PSICOLOGIA ANALÍTICA

A JORNADA DOS BEBÊS

Ainda no útero, eles reconhecem e preferem a voz materna e, com poucas horas de vida, eles já distinguem sabores e aromas; identificam também formas pelo toque e estão aptos a enxergar o suficiente para notar características do rosto de quem os pega no colo.

A jornada dos bebês

Eles não enxergam exatamente como adultos nos primeiros meses de vida, mas distinguem aromas, têm capacidade de reconhecer texturas pelo toque, preferem determinados tipos de som e desde bem novinhos gostam (ou desgostam) de certos sabores. Estudos desenvolvidos nos últimos anos revelam que os bebês nascem muito mais “prontos” do que se supunha há algumas décadas. Por volta dos 7 meses, por exemplo, já são capazes de se lembrar de músicas vários dias depois de tê-las ouvido. Com poucas semanas de vida, diferenciam sabores e emitem suas opiniões por meio das expressões faciais. Quanto aos odores, recém-nascidos notam a diferença entre os perfumes e os cheiros fétidos – virando a cabeça para se aproximar do que lhes agrada ou na direção oposta para evitar o desconforto. A sensibilidade das mãozinhas também é fundamental para as primeiras explorações do mundo. Desde que nasce, a criança apresenta capacidade para coordenar informações, obtidas por meio do tato, sobre forma dos objetos, associando-as à experiência visual.

Embora a visão seja um dos sentidos mais estudados, durante muito tempo se pensou, por exemplo, que as crianças nasciam cegas ou que só poderiam distinguir imagens com precisão após muito tempo. Atualmente, médicos e cientistas admitem que o bebê de poucas horas de vida enxerga, sim, ainda que não nitidamente, já que seu sistema visual é imaturo e os sentidos não estão totalmente desenvolvidos. Ao nascer, ele vê suficientemente para perceber os olhos, a boca e até uma mosca no nariz de quem o pega no colo. Um bebê de algumas semanas consegue seguir com os olhos uma pessoa que se movimenta ao seu redor, apenas com um pouco de atraso, sobretudo se a pessoa andar rapidamente.

 TUDO EMBAÇADO

No início vê o mundo de forma desfocada. Isso acontece porque tem dificuldade de executar uma função orgânica chamada “acomodação”. Trata-se, na verdade, da habilidade de fazer a curvatura do cristalino variar para obter uma imagem nítida, permitindo ajustar a visão para objetos próximos ou distantes. O mundo se torna um pouco mais nítido para os pequenos a uma distância entre 20 cm e 75 cm, uma faixa em que o cristalino consegue se acomodar parcialmente. A partir de 2 meses, a acomodação se desenvolve. E um fato interessante: aos 3 meses e meio, ela é superior à dos adultos, e os bebês conseguem enxergar nitidamente um objeto situado a 5 cm – uma distância que não facilita a visão em nenhum outro momento da vida.

Quanto ao campo visual, se o dos adultos é de 180 graus, o de um recém-nascido é de apenas 60 graus. Esse campo visual se desenvolve lentamente durante os dois primeiros meses de vida, aumentando rapidamente até os 8 meses.

Mesmo apresentando acuidade visual aproximadamente 60 vezes mais fraca que a do adulto, os pequeninos são capazes de identificar expressões faciais, embora tenham dificuldades para perceber detalhes. Mas o recém-nascido enxergará cada vez melhor com o tempo. Aos 6 meses, sua acuidade visual será apenas cinco vezes menor que a do adulto.

A maneira como os olhos dos bebês se deslocam também apresenta particularidades. Quando um adulto segue um objeto com os olhos, a “perseguição ocular” é suave. Os bebês nem sempre têm essa facilidade. Para comprovarem isso, pesquisadores mostraram a vários recém-nascidos um objeto preto se movimentando sobre um fundo branco a fim de estudar se seus olhos se moviam de forma suave ou brusca. Perceberam que crianças de até 5 semanas eram capazes de seguir o alvo quando ele se deslocava lentamente, mas assim que o objeto acelerava seu movimento a perseguição ocular ocorria aos trancos. O estudo, várias vezes replicado, mostra que, mesmo se a visão dos pequenos seja limitada em relação à dos adultos, ela é funcional.

SONS DO ÚTERO

Há mais de duas décadas os psicólogos americanos A. J. De Casper e W. P. Fifer realizaram uma das mais surpreendentes experiências com recém-nascidos. Os resultados foram publicados pela revista Science. Eles pediram que dez mulheres que tinham acabado de dar à luz lessem um texto durante 25 minutos e gravaram sua voz. Os pesquisadores colocaram fones de ouvido nos bebês dessas mulheres, cinco meninos e cinco meninas, e lhes deram uma chupeta ligada a um aparelho que permitia acionar o gravador.

Com apenas alguns dias de vida, os bebês ouviam então a voz da própria mãe e depois a de uma mãe desconhecida, ou o inverso. Suas reações de sucção foram observadas enquanto escutavam a gravação que podiam acionar. Resultado: de forma geral, os recém-nascidos modificavam sua sucção, aumentando ou diminuindo o ritmo, de maneira a ouvir mais frequentemente a voz da mãe. Essa experiência mostrou não somente que o pequeno reconhecia e preferia a voz materna, como também era capaz de aprender como produzir o som que preferia. Experiências semelhantes, feitas também por De Casper, com a voz do pai não revelaram o mesmo comportamento. Crianças de até 4 meses não reconheceram a voz paterna. Os psicólogos acreditam que isso ocorre provavelmente porque a experiência pré-natal influencia significativamente a preferência, já que o feto está mais exposto à voz da mãe que à do pai.

Outro estudo se propôs a avaliar a capacidade de identificação da voz materna antes mesmo do nascimento. Participaram da experiência 60 grávidas que estavam por volta da 39a semana de gestação. A metade dos fetos ouviu uma gravação em fita magnética da mãe lendo um poema durante dois minutos. Os outros ouviram o mesmo texto lido por uma voz desconhecida. O som era emitido por um alto-falante a uma distância de 10 cm acima da barriga da mãe, a 95 decibéis.

GOSTINHO BOM

Os pesquisadores registraram a frequência cardíaca dos fetos durante a sessão e repararam que ela aumentava com a voz da mãe e diminuía com o som. Para os pesquisadores, a aceleração se deve ao fato de que a voz da mãe estimula o bebê. Esse estudo prova que o bebê reconhece a diferença entre a voz da mãe e a voz de uma desconhecida antes mesmo de nascer. Ou seja: se antes de nascer a criança já reconhece – e prefere – a voz de sua mãe, faz sentido, portanto, que as grávidas conversem com os filhos quando ainda estão na barriga.

É comum dizer que os recém-nascidos não têm o paladar tão apurado quanto os adultos. Da mesma forma, nos perguntamos se conseguem distinguir o doce do salgado, o amargo do azedo. Foram feitas várias experiências para descobrir se eles eram instintivamente capazes de perceber essas diferenças.

Em um desses estudos, as psicólogas Harriet Oster e Diana Rosenstein, ambas pesquisadoras da Universidade de Nova York, realizaram um teste no qual colocaram na boca de 12 recém-nascidos de duas horas de vida, alternadamente, açúcar, cloreto de sódio, ácido cítrico e cloridrato de quinino – com sabores, respectivamente, salgado, cítrico e amargo. Elas observaram e filmaram as expressões faciais dos bebês em contato com essas quatro substâncias. Com o açúcar, as crianças ficavam tranquilas e relaxadas e começavam a mamar. Mas, em resposta às soluções salgadas, ácidas e amargas, mostraram expressões emocionais negativas: para o gosto ácido, os lábios ficavam apertados; ao sentirem o amargo, os bebês bocejavam, e não houve expressão facial específica para o gosto salgado.

Outro pesquisador, Jacob E. Steiner, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, demonstrou com o mesmo tipo de experiência que o açúcar fazia com que os bebês mostrassem a língua, relaxassem os músculos do rosto e às vezes até sorrissem. Com o quinino, bocejavam e faziam caretas, arqueando os lábios, franzindo a testa e o nariz e enrugando os músculos ao redor dos olhos. Os recém-nascidos balançavam as mãos e os braços e era possível ver sacudidelas ou afastamento da cabeça. Com o ácido, Steiner notou reações intermediárias entre essas observações extremas. Como não houve nenhuma resposta facial para o gosto salgado até aproximadamente os 4 meses, o pesquisador supôs que a capacidade de detecção do sal se desenvolve mais tarde.

Mesmo que não tenham nenhuma experiência anterior do paladar – exceto a ingestão pré-natal do líquido amniótico –, os recém-nascidos sabem diferenciar o amargo, o doce e o ácido. Cada um desses três sabores provoca reações faciais específicas. Segundo os cientistas, podemos interpretar essas reações como prazerosas ou desagradáveis.

É possível que a origem do comporta- mento facial seja funcional: ele pode ter um valor comunicativo para a mãe, para informar de qual sabor o bebê gosta mais.  As preferências parecem ser adaptativas. A inclinação inata pelo doce pode ser o resultado de uma evolução para detectar e identificar as fontes mais calóricas de alimentos. Assim como a aversão ao amargo e ao ácido indica habilidade seletiva para evitar itens não comestíveis e até tóxicos. Isso explica, do ponto de vista evolucionista, por que tantas crianças rejeitam comidas amargas como certos legumes e verduras (jiló, agrião e rúcula, por exemplo). A melhor forma de driblar a resistência é a persistência: os pais não devem desistir de apresentar repetida- mente os alimentos aos pequenos até que essas comidas, em geral bastante nutritivas, passem a ser toleradas e até apreciadas.

 TOCAR PARA SABER

O bebê é capaz de reconhecer com os olhos aquilo que toca: assim, a informação passa da mão para os olhos. Para comprovarem essa “transferência toque-visão”, os psicólogos Arlette Streri, da Universidade Paris Descartes, e Edouard Gentaz, da Universidade Pierre-Mendès-France, desenvolveram uma pesquisa com 12 meninos e meninas com apenas 3 dias. Eles colocaram na mão direita de cada bebê um prisma ou um cilindro. Se a criança largasse o objeto, um dos pesquisadores o apresentava novamente até que ela se acostumasse com a forma.

Numa segunda fase da experiência, os psicólogos ofereciam dois objetos lado a lado diante dos olhos do bebê durante 60 segundos e mediam o tempo durante o qual ele olhava para cada um. Os pesquisadores perceberam então que os bebês se detinham mais tempo naquele que não havia sido explorado pelo toque – os que tinham segurado o prisma olhavam mais para o cilindro, e vice-versa. Isso demonstra que a forma previamente explorada pelo toque era familiar ao bebê, enquanto a outra era percebida como nova.

Tempos depois, Streri e Gentaz tiveram a ideia de estudar o comportamento visual de 12 outros recém-nascidos, sem que tivessem de segurar nas mãos o cilindro ou o prisma. Os resultados mostraram que esses bebês olhavam durante o mesmo tempo para ambos, o que confirmou que o cérebro de um bebê de 3 dias é capaz de realizar uma “transferência intermodal”. Isso quer dizer que um objeto percebido por um sentido pode ser reconhecido por outro: desde o nascimento, o ser humano tem a capacidade de coordenar as informações sobre a forma dos objetos entre as modalidades visual e tátil antes mesmo de ter aprendido isso a partir das associações resultantes de suas experiências.

NOVOS AROMAS

Um adulto consegue identificar logo um odor desagradável ao entrar em uma sala. Mas será que um bebê com poucas horas de vida também é capaz de ter a mesma reação? Empenhados em encontrar a resposta para essa pergunta, cientistas realizaram uma experiência com 20 bebês de 16 a 100 horas de vida: colocaram um frasco contendo um pouco de amoníaco perto do rosto de cada criança, de um lado de cada vez. Essa operação foi repetida em várias ocasiões com todos os bebês. Após breve apresentação do produto, os movimentos dos pequenos foram filmados.

Em cerca de 70% das vezes, eles viraram a cabeça na direção oposta ao recipiente. Os que faziam esse gesto mais vigorosamente eram os que mostravam menos agitação de- pois de cheirar o amoníaco. Inversamente, aqueles que tinham dificuldade para desviar a cabeça ficavam muito mais agitados.

Para estudar a reação infantil aos cheiros bons, também foram feitas algumas pesquisas. Ao apresentar diferentes aromas para recém-nascidos de menos de 12 horas de vida, Steiner, por exemplo, demonstrou que eles eram receptivos a vários odores. Após ter filmado cada um dos bebês, ele notou que os extratos de banana, baunilha e manteiga provocavam sorrisos e movimentos de sucção. Em compensação, os cheiros de camarão e ovo podre causavam comporta- mentos como curvar os cantos da boca para baixo e apertar os lábios.

As experiências mostraram que os bebês notam a diferença entre os aromas e perfumes agradáveis e os odores fétidos e outros cheiros irritantes. É possível concluir que a criança tem a capacidade inata de evitar, por meio de uma ação (virar a cabeça), e de comunicar (pela sua expressão facial) sua repulsa pelos cheiros desagradáveis. O inverso é verdadeiro para os cheiros agradáveis. As reações nesse caso, aliás, são bastante similares às de adultos. A “esperteza olfativa” infantil aparece também em outra situação: recém-nascidos são capazes de perceber o odor materno, em comparação com o de outras mulheres.

 CADA UM DO SEU JEITO

Assim como acontece com adultos, bebês têm reações que podem ser consideradas universais, mas também devem ser levadas em conta as particularidades de cada criança: são indivíduos únicos e, como tal, desde muito cedo apresentam comportamentos e reações específicas.

Essa diversidade já está presente mesmo antes de virem ao mundo. Durante a gravidez, muitas mães relatam diferenças na movimentação fetal, em situações de tranquilidade e estresse, em comparação a gestações anteriores ou mesmo entre os fetos no caso de gêmeos. O recém-nascido demonstra sua individualidade, por exemplo, ao responder de maneira complexa aos estímulos ambientais.

De certo modo, porém, a percepção da individualidade é algo recente. Para o pediatra e neonatologista T. Berry Brazelton, da Escola Médica da Universidade Harvard, em Boston, o conhecimento científico das três últimas décadas permitiu alterar de forma radical a concepção que até então considerava o bebê um ser provido de reflexos isolados, incapaz de responder a estímulos visuais e auditivos, insensível à dor e pronto a ser moldado pelo ambiente. Hoje, ele é considerado um ser dinâmico organizado, com habilidade para se adaptar socialmente – uma característica essencial para enfrentar o desafio da vida pós-natal.

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 13: 24-43 – PARTE 1

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A Parábola do Trigo e do Joio, do Grão de Mostarda, e do Fermento – Parte 1

Nesses versículos, nós temos:

I – Uma outra razão pela qual Cristo pregava em parábolas (vv. 34,35). O Senhor proferiu todos estes ensinos através de parábolas, porque não havia chegado o tempo para a descoberta mais clara e direta dos mistérios do Reino. Para manter as pessoas comparecendo e esperando, o Senhor Jesus Cristo pregava utilizando parábolas, e não lhes falou sem utilizar parábolas, como, por exemplo, na ocasião desse sermão. Note que Cristo tenta todos os modos e métodos para fazer o bem às almas dos homens, e para fazer o melhor por elas. Se os homens não quiserem ser instruídos e influenciados por uma pregação direta, o Senhor tentará instruí-los através de parábolas. E a razão dada aqui é muito importante: para que as Escrituras fossem cumpridas. A passagem aqui mencionada é parte do prefácio para aquele Salmo histórico (78.2): ”Abrirei a boca numa parábola”. As palavras que o salmista Davi, ou Asafe, expressa em sua narrativa estão em harmonia com os sermões de Cristo; e este grande precedente serviria para justificar esse modo de pregar, mostrando que ele não era ofensivo, como alguns o consideravam. Aqui está:

1.O tema da pregação de Cristo; Ele pregava coisas que haviam sido mantidas em segredo desde a fundação do mundo. O mistério do Evangelho havia estado escondido em Deus, nos seus conselhos e decretos, desde o começo do mundo (Efésios 3.9; compare Romanos 16.25; 1 Coríntios 2.7; Colossenses 1.26). Se nos deliciamos com as descrições de coisas da antiguidade, e com a revelação de coisas secretas, quão bem-vindo o Evangelho deve ser para nós, pois ele tem em si tanta antiguidade e mistério! Elas estavam – desde a fundação do mundo – envoltas em tipos e sombras que agora passaram; e aquelas coisas secretas se tornaram aquilo que foi manifesto a nós e aos nossos filhos (Deuteronômio 29.29). 2. A maneira como Cristo pregou. Ele pregou por parábolas, que eram discursos sábios, mas figurativos, e que ajudavam a prender a atenção e levar a uma busca diligente. As pomposas instruções de Salomão, que estão repletas de analogias, são chamadas de provérbios, ou parábolas. Ê a mesma palavra. Mas tanto em palavras como em obras, “eis que está aqui quem é mais do que Salomão”; no Senhor Jesus Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria.

 

II – A parábola do joio, e a sua elucidação; elas devem ser tomadas juntas, pois a elucidação explica a parábola e a parábola ilustra a elucidação.

Observe:

1.O pedido dos discípulos ao Mestre; eles queriam que a parábola lhes fosse explicada (v. 36). O Senhor Jesus dispensou a multidão; e é de se temer que muitos deles tenham ido embora sem terem se tornado mais sábios do que quando vieram; eles ouviram um som de palavras, e isso foi tudo. Ê triste pensar que muitos ouvem os sermões sem que a Palavra da graça penetre em seus corações. Cristo foi para dentro de casa, nem tanto para seu próprio repouso, mas para uma conversa particular com os seus discípulos; a instrução era o objetivo maior de todas as suas pregações. Ele estava pronto para fazer o bem em todos os lugares; os discípulos aproveitaram a oportunidade e vieram a Ele. Aqueles que desejam ser sábios em todas as coisas, devem ser sábios para discernir e melhorar as suas oportunidades, especialmente de conversar com Cristo, de conversar com Ele a sós, meditando e orando de forma secreta. É muito bom, quando retornamos da assembleia sagrada, conversarmos uns com os outros sobre a mensagem que ali ouvimos, e em linguagem familiar nos ajudarmos uns aos outros a entendê-la e lembrá-la, e sermos tocados por ela; pois nós perdemos o benefício de muitos sermões através de conversas vãs e inúteis que temos depois de ouvi-lo. Veja Lucas 24.32; Deuteronômio 6.6,7. É especialmente bom, se possível, perguntar aos ministros da Palavra o significado da palavra escrita e pregada, pois os seus lábios devem guardar o conhecimento (Malaquias 2.7). As conversas particulares contribuiriam muito para que aproveitássemos melhor os discursos públicos. A frase proferida por Natã: “Tu és este homem”, foi o que tocou o coração de Davi.

O pedido dos discípulos ao Mestre foi: “Explique-nos a parábola do joio do campo”. Isso implicava em um reconhecimento de sua ignorância, algo que eles não tiveram vergonha de fazer. E provável que tenham captado o escopo geral da parábola, mas desejassem compreendê-la com mais detalhes, tendo a certeza de que a haviam compreendido corretamente. Aqueles que estão inteiramente predispostos aos ensinos de Cristo, são aqueles que estão conscientes da ignorância em que vivem, e desejam, sinceramente, ser ensinados. Ele ensinará os humildes (Salmos 25.8, 9), mas é necessário pedir isso. Se qualquer homem necessitar de instrução, peça-a a Deus. Cristo havia explicado a parábola anterior sem que eles pedissem; mas no caso desta parábola do joio, eles pediram a explicação.  As misericórdias que nós recebemos devem ser melhoradas, tanto por orientação como ao que pedir em oração, para o encorajamento em oração. A primeira luz e a primeira graça são dadas de um modo preventivo; porém, a sequência das bênçãos, os graus mais elevados da luz e da graça do Senhor, tem que ser pedida diariamente em oração.

2.A explicação que o Senhor Jesus Cristo deu da parábola, atendendo ao pedido deles. Jesus está sempre pronto para atender tais pedidos de seus discípulos. O sentido da parábola é representar para nós o estado presente e futuro do Reino dos céus, a igreja cristã. O cuida­ do de Cristo com ela, a inimizade do diabo contra ela, a mistura de futuros eventos bons e maus relacionados a ela. A igreja visível é uma parte do Reino dos céus; apesar de haver alguns hipócritas nela, Cristo a governa como Rei. E há um grupo nela – formado pelos súditos e herdeiros do céu – que a domina, por serem a sua melhor parte. A igreja é o reino dos céus sobre a terra.

Examinemos os detalhes da explicação da parábola.

(1). “O que semeia a boa semente é o Filho do Homem”. Jesus Cristo é o Senhor do campo, o Senhor da colheita, o semeador da boa semente. Quando Ele ascendeu ao céu, deu dons aos homens em todo o mundo; não só aos bons ministros, mas a outros bons homens. Note que toda e qualquer boa semente que houver no mundo veio das mãos de Cristo, veio de sua semeadura: verdades pregadas, graças plantadas, almas santificadas, são boas sementes, e tudo isto pertence a Cristo. Os ministros são instrumentos nas mãos de Cristo para semear a boa semente. Eles são empregados por Ele e estão sob as ordens dele; e o sucesso de seus labores só depende da bênção dele. E assim podemos dizer, com toda razão: É Cristo, e ninguém mais, que semeia a boa semente; Ele é o Filho do Homem, um de nós, para que não nos sintamos amedrontados pela sua grandeza. Ele é o Filho do Homem, o Mediador, e Ele tem toda a autoridade.

(2). “O campo é o mundo”; o mundo da humanidade, um grande campo, capaz de produzir bons frutos; muito se deve lamentar que ele produza tantos frutos ruins. Porém, nesta parábola, entendemos que o mundo é a igreja visível, que está espalhada pelo mundo todo, e que não está confinada a uma só nação. Observe que, na parábola, o mundo é chamado de “seu campo”; o mundo é o campo de Cristo, pois todas as coisas lhe foram entregues por Deus Pai. Qualquer poder e interesse que o diabo tenha no mundo, foi usurpado e obtido de modo injusto. Quando Cristo vier tomar posse, Ele virá para aquilo que é seu por direito. O campo é dele; e, pelo fato de ser dele, Ele teve o cuidado de semeá-lo com a boa semente.

(3). “A boa semente são os filhos do Reino”, os verdadeiros santos. Eles são: [

[1] Os filhos do Reino; não só em profissão de fé, como os judeus o eram (cap. 8.12), mas em sinceridade; judeus por dentro, israelitas de fato, incorporados em fé e obediência a Jesus Cristo, o grande Rei da Igreja.

[2] Eles são a boa semente, preciosos como sem entes (Salmos 126.6). A semente é a essência do campo, e o mesmo ocorre com a semente sagrada (Isaias 6.13). A semente é espalhada, e o mesmo ocorre com os santos. Eles estão dispersos, um está aqui e outro ali, apesar de em alguns lugares estarem semeados mais juntos do que em outros. A semente é aquilo de que se espera fruto; qualquer fruto de honra e serviço que Deus tenha desse mundo, Ele o obtém dos santos. Ele os semeou para si na terra (Oseias 2.23).

(4). “O joio são os filhos do Maligno”. Aqui está o caráter dos pecadores, hipócritas, e também de todos aqueles que são profanos e iníquos.

[1]. Eles são os filhos do diabo, como o maligno. Apesar de não levarem seu nome, eles têm a sua imagem, satisfazem as suas luxúrias, e dele têm a sua educação; o maligno domina sobre eles, e trabalha neles (Efésios 2.2; João 8.44).

[2]. Eles são o joio no campo desse mundo; eles não fazem o bem, mas ferem. São inúteis por si só, e danosos à boa semente, tanto pelas tentações corno pelas perseguições. Eles são ervas daninhas no jardim, embora tenham a mesma chuva, estejam no mesmo solo, e recebam o mesmo brilho do sol que as plantas boas recebem. Eles não servem para nada: o joio está entre o trigo. Deus assim ordenou que o bem e o mal estejam misturados nesse mundo, que o bem seja exercitado, que o mal seja inescusável, e uma diferença seja feita entre a terra e o céu.

(5). “O inimigo que o semeou é o diabo”; um inimigo jurado de Cristo e de tudo que é bom, da glória de Deus e do conforto e da alegria de todos os homens bons. Ele é um inimigo do campo do mundo, mesmo se esforçando para se apossar deste, ao semear nele o seu joio. Desde que Satanás se tornou um espírito mau, ele tem se dedicado a promover a iniquidade, e fez disso a sua ocupação, esforçando-se, assim, para trabalhar contra Cristo.

A respeito da semeadura do joio, observe na parábola:

[1]. Que ele foi semeado enquanto o homem dormia. Os magistrados dormiam, e, pelo seu poder, os ministros dormiam. Mas eram os ministros que, através de sua pregação, deveriam ter evitado esse dano. Satanás está atento a todas as oportunidades, e aproveita tudo o que possa ser vantajoso à propagação dos vícios e da profanação. O prejuízo que o diabo causa às pessoas em particular se dá quando a razão e a consciência estão adormecidas, quando estas virtudes baixam a guarda. Portanto, precisamos estar sóbrios e vigilantes. O joio foi semeado à noite, pois essa é a hora de dormir. Satanás governa nas trevas deste mundo; elas lhe dão a oportunidade de semear o joio (Salmos 104.20). Este triste evento ocorreu enquanto os homens dormiam; e não há remédio, pois os homens precisam ter um tempo para dormir. É impossível impedir que os hipócritas estejam na igreja. Da mesma forma, o lavrador, enquanto dorme, não pode impedir que um inimigo mine ou estrague o seu campo.

[2]. O inimigo se retirou logo após ter semeado o joio (v. 25), para que ninguém soubesse quem o fez. Quando Satanás está causando o maior dano, ele faz o máximo para se ocultar; pois, se ele for visto, os seus planos podem ser frustrados. E assim, quando vem semear o joio, ele se transforma em um anjo de luz (2 Coríntios 11.13,14). O inimigo seguiu o seu caminho, corno se não tivesse causado nenhum dano; este é o procedimento da mulher adúltera (Provérbio 30.20). Observe que esta é a propensão que os homens caídos têm ao pecado; se o inimigo semeia o joio, ele pode até mesmo se retirar, pois o joio brotará por si só, e causará grandes danos. Porém, quando a boa semente é semeada, ela precisa receber vários cuidados; ela precisa ser regada e cercada, caso contrário não frutificará.

[3]. O joio não apareceu até que a folha se formou, e produziu frutos (v. 26). Há muita maldade em segredo nos corações dos homens que está bem escondida, sob o manto de uma profissão de fé plausível, mas que aparece no final. Como a boa semente, também o joio fica bastante tempo sob os torrões, e assim que brota é difícil diferenciá-lo. Mas quando vêm os tempos de adversidade, quando o fruto tem que ser produzido, quando o bem deve ser feito mesmo que haja dificuldade e perigo para fazê-lo, então você poderá discernir entre o sincero e o hipócrita. Então você poderá dizer: Isto é trigo, e aquilo é joio.

[4]. Quando os servos se deram conta, reclamaram ao seu senhor (v. 27): “Senhor; não semeaste boa semente em vosso campo?”. Sem dúvida que ele o fez; seja lá o que houver de errado na igreja, nós temos a certeza de que não foi Cristo quem semeou o mal. Considerando a semente que Cristo semeou, nós bem que podemos perguntar, com surpresa: De onde vem esse joio? Note que o surgimento de erros, o aparecimento de escândalos e o crescimento da profanação são motivos de grande sofrimento para os servos de Cristo, especialmente para os seus ministros fiéis, que devem reclamar disso ao dono do campo. É triste ver tal joio, tais ervas daninhas, no jardim do Senhor; ver o bom solo desperdiçado, a boa semente sufocada, e tal imagem refletida contra o nome e a honra de Cristo, como se o seu campo não fosse melhor do que o do preguiçoso, que está repleto de espinhos.

[5]. O Senhor logo se deu conta de onde isso vinha (v. 28): “Um inimigo é quem fez isso”. Ele não coloca a culpa nos servos; eles não o podem evitar, pois fizeram o que estava ao seu alcance para evitá-lo. Os ministros de Cristo que forem fiéis e diligentes não serão julgados por Cristo, e, por esta razão, não devem ser criticados pelos homens devido à mistura do mal com o bem, dos hipócritas com os sinceros, no campo da igreja. É necessário que essas ofensas venham, e elas não serão postas contra nós, se cumprirmos o nosso dever, mesmo que não tenhamos o sucesso desejado. Apesar de dormirmos, não amamos o sono; apesar do joio ser semeado, não fomos nós que o semeamos nem o regamos, nem os aceitamos. Assim, a culpa não será posta à nossa porta.

[6]. Os servos foram muito solícitos em arrancar o joio pela raiz. “Queres, pois, que vamos arrancá-lo?” Note o zelo precipitado e a falta de ponderação dos servos de Cristo. Eles se mostraram prontos a agir; mesmo antes de terem consultado o Mestre. Eles se dispuseram a arrancar pela raiz tudo o que presumissem que era joio; esta ação representaria um perigo iminente para a igreja. Em outra situação, chegaram a dizer: “Senhor, queres que peçamos fogo do céu?”

[7]. O Senhor com muita sabedoria, impediu isso (v. 29). “Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.” Não é possível a nenhum homem distinguir infalivelmente entre joio e trigo, pois ele pode se confundir; e assim aqui está a sabedoria e a graça de Cristo. Ele permitirá que o joio cresça, para que não coloque, de maneira alguma, o trigo em perigo. Certamente os ofensores escandalosos devem ser censurados, e devemos nos separar deles; aqueles que são, abertamente, filhos do maligno, não devem ter o acesso permitido às ordenanças especiais. Mas ainda assim é possível haver uma disciplina que seja tão equivocada em suas regras, ou tão condescendente em sua aplicação, a ponto de ser perturbadora para muitos que são, verdadeiramente, servos de Deus e conscienciosos. Grande cautela e moderação devem ser usadas pela igreja ao infligir e manter censuras, para que o trigo não seja pisado, nem arrancado. A sabedoria do alto é tão pura quanto pacífica, e aqueles que se opõe não devem ser desligados, mas instruídos, e isto deve ser feito com mansidão (2 Timóteo 2.25). Alguns entendem que se o joio continuar sob os meios da graça, ele pode se tornar um bom grão; portanto, tenha paciência com ele.

(6). “A ceifa é o fim do mundo” (v. 39). Este mundo terá um fim; apesar de continuar por muito tempo, ele não continuará para sempre; o tempo será, em breve, engolido pela eternidade. No fim do mundo haverá uma grande colheita, um dia de julgamento; na colheita, tudo está maduro e pronto para ser cortado: tanto o bem como o mal estarão prontos naquele grande dia (Apocalipse 6.11). Esta é a colheita da terra (Apocalipse 14.15). Na colheita, os segadores cortam tudo que estiver à sua frente; nem um campo, nem uma esquina é deixada para trás; assim, no grande dia, tudo deve ser julgado (Apocalipse 20.12,13). Deus preparou a colheita (Oseias 6.11), e ela não falhará (Genesis 8.22). Na colheita, todo homem colherá aquilo que plantou; o solo, a semente, a habilidade, e a dedicação de cada homem será manifestada (veja Gálatas 6.7 ,8). Então, aquele que semeou uma boa semente virá com alegria (Salmos 126.5,6), com a felicidade da colheita (Isaias 9.3). Nessa ocasião, os preguiçosos, que não araram devido ao frio, implorarão, e não terão nada (Provérbio 20.4). Eles clamarão: “Senhor, Senhor”, mas este clamor será em vão. Nessa ocasião, a colheita daqueles que semearam para a carne será um dia de pesar, de desespero e tristeza (Isaias 17.11).

(7). “Os ceifeiros são os anjos”: eles serão empregados, no grande dia, na execução da sentença correta de Cristo, tanto de aprovação como de condenação, como ministros da sua justiça (cap. 25.31). Os anjos são habilidosos, fortes e ágeis. São servos obedientes a Cristo, inimigos sagrados do maligno, e amigos fiéis dos santos; por isso, estão aptos a serem assim empregados. Aquele que colhe recebe um pagamento, e os anjos não serão deixados sem um pagamento pelo seu trabalho, pois aquele que semeou, e aquele que colheu, se alegrarão juntos (João 4.36); haverá alegria no céu, na presença dos anjos de Deus.

(8). O tormento infernal é o fogo, dentro do qual o joio será então lançado, e no qual será queimado. No grande dia, uma distinção será feita, e com ela haverá uma grande diferença; este será, de fato, um dia notável.

[1] O joio será então reunido e lançado fora. Os ceifeiros (cujo trabalho fundamental é juntar o grão) serão primeiro encarregados de juntar o joio e colocá-lo para fora. Note que apesar do bem e do mal estarem juntos nesse mundo, sem distinção, no grande dia eles serão separados. Nenhum joio estará então entre o trigo; nenhum pecador, entre os santos; então será possível discernir facilmente entre o justo e o ímpio, o que aqui é, às vezes, difícil de fazer (Malaquias 3.18; 4.1). Cristo não os tolerará para sempre (Salmos 1. 1 ss.). Eles juntarão e colocarão para fora do Reino todas as coisas perversas que ofendem, e todas as pessoas ímpias que cometem iniquidades. O Senhor iniciará este processo, e irá até o final. Toda doutrina, adoração e prática corrupta que ofenderam, que foram escândalos para a igreja, e pedras de tropeço para a consciência dos homens, serão condenadas pelo justo Juiz naquele dia, e consumidas pelo brilho da sua vinda. Toda a madeira, feno, e palha serão consumidos (1 Coríntios 3.12). E então ai daqueles que cometem iniquidades, e fazem disso um negócio, e persistem nisso; não só aqueles que viveram na última era do reino de Cristo na terra, mas também aqueles que viveram em todas os períodos. Talvez haja aqui uma alusão a Sofonias 1.3: “Consumirei… os tropeços com os ímpios”.

[2]. Eles serão então atados em fardos (v. 30). Peca­ dores do mesmo tipo serão atados juntos no grande dia: um monte de ateístas, um monte de hedonistas, um monte de perseguidores, e um grande monte de hipócritas. Aqueles que estiveram juntos no pecado, assim estarão na vergonha e na dor; e isso será um agravo de sua miséria. Mas o grupo dos santos glorificados terá a sua bênção aumentada. Oremos como Davi: “Não colhas a minha alma com a dos pecadores, nem a minha vida com a dos homens sanguinolentos” (Salmos 26.9), mas ajunte-a no feixe dos que vivem com o Senhor (1 Samuel 25.29).

[3]. Eles serão lançados em uma fornalha de fogo; tal será o fim dos perversos e nocivos, que são, na igreja, como joio em meio ao trigo; eles não servem para nada, a não ser para o fogo. E para lá irão, pois é o melhor lugar para eles. O inferno é uma fornalha de fogo, acesa pela ira de Deus, e mantida pelos montes de joio que são lançados dentro dela, e que estarão sendo eternamente consumidos. Mas o Senhor passa da metáfora para uma descrição dos tormentos que são concebidos para serem causados por ela. Haverá pranto e ranger de dentes; um sofrimento inconsolável e uma indignação incurável em relação a Deus, a si mesmos, e de uns para com os outros. Esta será a tortura infindável das almas condenadas. Conhecendo, assim, esses terrores do Senhor, sejamos persuadidos a não cometer nenhuma iniquidade.

(9). O céu é o celeiro no qual todo o trigo de Deus será reunido no grande dia da colheita. “Mas o trigo, ajuntai-o no meu celeiro”, diz a parábola (v. 30). Considere que:

[1]. No campo deste mundo, as pessoas boas são o trigo, o grão mais precioso, e a parte valiosa do campo.

[2]. Esse trigo será juntado em breve, juntado do meio do joio e das ervas daninhas: todos serão juntados em uma assembleia geral, todos os santos do Antigo Testamento, todos os santos do Novo Testamento, nenhum deles faltará. Reunirá os seus santos junto a si (Salmos 50.5).

[3] Todo o trigo de Deus será armazenado junto no celeiro de Deus. Alguns entendem que as almas são guardadas, na morte, como uma pilha de grãos (Jó 5.26), mas a reunião geral ocorrerá no fim dos tempos. O trigo de Deus então será reunido, e não estará mais espalhado. Haverá feixes de grãos, como também montes de joio. Os grãos de trigo serão, então, colocados a salvo, e não serão mais expostos ao vento e ao tempo, ao pecado e à dor; não serão mais separados, e embora estejam distantes no campo, estarão próximos no celeiro. O céu é um celeiro de grãos (cap. 3.12), no qual o trigo será não só separado do joio das más companhias, mas separado da palha de suas próprias corrupções.

Na explicação da parábola, isso é gloriosamente representado (v. 43): “Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai”. Em primeiro lugar, eles têm uma grande honra no presente: Deus é Pai deles. Agora somos os filhos de Deus (1 João 3.2); o nosso Pai celestial é o Rei ali. Quando Cristo foi para o céu, Ele foi para o seu Pai, e nosso Pai (João 20.17). O céu é a casa de nosso Pai, e não somente isto, mas é o palácio de nosso Pai; é o seu trono (Apocalipse 3.21). Em segundo lugar, a honra que ali está reservada para eles é que brilharão como o sol naquele reino. Aqui eles estão obscuros e escondidos (Colossenses 3.3), o seu brilho é eclipsado pela sua pobreza, e pela pequenez de sua condição exterior; as suas próprias fraquezas e enfermidades, assim como a reprovação e a desgraça que são lançadas contra eles, os ocultam. Mas então eles brilharão como o sol por detrás de uma nuvem escura; na m01te, eles brilharão para si mesmos; porém no grande dia, eles brilharão publicamente perante todo o mundo, e os seus corpos serão semelhantes ao corpo glorioso de Cristo. Eles brilharão por reflexo, com uma luz emprestada da Fonte da luz. A sua santificação será aperfeiçoada, e a sua justificação se tornará pública. Eles pertencerão a Deus como seus filhos, e Ele mesmo produzirá o registro de todos os serviços e sofrimentos que enfrentaram por amor ao seu glorioso nome. Eles brilharão como o sol, a mais gloriosa de todas as coisas visíveis. A glória dos santos é, no Antigo Testamento, comparada com o firmamento e com as estrelas, mas aqui ela é comparada com o sol; pois a vida e a imortalidade são trazidas a uma luz muito mais clara pelo Evangelho, do que pela lei de Moisés. Aqueles que brilham como luzes nesse mundo, para que Deus possa ser glorificado, brilharão como o sol no outro mundo, para que possam ser glorificados. O nosso Salvador conclui, como antes, mandando que prestemos atenção; aqueles que têm ouvidos para ouvir, ouçam. A nossa felicidade está em ouvirmos essas palavras tão preciosas. A nossa obrigação é darmos ouvidos a elas.

GESTÃO E CARREIRA

TER UMA VIDA AOS 30 X COMEÇAR UMA VIDA AOS 30.

Ter uma vida aos 30

Quando se ouve falar que os 30 são os novos 20, a conclusão a que se chega é que a faixa dos 20 anos não tem grande importância. Chamada até mesmo de adolescência estendida, essa fase não vem tendo a devida atenção, e os jovens acabam se perdendo em um turbilhão de desinformação que banaliza aquele que realmente é o período mais transformador da vida adulta.

Pesquisas mostram que 80% dos fatos substanciais e com consequências duradouras que levam ao sucesso na carreira, a uma boa situação financeira e à felicidade pessoal acontecem até os 35 anos: depois os adultos são levados a continuar (ou, se passivei, corrigir) as ações iniciadas na faixa dos 20 anos. Trata-se de um período especial demais p:ira não ser levado a sério.

Recentemente recebi um e-mail de uma senhora me perguntando se eu poderia orientar seu filho em relação à carreira, pois ele estava com muitas dúvidas. Orientei essa mãe para que seu filho me escrevesse diretamente e aproveitei para perguntar a idade dele, pois imaginei que se tratava das dúvidas recorrentes na escolha sobre qual faculdade ingressar aos 17 anos. Para o meu espanto, essa senhora me respondeu que a orientação profissional seria para o seu filho de 33 anos que nunca tinha trabalhado!

Meu espanto se deu não pelo fato da dúvida sobre carreira, pois isso é perfeitamente normal e recorrente para todos profissionais em qualquer idade, mas fiquei me questionando sobre as razões dessa mãe tomar a iniciativa no lugar do filho. O maior prejudicado com esse excesso de cuidado da mãe com absoluta certeza será esse filho de 33 anos.

Quando temos 20 anos, a impressão é de que existem décadas à frente para ganharmos cada vez mais, mas, os últimos dados do censo americano (infelizmente não encontrei dados do censo no Brasil) mostram que, em média, os salários chegam ao pico – e se estabilizam – aos 40 anos.

O que sugiro é para que todo jovem a partir dos 20 anos comece imediatamente sua experiência profissional, independentemente das dúvidas sobre qual carreira seguir. A dúvida não pode ser um impedimento de começar a desenvolver competências comporta mentais no trabalho.

Claro que deve cuidar paralelamente de sua qualificação acadêmica. Desenvolvimento acadêmico e experiência profissional sempre devem caminhar juntos.

Recomendo a todos um livro da Dra. Meg Jay chamado “A idade decisiva”, que aborda questões cruciais para essa faixa etária e compartilha relatos cativantes dos próprios jovens. #ficadica

DANIELA DO LAGO – é especialista em comportamento no trabalho, mestre em administração, coach de carreira, palestrante e professora na área de liderança e gestão de pessoas.  www.danieladolago.com.br

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ATRAVÉS DE UM VIDRO SOMBRIO

Embora estejamos acostumados a olhar para nossa imagem em espelhos todos os dias, a maioria de nós não entende como eles funcionam – o que pode resultar em curiosos enganos reflexivos.

Através de um vidro sombrio

Passamos o dia rodeados por espelhos, seja quando dirigimos, andamos pelos corredores dos shoppings, escovamos os dentes ou ajeitamos os cabelos antes de sair de casa. No entanto, apesar de sua onipresença, esses objetos permanecem misteriosos. Nos contos populares e na ficção, eles podem nos levar para reinos mágicos, espirituais ou sobrenaturais: são capazes também de libertar vampiros sem alma ou invocar o lendário assassino conhecido como Candyman. E o espelho de Ojesed, que alcançou fama com Harry Potter, tem o notável poder de revelar o desejo mais profundo de seu espectador.

Talvez nosso fascínio venha do fato de que esses objetos quebram as expectativas. Não só costumamos achar incômoda a inversão entre direita e esquerda dos espelhos, como muitas das nossas intuições, duramente conquistadas sobre o funcionamento dessas superfícies reflexivas, estão erradas. O psicólogo Marco Bertamini e seus colegas da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, identificaram três falsas crenças que, em geral, temos sobre esses objetos: primeiro, tendemos a acreditar que nos veremos no espelho assim que chegarmos à sua frente. Em outras palavras, superestimamos o que é visível em sua superfície.

Essa falha de cálculo é chamada de “erro inicial”. Segundo, a maioria de nós acredita que nosso reflexo no espelho (o contorno que podemos traçar com uma caneta em sua superfície) tem a mesma dimensão que nosso corpo. De fato, a projeção, como a vemos, é metade do nosso tamanho. Terceiro, é comum que imaginemos que nosso reflexo encolherá com a distância e que, se nos afastarmos o suficiente, poderemos ver nosso corpo inteiro em um espelho pequeno. Mas, na realidade, a distância não afeta a dimensão da projeção. Além disso, algumas pesquisas indicam que, de alguma forma, vemos as coisas nessa superfície menos reais. As ilusões que apresentamos aqui aproveitam o pouco que entendemos desse misterioso objeto.

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O MAIS HONESTO DE TODOS?

Bertamini e seus colegas Richard Latto e Alice Spooner, ambos então da Universidade de Liverpool, cunharam o termo “efeito Vênus” para descrever um fenômeno curioso que é exemplificado por representações artísticas da deusa romana do amor, a partir de famosos retratos do Renascimento. Em algumas pinturas, Vênus aparece com um pequeno espelho (que ela mesma, ou alguém próximo, segura) que reflete seu rosto.

Quando uma pessoa nos pede que descrevamos pinturas como Vênus ao espelho (ou Rokeby Venus), de Diego Velázquez, a maioria de nós diz que a deusa está olhando sua imagem refletida. O problema, no entanto, é que o espelho não está na linha de visão de Vênus – e, de acordo com as leis da óptica, se podemos ver seu rosto nessa superfície refletora, então a deusa também nos observa em vez de admirar sua própria imagem. Esse tipo de ilusão não se limita a pinturas: ocorre também nas fotografias e na vida real, fato do qual muitas produções de televisão e filmes se aproveitam.

Um dos motivos do efeito Vênus é que não temos muita habilidade para estimar a visão do ponto de vista dos outros. Os pesquisadores ainda não sabem se os antigos mestres incluíam esse recurso em seus trabalhos sem querer ou se era resultado de escolhas artísticas conscientes. Talvez nunca saibamos, mas parece provável que Velázquez – o criador do intrincado jogo de espelhos da pintura de As meninas – conhecesse bem essas superfícies refletoras e também nossa incapacidade de compreendê-las com clareza.

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DOIS PONTOS DE VISTA

O interesse de Kokichi Sugihara em ilusões surgiu do que a princípio parecia um problema num software. O engenheiro matemático da Universidade Meiji, no Japão, desenvolveu um programa de computador para ler planos de construção e outros desenhos de linha de objetos tridimensionais. Para testá-lo, ele alimentou as imagens do software com objetos impossíveis, como A escada de Penrose, de M. C. Escher, que parece subir e descer ao mesmo tempo. Para sua surpresa, o programa nem sempre enviava mensagem de erro, mas interpretava muitas dessas figuras como 3D sólidos que só pareciam irreais se visualizados de um ponto de vista específico. De- pois de ficar convencido de que a leitura do software estava correta, ele começou a construir “sólidos impossíveis”, inicialmente com papelão e, mais recentemente, com uma impressora 3D. No processo, Sugihara também produziu outras coisas improváveis. Suas ilusões mais recentes dependem de espelhos e simbolizam o axioma de que nem tudo é o que parece. (Para mais detalhes e modelos para fazer alguns desses objetos, visite o site de Sugihara em http://home.mims.meiji.ac. jp/~sugihara/Welcomee.html).

Na ilusão abaixo, um carro de brinquedo amarelo dentro de uma pequena garagem fica na frente de um espelho vertical, mas, no reflexo, a forma do telhado parece estar errada. O truque de Sugihara requer dois pontos de vista específicos e simultâneos – ver o automóvel diretamente e através do espelho. No entanto, a forma real do telhado não combina com a aparência de qualquer uma dessas perspectivas. Você pode construir seu próprio modelo de papel do telhado da garagem ambígua de Sugihara. Para isso, basta seguir o passo a passo pelos links da página inicial de seu site.

A mais nova ilusão de Sugihara mostra um espelho que não reflete metade de um objeto sólido colocado à sua frente. Mas não precisa lançar mão do colar de alho nem da água benta: é uma questão de perspectiva, mais uma vez. A parte inferior (não refletida) da imagem é um desenho 2D que fica nivelado no chão e parece ganhar volume apenas de um ponto de vista específico. Para fazer o seu próprio hexágono pela metade, acesse o link com o nome “Quarta geração: objetos parcialmente invisíveis” no site de Sugihara. Para ter melhor efeito, incline o espelho ligeiramente para baixo.

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UM PAR DE LUMINÁRIAS?

O psicólogo F. Richard Ferraro, da Universidade da Dakota do Norte, e sua esposa, Jacqueline Lee Foster Ferraro, estavam reorganizando a cozinha quando descobriram uma ilusão intrigante. Olhe para a imagem abaixo. Você vê duas luminárias ou uma e seu reflexo no espelho? Richard Ferraro sabia que eram duas porque tinha acabado de mover uma delas da sala de estar para a cozinha. Mas, enquanto estava sentado no sofá, ele não conseguia se livrar da sensação de que observava um único abajur refletido numa superfície (na realidade, uma passagem para a cozinha). O casal se juntou com a estudante Cassidy Brougham, da Universidade da Dakota do Norte, e mostrou essa mesma imagem a 100 estudantes do campus. A equipe revela que 72 pessoas viram uma luminária enquanto 28 enxergaram duas. A preferência do nosso sistema visual pelas explicações perceptuais mais fáceis para o que vemos ao redor, o chamado princípio da simplicidade, pode explicar essa inclinação.

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SUSANA MARTINEZ-CONDE e STEPHEN L. MACKNIK são professores de oftalmologia do Centro Médico SUNY Downstate, em Nova York. São coautores do livro Truques da mente (Zahar, 2011).

 

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 13: 1-23 – PARTE 2

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As Parábolas de Jesus – Parte 2

II – Nesses versículos, temos uma das parábolas que o nosso Salvador apresentou: a do semeador e da semente. Temos tanto a parábola em si, como também a sua explicação. As parábolas de Jesus eram tiradas de coisas comuns, habituais, não de alguma noção ou especulação filosófica, ou de fenômenos incomuns da natureza, apesar de serem suficientemente aplicáveis ao ponto em questão. Porém, as suas parábolas estavam fundamentadas nas coisas mais óbvias, aquelas que podemos observar todos os dias, e que estão até mesmo ao alcance daqueles que possuem a menor capacidade de entendimento. Muitas delas foram tiradas do ofício do agricultor, como a do semeador e do joio. Cristo escolheu fazer assim:

1.Para que as coisas espirituais estivessem mais claras, e, por similitudes mais familiares, fossem ainda mais fáceis de alcançar o nosso entendimento.

2.Para que as coisas mais comuns pudessem ser aplicadas à vida espiritual, e nós pudéssemos prestar atenção às coisas que tão frequentemente passam pela nossa vista. Para que meditássemos com prazer nas coisas de Deus, e assim, quando as nossas mãos estiverem mais ocupadas com o mundo, nós possamos – não só apesar disso, mas até mesmo com a ajuda disso – ter os nossos corações dirigidos ao céu. Assim, a Palavra de Deus falará conosco de modo familiar (Provérbio 6.22).

A parábola do semeador é suficientemente explicada (vv. 3-9). A sua explicação é feita pelo próprio Senhor Jesus Cristo, que sabia melhor do que todos o que era que Ele próprio queria dizer. Quando os discípulos perguntaram: “Por que lhes falas por parábolas?” (v. 10), eles sugeriram um desejo de que a parábola fosse explicada por causa das pessoas; porém, não era um descrédito ao conhecimento deles o desejo de que o Senhor Jesus explicasse a parábola para eles mesmos. O nosso Senhor Jesus graciosamente aceitou aquele pedido, e explicou o significado, e fez com que eles compreendessem a parábola. Ele dirigiu o seu discurso aos discípulos, mas a multidão continuava ouvindo, pois não nos é relatado que Ele a tenha dispensado, até o versículo 36. “‘Escutai vós, pois, a parábola do semeador, (v.18); vós a ouvistes, mas vamos revê-la”. Note que é de bom uso, e contribui muito para o nosso benefício e para a compreensão da Palavra, ouvir novamente aquilo que já ouvimos (Filipenses 3.1). “Vocês a ouviram, mas ouçam a sua interpretação”. Note que somos abençoados apenas quando ouvimos a Palavra corretamente, e com bons propósitos, e quando compreendemos o que ouvimos. Pode-se considerar que uma pessoa não estará ouvindo, se não estiver ouvindo com entendimento (Neemias 8.2). É, de fato, a graça de Deus que dá o entendimento; mas o nosso dever é prestar toda a atenção, dirigindo o nosso pensamento ao entendimento.

Vamos, portanto, comparar a parábola com a exposição.

(1). A semente semeada é a Palavra de Deus, aqui chamada de a palavra do reino (v. 19): o reino dos céus é o reino; os reinos do mundo, comparados a ele, não podem sequer ser chamados de reinos. O Evangelho vem do reino, e conduz a esse reino; a palavra do Evangelho é a palavra do reino; é a palavra do Rei, e onde ela estiver, ali estará o poder; ela é uma lei, pela qual nós devemos ser regidos e governados. Essa palavra é a semente semeada, o que para alguns parece uma coisa morta e seca, mas ela tem, de fato, uma riqueza dentro de si. Ê uma semente incorruptível (1 Pedro 1.23); é o Evangelho que produz frutos nas almas (Colossenses 1.5,6).

(2). O semeador que lança a semente é o nosso Senhor Jesus Cristo, e Ele mesmo o faz, ou o faz através de seus ministros (veja v. 37). As pessoas são a lavoura de Deus, o seu cultivo, este é o significado da palavra; e os ministros são cooperadores de Deus (1 Coríntios 3.9). Pregar a uma multidão é semear o grão; não sabemos onde a semente cairá, apenas cuidamos para que a semeadura seja boa, que seja limpa, e nos certificamos de que haja semente suficiente. Semear a preciosa Palavra é semear um povo no campo de Deus, o grão da sua eira (Isaias 21.10).

(3). O solo no qual essa semente é semeada são os corações dos filhos dos homens, que são de disposições e qualidades diferentes; da mesma maneira, o sucesso da palavra é diferente em cada um deles. Note que o coração do homem é como o solo, capaz de melhorar, de produzir bons frutos. É uma pena que muitos corações estejam como um solo não semeado, ou seja, como o campo do preguiçoso (Provérbio 24.30). A alma é o lugar apropriado para a Palavra de Deus residir, e trabalhar, e governar; a sua operação se dá na consciência. É o mesmo que acender ali a luz do Senhor. Agora, de acordo com o que somos, assim é a palavra para nós: A recepção depende do receptor. O mesmo ocorre com a terra; alguns tipos de solo dão muito trabalho, e por mais sementes que lancemos neles, não produzem frutos que sirvam para algum propósito. Porém, o solo bom produz abundantemente. O mesmo ocorre com os corações dos homens, cujos diferentes caracteres es­ tão aqui representados pelos quatro tipos de solo, dos quais três são ruins, e apenas um é bom. Note que muitos ouvintes não darão frutos, mesmo em se tratando daqueles que ouviram o próprio Cristo. Quem creu em nossa pregação? Quem deu crédito ao nosso relato? Essa parábola nos traz uma perspectiva melancólica sobre aqueles que ouvem o Evangelho ser pregado; ela sugere que um entre quatro produz frutos perfeitos. Muitos são chamados com um chamado comum, mas em poucos a escolha eterna está evidenciada pela eficácia desse chamado (cap. 20.16).

Observe agora os tipos de pessoas representadas por esses quatro tipos de solo.

[1] O solo ao pé do caminho (vv. 4-10). Havia trilhas através de seus campos (cap. 12.1), e a semente que nelas caiu nunca penetrou o solo, e assim os pássaros as pegaram. O lugar onde os ouvintes de Cristo estavam representava o caráter da maioria deles; para a semente, a areia na beira da praia era como o solo do caminho.

Observe, em primeiro lugar, que tipo de ouvintes é comparado com o solo do caminho; os que ouvem a Palavra e não a compreendem. Eles são os únicos culpados por esta situação. Eles não a levam em consideração, não a retém; eles não se comportam como se desejas­ sem receber o bem. São como a estrada; nunca houve a intenção de semeá-la. Eles vêm à presença de Deus como os seus filhos vêm, e se sentam diante dele como os seus filhos se sentam, mas o fazem simplesmente por costume, ou ainda para verem e serem vistos. Eles não se importam com o que é dito; as palavras entram por um ouvido e saem pelo outro, e não deixa neles nenhuma impressão duradoura.

Em segundo lugar, como eles chegam a ser ouvintes ineficazes. O iníquo, ou seja, o diabo, veio e levou aquilo que foi semeado. Esses ouvintes mecânicos, descuida­ dos e levianos, são uma presa fácil para Satanás; como ele é o grande assassino, também é o grande ladrão de sermões, e certamente nos roubará a Palavra se não ti­ vermos o cuidado de guardá-la. Esta situação é como a dos pássaros que pegam as sementes que caem no solo que não foi inicialmente arado, nem tratado depois de semeado. Precisamos revolver a terra do solo que não está cultivado, preparando os nossos corações para a Palavra, humilhando-nos a ela, dando-lhe toda a nossa atenção. Mas seremos como o solo da estrada se não tomarmos alguns cuidados: devemos cobrir a semente depois que a recebemos, através da meditação na Palavra de Deus e das nossas orações. Também precisamos dar atenção, com dedicação, às coisas que ouvimos. O diabo é um inimigo jurado, que luta para não recebermos os benefícios que nos são trazidos pela Palavra de Deus. E ninguém é mais amigo de suas intenções malignas do que os ouvintes descuidados, que estão pensando em alguma outra coisa, quando deveriam estar pensando nas coisas que pertencem à sua paz.

[2] O solo rochoso. Algumas caíram em locais pedregosos (vv. 5,6), que representam os ouvintes que vão além dos anteriores, que recebem algumas boas impressões da palavra, mas estas não permanecem (vv. 20,21). Note que é possível sermos melhores do que alguns outros, porém ainda não somos tão bons quanto deveríamos ser. Podemos ir além dos nossos vizinhos, e ainda não alcançar o céu. Observe, a respeito dos ouvintes que são representados pelo solo pedregoso: Em primeiro lugar, quão longe eles foram.

1.Eles ouviram a Palavra; eles não dão as costas a ela, nem se comportam como se fossem surdos para ela. O fato de alguém ouvir a Palavra, ainda que muito frequentemente, ainda que com seriedade, não levará a pessoa ao céu; é necessário crer na Palavra e confiar nela.

2.Eles ouvem bem, são rápidos para ouvir, e logo recebem a Palavra, estão prontos para recebê-la, e assim ela brota rapidamente (v. 5). Logo aparece sobre a terra aquilo que foi semeado em solo bom. Os hipócritas frequentemente têm um início na fé cristã que é semelhante ao dos verdadeiros cristãos, em termos de profissão de fé, mostrando-se até mesmo empolgados. Eles a recebem imediatamente, sem prová-la; “engolem-na” sem mastigar, e por esta razão não pode haver uma boa digestão. Aqueles que provam todas as coisas têm mais facilidade para se apegar àquilo que é bom (1 Tessalonicenses 5.21l. 3. Eles a recebem com alegria. Observe que existem muitos que ficam felizes por ouvir um bom sermão, mas que, contudo, não tiram proveito dele; eles podem gostar da Palavra, e ainda não serem transformados ou governados por ela. O coração pode se derreter sob a Palavra, mas ainda assim não ser derretido pela Palavra, muito menos derreter-se sobre a palavra, como em um molde. Muitos provam a boa palavra de Deus (Hebreus 6.5), e dizem encontrar doçura nela; mas alguma luxúria que lhes é querida (com a qual a Palavra não combina) se esconde por baixo da língua, e assim eles a cospem para fora.

3.Eles a suportam por um tempo, como um movimento violento, que continua enquanto a impressão da força permanece, mas logo ela se esgota. Muitos perseveram por um tempo, porém não perseveram até o final, e assim não alcançam a felicidade que é prometida àqueles que perseveram (cap. 10.22); eles corriam bem, mas algo os deteve (Gálatas 5.7).

Em segundo lugar, eles se retiraram, de modo que nenhum fruto chegou à perfeição. A vida deles se assemelhou ao grão, que, não tendo profundidade na terra para dela retirar a umidade, seca e murcha sob o calor do sol. E a razão para isto é:

1.Eles não têm raízes em si mesmos, nenhum princípio fixo e determinado em seus julgamentos, nenhuma resolução firme em seus desejos, e nenhum hábito enraizado em suas afeições. Não possuem nada firme que seja a seiva da força de sua profissão de fé. Observe:

(1) É possível que haja a folha verde de uma profissão de fé, mas sem que haja a raiz da graça; a dureza prevalece no coração, e o que há de solo e maciez está apenas na superfície; por dentro, eles não foram mais afetados do que uma pedra o seria. Eles não têm raiz; não são, pela fé, unidos a Cristo, que é a nossa Raiz; eles não provêm dele, e não dependem dele.

(2) Onde não houver um princípio, mesmo que haja uma profissão de fé, não podemos esperar que haja perseverança. Aqueles que não tiverem raízes não suportarão por muito tempo. Um navio sem lastro, apesar de a princípio navegar melhor que um navio carregado, certamente fracassará no teste das intempéries, e jamais chegará ao seu porto.

1.Os tempos de adversidade sempre chegam, e então aqueles que foram semeados entre as pedras não são bem-sucedidos. Quando a tribulação e a perseguição começam por causa do mundo, eles se sentem ofendidos.

Essa é uma pedra de tropeço no caminho que eles não conseguem transpor, e assim o abandonam. É nisto que resulta a profissão de fé dessas pessoas. Observe:

(1) Depois de um considerável vento de oportunidade, geralmente se segue uma tempestade de perseguições, para testar aqueles que receberam a Palavra com sinceridade, e aqueles que não agiram desse modo. O teste ocorre quando a Palavra do Reino de Cristo se torna a Palavra da paciência de Cristo (Apocalipse 3.10). Nesse teste, se verifica quem guarda a Palavra do Senhor, e quem não a guarda (Apocalipse 1.9). A verdadeira sabedoria consiste em nos prepararmos para esse dia.

(2) Quando chegam os tempos de adversidade, aqueles que não têm raízes se ofendem rapidamente. Eles primeiramente discutem com a sua profissão de fé, e então a abandonam; primeiro encontram algo de errado nela, e depois lançam-na fora. E, dessa forma, lemos a respeito da ofensa da cruz (Gálatas 5.11). Observe que a perseguição é representada, na parábola, pelo sol abrasador (v.6). Este é o mesmo sol que aquece e alegra aquilo que está bem enraizado, mas que queima e faz murchar aquilo que não tem a raiz de que precisava. Assim como a Palavra de Cristo, a cruz de Cristo também é, para alguns, o sabor da vida para a vida, e para outros é o sabor da morte para a morte. Desse modo, a mesma tribulação que leva alguns à apostasia e à ruína, funciona para outros como um peso de glória muito maior e eterno. As provas que agitam alguns, confirmam outros (Filipenses 1.12). Observe como, no final, eles logo se vão; como apodrecem tão rapidamente quanto amadureceram. Uma profissão de fé assumida sem a devida consideração também é geralmente abandonada sem a devida consideração: “Ela vem de forma leviana, e se vai de forma leviana”.

[3] O solo espinhoso. Algumas caíram entre espinhos (que são um bom guarda para a semente, quando está junto a uma cerca, mas uma má companhia, quando está no campo); e os espinhos brotaram, o que sugere que eles não apareceram, nem apenas se destacaram quando a semente foi semeada. Mais tarde, estes espinhos se mostraram prejudiciais à semente (v. 7). Essa semente vai mais longe que a anterior, pois ela tem raiz. Ela representa a condição daqueles que não chegam a rejeitar a sua profissão de fé, mas que não chegam a obter dela nenhum benefício de salvação. O bem que eles recebem através da Palavra é insensivelmente recoberto e sobreposto pelas coisas do mundo. A prosperidade pode destruir os preciosos efeitos da Palavra no coração, assim como a perseguição o faz. E o grande perigo é que ela o faz silenciosamente: as pedras prejudicaram a raiz; os espinhos prejudicam a frutificação.

No entanto, o que são esses espinhos que sufocam a semente?

Em primeiro lugar, as preocupações desse mundo. Preocupar-se com outro mundo apressaria a germinação dessa semente, mas o cuidado com esse mundo a sufoca. As preocupações mundanas são adequadamente comparadas com espinhos, pois elas vêm com o pecado, e são um fruto da maldição. Elas são boas até certo ponto, para preencher uma lacuna, no sentido de precaução; mas o homem que lida muito com elas deve estar bem prevenido (2 Samuel 23.6,7); elas são ardilosas, ofensivas e ferem, e o fim daqueles que se entregam às preocupações é amargo (Hebreus 6.8). Esses espinhos sufocam a boa semente. Note que os cuidados mundanos são grandes empecilhos para que desfrutemos a Palavra de Deus, e para que cresçamos na graça e no conhecimento do Senhor. Eles consomem aquele vigor da alma que deveria ser usado em coisas divinas. Eles nos distraem quanto ao nosso dever, e mais tarde nos causam os maiores problemas. Os espinhos apagam as centelhas das boas afeições, e acabam com a determinação que está contida nas boas decisões. Aqueles que são excessivamente atarefados, e que se mostram cuidadosos em relação a muitas coisas, normalmente negligenciam aquilo que é o mais necessário.

Em segundo lugar, o engano das riquezas. Há alguns que estão correndo o risco de cair em uma grande armadilha; são aqueles que, pela sua dedicação e trabalho, aumentam as suas posses, e assim o perigo que vem dos cuidados deste mundo parece ter acabado. Mas eles continuam dando ouvidos ao mundo, e aí está o grande laço (Jeremias 5.4,5). É difícil para tais pessoas entrarem no Reino dos céus: eles tendem a prometer a si mesmos aquilo que não está neles, mas nas riquezas. E assim passam a confiar nas riquezas, demonstrando uma complacência excessiva por elas; e isso sufoca a Palavra tanto quanto o cuidado o faz. Observe que o problema não é tanto a riqueza, mas sim a falsidade que a riqueza traz; isso sim causa o problema. Mas também não podemos acusar as riquezas de serem falsas conosco, a menos que depositemos nelas a nossa confiança, e aumentemos as expectativas que temos em relação a elas. E aí que elas sufocam a boa semente.

[4] O solo bom (v.18). Outras caíram em solo bom, e é uma pena que nem toda semente encontre um solo bom, pois assim não haveria nenhuma perda. Estes são os bons ouvintes da Palavra (v.23). Note que apesar de haver muitos que recebem a graça de Deus e a sua Palavra em vão, Deus ainda tem um remanescente que a recebe para um bom propósito; pois a Palavra de Deus não retornará vazia (Isaias 55.10,11).

Vemos que aquilo que distingue o solo bom dos demais tipos de solo é, em uma palavra, a frutificação. É por ela que os verdadeiros cristãos se distinguem dos hipócritas, por produzirem os frutos da justiça. ”Assim se­ reis meus discípulos” (João 15.8). O Senhor não diz que esse solo bom não tenha pedras nem espinhos; mas não há nenhum que prevaleça a ponto de prejudicar a frutificação. Os santos, os fiéis seguidores do Senhor nesse mundo, não são perfeitamente livres de pecar; mas, felizmente, são libertos do domínio do pecado.

Os ouvintes que representam o solo bom são:

Em primeiro lugar, ouvintes inteligentes; eles ouvem a Palavra e a entendem, eles entendem não só o seu sentido e significado, mas o seu próprio envolvimento com a Palavra. Eles a entendem como um homem de negócios entende do seu negócio. O Senhor Deus, em sua Palavra, trata com os homens como homens, de uma maneira racional, e Ele ganha a posse da vontade e da afeição abrindo o entendimento dos homens. Porém, o inimigo, Satanás, que é um ladrão e salteador, não vem por essa porta, mas procura chegar por outro caminho.

Em segundo lugar, ouvintes que frutificam, o que é uma evidência de sua boa compreensão: e esta também produz frutos. O fruto é, para cada semente, o seu próprio corpo, um produto substancial no coração e na vida, e que combina com a semente da palavra recebida. Nós, então, damos frutos quando agimos de acordo com a Palavra; quando o temperamento de nossas mentes e o senso de nossas vidas estão de acordo como o Evangelho que recebemos, e nós agimos conforme aquilo que nos é ensinado.

Em terceiro lugar, nem todos frutificam igualmente; alguns produzem 100 vezes, outros 60, e alguns 30. Note que, entre os cristãos, alguns são mais produtivos do que outros. Onde existe a verdadeira graça, também existem os seus graus; alguns alcançam maiores realizações em conhecimento e ações do que outros; nem todos aqueles que se dedicam a estudar a vida e o Evangelho do Senhor Jesus Cristo estão no mesmo nível. Nós devemos almejar o mais elevado dos graus, para produzir a cem por um, como aconteceu com o solo de Isaque (Genesis 26.12), sendo assim abundantes na obra do Senhor (João 15.8). Mas se o solo for bom, e o fruto vier na estação certa, se o coração for honesto, e a vida estiver de acordo com ele, aqueles que produzirem à razão de trinta por um serão graciosamente aceitos por Deus, e estes frutos serão abundantemente contabilizados para eles, pois nós estamos sob a graça, e não sob a lei de Moisés.

Finalmente, Ele conclui a parábola com um solene chamado à atenção (v. 9): “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”. Observe que o sentido da audição não pode ser empregado melhor do que em ouvir a Palavra de Deus. Alguns vivem para ouvir uma doce melodia, seus ouvidos são somente “as filhas da música” (Eclesiastes 12.4, versão inglesa KJV): não há melodia semelhante àquela da Palavra de Deus; outros vivem para ouvir coisas novas (Atos 17.21); não novas como aquelas.

GESTÃO E CARREIRA

FRANQUIAS PARA OPERAR DE CASA: OPORTUNIDADE OU FURADA?

Franquias para operar em casa. oportunidade ou furada

Em todo final de ano, grande parte da população estipula metas para perseguir no período seguinte: emagrecer, trocar de carro, reformar a casa, praticar exercícios e até mudar de emprego. As pessoas obtêm renovada esperança que, sim, este será um ano de realizações. E então surge, em rédeas com a atual situação econômica do País, o desejo de se tornar empreendedor, abrir o próprio negócio. “ser SEU próprio patrão”.

Respeitados todos os cuidados que o segmento merece, já é evidente que o franchising apresenta a melhor opção – mais segura e menos custosa – para quem deseja empreender e não ter que iniciar um negócio do “zero”. Com o desemprego em alta, cada vez mais brasileiros buscam na abertura do próprio negócio sua principal fonte de renda e trabalho. Todos sonham com sua recém-aberta empresa crescendo exponencialmente, ganhando bastante dinheiro do dia para a noite, sendo imediatistas. Não é o intuito minar o sonho de ninguém, mas tenho o dever de alertar: a trilha do empreendedorismo é traiçoeira e fatigante, e não é para qualquer um.

Nos últimos tempos, surgiu uma oportunidade de investimento no franchising voltada, em especial para pequenos investidores: as chamadas franquias home based, nas quais o empresário tem a chance de trabalhar da própria casa. Como franqueado, você terá diversas opções no segmento para escolher aquela com a qual mais se identifica: de franquias de limpeza a consultoria de negócios, de cuidados domésticos a serviços automotivos. E você terá toda a força da marca a seu dispor, e as estratégias de marketing já testadas e de sucesso a seu favor, dentro do conforto da sua própria casa.

Há opções com custo baixíssimo (quando comparadas a pontos comerciais), a partir de R$3 mil de investimento total. Apesar de, aparentemente, parecer um negócio fácil de ser iniciado e desenvolvido (como divulgam a maior parte das franqueadoras), o trabalho home based requer uma série de cuidados antes de ser iniciado.

De qualquer forma, o modelo parece de simples operação, certo? Vamos com calma. Primeiramente, é fundamental conhecer a fundo a marca da qual deseja ser franqueado, bem como seu segmento de atuação. Pode não ser a maioria, mas há redes franqueadoras que só pensam em ganhar – no sentido da palavra, a meu ver, afanar – o dinheiro de investidores com a taxa de franquia. Então, apesar da ânsia em abrir e iniciar logo sua própria operação dentro do franchising, tenha cautela. Entre conversas e pesquisas sobre a marca em questão, dê-se o tempo de, pelo menos, 30 dias antes de assinar o contrato de franquia.

Tão importante quanto a vontade de abrir uma franquia a partir da própria casa é o autoconhecimento. Faça algumas perguntas a si mesmo e responda com franqueza: I) Você consegue trabalhar em um ambiente solitário? II) Sua casa possui espaço que se mantenha organizado, para o ”escritório?”; III) Você possui disciplina, automotivação, foco e organização? Trabalhar em casa não é tarefa fácil, justamente pelas distrações que o conforto do lar pode oferecer.

Sabe aquela história de comprar uma bike e uma esteira para fazer exercícios em casa? E o aspirante a atleta, tão satisfeito com seu desempenho ou (falta de) disciplina, prefere sair de casa, ir à academia, para fazer exatamente a mesma atividade tisica?

O que vejo é que, para as pessoas menos disciplinadas. é necessário um “ritual” diário para sempre se manter motivado. É a mesma questão de pessoas que não possuem bom controle financeiro: elas preferem que o banco abaixe seus limites de crédito para não gastarem dinheiro a se disciplinarem para não obterem dívidas que não possam pagar.

Em suma, para o pleno sucesso de sua franquia – ou negócio, em geral – home based é fundamental possuir organização e resiliência. Não desistir em momentos de dificuldade que, pode acreditar, aparecerão. E sempre lembrar-se de gigantes mundiais, como a Ford, Apple, Hershey’s, Microsoft, Mary Kay, entre tantas outras, que iniciaram as empresas da própria casa. Confie no SEU sonho, tenha disciplina e trabalhe duro, que eu garanto: você chegará onde quiser.

 

ALLAN COMPLOIER – é engenheiro mecânico, já foi franqueado e franqueador, e atua como consultor especialista em formatação e expansão de franquias, diretor da Comploier Franchise.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

EU E O UNIVERSO

A interação entre os ambientes externo e interno, mediada por processos sensoriais, cognitivos e afetivos, lhes permite entrar em contato com o que os cerca e apreender informações    fundamentais.Eu e o universo

A consciência ainda é um enigma. Nem mesmo sofisticadas técnicas de imageamento cerebral puderam desvendar seu substrato orgânico.

Embora nas últimas décadas a neurociência tenha novas revelações sobre alguns dos mecanismos essenciais do funcionamento do cérebro humano – da memória à percepção, da linguagem às emoções –, pouco esclarece sobre o fenômeno da consciência. O modo como determinados processos físico-químicos podem dar origem, no âmbito dos neurônios, a experiências como alegria, dor, dúvida, fé, desejo e felicidade permanece um mistério.

Para não incorrermos em aporias, poderíamos definir a consciência como a síntese espaço temporal da experiência subjetiva. Em suma, a condição essencial dos processos psíquicos. Essa definição, no entanto, não é válida para todas as culturas. De acordo com o psiquiatra e pesquisador italiano Bruno Callieri, nas línguas africanas, por exemplo, não há um termo que se aproxime do conceito ocidental de “consciência”; nas culturas indianas, esse termo indica uma minúscula qualidade individual diante do Onisciente; na civilização islâmica, indica o conhecimento do que é íntimo, inapropriável, inacessível. Os significados do termo são, portanto, diferentes e inúmeros. Com o trabalho de gerações de pesquisadores, há mais de um século, a psicologia científica tenta solucionar essa matéria fascinante e controversa. Entre a segunda metade do século 19 e os primeiros anos do século 20, as pesquisas de Wilhelm Wundt, William James e outros resultaram, na Europa e nos Estados Unidos, no nascimento dos estudos sobre a consciência, que na época pertenciam à esfera da anatomofisiologia cerebral, e que hoje poderíamos identificar, com boa aproximação, com a área da neurociência.

Por vários motivos, até quase toda a primeira metade do século 20 os programas de pesquisa sobre o assunto foram ofuscados pelo behaviorismo, o paradigma que tinha exclusividade de estudo sobre o comportamento. Para os que sustentam essa corrente de pesquisa, a psicologia deve limitar-se ao que é observável. O que a isso não corresponde pode ser considerado expressão da denominada “caixa-preta”. Fundado por John B. Watson, o behaviorismo – cujo expoente mais conhecido é Burrhus Frederic Skinner –  estuda as leis do aprendizado e os relativos comportamentos, de acordo com o princípio estímulo-resposta; e foi predominante nas psicologias americana e europeia durante muito tempo.

REVOLUÇÃO COGNITIVA

Entre as décadas de 50 e 60, com as incertas bases epistemológicas de um paradigma que não consegue estabelecer invariáveis ou regularidades da mente ao deduzi-las apenas do comportamento, tampouco pode explicar aspectos essenciais da vida de relação humana e animal, surge a revolução cognitiva. Embora dividida em tendências e orientações diferentes, como a computacional e a conexionista, enseja o nascimento das ciências cognitivas, cujo objeto de estudo são os conteúdos cognitivos.

A ideia fundadora do cognitivismo é que o modelo behaviorista não tem como dar conta da complexidade dos processos mentais. Para desvendar o funcionamento da mente, é preciso considerá-la como um sistema de elaboração e processamento das informações (human information processing). Nos Estados Unidos e na Europa, o impacto das ciências cognitivas foi forte a ponto de ofuscar as pesquisas sobre a consciência, considerada mais como dilema filosófico que objeto de indagação científica. Logo um modelo da mente como global workspace, proposto pelo neurobiólogo Bernard Baars, do Instituto de Neurociências de La Jolla, na Califórnia, foi ganhando espaço: seria uma espécie de triagem central das informações, em que é possível estudar o nas- cimento de uma percepção, o funcionamento da memória, os mecanismos de uma emoção e muito mais. Além disso, as pesquisas em neurociência – que começavam a valer-se de novas técnicas de observação das estruturas e das funções do cérebro – possibilitaram não apenas levantar a hipótese de correlações entre comportamentos observados e eventos mentais, mas estabelecer padrões específicos da estrutura das funções cerebrais, como foi apresentado em 1994 pelo psicólogo da Universidade Stanford Stephen Kosslyn.

As novas técnicas de imageamento cerebral (fMRI – ressonância magnética funcional, PET – tomografia por emissão de pósitrons etc.), que fazem uma reconstrução tridimensional do cérebro do paciente vivo, permitem hoje a análise de lesões enquanto a observação comportamental ou cognitiva está em andamento.

Apesar dos espantosos progressos rumo a uma física das representações da mente e das tentativas de preencher a distância entre neurônio e pensamento, a pergunta ainda está aberta: o modelo neuronal tem condições de resistir à prova da vivência? É justo duvidar. Inúmeras evidências acumuladas pela neurociência, de fato, deixam enormes lacunas. A ponto de sugerirem que ainda estamos muito distantes da compreensão do aspecto fundamental da vida do homem: a vivência. Com efeito, mais que estabelecer suas bases, os correlatos neuronais ou um improvável centro, a verdadeira aposta do estudo da consciência é compreender o que torna possível esse fenômeno único no universo, o que seria, afinal, compreender o significado de ter uma experiência ou uma vivência.

Mas o que é uma vivência? E que relações tem com a consciência? Da tradição fenomenológica, a vivência – ou seja, a experiência imediata e primária do mundo dos significados, própria do indivíduo em sua unicidade – representa o ponto crucial. Na medida em que é experiência original, está sujeita às categorias do pensamento consciente e às “operações ocultas” da consciência intencional. Suas características fundamentais são as de uma estrutura de sentido aberto: histórica, transitória, nada unitária.

Com um movimento teoricamente brilhante – que se apoia na dicotomia freudiana entre consciente e inconsciente –, Merleau-Ponty distingue, no início dos anos 60, a intencionalidade da consciência perceptiva (ativa) e a intencionalidade da consciência intelectual (puramente reflexiva). Essa representação da experiência consciente se afasta sensivelmente daquela de conteúdo mental como concebido na philosophy of mind de tradição anglo-americana – defendida no trabalho de Daniel Dannett, do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, em Massa- chusetts, e de John Searle, da Universidade da Califórnia em Berkeley – em que o “mental” é incapaz de olhar e explorar a si mesmo.

EM SINTONIA

Essa posição trai secretas solidariedades com o subjetivismo (e o solipsismo) daqueles filósofos que pensam que a consciência só existe em nossa cabeça e que a vivência é lógica e empiricamente irredutível a uma função neuronal.

Mas a consciência não está na cabeça, como dizia o filósofo e neurocientista chileno Francisco Varela. Talvez seja, isso sim, a condição de possibilidade desta. Ou seja, a consciência vive na relação com o corpo e com o mundo. O cérebro (o “tear encantado”, como poeticamente o definiu o neurofisiologista Charles Sherrington) integra e coordena as atividades sensoriais e motoras, a fisiologia da vida vegetativa e assim por diante. Esse esquema incorpora de modo completo e simultâneo fatores e fenômenos essenciais, internos e externos (o cérebro à musculatura, ao aparelho esquelético, ao intestino, ao sistema imunológico, aos sistemas hormonais), numa relação que faz de nossa mente um ponto de conexão entre o ambiente exterior e o interior. Além disso, se recusarmos a ideia da racionalidade como princípio fundamental da mente – ou seja, da existência de uma relação do tipo recipiente/conteúdo que faz do psiquismo um lugar e da mente, um recipiente com alguns conteúdos – ficará evidente que a consciência não é um lugar fechado. Portanto, não deveríamos mais nos perguntar como alguma coisa entra ali vinda de fora, mas de que modo a consciência se abre ao mundo exterior entre o si e o fora de si, dado que ela, desde sempre, está do lado de fora de si própria, conforme demonstrou em sua obra o filósofo francês Paul Ricoeur.

A consciência está em forte sintonia com o ambiente, como evidenciam determinadas deformações induzidas por elementos externos (por exemplo, substâncias psicotrópicas) ou com a modificação voluntária de nosso estado de consciência, independentemente da situação em que nos encontramos (recolhendo-nos e concentrando-nos, como na meditação transcendental). E mais: é até mesmo possível admitir tanto a atitude espontânea de transformação da consciência quanto a capacidade de passar “naturalmente” de um estágio a outro não condicionado pelo ambiente. Isso torna ainda mais plausível a ideia de que uma larga parte de sua base seja pré-reflexiva, não conceitual, pré-noética, afetiva.

Portanto, haveria fundamento na afirmação do neurocientista António Damásio de que a consciência se inicia como um sentimento. Não no sentido de alguma coisa claramente perceptível – assim como qualquer percepção (visual, auditiva, olfativa, gustativa ou tátil) –, mas como uma expressão concomitantemente poderosa e elusiva, inconfundível e vaga, que se revela por meio de sinais não verbais do corpo, solicitados pelas regiões cerebrais que, em sua maioria, se situam nos núcleos subcorticais do tronco encefálico, do hipotálamo, do prosencéfalo basal e da amígdala. As bases neuronais de tais dinâmicas, de fato, estão em intensa relação de coimplicação com as mudanças biológicas ligadas ao estado corpóreo e ao estado cognitivo. Esse território sustenta uma tonalidade emocional mutável que se transforma em categorias, elementos distintos e sequências de raciocínio: em breve, nas clássicas unidades descritivas da mente.

No entanto, há que perguntar que espaço de investigação e reflexão haveria para uma fenomenologia da consciência que não correspondesse à tentativa de naturalização ou de subjetivação, que coloca a intencionalidade na consciência. Aqui é evidente a exigência de uma postura epistemológica e de um método que investigue os nexos conceituais e as estruturas de conexão entre dois âmbitos aparentemente irredutíveis entre si. O ponto fundamental, em outros termos, é o de uma nova aliança entre o “fenômeno lógico” e o “biológico” que se alimente de desafios, de diálogos e até mesmo de tensões, num horizonte de reciprocidade entre conhecimento científico e conhecimento fenomenológico da mente. Dessa forma, os dados imediatos da experiência e os modelos neuronais – ambos submetidos a rigorosas validações – podem se tornar elementos de um discurso comum sobre as “regularidades da experiência humana”.

De modo esquemático, poderíamos retomar a discussão de três esferas da consciência, essenciais e de interesse comum: a atenção, a estrutura temporal da consciência, o campo da consciência. Ora, se é verdade que a consciência pode estabelecer um diálogo consigo mesma e ter acesso à autonomia de sua organização em sua relação com o corpo vivenciado, ainda as- sim não devemos confundir o ser consciente com seu campo de consciência. A modalidade do ser consciente, com efeito, decerto se articula com a estrutura fundamental do campo da consciência, mas a excede bastante. Trata-se, portanto, de estudar o emergir do eu e aquilo que funda sua historicidade. Naturalmente, o eu é aqui entendido não como espectador, mas como ator que toma forma numa dinâmica ascendente por meio dos diversos graus constitutivos da consciência, até o ordenamento mais elevado do campo da presença humana.

Em definitivo, as pesquisas dos processos neurobiofisiológicos são parte essencial de uma fenomenologia da consciência. Todavia, para ela concorrem com igual importância e significado dois aspectos da vida da consciência: a própria “história de vida no mundo” (ou seja, a do indivíduo que toma posição, avalia, escolhe e se confronta consigo mesmo e com os outros) e o psicobiológico atual (a experiência do momento). Se considerarmos essas premissas, talvez seja possível superar as radicalizações naturalistas e metafísico-subjetivistas que barram o caminho ao conhecimento da esfera mais complexa e fascinante do humano.

 AS ESFERAS DA CONSCIÊNCIA

1 – ATENÇÃO

Essa capacidade pode ser entendida como a base do mecanismo consciente. Os estudos de imageamento cerebral identificaram redes neuronais que podem representar plausivelmente o substrato de funções essenciais para uma distinção entre eventos cognitivos conscientes e inconscientes. Essas evidências indicam que os mecanismos da atenção se constituem como uma sequência distinta de processos mentais, não localizáveis nem em poucos neurônios nem em um conjunto neurofuncional do cérebro. Desse ponto de vista, a atenção representaria um aspecto essencial da consciência, ou seja, da capacidade de voltar a consciência para determinado estímulo, objeto, fonte perceptiva. Esse conceito remete, muito de perto, ao da intencionalidade, segundo o qual a consciência sempre se dirige para alguma coisa. Como William James, Wilhelm Wundt e Théodule Ribot já haviam intuído, a atenção é o indicador da unidade funcional na coordenação geral da vida de relação. Ou seja, ela expressa uma orientação eletiva de atividade, que implica fenômenos de ativação e inibição sistemáticos, em diversos níveis neuronais. Altos níveis de atenção exigem graus elevados de integração: ou seja, de unificação e individualização da atividade. Isso significa que a atenção, como atividade geral e formal, não existe: ela só existe como formação constante da consciência, direcionamento consciente rumo a alguma coisa.

2 – ESTRUTURA TEMPORAL

A temporalidade é a condição de possibilidade da experiência. Embora os neurocientistas cognitivos insistam em considerar de interesse predominante o diferencial diacrônico entre um evento neural e um evento cognitivo, é preciso dizer que a estrutura temporal é a expressão de uma integração cerebral difundida e extremamente complexa. A consciência, de fato, é presença, aqui e agora, vivenciada de cada acontecimento, campo de presença que “contém” o tempo e integra pulsões, emoções e instintos numa “estrutura temporal” que exige a constante “presença do sujeito”.

Em plena atividade e num estado normal de vigília, a consciência é um processo de mudança perpétua de perspectivas que supõe uma estrutura “facultativa” e uma “disponibilidade” de propriedade do sujeito e que implica uma dinâmica vertical de “campo” temporalmente determinada, como demonstrou Maurice Merleau-Ponty em 1964. Nesse sentido, pode-se falar de um “estado normal de vigília”: ou seja, de um estado de clareza entre o sono e a hipervigília, que favorece a possibilidade especificamente humana de encetar um diálogo consigo mesmo, numa perfeita consciência situacional e/ou, também, numa percepção crítica da própria doença. Nesse aspecto revela-se extremamente importante o estudo clínico dos distúrbios da consciência nos pacientes “amnésticos”, nos quais a alteração da “estrutura temporal” da consciência – a memória e a orientação, entre outros – corresponde à desestruturação de áreas cerebrais definidas.

3 –  CENTRO E MARGEM

A tradição fenomenológica aborda o campo da consciência articulando a distinção entre um ponto central e áreas periféricas. Em seu significado e em suas dimensões, trata-se de uma estrutura momentânea, transitória, sincrônica que permite o emergir e o constituir-se da consciência a partir de uma protoexperiência que brota da tensão entre a pulsão e o objeto. É desse modo que o sujeito se abre para o mundo com uma orientação e um significado que marcam essa relação intencional. A essa “consciência constituída” – que afinal é a estrutura que invariavelmente dá forma à relação do eu com o mundo – corresponde uma tripla estratificação funcional: a) a possibilidade de abrir-se para o mundo e nele orientar-se; b) a capacidade de distribuir o espaço vivenciado conforme o que pertence ao sujeito ou ao mundo dos objetos; c) a faculdade de deter (e preencher) o tempo como “espaço de tempo” que constitui o presente. Essa faculdade deve ser entendida como uma intencionalidade consciente que permite explicitar histórica, axiológica e verbalmente os acontecimentos e o sentido de si, como ser problemático na (e mediante) sua própria formulação.

ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

Para as ciências da mente, tudo que experimentamos resulta da perspectiva de cada um. Segundo a neurociência, o que sentimos e vemos é consequência de sinais elétricos interpretados pelo cérebro; para a psicologia, resulta também de nossas experiências e do somatório e da interação entre a realidade objetiva e subjetiva.

Nossos sentidos captam os estímulos do mundo externo, mas é o cérebro, com suas complexas operações internas, que os decodifica. Embora nossas sensações pareçam precisas e confiáveis, elas não reproduzem necessariamente a realidade física do mundo exterior. Naturalmente, muitas experiências do dia a dia refletem estímulos físicos que enviam sinais ao cérebro, a “máquina” responsável tanto por interpretar informações captadas pelos olhos, ouvidos, pele e outros órgãos dos sentidos como por produzir sonhos, delírios e lapsos de memória. Em outras palavras, real e imaginário compartilham a mesma fonte física. Desse ponto de vista, a famosa lição de Sócrates “só sei que nada sei” faz todo o sentido.

A ilusão óptica, por exemplo, tornou-se uma ferramenta útil para os neurocientistas: ela ajuda a entender as complexas operações do sistema visual. Esse fenômeno é conhecido desde a Antiguidade.

Muito antes de os cientistas estudarem as propriedades dos neurônios, artistas e ilusionistas já criavam várias técnicas para enganar o cérebro, como fazer uma tela plana parecer tridimensional ou converter uma série de pinceladas em uma natureza-morta.

Os efeitos ópticos podem ser definidos pela desconexão entre realidade física e percepção subjetiva de um objeto ou evento. Quando experimentamos uma ilusão desse tipo, podemos ver algo que na realidade não existe (ou o contrário). Esse fenômeno demonstra, portanto, que o cérebro pode deixar de recriar o mundo físico em diversas situações. Ao estudar essas “falhas”, é possível aprender quais mecanismos ele utiliza para construir a experiência visual.

Claridade, cor, sombreamento, movimentação dos olhos e outros fatores influenciam de maneira decisiva o que “vemos”. Assim como um pintor consegue criar um efeito de profundidade em uma tela plana, nosso cérebro baseia-se em informações que chegam de nossas retinas, essencialmente bidimensionais, para formar as ilusões de óptica. Estas nos mostram que a profundidade, a cor, o brilho e a forma não são conceitos absolutos, mas sim experiências relativas, subjetivas, geradas por circuitos cerebrais complexos. Isso não ocorre apenas no campo das experiências visuais: a sensação de “vermelho”, a aparência de “quadrado” ou emoções como o amor e o ódio são estímulos que resultam da atividade elétrica de nossas células neurais.

No filme Matrix, o personagem Morpheus pergunta ao protagonista Neo: “O que é real? Como você o define? Se estamos falando sobre o que você sente, o que cheira, o que prova e vê, então a realidade é constituída simplesmente por sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro”. Em certo momento da trama, Neo retorna de um mundo de sonhos (Matrix) para a “realidade”, mas seu cérebro (assim como o nosso) continua construindo sua experiência subjetiva, que por vezes se iguala ao mundo concreto. Ou seja: todos nós vivemos, de certo modo, em uma “matrix” criada por nosso cérebro. Por um lado, podemos pensar que se trata de uma prisão. Por outro, porém, essa perspectiva abre a possibilidade de nos descolarmos do que estamos tão acostumados a chamar de “realidade”. E considerar não só que universos (internos e externos) estão em constante transformação, mas também que o mundo depende dos olhos de quem o vê – e, portanto, pode ser transformado de dentro para fora.

 

MAURO MALDONATO – é psiquiatra e filósofo italiano, professor da Universidade de Basilicata. É coautor de Na base do farol não há luz: cultura, educação e liberdade (Sesc, 2017), autor de Da mesma matéria que os sonhos: sobre consciência, racionalidade e livre-arbítrio (Sesc, 2014), Passagens do tempo (Sesc, 2012), Raízes errantes (Editora 34, 2004), entre outros.