GESTÃO E CARREIRA

OLÁ! ESTOU AQUI PARA AJUDAR

Cada vez mais humanizados, os chatbots são mensagens automáticas que auxiliam o atendimento das empresas pela internet e oferecem métricas para melhorar os serviços.

Olá, estou aqu para ajudar

Já faz um tempo que a televisão tradicional entendeu o conceito de “second skin, quando o público já não se contenta mais em apenas acompanhar o que passa na telinha, mas quer comentar, saber o que os outros pensam sobre o assunto e, de alguma maneira, fazer parte daquilo. Antes, os 140 caracteres do twitter e algumas hashtags bastavam para fazer esse papel, que acabava sendo orgânico. Enquanto o tapete vermelho do Oscar, por exemplo, desfilava artistas em suas câmeras a internet falava sobre os modelos de roupas mais bonitos ou polêmicos, entre outras coisas. Depois. veio Facebook, Instagram e assim segue.

Premiações como essa são transmitidas, hoje pela TNT Brasil. Por isso, o chatbot surgiu como uma das soluções para atrair ainda mais público às ações importantes do canal. “Começamos a usar o bot em fevereiro de 2017, durante o Oscar. Tivemos uma ideia bacana de interação diretamente com os nossos seguidores – ajudar as pessoas a opinarem sobre os filmes que elas não tinham assistido por meio de uma série de interações, além de comentar o prêmio junto com elas – e pedimos ajuda a uma agência para criar o mecanismo. O resultado foi muito bom e nós acabamos sendo citados como case de sucesso em eventos do Messenger”‘, conta a Community manager da empresa, Marina Ferreira.

Em época de modelos de economia criativa e futurista, estar um passo à frente torna-se primordial para o sucesso das empresas. “A participação das pessoas em ações mais complexas do bot, como quízes e jogos, está sendo bem representativa em relação ao número de participantes e envolvimento. Observando as palavras mais utilizadas na interação, foi possível analisar profundamente o que as pessoas esperam da nossa empresa na internet, que tipo de informações elas desejam receber, quais são as suas principais dúvidas e sobre o que elas querem conversar. Com isso em mãos, estamos lapidando cada vez mais o bot para deixá-lo ainda mais útil para o nosso público, completa Marina.

Enquanto a TNT é case no uso da ferramenta, a Zenvia é uma das empresas que ajudam no desenvolvimento da função. A diretora de Marketing e Desenvolvimento Organizacional, Gabriela Vargas, conta que os dois principais pilares para o processo de criação foram o consumidor e um modelo de negócio fundamentado em escala, ou seja, que dê certa autonomia ao cliente para criar, operar e gerir suas conversas. “É uma forma de automatizar e personalizar o atendimento e, assim, resolver mais demandas e problemas em menor tempo. Com a melhor experiência para o consumidor, as marcas também podem aumentar a relevância no mercado e fidelizar clientes, afirma.

Segundo ela, tiveram um cliente que conseguiu dobrar, já no segundo mês, a geração de leads por Facebook – tendo, inclusive, que parar de investir em mídias pagas para dar conta da demanda crescente. “Outro conseguiu alcançar, no primeiro mês de ação, uma efetividade de mais de 40% na confirmação de entrega, o que reduz muito os custos de logística, evitando que os caminhões se desloquem para realizar entregas não efetivadas. Só neste ano, mais de 3,5 milhões de conversas iniciaram em nossa plataforma”, completa.

 QUE BICHO É ESSE?

Você já percebeu que o chatbot pode auxiliar bastante a empresa. Mas, afinal, do que se trata? De uma maneira objetiva, é uma série de mensagens, respostas e interações programadas para o atendimento, principalmente via Messenger do Facebook. “Chatbots são robôs capazes de se comunicar com humanos através de mensagens de texto. Eles são essenciais para quem quer melhorar o atendimento aos seus clientes e otimizar processos internos, propiciando ganho de escala e aumento na rentabilidade”, completa o diretor de operações da Nama, Lúcio de Oliveira. A empresa é pioneira no desenvolvimento de Inteligência Artificial aplicada aos negócios no Brasil.

Oliveira ressalta ainda que, independentemente do canal, o serviço tem capacidade de automatizar em até 90% o processo, reduzindo de 70% a 90% as despesas do setor, que acaba deslocando funcionários humanos para tarefas mais analíticas, complexas e menos operacionais. A necessidade surge de um consumidor moderno que é impaciente e impulsivo. Quando alguém chama uma empresa no Messenger, ela quer a resposta imediatamente. Uma espera maior pode levar o cliente a outra marca, sem pensar duas vezes. “Quando falamos de atendimento comum, a grande reclamação dos consumidores é o excesso de tempo de duração de uma ligação, a quantidade de transferências entre áreas e a dificuldade de efetivar a solução do cliente, explica Gabriela.

Mesmo o e-mail comum fica ultrapassado com a tecnologia, que faz toda as validações necessárias em um processo comum, como nome, CPF e motivo do contato, em poucos segundos.

Segundo pesquisa da Zenvia, os consumidores já consideram como principais meios de contatos os chats e a conversa por voz em tempo real. “Ele é mais moderno, mais direto e está exatamente onde o nosso público está.  Além disso, é uma escolha da própria pessoa receber ou não o nosso conteúdo e também é muito fácil parar de receber. A autonomia que as pessoas têm na utilização do bots faz parte da comunicação moderna”, ressalta Marina.

A HDI Seguros foi a primeira seguradora a investir na ferramenta pelo Facebook, além de implementar a assistente virtual Sofia no site oficial da empresa, com a mesma tecnologia de inteligência artificial do robô Watson, da IBM. Isso quer dizer que ela processa não apenas informações objetivas, mas também subjetivas em busca da resposta mais humanizada possível. Além de agilizar os processos, o diretor de marketing Paulo Moraes percebeu uma maior interação e facilidade em resolver questões da rotina.

Se o feedback foi positivo? “Foi positivo, sim. O usuário que escolhe esse meio de comunicação quer rapidez nas respostas, e o chatbot permite isso. A Sofia, que já está há mais tempo em produção, tem uma quantidade de interações maior, por volta de seis mil atendimentos mensais. Com a entrada da inteligência Artificial, nossa expectativa é que esse número dobre nos primeiros meses após a implantação. Já o chatbot do Messenger teve uma evolução significativa desde que lançamos. Hoje, são mais de 1.600 interações (no primeiro mês foram apenas 130)”, conta.

A Nama tem também empregado processos como o Deep Learning, que compreende até gírias e erros de português. “Além da Nama, tem muita gente boa espalhada pelo País rompendo barreiras. Em São Paulo, a Pluvion está usando machine learning para antever a possibilidade de enchentes.

Elos montaram uma rede de estações de medição de chuva que entrega informação em tempo real e de forma hiperlocalizada”, ressalta Lúcio. Ele ainda completa que o Poupinha – chatbot do poupa tempo – é o melhor exemplo aplicado em serviços públicos, já tendo completado 100 milhões de mensagens trocadas com os cidadãos e agendado 2.5 milhões de ações desde seu lançamento, em dezembro de 2016.

DICAS DE USABILIDADE

O chatbot não precisa ter iniciativa apenas de um dos lados do computador. Tanto é possível a empresa puxar assunto com o consumidor quanto o cliente iniciar a conversa.

Qualquer que seja o procedimento, é necessário sempre haver muita transparência na comunicação, começando por deixar o público ciente de quais são as reais questões que aquele bot pode resolver para ele. “A interação é positiva, mas ainda existe uma seleção de assuntos para se tratar ou não com chatbots. Responder à pesquisa de satisfação, comunicar um serviço e analisar cadastros são ações que as pessoas se sentem à vontade em realizar por meio de chatbots, lembra Gabriela, destacando ainda um erro comum: apesar de a inteligência artificial ser  uma grande aliada nessa ferramenta, ela não é essencial ao funcionamento, pois cada modelo de negócio exige um tipo diferente de interação.

Com os objetivos da função bem claros, é possível encontrar a tecnologia e o tom de voz certos para aplicação do processo. Não se esqueça também de fazer alguns testes antes de colocar o serviço à disposição do público final. “Alguns erros que a empresa pode cometer são linguagem muito robótica, que afasia as pessoas, e excesso de mensagens – ninguém quer ser importunado por um robô várias vezes por dia. É preciso saber exatamente quais são os objetivos da marca no bot e tentar manter sempre uma conversa boa, como a de amigos, finaliza Marina.

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IMPLANTAÇÃO

  • Identifique a necessidade do seu negócio e o objetivo do chatbot (atendimento pós-venda, SAC, agendamento de serviços, comunicação interna da empresa, entre outros).

 

  •  Faça um bom planejamento com expectativas e metas.

 

  • Identifique o público que quer atingir.

 

  • Crie uma personalidade para o chatbot que gere algum tipo de vínculo emocional (tom de voz empático).

 

  • Conecte-se a uma empresa que possa desenvolver a tecnologia com a melhor opção para o seu negócio.

 

  • Crie um fluxo de conversa que conclua o atendimento, sem gerar novos problemas a resolver ou deixar a interação em aberto.

 

  • Entenda as necessidades do seu público para melhorar o engajamento.

 

  • Não tente abraçar o mundo inteiro de uma vez. Identifique uma necessidade de comunicação da empresa e invista profundamente nela, de maneira humanizada.

 

  • Faça questão de garantir a segurança dos dados do cliente, promovendo a conversa em ambiente onde ele esteja logado com senha e mantendo as informações criptografadas.

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BETA

O Coletivo Nossas lançou recentemente o chatbot Beta – diminutivo de Betânia. Aliados às causas femininas, os assinantes da ferramenta recebem via inbox uma série de notícias relacionadas ao ativismo, podendo inclusive votar projetos e enviar e-mails direto para a Câmara. Na campanha mais recente, o robô estimulou o envio de mensagens a favor dos projetos de lei de Marielle Franco, que estavam sendo votados, e o resultado foi positivo: cinco dos sete foram aprovados.

OUTRASFERRAMENTAS

Além do chatbot, ferramentas como site, blog, aplicativos ou página no YouTube são complementares ao serviço. Em um momento em que o público busca o máximo de informação disseminada possível, não ficar preso a um único formato é essencial para atingir o maior engajamento. Há ainda softwares de apoio à gestão. Por exemplo, um chatbot de rastreamento de entrega, quando integrado a um software de logística, torna a conversa mais capaz de resolver um problema e assim por diante.

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ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE IV

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

(2) ”A salvação vem dos judeus”. Portanto, eles sabem o que adoram, e em que e sobre que bases se apoiam em sua adoração. Não que todos os judeus fossem salvos, nem que não fosse possível que muitos dos gentios e dos samaritanos pudessem ser salvos, pois, em toda nação, aquele que teme a Deus e age com justiça é aceito por Ele. Mas:

[1] O autor da salvação eterna vem dos judeus, surge entre eles (Romanos 9.5), e é enviado primeiro para abençoá-los.

[2] Os meios da salvação eterna são oferecidos a eles. A palavra da salvação (Atos 13.26) havia sido enviada aos judeus. Foi confiada a eles, e outras nações a receberam através deles. Esta era uma diretriz confiável para eles em suas devoções, e eles a seguiam. Consequentemente, eles sabiam a quem adoravam. A eles, foram confiadas as Palavras de Deus (Romanos 3.2), e o serviço a Deus (Romanos 9.4). Portanto, sendo os judeus tão privilegiados e superiores, competir com eles era uma arrogância dos samaritanos.

Em segundo lugar, Ele descreve a única adoração evangélica que Deus aceitava e com a qual estaria muito satisfeito. Havendo mostrado que o lugar de adoração não tem importância, Ele consegue mostrar o que é necessário e essencial – que adoremos a Deus “em espírito e em verdade”, vv. 23,24. A ênfase não deve ser colocada sobre o lugar onde adoramos a Deus, mas sobre o estado de espírito em que o adoramos. Observe que o modo mais eficaz de diminuirmos as divergências nas questões menores da religião é sermos mais zelosos no tocante às maiores. Acredito que aqueles que diariamente fazem da adoração em espírito o centro de suas preocupações, não devem entrar em divergências nas quais se discute se o Senhor deve ser adorado aqui ou acolá. Cristo havia preferido, de forma justa, a adoração dos judeus à dos samaritanos. Porém, ainda assim Ele aqui sugere a imperfeição dela. A adoração era cerimonial, Hebreus 9.1,10. Os adoradores geralmente não eram espirituais, e desconheciam a parte interior da adoração divina. Note que é possível que sejamos melhores do que nossos vizinhos, e mesmo assim não sejamos tão bons quanto deveríamos ser. Cabe a nós sermos corretos, não somente quanto ao propósito da nossa adoração, mas na maneira de conduzi-la, e é quanto a isso que Cristo nos instrui aqui. Observe:

A. A grande e gloriosa revolução que deveria introduzir essa mudança: ”A hora vem, e agora é” – o dia que estava marcado, referente àquilo que estava determinado desde os dias da Antiguidade, quando deveria vir e o quanto deveria durar. O tempo de sua aparição foi fixado em uma hora. As deliberações divinas são assim exatas e pontuais. O tempo que o Senhor estaria na terra tinha uma duração limitada a uma hora. Observe como está próxima a oportunidade da graça divina, e como ela é urgente, 2 Coríntios 6.2. Essa hora vem, e está vindo na plenitude de sua força, esplendor, e perfeição, ela está agora no embrião e na infância. O dia perfeito está chegando e raiando.

B. A bendita mudança em si. Nos tempos do Evangelho, os verdadeiros adoradores deverão adorar “o Pai em espírito e em verdade”. Como criaturas, adoramos o Pai de tudo e de todos. Como cristãos, devemos adorar o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. E a mudança será:

(a) Na natureza da adoração. Os cristãos adorarão a Deus, não nas práticas cerimoniais da instituição mosaica, mas nas práticas espirituais, consistindo menos no exercício corporal, e mais naquele que é reavivado e revigorado pela força e pela energia divinas. A maneira de adorar que Cristo instituiu é racional e intelectual, e um aprimoramento daqueles ritos exteriores e cerimônias com os quais a adoração do Antigo Testamento era tanto obscurecida quanto obstruída. Esta é chamada a verdadeira adoração, ao contrário daquela que era típica. Os serviços válidos eram símbolos da verdadeira adoração, Hebreus 9.3,24. Quanto àqueles que se rebelaram em relação ao cristianismo, e voltaram ao judaísmo, é dito que começaram pelo Espírito e acabaram pela carne, Gálatas 3.3. Tal era a diferença entre as instituições do Antigo e do Novo Testamento.

(b) No temperamento e na disposição dos adoradores. Portanto, os verdadeiros adoradores são bons cristãos, diferenciados dos hipócritas. Todos devem, e irão adorar a Deus em espírito e em verdade. Isso é dito como sendo (v. 23) sua natureza, e (v. 24) seu dever. Observe que é requerido de todos os que adoram a Deus que o façam em espírito e em verdade. Nós devemos adorar a Deus:

[a] “Em espírito”, Filipenses 3.3. Devemos confiar no Espírito de Deus quando precisarmos de força e ajuda, colocando nossas almas sob suas influências e processos. Devemos devotar e empregar nosso próprio espírito a serviço de Deus (Romanos 1.9). Devemos adorá-lo com firmeza de pensamento e uma chama de amor, com tudo aquilo que está dentro de nós. O espírito dos salvos é investido de uma nova natureza em oposição à carne, que é a natureza corrompida. E, desse modo, adorar a Deus com nosso espírito é adorá-lo com nossas graças, Hebreus 12.28.

[b] “Em verdade”, isto é, em sinceridade. Deus requer não apenas nosso íntimo em nossa adoração, mas “a verdade no íntimo”, Salmos 51.6. Nós devemos considerar mais o poder do que a forma, devemos visar a glória de Deus, e não a possibilidade de sermos notados pelos homens. Devemos nos chegar “com verdadeiro coração”, Hebreus 10.22.

Em terceiro lugar, Ele declara as razões porque Deus deve ser adorado dessa maneira:

A. Porque nos tempos do Evangelho, eles, e somente eles, são considerados os verdadeiros adoradores. O Evangelho estabelece um modo espiritual de adoração, de forma que aqueles que professam o Evangelho não são verdadeiros em sua profissão, não correspondem à luz e às leis do Evangelho, se não adorarem a Deus em espírito e em verdade.

B. “Porque o Pai procura a tais que assim o adorem”. Isso indica:

(a) Que tais adoradores são muito raros e difíceis de ser encontrados, Jeremias 30.21. A porta da adoração espiritual é estreita.

(b) Que tal adoração é necessária, e é aquela que o Deus do céu exige. Quando Deus vem em busca de seus adoradores, a pergunta não é: “Quem adora em Jerusalém?” Mas: “Quem adorava em espírito?” Esse será o critério.

(c) Que Deus fica muito satisfeito e aceita bondosamente tal adoração e tais adoradores. “Eu o desejei”, Salmos 132.13,14; Cantares 2.14.

(d) Que houve e haverá, até o fim, um remanescente daqueles adoradores. Sua procura por tais adoradores implica em torná-los assim. Deus está reunindo para si, em todas as épocas, uma geração de adoradores espirituais.

C. Porque “Deus é Espírito”. Cristo veio para nos trazer a bênção de conhecer a Deus (cap. 1.18), e esta foi a declaração que o Senhor Jesus expressou em relação a Deus, o Pai. Ele o declarou para essa pobre mulher samaritana, porque, geralmente, os mais pobres estão interessados em conhecer a Deus, e com esse desígnio, poderia corrigir os erros dela relativos à adoração religiosa. Nada contribuirá mais, para a verdadeira adoração, do que o conhecimento apropriado de Deus. Observe que:

(a) Deus é Espírito, porque Ele é uma mente infinita e eterna, um ser inteligente, incorpóreo, imaterial, invisível e incorruptível. É mais fácil dizer o que Deus não é do que o que Ele é. “Um espírito não tem carne nem ossos”, mas quem conhece o modo de ser de um espírito’? Se Deus não fosse Espírito, Ele não poderia ser perfeito, nem infinito, nem eterno, nem independente, nem o Pai dos espíritos.

(b) A espiritualidade da natureza divina é uma boa razão para a espiritualidade da adoração divina. Se não adoramos em espírito a Deus, que é Espírito, nós não damos a Ele a glória devida ao seu nome, e, portanto, não realizamos o ato da adoração, nem podemos esperar obter seu favor e aceitação, e assim nos afastamos da finalidade da adoração, Mateus 15.8,9.

4. O último tópico da conversa de Jesus com essa mulher é relativo ao Messias, vv. 25,26. Observe aqui:

(1) A fé da mulher; através da qual ela esperava o Messias: “Eu sei que o Messias vem” e “quando ele vier, nos anunciará tudo”. Ela não tinha nada a objetar contra o que Cristo havia dito. Seu discurso foi, pelo que ela sabia, o que seria apropriado ao Messias então esperado. Apenas dele ela aceitaria isso, e, por enquanto, ela acha melhor deixar sua crença temporariamente pendente. Muitos não dão valor ao que têm em suas mãos porque pensam que têm algo melhor em vista (Provérbios 17.16), e se iludem com a promessa de que no futuro aprenderão aquilo que negligenciam agora. Observe aqui:

[1] A quem ela espera: “Eu sei que o Messias vem”. Os judeus e os samaritanos, embora vivessem em extremo desacordo, concordavam na esperança do Messias e de seu reino. Os samaritanos aceitavam os manuscritos de Moisés, e não desconheciam os profetas, nem as esperanças da nação judaica. Aqueles que menos sabiam, sabiam que o Messias estava para vir. Tão geral e inconteste era a expectativa por Ele, e nesse momento mais elevada do que nunca (pois o cetro havia partido de Judá, as semanas de Daniel estavam perto de terminar), que ela conclui não somente: Ele virá, mas “Ele vem, Ele está próximo”: “O Messias (que se chama o Cristo)”. O evangelista, embora conserve a palavra hebraica Messias (que a mulher utilizou) em respeito ao idioma sagrado, e à igreja judaica, que a usava livremente, escrevendo para o benefício dos gentios, toma o cuidado de representá-la através de uma palavra grega com o mesmo significado. Esta palavra designa o Cristo-Ungido, dando um exemplo da regra dos apóstolos de que tudo o que é falado em um idioma desconhecido ou menos comum deve ser interpretado, 1 Coríntios 14.27,28.

[2] O que ela espera dele: “Ele nos anunciará tudo”, nos falará sobre todas as coisas relativas ao serviço de Deus que é necessário que saibamos, nos dirá aquilo que compensará nossos defeitos, retificará nossos erros, e porá um fim às nossas disputas. Ele nos falará sobre o pensamento de Deus de forma clara e completa, e não ocultará nada”. E isso implica em um reconhecimento, em primeiro lugar, da deficiência e da imperfeição da revelação que eles agora tinham da vontade divina, e do domínio que eles tinham da adoração divina. Isso não podia levá-los à perfeição, e, portanto, eles esperavam algum grande avanço e aprimoramento em questões de religião, um tempo de reforma. Em segundo lugar, da capacidade do Messias para realizar essa mudança: “‘Ele nos anunciará tudo’ que queremos sabei; e sobre as quais nós discutimos de forma exasperada na escuridão. Ele introduzirá a paz ao nos conduzir para a verdade, e ao dispersar as névoas do erro”. Parece que esse era o consolo das pessoas boas naqueles tempos obscuros em que a luz iria surgir. Se eles se achassem perdidos, e em um beco sem saída, era para eles uma satisfação dizer: “Quando o Messias vier, ele nos anunciará tudo”. Como pode ser para nós agora com referência à sua segunda vinda: Agora, vemos por espelho, mas então veremos “face a face”.

(2) O favor de nosso Senhor Jesus em se fazer conhecido dela: “Eu o sou, eu que falo contigo”, v. 26. Cristo jamais se fez conhecido tão expressamente a qualquer outro como Ele se fez aqui a esta pobre samaritana, e ao homem cego (cap. 9.37). Não, não a João Batista, quando ele lhe enviou mensageiros (Mateus 11.4,5). Não, não aos judeus, quando eles o desafiaram a dizer-lhes se Ele era o Cristo, cap. 10.24. Mas:

[1] Cristo, deste modo, colocaria uma honra sobre os que eram pobres e desprezados, Tiago 2.6

[2] Esta mulher, pelo que sabemos, jamais tinha tido qualquer oportunidade de ver os milagres de Cristo, os quais eram então o método ordinário de convicção. Note que, para aqueles que não têm a vantagem da forma externa do conhecimento e da graça, Deus têm meios secretos de suprir a necessidade deles. Devemos, portanto, julgar caridosamente a respeito de tal coisa. Deus pode fazer com que a luz da graça brilhe no coração mesmo onde Ele não fez a luz do evangelho brilhar na face.

[3] Esta mulher foi preparada para receber tal revelação melhor do que os outros foram. Ela estava cheia da expectativa do Messias, e pronta para receber instrução da parte dele. Cristo se manifestará àqueles que, com um coração honesto e humilde, desejarem conhecê-lo pessoalmente: “Eu o sou, eu que falo contigo”. Veja aqui, em primeiro lugar, como Jesus Cristo estava próximo a ela, embora ela não conhecesse quem Ele era, Gênesis 28.16. Muitos estão lamentando a ausência de Cristo, e desejando por sua presença, quando, ao mesmo tempo, Ele está falando a eles. Em segundo lugar, como Cristo se faz conhecido de nós, falando a nós: “Eu que falo contigo”, tão estreitamente, de maneira tão convincente, com tal segurança, com tal autoridade, “Eu o sou”.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

TRANSTORNO ALIMENTAR (TA): EM TEMPO DE TRATAR

Problemas alimentares na infância são preocupação mundial e passaram a ser mais pesquisados e publicados entre pediatras e psicanalistas.

Em tempo de tratar

Bulimia e anorexia nervosa, transtornos alimentares e transtornos da alimentação são nomes que circulam na mídia com frequência no século XXI. Nunca é demais advertir sobre a seriedade com a qual merecem ser encarados. O comer “desordenado” na infância era descrito no Brasil pela tradução de Feeding Disorders, em nosso idioma transtornos da alimentação, nomes bastante semelhantes. Na versão corrente do DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, editado no Brasil em 2014, os transtornos da alimentação (TdA) (infância) passaram a ser descritos como parte dos transtornos alimentares (TA) – anteriormente nomenclatura exclusiva para adultos. Antes disso os TA em crianças eram considerados um tipo não especificado de transtorno, em separado ao dos adultos. Para melhor compreensão, seguiremos utilizando aqui a nomenclatura anterior que os diferencia.

O que hoje se conhece por transtornos alimentares corresponde a um grupo de diagnósticos de transtornos mentais ligados ao comportamento, sobretudo o comportamento alimentar, podendo incluir prática excessiva de atividade física e outras variantes do comportamento de controle obsessivo do peso, como a presença ou não de práticas purgativas, variando em cada diagnóstico/subtipo. Na atualidade são fortemente ligados às questões com a própria imagem, preocupação excessiva com o peso, geralmente acompanhado de um saber decidido a esse respeito – muitas vezes por comportamentos aprendidos na internet, ou pela adesão ao polêmico e perigosíssimo slogan “anorexia como estilo de vida” – espécie de roleta russa à qual jovens aderem radicalmente, diferente da chamada anorexia santa como forma de jejum e ascese na Igreja Católica no século XIII, e da anorexia histérica, o clássico texto do final do século XIX, de Charles Lasegue, quem localizou na França, os quadros alimentares, como de origem psíquica. Simultaneamente surgiu a descrição de Willian Gull, na Inglaterra da Anorexia Nervosa, mais voltada para aspectos clínicos. Nessas épocas o quadro não incluía a questão com a imagem do corpo, nem a paciente tinha qualquer saber sobre o mal-estar que começava com dor epigástrica e dificuldade de comer, atraindo o olhar familiar. O quadro evoluía para a recusa do alimento, com forte impacto negativo na dinâmica familiar, ricamente descrito por Lasegue em conselhos válidos até nossos dias, apesar das diferenças do quadro a cada época.

O que se costuma referir e replicar no main stream da literatura psiquiátrica é que a bulimia teria sido descrita somente em 1979 por Russell, como variante da Anorexia Nervosa. No entanto, há registros médicos do quadro bem mais antigos, inclusive em documentos médicos, e abundantes referências nas pesquisas de Brusset e Couvreur (2003).

Diferentes dos mais conhecidos na grande mídia, exclusivos aos adultos, anorexia nervosa, bulimia e o comer compulsivo, os TdA podem ocorrer em bebês, crianças pequenas ou em idade pré-escolar por desencadeantes diversos exceto quando associados a transtornos do desenvolvimento ou condições clínicas específicas; suas causas são descritas nas ciências médicas no entrecruzamento de fatores médicos, de desenvolvimento e comportamentais. Apresentam-se sob a forma da seletividade, pica, ruminação, e outras variantes – ingestão persistente de substâncias não nutritivas que não são alimentos durante ao menos um mês – podem levar a perigosas consequências médicas para o bebê ou a criança, inclusive falha no crescimento ou desnutrição.

As descrições vão sofrendo variações a cada edição dos manuais estatísticos e diagnósticos, mas a problemática nos toca para além disso: se trata-se de um aumento de fato, já apontamos a dificuldade em aferir, mas é certo que há uma procura maior por tratamento, e é bem possível que haja sim um aumento em curso, e que irá se complexificar enquanto perdurarem as dificuldades com a obesidade em nossa cultura, dentre outros fatores. Não podemos esperar extinguir. A pulsão de morte, já advertiu Freud, é constitutiva do ser humano. Segundo estudos, são profundamente relacionados os problemas da obesidade dos pais e seus padrões e ambiente alimentar e o surgimento de TA nos filhos. Estudos já apontaram também a correlação da anorexia com tempos de excesso, relacionando-se muito mais ao abastado do que ao que falta, e com a excessiva preocupação em emagrecer dos pais ou à restrição de certos alimentos.

A introdução nos situa no tema do ponto de vista médico, no entanto vale a reflexão em termos mais gerais, visando ampliar o olhar para o fenômeno que nos preocupa, incluindo outros aspectos.

Ainda que a descrição do quadro entre “moças jovens”, meninas, exista desde que se tornou entidade mórbida no fim do século XIX, com breves referências no texto freudiano, somente em meados do século passado foi alvo crescente de pesquisas e publicações de pediatras e psicanalistas, como Hilde Bruch (1904-1984), nos anos 60 descreveu o transtorno da imagem corporal, período em que se voltou especialmente para o quadro na infância. Em nossos dias, na infância, os TA têm como grande referência Bryan Lask, Professor inglês, falecido há um ano. Em seu último livro, recém-publicado, encontra-se debate sobre o aumento da incidência em crianças, afirmando -o.

Descritos nos manuais diagnósticos e estatísticos, passam por mudanças na apresentação do quadro com o andar da carruagem da história e mudanças na sociedade. Especula-se que em países ocidentais apresentem-se em idade mais precoce com aspectos dos TA em adultos, como temor de engordar (lipofobia) e excessiva preocupação com a imagem. Podem relacionar-se ao aumento de peso da população em geral – no Brasil, confirmado no último censo IBGE, reflexos do ambiente familiar – fatores como pais obesos fazendo dietas, discurso alarmante da saúde sobre riscos da obesidade, refletem nas crianças, bem como da mídia: o padrão de beleza e a identificação a todo custo com as medidas impossíveis da Barbie, da estética “cadáver” e outros personagens do mundo perfeito e brilhante que se quer vender, sobretudo no que importamos da cultura norte americana, como a clínica revela. Também a faixa etária da menarca vem diminuindo. Ainda que com diferenças não tão gritantes na média, TA sempre acompanharam as questões adolescentes emergentes nessa fase.

No entanto, afirmar sobre incidência e real aumento é sempre polêmico e muito difícil de ser aferido: a complexidade diagnóstica dos TA e seus subtipos dificulta pesquisas na área; abandono e mortalidade elevados impactam resultados gerando estudos inconclusivos; as pesquisas são válidas apenas no contexto cultural em que foram realizadas e sempre contêm vieses; a maioria dos estudos é com pacientes inseridos em serviços, e o diagnóstico muda ao longo do tratamento, com variações de massa corporal e a evolução clínica. Não há estudo epidemiológico sobre transtornos alimentares nem da alimentação no Brasil. Sendo nova tal especialidade médica, antes disso não seriam assim identificados, embora comportamentos constassem em registros históricos na Antiguidade, após adventos na sociedade e nas ciências médicas, agora bem descritos, passariam a ser notificados, podendo parecer mais frequentes, havendo que levar-se em conta também o significativo aumento populacional. A impressão do aumento se deve a anteriormente serem subdiagnosticados, subnotificados? Observamos sim crescimento da demanda de tratamento, mas não há comprovação científica sobre aumento real da incidência em crianças.

Ressalvas feitas, algo se pode afirmar baseado em estudos científicos: TA são historicamente mais ligados à cultura ocidental. Porém, ante a globalização, vêm sendo descritos em praticamente todo o mundo. Pesquisas antropológicas verificam aumento da incidência em contextos de rápida mudança cultural nas regiões “em desenvolvimento”. Na tese de doutorado “Histórias de vida com transtornos alimentares: gênero, corporalidade e a constituição de si” (Unicamp, 2011), Silva defende que:”(…) ao serem inseridas no mercado de produção mundial, diferentes regiões do mundo sofrem modificação decisiva no sentido do desenvolvimento de uma cultura de consumo e do individualismo competitivo, descrita sob as rubricas de “modernização” ou “ocidentalização” Apontam na mesma direção a famosa pesquisa de Becker (2002), que testemunha o aparecimento de quadros alimentares com a chegada da televisão nas Ilhas Fiji, e estudos no sul da Austrália, que afirmam aumento de comportamentos purgativos.

As perspectivas sociológica e psicanalítica relacionam esse fenômeno à incessante demanda da cultura do consumo “24 horas” do capitalismo na era globalizada, na qual o Ideal do corpo magro como padrão de beleza, veiculado associado a status, sucesso, controle, triunfo, contribuindo para a insatisfação com a imagem corporal, segundo metanálise de Groesz et ai (2002). As teses do sociólogo Zigmunt Bauman vão na mesma direção, nas obras Sociedade de Consumo e Modernidade Líquida; nesta, analisa que recaem sobre os ombros do indivíduo responsabilidades que até então pertenciam ao Estado, ou aos regimes monárquicos e feudais, resultando no aumento da angústia existencial, traduzida em comportamentos compulsivos a objetos de consumo, inclusive o alimento. Quais as consequências subjetivas da economia neoliberal nesse processo? E o declínio da função paterna, mudanças nas estruturas familiares e sociais, dentre outras revoluções cada vez mais rápidas que estamos vivendo? O sujeito contemporâneo sofre desse “desamparo” – o que coincide com o aspecto emocional descrito na psicologia das anorexias e bulimias: sujeitos desorienta dos pelos laços sociais em liquidação são desamparados e padecem das descompensações do controle, acossados pela demanda frenética de consumir e descartar, inclusive alimentos. O Outro da sociedade de consumo é a grande mãe que empurra a comida.

O termo anorexia mental foi resgatado por Lacan por colocar acento no aspecto psíquico e não no aspecto orgânico do termo médico “nervosa” – aliás, ressurgido fortemente em tempos atuais regidos pelo DSM e a Psiquiatria Neurobiológica. Lacan dizia que a anorexia mental caracterizava-se por um “voraz apetite de amor”, e nesta não deixa de comer, mas “come o nada”; frase de impacto que suscitou debates teóricos, importando destacar seu ponto de verdade: por mais que recuse o alimento no seu jogo para inverter a relação de poder e controle, o sujeito anoréxico relaciona-se excessivamente com esse objeto, dele alimentando-se em sua sofrida obsessão diuturna, isto é, relaciona-se com o mesmo excesso que comanda sua recusa. Anorexia e bulimia, TA e obesidade: dois lados da mesma moeda, que possuem em sua raiz um voraz apetite, tal qual nas adicções.

 TA, OBESIDADE E ADICÇÃO

Ao contrário do que muitos pensam, a obesidade não faz parte desse grupo de diagnósticos psiquiátricos. Seus parentes próximos, os transtornos da compulsão alimentar, sim, quando acompanhados de práticas compensatórias com determinada frequência e marcados por aspectos psicológicos próprios. Escutamos em tom pesaroso, cotidianamente, na clínica: “Tarde demais. Queria com isso controlar tudo, mas passei a ver que era controlada. Fui perdendo autonomia e muitas outras coisas”. Discurso corrente na problemática da adicção ao álcool e outras drogas, cujo funcionamento psíquico se assemelha aos TA, especialmente à bulimia. Na literatura científica médica há uma linha de pesquisa que considera TA como “comportamento aditivo”. Essa classificação diferencia-se do que até então se conhecia por adicção. Os addictive behaviouri descritos por Goodman em 1990, passaram a ser um grupo de comportamentos com características e psicodinâmica específicas, nos quais a noção de adicção extrapola a ideia de droga enquanto substância e entende como aspecto principal a “relação aditiva” com diversos objetos investidos do caráter “droga” para determinados sujeitos, inclusive a comida, seja ela excessivamente presente – na bulimia – também excessiva, mas ambivalentemente negada, na anorexia. Paradoxalmente, quem recusa o alimento o mantém no comando de sua vida, habitando seu pensamento 24 horas por dia – inclusive como principal motivo de abandono do tratamento, o que é encontrado em estudo qualitativo como “uma escravidão ao vício”.

DESFAZER O MAL-ENTENDIDO

A nomenclatura médica internacional ilumina a diferença entre Eating Disorders – em adolescentes e adultos; e Feeding Disorders – transtornos da alimentação em crianças; diferença que se esclarece na língua inglesa: a declinação passiva do verbo feeding coloca a dependência da criança em seu ato de “ser alimentado” pelo (o) outro. Assim implica “a relação” e supõe, em oposição, adolescentes e adultos “autônomos” em sua alimentação (Eating); enquanto o ato alimentar do bebê/ criança inclui o adulto que lhe apresenta o mundo e é responsável por alimentar a criança, passiva ainda neste ato (Feeding). A diferença não se restringe a preciosismos de linguagem, mas sim a algo que se perde na tradução ao português do Brasil e indica um ponto fundamental dessa clínica e que ambos os transtornos mantêm, em suas descrições ao longo das épocas: o componente da “relação” do sujeito, em constituição, com o outro do qual está se diferenciando, jogo no qual o alimento participará, in evitavelmente. Não somente em Lacan o ato da recusa alimentar guarda relação com protestos da criança à figura da alteridade encarnada nos pais, mais especificamente na mãe – nutriz por excelência desde os registros arcaicos, filo e ontogeneticamente, a mãe constitui um (O) outro associado ao alimento. O que se passa nas anorexias e bulimias enquanto rechaço desse Outro, encarnado na mãe, é um mecanismo inconsciente, segundo a Psicanálise, para manter consigo o controle. Em Lacan, encontramos o rechaço à comida como “moeda de troca”, numa greve de fome que tenta “inverter a relação de potência com o Outro.

As contribuições de Lacan ajudam a transcender o mal-entendido, a posição equivocada que estava no front da explicação das anorexias e bulimias e que culpabilizava diretamente os pais, especialmente as mães: o que era atribuído de modo reducionista à mãe, de “carne e osso”, deve-se a ela encarnar, via de regra, para a criança tudo o que se diferencia da criança, isto é, o mundo; a matriz de sua alteridade, daquilo que ao mesmo tempo ele terá de se diferenciar, e lhe custa, como as perdas da separação, a castração, à qual muitas vezes se resiste, rechaça. Neste rechaço, se dá o terreno psíquico para anorexia, principalmente. Já em Freud estavam descritos mecanismos pelos quais o bebê inconsciente, e muito precocemente, aceita, acusando recebimento ou recusando os indícios que esse mundo lhe apresenta de castração, isto é, de ruptura e separação entre ele e o outro – e a mãe, de quem nasce e precisa se diferenciar, encarna esse lugar. Lacan grafou com maiúscula o termo “Outro” para distinguir do outro (semelhante), dando relevo a tudo o que compreende essa instância que antecede o sujeito, desde onde ele é “falado/(in)desejado” desde antes de seu nascimento; fonte da linguagem, de influências culturais e socialismo sujeito. Mais cedo ou mais tarde este se encontra com sinais de que ele não supre totalmente o desejo deste Outro materno – encarnado na mãe -, não o completa e responderá a isso de modos distintos. Se o sujeito vai consentindo com tais operações de separação do Outro, resultará uma falta, de um lado, e um objeto, de outro (chamado objeto a). Em tomo destes se organizarão as pulsões, o circuito de satisfação. Dessa defasagem, dessa falta constitutiva resulta o sujeito do inconsciente, como ser de linguagem, resultando em diferentes estruturas psíquicas, por assim dizer.

No complexo Inter jogo com o Outro e seu consentimento ou recusa da separação do Outro materno se colocam as tentativas de recuperação e perda, o que nos permite compreender melhor a dimensão da questão com o controle, central nessa clínica. Como o sujeito, no adolescer(S), tem dificuldades e “inseguranças” em consentir com efetivar essa separação, pode resistir a tornar-se adulto e vir a fazer-se presa dos circuitos libidinais mais antigos de sua história: orais e anais, especialmente implicados nos fenômenos alimentares, os métodos de esvaziamento do corpo, tentando murchar um Outro muito cheio, do qual são ambivalentes em separar-se; vacilando em consentir com a perda apegam-se ao corpo da infância, e conflitos maiores se deslocam para o alimento e o problema de sua imagem, em que sempre encontrarão defeitos, e a ilusão de que a magreza os apagaria, resolvendo tais angústias.

A nós, profissionais da clínica, cabe cuidar dos equívocos e seus efeitos muitas vezes danosos, legados dessa confusão, e sempre que possível zelar por não replicá-la, não perpetuá-la.

DESAFIOS

Mas, afinal, o que isso tem a ver com os transtornos da alimentação ou alimentares? Todos os pontos aqui tocados guardam relação com essa forma muito particular de padecimento que se encontra na clínica, e que tem se feito notar fora dela, também nos outdoors ou passarelas, pela semelhança das formas apresentadas na anorexia na cultura atual sob o Império das imagens; o que é vez por outra denunciado, flagrado ou (in)confesso, nos segredos da bulimia, já que essa variante não fica evidente no corpo.

Estima-se que a bulimia seja sub­ diagnosticada em torno de apenas 30% de sua real incidência, e somente pequena parte busque tratamento. Dentre outras razões, devido ao temor por restaurar o peso ou ver-se sem os métodos imaginados como eficazes de emagrecimento e causadores de consequências mortíferas inimagináveis para tais sujeitos. Na bulimia a negação dos riscos à saúde é ratificada pela captura da imagem do corpo “com peso normal”. Assim, a grande maioria das pessoas com bulimia pode não ser identificada como tal mantendo seu padecimento e comportamentos de risco – dentre outros, parada cardíaca – em segredo. Essas demandas não se apresentam diretamente, mas se enredam silenciosamente por meio de outros comportamentos e queixas. Escutá-los, saber acolhê-los sem julgar, tratá-los e/ou encaminhá-los são fundamentais. As dificuldades no relacionamento interpessoal de tais pacientes fazem com que o investimento dos profissionais na aliança terapêutica deva ser constante; condição sine qua non para adesão a tratamento farmacológico, tendendo a reduzir o abandono do tratamento clínico como um todo.

O tratamento segundo Guidelines da American Psychiatry Association (2006) preconiza em primeiro lugar ativar a motivação para tratar, destacando a aliança terapêutica, a restauração do peso saudável (crescimento e desenvolvimento em crianças e adolescentes), bem como padrões alimentares mais adequados, reduzindo restrição e controle de compulsões e purgações; cuidando das complicações físicas e psiquiátricas, psicossociais.

O padrão-ouro, na criança e adolescência com TA seria o mesmo, acrescido da exigência total dos pais ou responsável pela criança, especialmente o responsável na hora das refeições, figura fundamental neste caso

As demais abordagens enfim, a angústia, o padecimento subjetivo invariavelmente presente na fonte desses quadros, e tão esquecidos muitas vezes pelos atoleiros das questões no território do corpo, e das complicações clínicas secundárias às psíquicas, e que silenciosamente gritam por ajuda em uma demanda muda, no corpo sequestrado, evidente na alienação na imagem, e no deslocamento das questões psíquicas para o físico, elemento típico do funcionamento anoréxico­

-bulímico. Cabe a nós profissionais da clínica psi escutar com sabedoria para acompanhar, deixando-nos guiar por tais sujeitos em seus dolorosos processos. Frente aos impasses e desafios para tratar transtornos alimenta res, recomendamos acolhimento e disponibilidade para o “manejo clínico” ou, como quer a Psicanálise, “manejo da transferência”. Há que acompanhá-los desprovidos de qualquer furor curandi, como já recomendavam Freud e Lasegue, para que seja possível colocar a aposta no sujeito e a interrogação ética como parceiras constantes, como fizeram esses dois grandes clínicos.

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FAZER DIETA AUMENTA O RISCO DE TA

Obesidade não é um dos TA, mas constitui fator de risco para desenvolvê-los. Nutrição é um dos principais fatores provocadores de mudanças epigenéticas, e dieta afeta a atividade cerebral, aumentando cerca de 18 vezes o risco de TA. E vale lembrar que nossa cultura atual dá lugar a uma obsessão com o corpo, produzindo uma relação com sua imagem cada vez mais assujeitada à tirania da comparação aos ideais impossíveis dos photoshops. Não somente quem tem obesidade ou sobrepeso faz dieta, ou se utiliza de métodos compensatórios para perda de peso. Triste e perigosa realidade que tem início com a ideia de que se pode controlar seu uso. Porém, encontramos no relato dos que cruzaram a fronteira diagnóstica e que tarde demais vieram a dar-se conta de que essa lógica havia adquirido vida própria, e como um mestre autoritário passado a comandar sua existência.

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PREJUÍZO PSICOSSOCIAL

Os transtornos alimentares são os transtornos mentais de maior morbidade e mortalidade, inclusive por suicídio. São considerados os mais graves dentre os transtornos psiquiátricos. Produzem importante prejuízo psicossocial e uma série de complicações clínicas: odontológicas, dermatológicas, gástricas, distúrbios endocrinológicos e cardiopatias. Devido a incidência de suicídios e depressão, estimada em vinte veze mais alta entre jovens com transtorno alimentares, estes foram considerados como doenças mentais prioritárias pela Organização Mundial da Saúde.

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PARA UM BOM TRATAMENTO

Há consenso na literatura científica em afirmar que quanto mais cedo chegar ao tratamento melhor efetividade: segundo Schmidt (2015), enquanto 60% a 80% dos adolescentes com anorexia nervosa se recuperam em abordagem que inclui a família, apenas 20% a 30% dos adultos que tiveram a forma mais duradoura da doença se restabelecem. mesmo com o melhor dos tratamentos. Diante da enorme dificuldade em aceitar tratamento, são levados por terceiros e tendem a abandoná-lo facilmente. Nossa revisão de literatura encontrou: taxa de abandono de 40% a 60% nos adultos. Entre filhos de pais separados e em pacientes que apresentam comportamento purgativo há mais abandono do tratamento, também guardando relação inversa com escolaridade. Adolescentes e crianças têm melhor adesão, poisos pais obrigatoriamente participam. Seidinger- Leibovitz (2016)

 

FLÁVIA MACHADO SEIDINGER LEIBOVITZ – é psicóloga clínica em São Paulo e Campinas. Possui especialização em Psicanálise (Escuela dela Orientación Lacaniana /Núcleo de lnvestigacion de Anorexias y Bulimias – Argentina), mestre em Ciências Médicas/Saúde Mental (Unicamp). Membro do Centro Lacaniano de Investigação da Ansiedade(CLIN-a), do Grupo Interdisciplinar de Assistência e Estudos em Transtornos Alimentares (GETA-Unicamp) e da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan). flaviamsleibovitz@gmail.com

OUTROS OLHARES

MÃES E FILHOS ATRÁS DAS GRADES

População carcerária feminina explode no Brasil e leva a aumento do número de mães presas, principalmente grávidas e lactantes. Habeas corpus coletivo do STF à detentas com filhos até 12 anos ainda não é cumprido.

Mães e filhos atrás das grades

Durante uma visita do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes ao presídio feminino do Distrito Federal, uma detenta se desesperou: “Me tirem daqui com essa criança”. O apelo escancara a situação vivida por mães e seus filhos em penitenciárias brasileiras. Alijadas de cuidados básicos de saúde e de condições mínimas para exercer a maternidade, algumas chegam a ser algemadas no parto. O impacto dessa situação recai sobre as mulheres e subordina crianças recém-nascidas a condições lamentáveis. Com a explosão da população carcerária feminina – foi registrado um aumento de 700% em 16 anos, chegando a 45 mil em 2016 – o número de presas que são mães também aumentou. A estimativa é que 74% delas tenham pelo menos um filho, sem idade especificada. Pensando nisso, e principalmente na situação precária de gestantes e mães de recém-nascidos detidas, o STF decidiu, em fevereiro, conceder habeas corpus coletivo a todas as mulheres presas provisoriamente que estejam grávidas ou tenham crianças de até 12 anos.

Porém, a falta de um banco de dados adequado, a alta burocracia e a resistência de juízes têm dificultado o cumprimento da medida, que deveria ter sido aplicada integralmente até abril.

Uma das razões que explicam a demora no cumprimento da decisão do STF, segundo o juiz criminal e de execuções criminais Luiz Augusto Barrichello Neto, está justamente na falta de um levantamento de quantas mulheres são mães. “Quando a mulher é presa, nem sempre temos a informação de que ela tem filhos, ou, se tem, se são menores de12 anos”, afirma. “Logo após a decisão do STF, cada presídio precisou fazer um levantamento para colher essas informações e então encaminhar a relação para os juízes analisarem os casos novamente. “Depois disso, é preciso de uma nova análise para que o caso se adeque à decisão do STF – só vale para presas provisórias que não tenham cometidos crimes com violência ou ameaça à pessoa, como homicídio. Porém, no momento da análise, o entrave para a execução da medida se dá, principalmente, por questões morais dos próprios juízes.

Presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD). Fábio Tofic Sirnantob afirma que dos casos acompanhados pela entidade, metade das mulheres ainda não foram soltas. “A decisão do STF é cartesiana, não há o que não entender, mesmo assim, seu cumprimento tem sido parcial”, diz. “Há um parecer em que o habeas corpus foi negado porque, quando a mulher foi presa, estava no bar, e concluiu-se que não estava preocupada com a criança. Falariam isso de um pai? Não. Mas da mãe, sim.”

BRASILEIRINHOS

A posição do STF foi tomada levando em consideração a falta de estrutura para garantir o bem-estar da relação entre mães e crianças, chamadas pelo ministro Ricardo Lewandowski de “brasileirinhos”. “Temos mais de 2.000 pequenos brasileirinhos que estão atrás das grades com suas mães, sofrendo indevidamente, contra o que dispõe a Constituição, as agruras do cárcere”, disse, durante a votação. Para ter mais precisão sobre esse cenário, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou o cadastro Nacional de Presas Grávidas e Lactantes. Desde janeiro, tem vistoriado presídios brasileiros para levantar quem são e como vivem as mulheres nessas condições. A juíza auxiliar da presidência do CNJ, Andremara dos Santos, que realiza o trabalho, salienta a necessidade de criar uma padronização para os serviços de assistência. Nas vistorias, os quadros são os mais diversos. Em um presídio de São Paulo, havia 14 bebês sem registro de nascimento. No Distrito Federal, quatro bebês não tinham tomado as vacinas necessárias após o parto. Segundo Santos, a função do levantamento é, também, a de combater a violência contra a mulher. O estudo “Nascer nas Prisões”, da Fundação Oswaldo Cruz, mostra que essa violência é real e recorrente: mais de um terço das presas grávidas usa algemas na internação para o parto. Negar acesso à saúde também é um tipo de violência: 55% tiveram menos consultas de pré-natal do que o recomendado, 32% não foram testadas para sífilis e 4,6% das crianças nasceram com sífilis congênita.

ESTERILIZADA À FORÇA

O mesmo poder público incapaz de garantir o direito à vida de crianças filhas de mães presas se mostra ainda mais perverso ao esterilizar mulheres compulsoriamente. Mesmo a prática sendo vetada pela Constituição, uma mulher de 36 anos foi submetida a uma laqueadura depois de dar à luz, em fevereiro, sem nem saber que iria passar pelo procedimento. Moradora de rua da cidade de Mococa (SP), ela está presa desde novembro passado, acusada de tráfico de drogas. O pedido de esterilização partiu do promotor Frederico Barruffini, para quem a cirurgia seria “eficaz para salvaguardar a sua vida”, e foi aceito pelo juiz Djalma Moreira Gomes Junior. O argumento do promotor não tem amparo legal, já que a laqueadura só pode ocorrer se a decisão partir da própria pessoa. No âmbito da saúde, caso a preocupação fosse a vida da mulher, ela deveria ser encaminhada a um tratamento de dependência química, não passar por uma mutilação.

Mães e filhos atrás das grades.2

GESTÃO E CARREIRA

PENSANDO DIFERENTE

Além de incentivar a pluralidade de gênero, raça e cor entre os funcionários, algumas empresas começam a descobrir as vantagens de promover a multiplicidade de pontos de vista e experiências.

Pensando diferente

Promover a diversidade é meta da maioria das empresas que estão sintonizadas com as aspirações da sociedade atual. Muitas já adotam políticas para estimular a pluralidade de gênero, raça, cor e orientação sexual. Mais recentemente, outro tipo de diversidade começou a ganhar visibilidade e ser tema de estudos acadêmicos em nível global: a de pensamento, ou, como vem sendo chamada, diversidade cognitiva.

Em artigo publicado pela escola de negócios Insead em março, os executivos Paul Evans e Bruno Lanvin apontam que, para tarefas que exigem criatividade, equipes diferentes se saem melhor do que aquelas compostas de individuas semelhantes, desde que os membros compartilhem suas habilidades. A variedade de pontos de vista, experiências, conhecimentos, cultura e perspectiva pode enriquecer – e muito – a maneira como as organizações trabalham. Parece simples, mas implantar essa filosofia passa por um árduo caminho. “A responsabilidade pelo desenvolvimento dessa diversidade depende de sistemas educacional e líderes ousados que entendam que não é fácil conseguir que pessoas diferentes trabalhem ou vivam juntas, muito menos colaborem inovem em conjunto”, dizem Evan e Lanvin, também responsáveis pelo Índice de Competitividade Global de Talentos. Segundo eles, as nações que perceberam a importância de incentivar a diversidade lideram o ranking ICGT. No topo está a Suíça, país especialmente sensível à multiplicidade cognitiva.

Existem dois fatores que contribuem para que a pluralidade de pensamentos seja particularmente fácil de ser ignorada pelas empresas, de acordo com Alison Reynolds, professora na Ashridge Business School, do Reino Unido, e David Lewis, diretor do Senior Executive Program na London Business School. O primeiro é que ela é menos visível do que as outras formas – de gênero ou de raça, por exemplo. O segundo é que as organizações criam barreiras culturais que restringem características distintas. “Os empregados gravitam em torno daqueles que pensam e se expressam de maneira semelhante. Como resultado, as corporações têm equipes iguais”, a firmam os especialistas.

A homogeneidade tem impactos: reduz a oportunidade de fortalecer a organização com a contribuição de indivíduos que pensam de maneira oposta e não representa a população ele funcionários, diminuindo a amplitude das iniciativas. “Se você procurar, a diferença cognitiva está por toda parte. Mas os humanos gostam de se encaixar, então, eles são cautelosos em colocar o pescoço para fora”, afirmam Reynolds e Lewis em seu artigo. “Quando temos uma cultura forte e homogênea (por exemplo, uma cultura de engenharia, uma cultura operacional ou uma cultura relacional), sufocamos as variações de pensamento por meio da pressão para se conformar. E podemos até não estar conscientes de que isso está acontecendo.” Para a heterogeneidade aflorar, os líderes têm de melhorar o senso de segurança psicológica de sua equipe.

COMANDO E CONTROLE

No Brasil, os passos no sentido da diversidade cognitiva andam praticamente no mesmo ritmo que a média mundial – tímidos. Para Rafael Souto, presidente da consultoria Produtive, o ambiente corporativo ainda apresenta muita dificuldade em lidar com o pensamento divergente. “Como espécie, não somos muito afeitos aos diferentes, queremos eliminá-los”, afirma o consultor. Boa parte dos gestores inclui o tema em seu discurso de liderança, mas, na prática, funciona a política do comando e controle.

Um jargão que mostra como não há diversidade cognitiva nas instituições é o termo “alinhamento”, muito utilizado no mundo corporativo. Isso nada mais é do que a orientação para os funcionários pensarem do mesmo jeito. “Lidar com as diversas formas de conteúdo é harmonizar”, afirma Souto. “Mas as empresas suportam pouco a divergência, pois, para o senso comum, ela é um problema.” O consultor cita um exemplo recorrente: um profissional que traça sua estratégia de carreira.

“Quando o objetivo traçado pelo indivíduo é diferente do planejado por seu chefe, e ele ousa discordar, a promoção não acontece e ele é colocado na geladeira.”

Nesse cenário, há companhias que tentam pôr em prática a variedade cognitiva e, dela, criar novas estruturas de trabalho. Um exemplo é o Grupo Boticário. Lá, em todos os processos de recursos humanos – admissão, promoção, reconhecimento -, é observada a pluralidade de pensamento. Em cada nível de gestão existem comportamentos a ser observados, como “valorizar dimensões diferentes”, “compor times complementares”, “receber feedbacks e incorporar ideias novas” e “transformar a forma de atuar”. “Valorizamos e alavancamos com base na diferença. É parte de nossa cultura”, diz Graziella D’Enfeldt, diretora de recursos humanos.

Para o Grupo Boticário, cultivar as diferenças em seu ambiente soa óbvio. “Como vamos entender o consumidor se não temos em nosso microcosmo uma representação da sociedade?”, diz Graziella. A diversidade de pensamento também é buscada no programa de trainees. Atualmente, a turma tem 25 jovens, vindos de 17 faculdades. O trabalho de seleção é proativo: o R.H contrata empresas de pesquisas especializadas em entender o mercado jovem e seus hábitos de consumo e busca perfis como: quem faz as melhores festas, quem formula as melhores perguntas ou quem alcança as melhores notas. “É oneroso, mas muito mais preciso”, afirma a executiva de RH. “De uma triagem de 14.000 inscritos, passamos para 60 e temos um número recorde de jovens aceitos como trainee.”

Na outra ponta da cadeia hierárquica, o presidente do grupo, Artur Grynbaum, é um dos que mais procuram exercitar a diversidade cognitiva. Ele tem quatro vice-presidentes bem “diferentes um do outro”. Diz que manter quatro réplicas de si mesmo não acrescentaria em nada, e seus assessores diretos enriquecem e valorizam a gestão.

DEBATE DE IDEIAS

Em urna instituição onde se cultiva a diversidade de ideias, a criatividade e a organização são melhores. Essa é opinião do consultor de diversidade Ricardo Sales. Ele dá o exemplo de uma reunião: se os funcionários sabem que vão debater com pessoas que pensam diferente deles, vão se preparar melhor.

O filósofo e economista Joel Pinheiro da Fonseca cita o próprio exemplo para mostrar como é importante permitir a entrada do diferente nas corporações. “Eu venho da filosofia”, diz. “Se as empresas aceitassem só o perfil-padrão, perderiam muita coisa.” Para a neurocientista Carla Tieppo, a pluralidade permite que tudo que está no ambiente seja aproveitado. “As organizações utilizam melhor seus recursos. Ela é um ativo de uma corporação”, afirma.

Apesar das vantagens, não é fácil adotar a multiplicidade de pensamentos – principalmente se as companhias continuarem empregando por estereótipo. “Não há tanta diferença de olhares sobre o mundo, experiência e background quando as empresas contratam majoritariamente o mesmo perfil: homens brancos de classe média alta”, diz Ricardo Sales. Ou seja, para vicejar com toda a força, a diversidade também precisa brotar de cenários e condições totalmente diferentes.

ALIMENTO DIÁRIO

JOÃO 4: 4-26 – PARTE III

Alimento diário

Cristo no Poço de Samaria

[5] Cristo responde a essa crítica, e comprova que a água viva que Ele tinha para dar era muito melhor do que a do poço de Jacó, vv. 13,14. Embora ela falasse perversamente, Cristo não a rejeitou, mas a instruiu e a encorajou. Ele mostrou-lhe:

Em primeiro lugar, que a água do poço de Jacó produzia somente um bem-estar e um suprimento passageiros: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede”. Ela não é melhor do que qualquer outra água. Ela saciará a sede momentânea, mas a sede voltará, e em algumas horas o homem terá a mesma necessidade e desejo de água que sempre teve. Isso sugere:

1. As debilidades dos nossos corpos nesta condição atual. Eles ainda estão necessitados, e têm sempre um desejo ardente. A vida é uma chama, uma lamparina que, sem um suprimento contínuo de combustível e azeite, logo se apagará. O calor natural consome a si mesmo.

2. As imperfeições de todos os nossos confortos neste mundo. Eles não são duradouros, nem nossa satisfação neles, permanente. Sejam quais forem as águas de conforto das quais bebamos, teremos sede novamente. A comida e a bebida de ontem não servirão para a vida de hoje.

Em segundo lugar, que as águas vivas que Ele daria produziriam uma satisfação e bênção duradouras, v. 14. As dádivas de Cristo parecem mais valiosas quando são comparadas com as coisas deste mundo, pois parecerá não haver comparação entre elas. Quem quer que compartilhe do Espírito da graça, e dos confortos do Evangelho eterno:

A. Nunca terá sede, nunca terá a necessidade de algo mais para satisfazer abundantemente os desejos de sua alma. A pessoa poderá estar desejosa, mas não estará padecendo. Esta pessoa poderá ter uma sede que é igual a um desejo, e não almejará nada mais do que a presença e a graça de Deus. Ela desejará ter mais e mais de Deus. Porém, ela não terá uma sede que possa se parecer com o desespero.

B. Consequentemente, nunca terá sede porque essa água que Cristo proporciona “se fará nele uma fonte de água”. Nunca poderá ter sede ao extremo aquele que tem em si mesmo uma fonte de suprimento e satisfação.

(a) Esta fonte estará sempre pronta a jorrar, pois ela estará nele. O princípio da graça plantado nele é a fonte de seu conforto. Veja cap. 7.38. Um homem bom está satisfeito em si mesmo, pois Cristo habita em seu coração. A unção permanece nele. Ele não precisa se esgueirar pelo mundo em busca de conforto. A obra e o testemunho do Espírito no seu coração lhe fornecem um sólido alicerce de esperança, e uma fonte de alegria transbordante.

(b) Esta fonte será infalível, pois estará dentro dele. Aquele que tem na mão apenas um balde de água não terá sede enquanto esta durar, mas ele logo estará vazio. Somente os crentes têm dentro de si uma fonte de água transbordante, sempre fluindo. Os princípios e os sentimentos que o santo Evangelho de Cristo cria nas almas daqueles que são colocados sob seu poder são essa fonte de água.

[a] Ela está jorrando, sempre em movimento, o que evidencia as fortes e vigorosas ações da graça. Se as boas verdades ficam estagnadas em nossas almas, como água parada, elas não correspondem ao propósito da nossa aceitação. Se em nosso coração houver um bom tesouro, então nós deveremos produzir coisas boas.

[b] Ela está saltando para a vida eterna, o que indica, em primeiro lugar, os objetivos das ações generosas. Uma alma santificada tem sua atenção voltada para o céu, pretende isso, planeja isso, faz tudo por isso, não aceitará nada menos que isso. A vida espiritual salta em direção à sua própria perfeição na vida eterna. Em segundo lugar, a constância dessas ações. Continuará saltando até alcançar a perfeição. Em terceiro lugar; o galardão deles, a vida eterna enfim. A água viva nasce do céu, e, portanto, eleva-se em direção ao céu. Veja Eclesiastes 1.7. E sendo assim, não é essa água melhor do que a do poço de Jacó?

[6] A mulher (alguns pensam que é difícil dizer se por brincadeira ou a sério) pede que Jesus lhe dê um pouco dessa água (v. 15): “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede”. Em primeiro lugar, alguns acham que ela fala com zombaria e ridiculariza o que Cristo tinha dito como sendo mera bobagem. E, por zombaria, não por desejo, desafia-o a lhe dar um pouco dessa água: “Uma invenção rara. Isso me poupará muito trabalho se eu nunca mais tiver que voltar aqui para tirar água”. Mas, em segundo lugar; outros acham que esse foi um desejo bem-intencionado, embora ilógico e ignorante. Ela compreendeu que o Senhor se referia a algo muito bom e proveitoso, e então disse amém, talvez ao acaso. “Seja o que for, que venha. Quem me mostrará algum bem? Facilitar; ou poupar trabalho, é um bem valioso para os pobres trabalhadores. Note:

1. Mesmo aqueles que são fracos e ignorantes podem, ainda assim, ter algumas débeis e hesitantes aspirações em relação a Cristo e suas dádivas, alguns bons desejos de graça e glória.

2. Os corações carnais, em seus melhores desejos, não enxergam nada além de suas finalidades carnais. “Dá-me”, diz ela, não para que eu possa ter a vida eterna (que Cristo propôs), mas “para que não mais tenha sede e não venha aqui tirá-la”.

3. O próximo tópico da conversa com essa mulher é com relação a seu marido, vv. 16-18. Não foi para deixar de lado a conversa sobre a água da vida que Cristo começou a falar nesse assunto, como muitos que fazem qualquer comentário inoportuno durante uma conversa para que possam abandonar um assunto sério. Mas Ele o fez com um propósito benevolente. O Senhor percebeu que aquilo que Ele havia dito com relação à sua graça e à vida eterna causara pouco impacto sobre ela, porque ela não tinha sido convencida do pecado. Por isso, renunciando à conversa sobre a água viva, Ele empenha-se em despertar a consciência dela, para abrir a ferida da culpa, e então ela entenderia mais facilmente a cura que é ministrada pela graça. E este é o método de lidar com as almas. Elas devem, primeiro, estar cansadas e sobrecarregadas pelo fardo do pecado, e então devem ser levadas a Cristo para descansar. Primeiro se sentem atormentadas até o coração, e então são curadas. Este é o caminho da cura espiritual, e se não procedermos nessa ordem, estaremos começando pelo lado errado.

Observe:

(1) A maneira discreta e decente como Cristo introduz essa conversa (v. 16): “Vai, chama o teu marido e vem cá”. Neste momento:

[1] A ordem que Cristo deu a ela tinha uma intenção muito boa: “Chama teu marido, para que ele possa lhe ensinar, e ajudar-lhe a entender essas coisas que você ignora”. As mulheres que querem aprender devem perguntar a seus maridos (1 Coríntios 14.35), que devem “coabitar com elas com entendimento”, 1 Pedro 3.7. “Chama teu marido, para que ele possa aprender contigo, para que então ambos possam juntos ser os herdeiros da graça da vida. Chama teu marido, para que ele possa ser testemunha do que se passa entre nós”. Desse modo, Cristo nos ensina a buscar coisas honestas à vista de todos os homens, e ter como objetivo aquilo que for de boa reputação.

[2] Como isso tinha uma boa intenção, tinha também um bom propósito, pois Ele aproveitaria a ocasião para trazer o pecado dela à lembrança. É preciso habilidade e prudência ao repreender. Deve-se planejar, como a mulher de Tecoa, 2 Samuel 14.20.

(2) Com que persistência a mulher busca evitar a condenação, e mesmo assim sem perceber se condena, e, antes que esteja ciente, reconhece seu erro. Ela disse: “Não tenho marido”. Sua declaração sugeria apenas que ela não se importava mais que se falasse de seu marido, nem que esse assunto fosse mencionado. Ela não faria seu marido ir até lá para que a verdade sobre o assunto não viesse à tona para sua vergonha em conversas adicionais: “Por favor, fale de qualquer outra coisa, pois eu não tenho marido”. Seria de se pensar que ela fosse uma serva ou uma viúva, apesar de que, embora não tivesse marido, ela não fosse nem uma coisa nem outra. O pensamento carnal é muito engenhoso e cuidadoso ao esconder o pecado, na tentativa de se afastar e se livrar das condenações.

(3) Com que rigor nosso Senhor Jesus faz a consciência dela entender a condenação. É provável que Ele tenha dito mais do que aquilo que está registrado aqui, porque ela percebeu que o Senhor lhe falara tudo o que ela já tinha feito (v. 29). Mas aquilo que está registrado aqui é relativo aos maridos daquela mulher. Aqui está:

[1] Uma narrativa surpreendente de uma conversa sobre o passado dela: “Tiveste cinco maridos”. Sem dúvida, não era por sua aflição (o sepultamento de tantos maridos), mas por seu pecado, que Cristo pretendia repreendê-la. Ou ela poderia ter fugido para se casar (como diz a lei), fugido de seus maridos e se casado com outros. Ou sua conduta irresponsável, ímpia e desleal os havia levado a se divorciar dela. Ou ainda, por meios indiretos, ela havia contrariado a lei, e se divorciado deles. Aqueles que não levam a sério práticas escandalosas como essas, e fingem que a culpa se extingue assim que a conversa se encerra, devem se lembrar de que todas as coisas estão registradas diante de Cristo.

[2] Uma severa repreensão à sua condição de vida atual: “O que agora tens não é teu marido”. Ou ela nunca havia se casado com ele de modo algum, ou ele tinha alguma outra esposa, ou, o que é mais provável, seu ex-marido ou maridos estavam vivos, de forma que, em resumo, ela vivia em adultério. Observe ainda a suavidade com que Cristo lhe fala sobre isso. Ele não a chama de prostituta, mas lhe diz: “O que agora tens não é teu marido”, e então deixa para sua própria consciência dizer o resto. Note que as repreensões são geralmente mais proveitosas quando são menos ofensivas.

[3] Ainda assim, o Senhor Jesus traz uma interpretação melhor do que aquela que ela poderia trazer. A colocação do Senhor elimina as evasivas e os subterfúgios: “Disseste bem: Não tenho marido”. E outra vez: “Isso disseste com verdade”. O que ela pretendeu que fosse a negação de um fato (que ela não considerou como marido a nenhum homem com quem no caso da lei de Moisés, mas a vontade de Deus é que os homens orem em todo lugar, 1 Timóteo 2.8; Malaquias 1.11. Nosso bom senso nos instrui a considerar a decência e a conveniência dos lugares onde adoramos, mas nossa religião não tem preferência por um lugar em relação ao outro, com respeito à santidade e aceitação por parte de Deus. Aqueles que preferem algum local de adoração somente por causa da casa ou construção na qual a adoração está sendo realizada (mesmo que seja tão magnífica e solenemente consagrada como era o templo de Salomão) se esquecem de que hoje o local onde se adora a Deus já não faz mais diferença. Não há mais uma diferença entre Jerusalém, que tinha sido tão conhecida pela sua santidade, e o monte de Samaria, que havia sido tão mal-afamado pela sua impiedade.

[2] Ele coloca ênfase sobre outras coisas, na questão da adoração religiosa. Ao dar tão pouca importância ao local de adoração, Ele não pretendia diminuir nossa preocupação sobre a questão em si, sobre a qual Ele então aproveita a oportunidade para discorrer mais detalhadamente.

Em primeiro lugar, quanto ao estado de divergência daquela época, Ele decidiu contra a adoração dos samaritanos, e em favor da dos judeus, v 22. Ele diz aqui:

1. Que os samaritanos certamente estavam errados, não simplesmente porque adoravam nesse monte, embora a preferência por Jerusalém já estivesse em vigor, o que era pecaminoso, mas porque eles estavam errados quanto ao objeto de sua adoração. Se a adoração em si fosse como deveria ser, sua separação de Jerusalém poderia ter sido aceita, pois os melhores reinos tinham seus lugares altos: “Mas vós adorais o que não sabeis”, ou, “aquele que não conheceis”. Os judeus adoravam o Deus de Israel, o verdadeiro Deus (Esdras 4.2; 2 Reis 17.32), mas estavam mergulhados em completa ignorância. Eles o adoravam como o Deus daquela terra (2 Reis 17.27,33), como uma divindade local, como os deuses das nações. Porém, o Senhor Deus deveria ser servido como o único Deus, como o Senhor universal. Observe que a ignorância está muito longe de ser a mãe da devoção, sendo, antes, sua assassina. Aqueles que adoram a Deus na ignorância oferecem animais cegos para sacrifício, e este é o sacrifício de tolos.

2. Que os judeus certamente estavam corretos. Pois:

(1) ‘”Nós adoramos o que sabemos’. Nós caminhamos em terreno seguro em nossa adoração, pois nosso povo é discipulado e educado no conhecimento de Deus, conforme Ele se revelou nas Escrituras”. Note que aqueles que, através das Escrituras, obtiveram um certo conhecimento sobre Deus (embora não um conhecimento perfeito), podem adorá-lo tranquilamente e de maneira aceitável, porque eles sabem o que adoram. Cristo, em outra passagem, condena as distorções da adoração dos judeus (Mateus 15.9), e mesmo assim defende a adoração em si. A adoração pode ser verdadeira mesmo onde ela não é genuína e íntegra. Observe que nosso Senhor Jesus estava feliz em se incluir entre os adoradores de Deus: “Nós adoramos”. Embora Ele fosse o Filho (logo, estão livres os filhos), mesmo assim Ele aprendeu a obediência nos dias de sua humilhação. Que os maiores entre os homens não pensem que a adoração a Deus seja algo inferior para eles, pois o próprio Filho de Deus não agiu deste modo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

LADOS DE METADES INTEIRAS

O amor pressupõe um eu dividido em partes que se opõem. Essa é a lição de O Visconde Partido ao Meio, uma fábula de Ítalo Calvino que explora o fantástico.

Lados de metades inteiras

Amar o outro faz-nos perceber nossa incompletude. Ao notarmos em nós mesmos dois lados como inimigos irreconciliáveis, sentimos a luta entre eles e também a dor de se ferirem para unirem-se em um todo chamado indivíduo. É dessa forma que obtemos o verdadeiro ato de amar a si e ao outro. Assim nos ensina o livro O Visconde Partido ao Meio de Ítalo Calvino.

O visconde Medardo, no intuito de agradar alguns duques, vai à guerra e é atingido por um tiro de canhão que o divide ao meio. Retorna à sua cidade terra metade do visconde que se revela muito cruel. Quando os habitantes da cidade já estavam desanimados e amargurados, eis que aparece a outra metade como um visconde absolutamente bom. Até que os habitantes percebem que maldades e virtudes igualavam-se na desumanidade, pois pessoas cheias de boas intenções podem ser chatas e terríveis. Por amor a Pamela, essas duas bandas do visconde entram num duelo e se ferem mortalmente. Para salvá-las, o dr. Trelawney costura uma metade na outra e faz das duas partes um único visconde. Nas palavras do autor, “o homem mutilado, incompleto, inimigo de si mesmo, precisou do amor para tornar-se inteiro”.

Sentir-se pela metade é bem próprio da juventude quando se permite deixar a força natural do desenvolvimento empurrá-la em direção à totalidade, um lugar a que nunca se chega. Em nosso amadurecimento, o sentir-se incompleto deverá continuar para que nos faça sentir que ainda há vida a ser vivida.

Vivemos lidando com a ideia do aceitável e do não aceitável em nossa convivência com aqueles que nos arrodeiam e com os que podem nos dar ou não amor. Escondemos na sombra o comportamento ou ideia que nos pareça fazer perder esse amor e exibimos o que achamos que irá impressionar o outro na ilusão de ser amado. Chega o momento em que nos sentimos divididos e percebemos que parte de nós é desejo e outra parte é renúncia.

Muitas são as feridas que experimentamos em nome da boa educação dos nossos pais e são essas feridas primais que nos atrapalham em fazer parte dessa unidade universal que chamamos natureza. Algumas fazem-nos perder parte de si e, como se estivéssemos atados a um fio invisível, guiamo-nos por ele nessa busca do que possa nos completar. Ao encontrarmos o que estava perdido, unimo-nos pela paixão para depois sentirmos tão opostas as nossas idealizações que precisamos sofrer para nos darmos conta do quanto o ideal é inimigo do real.

Metade de nós revela virtude, outra metade mostra maldade, mas, para além dessas metades, existimos. Precisamos sair dessa ignorância de nos sentirmos inteiros. Inteiros por pensarmos que somos só virtuosos ou então apenas destrutivos até que os sintomas apareçam para denunciar a inconsciência dessa unilateralidade.

Ensina a Psicologia de C. G. Jung que todas as vezes em que o homem se encontra em um de seus extremos, sua outra parte o avisa em sonhos. Um homem vivendo sua unilateralidade como o bem absoluto ou o mal absoluto é alguém que prejudica os demais e a si próprio com a sua incompletude. Quando conseguimos alertá-lo desses lados opostos e irreconciliáveis, precisamos de um ego forte para suportar a tensão até que transcenda para uma terceira condição completamente nova. Essa terceira condição é diferente de cada uma das duas outras originais, mas também contém, de algum modo, aquelas mesmas partes opostas entre si.

Quando metade de nós mesmos não consegue amar, e essa condição pertence a outra metade à qual não conseguimos estar unidos, o objeto do nosso amor poderá nos fazer sentir confusão já que não estamos inteiros nesse ato. Uma metade luta com a outra, e apenas quando se ferem é que se torna possível, mediante tratamento, transcender esses opostos incompatíveis para tornarem-se unos e dignos dessa união. Descobrimos que nossa parte perdida estava projetada nos outros e era tracionada pela angústia da incompletude. Dessa forma, o papel do analista é costurar e unir o que antes existia separadamente.

Sofremos com o drama de nos sentirmos inacabados. Sempre estamos por nos completar com alguma busca que muitas vezes aparece na forma de objetos ou atitudes irracionais, diagnosticados como angústias existenciais. É o sofrimento da alma do homem sempre a buscar se completar com afazeres e atividades lúdicas, ou mesmo vícios, expressões imaginais do que o completa.

Por outro lado, aqueles que se sentem completos talvez não sintam mais a necessidade de viver para buscar o que lhes falta. A nossa parte boa e a parte mesquinha nunca conseguem fazer ao outro algo virtuoso, porém a luta entre esses dois lados é a esperança da inteireza. Somente o homem consciente de sua incompletude e em busca de se harmonizar com a natureza que o acolhe, e que ele chama de Deus, é que poderá tornar-se um indivíduo.

Para aqueles que enxergaram a disputa de Hillary Clinton e Donald Trump como o discurso de um lado bom e civilizado contra um lado mau e primitivo, eu convido-os a refletirem sobre o que existe de certeza no que vai ser e o quanto em nós mesmos aparecem esses dois lados disfarçados em sintomas ou modos de vida inapropriados à evolução do ser.

 Lados de metades inteiras2

CARLOS SÃO PAULO – é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br www.ijba.com.br