PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE OS PSICOPATAS DESEJAM?

O enfoque tradicional na pesquisa em neurociência da psicopatia é o foco em falta de sensibilidade à punição ou na ausência do medo, variáveis que estão associadas ao comportamento antissocial.

O que os psicopatas desejam

Tradicionalmente, a pesquisa em Neurociências enfoca a psicopatia como estando fundamentada em uma deficiência em certos circuitos cerebrais ligados ao controle dos impulsos, ou o aprendizado de consequências negativas. A falta de sensibilidade à punição tem sido apontada como uma das hipóteses de um substrato neural da psicopatia. Outras investigações apontam que não só a falta de medo, mas, consequentemente, as dificuldades de aprendizado com as experiências de medo são traços que estão por trás da psicopatia.

No entanto, até o momento, esses traços não se mostraram particularmente úteis para prever violência ou comportamento criminal. Uma nova linha de investigação sugere que pode ocorrer no cérebro de psicopatas uma forte tendência para a recompensa, e que isso tem sido negligenciado pela pesquisa convencional nessa área. Os indivíduos com traços de psicopatia têm de fato um forte impulso pela busca de recompensa, e esse impulso talvez supere o senso de risco ou a preocupação com as consequências negativas de determinado comportamento.

Para testar essa hipótese, foi realizado um experimento no qual indivíduos com psicopatia e pessoas sem essa característica recebiam uma droga e tinham seus cérebros submetidos a escaneamento para obtenção de imagens do funcionamento neural. O objetivo foi verificar como o cérebro das pessoas reagem a estimulantes, no caso um tipo de anfetamina chamado em língua inglesa speed, conhecido por suas propriedades de liberação de dopamina.

A dopamina é a moeda da recompensa no cérebro. Quando as moléculas desse neurotransmissor, provenientes da área tegmentar ventral atingem receptores na região do núcleo accumbens, o organismo sente prazer e desejo de repetir a experiência que levou ao estímulo dopaminérgico. Esse é o chamado sistema de recompensa do cérebro.

No experimento realizado, o que chamou atenção dos pesquisadores foi que pessoas com altos níveis de traços de psicopatia têm quatro vezes mais dopamina liberada em resposta à anfetamina do que as pessoas normais. Em uma segunda parte do estudo, os sujeitos tinham os cérebros escaneados enquanto ganhavam uma recompensa financeira por fazer uma tarefa em laboratório. Como no primeiro estudo, os psicopatas mostraram uma liberação muito maior de dopamina e níveis mais altos de atividades em antecipação ao ganho da recompensa.

Talvez pelo fato de ter uma resposta exagerada da dopamina, quando um psicopata foca na possibilidade de ganhar uma recompensa torna-se incapaz de alterar sua atenção até que consiga obter a gratificação. Esse escudo sugere que o cérebro do psicopata tem a circuitaria organizada para buscar fortemente recompensas, embora sem pesar o custo dessa procura.

Se o cérebro dos psicopatas libera quatro vezes mais dopamina em resposta a recompensas do que o de pessoas normais, podemos imaginar quanto prazer esses indivíduos podem ter ao atingir seus objetivos. Normalmente pensamos que psicopatas são pessoas de sangue frio, e que querem tomar o que desejam sem pensar nas consequências. Esse estudo mostra que um sistema de recompensa dopaminérgica hiperativo pode ser fundamento de alguns dos mais problemáticos comportamentos associados com psicopatia, como crimes violentos, reincidências e uso de drogas e álcool. Pensando na realidade brasileira. Podemos também imaginar o quanto a antevisão de prazer pode ser extraída a partir da simulação mental do recebimento de propinas e dinheiro de corrupção na mente de psicopatas, o que, infelizmente, torna mais tentadores os comportamentos que levam a essas recompensas.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental.

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OUTROS OLHARES

O PECADO DAS CURTIDAS

O escândalo envolvendo o uso de dados do Facebook mostra que perdemos o controle das informações publicadas no ambiente online. Aí surge um dilema: sair da rede, ou aceitar os riscos.

O pecado das curtidas

O polêmico uso de dados do Facebook para influenciar a campanha presidencial americana em 2016 ganhou dimensão global e escancarou a forma como os indivíduos perderam o controle sobre o que postam na internet. Cerca de 87milhões de usuários nos Estados Unidos tiveram suas informações vazadas pela empresa de análise de dados políticos Cambridge Analytica. Os dados foram inicialmente coletados por um aplicativo de testes de personalidade na rede social e, segundo investigações, comprados pela consultoria que trabalhou na campanha do candidato republicano Donald Trump. Em posse da informação, a Cambridge Analytica previu o comportamento eleitoral dos usuários e os bombardeou com propaganda a favor de Trump, que venceu. Há indícios que o mesmo método tenha sido aplicado para influenciar a votação do Brexit, no mesmo ano, quando os britânicos optaram que o Reino Unido deixasse a União Europeia.

O auê foi tamanho que, no mês passado, o fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, foi chamado a dar explicações no Congresso americano. Em depoimento de 5 horas, ele negou a comercialização de dados. O escândalo, no entanto, derrubou o valor de mercado do Facebook em quase 60 bilhões de dólares em menos de uma semana. E se engana quem pensa que o problema foi isolado.

O Brasil também coleciona uma série de casos recentes. Em abril, a operadora de telefonia celular Vivo foi acusada pelo Ministério Público de vender dados de 73 milhões de clientes. No mesmo mês, a Uber foi convocada pelo Ministério Público em Brasília para esclarecer a exposição de dados de 176.000 brasileiros, após a própria companhia revelar que informações de usuários e motoristas haviam sido roubadas. O mesmo ocorreu com a Netshoes, que perdeu dados de 2 milhões de clientes para cibercriminosos; e com a Porto Seguro, de onde os hackers levaram informações pessoais e bancárias dos segurados.

Para piorar, especialistas alertam para a tendência de abrirmos cada vez mais sobre nós sobretudo no varejo, que mapeia o comportamento do cliente que compra pela internet. O protótipo perfeito desse Big Brother é a Amazon Go, primeira loja física da Amazon, aberta em Seattle, nos Estados Unidos, em janeiro. Lá, não há atendentes e não são utilizados dinheiro ou cartão. O estabelecimento usa inteligência artificial e centenas de micro câmeras para rastrear os clientes e os itens escolhidos. Ao sair com os produtos, eles não passam pelo caixa, simplesmente recebem um recibo de compra (debitado no crédito) minutos depois. A experiência é incrível, mas o preço, alto: até os movimentos (e as emoções) dos clientes são filmados. Outro exemplo: o Google direciona a publicidade de lojas e marcas com base no que “escuta” de seus usuários (pelo microfone do celular).  De fato, perdemos o domínio de nossos dados.

Mas os usuários não parecem muito preocupados com isso. Um Estudo realizado pela empresa de segurança digital Kaspersky chamou a atenção para a falta de cuidado dos internautas. Segundo a pesquisa, apenas três em cada dez pessoas leem o contrato antes da instalação de um aplicativo. Como elas têm, em média, 66 aplicativos em seu aparelho Android – sendo que 95% deles começam a funcionar sem que o usuário os inicie e 83% têm acesso a dados confidenciais -, a exposição é enorme.

CÉREBRO EM METAMORFOSE

Mas por que somos negligentes com informações no ambiente digital? Para a professora Andrea Jota, do Laboratório de Estudos de Psicologia, Tecnologia, Informação e Comunicação da PUC de São Paulo, há duas razões. A primeira é a falta de informação. Como a indústria de tecnologia não costuma ser transparente sobre suas políticas de dados e serviços, uma parcela considerável desconhece os riscos. “E a única maneira de se proteger é lendo manuais e ajustando as configurações de privacidade”, diz a psicóloga. O problema é que, na ânsia de usar o serviço, quase ninguém lê as letras miúdas dos contratos. Em geral, clica-se no “Li e aceito” ou no “Permitir acesso a fotos, vídeos …” sem saber o que isto significa exatamente.

Um segundo motivo para o compartilhamento excessivo, segundo a psicóloga, é que o ser humano precisa alimentar sua persona social. No universo digital, isso significa exibir familiares, viagens e até mesmo as refeições. “A internet, e tudo relacionado a ela, se fundiu ao nosso cotidiano”, diz Andrea.

A neurocientista britânica Susan Greenfield, autora de livros corno Mind Change: How Digital Technologies Are Leaving Their Mark: on Our Brains (sem tradução no Brasil), vai além. “O ambiente digital está alterando nosso cérebro”, escreve ela no livro. Entre outras ideias, Susan afirma que as redes sociais e as novas tecnologias estão nos tornando menos empáticos e mais dependentes do “aqui e agora” e fragilizando nossa noção de quem somos. De acordo com ela, quando constroem sua identidade no ciberespaço, as pessoas não se preocupam com passado ou futuro. O que vale é tirar proveito do momento.

Mas a postura imediatista exige reflexão. Pense num site de busca de empregos. Ou no próprio Linkedin, rede social essencial para fazer networking no mundo do trabalho. Quanto mais informações o profissional passa, maior a chance de ser visto por um recrutador e conseguir uma boa vaga. Mas será seguro revelar tanto de si mesmo? E se uma informação aparentemente boba, que o indivíduo não dimensionou no momento da postagem, um dia vir à tona e prejudicá-lo?

Bem, aparentemente, isso faz parte do mundo moderno. E especialistas advertem que será preciso aprender a lidar – e a prever – os efeitos colaterais de seus rastros digitais.

Rodrigo Tafner, coordenador do curso de sistemas de informação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), é taxativo: não existe privacidade no ambiente digital. A empresa coleta dados e, em troca, oferece contrapartidas (como a possibilidade de encontrar um bom emprego). Se você deseja sua intimidade preservada integralmente, precisa manter-se offline. “Para se proteger 100%, o indivíduo precisa deixar de usar celular e computador. Mas isso é andar para trás”, afirma o especialista.

Como diz o ditado, “quem não é visto, não é lembrado”, e excluir-se das redes é praticamente não existir na sociedade atual. Quem fizer isso terá de abrir mão de seus contatos no Facebook, das pesquisas no Google (e todas as suas ferramentas, como Gmail, Google Maps e Google Tradutor), nas mensagens instantâneas do WhatsApp, das fotos do Instagram, dos filmes da Netflix, das músicas no Spotify e das compras online. Isso sem falar do aplicativo de trajetos Wase, do Uber, das notícias em sites, das vagas de emprego. A lista é grande.

A solução ideal, recomendam os estudiosos do assunto, é buscar o caminho do meio, minimizando os riscos. Rodrigo lembra que aplicativos escutam o que estamos falando e são capazes de saber até se estamos fazendo exercícios ou deitados na cama com o abajur desligado. Quem aceita tamanha exposição deve ler com atenção o termo de uso antes de baixar qualquer plataforma. Apesar de chato, é essencial analisar o que dizem os contratos, saber quais ferramentas precisam ser desabilitadas e entender o que não devemos dividir com ninguém, nem lojas nem redes sociais.

Especialista em direito digital, o advogado Leandro Bissoli, sócio da Peck Advogados, afirma que a primeira medida antes de informar um dado é entrar na página de Política de Privacidade da organização e analisar o quão exposta essa informação ficará. “Muitas vezes, é como se colocássemos uma faixa sobre nós na rua”, afirma Leandro. Nesse tipo de relatório está descrito o que a plataforma coleta de dados, o que faz com eles e como os descarta. O documento, em geral, é longo e mal escrito, mas necessário.

Qualquer pessoa que tenha rede social pode ter recebido nos últimos tempos uma mensagem do administrador avisando sobre mudanças nas medidas de segurança, na tentativa de deixá-las mais fortes. De acordo com Leandro, isso acontece porque as mídias sociais foram impactadas por um novo conjunto de regras aprovado pela União Europeia para proteção de privacidade de dados, que entrou em vigor no dia 25 de maio.

A legislação, conhecida como Regulamentação Geral para Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), é considerada a maior reformulação online desde o surgimento da internet. Incluir, excluir e corrigir dados a qualquer momento passa a ser um direito do usuário e as companhias são obrigadas a fornecer ferramentas explícitas que garantam essa liberdade. Além disso, empresas que armazenam informações das pessoas terão de comprovar que têm sistemas adequados para garantir tudo guardado a sete chaves.

“No Brasil, não temos regulamentação específica para tratar dados pessoais, somos lanterninhas da América Latina”, afirma o especialista da Peck Advogados, citando que há dois projetos em andamento nesse sentido – um na Câmara e outro no Senado.

A boa notícia é que, finalmente, autoridades e estudiosos têm questionado a balança desigual dessa relação. Os usuários fornecem dados preciosos de graça, enquanto as gigantes de tecnologia se locupletam com uma valiosa base de dados. Cresce o movimento contrário, e empresas começam a mudar suas políticas. Poucos meses atrás, o Facebook anunciou a expansão de seu programa que promete recompensas a quem denunciar aplicativos que fazem uso indevido das informações dos usuários. O prêmio chega a 100.000 dólares. Resta saber se isso será suficiente para dar às pessoas um pouco mais de alento digital.

 

MELHOR PREVENIR DO QUE REMEDIAR

Confira dicas dos especialistas para se proteger:

BLINDE-SE DAS ARMADILHAS VIRTUAIS

Jamais acesse links estranhos que surgem na tela de aplicativos, são enviados por e-mail ou por redes sociais. Em geral, esses links chegam como se fossem instituições financeiras ou mensagem de um contato pessoal. Quando você o acessa, o vírus se instala no dispositivo e passa a roubar seus dados. Na dúvida, não clique.

 LIMPE OS COOKIES PERIODICAMENTE

Cookies nada mais são do que informações trocadas entre seu navegador e o servidor de páginas acessadas. Eles ficam registrados num arquivo de texto no computador, o que permite que o site reconheça o visitante e saiba suas preferências – com isso, vai construindo um perfil do usuário.

LEIA OS TERMOS DE SERVIÇO E PRIVACIDADE

Antes de clicar em “aceito os termos e condições”, leia as informações básicas. Quem pode ter acesso aos dados? Alguém ou a plataforma pode utilizar as informações de sua conta? O controle do que é postado é totalmente seu? Se não tiver as respostas para essas perguntas, melhor abrir mão do serviço.

 ATENÇÃO AOS APLICATIVOS

Cerca de 20% deles não são confiáveis. Quando baixar qualquer um deles, não saia dando permissão para que acessem fotos, vídeos e outros arquivos, principalmente se estiver no sistema Android, mais vulnerável do que o IOS. Se não estiver claro, clique em “não permitir”. Se o uso do app depender disso, leia os termos de privacidade, e informe-se se pode desabilitar o recurso.

GESTÃO E CARREIRA

O RH E OS CONSELHOS

O RH e os conselhos

Ao mesmo tempo que ouvimos o discurso do RH estratégico e das evoluções que ocorreram nos últimos anos, vejo pouco avanço com relação a uma série de frentes. Uma delas é a relação dos RHs com os conselhos de administração. Pelo que observo, os profissionais de recursos humanos têm uma contribuição limitada nesse fórum de governança, mesmo quando falamos dos comitês de gestão de pessoas, ainda restritos a discussões ligadas à remuneração.  Apesar do discurso das organizações de que são voltadas para os indivíduos, os executivos responsáveis pelas políticas de gestão dos talentos, na maior parte das vezes, têm pouca influência se comparados aos de finanças, vendas ou operações.

São raros os comitês de RH liderando discussões estratégicas, entre elas a sucessão diante desse mundo de mudanças exponenciais; o desenvolvimento da alta liderança para gerir num cenário de revolução tecnológica e suas consequências para as pessoas; ou a composição de times necessária para enfrentar as novas eras. Ao mesmo tempo, vejo poucos executivos de RH preparados para inserir conhecimento dentro de uma discussão de negócios e estratégia.

O que os RHs podem fazer para mudar esse cenário? Uma das medidas fundamentais é sair do estigma de gente “de humanas” e mostrar que RHs também conseguem entender de estratégia, de negócios e de governança corporativa, elevando seu papel a outro patamar e se colocando como um dos protagonistas dentro do grupo de decisão da companhia.

Devemos enxergar nesse cenário uma grande oportunidade. Afinal, sabemos que temas ligados a pessoas são cada vez mais discutidos dentro de conselhos de administração. E, nesse sentido, ter um profissional com esse olhar apurado participando das discussões é fundamental.

Uma forma de os RHs melhorarem sua relação com o conselho de administração e assumirem esse protagonismo – até mesmo pensando em ocupar um papel de conselheiro –   é mergulhar no entendimento sobre o negócio atual, sobre a transformação das empresas e também sobre o que é governança, tendo clareza sobre as responsabilidades de um conselho.

É cada vez mais crucial que nos conselhos haja um olhar sobre as mudanças na sociedade e suas consequências para os negócios. Portanto, estudar questões emocionais nas crises, transformações sociais, novas formas de comunicação, governança do futuro e organizações exponenciais é fundamental para os líderes da área de RH.

O RH e os conselhos 2VICKY BLOCH – é psicóloga, sócia da Vicky Bloch Associados e professora nos cursos de especialização em RH da FGV-SP e da FIA.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 27: 50-56 – PARTE II

Alimento diário

A morte de Cristo

III – O convencimento de seus inimigos que foram utilizados na execução (v. 54), o que alguns consideram mais um milagre, quando todas as coisas são analisadas em conjunto. Observe:

1. As pessoas persuadidas; o centurião e aqueles que estavam com ele, vigiando Jesus; um capitão e sua companhia, que estavam de guarda naquela ocasião.

(1)  Eles eram soldados, uma profissão que comumente endurece as pessoas, e cujos sentimentos não são comumente tão susceptíveis, como outros, às sensações de medo ou piedade. Mas não há espírito tão grande, tão seguro de si, que o poder de Cristo não consiga quebrantar e humilhar.

(2)  Eles eram romanos, gentios que não conheciam as Escrituras que eram agora cumpridas; ainda assim, parece que só eles ficaram convencidos. Um triste presságio da cegueira que acometeria Israel, quando o Evangelho fosse enviado aos gentios para abrir os seus olhos. Aqui estavam os gentios comovidos, e os judeus, insensíveis.

(3)  Eles eram os perseguidores de Cristo e aqueles que tinham acabado de insultá-lo, como entendemos a partir de Lucas 23.36. Quando conseguirá Deus, pelo poder que tem sobre as consciências dos homens, modificar o linguajar deles e obter o reconhecimento das suas verdades, para a sua própria glória, da boca daqueles que sussurraram nada além de ameaças, humilhações e blasfêmias!

2. Os meios de seu convencimento; eles perceberam o terremoto, que os assustou, e viram as outras coisas que aconteceram. Estas eram destinadas a reafirmar a glória de Cristo em seus sofrimentos, e tinham como alvo esses soldados, independentemente do impacto que fosse gerado nos outros. Observe que as terríveis manifestações de Deus em sua providência, às vezes, funcionam de forma estranha na persuasão e no despertamento dos pecadores.

3. A expressão desse convencimento em dois aspectos.

(1)  O terror que caiu sobre eles; eles temeram grandemente; temeram que talvez fossem enterrados na escuridão ou engolidos no terremoto. Note que Deus pode facilmente afugentar os seus adversários mais ousados, e fazê-los saber que não passam de homens. A culpa coloca medo nos homens. Há aquele que, quando a iniquidade está presente em abundância em sua vida, nunca tem medo; mas, quando os julgamentos ocorrem em profusão, ele te me, não com cautela, mas apenas com enorme espanto; enquanto há aqueles que não temerão, ainda que a terra se mude (Salmos 46.1,2).

(2)  O testemunho que foi arrancado deles. Eles disseram: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus”; uma nobre confissão. Pedro foi abençoado por isso (cap. 16.16,17). Aquela era a questão em discussão, o ponto sobre o qual o Senhor e os seus inimigos haviam entrado em disputa (cap. 26.63,64). Os seus discípulos acreditavam nisso, mas, nesse momento, não se atreviam a admiti-lo; nosso Salvador foi tentado a questioná-lo, quando disse: “Por que me desamparaste?” Os judeus, agora que Ele estava morrendo sobre a cruz, consideravam que estava claramente demonstrado que Ele não era o Filho de Deus, porque não desceu da cruz. Mesmo assim, nesse momento, aquele centurião e os soldados fazem essa confissão de fé cristã: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus”. O melhor de seus discípulos não poderia ter dito algo melhor em qualquer tempo; e, naquela hora, eles não tinham fé nem coragem suficiente s para dizer tudo isso. Note que Deus pode preservar e reafirmar a glória de uma verdade quando ela parecer estar aniquilada e em uma situação precária; pois a verdade é magnífica, e prevalecerá.

IV – A presença de seus amigos, que foram testemunhas de sua morte (vv. 55,56). Observe:

1. Quem eles eram; muitas dessas pessoas eram mulheres que o seguiram desde a Galileia. Não eram os seus apóstolos (somente em outra passagem encontramos João junto à cruz, João 19.26), seus corações os desapontaram, e eles não ousaram aparecer; por medo de sofrerem a mesma condenação. Mas aqui havia um grupo de mulheres. Alguns as chamaram de mulheres tolas, pois, com ousadia, apoiaram a Cristo, quando os seus discípulos o haviam abandonado de maneira vil. Note que os membros do sexo mais frágil são, muitas vezes, pela graça de Deus, fortes na fé, para que o poder de Cristo possa se aperfeiçoar na fraqueza. Existiram mulheres mártires que se tornaram famosas por sua coragem e resolução na causa de Cristo. Nessa circunstância, foi dito sobre essas mulheres:

(1)  Que elas haviam seguido a Jesus desde a Galileia, por causa do grande amor que tinham por Ele, e do desejo de ouvi-lo pregar; normalmente, só os homens eram obrigados a comparecer na festa para adorar a Deus. Nesse momento, tendo o seguido por uma jornada tão longa, desde a Galileia até Jerusalém, o que significava cerca de 130 a 150 quilômetros, elas decidiram não abandoná-lo agora. Note que os nossos trabalhos e sofrimentos anteriores por Cristo devem ser um argumento a nosso favo1; desde que seja fielmente mantido até o fim em nosso serviço a Ele. Será que o seguimos até tão longe, e por tanto tempo – deixamos tantas coisas, temos feito muito e gastado muitos recursos por amor a Ele-, e o abandonaremos agora? (Gálatas 3.3,4).

(2)  Que elas o serviram oferecendo recursos de sua própria subsistência, para que o Senhor tivesse o sustento necessário. Quão alegremente elas o serviriam agora, se lhes fosse permitido! Mas, sendo isso proibido, elas decidiram segui-lo. Note que, quando somos impedidos de fazer o que gostaríamos, devemos fazer o que pudermos, a serviço de Cristo. Agora, Jesus está no céu; e embora esteja longe do alcance de nossa ministração, Ele não está fora do alcance das nossas concepções e práticas de fé.

(3)  Algumas delas são particularmente citadas; pois Deus honrará aqueles que honrarem a Cristo. Elas se comportaram dessa mesma maneira quando as encontramos, muitas vezes, anteriormente, e foram dignas de elogios por terem se comportado dessa forma até o fim.

2. O que elas fizeram; elas ficaram observando de longe.

(1)  Elas ficaram de longe. Não sabemos se o seu próprio medo ou a fúria de seus inimigos as mantinham distantes; de qualquer forma, os sofrimentos de Cristo eram agravados pelo fato de seus amigos e parentes se afastarem de sua chaga (Salmos 38.11; Jó 19.13). Talvez elas pudessem chegar mais perto, se quisessem; mas as pessoas boas, quando estão sofrendo, não devem achar estranho se alguns de seus melhores amigos se afastarem delas. Quando Paulo correu um risco iminente, nenhum homem ficou junto a ele (2 Timóteo 4.16). Se formos olhados de forma estranha, lembremo-nos: o nosso Mestre passou por isso antes de nós.

(2)  Elas estavam ali observando, demonstrando assim preocupação e carinho para com Cristo. E, quando foram impedidas de realizar qualquer outro ato de amor a Ele, olharam-no com amor.

[1] Era um olhar de tristeza; elas olharam para Ele, agora traspassado, e se condoeram; e, sem dúvida, estavam amarguradas por causa dele. Podemos muito bem imaginar como cortava seus corações vê-lo nesse tormento; e que rios de lágrimas tudo isso arrancou dos olhos delas. Contemplemos com um olhar de fé a Cristo, e a Cristo crucificado, e nos comovamos por aquele grande amor com que Ele nos amou. Mas:

[2] esse não era mais do que um olhar; elas o contemplaram, mas não podiam ajudá-lo. Note que, quando Cristo estava sofrendo, os seus melhores amigos nada mais foram do que espectadores e observadores. Na opinião do Sr. Norris, até mesmo os anjos ficaram tremendo ao seu lado. Pois o Senhor Jesus, sozinho, pisou o lagar, e ninguém dentre os povos estava com Ele; assim o seu próprio braço trouxe a salvação.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

OS DONS PARA EDIFICAÇÃO DA IGREJA

Dons

I Coríntios 12:1 – 31 “A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes…
Como “Igreja” do Senhor, entendemos que somos Instrumentos e trabalhadores qualificados para a edificação do corpo de Cristo. Todavia o Senhor não usará os que já se acham qualificados, Ele qualificará e despertará os que já estão fazendo parte dessa obra, dando ferramentas e dons do Espírito para essa edificação.
Em uma construção natural, de prédios e casas por exemplo, são procurados profissionais qualificados, responsáveis e que desempenhem bem sua profissão, afim de que a construção fique sem falhas de maneira que não venha a sofrer danos futuros.
A igreja do Senhor só é possível de ser edificada quando existem homens e mulheres que fluem nos dons que o Espírito libera para sua igreja para aqueles que querem ser colunas na edificação dessa obra.
Nesses textos podemos perceber que a igreja do Senhor só pode ser edificada quando existem membros que fluem nos dons do Espírito, pois cada um desses dons, sendo usados de maneira sábia e organizada, cooperam para o crescimento e avanço da igreja.
Esses dons são liberados pelo próprio Senhor, para aqueles que desejam ser um edificador da igreja, afim de que ela se torne forte e prevalecente, todavia o grande problema que vemos hoje é que muitos irmãos desconhecem esses dons e até mesmo nem sabem quais possuem. O apóstolo Paulo diz claramente que não devemos ser ignorantes com relação aos dons do Espírito, ou seja, ele queria que a igreja do Senhor não fosse faltosa de conhecimento, seu desejo e encargo era para que todos conhecessem e tivessem prática nesses dons. Em nosso meio existem 3 classes de pessoas que são faltosas de conhecimento, com relação aos dons do Espírito:
1 – Aqueles que não tem nenhum conhecimento acerca dos dons, não sabem que existem; (geralmente esses são os novos convertidos) 2 – Aqueles que sabem que existe o dom, todavia não sabem qual possui; 3 – Aqueles que sabem que possui o dom, sabem qual é esse dom, porém não sabe como usar;
Uma igreja de vencedores só pode ser edificada quando seus membros sabem qual é o seu dom e sabem como e quando usá-los. Se todos os membros soubessem quais são os seus dons e fluíssem nesses dons, os nossos cultos certamente seriam totalmente diferentes, pois teríamos o Espírito Santo agindo com total liberdade na igreja.
Muitas pessoas não buscam esses dons pois acham que isso é exclusividade do pastor da igreja, todavia o próprio Senhor quebra esse paradigma quando o apóstolo Paulo diz que o Senhor é quem libera os dons para quem lhe apraz, ou seja, para quem Ele quer, e a quem deseja receber, porém, para receber esses dons devemos gastar tempo para buscá-los pois Deus diz que, quem procura acha.

Estamos acostumados em fazer jejuns, campanhas de oração e vigílias para tantas coisas, e isso é correto, mas devemos tomar o hábito de gastar esse mesmo tempo, com intensidade, em buscar cada um desses dons. A igreja do Senhor precisa que seus membros busquem com zelo os melhores dons para a edificação da sua obra.
Nós limitamos o liberar desses dons pois já temos um pré-conceito acerca de como Deus irá trabalhar e agir, com isso impedimos as diversas formas que Deus tem para manifestar e operar seus sinais e milagres.
Até hoje quanto tempo você já gastou para receber algum dom do Espírito? Você já se dedicou com zelo em busca de ferramentas para a edificação da igreja?
Para buscar esses dons precisamos saber para que serve cada um:

• Palavra de Sabedoria: Uma palavra que traz uma solução sobrenatural sobre os problemas naturais, uma resolução que ninguém jamais pensaria;

• Palavra de Conhecimento: É quando Deus revela algo oculto para um fim proveitoso, esse dom te capacita a ter conhecimento daquilo que está em oculto;

• Dom da Fé: Deus te capacita para crer no extraordinário, é ter a fé acima da sua própria fé;

• Dom de Cura: É a capacidade de orar pelos enfermos e eles serem curados, mas a cura acontecerá para a edificação da igreja.

• Dom de Operar Milagres: Você tem a capacidade de conduzir os milagres do Senhor, Ele te dá o poder de controlar a manifestação desses milagres;

• Dom de Profecia: Deus te capacita para antecipar aquilo que ainda não aconteceu, você anuncia o que ainda vai acontecer e chama a existência o que ainda não existe.

• Dom de Discernimento de Espíritos: Deus mostra para você qual é o espírito que está operando naquele lugar, afim de que você ore de maneira específica quebrando aquela manifestação;

• Dom de Orar em Línguas: Esse dom é para a edificação pessoal, é uma arma poderosa na disciplina da mente, só ocorre a edificação da igreja quando ele é acompanhado pelo dom de interpretar línguas;

• Dom de Interpretação de Línguas: Deus capacita você para interpretar a oração que está sendo feita em línguas, não é traduzir e sim interpretar fluindo debaixo do mesmo espírito.
Então, que nesses dias nós possamos buscar com zelo cada um desses dons, afim de que a igreja do Senhor venha ser edificada e totalmente transformada pela Sua Glória! Deseje, anseie por uma Igreja Prevalecente. Você faz parte desta edificação.

Pensemos nisto, busquemos isso…

PSICOLOGIA ANALÍTICA

POSIÇÕES QUE OSCILAM

O conceito de violência sempre envolve um emissor e um receptor e é percebido apenas por um dos dois polos: a vítima assim a denomina, mas o emissor pode nem se dar conta dessa relação.

Posições que oscilam

Estamos diante de um tema que não é agradável – muito pelo contrário, seria preferível não falarmos de violência ou, melhor, negá-la. Mas ela chega a nós sorrateiramente no trânsito, no caos das metrópoles, na TV, nas relações sociais, nos jornais, nas nossas casas. Como lidar com a violência?

Uma primeira tarefa pode ser defini-la, afinal, o que é violência? Podemos admitir que tudo o que excede nossa capacidade de absorção de estímulos (sensoriais, perceptivos, psíquicos) pode ser considerado um ato de violência. Violência é: acordar muito cedo para trabalhar, quando se mora distante, passar fome por falta de recursos; enfrentar o trânsito neurótico, numa cidade que cresceu desordenadamente; ser desrespeitado por outra pessoa (estranho ou amigo) etc. Mas não é bem essa qualidade de violência que mais nos impacta, não é?

Vamos adiante: é curioso que o conceito de violência sempre envolva um emissor e um receptor e seja percebido apenas por um dos dois polos: a vítima da violência assim a denomina, mas o emissor pode não se dar conta desse modo de relação. Muitas vezes, as posições oscilam: hoje, vítima, amanhã, agente.

A violência também não é um fenômeno da Modernidade. A humanidade sempre viveu guerras que resultaram em vencedores e vencidos, e apena, para os vencidos (ou derrotados) houve registro da violência, no caso dos que sobreviveram a ela.

Um primeiro exercício pode ser a identificação de violências cotidianas sutis, e a tarefa mais difícil: nossa posição não só de vítimas, mas também de pequenos agentes de violência, pela própria    alienação que muitas vezes toma conta de nós. A expressão violência psicológica nos leva diretamente a outra violência: a física, que tem o corpo como alvo e deixa marcas. Primeira conclusão: violência física contém algo de violência psicológica, mas o inverso não é verdadeiro. Como se a violência psicológica ocorresse num plano sutil, que deixa marcas psíquicas, que podem ou não ser digeridas.

Somos interrogados todo o tempo por essa percepção de violência, e cabe uma reflexão: o que há de inquietante na violência? Para onde ela nos remete? Qual o critério objetivo de definição de violência?

Um dos grandes problemas, ao tratarmos da violência, é diluir seu impacto e minimizar o horror, que ela carrega. Nesse exercício de pensamento, corremos o risco de sacralizá-la – por exemplo, utilizando conceitos psicanalíticos como Id, pulsão de morte, trauma, tratando-a como parte inerente à natureza selvagem e animal dos humanos, portanto, inexorável; ou de banaliza-la, quando a reconhecemos em todas as camadas de relações humanas: na família, nas escolas, na igreja, no Estado, no mundo corporativo, na política, nas grandes metrópoles, nos regimes autoritários etc.

Como se trata de um fenômeno complexo, resultante de múltiplas causas, corremos o risco de banalizar qualquer análise. Contextualizar os episódios de violência e escutar narrativas advindas de diversos ângulos podem ser um bom começo.

CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE

A psicanálise, aqui definida como um campo de conhecimento profundo sobre o mundo psíquico, pode fornecer algumas ferramentas. Cabe lembrar que a Psicanálise surge propondo um desenho do mundo psíquico, levando em conta nossa pulsionalidade, ancorada no corpo, na condição animal, em conversa com o mundo civilizado e a cultura, que nos insere no grupo social.  Uma das questões que a Psicanálise ilumina é a usina inconsciente, fonte e matriz de nossas produções, que às duras penas procuramos domesticar para garantir a vida em grupo.

Freud propõe um modelo psíquico caracterizado pelo conflito: como humanos, estamos negociando, sempre, entre nossos ideais e nossos desejos mais secretos entre nossa vontade a vontade do grupo; entre a civilização e a barbárie. Nem sempre essa negociação é equilibrada aceita; tampouco é consciente. Há perdas, renúncias, frustrações, restos.

Estamos mergulhados no território dos afetos, manifestações genuínas de nosso estar no mundo. O Par de afetos primordial é amor-ódio, expresso em todas nossas produções. Como símbolo desse afeto, está o Eros grego, muitas vezes traduzido por amor, o que deixa de lado as inclinações menos nobres e aceitas desse deus. Se Eros é paixão, é ligado, traz também em si o ódio, aqui tomado não como oposto do amor, mas como seu polo carregado de agressividade.

O afeto que caracteriza violência é o ódio, que nos desestabiliza e dá muito trabalho. Muitas vezes, o ódio fica como resto de relações amorosas frustrantes, abusivas, invasivas que nos marcaram. Cabem aqui os casos de separações, litígios, brigas por herança em grupos de irmãos, decisões por guarda de filhos após divórcios complicados, lutas históricas entre povos e tribos etc.

O ódio e o sentimento basal da violência. Se cavoucarmos fundo situações violentas, chegaremos a um núcleo de ódio. Também é comum que o ódio tenha uma história longa, transgeracional, passando de pai para filho e pautando relações sociais tensas.

A civilização criou códigos para nos defender desse afeto tão desestabilizador. As leis, o direito e as religiões estabeleceram um protocolo de delitos e penalidades que se transformam ao longo do tempo, mas sempre alertam: Cuidado! Homens à vista! Os códigos de conduta e as penalidades nos protegem, mas até certo ponto. Crimes, abusos, uso de poder, ameaças, humilhações, estão por nos rondando, constituindo as notícias escabrosas da mídia: abandono de crianças, teste do sofá de grandes executivos com candidatos/as a celebridade: corrupção; uso da máquina pública para enriquecimento pessoal; hostilidade a migrantes, minorias, classes desfavorecidas.  A lista é infinita e nos causa espanto.

LÁ NO INÍCIO

Nossa condição de desamparo e despreparo, quando nascemos, nos coloca em situação de vulnerabilidade. O homem, mais do que qualquer outro mamífero, nasce precário, dependente de um outro que o acolherá para satisfazer suas necessidades básicas e inserção no mundo simbólico de dependência do outro poderá deixar marcas de difícil digestão.

Autores como Ferenczi e Laplanche; com base na natureza traumática da sexualidade, pilar da teoria freudiana, apresentam reflexões profundas sobre as relações de poder e assimetria desde o grupo familiar, que podem desembocar em condutas violentas.

A primeira vulnerabilidade, portanto, é nossa condição infantil: nascemos num mundo construído e desemborcamos numa ordem simbólica que demanda tempo para ser digerida, internalizada, adquirida. Essa vulnerabilidade poderá ser ressignificada toda vez que o desamparo, o abandono, a hostilidade do meio circundante se apresentar.

Para enfrentarmos o mundo, interno e externo, somos dotados de arsenal de defesas, como acontece com nosso sistema imunológico: algumas defesas mais precárias, outras mais eficazes. Algumas defesas para enfrentar ameaças que se apresentam podem ser aqui enumeradas: negação, isolamento, esfriamento dos afetos, agressividade/ ataque. Cada situação convoca reações diversas, algumas mais sintônicas, outras mais patológicas. Os sintomas são criativos, produções próprias de cada sujeito, mas carregam uma história que nem sempre vem à luz.

Vamos tomar algumas reações que aqui nos interessam: a negação da realidade é um mecanismo básico e econômico que visa suprimir um conflito carregado de dor diante do mundo. Por exemplo, uma criança que sofre ameaças verbais em casa pode apresentar como reação apatia e desencanto, evitando estabelecer contatos. Nesse exemplo hipotético, mas bastante comum nos consultórios, instituições e nas escolas a apatia e a alienação podem estar na raiz de queixas escolares, meros sintomas, que escondem uma criança assustada, impotente, que não se contrapõe ao adulto violento, temendo a perda de seu amor. Um outro sintoma, oposto a este, seria uma reação agressiva e hostil diante de todos os que se apresentam na vida da criança: professores, escola, amigos e o próprio brincar.

Nos dois casos, estamos diante da violência e do ódio, produzindo efeitos nefastos, que constituirão um indivíduo que provavelmente terá dificuldades de negociar e criar saídas interessantes para sua vida. O custo é alto: a dessubjetivação, no caso da apatia; ou a propagação de uma rede de violência ininterrupta que sempre se reatualiza, independentemente do contexto, no caso de reações agressivas.

Um campo de violência, dual, familiar, grupal, não importa, parece requerer a presença de uma escuta, de um terceiro, que propiciará que uma narrativa aconteça, permitindo que a história se revele.

Se a violência é um sintoma, precisamos acolhê-la como expressão de um indivíduo e de um grupo. É muito comum que situações de violência representem esquemas repetitivos, automáticos, que impedem que o sujeito saia do circuito empobrecedor e assustador.

Estamos aqui lidando com fenômenos grupais complexos, nos quais a violência surge como emergente de um modo de relação potente, baseado no desejo (nossas pulsões de vida e morte) e na história cultural do grupo em questão. Hannah Arendt aponta que sem poder a violência não se sustenta. Portanto, é necessário um olhar que contemple o terreno do afeto e do desejo (esfera individual), e da história (dos grupos, das culturas, dos momentos), o que coloca a violência como estratégia racional de enfrentamento do mundo. Arendt nos lembra que o homem se comporta como um animal porque, afinal, é um animal.

Um filme recente, O Insulto (L’lnnsulte, França / Líbano, 2017), nos coloca diante da violência em várias camadas. Uma questão banal, cotidiana, (uma calha que vaza da varanda de um cidadão libanês), põe em tensão, em guerra, dois moradores da cidade: um libanês e um palestino.

Parece que a água que vaza é o pretexto, ou o detalhe, ou o resto que movimenta questões de ordem pessoal, familiar, global, racial, turbinadas por ódio e restos que não puderam ser metabolizados.

O ódio se manifesta através do insulto verbal (que dá nome ao filme), acompanhado de agressão física. E estes dois homens criam uma guerra particular, acompanhada por seus grupos étnicos.  Entra um terceiro: o tribunal, o Direito. E, nessa instância, uma das discussões passa pela comparação entre insulto e agressão física. Afinal, o que seria um crime: insultar ou agredir?

O tribunal também apresenta uma situação peculiar: os advogados escolhidos têm um parentesco importante. Trata-se de pai e filha, outra situação de poder e assimetria que tensiona as decisões.

O ódio entre os dois sujeitos transborda para toda a comunidade, levando a discussões de extrema importância, nas quais se contempla o individual e o coletivo, grupal. O filme caminha para a    narrativa das histórias de cada agressor/vítima. Tomamos contato com seu percurso sofrido, com suas perdas, com a destruição das cidades, o desenraizamento: o palestino era um engenheiro, em busca de trabalho, que se contenta com uma função de mestre de obras, uma vez que não é reconhecido pelo Estado. O libanês, a duras penas, rememora sua infância, durante o qual presenciou a destruição de sua cidade e ele também era um estrangeiro em seu próprio pais.

Aos poucos, o ódio vai dando espaço a histórias de perdas, rancores, humilhações e busca de um lugar de dignidade e afeto. Nesse filme podemos reconhecer os aspectos que Freud levanta em seus textos mais culturais, que tratam do mal-estar, do medo das perdas, das memórias que não passam e que muitas vezes retornam em forma de ódio e destrutividade.

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DESTRUIÇÃO

Retomando nosso tema, após algumas considerações, podemos concluir que a violência não é um instinto e que nem sempre é fruto do irracional. Se assim fosse, estaria naturalizada e aceita. A violência é o emprego da agressividade visando a destruição do outro, das redes simbólicas, dos contratos que cada cultura tem para si. Nas guerras, a violência é um método. E certas guerras emergem para denunciar esquemas violentos, como se decretassem: “daqui para frente, não mais”

Porém, como a Psicanálise nos ajuda a refletir, a irracionalidade reside no fato de que muitas vezes os homens desconhecem as raízes de seus atos, suas verdadeiras intenções. O próprio alvo da violência, usando uma linguagem freudiana, pode ser um mero deslocamento de objetos do passado, de traumas do passado impassado, que emergem de forma desviada e distorcida.

A culpa, ou o sentimento inconsciente de culpa que tanta angústia mobiliza, é fruto do conhecimento de uma norma que condena o ato. A partir dessa angústia, que pode ser grande catalizadora de atos violentos, é possível construirmos uma reflexão. Assistimos, em muitos grupos, a ideia utópica de uma última violência, de um novo ato fundante, espécie de sacrifício que interromperia, ao menos temporariamente o circuito de violências.

 FREUD DIZ A EINSTEIN QUE A VIOLÊNCIA TEM VÁRIAS FACES

Por que a guerra? Numa correspondência de 1932 entre Freud e Einstein, que versava sobre as possíveis razões das guerras, Freud reconhece que a história da humanidade é marcada por movimentos dinâmicos em que a violência surge com diversas roupagens. Da violência física, passamos ao Estado de direito, muitas vezes rompido, que não deixa de guardar em si certa violência, uma vez que exige renuncias instintivas de cada indivíduo. Lendo essas considerações, acompanhando o raciocínio complexo de Freud, pensamos que a convivência em grupo nos salva e nos escraviza. O equilíbrio é tênue e facilmente rompido. A passagem da barbárie à civilização não conseguiu evitar a solução violenta de conflitos no interior dos grupos. Parece que os resultados das conquistas não são duradouros, o que nos leva à conclusão de que nunca nos livraremos plenamente das guerras. Embora os vínculos afetivos sustentem nossa vida em grupo, nossa natureza humana cria um campo tenso, no qual a destrutividade e o ódio comparecem. Parece que não é possível abolirmos as tendências agressivas que habitam os homens, o que nos inclui.

SIMPLIFICAÇÃO

Edgar Morin no livro Introdução ao Pensamento Complexo aponta para o risco da simplificação, que habita, inclusive as ciências. A realidade sempre nos convoca a repensarmos os fenômenos que se apresentam e o tema da violência e do ódio mostra que a realidade humana não é uma máquina perfeita, que evolui como a tecnologia. A hiper simplificação dos fenômenos, as ideologias, a rapidez dos novos tempos representa grandes riscos que podem dar lugar a fenômenos do campo da violência. É importante considerar o conhecimento como limitado, insuficiente e colocá-lo também como objeto de investigação.

EGO E ID

No texto de Freud “O ego e o Id”, que retoma algumas ideias expressas em Além do Princípio e do Prazer, o ego não é senhor de si: escravo da natureza pulsional, sexual, do mundo externo e do superego, representante inconsciente de imperativos categóricos. O ego passa a ser considerado uma superfície tênue ancorada no id inconsciente irredutível, quase um estrangeiro dentro de nós. Se o ódio que a violência atualiza é sintoma, resta percorrer o caminho regressivo e as trilhas internas inconscientes para que o sujeito não fique alienado nem frente a seu mundo pulsional, nem nas demandas externas alheias à sua constituição.

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DORA TOGNOLLI – é psicanalista, membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. É psicóloga e mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo e publica artigos em revistas e livros especializados.

OUTROS OLHARES

COMO LIDAR COM A EXIGÊNCIA DAS ESCOLHAS?

No mundo moderno é cada vez mais intensa a cobrança de uma atitude, ou seja, todos precisam optar por um lado: o partido político, a ideologia, a cor preferida, a orientação sexual e por aí vai.

Como lidar com a exigência das escolhas

Os últimos acontecimentos do país têm gerado uma cobrança de uma atitude cidadã em que todos precisam definir um lado da moeda, o partido político, uma ideologia, a cor preferida, a orientação sexual definida etc. Como isso influencia na perda do equilíbrio emocional?

Para começar, uma pergunta: “Existe equilíbrio emocional?” Já vimos algum bebe nascer sorrindo? A entrada no mundo para nós, seres humanos já é a porta de entrada para a angústia. Um afeto ou o único que não engana não se explica, não se nomeia, não tem um objeto. É o caos. Em sua etimologia, angústia tem sua origem do latim, angustus, estreiteza, limite de espaço ou de tempo. Ansiedade ou aflição intensa; ânsia, agonia. Daí a expressão: “aperto no peito”.

Em seu livro O Conceito de Angústia, Kierkegaard defende que a diferença entre o medo e a angustia é que no medo existe um objeto definido, concreto, e ao identificarmos tal objeto é possível evitá-lo e controlar o medo. Ao contrário da angústia, que não temos clareza, certeza do objeto que a provoca, faz com que o estado de angústia permaneça em nós.

DOIS LADOS DA ANGÚSTIA

Daí, podemos afirmar que a angustia é e sempre será consequência da nossa existência humana. Mas também o motor de nossos desejos de eterna busca da felicidade. Para sempre incompleta. A angústia não é nossa condenação, é nossa condição de existir.

Imagina se existisse somente uma única cor, um único sabor, uma única forma de prazer, um único trabalho, uma única mulher, um único homem, que o fizesse se apaixonar por toda sua vida. Ou, mesmo existindo várias cores, vários sabores, várias formas de prazer, tudo que há no mundo, você seria predeterminado, direcionado a somente uma entre todas as possibilidades. E nada mais chamaria sua atenção. O que você perderia? E o que você ganharia?

Talvez você esteja pensando: seria enfadonho, monótono, previsível demais. Mas, convenhamos, por outro lado, muito reconfortante. Seria quietude. Seria a ausência da angústia que nos marca como humanos. Mas por que a angústia nos caracteriza como seres humanos? Porque, o homem sabe que sabe, por isso se angustia, e o animal, por não saber que sabe, apenas cumpre o que é da sua natureza.

Luc Ferry aponta que o que difere o homem dos animais é a liberdade.

O animal age por seu instinto natural, inato a toda espécie, “uma espécie de software do qual nunca pode desviar­ se”. E, por isso, está fadado à repetição, privado da liberdade de escolha. É o que é, por natureza. “‘O homem, ao contrário, vai se definir ao mesmo tempo por sua liberdade, não obedece a programas definidos, não é predeterminado. Ferry cita o texto abaixo de Rousseau como exemplificação magnífica dessa ideia:

Em cada animal não vejo senão uma máquina engenhosa, à qual a natureza ofereceu sentidos para recompor-se por si mesma, e para defender-se, até certo ponto, de tudo o que tende a destruí-la ou estragá-la. Percebo exatamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que a natureza faz tudo nas ações do animal, enquanto o homem concorre para as suas, na qualidade de agente livre. Um escolhe ou rejeita por instinto, e o outro por um ato de liberdade: o que faz com que o animal não se afaste da regra que lhe é prescrita, mesmo quando lhe fosse vantajoso fazê-lo, e que o homem se afaste frequentemente dela em seu prejuízo. Assim é que o pombo morreria de fome perto de uma vasilha repleta das melhores carnes, e um gato, diante de uma porção de frutos ou de grãos, embora tanto um quanto o outro pudesse perfeitamente se nutrir com o alimento que desdenha, se ousasse experimentá-lo. É assim que os homens dissolutos se entregam a excessos que lhes provocam febre e morte porque o espírito deprava os sentidos, e a vontade fala, ainda quando a natureza se cala. Mas, mesmo que as dificuldades que cercam todas essas questões permitissem a discussão sobre essa diferença entre o homem e o animal, há outra qualidade muito específica que os distingue, e sobre o qual não pode haver contestação:  é a faculdade de se aperfeiçoar, faculdade que, com a ajuda de circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e reside em nós, tanto na espécie quanto no indivíduo. Enquanto um animal é, ao fim de alguns meses, o que será durante toda a sua vida, e sua espécie, ao fim de mil anos, o que era no primeiro desses mil anos.  Por que o homem está sujeito a ser imbecil? Não é absolutamente porque retorna assim a seu estado primitivo, e o animal, que nada adquiriu e nada tem a perder, permanece sempre com seu instinto, e o homem, perdendo com a velhice e outros acidentes tudo o que a perfectibilidade lhe havia feito adquirir, torna a cair mais baixo do que o próprio animal?

 BICHO É BICHO

Amparo Caridade diz:  Na passagem do animal ao homem é a linguagem que faz a mediação e elucida a característica humana do desejo de ser desejado. É a linguagem que possibilita o anúncio e o reconhecimento desse desejo pelo outro. Dizer desse desejo ao outro e saber se dele desejado é o próprio gozo. Isso é tarefa da linguagem. É porque somos animais falantes, pensantes, imaginativos, que transformamos a linearidade do estabelecido”.

Podemos então caracterizar o homem como o único animal:

Que cria, que constrói história, que modifica a própria história, que tem liberdade, que escolhe, que tem angustia que se arrepende, que, por não poder voltar o tempo para refazer suas escolhas, rumina seu passado, para na vida. Que tem medo do futuro, ansiedade por não poder controlá-lo. Que arrisca prever seu futuro, que concretiza ou ultrapassa suas previsões. Que tem linguagem, que não entende o que o outro faz, mesmo escutando e falando a mesma língua. Que é perfectível, que se aperfeiçoa, que inventa, que constrói casas, que reforma casas, que guarda as suas primeiras invenções em museus. Tem censura, esconde o corpo, cria moda, compra vários sapatos para somente dois pés. Condena o sexo e faz sexo escondido, mas vende sexo explícito. Somente o homem fala dos outros pelas costas, inventa, conta mentira, sabe o que lhe faz bem e escolhe o que lhe faz mal. Sabe amar e também odiar, o único animal que planeja meticulosamente uma tortura, cria objetos para sua execução e escolhe quem torturar. É falante, nasce na França, fala francês, mas pode aprender mandarim. Nasce rico e pode se tornar pobre. Nasce pobre e pode se tornar rico. Cria leis e é julgado por seus atos. É constituído por extremos: coragem e medo, fraqueza e força, prazer e dor. Nomeia as virtudes e os vícios. Nasce dependente e precisa ser cuidadoso para sobreviver. Torna-se humano a partir das relações com o outro, através da educação, da linguagem, da cultura e do afeto. Pelas relações, torna-se um ser social, aparado pelo afeto. Pelas relações, legitima a importância do outro na vida. Pelas relações, conhece os prazeres e as dores. Entre o sofrimento e a alegria, elege a felicidade como significado para sua existência. Ilusoriamente, acredita e procura a felicidade permanente.

Buscamos a felicidade, principalmente no amor, a realização do desejo de amar e sermos amados como a alternativa de negarmos a nossa condição de ser só.

COMPLETUDE

O diálogo de Platão O Banquete retrata a explicação da eterna busca pela completude ainda tão almejada por todos nós. Aristófanes relata que, no início, os seres eram duplos e esféricos, tinham duas cabeças, quatro pernas e quatro braços, os órgãos genitais eram três: um possuía duas metades masculinas; o segundo, duas metades femininas e o terceiro, andrógeno, metade masculina e feminina. Tinham como características bravura e força excepcionais, que os levaram a escalar o céu com a intenção de desafiar os deuses, mas Zeus cortou-os ao meio como punição e enfraquecimento de suas forças. Acabava a completude, a unidade, a felicidade. Esse mito explica o anseio do homem por uma totalidade do ser a partir da busca incessante de sua outra metade. O mito de Aristófanes nos salvaria da solidão, nos resgatando ao estado de inteireza, de totalidade através da união perfeita. A vitória de sermos felizes para sempre.

Sponville, comentando esse mito: “A partir de então cada um é obrigado a buscar a sua outra metade, como se diz, e é uma expressão que devemos tomar ao pé da letra: outrora,” formávamos um todo, completo ( ..) , outrora éramos um”; mas eis-nos “separados de nós mesmos” não parando de buscar aquele todo que éramos. Essa busca, esse desejo e o que chamamos de amor, e, quando satisfeito, é a condição da felicidade. De fato, somente o amor recompõe a antiga natureza, ao se esforçar por fundir dois seres num só e curar a natureza humana. (p. 248).

Ainda em O Banquete, de Platão, Sócrates, em contrapartida como mito de Aristófanes através de Diotima, diz, em relação ao amor! que o amor não é completude, mas incompletude, não é fusão, mas busca. O amor é desejo e desejo é falta. O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor (p. 253).

E se sempre nos falta alguma coisa é porque somos incompletos. A partir dessa constatação de sermos só, podemos considerar que a angústia faz parte da existência humana.

É angustiante nascer e mais angustiante a constatação da morte. Somos seres afetivos e mortais. E a morte não tem uma lógica, uma sequência, uma “fila” com ordem certa.

A finitude é a única garantia da vida. Como conciliar o desejo de vida, por nós e por todos que amamos, diante da soberania da morte? Ao conhecermos o amor, o afeto, o desejo, automaticamente nos deparamos com o medo e com a angústia. Quanto mais amor, mais medo de perder. Somente por isso a felicidade perde a possibilidade de ser garantida. Mas também por isso a vida se revela como mistério. Uma aventura. A morte, que é tão temida, dá ainda mais sentido à vida. A incerteza que nos angustia é a mesma que nos impulsiona a viver. Uma provocação à nossa liberdade para driblarmos e irmos mais além do que somos.

Fantasticamente, vamos atrás daquilo que sabemos que nunca vamos encontrar movidos pela liberdade de ser.

Negar a angústia é negar nossa condição de seres temporais. Negar o tempo é querer parar seu impulso destruidor, parando também seu impulso criador. Isso é desejar a eternidade, mas a eternidade do presente. Um presente em que desaparece à perspectiva do ‘porvir’ e à memória do que ‘somos’ no passado de nossa história. Afinal, existir é coexistir com o passar do tempo, mesmo que isso signifique correr um risco constante. Ou coexistir com uma angústia que nunca cessa (Araújo, 2000, p. 171). Diante da compreensão da angústia não como uma patologia, mas inerente à nossa existência, é mera ilusão buscar a felicidade negando essa verdade do existir humano.

O exercício da liberdade é individual, escolher fazer da vida não um por acaso, mas um por querer. Escolhas movidas pelo desejo de sairmos do banco de passageiro e assumirmos o de motorista, tendo a angústia assentada ao lado, com companhia constante dessa viagem.

Mas o que nos impede de vivenciarmos a nossa liberdade! Somos seres livres, isso é fato. Mesmo com alguns determinismos: um corpo que ocupa um espaço e está sujeito à deterioração, um tempo que o limita, uma cultura que impõe leis e costumes, somos livres para ultrapassarmos, superarmos e criarmos novas formas de viver. Escolher entre o sim ou o não é sempre uma escolha. O não escolher, o ceder, o desistir, o delegar ao outro a nossa vida também são escolhas. Segundo Sartre: “O homem é escravo de sua liberdade.”

E como definir, simplistamente, a liberdade: liberdade não é poder fazer o que deseja? Então, o nosso ponto de partida não é a liberdade em si, mas o nosso desejo. Porque uma escolha exige um desejo. E o desejo, esse sim, exige um saber que é individual. O que eu desejo? Como reconhecer o meu desejo? Como assumir o meu desejo? Como identificar o meu desejo diante de tantas possibilidades?

Uma coisa puxa outra. O que está intrínseco na nossa angústia diante das nossas escolhas são as perdas. Porque o desejo é escolha, mas as perdas são consequências. E isso nos remete à total falta de garantia. Abandonar alternativas que poderiam ser talvez, melhores chances de felicidade. Escolher o que perder, no escuro, na incerteza, sem ter feito test. drive, sem ter conhecido, experimentado, sempre com a dúvida se as melhores possibilidades ficaram para trás.

EQUILÍBRIO EMOCIONAL

A ditadura do prazer impõe frustrações ou alternativas irreais para satisfazê-la. Não podemos eleger a felicidade permanente como sinônimo de saúde emocional, mas a diluição das inúmeras dimensões que formam os dois lados da moeda do viver. A alegria não seria tão encantadora se fosse a experiência de tristeza, a vitória não seria tão saborosa se não existissem os inúmeros momentos de esforços, a escolha não seria tão sofrida se não tivéssemos perdas. A vida como falta

de garantia, viver é sempre a tentativa de se viver intranquilamente bem.

E qual o nosso grande desafio, hoje, diante de um mundo de possibilidades? Como escolher, quando o muito é possível?

Se antes a escolha de uma profissão se restringia entre ciências biológicas, exatas ou humanas, hoje temos especialidade da especialidade da especialidade. Se ontem conhecíamos somente os meninos e as meninas da nossa rua, e as meninas, na sua maioria, “recatadas”, preservando seus “tesouros” para depois do casamento, deixavam de ser acessíveis, hoje todos e todas ou quase todos e todas são possibilidades reais.

Hoje, diante de tantas opções, é como se tivéssemos um saquinho de pipoca, que vamos comendo, comendo…sempre procurando pela mais doce. Porque a possibilidade de um prazer maior ainda está por vir.

Como conciliar a ditadura desse prazer permanente com a angústia de perder por ter que escolher? E diante de tantas possiblidades nos deparamos com uma liberdade mais real do que nunca. Porque, agora as possibilidades não estão mais restritas, tudo está de bandeja nas nossas casas. Como um álbum de fotos, que não tivemos tempo de vivera história. Fazemos parte da vida de todo mundo e todo mundo faz parte da nossa vida. Será que temos mais possibilidades do que desejamos? O que os olhos não veem o coração não sente. O que os ouvidos não ouvem o coração não sente. O que os dedos não teclam o coração não sente. O que a mente não sabe, o coração não sente. Quais as consequências desse excesso de informação em nossas vidas? Se antes estávamos blindados pela limitação dos recursos e lentidão de como chegavam as informações, nos protegendo da consciência sobre nossa ignorância, hoje é “esfregado em nossa cara” que estamos atrasados no tempo e no espaço. Cada minuto “desconectado” é um mundo que passou e que não fez parte da minha vida. Agora, fica constatada a minha ignorância. Agora, estou consciente de que não sei com a cobrança de que eu deveria saber o que “todo mundo” já está sabendo.

Essa nova realidade mudou radicalmente nossa forma de viver e estar no mundo: os nossos comportamentos, comunicação, relacionamento, fidelidade, educação, lazer, compras, trabalho, profissão, linguagem… Um outro mundo, mudanças tão rápidas que a maioria de nós não teve tempo para se preparar. Um sentimento de estranhamento, inadequação, peixe “fora d’água.  Mais do que nunca, quando as opções aumentam, a angústia se multiplica. Perder pouco é mais fácil do que perder muito. A poesia de Cecília Meireles, Ou Isto ou Aquilo, mais do que nunca; está atualizada:

‘”Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo”.

Mas perder é sempre perder. Antes a agonia era como conseguir andar em dois carrinhos ao mesmo tempo, hoje nem se fôssemos centopeias teríamos pés para tantos carrinhos.

Receitas mágicas, novidades, invenções, referências, manuais de certo e de errado, tudo instantâneo, provisório, transitório, o que fazia mal, volta fazendo bem, o que era vilão volta como herói, o que era desconhecido, surge como essencial, o que era consagrado some como condenado e nós nem havíamos experimentado ainda. O sentimento de dívida, de atraso faz parte do nosso dia a dia. Sempre teremos um lugar que deveríamos já ter visitado, uma comida que deveria ter sido saboreada, uma boca que deveria ter sido beijada, uma opinião que deveria ter sido compartilhada.

COBRANÇAS

Frente a esse universo de possibilidades nos é cobrado e nos cobramos posicionar com conhecimento e segurança. Liberdade de escolha não vem só. Intima a responsabilidade do que será escolhido e a angústia de abandonar o que foi perdido.

Quanto mais liberdade, mais escolhas. Quanto mais escolhas, mais responsabilidade. Quanto mais responsabilidade, mais medo, mais angústia

Finalizando esse trabalho, entrei em uma cafeteria pau dar a última lida no texto. Pedi um café. A atendente prontamente me serviu:

– Você deseja adoça-lo?

Cai na besteira de dizer que sim.

– O que você escolhe, Açúcar tradicional;

Refinado;

Mascavo;

Orgânico;

Adoçante liquido;

Em pó;

Diet;

Sucralose;

Sacarina;

Frutose;

Aspartame;

Sorbital;

Estévia.

E eu que queria tomar somente um cafezinho!

 Como lidar com a exigência das escolhas.2

CIDA LOPES – é psicóloga clínica, terapeuta cognitiva, educadora sexual, autora dos livros Gente é Gente, Bicho é Bicho e Rosazul: Nem tão Rosa, nem tão Azul. É professora do curso de pós-graduação em Sexologia Clínica (Fumec-BH), professora do curso de especialização Casc – Curso Avançado de Sexologia Clínica – BH, professora de Sexologia Clínica e Sexualidade na Infância e na Adolescência – Ciclo Ceap-BH/instituto Veda de Terapia Cognitiva – SP/Cetc-BH, coordenadora de projetos de Educação Sexual, consultora e palestrante em Sexologia, Sexualidade na Infância e na Adolescência e Relações Humanas.