital, que inclui consulta on-line, prontuário eletrônico, ferramenta de anamnese (informações completas do paciente para ajudar no diagnóstico) e acesso a exames realizados nas unidades do grupo de medicina diagnóstica. “A telemedicina vem não só para conectar médicos, mas também para contribuir com a otimização de investimentos e auxiliar na sustentabilidade do sistema”, afirmou o CEO da empresa, Eduardo Oliveira. Ainda que engatinhando no País, a telemedicina já segue as recomendações da Lei Geral de Proteção de Dados, que entrará em vigor em 2021, algo que poderia ser alvo de preocupação por possíveis vazamentos. “Há a garantia do sigilo da consulta e da guarda de informações do paciente”, disse o executivo da SantéCorp.

Antes mesmo da relação remota entre o profissional de saúde e quem precisa de atendimento, o grupo Hermes Pardini passou a adotar, em 2014, exames diagnósticos a distância, especialmente telerradiologia e telecardiologia. Com a pandemia, foram incorporados serviços como triagem clínica – principalmente para suspeitas da Covid-19 – e saúde mental, com telepsiquiatria e telepsicanálise. “De maneira muito acelerada, médicos e empresas de saúde têm compreendido esse movimento, principalmente quando percebem que a tecnologia é uma aliada”, disse Alessandro Ferreira, vice-presidente comercial e de marketing do grupo.

A gestão orientada a soluções tecnológicas pede investimentos de todos os players do segmento. O Grupo Integra de Medicina Diagnóstica-Isa Home Lab investiu R$ 1,5 milhão em inovações para atendimento a pacientes. “Isso ajuda em 80% dos casos de quem iria ao pronto-socorro por uma queixa comum”, afirmou o sócio- fundador David Pares. “Um paciente com dor de cabeça pode ser consultado por um clínico por telemedicina, receber a medicação on-line e evitar uma tomografia desnecessária.” Esse é o diferencial. Ao eliminar o desnecessário, o sistema como um todo se torna mais eficiente.

A análise de Pares é semelhante à do fundador da rede de clínicas Alba Saúde, Paulo Granato, que planeja lançar sistema de autoatendimento com reconhecimento facial, para garantir os processos de agendamento, atendimento e pagamento sem necessidade de interação humana. “Temos soluções de laudos remotos para eletrocardiograma, Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (Mapa), Holter, raios-x e mamografia, além da introdução recente das consultas on-line”, afirmou o dirigente da rede. Já o sócio do grupo Velas e diretor-clínico do Instituto Trata, o médico Thiago Fukuda conta que, nas suas unidades médicas, que reúnem 200 endereços no País, os projetos de tecnologia foram antecipados com a quarentena. “Investimos R$ 2 milhões em um software e mais R$ 500 mil em um aplicativo que gerencia as clínicas e o tempo dos profissionais”, disse.

Há quem aposte em diminuição gradual no trânsito de pacientes para locais físicos, com a consolidação dos serviços de medicina por meio virtual, mesmo após o fim da pandemia, a retomada da economia e a aguardada vacina. Alessandro Ferreira, do Hermes Pardini, diz que isso não significa que a telemedicina irá substituir a maneira tradicional de atendimento. “Mas estamos longe de explorar todas as alternativas”, afirmou. Um bom indicativo de que estaremos trilhando de fato nesse caminho será quando, em vez de procurarmos o endereço do consultório, passarmos a procurar antes o aplicativo no celular que garanta o atendimento rápido. Sem precisar dar um único passo.

Crescimento rápido, soluções tecnológicas, encurtando processos e gerando lucros sem custos exorbitantes. O conceito de startup nunca esteve tão em alta. O Brasil possui 13,3 mil empresas desse tipo, segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), quantidade 2.117% maior do que em 2011. As chamadas healthtechs, somam 3,5% do total, atrás apenas das voltadas para Educação (5,9%), Finanças (4%) e Internet (3,6%). O ecossistema criado por elas tomba na ponta final, o consumidor. Duas parcerias da rede Raia-Drogasil, Conexa e Dr. Consulta, já levaram a 15 mil pedidos de telemedicina em apenas quatro meses. Confira, a seguir, nove cases de startups na saúde.

BIOMETRIA CONTRA A TOSSE

A Unike Technologies nasceu em 2019 para oferecer identificação e autenticação por biometria. Durante a pandemia, após receber investimentos de R$ 3 milhões, a frictech ganhou sua vertente healthtech e desenvolveu um hardware para tablet com câmera que realiza medição de temperatura e checagem do uso de máscaras. Também participa de um projeto para uso do microfone e da câmera dos smartphones para efetuar a Tussinografia (estudo do som da tosse) e diagnosticar Covid-19. “Esses conceitos estarão presentes de agora em diante”, afirmou André Barretto, fundador e CEO da Unike Technologies.

ALTA ASSERTIVIDADE

Há 16 anos no mercado de telemedicina, a GetConnect viu a demanda por dermatologia, reumatologia e neurologia crescer na pandemia. A empresa atua com 21 mil médicos e possui cerca de 580 mil pacientes cadastrados. Nos próximos meses, será lançada uma nova ferramenta, o Midas, que vai auxiliar os médicos no diagnóstico. “Um profissional de saúde não tem como absorver milhares de informações. Agregaremos resultados de exames laboratoriais, o que aumentará a assertividade”, disse Marcelo Fanganiello, diretor da GetConnect.

DECISÕES RÁPIDAS

O tradicional modelo de médico da família ganha contornos tecnológicos com a Amparo Saúde, que realiza 20 mil teleconsultas por mês. “Hoje, representam 85% dos nossos atendimentos”, afirmou Emílio Puschmann, CEO e fundador da companhia. Após triagem inicial, feita por aplicativo, site ou telefone, a atendente eletrônica realiza o encaminhamento do paciente. No atendimento, há soluções de vídeo, solicitação de exames, envio de receitas e laudos, tudo de forma 100% digital.

AUTOMATIZAÇÃO E QUALIDADE

Com o fim da quarentena é consenso de que as pessoas estarão receosas em sair de casa, mesmo para ir à consulta, o que leva impactos negativos a consultórios médicos. O que leva o app Docway a ganhar ainda mais relevância – na pandemia e provavelmente em seu pós. A ferramenta usa tecnologia para agendamentos, transmissão de dados, prontuários médicos e envio de receitas. “Fazemos tudo que puder ser automatizado sem prejuízo da qualidade do atendimento”, disse Fábio Tiepolo, CEO da startup. Levantamento da empresa mostra que 70% dos pacientes voltam a fazer uma teleconsulta depois de 60 dias.

FOTO DO BEM

Sabe aquela selfie que você faz de brincadeira? Para a Conexa Saúde, essa foto pode servir para analisar seus sinais vitais, com o uso de Inteligência Artificial. A plestimografia facial está em testes e deve ser usada em breve. Por enquanto, a startup utiliza biometria facial para elegibilidade de acesso médico. Além disso, faz transcrição do áudio da teleconsulta para reduzir o tempo de documentação do atendimento. “E estratificamos diversos dados de saúde dos usuários, entre eles doenças prévias e sintomas”, afirmou Guilherme Weigert, CEO da Conexa.

TERRENO FÉRTIL

A Teladoc Health, que chega a realizar globalmente 20 mil teleconsultas por dia, viu esse modelo de atendimento acelerar durante a pandemia. Aumentaram principalmente os diagnósticos radiológicos, teleorientações médicas e teleconsultas psicológicas e nutricionais. A empresa enxerga um terreno fértil diante do cenário brasileiro, segundo Jean Marc Nieto, diretor-geral da Teladoc Brasil. No País, apenas 25% da população têm plano de saúde e o SUS sofre com a falta de recursos e sobrecarga de atendimento.

PADRÕES DE COMPORTAMENTO

Graças à tecnologia, 98% dos pacientes do Grupo Iron têm seus casos solucionados por atendimento virtual e apenas 2% precisam ir ao consultório. Segundo a empresa, isso acontece devido à utilização de padrões comportamentais dos pacientes, por meio de respostas a inquéritos e comentários dos médicos. “Usamos algoritmos em processos internos e mapeamento de dados”, afirmou Jorge Ferro, fundador e CEO do Grupo Iron, que está em seu primeiro ano no Brasil e prevê faturamento de R$ 40 milhões em 2020.

POR E-MAIL E SMS

Implantada no Brasil em 2012, a receita médica digital tornou-se essencial durante a pandemia. “Um movimento que, talvez, levasse cinco anos para ocorrer, aconteceu em apenas dois meses”, disse Ricardo Moraes, CEO da Memed, que apenas em junho registrou 120 mil médicos, 25 mil farmácias vendendo medicamentos com receita digital e mais de 1 milhão de prescrições eletrônicas. Os documentos são enviados ao usuário por e-mail ou SMS. “Esse processo proporciona segurança ao paciente e garante o entendimento exato do produto prescrito na receita.”

NUM SÓ LUGAR

A proposta do InterPlayers é oferecer serviços de saúde num só lugar . Para isso, atua em cinco frentes: Pharmalink (markteplace B2B, que integra 70 mil farmácias do País e 500 centros de distribuição), Portal Especialidades (marketplace de produtos de alto custo e alta complexidade, que integra hospitais e clínicas com a indústria e a distribuição), Portal da Drogaria (canal de relacionamento entre farmácias e consumidor), Go Pharma (atendimento cognitivo, centrais de atendimento e mídia social) e QuickMed (atende médicos na geração de demanda e início de tratamento). Com tudo isso, a empresa registrou, em 2019, R$ 43 bilhões transacionados e 1 milhão de usuários. “Usamos machine learning e Inteligência Artificial para análise de dados e direcionamento dos esforços dos nossos clientes”, afirmou Mario Souza, gerente de soluções da InterPlayers.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS CÓDIGOS DA MEMÓRIA

Em meio a debates a respeito de como as recordações são armazenadas, duas teorias científicas rivais destacam-se. Uma sugere que cada conceito, pessoa ou coisa de nossa experiência diária está associado a um neurônio específico. A outra hipótese afirma que recordações são distribuídas por milhões de neurônios. Vários experimentos recentes revelam, porém, que pequenos conjuntos de células cerebrais são responsáveis pela decodificação mnêmica

Certa vez, o brilhante neurocirurgião russo Akakhi Akakhievitch recebeu em seu consultório um paciente que dizia querer se esquecer da mãe, autoritária e cruel. Determinado a atender ao pedido, abriu o cérebro do rapaz e, um a um, retirou vários milhares de neurônios – todos relacionados à memória da mãe. Quando o paciente acordou da anestesia, todas as lembranças dela, boas e más, haviam desaparecido. Eufórico com o sucesso, Akakhievitch voltou sua atenção para o empreendimento seguinte: a procura de células ligadas à memória de “avó”.

É claro que se trata de uma ficção. Há 50 anos, o falecido neurocientista Jerry Lettvin (este sim de verdade) contou a história para uma multidão de estudantes do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), para ilustrar a ideia provocativa de que apenas 18 mil neurônios poderiam formar a base de qualquer experiência consciente, pensamento ou lembrança de uma pessoa ou objeto ao nosso redor. Lettvin nunca provou ou refutou sua hipótese audaciosa e, por mais de 40 anos, cientistas debatem, em geral em tom de brincadeira, a ideia de “células avó”.

O conceito de neurônios que armazenam lembranças de forma tão específica remete ao filósofo e psicólogo William James, que, no final do século 19, concebeu a noção de “células pontifícias”, às quais nossa consciência estaria conectada. Mas essa tese contraria a visão dominante de que percepções específicas são possíveis graças à atividade coletiva de muitos milhões, ou até bilhões, de células nervosas – que o ganhador do Nobel Charles Sherrington denominou “democracia de um milhão”, em 1940. Nesse caso, a atividade de qualquer célula nervosa individual é insignificante; apenas a colaboração de populações numerosas de neurônios cria significado.

Neurocientistas continuam a discutir se são precisos relativamente poucos neurônios, da ordem de milhares (ou menos), para servirem como repositórios de determinado conceito, ou se são necessárias centenas de milhões distribuídos amplamente por todo o cérebro. Tentativas para resolver essa discussão estão levando a um novo entendimento do funcionamento da memória e do pensamento consciente.

Há alguns anos, juntamente com Gabriel Kreiman, agora membro do corpo docente da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, e Leila Reddy, atualmente cientista do Centro de Pesquisas do Cérebro e da Cognição em Toulouse, França, realizamos experimentos que levaram à descoberta de um neurônio no hipocampo de um paciente, região do cérebro conhecida por seu envolvimento em processamento de memória, que reagiu de modo muito evidente a diferentes fotografias da atriz Jennifer Aniston, mas não a dezenas de outras atrizes, celebridades, lugares e animais. Em outro paciente, um neurônio no hipocampo se iluminou ao ver imagens da atriz Halle Berry e até mesmo diante do nome dela escrito na tela do computador, mas não reagiu a nada mais. Outro neurônio disparou seletivamente para imagens de Oprah Winfrey e para seu nome escrito na tela e falado por uma voz sintetizada por computador. Outro, ainda, reagiu às imagens de Luke Skywalker e a seu nome escrito e falado etc.

COISAS DA VOVÓ

Esse tipo de observação é possível pelo registro direto da atividade de neurônios individuais. Outras técnicas mais comuns, como a ressonância magnética funcional, podem identificar atividade em todo o cérebro quando um voluntário executa determinada tarefa. Mas, embora essa técnica possa rastrear o consumo geral de energia de basicamente alguns milhões de células, não consegue identificar pequenos grupos de neurônios, muito menos células individuais. Para gravar impulsos elétricos emitidos por neurônios individuais, é preciso implantar no cérebro microeletrodos mais finos que um fio de cabelo humano. Essa técnica não é tão usada quanto o imageamento funcional, e apenas circunstâncias especiais garantem a implantação desses eletrodos em humanos.

Uma dessas raras circunstâncias ocorre em tratamento de pacientes epilépticos. Quando as convulsões não podem ser controladas com medicação, esses pacientes podem ser candidatos à cirurgia corretiva. A equipe médica examina evidências clínicas que possam identificar o foco epiléptico, a área onde as convulsões começam e que potencialmente pode ser removida cirurgicamente para curar o paciente. Inicialmente essa avaliação envolve procedimentos não invasivos, como imagens do cérebro, consideração das evidências clínicas e o estudo da atividade elétrica patológica com gravações de EEG feitas no couro cabeludo do paciente: diversas descargas epilépticas que ocorrem ao mesmo tempo. Quando não é possível determinar com precisão a localização do foco epiléptico por esses métodos, neurocirurgiões podem implantar eletrodos profundos dentro do crânio para monitorar continuamente a atividade cerebral durante vários dias no hospital e depois analisar as convulsões observadas.

Às vezes, cientistas pedem que pacientes se voluntariem para estudos de pesquisa durante o período de monitoramento, em que várias tarefas cognitivas são realizadas enquanto se registra a atividade do cérebro. Na Universidade da Califórnia (UCLA) em Los Angeles, desenvolvemos uma técnica singular para registros dentro do crânio usando eletrodos flexíveis com fios minúsculos; a tecnologia foi desenvolvida por um de nós (Fried), que dirige o Programa de Cirurgia da Epilepsia na UCLA, com outros cientistas do mundo todo, inclusive os do grupo de Koch, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, e outros do laboratório de Quian Quiroga, na Universidade de Leicester, na Inglaterra. Essa técnica oferece uma oportunidade extraordinária de gravar diretamente de neurônios individuais durante dias, com o paciente acordado, e oferece a possibilidade de estudar o disparo de neurônios durante várias tarefas, monitorando a conversa incessante que ocorre enquanto pacientes olham para imagens em um laptop, recordam lembranças ou desempenham outras tarefas. É assim que descobrimos os neurônios Jennifer Aniston e sem querer reavivamos o debate inflamado pela parábola de Lettvin.

As células nervosas, como o neurônio Jennifer Aniston, seriam as células-avó debatidas há tanto tempo? Para respondermos a essa questão temos de ser mais precisos sobre o que entendemos por esse conceito. Uma forma radical de pensar sobre a hipótese da célula-avó é que apenas um neurônio responde a um conceito, mas, se pudéssemos encontrar um único neurônio que disparasse por Jennifer Aniston, isso sugeriria que deve haver mais – a chance de encontrar um, e apenas um, entre bilhões é ínfima. Além disso, se apenas um único neurônio fosse responsável pelo conceito integral de uma pessoa como Jennifer Aniston, e se fosse danificado ou destruído por doença ou acidente, todos os vestígios de Jennifer Aniston desapareceriam da memória, uma perspectiva extremamente improvável.

BILHÕES DE NEURÔNIOS

Uma definição menos radical de células-avó postula que muitos neurônios, em vez de um só, respondam a um único conceito. Essa hipótese é plausível, mas muito difícil, se não impossível de demonstrar. Não podemos tentar todos os conceitos possíveis para provar que o neurônio é acionado apenas por Jennifer Aniston. Na verdade, o oposto costuma ser verdadeiro: costumamos encontrar neurônios que respondam a mais de um conceito. Assim, se um neurônio dispara apenas para uma pessoa durante um experimento, não podemos descartar que também poderia ter disparado para alguns outros estímulos que, por acaso, não mostramos.

No dia seguinte, ao encontrarmos o neurônio Jennifer Aniston, por exemplo, repetimos a experiência, agora com muito mais fotos relacionadas a ela, e descobrimos que o neurônio também disparava com Lisa Kudrow, colega na série de televisão Friends, que catapultou ambas para a fama. O neurônio que respondeu a Luke Skywalker também disparou para Yoda, outro Jedi de Star wars. E ainda outro neurônio disparou para dois jogadores de basquete, sem contar um para um dos autores deste artigo e outros colegas que interagiram com o paciente na UCLA.

Mesmo assim, ainda se pode argumentar que esses neurônios são células-avó que respondem a conceitos mais amplos, ou seja, a duas mulheres loiras de Friends, a Jedi de Star wars, a jogadores de basquete, ou a cientistas que fazem experiências com o paciente. Essa definição expandida transforma a discussão sobre se esses neurônios devem ser considerados células- avó em uma questão semântica.

Mas vamos deixar a semântica de lado no momento e nos concentrarmos em alguns aspectos críticos desses chamados neurônios Jennifer Aniston. Primeiro, descobrimos que as respostas de cada célula são bastante seletivas – cada uma dispara para uma pequena fração de imagens de celebridades, políticos, parentes, marcos e assim por diante, apresentados ao paciente. Segundo, cada célula responde a várias representações de determinada pessoa ou local, independente- mente de características visuais especificas da imagem usada. Na verdade, uma célula dispara de forma semelhante em resposta a diferentes imagens da mesma pessoa e até mesmo a seu nome escrito ou falado. É como se em seus padrões de disparo o neurônio nos dissesse: “Sei que é a Jennifer Aniston, e não importa como você a apresente para mim, seja com vestido vermelho, de perfil, como um nome escrito, ou mesmo quando você diz o nome dela em voz alta”. O neurônio, então, parece responder ao conceito – para qualquer representação de qualquer coisa em si. Assim, esses neurônios podem ser mais adequadamente chamados de células-conceito, em vez de células-avó. Células-conceito podem disparar para mais de um conceito, mas, se fizerem isso, os conceitos tenderão a estar relacionados.

IMAGENS EM MOVIMENTO

Para entender a forma como um pequeno número de células se liga a um conceito particular, como Jennifer Aniston, ajuda saber algo sobre os complexos processos do cérebro para capturar e armazenar imagens de uma miríade de objetos e pessoas que se encontram no mundo ao nosso redor. Primeiro a informação coletada pelos olhos segue – através do nervo óptico, deixando o globo ocular – até o córtex visual primário na parte de trás da cabeça. Lá neurônios disparam em resposta a uma pequena porção dos detalhes minúsculos que compõem uma imagem, como se cada um fosse iluminado como um pixel de uma imagem digital, ou como se fossem os pontos coloridos em uma pintura pontilhista do francês Georges Seurat.

Não basta um neurônio para dizer se o detalhe é parte de um rosto, de uma xícara de chá ou da Torre Eiffel. Cada célula faz parte de um conjunto, uma combinação que gera uma imagem composta apresentada, digamos, no quadro Uma tarde de domingo na ilha de Grande Jatte. Se a imagem muda ligeiramente, alguns detalhes podem variar, e o disparo do conjunto correspondente de neurônios também se altera.

O cérebro precisa processar informações sensoriais para captar mais que uma fotografia – deve reconhecer um objeto e integrá-lo ao que já é conhecido. A partir do córtex visual primário, a ativação neuronal desencadeada por uma imagem se move por várias regiões corticais em direção a áreas mais frontais. Neurônios individuais nessas áreas visuais superiores respondem a rostos ou objetos inteiros, e não a detalhes locais. Apenas um desses neurônios superiores pode nos dizer que a imagem é um rosto, e não a Torre Eiffel. Se variarmos ligeiramente a imagem, movê-la ou alterarmos a iluminação sobre ela, ela mudará alguns aspectos, mas esses neurônios não se importam muito com pequenas diferenças em detalhes, e seu disparo permanecerá mais ou menos o mesmo, propriedade conhecida como invariância visual.

Neurônios em áreas visuais de alto nível enviam suas informações para o lobo temporal medial – o hipocampo e o córtex circundante –, envolvido em funções de memória e onde encontramos os neurônios Jennifer Aniston. As respostas de neurônios no hipocampo são muito mais específicas que no córtex visual superior. Cada um desses neurônios responde a uma pessoa em particular ou, mais precisamente, ao conceito dessa pessoa: não só ao rosto e outras facetas da aparência, mas também a atributos intimamente associados, como o nome da pessoa. Em nossa pesquisa, tentamos explorar quantos neurônios individuais disparam para representar determinado conceito. Tivemos de perguntar se é apenas um, dezenas, milhares ou talvez milhões. Ou seja, como a representação de conceitos é “dispersa”? É evidente que não podemos medir esse número diretamente porque não podemos registrar a atividade de todos os neurônios em determinada área. Usando métodos estatísticos, Stephen Waydo, na época aluno de doutorado de um de nós (Koch), no Caltech, estimou que determinado conceito aciona o disparo de não mais que cerca de 1 milhão de neurônios, entre os cerca de 1 bilhão no lobo temporal medial. Mas, como usamos imagens de coisas familiares aos pacientes de nossa pesquisa, e que por isso mesmo tendem a provocar mais respostas, esse número deve ser tomado rigorosamente como um limite superior; com o número de células representando um conceito, pode ser dez ou cem vezes menor, talvez próximo à suposição de Lettvin de 18 mil neurônios por conceito.

Contrariamente a esse argumento, um motivo para pensar que o cérebro não codifica conceitos esparsamente, mas os distribui por grandes populações de neurônios, é que podemos não ter neurônios suficientes para representar todos os conceitos possíveis e suas variações. Será que temos um armazenamento grande o suficiente de células cerebrais para retratar vovó sorrindo, tecendo, tomando chá ou esperando no ponto de ônibus, assim como a rainha da Inglaterra cumprimentando a multidão, Luke Skywalker quando criança em Tatooine ou combatendo Darth Vader etc.?

Para respondermos a essa pergunta, devemos primeiro considerar que, de fato, uma pessoa comum não se lembra de mais de 10 mil conceitos, e isso não é muito em comparação ao bilhão de células nervosas que formam o lobo temporal medial. Além disso, temos bons motivos para pensar que os conceitos podem ser codificados e armazenados de forma muito eficiente, de modo esparso. Neurônios no lobo temporal medial simplesmente não se importam com diferentes instâncias do mesmo conceito – não parece relevante que Luke esteja sentado ou em pé, só é considerado se um estímulo tem algo relacionado a Luke. Eles disparam pelo conceito em si sem considerar como é apresentado. Tornando o conceito mais abstrato – o disparo para todas as instâncias de Luke –, reduz a informação que um neurônio precisa codificar e permite que ele se torne altamente seletivo, respondendo a Luke, mas não a Jennifer.

Estudos de simulação por Waydo destacam ainda mais esse ponto de vista. Apoiando-se em um modelo detalhado do processamento visual, ele construiu uma rede neural baseada em software que aprendeu a reconhecer muitas fotos não rotuladas de aviões, carros, motos e rostos humanos. O software fez isso sem supervisão de um professor. Não lhe foi dito “este é um avião e aquilo um carro”. Ele teve de descobrir esses conceitos, usando a suposição de que a imensa variedade de imagens possíveis está, na realidade, baseada em um pequeno número de pessoas ou coisas e que cada um é representado por um pequeno subconjunto de neurônios, assim como encontramos no lobo temporal medial. Ao incorporar essa representação esparsa na simulação de software, a rede aprendeu a distinguir as mesmas pessoas ou objetos, mesmo quando mostrados de formas diferentes, um achado semelhante às nossas observações das gravações do cérebro humano.

Nossa pesquisa está intimamente relacionada à questão de como o cérebro interpreta o mundo exterior e traduz percepções em memórias. Considere o famoso caso de 1953 do paciente H. M., que sofria de epilepsia de difícil controle. Numa abordagem desesperada para tentar cessar seus ataques, um neurocirurgião retirou o hipocampo e as regiões adjacentes dos dois lados do cérebro. Após a cirurgia, H. M. seria capaz de reconhecer pessoas e objetos e se lembrar de eventos que conhecia antes da cirurgia, mas o resultado inesperado foi que ele não conseguiu mais reter lembranças novas por muito tempo. Sem o hipocampo, tudo o que se passava com ele rapidamente caía no esquecimento. O filme Amnésia, de 2000, gira em torno de um personagem que tem condição neurológica semelhante.

O caso de H. M. demonstra que o hipocampo e o lobo temporal medial, em gera dispensáveis à percepção, são críticos par a transformação de memórias de curto prazo (fatos que retemos por curto tempo) em memórias de longo prazo (coisas lembradas por horas, dias ou anos). Alinhados com essa evidência, argumentamos que as células-conceito residentes nessas áreas são essenciais para traduzir o que está em nossa consciência – tudo o que é desencadeado por estímulos sensoriais ou recordações internas – em memórias de longo prazo, que serão posteriormente armazenadas em outras áreas do córtex cerebral. Acreditamos que o neurônio Jennifer Aniston que encontramos não era necessário para o paciente reconhecer a atriz ou se lembrar de quem ela era, mas fundamental para trazer Aniston à consciência par forjar novos laços e memórias relacionados a ela, como mais tarde lembrar-se de ter visto seu filme.

Nosso cérebro pode usar um pequeno número de células-conceito para representar muitas facetas de uma coisa como um conceito singular: uma representação esparsa e invariável. O funcionamento de células-conceito percorre um longo caminho para explicar como lembramos as coisas: recordamos Jennifer ou Luke em todas as formas, em vez de nos lembrarmos de cada poro do rosto deles. Não precisamos (nem queremos) lembrar cada detalhe do que ocorre conosco.

CHEIRO, FORMA E COR

O que é importante é compreender a essência de determinadas situações que envolvam pessoas e conceitos relevantes para nós, em vez de lembrar uma infinidade avassaladora de detalhes sem sentido. Se encontramos alguém que conhecemos em um bar, é mais importante lembrar alguns eventos marcantes nesse encontro do que o que exatamente a pessoa estava vestindo, cada palavra pronunciada ou como eram os outros desconhecidos que curtiam o bar. Células-conceito tendem a disparar para coisas pessoalmente relevantes porque normalmente nos lembramos de eventos que envolvem pessoas e coisas que nos são familiares e não investimos em fazer lembranças de coisas sem relevância particular.

As memórias são muito mais que conceitos isolados únicos. Uma memória de Jennifer Aniston envolve uma série de eventos dos quais ela – ou sua personagem em Friends nessa questão – é parte. A lembrança total de um episódio único de memória exige conexões entre conceitos diferentes, mas associados: Jennifer Aniston ligada ao conceito de você sentado no sofá enquanto toma sorvete e assiste a Friends.

Se dois conceitos estão relacionados, alguns dos neurônios que codificam um conceito também podem disparar para outro. Essa hipótese cria explicação fisiológica de como os neurônios do cérebro codificam associações. A tendência de as células dispararem para conceitos relacionados pode ser a base da criação de memórias episódicas (como a sequência específica de eventos durante o encontro no bar) ou o fluxo de consciência, movimentando-se espontaneamente de um conceito a outro. Vemos Jennifer Aniston e essa percepção evoca a memória da televisão, do sofá e do sorvete – conceitos relacionados que fundamentam a lembrança de assistir a um episódio de Friends. Um processo semelhante pode criar também ligações entre aspectos da mesma noção armazenadas em diferentes áreas corticais, reunindo o cheiro, a forma, a cor e a textura da rosa – ou a aparência e a voz de Jennifer.

Devido a vantagens óbvias de armazenamento de memórias de alto nível como conceitos abstratos, podemos perguntar também por que a representação desses conceitos tem de ser esparsamente distribuída no lobo temporal medial. Uma resposta é fornecida por estudos de modelagem, mostrando consistentemente que as representações esparsas são necessárias para a criação de associações rápidas.

Os detalhes técnicos são complexos, mas a ideia geral é bastante simples. Imagine uma representação distribuída – em oposição à representação esparsa – para a pessoa que encontramos no café, com os neurônios codificando cada característica mínima dessa pessoa. Imagine outra representação distribuída para o bar em si. Fazer uma conexão entre a pessoa e o café exigiria a criação de ligações entre os diferentes detalhes que representam cada conceito, mas sem misturá-los com outros, porque o bar se parece com uma livraria confortável, e nosso amigo se parece com alguém que conhecemos.

A criação dessas associações com redes distribuídas é muito lenta e leva à mistura de memórias. O estabelecimento dessas ligações com essas redes esparsas, pelo contrário, é fácil e rápido. Exige apenas algumas associações entre os grupos de células que representam cada conceito, fazendo com que alguns neurônios comecem a disparar para os dois conceitos. Outra vantagem de uma representação esparsa é que algo novo pode ser adicionado sem afetar profundamente tudo o mais na rede. Essa separação é muito mais difícil de conseguir com redes distribuí- das, em que a adição de um novo conceito desloca limites para toda a rede.

Células-conceito conectam a percepção à memória, produzem uma representação abstrata e esparsa de conhecimento semântico – pessoas, lugares, objetos, todos os conceitos significativos que compõem nossos mundos individuais. Formam os blocos de construção para as memórias de fatos e acontecimentos de nossa vida. Seu eficiente esquema de codificação permite que nossa mente deixe de lado inúmeros detalhes sem importância e extraia significados que podem ser usados para fazer novas associações e memórias, codificando o que é essencial reter de nossas experiências.

Células-conceito não são completamente iguais às células-avó concebidas por Lettvin, mas podem ser uma importante base física de aptidões cognitivas humanas, os componentes do hardware do pensamento e da memória.

EU ACHO …

QUEM CALA CONSENTE

Suzane Jardim – mulher negra, ativista e educadora – fala sobre os perigos do racismo velado

sobre os perigos do racismo velado

O mês passado foi o da visibilidade LGBT+, mas cá estou eu falando de raça. Estranho? Não deveria ser. A população negra também faz parte da comunidade LGBT+, assim como compõe outros grupos, como o de mulheres e o de pessoas com deficiência.

No entanto, ainda é extremamente comum que projetos premiados na área de diversidade e inclusão nas empresas não trabalhem questões étnico-raciais. É como se esquecessem que a população negra é mais de 50% do povo brasileiro e que, por isso, deveria estar incluída nos programas que não versam necessariamente sobre raça.

Muitos alegam temer a possibilidade de “criar” um conflito racial caso comecem a falar sobre o assunto. Entretanto, se você atua em um espaço onde a grande maioria das pessoas é branca e isso nunca foi um problema – se você se acostumou a só conviver com negros que cuidam da limpeza em seu ambiente de trabalho – , já temos um conflito racial gravíssimo, porém encoberto por silêncios. E a barreira do silêncio é a mais difícil de ser quebrada. Em minha trajetória como educadora, foi necessário rompê-la sempre dos modos mais incômodos. Mesmo em minha formação universitária, poucos foram os professores com bagagem e capacidade para me guiar em um processo de conhecimento sobre a história e a sociologia do negro brasileiro. Imperava o silêncio e, para quebrá-lo, era necessário caminhar por fora, com outros profissionais negros que também tentavam construir uma história e uma trajetória, apesar do silêncio.

Hoje, continuo mostrando que deixar de falar sobre o assunto será sempre mais danoso. Sigo minha jornada como profissional autônoma aplicando um ensino que permite que mais negros tenham direitos, pois apenas com condições mínimas de dignidade é possível dizer que se tem uma vida – somente “sobreviver” não é “viver” de fato. Na história brasileira, marcada por silêncios e negações, as vidas negras sempre valeram muito pouco. Por isso, começamos a gritar que “vidas negras importam”. Mas as empresas precisam tomar cuidado: espalhar cartazes ensinando supostos “termos racistas” que funcionários deveriam evitar não adianta sem antes entender a complexidade do preconceito racial no Brasil. Obviamente todas as vidas importam.

Porém, a falta de condições mínimas e os estigmas de urna sociedade marcada por um racismo estrutural fizeram com que tivéssemos de lutar para que vidas negras fossem vistas como tendo o mesmo valor e o mesmo direito à dignidade. Vidas negras estão entre nós, são parte do universo, e calar diante disso é manter-se na cumplicidade.

SUZANE JARDIM – ativista e educadora na consultoria Mais Diversidade

OUTROS OLHARES

A SOMBRA DA REINFECÇÃO

A rara possibilidade de contaminados voltarem a pegar a Covid-19 foi atestada devido a dois casos que surgiram em junho nos EUA e no Brasil

A pandemia de coronavírus já matou mais de 800 mil pessoas em todo o mundo, contaminou mais de 20 milhões e, mesmo assim, a comunidade médica e científica ainda tem enorme dificuldade para decifrar o funcionamento da doença. E o vírus acaba de pregar mais uma peça nos cientistas: a possibilidade de reinfecção. Já foram constatados dois casos específicos, o primeiro em Boston, nos EUA, e o segundo em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, em 27 de junho. No caso brasileiro, a paciente em questão é a técnica de enfermagem Gabriela Carla da Silva, 24, que trabalha numa Unidade Básica de Saúde (UBS), na ala de Covid-19. Ela foi contaminada pelo novo coronavírus inicialmente em 4 de maio. Após quatro dias enferma, a jovem foi submetida à coleta de secreção da nasofaringe e orofaringe, e o resultado deu negativo. Porém, num segundo exame, realizado no nono dia, Gabriela teve a confirmação da contaminação. Ela teve vários sintomas e levou doze dias para se curar, sem necessidade de maiores intervenções médicas.

Depois, em 27 de junho, quando acreditava estar livre do coronavírus, a enfermeira voltou a apresentar os sintomas. Gabriela foi assistida no Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. O médico que acompanha o caso, Fernando Belíssimo, disse em entrevista coletiva que “ao que tudo indica, inclusive pelo exame sorológico, a paciente não desenvolveu anticorpos suficientes quando testou positivo em maio”. A instituição divulgou um estudo no qual apresenta a conclusão de que, apesar de ser extremamente rara, “a reinfecção por SARS-CoV-2 e o adoecimento por Covid-19 em mais de uma ocasião são eventos possíveis”. Apesar de o documento reconhecer a possibilidade de reinfecção, ainda pairam dúvidas a respeito. Para o professor da Faculdade de Medicina da USP, Marcos Boulos, integrante do comitê de contingenciamento do governo de São Paulo, não é provável uma reinfecção em tão pouco tempo. “Em toda infecção por vírus existe resposta imune que protege por algum tempo contra reinfecções”, afirma. O professor entende que os casos do tipo foram descritos em pouco tempo, o que pode revelar algum erro em algum dos testes realizados. “Não devemos nos preocupar com eventos ocasionais”, diz Boulos.

CABINES DE LIMPEZA

O parque Villa-Lobos, em São Paulo, está ganhando cabines de desinfecção contra a Covid-19. Essas câmaras estão sendo instaladas em terminais de ônibus e na entrada de hospitais públicos de todo o País. Ao passar por dentro da estrutura, a pessoa recebe jatos de aerossol que contém substâncias desinfetantes. Porém, a Anvisa desautoriza uso devido à falta de comprovação de eficácia científica

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE AGOSTO

ASSÉDIO MORAL, UM LAÇO PERIGOSO

Falando ela a José todos os dias, e não lhe dando ouvidos, para se deitar com ela e estar com ela (Genesis 39.10).

José era escravo na casa de Potifar, mas era também um jovem inteligente e bonito. Não tardou para que a mulher de Potifar colocasse os olhos nele com desavergonhada cobiça. Ela usou todas as suas armas de sedução para levar o jovem hebreu para a cama. Mas José se manteve íntegro. Muitos fatores poderiam atenuar a culpa de José caso ele se entregasse aos galanteios daquela mulher sedutora. Ele era jovem. Seus hormônios gritavam dentro dele. Era escravo e devia obedecer em tudo à sua patroa. Vivia longe de casa e ninguém cobraria nada dele. Ainda mais: dizer não aos encantos de sua patroa poderia render-lhe perdas, e ir para a cama com ela poderia trazer-lhe vantagens imediatas. Além do mais, o assédio era contínuo. Chegou o dia em que a mulher agarrou José e disse: Deita-te comigo (v. 7). José, porém, fugiu deixando-a com seu manto. Preferiu a acusação aberta à culpa secreta. Preferiu a prisão à liberdade no pecado. Preferiu sofrer como inocente a ser promovido como adúltero. A Bíblia diz: O que adultera com uma mulher está fora de si; só mesmo quem quer arruinar-se é que pratica tal coisa (Provérbios 6.32). Deus julgará os impuros e adúlteros. Aqueles que vivem assediando e deixando-se assediar caem numa armadilha de morte e colherão os frutos amargos dessa semeadura insensata.

GESTÃO E CARREIRA

UMA AUDIÊNCIA PARA CHAMAR DE SUA

Entenda como os influenciadores digitais podem ser bons aliados ao crescimento da sua empresa

A conversão de clientes torna­ se cada vez mais desafiadora. As redes sociais são uma boa ferramenta, mas a construção de público demanda tempo, dedicação e estudos, já que os algoritmos mudam o tempo todo e o número alto de seguidores não significa exatamente retorno em lucros. Entre os muitos atalhos que podem ser tomados nesse sentido, a audiência compartilhada é um deles.

Não à toa, a assessoria de imprensa alia-se cada vez mais a youtubers e instagramers no momento de planejar suas ações, e as agências que fazem mediação entre o cliente e as estrelas da internet crescem aos montes. “Em 2013, tive a oportunidade de trabalhar com um cliente visionário do segmento de cosméticos. A diretora de marketing do produto entrava em contato diretamente com celebridades de pequeno e médio alcance, especialmente no Instagram, falando sobre a marca, enviando um kit e, se fosse necessário, negociando um ‘merchandising’ para postagem”, conta o fundador da La Torre Marketing, com foco em consultoria em posicionamento estratégico para empresas e autor do livro A Mentalidade de Marketing: Não fique a ver navios, Thiago La Torre.

Segundo ele, era algo inovador para a época, considerando que o Instagram começou a ser usado no Brasil em 2012. ‘Algumas das influenciadoras, que ainda não tinham esse nome, geravam um pico de vendas imediato – era impressionante. Outras não surtiam efeito. No longo prazo, a marca se consolidou no Brasil e nos Estados Unidos sem nunca ter feito nenhuma ação de mídia tradicional (ATL)”, revela.

O CEO da Bume-plataforma que ajuda pequenas empresas, autônomos e influenciadores a monetizarem conteúdos na rede social -, Michel Ank, acrescenta que empresas conseguem divulgar seus produtos com o aval de uma pessoa influente em um determinado nicho principalmente pelo fato de poderem segmentar suas ações, escolhendo que tipo de público atingir e influenciadores com o perfil próximo ao da empresa.

Segundo pesquisa realizada pelo marketplace de influencers Tomoson, 51% dos profissionais de marketing que utilizam o marketing de influência afirmam que esse método pode trazer clientes mais qualificados para se tornarem consumidores da sua marca e 59% dos participantes da pesquisa planejam aumentar seus orçamentos destinados a marketing de influência nos próximos 12 meses. “É como se fosse uma divulgação boca a boca, no sentido que influenciadores são vistos por seus seguidores como amigos. Do lado do influenciador, as marcas ajudam a aumentar sua relevância e também são parte do ‘ganha-pão’ desses profissionais”, completa.

Thiago La Torre aponta ainda um estudo que mostra os dois tipos de publicidade que dão mais retomo de investimento: a mídia programática on-line, com 218%, e ações de parceria, com 174%. Os influenciadores digitais acabam trabalhando com as duas coisas de uma só vez. Mas ele alerta: “o principal risco é que a marca não use o embalo de exposição para construir sua própria audiência e fique sempre dependendo desta muleta. Ou então que selecione influenciadores errados para parceria, pensando apenas nos números, e não na essência da marca”.

Por isso, o ponto de partida é sempre um planejamento com definições de metas e traçando os perfis que realmente façam sentido para a empresa. Em seguida, é importante não gerar expectativas para além da realidade ou descontinuar ações que estão funcionando. “É importante se balizar de acordo com as médias globais para ter uma expectativa realista de retorno. O grande campeão de origem de clientes sempre será a indicação boca a boca de amigos e familiares, que é responsável em média por 45% da origem de clientes. Os demais principais canais são: Google (16%), anúncio em mídias tradicionais (14%), Review do produto em sites especializados (8%), anúncios on-line (6%), notícias (2%). Os influenciadores ficam com 4%”, ressalta La Torre.

COMO ATUAM OS INFLUENCIADORES

Apesar de haver força em redes como Instagram e Facebook, hoje, a cada minuto, são geradas 500 novas horas de conteúdo no YouTube no mundo. Quando o assunto é Brasil, pelo menos 24 canais nacionais estão na lista dos 100 mais influentes, segundo o ranking mais atual da Snack Intelligence/Tubular Labs.

Carol Moreira entra para o grupo dos produtores de conteúdo com grande alcance. Hoje, além de apresentadora do Warner Channel, ela possui o próprio canal no YouTube, com quase 800 mil inscritos, para falar principalmente sobre cinema e TV “Comecei falando de beleza e maquiagem em 2010, mas com o tempo fui mudando minha vertente. Desde então, houve muitas mudanças. Antes, chegava muito trabalho que não tinha a ver ou uns pedidos muito específicos que não combinam com o público ou comigo. Hoje, eles entendem que precisam dar liberdade para o influenciador criar junto, senão a ação dá errado. E é engraçado, porque rapidinho a gente já tem o resultado, né? Postou, dá cinco minutos e já tem gente comentando”, conta.

Os amigos Rafael Gonçalves e Alessandro Pisa começaram há menos tempo, quatro anos, e já puderam constatar essas e outras mudanças nos processos. O primeiro é padeiro, doutor em comunicação e professor universitário. O segundo é mestre cervejeiro, administrador e mestre em comunicação. Juntos, eles são os Carecas na Cozinha, que já acumula parceiros como a Fiss Koss, Santa Bárbara Carnes, Layr Fornos e Ateliê Morro do Bambu.

O segredo, segundo eles, é sempre buscar produtos que possam ser usados no vídeo e, uma vez que não há uma equipe de produção deixando os alimentos pré­ prontos, a usabilidade das marcas é mais verdadeira e a experiência mais completa. “O primeiro passo é nunca confiar cegamente em uma agência. Bem ou mal, os caras são fissurados em métrica. Pergunta para uma marca de farinha de trigo se eles preferem ter dez milhões de views no Felipe Netto ou cinco mil na mão da Palmirinha? O segundo é pesquisar onde você está pisando. Teve gente por aí, muito famosa, que andou apagando vídeos antigos, posts antigos de site, Instagram… Mas a empresa que contrata não é boba! Terceiro: visibilidade, geração de leads e conversão para vendas são coisas bem distintas”, explica Rafael Gonçalves.

QUEM É QUE MANDA

É necessário ainda lembrar que os algoritmos mudam em ritmo veloz. O que funciona hoje pode mudar sua dinâmica amanhã e é preciso decidir junto com o influenciador o melhor caminho a tomar. E, claro, ninguém melhor que o dono do canal para dizer o que os seguidores querem. “Essa coisa de tirar o número de curtidas deixou muita agência de cabelo em pé, porque essas redes têm métricas muito fechadas, muito particulares. A principal delas é o tamanho da audiência. Se você não deixa público esse número, a tendência é as pessoas olharem para a qualidade. Por isso, eu acho que a tendência orgânica e a de volume vão ter que dar um passo atrás para valorizar o conteúdo de qualidade de verdade. Quem procura o Carecas na Cozinha quer saber como harmonizar um doce ou um pão com uma cerveja”, completa Gonçalves.

Carol ressalta que muitas marcas e agências já chegam com uma ação pronta e roteirizada para divulgações pontuais, mas o trabalho pode fluir melhor se as parcerias forem pensadas a longo prazo e quando o influenciador consegue criar junto com a empresa, pensando em uma estratégia que faça sentido ao empreendedor e que também seja assertiva com o público que já está acostumado com o canal. Para isso, ela lembra que conhecer o trabalho do influenciador é o primeiro passo, tendo em mente que ter milhões de seguidores não significa exatamente ter a coesão com o que a marca precisa. “É preciso escolher bem com quem vai trabalhar, antes de tudo. Depois disso, tem que dar espaço para a pessoa criar junto. Não adianta chegar com roteirinho muito pronto ou com ideias loucas que não combinam com a pessoa ou com seu público. Quanto mais liberdade para criar junto, melhor vai ficar. Esse é o maior problema, eu acho. Tem vezes que as marcas/agências pegam pessoas que não têm muito a ver com o objetivo da ação. Esse é o primeiro passo para dar tudo errado. Tem que escolher a dedo cada influenciador, conhecer o trabalho anterior dele, saber do que ele fala, seus valores. Assim, fica muito mais fácil na hora de bater briefing e discutir a ação”, adverte Carol.

Uma pesquisa realizada pela agência Airfluencers trouxe nomes mais relevantes de influenciadores digitais de 2019 em 22 categorias. As medições incluíram audiência, influência e relevância. No setor de beleza, por exemplo, destacam-se nomes como Mariana Saad e Mari Maria; enquanto Jout Jout e Gabi Oliveira estão em comportamento e estilo de vida. Mas não adianta saber a lista dos mais influentes sem entender o que eles falam. Mídia Ninja e Kim Kataguiri estão entre os mais conhecidos de Economia, Política e Atualidades e, com certeza, você não daria os mesmos temas para ambos. Para escolher aquele que vai representar sua empresa, é preciso analisar a fundo o histórico, a mensagem e a maneira como cada uma dessas pessoas se comunica, para que a campanha não fracasse.

Se você fizer a lição de casa, a chance de sucesso é grande. “Não é porque a pessoa não fez a compra na hora que ela não foi impactada pela mensagem. Tem empresas que só querem números de views, quanto mais alto melhor. Mas não pensam muito se o público realmente ouviu o que foi dito. Não se deve exigir que o influenciador faça um trabalho legal sendo que tem um briefing engessado sem possibilidade de criação em cima. Ela pode exigir que o influenciador lhe passe dados e informações para a criação ser mais assertiva”, acrescenta a influencer Carol Moreira.

O QUE A EMPRESA PRECISA SABER

Sem identidade, não há marketing. E sem métricas não há resultado. Não dá mais para repetir frases como “acho que não ficou bom”. É preciso uma razão de ser. Usar um influenciador significa aproveitar os formatos que ele já usa e funcionam com o público dele. Aceitar isso é o que vai fazer vender mais, e a medição dessa venda vai poder ser realizada de diversas maneiras: cliques, tráfego, engajamento, feedback direto e indireto, entre outros.

Isso não significa você perder a identidade de marca, mas sim compartilhá-la ­ afinal, se sua empresa fez a tarefa de pesquisa, o nome escolhido para a campanha não deve destoar daquilo que quer transmitir. “Falo de YouTube porque tenho mais conhecimento, mas dá para ter vários dados demográficos por meio dele – idade, gênero, localidade. Isso é básico, simples e a empresa precisa exigir sim”, afirma Gonçalves.

Thiago La Torre lembra que não existe uma maneira única de trabalhar a audiência compartilhada. É possível tanto aproveitar o canal que já existe quanto usar a presença do influenciador em campanhas ativas que partam direto da sua empresa. “O Facebook, que é dono do Instagram e do WhatsApp, está atento ao crescimento do uso de influenciadores no mercado. Para eles, não é vantajoso o crescimento dos influenciadores no modelo atual de negócios. Pois com o aumento do uso de influenciadores no marketing, parte da verba de publicidade que seria destinada ao Facebook ou Instagram passa a ser destinada diretamente para os influenciadores”, diz.

Ele analisa que aos poucos, Zuckerberg está tomando medidas para que as ações sejam intermediadas pela empresa, por exemplo, a caça às automações, que reduz o poder de alcance dos influenciadores, remoção da contagem pública de Likes, que reduz a capacidade de o cliente analisar o engajamento real do influenciador, e o lançamento de ferramentas para que influenciadores façam anúncios em cobranding. Resumidamente: No futuro para fazer ações de influência dentro do Facebook e Instagram, vai ser necessário destinar uma fatia da verba para o grupo empresarial também.

Carol concorda e observa que o Facebook está praticamente morto para campanhas, enquanto que Instagram e Twitter ainda geram bons resultados. Mesmo assim, ela é otimista com as novas mudanças e acrescenta que o podcast é uma tendência ainda pouco explorada pelas marcas. “Nos Estados Unidos, o mercado de influenciadores movimenta US$2 bilhões, o equivalente a cerca de 2% de toda mídia digital do País. Por outro lado, a massificação dessas abordagens já começou a virar chacota entre alguns empreendedores que são abertamente contra o uso de influenciadores”, pontua.

De acordo com ela, o segmento pede uma profissionalização. “Os influenciadores, que antes tratavam diretamente com os proprietários ou diretores, devem começar a tratar mais com agências ou através de plataformas que organizam o seu trabalho, definindo bem os tipos de parcerias que estão dispostos a fazer”, ressalta Thiago. Ele ainda vê, para os próximos anos, a tendência de que os influenciadores se tornem produtores de conteúdos para as marcas, assumindo funções que seriam da agência ou equipe interna, como a marca de licor Malibu já faz nos Estados Unidos.

Ele ainda enxerga que as marcas comecem a buscar nanoinfluenciadores: consumidores-influenciadores e funcionários-influenciadores. “O diretor de conteúdo do LinkedIn, Daniel Roth, diz que o engajamento de funcionários é dez vezes maior do que o perfil institucional das marcas – é natural, portanto, que as marcas comecem a buscar influenciadores não profissionais para fazer o trabalho de divulgação, seja através de diretrizes internas para os funcionários ou eventos de experiência que incentivem as postagens”, finaliza o fundador da La Torre Marketing.

PRINCIPAIS MÍDIAS SOCIAIS

Uma das maiores preocupações dos gestores é qual mídia social focar. A regra é simples: todas as mídias sociais vão eventualmente perder o engajamento. O foco da marca deve ser em desenvolver a sua reputação no longo prazo e não criar audiências em canais específicos. No ano passado, o Facebook teve seu alcance orgânico reduzido a menos de 2%, o mesmo já aconteceu com o Instagram, cujo engajamento já caiu pela metade, tanto nos posts orgânicos (de 4,5% para 1,9%) como em anúncios (de 4% para 2,4%). Nos EUA, o Snapchat é muito forte com os millenials e se fala muito do Tik tok, mas no Brasil o Instagram ainda é o principal.

FONTE: Thiago La Torre.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTES INSTÁVEIS

A impulsividade típica da adolescência pode ser explicada pela fraca integração de áreas cerebrais responsáveis pelo planejamento cognitivo

Costumamos culpar os jovens por situações que talvez pudessem ser facilmente evitadas – como acidentes de carro nas madrugadas. Nesses casos, quase sempre há indícios de uso de álcool ou outras drogas pelos motoristas. Pesquisas neurocientíficas recentes, entretanto, sugerem que a preocupação dos adultos não se deve apenas à suposta falta de responsabilidade dos mais novos. Estudos mostram que quando adolescentes executam certas tarefas, seu córtex pré-frontal – região cerebral que participa das tomadas de decisão – trabalha de forma mais intensa do que a mesma estrutura no cérebro mais maduro diante de circunstâncias idênticas. Além disso, outras áreas do sistema nervoso, que costumam auxiliar nesses momentos, mostram-se menos ativas durante a puberdade. Quando confrontados com situações desafiadoras, os adolescentes parecem menos hábeis em avaliar os fatores em jogo e reagir de forma apropriada.

Compreender as capacidades e limitações do cérebro ao longo dos diversos estágios do desenvolvimento é essencial na avaliação psicológica e na educação. Ironicamente, embora a adolescência, e mais especificamente a puberdade, seja reconhecida como uma fase importante, a mente e o cérebro dos jovens foram bem menos estudados do que de crianças e de adultos. Com o avanço das pesquisas, no entanto, vem ficando cada vez mais claro que a habilidade neural de um adolescente não é igual à de uma pessoa mais velha, embora muitas vezes ele se comporte como adulto. Os processos fisiológicos por trás do controle cognitivo do comportamento ainda não estão totalmente maduros. Se somarmos ainda os estímulos estressores, abundantes nas grandes cidades, fica mais fácil explicar por que tantos acidentes ocorrem com pessoas nessa faixa etária.

Uma das características mais marcantes do cérebro adolescente está no funcionamento do córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas que atuam no comportamento voluntário e planejado. É o que apontaram as pesquisas da psicóloga Beatriz Luna, diretora do Laboratório de Desenvolvimento Neurocognitivo da Universidade de Pittsburgh. Com ressonância magnética funcional (fMRI) e testes psicológicos que mobilizam funções visuais e motoras, Luna escaneou o cérebro de adolescentes e adultos enquanto eles olhavam luzes aleatórias piscando na tela do computador. Duas situações foram avaliadas: quando os indivíduos tentavam se concentrar rapidamente no novo foco de luz e quando a instrução era evitar olhá-lo diretamente.

EXÓGENO E ENDÓGENO

A pesquisadora observou que, para realizar a mesma tarefa, o córtex pré-frontal dos mais jovens foi mais solicitado do que o dos adultos. “A extensão dessa região mobilizada pelos adolescentes é similar à que os adultos usam para realizar tarefas bem mais complexas”, explica Luna. Segundo ela, o uso excessivo do córtex pré-frontal pode induzir ao erro, especialmente em situações mais difíceis ou de maior risco.

Especialistas em psicologia cognitiva distinguem dois tipos de controle do comportamento: exógeno e endógeno. O primeiro é reflexo, uma resposta “automática ” a estímulos externos, como as luzes que aparecem na tela. O controle endógeno é voluntário e resulta do propósito de, por exemplo, esforçar-se para não olhar os pontos de luz. No córtex pré-frontal maduro predomina o controle endógeno do comportamento. Para o cérebro adolescente é mais difícil anular deliberadamente a reação exógena.

Luna e outros pesquisadores afirmam que, embora os adolescentes possam eventualmente manifestar o controle cognitivo na tomada de decisão, o poder endógeno ainda está em amadurecimento. “Testes visuais e motores exigem que o córtex pré-frontal coordene as atividades do resto do cérebro. O que a fMRI nos mostrou foi que na fase intermediária entre a infância e a vida adulta é com um o uso dessa região de forma exacerbada, enquanto os adultos acionam também outras áreas, distribuindo melhor a carga de trabalho”, explica. Assim, se algo inesperado ocorre em uma situação já estressante, o adolescente tende a esgotar os recursos do córtex pré-frontal. A sobrecarga cognitiva acaba prejudicando as funções executivas e, consequentemente, a capacidade de planejar e fazer escolhas. Isso talvez explique por que os adolescentes se comportam de forma impulsiva. “Para o adulto é bem mais fácil inibir respostas equivocadas, manter a compostura e não ceder às tentações”, diz a pesquisadora.

RECRUTANDO NEURÔNIOS

A maturação das habilidades executivas só ocorre no fim da adolescência, isto é, pouco depois dos 20 anos. Além disso, outras funções cognitivas estão em desenvolvimento durante a puberdade, como a memória de trabalho, que auxilia na orientação do comportamento voluntário. As imagens em fMRI obtidas por Luna indicam que os adolescentes não são capazes de mobilizar com eficiência as áreas que contribuem para o funcionamento da memória de trabalho.

Susan F. Tapert, da Universidade da Califórnia em San Diego, também observou fraca integração de algumas funções cerebrais durante a puberdade. Ela investigou a memória de trabalho espacial em indivíduos no início (12 a 14 anos) e no final (15 a 17 anos) da adolescência com fMRI. “Os mais velhos apresentaram um número menor de áreas ativadas enquanto realizavam tarefas, e usaram mais o córtex parietal inferior que os participantes mais jovens”, explica Tapert. Ela acredita que os voluntários com mais de 14 anos utilizaram menos neurônios e empregaram estratégias diferentes das dos mais jovens. As áreas ativadas sugerem que eles resolveram a tarefa por meio de estratégia verbal, em vez de por tentativa e erro.

Ao longo da adolescência, o cérebro passa a mobilizar mais regiões e distribuir certas tarefas a áreas especializadas, reduzindo assim o esforço cerebral necessário para chegar ao mesmo desempenho. “Fui surpreendida com a magnitude da mudança observada nesse intervalo relativamente pequeno”, diz a psicóloga. Adolescentes mais novos podem ter bom desempenho em testes de memória de trabalho espacial, mas precisam recrutar mais neurônios. Também são menos capazes de realizar tarefas adicionais se estiverem previamente estressados. Segundo Tapert, só no final da adolescência a memória de trabalho espacial é distribuída de forma eficiente entre as diferentes regiões cerebrais.

PROCESSO DE DEPURAÇÃO

As técnicas de imageamento cerebral apoiam a hipótese de que o cérebro adolescente, sobretudo as áreas envolvidas na tomada de decisão e no controle do comportamento, passa por alterações físicas significativas. O pesquisador Jay N. Giedd, do setor de psiquiatria infantil do Instituto Nacional de Saúde Mental, Estados Unidos, demonstrou que o córtex pré-frontal dorso lateral, importante para o controle da impulsividade, sofre uma poda sináptica sistemática, isto é, a eliminação de conexões desnecessárias entre os neurônios – o resultado é a transmissão mais eficiente dos sinais neurais.

A maioria dos pesquisadores admite que essa “depuração” neuronal seja um mecanismo fundamental de maturação do sistema nervoso, assim como o depósito adicional de mielina, que promove o isolamento elétrico dos axônios que enviam sinais de um neurônio a outro. As duas alterações aprimoram o funcionamento cerebral. Enquanto a depuração sináptica aumenta a eficácia de operações locais, a mielinização acelera a transmissão neural. A consequência é o aumento da capacidade do córtex pré-frontal de impor comportamentos voluntários planejados, aponta Luna.

Um dos estudos recentes conduzidos por Giedd acompanhou o desenvolvimento cerebral de 307 crianças e adolescentes por meio de fMRI e testes neuropsicológicos. “Foi surpreendente descobrir que o tamanho do cérebro não muda muito depois dos 6 anos. Ele se torna mais espesso, mas já tem cerca de 90% do tamanho adulto. Sua dimensão geral é estável durante a adolescência, mas seus componentes mudam de forma e tamanho”, explica. As imagens revelaram alterações nas conexões entre os neurônios que participam dos processos de tomada de decisão, julgamento e controle da impulsividade, bem como das projeções do córtex pré-frontal para outras regiões. As pesquisas mais recentes sugerem que o córtex pré-frontal continua a amadurecer até os 20 anos. “É impressionante que essas mudanças durem tanto tempo”, comenta Giedd.

Nem todos os especialistas, porém, estão de acordo com a ideia de que a impulsividade adolescente seja explicada apenas pela neurobiologia. Um deles é Robert Epstein, da Universidade da Califórnia em San Diego e fundador do Centro de Estudos Comportamentais de Cambridge. Indignado, ele não acredita que o cérebro adolescente seja diferente do adulto. “Isso não existe. É uma farsa coordenada pelas indústrias farmacêuticas que financiam pesquisas.”

Para desmascarar o suposto mito segundo o qual o desenvolvimento cerebral estaria na origem dos problemas comportamentais do adolescente, Epstein cita o livro Blaming the brain, de 1998, de Elliot Valenstein, da Universidade de Michigan. Para o autor, certos neurocientistas são influenciados pelos grandes laboratórios farmacêuticos, os quais teriam interesse em “culpar” o cérebro, porque isso abriria caminho para que os médicos prescrevessem mais drogas psicoativas. (Vale lembrar que nenhuma pesquisa apresentada neste artigo foi financiada pela indústria farmacêutica).

Outro argumento de Epstein – mais convincente – é que os estudos que indicam alterações físicas no cérebro adolescente tendem a analisar apenas a sociedade ocidental. Segundo ele, algumas raras pesquisas em países em desenvolvimento ou em países orientais mostram que seus adolescentes não se comportam como os americanos, por exemplo. “No plano multicultural não há nada que se assemelhe a um cérebro adolescente”, afirma. Epstein gosta de citar o livro Adolescence an Antropological inquiry, de 1991, dos antropólogos Alice Schlegel, da Universidade do Arizona, e Herbert Bany, da Universidade de Pittsburgh. Eles estudaram adolescentes de 186 culturas pré-industriais e descobriram que em 60% delas não há sequer um termo que identifique esse período da vida. Além disso, a maioria dos jovens observados passavam a maior parte do tempo entre adultos e não segregados com seus próprios pares. O estudo mostrou que não havia comportamento anti social em metade das culturas analisadas, e, mesmo quando havia, sua manifestação era moderada. Baseado em pesquisas como essa, Epstein considera “equivocado culpar o cérebro por tudo o que há de ruim em nós, pois a influência ambiental sobre o comportamento é tremenda. Vivemos numa sociedade na qual as crianças vivem distantes dos adultos e, portanto, aprendem umas com as outras. Isso gera problemas”, argumenta. Segundo ele, nas sociedades em que a transição da adolescência para a vida adulta é suave, a suposta angústia ou revolta adolescente simplesmente não é observada.

CÉREBRO PRONTO?

Luna não concorda com a opinião de Epstein, mas a considera interessante e respeitável. “Seus experimentos controlam as diferenças culturais e estudam o funcionamento cerebral por meio de estímulos emocionalmente neutros e não de decisões comportamentais socialmente relevantes”, diz a pesquisadora. Em relação à influência do meio, ela afirma que as imagens de fMRI mostra m que o cérebro é um sistema vulnerável e, em situações estressantes, o adolescente tem mais dificuldade de se controlar do que o adulto. Segundo a psicóloga, o cérebro adolescente não estaria totalmente “pronto” – o que é bom, pois permite que ele se desenvolva de forma mais compatível com seu meio. “Estamos tentando compreender a relação cérebro-meio. Não que o cérebro adolescente seja diferente dos outros, o que existe é um continum, afirma. Para isso, foi formulada uma experiência que confrontasse estímulos internos e externos e os cientistas pudessem, assim, estudar como as respostas são inibidas em situações contraditórias.

“O teste visual e motor é difícil, pois todo o cérebro é acionado para prestar atenção aos estímulos visuais”, diz Luna. Para não olhar as luzes é preciso que o córtex se comunique com as regiões sub corticais, gerando uma resposta endógena (“Não vou olhar as luzes”) que suplanta a resposta reflexa e exógena (“Olhe a luz”). Como é mais difícil para o adolescente realizar tarefas que exigem controle voluntário, ele está mais exposto a decisões equivocadas. Em situações com poucas exigências concorrentes, ele de fato se comporta como o adulto. Nas culturas pré-industriais, esse é o meio mais comum e, assim, o adolescente não manifesta condutas arriscadas. Mas isso não quer dizer que seu cérebro não esteja sendo depurado, ou melhor, que não exista algo único em relação à adolescência.

EU ACHO …

COMO SEREMOS JULGADOS PELOS BISNETOS DE NOSSOS BISNETOS?

O ajuste de contas com o racismo e outros legados da escravidão está acelerando nos Estados Unidos, e isso tem implicações profundas na maneira como os brasileiros interpretam sua própria história. As manifestações nas ruas americanas estão diminuindo, sim, mas o combate tem novas frentes, e uma delas é a campanha para renomear bases militares, faculdades, times, estados e até a capital, cujo nome oficial é Washington, Distrito de Columbia.

Para alguns, tanto Washington como Colombo (Columbus em inglês) são grandes vilões. O primeiro tinha dezenas de escravos, e a “descoberta” das Américas pelo segundo levou a um genocídio dos povos indígenas, crimes que merecem não apenas a derrubada de estátuas mas também a retirada de outras honras. Mas para mim a campanha levanta duas perguntas ainda mais complexas: E, se ousamos julgá-lo, quais os critérios mais justos?

Quando estava escrevendo a biografia do Marechal Rondon, fiz uma descoberta que me deixou estremecido: Rondon de vez em quando açoitava suas tropas mais desobedientes, e numa dessas ocasiões um soldado faleceu, e o então capitão foi julgado num tribunal militar. O fato não combinava com minha imagem de Rondon, mas tinha de registrá-lo. Diminuiu a estatura de Rondon? Talvez, embora as regras do Exército permitissem o uso do chicote. Mas tira toda a grandeza do homem? Acho que não. Agora estou escrevendo um livro em que Maurício de Nassau é um dos personagens principais. Nassau foi, sem dúvida, um dos precursores do Iluminismo europeu: abraçou a revolução científica, o pluralismo religioso e o fim do mercantilismo. Mas as pesquisas que fiz nos arquivos do Brasil Holandês no Recife no ano passado também mostram que ele sabia que o sucesso da colônia dependia do emprego maciço de escravos africanos nos engenhos, e não se opôs a isso. Sim, tentou suavizar o sofrimento dos escravizados e até cogitou uma aliança com Palmares. Mas nada fez para acabar com o escravismo. Ou seja, Nassau foi um produto de seu tempo, atipicamente esclarecido e até clarividente em alguns aspectos, mas com os olhos vendados em outros. Foi, então, parecido com Washington, Jefferson e outros fundadores da república norte-americana: dos cinco primeiros presidentes, apenas um, John Adams, não era proprietário de escravos. E mais uma vez enfrento o dilema de como retratar um preclaro da história. O fato de Nassau ter sido indiferente à escravidão deve suplantar ou prevalecer sobre suas grandes façanhas nas ciências, cultura e governança? Não tenho resposta. Mas sei de uma certeza: não é justo julgar o passado pelos padrões e valores de hoje. Entre os antropólogos brasileiros, por exemplo, existe uma corrente forte que quer condenar Rondon como agente de um projeto oficial genocida. Mas em 1910 Rondon não tinha ideia do que ia acontecer em 1970, nem podia. Fundou o Serviço de Proteção aos índios para evitar um genocídio, não para fomentá-lo, e não tinha o luxo de poder olhar para trás da gávea privilegiada do século XXI.

No caso do escravismo, é importante lembrar que até o século XIX essa prática desumana e cruel foi quase universal. Os muçulmanos escravizaram os europeus, os europeus escravizaram os africanos, os próprios africanos escravizaram e venderam outros africanos, os chineses escravizaram seus vizinhos asiáticos, os indígenas escravizaram aldeias rivais etc. A humanidade ainda não tinha progredido para acabar com esse flagelo. Para fazer justiça, vamos condenar todo mundo ou apenas os europeus? Nos anos 1980, quando era correspondente no México, abordei em Veracruz réplicas dos três navios em que Colombo navegou em 1492. Fiquei impressionado com a fragilidade deles – e com a coragem de Colombo e sua tripulação, amontoados naquelas embarcações sem instrumentos modernos de navegação. Colombo (como Cabral) virou um símbolo do extermínio que seguia suas jornadas inéditas. Mas são eles os principais responsáveis? E os méritos de nossa civilização, não são da mesma forma parte do legado deles?

Além disso, me pergunto: se a raça humana conseguir sobreviver à atual pandemia (e às outras que virão) e ao aquecimento global (que também virá), como seremos julgados pelos bisnetos de nossos bisnetos? Não estou falando só de nossos líderes míopes, mas de todos nós. Como dizia Shakespeare, “o mal que os homens fazem sobrevive, o bem é muitas vezes enterrado com seus ossos”.

Tomara que o futuro seja mais generoso conosco do que nós com nosso passado.                                                

LARRY ROHTER – é jornalista e escritor, é ex correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

EU ACHO …

HOMOFOBIA COTIDIANA

A discriminação aos gays está nas falas e atitudes do dia a dia

Eu estava em uma roda de conversa quando uma mulher me perguntou se certo galã de televisão seria gay. Respondi que não sabia, mas, de qualquer maneira, que importância aquilo tinha para ela? “Vou ficar muito chateada se ele for” – respondeu. “Chateada por quê? Que diferença faz na sua vida?” Ela não soube dizer. Era uma sensação. Desvendar a sexualidade de astros e estrelas é um comportamento homofóbico comum. Notícias desse tipo estouram. Antes, isso podia significar o fim de uma carreira. Agora, muitos respondem com um glorioso:” E daí?”. A homofobia se revela nos lugares mais inesperados, como no recente caso do comentarista Leandro Narloch. Ao falar sobre a decisão do STP de que homossexuais podem doar sangue, ele associou os gays à promiscuidade. Diante dos protestos, a CNN Brasil o demitiu. O próprio Narloch se defendeu nas redes sociais – afirmou que tem horror à homofobia. Tenho certeza de que seu ponto de vista foi sincero

A força da homofobia estrutural aparece nas conversas, opiniões, atitudes do dia adia. Muitas vezes, a pessoa não tem consciência de que está sendo homofóbica – embora isso não diminua em nada o fato. Esse comportamento está longe da violência de grupos que espancam gays e transgêneros. Ou de quem defenda essa aberração que é a chamada “cura gay”. Também, ainda, da declaração do novo ministro da Educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, segundo o qual as universidades promovem o “sexo sem limites”. Ai, ai, ai. Agente sabe: o mundo LGBTQI+ está além dos limites do ministro.

Expressões homofóbicas permeiam o vocabulário. Um amigo, muito bonito, quando encontrava sua turma, ouvia uma garota murmurar: “Que desperdício”. Sofria com isso. É um modo de falar tão incorporado que passa (quase) despercebido. “Nossa, nem parece.” Não podia ser pior: o que seria parecer gay? Ser efeminado, no caso de um homem? Outra: “Não tenho nada contra, até tenho amigos que são”. Esse “até ” é o quê? Uma concessão? Comentário: “Quem é o homem da relação?”. Pior ainda: “Tá igual gay, adora aparecer”. Quer dizer que todo gay dá escândalo? Também já ouvi: “Tudo bem ser lésbica, mas precisa se vestir como homem?”. Querem fiscalizar até o jeito de alguém se trajar? “Ela está masculinizada demais.” “Tá igual motorista de caminhão. “A lésbica é sempre associada a estereótipos masculinos. É uma falta de realidade absoluta”

Mas, quando se diz em público, vira piada. Riem. Não só quem disse está sendo preconceituoso. Quem ri também. Alguns falam: “Ser gay tudo bem, desde que não dê em cima de mim”. A frase reflete uma fantasia: a de que todo gay dará em cima de todo heterossexual. Nada mais falso. Fala-se de amor incondicional de pais para filhos. Mas muitas vezes deparamos com uma manifestação assim: “Prefiro um filho morto a um filho gay”. Todas essas maneiras de falar incorporadas ao cotidiano excluem o LGBTQI+ da sociedade. Elas incentivam o suicídio, a violência. Ninguém nasceu preconceituoso ou homofóbico. É algo que se aprende. Tudo o que a gente aprende também pode desaprender.

***WALCYR CARRASCO               

OUTROS OLHARES

EM BUSCA DO CONFORTO

Com a quarentena e mais tempo em casa, consumidores investem em conforto e em projetos para home offices, aquecendo o mercado de decoração e design

Nas casas ou nos apartamentos, do mais simples ao mais sofisticado, a pandemia obrigou a população a repensar seus valores e provocou adaptações no comportamento e no consumo. Entre elas, houve a valorização do conforto na própria residência, uma vez que a quarentena exigiu uma ampliação do tempo dentro de casa. “Uma família inteira reunida em um ambiente comum percebe rapidamente a relevância de um sofá mais confortável”, afirma Angelo Derenze, diretor-geral do D&D Shopping, templo da decoração em São Paulo. Apesar do fechamento parcial de muitas lojas físicas e as consequentes perdas do setor, o e-commerce de móveis e objetos vem permitindo uma recuperação. “Houve um crescimento na compra de TVs de alta definição, reflexo das famílias estarem passando mais tempo em casa assistindo a filmes e séries.” Segundo ele, o primeiro mês da pandemia, com tudo fechado, foi um choque. “Aos poucos, criamos um serviço de entrega dentro das normas sanitárias e iniciamos a retomada. Em abril vendemos 45% do esperado, mas em maio esse número já subiu para 95%. Em junho, obtivemos um crescimento de 30% acima do mesmo período no ano anterior. Se há uma grande vencedora com essa pandemia, é a casa das pessoas.”

O arquiteto João Armentano não parou um segundo durante a pandemia. Segundo ele, o aumento do trabalho revela que os arquitetos, de maneira geral, foram beneficiados com a valorização desse período longe das ruas. “Houve um aumento nos projetos de adaptação dos espaços para home office”, afirma. Se antes o escritório em casa era um luxo exclusivo das grandes residências, hoje é considerado uma necessidade. Armentano diz que houve também um crescimento dos projetos para a segunda casa, na praia ou no campo, para onde os profissionais que puderam trabalhar de forma remota viajaram com a família. “Acho que trabalhei mais durante a pandemia do que antes dela. O lar é onde a pessoa se sente abraçada, acolhida. Ninguém sabe o dia de amanhã, se haverá ou não uma nova pandemia. Dá para entender a vontade de investir na própria casa.”

HOME OFFICE

Segundo Eduardo Machado, diretor do Casa Shopping, no Rio de Janeiro, especializado em móveis, essa tendência de trabalhar em casa mexeu com o setor. “Antes, o sonho de consumo das pessoas era o ‘Espaço Gourmet’. Agora, querem conforto para assistir à TV e um bom espaço para trabalhar”. Para ele, o consumo em um shopping de decoração é diferente do habitual, pois o público não busca apenas produtos que são estritamente necessários. “As pessoas nunca chegam aqui para olhar vitrine, sem compromisso. Elas vêm comprar algo que pode melhorar a qualidade de vida.” A CEO do Casa Shopping, Flávia Marcolini, ressalta que o mercado está “bastante aquecido”.

Em Brasília, o shopping de decoração Casa Park foi beneficiado porque a flexibilização aconteceu mais cedo do que no Rio e em São Paulo. Cautelosa, a diretora de marketing, Ivana Valença, diz que é cedo para avaliar o crescimento. Ela confirma a alta na procura por móveis para escritórios caseiros. E cita a demanda por um espaço para as crianças estudarem e brincarem, uma vez que as aulas estão sendo realizadas de maneira virtual. “Essa espécie de ‘home office infantil’ também está em alta. As crianças estão em casa assistindo às aulas em vídeo, por isso a organização tem que ser maior do que era antes.”

Apesar de estar funcionando em horário reduzido, o Casa Park registrou em julho um aumento de 50% na circulação de pessoas em relação ao mês anterior. Em junho, 36 mil pessoas visitaram o shopping; em julho, esse número subiu para 58 mil. Cada vez mais, as pessoas estão redescobrindo o valor de um investimento muito valioso durante a pandemia: o conforto do próprio lar.

ALIMENTO DIÁRIO

DIA 27 DE AGOSTO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

OTIMISMO INDESTRUTÍVEL

Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus… (Romanos 8.28a).

O pessimismo tem sido a marca registrada deste mundo encharcado de sangue e violência. Perdemos a esperança nas mudanças políticas. Desencantamo-nos com os magistrados que vestem togas sagradas apenas para aviltarem a moral e achincalharem os valores absolutos que devem reger a sociedade. Sentimo-nos ameaçados por aqueles que nos deveriam proteger. O mundo está experimentando uma espécie de esquizofrenia moral. Vivemos uma inversão de valores. Chamam luz de trevas, e trevas de luz. Chamam o doce de amargo, e o amargo de doce. Nesse cenário cinzento de pessimismo, o povo de Deus pode viver uma contracultura de otimismo indestrutível. O apóstolo Paulo escreve: Sabemos que todas as coisas cooperaram para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Esta não é linguagem da conjectura hipotética, mas da certeza experimental. Sabemos que nossa vida não é jogada de um lado para o outro, ao sabor das circunstâncias. Deus trabalha nos mínimos detalhes da nossa vida, a fim de que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Deus está esculpindo em nós o caráter de Cristo. Ele nos está moldando a fim de resplandecermos sua glória. Ele está trabalhando em nós para depois trabalhar através de nós. Mesmo que as pessoas intentem o mal contra nós, isso será revertido em bênção. Os irmãos de José intentaram contra ele, vendendo-o como escravo para o Egito, mas Deus transformou aquela tragédia na maior bênção para salvar a vida dos próprios opressores.

GESTÃO E CARREIRA

CRÉDITO PESSOAL: USE COM MODERAÇÃO

Queda da Selic ainda não alivia o bolso do consumidor. educação financeira é essencial para sair do endividamento e usar a renda da melhor maneira.

De agosto de 2016 até agora, a queda da taxa básica de juros da economia (Selic) foi histórica. De 14,25% ao ano, ela foi gradualmente reduzida até chegar aos atuais 4,25%. O último corte foi em janeiro. Para a atividade econômica como um todo, juros baixos são bem-vindos. Quando se observa a tomada de crédito (empréstimos e financiamentos), o resultado prático da redução da Selic é irrisório. As instituições financeiras continuam cobrando juros altos de quem pede dinheiro emprestado. No caso dos empréstimos pessoais, a taxa dos bancos chega a quase 50% ao ano. E é bem maior no caso das financeiras, que cobram 111%. O cartão de crédito permanece o recordista dos juros: 261,36% ao ano.

“O consumidor olha mais para o valor da parcela do que para o preço final que vai pagar pelo produto”, diz Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). O executivo afirma que é perceptível uma melhora no planejamento, mas falta educação financeira. “Ao invés de olharmos as taxas e ver se compensa comprar determinado produto a prazo, o brasileiro acaba agindo muito pelo impulso, principalmente em datas comemorativas como dia das mães e Natal”, diz ele.

Para Silvio Paixão, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), o brasileiro está mais confiante em tomar crédito: “As pessoas estão mais confortáveis para um endividamento a partir do momento que percebem as reações positivas do governo para a economia”. Segundo ele, quem hoje tem aplicação com taxa baixa e sente qualquer incômodo, procura outros meios e as fintechs estão aí para isso.

“Estamos bem otimistas para um crescimento econômico em 2020 e não enxergamos problemas na inflação, que deve se manter bem baixa. Só precisamos manter esse ritmo de ações positivas para que o consumidor continue confiante”, diz Nicola Tingas, economista chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). “Os gargalos são o endividamento da população e o desemprego”, afirma.

As reformas tributária e administrativa são os fatores decisivos para que a onda de otimismo entre os consumidores continue e o crédito seja cada vez menos necessário para ser usado como pagamento de dívidas. Os especialistas consultados compartilham desta mesma opinião. Para Nicola Tingas, é preciso que as reformas aconteçam. “Isso dá confiança ao consumidor para manter o controle e otimismo para um gastar de forma mais consciente”, afirma.

RESPONSABILIDADE

Com mais crédito, os mercados se desenvolvem, as empresas investem, ampliam suas vendas, geram empregos e as pessoas antecipam a realização de seus sonhos. Tudo isso é muito bonito, desde que as pessoas saibam o que está por trás do dinheiro que pegam emprestado. A educação financeira é fundamental para gastar com responsabilidade. “Um quarto dos brasileiros que estava endividado continua da mesma maneira. As pessoas gastam mais do que tem facilmente em uma compra parcelada no cartão de crédito, por exemplo. No final, dá na mesma e acaba se livrando de uma dívida contraindo uma nova”, afirma Silvio Paixão, da Fipecafi.

Para o governo federal, a redução da Selic significa reforço no caixa. Com juros menores, os gastos no pagamento da dívida pública também caem. O Ministério da Economia estima que a redução da taxa básica de juros gerou, ao longo de 2019, uma economia de cerca de R$ 69 bilhões. Assim como todos os brasileiros, o governo também precisa aprender a gastar de forma consciente.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONSCIÊNCIA: PALPITE, DÚVIDA OU CERTEZA?

Experimentos revelam como o grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos influi diretamente em nossas opiniões, apostas e decisões

É inegável que muitas de nossas ações se passam fora do alcance da consciência: se ajustamos a postura corporal durante uma conversa ou se nos apaixonamos por determinada pessoa, em geral não temos ideia – pelo menos não exatamente – de por que ou de como fazemos essas escolhas. Para a maioria delas encontramos explicações superficiais (“fico mais confortável nessa posição” ou “gosto do meu noivo, temos muito em comum”, por exemplo). Por trás dessas justificativas, porém, pode haver muitos mistérios.

Um exemplo simples: “Ao acionar um interruptor, você conscientemente viu a luz se acender?”. Embora pareça fácil responder à pergunta, mais de um século de pesquisas mostrou que não é bem assim. O problema-chave aqui é definir a consciência de tal forma que seja possível medi-la de maneira independente do estado interno do cérebro, ao mesmo tempo que “captamos” seu caráter subjetivo.

Um experimento comum no campo do estudo da consciência se baseia na avaliação do grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos. No teste, um voluntário tem de julgar se uma nuvem de pontos numa tela de computador se move para a esquerda ou para a direita. Ele em seguida relata quão confiante se sente assinalando um número – por exemplo, 1 para indicar puro palpite, 2 para alguma hesitação e 3 para certeza completa. Esse procedimento mostra que, quando o participante tem pouca percepção da direção do movimento dos pontos, sua confiança é baixa, mas, quando “vê” claramente o movimento, sua segurança é alta. Um relatório apresentado pelos pesquisadores Navindra Persaud, da Universidade de Toronto, e Peter McLeod e Alan Cowey, da Universidade de Oxford, introduz uma medida mais objetiva da consciência: o desejo de ganhar dinheiro. Esse método foi adaptado da economia, em que é usado para avaliar a crença a respeito do resultado provável de um evento. Aqueles que acreditam na informação que têm se mostram dispostos a apostar nela. Isto é, aceitam pagar para ver. Pense no investimento em fundos mútuos. Quanto mais certo você estiver de que a alta tecnologia vai render bem no ano seguinte, mais dinheiro alocará para um fundo destinado a esse setor. Persaud e seus colegas usam esse tipo de aposta para revelar a consciência – ou a falta dela. Em seus experimentos, os participantes não declaram confiança na percepção de maneira direta. Em vez disso, primeiro tomam uma decisão com base na- quilo que perceberam e então apostam uma quantia em seu grau de confiança na própria decisão. Se a escolha se mostra correta, o voluntário ganha o dinheiro; caso contrário, perde. A estratégia ideal é apostar sempre que se sinta seguro. As experiências aplicam essa técnica de apostas para três exemplos do processamento não consciente.

Um deles foi feito com o paciente G. Y. Devido a um acidente de carro que danificou áreas no seu cérebro responsáveis pelo processamento visual, ele tem o que se costuma chamar de “visão cega”. Essa condição o deixa com a capacidade não consciente de localizar uma luz ou relatar a direção na qual uma barra colocada numa tela de computador está se movendo, embora ele negue ter a experiência visual – G. Y. insiste que está apenas chutando.

O paciente pode indicar a presença ou ausência de uma rede fraca e pequena em 70% de todos os testes, bem mais do que uma chance média (50%). Apesar disso, ele falha em converter esse desempenho superior em dinheiro quando está apostando; coloca quantias altas em menos da metade de suas escolhas corretas. Quando está ciente do estímulo, G. Y. aposta alto – exatamente o que qualquer pessoa faria. Suas apostas parecem espelhar a percepção consciente que tem do estímulo (isto é, a crença de que ele o viu) em vez de sua detecção real (inconsciente) do estímulo. Isso sugere que as apostas podem servir de meio para medir a consciência.

As técnicas de apostas usadas por Persaud, McLeod e Cowey dependem da capacidade intuitiva de fazer boas escolhas e obter lucros. Em comparação com a tática de forçar participantes a se tornar cientes de sua própria consciência – e, nesse processo, interferir no próprio fenômeno que se deseja medir –, as apostas representam uma forma mais sutil de avaliar a percepção, mostrando-se uma nova maneira mais lúdica – e reveladora – de estudar a percepção e os processos de tomada de decisão. Desses passos, aparentemente pequenos, surgem possibilidades para ampliar a compreensão de como a consciência surge da experiência.

EU ACHO …

INSANIDADE DE REBANHO

As evidências cada vez mais abundantes de sequelas diversas nos pacientes recuperados da Covid-19 têm causado espanto e apreensão na comunidade médica e científica. A mais recente foi revelada em estudo publicado no European Heart Journal, com financiamento da British Heart Foundation. Entre os mais de 1.200 pacientes avaliados provenientes de 69 países, 55% apresentaram anomalias cardíacas e cardiopatias. Entre os cerca de 900 desses 1.200 que não tinham qualquer condição cardíaca preexistente, 46% apresentaram anomalias em ecocardiogramas e demais avaliações clínicas e diagnósticas. Ainda que não se possa dizer conclusivamente que as cardiopatias detectadas sejam decorrentes da Covid-19 – para tanto seria necessária a condução de um estudo randomizado com grupos de controle bem estabelecidos -, o estudo é mais um a demonstrar a existência de estreita correlação entre a Covid-19 e doenças cardiovasculares. Como muitos já suspeitam que a doença esteja mais para uma síndrome vascular sistêmica do que para um mal estritamente pulmonar, as evidências se encaixam.

Há também evidências de neuropatias, de doenças renais, de tromboses e acidentes cardiovasculares entre os pacientes recuperados. Portanto, os desafios relacionados ao sars-CoV-2 vão além da pandemia. Depois que ela passar – e isso ainda há de demorar -, é possível que os sistemas de saúde mundo afora continuem com intensa demanda ou até sobrecarga. Para além das mortes evitáveis, são as sequelas que põem em xeque as estratégias de “imunidade de rebanho” seguidas por governos como o brasileiro. Sim, pois ainda que a estratégia não tenha sido anunciada com essas palavras, a política de Bolsonaro é a de alcançar o mais indesejável dos resultados, a julgar por parâmetros de um governo minimamente responsável. Já com a política adotada, partimos para a insanidade de rebanho, e ela é irreversível.

O quadro tem consequências diversas para a economia. Mas, antes de enumerá-las, permito-me uma digressão. Penso que qualquer pessoa que pretenda fazer projeções macroeconômicas, debater políticas públicas ou apresentar propostas deva, antes de tudo, estabelecer algum tipo de relação com a área biomédica. Tenho insistido em diferentes espaços na necessidade de buscar algum conhecimento sobre temas dessa área para que se possa entender a extensão da crise subjacente, que de econômica nada tem. A crise econômica é tão somente o sintoma da patologia sistêmica que se propagou. Sem que se tenha alguma compreensão da doença, de como ela se manifesta, sem que se tenha uma mínima capacidade de acompanhar os artigos científicos, as projeções econômicas têm o mesmo valor que uma nota de um cruzeiro.

Quais as consequências? Em primeiro plano, está o SUS e todas aquelas pessoas que podem dele ter de depender depois de recuperadas da Covid-19. Ou seja, caso fique estabelecido que a Covid-19 causa sequelas reversíveis e irreversíveis, brandas ou severas, o subfinanciamento do SUS não só ficará mais agudo, como aportes de recursos serão necessários por muito mais tempo do que o previsto. Isso implicará abrir espaço no orçamento público para o investimento na saúde. A insanidade de rebanho, afinal, tem custos fiscais elevados – apenas para pôr a questão em termos compreensíveis para os fiscalistas mais extremados. Além de um maior número de dependentes do SUS e do inevitável ônus fiscal, as sequelas podem ser um dano adicional em um mercado de trabalho já combalido. Muitas pessoas podem ter de se afastar de seus empregos por um tempo. Em certos casos seu afastamento pesaria sobre as contas públicas, o que seria dramático para elas epara a esperada recuperação da economia. Por fim, uma economia permanentemente debilitada pelo vírus seria bem menos atraente para investidores externos ou domésticos, reduzindo o ímpeto de qualquer retomada prevista.

Eis, portanto, que a insanidade de rebanho brasileira – além de ser desumana – pode ser prejudicial para as contas públicas e a trajetória da dívida a perder de vista.

Em vez de nos darmos conta disso, insistimos no devaneio dos riscos inflacionários, na preservação de um teto de gastos incompatível com a insanidade de rebanho, nos temores de que o câmbio se desvalorize ainda mais e de que o investimento externo não retorne. Francamente? A porteira já se abriu e a insanidade é outra.

MONICA DE BOLLE – épesquisadora sênior do Peterson Institute for InternationaL Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

BARIÁTRICA JUVENIL

Seguro e eficaz, o procedimento cirúrgico se tornou a melhor alternativa para tratamento da obesidade mórbida

A adolescente paulista Lívia Pizzi tem 14 anos, 1,64 de altura e 110 quilos. Seu índice de massa corpórea é de 40.9, ou seja, nesse momento ela está em situação de obesidade mórbida, o que caracteriza uma doença grave. Tal grau de obesidade pode comprometer seriamente órgãos como fígado, rins, coração e pulmões. Além disso, os ossos dos joelhos são prejudicados. Ultrapassando aspectos relacionados à saúde física, a obesidade mórbida é devastadora a tudo que está relacionado à vida interpessoal e aos relacionamentos, principalmente na idade de Lívia. “Ela sofria bullying com frequência na escola”, conta a mãe da estudante, Gislene Pizzi, que se viu obrigada a mudar sua filha de colégio. “Mudei porque ela ficava triste e isolada das colegas”, conta. No início do ano, a família procurou o mesmo médico que fez uma cirurgia bariátrica no pai de Lívia, Rene Pizzi, o cirurgião e diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), em São Paulo, Luiz Vicente Berti. Lívia fará a cirurgia daqui um mês. “Se o paciente tem indicação para bariátrica, temos obrigação de fazer”, afirma o médico.

Desde 2013, esse tipo de cirurgia é permitido a partir dos 16 anos. As regras gerais para sua realização são o índice de massa corpórea (IMC) acima de 40, que caracteriza obesidade mórbida instalada, sem resposta a tratamento clínico, e a verificação de doença causada pela obesidade. A partir deste ponto, há acompanhamento de saúde e, em caso de menores de idade, e a exigência legal de concordância dos pais ou responsáveis. Assim como a família Pizzi, outras tentam realizar o procedimento médico a fim de melhorar a funcionalidade do corpo, evitar doenças, e retomar a convivência harmônica nos ambientes que frequentam. O filho do apresentador Fausto Silva, João Guilherme, de 16 anos, por exemplo, passou por uma cirurgia bariátrica em maio, que lhe tirou 20 quilos. Segundo Marcos Leão, presidente da SBCBM, ao longo do tempo a bariátrica foi melhorada tecnicamente e se tornou mais segura.

AUTOESTIMA

A obesidade mórbida acometeu o estudante amapaense Gabriel Alencar, 15, que sofreu com a doença até dezembro de 2019, quando foi submetido à cirurgia. “Foi à última solução encontrada para se ver livre desse mal”, conta Cristina Alencar, 47, mãe de Gabriel. Antes da realização do procedimento, o rapaz era de pouco papo e não conseguia se relacionar bem com os colegas. Além disso, tinha dificuldade de locomoção, devido aos 133 quilos em um corpo de 1,78 de altura. Gabriel está com 99 quilos e os problemas sumiram. “Meu filho está muito bem de saúde e de autoestima”, diz Cristina. A realização da bariátrica em jovens vai muito além de benefícios físicos. Há, realmente, uma vida antes e outra pós-cirurgia.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE AGOSTO

PERDOAR NÃO É FÁCIL, MAS NECESSÁRIO

Suportai-vos uns aos outros; perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós (Colossenses 3.13).

O grande escritor C. S. Lewis disse que é mais fácil falar de perdão que perdoar. É verdade! Falar de perdão é fácil; difícil é perdoar quem nos machuca. O perdão, porém, não é uma opção, mas uma necessidade. Guardar mágoa é autofagia, é autodestruição, é a mesma coisa que você se ferir mortalmente pensando que está ferindo seu desafeto. Quem não perdoa não tem paz.  Há famílias atormentadas pela falta de perdão vivendo na masmorra da mágoa. Quem não perdoa não pode orar, ofertar e ser perdoado. O perdão é condição vital para termos saúde física, emocional e espiritual. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente, a alforria do coração.  O perdão cura, liberta e restaura. Constrói pontes onde a mágoa cavou abismos. Não há vida, casamento nem família saudável sem o exercício do perdão. José do Egito foi vítima do ódio consumado de seus irmãos. Sofreu por anos as consequências desse ódio. Mas Deus o restaurou e o honrou. José escolheu perdoar seus irmãos em vez de vingar-se deles. Deu duas provas dessa atitude. Chamou seu filho primogênito de Manassés, cujo significado é “Deus me fez esquecer”. José também deu a melhor terra do Egito a seus irmãos que o maltrataram. O perdão é um ato de misericórdia. É expressão da graça de Deus em nós e por nós.

GESTÃO E CARREIRA

ESQUEÇA TUDO. PLUG NISTO

Trevisan Escola de Negócios quer transformar o que chamamos de educação – e isso interessa à sua empresa.

Alguém em algum lugar faz algo. E é assim que tudo começa. À frente da Trevisan Escola de Negócios, VanDyck Silveira quer construir essa diferença. Para tanto, poderia ter escolhido caminhos conceituais e teóricos. Ele preferiu à lá Engels: com ação. No fim de semana em que o governo de São Paulo declarou reclusão e fechamento de atividades econômicas por 15 dias, ele reuniu professores, seu time de tecnologia e remodelou todas as disciplinas presenciais – a Trevisan tem aulas presenciais e a distância (EAD) – para que nenhum estudante perdesse conteúdo. “Respondemos imediatamente. Nenhum aluno ficou a pé”, diz. “Vamos ver o que aconteceu nas universidades federais, estaduais e muitas particulares: suspenderam as aulas, e a gente não sabe por quanto tempo. É um total despreparo e descaso.” Para ele, o ensino superior está distante da pessoa comum.

Assim que assumiu a escola, em janeiro do ano passado – ele é um dos sócios –, VanDyck (pronuncia-se ‘van-di-que’) transformou o currículo dos cursos de graduação da Trevisan, o de Administração e o de Contabilidade. Das 4.000 horas de cada grade, pelo menos 600 (15%) serão dedicadas a disciplinas como Big Data, Inteligência Artificial e Internet das Coisas. E não por meio de encontros apenas teóricos. Mas de aplicações.

A ânsia por transformar cada aula numa solução vem de seus tempos como CEO da Corporate Learning Alliance (atual Headspring), joint-venture entre o londrino Financial Times e a IE Business School, em Madri, uma das escolas líderes no mundo da educação corporativa. “Criamos uma empresa focada nas 5 mil maiores companhias do mundo”, diz. Tinha o que ele chama de educação com consequências reais para as organizações. Os alunos eram estimulados e preparados para executar a estratégia das companhias. “Não era apenas usar o livro de RH, de Finanças ou de Marketing. É aquilo que a empresa precisa saber para executar uma estratégia personalizada, não genérica.”

Aproximar-se do FT, um dos veículos ícones do universo da economia e das finanças, cujas origens remontam a 1888, levou VanDyck a atuar no processo de transformação digital do jornal. “Ajudamos o Financial Times a encontrar sua posição como um portal de suporte a decisões dos agentes de mercado – empresários, banqueiros, executivos, traders.”

A versão impressa do jornal foi mantida, mas o foco passou a estar no serviço de insights de dados, de análises. “Algo que vai muito além da notícia pura”, diz. Essa inquietação ele pretende impregnar na Trevisan. Seja nos cursos de graduação ou nos de pós-graduação e educação executiva, com versões presenciais, on-line e in company. “Em um futuro próximo, somente escolas, colégios e universidades híbridas existirão. Aquelas que insistirem em modelos 100% presenciais desaparecerão.”

SÓCRATES

VanDyck ataca um ponto inquestionável. Poucas indústrias se mantêm operando no mesmo modelo e formato de entrega de serviços, desde que foram inventadas, como as do segmento de educação. “Não mudou nada desde Sócrates”, afirma. Por esse motivo ele acredita que a hora da disrupção do setor chegou. “Com tecnologia de ponta e pedagogia especializada – no desenvolvimento de crianças, jovens e executivos –, a experiência de aprender e fixar o conhecimento será única, melhor e mais duradoura.”

Ao todo, a Trevisan Escola de Negócios já soma 5 mil alunos, com 200 professores. Sem fazer previsão em número de matriculados, ele prefere falar de alcance. Até 2025, a partir do investimento em Educação a Distância, quer atingir o Brasil todo. Mas não descarta aquisições ou mesmo parcerias e fusões para o crescimento, apesar de ainda apostar no avanço orgânico. O faturamento em 2019 foi de R$ 25 milhões.

De duas características, porém, não abrirá mão. O olhar pragmático e a velocidade. Para VanDyck, isso tem a ver com o DNA da Trevisan. “Somos a única escola de negócios do Brasil que nasceu dentro uma grande empresa de consultoria.” O que o obriga, paralelamente, a buscar um perfil bem específico para seu quadro docente. “Nossos professores têm conhecimento sui generis, ninguém é 100% acadêmico ou 100% mercado.” E remete também a uma previsão de Antoninho Marmo Trevisan, fundador da consultoria. “Cada vez mais, as empresas serão escolas e as escolas serão empresas. Só faltava abraçar a tecnologia.” Foi o que ele fez. “Não temos medo.”

VanDyck Silveira fez 47 anos dia 25 de março, uma quarta-feira. Passou os dias da véspera envolvido em como evitar que qualquer aluno seu perdesse uma aula por causa da crise do coronavírus. Com 20 anos de experiência em educação superior e executiva, comanda a Trevisan Escola de Negócios.

O QUE PRETENDE DEIXAR COMO MARCA NA TREVISAN?
Que seja a primeira escola de negócios reconhecida pela sua capacidade de aplicar a ciência de dados e a Inteligência Artificial como parte integral e profunda da formação de seus alunos.

O SENHOR COSTUMA DIZER QUE INSTITUIÇÕES, INCLUSIVE RENOMADAS, ESTÃO AMARRADAS A UM MODELO INDUSTRIAL E PRETENDE QUE A TREVISAN FORME ALUNOS PARA LIDERAR A INDÚSTRIA 4.0. COMO?
A revolução passa pela fluência digital e pela possibilidade de fazer operações digitais. Todos os nossos programas ganharam uma considerável quantidade de horas em transformação digital.

NUM PAÍS DE ESTRUTURAS DE ENSINO TÃO ENGESSADAS, O QUE SERIA PRECISO MUDAR?
Conteúdos mais pragmáticos, conectados com a realidade. Precisamos que as crianças, desde pequenas, sejam estimuladas ao bom desenvolvimento cognitivo, que possam ter reforço em Matemática, que possamos ter desde cedo os olhos para a ciência.

ESSE NOVO ALUNO JÁ ACOMPANHOU A MUDANÇA?
Ainda temos alunos que se imaginam 100% de um lado (curso presencial) ou do outro (EAD). Mas todos são “blended”. Talvez, a Covid-19 tenha um lado positivo, por acelerar um modelo híbrido.

O MUNDO ACADÊMICO BRASILEIRO ESTÁ DESCOLADO DO MUNDO REAL?
Universidades mundo afora estão descoladas do mundo real, mas no Brasil é mais acirrado. Algumas universidades ainda apresentam ranço ideológico, dificuldade de lidar com executivos, com projetos que tenham fins lucrativos.

SE FOSSE ESTUDAR HOJE, O QUE FARIA?
Uma trilha com Economia, Matemática, Estatística, Psicologia, Neurociência e, no campo das Ciências Humanas, Filosofia Oriental. O modo de pensar oriental pode nos ensinar muito.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

GOLPE DE SORTE

Atribuir sucessos e fracassos ao acaso é cômodo; mas compreender as emoções e usá-las a nosso favor pode criar excelentes oportunidades

A sorte é realmente cega? Psicólogos que trataram do tema explicam que, por trás da convicção de que somos “sortudos” ou “azarados”, há o desejo de manter os acontecimentos sob controle, sobretudo os que nos inquietam. A explicação tem antecedente histórico: já na década de 20 o antropólogo Bronislaw Malinowski observou que os pescadores nativos da Melanésia recorriam a magias sempre que tinham de explorar águas desconhecidas. Quando permaneciam em regiões vizinhas, porém, confiavam apenas nas próprias habilidades. “As superstições oferecem uma sensação ilusória de controle dos eventos, que pode ajudar a aplacar nossas ansiedades”, diz o psicólogo americano Stuart Vyse. “Por isso elas são necessárias nos momentos em que nos sentimos vulneráveis.”

Os argumentos são válidos, mas insuficientes, segundo o psicólogo Richard Wiseman, professor da Universidade de Hertfordshire, Inglaterra. Ex-ilusionista e interessado em fenômenos paranormais, Wiseman conduziu um complexo estudo sobre os mecanismos possivelmente relacionados à sorte. O projeto, financiado por várias instituições, entre as quais a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, gerou um manual chamado O fator sorte, traduzido em mais de 20 idiomas.

Não é a primeira vez que a ciência tenta revelar as leis da sorte e do azar. Há alguns anos, o físico Richard A. J. Matthews estudou as chamadas leis de Murphy, a irônica suma do pessimismo resumida na máxima “se alguma coisa pode dar errado, dará”. Matthews investigou, em particular, por que uma fatia de pão com manteiga cai geralmente com o lado da manteiga para baixo. O fato foi confirmado por um estudo experimental, patrocinado por um fabricante de manteiga: o aparente azar deve-se simplesmente à relação física entre as dimensões da fatia e a altura em que estava colocada. São também explicáveis outros tipos de infortúnio, como o fato de que quando retiramos duas meias da gaveta geralmente elas não são do mesmo par.

Além disso, só damos atenção a certos fatos quando eles ocorrem – como a chegada do ônibus assim que se acende um cigarro -, o que contribui para reforçar nossos preconceitos e nos fazer ignorar as leis da probabilidade. “A diferença entre eventos ordinários e extraordinários é subjetiva”, explica o psicólogo Lorenzo Montali, da Universidade de Milão-Bicocca. “Estar atrasado, por exemplo, é um fato comum, mas certamente será recordado como um golpe de sorte se graças a ele somos salvos de um desastre.”

Ao estudar o pensamento não racional, Michael Wohl, psicólogo da Universidade Carleton, em Ontário, verificou que muitos jogadores obstinados estão convencidos de que podem influenciar o andamento de um jogo de azar graças à própria sorte, ignorando as leis da probabilidade e superestimando as possibilidades de vitória. Muitas vezes não nos damos conta de que certos eventos, como acertar na loteria, são raros, mas não impossíveis. “Quando ganhamos em um cassino, não pensamos no fato de que alguém tinha, necessariamente, de ganhar”, diz Montali.

SUPERSTIÇÃO E HABILIDADE

A mesma conclusão foi obtida pelo estudo realizado em 2002 por Paola Bressan, professora de psicologia da Universidade de Pádua, e publicado em 2002 na revista Applied Cognitive Psychology.

Ao pesquisar pessoas que acreditam em eventos paranormais, ela mostrou que certos acontecimentos parecem extraordinários porque não se leva em conta a probabilidade de que ocorram.

Pesquisadores interessados nesses temas, porém, tendem a analisar comportamentos específicos e não a nossa relação com a sorte enquanto tal. Segundo Wiseman, isso ocorre porque “o conceito de sorte é difícil de definir, ou porque muitos psicólogos não gostam de enfrentar temas ligados à superstição ou à magia”.

Para traduzir esse conceito tão evasivo em termos concretos, Wiseman publicou em 1994 um anúncio no jornal solicitando que pessoas particularmente sortudas ou azaradas entrassem em contato com ele para que seus comportamentos fossem analisados. Descobriu que cerca de 9% desses indivíduos podiam ser considerados azarados e 12% favorecidos pela sorte.

Todos os outros entravam na média. A análise experimental dos traços de personalidade que distinguiam as duas categorias permitiu concluir que os azarados são mais tensos e concentrados, ao passo que os sortudos tendem a considerar as coisas de forma mais relaxada, mas sem perder de vista o contexto geral. Wiseman deu aos participantes um jornal, solicitando que contassem as fotos impressas e prometendo um prêmio aos que o fizessem corretamente. Ora, o número solicitado estava gravado de forma evidente sobre uma das páginas, algo que muitos “azarados” não perceberam, pois estavam concentrados demais na tarefa.

Se levarmos em conta os dados coletados, ter sorte significa saber escolher ou criar as oportunidades e as ocasiões mais vantajosas. “Estamos fazendo uma pesquisa estatística sobre o mecanismo que poderíamos definir com a expressão ‘como o mundo é pequeno!’; tal mecanismo nos leva a encontrar frequentemente pessoas que ‘por acaso’ conhecem outras pessoas ligadas a nós”, explica o psicólogo. “Sabemos que os ‘felizardos’ são também hábeis para estabelecer ligações entre diversos grupos de indivíduos, aumentando assim a possibilidade de encontros úteis.”

Os outros “fatores” da sorte consistem, segundo Wiseman, em seguir a própria intuição, ser otimista quanto ao futuro, não capitular diante das dificuldades e tentar, até onde possível, enfatizar aspectos positivos, inclusive dos eventos negativos. Em suma, trata-se de aprender a considerar as coisas de outra forma. Wiseman observa que dependendo do ponto de vista, mais que a situação em si, a pessoa pode se considerar bem ou mal sucedida. Em minha pesquisa, vários entrevistados acreditavam ter sorte na vida, mesmo que tivessem experimentado fatos dramáticos, doenças ou lutos. O que pensa uma pessoa que foi envolvida, involuntariamente, em incidente grave e “infeliz”, que saiu dele seriamente ferida mas, “felizmente”, viva? “Em geral, os pessimistas se julgam simplesmente realistas, mas os otimistas, ainda que vivam numa espécie de ilusão, desfrutam dos efeitos positivos dessa atitude”, assinala o psicólogo. O mesmo ocorre com pessoas que têm fé – tema de outra pesquisa de Wiseman -, algo que lhes permite dar sentido aos eventos que marcam a vida.

Confiar na sorte é algo que, embora banal, está na base de nossa visão de mundo. Paola Bressan recorda que “a tendência a dar ordem e significado ao que acontece a nossa volta, criando rapidamente relações entre eventos simultâneos ou sucessivos – como o trovão e a tempestade ou a ingestão de comida estragada e mal-estar – é indispensável para a sobrevivência”. As pessoas mais inclinadas a essa atitude, os “perseguidores de significado”, conforme a expressão de Paola, tendem a subestimar as leis da probabilidade e a encontrar um maior número de “coincidências”, que atribuem à sorte ou a experiências paranormais. “Trata-se de ilusões cognitivas, que, porém, nos ajudam a viver melhor”, explica a psicóloga.

Atribuir os acontecimentos à sorte permite que a pessoa seja mais indulgente consigo mesma. “Segundo a teoria da atribuição, proposta em 1958 pelo psicólogo Fritz Heider, quando analisamos a causa de um fato, podemos nos basear em uma dimensão interna ou externa em relação a nós mesmos e estável ou instável quanto ao tempo”, explica Montali. Em suma, podemos atribuir o mau desempenho em um exame ao nosso despreparo, à má vontade do professor ou à constante antipatia deste em relação a nós.

Nessa perspectiva, sorte e azar são causas externas instáveis, que conferem sentido a um evento que até então não tinha sentido algum e reduzem a ansiedade causada pela incerteza. Ao mesmo tempo, isso nos absolve de qualquer culpa: “É um erro que protege o eu”, explica Montali, “tanto mais tendemos a atribuir os êxitos aos nossos talentos e os fracassos ao azar”. Esse erro pode alimentar preconceitos. “Um estudo feito em 1974 mostrou que indivíduos de ambos os sexos, interrogados sobre as causas do êxito profissional de pessoas famosas, tendem a atribuir o sucesso dos homens à capacidade destes e o das mulheres à sorte.”

“A superstição e o pensamento mágico são instrumentos para enfrentarmos a incerteza: quando nos consideramos azarados estamos dizendo que não somos responsáveis por nossos fracassos”, resume Wiseman, que hoje oferece verdadeiras “lições de sorte” a gerentes e outros interessados: “Alguns dos meus alunos ‘azarados’ conseguem mudar radicalmente a vida quando assimilam as regras que sugiro. Ser sortudo quer dizer enfrentar os problemas de forma criativa”.

BRUXOS DO BEM

Recorrer a videntes também é uma forma de afastar incertezas, confiando a outros o nosso destino. Wiseman explica: “Essas pessoas, muitas vezes, levantam problemas que nem sequer existem, oferecendo-nos então uma solução custosa. E são bastante astutas para nos convencer de que sua intervenção afastou uma ameaça na verdade inexistente. Já aqueles que procuram videntes tendem a ignorar as predições negativas, concentrando-se nas positivas. É uma atitude típica de quem não gosta da incerteza. Minha experiência sugere que são justamente as situações indeterminadas que nos permitem assumir o controle sobre nossa vida”.

Muitos confiam ainda em amuletos, como, por exemplo, um objeto que carregavam consigo em um momento particularmente favorável da vida. “Os talismãs nos dão a sensação de que retomamos o controle da situação e têm a vantagem de não servir como desculpa para não enfrentarmos as situações; aliás, algumas pessoas ‘sortudas’ que estudamos carregavam um”, conclui o psicólogo. Wiseman está preparando um “amuleto científico”, isto é, um medalhão no qual serão inscritos os princípios que inspiram a “escola da sorte”. Sua proposta é testar experimentalmente a eficácia desse objeto com seus alunos.

EU ACHO …

AS MAIORES VÍTIMAS

A pandemia vai dobrar o número de famintos e levar a uma explosão dos excluídos do mundo

A pandemia expôs e intensificou profundas desigualdades no mundo todo, e a verdadeira extensão do problema ainda não está clara, segundo um novo e importante relatório. A crise nos países mais pobres ameaça escalar para uma catástrofe conforme aumentam a perda de empregos e a insegurança alimentar. “Os impactos econômicos, sociais e políticos apenas começam a se revelar”, descreve o relatório – Building Back with Justice: Dismantling lnequalities After Covid-19″ (“Reconstruir com Justiça: Derrubando as Desigualdades Depois da Covid·19”), da Christian Aid, a ser publicado no fim deste mês.

Sem uma ajuda urgente, o número de seres humanos que enfrentam a fome aguda poderá dobrar para 250 milhões em 2020. Alguns países têm enfrentado grandes aumentos no custo da alimentação. Em algumas partes do Afeganistão, por exemplo, os preços do trigo subiram 20%. Na Índia, 80 milhões de trabalhadores migrantes perderam o emprego nas cidades, deixando-os famintos e sem teto, e suas famílias sem remessas de dinheiro cruciais.

Os tratamentos de saúde rotineiros, como imunização e obstetrícia, foram gravemente interrompidos. “Em muitos países, a interrupção do atendimento de saúde não ligado ao coronavírus poderá causar mais mortes que o próprio vírus”, aponta o relatório. Asprecauções contra a Covid-19; como lavar as mãos com frequência, são mais problemáticas em países com saneamento insuficiente. Segundo o estudo, 3 bilhões de indivíduos – cerca de 40% da população global – não têm acesso a instalações básicas para lavar as mãos em casa. Na Etiópia e na República Democrática do Congo, o segundo e o quarto países mais populosos da África, menos de 10% dos habitantes podem lavar as mãos em casa.

Nove em cada dez estudantes em todo o mundo perderam parte de sua educação. Muitos – especialmente as meninas – nos países mais pobres nunca voltarão a estudar. “A experiência da epidemia de Ebola no Oeste da África mostra que o fechamento das escolas leva a índices mais altos de abandono permanente dos estudos por meninas e um aumento no trabalho infantil, negligência, abuso sexual, gravidez na adolescência e casamento precoce.” O relatório acrescenta: “Há crescente evidência de que as mulheres estão suportando o maior peso social e econômico durante a crise”.

As mulheres fazem a maior parte do trabalho de assistência social e de saúde, e tendem a atuar nas funções menos remuneradas nesses setores. Elas têm maior propensão a trabalhar na economia informal, enfrentar uma carga de trabalho maior em casa e ficar mais expostas à violência em momentos de crise econômica.

O relatório salienta o contraste no modo como os países mais ricos mobilizaram enormes quantias para apoiar suas economias com a reação nos países mais pobres sufocados por uma enorme dívida. Alemanha e Itália gastaram mais de 25% do PIB na estabilização econômica, enquanto os africanos Malaui, Quênia e República Democrática do Congo aplicaram menos de 1%.

Os repagamentos da dívida dos países mais pobres foram suspensos de 1° de maio até o fim deste ano, mas a Christian Aid solicita um “cancelamento abrangente por 12 meses do principal da dívida e juros de 76 países de baixa renda”. O cancelamento da dívida, segundo a instituição, “poderá ser uma das maneiras mais rápidas de liberar recursos para alguns países mais afetados pela pandemia e seus impactos econômicos”. A Christian Aid também quer ver a redução dos abusos fiscais e evasão fiscal, e a adoção de impostos sobre a riqueza. Por exemplo, na Índia, um imposto de 4% sobre as 953 famílias ultra ricas poderia levantar pouco mais de 1% do PIB, permitindo que o governo duplicasse seu orçamento de saúde, diz o documento.

A pandemia precisa de ação coordenada nos níveis global, nacional e local, mas a reação foi “mais caracterizada pela concorrência do que pela colaboração”. A ONU e algumas instituições financeiras internacionais foram postas de lado, com os governos dando prioridade às respostas nacionais. A recuperação da crise deve ser verde e sustentável, diz o relatório. “O nível de desafio não deve ser subestimado. A crise também demonstrou, no entanto, que os governos podem intervir decisivamente quando a escala de uma emergência é clara e o público apoia a ação. O objetivo deve ser desacoplar o crescimento das emissões de gases de efeito estufa, reduzir as emissões globais pela metade até 2030 e ser livres de carbono em 2050”.

No prefácio do relatório, Jayati Ghosh, um importante economista do desenvolvimento, diz que visão e ambição são necessárias para evitar a catástrofe e “permitir uma recuperação global de base ampla e equitativa, que transforme radicalmente nossas relações econômicas e sociai e se concentre nos seres humanos e no planeta”.

***HARRIETE SHERWOOD

OUTROS OLHARES

UMA QUESTÃO DE PELE

Numa cidade histórica do interior dos Estados Unidos, um tatuador tenta apagar um passado cheio de racismo

Até há poucas semanas, a Electric Pair O’Dice era apenas mais um estúdio de tatuagem em Fredericksburg, no estado da Virgínia, a uma hora de carro de Washington. Isso mudou em junho, quando Jeremiah Hirsch, o dono do lugar, decidiu fazer uma campanha que batizou de “Apague o Ódio”. Inspirado pelos protestos provocados pela morte de George Floyd, homem negro vítima da brutalidade policial em Minneapolis no final de maio, Hirsch anunciou que cobriria, de graça, a tatuagem de qualquer pessoa que estivesse arrependida de ter colocado na pele símbolos de intolerância racial. “Não queremos que ninguém seja assombrado por seu passado”, diz a campanha.

Intolerância é um dos componentes da história de Fredericksburg. A cidade foi cenário de uma das batalhas cruciais da Guerra Civil Americana, que colocou em campos opostos no século XIX os abolicionistas do Norte e os escravocratas do Sul. O Norte ganhou, mas a veneração da bandeira dos estados derrotados, os confederados, persistiu em várias partes do Sul do país, em estados como Virgínia e Mississipi. “Estamos tentando ajudar as pessoas a olhar para dentro e entender o que esses símbolos significam”, disse Hirsch. Entre aqueles que já pediram para sua tatuagem ser transformada, havia gente com suásticas e o símbolo da SS, mas cerca de 80% exibiam símbolos da Confederação.

Esse foi o caso de Padraig-Eoin Dalrymple, que tinha uma bandeira confederada no braço e agora exibe no lugar os punhos fechados do movimento Vidas Negras Importam e uma bandeira do arco-íris. Órfão de mãe e com o pai preso, ele passou por um orfanato antes de ser adotado por um policial. “Quando eu fiz a tatuagem da bandeira confederada, não sabia nada. Minha família biológica era racista. Meu pai, meu ídolo, era racista. No orfanato, o ambiente também era racista. Esse ambiente deixa marcas em você”, disse.

Dalrymple cresceu ouvindo que os símbolos confederados não eram de ódio, mas uma herança cultural. “Nossos estados estão lutando por nossos direitos”, me diziam.” A ficha de Dalrymple só caiu quando ele foi visitar a casa de um amigo e viu a bandeira pendurada na parede ao lado de um símbolo da suástica nazista. Foi aí que ele pensou que havia um problema. “Se os neonazistas achavam que a Confederação tinha uma ideologia similar à deles, então, eu estava do lado errado”, contou.

Morador da cidade de Norfolk e se dizendo sem dinheiro para refazer a tatuagem da bandeira confederada, Dalrymple dirigiu 230 quilômetros até Fredericksburg quando ouviu falar da campanha do estúdio de Hirsch. Apesar de resolvida a questão da tatuagem, motivo de angústia e culpa, Dalrymple mantém algumas características que sempre o acompanharam. Ele acredita que, para superar o racismo, “protestos pacíficos não vão funcionar”. Cita soluções extremas para problemas extremos. Acredita que não é errado brigar, no caso de estar “lutando pela sobrevivência”. Em resumo, crê, firmemente, que o caminho é a violência.

Para quem trabalha com grupos supremacistas, o que está acontecendo com ele é um processo comum. O gerente da organização não governamental Vida após o ódio, Brad Galloway, contou que a “desradicalização” exige mudanças que vão além da remoção de tatuagens. “As pessoas se voltam muito facilmente para a violência”, disse Galloway, que foi membro do grupo neo­nazista Volksfront. “Independentemente do lado em que esteja, o que o extremismo quer é a incerteza. Eles querem o medo, uma sociedade dividida.”

Não há evidências de que o número de supremacistas brancos tenha diminuído após as manifestações pela morte de Floyd. Levantamentos anteriores aos protestos davam conta de uma elevação da radicalização. Pelos cálculos do Southern Poverty Law Center, o número de grupos de nacionalistas brancos cresceu 55% desde que o presidente Donald Trump chegou ao poder, há quase quatro anos. Já o Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e de Respostas ao Terrorismo da Universidade de Maryland afirma que existem hoje nos Estados Unidos 977 grupos de extremistas de direita. Entre os de direita, 65% se dedicam à ideologia do supremacismo branco.

Pelo menos na questão dos monumentos, os protestos contra o racismo desde o final de maio conseguiram algumas vitórias palpáveis. Urna delas ocorreu justamente próximo ao estúdio de tatuagem que abre esta reportagem. A remoção do Bloco do leilão de escravos, um pedestal de pedra na esquina das ruas William e Charles, no centro de Fredericksburg, era discutida pela Câmara Municipal havia quase 100 anos.

Quando manifestantes contra o racismo passaram a se reunir no local no mês passado, o debate ganhou nova força. Foi decidida, então, a remoção da peça para um dos museus da cidade. “O símbolo da segregação e da dor que foram impostos a meu povo não precisa ser lembrado nas ruas públicas da cidade”, disse o pastor Hashmel Turner, que propôs a retirada do bloco em 2005, quando era vereador na cidade. “Estou grato que ele tenha deixado as ruas de Fredericksburg”, completou.

Nos Estados Unidos e em várias outras partes do mundo, o tema da remoção de estátuas e monumentos segue sendo polêmico. Wornie Reed, professor de sociologia e estudos africanos da universidade Virgínia Tech, defende uma posição que tem muitos seguidores. “Estou disposto a sair de casa agora e apoiar qualquer pessoa que queira ter um símbolo desses em suas propriedades”, disse Reed. “Mas penso ser totalmente inapropriado expor algo que evoque a escravidão em lugares públicos”, completou o professor.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE AGOSTO

O SEGREDO DA VIDA ABUNDANTE

… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (João 10.10b).

O diabo é um enganador: promete liberdade e escraviza; promete prazer e aflige; promete vida e mata. Jesus, porém, veio para nos dar vida, e vida em abundância. A vida que Cristo oferece é maiúscula e superlativa. Diferentemente do ladrão que veio para roubar, matar e destruir, Jesus veio para que experimentássemos uma alegria permanente, uma paz duradoura e uma felicidade eterna. Certa feita, durante a Festa dos Tabernáculos, Jesus se levantou em Jerusalém e bradou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água vida (7.37,38). A verdadeira felicidade está em conhecer Jesus, experimentá-lo e fruí-lo. Não se trata de um conhecimento apenas teórico. Não é apenas um assentimento intelectual. Jesus é a água da vida. Precisamos beber dessa água. Quem bebe dessa água nunca mais tem sede. Crer em Jesus, como diz a Escritura, é uma experiência maravilhosa. Dentro de nós brota uma fonte para a vida eterna. Rios de água viva começam a jorrar do nosso interior e aí, sim, experimentamos uma felicidade pura, abundante, eterna. Embora o céu seja uma realidade a ser desfrutada no porvir, as alegrias da vida eterna começam aqui e agora.

GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ AJUDA O PLANETA, ELE AJUDA SEU CAIXA

Empresas preocupadas com causas socioambientais encontram clientes dispostos a pagar até um pouco mais caro por seus produtos, pois se preocupam com processos produtivos mais justos

No fim de 2019, a rainha dos baixinhos causou polêmica nas redes sociais. Xuxa postou em seu Instagram contra o peru de Natal, e a audiência não perdoou. A celebridade declarou que está na dieta vegana e já atua na proteção aos animais há algum tempo. Além da ação direta com instituições específicas, uma das marcas que levaram seu rosto por alguns anos, a Monange, não realiza testes em animais, apesar de estar abaixo do guarda-chuva da Coty, que possui alguns processos que vão na contramão dessas ações. Fato é que existem muitas maneiras de as empresas atuarem em seus processos e condução do produto, trazendo menores impactos ao meio ambiente, que tem cobrado cada dia mais o cuidado de sua população.

A boa notícia é que investir na sustentabilidade ambiental tem sido também lucrativo. Primeiro porque existe um público que se interessa em pagar um pouco mais por produtos que tenham esse viés. Uma pesquisa realizada pela Union + Webster, de acordo com a Agência Sistema FIEP, aponta que 87% da população brasileira prefere comprar produtos e serviços de empresas sustentáveis e que 70% dos entrevistados não se importam em pagar a mais por isso. Além disso, empreendimentos com essa preocupação têm sido mais bem avaliados por investidores. Por fim, adotar medidas que auxiliam na diminuição de uso de água e energia elétrica no seu negócio, por exemplo, pode trazer uma boa economia para o seu caixa mensalmente.

A série de documentários Desserviço ao Consumidor, disponível na Netflix, possui um episódio que mostra a atual situação relacionada ao plástico, por exemplo, ressaltando que 380 milhões de toneladas do material são produzidas anualmente em todo o planeta. Um dos pontos mais dramáticos da situação é o fato de a reciclagem do produto não ser exatamente da maneira imaginada: hoje, estima-se que apenas 9% de todo plástico já produzido foi reciclado. Isso porque, por mais que haja a separação do lixo, nem todo tipo de plástico produzido pode de fato ser reaproveitado – além disso, a biodegradação demora algumas centenas de anos para acontecer e as matérias-primas para sua fabricação podem ser tóxicas ao ser humano. Por isso, a melhor solução e, de fato, substituir por outros materiais.

PEQUENOS PASSOS

Em São Paulo, uma pequena vitória aconteceu com a lei que proíbe o fornecimento de copos, pratos e talheres de plástico na cidade. Isso quer dizer que eles não apenas não podem ser usados em bares e restaurantes como também não podem ser vendidos em supermercados. A lei entra em vigor em 1° de janeiro de 2021.  “A escolha de matéria­ prima pode ser facilmente alterada. de preferência para materiais naturais, reciclados, biodegradáveis ou uma combinação desses. No caso do setor em que atuo, é possível mudar isso até em empresas que estão sempre em busca de custos mais baixos, pois existem poliéster e poliamida biodegradáveis e reciclados”, diz a sócia-fundadora da Pantys, Emily Ewell.

Segundo ela, há muitas opções para os fornecedores e cada vez mais inovações, como os novos fios naturais, que podem trazer funcionalidades diferentes e interessantes para fazer mais produtos sustentáveis. Sua empresa é a primeira marca de calcinhas absorventes do Brasil que substitui completamente o uso de absorventes descartáveis, reduzindo, assim, até 500 unidades que seriam descartadas em um ano.

Outro documentário que mostra como a indústria pode impactar o planeta é o Explicando – O Futuro da carne. Ele ensina o quanto o consumo da proteína animal auxiliou no desenvolvimento humano em determinado momento. Porém, quando o consumo excessivo passou a se instalar no mundo, a pecuária passou a exigir espaço físico e quantidades de água que podem se tomar insustentáveis em pouco tempo. Com isso, já existem pesquisas e empresas focadas em desenvolver proteínas substitutas, inclusive em sabor, para quem não quer abrir mão do gosto de um bom churrasco. Porém, o ponto principal a ser trabalhado é o marketing desses produtos que ainda não parecem ter muita aderência do público.

Mas, além de ideias inesperadas que possam trazer novas possibilidades futuras, o que é possível a sua – pequena – empresa fazer hoje para manter o planeta a salvo? “Pelo que percebemos com a nossa experiência, a diferença entre o valor de matérias-primas mais sustentáveis para as menos não é tão grande. “Talvez você apenas tenha que repensar a parte de design, pois os processos e resultados mudam um pouco, mesmo assim é possível fazer o produto”, considera Emily.

A empresária diz que os consumidores, atualmente, valorizam mais os materiais sustentáveis, por isso, a preferência deles tem um impacto muito grande na experiência. Então, a escolha acaba valendo a pena e o custo fica ainda menor. “Nós, por exemplo, oferecemos produtos com decomposição máxima de três anos (tecidos normais levam até 50 anos para se decompor), além de terem uma durabilidade de até dois anos de uso”, acrescenta.

O último tópico citado é um contra­ponto à conhecida obsolescência programada – elaborada em 1932, ela traz produtos criados justamente para não durarem muito tempo e gerarem maior lucro por provocarem a necessidade de uma nova compra em um período menor. Uma das vitórias para o meio ambiente neste sentido veio à tona no fim de 2019, segundo o jornal Le Monde. O Senado francês aprovou uma emenda obrigando fabricantes a oferecerem aos consumidores informações simplificadas sobre a reparabilidade dos equipamentos elétricos e eletrônicos, para que a vida útil deles seja prolongada.

COMO EU FAÇO DAR CERTO?

Na visão de Emily, a primeira coisa a se pensar é a matéria-prima, tanto do produto final quanto da embalagem e até dos materiais usados no próprio escritório – se você está usando papel reciclável ou reciclado, por exemplo. O segundo ponto é a escolha de fornecedores. “Precisamos olhar todos os processos de quem fabrica a matéria-prima que compramos. Na Pantys, trabalhamos com fornecedores de tecidos que fazem reuso de água no processo de fabricação, olhamos o tipo de tingimento que eles utili­zam, para garantir que usam combinações químicas que não eliminam toxinas no meio ambiente. Depois, vem o espaço físico. Medimos todo o consumo de água e energia, estabelecemos metas para melhorar isso ao longo do ano e montamos um plano para reduzir nosso consumo de qualquer recurso em todo o nosso processo interno”, mostra.

O último ponto é o contato com o consumidor final. “Se for possível, é legal recolher o produto depois de utilizado. No nosso caso, nós conseguimos fazê-lo reciclável, o que permite que ele seja descartado normalmente”, explica Emily. Nesse contexto, divulgar a empresa como sustentável sem entender bem o que você está vendendo e a maneira que está conduzindo a produção pode ser um tiro no pé.

A Euro Colchões também abraçou a ideia do consumo consciente e está lançando a linha EcoMind, com tecidos de fibras recicladas de alta performance. Eles são fabricados com garrafas PET coletadas a 50 quilômetros da costa de países ou áreas sem sistemas formais de reciclagem. “As empresas precisam escutar o consumidor, estar atentas aos novos hábitos de consumo, avaliar como querem se relacionar com os consumidores. A jornada rumo a um futuro sustentável é longa, mas essencial e necessária, e precisa começar já”, afirma o CEO da empresa, Maurício Aballo.

Quando o assunto é o consumo consciente e a contribuição para a preservação do nosso planeta, qualquer empresa que estiver engajada na sua visão, já com essa mudança de mindset, será reconhecida posteriormente pelo consumidor como uma empresa que não quer só vender, quer também se responsabilizar pela preservação do nosso planeta. Além disso, é preciso repensar o descarte dos produtos fabris.

Outro exemplo de quem usou a tecnologia a favor do seu negócio é a Fix it, que faz impressões em 3D com foco em soluções ortopédicas, neurológicas e reumatológicas biodegradáveis. Ela trabalha ainda com modelo de franquias e já existe em Recife, Caruaru, Natal e Chapecó. O projeto é recente, já que antes a empresa trabalhava produzindo em tamanhos genéricos e vendendo diretamente ao público final ou clinicas e hospitais. O produto é feito de filamento de PLA, um plástico termo moldável e biodegradável composto de bagaço da cana-de-açúcar, milho e beterraba, com design que se adapta à anatomia do corpo.

Atualmente, estão também focados em minimizar o tempo que se leva para produzir uma solução da Fix it, reduzindo assim o consumo de energia elétrica. E de acordo com os valores da empresa, estão implementando sustentabilidade em tudo que envolve as soluções, da fabricação até o uso pelo paciente. “Os maus hábitos da indústria em relação ao meio ambiente incluem não se preocupar com o desperdício, utilizando bastante água em seu processo ou matéria-prima de fontes não renováveis. Assim como quando não há preocupação com o design do seu produto após o uso – acredito que, elencando esses entraves da indústria tradicional, na minha opinião, são os mais fáceis de mudar”, conclui o CCO e cofundador da Fix it, Felipe Neves, formado em fisioterapia e pós-graduado em neurogerontologia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE BEM COM A VIDA

Alegria fortalece o corpo e a mente, além de nos preparar para melhor enfrentar tempos de crise

Há 80 anos, Cecilia O ‘Payne fez seus votos perpétuos na congregação das Irmãs Pobres de Nossa Senhora em Milwaukee, Estados Unidos. Na ocasião, a madre superiora lhe pediu que escrevesse um breve relato sobre a própria vida, incluindo fatos decisivos da infância e dos tempos de escola, bem como experiências de natureza religiosa que tivessem contribuído para levá-la ao convento.

Décadas depois, o relato de Cecilia foi publicado, juntamente com as anotações de outras noviças que haviam ingressado na congregação na mesma época. Três psicólogos da Universidade de Kentucky decidiram examinar o material. Eles realizaram, na ocasião, um amplo estudo sobre envelhecimento e mal de Alzheimer. Os psicólogos David Snowdon, Wallace Friesen e Deborah Danner avaliaram 178 relatos autobiográficos, a fim de definir seu “teor emocional” com base em manifestações de felicidade, interesse, amor e esperança. O que observaram foi notável: aparentemente, as freiras alegres viveram até dez anos mais que as que pouco enxergavam o lado bom de sua existência terrena.

Há muito tempo cientistas notaram que, em geral, as pessoas que se sentem bem vivem mais. Essa descoberta, porém, suscita mais perguntas que respostas. Como pode a confiança no futuro ajudar no prolongamento da expectativa de vida? É possível que bons sentimentos vividos hoje tenham consequências de tão longo prazo? E, se é assim, como encarar as emoções positivas: são uma questão de destino ou podem ser geradas deliberadamente?

Uma nova disciplina, a “psicologia positiva”, começa a dar as primeiras respostas a essas perguntas. Fundada há duas décadas, é fruto da iniciativa de Martin E. P. Seligman, então presidente da Associação Americana de Psicologia (APA). Como muitos psicólogos, ele dedicou boa parte de sua carreira de pesquisador ao estudo das doenças mentais. No que se refere à busca de uma cura para transtornos psíquicos, progressos significativos foram feitos nos últimos 60 anos. Por outro lado, a psicologia produziu poucos métodos capazes de ajudar as pessoas a alcançar maior plenitude pessoal. Seligman queria corrigir esse desequilíbrio e com a ajuda do psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, da Universidade de Chicago, recomendou aos pesquisadores que se dedicassem à investigação daquilo que “faz a vida valer a pena”.

Há diversas razões para os sentimentos considerados positivos terem sido alvo de pouca atenção no passado. Em primeiro lugar, essas emoções são mais difíceis de investigar que seus equivalentes negativos. Alegria, prazer e satisfação não se distinguem entre si com tanta nitidez quanto irritação, tristeza e medo. Assim, a ciência diferencia apenas um punhado de bons sentimentos: para cada emoção positiva identificada existem três ou quatro negativas.

Também nossas possibilidades de expressão corporal revelam-se mais bem compartimentadas quando se trata de emoções que causam desconforto. No mundo todo, qualquer pessoa é capaz de distinguir com precisão uma expressão raivosa ou triste ou amedrontada. No polo oposto, toda expressão espontânea de contentamento – seja ela de júbilo, vitória ou bem­ aventurança – apresenta sempre os mesmos atributos: os cantos da boca se alçam e os músculos em torno dos olhos contraem-se involuntariamente, fazendo com que as maçãs do rosto se elevem e pequenas rugas surjam ao redor dos olhos.

PROBLEMAS ANCESTRAIS

A distribuição desigual de recursos atinge até o sistema nervoso autônomo, que comanda órgãos internos, vasos sanguíneos e glândulas. Há 30 anos, os psicólogos Paul Ekman e Wallace Friesen, da Universidade da Califórnia em São Francisco, e Robert Levenson, da Universidade de Indiana, demonstraram que irritação, medo e tristeza provocam reações mensuráveis do corpo, o que não se verifica em relação a diversas emoções prazerosas.

Por fim, também a metodologia de investigação representa um problema. Com frequência, cientistas tentaram abordar a questão dos bons sentimentos valendo-se de modelos desenvolvidos para seus congêneres negativos. Estes trazem consigo o impulso para que se aja de determinada maneira: a irritação gera a necessidade do ataque, o medo compele à fuga, o nojo produz o desejo de vomitar. É claro que nem sempre obedecemos às cegas a tais impulsos; ainda assim, a margem de manobra no tocante à ação se estreita num instante. Quem sente medo não apenas pensa na fuga: também seu corpo se prepara para essa ação, elevando tanto a frequência cardíaca como a pressão arterial.

Vistas dessa maneira, as emoções desconfortáveis nada mais são do que soluções eficazes para problemas recorrentes com que já se debatiam nossos ancestrais. Emoções positivas, no entanto, não se deixam explicar com tanta facilidade. Do ponto de vista evolutivo, alegria, prazer e gratidão parecem ter sido de pouca utilidade na garantia da sobrevivência. Terão representado alguma vantagem na nossa capacidade de adaptação ou apenas sinalizariam ausência de perigo?

A influência que estados de ânimo positivos exercem sobre pensamento e comportamento admite investigação psicológica. Em um de nossos experimentos, mostramos trechos curtos de filmes às pessoas, com o intuito de induzi-las a determinado estado emocional. Um bando de pinguins brincalhões gingando no gelo gerou alegria; pacíficas cenas da Natureza, serenidade. O medo foi suscitado com imagens de alturas vertiginosas, e a tristeza, mediante cenas de morte e de funerais. As imagens-controle mostravam um velho e aborrecido protetor de tela de computador.

Imediatamente após essa peque na sessão de cinema, testamos a capacidade dos participantes de entreter novos pensamentos. Para tanto, mostramos a eles um conjunto de três figuras geométricase perguntam os qual de dois outros conjuntos mais se parecia com o primeiro. Não se tratava de obter uma resposta cerra ou errada: em um caso, as figuras se assemelhavam em sua configuração geral; em outro, no detalhe. Esse “exame de vista” mostrava, porém, se uma pessoa percebia, antes, a impressão geral ou se, ao contrário, se concentrava nos detalhes. Os resultados revelaram que os bem-humorados tenderam a se orientar pela forma global – sinal de pensamento mais abrangente. Os mal-humorados, ou neutros, se concentraram nos detalhes.

MAIS QUE TALENTO

Efeitos semelhantes foram observados pela psicóloga Alice lsen, da Universidade Cornell, em Nova York. A fim de mensurar o efeito dos sentimentos positivos sobre a criatividade, ela usou o teste das “associações remotas” do psicólogo Sarnoff Mednick. A tarefa dos participantes consistia em, diante de três palavras, encontrar uma quarta que apresentasse nexo temático com as anteriores. Se, por exemplo, as palavras são “humor”, “quadro” e “noite”, a resposta correta é “negro”. Antigamente esse teste era empregado para determinar diferenças individuais de criatividade. Isen, no entanto, aplicou-o apenas a pessoas consideradas bem-humoradas. As mais contentes foram as que demonstraram melhor capacidade associativa. Criatividade, portanto, não é só questão de talento, mas também de humor apropriado.

Em outros experimentos, a psicóloga investigou se a capacidade diagnóstica de um médico dependia de sua disposição emocional. Ela deu a alguns médicos um saquinho de doces e pediu que pensassem em voz alta enquanto examinavam o caso de um paciente com um problema no fígado. Comparados aos demais, os médicos premiados com doces não apenas avaliaram com mais rapidez os diferentes dados, como demonstraram menor tendência a se fixar em um único pensamento, revelando-se dispostos a descartar conclusões precipitadas. Outro experimento semelhante mostrou que mediadores bem­ humorados saíram-se melhor no encaminhamento de negociações complexas. Conclusão: o pensamento das pessoas que se sentem bem é mais criativo, mais flexível, mais abrangente e mais aberto.

Assim como as emoções positivas dão origem a novas ideias e novas possibilidades de ação, elas podem conduzir também a mudanças profundas e duradouras.

Quando as crianças riem em plena folia ou os adultos se divertem jogando futebol, sua motivação pode ser meramente hedonista; mas o fato é que, ao fazê-lo, estão construindo recursos físicos, intelectuais e sociais: o movimento faz bem à saúde, as estratégias de jogo contribuem para a capacidade de solucionar problemas, a camaradagem fortalece laços sociais. Estudos mostram que algo semelhante acontece também com macacos, ratos e esquilos.

Testamos também a relação entre resistência psíquica e alegria de viver. Solicitamos aos participantes dessa experiência que descrevessem seu estado emocional e sua visão do futuro. Entrevistamos o mesmo grupo de pessoas seis meses depois. Nesse meio tempo, as torres gêmeas do World Trade Center vieram abaixo. Como era de esperar, quase todos estavam abatidos na segunda entrevista e mais da metade foi diagnosticada com depressão. No entanto, aqueles nos quais havíamos identificado, no início do ano, maior capacidade de resistência seguiram nutrindo alguns sentimentos positivos, mesmo depois do 11 de Setembro. A gratidão foi o mais mencionado. Os otimistas disseram, por exemplo, ter constatado que “a maioria das pessoas neste mundo é boa”. O ânimo manifestado diante da vida claramente os havia protegido da depressão.

Encontramos, enfim, uma maneira de medir o efeito fisiológico provocado pelas emoções positivas. Era plausível supor que sentimentos bons modificassem a reação do organismo ao stress. Isso fica muito evidente no sistema nervoso autônomo e na circulação cardiovascular.

DE CORAÇÃO ABERTO

Em um de nossos experimentos, submetemos os participantes a uma situação de pressão, comunicando-lhes que teriam exatamente um minuto para preparar um discurso, que seria registrado em vídeo e avaliado pelos demais participantes. O prazo curtíssimo para o cumprimento da tarefa gerou angústia e elevou a frequência cardíaca e a pressão arterial. Logo em seguida, mostramos a cada um deles um de quatro filmes: dois deles estimulavam sentimentos positivos – diversão e contentamento -, ao passo que o terceiro pouco os afetava e o quarto causava tristeza. Enquanto assistiam ao filme, acompanhamos os indicadores de stress.

Nos indivíduos que assistiram a um dos filmes alegres, o nível de stress retornou ao inicial com mais rapidez que nas pessoas que viram o filme neutro. E os que só podiam se entristecer com o quarto filme foram os que precisaram de mais tempo para se recuperar do susto. Fica evidente que os sentimentos positivos exerceram influência benéfica no sistema cardiovascular. Contudo, são ainda em grande parte desconhecidos os mecanismos cognitivos e fisiológicos por trás desses processos. Tampouco nossa pergunta inicial encontra­ se respondida: de que forma os sentimentos positivos promovem a longevidade? Está claro que fazem mais que produzir mero bem-estar momentâneo. Sua atuação moderadora em situações estressantes sugere que eles poderiam, a longo prazo, reduzir o dano causado ao sistema cardiovascular pelos sentimentos negativos. A isso vem se somar, no entanto, outro fenômeno: quem está contente hoje já está a caminho de ser igualmente mais feliz no futuro.

Junto com o psicólogo Thomas Joiner, da Universidade do Estado da Flórida, examinamos se o ânimo positivo e o pensamento mais abrangente estimulam ou mesmo fortalecem um ao outro. Com o auxílio de testes-padrão feito com intervalo de cinco semanas, comparamos o estado de ânimo e a postura mental de 138 estudantes universitários. O resultado foi que a disposição positiva na primeira etapa redundou, na segunda, num incremento desse mesmo estado de ânimo e em maior abrangência de pensamento. Do mesmo modo, mas em sentido inverso, o pensamento mais abrangente na primeira etapa incrementou tanto o ânimo positivo como a abrangência de pensamento na segunda. Ou seja, pessoas em geral bem-humoradas evidentemente se deixam levar com mais facilidade numa contínua espiral ascendente.

Sentimentos positivos não modificam apenas o indivíduo: atuam de forma contagiosa. Boas ações geram contentamento, porque podemos nos orgulhar delas, embora muitas vezes praticá-las seja uma forma de fugir das próprias dores e fazer ao outro o que gostaríamos que fizessem para nós. O fato é que os que receberam ajuda sentem-se agradecidos, e mesmo “espectadores” casuais se alegraram. Numa reação em cadeia, os sentimentos positivos conduzem a uma postura mental abrangente e à solicitude, o que, por sua vez, desencadeia mais emoções positivas.

Isso mostra que necessitamos de métodos que nos permitam experimentar sentimentos positivos com mais frequência. Decerto, o humor e o riso parecem oferecer o caminho mais curto; em tempos difíceis, todavia, é mais fácil falar do que fazer. Meu conselho é que procuremos a felicidade em todas as situações da vida. Quem deseja descobrir algo de bom num mundo complexo e, em parte, opressivo, precisa apelar para as próprias forças e para as de seus semelhantes. Afinal, o mais poderoso aliado no caminho para a maturidade e a força interior é nossa consciência.

ALEGRIA FAZ PENSAR MELHOR

Experimentar sentimentos positivos abre o pensamento das pessoas. Um “exame de vista” (à esquerda) que opõe a percepção de conjunto àquela do detalhe solicita que escolhamos qual das figuras abaixo mais se assemelha à de cima. O bem-humorado tende a se orientar pela impressão geral e a escolher os triângulos – prova de um pensamento mais abrangente. Da mesma forma. pessoas com estado de ânimo positivo conseguem bons resultados no teste de “associações remotas” de Mednick (à direita). Evidentemente, sentimentos positivos ampliam nosso horizonte mental e nos permitem solucionar problemas com mais rapidez.

UM FILME ALEGRE CONTRA O STRESS

Sentimentos positivos ajudam as pessoas a se acalmar com mais rapidez em situações estressantes? Afim de examinar essa hipótese, ligamos aparelhos medidores de pressão, frequência cardíaca e irrigação sanguínea da mão em nossos voluntários. Depois, demos a eles um minuto para que fizessem um discurso a ser gravado em vídeo e avaliado. Como era de esperar, as medições registradas dispararam. Mas, logo em seguida, ligamos um videocassete para mostrar a cada um deles um filme divertido, tranquilo, neutro ou triste. Ao mesmo tempo, comunicamos a todos que o discurso solicitado não era para valer. Em todos os voluntários, os valores medidos retornaram ao ponto de partida. Contudo, naqueles que assistiram aos filmes agradáveis, esse retorno à normalidade se deu de forma bem mais rápida.

EU ACHO …

VIOLÊNCIAS COTIDIANAS

Nenhuma sociedade está isenta de viver sem violência

A visão de uma sociedade democrática se baseia na manutenção de certos valores e direitos iguais. Hoje, observamos que muitas ações funcionam em sentidos diretamente opostos, aumentando a tensão e a insegurança sobre os indivíduos. O desrespeito e as humilhações ligados às explorações talvez sejam os mais fortes ingredientes para manutenção dessas violências morais e físicas. Esta observação representa o empobrecimento dos nossos direitos morais e legais e, consequentemente, a nossa recusa e motivação para lutar e mudar. Pela negação da lei e da ordem como valores fundamentais, nos tornamos também indiferentes ou coniventes. Essa apatia ou suposta neutralidade transforma-se numa violência voltada contra nós mesmos e contra aqueles que dependem de nós. Nesta situação, a arte de crescer e viver com prazer e segurança vão se tornando um exercício de sobrevivência ao caos instalado. O que fazemos para nos preservamos como cidadãos, quando os valores que aprendemos e respeitamos são modificados e nos vitimizam?

A descarga da nossa agressividade não torna a nossa vida social melhor, apenas estimula nossa revolta e descontrole. Como exemplos, vemos milhares de jovens que buscam, fora da família, grupos e movimentos onde afirmam suas insatisfações. Aqui não se trata de uma revolução e, sim, de questionamentos sobre seus lugares e papéis nessa instabilidade. Muitos pensadores da modernidade nos fazem refletir que, nas últimas décadas, a sociedade brasileira convive com um tipo de violência passiva, fruto de governos corruptos que assaltam a nação. Este comportamento se manifesta na ausência dos diálogos, na indiferença e no hábito de fazermos vistas grossas para a impunidade.

Assassinatos, roubos, propinas e tantos outros crimes sem punições são esquecidos ou se tornam grandes motes para discussões judiciais. Nesta situação pensamos que a sociedade vive a violência como fruto de uma submissão ou repressão do nosso passado colonialista. Infelizmente, nossa indiferença só fortalece a negligência de nossos representantes na profunda desvalorização de valores humanos do ser e do viver. Nenhuma sociedade está isenta de viver sem violência. Ela é a expressão de suas falhas e sempre existirão, enquanto as diferenças sociais existirem. Violência gera violência. Infelizmente, só as percebemos quando voltadas contra nós. Sequer imaginamos que nós as produzimos nas ruas, no trabalho, no lar e até com aqueles que amamos. Agindo assim, não deveríamos nos surpreender quando, virando-lhes as costas, ela nos atingisse em cheio, na mesma medida.

DR. JORGE PFEIFER – é psicólogo, psicanalista e articulista.

OUTROS OLHARES

 CANCELADOS

O boicote nas redes sociais oscila entre uma estratégia legítima e o linchamento virtual

Houve um tempo em que escritores de prestígio e acadêmicos com talento para escrever definiam o discurso das massas. Em artigos, eles articulavam o bom senso – ou não – e a partir dali cada leitor escolhia as opiniões com as quais se alinhava. Se ele discordava ou simplesmente considerava que poderia acrescentar algo ao debate, escrevia uma carta que demorava dias para chegar e, quando chegava, poderia ser lida ou não. E receber ou não uma resposta. Por décadas, assim funcionou o circuito da chamada opinião pública, mas os tempos mudaram. Hoje basta um clique. E bem mais do que seguir e comentar sobre o que se lê, se assiste e se escuta nas redes sociais, o usuário pretende ser ouvido ou simplesmente “cancelar” o que considera questionável ou ofensivo.

Eis a questão. Ao lado do poder de ser escutado, internautas perceberam que podem replicar no mundo virtual uma velha e conhecida prática do mundo real: o boicote. Mas quando a cultura do cancelamento é uma arma legítima de represália e quando ela deixa de ser protesto e se transforma em linchamento virtual?

No processo histórico da cultura, muitos dos limites que definem o certo e o errado estão esmaecidos, confusos ou ambíguos. Cristina Cypriano, psicanalista e doutora em sociologia, avalia que nesse contexto passamos a conviver com normas sociais emergentes e culturas muito jovens que passam a estabelecer novos limites que, ainda que não estejam bem solidificados, estão em constante processo de construção. E isso acontece tanto na vida real quanto no mundo virtual. “Devemos levar em consideração os novos movimentos sociais que são pautados em relação à vida íntima e pessoal. Nesse lugar, o cancelamento aparece contra tudo aquilo ou todos aqueles que ultrapassam certos pontos traçados por essas culturas jovens e novos movimentos sociais. A cultura do cancelamento torna-se necessária, portanto, como demarcação e reafirmação de limites.” Mas, como todo processo de regulação, a linha que separa o protesto legítimo do autoritarismo e da negação ao diálogo é tênue. O psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker pontua que há um uso um tanto quanto exagerado do cancelamento, mas isso não significa que ele deva ser invalidado. “Há que se distinguir o cancelamento, ato político e estrategicamente bem-posto, do cancelamento autocrático, que produz a sensação de moralismo. Toda vez que cancelo simplesmente porque ‘eu não faria assim’, pressupondo que o outro deva agir exatamente como eu ajo, eu estou indo contra a inclusão, a universalização do diálogo. E, ainda mais grave, ao me retirar do debate, o cancelado pode se beneficiar e criar um ambiente ainda mais tóxico, machista, violento e, portanto, aumentar a coerência identitária do seu grupo, o que seria péssimo.”

Da influencer Gabriela Pugliese, que furou a quarentena para dar uma festa para amigos, à atriz Thaila Ayala, que chamou sua marca de roupas de “Vírus” em meio à pandemia. Do youtuber Felipe Neto, após críticas ao governo Jair Bolsonaro, à escritora J.K. Rowling, acusada de transfobia após publicar o texto “Criando um mundo pós-Covid-19 mais igual para as pessoas que menstruam”. A lista não é pequena e nenhum dos citados ficou indiferente aos reflexos dos cancelamentos a que foram submetidos – de perda de contratos a seguidores em queda.

A historiadora Lilia Schwarcz, reconhecidamente uma das intelectuais mais influentes do País, dedicada ao estudo do preconceito e do racialismo no Brasil, viu-se no centro de debates, críticas e cancelamentos após publicar na Folha de São Paulo o artigo “Filme de Beyoncé erra ao glamourizar negritude com estampa de oncinha”. Dias depois, Schwarcz faria um mea-culpa nas redes sociais. “Errei e peço desculpas aos feminismos negros e aos movimentos negros com os quais desenvolvi, julgo eu, uma relação como aliada da causa antir­racista”, escreveu no Twitter.

A antropóloga social Izabel Accioly acredita que o cancelamento é importante para que os indivíduos sejam responsabilizados pelo que fazem e falam nas redes sociais, sobretudo quando se é uma pessoa pública, mas destaca que as críticas devem ser qualificadas e não se limitarem a seguir um comportamento de manada. “Como influenciador, você não pode achar que seu comportamento não é formador de opinião. No caso da Lilia, você a está cancelando porque viu um Twitter que dizia que ela era racista, ou você a está criticando porque leu o artigo e viu que ela critica uma imagem afrofuturista que ela nem sequer conhece? Então, veja bem, são duas críticas distintas. Uma é violenta e rasa, a outra está associada a argumentos.”

Embora haja uma dependência entre si, os especialistas destacam que a cultura do cancelamento e do linchamento virtual pressupõe comportamentos distintos. “Enquanto o cancelamento diz respeito à demarcação de limites e desautorização, o linchamento virtual dá um passo em direção à destruição, aniquilação do indivíduo”, avalia Cypriano. Nos Estados Unidos, a tentativa de cancelar o cancelamento tem ganhado fôlego, sobretudo entre os movimentos de direita. Enquanto acadêmicos famosos assinaram a carta da Harper’s Magazine que ataca a cultura do cancelamento, o New York Times publicou o artigo “10 teses sobre cultura do cancelamento”, assinado por Ross Douthat. Nele, o escritor diz que aqueles que têm mais a temer o fenômeno geralmente reverberam o reacionarismo da era Trump. “Os liberais ou centristas que temem o zelo da esquerda pelo cancelamento precisam identificar os lugares em que acham que as novas normas de esquerda não são apenas censuradoras demais, mas simplesmente erradas, e aí travar a batalha, tanto no conteúdo quanto no princípio liberal”, sugere o texto.

Apesar das polêmicas que a cultura do cancelamento têm provocado, tanto no Brasil quanto no exterior, Christian Dunker se diz otimista diante do fenômeno. “Nenhuma transformação acontece sem engasgos ou recuos. Como vamos criar uma cultura na internet, completamente nova, sem que apareçam em algum momento transgressões, barreiras, barbáries, excessos? É próprio do novo. É assim que acontece na vida e é assim que acontece na arte.”

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 24 DE AGOSTO

O QUARTETO DO MAL

Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés (1Coríntios 15.25).

O apóstolo João, nos capítulos 12 a 14 de Apocalipse, nos fala sobre o quarteto do mal: o dragão, o anticristo, o falso profeta e a grande meretriz. Esses inimigos terríveis agem em conjunto e têm o mesmo propósito: lutar contra Cristo e sua igreja. O dragão é a antiga serpente, Satanás, o nosso arqui-inimigo. Por ter sido derrotado por Cristo, volta suas baterias contra a igreja. Esse adversário é assassino, ladrão, tentador, enganador, mentiroso, maligno, pai da mentira. Veio para roubar, matar e destruir. O anticristo é seu agente. Virá no poder e na força de Satanás. Perseguirá e matará muitos santos, mas estes o vencerão pela palavra do testemunho e pelo sangue do Cordeiro. Os salvos preferirão a morte à apostasia e, mesmo morrendo, triunfarão sobre o dragão e seu enviado. O falso profeta é o braço religioso desse ditador cruel que será adorado em toda a terra. Todos aqueles que não têm o selo de Deus se curvarão a essas potências do mal. A grande meretriz é o sistema político, econômico e religioso que hospeda e dá sustentação a essas forças demoníacas. O quarteto do mal, porém, não prevalecerá. Será derrotado fragorosa e retumbantemente pelo Senhor Jesus. Nos capítulos 17 a 20 de Apocalipse, João fala sobre a queda da grande meretriz e sobre o lançamento do anticristo, do falso profeta e do dragão no lago do fogo, onde serão atormentados pelos séculos dos séculos. A vitória segura e gloriosa será de Cristo e da sua igreja.

GESTÃO E CARREIRA

É TRABALHO OU MALHAÇÃO?

Uma academia dentro do escritório. Esse é o benefício da vez em empresas que levam a sério a saúde (e a produtividade) dos funcionários

O que uma empresa pode oferecer para fazer os olhos do funcionário brilhar? A lista tem crescido nos últimos anos: horário flexível, sala de descompressão, propósito… A resposta também passa pela saúde. É na área do bem-estar que parecem estar os novos e desejáveis benefícios. Umdeles é oferecer mais do que apenas acesso a uma academia de ginástica – e, sim, uma academia dentro do próprio escritório.

Foi o que fez a Asics, empresa de material esportivo, ao mudar de endereço em dezembro. Pedro, Zannoni, presidente da marca japonesa na América Latina, viu na passarela vazia que liga duas torres de escritórios o espaço perfeito para montar uma academia para os 130 empregados que atuam presencialmente – os colaboradores externos recebem uma carteirinha da Gympass, com descontos em várias academias. A própria Asics opera o espaço. “Em uma cidade como São Paulo, não precisar se locomover para praticar atividade física já traz um ganho para a qualidade de vida”, afirma Zannoni.

Na enorme sede do Mercado Livre não à toa batizada de “Melicidade”, em São Paulo, os 2.600 empregados têm acesso livre a uma academia própria, administrada pelo Grupo Bioritmo com toda a grade que a rede de fitness oferece: salas de musculação e exercícios aeróbicos, aulas funcionais, modalidades de luta, entre outras. ”Hoje, quase um terço dos colaboradores frequenta a academia local semanalmente”, diz  Patrícia Monteiro, diretora de recursos humanos do Mercado Livre no Brasil. “Pesquisas de satisfação com os usuários mostram que a academia no local é um benefício de valor e favorece a redução dos níveis de absenteísmo, combate o estresse e melhora o entrosamento com os colegas.”

A tendência é impulsionada por algo mais do que altruísmo: cuidar da saúde dos funcionários é bom, também para a companhia. No mundo, segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde, os gastos anuais em consequência da inatividade física chegam a 67,5 bilhões de dólares, entre perda de produtividade e cuidados médicos. No Brasil, são 3,6 bilhões de dólares por ano. Uma quantia nada desprezível.

Ações de saúde e bem-estar são diretrizes globais em algumas empresas. A farmacêutica suíça Roche lançou mundialmente em 2013 o programa Live Well, Find Your Balance, com quatro pilares: práticas de prevenção, estilo de vida saudável, bem-estar emocional e recursos de bem-estar. “Olhamos para a saúde do funcionário de forma integrada e holística”, diz Cintya Silva, coordenadora de cultura, diversidade e bem­ estar da Roche. “Oferecemos desde acompanhamento médico e nutricional periódico até programas de acolhimento e suporte emocional, passando por facilidades como salão de beleza.” Lá, a academia de três andares, administrada em parceria com o Sesi, tem aulas de dança, pilates, circuito e spinning, além de infraestrutura para musculação.

Na empresa americana de bens de consumo Johnson & Johnson, a ambição é “ter a força de trabalho mais saudável do planeta”, diz; Retina Lackner, gerente de recursos humanos no Brasil. Para isso, os funcionários contam com aulas de meditação, boxe, treinamento funcional e dança em salas perto do escritório, e têm desconto na academia da Bodytech que fica no mesmo prédio. Os familiares também estão liberados para participar das aulas gratuitamente. “Pesquisas de clima e satisfação mostram o engajamento dos funcionários. Não se trata apenas de malhação, mas de promover um ambiente saudável física e mentalmente”, diz Betina.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIOS DO TEMPO

A menopausa marca o fim de uma etapa da vida da mulher; para especialista, não pode ser comparada à andropausa masculina

Os estudos sobre a menopausa e a andropausa têm merecido crescente atenção nas últimas décadas devido ao aumento da expectativa de vida. Estima-se que a população mundial com idade acima dos 60 anos irá dobrar entre 2000 e 2025, chegando a mais de 1 bilhão de pessoas. No Brasil, as projeções são de cerca de 200 milhões de habitantes em 2020, dos quais 11 milhões terão entre 55 e 64 anos.

É curioso que, apesar de todas essas mudanças no perfil epidemiológico da população, a idade em que a menopausa ocorre continue a mesma: entre os 48 e 50anos, em média. Isso significa que um contingente cada vez maior de mulheres viverá após esta fase ter sido atingida, convivendo com os sintomas e as consequências da redução da produção do hormônio sexual feminino, o estrógeno.

Raciocínio semelhante vem sendo aplicado aos homens em relação à andropausa – fenômeno muito menos estudado, mas cujo interesse de pesquisa tem crescido nos últimos anos. Se nas mulheres, por um lado, a menopausa corresponde a um acentuado declínio na produção de estrógeno (que leva à falência funcional dos ovários e à interrupção do ciclo menstrual), nos homens, por outro, foram identificadas várias alterações hormonais, sendo a mais comum a diminuição dos níveis de testosterona, o que não resulta, porém, em comprometimento funcional dos testículos ou infertilidade. Outra diferença entre menopausa e andropausa é que os dois processos não ocorrem na mesma faixa etária; além disso, nem todos os homens se queixam da alteração hormonal associada à idade (cujo diagnóstico por sinal ainda é muito controverso), ao passo que 100 % das mulheres passam pela experiência da menopausa. Usar o termo andropausa como equivalente à menopausa é, portanto, incorreto.

DÉFICIT ANDROGÊNICO

A diminuição dos níveis de testosterona faz parte do envelhecimento dos homens. A produção desse hormônio começa a cair de 1% a 2% por ano a partir dos 40 anos. Até 15% dos homens podem sofrer do chamado déficit androgênico do envelhecimento masculino (Daem), distúrbio reconhecido pela medicina desde 1994, caracterizado por acentuada redução da produção de testosterona.

Já as repercussões da insuficiência estrogênica na menopausa a curto, médio e longo prazo são bem conhecidas. Os sintomas incluem fogachos ou ondas de calor, diminuição da lubrificação vaginal, sem falar no aumento do risco de doenças cardiovasculares, osteoporose e demências. Muito se fala também nos benefícios da terapia de reposição hormonal, que além do aspecto preventivo produz resultados importantes em termos de

qualidade de vida. Obviamente há riscos inerentes, mas que podem ser controlados pelos médicos, os quais devem levar em conta fatores como tipo e dosagem de hormônio, via de administração, início e duração do tratamento, antecedentes familiares e pessoais de câncer de mama, entre outros. Nos homens, porém, os efeitos da insuficiência androgênica precisam ser analisados com mais cuidado. Apenas 4% dos casos de disfunção sexual masculina têm causa hormonal. Muitas vezes os sintomas atribuídos ao hipoandrogenismo podem ser decorrentes de doenças como diabetes, hipertensão, depressão, ou do uso de medicamentos. Embora certos níveis de testosterona sejam necessários para manter a libido e a capacidade erétil, parece que os idosos precisam de menos hormônios. De fato, é extremamente difícil determinar os níveis necessários de hormônio sexual masculino para a manutenção da atividade sexual em pessoas saudáveis e sem fatores de risco (não -hormonais) facilitadores da disfunção sexual.

Nas mulheres, além do decréscimo da função ovariana, a menopausa implica alterações significativas nos mecanismos de feedback entre duas regiões cerebrais: hipotálamo e hipófise. A hipótese mais aceita atualmente é a de que essas estruturas se tornem menos sensíveis ao estrógeno. Além disso, parece haver diferentes fases, durante a transição menopáusica, de resposta do eixo hipotálamo-hipófise. Com o passar do tempo, níveis de estrógeno antes capazes de inibir a secreção de hormônio luteinizante (LH) pela hipófise já não conseguem exercer o mesmo efeito.

Os níveis de LH são maiores em mulheres na perimenopausa – fase de transição que marca o fim da vida reprodutiva feminina e antecede a última menstruação. É por isso que as ondas de calor e os distúrbios do sono, por exemplo, são mais comuns nessa etapa do que após a extinção do ciclo menstrual, embora seja importante frisar que nem todas as mulheres relatam alterações físicas e psíquicas. A manifestação desses sintomas pode ser resultado de uma sensibilidade diferenciada aos hormônios sexuais nos mais diversos centros cerebrais.

EFEITOS ESTRUTURAIS

Sabe-se hoje que distúrbios neurológicos e psiquiátricos manifestam ­se de formas diferentes quanto a origem, riscos, progressão e processo de recuperação em homens e mulheres. Embora não se conheçam precisamente as causas desse fenômeno, sabe-se que as concentrações de estrógeno ou de progesterona, ou a expressão de seus receptores, provavelmente desempenhem papel importante. O estrógeno é sintetizado em diversas regiões cerebrais – tanto no homem como na mulher – graças a uma enzima, chamada aromatase, que converte testosterona em hormônio sexual feminino. Essa produção local de estrógeno é essencial para o desenvolvimento cerebral, influenciando tanto a diferenciação quanto a plasticidade neuronal, o que implica efeitos estruturais e funcionais, respectivamente. Além disso, o estrógeno modula a atividade de vários neurotransmissores, como acetilcolina, serotonina, dopamina, bem como a transmissão adrenérgica. Isso poderia explicar seu efeito tônico mental, capaz de diminuir a ansiedade e melhorar o humor e a memória em algumas mulheres tratadas com terapia hormonal estrogênica na perimenopausa.

Parcela significativa das mulheres tem expectativas desfavoráveis em relação à menopausa, e muitas desenvolvem sintomatologia física e psíquica importante no climatério. Isso ocorre particularmente naquelas que apresentam transtorno disfórico pré-menstrual – forma grave de tensão pré-menstrual (TPM) -, o que sugere que os estados fisiológico e psicológico prévios seriam importantes preditores da interpretação e vivência da menopausa.

Vários autores não encontraram evidência de que a instalação da menopausa esteja associada à depressão. No entanto, o período prolongado de perimenopausa (no mínimo 27 meses) representaria um risco moderado ao humor depressivo. Segundo alguns estudos, o aumento na incidência de depressão na perimenopausa estaria associado a episódios depressivos anteriores, bem como a aspectos socioeconômicos. Outros fatores aparentemente envolvidos são históricos de transtorno disfórico pré-menstrual e de depressão pós-parto, responsabilidade como cuidadora, baixo nível educacional, luto e doenças crônicas.

No caso da menopausa cirúrgica, por meio da remoção do útero (histerectomia) com ou sem a retirada dos ovários e trompas (ooforectomia), os fatores de risco para depressão apresentam algumas diferenças em relação à menopausa natural. A boa preparação cirúrgica – que inclui a avaliação das emoções e das expectativas da paciente – é muito importante para minimizar o impacto do procedimento. Nessas circunstâncias o humor depressivo parece estar associado a histórico de depressão, idade jovem, apoio social inadequado, problemas conjugais, baixo nível socioeconômico, histórico de múltiplas cirurgias e cirurgia em situação de emergência. Alguns estudos indicam que mulheres que estão na perimenopausa ou na pós-menopausa há pouco tempo podem se beneficiar do efeito positivo do estrógeno sobre o humor, independentemente das possíveis causas da depressão. O mesmo parece ocorrer em relação à memória verbal. Os resultados em mulheres na pós-menopausa tardia são negativos.

CASTRAÇÃO QUÍMICA

Já a literatura científica sobre depressão ou sintomas depressivos e níveis de testosterona em homens de meia-idade parece equivocada. Embora muitos ensaios clínicos com andrógenos incluam questionários de humor ou depressão, não há evidências que indiquem que o declínio de testosterona seja um fator de risco significativo para a depressão, ainda que alguma influência no humor deprimido não possa ser totalmente excluída. Alguns trabalhos demonstraram a associação entre castração química e maior incidência de depressão, além de aumento significativo dos níveis plasmáticos da proteína beta-amiloide, a mesma envolvida na degeneração neurológica observada na doença de Alzheimer.

Vários estudos sobre a relação entre níveis de andrógenos e desempenho cognitivo têm produzido resultados inconsistentes, sugerindo ser necessário que se investigue melhor o papel dos hormônios em vários domínios das funções cognitivas. A melhora na memória verbal, por exemplo, poderia ser explicada pela conversão de testosterona ou andrógeno em estrógeno pela enzima aromatase. Portanto, no estágio atual das pesquisas é impossível destacar qualquer benefício cognitivo da administração de testosterona.

APELO DA MÍDIA

Ao contrário da grande maioria dos estudos que mostra melhora significativa da qualidade de vida de mulheres na menopausa com terapia de reposição hormonal (quando não houver contra­indicações), os resultados do tratamento análogo nos homens são amplamente negativos. Estudos recentes contrariam os mais antigos, nos quais as justificativas giravam em torno da melhor qualidade de vida dos homens submetidos à reposição de testosterona a longo prazo. Mesmo com o apelo da mídia, que exalta a importância da qualidade de vida dos homens na “andropausa”, até o presente momento não há estudos que confirmem tal crença. Tampouco há argumentos sólidos para o tratamento de idosos assintomáticos, mesmo quando detectada a diminuição da produção de testosterona.

A reposição androgênica deve ser restrita a pacientes sintomáticos, com níveis de testosterona bem inferiores aos valores de referência, e administrada somente depois da exclusão de outros fatores, como depressão, stress e diabetes, que podem causar redução da libido e disfunção erétil, por exemplo. Quando houver indicação, deve-se optar por doses baixas do hormônio masculino, tendo em conta a exacerbação de doenças dependentes da ação da testosterona, como hiperplasia benigna da próstata, câncer prostático, e ritrocitose (aumento do número de hemácias) e apneia do sono. É preciso prudência e muita investigação clínica, uma vez que os dados de que dispomos ainda são muitos limitados. Estudos de longo prazo, como os realizados para a terapia hormonal de mulheres na menopausa, são necessários para conhecer os riscos associados a esse tipo de tratamento.

A SINERGIA ENTRE CÉREBRO E OVÁRIOS

Os hormônios sexuais femininos – estrógeno e progesterona – são produzidos nos ovários, mas sua síntese está sujeita ao controle de um circuito regulatório no qual duas regiões cerebrais desempenham papel decisivo: o hipotálamo e a hipófise (glândula situada na parte inferior do cérebro).

Na primeira metade do ciclo menstrual, chamada folicular, o nível de estrógeno no sangue é muito baixo. No hipotálamo, isso estimula a síntese dos hormônios liberadores de gonadotropina. Um desses mensageiros químicos, o FSR-RF (sigla em inglês para fator liberador do hormônio folículo-estimulante), induz na hipófise a liberação do hormônio folículo-estimulante (FSH), que, então, via corrente sanguínea, chega aos ovários. Ali, o FSH intensifica a síntese de estrógeno, ao mesmo tempo que estimula o amadurecimento de um óvulo.

Quando o nível de estrógeno atinge determinado patamar, o hipotálamo interrompe a produção do FSH-RF e intensifica a de LH-RF (sigla em inglês para fator liberador do hormônio luteinizante). Esse segundo hormônio liberador de gonadotropina provoca a ovulação e, com o auxílio da progesterona produzida nos ovários, prepara a mucosa uterina para a implantação de um embrião. Caso não ocorra a fecundação, a concentração de estrógeno no sangue diminui drasticamente e, em consequência disso, a mucosa do útero é expelida, dando origem ao fluxo menstrual. Um novo ciclo, então, tem início.

Além da diminuição da função ovariana, com o avançar da idade observam-se também alterações nos mecanismos de retro- alimentação que envolvem hipotálamo e hipófise. Pesquisas recentes sugerem que essas estruturas cerebrais tornem-se menos sensíveis ao estrógeno em mulheres na perimenopausa. Além disso, os mesmos níveis desse hormônio, que estimulam a secreção de LH, já não são suficientes para fazer o mesmo nas mulheres mais velhas. Por outro lado, os níveis de LH costumam estar mais altos na perimenopausa, mesmo com concentrações de estrógeno que inibiriam a secreção de LH em mulheres mais jovens. É nesse período que antecede a menopausa que ocorrem as ondas de calor e os distúrbios de sono. A terapia à base de estrógeno costuma ser eficaz contra esses sintomas. Todas essas observações apoiam a hipótese da diminuição da sensibilidade do cérebro aos hormônios ovarianos, marcando o fim de uma sinergia neuroendócrina e da fase reprodutiva da mulher.

O TEMPO COMO ALIADO

Nos últimos anos, estudos realizados com imageamento cerebral revelaram que, com o transcorrer do tempo, redes neurais são reestruturadas e o sistema nervoso tanto de homens quanto de mulheres passa a ativar áreas que até então eram pouco utilizadas no cérebro. Como a expectativa de vida aumentou, o ingresso efetivo na aposentadoria é cada vez mais tardio e as pessoas permanecem intelectual e profissionalmente ativas por mais tempo, faculdades como cognição e memória tendem a ser exercitadas e fortalecidas por períodos mais longos. Segundo especialistas como o psiquiatra Leonardo Caixeta, professor de neurociências da Universidade Federal de Goiás (UFG) e autor do livro Demência Uma abordagem multidisciplinar, a prática frequente de atividades que estimulam as funções cerebrais (como a leitura, por exemplo) pode retardar a instalação da demência.

EU ACHO …

O CAPITALISMO NO DIVÃ

As empresas já não podem mais ignorar o impacto das transformações ambientais, sociais e tecnológicas em seus negócios

Nunca o papel dos conselhos de empresas foi tão importante, ou esteve submetido a análises tão minuciosas, quanto é hoje. As transformações tecnológicas, ambientais, geopolíticas e socioeconômicas das últimas duas décadas têm levado a uma reavaliação do modelo predominante de governança corporativa, no exato momento em que essas mudanças apresentam desafios fundamentais a áreas de políticas públicas e gestão.

Em especial, essas transformações vêm tornando a gestão social, ambiental, administrativa e de dados cada vez mais importantes para o desempenho financeiro e resiliência das empresas. Esta vasta mudança vem implodindo a divisão tradicional entre um modelo de governança corporativa (focado em custos e benefícios financeiros e operacionais), em que o acionista da companhia reina supremo, e um modelo de responsabilidade corporativa (focado em riscos e oportunidades sociais e ambientais) orientado pelos acionistas.

Questões que anteriormente eram consideradas secundárias por presidentes executivos e pelas diretorias — temas que no passado ficavam a cargo dos departamentos de relações com investidores, de filantropia e de tecnologia da informação das empresas — vêm se tornando fatores decisivos e importantes para a capacidade da companhia de criar e manter valor econômico. Por exemplo, as mudanças climáticas, o uso racional da água e outros aspectos de gestão ambiental são cada vez mais reconhecidos como questões fundamentais em um mundo em que a tecnologia, a regulamentação e outras características do ambiente operacional podem mudar rapidamente.

Desafios semelhantes se aplicam à gestão de ativos intangíveis nas companhias — uma fonte-chave de vantagem competitiva na Quarta Revolução Industrial e cada vez mais decisiva. O talento e a motivação da força de trabalho de uma empresa, uma cultura corporativa de inovação, a experiência individual e os dados estão se tornando fontes cada vez maiores de valor nos negócios.

Do mesmo modo, a abordagem de uma companhia em relação a seus funcionários, ao planeta e à inovação — inclusive como ela protege e aplica o valor agregado de seus dados — deve aparecer com grande destaque nas decisões de alocação de capital. Com isso em vista, as lideranças empresariais precisam melhorar sua compreensão das vantagens entre o investimento de médio e longo prazo em novas capacidades e competências comparada à racionalização de curto prazo das operações e ativos existentes. Com o tempo, deve ser dada mais ênfase para o investimento de médio e longo prazo.

Uma administração eficiente das questões sociais, ambientais e de dados é igualmente importante para a gestão de risco de uma companhia. Alguns setores e empresas estão aprendendo do pior jeito que deixar de lado a devida atenção a essas demandas pode resultar em uma queda acelerada da confiança dos investidores, dos empregados, dos clientes e da sociedade, podendo inclusive- levar a uma perda significativa de valor.

Por exemplo, o Relatório sobre Custos de Vazamentos de Dados de 2019, patrocinado pela área de soluções de segurança da empresa de tecnologia IBM, estima que o custo global médio de uma invasão a bancos de dados vêm aumentando 12% ao ano desde 2014, o que significa que as empresas hoje podem esperar gastos médios de 3,9 milhões de dólares em custos ligados a ataques digitais desse tipo. De modo semelhante, a empresa de software americana ForgeRock concluiu que mais de 2,8 bilhões de registros de dados de consumidores foram expostos em 342 violações só em 2018 nos Estados Unidos, a um custo estimado de 654 bilhões de dólares.

De acordo com uma pesquisa publicada pelo grupo ambiental Ceres, com sede em Boston, mais de 60 das 500 empresas listadas no índice S&P500 — que reúne as principais companhias de capital aberto na Bolsa de Nova York e na Nasdaq — revelaram publicamente terem tido algum efeito material negativo em seu faturamento causado por eventos climáticos. E não só isso. As interrupções na cadeia de fornecedores também relacionadas às mudanças climáticas cresceram 29% de 2012 a 2019 e, nos Estados Unidos, em maio de 2019 já passava de 100 o número de ações na Justiça por causa de questões climáticas. No mundo, o número de regulamentações ambientais de que se tem registro chegou a 1.500, comparada a 72 em 1997.

Na mesma linha, o movimento –#MeToo — que levou mulheres de todo o planeta a denunciarem casos de abuso sexual — vem revelando os crescentes riscos financeiros, reputacionais e operacionais que correm as empresas que deixarem de tratar problemas ligados a discriminação, assédio ou mau comportamento no ambiente de trabalho. A revista Fortune, em sua cobertura do relatório de Práticas de Sucessão de Presidentes Executivos da The Conference Board de 2019, destaca que “entre as 18 saídas involuntárias de presidentes executivos, cinco tinham ligação com conduta pessoal e alegações do #MeToo”, diz a revista. “Isso é especialmente notável quando se considera que só um presidente executivo foi demitido de 2013 a 2017 como resultado de conduta pessoal não ligada ao desempenho [da companhia].”

Claramente, no novo contexto ambiental, social, geopolítico e tecnológico dos anos 2020, questões desse tipo não são apenas problemas éticos ou de relações públicas das empresas. Elas são essenciais para o exercício do dever de confiança na distribuição dos recursos corporativos. Ainda assim, entender o potencial pleno do capitalismo dos stakeholders (os acionistas, funcionários, clientes, empresas, organizações e pessoas envolvidos na operação de uma empresa ou impactados por ela) vai exigir das empresas que apliquem, na prática, seus princípios fundamentais. Isso começa pela diretoria. Os conselhos administrativos têm de superar a segmentação tradicional de considerações de acionistas e stakeholders, exemplificada pelos conceitos de valor para os acionistas e de responsabilidade corporativa, e integrar estes princípios.

A governança corporativa integrada se distancia da mentalidade e das práticas associadas à supremacia dos acionistas e da responsabilidade social corporativa, que acabam considerando as questões ambientais e sociais como temas primariamente pré ou não financeiros. Em comparação, uma abordagem integrada adota uma visão holística dos interesses de acionistas e stakeholders ao internalizar de modo sistemático as considerações ambientais e sociais na estratégia, na alocação de recursos, na gestão de risco, na avaliação de desempenho e nas políticas de processo e de relatórios financeiros da empresa.

Se a intenção é que o capitalismo de stakeholders seja mais do que uma visão otimista do futuro, a integração e a incorporação desses preceitos precisa ser mais bem definida em termos operacionais, e tais práticas têm de ser adotadas em grande escala pelas diretorias, sejam de empresas privadas, estatais ou das organizações não governamentais. É isso o que falta para que haja um efeito prático dos princípios estabelecidos no Manifesto de 2020 do Fórum Econômico de Davos e na declaração revisada sobre o propósito de uma empresa da United States Business Roundtable (uma associação americana de empresas públicas, privadas e não governamentais). São conceitos que também têm sido incorporados por um número crescente de regulações pelo mundo, como o Código de Governança Corporativa e o Código de Gestão 2020, ambos do Reino Unido. É desta maneira que as empresas podem “falar muito e fazer muito” no capitalismo de stakeholders.

RICHARD SAMANS – é diretor executivo do Fórum Econômico Mundial e presidente da Climate Disclosure Standards Board (Conselho de Normas de Divulgações Climáticas).

JANE NELSON – é diretora da iniciativa de responsabilidade corporativa da Harvard Kennedy School.

OUTROS OLHARES

INFÂNCIA VIOLADA

Usando como pretexto o caso de uma menina de 10 anos estuprada pelo tio, que teve o aborto concedido pela Justiça, grupo autodenominado Pró-vida acirra ainda mais a guerra ideológica em todo o Brasil

Não há limites para um grupo de direita autodenominado Pró-vida, que decidiu provocar nesta semana um verdadeiro linchamento dos envolvidos no caso de uma criança de 10 anos que ficou grávida, vítima de estupro, acirrando ainda mais a guerra ideológica no Brasil. Ensandecidos, eles tentaram forçar os médicos a não realizar o aborto legal na menor. É como se a violência sexual contra a criança, que perdeu a mãe, viu o pai indo parar na cadeia e sofreu nas mãos do tio que se aproveitou dela desde os seis anos, já não fosse um sofrimento suficiente. Houve exposição ilegal de informações pessoais da menina, que foi chamada de “assassina” por fazer um aborto determinado pela Justiça. Para completar, os manifestantes antiaborto trataram médicos como “demônios” e “aborteiros”, durante protestos violentos em frente a uma maternidade em Recife (PE), que fez a interrupção da gravidez legalmente. Desrespeitaram às mulheres internadas no local.

A insanidade que envolveu o caso foi tamanha que, apesar do estupro ter ocorrido no Espírito Santo, a intervenção médica precisou ser feita em Recife, porque os médicos capixabas se recusaram a fazê-la, alegando que não tinham capacidade técnica. Temeram a reação popular. A extremista bolsonarista Sara Giromini, deu uma demonstração ainda maior de descontrole e vazou na internet o nome da menina e o endereço do hospital onde seria feito o procedimento, depois que a ministra Damares Alves enviou assessores para acompanhar o caso. Pelo vazamento de informações, que estão em segredo de Justiça, Sara foi denunciada pelo Ministério Público do Espírito Santo, em Ação Civil Pública que pede indenização de R$ 1,32 milhão. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), arcebispo Walmor de Azevedo, entrou na nau dos insensatos e classificou a interrupção da gravidez da criança como um crime hediondo.

ABORTO LEGAL

O médico Olímpio Barbosa de Moraes, que cumpriu a ordem da Justiça e interrompeu a gravidez da menor (ele sofreu ameaça de excomunhão da Igreja), disse que realiza muitos procedimentos semelhantes e que obrigar a continuação dessa gravidez seria uma “tortura ainda maior” para a criança. Diretor do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), ele atende a muitas mulheres vítimas de estupro ou em gestação de risco, que optam pelo aborto, diz que nunca tinha visto nada igual. Quando chegou ao hospital e se deparou com a manifestação que tentava impedir o procedimento, ele afirmou ter sentido muita tristeza por ver as pessoas chamando uma criança violentada de assassina. “Foi um desrespeito com a garota e com as mulheres internadas, muitas em estado de risco, que se assustaram com a invasão do hospital. Várias delas sem máscaras, num ambiente hospitalar em plena pandemia”, espantou-se.

A violência sexual tem roubado a infância de muitas crianças no Brasil. Cerca de 53,8% dos casos de estupros no País são de meninas de até 13 anos. Os dados do Ministério da Saúde e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que muitas meninas sofrem violência dentro de suas próprias casas, e isso piorou com o isolamento social, já que o agressor, em 76% dos casos, é um parente. “A forma como essas meninas são tratadas só traz a mensagem de que ninguém é confiável”, diz a psicóloga Katherine Miranda. E a situação só piora quando grupos radicais decidem transformar uma criança indefesa em criminosa.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 23 DE AGOSTO

QUANDO A CRÍTICA DÓI MAIS

Ouvindo-o Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se-lhe a ira contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a tua maldade; desceste apenas para ver a peleja (1Samuel 17.28).

Davi, filho de Jessé, foi visitar os irmãos no campo de guerra. O exército de Israel estava sendo humilhando pelo gigante Golias havia quarenta dias. Nenhum soldado israelita dispôs-se a enfrentar o insolente filisteu. Nesse momento, Davi chegou ao acampamento, escutou as afrontas do gigante e dispôs-se a enfrentá-lo. Eliabe, seu irmão mais velho, tomado de inveja, teceu as mais duras críticas contra Davi por essa atitude. Nenhum vencedor de gigantes deixará de enfrentar os seus críticos. Antes de vencermos nossos gigantes, precisamos lidar com nossos críticos. As críticas sempre doem, mas há circunstâncias em que doem mais. A crítica dói mais quando vem daqueles que deveriam estar do nosso lado e estão contra nós; quando vem daqueles que conhecem a integridade do nosso caráter; quando é contínua e sem pausa; quando vem envelopada com destempero emocional; quando julga nossas motivações; quando visa humilhar-nos. Se não tivermos cuidado, os críticos roubarão nosso foco e nossa paz. Por isso, Davi fez a única coisa sensata: desviou-se do seu crítico. Não desperdice seu tempo e suas energias com os críticos. Não desvie do seu foco. Deus chamou você para enfrentar e vencer os seus gigantes.

GESTÃO E CARREIRA

LIDERANDO NA INCERTEZA

Uma crise sem precedentes como a do coronavírus acende o alerta: as empresas precisam se preparar para os cenários mais imprevisíveis. E o RH tem um papel essencial nessa jornada

“No começo eu era só certezas; nomeio eu era só dúvidas; agora é o final e eu só duvido”. O poema, de Mário Quintana ilustra bem o sentimento atual sobre o que acontecerá com a economia, a política, os negócios, os hábitos de consumo e os modelos de trabalho quando o coronavírus passar. Os números desta crise, a mais aguda desde que a Gripe Espanhola em 1918, a Grande Depressão em 1929 e as duas guerras mundiais assolaram o planeta são alarmantes. Enquanto o renomado Imperial College London, instituição inglesa referência em modelagem estatística sobre a Covid-19 aponta que a doença não está sob controle no Brasil (cada infectado aqui contamina mais de uma pessoa), o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê queda de 5,3% no PIB nacional em 2020. A retração global não deve ser diferente: 3%, cenário pior do que o de 2008, quando a bolha imobiliária nos Estados Unidos estourou – o tombo mundial naquele ano foi de 0,1 %. Além disso, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 2,7 bilhões de trabalhadores já foram financeiramente afetados, sendo que mais de 25 milhões ainda podem perder o emprego em todo o mundo – segundo a agência da ONU, o quadro mais grave desde a Segunda Guerra Mundial.

Não sem razão, o indicador de incerteza da economia brasileira (IIE-Br), índice calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas e termômetro de como anda a situação financeira de empresas e famílias, está nas alturas. Em abril chegou ao mais alto nível desde 2000, alcançando 210,5 pontos. O recorde anterior havia sido de 136,8 pontos em setembro de 2015, quando se aventava o impeachment de Dilma Rousseff (PT). Para Anna Carolina Gouveia, economista responsável pela medição da FGV, esse indicador dificilmente baixará enquanto não houver uma resolução mais clara na saúde, como uma vacina, ou então a perspectiva de uma retomada comercial. “Quando a incerteza está elevada, os investimentos são praticamente nulos, desestabilizando todo o mercado”, diz a especialista.

E, se o avanço da tecnologia já vinha abalando as estruturas e provocando disrupções, a chegada de um vírus desconhecido só aumentou as ambiguidades. Neste momento, é prever como o capitalismo reagirá. “Os reflexos se perpetuarão por anos. As companhias não irão se recuperar da noite para o dia e terão e se adequar a uma realidade ainda desconhecida”, fiz Yuri Trafane, consultor empresarial e representante no Brasil do instituto de pesquisas Gallup. ”O resultado disso é uma falta de confiança na empresa, na liderança, no governo e no futuro do país”.

EM BUSCA DE UM NORTE

Para resgatar a esperança das pessoas, transparência e direcionamento são fundamentais.  Um estudo da Harvard Business Review, dos Estados Unidos, apontou que 70% dos funcionários se sentem mais engajados quando a liderança comunica a estratégia e os atualiza constantemente. Outro levantamento da companhia de soluções para recursos humanos Tiny Pulse mostrou que a clareza é o fator número 1 na felicidade dos trabalhadores. “O líder precisa deixar evidente para onde a companhia está caminhando, mesmo que não tenha todas as respostas para dar”, afirma Roberta Ebina, sócia e consultoras da Muttare Consultoria de Gestão

A necessidade de um norte não vem de hoje. Após analisar dados obtidos em períodos como a Grande Depressão , o ataque a Pearl Harbor, o assassinato do presidente americano John Kennedy, a queda financeira global de 2008 e a pandemia da Covid-19, o instituto Gallup concluiu que existe um traço comum nas pessoas durante as crises: elas esperam que as lideranças as orientem. Mas como conduzir os negócios em suspenso? De que maneira definir metas sem nitidez nenhuma do futuro? Como tomar decisões com paradigmas derretendo’?

O primeiro passo é ter em mente que, se o mercado está volátil, não há resposta pronta – prova disso é que, segundo um estudo da Deloitte, 55% das organizações do mundo baixaram suas previsões de crescimento, com algumas delas simplesmente suspendendo as metas neste ano. Nessa hora, diz um relatório do Boston Consulting Group intitulado Covid-19 -Fatos, Cenários e Ações para Líderes, é dever enfrentar a instabilidade com pulso firme e proteger a vida e a saúde das pessoas. De acordo com a consultoria americana, a liderança pós pandemia precisará ser “head, heart and hands” – traduzindo, “cabeça, coração e mão na massa”. Isso significa buscar saídas criativas, atuar na linha de frente e compreender genuinamente que o emocional dos funcionários está em frangalhos.

Hoje, os trabalhadores temem perder o emprego ou contrair a doença e morrer. Quando a principal preocupação de um profissional é a sobrevivência, fica difícil conseguir engajamento ou cobrar produtividade. Para amenizar a falta de perspectiva, não basta ensinar a higienizar as mãos ou a usar as máscaras do jeito correto. É preciso ir além, criando segurança psicológica, como vem fazendo a multinacional francesa de cosméticos L’Oréal, com 3.000 empregados no Brasil. “Diante das notícias sobre demissões em massa, corte de salários e pessoas em dificuldades, tomamos a decisão , não só no Brasil, mas no mundo, de comunicar que manteríamos todos os nossos funcionários, para a segurança deles e de nossa empresa também”, diz Patrícia Mirilli, diretora de remuneração e benefícios.

Para quem está em casa, a companhia criou um programa que ajuda a lidar com a confusão do momento. A ação orienta de maneira objetiva como criar uma divisão de tarefas.  Pela manhã, os trabalhadores participam de uma live de relaxamento (que pode ser de ioga, meditação, alongamento ou zumba), no meio do expediente há 1 hora e meia para o almoço e às 18 horas, os computadores devem ser desligados. Na fábrica, onde a incerteza é (e continuará sendo) maior, todos receberam itens de proteção individual, como máscaras, luvas, toucas e álcool em gel. A L’Oreal apostou ainda em uma ação social para reforçar os valores corporativos e encorajar as equipes a seguir em frente, redirecionando parte de sua produção para a fabricação de álcool em gel, envasando em embalagens de xampu e doando para hospitais e comunidades carentes, indígenas e quilombolas. “O desejo de ajudar e fazer algo era tão forte que viabilizamos o projeto em dois dias. Os primeiros a receber os produtos foram os funcionários. Quem estava em casa ganhou o kit de higiene junto com uma carta de nossa presidente [An Verhulst-Santos], na qual ela agradecia pela colaboração e reforçava o compromisso com a segurança de todos”, afirma Patrícia.

Apostar em estratégias de responsabilidade social é uma boa saída em momentos de crise. “Essas ações aumentam o orgulho dos funcionários. Quando eles participam, é melhor ainda: sentem-se especiais fazendo o bem para alguém”, diz Roberto Aymer, professor internacional na Fundação Dom Cabral e consultor em gestão estratégica de pessoas.

Ainda que as vendas oscilem, os consumidores mudem de interesse e a produção sofra revés, a cultura, os valores e o propósito de uma companhia podem se fortalecer em situações adversas. Segundo o Boston Consulting Group, conectar estratégia, propósito e cultura aumenta em três vezes a probabilidade de obter sucesso numa realidade complexa, além de inspirar e motivar os funcionários, elevando sua produtividade em até 2,5 vezes, e melhorar os lucros com um incremento de duas vezes no retorno total aos investidores.

ENVOLVIMENTO GERAL

Liderar sem saber como será o dia de amanhã exige coragem para expor vulnerabilidade e ousadia para envolver os empregados de todos os níveis nos problemas. Incluir as pessoas nas decisões que afetam sua vida ajuda a engajá-las. E cabe ao RH promover um ambiente flexível de verdade, com diretores dispostos a romper barreiras hierárquicas e a descentralizar a tomada de decisão, permitindo que os funcionários falem o que pensam e contribuam com novas ideias. “rever metas, repensar investimentos, reorganizar equipes e vislumbrar oportunidades são atitudes que exigem diálogo. Sem troca não há criatividade”, diz Roberta, da Muttare Consultoria.

A criatividade, aliás, faz parte da gama de habilidades essenciais para enfrentar o inesperado, assim como a resiliência, a capacidade de comunicação e a aptidão para colaborar. E as crises costumam ser oportunas para fortalecer essas competências. Uma pesquisa divulgada em maio pela ISE Business School mostrou que 82% dos 518 gestores consultados a resiliência tem sido altamente desenvolvida na crise atual, ao lado da flexibilidade (citada por 81%) e da confiança (apostada por 75%).

Todas essas características são primordiais para criar equipes que sejam capazes de reagir ao ritmo frenético das mudanças. E devem ser incentivadas. Mas não adianta achar que os funcionários, já fragilizados, farão tudo sozinhos. Isso só acontecerá se houver um clima de colaboração, respeito e segurança, no qual os chefes tenham autonomia e liberdade para entregar os projetos certos para as pessoas certas. “A visão antiquada de desenvolvimento prega avaliar a pessoas em busca de suas fraquezas, para então fortalecê-las”, diz Yuri, consultor e representante da Gallup. Mas cenários incertos, onde falta dinheiro e sobra trabalho, exigem o contrário, ou seja, impulsionar os pontos fortes do indivíduo. “A vida já está muito dura para apontar defeitos. A positividade é mais eficiente, pois motiva a gastar energia naquilo que se faz bem, o que traz um resultado melhor.”

INFORMAÇÃO E ACOLHIMENTO

Períodos em que existem muitas dúvidas e imprecisões demandam da liderança o desenho de uma estratégia forte de comunicação de crise, com intensificação no fluxo de informações. Esclarecimentos constantes neutralizam fofocas e boatos que minam a confiança e o engajamento.

Por isso, todo gestor precisa dar e receber notícias, de preferência diárias, sobre os problemas que a organização está enfrentando, as movimentações do mercado e as medidas tomadas. O feedback é importante para conectar a corporação aos objetivos urgentes – considerando que, de agora em diante, prioridades mudarão o tempo todo. “Escuta e diálogo são ferramentas que andam juntas nessas situações. É necessário fazer conversas frequentes, não só para informar os rumos do negócio, mas para acolher a angústia e gerar empatia”, diz Alessandra Canuto, especialista em solução de conflitos e tomada de decisão.

A comunicação constante é a tática do Grupo Rio Branco, um dos maiores distribuidores de papeis e insumos gráficos do país para lidar com a imprevisibilidade. Com 400 funcionários distribuídos por seis unidades no estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná e Pernambuco, a corporação se viu com 70% da equipe em home office, queda nas vendas e paralisação nas entregas. “Nosso faturamento havia despencado 66% e precisávamos fazer algo para promover o sentimento de pertencimento”, afirma Cibele Telpis, coordenadora de RH.

Com objetivo de manter o envolvimento, a empresa criou um comitê executivo, que delibera semanalmente, e deu aos 14 gerentes a missão de cascatear objetivos e próximos passos. Os diretores dos departamentos de RH, financeiro e controladoria decidiram continuar atuando nos escritórios para dar apoio aos trabalhadores presenciais. Os comunicados foram ampliados para atualizar a situação da companhia e da pandemia, com e-mails, cartilha de boas práticas no home office, vídeos do CEO, avisos em murais físicos e cartazes, e os diretores das áreas de produção e logística passaram a fazer reuniões presenciais diárias para dialogar com as equipes e reforçar os protocolos de segurança – os encontros acontecem com dez pessoas por vez, todas com máscara e mantendo a distância de 2 metros entre si. Dois meses após reforçar a comunicação. A liderança estabilizou a companhia, retomando o faturamento mensal pré-pandemia. “Vamos estender o home office ao máximo para garantir a segurança, porque está funcionando. E continuaremos com o reforço na comunicação para manter todos informados, alinhados e conectados à nossa cultura”, afirma Cibele.

FATOR FAMÍLIA

Um efeito negativo que a falta de perspectiva causa é o excesso de individualismo. Para evitar p clima de cada um por si, deve-se estimular o olhar coletivo. Da porta do escritório para fora o funcionário possui pais, cônjuge e filhos – e isso deve ser considerado. O Grupo RD, detentor das redes de farmácias Droga Raia, Drogasil e Onofre, tomou medidas assertivas nesse sentido. Mesmo as drogarias sendo negócios essenciais e sofrendo menos do que outros comércios, a companhia entendeu que deveria amparar os mais de 40.000 empregados e seus familiares. “Percebemos que o mais difícil na incerteza é trabalhar o emocional, algo que só se consegue com ações conjuntas que foquem questões sociais, financeiras e de saúde física e mental”, diz Maria Susana de Souza, vice-presidente de RH.

Uma delas foi criar um fundo de emergência para cobrir as necessidades de empregados e parentes em dificuldades, estimulando a arrecadação com diretores, gestores e demais profissionais – a cada 1 real doados a companhia aporta mais 1.  “Já tínhamos essa ideia anteriormente para auxiliar em casos de calamidade, como enchentes, rompimento de barragens. Quando a pandemia se instalou, percebemos que era a hora de colocá-la em prática”, afirma a executiva de RH, que não divulga o valor arrecadado. Em um mês, 20 pessoas utiçizaram o fundo, que deve se manter no pós-pandemia, por ser um trunfo no gerenciamento da ansiedade dos times.

Em paralelo, o grupo criou, em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein, uma clínica de cuidados priários na sede em São Paulo, na qual os empregados têm à disposição ummédico de família e um psicólogo para ayendimentos presenciais. “Para quem está fora da capital paulista, disponibilizamos uma plataforma de telemedicina, o Einstein Conecta”, diz a executiva. A platafprma é estendida aos parentes, que pagam 2 reais mensais para usá-la. Desde o início, em abril, 8.700 pessoas utilizaram o serviço.

TECNOLOGIA AMIGA

Uma pesquisa da consultoria PwC, realizada em 2018 com 12.000 profissionais do Canadá, China, Alemanha, México e Reino Unido, mostrou que 61% deles gastava mais tempo fazendo a tecnologia funcionar do que gostariam. Quando a ocasião exige agilidade e resolução de problemas complexos, tudo o que as pessoas não precisam é de sistemas burocráticos e dispositivos obsoletos que travam o tempo todo e geram desgaste emocional.

Em um mundo caótico, a ordem é simplificar tarefas, permitindo que os talentos voltem suas energias para funções criativas – algo valioso, visto que a sobrevivência dos negócios dependerá basicamente de inovações. Por isso, especialistas orientam intensificar a figitalização, melhorando a infraestrutura tecnológica e baseando a tomada de decisão em dados.

Essa vem sendo a estratégia afotada pela Nestlé. “Como há muita ansiedade e um enorme volume de informações. Estabelecemos algumas prioridades, entre elas o cuidadocom os empregados e a continuidade do negócio. Investir na tecnologia foi a forma que encontramos de fazer isso”, diz Enrique Rueda, vice-presidente de recursos humanos. Entre outras medidas. A multinacional criou um programa para a çiderança batizado de Emoções Conectadas, em que psicólogos ministram aulas virtuais sobre imprevisibilidade, gerenciamento à distância e turbulências externas. “Se os líderes não tomarem conta da própria saúde dísica e mental, como vão cuidar dos outros:”, questiona Enrique. Desde o início da quarentena, 500 gestores já foram capacitados e outros 500 passarão pelo curso nos próximos meses.

Outra iniciativa foi a criação de um aplicativo em que empregados têm acesso a coach de ergonomia, ginástica laboral e aulas online de alongamento, meditação, ioga, pilates e respiração, e no qual os chefes podem agendar encontros coletivos de bem-estar para suas equipes. Com 6.000 funcionários do corporativo em home office, a Nestlé reforçou a comunicação (de março para cá, aumentou a produç´~ao de conteúdo  interno em 360% – só newsletters sobre ações da empresa e informações acerca da doença provocada pelo novo coronavírus foram 40) e passou a falar mais sobre família. “Antes da pandemia, o trabalho remoto não incluia os filhos, que estavam na escola. Agora estão todos em casa e tivemos de abraçar essa nova realidade.”

Para Roberto Aymer da Fundação Dom Cabral, a incerteza tem um alto custo psicológico, com risco de depressão e burnout. Como não dá para fazer de conta que a situação vai passar e que tudo voltará a sert como antes, é preciso se posicionar. “Cuidar do funcionário não é função apenas do RH, é obrigação de cada gestor. A liderança deve falar abertamente das dificuldades e criar um ambiente de conhecimento, colaboração e desenvolvimento”, diz o especialista. Afinal, se existe algo que as crises fazem é ensinar. Da viabilidade do trabalho remoto. Que está colocando em xequea mentalidade do comando econtrole, a capacidade de lidar com o inesperado, as lições da covid-19 estão dadas. Resta saber quantoas liderançasserão capazes de aprender com elas.

QUANDO TUDO PASSAR

O que as empresas planejam fazer no futuro pós-pandemia

CONFIANÇA ABALADA

Termômetro de com0 anda a situação econômica brasileira. o indicador de incerteza da fgv alcançou o pico do ano em abril e começou a declinar em maio. O índice é formado por dados da imprensa, pelos resultados do Ibovespa e pelas expectativas do mercado financeiro.

VOLTANDO A RESPIRAR

O retorno das atividades já começou em diversos setores – e, por incrível que pareça executivos estão otimistas em aspectos como segurança, bem-estar dos funcionários e novas oportunidades de receita

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PODER DO RISO

A capacidade de achar graça tem sido estudada seriamente nos últimos anos. A gelotologia mostra o que está por trás de uma boa gargalhada

Quando ouvimos uma boa piada, daquelas que nos fazem desatar a rir, nossa boca produz uma série de sons vocálicos, cada um com duração de 1/16 de segundo, repetindo-se a cada 1/5 de segundo. O diafragma sacode, o coração bate mais rápido, a pressão arterial sobe e as pupilas se dilatam. Enquanto emitimos esses sons, o ar sai de nossos pulmões a mais de 100 km/ h, antes que, passados cerca de dois segundos, a operação se repita. E quem quer que esteja ouvindo essa barulheira, muito provavelmente vai ficar curioso e querer saber o que está perdendo.

Adultos riem 20 vezes por dia, em média. Crianças, até dez vezes mais. Rir é componente tão sólido da existência humana que esquecemos como são curiosos esses acessos de alegria. Por que rimos quando alguém conta uma piada ou nos toca de leve a sola dos pés? O sr. Spock, por exemplo, tripulante da nave Enterprise na série Jornada nas estrelas, não entendia as risadinhas dos terráqueos: “Humor? É um conceito estranho. Não tem lógica”, dizia. O escritor húngaro Arthur Kõstler (1905-1983) caracterizava o riso como um reflexo de luxo, sem nenhuma utilidade biológica.

De modo geral, porém, a Natureza não faz investimentos insensatos e costuma livrar-se de características inúteis. Portanto, o ímpeto de rir deve ter contribuído para a sobrevivência no decorrer da evolução, ou nossas gargalhadas teriam tido o mesmo destino dos dinossauros. Filósofos da Antiguidade formularam teorias sobre a natureza do humor, mas, na ciência, o fenômeno permaneceu obscuro por muito tempo.

Atualmente há muitos estudos sobre características humanas elementares, tais como a capacidade de sentir medo, mas a pesquisa sobre o riso – a gelotologia – pouco a pouco ganha espaço. As tecnologias de imageamento cerebral permitem que neurologistas observem como diferentes regiões do cérebro reagem às piadas. Os resultados mostram que humor é coisa séria, demanda certas capacidades mentais e desempenha papel central na vida em sociedade. Muitos gelotologistas chegam a considerar o riso a mais antiga forma de comunicação.

É provável que nossos antepassados tenham começado a rir muito antes do advento da fala. Nossos centros da linguagem situam-se no córtex mais recente, ao passo que o riso provém de uma parte mais antiga do cérebro, responsável também por emoções tão primordiais quanto o medo e a alegria. É por isso, aliás, que o riso escapa ao controle consciente. Não se pode rir de verdade atendendo a um comando e tampouco é possível reprimir voluntariamente uma boa gargalhada. “Estamos falando de algo bastante arraigado na natureza humana”, afirma Robert Provine, psicólogo da Universidade de Maryland, em Baltimore, um dos pioneiros na pesquisa do humor.

Rir é uma faculdade inata ou adquirida? A questão divide os pesquisadores. Um recém-nascido já sorri dormindo, embora se trate apenas de um reflexo involuntário. Só aos 3 meses surge o primeiro sorriso “deliberado” do bebê, provocado pela visão de pessoas conhecidas, como pais ou irmãos. Por isso se diz que a criança começa a rir porque as pessoas próximas riem para ela com frequência.

DOM HUMANO

Na década de 40, o psicólogo americano James Leuba demonstrou que não era bem assim. Sempre que fazia cócegas em seus dois filhos, ele usava uma máscara para ocultar qualquer expressão facial que sugerisse diversão. Tão logo o dedo paterno roçava-lhes a barriga, as crianças explodiam em gargalhadas. O riso, portanto, não é mimético. Mesmo crianças nascidas surdas ou cegas começam a rir por volta dos 3 meses. Embora o padrão de som emitido por elas seja diferente, o desenvolvimento do humor segue vias mais ou menos parecidas. Isso sugere que o humor está firmemente instalado no cérebro.

É natural que um dom humano tão fundamental tenha despertado o interesse da neurologia. Armados de equipamentos de eletroencefalografia (EEG) e de tomografia por ressonância magnética funcional (fMRI), os neurocientistas decidiram investigar o centro do humor. Nessa busca, ltzhak Fried, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, teve ajuda do acaso. Procurando a origem dos ataques epilépticos de uma de suas pacientes, o neurocirurgião implantou eletrodos na superfície do cérebro da adolescente de 16 anos para observar a atividade neuronal. Além disso, esse método permitia estimular, com fracas correntes elétricas, determinadas regiões cerebrais. Com isso, Fried conseguiu influenciar a competência linguística da paciente, bem como a capacidade de movimento de sua mão. Então algo espantoso aconteceu. Quando os pesquisadores estimularam a área motora suplementar (AMS), no lobo frontal esquerdo, a garota de repente começou a rir. Fried elevou a corrente elétrica, e ouviu uma gargalhada retumbante. Quis saber onde estava a graça. “Vocês, médicos! “, explicou a paciente, divertindo-se a valer. “Vocês são uns sujeitos engraçados, andando em volta da gente.”

A AMS, com seus poucos centímetros quadrados, desempenha papel central no planejamento das ações. Sempre que desejamos nos mover ou dizer alguma coisa, essa região é ativada. Os sinais avançam, então, rumo ao córtex motor, que controla os músculos necessários à execução da ação.

Ao que tudo indica, também o acionamento dos músculos do riso tem seu ponto de partida na AMS. A descoberta causou furor. A imprensa se apressou em anunciar que o centro do humor no cérebro havia sido encontrado. Mas logo na publicação de seus resultados Fried freou qualquer euforia precoce. O riso certamente teria um componente físico, mas também um aspecto cognitivo e outro emocional. Esse fato não autorizaria restringir o senso de humor a uma única região do cérebro.

VIAGEM CRIATIVA

Ouvir uma piada, achar engraçado, rir. Por trás dessa cadeia causal aparentemente tão cotidiana e natural oculta-se um processo trabalhoso. De acordo com a teoria da incongruência, o humor se baseia na percepção de uma incoerência, de um paradoxo. Entender uma piada verbal – lida ou contada – demanda vários passos do pensamento. Primeiro, especulamos sobre o desfecho lógico da história, substituído por um final inesperado. De início, a comicidade do arremate parece sem sentido, pois não se encaixa no contexto. Por isso ficamos perplexos por um breve instante. Depois o cérebro se lança à solução do problema. Abandonamos, então, o ponto de vista inicial e procuramos uma perspectiva a partir da qual a comicidade da conclusão seja compatível com o restante da história. Por fim ocorre-nos que o sentido da piada, adquirido com a mudança de perspectiva, talvez não seja óbvio, mas é divertido – e atestamos esse novo e surpreendente conhecimento no mínimo com um sorriso. Todo esse processo se passa em alguns segundos.

O humor é uma espécie de viagem exploratória e criativa, na qual importa que nos distanciemos rapidamente de expectativas e previsões aventadas no início. Saltamos para uma nova perspectiva e, como recompensa, vivemos uma divertida e surpreendente descoberta. O psicólogo Peter Derks, da Faculdade William & Mary, na Virgínia, tornou visível esse salto mental com o auxílio da eletroencefalografia. Enquanto dez participantes de uma experiência liam ou ouviam uma serie de piadas, Derks registrava o padrão da atividade elétrica no cérebro. Para determinar com exatidão o momento da risada, um eletrodo adicional foi fixado ao músculo zigomático dos voluntários – responsável por elevar os cantos da boca quando rimos. O psicólogo constatou que a atividade cerebral não se restringe a determinada área, ao contrário, estende-se por boa parte do córtex. Em seguida, ele analisou mais profundamente a sequência temporal das ondas e vales no traçado da atividade elétrica cerebral e teve uma surpresa. Cerca de 1/5 de segundo depois do desfecho cômico de cada piada os potenciais elétricos disparavam de repente rumo a valores positivos. Outros 140 milissegundos e as linhas oscilavam de forma igualmente abrupta, mas na direção contrária e apenas nas pessoas que compreendiam a piada e riam. Dispondo dessas informações, Derks era capaz de prever se os participantes achariam engraçada ou não uma piada antes mesmo de a menor sugestão de sorriso esboçar-se. O humor teria de fato sua fome no cérebro e repousaria sobre mecanismos cognitivos.

Derks não conseguiu descobrir exatamente em que regiões cerebrais reside o senso de humor. O hemisfério direito, no entanto, deve ler algo a ver com isso, particularmente o lobo frontal direito. Pessoas com alguma lesão nessa área não apenas sofrem de alterações da personalidade, como tendem também a achar tudo engraçado – riem demais, e nos momentos errados.

A neuropsicóloga Prathiba Shammi, da Universidade de Toronto, seguiu essa pista e testou o papel do lobo frontal direito. Numa espécie de teste de múltipla escolha apresentou piadas com diferentes finais aos participantes de sua experiência: final lógico, mas não engraçado, final com arremate cômico e final burlesco.

ARREMATE CÔMICO

Exemplo: um estudante se candidata a um emprego de férias. “No começo, você vai ganhar 150 euros por semana”, diz o patrão. “Mas, no próximo mês, o salário sobe para 200 euros.” As possíveis respostas do estudante: “Aceito. Quando começo?”. Ou: “Puxa, que legal. Volto no mês que vem!”. Ele ainda poderia dizer: “Ei, chefe, esse seu nariz é grande demais para sua cara”. A tarefa dos participantes consistia em escolher a versão mais engraçada. Tanto as pessoas saudáveis quanto as com lesão cerebral fora do córtex frontal sempre compreendiam a piada, completando-a com o arremate cômico apropriado (a segunda opção). Os portadores de alguma lesão no lobo frontal direito em geral optaram pelo final grotesco (o último).

A comicidade depende do elemento surpresa – isso também os pacientes parecem perceber, mas não que o final burlesco não tenha sentido no contexto geral proposto. Como supõe Shammi, as piadas mais elaboradas lhes escapam porque eles não são capazes de dar o salto mental em direção à outra perspectiva, imprescindível à compreensão. Ainda assim, os participantes com lesões cerebrais foram perfeitamente capazes de tirar conclusões sensatas.

Até recentemente ignorava-se o papel desempenhado pelo lobo frontal direito em humanos. O córtex frontal é a área cerebral que mais cresceu na história evolutiva. A ele o ser humano deve suas singulares capacidades cognitivas. Ali são tiradas conclusões e resolvidos problemas complexos. De acordo com os estudos de Vinod Coei, da Universidade de Toronto, o lobo frontal direito confere a flexibilidade mental, e os pacientes com lesões nessa região têm dificuldade em abandonar ideias e noções já concebidas.

Os psicólogos gostam de testar essa flexibilidade com ajuda de exercícios que consistem em completar palavras. Eles propõem as sílabas iniciais e os pacientes devem completar com um final óbvio e outro mais original. Por exemplo, “catalogo” seria uma solução simples, ao passo que “catacrese”, uma solução mais elaborada.

A “mudança de perspectiva” é crucial quando se passa de uma solução logicamente antecipada para um cenário desconcertante. Mas nós frequentemente mudamos de perspectiva sem rir a cada vez. Para entender esse mistério, e principalmente a diferença entre compreender uma piada e considerá-la engraçada, Coei decidiu estudar a vertente emocional do riso. Reuniu 14 pessoas saudáveis e as fez ouvir uma fita com piadas que seguiam sempre o mesmo padrão de pergunta e resposta: “Por que os tubarões não devoram advogados? Porque até os tubarões têm lá seu orgulho”. Usando a fMRI, os pesquisadores mediram a atividade cerebral dos participantes.

Que a porção posterior do lobo temporal esquerdo fosse se iluminar, isso eles já esperavam. Afinal, aí se situa uma área importante para o processamento da linguagem. Mas também a região correspondente do lado oposto revelou-se ativa, e isso foi algo incomum: em geral, o lobo temporal direito permanece quieto quando a linguagem está em ação. A fim de processar os jogos de palavras, porém, o cérebro dos participantes parecia se valer dos dois hemisférios. Mas, como Coei suspeitava, essas atividades neuronais refletem apenas o processo meramente cognitivo.

Faltava analisar o “aspecto afetivo”, o componente emocional. Entender uma piada é uma coisa; divertir-se com ela é outra bem diferente. Essa diferença se manifesta também no plano neurobiológico. Tão logo os participantes da experiência achavam graça numa piada, ativava-se ainda outra região de seu cérebro: o chamado córtex pré-frontal ventro medial. E quanto maior a diversão, tanto mais intensa a atividade. Sabemos, por outros experimentos, que essa área está ligada de alguma forma a nosso sistema de recompensa, que entra em ação, por exemplo, quando saboreamos um delicioso almoço, temos relações sexuais ou nos alegramos com algum sucesso intelectual. Portanto, o prazer de uma boa gargalhada compartilha as características de outros prazeres.

FORA DOS TRILHOS

Quando se trata de comer ou se reproduzir, o prazer é uma recompensa que garante a perenidade dessas atividades e a sobrevivência da espécie. O fato de que exista um “prêmio pelo riso ” sob forma de recompensa hedônica pelos mesmos circuitos neuronais sugere que o riso desempenhou um importante papel na evolução da espécie humana.

A neurologista Barbara Wild, da Universidade de Tübingen, Alemanha, estuda de que maneira o cérebro reage aos desenhos animados do cartunista americano Cary Larson. O observador precisa se pôr mentalmente no lugar das personagens da ação e, depois, abandonar esse posto, para então rir da situação infeliz em que se encontram. Ao investigar a neurologia da piada, pesquisadores do humor fazem descobertas acerca de funções ainda mais enigmáticas do cérebro.

Os primeiros resultados dessas pesquisas mostram que o desenho é processado em conjunto por diversas regiões cerebrais. Além do córtex frontal, ativam-se importantes centros da emoção em áreas que, do ponto de vista evolutivo, são mais antigas, tais como a amígdala e o hipocampo. Isso evidencia como são profundas as raízes do senso de humor no sistema nervoso.

Pouco a pouco, portanto, desfaz-se a névoa em torno dessa qualidade tão humana. Mas por que, afinal, a possuímos? A esse respeito, mesmo munidos da fMRI e da eletroencefalografia, os pesquisadores podem apenas especular. Segundo o especialista em inteligência artificial Marvin Minsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, é provável que o humor tenha se desenvolvido para chamar nossa atenção para os erros do pensamento lógico e das conclusões que tiramos. Supondo que o pensamento fosse um trem, a risada o deteria quando ele avançasse por trilhos errados. Wild concorda: “O cérebro se ocupa constantemente de formular regras. Mas são as exceções, as guinadas surpreendentes, que mais nos chamam a atenção”, explica. Essas mudanças abruptas podem gerar sentimentos negativos, mas despertam os positivos também. “Quando descobrimos que o novo não é ruim nem uma ameaça, rimos aliviados.” Para o neurocientista Vilayanur Ramachandran, da Universidade da Califórnia em San Diego, um dos pioneiros no estudo das bases da consciência, “a principal utilidade do ato de rir consisti a originalmente em dar ao indivíduo uma possibilidade de comunicar a seu grupo social que a anomalia por ele descoberta era trivial e não oferecia motivo para preocupação”. Assim, “há! há! Há!” significa desmobilização: não há perigo, relaxem. De resto, o riso desarma não apenas no âmbito proverbial, mas também no sentido biológico, ele rompe a reação de “lutar ou fugir” que situações ameaçadoras deflagram, faz cair o nível de adrenalina e contribui para reduzir a tensão.

Wild gostaria de fazer uso terapêutico desses efeitos positivos no tratamento de distúrbios como a depressão. “Em psicoterapia, o humor parece ser tabu”, diz. “E, no entanto, rir liberta. Mais importante ainda, talvez, rir nos mostra que, a qualquer momento, podemos mudar nosso modo de encarar as coisas.” É precisamente a essência de toda piada que Wild gostaria de comunicar a seus pacientes – se necessário, com uma pitada de ironia. “Devemos compreender que nossos problemas podem ser encarados de uma perspectiva totalmente diferente, capaz de revelar seu lado cômico.”

CÓCEGAS E GARGALHADAS SÃO TEMA DE PESQUISA

Às vezes basta o indicador aproximar-se ameaçadoramente da barriga da “vítima” para que ela já caia na risada. Entretanto, não conseguimos fazer cócegas em nós mesmos. A psicóloga Sarah-Jayne Blakemore, do University College de Londres, acredita ter descoberto o desmancha prazeres: o cerebelo. Em um de seus experimentos, ela foi auxiliada por um robô que fazia cócegas na mão esquerda dos participantes com uma espécie de esponja. O robô era controlado pelos próprios participantes, que o guiavam com a mão direita, ou então comandado por um dos pesquisadores. Enquanto isso, com o auxílio da fMRI, Blakemore acompanhava o que se passava o interior do crânio.

Tão logo a esponja tocava a mão do participante, as imagens da tomografia se iluminavam em determinada região do córtex somatossensorial. Até aí, nenhuma surpresa, pois se trata do local em que o cérebro processa informações táteis provenientes dos órgãos e da pele, transformando-as em percepções. Mas quando os participantes da experiência guiavam o robô fazedor de cócegas com a própria mão, a atividade nessa região do cérebro era nitidamente menor que no momento em que outra pessoa assumia o controle. O que isso mostra é que quando fazemos cócegas em nós mesmos uma parte dos impulsos nervosos que deveriam chegar ao córtex somatossensorial é reprimida.

Parecido com uma couve-flor e situado na parte posterior da cabeça, o cerebelo faz constantes previsões sobre que percepções poderão resultar de determinado movimento do corpo. Se o prognóstico coincide com a realidade, ele envia sinais inibitórios ao córtex somatossensorial e a percepção é ignorada. É bom que seja assim, pois, do contrário, passaríamos o tempo todo ocupados com nossos movimentos. Imagine se, ao falar, você sentisse cada movimento da língua! Assim, o cerebelo de fato estraga o prazer que teríamos ao fazer cócegas em nós mesmos, mas, em compensação, trata de liberar capacidade cerebral suficiente para que lidemos com estímulos inesperados que vêm de fora. Quando os pesquisadores programaram o robô para atender com um atraso de 1/5 de segundo ao comando da mão direita do participante para acionar a esponja, a brincadeira funcionou: os participantes conseguiram fazer cócegas em si mesmos. Portanto, o cerebelo se deixa enganar – mas só com o auxílio do amigão de lata.

EU ACHO …

NO MESMO BARCO?

Embora todos sejam afetados pela pandemia do novo coronavírus, as desigualdades ficam ainda mais gritantes neste momento

Onde você estava em 11 de setembro de 2001? Se você tem mais de 30 anos, seguramente não teve dificuldade para responder a essa pergunta. O atentado às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, marcou a memória de uma geração e definiu o mundo em que vivemos. Ou vivíamos até o surto do novo coronavírus.

A pandemia de covid-19 pegou o planeta de surpresa e deve trazer mudanças significativas para a sociedade e os negócios. O cenário é inusual desde a sua origem. Não se trata de uma crise econômica ou política, do tipo com que estamos razoavelmente acostumados a conviver, mas de um drama de saúde que assusta, sensibiliza e traz o binômio vida e morte para a pauta das conversas mais cotidianas. As pessoas estão no centro das decisões de empresas e governos – pelo menos dos que são responsáveis.

O medo nos aproximou, mas não a ponto de dissolver as diferenças. Virou clichê dizer que estamos todos no mesmo barco, porém essa é uma meia verdade. Conforme ouvi de uma amiga, seria mais apropriado dizer que estamos no mesmo mar: alguns com condições de superar a tormenta em cabines de cruzeiro, outros acotovelando-se em botes apertados.

O vírus não escolhe gênero, raça ou classe, mas é inegável que mulheres, pessoas negras ou pobres, para falar apenas desses grupos, sofrem de forma mais intensa as consequências sanitárias e econômicas da pandemia. As organizações não podem descuidar desses públicos. O momento servirá para depurar o que é responsabilidade social efetiva do que é mero discurso.

A crise escancara as desigualdades, mas, ironicamente, também abre espaço para a empatia e a humanização das relações. No meio empresarial, por exemplo, subitamente passamos a falar com mais franqueza sobre vulnerabilidade e sentimentos. Além disso, chefes obcecados pelo comando-controle tiveram de se acostumar com a gestão a distância. O futuro do trabalho e todas aquelas tendências que pareciam inalcançáveis chegaram mais cedo do que o previsto, como atestam os milhões de pessoas em home office.

Ao que parece, as fronteiras entre vida profissional e pessoal nublaram de vez. Crianças invadindo as reuniões para pedir colo e maridos aparecendo ao fundo das videoconferências viraram parte da paisagem. Normal, como sempre deveria ter sido, mas gastamos tanto tempo na pele do personagem corporativo que agora precisamos nos readaptar.

Sairemos melhores desta experiência? É uma possibilidade, mas isso dependerá das decisões que tomarmos. A crise revela valores de pessoas e organizações. É como um teste cuja aprovação está relacionada às escolhas que fizermos neste momento. Estamos diariamente construindo nosso futuro.

RICARDO SALES – é sócio da consultoria Mais Diversidade, pesquisador na Universidade de São Paulo e diretor do Fórum de Gerações e Futuro do Trabalho. ricardo@maisdiversidade.com.br

OUTROS OLHARES

SIM, SOMOS RACISTAS

Casos recentes de agressões mostram o tamanho do problema no país e pesquisa inédita revela que a maior parte dos brasileiros reconhece essa chaga

O Brasil é um país racista. Não há como abordar essa questão nem discutir soluções para todos os problemas decorrentes dela sem que se assuma isso de forma clara e direta. A quem nega a urgência desse debate, três episódios ocorridos nos últimos dias mostram como é importante colocar o tema no topo da lista de prioridades do país. Em Valinhos, no interior de São Paulo, o motoboy de aplicativo Matheus Pires foi hostilizado pelo morador de um condomínio onde foi realizar uma entrega. “Você tem inveja disso aqui”, gritou o agressor, branco, enquanto apontava para a cor de sua pele. No Rio de Janeiro, outro jovem negro, também chamado Matheus, foi espancado por dois policiais militares na loja Renner, do shopping Ilha Plaza. Matheus apenas tentava trocar um relógio que havia comprado em oito parcelas para dar de presente no Dia dos Pais. Por ser negro, os agressores achavam que ele só podia estar ali para roubar algo. Na capital paulista, outro caso terminou em tragédia. Rogério Júnior pegou a moto de um amigo emprestada para comemorar o aniversário de 19 anos. Foi perseguido e baleado por dois policiais que, em depoimento, disseram ter atirado por acreditar que ele estava armado. Não havia arma alguma. Rogério agonizou na calçada antes de morrer no hospital. Os guardas foram afastados e serão investigados.

São três exemplos basilares de como o racismo opera no Brasil. Casos em que se manifestam não só o preconceito e a injúria racial, mas também a existência de uma estrutura que acarreta a violência policial, a desigualdade social e as destoantes oportunidades reservadas a brancos e negros no país. A novidade é que, finalmente, episódios do tipo começam a gerar uma reação proporcional dentro da sociedade, na forma de repúdio e do aumento da consciência coletiva a respeito do fato de que o racismo existe, está arraigado no país e precisa ser combatido de forma urgente. Por si só, isso não resolve nada, claro, mas o diagnóstico é o primeiro passo em busca de uma solução. O nível de reconhecimento do tamanho do problema foi quantificado por um estudo exclusivo encomendado ao Instituto Paraná Pesquisas. Segundo ele, 61% dos entrevistados admitiram que o Brasil é um país racista, enquanto 34% negaram o problema. Em certa medida, é um dado histórico se for considerado que até pouco tempo atrás era difundida a ideia de que vivíamos sob a égide de uma “democracia racial”, em que todas as raças confraternizavam em harmonia e gozavam dos mesmos direitos. Por décadas e décadas, a cortina de fumaça escondeu esse grave problema.

A percepção mais recente materializou-se nas ruas pelo movimento Vidas Negras Importam (a versão local do Black Lives Matter, que desde 2013 tem liderado nos Estados Unidos os protestos antirracistas contra a violência policial). Por muito tempo, o entendimento geral da população foi de que o racismo consistia na mera aversão de brancos contra negros, algo concentrado nas relações interpessoais. Intelectuais do movimento negro explicitaram, no entanto, como o problema não se limita a essa camada superficial, mas sim a um enorme conjunto de disparidades sociais em relação aos brancos. O preconceito, na verdade, se revela em números.

O Brasil, onde 56% da população se identifica como pretos ou pardos, é uma nação com desigualdades abissais na comparação com posições ocupadas por brancos. Só 4,7% dos cargos executivos das 500 maiores empresas do país são preenchidos por negros, enquanto eles representam 75% dos mortos pela polícia e 62% dos presos. Não é por acaso que a pandemia de Covid-19 matou 55% dos negros e 38% dos brancos que foram internados. Fazem parte dessa estrutura racista as péssimas condições sanitárias dos bairros mais pobres e a concentração de um número maior de negros nessas regiões. “Comportamentos individuais e processos institucionais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra, e não exceção”, escreveu Silvio Luiz de Almeida, professor de direito político e econômico na Universidade Mackenzie, em seu livro Racismo Estrutural, de 2018.

Tal entendimento agora ganha fôlego inédito nas discussões dentro da sociedade brasileira. Nos números colhidos pelo Paraná Pesquisas, chama atenção também que 67% das mulheres admitem o problema, contra 54% dos homens, e que, quanto maior o grau de escolaridade dos entrevistados, maior é a porcentagem daqueles que reconhecem o racismo. Em outra pergunta, os mais jovens se mostram mais capazes de identificar um ato de discriminação racial: 44% das pessoas entre 25 e 35 anos disseram ter presenciado tal atitude, contra 34% dos que têm 60 anos ou mais. “São números expressivos sobre o reconhecimento do racismo, mas, para que a mudança seja sustentável, há muito trabalho pela frente”, diz Jurema Werneck, diretora executiva da ONG Anistia Internacional no Brasil.

O trabalho, de fato, é longo. Em maio, nos Estados Unidos, quando surgiu na internet o vídeo em que um policial esmagava o pescoço de George Floyd até a morte, milhares de pessoas deixaram suas casas em plena pandemia para protestar por uma reforma na polícia americana. A pressão e a magnitude dos atos forçaram congressistas, ícones do universo pop e marcas comerciais a se posicionar sobre o tema. O movimento se alastrou para outros países e serviu de inspiração também para manifestações no Brasil, ainda que bastante tímidas quando comparadas às da terra de George Floyd. Equivoca-se, no entanto, quem usa a realidade americana para afirmar que há conformismo por parte dos negros brasileiros e da sociedade como um todo diante dessa questão. “As pessoas estão nas ruas, estão denunciando o tempo todo. Mas a invisibilidade dessa agenda faz parte da estrutura do racismo”, afirma Mário Medeiros, professor do Departamento de Sociologia da Unicamp. Não são raras as manifestações populares contra assassinatos de jovens negros, como foi o caso de Rogério Júnior, que ficam restritas às periferias das cidades, onde geralmente moram as vítimas. Os parentes e amigos de Rogério fizeram um ato na Zona Sul de São Paulo em protesto contra a sua morte.

O chamado para enfrentar o racismo estrutural, que já estava presente fazia décadas nas obras e pensamentos difundidos por intelectuais, ganhou impulso e visibilidade dentro da babel de discussões da internet. “Depois da pandemia, a grande pauta de 2020 é a luta antirracista”, diz Mário Medeiros. Nesse contexto, as redes sociais transformaram o ambiente de discussão das causas políticas e sociais no país. Em abril, por meio da vigilância e da pressão do ativismo virtual, uma peça do governo federal fazendo publicidade do programa Pró-Brasil com uma foto de crianças que parecia ter sido tirada de um banco de imagens da Suécia mereceu imediato repúdio dos internautas. O governo reclamou de um tipo de ativismo exagerado, mas acabou tirando a peça do ar em pouco tempo.

Essas transformações recentes na consciência brasileira passam ainda pela adoção de políticas públicas fundamentais para combater o problema. Um marco desse avanço foram as cotas raciais implementadas nas universidades. Instituído como lei em 2012, esse instrumento de reparação histórica impulsionou a formação de intelectuais negros em áreas que antes eram ocupadas em sua totalidade por brancos, como é o caso da economia, do direito, da medicina e da sociologia. Um estudo formulado pelos pesquisadores Adriano Senkevics e Úrsula Mello para o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira mostra que houve aumento de 39% de pretos, pardos e indígenas nas universidades entre 2012 e 2016. Não é de surpreender, portanto, que as vozes de acadêmicos e de artistas negros venham alcançando cada vez mais pessoas. Entre tantas correntes distintas do movimento negro e pensadores históricos que estão em plena atividade, um nome que se popularizou no Brasil e no exterior foi o de Djamila Ribeiro. A filósofa de 40 anos é autora dos livros Lugar de Fala e Quem Tem Medo do Feminismo Negro? Sua principal linha de pensamento se concentra na diferenciação de objetivos que o feminismo se propõe a alcançar a partir do reconhecimento de privilégios que mulheres brancas detêm diante das negras.

Se por um lado cresceu no país o entendimento sobre as consequências cruéis do racismo, por outro, os problemas decorrentes dessa estrutura vigente estão longe do fim. Também causou horror na última semana a história de Kate Belintani, uma mulher branca do interior de São Paulo que perdeu a guarda da filha de 12 anos após uma denúncia anônima acusá-la, sem provas, de abuso e maus-tratos. O motivo: a garota havia raspado a cabeça ao participar de um ritual de iniciação no candomblé, uma religião de matriz africana. Já em Curitiba, a juíza Inês Marchalek Zarpelon afirmou três vezes numa sentença que emitiu contra um réu primário que ele era “seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça”. Nem sempre as agressões são tão explícitas. “Eu não sofro racismo somente se me chamarem de ‘macaca’. O racismo acontece por micro agressões e micro humilhações diárias”, afirma a francesa Alexandra Loras, que atualmente trabalha como consultora de gestão corporativa. Filha de um imigrante da Gâmbia, Loras é ex-consulesa da França em São Paulo e cansou de ser confundida com babá em um clube de elite da cidade. Atualmente, é especializada em contratar e desenvolver a carreira de profissionais negros dentro de empresas. Já ajudou a contratar 458 negros em multinacionais.

A ideia de que o Brasil pulou da escravidão para uma “democracia racial” foi tão difundida que a inclusão étnico-racial só entrou na pauta das empresas brasileiras depois que as áreas de recursos humanos já tratavam da inclusão de mulheres, pessoas com deficiência e homossexuais. “Grupos minorizados são aqueles que não são minorias em termos populacionais, mas que enfrentam barreiras sociais que outros grupos não têm de enfrentar e, por isso, não estão representados em espaços de poder”, explica Margareth Goldenberg, consultora de responsabilidade social corporativa. Os negros, hoje, representam 35% do quadro funcional das empresas, mas apenas 4,7% das posições de liderança, segundo estudo do Instituto Ethos. “Esse fosso civilizatório deixado pela escravidão não será reparado naturalmente”, diz Margareth.

Além de medidas de combate ao racismo, é preciso também que haja mobilização permanente para evitar retrocessos. Na Fundação Palmares, órgão subordinado à Secretaria da Cultura, o presidente Sérgio Camargo, um homem negro e fiel apoiador de Bolsonaro, tem promovido sucessivas políticas de desmonte e de enfrentamento ao movimento negro, chamado por ele de “escória maldita”. Para 2022 está marcada uma revisão da Lei das Cotas pelo Congresso, o que poderá ampliar ou restringir o acesso dos beneficiados às universidades. Na opinião do professor Adilson Moreira, doutor em direito comparado pela Universidade Harvard, partidos políticos precisam entender a seriedade do combate ao racismo e desenvolver em seus programas de governo medidas que ataquem problema diretamente. “Todos dizem que é um problema de classe social e que, uma vez eliminada a pobreza, o racismo também terá fim. Essa turma só diverge na forma, mas sempre parte do pressuposto equivocado de que políticas universalistas resolvem a questão”, afirma. Nas instâncias políticas, a falta de representatividade entre os eleitos prejudica a formação de um combate mais propositivo. Difícil, no entanto, será silenciar ou ignorar a parcela da população que está atenta ao tema, seja pressionando autoridades a reparar iniquidades históricas, seja trabalhando para manter a sociedade em alerta contra a perda de conquistas já adquiridas. Tudo indica que essa mobilização tende a ficar mais forte e que os brasileiros estão dispostos a encarar essa vergonhosa chaga nacional.

ASCENSÃO DIFÍCIL

Maioria no país, pretos e pardos têm dificuldade para ocupar postos na elite

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 22 DE AGOSTO

COMO LIDAR COM O MEDO

O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo?… (Salmos 27.1a).

O medo é um sentimento universal. Atinge todas as pessoas, de todos os níveis e estratos sociais. O primeiro sintoma do pecado no mundo foi o medo. Depois que Adão pecou, passou a ter medo de Deus, em vez de nele deleitar-se. Por causa desse medo, ele se escondeu de Deus e criou mecanismos de fuga. O medo é mais que um sentimento, é um espírito que nos paralisa. O apóstolo Paulo fala sobre espírito de medo (2Timóteo 1.7). Na família, sempre lidamos com o medo. Alguns têm medo de casar e outros de ficar solteiros. Muitos têm medo de doenças e também da morte. O medo pode ser positivo ou negativo. Pode salvar-nos ou fazer-nos perecer. Quando o medo é um sinal de alerta diante de um perigo, é positivo. Só os loucos não têm medo. Por isso, são inconsequentes. No entanto, o medo pode ser prejudicial. Pode fazer-nos encolher diante de situações difíceis e desviar nossos olhos de Deus. Adão e Eva, em vez de buscarem abrigo em Deus depois de caírem em pecado, temeram e fugiram. Em vez de confessarem sua culpa, criaram mecanismos de escape. Em vez de reconhecerem seu erro, começaram a acusar um ao outro. Muitos, ainda hoje, por causa do medo, estão fugindo de Deus quando deveriam estar correndo para Deus. A consciência da presença de Deus conosco em toda e qualquer circunstância é o único antídoto eficaz contra o medo.

GESTÃO E CARREIRA

ESPELHO, ESPELHO MEU

Pessoas narcisistas tendem a ser maioria em posições de poder. Entretanto, líderes vaidosos minam a confiança dos times, drenam a motivação e barram a inovação. Saiba como encará-los

Em 2002, Fábio Leandro da Costa, de 42 anos teve uma promoção importante. De coordenador, passou a gerente de uma multinacional de varejo. O passo adiante na carreira já era esperado pelos colegas, uma vez que Fábio sempre se destacava durante as reuniões e tinha todas as informações estratégicas na ponta da língua. O que ele não esperava era que, agora como gerente, teria de ficar calado. Isso porque seu novo chefe não admitia ser ofuscado por um de seus subordinados.

Fábio logo descobriria que estava nas mãos de um gestor vaidoso. “Fui de um cenário de total liberdade para uma gestão centralizadora, onde tudo tinha de passar pelo meu superior”, afirma o profissional, que hoje é gerente de planejamento em outra varejista em São Paulo.

O novo cenário gerou também situações constrangedoras: durante as reuniões, os colegas acostumados com a participação de Fábio pediam explicações a ele, que se via obrigado a ceder a palavra para o líder. Um dos piores momentos foi quando o chefe disse, com todas as letras, que as glórias tinham de ser mérito dele – enquanto os erros seriam responsabilidade da equipe. “Era um estresse muito grande, como trabalhar num campo minado”, diz. Alguns liderados de Fábio diziam que não tinham mais vontade de crescer na empresa, enquanto outros se demitiam.

Situações como a vivida por Fábio, infelizmente, não são incomuns. Em 2014, um estudo conduzido por Christian Gimso, professor na escola de negócios BI Norwegian Business School, na Noruega, mostrou que pessoas narcisistas têm mais chance de ocupar cargos de gestão.

Para chegar a essa conclusão, Christian avaliou a personalidade de 3.200 candidatos que estavam concorrendo a vagas em um treinamento de liderança. Além de uma entrevista, os participantes receberam um teste de personalidade. O resultado? Aqueles que tinham se saído melhor na seleção eram os que possuíam mais traços narcisistas.

A justificativa para isso é que, muitas vezes, pessoas com esse perfil se sentem mais atraídas por posições de poder como também tendem a ser muito carismáticas. “O narcisista tem um desejo grande de atenção e senso de superioridade”, diz Tatiana Iwai, professora de comportamento organizacional e liderança no Insper, em São Paulo.

FOGUEIRA DAS VAIDADES

O vaidoso não é necessariamente narcisista. Isso porque, enquanto a vaidade é considerada um traço de personalidade, o narcisismo é um distúrbio marcado pela falta de empatia e por um sentimento de grandiosidade. Porém, é possível que uma pessoa vaidosa carregue algumas dessas características, como senso excessivo de importância e alto poder de peresuação.

E, como os vaidosos passam uma boa impressão e exalam autoconfiança, geralmente as empresas acreditam que eles serão bons líderes. Mas o que costuma acontecer é o oposto. “É incompatível a vaidade com o exercício da liderança. Os líderes precisam atuar em prol dos times, engajando, desenvolvendo e ajudando”, diz Adriana Prates, presidente da Dasein Executive Search, consultoria de recrutamento em Belo Horizonte. “As companhias também falham ao preparar os profissionais para assumir cargos de gestão, além de promover com base apenas em relações de confiança.”

Por não reconhecerem os liderados, chefes muito vaidosos minam o moral de uma equipe. Mas não só. Um líder que não escuta e está mais preocupado em dominar também corrói a motivação. “As pessoas passam a se sentir desconfortáveis para discordar ou criticar, e isso acaba criando ruído, uma vez que esses comentários serão feitos, mesmo indiretamente “, afirma Tatiana, do Insper.

Depois de um ano, Fábio, do início da reportagem, resolveu lidar com a situação de outra maneira. “Durante um processo de coaching refleti que sempre encontraria pessoas assim e que teria de aprender com isso”, diz. O primeiro passo foi ganhar a confiança do líder. Para isso, passou a detalhar ponto a ponto tudo o que fazia – assim, a palavra final era sempre do chefe. “O objetivo era evitar a impressão de que eu estava desafiando a autoridade dele”, afirma. Fábio também criou mais proximidade com o chefe e descobriu seus hobbies e interesses. “Entendi que tinha de gerar empatia”, diz. Com o tempo, o profissional se sentiu encorajado a ter uma conversa franca com o gestor. “Abri o jogo e disse que as posturas dele estavam virando motivo de gozação, o que poderia arranhar sua imagem como líder”, afirma. A conversa surtiu efeito e, a partir daí, as coisas melhoraram entre eles. Depois de um ano e meio, inclusive, Fábio foi promovido a diretor na empresa.

AUTOCENTRADO, EU?

Ter vaidade, ao contrário do que diz a Bíblia, não é pecado – todos nós carregamos um pouco de falta de modéstia. O problema é quando esse traço fica muito forte. “Uma posição que envolve poder é sedutora e pode deslumbrar”, diz Emerson Weslei Dias, consultor de carreira. Outro agravante é que, muitas vezes, um líder vaidoso não percebe como afeta os demais. “Ele pode achar que são os outros que não sabem ouvir críticas”, afirma Emerson. Isso representa uma dificuldade adicional, afinal, como ajudar alguém que acredita não precisar de nenhum auxílio?

De acordo com o consultor, o comportamento pode nascer de uma insegurança excessiva, em que falhas não são permitidas. O ambiente muito competitivo de algumas empresas, sem margem para erros ou dúvidas, também contribui para esse tipo de atitude. Para o gestor financeiro Jonathan Eduardo Muniz, de 48 anos, ver um amigo de trabalho se tornar um chefe agressivo foi um baque. Há cerca de oito anos, Jonathan era gerente de um banco em um período de bastante movimentação na empresa. “Ele era um cara legal, mas acho que não estava tão preparado”, afirma. O despreparo ficou comprovado quando Jonathan notou que o novo líder fazia questão de falar alto com a equipe na frente dos outros. “Era uma forma de afirmar o poder”, diz. Admitir os próprios erros também estava fora de cogitação – mesmo quando o equívoco era causado por uma orientação dele.

Jonathan estava tão insatisfeito que pensou em se demitir, mas, percebendo que o chefe tomava certas atitudes por se sentir pressionado a mostrar resultados, ele resolveu dar uma última chance ao líder. Durante dois meses, Jonathan anotou exemplos de condutas inapropriadas realizadas pelo gestor. “Era uma tentativa de fazer uma crítica construtiva e mostrar como o comportamento afetava os times”, afirma.

Depois desse período, chamou o líder para uma conversa. “Iniciei dizendo quanto eu gostava dele e que, por isso, havia decidido conversar em vez de pedir demissão”, diz. Jonathan admitiu que poderia ter errado também, mas que estava disposto a tentar ajudar. “A reação dele foi surpreendente: afirmou que ia digerir todas as informações e que havia passado a me admirar mais”, afirma. A partir daí o chefe ajustou seus comportamentos, e a relação entre eles melhorou.

DÁ PARA LIDAR

Uma das primeiras atitudes para quem precisa encarar chefes vaidosos é deixar a própria vaidade de lado. Isso porque é necessário ficar claro o respeito pela autoridade do chefe, o que abre oportunidades para gerar confiança. Para isso, peça a opinião dele e evite expor suas críticas em público – as conversas delicadas devem ser feitas em particular. “Tente você mesmo gerenciar os conflitos e buscar conciliação”, diz o consultor Emerson. Fuja de entrar em conflito o tempo todo e entenda que terá de ceder algumas vezes.

Para se blindar das mudanças de ideia do chefe ou dos esquivos ao assumir orientações equivocadas, uma dica é confirmar ordens e tarefas por e-mail. Tatiana, do Insper, também sugere encontrar maneiras de se mostrar para o resto da empresa. “Dê publicidade para o que você está conquistando”, diz. E, se é tentador falar mal do chefe, evite fazer isso com colegas de trabalho. Exponha suas críticas focando comportamentos gerais, por exemplo. Não levar as atitudes para o lado pessoal também ajuda. “Os ataques quase sempre têm mais a ver com ele do que com você”, diz Adriana, da Dasein Executive Search. No lugar, foque seu objetivo de longo prazo e encare o período de subordinação a um chefe autocentrado como algo passageiro. “Aproveite para investir em sua carreira, faça cursos, atualize suas redes, participe de fóruns”, diz Adriana. Desse jeito, você não dependerá só do chefe para se destacar como um bom profissional.

Por último, evite também rotular o líder apenas como uma pessoa vaidosa. “Pergunte-se quais são as qualidades dele e o que elas podem ensinar a você”, diz Adriana. Entender o contexto em que ele está inserido também é útil, porque criar uma relação mais próxima ajuda a estimular diálogos honestos com o gestor, como fizeram Fábio e Jonathan.

Nem sempre isso será possível, é verdade. Jonathan, por exemplo, teve uma experiência com outro chefe vaidoso que não terminou tão bem. “Nesse caso era explícito que, se eu tentasse conversar, seria demitido”, diz. Mesmo com as tentativas em demonstrar confiança, o ambiente era hostil demais, e Jonathan acabou saindo da empresa. Reconhecer esses limites – os seus e os dos outros – é fundamental para definir até quando é possível suportar os desmandos do pavão.

O HUMILDE X O VAIDOSO

As características que diferencia, os dois estilos de liderança

VAIDOSO

** Coloca a responsabilidade dos erros nos outros. Não lida bem com as falhas e pode reagir com raiva ou omitir resultados negativos.

** Não gosta de ser contrariado e tende a ouvir menos. Prefere se cercar apenas daqueles que confirmam suas crenças.

**Muitas vezes toma o crédito do trabalho alheio e não compartilha as conquistas

** Empodera pouco as equipes e precisa ter controle sobre tudo que é feito, emperra a colaboração e a inovação

HUMILDE

** reflete sobre a própria vulnerabilidade, entende suas limitações e é mais apto a buscar se desenvolver

** Tende a acolher conselhos e pontos de vista dos outros e dá mais voz aos liderados

** Não precisa ser o centro o tempo todo e, por isso, reconhece mais a contribuição da equipe

** Consegue gerar mais cooperação e é mais flexível para se adaptar a diferentes contextos e demandas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTÃO TODOS DESPEDIDOS

O psicanalista e psiquiatra Dr. Jorge Forbes reflete sobre o avanço da inteligência artificial e a extinção de antigas funções

Você vai perder seu emprego. Essa frase ameaça muitas pessoas atualmente. Não estou falando da terrível, mas que vai passar, pandemia. Falo da “destruição criativa”, nomeada por Schumpeter, movimento que realça como o novo destrói o anterior. Vários trabalhos estão desaparecendo. Radiologista, contador, caixa de supermercado, estivador, ascensorista, cobrador …

A inteligência artificial, principal fator do tsunami tecnológico que nos acomete, está substituindo, com ganho de precisão e rapidez, todas as tarefas humanas capazes de serem transformadas em cifras e algoritmos. Assim é que a evolução por milhões de anos da nossa capacidade cerebral de memória foi rapidamente ultrapassada por um simples tablet. Será que está tudo perdido? Longe disso!

Falemos um pouco da inteligência artificial, que se divide entre forte e fraca. Essa diferença não diz respeito à quantidade de dados que pode processar. A inteligência artificial que porá um homem em Marte processa um número imenso de dados, no entanto é catalogada como fraca. A inteligência artificial forte ainda não existe; será aquela que tiver capacidade de pensar a si mesma, característica exclusiva humana. Não acredito que o progresso científico criará uma inteligência artificial forte. Para isso, teria de ser possível cifrar a essência humana. Essa, no entanto, é vazia. No homem, a experiência da vida precede a essência, enquanto nos animais dá-se o contrário, a essência da vida precede a existência.

Zebras, tartarugas e abelhas sabem como existir desde o seu nascimento. É uma vantagem e é também uma desvantagem. Sabem o que fazer, mas não sabem mudar aquilo que fazem. O formato de uma colmeia será sempre idêntico. Não surgiu nem surgirá uma abelha Niemeyer que faça uma curva no hexágono perfeito de sua casa. Já nós, humanos, estamos sempre buscando a diferença no que fazemos: a criatividade está em nosso cerne. Não me parecer possível transformar essa essência em algoritmo, é intangível.

Retomo as consequências sobre o trabalho. Várias tarefas deixarão de existir, mas tantas outras, possivelmente em mesmo ou maior número, serão criadas, contradizendo a primeira impressão. O grande problema é a educação. Temos de correr na criação de processos educacionais que evitem uma epidemia de analfabetismo digital. Estamos atrasados. Abandonamos um planeta e uma forma de viver, que chamaria de Terra Um, e ainda estamos engatinhando nas novas dores e felicidades de Terra Dois. Temos pressa.

Dado os riscos, esse novo mundo não tem garantia. Pode ser amedrontador para muitos. Mas pode ser fonte de felicidade para outros, que têm o entusiasmo de assumir a direção da sua vida. Aquele mundo completo, hierárquico, linear não existe mais. Vivemos hoje o inapreensível. Estamos fadados a lidar com uma interrogação sobre nossas escolhas. Temos de nos responsabilizar por elas, assumindo a ética do artista. Van Gogh inventou um girassol que não existia e colocou-o no mundo. Da mesma forma, respeitando diferenças de talentos, podemos olhar, inventar soluções, e colocá-las no mundo. O movimento de cada um haverá de ser de invenção e responsabilidade – e esse é um momento de felicidade. Fugidio, é verdade, mas que nos incita a continuar.

DR. JORGE FORBES, psicanalista e médico psiquiatra, é professor do curso Como Viver em TERRA-DOIS? da Saint Paul Escola de Negócios.

EU ACHO …

O NOVO NORMAL

É urgente que empresas e investidores ampliem suas responsabilidades com a sociedade. É a mentalidade pós-covid-19

A crise provocada pela pandemia da covid-19 escancarou a desigualdade e evidenciou um sistema econômico que privilegia poucos. O princípio de valorizar o retorno financeiro para o acionista acima de outros stakeholders – a força motriz do capitalismo global – não considera o bem comum na equação. A concentração de renda crescente custa caro para o todo. O que se viu é que boa parte das empresas, e também da população, não estava preparada para enfrentar este momento. Na periferia, as condições são perversas. Num mundo socialmente mais justo e economicamente mais igualitário, essas condições poderiam ser evitadas. O cenário de crise aponta a importância de conduzir os negócios de outra forma.

Nos últimos dois meses, assistimos a uma farte sensibilização por parte das empresas brasileiras para apoiar os mais vulneráveis – talvez a maior mobilização de recursos privados jamais vista no Brasil, um país que, historicamente, não tem cultura de doação. Vimos a construção de hospitais de campanha em tempo recorde, doações maciças de cestas básicas, suprimentos hospitalares e inúmeras organizações do terceiro setor recebendo os mais diversos recursos.

Embora essencial e muito bem-vindo, todo esse esforço pode ser insuficiente perante o que está por vir. Um estudo feito pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro concluiu que a economia do país poderá encolher até 11º/o em um cenário pessimista se ações mitigatórias não forem realizadas a tempo. Ainda, os principais impactos serão sentidos no desemprego e no agravamento da desigualdade social, com maior prejuízo no comércio, na construção civil e nas indústrias extrativistas e de transformação. Somados, esses setores poderão alcançar uma perda de até 14,7 milhões de vagas no mercado de trabalho, sendo ainda mais intensa em setores com mais informalidade e salários mais baixos.

Apesar de essas iniciativas imediatas estarem certamente amenizando o sofrimento de milhares de pessoas em todo o país no curto prazo, é preciso jogar luz sobre as questões estruturais do nosso modelo de desenvolvimento. Se não pensarmos e agirmos de maneira diferente, enfrentaremos as próximas crises com os mesmos desafios e tenho a convicção de que se repetirão com frequência, considerando a crescente escassez de recursos naturais, aumento dos efeitos das emissões de carbono, ampliação das desigualdades e má distribuição de riqueza e renda. Olhando de maneira realista para os dados que a ciência apresenta, a crise da covid-19 pode ser mero ensaio do choque estrutural e civilizatório que enfrentaremos.

Diante de tantas evidências expostas por uma crise global sem precedentes, fica claro que é preciso repensar o modelo atual de capitalismo e endereçar as principais questões de nosso sistema econômico. Não adianta a economia voltar a crescer com um número grande de empregos informais, por exemplo. Se boa parte das empresas pagasse seus funcionários de maneira adequada e cumprisse as leis trabalhistas, de forma que eles conseguissem ter reservas, hoje estaríamos em uma situação completamente distinta.

Já passou da hora de as empresas adotarem um modelo de governança que privilegie todos os seus stakeholders, não apenas o acionista e o curto prazo. Empresas que mantêm boas relações com seus funcionários e consumidores, que têm cadeias de suprimento sólidas e alto padrão de governança geram maior valor no longo prazo. Como exemplo, as Empresas B- que adotam os mais altos padrões de práticas ambientais, sociais e de governança -tendem a ser muito mais resilientes durante as crises, algo que foi provado na crise de 2008 e já tem sido testemunhado no momento atual.

No entanto, a mudança do sistema só será possível se for além da atuação individual das empresas. É crucial o papel do governo para garantir um bom ambiente para que o setor privado opere no longo prazo, com políticas públicas que incentivem as boas práticas. E, mais do que nunca, o mercado financeiro deve assumir um compromisso firme e participativo para a construção de uma nova economia, principalmente considerando que o setor é o maior interessado em manter a estabilidade do sistema. Portanto, implementar uma estrutura para alocação do capital que inclua aspectos de governança focados em sustentabilidade será essencial para acelerar essa transição.

Há um evidente progresso no reconhecimento da importância dos fatores ambientais, sociais e de governança (ESG). Ainda assim, muitos investidores precisam integrar esses princípios a seus processos de investimentos ou se envolver com as causas das empresas em que investem. Agora é hora de encorajar as empresas investidas a priorizar seus trabalhadores e comunidades assim como priorizam a relação com o acionista. É urgente que empresas e mercado financeiro ampliem suas responsabilidades para com a sociedade. Não se trata apenas de pagar impostos e gerar valor para o acionista. Essa mentalidade é pré-covid-19. Se as empresas não passarem a considerar a sério e de maneira equânime todos os stakeholders em suas decisões, certamente teremos aprendido muito pouco com este momento. A crise de 2008 deixou poucos aprendizados. Em um piscar de olhos o desequilíbrio econômico e o aumento da desigualdade voltaram a dar as cartas. Agora, mais uma oportunidade desperdiçada de evoluir nos fará ainda mais falta ali na frente.

FRANCINE LEMOS – é Diretora executiva do Sistema B Brasil

OUTROS OLHARES

A VOLTA DOS ANOS 90

A influência nostálgica de três décadas atrás – um período de vastas transformações mundiais e imensa variedade estética – ganhou força durante a quarentena

A década de 90 talvez seja uma das mais injustiçadas da história. Embora tenha sido palco de eventos extraordinários, ela não é lembrada com a mesma paixão concedida a outros períodos. Os anos 1960 têm uma aura de magia inquestionável, atrelada à luta pelos direitos civis e ao movimento hippie. Nos anos 1980, foi a cultura pop, na voz de Michael Jackson e na de Madonna, que construiu a sua merecida fama. Os anos 2000, com o surgimento das redes sociais, levam o devido crédito pela maneira como mudaram a sociedade. Os anos 1990, contudo, foram injustamente diminuídos por não ter uma única marca registrada, mas isso não reduz o seu valor. De certa forma, houve, naquele tempo, uma grande e apimentada salada em diversos campos. Em 1991, deu-se a última sessão do Soviete Supremo, marco do fim da União Soviética. Três anos depois, em 1994, o presidente Itamar Franco daria a largada para o Plano Real. Na cultura, a onda grunge conquistaria uma legião de fãs e, na ciência, a clonagem da ovelha Dolly abriria inimagináveis frentes na genética. Agora, com a onda nostálgica que ganhou força na pandemia, os 90 estão de volta – um justo resgate para um período marcado por gran­des transformações.

A moda é o carro-chefe do revival. Kim Kardashian e Grazi Massafera, por exemplo, têm mais em comum do que os milhões de fãs nas redes sociais. Ambas incorporaram a moda de três décadas atrás. A celebridade americana abraçou as marcantes criações de Jean-Paul Gaultier e trouxe para seu guarda-roupa várias peças com tela estampada, ou printed mesh. Por sua vez, Grazi foi vista em diversas ocasiões com uma pochete da Givenchy pendurada no ombro. Peça de gosto controverso bastante difundida no século passado, ela renasceu depois que Karl Lagerfield, o ex-todo-poderoso da Chanel, levou a bolsinha para a passarela. Com a adesão de celebridades e influenciadoras, agora pode ser encontrada tanto nas lojas de artigos de luxo quanto nas redes varejistas de moda.

O mesmo movimento nostálgico inspirou outros itens do guarda-roupa. É o caso da calça baggy, das presilhas e fru-frus e das bandanas – peça que era obrigatória no visual do casal Britney Spears e Justin Timberlake -, além dos lenços, resgatados por grifes como Dior e Missoni. Os pés não foram excluídos do movimento revival. A marca Steve Madden relançou os tamancos com salto plataforma e tiras largas que viraram febre nos anos 90. Para a especialista em semiótica da Universidade de São Paulo Clotilde Perez, o resgate do passado tem a ver com as incertezas sobre o futuro. “Se o presente está insuportável, buscamos conforto nas referências já conhecidas”, diz.

Revisitar o passado tem sido relevante (e lucrativo) para as redes de varejo. As marcas dão destaque às linhas de licenciamento, que já respondem por uma parcela significativa das vendas. Na Renner, as licenças de séries, ícones e cartoons que fizeram sucesso nas TVs da década de 90 incluem Mortal Kombat, Beavis and Butt­Head, MTV, Friends, Guns N’Roses e Nirvana, entre outros. Já a rede de lojas C&A, além das produções internacionais, adicionou recentemente numa coleção, feita em parceria com a Ambev, peças inspiradas na campanha Pipoca com Guaraná, da Antarctica, uma das referências da publicidade nos anos 90. A indústria da moda, de fato, mergulhou na onda nostálgica.

“Começamos estudando quais eram os hábitos e para quais fins aquela moda era usada”, explica Fernanda Feijó, diretora de estilo da Lojas Renner. “Em seguida, transportamos essa indumentária para os tempos atuais e percebemos ali quais são as características que cabem para os dias de hoje.” O apelo saudosista tem aderência porque a moda é, historicamente, uma forma de conexão com outras épocas – arrasta-se para o presente todo um pacote de ideias, sensações e produtos, como ocorre com os 90, ou apenas meros detalhes, como as miçangas do tempo de flower plower sessentista e setentista que retornaram de outro jeito. “Busca-se alguma conexão com parte do passado, por causa da pandemia”, afirma Mariana Moraes, gerente sênior de marketing da C&A.

Os anos 90 também foram marcados por grandes mudanças na tecnologia. Se hoje em dia o que se vê na indústria é uma disputa voltada para novas funções para os displays dos smartphones e atribuições alinhadas ao que o 5G pode oferecer, naquele tempo as demandas dos consumidores eram outras. Os dispositivos móveis funcionavam apenas para chamadas telefônicas. Em 1996 chegava ao mercado o Nokia 9000 Communicator, o primeiro celular com acesso à internet – mas só para quem vivia na Finlândia, país de origem da marca. A Motorola teve como uma das alavancas de vendas o Startac, lançado em 1996 e que tinha como atrativo o design clamshell (ou concha). O modelo evoluiu para o V3, base para o novo Razr, smartphone com tela dobrável que aportou no mercado brasileiro em fevereiro passado.

No Brasil, a década de 90 teve dois fatos marcantes. Em 1992, Fernando Collor de Mello, envolvido em denúncias de corrupção, renunciou à Presidência. Em 1994 entrava em vigor o Plano Real. No mesmo período, o Brasil ouvia sem parar hits como O Canto da Cidade, de Daniela Mercury, e Borbulhas de Amor, de Fagner. A década, contudo, foi bem mais eclética na área musical, com sucessos dos Mamonas Assassinas, bandas de grunge, grupos de Axé, o avanço do sertanejo e o surgimento de vários representantes do pagode – ritmo retomado hoje em dia com a projeção de nomes como Ferrugem e Dilsinho.

Assim como na música, os anos 90 inspiram recriações também no cinema e na TV. Recentemente, Larry Houston, diretor da série animada X-Men, admitiu estar em negociação com a Disney, dona da Marvel, para novas produções com Wolverine e companhia. Também faz parte das apostas da onda revival a nova versão da série Anos Incríveis, sucesso na década de 90. A produção, protagonizada por uma família dos anos 60, ganhará no remake atores negros, uma adequação importante em uma época marcada pelas discussões raciais.

Essa homenagem aos anos 90 e a busca por segurança, por aquilo que conhecemos e nos conforta, vem se desdobrando até em negócios que promoveram uma ruptura em seus setores. A tentativa de resgatar lembranças singelas do passado levou, por exemplo, a inovadora Airbnb a colocar em sua plataforma o anúncio do aluguel, por uma noite, da última loja Blockbuster nos Estados Unidos. Ela fica em Bend, no Oregon, e está decorada com todos os adereços que fizeram a fama da rede, além de sofás- cama para que os interessados se acomodem para ver clássicos do cinema dos anos 90. Ou seja: se vir alguém de pochete e calça baggy por aí comentando filmes e séries do passado, saiba que quem está fora de moda é você.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE AGOSTO

A CEIA DO SENHOR, A MESA DA COMUNHÃO

Tomai, comei; isto é o meu corpo (Mateus 26.26b).

Jesus celebrava a Páscoa na companhia dos discípulos. Estava ainda com eles à mesa, quando tomou um pão e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados (v. 26-28). A Ceia do Senhor substituiu a Páscoa judaica. Aquilo que era sombra deu lugar à realidade. Não há mais necessidade de levar um cordeiro ao altar, pois Cristo é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não há mais necessidade de aspergir o sangue de um cordeiro nas vergas das portas, pois, pela fé, nos apropriamos do sangue de Cristo, que nos purifica de todo o pecado. Cristo é o nosso Cordeiro pascal. Para ele apontaram os patriarcas e profetas. Ele foi a esperança dos nossos pais e o conteúdo da pregação dos apóstolos. Cristo é o Cordeiro imaculado de Deus, o Pão vivo que desceu do céu. Ele é a verdadeira Páscoa, a nossa Páscoa. Precisamos agora nos apropriar dele. Só os que comem do seu corpo e bebem do seu sangue têm parte com ele. A apropriação de Cristo se dá pela fé. Não existe uma mudança de substância nos elementos da Ceia. O pão continua pão e o vinho continua vinho, mas pela fé nos apropriamos de Cristo e dele nos alimentamos. A Ceia é a mesa da comunhão!

GESTÃO E CARREIRA

CONFERÊNCIA DE PANTUFA

Para driblar a pandemia e a crise, empresas de eventos apostam pesado no digital – sem esquecer do networking

O convidado chega ao evento, faz o cadastro e confere as opções da programação e as salas disponíveis. Começa a caminhar pelos corredores, se detém em um dos estandes para dar uma olhada nas novidades do mercado, mas opta pela plenária, no auditório principal. Responde a um quiz divertido e a vários daqueles aborrecidos questionários de avaliação. No fim do painel, consegue alguns minutos para um bate-papo privado com um palestrante. Segue para o aguardado momento do networking, quando, além de trocar contatos, adiciona alguns nomes a suas redes sociais.

Tudo isso acontece sem o convidado da feira ou da conferência ter saído de casa nem trocado o chinelo ou a pantufa por um sapato. É a nova realidade (virtual) do setor de eventos corporativos, obrigado pela pandemia a acelerar seu processo de digitalização. Em meados de março, ainda atônito com a série de cancelamentos diante do isolamento social, o setor teve de correr para fechar parcerias com novos fornecedores digitais.

No começo, o desafio era gigante. Não bastava organizar quadradinhos numa tela com interlocutores entediados esperando sua vez de falar, como acontece em reuniões corporativas que usam plataformas como o Zoom. Essa configuração até faz parte dos congressos virtuais, mas, para tornar um evento corporativo atraente na internet, é preciso ir muito além.

As empresas estão investindo em estúdios, cenários virtuais e até holografia para tentar reproduzir – na medida do possível, claro – a experiência do olho no olho. “Se eu falar para o convidado que ele vai participar de uma live, é uma decepção. Mas, se eu enviar óculos 3D para a casa dele e prometer que vai poder se sentir caminhando pelo evento, tocar e até comprar um produto em exposição, é completamente diferente”, disse Luciano Moura Martins, sócio proprietário da Casa Petra, tradicional local de festas em São Paulo que, desde março, opera um estúdio de transmissão on-line de eventos.

Converter um evento do mundo off-line em virtual é quase um outro tipo de negócio. Esqueça gastos com estacionamento, montagem de estandes e seguranças. Isso tudo sai da conta. Mas novos gastos se tornam imprescindíveis, como os com estúdios de streaming, designers de ambientes virtuais com estandes 3D, servidores de internet etc. Um orçamento pode ir de R$ 15 mil a R$ 1,5 milhão, dizem profissionais do setor. Depende do gosto e do bolso do freguês.

Embora não revele o valor total da conta, a corretora XP Investimentos admite que investiu alto para manter no calendário seu maior evento anual, o XP Expert, com palestras de grandes nomes internacionais. A partir de um estúdio em São Paulo, apresentadores interagiram com a plateia em chats e apresentaram videoconferências de personalidades como a ativista paquistanesa Malaia Yousafzai, o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair e o astro do basquete Earvin “Magic” Johnson para 5 milhões de pessoas na segunda semana de julho.

O público recorde foi consequência da decisão de tornar o evento gratuito – até o ano passado, a empresa cobrava por uma cadeira no auditório – e imitar a estrutura de um programa de entretenimento, com direito a cenários virtuais e vinhetas. Em salas virtuais, os palestrantes podiam interagir com parte do público. Entre as ações dos patrocinadores, houve até mimos reservados a clientes da XP. Alguns receberam refeição em casa para acompanhar os eventos ou vouchers de serviços. O desafio, segundo o responsável pelo evento na XP, Guilherme Kolberg, era “conseguir encantar à distância”, especialmente após a profusão de lives na internet desde março.

Já na convenção anual de uma grande marca de cosméticos, os 600 promotores de veadas participantes receberam em casa uma mala lacrada com amostras de produtos de beleza e um kit com petiscos e bebidas para participarem do happy hour virtual no encerramento, embalado pela live simultânea de um DJ. Para manter o clima do evento e não perder o fator surpresa, os convidados só podiam abrir a mala com a senha gerada no dia do evento, contou Marina Valente Ferreira, sócia da agência de eventos Gaia, contratada para a organização.

Os eventos internos, com transmissão exclusiva para um grupo de funcionários de uma empresa, também começaram a inovar e viraram mais um mercado para artistas, que têm priorizado transmissões na internet neste período de teatros e casas de shows fechados. Com chapéu de palha e cenário virtual enfeitado com bandeirinhas, 500 corretores de planos de saúde da Amil participaram de uma festa junina virtual animada pelo show do cantor Daniel.

Os convidados foram estimulados a postar fotos e vídeos em suas redes sociais, marcando o evento, e protagonizaram mais de 1.000 interações em uma sala de chat. Esse tipo de estatística faz parte dos critérios usados para medir o sucesso de um evento, o que explica o esforço dos organizadores para manter a audiência estável. Ferramentas de interação como games, quizzes, pesquisas, concursos e sorteios fazem parte do menu para prender a atenção. Federações de indústrias, como a do Rio Grande do Sul, também estão indo pelo mesmo caminho puramente digital.

“No evento físico, a partir do momento em que o participante retira o crachá na recepção, conseguimos ter mais controle. Tem o momento da plenária, a hora do coffee break. Com o participante em casa, disputamos com o cachorro, com o filho, com a campainha”, disse Fabiana Trevisan, diretora de operações da MD Live Play, empresa de eventos. “O conteúdo e o dinamismo têm de ser muito mais bem pensados. Qualquer escorregadinha, o participante vai embora.”

A Franchising Live Run, uma versão digital de uma corrida de rua que ia para seu segundo ano quando chegou a pandemia, atraiu 150 corredores. Às 8 horas da manhã do dia previsto, todos os corredores “largaram” ao mesmo tempo. Alguns trotando ao redor da sala, outros em esteiras ergométricas e mais os que preferiram correr na rua. De um estúdio em São Paulo, um apresentador conversava ao vivo com os participantes, todos com o celular, que, depois de enviarem seus tempos de corrida, receberam medalhas e certificados em casa. A ideia foi inspirada num evento similar nos Estados Unidos e viabilizada com patrocinadores. A adesão foi alta e resultou em R$ 25 mil doados para ONGs.

À medida que várias formas são testadas, algumas vão se firmando como tendência. Uma delas é a inspiração em programas de TV. Gabriel Temponi, diretor de marketing da Sympla, uma das maiores plataformas de gestão e venda de ingressos e suporte a eventos, disse que são comuns as transmissões centralizadas em um estúdio e conectadas virtualmente com praças menores, como já acontece nos telejornais quando o âncora chama um repórter de outra cidade. “É como fazer um programa, só que toda a programação é alinhada com os patrocinadores”, disse Temponi.

Com a popularização desse formato, produtores com experiência em TV viram a procura aumentar. “As agências estão sentindo necessidade de contratar pessoas como diretor de palco e diretor artístico para a condução dos eventos, com experiência em corte de câmeras e ângulos”, contou Rosângela Gonçalves, executiva da Hoffmann, uma empresa de eventos com presença no Rio de Janeiro e em São Paulo. Responsável pela cenografia nos últimos shows do cantor Luan Santana, a Chroma Garden teve de contratar novos profissionais para atender à demanda. Segundo o diretor executivo da empresa, Shawendy Cescbi, a complexidade de um evento digital demanda ao menos 60 dias para a entrega de um projeto.

Algumas empresas têm optado por um modelo híbrido. O festival cervejeiro Mondial de La Biere, que acontece no Rio, foi adiado de setembro para novembro. As palestras serão virtuais, mas a organização garante que a degustação será feita, mesmo que em casa. A Associação Brasileira de Agências de Viagens planeja um evento que una o virtual e o presencial em setembro, o Abav Collab.

Mesmo com todo esse processo de adaptação, Doreni Caramori Júnior, presidente da associação das empresas do setor, conhecida pela sigla Abrape, questiona o motivo de pavilhões e casas de evento terem sido deixados para trás nos processos de flexibilização da quarentena desenvolvidos por prefeituras. “Ninguém consegue me convencer o motivo de feiras não terem os mesmos protocolos de um shopping. E para as palestras, os mesmos para cultos de igrejas ou um restaurante”, reclamou.

O tombo do setor foi gigante. Entre 2013 e o ano passado, o crescimento médio anual foi de 6,5%. Somente em 2019, as mais de 60 mil empresas da cadeia faturaram RS 209,2 bilhões. Com a pandemia, metade dos eventos programados para 2020 foi cancelada, adiada ou está em situação incerta. Com isso, o segmento, que empregava em torno de 1,8 milhão de profissionais diretos e terceirizados, perdeu 240 mil vagas só até abril. A previsão é que esse número cresça até o final do ano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O COMPORTAMENTO SOCIAL DO NARCISISTA

O transtorno de pers0nalidade narcisista causa dificuldades em diferentes áreas da vida, sobretudo em relacionamentos de trabalho e amor

A admiração é ponto- chave para que possamos começar o entendimento do transtorno de personalidade narcisista. Na vida adulta, essas dificuldades acabam atingindo a área escolar e até financeira do sujeito, porque ele não consegue se adaptar a nenhum ambiente de trabalho, já que se considera melhor que todos os outros e receber ordens e trabalhar em grupo é impossível para ele.

Geralmente os narcisistas são pessoas infelizes e desapontadas quando não recebem ou não percebem a supervalorização vinda do outro, de fora. Exatamente assim – o narcisista precisa que tudo seja supervalorizado nele, mas essa valorização exagerada precisa vir de fora, já que ele não tem autoestima nem amor próprio capazes de elaborar algum autoconhecimento. Aqui, o ponto central passa a ser: o que tanto falta na personalidade narcisista? Ao narcisista faz falta sentir falta da perfeição do outro a ele.

Os sinais de que estamos diante de um transtorno começam quando, em tempos de relacionamentos iniciais, o sujeito começa a reclamar de todo e qualquer parceiro ou parceira. Para ele, todos têm defeitos e esses defeitos são superpercebidos e valorizados pelo narciso a ponto de ele negar qualquer possibilidade de aceitação daquilo que vê. Em contrapartida, o narciso precisa de um outro que o valorize por demais, que reconheça nele uma perfeição e, como tal, sendo ele o perfeito, nada precisa fazer para mover o relacionamento. Assim, segue o narciso esperando ser super bem tratado enquanto o outro o serve ininterruptamente. O problema é que a personalidade narcisista não se satisfaz. Há um buraco nessa personalidade que nunca se preenche. Pelo contrário, quanto mais recebe mais se alarga a cratera na alma. E tudo isso começa a ser percebido com sintomas que podem ser a falta de empatia por tudo e todos. O narciso não percebe o outro e não se compadece com o outro. Ele ainda tem um senso exagerado de sua importância e capacidade. Sua sensação de direitos é excessiva e com isso ele exige constantemente, mas exige aquilo que o outro dificilmente conseguirá atender.

A manipulação do outro é presente na vida do narcisista e é recheada de menosprezo por aquilo que o outro faz. Humilham e acabam com parceiros, amigos, familiares porque sua capacidade de reconhecer e de se compadecer com o outro é nula, e ao final da elaboração desse quadro podemos se perceber arrogância, inveja, críticas destrutivas e vaidade absoluta para tudo. Assim está desenhado o quadro de transtorno de personalidade narcisista.

Após chegar a essa condição, o narciso se torna uma pessoa muito impaciente com qualquer dimensão da vida. Além disso, os problemas interpessoais se agravam e o estresse, juntamente com dificuldades emocionais e de comportamento, já aparece. Quer dizer, aqui já podemos perceber o tamanho do comprometimento mental a que um transtorno da natureza leva o sujeito.

Muitas vezes, um quadro depressivo ou ansioso não é compreendido como sendo fruto de uma personalidade narcísica. Por isso é sempre importante um processo terapêutico amplo para que se possa localizar com segurança, a origem do problema. Depressão e ansiedade são quadros que podem ser causados por infinitas causas e condições, porém, quando eles surgem de uma personalidade como essa, faz-se mais que urgente tratar primeiro a causa e não os sintomas.

Problemas de saúde física, uso de drogas e álcool, assim como pensamentos suicidas e automutilação também podem aparecer durante o quadro acentuado de transtorno de personalidade narcísica, mas é importante uma boa avaliação para que se descarte qualquer possibilidade de erro diagnóstico.

Hoje a neurociência, juntamente com a Psicanálise e a Psicologia, em suas diferentes orientações, tem quase como unanimidade que o tratamento para esse transtorno tem mais sucesso quando feito por uma equipe multidisciplinar, pois o que causa essa condição é uma multiplicidade de fatores que vão desde condições genéticas até mesmo neurobiológicas e de meio ambiente. O desencontro na educação dos filhos pode contribuir para o desenvolvimento do quadro.

Aqui faz muito sentido esclarecer que filhos elogiados demais ou excessivamente criticados podem ser candidatos ao transtorno. Além disso, crianças que sofreram na infância algum tipo de abuso e maus-tratos de igual forma se tornam mais preponderantes ao quadro. Crianças admiradas e elogiadas, sem feedback verdadeiros, também costumam ter problemas com o narcisismo. Mas o que mais nos assusta é o fato de que as crianças que recebem cuidados inconsistentes dos pais, cuidados que podem ser aqueles não confiáveis, imprevisíveis e não salutares, têm total chance de chegar à vida adulta apresentando características de transtorno de personalidade narcisista.

Esses cuidados se referem aos valores que muitas famílias já possuem e que não são vistos como maléficos a um desenvolvimento típico. Pais e mães devem atentar para não patrocinar comportamentos estereotipados, do tipo cabelo bonito é assim, cabelo feio é assim. Tudo que for ensinado de forma maniqueísta pode causar na criança a impressão de que o mundo dela, alimentado pelos pais, é o  único correto e, dessa forma, a criança segue crescendo como se a diferença fosse inferior e menos valorizada por ela. Com isso, o que ela traz é supervalorizado, entretanto o que o outro traz nada significa. Essa prática pode ser o início de um comportamento que vai fazer muito mal a uma pessoa na vida adulta, caso não seja tratada.

PROF. DR. GERALDO PEÇANHA DE ALMEIDA – é psicanalista, educador e escritor. Autor de mais de 70 livros, dentre eles, Em Busca da Paz Interior, No Coração da Mente Livre, Meditações para Começar o Dia e Felicidade Sempre Viva. Fundador e diretor do Projeto Coração de Pólen – Centro de Tratamento, Estudo e Pesquisa na Área de Saúde Mental, em Curitiba.

EU ACHO …

ECONOMIA DO CUIDADO

A descoberta do sars-CoV – 2 em janeiro de 2020 criou uma bifurcação no tempo-espaço. Se universos paralelos existem há um em que este vírus não apareceu, e o nosso, em que ele se tomou responsável pela pior pandemia das últimas décadas, quiçá pior do que a chamada gripe espanhola, do início do século passado. Neste Universo em que há vírus, pandemia e um grau brutal de incerteza, uma coisa é certa: a conexão entre medicina e economia é e continuará a ser não apenas muito forte, mas extremamente relevante.

Não foram poucas as vezes em que escrevi neste espaço que não era possível traçar qualquer cenário econômico sem algum entendimento sobre o vírus e a doença que ele provoca. Também escrevi que não havia possibilidade de desenhar políticas públicas adequadas sem esse mesmo entendimento. Hoje, qualquer pessoa que queira opinar, formular, ou gerir as políticas econômicas precisa ou voltar aos estudos – o que para muitos é difícil – ou estar muito próximo de alguém que tenha o conhecimento da área biomédica que lhe falta. No meu caso, e tenho a sorte de conhecer pessoas muito qualificadas nos ramos da medicina, da epidemiologia, da virologia. As horas e os dias que tenho passado estudando têm sido de extrema valia para entender o contexto, a dimensão de nossos erros e imaginar o que podemos vir a enfrentar pela frente. Os desafios serão imensos.

Parte desse desafio será o de colocar o olhar econômico a serviço da medicina e da saúde pública, além, evidentemente, da proteção social. A economia do cuidado que emerge da crise humanitária instaurada pela pandemia requer novos instrumentos de política pública, como a renda básica universal, tema recorrente de artigos meus para este espaço. Contudo, ela precisa também dialogar intensamente com o conhecimento biomédico, e há várias razões para isso.

Começo com a própria natureza do vírus e da doença. Ainda prevalece a ideia de que o sars-CoV-2 é responsável por uma infecção respiratória, de graus variados de severidade. Embora ele já não seja mais comparado ao vírus da gripe, o entendimento de que se trata de uma doença do trato respiratório tem influenciado gestores de política econômica, previsões sobre a retomada do crescimento e medidas para alcançá-la. Por exemplo, ao entender a doença como tal, cria-se uma expectativa excessivamente otimista de que vacinas e tratamentos estão próximos: afinal, sabemos tratar males desse tipo causados por outros agentes infecciosos. Porém, a Covid-19 não é somente uma doença pulmonar. A cada dia que passa somam-se as evidências de que o sars-CoV-2 entra na corrente sanguínea, tornando a Covid-19, antes de tudo, uma doença vascular. Se o vírus corre na circulação, a doença que ele causa é, portanto, sistêmica. Isso a torna mais imprevisível, tanto na apresentação clínica de sintomas quanto em relação à capacidade de desenvolver vacinas e tratamentos eficazes. É partindo dessa incerteza que os cenários de política econômica deveriam ser formulados. É contando com o risco de sequelas reversíveis e não reversíveis associadas a um mal sistêmico que deveria ser avaliado o montante de recursos a serem destinados ao SUS, por exemplo. É também dessa perspectiva que se justifica a discussão sobre a renda básica: não como algo pretensamente utópico, mas como uma medida que pode sustentar dezenas de milhões de pessoas em meio à incerteza e/ou quando algumas delas porventura perderem sua força de trabalho em razão de problemas relacionados à Covid-19.

Nesse cruzamento explícito entre a medicina e a economia há muito que construir e pensar. Qual será o melhor desenho para nosso sistema de saúde? Que programas sociais deveremos priorizar? Quais devem ser as prioridades para o investimento público? Ainda tem sentido insistir na quadra reforma-dívida-déficit-inflação como eixo central das políticas macroeconômicas? Ou é chegada a hora de reorientar esse eixo para a saúde e a proteção social, passando pelo meio ambiente, para que o crescimento futuro seja sustentável, inclusivo e justo? Essas perguntas não podem ser respondidas por meio de equações ou análises econométricas. Essas são questões que envolvem maio r conhecimento científico, empenho em buscar novas soluções para novos problemas e a centralidade do cuidado com as pessoas. Ainda espero ver esse tipo de debate no Brasil, a serviço da população, não de interesses individuais.

***MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

MINHA LUTA POR UM REMÉDIO DE 12 MILHÕES

A odisseia de uma mãe para conseguir comprar para a filha, que sofre de uma doença rara, o medicamento mais caro do mundo

A bebê Marina Moraes de Souza Roda, de 1 ano e 11 meses, diagnosticada com AME (atrofia muscular espinhal) – uma doença genética rara, neurodegenerativa e que pode levar à morte antes dos 2 anos de idade – será a primeira criança a receber no Brasil o medicamento mais caro do mundo: US$ 2,125 milhões (cerca de R$ 12 milhões). Marina arrecadou o dinheiro em dez meses por meio de uma campanha nas redes sociais. Além dela, pelo menos outras 24 crianças brasileiras estão em busca de ajuda na internet para angariar fundos para comprar a medicação.

O remédio inacessível é o Zolgensma, do laboratório Novartis. Trata-se da primeira terapia genica do mundo indicada para o tratamento da AME. Os pacientes com a doença nascem sem o gene SMN1, responsável pela produção de uma proteína que alimenta os neurônios motores, que enviam os impulsos elétricos do cérebro para os músculos. Sem essa proteína, ocorre a perda progressiva da função muscular e as consequentes atrofia e paralisação dos músculos, afetando a respiração, a deglutição, a fala e a capacidade de andar. O ineditismo do medicamento, que é aplicado em uma única infusão venosa, é que ele fornece ao paciente uma cópia sintética do gene SMN1, fazendo com que o corpo da criança passe a produzir essa proteína. Ele é indicado para pacientes com até 2 anos de idade – quanto menores as perdas, melhores os resultados.

O Zolgensma foi aprovado nos Estados Unidos em maio do ano passado e aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado no país. O remédio não promete curar a doença, mas estabilizar a progressão dos sintomas. É visto por muitos pais como de grande potencial de cura, por oferecer ao paciente uma cópia do gene ausente. O desafio do fabricante é convencer a classe médica de que os benefícios decorrentes de uma única dose são permanentes.

Uma outra bebê brasileira, Laura Ferreira Albuquerque de Carvalho, hoje com 1 ano e 7 meses, participou dos estudos clínicos da droga. Ela foi a primeira criança do país a receber o remédio, nos Estados Unidos, em março do ano passado, ainda na fase de testes. Um ano e cinco meses depois, Laura não desenvolveu nenhum sintoma da doença e cresce como uma criança normal, sem AME. “Ela conquistou todos os marcos motores de desenvolvimento, como qualquer criança de sua idade. Laura anda, come sozinha, tem força, coisas que uma criança com AME não conseguiria fazer. Oficialmente não posso afirmar, mas tenho certeza de que minha filha está curada”, disse Estefânia Miguel Ferreira, de 40 anos.

Hoje em dia, o único medicamento aprovado para tratamento da AME no Brasil é o Spinraza, da Biogen, também de alto custo e incorporado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado. Ele é ministrado por meio da aplicação de seis doses no primeiro ano e três doses por ano pelo resto da vida do paciente ao custo aproximado de R$ 145 mil cada dose. O Spinraza atua no gene SMN2, fazendo com que ele aumente a produção da proteína responsável por alimentar os neurônios motores. Também não promete a cura da doença. Há uma terceira medicação, o Risdiplam, da Roche, que é oral e de uso contínuo para o tratamento, mas ainda aguarda aprovação das agências reguladoras nos Estados Unidos e no Brasil.

O mês de agosto é internacionalmente reconhecido pelo combate e pela conscientização da AME, concentrando ações em torno da divulgação, informação e capacitação de profissionais. Por isso, a comunidade de familiares de pacientes com a doença luta para que o dia 8 de agosto seja instituído como Dia Nacional da Pessoa com AME. O projeto de lei já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e precisa ainda passar pelo plenário do Senado, antes de ir para sanção presidencial. Os familiares também brigam para que o Ministério da Saúde inclua o exame de diagnóstico da AME no teste do pezinho, a triagem neonatal que existe desde a década de 1970 para diagnosticar precocemente doenças metabólicas, genéticas ou infecciosas.

O exame, fornecido pelo SUS, avalia diagnósticos de fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, anemia falciforme, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase. O exame feito por laboratórios particulares chega a pesquisar 20 doenças. Nos Estados Unidos, alguns estados já incluíram a AME no rastreio neonatal. “A AME é uma doença rara e sem cura. A gente trabalha com a ideia de uma triagem neonatal ampliada para que a criança seja diagnosticada antes de os sintomas aparecerem. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico e iniciado o tratamento, maiores as chances de a doença nunca se manifestar”, explicou Suhellen Oliveira da Silva, mãe de dois meninos com AME e presidente da Associação de Familiares e Amigos dos Portadores de Doenças Neuromusculares.

No relato das páginas a seguir, Talita Roda, mãe de Marina, conta o caminho percorrido até conseguir comprar a medicação mais cara do mundo e fala sobre a esperança de ver a filha curada depois da aplicação, que aconteceu na sexta-feira 7 de agosto.

Minha filha, Marina, nasceu com AME (Atrofia Muscular Espinhal), uma doença genética rara, neurodegenerativa e que pode levar à morte ou dependência total de aparelhos antes dos 2 anos de idade.

Nossa história começou em setembro de 2017, quando eu e o Renato nos casamos. Já morávamos juntos havia dois anos e queríamos muito ser pais. No dia 31 de dezembro do mesmo ano descobri que estava grávida. A alegria foi tanta que eu e ele imediatamente escolhemos os nomes: Marina se fosse menina, Miguel se fosse menino. Minha gravidez foi maravilhosa, absolutamente normal, sem nenhuma intercorrência. No dia 1º de setembro de 2018, Marina nasceu pesando 4 quilos e medindo 51 centímetros. Uma bebê linda e saudável.

Fomos vivendo nossa vida completamente normal como pais de primeira viagem. Marina estava se desenvolvendo bem e dentro dos padrões esperados. Até então, eu nunca tinha ouvido falar da AME. Meu primeiro contato com a doença foi no dia 11 de dezembro, quando vi uma publicação com a foto de um bebê traqueostomizado que havia sido diagnosticado com AME. Os pais estavam com uma campanha para conseguir dinheiro para comprar a medicação necessária para estacionar a doença [Spinraza, que na época ainda não era fornecido pelo SUS e custava R$2 milhões]. Aquilo mexeu muito comigo, fiquei muito abalada, fui pesquisar sobre a doença e fiz então minha primeira doação em campanhas de internet.

A partir dali passei a observar mais a Marina, mas ela estava se desenvolvendo bem. Em fevereiro, fui visitar o bebê de uma amiga, que estava com 2 meses. Quando peguei ele no colo imediatamente senti diferença. Ele já tinha o corpo durinho, já mantinha os ombrinhos alinhados. Marina tinha 5 meses e era toda molinha, não conseguia sentar sem apoio nem rolar com a barriga para baixo. Nitidamente havia uma diferença de tônus muscular entre os dois e fiquei com aquilo na cabeça.

Aos 6 meses dela voltei a trabalhar, e Marina começou a ir a uma escolinha. Ela era a bebê mais quietinha, mas achava que era por ser a mais nova do berçário. Pouco tempo depois, com 7 meses, ela teve um resfriado, com febre e muita secreção. Fiquei desesperada, fomos para o hospital e ela estava com pneumonia. Tivemos alta e fomos tratar em casa. Mas eu percebi que a respiração dela estava mais ofegante. Filmei e mandei para a pediatra, que recomendou que voltássemos ao hospital. A saturação dela estava em 89% e ficamos internadas. Até então, nem passava pela minha cabeça que poderia ser AME.

Durante a internação, comecei a reparar que os movimentos da Marina estavam regredindo. Quando faziam manobras para aspirar secreção, ela não reagia, não tinha força para tossir. De novo, fiquei com aquilo na cabeça. Algo não estava normal. No dia em que o hospital pretendia dar alta, pedi para fazerem um exame físico e clínico nela. A fisioterapeuta começou a fazer uns testes, e Marina não respondia. Não conseguia apoiar os bracinhos no cotovelo, não segurava a cabeça, não rolava e só chorava. Ali eu pensei: Marina tem AME.

Pedi para a médica solicitar um exame de AME, mas ela não queria, alegando que essa doença não era a primeira opção de diagnóstico. Trata-se de um exame de DNA que mostra se a criança tem ou não o gene SMN1, que é o responsável por produzir as proteínas que alimentam os neurônios motores. São esses neurônios que levam os sinais do cérebro até os músculos. A criança com AME nasce sem esse gene e, por causa disso, os neurônios vão morrendo progressivamente. Depois de eu muito insistir, no dia seguinte decidiram fazer o exame, mas o resultado demoraria 30 dias. Foi angustiante esperar, pois cada dia a mais é um dia a menos.

Mesmo sem diagnóstico formal, iniciamos fisioterapia motora e respiratória na Marina. O resultado saiu no dia 5 de maio de 2019. Eu estava no trabalho, meu marido estava na rua e entrou em uma igreja quando liguei avisando que leria o resultado. Quando abri, fiquei desesperada: o laudo indicava que Marina não tinha o gene SMN1 e possuía apenas duas cópias do gene SMN2 – uma espécie de gene backup, que na ausência do SMN1 produz cerca de 10 a 25% da proteína necessária para manter os neurônios motores vivos. Fiquei com raiva, revoltada. Joguei tudo no chão, comecei a chorar. Me levaram para o ambulatório da empresa, tomei alguns calmantes até meu marido chegar para me buscar. Quando cheguei em casa não conseguia pegar a Marina no colo, não conseguia ficar em lugar nenhum. Era como se tivessem me tirado do mundo. Só conseguia pensar que, sem tratamento, o prognóstico era 2 anos de idade e que a AME é a doença genética que mais mata bebês no mundo. Meu foco naquele momento era como conseguir o Spinraza, que era a única medicação aprovada no Brasil para tratamento da doença. Ele é um medicamento que tem de ser aplicado pelo resto da vida da criança e atua no gene SMN2, fazendo com que ele produza mais proteínas para alimentar os neurônios motores. Um mês depois do diagnóstico, Marina recebeu a primeira dose do Spinraza. Nesse meio-tempo, soubemos da aprovação do Zolgensma nos Estados Unidos e ficamos doidos. Essa é uma medicação revolucionária, uma terapia gênica, que devolve para o corpo uma cópia sintética do gene SMN1. Mas ele custa US$ 2,125 milhões, na época cerca de R$ 9 milhões. Como conseguir esse dinheiro em tão pouco tempo?

Ficamos num dilema: abrir ou não abrir uma campanha? Tínhamos medo da exposição de nossa filha e de sermos julgados o tempo todo, mas decidimos ir à luta, pois quedamos o melhor para ela. Criamos o perfil @cureamarina e no dia 4 de agosto abrimos oficialmente nossa campanha no estádio do Corinthians. Era uma partida entre Corinthians e Palmeiras, entramos em campo com a Marina e com os jogadores, com faixas e camisetas da campanha. Ali começamos a ganhar mais seguidores, mas fechamos o ano com cerca de R$ 800 mil, um valor muito aquém do que precisaríamos.

Eu postava fotos da Marina feliz, bem vestida, sorrindo, comendo. Por isso eu era frequentemente atacada, com seguidores dizendo que havia crianças que precisavam mais, que Marina nem tinha a doença, me perguntavam por que eu não vendia o carro e o apartamento. Por várias vezes pensei em desistir da campanha. Mas na madrugada do dia 25 de dezembro eu sonhei que a Marina estava recebendo o Zolgensma. Dali em diante eu tive a certeza de que ia dar certo e que eu precisava continuar lutando.

Mudamos a estratégia das publicações e mostramos a realidade do dia a dia da Marina com a doença. Fizemos várias ações, pedágios, rifas, sorteios. E assim os seguidores foram aumentando e as doações também. De repente a campanha ganhou proporções muito grandes e conquistamos nosso primeiro R$ 1 milhão no dia 9 de janeiro. Vários artistas começaram a compartilhar a campanha, mas a grande virada aconteceu quando o DJ Alok publicou um vídeo da Marina nas redes sociais e disse ”Força, guerreira”. Foi impressionante, conquistamos mais de 20 mil seguidores e R$ 89 mil em um único dia.

Fizemos nosso segundo milhão em fevereiro, quando alcançamos 70 mil seguidores. Em março, conseguimos chegar aos R$ 4 milhões. Aí veio a pandemia do coronavírus, o dólar disparou, e o remédio que custava RS 9 milhões passou a custar R$ 12 milhões. Estávamos correndo contra o tempo, mas eu não podia desanimar. No dia 25 de junho alcançamos R$ 12,3 milhões, a quantidade necessária para a compra do remédio e encerramos oficialmente a campanha. Eu chorei muito, queria agradecer a cada pessoa que nos ajudou.

Mas nem tudo estava resolvido, ainda havia a questão dos impostos de importação – 4% de imposto federal e 18% estadual, que juntos somavam quase R$ 2,5 milhões. O Hospital Albert Einstein assumiu o caso da Marina e iniciou os trâmites para a compra. No dia 8 de julho, conseguimos a isenção do imposto federal. Pagamos a medicação no dia 28 de julho. O remédio saiu dos Estados Unidos no sábado, dia 1º de agosto, e chegou ao Brasil no dia 3 – um ano depois de tornarmos a história da Marina pública. Na noite do dia 5, quarta-feira, foi autorizada a isenção do imposto estadual. Nós internamos a Marina na quinta-feira 6. A infusão estava prevista para sexta-feira e demoraria cerca de 60 minutos.

Embora o Zolgensma não prometa a cura da doença, eu, como mãe, acredito na cura de minha filha. Eu sonho que um dia Marina possa viver sem nenhuma limitação, que ela possa ter o que quiser, que cresça e tenha as mesmas oportunidades de toda criança da idade dela. Sonho em ver Marina dando seus primeiros passos, andando sozinha. Estamos muito felizes e sou eternamente grata por cada doação recebida de amigos e desconhecidos. Faríamos tudo de novo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE AGOSTO

ANTÍDOTO CONTRA O PECADO

De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra (Salmos 19.9).

Dwight Moody escreveu na primeira página da sua Bíblia a seguinte frase: “A Palavra de Deus manterá você longe do pecado, ou o pecado manterá você longe da Palavra de Deus”. O mundo à nossa volta está cheio de poluição sonora, visual e moral. As propostas para capitularmos ao pecado são cada vez mais agressivas e sedutoras. Parece que a nossa geração está perdendo completamente o pudor. Aquilo que outrora nos corava de vergonha agora desfila garbosamente na passarela da vida. Nossa geração aplaude o vício e escarnece da virtude. Nesse ambiente tão hostil à santidade, de que maneira um jovem pode guardar puro o seu caminho? Como pode ser casto numa geração que zomba da pureza? Como pode ser íntegro numa geração que vê os líderes da nação locupletando-se do alheio? Como pode constituir um casamento sólido numa geração que avilta os absolutos morais que regem a família? A resposta é clara e categórica: Observando-o segundo a tua palavra. A Palavra de Deus é o antídoto contra o pecado.  Quando a examinamos, ela nos perscruta. Quando a obedecemos, ela nos limpa. A Palavra de Deus oferece um caminho seguro no meio de tantos descaminhos. Oferece a verdade eterna no meio de tanto relativismo. Oferece paz verdadeira no meio de tanto desespero. A Palavra é o antídoto contra o pecado e, ao mesmo tempo, o néctar mais doce para nossa alma!

GESTÃO E CARREIRA

NO TOPO DA LISTA

A área de saúde e segurança no trabalho ganhou muita relevância durante a pandemia do coronavírus e deve continuar importante nos próximos meses. Entenda por quê

Ao se instalar no Brasil, no início de março, a pandemia do coronavírus impactou a forma como empresas de todos os portes e setores fazem a gestão da saúde e da segurança de seus empregados. Com a crise da covid-19 as áreas de recursos humanos, saúde e segurança no trabalho, tecnologia e cibersegurança  tiveram de se reunir em comitês e tomar rápidas decisões para garantir um objetivo importante: manter os funcionários em segurança, prevenir o contágio e, assim, garantir a continuidade e a sobrevivência do negócio.

“Na pandemia, o papel da área técnica é subsidiar os gestores da empresa com informações como o mapeamento dos grupos de risco e fazer ações preventivas, com o objetivo de fazer seus trabalhadores terem o melhor nível de proteção ao lidar com o risco”, afirma João Silvestre da Silva Junior, especialista em saúde do trabalho e professor de medicina do trabalho no Centro Universitário São Camilo.

Em muitas empresas, a equipe de saúde e segurança integrou comitês de crise, subsidiando os executivos de alto escalão com dados relevantes. “Ficou evidente quanto o planejamento é importante. É preciso lidar com as informações, ter estratégias para situações de emergência e melhorar a comunicação sobre saúde com os funcionários. Palestra uma vez por ano não resolve”, diz o professor.

Na visão dos profissionais de medicina do trabalho, a pandemia terá um lado positivo para as empresas, que entenderão que precisam integrar melhor a saúde dos empregados às suas políticas e práticas. Embora historicamente, em momentos de crise, a área seja uma das que perdem investimentos, há a aposta para que seja diferente a partir de agora. “Acredito que a saúde do trabalhador deve ser parte dos valores da empresa e, nesse sentido, a área tende a se tornar alvo de investimento. E as empresas olharão com mais atenção e estarão mais bem preparadas para o incerto”, diz João.

MEDIDAS PREVENTIVAS

Em um primeiro momento, além de se mobilizar em comitês, os profissionais de saúde do trabalho traçaram um plano de prevenção de contágio para que a companhia não fosse foco de contaminação dos trabalhadores. Entre as medidas iniciais estava a conscientização para etiqueta respiratória (não tossir nem espirrar nas mãos, cobrir sempre nariz e boca com o braço, lavar as mãos com frequência e deixar o sabão por mais tempo, etc.) Além disso, o time de infraestrutura foi demandado com a necessidade de ter álcool em gel disponível, limpar áreas de uso comum com maior frequência, manter os espaços ventilados e evitar compartilhamento de ferramentas.  

O segundo passo, na oficialização do isolamento social, foi colocar em home office os profissionais que tinham essa possibilidade. Para os que precisam atuar presencialmente, medidas de distanciamento físico e proteção com máscaras e luvas foram instituídas, além da reorganização da jornada para diminuir o fluxo de pessoas trabalhando ao mesmo tempo.

Hoje, virou rotina em muitas empresas a avaliação de temperatura corporal e, em algumas, a medição de oxigênio no sangue para monitorar a saúde dos empregados logo na chegada ao trabalho e buscar ativamente pessoas que possam ser vetores da doença.

A possibilidade de teleatendimento médico também tem sido uma boa ferramenta para acompanhar do estado de saúde dos funcionários. Há também preocupação com a ergonomia de quem está trabalhando remotamente. “Algumas empresas têm conseguido enviar o técnico do trabalho para verificar se o profissional tem uma estação física e alinhá-lo em relação às questões ergonômicas”, explica João Silvestre.

Todas essas são medidas preventivas que fazem a diferença não só na saúde física dos funcionários, mas também no engajamento. Quanto mais presente a empresa estiver, maior será a sensação dos empregados de que estão sendo bem cuidados.

Apostando nisso, a CPFL Energia, empresa de capital chinês que distribui energia para mais de 687 municípios em quatro estados brasileiros, criou uma pesquisa diária de saúde para quem está trabalhando remotamente – aproximadamente 36% dos 14.000 funcionários. As perguntas chegam aos empregados assim que eles ligam o computador, antes de fazer o login. “A pesquisa vai mapeando o estado de saúde das pessoas. Os dados são monitorados por nossa equipe de saúde e acompanhados no comitê de crises, formado pelos vice-presidentes e pelo presidente”, afirma Rodrigo Ronzella, diretor de RH da CPFL, mostrando que a área de saúde da companhia ganhou notoriedade. A empresa teve menos de dez casos de funcionários contaminados, mas Rodrigo garante que não houve contaminação entre colegas.

Por prestar um serviço essencial, a empresa tem um plano de contingência para continuidade do negócio, colocado em prática em 11 de março. A primeira ´reocupação foi com os centros de operação da distribuição, em Campinas (SP), Jundiai (SP) e São Leopoldo (RS), que monitoram e mantém o fornecimento de energia para os consumidores. É preciso que técnicos continuem frequentando fisicamente o local e, para haver mais distanciamento, a empresa restringiu o número de funcionários por vez no local. Foram criadas novas salas e em campinas, por exemplo, a ocupação diminuiu de 30 pessoas ao mesmo tempo para dez. Os cuidados continuam para os eletricistas que trabalham nas ruas. Além de medição de temperatura dos funcionários na chegada à empresa, os carros da operação possuem kits com álcool em gel, máscaras, viseiras e luvas. E a proximidade com os times de campo foi reforçada: na intranet e no aplicativo de comunicação interna há uma área voltada para tirar dúvidas sobre a covid-19 e existem dois grupos de WhatsApp focados no assunto. “Informações por áudio têm feito bastante sucesso entre nossos eletricistas”, afirma Rodrigo.

DADOS PROTEGIDOS

Além das questões de saúde, a segurança digital dos funcionários deve ser zelada pelas empresas. Com tantos computadores acessando dados corporativos remotamente no home office, ampliaram-se exponencialmente as portas de entrada para hackers – ainda mais no Brasil. Uma análise da empresa de cibersegurança Prevailion apontou o país como um dos que mais sofreram com ataques cibernéticos durante a pandemia.

“O Brasil ainda não tem uma política de privacidade. Portanto, a falta de maturidade para a questão de segurança da informação fica evidente para os oportunistas, tornando-nos alvos”, afirma Denis Riviello, líder de cibersegurança da Compugraf, empresa de segurança da informação.

Some-se a isso o fato de que as pessoas estão buscando mais informações on line durante a quarentena, e o resultado é o crescimento da vulnerabilidade dos sistemas. “Os plushings, que consistem em tentativas de fraude por meio de e-mails falsos, aumentaram até 50% em trêsmeses, segundo dados da MacAfee”, diz Denis. Para proteger digitalmente os empregados, as empresas trabalharam na liberação da rede privada virtual (VPN), na sigla em inglês), ampliaram seus links de acesso e reforçaram os ambientes com proteções de criptografia ou nuvem. Mas, para dar certo, a TI precisa de apoio do RH. “O trabalho de conscientização para a cibersegurança é fundamental”, diz o especialista.

Por isso que, na Asyellas Farma, multinacional japonesa do setor farmacêutico com 150 funcionários no Brasil, as áreas de recursos humanos e tecnologia trabalham juntas para alinhar todas as questões envolvendo segurança e saúde.

Desde março, 100% do time está em home office e todo mundo usa o mesmo modelo de computador – do presidente ao jovem aprendiz. As máquinas são criptografadas, os funcionários fazem treinamentos obrigatórios de segurança da informação e a empresa bloqueou alguns aplicativos que demonstraram insegurança. TI e RH conversam para criar ações de engajamento e lançar novidades.

“Conseguimos desengavetar muitos projetos e antecipar sua implementação por causa do cenário”, diz Luis Balbino, gerente de TI. Um deles diz respeito a uma atividade-chave da companhia: a visita da área comercial aos consultórios médicos para apresentar novos medicamentos. Os representantes de vendas foram treinados para conduzir visitas virtuais via Skype. “Havia certa resistência antes, mas hoje está funcionando muito bem”, explica Luis.

A tecnologia também tem sido usada para aumentar o senso de pertencimento e cuidar da saúde dísica e mental na Astellas Farma. Às segundas e quartas-feiras, o dia começa com alongamento virtual, e, às terças e quintas, com meditação guiada. Às sextas-feiras, fica disponível uma sala de vídeos para quem quiser participar de um happy hour com os colegas  às 13 horas – o fim do expediente é mais cedo, pois a companhia adota short Friday. E todos os dias os empregados podem se conectar em uma para um café on line. A média de adesão às iniciativas é de 40 a 70 funcionários. “As pessoas sentiam falta do convívio e dos momentos de pausa”, diz Lais Mastantuono, diretora de RH da farmacêutica. E a tecnologia chegou ao plano de saúde, que agora conta com telemedicina para todos. “Falar sobre saúde é um caminho sem volta, que não sairá de nossa agenda”, afirma a executiva.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SOCIÁVEL E O ERMITÃO PODEM SE REDESCOBRIR

Segundo especialista, mudanças abruptas causadas pela pandemia são um incentivo à reflexão tanto para perfis sociáveis como para os introspectivos

É incrível o que uma situação inusitada faz com a vida das pessoas. Vivemos um tempo delicado, que ainda não tem termo. Mudanças abruptas afetam a personalidade das pessoas e, se aproveitadas, podem ajudar a refletir. Transformados, sairemos todos, não há como ser diferente. Mas e quando pensamos em alguns perfis em particular? Talvez você se veja em um deles.

Você se considera um ermitão (ou uma ermitã), aquela pessoa que adora ficar em sua caverna? O lobo solitário que evita companhia e não gosta de visitar nem de receber? Ou será mais do tipo que é super amistoso, tem facilidade em fazer amigos e, embora possa até morar sozinho/a, gosta de sair, de ir a uma balada ou estar em uma conversa de bar? Em qual você se encaixa melhor? Se é que se encaixa em algum desses perfis.

Em tempos de pandemia, é difícil conviver e é difícil não conviver. A questão é a privação da vontade. Após a infância e a adolescência, provavelmente, você nunca mais precisou obedecer a alguém ou a uma entidade, senão por razões legais, como a um chefe ou à legislação em vigor. E, ainda assim, vamos lembrar que você foi aculturado para aceitar que essas são as regras de sua vida. Neste momento, porém, sobreveio uma regra nova que pegou todo mundo de um dia para o outro.

Quando eu era uma jovem estudante, era bem capaz que minha professora de português, ao me ver escrever isso, dissesse: “Menina, não se diz ‘todo mundo’. Isso é galicismo, é o que acontece quando nossa língua em­presta uma expressão do francês. Aqui, não dizemos ‘todo mundo’, mas ‘toda gente’. Acontece que, sem nenhum galicismo, todo mundo está, compulsoriamente, em recesso … em casa. Todo o mundo.

A notícia veio como uma grande surpresa, atordoou um pouco, mas, afinal, era por um breve tempo.

Eu, por exemplo, refugiei-me no campo, em meu cantinho ideal de repouso, por uma semana, dez dias, quem sabe! Tão crente disso que nada mais carreguei além do computador e do celular. Nem uma roupa um pouquinho mais formal, nem sequer uma peça de inverno. Quando imaginaria que teria reuniões de trabalho on-line ou seria convidada a participar de lives?

Cada um de nós descobriu novas demandas, teve que enfrentar novos desafios e começou a não achar graça nenhuma no que estava acontecendo. A restrição na liberdade de ir e vir, a impossibilidade de estar em seu local de trabalho, a adaptação ao home office, a perda do contato direto com parentes, amigos e colegas. Definitivamente, uma situação de “quem está fora não entra; quem está dentro não sai”. Mas, e os eremitas, eles e elas? E os mais sociáveis, os social butterflies?

Os primeiros, em sua eleita solidão, na companhia dos livros, da TV, do computador ou de uma boa música, começaram a sentir-se solitários. A impossibilidade de tomar um café na padaria, de ir à banca comprar um jornal e de cumprimentar uma ou outra pessoa. Mesmo o cumprimento ao porteiro do prédio, com quem cruzavam diariamente, virou algo importante. Essas ações nunca tinham parecido a eles como convívio social e, provavelmente, nunca imaginaram que lhes fariam falta. Começaram a falar sobre isso, a comunicar sua solidão e a dizer quão sozinhos se sentiam.

Quanto aos outros e outras, os social butterflies? E aí? Essa é uma expressão em voga na atualidade. Refere-se àquelas pessoas bastante relacionadas, cheias de amigos, de que falamos. Falar em social butterflies faz lembrar, também, os descomprometidos, os solteiros. Muitos moram sozinhos, cumprem seus compromissos, mas consideram a noite uma criança.

À medida que o tempo vai passando, o indivíduo muito ativo socialmente sente que não é o mesmo, mas a travessia não é serena. Ele pode tentar, por exemplo, ser o meninão de meia-idade até que, ou pelo autoconhecimento ou pelo cansaço, vai mudando o rumo e o ritmo. Frequentemente, essa insistência tem a ver com a dificuldade de aceitar que as coisas mudaram e ele também. Na fase mais tranquila, o bar passa a ser ponto de convergência. Lá, sempre tem um amigo a esperar. E onde a conversa rola solta e, não raras vezes, se fecham negócios.

Os casados e as casadas também conseguem manter esse tipo de convivência. É comum ver grupos de amigas jantando, com o assunto ligado aos interesses.

Engraçado como somos movidos pelo tempo. Nas mesas de mulheres entre 30 e 40 e poucos anos, é frequente o assunto girar em torno de filhos, trocas de experiências, mas também muita risada e bobagem adolescente, o que só faz bem, reabastece e rejuvenesce. Nas mesas dos rapazes, a descontração costuma ser a mesma. E agora que tudo isso está temporariamente suspenso? Bate uma tristeza, uma nostalgia, uma saudade de tanta coisa boa. Quanta dor!

Este é o momento pelo qual o mundo passa. Para os lobos solitários, os insaciáveis sociais e toda a gama de pessoas que permeia esses dois polos, só há um recurso: abrigar-se no recôndito de seu lar.

Felizes os que podem fazer isso, ou porque têm o abrigo ou porque não precisam ir às ruas para cuidar de nossa sobrevivência. A esses últimos somos eternos devedores.

O ermitão pode usar sua solidão para perceber que não é um solitário, que isso não lhe basta. Ele precisa dos outros e é a existência dos outros que lhe permite poder estar só. Talvez, na privação da ida à padaria e à banca de jornal e do cumprimento do porteiro, ele possa entrar um pouco nas redes sociais, em um grupo de amigos de verdade, não apenas virtuais, perguntar como estão e contar como se sente.

O social butterfly talvez possa aproveitar esse afastamento social forçado, esse exílio das ruas, para aprender a entrar em contato consigo mesmo e descobrir facetas nunca antes imaginadas. É um tempo difícil? É, é um tempo difícil. Mas que bom quando se pode aproveitar da melhor maneira possível o que se tem para refletir, para repensar. O lobo solitário poder imaginar-se vivendo em relação. E o que vive em companhia dos outros boa parte do tempo poder descobrir-se como boa companhia de si mesmo sem necessidade de se ver cercado por tantas vozes e ruídos. E, ambos, poderem redescobrir a beleza e a importância da família, do estar com os outros e de estar sozinho, cada coisa a seu tempo e em seu lugar.

Horas de grande dor e de grande privação costumam ser bons alertas para tudo de que se precisa, e bússolas em direção à busca de ajuda.

Vale lembrar que nem sempre os solitários vivem em solidão, abandonados pelos demais. Da mesma forma que há muita gente no meio da multidão sentindo-se sozinha.

Quem sabe, passados os efeitos deste vendaval devastador, no trabalho de rescaldo, cada qual possa se descobrir transformado, reciclado e renovado.

Afinal, embora já seja chavão, não há grande possibilidade de que, uma vez retirada a máscara, algum de nós seja o mesmo quando o vendaval passar.

Dizem os especialistas que a tempestade está passando. A abertura vai se dando gradativamente. Pessoas saindo para trabalhar, estabelecimentos abrindo. Tudo com muita cautela. Neste momento, no entanto, qualquer que seja nosso perfil de personalidade é fundamental atender às recomendações dos especialistas e dar nossa própria contribuição para que o vendaval passe de vez: guardar rigor com a higiene das mãos, usar máscara e manter o distanciamento social.

Bom regresso a todos nós!

***VERÔNICA CEZAR­FERREIRA é advogada e psicóloga. Psicoterapeuta, perita e consultora psicojurídica.

EU ACHO …

MODO REINVENÇÃO

Depois da retomada, eu vejo um novo começo de era. As marcas e os negócios trocarão a missão pelo propósito

Passados quase 60 dias – que parecem seis meses – do início desta quarentena, resolvi colocar em palavras meus sentimentos sobre tudo o que a humanidade está vivendo neste momento.

Eu sou judeu, não sou religioso, mas sigo a religião. Acredito realmente que exista uma força maior que rege tudo e todos que possuem vida. Portanto, para mim é impossível não pensar que haja algum motivo para que estejamos passando por tudo o que estamos passando.

O ser humano teimava em destruir as florestas e o meio ambiente e não fazia nada para consertar a enorme e crescente desigualdade social no mundo.

Esse vírus quase não mata crianças e animais, esse vírus não contamina o ar e as águas, esse vírus contamina e mata os humanos, independentemente de raça, credo, gênero e quantidade de dinheiro na conta bancária.

Por toda a vida tememos a saudade que viria quando perdêssemos nossos pais, mães, avôs e avós. Por outro lado, deixávamos de aproveitar a presença deles ao máximo, e até de dizer quanto os amamos.

Esse vírus faz com que os mais velhos estejam no grupo de risco e, por consequência, isolados de nós. Esse vírus faz com que sintamos a saudade que tememos a vida toda, só que com nossos parentes em vida.

Nos últimos anos nos apaixonamos pelos likes, pelos shares, pelos comments, e muitas vezes nos esquecemos de quem deveria importar e que estava do nosso lado.

Esse vírus nos prende em casa com aqueles que jamais deveríamos ter trocado pelos celulares; os nossos filhos e nossa(o) companheira(o).

Nos últimos anos nos dividimos: destros, canhotos e ambidestros. Esse vírus faz com que tenhamos saudade do beijo, do abraço. Ele nos faz sentir saudade de amigos e familiares com os quais deixamos de falar por coisas que parecem agora absurdamente pequenas.

A maior parte das empresas só se preocupa com os lucros financeiros. Elas ignoram os traumas socioambientais que esse lucro deixa pelo caminho.

Esse vírus fecha escritórios, obriga as empresas a repensar seus processos e a entender que nenhum negócio sobrevive sem o mundo ou as pessoas.

Vivemos a maior crise sanitária do século. Seremos impotentes espectadores da morte.

Por isso é impossível não pensar que, de alguma maneira, a natureza está forçando a humanidade a parar para que ela possa se ajustar e se recompor das agressões que tem sofrido todos estes anos. Para que ela possa nos salvar de nós mesmos.

A única coisa que uma epidemia nos dá certeza é de que ela vai passar. Portanto, após um inverno triste e nebuloso, a primavera vai chegar. E eu tenho certeza de que seremos todos mais humanos e tudo vai mudar, desde a forma como vivemos até a forma como consumimos.

Nesse sentido, além do ”modo sobrevivência”, os negócios e as empresas também precisam entrar no ”modo reinvenção”. Quando os tempos mudam, a vida costuma ser cruel com os negócios que se negam a mudar.

Faço aqui da reflexão a matéria-prima para a reinvenção: haja vista o que está acontecendo no mundo, os consumidores buscaram seu negócio pelos mesmos motivos e da mesma maneira como buscavam antes?

Você tem investido para pensar como a covid-19 afeta o consumidor e suas decisões de consumo? Deveria.

Foram vários os ”novos fatos” que, quando surgiram, levaram à falência milhões de empresas: as duas grandes guerras mundiais, o 11 de Setembro, o carro, a câmera digital, a Netflix, o iPod e o coronavírus…

A Blockbuster não desapareceu por causa da Netflix, e sim por causa dela mesma. Na zona de conforto, a companhia se negou a perceber que os tempos haviam mudado e por várias vezes se negou a comprar a Net:llix dizendo ”não acreditar naquele modelo de negócios”. A Blockbuster se suicidou.

A covid-19 mudará para sempre a relação dos negócios com as pessoas, principalmente no que diz respeito à jornada do consumidor e ao nível de consciência socioambiental de suas escolhas de consumo.

Se a jornada de consumo já estava mudando de ”eu descobri o produto na TV/jornal/revista e fui à loja comprar” para ”eu vi vários(as) amigos(as) falando sobre o produto/marca nas mídias sociais, fui ao Google procurar o site, entrei no site, li ratings , decidi experimentar na loja física e comprei on ou offline”, na retomada da economia ela acelerará ainda mais nessa direção. E os negócios precisarão se fazer presentes, e necessários, em cada etapa dessa nova jornada.

Após a retomada, teremos o cuidado de escolher produtos e marcas com preocupação socioambiental, fazendo nossa parte na mudança do mundo no qual queremos que nossos filhos e netos vivam.

Durante e após a covid-19, as marcas e os negócios deixarão de viver para a missão e passarão a viver pelo propósito. Sou empreendedor brasileiro e, portanto, um otimista por vocação: ”Eu vejo um novo começo de era. De gente fina, elegante e sincera”.

RONY MEISLER – é empreendedor e cofundador da grife de moda Reserva

OUTROS OLHARES

TODOS PERDEM – UNS MAIS QUE OUTROS

Estudantes de todo o Brasil vivem há quatro meses a rotina do ensino remoto em meio à pandemia do novo coronavírus. Com o retorno das aulas ainda incerto, o que se sabe é que as desigualdades entre alunos das redes pública e privada devem se aprofundar

O sonho de ser médico começou aos 11 anos para o estudante Cauê Vitorasso, depois de seu irmão nascer com uma doença respiratória grave e as frequentes idas ao hospital entrarem na rotina da família. Desde então, ele se prepara para disputar uma vaga em um dos cursos mais concorridos do ensino superior brasileiro. A maratona de vestibulares estava planejada para acontecer no final de 2020, quando Cauê concluiria o 3° ano do ensino médio, mas a chegada da pandemia do novo coronavírus dificultou seus planos. Aluno em uma escola pública de tempo integral em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, o jovem de 17 anos estuda desde março por meio de aulas remotas. São 9 horas diárias de aulas ao vivo pela internet – o mesmo tempo que permaneceria dentro da escola. Apesar de contar com o auxílio de um tutor, ele reconhece que a suspensão das aulas presenciais poderá adiar sua entrada na faculdade – e, por consequência, no mercado de trabalho. ”Comecei o ano com foco total no vestibular, mas quando algo tão inesperado acontece há um desequilíbrio emocional e acadêmico”, afirma Cauê.

As angústias do aspirante a médico são compartilhadas por outros 7,5 milhões de estudantes brasileiros que estão no ensino médio e a caminho do mercado de trabalho. Mesmo antes da pandemia, essa etapa escolar já era a que os alunos mais abandonavam e na qual os resultados de aprendizagem eram piores. No Ideb, índice que mede a qualidade da educação básica, a nota do ensino médio foi de 3,8 pontos no último levantamento, a pior entre todas as etapas e a que menos evoluiu nos últimos 15 anos.

Um estudo recente do Insper mensurou o possível impacto do fechamento das escolas durante a pandemia no decorrer da vida dos estudantes da rede pública. Liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros, um dos principais especialistas em desigualdade social no país, o trabalho considera a influência do conteúdo perdido durante o ano letivo de 2020 na renda futura dos alunos. Quem cursa o ensino médio hoje, por exemplo, pode ter uma perda média anual de renda na vida adulta entre 11.000 e 70.000 reais, dependendo das respostas dadas pelo poder público para recuperar os tópicos prejudicados no período de suspensão de aulas. Mesmo os alunos do ensino fundamental, ainda longe de ingressar no mercado de trabalho, podem sofrer no futuro o efeito da perda de conteúdo – um prejuízo anual que pode chegar a 36.000 reais por indivíduo. Considerando-se o impacto da pandemia nos 35 milhões de estudantes da rede pública, a perda para a economia do país pode variar de 350 bilhões a 1,4 trilhão de reais, distribuídos ao longo do tempo – recursos que equivalem, respectivamente, a 5,3% e 23% do PIB brasileiro. ”É melhor um jovem que está concluindo o ensino médio adiar em um ano a entrada no mercado de trabalho do que sacrificar seu estoque de conhecimento necessário para a vida adulta”, diz Paes de Barros.

Os custos e os riscos da pandemia para a educação têm sido dimensionados em diversos lugares. Mais de 1,5 bilhão de estudantes no mundo foram atingidos pela pandemia, segundo a Unesco. Uma projeção de pesquisadores da Universidade Brown, nos Estados Unidos, com base em testes realizados por 5 milhões de alunos, mostra que os estudantes podem chegar às aulas no segundo semestre com no máximo 68% do conteúdo normalmente absorvido em leitura e com 50 % do conteúdo de matemática ministrado no primeiro semestre. E o que a experiência internacional tem revelado é que a pandemia aprofunda desigualdades que já existiam, afetando, sobretudo, os mais pobres. A consultoria McKinsey projeta que, se as aulas continuarem no modelo híbrido até meados de 2021, alunos americanos mais pobres poderão perder, em média, 12 meses de escolaridade na comparação com as aulas presenciais – o dobro dos alunos mais ricos. O maior risco é a evasão: se os alunos deixarem a escola, a perda individual poderá ultrapassar 21%da renda ao longo da vida, segundo a McKinsey. Tudo somado, a geração impactada pela covid-19 poderá levar, em 2040, a um rombo de até 271 bilhões de dólares na economia americana.

A educação sempre foi um terreno em que imperam desigualdades mundo afora. Análise da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo que reúne os países mais ricos, com base em dados de alunos do Pisa, mostra que apenas um terço dos alunos de 15 anos na América Latina tem acesso a uma plataforma eficaz de apoio à aprendizagem online na escola, ante quase dois terços nos países-membros da OCDE. ”A pandemia pode dizimar todos os ganhos que os países mais pobres levaram duas décadas para conseguir”, diz a professora Carol Anne Spreen, especialista em desigualdades na educação na Universidade de Nova York.

No Brasil, a batalha educacional da pandemia começou nas semanas seguintes ao fechamento das escolas, o que já dura cerca de quatro meses. Todas as secretarias estaduais conseguiram oferecer pelo menos um método de ensino remoto, segundo monitoramento do Conselho Nacional de Secretários de Educação. Estados como São Paulo e Maranhão avaliam a possibilidade de implementar um quarto ano opcional no ensino médio, como estratégia para recuperar o conteúdo perdido. ”Não dá nem para começar do zero completamente nem para considerar que essa matéria foi dada. É preciso equilíbrio”, afirma Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas. No Ceará, estado que se tornou uma referência na melhora dos índices de aprendizado, um plano para tirar parte do atraso imposto pela pandemia – e não perder os avanços obtidos na última década -vem sendo discutido com escolas e municípios. ”Estamos verificando juntos quais turmas precisam voltar primeiro e quais adaptações serão feitas no conteúdo”, diz Eliana Estrela, secretária de Educação do estado.

É fato que levar escolas cujas estratégias de aprendizado se resumiam ao professor e à lousa para o ambiente digital exigido pela quarentena não foi tarefa fácil. Quando as aulas pararam, a supervisora Mirian Bernardo, do Colégio Municipal Doutor José Vargas de Souza, em Poços de Caldas, Minas Gerais, foi com o próprio carro até a casa de dezenas de alunos, porque a família deles simplesmente não respondia aos contatos e, assim, não era possível repassar as atividades. ”Não queremos perder os alunos”, afirma a supervisora. ”Nossos alunos têm sonhos, os mais velhos querem fazer vestibular, e é nosso dever tentar fazer o melhor”, diz a diretora do colégio, Angela Borba. Escolas públicas atendem mais de 80% dos alunos brasileiros. Mais de 90% deles têm renda média familiar menor que dois salários mínimos. Na rede mineira, onde há 3,5 milhões de alunos nas escolas públicas, há conteúdos impressos, professores tirando dúvidas por WhatsApp, centro de mídia e transmissão pela TV. ”Sabíamos que, se tivéssemos só material digital, não chegaríamos a muitos alunos”, diz a secretária de Educação de Minas Gerais, Julia Sant’Anna.

A necessidade de diversificar as estratégias de conteúdo para contemplar o maior número possível de alunos se repetiu em todo o Brasil. Em São Luís, a estudante Leanny Pinheiro, que está no 2º ano do ensino médio na rede pública do Maranhão, acompanha desde o início da quarentena as aulas transmitidas via rádio. Lá, a Secretaria de Educação, que responde por 1,8 milhão de alunos na rede pública, também oferece conteúdo pela internet, mas Leanny não tem computador e o celular da família não conta com acesso restrito à internet. Acompanhar as aulas pela Rádio Timbira, que pertence ao governo do estado, foi a forma mais efetiva que ela encontrou para não ficar sem estudar por tanto tempo. ”É preciso se concentrar bastante para escutar direito, porque, como não dá para voltar, é fácil perder o conteúdo”, diz.

O aprendizado remoto é um desafio mesmo para as escolas privadas, nas quais as barreiras tecnológicas são menos frequentes. Só 9% dos alunos das escolas privadas não têm acesso a computador ou tablet em casa, ante 39% dos estudantes da escola pública, segundo dados do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb). Lucia Dellagnelo, diretora-presidente do Cieb e ex­ consultora do Banco Mundial, afirma que o uso da tecnologia na educação pode ajudar a entender e a contemplar as especificidades de cada aluno. Mas ela precisa ser incorporada corretamente, acompanhada de uma visão sobre por que usá-la, competência de professores e gestores, recursos digitais de qualidade na escola e infraestrutura em casa. ”Por melhores que sejam as plataformas, a tecnologia não tem um impacto positivo sem essas quatro dimensões atuando simultaneamente”, diz.

As irmãs Fernanda e Gabrielly Cordeiro, de 9 e 14 anos, estão, respectivamente, no 4° e no 9° ano do ensino fundamental em uma escola particular na Vila Matilde, zona leste de São Paulo. As aulas ao vivo duram várias horas por dia, e cada uma as acompanha no próprio computador. ”Eu consigo tirar as dúvidas, falar com a professora, não tive dificuldade”, diz Fernanda. Gabrielly, a mais velha, que tem uma carga de trabalho maior em casa, afirma que o mais difícil é organizar o tempo. ”Na aula presencial, o professor consegue até ver nos seus olhos se você está com dúvida, e isso é algo que eu gosto”, conta. ”Em casa, tenho de identificar sozinha o que não aprendi direito. Aí pergunto aos professores e meus colegas.” Uma pesquisa de entidades educacionais, como a Unesco e o Instituto Porvir, que ouviu 33.000 alunos constatou que, mais do que a eventual falta de infraestrutura e tecnologia, aspectos como organização do tempo e saúde mental são alguns dos principais desafios dos alunos na pandemia. ”As escolas vinham dizendo que ensinam as crianças a ser flexíveis e a pensar criticamente. Mas, quando chegou a hora de as próprias escolas se organizarem em um cenário mais complexo, nem todas estavam preparadas”, afirma Thamila Zaher, diretora executiva do Grupo SEB, que tem mais de 200.000 alunos e mais de 300 escolas, entre unidades próprias e franqueadas.

Entre uma plataforma e outra, o papel dos professores ficou ainda maior durante a quarentena. Uma pesquisa do Instituto Península com professores na pandemia mostrou que 88% não tinham experiência anterior com ensino à distância e que mais da metade deseja ajuda com a saúde mental. ”A ponte entre o sistema escolar e o aluno ficou restrita quase unicamente ao professor, o que é uma responsabilidade muito grande”, afirma Heloísa Morel, diretora do Península. O professor de geografia André Pereira Mazini, que leciona há 20 anos, vem dedicando cada vez mais tempos a adaptar as atividades – entre aulas gravadas, ao vivo, reuniões e plantões de dúvidas – aos diferentes perfis dos estudantes que atende nas redes pública e privada na zona sul de São Paulo. Ele se preocupa sobretudo com a evasão de seus alunos da escola pública. ”A rotina mudou completamente”, diz Mazini.

Com 2,2 milhões de professores no Brasil e a maioria com mais de 40 anos de idade, as novas demandas da educação na quarentena jogam luz sobre outros problemas históricos da formação e da carreira docente no país. Ao contrário do professor Mazini, que concluiu um doutorado na área em que leciona, apenas 36% dos professores da rede pública cursaram pós-graduação, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. A carreira é também pouco atraente para os jovens.

Menos concorridos, os cursos de licenciatura são alguns dos que têm as menores notas de corte dos vestibulares. No Brasil, os professores ganham, em geral, 75% da remuneração média obtida por profissionais com ensino superior. ”O momento deixou claro que, assim como ocorre com os profissionais da saúde, o país precisará valorizar os professores e sua formação”, diz Tatiana Klix, diretora do Instituto Porvir.

ENSINO HÍBRIDO

Apesar de todos os desafios que este período impôs à educação mundial, as mudanças vieram para ficar. As medidas de distanciamento social, de higiene e de controle de aglomerações já são uma realidade e não mudarão enquanto não houver uma vacina disponível. Países como China, França e Coreia do Sul, que começaram a retomar as aulas em meados de maio, foram forçados a fechar algumas unidades após um novo aumento do número de casos de contágio de coronavírus. Com o risco iminente de novas levas de infecção, a tendência é que prevaleça a modalidade de ensino híbrido, com uma mescla de aulas presenciais e aulas online. No estado de São Paulo, a expectativa é que as escolas reabram a partir de 8 de setembro, mas há uma série de parâmetros relacionados à doença que precisam ser atingidos, o que poderá adiar os planos do governo paulista.

Nesse cenário incerto, algumas soluções apresentadas durante a suspensão das aulas devem se manter no plano de retomada. No Rio Grande do Sul, a Secretaria de Educação antecipou um projeto de tecnologia nas salas de aula que seria implementado ao longo de três anos. No retorno, todos os professores poderão usar a plataforma Google for Education como ferramenta de aprendizado. ”Conseguimos pôr no ar 37.000 turmas virtuais, que espelham o funcionamento das turmas físicas.

Entrarão também plataformas educacionais de apoio, como uma biblioteca virtual que terá 35.000 livros”, afirma Faisal Karam, secretário de Educação da rede gaúcha. No colégio Marista, rede privada com 35.000 alunos, distribuídos em mais de 40 unidades, a diretora educacional, Viviane Flores, diz que as escolas foram preparadas para continuar atendendo de forma remota e adaptando o uso da tecnologia às necessidades de cada turma. ”Não vamos voltar para o mundo que existia em março”, afirma.

Viabilizar essa transformação educacional exige um investimento maciço em soluções tecnológicas, infraestrutura e formação de professores. O dramático cenário econômico no pós-coronavírus vai atingir em cheio o setor educacional. No ensino público, 72% do financiamento depende de recursos vinculados à arrecadação de impostos, principalmente do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços, um dos mais afetados pelo fechamento da economia do país. Um estudo da ONG Todos pela Educação projeta que o conjunto das redes estaduais deverá perder neste ano de 9 bilhões a 28 bilhões de reais em tributos vinculados à manutenção e ao desenvolvimento do ensino, a depender do agravamento da crise econômica. ”Com as restrições orçamentárias, os gestores terão de reavaliar os gastos, mas também serão obrigados a investir em tecnologia. É uma equação difícil”, afirma João Marcelo, diretor do Todos pela Educação.

A resposta educacional durante a pandemia ficou concentrada nos estados, em parte pelas características do próprio modelo federativo brasileiro, que delega a eles e aos municípios a responsabilidade pela gestão da educação básica. Mas, embora não gerencie escolas diretamente, o governo federal será demandado também na retomada das aulas: no Brasil, mais de 60º/o dos impostos estão concentrados na União, o que reforça o argumento dos estados de que Brasília precisa participar mais do financiamento. Após a saída de Abraham Weintraub do Ministério da Educação, ninguém havia assumido o cargo definitivamente até o fechamento desta edição, no dia 29 de junho. O presidente Jair Bolsonaro havia escolhido o professor Carlos Alberto Decotelli para o posto, mas, após questionamentos sobre seu currículo, a nomeação não havia sido confirmada. O próximo ministro vai assumir o cargo com o desafio de guiar a retomada das aulas. Com a perda de arrecadação, circula no Congresso uma proposta de socorro emergencial voltado para a área. A renovação do Fundeb, fundo da educação básica, que expira neste ano, é considerada pauta prioritária da agenda e trará outro embate: atualmente, a União complementa 10% do orçamento do fundo, mas há propostas de que a uma fatia seja de até 50%. Para o setor privado, o futuro também é nebuloso. O faturamento das escolas particulares de pequeno e médio porte caiu 50% em maio, segundo um levantamento da consultoria Explora. Só no mês passado, mais de 95% das escolas perderam alunos, numa evasão que está em torno de 10%. Da educação infantil ao ensino médio, os impactos da pandemia recairão de forma desigual sobre os estudantes. É uma corrida contra o tempo e contra o orçamento. A pior conta, a das eventuais decisões ruins e da inação nas medidas tomadas agora, poderá perdurar por décadas.

UMA GERAÇÃO QUE VAI APRENDER MENOS

Estudos mostram que os países adotaram diferentes estratégias educacionais na pandemia, de programas na TV a aulas ao vivo pela internet. Ainda assim, os dados sugerem que os estudantes vão aprender menos ã distância do que na sala de aula

O CUSTO DA PANDEMIA

Um estudo liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros avaliou os prejuízos potenciais para a economia com a suspensão das aulas

MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE

Um mapeamento de 232 redes de ensino municipais mostra que 82% delas oferecem aulas ou conteúdos pedagógicos durante a pandemia

A DESIGUALDADE COMEÇA NA ESCOLA

Mais de 80% dos alunos do ensino básico no Brasil estão na rede pública. A taxa de reprovação e abandono de quem cursa essa fase nas escolas públicas é dez vezes maior do que a dos estudantes da rede privada

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE AGOSTO

JESUS RESSUSCITA O FILHO DA VIÚVA DE NAIM

Chegando-se, tocou o esquife e, parando os que o conduziam, disse: Jovem, eu te mando: levanta-te! (Lucas 7.14).

Jesus estava acompanhado de uma multidão quando entrou na cidade de Naim. Outra multidão saía da cidade levando para o cemitério o filho único de uma viúva. Aquelas duas caravanas se encontraram: a caravana da vida e a caravana da morte, uma capitaneada por Jesus e a outra encabeçada pela mãe enlutada. A viúva que perdera o único filho liderava a caravana da morte. Jesus se compadeceu dela e disse: Não chores! (v. 13). Interrompendo o cortejo fúnebre, Jesus tocou o caixão e, parando os que o conduziam, disse: Jovem, eu te mando: levanta-te! Sentou-se o que estivera morto e passou a falar; e Jesus o restituiu à sua mãe. A multidão, atemorizada diante de tão grandioso milagre, glorificou a Deus, dizendo: Grande profeta se levantou entre nós e: Deus visitou o seu povo. Jesus levou vida aonde reinava a morte, consolo aonde dominava a tristeza, esperança aonde imperava o desespero. Jesus tem poder não apenas para enxugar nossas lágrimas, mas também para pôr fim às causas que nos fazem chorar. Jesus é poderoso para aliviar o seu coração agora e dar a você uma esperança eterna. Nem mesmo a morte pode desafiar o poder de Jesus. Ele já venceu a morte e arrancou o seu aguilhão. Agora, a morte não tem mais a última palavra. A morte foi tragada pela vitória!

GESTÃO E CARREIRA

É HORA DE VOLTAR?

Com a perspectiva de retomada das aulas das crianças, surgem os planos – ainda incertos – para o fim do home office e a criação de modelos alternativos de trabalho

Atividades físicas e aula de espanhol on-line são os dois novos compromissos que Núbia Castro, gerente de projetos de uma multinacional de tecnologia, em São Paulo, conseguiu encaixar em sua rotina depois de ser mandada para casa, em regime de home office, em 13 de março. Ela consegue intercalá-los com a jornada de dez horas de trabalho, se diz satisfeita com a nova vida e não acha que voltará tão cedo a dar expediente presencial na empresa. “Recebemos um questionário sobre nosso sentimento em relação a voltar para o escritório, mas acho que o retorno foi tão negativo que ninguém voltou a falar do assunto”, contou. Já Bruno Hartz, funcionário do Tribunal de Contas da União (TCU) no Rio de Janeiro, que mora a 20 minutos do trabalho, não vê a hora de voltar. “Quando vou ao trabalho, fico focado oito horas direto. Em casa, não trabalho direito, não dou atenção direito aos filhos, não faço as atividades domésticas direito. Estou dormindo menos. Tenho almoçado no computador. No final, estou trabalhando até as 23 horas”, lamentou.

As dores e vantagens do trabalho remoto voltaram às discussões nas empresas e famílias em razão de dois acontecimentos: a redução gradual de novos casos de Covid-19 em parte das capitais do país, que tem acelerado a retomada das atividades, e a volta às aulas, que já é realidade em algumas cidades e deverá ganhar escala a partir de setembro. Os estudantes podem estar prestes a colocar a mochila nas costas novamente, mas, diante dos dilemas do home office, nem todos os pais voltarão aos escritórios. As empresas estão colocando na ponta do lápis o custo da volta sem uma vacina, numa equação de difícil solução. É preciso oferecer mais espaço para assegurar o distanciamento, mas, ao mesmo tempo, já se sabe que não é mais necessário ter tanta gente no escritório para fazer o que as empresas conseguiram executar com todos em casa.

Desde o início de maio, quando o IBGE começou a medir os impactos da pandemia no mercado de trabalho semanalmente, foram identificados 8,9 milhões de pessoas que estão trabalhando em casa. E, mesmo com a retomada das atividades, na primeira semana de julho esse contingente permanecia no mesmo patamar. Só recentemente, na segunda semana de julho, essa situação começou a mudar: 700 mil pessoas voltaram aos escritórios. Mas o retorno ainda é permeado de incertezas. Muitos temem deixar suas casas porque não querem se expor à transmissão viral. Enquanto outros acreditam que sua ausência na empresa pode significar desleixo ou desinteresse, dando margem para que sejam demitidos num período de crise profunda e dificuldade de recolocação profissional.

Carlos Machado de Freitas, coordenador geral do Observatório Covid-19 da Fiocruz, lista uma série de medidas básicas a serem adotadas por empresas de qualquer porte e que já fazem parte da rotina da população, como a oferta de máscaras, de álcool em gel e a implantação de um ambiente mais arejado, onde o ar possa circular. Os detalhes começam a se tornar mais complexos conforme se planeja o distanciamento social interno dentro de uma empresa. Funcionários devem estar afastados por, no mínimo, 2 metros e preferencialmente com barreiras físicas entre suas mesas, tais como as já vistas no caixa de supermercados e no balcão de farmácias.

Outro procedimento necessário é ampliar a testagem, identificando pessoas que manifestem sintomas relacionados à Covid-19 e fazendo o rastreio de funcionários com quem elas tiveram contato, colocando-os imediatamente em quarentena. São medidas que requerem investimento e planejamento num período em que muitas empresas demitem justamente em decorrência da crise. “O empregado deve ficar o menor tempo possível em seu trabalho. Se havia duas pessoas que trabalhavam juntas por oito horas, o ideal seria que fizessem turnos diferentes e de menor duração”, explicou Freitas, da Fiocruz.

Cada vez fica mais claro, contudo, que, apesar dos protocolos a serem seguidos, não haverá modelo único de volta ao trabalho. Há desde grandes empresas que voltaram há um mês aos escritórios àquelas que aboliram de vez um endereço físico. Na Froneri, multinacional fabricante de sorvetes e licenciadora de marcas como Nestlé, Lacta e Oreo, o retorno ao trabalho presencial da parte administrativa em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, está completando quatro semanas, sem casos de Covid-19, com 80 funcionários em rodízio que permite no máximo 60% dos trabalhadores no local. “É o momento de voltar? Eu acho que uma vez estando avalizado e recomendado pelas autoridades sanitárias, e baseado em nossa experiência do ganho de produtividade do retorno, é o momento, sem abrir mão de toda a segurança”, explicou Sudário Martins, diretor-geral da Froneri Brasil.

A empresa, que faturou R$ 715 milhões no ano passado, tomou a decisão com base em experiências em suas unidades da Europa, do Oriente Médio, da Argentina, Austrália, Filipinas e África do Sul. A maior mudança específica para o Brasil foi no transporte, com a criação de quatro rotas exclusivas de ônibus privados e o pagamento de Uber ou táxi para outros colaboradores. A fábrica, que ficou fechada entre final de abril e começo de maio, já havia voltado a funcionar com seus 300 funcionários e apenas cinco casos de Covid-19 registrados. O RH mapeou cada funcionário de grupo de risco ou com familiares vulneráveis em casa. A limpeza do escritório, que era semanal, passou a ser diária. Na fábrica, onde ocorria duas vezes por dia, passou a ser repetida a cada quatro horas.

Para voltar foi preciso pensar não só no transporte e no espaço entre os funcionários, como também em cada pequeno aspecto da rotina. Foram adotados novos protocolos de vestiário, o self-service no refeitório deu lugar a um menu à la carte, foram criadas embalagens plásticas para depositar as máscaras durante a refeição e os funcionários receberam aulas sobre como vestir, usar e manusear o adereço de proteção.

Outras empresas já traçaram estratégias para transformar, ao menos parcialmente, o home office forçado em prática definitiva. Em São Paulo, o Metrô colocará 600 funcionários da área administrativa trabalhando em casa, desocupando 13 mil metros quadrados, divididos em três prédios. A Petrobras já anunciou que manterá metade do pessoal administrativo em casa trabalhando. São 10 mil funcionários. O Banco do Brasil também vai pôr 30% em home office permanente, com a devolução de 16 prédios. Já o Google postergou em um ano a estratégia definitiva e anunciou que pretende deixar seus empregados em home office até o fim de junho de 2021.

Em empresas menores, contudo, a solução tem sido pensada caso a caso. No escritório de advocacia Kincaid – Mendes Vianna, na unidade do Rio, com 100 funcionários, as atividades deverão ser retomadas no fim de agosto, de forma escalonada, seguindo protocolos sanitários. Já a sede paulista entregou a sala que ocupava na Avenida Juscelino Kubitschek, no Itaim, e agora testa o trabalho com 100% de home office e uso de coworking apenas para reuniões. “Vamos testar os diferentes escritórios compartilhados da cidade. Pode ser bom fechar com alguma rede que nos permita, em um mês, fazer uma reunião na região da Berrini e, no outro, ter uma estação de trabalho na Paulista”, afirmou Lucas Leite Marques, sócio da banca.

Em países onde a pandemia apresenta recuo consistente, como é o caso do Reino Unido, há a expectativa de que, até o final do ano, dois terços dos britânicos tenham retornado ao escritório. Esse movimento foi estimulado, em parte, pelo próprio premiê Boris Johnson, que deu declarações, em julho, convocando a população a voltar. Entre as firmas londrinas que retomaram as atividades estão as filiais das consultorias PwC e Deloitte. No caso da PwC, a empresa calcula que, até o final de setembro, pelo menos 50% dos funcionários terão voltado a dar expediente, mesmo que parcialmente, no escritório, segundo o The Guardian. Contudo, ainda de acordo com o jornal, a avaliação das 30 maiores empresas da City of London, o centro financeiro da capital britânica, é que, no máximo, 40% das equipes voltarão ao trabalho fisicamente nos próximos meses.

Na França, onde o presidente Emmanuel Macron conclamou a volta da normalidade em maio e deu diretrizes sanitárias estritas às empresas, a subida dos novos casos de contágio coloca em xeque a retomada. Na primeira semana de julho, o número de no­ vos casos no país alcançou o mesmo patamar de dias antes do lockdown, anunciado em março, o que já faz as autoridades francesas falarem em uma “nova onda”.

Com o ingrediente a mais da crise econômica, a única coisa certa até agora é que o primeiro a perder será o mercado de locação de imóveis comerciais. O baque que o setor já sofreu poderá se tornar permanente. Uma pesquisa inédita da consultoria Cushman & Wakefield, especializada em imóveis corporativos, mostra que 30% de mais de 200 grandes empresas pretendem diminuir o espaço físico dos escritórios. Dados da Apsa, uma das maiores administradoras de imóveis no Rio, corroboram essa tendência. No segundo trimestre havia 15 mil salas, lojas e galpões desocupados, um aumento de 50% no estoque na comparação com o primeiro trimestre. Muitos deles são imóveis de até 50 metros quadrados.

Até mesmo nas ruas mais disputadas do eixo Rio- SP, a expectativa é que o burburinho se traduza em mudança nas estatísticas já no terceiro trimestre. É o caso da Faria Lima, em São Paulo, e de ruas centrais do Rio, que contam com contratos longos, com multas altas em caso de rescisão, o que faz o inquilino só devolver o imóvel diante da certeza de uma mudança definitiva de cenário. “A Faria Lima tem uma vacância baixíssima, em torno de 2,6%. Se a empresa decidir desocupar o escritório e depois perceber que foi uma decisão errada, poderá não encontrar mais vaga”, explicou Felipe Robert Giuliano, diretor de locação da CBRE, empresa que atua no mercado imobiliário.

A baixa vacância, contudo, ainda não contempla a saída da XP do centro financeiro paulistano. A empresa, que ocupa dois prédios de 30 andares na região, determinou home office definitivo e manterá apenas uma base na Faria Lima para receber alguns clientes. Uma pesquisa da Mercer, uma das maiores consultorias na área de recursos humanos no país, com mais de 200 grandes empresas, adianta o que pode ser o impacto do home office para o setor imobiliário. O levantamento constatou que 13% das empresas pretendem deixar em média 44% do pessoal trabalhando em casa permanentemente. E 85% delas vão permitir o home office opcional. “A grande maioria (97%)foi bem-sucedida com home office”, disse Antônio Salvador, da Mercer.

Se pudesse escolher, Leandro Brusque trabalharia em casa. Gerente da Ocyan, empresa da área de petróleo e gás, com escritórios no centro do Rio, ganhou tempo com a mudança na rotina. A empresa vai colocar 50% do pessoal em casa, com os funcionários se revezando no escritório. Morador de Niterói, Brusque levava uma hora e meia para chegar ao trabalho. “Com mais tempo livre, consegui ler, organizar as lembranças de família, escanear documentos”, disse. O esquema de revezamento, além de agradar a Brusque, também se mostra mais versátil para um futuro incerto sobre o qual muitos preferem não pensar: a ideia de que, nos próximos meses – e até anos -, enquanto a vacina não for acessível a todos, a pandemia possa voltar a crescer, à medida que o distanciamento social diminuir. “Esse processo deve ser lento e gradual, porque a transmissão aumenta facilmente se houver muitas pessoas na rua. Até termos um tratamento ou vacina, nós viveremos no fio da navalha o tempo inteiro, abrindo e fechando os negócios”, disse Carlos Machado de Freitas, da Fiocruz.

O especialista avalia que o momento não é o mais adequado para a volta à normalidade, em razão dos números ainda elevados de infectados pelo Brasil. Machado apontou que a sensação de que o país possa ter atingido seu “platô” – ou seja, quando há uma estabilidade entre o número de novos casos e o de novas mortes – esconderia uma leitura mais cética dos números. Segundo ele, uma análise mais aprofundada revela que muitas cidades “estacionaram” em uma média elevada de casos e mantêm uma alta taxa de leitos de UTI ocupados. Desta forma, uma nova onda de infecções provocaria rapidamente a falência do sistema hospitalar. Diante de tantas incertezas, a imprevisibilidade continua sendo a palavra de ordem da pandemia. Empresas que conseguirem criar modelos mais dinâmicos e retráteis de retomada, mantendo os protocolos de segurança, tendem a navegar melhor nesses novos mares.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O EFEITO DO DOPING MUSICAL

Estudos detalham o impacto extremamente positivo que as trilhas sonoras podem ter no desempenho das atividades físicas, especialmente as aeróbicas

Você está na academia, cansado, desanimado, considerando não completar o treino, quando uma música nova começa a tocar na sua playlist e, eis que de repente, uma energia extra lhe faz seguir em frente – heroica e animadamente. Não é preciso ser um especialista para perceber que uma trilha sonora adequada é capaz de tornar a atividade física mais fácil e prazerosa. Pois agora a ciência esmiuçou os detalhes dessa associação. Pesquisadores da prestigiosa Universidade Brunel, em Londres, mostraram que as batidas sonoras tornam o consumo de oxigênio mais eficiente e estimulam o trabalho do coração. O levantamento, ancorado em 139 pesquisas de diversas instituições de saúde internacionais, comprovou que a música permeia as áreas do cérebro associadas à liberação do neurotransmissor dopamina, ligado à emoção, à euforia e à cognição, e também àquelas ligadas a reflexos físicos. Trata-se do mesmo composto químico que o organismo utiliza para avaliar ou reforçar alguns comportamentos essenciais à sobrevivência, como o da alimentação, e ainda aquele que aciona um outro mecanismo essencial, o de prazer por recompensas. “A dopamina aumenta a força da contração do músculo cardíaco, o que favorece a resistência do corpo no rendimento da atividade física”, diz Ludhmila Hajjar, professora de cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e intensivista da Rede D’Or.

Os benefícios de ouvir música durante a prática de exercícios foram descritos pela primeira vez por cientistas americanos em 1911, ao observar ciclistas que iam mais rápido quando uma banda militar tocava nas ruas, em comparação a corridas em silêncio. Não é qualquer ritmo, no entanto, que consegue provocar o impacto positivo. Assim como o compasso de uma fanfarra, as músicas que aumentam o rendimento têm batidas definidas e fortes, como o estilo dance pop. Além disso, devem incluir palavras de incentivo, como run (correr), move (movimento), action (ação). Entre os exemplos de canções selecionadas pelos estudiosos, estão pequenos clássicos modernos entoados por Lenny Kravitz, Beyoncé e Bruce Springsteen.

Um dos principais trabalhos analisados pela Universidade Brunel foi celebrado pelo mais recente encontro anual do American College of Cardiology, centro de inteligência e influência decisiva para todo o mundo. O levantamento avaliou o impacto da música na tolerância ao exercício durante testes de stress cardíacos conduzidos em esteiras ergométricas. São provas em que o corpo é submetido à alta carga de exercícios em pouco tempo, monitorado com o uso de eletrodos no peito. A velocidade e a inclinação da esteira aumentaram a cada três minutos ao longo de até oito minutos. Os 127 homens e mulheres participantes, com idade média de 53 anos, foram aleatoriamente divididos em dois grupos – o dos que ouviram músicas em ritmo acelerado com fones de ouvido e o dos que se exercitaram sem nada nos ouvidos. A distância percorrida em um mesmo período foi significativamente maior entre os que ouviram música: cerca de 15% a mais.

Há ainda uma outra vantagem. As baladas fortes distraem o foco do exercício em si e, consequentemente, ganha-se mais afinco. As batidas musicais fizeram com que o organismo usasse menos 7% de oxigênio, indicou um outro trabalho. A conclusão foi feita com base em testes com adultos que praticavam treinos aeróbicos com trilhas sonoras no estilo dance pop. A música não afetou o quão cansados eles se sentiam, mas os fez gostar de correr mais, em relação aos que se exercitaram em silêncio. Os mecanismos cerebrais foram medidos por eletrodos. De acordo com os cientistas, o som também estimula ondas elétricas em áreas do cérebro associadas ao prazer, tornando o esforço mais agradável. Ou seja: se estiver pensando em dar uma corridinha, vale a pena levar seus fones portáteis e escolher uma boa playlist.

EU ACHO …

O VENTO SOPRA CONTRA OS MONOPÓLIOS DIGITAIS

A aprovação, pelo Senado, de um novo projeto de lei cuja pretensão é deter a disseminação de notícias falsas pôs em debate a regulação dos meios digitais no Brasil. Ao mesmo tempo, o Facebook enfrenta nos Estados Unidos um boicote histórico de mais de 800 anunciantes, incluindo gigantes como Unilever, Starbucks, Ford, Coca-Cola e Adidas. É possível até debater a eficácia do boicote ou o conteúdo da nova lei brasileira. É indiscutível, contudo, que o vento hoje sopra contra os monopólios digitais, Facebook, Google e Amazon. O melhor a que podem almejar, aqui e lá fora, é a manutenção do statu quo – algo não apenas longe de garantido, mas a cada dia menos provável. Entre os vários protagonistas dessa virada de ânimos, destaca-se o investidor do Vale do Silício Roger McNamee. Mentor de Mark Zuckerberg no início do Facebook, ele manteve uma visão idílica dos riscos representados pelos monopólios digitais até o plebiscito do Brexit e a eleição de Donald Trump, em 2016. De lá para cá, converteu-se num dos críticos mais eloquentes e eficazes de Zuckerberg.

“Não percebi que a ambição de Zuck não tinha limite. Não me dei conta de que seu foco no software como solução para todo problema o cegaria para o custo humano do sucesso descomunal do Facebook”, escreve McNamee em Zucked, relato pessoal instigante de sua conversão de aliado em inimigo de Zuckerberg. No livro, ele explica como as mesmas características responsáveis pelo sucesso da empresa também a tornaram perigosa. “Quando usuários prestam atenção, o Facebook chama isso de ‘engajamento’, mas o objetivo é a mudança de comportamento que torna os anúncios mais valiosos”, afirma. “Os incentivos econômicos levam a empresa a se alinhar – com frequência de modo inconsciente – com extremistas e autoritários, em detrimento da democracia no mundo todo.” Não é coincidência, portanto, que Zuckerberg tenha se aproximado tanto de Trump recentemente, nem que tenha adotado uma atitude benevolente em relação a políticos.

Como investidor, McNamee não tem nada contra o sucesso financeiro, nem contra um produto que atinja bilhões de pessoas. Ao contrário. “A Coca-Cola serve 1,9 bilhão de bebidas por dia em 200 países”, diz. “Mas a Coca­Cola não influencia eleições, nem incentiva o discurso de ódio que leva à violência.” A atitude do Facebook, a cada momento que vieram a público violações de privacidade ou de manipulação política, sempre foi a mesma: primeiro negar e, apenas diante de fatos incontornáveis, desculpar-se. Depois, promover mudanças perfunctórias que, na prática, pouco efeito têm. Nas palavras da pesquisadora Zeynep Tufekci, Zuckerberg vive, desde os bancos de Harvard, uma “turnê de catorze anos de pedidos de desculpas”. Os usuários não abandonam plataformas como Facebook, Instagram ou WhatsApp porque são úteis e convenientes. Não imaginam que podem ser “vítimas de manipulação, violação de dados ou interferência eleitoral”. É por isso que McNamee não vê outra solução que não seja a regulação mais dura, possivelmente nos moldes da que vem sendo adotada na União Europeia.

Como alguém com décadas de experiência avaliando startups digitais, ele não se deixa intimidar pela aparente complexidade técnica que cerca o tema, em geral apenas um pretexto alegado pelos monopólios para que tudo fique como está. “Uma vez que você supere os chavões, a tecnologia não é particularmente complicada em comparação com outras indústrias reguladas pelo Congresso, como saúde ou finanças.” Nem se furta a apontar a questão essencial que deveria nortear toda regulação: “O problema é que o Facebook é na verdade uma empresa de mídia. Exerce julgamento editorial de muitas formas, inclusive por meio de seus algoritmos”.

A mesma lógica vale para YouTube, Twitter e tantos outros que se apresentam como meros intermediários de informação. “Chegará o dia em que o mundo reconhecerá que o valor que os usuários recebem da revolução dominada pelas redes sociais escondeu um desastre absoluto para a democracia, a saúde pública, a privacidade e a economia.”

***HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

UM PROBLEMA DE GENTE GRANDE

A aprovação no Brasil do uso de um remédio emagrecedor para jovens estimula a discussão sobre o aumento estrondoso da obesidade em crianças e adolescentes, condição que foi reforçada com o prolongado confinamento obrigatório da quarentena

Em uma decisão pioneira no mundo, o Brasil autorizou o uso de um medicamento emagrecedor para adolescentes. O aval, concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no início do mês, liberou a liraglutida, do laboratório dinamarquês Novo Nordisk, para meninas e meninos a partir de 12 anos. Até então, a permissão era dada apenas a adultos. Nos Estados Unidos, a aprovação está prevista para sair até o fim deste ano. O remédio, com pouquíssimos efeitos colaterais, age no sistema da saciedade e da fome do organismo, reduzindo em especial o desejo por alimentos gordurosos e ultracalóricos. O estudo que embasou a autorização, publicado na prestigiosa revista científica New England Journal of Medicine, mostrou que a droga diminui em até 10% o peso ao longo de um ano. É taxa aparentemente baixa a olhos leigos, mas foi motivo de celebração pela comunidade médica. “É a notícia mais impactante no tratamento de jovens obesos dos últimos anos”, diz Eduardo Rauen, professor de nutrologia da pós-graduação do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e médico do esporte. Os profissionais de saúde dispunham apenas de uma outra substância para essa faixa etária, o orlistate, que atua no intestino, mas com um efeito adverso que restringe a administração sobretudo entre a garotada: diarreia.

A possibilidade de atacar a obesidade infanto juvenil com um fármaco restrito a pais e avós é realmente um marco. Poucas condições de saúde se tornaram tão dramáticas recentemente. Levantamento da Imperial College, em Londres, em parceria com a Organização Mundial da Saúde, revelou que nos últimos cinquenta anos o índice de crescimento do problema em crianças e adolescentes saltou globalmente em 1.027% – o dobro em relação aos adultos.

No Brasil, hoje 15% das crianças e adolescentes acima de 5 anos de idade estão obesos. Na década de 70 eram apenas 3%.

A liraglutida tem uma história marcante na farmacologia. Ela nasceu em 2009, para o controle de diabetes do tipo 2. Com o tempo, porém, notou-se que os doentes emagreciam, com poucos danos colaterais. O efeito provocou uma corrida mundial às farmácias. No entanto, a ala mais conservadora da medicina rechaçou o excessivo uso (utilização não oficial) da droga. Em 2012, porém, um artigo na British Medical Journal comprovou a ação tão desejada dos consumidores. Quatro anos depois, ela foi finalmente aprovada para a perda de quilos entre adultos. O composto imita uma substância natural do organismo, o GLP-1, o principal hormônio associado à sensação de saciedade e ao mecanismo de produção de insulina. O GLP-1 é sintetizado toda vez que o alimento chega à porção final do intestino delgado. Nesse momento, o hormônio ativa as células cerebrais de fastio e da fome e reduz os movimentos intestinais de contração, prolongando a satisfação alimentar. Mas, como o GLP-1 da liraglutida não depende da chegada de comida ao intestino, ele atinge concentrações na corrente sanguínea muito maiores do que a do hormônio natural – e dura mais no organismo, provendo o emagrecimento. O remédio é injetável e deve ser administrado diariamente. Por agir de maneira muito semelhante ao comportamento natural do organismo, a liraglutida também muda a forma como os pacientes se relacionam com a comida. A diferença surge já no segundo dia de tratamento. O apetite é reduzido no mínimo dois terços. Diz a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo: ”A obesidade se tornou uma epidemia entre os jovens”. O claro vilão: a má alimentação. E por má alimentação entende-se não necessariamente grandes porções, mas excesso de produtos processados. Os meses de quarentena parecem ter piorado a situação. No início, as famílias se entusiasmaram com a oportunidade da convivência doméstica, despendendo horas a fio em torno da elaboração de pratos gostosos, naturais. Não durou muito, e a facilidade da comida industrializada entrou nos lares, naturalmente. Estima-se que 50% dos adolescentes que ficaram em confinamento ao longo de quatro meses ganharam peso, não só pela redução na atividade física, mas principalmente por se alimentar mal.

No final da infância e na adolescência vive-se um paradoxo metabólico em relação ao emagrecimento. Em tese, fazer com que um corpo em pleno vigor da puberdade perca peso seria como ir contra a natureza. “O apetite do jovem, que tem o crescimento acelerado, é maior que o do adulto e o de uma criança”, diz o endocrinologista Antônio Carlos Nascimento, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. A título de comparação, um menino de 1,70 metro aos 16 anos de idade tem de consumir de 40% a 50% mais calorias do que um homem de 40 anos com a mesma altura. Come-se por vontade, para sustentar o corpo e as atividades diárias, mas também por necessidade. Nesse desenho, a facilidade de acesso a determinados tipos de alimentos engrossou o caldo do descontrole, e o que pedia apenas atenção agora exige muito cuidado – especialmente, insista-se, com a meninada.

Parte da indústria começou a trilhar um novo caminho para se livrar do papel de algoz. Pesquisa mundial conduzida pela Deloitte, empresa especializada em consultorias e auditorias, mostrou que nove em cada dez companhias de alimentação introduziram em 2017 ao menos um produto formulado ou reformulado para se tornar mais saudável – com menos sal, gordura ou açúcar. Outro levantamento, do instituto Euromonitor, identificou globalmente uma expansão anual de 1,8% do mercado de comida industrializada saudável, ante 1,5% do lote tradicional, banhado de conservantes e similares. No Brasil o naco não para de crescer – chegou, em 2018, a 10,7% do total de vendas do setor, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos. Mas há muito a ser feito ainda. As vendas de alimentos industrializados cresceram 25% no mundo entre 2017 e 2019. A tendência se reflete nos fast-foods, com alta mundial de 30%.

É impossível, no entanto, excluir da balança os responsáveis pela escolha (ou no mínimo pelo pagamento) da comida da criança e do adolescente: os pais. Cerca de 70% da ingestão calórica de um garoto ou uma garota de até 12 anos acontece sob os domínios da família. O mesmo ocorre com metade dos que estão mais próximo dos 18 anos. O ritual de reunir a família em torno de uma mesa na hora das refeições seria, por si só, saudável. Pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, comprovaram que crianças e adolescentes que se sentam à mesa com os adultos têm uma alimentação mais equilibrada e menos risco de travar guerras contra a balança. O trabalho, conduzido com 183.000 garotas e garotos de até 17 anos, constatou que três refeições por semana em família reduzem os índices de obesidade – houve diminuição de 12% no sobrepeso. Mas esse mundo ideal inexiste em grande parte das residências. Pais ocupados ou exaustos inúmeras vezes oferecem aos filhos macarrão instantâneo, nuggets de frango congelados e sucos de caixinha. Houve o breve interregno dos primeiros dias de quarentena, mas já passou. E, agora, retoma-se a linha evolutiva da história contada pelo que vai à boca – e que a propaganda alimentou.

Nos anos 1950, as diversas formas de empacotamento, revolução recém-nascida, permitiram o planejamento de um cardápio inteiro à base de produtos – enlatados, desidratados, congelados. Naquele tempo de inovações aceleradas, era comum a ode ao consumo de calorias nos lares. Criança robusta era sinônimo de criança saudável. Acreditava-se que, com um estoque generoso de gordura, ela dispunha também de uma grande reserva de energia, o que a protegeria contra as doenças. As empresas anunciavam seus produtos repletos de açúcar como se fossem um néctar. Bebês apareciam tomando refrigerante. Na década de 60, a associação da indústria do açúcar dos EUA lançou campanhas exibindo o produto como regulador de apetite. Não é mais assim, mas a cultura da comida, digamos, fácil, é atávica e pressupõe esforço enorme para ser vencida.

A obesidade infantil, filha dessa postura desregrada, se não for tratada, é um gatilho para doenças crônicas e graves. Adultos com obesidade desde a infância vivem até dez anos menos em relação aos que mantiveram a linha. “Sob o ponto de vista fisiológico, se fosse escolher a pior fase da vida para ser obeso eu diria que é na adolescência”, diz o nutrólogo Rauen. Um dos principais motivos: o número de células adiposas, que retêm gordura, conhecidas como adipócitos, é geralmente definido até os 20 anos. Depois dessa idade, nada é capaz de diminuir a quantidade de adipócitos, nem o mais drástico regime alimentar. Vale o sábio conselho que virou mantra entre os bons endocrinologistas: “A melhor forma de emagrecer é nunca engordar”. Cuidemos das crianças e adolescentes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE AGOSTO

REFORMA E REAVIVAMENTO

… Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos… (Habacuque 3.2b).

Vejo com tristeza aqueles que tolamente abandonam a sã doutrina para buscar experiências arrebatadoras. Onde falta a semente da Palavra, não se vê o fruto da verdadeira piedade. Não é a experiência que conduz à verdade, mas a verdade é que deságua na experiência. A vida decorre da doutrina, e não a doutrina da vida. Precisamos de uma igreja que seja ortodoxa sem deixar de ser ortoprática. Os que se desviaram da Palavra em busca de experiências precisam de uma nova reforma, e os que se desviaram da piedade e ainda conservam sua ortodoxia precisam de um reavivamento. Ainda anseio ver uma igreja doutrinariamente fiel, e ao mesmo tempo amável e acolhedora para com os que se aproximam. Uma igreja que ensine doutrina com zelo, mas adore a Deus com fervor. Uma igreja que pregue a verdade, mas viva em amor. Uma igreja em que a proclamação não esteja na contramão da comunhão. Ainda anseio ver uma igreja que seja fonte para ossedentos, oásis para os cansados, refúgio para os aflitos, lugar de vida para os que cambaleiam na sombra da morte. Anseio ver uma igreja que viva para a glória de Deus, que honre seu Salvador, que seja cheia do Espírito Santo, que adore a Deus com entusiasmo, que pregue a Palavra com fidelidade e acolha as pessoas com efusiva alegria e redobrado amor.

GESTÃO E CARREIRA

FINANÇAS PARA TODO MUNDO

O Brasil tem 61 milhões de inadimplentes – e metade deles nem sequer sabe quanto ganha. Para mudar esse cenário, grupos especializados em oferecer educação financeira para minorias começam a se popularizar no país

Essa disparidade pode ser justificada por diversas razões, mas, sobretudo, ela tem suas raízes na desigualdade de renda gritante do país. Por aqui, por exemplo, o rendimento médio mensal ele 1% dos mais ricos foi quase 34 vezes maior do que o da metade mais pobre, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018.

Ainda de acordo com o IBGE, no mesmo período cerca de 16 milhões de famílias viviam com renda per capita mensal de aproximadamente 413 reais. E, se você pertencer a uma minoria, sofrerá ainda mais. De 2012 a 2018, as mulheres ganharam, em média, 21% menos do que os homens; as pessoas pardas e pretas receberam rendimentos 26% e 27% mais baixos, respectivamente, em relação aos brancos. Diante de salários tão desiguais, é óbvio que a capacidade de cada grupo de guardar dinheiro e aplicar suas economias também será diferente. “Essa parcela da população muitas vezes precisa escolher entre poupar e pagar as contas, já que fazer os dois é quase impossível,” diz Dagoberto José Fonseca, professor no Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A esse cenário sorna-se o fato, já conhecido, de que a população brasileira, no geral, tem pouca familiaridade com educação financeira. Segundo dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, 53% das pessoas desconhecem a própria renda. Outros tantos (52%) não sabem, por exemplo, quantas parcelas de compras realizadas no crediário ainda falta pagar. “O Brasil tem uma grande deficiência na educação básica, principalmente em matemática. Essa situação torna os grupos vulneráveis mais suscetíveis a empréstimos predatórios, como é o caso do cheque especial”, explica Eduardo Estellita, consultor de diversidade e professor na Casa do Saber, instituição que promove aulas e palestras sobre vários temas em São Paulo.

O BÊ-Á-BÁ DO DINHEIRO

Foi pensando em ajudar esse público que Nathália Rodrigues de Oliveira, de 21 anos, criou, em 2018, o canal Finanças com a Nath, focado em ensinar educação financeira a pessoas de baixa renda. A ideia surgiu quando a estudante, que atualmente cursa o último ano da faculdade de administração, começou a ter aulas de matemática financeira e a entender como funcionam os processos de financiamento e a amortização de dívidas, por exemplo. “Eu queria que outras pessoas também aprendessem o significado desses termos. Hoje, elas fazem empréstimos e não sabem como os juros são cobrados”, afirma.

Antes ele colocar a ideia em prática, Nathália pesquisou outros canais na web e descobriu que havia poucas iniciativas semelhantes à sua. “Os conteúdos eram, até então, para classes mais altas, que têm um poder aquisitivo mais elevado. Ensinavam coisas como poupar 1.000 reais por mês ou os melhores investimentos para o próximo ano. Isso sem considerar que os brasileiros não sabem questões simples, como a diferença entre crédito e débito”, diz a digital influencer.

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Nathália chega a passar 5 horas no transporte público para fazer estágio em uma consultoria financeira, e entende bem a realidade de seus seguidores.

“Quando tive meu primeiro cheque especial, também não sabia como ele funcionava. Chegava o final do mês, eu ficava sem dinheiro e acabava usando o limite, acreditando que aquilo fosse meu”, afirma.

Desde janeiro de 2019, quando estreou no YouTube, a estudante gravou dezenas de vídeos explicando o que são ações, dando dicas de como sair do vermelho ganhando pouco e como controlar o cartão de crédito. Hoje, são 65.000 inscritos no YouTube e 62.000 seguidores no Instagram, além de algumas parcerias com companhias como Twitter e Sebrae. Com tanto sucesso, Nathália já tem planos mais ousados. “Quero adquirir bagagem para transformar o projeto numa empresa”, diz.

Embora de forma tímida, assim como Nathália, outros grupos e movimentos que levam educação financeira para minorias começam a se popularizar. Tais iniciativas visam ajudar as pessoas a entender os mecanismos relacionados ao dinheiro para que possam, com isso, tomar decisões mais conscientes – o que, num cenário de 61 milhões de brasileiros inadimplentes, é algo cada vez mais urgente. “Diante da escolha entre pagar o gás e o cartão de crédito, quem não teve educação financeira vai preferir o primeiro, sem saber que as taxas de juro do cartão serão mais altas. Por isso o papel desses grupos é bastante relevante”, afirma Eduardo, da Casa do Saber.

DA QUEBRADA PARA A BOLSA DE VALORES

Quem também embarcou nesse nicho foi Gabriela Chaves, de 25 anos. Negra e moradora de Taboão da Serra, em São Paulo, em 2018 a jovem largou o emprego na bolsa de valores, corno analista de produtos, e fundou a NoFront, iniciativa que oferece cursos de educação financeira para pessoas negras e de baixa renda. ”A falta de conhecimento, inclusive, é algo benéfico para as instituições financeiras, uma vez que parte da população lucra muito com isso”, diz Gabriela.

Gabriela percebeu que, além de o conteúdo ser muitas vezes voltado para as classes A e B, a forma como era apresentado, com diversos termos técnicos, também afastava as pessoas do mundo das finanças. Por isso, resolveu desenvolver uma metodologia de ensino que usasse como base a discografia do grupo de rap paulista Racionais MC’s. “Foi a dissonância entre esses dois mundos que fez com que eu quisesse uma forma de dialogar mais de perto com a realidade da população negra”, explica Gabriela. No primeiro ano do curso, a NoFront recebeu 500 inscritos e, em 2019, esse número pulou para 1.500 alunos.

Em junho do ano passado, após a entrada do sócio Rodrigo Dias, cientista da computação e planejador financeiro, a consultoria também passou a oferecer as aulas por meio de uma plataforma online, com valor de 197 reais – o custo é o mesmo para quem opta pelo curso presencial. Porém, para não perder o viés acessível, há a possibilidade de participar da iniciativa por meio de bolsas. ”Para cada aluno pagante, oferecemos o curso gratuito para desempregados, mães solos e LGBTQI+. Todas as turmas têm pelo menos 30% de bolsistas”, afirma Gabriela. Parte do lucro da NoFront é usada para bancar os gastos pessoais de Gabriela e o restante é reinvestido na plataforma. “Meu propósito, entretanto, não é só lucrar financeiramente, mas também retribuir o ganho para a sociedade. Por isso, fazemos formações gratuitas em comunidades quilombolas, por exemplo”, diz a economista.

A pedagoga Marisa Cândida Paulino, de 51 anos, e o filho Pedro Luiz da Cruz, estudante, de 17 anos, foram alunos do primeiro curso da NoFront em 2018. Moradora do bairro Vila Nova Cachoeirinha, extremo da zona norte de São Paulo, Marisa admite que, antes de participar da iniciativa, sabia pouco sobre o mundo dos investimentos. “Eu já tinha alguns cuidados com meu dinheiro, mas deixava o que sobrava na conta­ corrente. Não via além disso, não me enxergava como investidora”, afirma. O pontapé inicial para fazer aplicações foi no começo de 2019, depois de ter o carro roubado. “Percebi que, com a indenização que recebi, não conseguiria comprar um carro zero e calculei que seria mais barato andar de táxi”, diz Marisa. Como o automóvel havia sido adquirido em um consórcio, a pedagoga destinou cerca de um terço do dinheiro para quitar as parcelas que faltavam e o restante aplicou em fundos de renda fixa. “Hoje o investimento já rendeu o equivalente ao valor total pago pela seguradora”, diz. Por causa das orientações recebidas na NoFront, Marisa criou o hábito de pagar as contas à vista e de calcular melhor seus gastos, lições que possibilitaram a realização de alguns projetos pessoais. “Foi com o curso que aprendi a estabelecer metas de curto e longo prazo”, afirma. Em 2019, por exemplo, ela economizou cerca de 10% por mês de seu salário como aposentada e professora de educação infantil. Com isso, pôde arcar com duas viagens à Bahia e pagou parte das despesas de um curso de intercâmbio para o filho. Pedro vai viajar para Cape Town, na África do Sul, em março deste ano, onde passará 50 dias. “Embora ele tenha ganhado uma bolsa, estou custeando a estadia, a passagem e os custos de passaporte”, diz. A pedagoga, inclusive, vai ficar 15 dias com o filho na cidade africana.

Realizar projetos como os que Marisa e Pedro conseguiram é uma conquista significativa, principalmente para as classes mais baixas. “Quando se tem menos dinheiro, as escolhas são mais complexas”, diz Eduardo, da Casa do Saber. Ele relembra que, geralmente, os mais pobres moram longe dos centros urbanos e, portanto, desembolsam mais com transporte para o trabalho e lazer, por exemplo. “Ir ao cinema no fim de semana pode sair mais caro do que apenas o preço da entrada porque você precisa incluir o tempo de trajeto e o custo de transporte nessa conta”, afirma. Nesse contexto, planejar-se para realizar viagens internacionais é uma realidade quase impossível.

INVESTIMENTO NÃO TEM GÊNERO

No caso das mulheres, além dos salários desiguais, as dificuldades em pensar nas finanças têm origens ainda em décadas passadas. Até os anos 60, por exemplo, as cidadãs brasileiras não tinham direito nem a um CPF, o que impedia que abrissem contas em banco e as afastava do mundo dos investimentos. Isso explica o fato de que, embora grande parte dos lares seja chefiada por mulheres, elas representem apenas 30% das investidoras no país.

Pensando nisso, em outubro de 2018, duas funcionárias da corretora Easynvest deram início ao movimento Nós, Mulheres Investidoras. A ideia do projeto surgiu ainda em 2017, quando Giselle Mendes, da área de projetos e eventos, e Naya Lobo, de marketing, sugeriram a contratação de influenciadoras, como a jornalista Natália Arcuri, para produzir conteúdo sobre investimentos. “A partir daí, notamos uma aderência muito grande do público feminino e percebemos que esse era um nicho em que tínhamos atuado pouco. Por isso decidimos apostar em um movimento exclusivo para elas”, explica Giselle.

Além de um blog, um podcast e um e-book sobre educação financeira para mulheres, o grupo organizou, no ano passado, um workshop só para o público feminino. O piloto teve duração de quatro dias e contou com 12 participantes, com idades entre 25 e 60 anos. “Começamos falando sobre as crenças limitadoras, mas também abordamos planejamento e até mesmo o passo a passo para a abertura de uma conta em uma corretora”, afirma Giselle.

Para 2020, o objetivo é ampliar o workshop para o público em geral e trazer embaixadoras para o movimento que tratem de temas como entretenimento e lifestyle. Mesmo recente, o trabalho do Nós, Mulheres Investidoras começa a aparecer. No Facebook a comunidade já tem 2.500 participantes e o número de mulheres ativas na base de clientes da Easynvest cresceu de 26%, em 2017, para 39%, em 2020. “Nosso foco não é só tornar a mulher investidora, mas contribuir para que ela entenda que pode tomar sozinha as rédeas da vida financeira e da vida pessoal”, conclui Giselle. Que no futuro iniciativas como essas se multipliquem e diversifiquem o perfil dos investidores brasileiros.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DOSES A MAIS

Consumo de álcool cresceu durante a pandemia

O aumento dos níveis de ansiedade durante a pandemia também elevou o consumo de álcool. De acordo com um estudo realizado em parceria pela Fiocruz, UFMG e Unicamp, 18% dos brasileiros estão bebendo mais desde o início da crise. Na ausência de projetos públicos de apoio, a sociedade vem se mobilizando com algumas notáveis ações. É o caso do Coletivo Alcoolismo Feminino, organizado em grupos de WhatsApp exclusivos para mulheres. Segundo a fundadora, Graziella Santoro, o projeto foi criado logo antes da quarentena, mas a sua real efetividade foi confirmada durante a crise. “Com o agravamento da pandemia, a procura do Coletivo pelo Instagram cresceu muito”, diz Graziella. “Todos os membros alegam ter aumentado o consumo de álcool na quarentena.” O mesmo comportamento, aliás, é observado em outros países. Nos Estados Unidos, as vendas de bebidas alcoólicas cresceram cerca de 55% no confinamento. Beber eventualmente pode ser bom, mas o exagero é sempre nocivo.

EU ACHO …

O RACISMO E AS MULHERES NEGRAS

Num contexto em que as reações antirracistas sacodem a boa consciência da comunidade planetária, deslocando episódios brutais do lugar monótono da trivialidade cotidiana para o campo do intolerável, pesquisa recente da consultoria IDados, divulgada nas últimas semanas, reafirma que o fosso social no Brasil tem um fundamento de exclusão invariável: o racismo.

Mas, note-se: mesmo com os dados desfilando persistente e constrangedoramente à nossa frente, relutamos em juntar os pontos, procuramos atalhos para justificar a magnitude da desigualdade como forma de evitar o confronto com o racismo tal como ele é: profundo, estrutural, que perdura no tempo, se efetua a revelia das boas intenções, sobrevive com obstinação, o que demonstra como as camadas espessas da colonização e da escravidão até hoje cobrem o nosso tecido social, sobrevivendo com tenaz resistência aos humores dos tempos. Certamente, a pesquisa da IDados não traz nada de novo, mas serve de alerta, em contexto tão adverso para a população negra no Brasil e no mundo, para a necessidade do combate da discriminação latente que atua contra pretos e pardos em ambientes incontornáveis ao desenvolvimento individual e coletivo: escola, mercado de trabalho e política institucionalizada.

Atuando de forma orquestrada, esses três ambientes tornam-se um obstáculo quase intransponível para a construção de trajetórias de vida de negros de forma equânime. Pobreza, rebaixamento cultural, invisibilização nos processos decisórios da vida política relegam mulheres e homens negros a posições subalternizadas e naturalizam o racismo em suas diversas modalidades (do racismo policial a tantos outros tipos de violência).

O combate das desigualdades, a eliminação da pobreza, a promoção da cidadania requerem, portanto, uma reordenação das nossas pautas em torno de outro projeto de país de tal sorte que a questão racial seja adota como prioridade número 1. Sem essa reordenação, estamos condenados a produzir soluções artificiais que, ao modo de uma assíntota, nunca tocam na nervura do real. As mulheres negras vêm apresentando propostas exequíveis que incidem no combate das desigualdades, uma vez que desenvolveram a capacidade de antever as catástrofes que começam arruinando as beiradas.

A propósito, 25 de julho foi Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Afrocaribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, o que põe em cena o protagonismo dessas mulheres no projeto de transformação do país, já que em todos os períodos da nossa história elas vêm denunciando o déficit democrático, a ausência de espírito republicano e a rasura do projeto de civilização, responsáveis por vitimar mais da metade da população brasileira. Saudemos, portanto, a força dessas mulheres e escutemos suas vozes insubmissas!

*** ROSANE BORGES é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação, professora colaboradora do Colabor (ECA-USP), pesquisadora na área de comunicação, imaginários, política contemporânea, relações raciais e de gênero, conselheira de honra do Coletivo Reinventando a Educação, integrante do grupo Estética e vanguarda do CTR (ECA-USP), articulista da revista Carta Capital, do blog da Editora Boitempo. Autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012), Esboços de um tempo presente (2016).

OUTROS OLHARES

RISCO À FLOR DA PELE

Com a alegação de permanecer mais em casa durante o confinamento, homens e mulheres deixaram de usar filtros de proteção solar. O alerta: a luz artificial também pode fazer mal

Foi apenas nos anos 1940, e talvez já tardiamente, que a proteção da pele contra os raios solares virou assunto de preocupação das autoridades de saúde. A primeira resposta veio com os soldados americanos na II Guerra Mundial. Eles besuntavam o rosto com uma pasta viscosa e avermelhada à base de petróleo. De lá para cá, deu-se uma revolução. Hoje, há mais de 100 produtos desenhados especificamente para minimizar ou brecar os danos da excessiva luz natural à pele. No Brasil, que ocupa a segunda posição no ranking mundial de consumo de marcas de fotoproteção, há pelo menos uma década as vendas vinham crescendo 10% ao ano, e a expectativa era que o mercado chegasse a 3,7 bilhões de reais em 2021. A pandemia freou o movimento. Levantamento feito em clínicas de dermatologia de São Paulo e Rio mostrou que o uso dos filtros solares despencou pela metade entre as mulheres e70% entre os homens nos últimos quatro meses (veja no quadro abaixo).

A torta alegação para o abandono do escudo artificial: para que, dentro de casa? Há, no entanto, riscos mesmo entre quatro paredes. Nesses ambientes, a pele está exposta aos efeitos da chamada “luz visível”, emitida por lâmpadas, computadores e smartphones e até através de janelas fechadas. Há danos, com redução da produção de colágeno e de ácido hialurônico, substâncias decisivas para a rigidez cutânea. “Ao longo do tempo, as luzes internas, aparentemente inofensivas, são tão nocivas em relação ao envelhecimento quanto a solar”, diz Claudia Marçal, dermatologista da Academia Americana de Dermatologia. E o que fazer? Proteção. “Esse tipo de luz deve ser brecado com protetor solar sempre, desde a hora em que acordamos”, diz Jade Cury Martins, coordenadora do departamento de oncologia cutânea da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Tratando-se de beleza, vale o esforço.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE AGOSTO

ESCÂNDALO E LOUCURA

Mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios (1Cotíntios 1.23).

A cruz é um emblema paradoxal. Para uns representa vergonha, fracasso e derrota; para outros, triunfo, conquista e vitória. O apóstolo Paulo estava em Corinto, importante cidade grega. Os grandes pensadores disputavam suas ideias em praça pública. Seus admiradores os aplaudiam. Os gregos eram achegados à filosofia. Por isso, consideravam a pregação acerca do Cristo crucificado uma verdadeira loucura. Os judeus, por sua vez, à espera do Messias vitorioso que quebraria o jugo de Roma, daria fim à sua escravidão e ainda se assentaria no trono para reger as nações com vara de ferro, julgavam um Cristo pregado na cruz um verdadeiro escândalo. Paulo, porém, não se deixou mover por essas reações preconceituosas e extremadas. Continuou pregando a mensagem da cruz. Não há outro evangelho a ser pregado senão anunciar Cristo, e este crucificado. Não há boas-novas para o pecador fora da cruz de Cristo. É pela morte de Cristo que temos vida. É pelo seu sangue que recebemos perdão e redenção. Aprouve a Deus salvar os pecadores pela loucura da pregação. A loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos entendidos deste século. A cruz de Cristo pode ser rejeitada como sinal de fraqueza pelos incrédulos, mas para nós, os que cremos, é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.

GESTÃO E CARREIRA

FUI DEMITIDO, E AGORA?

Perder o emprego em meio à pandemia é assustador. Conheça estratégias que ajudam a encontrar um novo caminho

Depois de quatro meses trabalhando na área de facilities de uma fintech, a publicitária Manoela Reis, de 36 anos, recebeu uma ótima notícia: havia sido promovida com um aumento salarial de 25%. Além de confiante com seu futuro na empresa, a profissional também estava feliz por atuar pela primeira vez na área de recursos humanos, algo que sempre desejou. No entanto, menos de dois meses após a promoção, a pandemia do novo coronavírus atrapalhou os planos da paulistana. Em abril, a empresa colocou todo o time em home office, menos Manoela. Ela e outros 18 funcionários foram demitidos. “Eu era responsável pelas instalações físicas e pelos recursos de apoio para os empregados, então grande parte do meu escopo de trabalho deixou de existir”, diz.

Lidar com a demissão logo após feedbacks excelentes e perspectivas de crescimento na companhia deixaram Manoela sem reação. “Fiquei anestesiada, passei dois dias inteiros só assistindo televisão”, diz. Mas logo a profissional percebeu que precisava tomar uma atitude. Decidida a continuar no RH, passou a buscar cursos em temas como employer branding e experiência dos funcionários. Também recorreu a atividades físicas, por meio de aulas online, e a um curso de inteligência emocional. “Minha meta é manter a cabeça boa, o corpo saudável e acumular conhecimento para me reinserir no mercado”, afirma.

HORA DE DESACELERAR

Enquanto a contaminação pelo novo coronavírus avança no país, histórias como a de Manoela começam a se multiplicar Brasil afora. E, se perder o emprego já era difícil antes da pandemia, ser demitido em meio ao surto de covid-19 pode ser pior ainda.

Isso porque a crise do coronavírus tem particularidades: as mudanças de rotina e a convivência forçada com familiares por si só geram sentimentos como ansiedade, estresse, solidão e preocupação. Para quem perdeu sua principal fonte de renda, algumas dessas sensações, como a incerteza sobre o que acontecerá nos próximos meses, podem ser agravadas. “A pandemia fez as pessoas serem relembradas de que o futuro é incerto, mas as que foram demitidas tiveram um lembrete ainda maior”, diz Márcia Miyamoto, coach e professora na The School of Life.

Apesar de as dificuldades serem grandes, é possível dar a volta por cima e tirar boas lições desse momento. O primeiro passo para atravessar esse período é um dos mais difíceis: reduzir o ritmo. Mesmo que a vontade de atualizar o LinkedIn e começar a procurar emprego venha logo em seguida à demissão, especialistas recomendam desacelerar a rotina por alguns dias para deixar os sentimentos virem à tona. Raiva, tristeza e negação são alguns que podem aparecer. E, apesar de serem desagradáveis, são uma etapa importante para superar o luto do antigo emprego. “Nesses dias você pode lançar mão de recursos como meditar, ler ou escrever”, orienta a psicóloga Maria Elisa Moreira, professora de educação executiva no Insper.

Para não cair na depressão, urna ferramenta útil é praticar a gratidão, reconhecendo os aprendizados vividos na antiga empresa. “Lembre-se de que, diferentemente de outras esferas da vida, sempre há uma solução para o campo profissional, e que você não se resume apenas ao trabalho”, diz Márcia, da The School of Life.

CABEÇA EM ORDEM

Não se esqueça de envolver a família em seu processo de recuperação após a demissão. Tenha urna conversa franca, expresse seus sentimentos e deixe que os outros membros também exponham seus medos e angústias sobre a situação. A transparência ajuda a tranquilizar seus entes queridos e deixa o clima mais agradável dentro de casa, o que é importantíssimo em tempos de isolamento social.

Além das aflições, a conversa deve incluir um planejamento financeiro para atravessar a crise.  Afinal, a renda de todos será impactada pela demissão. Para colocar as contas em ordem, é importante que todos participem e passem a anotar seus gastos. Quem conta com uma reserva financeira vai colher os frutos agora. Quem não a fez, deve começar a organizar as finanças o mais rápido possível.

Outra recomendação nos primeiros dias é ser discreto e evitar mandar enxurradas de mensagens para colegas e recrutadores que estão no mercado. Longos e-mails de despedida e desabafos nas redes sociais também devem ser evitados. Isso porque o risco de dizer coisas das quais irá se arrepender é maior nesse período de emoções à flor da pele. “O ideal é o profissional apenas comunicar que deixou o emprego e dizer que avisará quando tiver novidades”, diz José Augusto Figueiredo, presidente no Brasil da consultoria Lee Hecht Harrison (LHH).

Também é importante fazer uma autoavaliação sobre sua atuação no último trabalho, pois, embora a pandemia e a recessão iminente sejam as justificativas para a demissão, a empresa utilizou critérios para escolher quais profissionais seriam desligados – e você foi um deles. “Seja honesto consigo mesmo e analise sua capacidade de relacionamento e aprendizado, além de sua habilidade para lidar com mudanças”, recomenda Maria Elisa, do Insper.

Vale, por exemplo, resgatar avaliações antigas de feedbacks e esmiuçar o que foi dito. Essa atitude pode fazer toda a diferença na hora de um novo processo seletivo. “Os recrutadores vão questionar os motivos de sua demissão e será preciso responder com tranquilidade. Isso só será possível se as razões estiverem claras na sua cabeça”, afirma José Augusto, da LHH. Uma possibilidade é questionar diretamente os antigos chefes, por meio de e-mails ou mensagens de celular. Na hora de fazer essa abordagem, o profissional deve dizer quais motivos atribui ao seu desligamento e perguntar se o ex-gestor pensa da mesma forma.

TENHA FOCO

Quando você tiver digerido a demissão, será hora de entrar em contato com sua rede. Nesse momento, você pode fazer uma publicação no LinkedIn sobre suas ideias, seus projetos e as habilidades que possui. “Dessa forma você dá uma notícia positiva sobre o caminho que está almejando. O tom menos pessimista faz com que as pessoas fiquem mais confortáveis para conversar com o profissional demitido, o que, portanto, aumenta as chances de indicação”, afirma José Augusto.

Porém, para que isso seja eficiente, é preciso definir exatamente qual será seu próximo objetivo profissional. “Reflita qual é sua contribuição para a sociedade e o que o move”, explica Maria Elisa, do Insper. Com essa clareza, é possível entender se sua busca irá se concentrar em arranjar um novo emprego, tornar-se prestador de serviços ou empreendedor. De acordo com Márcia, da The School of Life, analisar o propósito e os sonhos profissionais também será útil para que as próximas ações façam sentido. “A pessoa não deve gastar tempo fazendo qualquer curso se não sabe corno vai usá-lo”, afirma.

Utilizar o momento difícil para refletir sobre os próprios desejos – e traçar urna meta para alcançá-los – foi exatamente o que fez Alison Morais de Souza, de 30 anos, que em meados de abril perdeu o emprego como gerente de uma loja de acessórios e manutenção de smartphones em Rolândia, no Paraná. “Quando a crise do coronavírus começou a se agravar, as vendas caíram muito e imaginei que o proprietário do local não conseguiria bancar o meu salário”, afirma Alison.

Com a mudança, ele passou a se sustentar com a ajuda da esposa, que continua trabalhando como gerente em uma loja de doces. Embora tenha sentido a perda do emprego nos primeiros dias, ele conta que está conseguindo se manter otimista porque tem planos para o futuro: quando passar o período de isolamento social, Alison pretende realizar um curso de manutenção de smartphones e abrir uma loja igual àquela em que trabalhava.

Para concluir o projeto, entretanto, terá de repensar os hábitos de consumo e economizar um pouco. Por isso, Alison e a esposa já cortaram algumas despesas e negociaram uma extensão de prazo para pagar o financiamento da casa onde moram. “Eu já tinha o sonho de empreender, então, quando veio a demissão, sabia que era a hora de começar a planejar”, explica Alison. Nesses momentos de crise, é preciso fazer como o paranaense: tentar encontrar sua essência e descobrir quais são seus estímulos pessoais para seguir em frente.

PARTINDO PARA OUTRA

Quatro dicas para superar a demissão

#1 BUSQUE CAPACITAÇÃO

Após ter clareza do que deseja profissionalmente, é preciso estudar e pesquisar – seja para continuar competitivo no mercado, seja para mudar de área. Há diversos cursos online gratuitos, mas avalie investir parte da rescisão em alternativas pagas também. Conteúdos como lives, artigos de especialistas e reportagens podem ser boas opções complementares.

#2 ANALISE O MERCADO

Aproveite o tempo livre para entender quais setores estão aquecidos e quais serão mais afetados pela crise. Com isso, direcione seus esforços para as empresas que devem crescer. Não adianta, por exemplo, mandar currículo para quem também acabou de ser demitido.

#3 DEFINA SUAS COMPETÊNCIAS

Pense sobre todo o conhecimento adquirido ao longo de sua carreira e reflita de que forma essas habilidades poderão ajudar nos próximos desafios. Para fazer isso, uma sugestão é colocar no papel suas principais realizações e conquistas profissionais.

#4 BEM NA FITA

Além de atualizar o currículo e o perfil no LinkedIn, é preciso se preparar para as entrevistas de emprego. E tente se acostumar com as dinâmicas em vídeo – o novo normal durante a quarentena. Dá para treinar gravando vídeos de si mesmo, que devem ser assistidos com o objetivo de melhorar a performance.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA OUTRA PANDEMIA

O consumo de drogas explode na crise do novo coronavírus como reflexo do medo de adoecer, do desespero com a perda de renda e das incertezas sobre o futuro

A pandemia do novo coronavírus deixará profundas sequelas em todos os setores da sociedade, mas algumas pessoas sofrerão ainda mais: aquelas que abusam das drogas. Nos meses de isolamento social, hospitais de diver­sas regiões do país testemunharam um triste fenômeno. Segundo levantamento realizado, houve um aumento expressivo nos atendimentos de dependentes químicos durante a quarentena. Dados do Ministério da Saúde mostram que, nas redes credenciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o socorro por uso de alucinógenos cresceu 54% de março a junho, em comparação com o mesmo período do ano passado. Sob qualquer ângulo que se olhe, trata-se de um avanço espantoso. Na história recente, raras foram as vezes que aumentos do tipo foram registrados, o que pegou de surpresa inclusive profissionais de saúde.

Não é só. As ocorrências por uso excessivo de sedativos subiram 50% em idêntico período. A tendência é mundial. Nos Estados Unidos, os casos de overdose avançaram 42% em maio, ante o mesmo mês de 2019. Outro estudo, dessa vez realizado em diversos países, inclusive no Brasil, detectou que o consumo de maconha cresceu 36% no primeiro semestre. Os números, já alarmantes, tendem a ser ainda piores. Segundo Nívio Nascimento, porta-voz do escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes no Brasil, usuários de drogas podem inclusive ter deixado de procurar os serviços de saúde por receio de contaminação.

Diversas razões explicam a disparada do uso de drogas durante a pandemia. A primeira delas é óbvia: a depressão desencadeada pela crise de saúde mais traumática a permear a humanidade em pelo menos um século. A obrigação de ficar recluso por períodos longos, o medo de adoecer – e de morrer, diga-se -, a perda do emprego, a queda da renda e as brutais incertezas sobre o futuro não só causam uma natural angústia como levam muita gente ao desespero. Daí para o desembarque no mundo sombrio das drogas é um caminho fácil e rápido. “Os sentimentos ruins trazidos pelo isolamento certamente podem levar ao aumento da busca por substâncias entorpecentes”, reforça Clarissa Corradi-Webster, professora de psicologia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do tema.

A história ensina que, nos momentos de grande aflição, a tendência é sempre essa. Foi assim na crise de 2008 nos Estados Unidos, quando milhões de indivíduos perderam o emprego. À época, as autoridades notaram a intensa procura por químicos que pudessem fazer com que as pessoas esquecessem as dificuldades impostas pelo declínio econômico. Fenômeno idêntico foi observado após os atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo um relatório produzido pela Organização Mundial da Saúde, as elevadas taxas de stress associadas a acontecimentos catastróficos, como a pandemia do coronavírus, induzem invariavelmente ao uso abusivo de álcool e drogas e, nos casos mais dramáticos, ao comportamento suicida.

Outro motivo para o aumento explosivo do consumo de drogas nos últimos meses é resultado direto das restrições de circulação. Com muitos grupos de apoio fechados, sem poder realizar suas habituais reuniões, as pessoas que precisam de ajuda não conseguiram encontrar o suporte indispensável, o ombro amigo ou a palavra apaziguadora. “Acompanhamentos terapêuticos foram interrompidos pelo isolamento, o que ampliou para os dependentes a sensação de desamparo”, explica a psicóloga Clarissa Corradi-Webster. Sem esse tipo de auxílio, é de esperar que o consumo de drogas aumente, fazendo crescer o número de dependentes e a quantidade de recaídas de indivíduos em recuperação. É um processo automático.

Foi o que aconteceu com Júlio C.N., um conselheiro terapêutico de 42 anos que vive em São Paulo. Usuário de drogas desde os 16 anos, e com um longo histórico de internações, ele vinha mantendo a sobriedade até a pandemia chegar. Em março passado, a depressão agravou-se e ele não resistiu mais. “Usei 5 gramas de crack na Cracolândia no dia 22”, diz, ressaltando a data exata que o fez retornar ao seu inferno particular. “A recuperação é um processo contínuo. Com a falta de reuniões presenciais, não consegui segurar as pontas.” Para evitar novas recaídas como a de Júlio, alguns grupos ligados aos Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos ampliaram suas ações pela internet. Nem todos os dependentes, porém, conseguem manter a sobriedade apenas fazendo consultas a distância, o que reforça os imensos desafios para atacar o problema em um cenário de pandemia.

Para quem acabou de sair de um período de tratamento, é um tremendo esforço manter-se longe das drogas enquanto o planeta parece ruir. O pequeno empresário Rafael Adão, 36 anos, retornou à vida normal em maio, após três meses de internação em uma clínica especializada. Isolado do mundo real e convivendo apenas com pessoas em situações similares à sua, ele não tinha noção da gravidade do coronavírus nem do que esperava por ele do outro lado dos muros da clínica. “Foi como viver em uma ilha”, diz. Agora, precisa lutar para não ceder ao crack, que o dominou durante boa parte de sua existência.

Como ocorreu com algumas atividades comerciais lícitas, o negócio das drogas também prosperou com o aumento da demanda durante a pandemia. De acordo com o Ministério da Justiça, a quantidade de drogas apreendidas nas fronteiras brasileiras multiplicou-se por doze entre janeiro e junho. “Não me lembro de um evento que tenha tido um impacto tão grande sobre o tráfico e o consumo de drogas como a pandemia do coronavírus”, afirma Eduardo Bettini, coordenador de fronteiras do ministério e que fala do alto de uma longa experiência no ramo. “Esse tipo de mudança no comportamento dos usuários costuma demorar anos ou décadas. Desta vez, foram poucos meses.” O mercado se adaptou rapidamente à crise. No Distrito Federal, para preservar as regras de distanciamento, os traficantes desenvolveram um sistema de drive-thru que permite aos usuários comprar cocaína e maconha sem descer do veículo.

O fechamento de bares e restaurantes também impulsionou o consumo. É o que diz a artesã Diana dos Santos. Seu filho é viciado em crack e cocaína e não quis ficar com ela em casa porque a mãe o obrigou a usar máscara e a adotar outros procedimentos de segurança. O rapaz preferiu morar na rua e sobreviver de restos de comida dos restaurantes. “Como eles estavam fechados, ele recorreu às drogas para compensar a fome.” Uma pena. O consumo de alucinógenos é mais um inesperado efeito colateral da pandemia.

EU ACHO …

A DESIGUALDADE TEM O ROSTO DE UMA CRIANÇA

O Brasil não tem dedicado todos os seus maiores esforços a essa etapa tão crucial da vida, que deveria ser considerada a grande janela de oportunidades para a garantia de um futuro melhor

É em meio a crises como a atual que problemas históricos marcantes de nosso país acabam vindo ainda mais à tona, atingindo feridas profundas que sempre existiram, mas que se tornam mais graves em circunstâncias muito adversas. Entre esses problemas está a imensa desigualdade brasileira, que a cada dia se desenha com mais clareza em nossa sociedade. Olhar para essa questão é também olhar para a infância, que pode ser considerada a etapa mais vulnerável da vida no Brasil.

É justamente na infância que a brutal desigualdade expõe uma de suas faces mais cruéis, ao aniquilar a possibilidade de futuro para um contingente tão significativo de brasileirinhos e brasileirinhas. Pois, no país, não bastassem as condições desiguais que já envolvem raça e gênero, discriminamos também por idade. Em nosso país, crianças não só representam a parcela mais pobre da população, mas também a menos amparada por investimentos realizados pelo Estado, de acordo com dados inéditos organizados pela Cátedra Instituto Ayrton Senna no Insper.

Segundo o estudo, liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros, cerca de 20% de toda a população infantil brasileira, ou seja, mais de 5 milhões de crianças de O a 10 anos, faz parte da parcela mais pobre de nossa sociedade (representada pelos 10% com menor renda). Essa porcentagem cai para 10% entre jovens de 20 anos e para 1% entre idosos com 65 anos ou mais. Crianças representam, portanto, o maior porcentual de vulneráveis, considerando todas as outras faixas etárias da população.

São incontáveis as evidências científicas que mostram as implicações futuras que a ausência de atenção para essa etapa da vida pode ocasionar. Afinal, é na infância que importantes conexões cerebrais acontecem numa velocidade incrível, impulsionadas por estímulos físicos, socioemocionais e cognitivos. A precariedade dessa atenção, mais comum em ambientes comprometidos pela desigualdade social, tende a produzir efeitos negativos que se ampliam ao longo dos anos. Portanto, a infância deveria ser considerada a grande janela de oportunidades para a garantia de um futuro de maior qualidade nas mais diversas áreas da vida, assim como para a construção de uma sociedade brasileira mais inclusiva, produtiva e equitativa.

Infelizmente, o Brasil não tem dedicado todos os seus maiores esforços a essa etapa tão crucial. O estudo da Cátedra Instituto Ayrton Senna no Insper também identificou um gritante descompasso nos investimentos públicos dedicados às diferentes faixas etárias. Para se ter uma ideia, em nosso país os recursos destinados à população de 65 anos ou mais são seis vezes maior que o montante repassado às crianças, enquanto na grande maioria das outras nações pesquisadas essa proporção cai pela metade, ou seja, é apenas três vezes maior. Como consequência disso, crianças brasileiras que estão entre os 10% mais pobres de nosso país vivem com menos de 7 reais por dia, enquanto brasileiros de 65 anos que integram o grupo dos 10% mais ricos do país vivem com uma renda média 33 vezes superior, de 233 reais diários. A conclusão disso é um desequilíbrio contundente e preocupante: estamos fazendo um grande desinvestimento nas crianças, tornando ainda mais vulnerável a parcela mais desamparada de nossa sociedade, quando deveria ser priorizada em relação aos nossos cuidados, suporte e atenção.

Para além desse quadro, é consenso entre especialistas que a pandemia do novo coronavírus poderá agravar ainda mais a atual disparidade. Parte do investimento que é feito diretamente na infância passa pela oferta do serviço da educação pública, algo que não tem necessariamente chegado às crianças mais pobres, especialmente durante esta crise atual. Afinal, parcela relevante entre elas nem sequer possui condições de prosseguir com as aulas a distância, seja pela falta de estrutura tecnológica, seja pela ausência de estrutura familiar ou de rede de apoio. É preciso também considerar que o cenário pós-pandemia tende a agravar as dificuldades, levando em conta a possibilidade de aumento no abandono e na evasão escolar, especialmente num ambiente seriamente comprometido pelo desemprego e subemprego em meio à retração econômica.

Um caminho possível para virar esse jogo e que ajudaria a reparar as consequências futuras decorrentes das nossas más escolhas em relação à infância seria, minimamente, garantir os benefícios intangíveis da educação. Afinal, a escola é um poderoso meio de ascensão social e de diminuição das disparidades, e só estará cumprindo efetivamente seu papel quando for oferecida com qualidade. Mas, infelizmente, isso é algo que também não vem acontecendo por aqui. Basta olhar os dados da última Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), que mostram que mais da metade dos alunos que concluem o 3º ano do ensino fundamental estão abaixo do desempenho mínimo esperado para leitura e matemática, aos 8 anos de idade.

Isso só reforça o desafio gigantesco que temos como poder público e sociedade. Se soubermos nos mobilizar, toda essa adversidade que vivemos pode ser também uma oportunidade para nos reinventarmos, redesenhando nossas escolas em direção a uma aprendizagem com mais valor e significado. Mas, se nada for alterado nesta dura realidade, continuaremos condenando duplamente as nossas crianças, especialmente as mais vulneráveis, tanto pela ausência de investimentos robustos e esforços certeiros quanto pela nossa incapacidade de oferecer a elas uma educação de qualidade. É fundamental reforçar que não cuidar da infância é simplesmente descartar o futuro. Assegurar a ela a oferta irrestrita da educação pública comprometida com o desenvolvimento pleno é muito mais do que um direito garantido em lei. É também a saída de compensação dessa clara desigualdade que afeta milhões de crianças brasileiras. Não podemos mais naturalizar e nos acostumar com essas diferenças tão latentes, ou continuaremos a limitar as chances de um futuro cheio de oportunidades e possibilidades de escolha para as novas gerações de brasileiros.

***VIVIANE SENNA

OUTROS OLHARES

BOMBA-RELÓGIO

A destruição de postos de trabalho empurra milhões de brasileiros para a informalidade e o desalento, potencial ambiente de convulsão

Vanessa Cristina Teixeira dos Santos, de 38 anos, é atriz, dubladora, percussionista e cantora lírica, mezzo soprano. Com apoio do projeto Sonora Brasil, do Sesc, tinha uma turnê musical programada para estados do Norte e Nordeste de março a dezembro, pelo grupo Líricas Negras. O avanço do coronavírus no Brasil, hoje o epicentro da pandemia global, levou ao cancelamento das apresentações. Da noite para o dia, a artista viu todas as portas se fecharem. “Eu também toco na banda do Ilú Obá de Min e faço parte do Grupo Saracura, que promove humanização hospitalar por meio da música. Tudo está suspenso. Neste último caso, devido ao risco de exposição ao vírus, só devemos voltar quando houver uma vacina disponível”, lamenta Negravat, como é conhecida no meio artístico. Após três angustiantes meses, ela conseguiu vencer a burocracia e ter acesso ao auxílio emergencial pago pelo governo. O valor é, porém, insuficiente para quitar as despesas básicas, como aluguel e alimentação.

“Foi quando eu pensei: bom, tenho uma scooter, amo pilotar, posso trabalhar com isso. Consegui fechar parcerias com empresas para fazer entregas particulares, de roupas a produtos de artesanato”, conta. Bastaram três semanas no novo ofício, pelas ruas de São Paulo, para sentir o peso da instabilidade. “Em alguns dias tem bastante trabalho. Em outros não aparece nada. Ainda assim, fujo dos aplicativos, pois sei a exploração a que meus colegas estão submetidos”, afirma. “Por ser mulher, negra, lésbica e, além de tudo, cantora lírica, há tempos tenho essa postura de resistência. É preciso vencer a barreira das grandes empresas que dominam o mercado.”

Negravat sabe que o setor cultural será o último a reabrir. Por isso, não tem esperança de encontrar trabalho no seu ramo até o fim do ano, nem perde mais tempo procurando algo. Assim, mesmo se fosse entrevistada por um pesquisador do IBGE, dificilmente entraria na estatística oficial de desemprego aberto. O instituto considera desempregado apenas quem está desocupado e procurou trabalho nos 30 dias anteriores à semana em que os dados foram coletados. Por conta desse critério, o “faz-tudo” Igor Luís Víctor da Silva, de 40 anos, também ficaria fora. Desde que perdeu o emprego no setor administrativo de uma transportadora em novembro de 2017, curiosamente o mesmo mês em que a reforma trabalhista de Michel Temer entrou em vigor, ele nunca mais encontrou emprego na sua área. Sobrevive de bicos.

Foi a necessidade que o obrigou a desenvolver múltiplos talentos. Quem o vê com as mãos sujas de graxa na oficina de um amigo, no Bairro do Limão, Zona Norte da capital paulista, não imagina que o trabalhador encarnou o papel de garçom de buffet, auxiliar de cozinha, churrasqueira de festas e faxineiro. Todos trabalhos informais, sem direitos nem benefícios. O único emprego com carteira assinada que conseguiu nos últimos dois anos foi como repositor de mercadorias em um supermercado. Durou pouco. “Fiquei 43 dias no serviço. Aí veio a pandemia e fui incluído na primeira leva de demitidos.” A mulher, diarista, também perdeu a maior parte de sua renda. De todos os clientes, fixos ou eventuais, apenas um se dispôs a manter os pagamentos. Trata-se de instituição religiosa, que também tem oferecido cestas básicas à família em apuros. “Tenho dois filhos, não posso depender apenas do auxílio emergencial. Minha caçula, de 11 anos, está estudando em casa, a distância. Não dá nem para cancelar a internet para aliviar o orçamento.”

A perspectiva é desoladora. Por causa da dificuldade de realizar as entrevistas em meio à pandemia, o IBGE adiou a divulgação dos dados do desemprego em junho, que seriam revelados na quarta-feira 29. A última pesquisa apontava uma taxa de desocupação de 12,9% no trimestre encerrado em maio, ou 12,7 milhões de brasileiros, com o fechamento de 7,8 milhões de postos de trabalho em relação ao trimestre anterior. Os especialistas alertam, porém, que o indicador está subestimado, pelo gigantesco número de desalentados, brasileiros que querem trabalhar, mas desistiram de procurar emprego.

Com o fim do distanciamento social e do auxílio emergencial, o desemprego deve alcançar ao menos 16% da população, projetam diferentes analistas. Em entrevista, o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, reconheceu que a taxa de desocupação deve ter um repique em setembro. “O desemprego já aumentou, os dados é que não mostram isso”, admitiu. “Muitas pessoas que perderam o emprego estão classificadas hoje como população fora da força de trabalho, pela metodologia do IBGE. Elas não o procuram porque sabem que não adianta. Tão logo reabra a economia, o desemprego vai dar um pulo.”

O mercado de trabalho deteriora-se de forma acelerada. Entre o início de maio e a primeira semana de julho, o Brasil perdeu 2,1 milhões de ocupações, segundo a Pnad Covid-19, pesquisa do IBGE para mensurar os impactos da pandemia na economia e na saúde. Com isso, o nível de ocupação chegou ao menor índice da série histórica. Apenas 48,1% dos brasileiros em idade para trabalhar estão efetivamente ocupados. Da população fora da força de trabalho, 19,4 milhões gostariam de trabalhar, mas não o fizeram por causa da pandemia ou por não encontrarem uma ocupação onde moram. A taxa de informalidade foi estimada pelo instituto em 34,2%.

“Hoje, temos quase 131 milhões de desempregados. Se somar o contingente daqueles que desejam trabalhar, mas não estão procurando emprego no momento, estamos falando de mais de 30 milhões de brasileiros”, observa o economista José Dari Krein, professor da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho. “É uma situação sem precedentes. Em 2015 e 2016, o PIB despencou 7,2%, e nunca recuperamos os postos de trabalho perdidos. De lá para cá, a melhora foi inexpressiva. E a pandemia contribuiu para desorganizar ainda mais o mercado de trabalho.”

O economista lembra que foram celebrados mais de 15 milhões de acordos de redução salarial ou suspensão da jornada de trabalho por conta da MP 936, cuja prorrogação não está nos planos do governo. “Muitas empresas suspenderam o contrato porque era mais barato do que demitir. Quando o benefício perder a validade, teremos uma onda de demissões. Isso, se a empresa não falir sem pagar os funcionários”, afirma Krein. Não bastasse, o ministro da Economia, Paulo Guedes, parece apostar todas as fichas em uma flexibilização ainda maior da legislação trabalhista. Nos planos do governo figura até a liberação de contratos por hora, sem recolhimento de FGTS nem do INSS. “Em toda crise, é o mesmo discurso: ‘Quer emprego? Então é preciso ter uma relação de trabalho próxima da informalidade’. Só que, do ponto de vista prático, olhando para a história brasileira, essa promessa nunca foi cumprida. Onde estão os 6 milhões de empregos prometidos por Temer e Henrique Meirelles?”

De fato, as reformas tocadas desde a deposição de Dilma Rousseff não foram capazes de alavancar a economia. Após a recessão de 2015 e 2016, o PIB cresceu mero 1% ao ano até 2019. No trimestre encerrado em novembro de 2017, quando a reforma trabalhista de Temer e Meirelles entrou em vigor, a taxa de desocupação era de 12%. Em janeiro de 2020, quando o coronavírus não passava de uma ameaça distante, o desemprego alcançava 11,2% da população. A diferença corresponde a cerca de 700 mil postos de trabalho, oito vezes menos que o prometido.

“Claro que não dá para atribuir o desempenho da economia somente às mudanças na legislação trabalhista, mas ela contribuiu para o PIB raquítico. O consumo das famílias, para citar um exemplo, caiu bastante, devido à queda na renda do trabalhador e até em função dos contratos precários, que dificultam o acesso ao crédito”, observa Krein. “O que gera emprego é crescimento. Se o empresário não tiver confiança de que haverá demanda, ele diminui a produção e dispensa mão de obra. A redução de direitos trabalhistas apenas precariza o trabalho.”

Aos poucos, os “empreendedores”, como a mídia costuma tratar trabalhadores empurrados para a informalidade, se dão conta do engodo. No sábado 25, os entregadores de aplicativos fizeram a segunda paralisação nacional da categoria por melhores condições de trabalho, embora as empresas de tecnologia os considerem apenas usuários das plataformas, e não empregados – uma farsa com o beneplácito do Judiciário. A insatisfação é tanta que um grupo tenta construir uma cooperativa no Rio de Janeiro para garantir aos trabalhadores direitos essenciais, como descanso semanal ou auxílio em caso de afastamentos por acidentes ou problemas de saúde.

Eduarda Alberto, de 24 anos, é uma das idealizadoras do projeto. Bartender até o início da quarentena, ela passou a fazer entregas com sua moto. “Na época, meu namorado estava parando de trabalhar para os apps, cansado da exploração. Então, desde o início, tentei correr por fora”, diz a jovem integrante do grupo Entregadores Antifascistas, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O maior desafio para viabilizar a cooperativa é justamente o desenvolvimento de um aplicativo para gerenciar os pedidos de entrega.

O grupo pretende apropriar-se da tecnologia desenvolvida pela CoopCycle, uma federação que reúne 30 cooperativas de entregadores na Europa e no Canadá. “Precisamos fazer adaptações. Por causa da topografia, os europeus atuam mais com bicicletas, o que é inviável aqui. Precisamos traduzir tudo para o português e adequar o sistema de pagamentos”, explica. Alheio ao drama do desemprego, Jair Bolsonaro tenta empurrar a fatura da crise para os estados e municípios que adotaram medidas de distanciamento social na esperança de conter o avanço do coronavírus. Em ofício encaminhado ao presidente na segunda-feira 27, o governador do Maranhão, Flávio Dino, propôs a criação de um Pacto Nacional pelo Emprego, a ser debatido com entidades empresariais e sindicais. Bolsonaro reagiu com deboche. “Tem governador agora que quer que eu faça um pacto pelo emprego. Mas ele continua com o estado dele fechado”, disse o ex- capitão durante conversa com seus seguidores na saída do Palácio da Alvorada.

Em abril, um grupo de economistas liderado por Esther Dweck, professora da UFRJ, projetou os impactos econômicos da pandemia. A equipe trabalhou com três cenários. O primeiro previa uma crise em V, com rápida recuperação da atividade econômica, após um período eficaz de isolamento social. O cenário de referência, por sua vez, vislumbrava uma reabilitação em U, com retomada lenta após um período prolongado de distanciamento social. Por fim, o cenário pessimista previa uma recuperação em L ou U prolongada, marcada por vagarosa retomada da atividade econômica a partir de 2021, após o fracasso das medidas sanitárias. “Estamos atualizando os dados, mas não temos observado mudanças significativas nas projeções”, diz Dweck. “Apenas descartamos o cenário otimista, porque ele é irreal.”

Neste caso, o Brasil deve perder de 8,2 milhões a 14,7 milhões de postos de trabalho em 2020. “Não há sinalização alguma de que o governo vai tomar medidas efetivas para estimular o crescimento da economia e, ao mesmo tempo, a pandemia induz a mudanças tecnológicas, em favor de uma maior automação do trabalho. A combinação desses dois fatores é explosiva para o mercado de trabalho”, lamenta Dweck. “Desde o início da pandemia, Bolsonaro tenta explorar a suposta dicotomia entre economia e medidas sanitárias, quando, na verdade, os países que fizeram uma quarentena mais séria conseguiram conter o avanço do vírus e retomaram as atividades econômicas de forma segura.” Epicentro global da pandemia, o Brasil acumula mais de 100 mil mortos e 3,2 milhões de infectados pelo coronavírus. Números oficiais e claramente subnotificados, convém sempre reforçar.

ENQUANTO ISSO…

…bilionários brasileiros ficam mais ricos na crise

A crise provocada pela pandemia do caronavírus inspira as mais sombrias previsões. Para o Banco Mundial, ela provocará a maior recessão desde a Segunda Guerra. O Fundo Monetário Internacional vislumbra a maior debacle desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. A OCDE, por sua vez, prevê a maior contração global em tempos de paz dos últimos cem anos, “com consequências sombrias e duradouras para as pessoas, empresas e governos”. A grande maioria da população brasileira sente na pele os impactos na perda de renda e trabalho, mas 42 compatriotas têm motivos de sobra para celebrar. Incluídos na lista de bilionários da Forbes, eles acrescentaram 34 bilhões de dólares às próprias fortunas entre março e julho deste ano, segundo a Oxfam.

Os dados constam no relatório “Quem Paga a Conta? – Taxar a Riqueza para Enfrentar a Crise da Covid-19 na América Latina e Caribe”, divulgado pela ONG na segunda-feira 27. Desde o início da quarentena, o continente ganhou um novo bilionário a cada duas semanas, “enquanto se estima que até 52 milhões de pessoas se tornarão pobres e 40 milhões perderão seus empregos neste ano”. Ao expor o contraste entre a bonança dos bilionários e o desamparo dos mais pobres, as principais vítimas do desemprego e também do coronavírus, a Oxfam alerta para a necessidade de uma reforma tributária capaz de desconcentrar renda no País.

“Entre a pífia proposta apresentada pelo governo federal e os discursos de lideranças do Congresso, que defendem uma reforma tributária voltada para a simplificação e a melhora do ambiente para investimento, a maioria da população é escanteada mais uma vez”, lamenta Kátia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. “É como se a maioria da população não tivesse o direito a uma vida digna.” De fato, o abismo social só se aprofunda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE AGOSTO

EU AINDA ANSEIO VER

Restabelece-nos, ó Deus da nossa salvação… (Salmos 85.4a).

Ainda anseio ver uma igreja ortodoxa e piedosa. Uma igreja que tenha palavra e poder, uma igreja que tenha doutrina e vida. Ainda anseio ver aqueles que conhecem a verdade sendo transformados por ela a ponto de se tornarem pessoas humildes, e não arrogantes. Ainda anseio ver uma igreja cujas obras provem a sua fé e cuja fé honre ao Senhor. Ainda anseio ver uma igreja que pregue com fidelidade, ensine com autoridade e louve a Deus com fervor. Anseio ver uma igreja em que Jesus tenha supremacia e as pessoas sejam verdadeiramente amadas. Ainda anseio ver uma igreja em que a doutrina dê as mãos ao fervor, a ortodoxia se vista com a túnica da santidade, a reforma desemboque no reavivamento. Estou cansado de ver o povo de Deus bandeando para um extremo e para outro. Aqueles mais zelosos da doutrina não raro são os mais apáticos no fervor. Aqueles que mais conhecem menos fazem. Aqueles que têm mais luz muitas vezes são os que têm menos calor. Aqueles que estadeiam sua cultura são os que menos refletem a doçura do Salvador. Ah! Ainda anseio ver uma igreja firmada na doutrina dos apóstolos, que ore e cante com entusiasmo. Uma igreja que tenha temor de Deus e alegria do Espírito. Uma igreja com profunda comunhão interna e grande simpatia dos de fora.

GESTÃO E CARREIRA

NA SAÚDE E NA DOENÇA

O sistema hospitalar brasileiro possui falhas que estão sendo expostas com a crise do coronavírus. E foi em meio ao caos que surgiu a necessidade de valorizar os profissionais de engenharia clínica.

A crise do coronavírus trouxe à tona a fragilidade do sistema de saúde brasileiro. O relatório Cenário dos Hospitais no Brasil, realizado pela Federação Brasileira de Hospitais e pela Confederação Nacional de Saúde, identifica que, em 2019, o país contava com 1,95 leito hospitalar para cada 1.000 habitantes – muito longe da média mundial, que é de 3,2. Além disso, os hospitais brasileiros ainda sofrem com a falta de equipamentos ou de manutenção, colocando a vida dos pacientes em risco.

Para cuidar desses aspectos, existe um profissional­ chave: o engenheiro clínico. “Essa é uma posição estratégica nas unidades de saúde. É quem acompanha todo o ciclo de vida dos equipamentos, além das novas tecnologias disponíveis no mercado e as instalações do hospital”, diz Alexandre Ferrelli, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Clínica (Abeclin). “A profissão começou a ganhar importância no país na década de 1980, mas com a pandemia ficou evidente a necessidade da aparelhagem correta do hospital e da manutenção em dia.”

O engenheiro clínico também auxilia em obras de reforma e de ampliação, gerencia os resíduos sólidos e trabalha com o financeiro para tornar o hospital mais eficiente em termos de custos. E a especialização é fundamental para exercer a função. “É preciso saber sobre anatomia, fisiologia, equipamentos médicos, ferramentas de gestão e estar por dentro dos jargões”, diz Antonio Gilbertoni Junior, coordenador da pós-graduação em engenharia clínica do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein. Segundo ele, um hospital que tenha entre 100 e 200 leitos e seja de média complexidade exige uma equipe de engenharia de dez pessoas para trabalhar 24 horas.

Engenheiro eletrônico de formação, Marcelo Bonfim, de 53 anos, se especializou para trabalhar na saúde. Hoje, é gerente de engenharia clínica do Hospital Sírio-Libanês. “Resolvi apostar e já são 25 anos de profissão. O hospital parece uma minicidade e a estrutura é complexa”, diz. Atualmente, sua rotina é voltada para a gestão, mas, quando começou a carreira, seu foco era a operação. “É necessário falar com os enfermeiros, assessorar as equipes médicas, vistoriar o centro cirúrgico, conhecer os aparelhos.” Para dar conta, a dica é estar sempre atualizado, estudando e participando dos congressos de medicina.

ROTINA DE TRABALHO

Horas trabalhadas: de 8 a 10 horas diárias

ATIVIDADES-CHAVE

Avaliar a vida útil e realizar a manutenção dos equipamentos do hospital; treinar a equipe que vai utilizar os equipamentos; acompanhar obras de reforma e ampliação; auxiliar na redução de despesas; gerir os resíduos sólidos.

PONTOS POSITIVOS

Influenciar as estratégias do hospital, conviver com todas as áreas (desde as equipes de saúde até as administrativas) e unir os conhecimentos de engenharia com os de saúde.

PONTOS NEGATIVOS

Ainda não há uma regulamentação da profissão. O que existe é uma resolução da ANVISA, feita em 2010, que exige a presença de um engenheiro clínico nos hospitais.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Graduações como Engenharia Biomédica, Elétrica, Mecatrônica, Mecânica e de Produção oferecem base de conhecimento, mas a especialização (como uma pós-graduação em Engenharia Clínica) é essencial para exercer a função.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Capacidade de agir sob pressão e de manter-se atualizado sobre novas soluções e tecnologias; atenção às mudanças que ocorrem no cenário da saúde.

DIVISÃO DO TEMPO

50% – GESTÃO ADMINISTRATIVA (acompanhamento de questões financeiras, aprovações e reuniões)

30% – GERENCIAMENTO DA EQUIPE (apoio para o time e orientações técnicas)

20% – INTERFACE COM OUTRAS ÁREAS (contato com médicos e enfermeiros para identificar as demandas)

VAGAS: 54

SALÁRIO: DE 5.618 A 8.533 REAIS

QUEM CONTRATA

Hospitais públicos e particulares, além de fabricantes de equipamentos de saúde e consultorias de engenharia clínica.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

LIBIDO EM BAIXA

Pesquisas mostram que, convivendo emtempo integral sob o mesmo teto, os casais têm feito menos sexo – situação que exige empenho para ser revertida

A pandemia mexeu no modo como as pessoas trabalham, estudam, se divertem e intensificou a convivência entre aquelas que vivem na mesma casa. Com tantas e profundas mudanças, é natural que as relações humanas também tenham sido afetadas. Uma pesquisa intitulada Emoções em Quarentena, conduzida pela consultoria Wonderboom, debruçou-se com lupa científica sobre o tema. Durante treze semanas, estudou, a partir de depoimentos, os sentimentos dos brasileiros no período de isolamento. Ao responder ao questionário, 70% dos entrevistados cariocas declararam ter diminuído o ritmo das relações sexuais ou mesmo estar em abstinência (a média nacional foi de 72%). “No momento atual, a ansiedade está muito presente. Ela, por sua vez, pode provocar insônia, que gera cansaço e stress. Esse somatório de fatores resulta na queda da libido e na consequente diminuição das atividades sexuais”, analisa o médico Fabiano Serfaty, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Apenas 11% afirmaram que a assiduidade na cama aumentou. Não foi o caso do radialista L.M., 37 anos. Em nome da privacidade, ele prefere manter o anonimato, mas trata do assunto com rara franqueza. Casado há onze anos e com um filho adolescente de uma relação anterior, teve um momento de animação quando a quarentena foi decretada. Acreditava que viveria uma segunda lua de mel. Conta que acabou diante da pia de louça suja na cozinha e ainda cheia de compras do mercado para desinfetar. Lado a lado com a mulher 24 horas por dia, os conflitos foram se tornando cada vez mais recorrentes. “Convivendo mais, acabamos brigando mais. Conto nos dedos de uma mão quantas vezes fizemos sexo desde que o isolamento começou. O jeito é abrir uma cerveja, jogar videogame e espantar os pensamentos carnais da minha cabeça”, desabafa.

Apesar de não ser o foco central da pesquisa, as questões relacionadas a sexo (e à falta dele) acabaram despertando grande interesse por parte dos entrevistados, que foram instados a sugerir perguntas para as próximas sondagens. “Muitos querem saber mais sobre a rotina sexual das outras pessoas, um indicador de que estão refletindo sobre isso e têm suas aflições”, analisa a pesquisadora Camila Coelho, que comandou o estudo brasileiro. O trabalho vai mais adiante. Em relação à libido, aponta que quase metade dos confinados com parceiro e sem filhos percebeu uma diminuição do desejo sexual durante o confinamento imposto pela pandemia.

Esse não é nem de longe um fenômeno exclusivamente brasileiro. Um estudo feito na China e publicado no The Journal of Sexual Medicine concluiu que uma em cada quatro pessoas reduziu o desejo sexual desde que o novo coronavírus apareceu no planeta. Na Itália, uma pesquisa com mulheres casadas beirando os 40 anos mostrou que a pandemia e o consequente distanciamento social influenciaram negativamente a qualidade de sua vida sexual. “Isso é absolutamente normal, na medida em que o desejo é resultado de uma predisposição mental. Se manter o sexo vivendo sob o mesmo teto já exige normalmente criatividade, isso se torna ainda mais desafiante quando o medo da morte, o luto, as contas, entre tantas preocupações simultâneas, tomam o nosso pensamento”, observa a psiquiatra Analice Gigliotti.

Outro desdobramento da convivência em tempo integral é que a individualidade sai prejudicada, assim como o senso de liberdade. “Tenho recebido muitos relatos de pacientes que se sentem sufocados, principalmente as mulheres, em geral as mais dedicadas aos cuidados com a casa e os filhos. É difícil mesmo ressuscitar o desejo nesta confusão”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins. Casada há um ano e meio e sem filhos, M.H., 30 anos, viu “uma luz de alerta piscar” quando se deu conta de que estava há mais de quinze dias sem sexo no isolamento. Chamou o marido para conversar. Ele foi direto: disse que vinha se sentindo “jogado para escanteio”. “No isolamento, os dias são muito iguais, apesar de as nossas emoções oscilarem o tempo todo. É diferente de quando a gente tinha uma rotina de sair, encontrar nossos amigos, beber e voltar para casa mais animadinhos e inspirados para uma noite a dois”, compara a jovem recém-casada.

Um desafio para casais que encaram a quarentena juntos é fazer do tempo que passam a sós um momento verdadeiramente íntimo, sem distrações tão comuns, como celular e televisão. O fotógrafo carioca Pedro Garcia, que comanda o perfil Cartiê Bressão no Instagram, sentiu o baque. Longe da rua, seu espaço de criação, e com um bebê de menos de 2 anos, ele e a esposa, a cantora Lila, buscaram na música uma forma de aproveitar o pouco tempo que sobrava para os dois. Nasceu assim o projeto Noite Transante, com playlists criadas pelos próprios artistas, como Alcione, Letrux e Duda Beat, para ajudar os casais a aquecerem o clima em casa.

“É praticamente um serviço de utilidade pública nos dias de hoje”, brinca o fotógrafo. A lista de Mart’nália, por exemplo, pulsa desde o som da cantora nigeriana Sade ao suingue do fenômeno baiano Baco Exu do Blues, percorrendo gigantes da MPB como Caetano Veloso e Djavan.

Um interessante efeito colateral da baixa nas relações sexuais dentro de casa é a efervescência no mercado brasileiro de sex shops: entre março e maio, enquanto muitos setores apanhavam com a crise, esse crescia 4% em relação a 2019. Um marco foi a venda de 1 milhão de vibradores, item que pela primeira vez figura no topo do ranking dos produtos mais buscados neste segmento. Segundo a pesquisa Mercado Erótico na Pandemia, que ouviu empresários do ramo no Brasil, os principais compradores do apetrecho são homens e mulheres casados, de 18 a 35 anos, buscando novas formas de encontrar o prazer. “Neste momento, qualquer esforço para reacender a chama é válido. E numa relação longa, como se sabe, ela vai e vem”, lembra a psiquiatra Analice Gigliotti.

REFLEXOS DA PANDEMIA

Como está a frequência das relações sexuais dos entrevistados

EU ACHO …

PODEMOS SUCUMBIR À PESTE DA IGNORÂNCIA

Somos animais conectados que temem sucumbir à morte pela fome. Isolamento, quarentena e pandemia são gatilhos de medo que nos advertem para manter o caro metabolismo da vida funcionando. Precisamos viver, mas… e se faltar comida!? Emotivos, corremos às compras, abastecemos a despensa, entupimos a geladeira e, por um dia ou dois, nos convencemos a não desfalecer.

Um filé grelhado marca nossa evolução mais do que possamos imaginar. Cozinhar nos manteve vivos, saudáveis e mais inteligentes. No entanto, mesmo passados 160 mil anos, códigos de comportamentos “caçador e coletor” estão ainda impregnados em nossos genes e cérebro. Esse aparato embutido na caixa craniana mantém ativo um complexo sistema de estímulo e recompensa; uma batalha interminável povoada por dopamina, serotonina, norepinefrina… E comida! Olha ela de novo.

Entre estímulo e recompensa estão os hábitos reprogramados pela Covid-19. Compartilhamos fotos de gôndolas vazias, símbolos do inconsciente coletivo do medo da fome: falta álcool, falta papel higiênico, falta feijão! Mas não falta, só não demos tempo de serem repostos. Incapazes de caçar, coletar e cultivar, a esperança está no supermercado. E a imagem da prateleira vazia é um desserviço, pois cria a insensatez da estocagem, que desequilibra toda a cadeia de abastecimento e expõe seres humanos. Não nos cabe mais esse instinto egoísta de autopreservação. É preciso recalibrar as emoções ­— e educar é o melhor caminho. Não morreremos de fome pelo vírus, mas podemos sucumbir à peste da ignorância.

Fome é fome. Vírus é vírus. Estamos ressignificando o alimento e uma das nossas atividades mais básicas: comer. O coronavírus ataca os pulmões, mas também faz refletir sobre a importância do outro para nutrir a alma e, para nutrir o corpo, sobre como comemos, compramos alimento e cozinhamos. O vírus não consome o alimento, mas a nossa fantasia imaginária de onipotência. A comida, contudo, é a matéria que impulsionará alterações dos rituais de consumo nos próximos meses, porque não fomos programados, como sapiens modernos, a lidar com a fome; e como capitalistas fomos educados a rejeitar o que não é sucesso. Como se não bastasse, nós, os habitantes do mundo virtual, preferimos mais os likes à qualidade do afeto. Caímos em nossa própria armadilha. E foi necessário um vírus para espirrar em nossa cara o quanto somos vulneráveis.

Corpos, mentes e cérebros na era do design inteligente sucumbem ao pavor do risco à sobrevivência da espécie. Somos chamados a resgatar a interação social que nos define como humanos, mas agora valorando a presença pela ausência. Educação dolorosa que aponta a colaboração social e orquestrada como única saída. Somos convocados a criar uma rede de segurança mundial contra um inimigo invisível que se manifesta em choque econômico, mortes e caos.

Um sujeito microscópico, coroado e desaforado, nos trancafiou em quarentena e nos obriga ao diálogo interior. Um vírus governa no momento em que, pela primeira vez em bilhões de anos, estamos alterando o jogo da vida com a biotecnologia e a Inteligência Artificial. Se o que nos trouxe aqui como espécie foi a diversidade biológica e genética, não temos o direito de empobrecer as gerações futuras. Nós, Homo sapiens, somos os únicos responsáveis pelo legado que dará sentido à vida daqui em diante. Para o surto haverá fim. Para o mal haverá cura. Para a fome, comida. Mas, atente-se: o medo que nos ameaça não pode ser recompensado por pão. Estamos desfalecendo não pelo vírus, não pela fome, mas por termos perdido a capacidade de ver, no outro, um reflexo de nós mesmos.

OUTROS OLHARES

VEM AÍ UMA ESCOLA DIFERENTE

 A preparação para a volta às aulas com o vírus ainda rondando intensifica o debate sobre o ensino on-line. Poucos gostaram da experiência, mas ela é inescapável – e isso pode ser bom.

As aulas mal haviam começado no Brasil em 2020 quando a pandemia chegou e todas as escolas fecharam. Presos em casa, pais, alunos e professores precisaram se adaptar de uma hora para outra ao ensino on-line – e muita gente não ficou satisfeita. Foram meses de aulas marcadas por distração, tédio e pouco aprendizado de um lado e um esforço nem sempre recompensado de outro. Isso, quando havia conexão decente: um em cada quatro brasileiros não tem sequer acesso a internet. Agora que se começa a falar no retorno à sala de aula, outras questões despontam no desconhecido mundo que se avizinha. Como manter o tão recomendado distanciamento social? Como saber quanto cada um verdadeiramente assimilou em casa? E como, afinal, recuperar o conteúdo perdido?

Enquanto os planos vão sendo traçados, duas certezas se cristalizam. Uma delas é que o ensino tal qual o conhecíamos deixará de existir por um bom tempo, talvez para sempre. A outra é que a educação remota, que a necessidade forçou sobreas pessoas, veio para ficar, por ser a única forma – de abranger todos os alunos ao mesmo tempo. A perspectiva pode soar assustadora, pela má impressão inicial que o aprendizado eletrônico deixou, mas ela tem o mérito de pôr o ensino pela internet na torre de lançamento para uma muito anunciada e nunca materializada transformação da educação. “Crises são aceleradoras de futuro. Estamos assistindo ao princípio de uma revolução”, diz Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Enquanto a amplitude dessa revolução vai sendo construída, o sentimento predominante entre pais e alunos é de que o ano escolar está perdido. Os números são vagos no Brasil, mas uma pesquisa americana mostra que o estudante médio iniciará o próximo ano letivo com um terço do progresso esperado em leitura e metade em matemática. O maior equívoco do ensino oferecido durante a pandemia foi tratá-lo como mera extensão da sala de aula, sem atentar para o fato de que, na internet, a sintaxe é outra. “A linguagem ali se aproxima da do entretenimento, mais veloz e mais coloquial”, observa João Marcelo Borges, diretor da ONG Todos Pela Educação.

Engatinhando na transição, a preocupação inicial das escolas foi migrar para as telas em tempo recorde. O SEB, um dos maiores grupos de educação básica do país, com 400 escolas, precisou treinar 6.000 professores em duas semanas. Treinamento é, de fato, ingrediente imprescindível: em pesquisa inédita realizada pelo Instituto Península, 88% dos professores disseram jamais ter lecionado a distância. “Tivemos percalços, como a conexão caindo e o microfone falhando. Com o tempo, as coisas foram se ajeitando,” relata Alessandra Dias, diretora pedagógica da rede mineira Coleguium. Na casa de Nina, 14 anos, e Sofia Kwaks, 17, alunas do carioca pH, dois computadores são compartilhados entre elas e os pais, ambos trabalhando em esquema de home office. “As manhãs são nossas. Logo nas primeiras semanas percebemos os professores que estavam à vontade e os que sofriam na sala digital”, conta Nina. A avenida das dificuldades em circular pela escola a distância tem duas mãos. “Ser nativo digital não é sinônimo de saber produzir nesse meio. Alguns alunos no princípio não conseguiam anexar um arquivo no e-mail ou escanear uma redação”, afirma Vicente Delorme, diretor de planejamento do pH.

A maioria dos pais relata impotênciadiante de filhos desmotivados. “Tentava manter o ritmo de aprendizado da escola, mas me descobri uma péssima professora”, lembra a influenciadora digital Mariana Bridi, 35 anos, casada com o ator Rafael Cardoso, 34, e mãe de Valentim, 2, que teve a matrícula adiada, e de Aurora, 5, que está na alfabetização de um colégio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e tem dois encontros virtuais por semana, de uma hora cada um, com a “tia” e os coleguinhas. Confinado em uma fazenda, o casal se reveza em frente à tela e na tentativa de ensinar Aurora a ler. “Não temos a didática de um professor, mas fazemos o melhor que podemos, sem stress”, diz Cardoso. Um dos pontos frágeis da educação doméstica são justamente as séries iniciais, por causa da falta de autonomia dos pequenos e do afastamento físico entre eles. “A ausência de interação social é uma grande desvantagem para as crianças menores”, alerta Tatiana Filgueiras, vice-presidente de educação e inovação do Instituto Ayrton Senna. Outro fio esgarçado é o último ano do ensino médio, pelo receio de que o estudante perca conteúdos essenciais às vésperas do Enem. “Tive medo de que minha filha ficasse desestimulada”, afirma a médica Ana Lodhia Almeida, 50 anos, mãe de Mila, 17, aluna do Colégio Farias Brito, no Ceará, que sonha seguir a mesma carreira. “Sinto falta dos amigos, mas fiquei ainda mais focada. Estudo o tempo inteiro,” afirma Mila.

A reação de Mila é uma mostra de resiliência, uma das célebres competências do século XXI – ao lado da resolução colaborativa de problemas, da adaptabilidade ao incerto e outras – que as escolas modernas têm incluído em seus currículos e que a sala de aula na cozinha de casa acabou, sem querer, estimulando. “Os estudantes tiveram de aprimorar a capacidade de organização, já que não havia professor monitorando”, pontua Katia Smole, diretora do Instituto Reúna e ex-secretária de educação básica do MEC. Ao longo da nova jornada, saíram na frente os alunos de instituições que já desenvolviam iniciativas sólidas na área, como a filial paulistana da internacional Avenues e as cariocas Eleva e Escola Americana. “Não tive problema com a mudança. Até pude aprender a mexer com outras ferramentas”, conta Beny Fuks, 11 anos, aluno da Escola Americana do Rio que, no confinamento, criou um canal no YouTube, onde já entrevistou personalidades como Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, e Joaquim Levy, ex­ ministro da Fazenda.

Os transtornos causados pela pandemia no ano escolar não deixaram carteira sobre carteira, infelizmente. Com as escolas fechadas, 1,5 bilhão de alunos ficaram em casa no planeta.

No Brasil, foram 47,8 milhões de estudantes da educação básica e 8,4 milhões de universitários. Entre os primeiros, os efeitos foram dramáticos, sobretudo na enorme parcela que frequenta a rede pública: segundo pesquisa do Datafolha encomendada pelo ltaú Social, pela Fundação Lemann e pela instituição Imaginable Futures, 58% dos pais consideram “muito difícil manter a rotina de estudos. Já no ensino superior particular (o público está sem aula de qualquer espécie), em que a educação a distância é bastante difundida, mais de 80% das escolas fizeram a transposição para a internet sem aparente problema. “A previsão é que, em 2022, teremos no Brasil mais alunos remotos do que presenciais, o que é inédito no mundo”, antecipa Celso Niskier, presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior.

Tudo continua fechado no Brasil, mas os governos estaduais e os colégios começam a montar o quebra-cabeça da volta. São Paulo acaba de anunciar a reabertura das redes pública e particular no dia 8 de setembro, com capacidade máxima de 35% nas escolas. O Rio de Janeiro prevê uma retomada gradual a partir de meados de agosto. Girar a engrenagem do retorno será operação complexa, envolvendo peças que vão do cuidado emocional de alunos e professores que perderam pessoas próximas à disposição física de tudo e todos para evitar o contágio. Com 9.000 alunos, o Colégio Visconde de Porto Seguro, de São Paulo, contratou a consultoria do Hospital Albert Einstein para criar um protocolo de biossegurança. Entre as medidas anunciadas estão a aferição de temperatura na entrada, o espaçamento entre carteiras e a troca de bebedouros por refil de garrafas. No geral, não se sabe quanto tempo a tomada de temperatura levará, se as crianças terão de usar máscara o tempo todo e como se fará com que as menores fiquem separadas umas das outras.

No aspecto pedagógico, o ensino híbrido, em parte on-line, em parte presencial, será etapa obrigatória da transmissão de conteúdo – enquanto uns estudam na escola, outros aprendem em casa (resta ver como se encaixará na rotina de pais que trabalham). “Temos de olhar com desapego para a escola que vigorava em março”, diz Tatiana Filgueiras, do Instituto Ayrton Senna. Experiências bem-sucedidas em outros países servem de bússola para as escolas brasileiras. Uma delas é o modelo criado em Israel pelo Instituto Weizmann, um dos mais reputados centros multidisciplinares do mundo. Chamado de 10-4, o método prevê que tanto os estudantes, no aprendizado, quanto seus pais, no emprego de cada um, intercalem quatro dias de atividade presencial com dez em casa. Na Coreia do Sul, a volta às aulas foi com divisórias de acrílico entre as carteiras e ocupação de um terço das salas. A Inglaterra dividiu as turmas: parte vai à escola na segunda e terça, parte na quinta e sexta. Quarta é dia de limpeza.

Superado o desafio da acomodação, os colégios terão de lidar com a inevitável defasagem no aprendizado. Haverá avaliações para saber o que foi absorvido e quem precisa do reforço de aulas extras, com extensão do ano letivo ou ampliação da carga horária. A Secretaria de Educação de São Paulo está estruturando um 4º ano do ensino médio, optativo para quem não entrar na faculdade. No ensino público, a tendência é diluir o conteúdo represado em 2021 e 2022. “A orientação agora é se concentrar no essencial de cada matéria, para que o aluno avance sem prejuízos”, explica Cecília Motta, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação.

A inédita adaptação universal ao ensino on-line abre espaço para que a educação, fortuna da humanidade, embarque em seu maior salto desde que o alemão Johannes Gutenberg inventou, no século XV, a prensa e os tipos móveis de metal que permitiram a impressão em grande escala. Até então, o modo de ensinar seguia basicamente como nascera na Grécia antiga, por transmissão oral (escola vem do grego schloe, que quer dizer discussão, conferência). O advento dos livros democratizou o conhecimento e levou ao surgimento, 300 anos depois, da escola nos moldes atuais. “A evolução que acontece agora em tempo recorde vai ter um impacto consistente a longo prazo”, antecipa o matemático americano Salman Khan, precursor do ensino digital com a plataforma Khan Academy, que registrou com a pandemia um aumento de acessos de 300%. Tendo a internet como aliada, o professor pode customizar as aulas, detectando deficiências de cada aluno e oferecendo explicações antes que dúvidas se convertam em gargalos insolúveis. “Se alcançar uma boa simbiose com a tecnologia, o educador sabe rá em tempo real o nível de absorção de conteúdo e as lacunas, podendo dar suporte para que cada um progrida no seu próprio tempo”, ensina Khan, criador e promotor das chamadas flipped classes – o estudante adquire o conhecimento na internet e reserva as aulas para debater e sanar dúvidas. Aindependência e o avanço gradativo no terreno do conhecimento estimulados pela chamada gamificação, em que o aluno sobe de nível à medida que resolve questões cada vez mais complexas, são subprodutos bem-vindos da tecnologia quando bem empregada – “um recurso que fala o idioma desta geração”, na definição de Rafael Parente, diretor da BEi Educação. “O aprendizado tende a ser mais personalizado, envolvente e centrado no aluno”, resume Fernando Reimers, diretor do Programa de Mestrado em Política de Educação Internacional da Universidade Harvard. Que fique claro: nada disso quer dizer que a escola vá desaparecer. O contato olho no olho entre aluno e professor, atestam os educadores, é insubstituível, assim como a interação entre colegas e as trocas que fazem com que uns aprendam com os outros. Mas as mudanças embutidas na solidificação do ensino on-line, que a pandemia precipitou, terão efeitos profundos. Disse o filósofo Immanuel Kant: “O ser humano é aquilo que a educação faz dele”. Aproveitar bem essa chance é certeza de um planeta habitado por indivíduos melhores.

UMA DURÍSSIMA LIÇÃO

Enquanto os alunos duelam do lado de cá do computador, do lado de lá da tela os professores tentam se virar como podem para dar aulas em um terreno no qual quase nenhum deles havia pisado antes. Frustrações se acumulam no meio do percurso, seja porque os mestres percebem não estar prontos para o desafio que lhes surgiu de forma tão repentina, seja porque a rotina posta do avesso os abalou emocionalmente. Esse aspecto pouco visível da corrida para ensinar a distância aparece em uma pesquisa feita com 7.700 docentes de escolas públicas e particulares, do ciclo fundamental ao médio, pelo Instituto Península. A franqueza dos entrevistados chama atenção: 83% reconhecem estar despreparados para a missão, 67% chegam a apresentar quadros de ansiedade E apenas 7% expressam satisfação com o resultado final. “No início, chorava constantemente. A falta dos alunos drenou minha criatividade, mas consegui estabelecer o vínculo com eles e, juntos, já fazemos planos para quando a vida voltar ao normal”, conta Carla Brenes Teixeira, 46 anos, do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, que, como outros colegas, teve de improvisar uma “sala de aula” em casa com os filhos em volta. Muitos revelam angústia diante de classes virtuais “mornas, apáticas, por vezes caóticas” e se ressentem da baixa participação da garotada. Sem formação nem prática para atuar no universo on-line (só 12% já haviam lecionado a distância), eles estão tendo de aprender tudo sobre esse admirável mundo novo quase que em tempo real – aliás, para o bem do ensino. “Essa grande mudança forçada pode deixar uma herança valiosa”, avalia Maria Elizabeth Almeida, professora da Faculdade de Educação da PUC de São Paulo. Certo é que, depois desta temporada, os professores nunca mais serão os mesmos. 

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 15 DE AGOSTO

CONTENTAMENTO E PIEDADE

De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento (1Timóteo 6.6).

Todas as semanas, visito as livrarias dos aeroportos brasileiros. A maior seção é a dos livros de autoajuda e daqueles que ensinam os segredos da prosperidade financeira. Esse últimos enchem bibliotecas e são consumidos com voracidade. Passa-se a ideia de que o dinheiro pode trazer segurança e felicidade. Muitos acreditam que o dinheiro é a ponte para a ilha da fantasia, onde mora a felicidade. Mas aqueles que querem enriquecer caem em tentação e cilada e atormentam a si mesmos com muitos flagelos. Muitos se desviaram da fé nessa cobiça desenfreada. O dinheiro em si não é mal, mas o amor do dinheiro é a raiz de todos os males. O apóstolo Paulo diz que a piedade com contentamento é grande fonte de lucro. Tendo o que comer, o que beber e o que vestir, devemos estar contentes. Nossa felicidade e nossa segurança não estão no dinheiro, mas em Deus. Paulo exorta os ricos a não colocarem sua confiança na instabilidade da riqueza, mas em Deus. O dinheiro é bom quando nós o possuímos, mas não quando ele nos possui. O dinheiro é um bom servo, mas um péssimo patrão. Só nos traz felicidade quando o distribuímos com generosidade, não quando o retemos com usura.

GESTÃO E CARREIRA

DÉBITO, CRÉDITO OU QR CODE?

Custos menores e mais agilidade no pagamento abrem espaço para o crescimento da modalidade de compra feita pela câmera do celular. Trata-se de uma ameaça às tradicionais maquininhas.

A chamada “guerra das maquininhas”, que define a disputa dos bancos e empresas de meios de pagamento, intensificada nos últimos cinco anos, ainda parece estar longe de um armistício. Existem cerca de 20 milhões de pontos com capacidade para receber os equipamentos no mercado empreendedor e atualmente 10 milhões de máquinas estão ativas. Um grande campo a ser explorado, que deve ser preenchido em pouco tempo, segundo especialistas e players. Paralelamente, já começou a “batalha do QR Code”, que num futuro não tão distante pode acabar com maquininhas. Para enfrentar essa luta tecnológica dos pagamentos e transações comerciais, o Mercado Pago, fintech do Mercado Livre, mostrou algumas de suas armas, promete avançar algumas casas e ganhar terreno nessa disputa.

A aposta no QR Code leva em consideração, entre outros fatores, a mudança do mercado, os custos mais baixos e o comportamento do consumidor. O vice-presidente do Mercado Pago, Tulio Oliveira, classifica como “a grande notícia de 2019” o crescimento da empresa nesse sistema de pagamento. O executivo não revela os números de transações nem o volume de dinheiro movimentado desde a implementação da plataforma de QR Code pelo Mercado Pago, em novembro de 2018. Mas mostra um pouco de seu mapa de atuação. Pouco mais de um ano depois de lançar o código bidimensional, são 16 milhões de consumidores que possuem conta no Mercado Livre e no Mercado Pago com potencial para usar o sistema, além de 170 mil estabelecimentos que aceitam o QR Code da marca em todo o Brasil, que podem chegar a 1,5 milhão de vendedores se somados os terminais POS a partir de parceria com a Cielo.

Apesar da visão otimista, o desafio é grande. Primeiro porque a briga para ampliar mercado deve ser tão voraz quanto a das maquininhas. Segundo, e principalmente, com relação à cultura do brasileiro no uso do QR Code. “A vida não vai ter aventuras se você não se propor a fazer coisas diferentes. Estamos numa grande aventura”, afirma Oliveira, que está desde 2014 no Mercado Pago. “Deixamos de ser uma empresa que apenas processava pagamentos dentro do Mercado Livre para ser uma das líderes do setor. E agora fazemos a entrega de soluções de conta digital para nossos clientes.”

A mais nova aventura, que também pode ser chamada de guerra pelos menos eufemistas, é disseminar essa tecnologia que ainda não faz parte do cotidiano da grande massa. Para se ter ideia da dificuldade, faz pouco tempo, alguns grupos de mídia lançaram o QR Code como estratégia para fisgar novos públicos, com conteúdos exclusivos a partir da leitura do código, como vídeos, fotos e entrevistas, por exemplo. Não emplacou. Algumas cidades turísticas também colocaram o sistema em seus principais locais de visitação, para os turistas terem informações complementares no celular sobre o lugar ou uma obra de arte, no caso de museus. Não emplacou. “Há muitos casos no mundo inteiro que funcionaram e que não funcionaram. É uma tecnologia que vem evoluindo para maior adoção das pessoas”, diz o vice-presidente do Mercado Pago.

Mas um progresso começa a ser perceptível quando a maior rede de televisão do País coloca o QR Code no meio da transmissão das partidas de futebol. E explica para o telespectador que, ao apontar o celular para a tela da TV e escanear o código, ele é direcionado ao site da emissora com notícias de seu clube. Isso ajuda a popularizar o QR Code. Porém, esse é um exemplo de fator externo que auxilia na divulgação do sistema. O que, então, o Mercado Pago está fazendo para impulsionar a utilização do QR Code para vendedores e consumidores? Oliveira afirma que a empresa trabalha em duas frentes principais: apoio e treinamento para comerciantes e descontos para consumidores.

No apoio direto ao empreendedor, são explicadas as vantagens do QR Code. Com as grandes redes de varejistas, são feitas integrações de sistemas e de informações. Com os pequenos, distribuições de dados mais massivas pelo APP. Um dos segredos é a conscientização do empresário sobre a necessidade do sistema que, segundo Oliveira, é mais rápido, eficiente e barato do que as transações com cartão de débito ou crédito.

Outro diferencial é que por meio do pagamento na plataforma do Mercado Pago as empresas sabem mais sobre seus clientes, seus gostos, seus hábitos e costumes e com isso podem oferecer serviços e produtos mais adequados a cada perfil. Os argumentos têm atraído adeptos. O Mercado Pago já tem parceiros como Burguer King, Cielo, Cinemark, Cobasi, Grand Vision, McDonald’s, Rei do Mate e Spoleto. E recentemente anunciou a adesão de 5àsec, Giraffas, Lopes Supermercados, Madero, Outback, Petz e outros.

VANTAGENS

A funcionalidade do uso do QR Code também satisfaz o consumidor. Na prática, o sistema facilita e agiliza o pagamento. No método da tradicional maquininha, numa conta dividida entre oito amigos numa steakhouse, por exemplo, o aparelho passa na mão dos oito colegas, com o atendente colocando o cartão e o valor de cada um, para em seguida ser colocada a senha. Um processo que pode demorar alguns minutos. Com o QR, um único código é impresso na conta e cada amigo, com seu próprio celular, o escaneia e paga sua parte ao mesmo tempo. A conta é quitada integralmente em segundos. Outro benefício que convida o comprador são os descontos disponibilizados no APP do Mercado Pago. Nesta semana havia mais de 1.000 cupons de descontos de R$ 20 em compras em supermercados, R$ 15 em restaurantes e farmácias e R$ 10 em cinemas e postos de combustível.

Para o executivo do Mercado Pago, a central de ofertas “é um ponto chave” do sucesso e do crescimento da utilização do código bidimensional. “Desconto gera benefício claro e o cliente testa a tecnologia.” As promoções podem ser feitas pelo próprio parceiro diretamente no aplicativo do Mercado Pago. O varejista pode apresentar seus descontos ou fazer campanha agressiva e direcionada a quem usa o QR. “É um estímulo para as pessoas usarem o sistema”, diz o executivo. “Quanto maior o nível de fidelidade do consumidor, maiores são os descontos”, completa.

Na ponta do processo de popularização do QR Code estão garçons e caixas, geralmente responsáveis pelas cobranças e pagamentos. A pergunta que eles mais fazem no momento da compra é: “Débito ou crédito?” O desafio é incluir a opção de QR Code nesse questionamento.

Para isso, o Mercado Pago tem se esforçado em melhorar a comunicação com esses profissionais. E produziu vídeo e tutoriais para auxiliar os empreendedores e redes varejistas a treinarem os trabalhadores. “No começo, ninguém sabia o que era QR Code. A relação com o cliente mudou. Hoje tem muita gente preparada para atender nesse sistema”, diz Oliveira. “Varejista que é engajado com a solução, gera resultado, cresce a força de vendas”, acrescenta, ao colocar parte da responsabilidade do sucesso da ferramenta nas mãos dos comerciantes e empresários. E diz que o Mercado Pago também disponibilizará nas próximas semanas saques em caixas eletrônicos da rede 24 horas por meio do QR Code.