GESTÃO E CARREIRA

por que o escritóri estiloso não funciona para todos

POR QUE O ESCRITÓRIO ESTILOSO NÃO FUNCIONA PARA TODOS?

Arquitetos se unem a neurocientistas para medir o impacto do design na produtividade e criatividade dos funcionários.

Espaços abertos, cores vivas, móveis descolados, baias não definidas. Cada metro quadrado pensado para gerar inovação, interação, criatividade – e economia. A fórmula dos chamativos escritórios da nova economia foi e é motivada também por custos: abrigando mais gente em menos estruturas físicas, o estilo “open space” economiza até 50% por funcionário.

Mas estudos recentes questionam a eficácia desse modelo. Por gerar mais distrações e ruídos, funcionários relatam maior estresse, menor produtividade e até falta de foco. “Muitas empresas pensam que retirar baias e colocar escorregador resolve o problema de interação e produtividade”, diz a arquiteta Priscilla Bencke. “Mas se não faz sentido para a cultura e atividade da companhia, os próprios funcionários ridicularizam a ação.” Priscilla é uma das maiores vozes no Brasil da chamada neuroarquitetura, novo campo de estudos que busca entender como o cérebro reage a diferentes espaços construídos. A partir de recentes avanços na neurociência, arquitetos ganharam mais elementos para analisar a influência, por exemplo, de um jardim no escritório, da posição de uma mesa ou da cor das paredes na sensação de bem-estar dos funcionários. E, assim, considerar tudo isso na hora de projetar. Os neuroarquitetos defendem que estudar tais influências é uma questão de saúde. “Médicos e psicólogos do trabalho dizem que o estresse vai ser a doença mais frequente no meio corporativo em 2030”, alerta Priscilla.

Por isso, escritórios com iluminação natural e janelas para todos podem ser mais eficazes em aumentar a produtividade do que um “open space” por si só. “O contato com elementos externos é fundamental para o bom funcionamento do relógio biológico e estimula positivamente o cérebro”, diz Mariah Klüsener Pinheiro, pesquisadora da PUC-RS. Em resumo, soluções no ambiente corporativo, antes de impressionar pelo visual, devem ser pensadas a partir de três fatores mais importantes: cultura da empresa, atividade fim e perfil dos funcionários.

FONTE: Revista Época Negócios / junho 2017   

 

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ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5:43-48

Continuação do Sermão da Montanha

Temos aqui, por fim, uma explicação daquele grande mandamento essencial da segunda tábua da lei: ”Amarás o teu próximo”, que era o cumprimento da lei.

 I – Veja aqui como este mandamento foi corrompido pelas observações dos mestres judeus (v. 43). Deus disse: ”Amarás o teu próximo”; e por próximo eles entenderam somente aqueles do seu próprio país, nação e religião; e somente aqueles que quisessem considerar como seus amigos. Mas isto ainda não foi o pior; pois a partir deste mandamento, “amarás o teu próximo”, eles se dispuseram a pressupor o que Deus nunca pretendeu. E com: “aborrecerás o teu inimigo”, eles consideravam quem quisessem como sendo seus inimigos, consequentemente tornando vazio o grande mandamento de Deus por suas tradições, ainda que houvesse mandamentos que expressassem o contrário, como em Êxodo 23.4-5; Deuteronômio 23.7: “Não abominarás um edomita… nem um egípcio”, embora estas nações tivessem sido inimigas de Israel como qualquer outra. Ê verdade que Deus mandou-os destruir as sete nações devotadas de Canaã e não fazer aliança com eles; mas haviam razões particulares para isso: abrir caminho para Israel e também para que não servissem como um laço para Israel. Mas foi muito perverso, a partir disso, concluir que eles deveriam odiar a todos Os seus inimigos, mesmo que a filosofia moral do pagão permitisse isso. A lei de Cícero é: Nemini nocere nisi prius; lacessitum injuriae Não prejudique ninguém, a menos que você tenha sido anteriormente prejudicado. De Offic. Veja como os sentimentos corruptos condescendentes procuram obter uma aprovação a partir das palavras de Deus, e buscam uma ocasião – através dos mandamentos – para se justificar:

II – Veja como isso é esclarecido pelo mandamento de Jesus, que nos ensina uma outra lição: “Eu, porém, vos digo”. Eu, que vim para ser o grande Pacificador, o general Reconciliador, que vos amou quando éreis estranhos e Inimigos, Eu digo: “Amai a vossos inimigos” (v. 44). Ainda que os homens sejam sempre maus e se comportem sempre de modo desprezível para conosco, ainda assim isto não nos desobriga da grande dívida de amor que temos com os nossos semelhantes, amor por nossos parentes. Não podemos evitar nos achar inclinados a desejar o mal, ou, de qualquer modo, ser muito indiferentes para desejar o bem àqueles que nos odeiam e são violentos conosco; mas o que está no fundo de todo procedimento odioso é uma raiz de amargura, que deve ser extirpada, e o vestígio da natureza corrupta que a graça deve derrotar. O maior dever dos cristãos é amar a seus inimigos, não podemos ter complacência com aquele que é abertamente perverso e profano, nem ter confiança naquele que sabemos que é mentiroso, nem amar a todos da mesma maneira, mas devemos levar em consideração a natureza humana, e, até certo ponto, respeitar todos os homens. Devemos atentar, com alegria, naquilo que, nos nossos inimigos, é agradável e louvável: a sinceridade, o bom humor, o conhecimento, e a virtude moral, a bondade com os outros, a profissão da religião etc., e amar estas qualidades, embora sejam nossos inimigos. Devemos ter compaixão e boa vontade com eles. Aqui aprendemos:

1.Que devemos falar bem deles. “Bendizei os que vos maldizem”. Quando falamos com eles, devemos responder aos seus insultos com palavra s amistosas e cordiais, e não retribuir os insultos com insultos. Quando não estivermos na presença de tais pessoas, devemos elogiar o que nelas é elogiável e, quando já tivermos dito tudo que há de bom nelas, não devemos nos precipitar a dizer mais nada (veja 1 Pedro 3.9). Aqueles cuja língua é a lei da bondade podem oferecer boas palavras para aqueles que lhes oferecem palavras ruins.

2.Que devemos fazer o bem a eles: “Fazei bem aos que vos odeiam”, e isto será uma prova de amor melhor do que as boas palavras. Esteja disposto a dar a todos a verdadeira bondade que você pode dar, e alegre-se pela oportunidade de fazê-lo, a seus corpos, bens, nomes, famílias; e principalmente a suas almas. Isto foi dito a respeito do arcebispo Cranmer, que a maneira de torná-lo um amigo era dar-lhe um tratamento cruel; ele serviu àqueles que o afrontaram.

3.Devemos orar por eles: “Orai pelos que vos mal­ tratam e vos perseguem”. Observe que: (1) Não é nenhuma novidade que a maioria dos santos foi odiada, amaldiçoada e tratada com desrespeito pelas pessoas más; o próprio Cristo foi tratado assim.

(2) Que quando, a qualquer momento, nos encontramos em tal situação, temos a oportunidade de mostrar nossa concordância, não só como preceito, como também com o exemplo de Cristo, orando por aqueles que nos insultam. Se, de outra maneira, não podemos testemunhar o nosso amor por eles, desta maneira, porém, poderemos fazê-lo sem ostentação e de tal forma que certamente não nos arriscaríamos a fingir. Devemos pedir a Deus que os perdoe, para que nunca passem pelo pior, por qualquer coisa que tenham feito contra nós, e que Ele os faça ficar em paz conosco; e esta é uma forma de alcançarmos esta paz. Plutarco, em seu apotegma lacõnico, fala isto de Aristarco; quando alguém elogia as palavras de Cleômenes, que, respondendo o que um bom rei deveria fazer, disse: Tous men philous euergetein, tous de echthrous kakos poiein Tornar o bem para os seus amigos, e o mal para os seus inimigos, disse ele: Como é melhor tous menphiloiis eiwrgetein, tous de echthrnus philous poie­ in fazer o bem para os nossos amigos, e tomar o nossos inimigos amigos. Isto é um monte de brasas sobre as suas cabeças.

Duas razões são dadas aqui para reforçar o mandamento (que parece tão difícil) de amar os nossos inimigos. Devemos fazê-lo:

[l ] Para que possamos ser como Deus, nosso Pai; “para que sejais filhos do Pai que está nos céus”. Podemos escrever um texto melhor? É um texto no qual o amor pelo pior dos inimigos é reconciliado, e está em harmonia com a pureza e a santidade infinitas. Deus “faz que o s eu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos” (v. 45). Observe que, em primeiro lugar, o sol e a chuva são uma grande bênção para o mundo, e vêm de Deus. É o seu sol que brilha, e a chuva é enviada por Ele. Eles não vêm naturalmente ou por acaso, mas de Deus. Em segundo lugar, as bênçãos comuns devem ser estimadas como exemplos e provas da bondade de Deus, que, por meio delas, se mostra um benfeitor generoso para com o mundo em que vive a humanidade – que seria muito infeliz sem estas bênçãos – e que é completamente indigno da menor delas. Em terceiro lugar, estas dádivas da providência com um são distribuídas indiferentemente, para os bons e os maus, para os justos e os injustos; para que possamos distinguir o amor do ódio não pelo que está diante de nós, mas pelo que há dentro de nós; não pelo brilho do sol sobre as nossas cabeças, mas pela ascensão do Sol da Justiça em nossos corações. Em quarto lugar, os piores homens compartilham os confortos desta vida juntamente com os demais, embora eles os maltratem e lutem contra Deus com as suas próprias armas; este é um exemplo surpreendente da paciência e da generosidade de Deus. Uma única vez Deus proibiu o seu sol de brilhar sobre os egípcios, enquanto os israelitas tinham luz em suas habitações. Deus poderia fazer tal distinção todos os dias. Em quinto, as dádivas da generosidade de Deus para os homens maus, que estão em rebelião contra Ele, nos ensinam a fazer o bem àqueles que nos odeiam; especialmente considerando que embora haja em nós uma mente lasciva, que é inimiga de Deus, ainda assim compartilhamos de sua generosidade. Em sexto lugar, só serão aceitos como filhos de Deus aqueles que procuram se assemelhar a Ele, particularmente em sua bondade.

[2] Para que possamos fazer mais do que os outros (vv. 46,47). Em primeiro lugar, os publicanos amavam os seus amigos. A natureza os levava a fazer isto; o interesse os conduzia a isto. Fazer o bem àqueles que fazem o bem a nós é um exemplo simples de humanidade. Mesmo aqueles a quem os judeus odiavam e desprezavam poderiam dar provas tão boas ou até mesmo melhores do que as deles. Os publicanos tinham má fama, embora fossem gratos àqueles que os ajudavam em suas posições e educados com aqueles que dependiam deles. E nós não devemos ser melhores do que eles? Ao fazermos isto, nós serviríamos a nós mesmos e deliberaríamos em nosso próprio benefício. E que recompensa podemos esperar por isto, a não ser o respeito a Deus, um senso de dever que nos conduziria muito além da nossa inclinação natural e do nosso interesse terreno? Em segundo lugar, devemos, consequentemente, amar os nossos inimigos para que possamos superá-los. Se devemos ser melhores do que os escribas e fariseus, devemos ser também muito melhores que os publicanos. Observe que o cristianismo é algo além da humanidade. Eis algumas perguntas sérias que deveríamos nos fazer frequentemente: O que fazemos mais do que os outros? Que coisas distintas nós fazemos? Nós sabemos mais que os outros; falamos mais das coisas de Deus que os outros; professamos e prometemos mais que os outros? Deus fez mais por nós, e, portanto, espera, justamente, mais de nós que dos outros; a glória de Deus se dedica mais a nós que aos outros. Mas o que fazemos a mais que os outros? De que maneira vivemos acima da média dos filhos deste mundo? Será que não somos carnais, e não andamos de acordo com os homens, em um nível inferior ao do caráter dos cristãos? Nisto, especialmente, devemos fazer mais que os outros, pois enquanto cada um retribui o bem com o bem, nós devemos retribuir o mal com o bem; e isto expressará um princípio nobre, e estará de acordo com um preceito mais elevado do que aquele que a maioria dos homens segue. Outros saúdam seus irmãos, acolhem aqueles que são do seu próprio partido, trajetória e opinião, porém não podemos restringir o nosso respeito, mas sim amar os nossos inimigos. De outra maneira, que recompensa teriam as? Não poderemos esperar pela recompensa dos cristãos, se não nos elevarmos acima do padrão dos publicanos. Observe que aqueles que prometem a si mesmos uma recompensa superior à dos outros devem se disciplinar para fazerem mais que eles.

Por último, o nosso Salvador conclui este tema com esta exortação (v. 48): “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus”. O que pode ser interpretado:

1.De maneira geral, incluindo todas as coisas nas quais devemos ser seguidores de Deus como filhos amados. Observe que é dever dos cristãos desejar, aspirar e perseverar em direção à perfeição na graça e na santidade (Filipenses 3.12-14). E devemos estudar este assunto para que possamos estar de acordo com o exemplo de nosso Pai Celestial (1 Pedro 1.15-16). Ou:

2.Neste caso particular, mencionado anteriormente, “fazei o bem aos que vos odeiam” (veja Lucas 6.36). A perfeição de Deus é mostrada à medida que Ele perdoa as ofensas, recebe os estranhos, e faz o bem aos iníquos e ingratos. A nossa responsabilidade consiste em procurarmos ser perfeitos, assim como Ele é perfeito. Nós, que devemos tanto, que devemos tudo o que somos à generosidade divina, devemos imitá-la tão bem quanto pudermos.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 38-42

Continuação do Sermão da Montanha

Nestes versículos, se explica a lei ela retaliação, e ela é, de certa maneira, rejeitada. Observe:

I – Qual era a permissão do Antigo Testamento, em caso de ofensa. Aqui a expressão é somente: “Ouvistes o que foi dito”; não, como antes, a respeito dos mandamentos do decálogo, aquilo que foi dito pelos antigos, ou para eles. Era um mandamento que todos deveriam, em caso de necessidade, exigir esta satisfação; mas eles podiam, legitimamente, insistir nela, se quisessem. “Olho por olho e dente por dente”. Encontramos este conceito em Êxodo 21.24; Levítico 24.20; Deuteronômio 19.21; em todas estas passagens, está indica do que isto é algo que deve ser feito pelo magistrado, que não traz debalde a espada, porque é ministro de Deus e vingador para castigar aquele que faz o mal (Romanos 13.4). Os juízes da nação judaica eram orientados sobre qual punição infligir em caso de mutilação; por um lado, ela era um terror para aqueles que fizessem o mal, e, por outro, uma restrição àqueles que sofrem o mal, para que eles não pudessem insistir em uma punição mais severa do que fosse adequado: não deve ser um a vida por um olho, nem um membro por um dente, mas deve-se observar a proporção; e fica implícito (Números 35 .31) que a perda, neste caso, pode ser redimida com dinheiro, pois quando fica determinado que nenhum resgate pode ser aceito pela vida de um assassino, se supõe que para as mutilações era permitida uma satisfação pecuniária.

Mas alguns dos professores judeus, que não eram os homens mais piedosos do mundo, insistiam que era necessário que tal vingança fosse exigida, até mesmo pelas próprias pessoas, e que não havia lugar para remissão, nem a aceitação de qualquer compensação. Mesmo agora – estando sob o governo dos magistrados romanos, em que, consequentemente, a lei judicial estava a critério desses dominadores – eles ainda eram zelosos por tudo o que parecesse difícil e severo.

Este poder que temos é uma orientação aos magistrados, para usarem a espada da justiça de acordo com as leis boas e saudáveis da terra, para o terror dos malfeitores e a vindicação dos oprimidos. O juiz descrito no Evangelho de Lucas não temia a Deus nem respeitava homem algum, e não promoveria a vingança da pobre viúva contra o adversário dela (Lucas 18.2,3). Ela está em vigor corno uma regra para os legisladores, para que ajam coerente e sabiamente para distribuírem punições pelos crimes, para limitarem os roubos e a violência, e para fornecerem proteção à inocência.

II – O preceito do Novo Testamento é: quanto ao próprio reclamante, a sua obrigação é perdoar a ofensa que lhe foi feita e não mais insistir na punição, não mais do que for necessário para o bem comum. E este preceito está de acordo com a mansidão de Cristo e a suavidade do seu jugo.

Cristo aqui nos ensina duas coisas:

1.Não devemos ser vingativos (v. 39). “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal”; à pessoa má que lhe ofende. Aqui se proíbe, de maneira expressa e geral, a resistência a qualquer mal dirigido a nós, como se proíbe resistir à autoridade (Romanos 13.2), e ainda assim isto não revoga a lei de autopreservação, e o cuidado que devemos ter com as nossas famílias. Nós devemos evitar o mal, e podemos resisti!’ a ele, até onde isto seja necessário para a nossa própria segurança, mas não devemos pagar o mal com o mal, não devemos guardar ressentimento, nem nos vingar, nem tentar nos igualar àqueles que nos trataram de maneira injusta , mas devemos ser melhores do que eles, perdoando-os (Provérbios 20.22; 24.29; 25.21,22; Romanos 12.7). A lei da retaliação deve ser coerente com a lei do amor: se alguém nos ofendeu, a recompensa não está nas nossas mãos, mas sim nas mãos de Deus, a cuja ira devemos dar lugar; e algumas vezes nas mãos dos seus vices regentes, onde isto seja necessário para a preservação da paz pública. Mas isto não justificará que firamos o nosso irmão, dizendo que foi ele quem começou, pois é o segundo golpe que cria a briga; e quando formos ofendidos, temos uma oportunidade não de justificar que o ofendemos, mas de nos mostrar verdadeiros discípulos de Cristo, perdoando o ofensor.

O nosso Salvador especifica três coisas para mostrar que os cristãos devem ceder, pacientemente, àqueles que lhes trazem dificuldades, em lugar de disputar, e estas incluem outras.

(1) Um tapa no rosto, que é uma ofensa a mim, no meu corpo. “Se qualquer te bater na face direita”, o que não somente é um ferimento, mas também uma ofensa e uma indignidade (2 Coríntios 11.20). Se um homem, com ira ou desprezo, lhe atacar desta maneira, “oferece-lhe também a outra”, isto é, em outras palavras, “em lugar de vingar aquela ofensa, prepare-se para outra e suporte-a pacientemente; não dê ao homem rude o que ele traz; não o desafie, nem entre em alguma ação contra ele. Se for necessário, para a paz pública, que ele seja limitado no seu comportamento; deixe isto para o magistrado. Mas quanto à sua parte, será, normalmente, mais prudente deixar que isto passe, não tomando maior conhecimento do fato. Se não há ossos quebrados, nenhum grande mal foi produzido, perdoe e esqueça; e se os tolos orgulhosos pensarem o pior de você, e zombarem de você por causa disto, todos os homens sábios irão lhe valorizar e honrar por isto, como um seguidor do bendito Jesus, que, embora fosse o Juiz de Israel, não feriu aqueles que o feriram no queixo” (Miqueias 5.1). Embora isto talvez possa, com pessoas pobres de espírito, nos expor a alguma afronta semelhante em alguma ocasião, isto será, na verdade, oferecer a outra face; ainda assim não devemos deixar que isto nos perturbe, mas confiar em Deus e na sua providência para nos proteger no caminho do nosso dever. Talvez perdoar uma ofensa possa evitar outra, quando a vingança não faria nada além de atrair outra; alguns serão vencidos pela submissão, aqueles que, pela resistência, seriam apenas os mais exasperados (Provérbios 25.22). No entanto, a nossa recompensa está nas mãos de Cristo, que irá nos recompensar com a glória eterna pela vergonha que suportarmos pacientemente; e embora ela não seja atribuída diretamente, ela será tranquilamente suportada pelo bem da consciência, e de acordo com o exemplo de Cristo, será somada ao que se sofre por Cristo.

1.A perda de uma vestimenta – que é um mal causado a mim, nos meus bens (v. 40). “O que quiser pleitear contigo e tirar-te a vestimenta”. Este é um caso difícil. Observe, é comum que os processos legais sejam usados para o caso de ofensas graves. Embora os juízes sejam justos e sérios, ainda assim é possível que os homens maus, que não têm consciência de juramentos e falsificações, retirem, pelo curso da lei, a vestimenta dos ombros de um homem. Não te maravilhes de semelhante caso (Eclesiastes 5.8), mas, neste caso, em lugar de procurar a lei como uma forma de vingança, em lugar de exibir uma contra-acusação, ou de resistir ao máximo, na defesa daquilo que é o seu direito indiscutível, deixe-o levar também a capa. Se a questão for pequena, algo que possamos perder sem um dano considerável às nossas famílias, é bom sujeitarmo-nos a isto, pelo bem da paz. Em outras palavras: “Não lhe custará tanto comprar outra vestimenta, quanto irá lhe custar o curso da lei para recuperá-la; portanto, a menos que você possa obtê-la novamente, por meios justos, é melhor deixar que ele a leve”.

2.Caminhar uma milha forçadamente – que é urna ofensa a mim, na minha liberdade (v. 41). “Se qualquer te obrigar a caminhar uma milha”, isto é, se alguém lhe obrigar a fazer alguma tarefa para ele ou a servi-lo, não reclame, mas “vai com ele duas”, em lugar de brigar com ele. Não diga: “Eu faria isto, se não fosse obrigado a isto, mas detesto ser forçado”; em vez disto, diga: “Eu o farei, pois de outra maneira haverá urna briga”, e é melhor servirmos a ele do que servirmos aos nossos próprios desejos de orgulho e vingança. Alguns interpretam desta maneira: os judeus ensinavam que os discípulos dos sábios e os estudantes da lei não deviam ser pressionados pelos oficiais do rei, como os outros podiam ser, a viajar a serviço público; Cristo não ensinará os seus discípulos a insistir neste privilégio, mas os fará concordar, em lugar de ofender o governo. O resumo de tudo isto é que os cristãos não devem ser litigiosos; devem submeter-se às pequenas ofensas e não prestar atenção a elas; e se a ofensa for tal que exige que procuremos reparação, que seja com uma boa finalidade, e sem pensamento de vingança. Embora não devamos motivar e provocar as ofensas, nós devemos enfrentá-las alegremente no caminho do dever, e aproveitá-las ao máximo. Se alguém disser que a carne e o sangue não podem tolerar uma ofensa assim, faça com que esta pessoa se lembre de que a carne e o sangue não herdarão o Reino de Deus.

3.Devemos ser caridosos e beneficentes (v. 42). Não devemos apenas não ferir o nosso próximo, mas devemos procurar lhe fazer todo o bem que pudermos.

(1) Devemos estar dispostos a dar: “Dá a quem te pedir”. Em outras palavras, se você tem a capacidade, encare o pedido do pobre como uma oportunidade para cumprir o dever de dar esmolas. Quando alguém que realmente precisa de caridade se apresenta, devemos dar ao primeiro pedido: dar uma porção a sete, e também a oito; ainda assim, a questão da nossa caridade deve ser orientada com juízo (SaImos 112.5), para que não demos aos ociosos e indignos o que deveria ser dado aos que têm necessidade e o merecem. O que Deus nos diz é que devemos estar prontos para dizer aos nossos irmãos pobres: “Pedi, e dar-se-vos-á”.

(2) Devemos estar prontos para emprestar. Às vezes, isto é uma caridade tão grande quanto dar; pois não apenas alivia a necessidade atual, mas obriga ao que toma emprestado à providência, ao empenho e à honestidade. Por tanto, “não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” algo para viver ou para negociar; não se afaste daqueles que você sabe que têm um pedido a lhe fazer, nem invente desculpas para livrar-se deles. Seja acessível àqueles que vem tomar emprestado. Embora alguém passa estar envergonhado e não ter a confiança necessária para tornar o seu caso conhecido e pedir o favor se você conhecer a sua necessidade, como também o seu desejo, ofereça-lhe a gentileza. Exorabor antequam rogor; honestis precibus occuram Eu serei persuadido antes que me peçam; eu irei prever o pedido que se aproxima Sêneca, De Vita Beata. É conveniente que nos antecipemos nos atos de caridade, pois antes de pedirmos Deus nos ouve, e nos concede as bênçãos da sua bondade.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A Angustia da decisão

DUVIDA: A ANGÚSTIA DA DECISÃO

 Antecipar as consequências de uma escolha ruim ajuda a evitar frustrações; o córtex orbito­ frontal tem papel importante nessa tarefa.

Imagine que você tenha de escolher entre dois empregos que igualmente lhe agradam. Ambos oferecem bom salário, mas um exige poucos deslocamentos, enquanto o outro impõe viagens frequentes. Você opta pelo primeiro e apesar de gostar do trabalho, descobre um dia que a pessoa admitida para a outra vaga ganha agora bem mais que você. Decepcionado com sua opção, você se sente responsável por essa escolha, e se arrepende.

Numa outra situação você tem de escolher se viaja para a praia ou para o campo. Você fecha os olhos e imagina o vento do mar no rosto. Então pensa: “Será que, se for para a praia, vou ficar pensando no charme de um chalé com lareira e no clima ameno da montanha?”. Conclui que sim e escolhe viajar para o campo. Você não se arrepende.

Neste caso, foi possível antecipar o arrependimento que a outra escolha causaria. A manobra mental ajuda na decisão. Todos nós procedemos assim, de modo que os arrependimentos ” fictícios”, aqueles que imaginamos como consequência eventual de nossas escolhas, estão na essência de muitas decisões.

Todos os dias nos confrontamos com escolhas. Às vezes essas decisões são difíceis, pois é preciso apostar na qualidade daquilo que vamos escolher e na satisfação que nos trará.

OPÇÕES RACIONAIS?

Segundo as teorias clássicas da economia, os profissionais da decisão (corretores da bolsa de valores, por exemplo aprimoraram suas estratégias de escolha, fundando-se sobreo “valor esperado”, isto é, a probabilidade de obter certo resultado multiplicado por esse resultado. Um jogador de cassino calcula a probabilidade de ganhar R$ 100 no vermelho e R$500 no verde. Se a chance de ganhar R$ 100 é de uma em dez e a de conseguir R$500 é de uma em cem. o “valor esperado” é de 10 no primeiro caso e de 5 no segundo. Se for racional, ele preferirá apostar no vermelho

Entretanto, sabe-se que as decisões humanas, na prática, são influenciadas por diversas considerações pouco racionais. Muita gente prefere uma soma menor (digamos R$450) com probabilidade de ganho de 100% (tem-se a certeza de ganhar a quantia) a um valor superior associado a uma probabilidade menor (RS l mil, com chance de50%), ainda que neste caso o lucro possível seja maior. Por que somos tão racionais?

É possível examinar esse mecanismo, voltando-nos para algumas pessoas que, por conta de uma lesão cerebral no córtex orbito-frontal (na altura da testa, bem acima dos olhos), nunca se arrependem. Elas têm dificuldades consideráveis na vida cotidiana e, sem saber antecipar os arrependimentos a que estão sujeitos, são incapazes de tomar decisões que possam satisfazê-las. Em nosso estudo, propusemos a esses pacientes – e a voluntários sãos – um jogo cujo princípio é análogo ao da roleta.

Na competição, os jogadores são colocados diante de um monitor de computador onde aparecem, a intervalos regulares, duas roletas. Eles escolhem uma delas para jogar depois de pensar bem, já que as possibilidades de ganho não são as mesmas.  Pode-se escolher entre uma roleta que ofereça 50% de oportunidade de ganhar R$ 40,00 e 50% de perder R$ 10, por exemplo, e outra com 80% de chance de perder R$ 1º e 20% de ganhar R$ 40. Logicamente, os jogadores escolhem a primeira. Durante uma hora, diversos pares de roletas são apresentados, cada uma com apostas financeiras e probabilidades variáveis.

Na primeira parte do teste, os participantes desconhecem os resultados da roleta que não escolheram. Assim, é impossível haver arrependimento: no máximo, eles podem ficar satisfeitos ou decepcionados com o resultado da sua roleta, como a pessoa que escolheu o emprego sem viagens, e ignora o destino de quem aceitou o outro.

Observamos as reações dos participantes de dois modos. No primeiro, colocamos eletrodos em seus dedos e constatamos que quanto mais forte a emoção, maior a corrente elétrica registrada, pois as mãos ficavam umedecidas de suor. No outro, pedimos que descrevessem como se sentiam naquele momento anotando, numa escala de -50 a +50, se estavam bem ou mal. Todos tiveram reações similares. Se o ponteiro parava, por exemplo, num ponto da roleta que representasse perda de R$ 1O, quando poderia parar numa área que lhes faria ganhar R$ 40, todos eles se decepcionavam.

Além disso os dois grupos não sentiram nenhuma emoção particular ao ganhar R$ 10 numa situação em que poderiam ganhar R$ 40: a alegria de ganhar menos é temperada pela decepção de não ter ganhado mais. Do mesmo modo, eles expressaram pouca emoção ao perder R$ 1O numa situação em que poderiam ter perdido R$ 40: a decepção de perder R$10 é compensada pelo alívio de não ter perdido mais. Por outro lado, ficaram contentes em ganhar R$10 quando poderiam ter perdido mais, desta vez, eles realmente tiveram sorte. O fato de os participantes com ou sem lesão cerebral terem apresentado as mesmas reações mostra que a zona cerebral em questão não intervinha na capacidade de ficar contente ou descontente com o resultado de uma experiência.

ANTECIPAÇÕES PREJUDICADAS

Num segundo momento, os participantes tiveram de optar entre as duas roletas, mas, depois de feita a escolha, foram informados sobre o resultado da outra roleta. Com isso, tinham chance de se arrepender quando o resultado da segunda roleta se mostra melhor que o da escolhida. Eles estavam numa situação parecida à do trabalhador que fica sabendo dos ganhos do colega do emprego que recusou.

Neste caso, os participantes sãos mostraram se muito decepcionados ao perder R$ IO e ver que na outra roleta teriam ganho R$40. Eles haviam feito uma escolha e eram responsáveis pelas consequências, já que teriam ganhado mais se tivessem escolhido o outro equipamento. Ficaram igualmente desapontados ao ganhar R$ 1O e ver que poderiam ler conseguido quatro vezes mais. Quando desconheciam os resultados da segunda roleta, ficavam contentes de embolsar os R$ 1O. Mostraram-se, porém, mais satisfeitos de perder a quantia ao ver que na outra roleta teriam perdido R$40. Se ganhassem R$40, sabendo que na outra perderiam o mesmo valor, então estariam muito satisfeitos.

A diferença mais evidente verificou-se nos jogadores cujo córtex orbito-frontal é lesado, eles ficam decepcionados se perdem R$ 1O, mas essa decepção não é reforçada por saber que na outra roleta seria possível faturar R$40; ela é a mesma de quando não sabem o outro resultado. Do mesmo modo, se ganham R$ 10, ficam contentes. Mas a satisfação não aumenta se contamos a eles que na outra roleta teriam perdido R$ 40.

A ausência de arrependimento parece invejável, mas, de fato, tem um lado negativo. Pessoas capazes de se arrepender antecipam no presente os arrependimentos que terão se fizerem uma ou outra escolha, graças a seu córtex orbito-frontal, essa antecipação aprimora as escolhas, no fim do jogo, constatamos que os participantes normais ganharam em média R$ 60, enquanto aqueles com lesão no córtex orbito frontal terminaram devendo R$ 20. O córtex orbito-frontal, que nos permite antecipar o arrependimento no momento de tomar decisão,  traz uma vantagem substancial em termos de  ganho.

Assim, a capacidade de se projetar emocionalmente no futuro é um benefício para a decisão. A diferença entre a decepção e o arrependimento está no sentimento de culpa: pacientes com lesão cerebral se decepcionam quando a seta pàra num valor negativo, o que mostra que são capazes de antecipar um bom resultado e de sofrer uma emoção negativa se o objetivo não é alcançado. Todavia, a decepção não aumenta se a outra roleta tem um bom resultado, eles não imaginam que teriam sedado melhor se tivessem feito outra opção. A capacidade de pensar em termos, hipotéticos, engendra o sentimento de responsabilidade diante da situação presente.

UMA CONQUISTA DA EVOLUÇÃO

Do ponto de vista neurobiológico, o arrependimento pode ser definido como a emoção ligada à capacidade de representar a si mesmo situações hipotéticas. Sendo um sentimento desagradável associado à noção de responsabilidade, tirariam dele lições de nossas experiências e, assim, diminuiriam os riscos de decepções quando precisassem decidir algo. Essas experiências esclarecem muito sobre a maneira como tomamos decisões e mostram que cada um se projeta inconscientemente no futuro quando se confronta com escolhas. Eis a origem do arrependimento: em tempos pré-históricos, o cérebro humano teria desenvolvido essa capacidade, que lhe conferia uma condição superior na tomada de decisões. Tal superioridade é tão clara que numerosos estudos mostram que pessoas com lesão no lobo orbito-frontal encontram grande dificuldade para tomar decisões no meio social. Por exemplo, tendem a perder o emprego, são incapazes de manter relações pessoais estáveis com as pessoas próximas e fazem repetidamente investimentos financeiros desastrosos. Curiosamente, essa anomalia não resulta de falta de conhecimento ou de inteligência.

Segundo o neurologista António Damásio, ela seria consequência de um déficit emocional. Os pacientes seriam incapazes de produzir “marcadores somáticos, isto é, reações emocionais manifestadas quando antecipamos uma decisão, as quais nos previnem dos resultados prováveis da escolha que nos preparamos para fazer (por exemplo, o desconforto que sentimos diante da ideia de repreender severamente um amigo). Nossos estudos sugerem que o arrependimento constituiria um marcador somático controlado primeiramente pelo córtex orbito-frontal. Essa região teria se tornado muito importante por conduzir todas as situações de escolha, notadamente pela produção de “arrependimentos antecipados”. Assim, o arrependimento seria um efeito secundário” de nossa capacidade de tomar decisões. Inversamente, as pessoas incapazes de se arrepender tomam decisões que com frequência as colocam em dificuldade.

ANGELA SIRIGU – é diretora de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) e responsável pela equipe de neuropsicologia do Instituto de Ciências Cognitivas de Lyon, onde NATHAUE CAMILLE é pós-doutoranda.

GIORGIO CORICE lll – é neuroeconomista da mesma equipe.

GESTÃO E CARREIRA

Vendendo em tempos de crise

VENDENDO EM TEMPOS DE CRISE

 Os últimos anos não foram favoráveis para vendas na maioria dos setores do Brasil, já que, com a crise econômica, houve um grande aperto no orçamento das empresas e do governo. Neste cenário, a área comercial é uma das mais afetadas devido ao aumento da concorrência, diminuição das margens e escassez de novos negócios. Diante dessa constatação, o que podemos fazer para melhorar os resultados das vendas?

A negociação, tanto em vendas quanto em compras, passa a ser estratégica para as empresas manterem suas margens, sempre pressionadas em tempos de crise, e seus clientes, cada vez mais escassos e com orçamento limitado. Esta é a nova realidade das empresas: redução nas margens de lucro em um mercado acirrado. Dessa forma, garantir maiores índices de lucratividade exige negociação e, por isso, organizações passaram a buscar mais eficácia na gestão de seus negócios, fazendo uso principalmente das técnicas de negociação com fornecedores e clientes para tornarem-se mais competitivas.

Nas compras empresariais, o uso das técnicas, princípios e o correto cumprimento de todas as etapas do processo de negociação já é uma constante há algum tempo, desde que os executivos perceberam que cortar custos em compras é a melhor forma de melhorar a lucratividade da empresa. O caminho de menor esforço para melhorar o resultado das empresas é o ganho através das negociações em compras, pois, com a crescente competitividade nos pontos de venda, grandes aumentos são raros. Além disso, as empresas já trabalham com estruturas extremamente enxutas, o que dificulta a redução dos gastos gerais. Comprar bem influencia diretamente a lucratividade dos negócios.

O perfil do profissional de compras nas empresas também mudou, passando a ser mais jovem, bem selecionado e formado, com cotas de cortes de custos incidindo sobre seu salário variável e, sem dúvidas, investimentos em treinamentos e sistemas de informação para apoio às negociações de compras (procurement) também contribuem para o trabalho. Este profissional precisa agora ter visão sistêmica, conhecer a organização, saber negociar (não apenas com fornecedores, mas também com clientes internos), tomar decisões com base nos indicadores de desempenho e estar atento ao ambiente externo de modo a adotar estratégias de negociação coerentes com a conjuntura econômica e as necessidades da empresa. Resumindo, empresas necessitam de compradores que detenham conhecimentos em assuntos estratégicos, sejam bons negociadores, tenham iniciativa, capacidade de decisão e credibilidade.

Em vendas, o atual cenário econômico brasileiro também fez com que a importância da utilização de técnicas, princípios e processos de negociação aumentassem. Um aluno que trabalha em empresa do ramo de óleo e gás em Campos/RJ fez a seguinte colocação em aula: “Alguns anos atrás, quando o petróleo estava com alto valor de venda e altas margens de lucratividade, tudo estava certo. Agora que a crise chegou, os preços das commodities caíram e as margens diminuíram, começaram a acontecer os cortes e a aparecer os problemas de má gestão, até mesmo em vendas”.

Em um cenário de crise econômica como o atual, a necessidade de preparar-se para as negociações mais importantes é fundamental para os vendedores de empresas de serviços e produtos. Porém, nem sempre damos o devido valor a esta etapa do processo de negociação. Queremos ter um bom resultado nas negociações, mas não dedicamos o devido tempo antes de fazê-las para que o acordo seja mais satisfatório para as partes envolvidas.

Quando me perguntam qual é o “pulo do gato·; a sacada que caracteriza e difere o bom vendedor em tempos de crise, respondo utilizando o artigo O Pulo do Gato, de Max Gehringer, no qual ele mostra que o pulo do animal gato é, literalmente, seguir a metodologia, pois dessa forma ele consegue livrar-se da queda no chão de mau jeito, sempre seguindo a metodologia. Analisando vendedores de alta performance podemos notar que utilizar as metodologias e os estudos em vendas e negociação é o melhor caminho para enfrentar os momentos de crise.

A palavra metodologia às vezes nos leva a pensar que é uma coisa difícil, complicada, mas na verdade metodologia é exatamente para ajudar a executar algo difícil, normalmente dividindo um processo complexo e longo em etapas, como no caso de vendas e negociação. Para executar vendas precisamos de preparação, e o uso de uma metodologia de preparação é fundamental para o vendedor atual.

Nos sistemas de CRM (Customer Relationship Management), na parte de funil vendas – gestão de clientes, existe a metodologia de verificação da saúde da oportunidade, fundamental para identificar se o cliente está “quente ou frio”. No meu ponto de vista, isso é umas das coisas mais importantes em gestão de vendas consultivas (grandes) e previsão de vendas (forecast).

Nos livros de negociação existem as metodologias de apoio à preparação das negociações e vendas com seus formulários para preenchimento prévio, que lembram itens-chave para a negociação antes de executá-las, além de servir de material de apoio para a execução da venda/negociação. Portanto, vendas e negociação têm sim estudos, não precisam ser feitas empiricamente como a maioria dos vendedores insiste em fazer, podem e devem ser feitas metodologicamente.

Concluindo, em tempos de crise, o “pulo do gato” em vendas é seguir as metodologias de vendas e negociação, preparar-se cada vez mais, dedicar tempo ao momento antes, ou seja, na preparação da negociação e também depois, na fase de controle, para fazer uma avaliação (feedback) da negociação. Tudo isso nada mais é do que fazer o processo de vendas e negociação completo; em outras palavras, foque no processo que o resultado virá como consequência. Esse é o “pulo do gato”.

 

 

ALFREDO BRAVO –  é professor, palestrante na área de vendas, consultor da empresa GC-5 Soluções Corporativas e um dos autores do livro ‘Gestão Estratégica de Vendas’. É doutorando em Administração pela Universidade Federal de Rosário, na Argentina, mestre em Sistemas de Gestão pela Universidade Federal Fluminense (UFF), MBA em Administração de Empresas e Negócios pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e graduado em Administração de Empresas pela UFF.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Comer com inteligência

COMER COM INTELIGÊNCIA

Nosso comportamento alimentar, diferentemente do de outros primatas, baseia-se no aprendizado e na imitação: escolhemos provar uma nova comida de acordo com o que fazem os outros.

Deixando de lado as diferenças culturais, as atividades humanas inerentes à alimentação – do cultivo à colheita, do preparo ao consumo –  são todas influenciadas pela sociabilidade. O contexto social em que vivemos tem um papel importante na determinação de nossas escolhas alimentares e, frequentemente, os alimentos preferidos não são os mais adequados do ponto de vista nutricional, mas os que agradam às pessoas ao lado das quais nos alimentamos. Também os macacos – a espécie mais próxima do homem do ponto de vista filogenético – comem reunidos, prestando atenção ao que fazem os companheiros.

Dada sua semelhança morfológica e comportamental com o homem, sempre se pensou que os macacos aprendem o que devia comer observando o comportamento de outros símios e que a difusão de novos hábitos alimentares seja fruto dessa observação. No caso do macaco-prego – símio sul americano onívoro como o homem -, porém, a pesquisa experimental não confirmou essa suposição aparentemente verossímil.

Os animais onívoros, que devem procurar frequentemente novos recursos alimentares, enfrentam um difícil dilema. Comer algo desconhecido pode causar intoxicação, mas evitar o novo pode significar perder a oportunidade de descobrir um alimento bom e nutritivo. O que fazer? Para resolver a questão pode-se experimentar o alimento com extrema cautela, e assim aprender pela própria experiência, ou atentar para como se comportam indivíduos mais experientes e fazer o mesmo. Mas, como os bebês e os símios se comportam diante de alimentos desconhecidos? A neofobia – isto é, a pequena aversão a experimentar novas comidas é um traço cultural característico da alimentação humana. Geralmente, essa característica exibe uma trajetória em forma de parábola, é reduzida nos bebês ainda dependentes do leite materno, atinge o ápice durante o desmame e decresce novamente quando esta fase se completa, momento em que muitos alimentos já fazem parte da dieta.

Além disso, a neofobia é influenciada pelo tipo de amamentação. Os bebês amamentados no seio, precocemente expostos aos vários sabores dos alimentos consumidos pela mãe, são geralmente menos neofóbicos que os nutridos com leite artificial. A oferta constante de novos alimentos pode reduzira relutância em experimentá-los: na idade pré-escolar as crianças tendem a incluir espontaneamente determinadas comidas na dieta após experimentar pequenas quantidades uma dezena de vezes.

Mas o homem não é o único primata neofóbico: saguis, chimpanzés e macacos-prego também o são. O macaco-prego é extremamente cauteloso em relação a novos alimentos, seja na natureza, seja no laboratório. Quando no Parque Nacional de Iguazú, na Argentina, Llaria Agostini apresentou a um grupo de 25 macacos-prego alimentos familiares (banana) e novos (amêndoas descascadas, maçãs secas e outros alimentos que os macacos de nosso laboratório comiam com entusiasmo), o que era conhecido foi devorado em poucos minutos, ao passo que as novidades quase não foram degustadas. Embora todos mostrassem cautela, os menos temerários foram os adultos, cujo acesso limitado aos recursos do grupo os obriga a procurar alternativas.

Embora representando uma proteção eficaz contra a ingestão de alimento novo em quantidades que podem ser perigosas, a neofobia é uma solução muito radical para uma espécie onívora como o macaco prego, cuja sobrevivência depende da capacidade de ampliar novos recursos nutritivos. Nesse macaco, assim como no homem, a neofobia é atenuada pela experiência: se a ingestão de novos alimentos não é seguida por mal-estar gastrointestinal, basta um certo número de contatos para que a comida seja aceita e consumida. Mas a neofobia pode ser influenciada pelo comportamento dos outros? Diante de um novo alimento, o indivíduo presta atenção no que fazem os demais e se comporta da mesma forma?

O PRATO DO VIZINHO

Para um bebê, o contexto social em que o novo alimento é encontrado é fundamental para que seja incluído na dieta. Diversos experimentos mostraram que a novidade é aceita mais rapidamente quando um adulto a come e que a observação do que fazem outros bebês pode alterar preferências alimentares já adquiridas. Também para o símio, a alimentação é uma atividade social. Segundo a antropóloga americana Barbara King, quando as símias comem próximas umas das outras, observando e cheirando o alimento e a boca alheios, adquirem informações sobre a comida. Ê dessa forma, observando os companheiros, que os indivíduos mais jovens e menos experientes aprendem o que comer.

Para verificar a hipótese, realizamos alguns experimentos com macacos-prego. há alguns anos já havíamos mostrado que, para esse animal, o contexto social influencia a aceitação e o consumo de novos alimentos: um macaco-prego inexperiente é mais inclinado a comer algo novo quando está em grupo, e quanto mais companheiros estiverem presentes, tanto mais ele comerá.

É importante notar, entretanto, que a observação de indivíduos experientes só permite adquirir a dieta correta se a comida que eles consomem e aquela que o animal inexperiente encontra forem a mesma. Por outro lado, não é possível inferir do comportamento de companheiros experientes que ingerem uma comida diferente se o alimento novo é comestível ou não. Portanto, se os símios de fato aprendem o que comer com os outros, então um macaco-prego observador deveria consumir mais alimento novo quando os demonstradores comem algo da mesma cor do que quando ingerem alimentos de cor diferente.

Surpreendentemente, nossos experimentos revelaram que os observadores aceitam um alimento novo prescindindo da cor do alimento ingerido pelos demonstradores. Nem mesmo quando devem escolher entre dois alimentos de cor diferente eles se deixam influenciar pela cor da comida que os demonstradores estão consumindo. Crianças em idade pré-escolar, porém, só aceitam alimento novo quando o adulto observado come algo de cor idêntica.

Embora possa nos parecer óbvio que o indivíduo deva considerar bom e comer o mesmo alimento consumido por outros, esse processo mental não é imediato para o símio. Para chegar a essa conclusão, o animal avalia a semelhança entre os alimentos e emprega um raciocínio de tipo condicional. Ela pensa que, se o seu alimento é igual ao de seus companheiros experientes, então o fato de que estes o estão comendo significa que é bom. Ao contrário, se sua comida difere da consumida pelos outros, então o que estes estão ingerindo é irrelevante para ela.

Nos macacos-prego, as influências sociais reduzem a neofobia, mas não parecem fornecer indicações sobre o que comer. A criança de 3 anos, porém, já está em condições de empregar esse sofisticado raciocínio e, portanto, de comer apenas quando é “seguro” fazê-lo: vale dizer. quando sua comida e a do demonstrador têm a mesma cor.

CONHECER PARA EVITAR

Aprender, mediante observação do comportamento alheio, que um alimento é tóxico deve ser mais vantajoso do que tentar aprender sozinho, por tentativa e erro. Todavia, se para nós isso é óbvio, para os símios não é. Até agora não há provas experimentais mostrando que as símias aprendem a evitar um alimento por meio da observação de indivíduos experientes que não o comem. Quando um grupo de macacos-prego de nosso laboratório deparou com uma comida desagradável, nenhum deles deu atenção ao fato de que os outros a evitaram: todos experimentaram um pouco. Os macacos-prego não são a única espécie que não aprende com os outros a evitar um alimento. Também nesse caso, aquilo que nos parece algo óbvio, que requer apenas um raciocínio elementar, é de fato um problema de notável complexidade. Aprender algo observando o que outros não fazem é muito mais difícil, do ponto de vista cognitivo, do que aprender com o que fazem. Para ser instruído por um fato que não se verificou, o indivíduo deve imaginar o evento que deveria ter acontecido, notar a sua ausência e deduzir a possível causa que impediu sua ocorrência.

No fascinante livro Fome e Abundância, História da alimentação na Europa, Massimo Momanari, professor de história medieval da Universidade de Bolonha e historiador da alimentação – narra a experiência de um ermitão que, retirando-se para meditar no deserto, não sabia distinguir entre plantas boas e venenosas. Após dias de jejum, observou o comportamento de uma cabra. Agora que sabemos como é difícil para os animais aprender com os outros, podemos avaliar a inteligência desse homem.

Outra opinião bastante difundida, fruto de nossa visão antropomórfica, é a de que as mães símias ensinam aos filhotes o que comer e o que evitar. Ensinar é uma atividade complexa do ponto de vista cognitivo, para ensinar o que comer é preciso saber se determinado alimento é tóxico ou não, se o outro sabe disso e, caso não saiba, que é necessário instruí-lo.

Sempre que a capacidade de ensinar foi sistematicamente estudada, concluiu-se que as mães não tentam “orientar” a escolha alimentar feita pelos filhotes. De fato, há apenas raras observações sobrea intervenção ativa para evitar que o filhote coma determinado alimento, provavelmente tóxico. O ensino ativo também é raro em outros domínios do comportamento. Por exemplo, ao contrário do que ocorre em nossa espécie, as mães não ensinam ativamente aos filhos como resolver um problema ou usar certo instrumento.

Do que vimos até aqui, conclui-se que o ensino e o aprendizado com a observação e a repetição de detalhes do comportamento alheio ou com a ausência deste exigem capacidades cognitivas que os símios não parecem possuir. Sabemos, porém, que as diversas espécies de símios evitam predadores, resolvem inúmeros problemas e elaboram uma dieta que não coloca suas vidas em risco.

Observando o comportamento espontâneo dos macacos-prego, nota-se uma série de influências sociais vagas que aumentam a probabilidade deque o indivíduo se comporte como seus companheiros: por exemplo, a tolerância entre indivíduos, a proximidade que favorece o encontro dos alimentos, o ato de pegar a comida da boca do outro ou a ingestão dos restos deixados por um companheiro.

APRENDER COM A EXPERIÊNCIA

A experiência individual pode ser suficiente para a formação de dietas corretas. Os símios, assim como muitos outros animais, têm três características fisiológicas e comportamentais fundamentais para que o indivíduo aprenda, com a própria experiência, a ampliar a dieta evitando riscos fatais: a preferência por certos sabores, a cautela em relação a alimentos jamais experimentados e a aquisição da aversão alimentar.

Os símios revelam acentuada preferência por alimentos doces e evitam os amargos, resultado do processo evolutivo que plasmou o paladar de forma a maximizar a obtenção de energia e minimizar a ingestão ele substâncias tóxicas (na natureza, em geral, os alimentos doces não contêm alta concentração de substâncias tóxicas, abundantes nos amargos).

Além disso, as símias são extremamente cautelosas quando experimentam alimento novo. Um mecanismo simples permite que elas aprendam, com a experiência, a evitar comida tóxica: quando experimenta algo novo e sente problemas gastrointestinais, ela associa o alimento ao mal-estar e, assim, aprende a não comê-lo mais.

Esse fenômeno – tecnicamente chamado de “aprendizado de aversão alimentar” –  é extremamente eficaz, pois exige um número limitado de experiências, persiste por muito tempo e é mais rápido se o alimento é novo. O aprendizado é bastante disseminado no reino animal e, no homem, pode determinar idiossincrasias em relação a novas comidas e às que eram anteriormente apreciadas. As influências sociais, que em nossa espécie têm canta importância, são abafadas pela força da aversão que a pessoa adquiriu sozinha.

À luz de nossos resultados, parece que no macaco-prego, mas provavelmente também em outras espécies de símios, as influências sociais genéricas e a experiência individual permitem que o indivíduo aprenda o que comer sem que sejam empregados processos cognitivos mais complexos, cuja presença nessas espécies ainda precisa ser demonstrada.

Quando foram oferecidos sete tipos de alimentos aos macacos-prego, alguns dos animais estavam sozinhos (condição individual) e outros em companhia de membros do grupo (condição social). Independentemente da condição social ou individual, as preferências se orientaram pelas comidas energéticas. Isso mostra que, também no que diz respeito à aquisição de preferências alimentares, o papel do contexto social é secundário.

COMO O MACACO-PREGO ESCOLHE

Segundo a teoria do optimal foraging, a seleção natural favorece as espécies que privilegiam a obtenção de energia e de substancias nutritivas, escolhendo os alimentos mais adequados. Todavia, quando se experimenta um alimento, o feedback sensorial devido ao sabor precede as consequências fisiológicas de sua Ingestão, geradas pelas substâncias, nutritivas ou tóxicas, que contém. Investigamos se as símias avaliam um alimento novo desde as primeiras mordidas e se essa avaliação muda quando a comida se toma familiar. Pesquisamos ainda se as influências sociais modificam as preferências alimentares. Gloria Sabbatini e Margherita Stammati ofereceram sete novos tipos de alimentos a 26 macacos-prego. Cada um deles era apresentado em par, cobrindo todas as 21 combinações possíveis: cada alimento devia ser escolhido seis vezes. Após essa limitada experiência, os macacos já efetuavam escolhas conforme o conteúdo de glicose e de frutos e dos alimentos. Alimentos com alto conteúdo de açúcar (como abacaxi) eram preferidos aos que tinham pouca quantidade dessa substância (como couve). Após contatos posteriores em que puderam comer os sete alimentos à vontade, as preferências mudaram e as símias não mais se basearam apenas no conteúdo de açúcar, mas também na energia total, independentemente da fonte dessa energia (açúcar, proteína ou gordura).

Esses resultados mostram que o feedback sensorial Imediato, isto é, o gosto doce do alimento, determina inicialmente as preferências. Mas, em seguida, o indivíduo aprende a levar em conta outros fatores e, nesse ponto, privilegia os alimentos com alto conteúdo de energia e que produzem um feedback fisiológico positivo, isto é, uma sensação de saciedade.

HERANÇA ALIMENTAR

As tradições são elementos constitutivos da cultura e as relações entre aprendizado social. Tradições e cultura são ainda objeto de pesquisa intensamente debatido. Um comportamento é considerado tradicional ou cultural se: (a) está amplamente disseminado entre os membros de uma ou mais populações e ausente em outras que vivem em áreas ecologicamente similares;

(b)  a presença em uma população e a ausência na outra não puder ser atribuída a diferenças ecológicas entre as áreas em que vivem e/ ou a diferenças genéticas; e (c) mantém-se ao longo do tempo e é transmitido de uma geração a outra mediante aprendizado social. Alguns primatólogos observaram diversas populações de chimpanzés por um período que seria equivalente a 151 anos e concluíram que existe entre eles um número considerável de comportamentos culturais. Por exemplo, os chimpanzés de determinada população usam pedras e bigornas para quebrar nozes muito duras, ao passo que em outra população nenhum instrumento é usado. Também a limpeza recíproca dos pelos (grooming) varia entre as populações. Comportamentos culturais estão presentes ainda nos orangotangos e em algumas espécies de cetáceos. Em populações naturais de Cebus copucinus há tradições comportamentais relativas às técnicas de processamento de certos alimentos ou à modalidade de captura de presas. Dado que tais diferenças não parecem ocasionadas por fatores genéticos ou ecológicos, cabe pensar que se trata de tradições. Recentemente, nessa mesma população de Cebus copucinus, Susan Perry e colaboradores observaram um comportamento singular em que uma símia inseria os dedos no nariz ou na boca de outra símia, que por sua vez fazia o mesmo com a companheira. Os pesquisadores elaboraram a hipótese de que esse arriscado hábito tinha a função de avaliar a qualidade das relações sociais. Mas são necessários estudos controlados de laboratório para compreender quais processos de aprendizagem social permitem a difusão desses comportamentos e para estabelecer o papel da influência social na experiência individual. Nossas pesquisas são um primeiro passo nessa direção.

ELISABETTA VISALBERCHI – é primatóloga e pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia da Cognição (ISTC)do Conselho Nacional de Pesquisa Italiano.

ELSA ADDESSI – é pesquisadora em biologia animal e bolsista no ISTC.

GESTÃO E CARREIRA

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#PARTIU NOVOS DESAFIOS

Como saber se chegou o momento de encerrar um ciclo na sua vida e virar a página.

 Anos desafiadores como os de crise, que estamos enfrentando neste agora, pedem coragem em vários sentidos. É preciso coragem para se manter produtivo e otimista, para continuar fazendo um bom trabalho apesar das diversidades e, também, para dar uma guinada na sua vida quando as coisas não estão seguindo o caminho que você imaginava. Mas essa coragem para mudar nem sempre é uma tarefa fácil. Afinal, é comum que os profissionais entrem em uma zona de conforto e se mantenham lá até serem obrigados a se reinventar. Só que quem percebe qual é o momento de partir para outra sai na frente: essa consciência é essencial para que a realidade de uma demissão, por exemplo, não pegue você de surpresa. É claro que mudar é assustador, mas, quando isso acontece, essa é a melhor decisão a ser tomada. “Se a pessoa não muda, fica esperando eternamente algo que não vem”, diz Telma Guido, especialista em transição de carreira da Right Management Brasil, consultoria de São Paulo. Ao longo desta reportagem, mostramos como virar a página da sua vida e como entender se está na hora de correr atrás de um novo emprego, abandonar um projeto que não vinga, fechar um empreendimento, aca- bar com um mau hábito, repensar os seus objetivos de carreira ou encerrar um ciclo. Os profissionais desta matéria vão inspirar você a respirar fundo e se jogar sem medo em um novo desafio.

#É HORA DE MUDAR UM HÁBITO

Seja tomar café, colocar o cinto de segurança, roer as unhas ou fumar, de acordo com uma pesquisa da Universidade Duke, dos Estados Unidos, os hábitos estão presentes em 40% dos nossos dias – tanto os bons quanto os ruins. “Hábito é toda ação que não envolve um processo de decisão, quando entramos no piloto automático e não temos mais consciência de que estamos fazendo algo”, diz Sâmia Simurro vice-presidente de projetos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida, de São Paulo.

Assim como no dia a dia, os hábitos ruins no trabalho podem ter consequências na saúde e nos relacionamentos. “Quando a pessoa começa a ter prejuízos e negligencia tarefas, é sinal de que convive com um mau hábito”, diz Renata Maransaldi, psicóloga e coach, de São Paulo. Clarissa Soneghet, de 35 anos, só percebeu que o hábito de trabalhar demais era prejudicial quando teve um problema sério no quadril. Formada em turismo, ela assumiu uma posição como gerente de produção de eventos e chegava a passar dez, 12 horas no trabalho – inclusive aos finais de sema- na. “Mais que o tempo, o ritmo de trabalho era muito frenético, eu sou perfeccionista e queria acompanhar tudo de perto, nada podia dar errado”, afirma Clarissa.

Quando saiu da área de eventos, Clarissa migrou para marketing em uma agência e o cenário não mudou. “Eu era responsável pelos lançamentos dos produtos. Chegou uma hora que não tinha tempo de fazer mais nada, o trabalho consumia toda a minha dedicação”, afirma Clarissa. Mesmo sofrendo constantemente de enxaqueca crônica foi só em 2012, quando teve o problema no quadril, que ela repensou seu estilo de vida. “Comecei a questionar por que eu gastava tanta energia em projetos com os quais eu não me identificava. Os prazos sempre para ontem me incomodavam também. Daí eu decidi que era hora de construir algo para mim”, afirma Clarissa.

Ela queria mudar e, para isso, fez um exercício de autoconhecimento parecido com o descrito no best-seller O Poder do Hábito, lançado em 2012. No livro, o escritor Charles Duhigg afirma que os hábitos são compostos de três etapas e que precisamos compreendê-las para nos livrarmos deles. São elas: o sinal ou o gatilho que desencadeia aquela ação, a rotina ou a frequência com que o realizamos e aquilo que buscamos ao repetir o hábito. Para Clarissa, o impulso surgiu após um curso de empreendedorismo, no qual ampliou sua visão sobre outras formas de trabalho e conheceu sua atual sócia, Nathália Roberto. Juntas fundaram, em 2014, a Kind, uma empresa de consultoria voltada para o universo feminino. Hoje, com horários flexíveis e mais autonomia, Clarissa nem cogita voltar ao modelo antigo de trabalho. “Agora faço exercícios e tenho flexibilidade para escolher parceiros de negócios”, diz.

5 PERGUNTAS PARA MUDAR UM HÁBITO

1.Esse hábito está prejudicando algum aspecto da minha vida?

2.Qual o motivo pelo qual eu realizo essa ação?

3.Eu estou motivado a mudar esse hábito?

4.Qual o meu plano de ação para isso?

5.Como eu vou me manter afastado desse hábito?

#É HORA DE ENCERRAR UM CICLO

Mesmo que os ciclos profissionais tenham encurtado, encerrar uma etapa ainda gera conflitos. “A maioria das pessoas não possui um plano para a carreira e, por isso, esse momento vem associado a uma crise”, diz Vera Vasconcelos, da Produtive, consultoria de carreira, de São Paulo. E, quando as causas desse desejo de mudança são originadas pelas emoções, o processo fica mais complicado. “Quando a pessoa tem uma visão clara do que quer, lê o cenário e encerra uma etapa porque não possui mais possibilidades de concretizar os objetivos. Isso acontece naturalmente”, diz Telma Guido, da Right Management.

Esse foi o caso do engenheiro Eduardo Lima, de 38 anos, CEO da eduK, plataforma de cursos online. Após anos trabalhando na área de mineração e siderurgia, Eduardo percebeu que seus objetivos haviam mudado: “Eu ia trabalhar todo dia e questionava o que eu estava fazendo ali, pensava que precisava encontrar outro caminho profissional”, diz. O sonho de empreender era uma inquietação. Então o mineiro fez um plano para dar uma guinada. “Pesquisei modelos de negócios, mas nunca tinha achado algo com que eu me identificasse, até que, em 2007, surgiu o convite de um amigo de Belo Horizonte que estava montando uma franquia de e-commerce, a Neomerkato.” No começo, ele trabalhava nas horas livres, mas depois começou a investir, o empreendimento cresceu e ele abandonou de vez a engenha- ria, passando a trabalhar de casa.

Embora a mudança de Eduardo tenha ocorrido em poucos meses, não existe um prazo correto para definir quando é exatamente a hora de encerrar um ciclo. Algumas pessoas precisam sempre de estímulos, de mudanças, de adrenalina e, para elas, os ciclos fecham mais rápido. Para outras, é necessário estabilidade e movimentos de carreira mais tranquilos. “Fazer algumas perguntas como: ‘O que eu ganho se eu continuar aqui? E o que perco?’ ajudam a analisar se o problema está no lugar em que você trabalha ou em você mesmo”, diz José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), de São Paulo. A motivação e a satisfação com o trabalho são alguns dos sinais mais claros que devem ser levados em conta na hora de decidir partir pra outra. “Todo ser humano busca felicidade, e isso está diretamente ligado com engajamento, com o sentimento de ter uma missão e contribuir para algo”, diz José Roberto.

Depois que encontrou seu caminho no empreendedorismo, Eduardo estava próximo desse estágio. Mas conseguiu conquistar de fato o tão desejado propósito quando montou, ao lado de um amigo, a eduK.

Criada em 2013, a empresa tem estúdios para gravação de aulas online dos mais diversos tipos – de empreendedorismo a moda – e hoje conta com mais de 100 mil assinantes. “Sinto que mudei pela minha qualidade de vida e porque queria mais satisfação. No começo, cheguei a ganhar menos. Mas agora eu trabalho com um propósito, que é a educação”, afirma Eduardo.

5 PERGUNTAS PARA SE FAZER ANTES DE DESISTIR DE UM CICLO

1.Quais foram os meus aprendizados?

2.Eu entreguei todos os projetos com os quais me comprometi?

3.A causa da minha insatisfação está em mim ou no meu trabalho?

4.Onde estou não existe mais possibilidade de mudanças?

5.O que eu faço deixou de fazer sentido?

#É HORA DE MUDAR DE EMPREGO

Os motivos para querer deixar um emprego podem ser inúmeros. Na crise, costuma pesar a falta de reconhecimento, a remuneração baixa, a pressão, as equipes enxutas. E o fator chefe chato sempre é uma questão. Antes de pedir demissão, porém, é preciso identificar esses problemas, avaliar se existe uma solução e medir a temperatura do mercado. “Mesmo sendo um momento difícil, cada um precisa saber avaliar se vale a pena continuar em um lugar que não lhe faz bem”, diz Isabella Santoyo, coach de vida e carreira, de São Paulo. Essa foi a estratégia de Lara Hammoud, de 24 anos, gerente de finanças na Bidu, startup de seguros, de São Paulo. Formada em administração, ela trabalhava em uma consultoria onde aprendeu bastante, mas tinha medo de ficar presa em uma carreira mais consultiva e não conhecer a rotina de uma empresa. “Além disso, me incomodava o fato de ser prestadora de serviços e não desenvolver relações de longo prazo”, diz Lara.

Para encontrar qual caminho trilhar, a paulistana fez algo altamente recomendado pelos especialistas: conversar com amigos e colegas que já enfrentaram a situação. “Fazer um planejamento da mudança é fundamental para encontrar uma saída e entender aonde você quer chegar”, diz Isabella. Com isso em mente, Lara começou a entender que não queria uma carreira numa multinacional, por exemplo, e que desejava algo mais dinâmico. Um dos amigos sugeriu que, talvez, ela tivesse perfil para trabalhar em uma startup e a indicou para entrar na Bidu. “Foi tudo muito rápido, eles precisavam de alguém e, em menos de duas se- manas, eu já tinha sido contratada”, diz Lara. Mas, antes de dar a palavra final, ela voltou várias vezes na empresa, conversou com gestores e colegas com os quais trabalharia. “Expliquei que não possuía experiência em diversas atuações e que precisava de um tempo para aprender e de suporte”, afirma. As portas da empresa anterior continuaram abertas. Isso porque a administradora não saiu de supetão: indicou ao chefe que estava se sentindo estagnada – o que é fundamental. “Fazer uma análise detalhada de que a insatisfação continua mesmo depois de pensar em alternativas dentro do atual emprego é funda- mental”, diz Isabella.

Além da ânsia por se demitir logo, outro erro que os profissionais cometem é de postergar demais a decisão da saída. Quando há muito desgaste emocional (e até físico) e os valores não estão mais alinhados, não tem jeito: é hora de partir para outra. “Quando há essa combinação, a pessoa não se sente mais engajada e sair faz todo o sentido”, diz Isabella. Ficar no em- prego apenas por receio do que os outros vão achar da sua decisão ou porque você prefere insistir em algo que está lhe fazendo mal em vez de encontrar outra solução é terrível. Isso só vai minar as suas energias e minguar sua força de vontade para tentar algo novo.

5 PERGUNTAS PARA SE FAZER ANTES DE DEIXAR SEU EMPREGO

1.Meus valores estão alinhados aos valores da empresa?

2.Minhas habilidades estão sendo utilizadas?

3.Sinto vontade para desempenhar o que esperam de mim?

4.Vejo um futuro e desejo crescer junto com a empresa?

5.Estou ficando doente por causa de aspectos do trabalho com os quais não consigo lidar?

#É HORA DE DESAPEGAR DE UM PROJETO

Quem trabalha com projetos sabe como é grande a pressão para que as empreitadas deem certo rapidamente – ainda mais na crise, quando os investimentos minguam. “A principal habilidade para trabalhar bem com isso é decidir rápido”, diz Randes Enes, professor da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. É evidente que projetos precisam de um tempo hábil para dar certo, e muitas vezes a ansiedade acaba atrapalhando. Mas há um limite entre insistir em algo que vai parar em pé e em algo que está fadado a dar errado.

Alexandre da Silva, de 53 anos, líder da área de sistemas inteligentes do Centro de Pesquisas Global da GE no Brasil, lida com essas questões. Ele é responsável por coordenar um grupo de pesquisadores que trata de automação industrial avançada e atua em diferentes negócios da GE, em setores como óleo e gás, energia elétrica, transportes ferroviários e aviação. Todo ano, ele administra uma carteira de 12 projetos, mais ou menos. “A decisão entre perseverar ou interromper acontece em todos os projetos”, diz Alexandre. O passo a passo ideal para estruturar um projeto é avaliar o grau de risco, traçar um plano e definir parâmetros para avaliar se as coisas estão caminhando bem ou não. Segundo Randes, a experiência de realizar um projeto é semelhante à de ler um livro. A pessoa gosta da capa, começa a ler o livro, e no primeiro capítulo já não aprecia. Em vez de largar a leitura, muitos continuam lendo. “Isso é uma mentalidade cultural, ler um livro é um projeto. Mas, uma vez que não está gostando, vira uma perda de tempo”, afirma Randes. “Ela sabe que não vai dar certo, que não é lucrativo, mas, só porque já começou, acha que precisa terminar – mesmo que isso envolva recursos desnecessários e que não atinja o resultado desejado. Essa é uma decisão extremamente emocional e que envolve o ego”, diz o professor. E o mesmo raciocínio nos acomete quando nos dedicamos a um projeto que não vai render. Depois que se fez a análise de que é preciso mudar de rumo ou partir para outra, o mais importante é não se deixar consumir pela sensação de fracasso e incompetência nem encarar esses “erros” de maneira negativa. O melhor é abandonar o barco furado rapidamente – para não afundar junto.

Para tomar uma decisão desse tipo, Alexandre tenta alinhar sua visão e intuição ao julgamento técnico. “Interromper requer mais coragem do que insistir”, diz. O que o ajuda na análise, além de sua experiência prévia, é ouvir feedbacks dos clientes e colegas e fazer projetos com ciclos mais curtos. “Antigamente, a gente levava entre três e cinco anos para desenvolver um produto novo, hoje esses ciclos foram encurtados significativamente, para menos de um ano”, afirma Alexandre. Isso dá agilidade para abastecer o mercado de novidades e, também, para errar rápido.

5 PERGUNTAS ANTES DE ABANDONAR UM PROJETO

1.A equipe que trabalha comigo está alinhada para atingir a meta estabelecida?

2.Eu tenho indicadores objetivos que apontam que estou no caminho certo?

3.O projeto está chegando ao final de seu prazo sem a maioria dos resultados esperados?

4.Já tentei reajustar o plano para tentar salvar o projeto?

5.Estou apegado demais ao plano e não consigo enxergar saídas?

#É HORA DE TER UMA NOVA META

Ainda na época da faculdade, o publicitário Felipe Versati, de 29 anos, já tinha decidido qual caminho gostaria de seguir: iria trabalhar na área de criação de uma grande agência. “A gente acredita que vai encontrar um ambiente informal, onde você pode trabalhar de bermuda, ter liberdade para criar e ainda ganhar prêmios com seu trabalho”, diz Felipe. Mesmo passando por outras áreas, o desejo persistia e, em 2011, prestes a concluir a graduação, Felipe aceitou a proposta de trabalhar na Bilheteria.com, agência especializada em serviços culturais, em São Paulo. Chegando lá, o publicitário encontrou uma realidade totalmente diferente da que esperava. Trabalhando mais de 18 horas por dia, sem horário para comer e dormir e sem vida social, o paulista percebeu que, mesmo alcançando o seu sonho, ele se sentia insatisfeito. “Muitas pessoas criam expectativas irreais sobre algo porque olham apenas para as coisas boas e acreditam que isso representa o todo. Daí, quando se deparam com a realidade, acabam se frustrando”, diz Daniela do Lago, coach de São Paulo.

Um ano e uma úlcera depois, Felipe entendeu que era hora de mudar seu objetivo, mesmo com expectativas de crescimento na agência. “Eu já havia me tornado analista sênior e tinha a perspectiva de uma promoção em breve, mas isso não compensava a minha falta de adaptação ao modelo de trabalho e vi que tinha que almejar outra coisa”, diz Felipe. E essa mudança de ambição é normal. Muitos entram no mundo corporativo acreditando que sucesso é sinônimo de uma posição elevada, por exemplo, mas conforme o tempo passa as expetativas mudam e você precisa se ajustar.

Com um MBA que o auxiliou a ampliar seus horizontes, em 2013, Felipe quis resgatar um sonho antigo e começou a procurar oportunidades no terceiro setor, onde havia estagiado. Mesmo com ganhos menos agressivos, ele aceitou a proposta de estruturar a área de marketing da Associação Cruz Verde, organização filantrópica que atende pessoas com paralisia cerebral grave, em São Paulo. “Mu- dei as minhas expectativas”, diz. Um dos pontos mais difíceis na hora de largar uma ambição é, por vezes, reconhecer que a definição de sucesso que cada um de nós possui pode ser diferente daquela que aprendemos ser a mais acertada. “Precisamos conhecer nossos objetivos e expectativas e compreender que nossa satisfação tem que estar relacionada com as nossas crenças”, diz Paulo Moraes, diretor da Talenses, empresa de recrutamento do Rio de Janeiro. Outro ponto é não olhar para essa mudança de ambição como um fracasso. “Quando você entende que aquele desejo não lhe pertencia, precisa encarar como uma alternância de caminho, e não um passo para trás”, diz Vera.

Hoje, quase três anos após a escolha, a associação é um dos empregos mais duradouros de Felipe. “Antes, com um ano eu queria mudar de trabalho, agora me sinto muito recompensado. Por mais que você seja premiado, nunca seus produtos vão te dar um abraço de agradecimento, como os que eu ganho dos pacientes diariamente”, conclui.

5 PERGUNTAS PARA SE FAZER ANTES DE DESISTIR DE UMA META

1.O que eu valorizo de verdade?

2.Eu tenho condições reais de concretizar essa ambição onde estou?

3.Eu fiz algo no sentido de concretizar esse objetivo?

4.Essa meta está prejudicando outros aspectos da minha vida?

5.Eu ainda quero me tornar aquilo que planejei há algum tempo?

#É HORA DE FECHAR SEU EMPREENDIMENTO

O advogado Francisco Pereira, de 35 anos, trilhou uma carreira na área de consultoria. Em 2008, era supervisor da multinacional Terco e queria se tornar gerente. Tudo mudou quando um amigo o chamou para empreender na área têxtil. “Sempre tive esse sonho e, quando fui convidado para ser responsável pela gestão da empresa, aceitei”, diz Francisco. Os dois montaram uma companhia que concebia e fabricava peças de vestuário. Em sete meses, o investimento havia sido quitado, eles fecharam contratos, tinham uma equipe de 12 pessoas e cada sócio lucrava 5 000 reais mensais.

Só que as coisas pioraram em 2009, quando sofreram um baque. Um cliente que já havia retirado 50% das peças desapareceu, o que gerou um rombo. Os sócios pegaram dinheiro emprestado, cobriram os gastos com funcionários e com a manutenção. Até que, seis meses depois, outro cliente deu calote. “Com a dívida anterior e sem dinheiro para brigar judicialmente, ficamos com um prejuízo de mais de 217 000 reais”, diz Francisco.

Nesse momento, o advogado sentiu o drama comum aos empreendedores: sabia que talvez fosse melhor voltar atrás, mas ainda se sentia muito ligado ao negócio para desistir. “É como uma bateria que está sempre no vermelho, chega uma hora que não vai aguentar mais”, diz Tiago Aguiar, mentor empresarial e sócio da QI Empreender Grandes Ideias, de São Paulo. Desistir é sempre difícil no mundo do empreendedorismo porque é fácil se iludir com histórias mirabolantes de perseverança que se assemelham aos “doze trabalhos de Hércules”. Claro que a persistência é boa – desde que o empreendedor tenha um olhar racional sobre suas metas e sobre seus erros e encontre saídas viáveis para continuar tentando até esgotar todas as possibilidades. Sem isso, é provável que a persistência se transforme em teimosia. “O teimoso passa anos e não sabe quais ações deram errado, não estabelece um plano e não se adapta à nova realidade”, diz Tiago.

Para não fazer parte desse grupo, Francisco e seus sócios analisaram tudo friamente. Notaram que, por causa das dívidas, pagariam juros sobre juros, o que não valeria a pena. A saída foi fazer um novo empréstimo para fechar o negócio em 2010. Além da tristeza com o fracasso, o advogado tinha que lidar com uma dívida de 12 000 reais, dividida entre os sócios, que demorou três anos para quitar. Desempregado, vendeu o carro e precisou de ajuda familiar para pagar as contas. A solução foi começar tudo de novo – só que, desta vez, no mundo corporativo. Ele entrou em contato com seu antigo gerente da Terco, que o indicou para uma vaga em outra consultoria, a BDO, onde é, hoje, gerente sênior da área de tributos. “Voltar foi difícil porque eu não aceitei esse baque, tive que vir de cabeça baixa, ganhando menos”, diz. Mas essa humildade o ajudou a perceber que poderia aprender com os erros e que, pelo menos em médio prazo, o seu lugar é onde há uma carteira assinada.

5 PERGUNTAS ANTES DE DESISTIR DE UM EMPREENDIMENTO

1.Acredito na ideia?

2.A ideia está ligada ao meu propósito?

3.Atingi o limite de tempo?

4.Atingi o limite de dinheiro?

5.Esgotei todos os caminhos?