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MEU AMIGO YOUTUBE

Pesquisa mostra que a brincadeira preferida das crianças de hoje é assistir a vídeos na internet. E isso pode ser muito bom.

Meu amigo youtube

Em um passado não muito distante, meninos brincavam com carrinho, meninas brincavam com boneca e todos se divertiam com jogos como pega-pega e esconde-esconde – esses dois últimos foram apontados como os passatempos preferidos de infância para 85% dos adultos nascidos de 1960 a 1980. Já entre as crianças que nasceram a partir de 2010, a diversão soberana consiste em deslizar os dedinhos pela tela do celular ou do tablet. Com habilidade de fazer inveja aos adultos, 75% delas dizem gostar mesmo é de assistir a vídeos no YouTube. A pesquisa é da consultoria Let’s Play, que acompanha o comportamento e os hábitos de consumo de crianças e adolescentes no Brasil.

Faz um bom tempo que olhar para uma tela encanta a garotada. Isso ocorre desde o já remoto advento da televisão e dos programas infantis. Tão antigas quanto o Xou da Xuxa são as advertências de especialistas para o excesso de tempo que a criança passa diante da TV. Os alertas continuam valendo para tablets e celulares, e ficaram mais importantes ainda porque nesses aparelhos o acesso é muito mais fácil e rápido e a variedade de opções, infindável.

Mas isso não é necessariamente ruim para as crianças. A internet, em geral, e o YouTube, em especial, podem oferecer entretenimento de primeira, desde que os pais acompanhem e orientem as escolhas – e, passado um tempo razoável, tirem os filhos do sofá. O levantamento da Let’s Play, feito com 1.000 entrevistados, destaca que o velho pega-pega ainda tem sua vez: ele aparece em um honroso segundo lugar nas preferências dos entrevistados. As bonecas vêm em terceiro.

No entanto, ninguém ganha do YouTube, o senhor da hora de brincar. Na plataforma de vídeos mais vista da internet, a audiência é medida pelo número de vezes que os filmes são vistos. Estudo conduzido pelo Media Lab, da Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo, verificou que a quantidade de visualizações no Brasil dos canais voltados para crianças de até 12 anos dobrou em dois anos. Passou de 26 bilhões, em 2015, para 52 bilhões, em 2017. No topo da preferência estão os vídeos relacionados ao popularíssimo jogo de computador Minecraft. Os jogadores exibem suas habilidades e macetes nas gravações. A meninada adora, ainda que alguns deles pareçam bem improvisados.

Outra atração com audiência garantida são os youtubers, e aí dois grupos se destacam: o dos mini apresentadores (exemplo de vídeo: Hoje Vou Fazer um Almoço Todo de Massinha) e o de jovens que falam a adolescentes (e cujos vídeos frequentemente têm a mesma profundidade do conteúdo da brincadeira de massinha). Também fazem enorme sucesso os filmes de adultos e crianças abrindo embalagens de brinquedos e mostrando o que fazer com eles, o chamado unboxing (“tirar da caixa”, em inglês). Dois dados da pesquisa da Let’s Play explicam, em parte, essas preferências:

1) 61% das crianças afirmam que se divertem vendo outras brincar; e

2) 72% sonham virar youtubers. Aos 7 anos, a paulistana Marianna Santos, que é atriz mirim do SBT, mantém um canal com quase 300.000 inscritos onde posta vídeos semanais. “Os fãs mandam desafios, como o de não rir ao ouvir piadas, e a gente grava”, explica a mãe, Danielle Santos.

Em geral, especialistas e educadores que acompanham a relação entre comportamento infantil e novas tecnologias não só não veem problema na atração pela plataforma de vídeos como acham até que ela ajuda no desenvolvimento. “O YouTube põe a criança em contato direto com seu interesse. Se ela quer saber mais sobre balão ou pipa, existem tutoriais completos ao alcance de um clique, com uma infinita gama de informações. Trata-se de uma ferramenta potente para estimular a curiosidade”, diz a psicóloga infantil Geres Araújo. E haja curiosidade. “Outro dia, peguei meu filho de 4 anos repetindo palavras em russo. Tinha aprendido em um desenho que ele mesmo encontrou no YouTube”, relata a carioca Isis Duarte, mãe do pequeno Enzo. “A informação que era restrita a escolas e bibliotecas está ao alcance de todos, em uma linguagem nova”, acrescenta o psicanalista Pedro de Sant professor da ESPM.

É evidente que, em se tratando de crianças, tem de haver limites à exposição, como reconhecem inclusive os responsáveis por grudar os olhos do planeta na telinha. Consta que Bill Gates, fundador da Microsoft, só permitiu que seus três filhos tivessem celular aos 14 anos. Steve Jobs não deixava que os seus usassem o iPad, invenção da sua empresa. Sean Parker, ex­presidente do Facebook, falava abertamente sobre o risco das redes sociais. “Só Deus sabe o que fazem com o cérebro de nossas crianças”, disse em uma entrevista. Entre os perigos da superexposição, o mais preocupante é o “vício da tela”, um excesso de atenção concentrada em imagens que a Organização Mundial da Saúde (OMS) cogita incluir na lista de distúrbios mentais (vício em games já entrou no rol).

O risco do exagero é confirmado pelas pesquisas. A Academia Americana de Pediatria sugere que crianças de 2 a 5 anos não passem mais do que uma hora por dia na frente da tela, e assim mesmo assistindo a conteúdos feitos para sua idade. Os pais das que têm a partir de 6 anos devem determinar o tempo, com base em regras bem definidas, sempre com o devido monitoramento e, é claro, sem excessos. Segundo pesquisa da Ofcom, agência reguladora de comunicações do Reino Unido, a garotada tem ficado na frente do vídeo mais tempo do que o recomendável: são oito horas semanais entre 3 e 4 anos, nove dos 5 aos 7, treze dos 8 aos 11.

O exagero de tempo na internet acarreta dois problemas sérios para o amadurecimento infantil. Um deles é a diminuição do contato pessoal com as outras crianças. “Durante toda a história da humanidade, a evolução do cérebro se deu por meio da interação social. Esse processo continua a ser fundamental”, afirma o neurocientista Fernando Louzada, da Universidade Federal do Paraná. Pesquisadora da OMS, Juana Willumsen aponta um segundo efeito colateral de peso: o sedentarismo. “Hoje, 80% dos adolescentes não praticam um mínimo de exercícios”, diz. Além disso, alerta, “na frente da tela a meninada come sem prestar atenção e, por isso, tende a consumir mais”. Resultado: uma em cada seis crianças no mundo está pesando mais do que deveria ou se encaixa na categoria de obesa.

Considerando-se vantagens de um lado e riscos de outro, a internet para crianças será sempre uma babá controversa, mas o fato é que não há como escapar dela. O universo virtual é e continuará sendo uma fonte fácil e inesgotável de atrações, e o YouTube é seu mais prolífico microfone. Sendo assim, impedir a turma de circular por ele é tarefa impossível, e, inclusive, não recomendada. “Uma criança que não aprende a se mover nesse ambiente ficará excluída de uma cultura que só caminha nessa direção”, alerta o psicanalista Santi. Diante dessa realidade, o conselho dos especialistas é o exercício da constante vigilância. Cabe aos pais não se esquecerem de que são eles, e não os youtubers, os primeiros influenciadores dos filhos.

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ERA UMA VEZ UM BÔNUS

Studio shot of babies sitting in row

O Brasil passou meio século desfrutando o perfil demográfico ideal para um país que quer enriquecer e se desenvolver. Não soube aproveitar a chance e agora a vantagem está indo embora.

Pelo menos uma vez na história, todos os países passam por um período especialmente favorável ao desenvolvimento, em que a parcela da população economicamente ativa, com idade para trabalhar, entre 20 e 64 anos, cresce mais rapidamente do que a fatia dos idosos e crianças, que não se sustentam sozinhos. A esse intervalo positivo de tempo, que dura por volta de cinquenta anos, dá-se o nome de bônus demográfico. Com mais gente dentro do que fora do mercado de trabalho, gera-se riqueza e fica mais fácil promover a educação, a saúde e a qualidade de vida. Bem administrado, o bônus demográfico é a porta de entrada para o mundo desenvolvido. Mal aproveitado, é a perda de uma chance de ouro para saltar de patamar. O Brasil, infelizmente, a perdeu.

A janela brasileira se abriu em 1970 e se fecharia em 2023, ou seja, já era um prazo apertado para virar uma mesa abarrotada de problemas. Agora, uma revisão de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) levou especialistas à suspeita de que o bônus pode ter começado a se fechar já em 2018. Ou seja: pela primeira vez, o contingente de brasileiros aptos para o trabalho vai crescer em ritmo mais lento que o da população em geral.

Isso significa que o Brasil continua tendo muito a fazer, só que em condições bem mais desfavoráveis. Não é impossível avançar, mas o país terá de encontrar caminhos para fazer mais com menos gente produtiva. “A desaceleração do aumento da população ativa é um sinal de que a demografia brasileira, que antes ajudava, agora começa a atrapalhar o setor econômico”, afirma Samuel Pessoa, doutor em economia e professor da Fundação Getúlio Vargas no Rio. Juntem-se à receita as previsões de que as mulheres terão cada vez menos filhos (de 1,77, em 2018, a média cairá para 1,66, em 2060); a proporção de idosos na população vai quase triplicar no período, saltando de 9,2% para 25,5%; e o contingente afeito ao trabalho cairá de 69,4% para 59,8% – e está pronto o bolo indigesto de um país que envelheceu antes de ficar rico.

Ninguém sabe o exato momento em que o bônus demográfico vai se fechar por completo. Economistas e demógrafos têm opiniões distintas. Para Pessoa e seus colegas, o fechamento acontece em 2018, porque, a partir do momento em que o contingente da população ativa começa a crescer em ritmo menor que o da população em geral, entra em operação uma engrenagem que não tem mais volta, é irreversível.

Já do ponto de vista dos demógrafos, que se debruçam nas estatísticas com outro olhar, o bônus tecnicamente só acaba quando o tamanho da população ativa começa a diminuir, fenômeno previsto para acontecer, segundo eles, em 2037. A diferença de mais de uma década nos cálculos de economistas e demógrafos se deve aos conceitos distintos de “população ativa”. Os economistas preferem a faixa etária dos 20 aos 64 anos, mais realista em termos de geração de renda. Os demógrafos trabalham com a faixa dos 15 aos 64 anos.

Diante da situação atual do país, porém, as diferenças nas projeções viraram uma questão de semântica. “O bônus não fechou, mas começa a se fechar. Na prática, no entanto, já jogamos a oportunidade fora. Não há como o Brasil se beneficiar dele com desemprego tão alto e a economia sem perspectiva de melhorar tão cedo”, diz o demógrafo José Eustáquio Diniz, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. O número de brasileiros sem trabalho está em 65,6 milhões, recorde da série iniciada em 2012, quando eram 60,7 milhões. É menos dinheiro girando para cobrir o rombo da Previdência, que está em 270 bilhões de reais em 2017 e deve mais que duplicar, para 700 bilhões, em dez anos.

Mais cedo ou mais tarde, o bônus demográfico acaba em toda parte. Quem faz a lição de casa aproveita o intervalo para melhorar as condições de vida da população e investir pesadamente em educação, um ingrediente vital para o desenvolvimento. O resultado é um salto de produtividade que, quando o bônus se for, compensará a presença menor de pessoas aptas ao trabalho na população em geral. Na Coreia do Sul, cujo bônus demográfico se abriu por volta de 1970, uma vasta reforma do sistema educacional culminou com 100% dos jovens no ensino médio e 80% avançando para a universidade. O Brasil tem 66% dos adolescentes no ensino médio, e destes mais da metade não se forma. Conclusão: enquanto a produtividade sul-coreana dispara 7% ao ano, a brasileira não chega a 1%. Em outra medida de progresso, o Índice de Desenvolvimento Humano (de O a 1), o país desperdiçou sua vantagem demográfica estacionado em 0,7.”Todas as nações que passam de 0,9 aproveitaram bem o bônus”, afirma Diniz. O Brasil agora terá de navegar para o futuro com os ventos demográficos soprando contra.

Era um vez um bônus.2

 

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DESAFIOS DA ADOLESCÊNCIA

A passagem da vida infantil para a adulta não é fácil – e não só para os jovens, mas também para pais e educadores. Nos últimos anos essa fase se tornou mais longa e as mudanças sociais e culturais que determinam o processo de amadurecimento e a constituição subjetiva. O que antes era coletivo e tradicional se tornou nos últimos anos “patológico”, “problemático”.

Desafios da adolescência

Sabemos que o ser humano não nasce com um destino já estabelecido em seu genoma. Embora muita coisa esteja prevista geneticamente, a grande vantagem do homem sobre as outras espécies é sua capacidade de ser moldado pela relação com o outro, com a sua própria história e com a cultura. Desde o nascimento, ou até antes dele, o sujeito irá se constituir a partir daquilo que experimenta enquanto vivências reais, imaginárias e simbólicas. Um efeito dessa historicidade do desenvolvimento humano é percebido nas evidentes mudanças nas suas etapas ao longo dos últimos 300 anos, a ponto de podermos localizar a origem do conceito de infância no século 17 e a origem do da adolescência no século 20.

As transformações sociais, culturais e psicológicas têm alongado o tempo de passagem da infância à maturidade. Desse processo, emerge um sujeito meio criança, meio adulto, e demorou muito tempo para que a própria ciência passasse a reconhecê-lo. Adolescente, adolescência e adolescer. Mas em que consiste esta etapa da vida, pela qual passam todos os homens contemporâneos? A definição de adolescência é importante, pois existe muita confusão em relação a isso. A forma mais fácil de defini-la é tomar como referência a idade. A partir do referencial cronológico a Organização Mundial da Saúde (OMS) define adolescência como o período da vida que vai precisamente dos 10 anos até os 19 anos, 11 meses e 29 dias. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera adolescente entre 12 e 18 anos podendo ir até 21 anos em casos especiais, quando os jovens cumprem medidas socioeducativas.

Nessa fase ocorrem pelo menos três fenômenos importantes do desenvolvimento humano: do ponto de vista biológico, a puberdade, com o amadurecimento sexual e reprodutor; do ponto de vista social, a passagem da infância para a vida adulta, com a assunção de papéis adultos e a autonomia em relação aos pais; e, do ponto de vista psicológico, a estruturação de uma identidade definitiva para a subjetividade.

PUBERDADE PRECOCE

Houve nos últimos anos uma mudança nos limites de idade que definem a adolescência, que antes começava aos 12 anos e terminava aos 18. Por que essas mudanças ocorreram? Estamos aqui diante de um dos fenômenos mais interessantes dos últimos 120 anos, que evidencia a historicidade dos períodos do desenvolvimento e da vida humana acima apontada, determinada por transformações sociais, psicológicas, culturais e biológicas.

Entre outras mudanças, vem ocorrendo uma antecipação do começo da puberdade. A menarca, como se define a primeira menstruação, no início do século 20 surgia por volta dos 15 anos. Atualmente acontece, em média, aos 12. Como geralmente a menarca é antecedida de três anos pelos primeiros sinais da adolescência, seu início pode ser aos 9 anos, em média. Essa antecipação se deve a vários fatores. Um deles é o aumento do peso corporal, que se deu em função das melhores condições de saúde e alimentação, mas também por um maior apelo para o amadurecimento sexual, determinado pelo imaginário veiculado nos meios de comunicação. Meninos e meninas fortemente submetidos a esse apelo, que atingem certa estatura e peso precocemente, têm a menarca ou a ejaculação mais cedo.

A própria existência da adolescência é bem marcada historicamente. Podemos dizer que ela é um fenômeno da contemporaneidade. Nas sociedades que não passaram pelas transformações que delineiam hoje o mundo ocidental, e mesmo nas sociedades atuais tradicionais, a passagem da infância para a vida adulta acontece de forma tranquila, amparada por rituais socialmente estabelecidos, fazendo com que esta mudança seja vivida de forma coletiva, ritualizada, tradicional. Além disso, é transmitida de uma geração a outra por séculos.

Nas sociedades ocidentais que se caracterizam pela globalização e pela emergência de modalidades complexas nos papéis sociais em função da sofisticação do trabalho e uma maior diversidade de subjetividades, ocorre, de um lado, um alargamento do tempo da formação profissional, que chega até os 25 anos e a antecipação do término da infância, por outro uma infinidade de possiblidades no devir sujeito. A adolescência, assim, torna-se um período ampliado. Nas sociedades modernas, o adolescer passou então a ser um processo vivenciado de forma individual, de acordo com os ideais de liberdade e singularidade reinantes. Assim, todas as dificuldades que envolvem a passagem da infância para a vida adulta terão de ser vividas pelo jovem solitariamente. Com as transformações físicas e psicológicas, o adolescente e quem compartilha de sua vida se veem mobilizados a criar formas de se estabelecer na vida adulta. Sem rituais, cada um vai viver esse processo de forma única, singular.

A necessidade de “ritualizar” a passagem passa então a ser considerada problemática, e isso torna-se “o” adolescer. Daí o importante conceito de “síndrome da adolescência normal”, dos psicanalistas Arminda Aberastury e Maurício Knobel. O que antes era coletivo e tradicional hoje é “patológico e problemático”. O que antes era marcado pelo amadurecimento biológico, e finalizado por um ritual de iniciação, hoje é vivido singularmente e de forma muito diversificada: é o primeiro beijo, a primeira transa, o piercing, a tatuagem, a viagem sem os pais e o trabalho. Dentre essas diversas formas de adolescer encontramos as mais problemáticas, as mais sofridas, e também as patológicas. Porém, a diferenciação entre o normal e o patológico é difícil, e promove-se muita estigmatização e patologização diante dos estranhos comportamentos dos jovens.

O conceito de “síndrome da adolescência normal” foi criado para evidenciar exatamente este aspecto: na passagem da infância para a vida adulta, mais do que um período de tempo, o sujeito terá de cumprir a tarefa de viver os lutos pela perda do corpo infantil, luto pelos pais idealizados da infância e situar-se subjetivamente como adulto. Aqui devemos ressaltar a presença da palavra “luto”, que revela a perda de algo muito valioso.  Essa perda é vivida com grande sofrimento, mas temos de criar meios de substituí-la por novas aquisições reais, imaginárias e simbólicas. Na adolescência temos duas grandes formas do sofrimento psíquico: melancolia e atuação impulsiva.

Ser do contra, ter manias com alimentos diferentes, vestir-se de forma estranha, cultuar ídolos, passar a gostar mais dos amigos que dos pais, conhecer novas religiões e até mesmo experimentar variadas formas de ser, inclusive na sexualidade, todas essas vivências são comportamentos que fazem parte do processo de experimentação para encontrar a forma nova do ego. Estar meio deprimido, chorar sem motivo aparente, ser alegre de forma exagerada, reivindicar atitudes inesperadas dos pais são parte dessa elaboração do luto. O processo também é vivenciado com angústia, depressão e agressividade.

É importante salientar que na contemporaneidade todas as passagens são problemáticas, pois os parâmetros históricos foram perdidos para todas as etapas do crescimento humano, por conta da complexidade do mundo ocidental contemporâneo. Assim, é difícil crescer, adolescer, ser adulto, assumir a paternidade, envelhecer e morrer. Mas o adolescer passou a ser o problemático, numa espécie de condensação dos problemas sobre os jovens.

O adolescer dos pais de hoje já é antigo e o novo adolescer lhes parece problemático, mais pela falta de identificação entre o processo de amadurecimento das diferentes gerações que propriamente porque estamos diante de uma “juventude perdida”. O que perdemos foram as semelhanças: outrora o adolescer era o mesmo durante séculos, além de ser totalmente ritualizado. Hoje, com a velocidade das mudanças, o adolescente de uma geração causa estranhamento e perplexidade para a anterior. Todos sofrem com isso. Os pais, principalmente, sentem-se desorientados e vivem o luto da perda do filho dócil, companheiro – e muito idealizado –, que agora os troca pela “balada com a turma” e não é mais o primeiro aluno da classe. Os jovens, por outro lado, ficam expostos a um excesso de crítica, são estigmatizados e, infelizmente, muitas vezes abandonados e incompreendidos.

O adolescer é um dos eventos cheios de emboscadas que temos de enfrentar na vida moderna. As crises relacionadas às transformações envolvem a todos. Pais, educadores e profissionais da saúde também fazem parte dela e frequentemente manifestam sintomas ao enfrentar a convivência com os jovens, revivendo suas próprias adolescências. O desamparo e a necessidade de criar os próprios rituais de passagem estão presentes em todos os períodos da vida humana, como no envelhecer, no aposentar-se e até mesmo no morrer. O homem contemporâneo está pagando, e caro, com solidão e angústia a troca dos rituais tradicionais pela liberdade e pela individualidade.

Algumas culturas ainda mantêm esses rituais, e penso que são muito acolhedores para muitos jovens e pais, como por exemplo, o bar mitzvah (para os meninos) ou bat mitzvah (para as meninas) entre os judeus.

Desafios da adolescência.2

NO BRASIL

Os problemas nessa fase da vida existem e não são poucos. O mais grave aspecto que envolve o adolescente brasileiro se refere à mortalidade por causas externas, entre as quais se destacam os óbitos violentos: homicídios, suicídios e acidentes, que atingem níveis alarmantes. Tudo se passa como se estivéssemos em guerra declarada. Hoje, na faixa etária que vai de zero a 20 anos, é entre os 15 e os 20 que se concentra a maior mortalidade. Há 30 anos, o grande desafio era reduzir a mortalidade infantil, ou seja, na faixa de zero a 1 ano de vida. De certa forma, essa batalha importante foi vencida. Houve um deslocamento do pico de mortalidade para a faixa etária entre 15 e 24 anos, bem como nos tipos de óbito, pois se antes a criança morria de desnutrição ou infecção, hoje os jovens es- tão morrendo por causas violentas. É esse o grande desafio de quem trabalha com adolescentes no Brasil na atualidade, principalmente em regiões de maior carência e violência.

O que estaria determinando esses números? Não pretendemos esclarecer de forma definitiva o assunto, até porque sobre ele não existe consenso, mas podemos fazer algumas observações a partir de certas experiências. Os jovens são vítimas e também agentes nesse cenário. Um aspecto evidente é que muitas dessas mortes são consequência do envolvimento com ações ilegais, até mesmo criminosas – jovens são mortos no enfrenta- mento entre grupos, por domínio e poder, ou no choque com a polícia. Muitas mortes de- correm de conflitos em bares ou bailes, onde a violência e as brigas terminam de forma trágica. Existe exagero quando se relaciona a violência à pobreza, embora essa associação seja em parte verdadeira. Estamos diante de um problema complexo, em que atuam muitos determinantes.

Um olhar mais cuidadoso para esta realidade encontra o que se chama de “comportamento de risco”, e a morte é o resultado de um processo que tem seus antecedentes ou sua história individual e única. Por isso, o estudo de caso é uma ferramenta muito valiosa, pois nos leva a conhecer as singularidades dos componentes deste cenário. Falhas da função materna e paterna somam-se à falta de acolhimento, de oportunidades, num cenário social de carências e falta de seriedade por parte do Estado, pois a grande maioria desses jovens está em regiões carentes das grandes cidades. Assim, a “crônica da morte anunciada” é evidente. Em geral ocorre algum problema na constituição familiar ligado à ausência do pai (é comum o adolescente ser filho de uma primeira ligação da mãe, e o novo parceiro dela não aceitar o jovem muito bem, podendo ocorrer hostilidade contra o rapaz). Alia-se a essa situação uma atitude superprotetora da mãe, que toma o filho como parceiro de suas desilusões, em geral submetendo-se aos caprichos de um jovem exigente. O quadro recorrente apresenta um jovem que, embora arrogante, não tem êxito nos estudos e no trabalho, e com frequência é analfabeto funcional (de certa forma, resultado de falhas no processo educacional).

Não se destaca em atividades esportivas e artísticas, ou não teve oportunidade de se descobrir competente em alguma delas, por falhas e faltas de uma educação mais consciente sobre o que é ser jovem. Em geral, a vida escolar torna-se algo sem valor. Não existe oportunidade para descobrir competências ou vocações desconhecidas. O comportamento agressivo manifesta-se diante de qualquer frustração. Encaminhado para algum atendimento psicológico, ou não se vinculou ou foi atendido de forma inadequada. Ao se ver mais livre, o jovem envolve-se em condutas ilegais, é capturado por apelos midiáticos e fundamentalistas. Está no “olho do furacão”, já que muito perto de se envolver com lideranças negativas ou com formas imaginárias de ter poder e conseguir realizar seus desejos através da violência.

Como interromper esse caminho é um desafio. Mas a experiência tem mostrado que políticas públicas intersetoriais são eficientes na medida em que se trabalha em parcerias, envolvendo todos os tipos de profissionais e a família. O ECA é uma referência para esse tipo de trabalho, porém existe um grande vazio na sua realização. Mas devemos principalmente atuar cedo e caso a caso. Jean-Jacques Rassial afirma que dois filmes tocaram pontos essenciais para o público jovem: Imensidão azul e Sociedade dos poetas mortos. Esses filmes tratam do gozo não sexual que é avizinhar-se com a morte.

Entre os filmes brasileiros essa realidade é retratada de forma muito adequada e sensível no filme Através da janela (2000, de Tata Amaral) que conta a história de um jovem e sua mãe em processo de luto e melancolia pela morte do pai e marido. Os dois se envolvem numa dinâmica incestuosa que, de um lado, alivia a dor decorrente da perda e, de outro, impele o jovem a um comportamento transgressivo, sem a interdição necessária da função paterna e com uma alienante conivência da mãe. No filme, o jovem acaba envolvido na criminalidade. Esse “outro” com poder de uma captura alienada sobre o jovem pode ser encarnado por muitos agentes.

O adolescer pode lançar os jovens a desafios de independência, de escolhas profissionais e da barreira do vestibular. É comum   encontrar uma saída para esse desafio numa gravidez precoce, que os recoloca no papel de cuidadores de bebês, escolhendo ser mãe, ou pai, o que funciona como uma solução inconsciente de retorno à condição infantil. Portanto, nem sempre a gravidez adolescente é indesejada. Pelo contrário, é uma saída, ou fuga, para o espaço doméstico como alternativa ao enfrentamento do árduo caminho para a vida adulta.

A adolescência pode ser muito traumática para um jovem que já tenha dado mostras de fragilidades egoicas. As transformações físicas e psicológicas vão resultar numa violenta fragmentação do ego. É por isso que na adolescência costumam ocorrer problemas de saúde mental importantes, tais como anorexia, esquizofrenia, pânico, depressão, (principalmente a depressão manifestada por sintomas agressivos), melancolia, auto e hetero- agressividade, todos tendo como desencadeantes dificuldades no processo de elaboração dos três lutos anteriormente vivido. Assim, alguns pais não conseguem mais enfrentar o desafio e as dificuldades que envolvem a tarefa de exercer a paternidade de um adolescente. Muitos se deprimem, se angustiam e usam o discurso dos perigos e dos riscos para impedir que o filho cresça, mantendo-o na posição infantil, a fim de garantir a posição de pais de uma eterna criança. É comum esse processo de domínio sobre o filho ser perpetrado com atitudes autoritárias, geradoras de grandes conflitos familiares.

Mas encontramos mais uma vez situações opostas: diante de um jovem caseiro, inibido e desinteressado pelas baladas, alguns pais se preocupam, pois entendem que algo não está normal. É interessante notar que diante de pais muito liberais e avançados, o processo do adolescimento vai se dar na direção oposta. Ser retraído é forma de o adolescente “ser do contra” ou diferente dos pais e encontrar sua própria subjetividade.

Desafios da adolescência.3

PROFISSÃO, ÍDOLOS E AMOR

A passagem da infância para a maturidade será concluída se o jovem encontrar um caminho na busca de um papel social, o que não é fácil num país de grande índice de desemprego. A escolha de uma carreira é muito importante nesse caminho, mas a organização dos vestibulares por carreiras antecipa e dificulta muito a escolha. Nem sempre as dificuldades com o vestibular decorrem de nível de conhecimento e de uma concorrência extrema. Podem ocorrer por uma total falta de decisão e de escolhas. Aos 18 anos, é algo que pode ser esperado. Se o jovem ainda nem sabe bem quem é, como pode escolher o que será profissionalmente?

Encontrar referências para seguir no processo de construção de uma identidade na adolescência implica busca de parâmetros fora dos modelos parentais. Os pais já estão incorporados à subjetividade, às vezes até demais, e agora é preciso certo afastamento dessas referências. Daí vem a necessidade que os adolescentes sentem de buscar seus ídolos e amigos. Nem sempre, porém, as referências existentes são adequadas.

Nesse momento de transição as companhias afetivas são fundamentais, e aqui destacamos as amizades, intensas, profundas e prazerosas. Não existe adolescência sem a turma ou a “galera”.

É sempre bom lembrar que muitas revoluções nas ciências e nas artes tiveram como protagonistas os jovens. O amadurecimento implica numa grande potência intelectual e criativa, que podem se perder no labirinto de imagens e propostas nas redes sociais contemporâneas.

A grande descoberta da adolescência é a do amor, que vai ser um importantíssimo sinal de qualidade na construção da subjetividade. Ter a capacidade de investir uma pessoa como um verdadeiro parceiro no amor vai marcar definitivamente o fim das escolhas edípicas (com a dissolução do complexo de Édipo), posicionando o jovem no caminho definitivo da maturidade. Os adolescentes são sensíveis, disponíveis e ávidos para viver o namoro, e há exagero quando se fala de promiscuidade amorosa entre eles, pois muitos buscam viver uma grande paixão. Aqui encontramos, talvez, a essência e a beleza de todo o processo do adolescimento.

Novamente surgem emboscadas, pois diante da angústia desencadeada pelas perdas e transformações, a relação amorosa pode ser vivida com sentimentos de domínio, simbiose, dependência, representando um deslocamento de modalidades relacionais problemáticas da infância. Grandes sofrimentos, ou mesmo suicídios, decorrem de frustrações nas relações amorosas.

O amor na adolescência inspira romancistas, poetas, músicos e cineastas, muitas vezes com ênfase em seus aspectos apaixonados, violentos e trágicos. Mas com a psicanálise constatamos que, desde a infância, é a partir dos cuidados e do amor do outro que se constitui o corpo e, depois, o ego infantil. Em outras palavras, é do olhar impregnado de amor do outro que o ego infantil tira sua força para se constituir e ter seu lugar na cultura. Na adolescência mudam os protagonistas, o espelho constitutivo agora é o outro do sexo e das relações na turma. O corpo e o ego revivem a experiência de não integração e da ressignificação e é novamente no encontro com o olhar de um parceiro, na amizade, no amor e na transferência terapêutica que o sujeito vai se reapropriar de sua nova identidade.

WAGNER RANÑA – é pediatra e psicanalista, mestre em psiquiatra infanto juvenil, membro do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae, onde é professor do curso de Psicossomática Psicanalítica.

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SOB A AMEAÇA DA PÓLIO

Erradicada no Brasil desde 1990, a doença pode voltar ao País devido à baixa cobertura vacinal. Há a ideia de que ela não seja mais perigo. É um erro grave.

Sob a ameaça da polio

Depois da febre amarela, a poliomielite, sem casos registrados no Brasil desde 1990 e erradicada das Américas quatro anos depois, pode voltar ao País. Na semana passada, o Ministério da Saúde anunciou que 312 cidades, 44 em São Paulo, apresentaram alto risco para o surgimento de casos, significando que ao menos 800 mil crianças estão sob ameaça de contrair o vírus causador da doença. A pólio pode apresentar sintomas que vão desde febre, ânsia de vômito até paralisia, insuficiência respiratória e levar à morte.

DESASTRE PARA A SAÚDE

A Organização Mundial de Saúde recomenda que a cobertura vacinal contra a pólio seja superior a 95,9%. O panorama brasileiro está longe disso. Em 2017, 22 estados não atingiram a cobertura mínima. Na Bahia,15% dos municípios imunizaram menos da metade das crianças. “É uma situação multo grave”, afirma Carla Domingues, coordenadora do Programa de imunizações do Ministério da Saúde. “Um estado com esses indicadores tem toda a condição de voltar a registrar a transmissão da doença no nosso País. Será um desastre para a saúde como um todo. “Por causa da urgência, a campanha nacional de vacinação deve ter seu início antecipado de setembro para agosto. Na semana passada, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão solicitou ao Ministério da Saúde informações sobre o problema. O órgão quer saber suas causas e as providências que estão sendo tomadas.

Vários fatores explicam a situação. As vacinas estão disponíveis na rede pública, mas questões como o horário de funcionamento dificultam a ida das crianças aos postos. A maioria abre em horário comercial, quando boa parte dos pais está no trabalho. Aliado a isso, cresce a ideia de que a doença não é mais perigo. É um equívoco registrado entre a população e profissionais de saúde. “Não podemos deixar que a situação avance. Não se pode desvalorizar a prevenção”, afirma a médica Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. Na opinião da especialista, é preciso rever o acesso aos postos e fazer com que a população entenda que cada um tem sua responsabilidade. “É preciso ser proativo, diz. O caso da pólio evidencia um problema amplo que ocorre no Brasil em relação à vacinação. O País apresenta baixa cobertura para todas as vacinas Infantis – em 2017, 26% dos 5.570 municípios não atingiram a cobertura recomendada – e registra casos de sarampo, doença que também estava sob controle.

 Sob a ameaça da polio.2

OUTROS OLHARES

O BOM E VELHO CAFEZINHO

Além dos efeitos estimulantes, a bebida mais popular do mundo é rica em nutrientes e pode ajudar a combater doenças.

O bom e velho cafezinho

Desde o século VIII a. C., quando um pastor árabe descobriu suas propriedades estimulantes, o café se tornou uma bebida popular, de consumo diário, e em vários países, como o Brasil, está muito arraigado aos hábitos sociais. No mundo todo são consumidas mais de 120 mil toneladas de café por ano. E embora seja notório seu efeito de aumentar o alerta e de reduzir a fadiga, a ação de seu componente mais importante – a cafeína – já foi e continua sendo muito estudada pela ciência.

A cafeína promove alterações no estado de alerta, memória, aprendizado, orientação espacial e variáveis psicomotoras, como tempo de reação e de locomoção. Seus efeitos, entretanto, dependem da dose e do tipo de tarefa estudada. Alcaloide pertencente ao grupo das metil xantinas ela parece atuar no sistema de ativação reticular ascendente, localizado no tronco cerebral, por isso sua evidente influência nos processos atencionais. Sabe-se que a atenção pode modificar a atividade neural de áreas corticais específicas que participam na análise perceptiva. Assim, a atenção –  ou melhor, a ampliação dela –  é capaz de aumentar a resposta dos neurônios a determinados estímulos.

Capaz de combater a fadiga e a sonolência, a cafeína é muito usada por médicos plantonistas, motoristas de caminhão e outros profissionais que precisam estar bem acordados durante a noite. Alguns autores concordam que, apesar de não melhorar diretamente o aprendizado, seu efeito direto na atenção e na atividade motora espontânea acaba contribuindo para ganhos significativos de desempenho, o que é multo difícil de distinguir do aprendizado em si.

Em relação à memória, não há evidências de melhora na capacidade de recordação; por outro lado, as respostas tendem a ser mais rápidas e precisas. Estudos realizados em 2010 pelo farmacologista Alain Patat, então do laboratório Synthélabo Recherche, em Bagneux, França, indicam também efeitos benéficos no desempenho psicomotor e na atividade motora espontânea. Seus experimentos mostraram diminuição do tempo de reação e aumento na velocidade de digitação após o consumo de cafeína. Outras evidências sugerem que os efeitos facilitadores desse alcaloide ocorrem tanto antes, quanto depois do surgimento da fadiga e do declínio do desempenho.

Apesar de ser a substância psicoativa mais consumida do mundo, a cafeína não é considerada uma droga de abuso. Segundo a Organização Mundial da Saúde, “não existem evidências de que o uso da cafeína possa levar às consequências físicas e sociais associadas às verdadeiras drogas de abuso· Nas últimas décadas, diversos estudos mostraram que as alterações cognitivas e psicomotoras causadas pela cafeína não levam ao desenvolvimento de dependência química.

É possível observar, entretanto, algum grau de tolerância nos casos de consumo regular, mas não se trata da tolerância típica, em que os usuários aumentam a dose da droga de forma exponencial, como ocorre com a cocaína ou as anfetaminas. O fenômeno parece estar associado a um incremento na atividade do receptor de adenosina. Por outro lado, vários estudos mostram que a cafeína não é capaz de sensibilizar o sistema de recompensa do cérebro.

O consumo de cafeína se caracteriza, de forma geral, por padrões de consumo relativamente fixos.  As pessoas evitam doses que possam induzir ansiedade ou privá-las de sono além do desejado. Isto sugere que a ingestão tende a se restringir a limites individuais muito variáveis de tolerância e sensibilidade.

A cessação do uso de cafeína não parece provocar um quadro completo de abstinência. Em contrapartida, o organismo costuma apresentar respostas fisiológicas para se ajustar à falta da substância. Os sintomas são brandos e incluem sonolência, dificuldade de concentração, cansaço e dores de cabeça que desaparecem em poucos dias. A sonolência e o cansaço podem ser explicado pelo acúmulo do neuromodulador adenosina, que deixa de competir com a cafeína pelos mesmos receptores e pode novamente exercer efeito inibitório sobre a atividade neuronal. As dores de cabeça também são resultado da ligação, agora em maior quantidade, da adenosina ao seu receptor, já que ela produz vasodilatação no sistema nervoso central. Além de mais sangue chegar ao cérebro, ele chega com muito mais pressão

 CONTRA O PARKINSON

A cafeína já foi sugerida como droga coadjuvante da L-dopa no tratamento da doença de Parkinson, com melhora de sintomas motores, como o tremor dos membros superiores. O distúrbio é resultado da degeneração de neurônios dopaminérgicos em regiões cerebrais conhecidas como substância negra e estriado. A cafeína evita a depleção da dopamina, principalmente no estriado.

Diversos estudos, entre eles os do farmacologista Alberto Ascherio, da Universidade Harvard, sugerem que a cafeína poderia reduzir o risco de Parkinson. Levantamentos epidemiológicos verificaram que a maior ingestão de café durante a vida está associada a menor incidência da doença. Essa relação pode ser explicada pela inibição causada pela cafeína nos receptores de adenosina do tipo A2A.

Alguns pesquisadores acreditam que esse efeito protetor abre uma nova possibilidade de tratamento da doença. Na verdade, drogas desse tipo já estão em teste e poderão não apenas aliviar os sintomas do Parkinson, mas quem sabe retardar o progresso da doença

Nos últ1mos anos, vem crescendo também o interesse na possibilidade de o consumo de café proteger contra o Alzheimer. Em 2002, um estudo retrospectivo realizado por pesquisadores da Universidade de Lisboa demonstrou que a ingestão de cafeína nos 20 anos precedentes era inversamente proporcional ao risco de desenvolver a doença. No mesmo ano, um estudo prospectivo realizado na Universidade de Ottawa revelou resultados semelhantes. Ainda assim, mais pesquisas são necessárias para a completar a elucidação do assunto.

O café parece exercer efeito benéfico também nas pessoas com diabetes tipo 2. Estudo recente, realizado na Holanda, com mais de 17 mil adultos observou que as pessoas que ingeriam no mínimo sete xícaras de café por dia tinham metade da probabilidade de desenvolver o problema. O resultado vem sendo confirmado por diversas pesquisas realizadas desde 2006 em diferentes populações e que mostram correlação parecida.

A relação da cafeína com as doenças cardiovasculares é outra área imensamente estudada. Algumas pesquisas investigam a relação entre consumo excessivo de café e as doenças do coração, mas falham, porém, no controle de outros fatores importantes como dieta e tabagismo. Segundo o lnternational Food lnformation Council Foundation (lfic), a ingestão de cafeína não contribui para o aumento do risco de doença coronária, diferentemente da dieta rica em gorduras e do tabagismo; em compensação um leve aumento de HDL, conhecido como colesterol bom, é esperado naqueles que têm o hábito de tomar café.

A associação do principal componente do café com a hipertensão também vem sendo sugerida há tempos. O que muitos estudos mostram, entretanto, é um pequeno aumento transitório da pressão, menor que o provocado pelas atividades normais diárias. A cafeína não causa hipertensão crônica ou incremento persistente da pressão arterial. Alguns indivíduos sensíveis a essa substância, porém, podem experimentar um ligeiro aumento de pressão que geralmente não dura mais que algumas horas,

BOM PARA OS OSSOS

Diversas pesquisas examinaram também a relação entre cafeína e osteoporose, mostrando que não há relação entre o consumo desta substância e fratura de quadril, exceto em mulheres que ingeriam mais de 450 mg de cafeína e menos de 800 mg de cálcio por dia.

Além do Parkinson, a relação benéfica entre café e outras doenças, vem sendo muito estudada atualmente. Pesquisa realizada entre 1980 e 1990 na Universidade de Boston, com mais de 200 mil pessoas, mostrou que quatro xícaras de café por dia podem ajudar a prevenir depressão e suicídio. Nesse caso, o princípio ativo não é a cafeína, mas um grupo de antioxidantes resultantes do processo de torrefação, os chamados ácidos clorogênicos.

Assim como as drogas usadas no tratamento do alcoolismo, essas substâncias também atuam como antagonistas opioides e poderiam ajudar as pessoas a se livrar desta dependência. Vale lembrar, entretanto, que esses estudos se encontram em fase inicial, sendo necessárias mais pesquisas nessa área.

A tecnologia atualmente disponível permitiu descobrir a variedade de substâncias e princípios ativos presentes nessa bebida. Além da cafeína e dos ácidos clorogênicos, o café, ao contrário do que se imaginava recentemente, contém muitos minerais, como potássio, magnésio, cálcio, sódio e ferro.  Entre os aminoácidos estão a alanina, arginina, asparagina, cisteína, ácido glutâmico, glicina, histidina, isoleucina, lisina, metionina e muitos outros. Triglicerídeos e ácido graxos livres constituem os lipídeos, e entre os açúcares, estão a sucralose, glicose, frutose, arabinose, galactose, maltose e os polissacarídeos. Vale lembrar, contudo, que a maioria desses nutrientes pode se degradar se a torrefação for excessiva, exceto a cafeína, que é termoestável.

Como se pode notar essa bebida tão popular no Brasil e malvista em certas épocas e culturas é uma boa fonte nutricional e pode dar um empurrãozinho mental na hora em que mais precisamos. Não há motivos convincentes, portanto, para dispensarmos aquele bom e velho cafezinho.

O bom e velho cafezinho2

DESEMPENHO NO ESPORTE

Embora não haja evidências conclusivas, muitos atletas acreditam que a cafeína melhora o desempenho e aumenta a resistência em atividades que requerem intenso gasto energético. Para alguns pesquisadores, porém, trata-se apenas de uma alteração da percepção do esforço e da disponibilidade física.

Seja como for, uma pesquisa mostrou que corredores que tomaram 300 mg de cafeína (o equivalente a duas xícaras de café) uma hora antes do início do exercício correram em média 15 minutos mais do que os que fizeram o mesmo sem cafeína nas veias. Em outro estudo, ciclistas que consumiram 2,5 mg de cafeína por quilo de peso corporal tiveram rendimento 29% maior que o grupo controle.

Até 2004 a cafeína fazia parte da lista de substancias proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional. Mais de 12 µg/ml de urina – que podem ser facilmente atingidos com a ingestão de cinco xícaras de café – configuravam doping e eliminação da competição.

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RECOMPENSA E RESISTÊNCIA À FADIGA

Produzida em regiões específicas do cérebro, como a área tegmental ventral e a substância negra, a dopamina é o neurotransmissor de excelência do chamado sistema de recompensa. Quando fazemos coisas que nos dão prazer (alimentação, sexo e drogas, por exemplo), ocorre: uma intensa liberação de dopamina numa estrutura conhecida como núcleo accumbens, o que nos motiva a experimentar a sensação outras vezes. Essa estrutura está intimamente relacionada aos mecanismos de dependência e ao abuso de drogas como a cocaína e a heroína.

Alguns estudos já mostraram que, apesar de a cafeína elevar a concentração de dopamina na circulação, ela não interfere no núcleo accumbens. Evidências sugerem, entretanto, que seus efeitos estimulantes dependem de uma transmissão dopaminérgica intacta, particularmente de circuitos mediados por receptores do tipo D2, mas sem afetar o sistema de recompensa; por essa razão a cafeína não apresenta potencial de abuso.

A transmissão noradrenérgica também é afetada pela cafeína e, nesse caso, o efeito é mais duradouro. Essa substância estimula a hipófise a liberar hormônios cuja ação culmina na secreção de adrenalina pelas glândulas adrenais. Resultado: taquicardia, dilatação da pupila, aumento da pressão arterial, dilatação das vias respiratórias, contração muscular, constrição de vasos sanguíneos na região abdominal e maior secreção de lipase, enzima que mobiliza os depósitos de gordura para utilizá-los como fonte de energia – isso reduz o uso de glicogênio muscular, o que aumenta a resistência à fadiga.

CAMILA FERREIRA-VORKAPIK – Bióloga, professora de educação física e pesquisadora do Laboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório-motora do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

OUTROS OLHARES

INSULINA EM CÁPSULA

Pesquisadores da Harvard estão perto de uma conquista que se busca desde 1921: testam, com grandes resultados, uma pílula que libertará os diabéticos das Injeções.

Insulina em cápsula

Um trabalho desenvolvido por pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, pode estar prestes a revolucionar o estilo de vida dos 4.251 milhões de diabéticos no mundo: a insulina em cápsula. Para quem temo tipo1 da doença – auto­imune, em que o pâncreas não produz insulina, o hormônio crucial para regular os níveis de açúcar no sangue-, a única opção é injetar a substância em sua forma sintética sob a pele até quatro vezes por dia. Para os cerca de 90% da população com o tipo 2 – em que o corpo não produz insulina suficiente ou não responde ao hormônio como deveria -, as injeções também podem ser necessárias.

Estudiosos desenvolveram uma fórmula inovadora de transportar o hormônio por via oral. Até então, havia uma série de barreiras naturais no estômago e no intestino que impediam a insulina via oral de chegar à corrente sanguínea e, assim, transportar a glicose no sangue para as células. Por isso, a busca por esse sistema de administração do hormônio tem sido considerada o “santo graal” na pesquisa sobre diabetes desde 1921, quando os estudiosos canadenses Frederick Bantinge Charles Best isolaram a substância em laboratório pela primeira vez. Nessa recente tentativa, os pesquisadores da Harvard inseriram o hormônio em um líquido feito de duas substâncias sabidamente seguras para humanos: a colina (molécula natural presente em vitaminas do complexo B) e o ácido gerânico (usado como aromatizante alimentar). O líquido – chave da nova abordagem – foi então colocado em uma cápsula cujo revestimento a impede de ser dissolvida por enzimas no sistema digestivo. O revestimento – de polímero – dissolve-se quando atinge o ambiente alcalino do intestino delgado, permitindo que só então o líquido que transporta a insulina seja liberado.

Ainda em fase de teste na Escola de Engenharia e Ciências Aplicadas (Seas) John A. Paulson, da própria universidade, a fórmula mostrou-se promissora quando foi usada em ratos: baixas doses de insulina em cápsula promoveram a diminuição nos níveis de açúcar no sangue dos camundongos. “Essa cápsula revelou-se tão eficiente quanto um canivete suíço: dispõe de ferramentas capazes de contornar cada um dos problemas que dificultavam a utilização do hormônio por via oral”, disse Sarnir Mitragotri, engenheiro químico e coautor do estudo. O trabalho foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo.

Outra novidade obtida pelo trabalho foi que, ao contrário das soluções de insulina para injeções, que devem ser refrigeradas e se mantêm apenas por algumas semanas, o líquido usado na pílula permaneceu estável por dois meses à temperatura ambiente, e pelo menos por quatro meses quando refrigerado. “Até agora, essa foi uma das mais promissoras pesquisas envolvendo insulina por via oral. Além de alcançar bons resultados quanto à eficácia da ação, mostrou­ se mais durável para o armazenamento”, observa Fabio Trujilho, endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Outras equipes de pesquisa pelo mundo estão trabalhando em tentativas de encapsular o hormônio. Contudo, nenhuma formulação eliminou com sucesso todos os obstáculos clínicos. Até agora, não há produto de insulina oral comercialmente disponível. Em países emergentes como o Brasil, em decorrência do estilo de vida da população e do consumo de dietas altamente calóricas, há cada vez mais doentes. Hoje, já são 12,5 milhões os brasileiros com diabetes. O Brasil está em quarto lugar entre os dez países que apresentam maior número de diabéticos.

Apesar dos resultados promissores, a pílula de insulina precisa passar por ensaios clínicos em humanos, o que, de acordo com os autores do estudo, deve acontecer em até cinco anos. Enquanto ela não chega, americanos e europeus – e, em breve, brasileiros – já se beneficiam de outro tipo de insulina indolor: a inalável. Com o nome comercial de Afrezza, o medicamento é uma versão do hormônio em pó, para ser inalado com o auxílio de um aplicador similar a um apito. No entanto, sua ação tem início em apenas doze minutos e, justamente por ser muito rápida, ela não dispensa a aplicação diária da insulina injetável – vantagem apresentada pela pílula em estudo. No Brasil, o Afrezza se encontra em processo de avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a entidade responsável por aprovar a circulação de remédios no país. O lançamento está previsto para ocorrer no primeiro semestre de 2019.

Insulina em cápsula.2

OUTROS OLHARES

EPIDEMIA DE MENTIRAS

Praga na política, as fake news também se tornaram um caso grave de saúde pública. Emagrecimento, câncer e diabetes são os temas preferenciais das enganações.

Epidemia de mentiras

Ao ser diagnosticado com diabetes, em 2013, o comerciante Augusto Simeoni, hoje com 59 anos, ouviu a orientação de tomar comprimidos diariamente, equilibrar a alimentação e fazer exercícios. Com o nível de glicemia em jejum na alarmante casa dos 600 miligramas por decilitro de sangue (seis vezes o limite para uma pessoa saudável), Simeoni não pôs em prática as recomendações. Mas seguiu à risca uma dica que achou na internet: ingerir um copo de baba de quiabo com água todas as manhãs. “Parecia uma gosma com clara de ovo, então eu respirava fundo e bebia numa golada só”, rememora ele. A fórmula mágica, que eliminaria a doença, naturalmente não funcionou. No início deste ano, a desinformação lhe custou caro: Simeoni teve um dedo do pé esquerdo amputado, depois que uma pequena ferida, “menor que um grão de feijão”, não cicatrizou devido à glicemia fora de controle.

Grave em qualquer área de conhecimento, a profusão digital de textos e vídeos enganadores pode se tornar letal quando o alvo é a saúde. Só a mentira da baba milagrosa teve mais de 485.000 compartilhamentos (sim, quase meio milhão!) em uma página do Facebook que tem o suspeitíssimo nome de Denúncia Online Internacional. Publicado em 2013 (e até hoje no ar, multiplicando-se como vírus de gripe no inverno), o post é um bom exemplo de como são construídas as mentiras on-line. A falsa notícia da baba de quiabo surgiu depois da participação de estudantes em um concurso de ciências no programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo, em 2013. O grupo apresentou um experimento com oito diabéticos em que mostrava que a baba de quiabo ajudava a reduzir o açúcar no sangue – conclusão semelhante à de algumas pesquisas preliminares. No entanto, a meleca vegetal não pode ser usada como antídoto. Na TV, Luciano Huck, apresentador do programa, deu um prêmio de 30.000 reais aos garotos, mas fez a ressalva alertando o telespectador para “jamais trocar seu remédio pela água de quiabo”. Na internet, porém, o que era um experimento virou santo remédio – e a baba de quiabo acabou vendida como cura para uma doença incurável, que só em 2016 matou mais de 61.000 pessoas no Brasil. Entre outras barbaridades, o post de 2013 prometia, em mau português: “Diabete vai sumir e suas injeções nunca mais. Tudo foi Deus quem criou”.

As fake news transformaram-se em uma grave questão de saúde pública. Por redes sociais, sites de busca e aplicativos de mensagens espalham-se milhares de receitas infalíveis, alimentos superpoderosos, estudos inexistentes ou distorcidos e outras enganações. O Ministério da Saúde, que monitora notícias falsas desde o surto da gripe H1N1 em 2009, montou no ano passado uma equipe com a função exclusiva de escarafunchar, ao longo do dia, tudo o que é publicado sobre enfermidades na web.

Em 2017, o time identificou 2.200 invenções. No primeiro semestre deste ano, cerca de metade disso já caiu no pente-fino.

O mais perverso: doenças graves, que assolam e matam milhões de brasileiros, são justamente as mais usadas para fisgar leitores desavisados. Um levantamento inédito recolheu 3.000 notícias sobre saúde em seis páginas do Facebook que se notabilizaram por difundir falsidades na área da medicina. Destas, selecionamos cerca de 1.000 que tiveram maior número de compartilhamentos. Entre elas, descobriu-se, com a ajuda de médicos consultados pela revista, que cerca de um terço divulgava falsidades inquestionáveis. Os temas mais frequentes na lista de fake news foram dieta para emagrecer, câncer e diabetes. O Facebook argumenta que trabalha em parceria com agências de checagem de dados e universidades para identificar mentiras na rede e reduzir o alcance dessas publicações. Claramente, é um trabalho que deixa a desejar.

A página do site Cura pela Natureza, com 3,5 milhões de fãs, é a mais popular entre as analisadas. De nome aparentemente inofensivo, é uma bomba. Traz dicas como “beba isto (refere-se a um suco feito com pepino, limão e salsa) por trinta dias para perder até dezesseis centímetros de barriga”. A mistura pode não ser nada calórica, mas não tem o poder de dizimar a gordura do organismo. “As pessoas querem a solução mágica da água com limão mantendo sua alimentação como antes. Não vai funcionar”, alerta a nutricionista Jéssica Borrelli, que atende em uma clínica particular. Outra mentira divulgada pelo Cura pela Natureza é uma suposta dieta que “mata o câncer e destrói o diabetes” à base de alimentos como brócolis e couve. Ela teve mais de 1300 compartilhamentos. Mas o alcance vai além do Facebook: o Cura pela Natureza está hospedado dentro do portal R7, ligado à TV Record, que destaca seus conteúdos no menu principal da homepage e nas redes sociais. Procurado, o R7 não quis comentar a parceria com o site.

Outra página carregada de mentiras perniciosas saiu do ar há cerca de um mês. Batizada de Bruno Gagliasso Amor e Fé, embromava duplamente seus cerca de 300.000 seguidores alternando manchetes forjadas (de assuntos que iam de saúde a eleições presidenciais) com fotos da vida privada do galã da Globo, dando a entender que ele próprio fazia as atualizações. Não se sabe a razão que levou os autores a tirá-la do ar. Bruno Gagliasso, que nada tem a ver com a página, diz que não entrou na Justiça. O Facebook, por sua vez, não informa se a removeu do ar ou se os autores tomaram a iniciativa de fazê-lo.

Quem sai das redes sociais e se aventura pelo Google, o maior site de buscas da internet, encontra o mesmo ambiente infectado por mentiras. fizemos uma procura com os termos “cura do diabetes”. Para evitar que o algoritmo do Google levasse em conta o histórico de navegação da reportagem, a pesquisa foi feita através de uma janela anônima. Resultado imediato: dois vídeos perigosos. O primeiro deles, com mais de 3 milhões de visualizações, aplica um truque explícito. Para ganhar credibilidade, abre com um depoimento do respeitado médico Dráuzio Varella, mas, em seguida, apresenta informações sobre a cura definitiva através de uma dieta que envolve o consumo de óleo de coco – uma completa invenção. O segundo vídeo vende a cura (“em poucos dias”) ao misturar uma insólita lista de ingredientes, como pimenta dedo-de-moça, ovos crus e sal do Himalaia.

Na busca por “cura do câncer”, dois dos cinco primeiros links oferecidos pelo Google são mentiras. Um exemplo: “Ela descobriu a cura do câncer em 1951, mas eles escondem isso de você”, sugerindo uma dieta exclusivamente vegetariana para curar o mal. Consultado sobre sua responsabilidade, o Google afirma que adota medidas como a redução do fluxo de audiência e publicidade em sites mal-intencionados. Além disso, a companhia mantém no Brasil uma parceria com o Hospital Albert Einstein, que produz quadros com informações relevantes sobre doenças pesquisadas. O resultado, porém, é bastante tímido: o espaço do Einstein não destaca o nome do centro médico nem diz que, ali, as informações são 100% confiáveis.

O ponto sensível é que, quando um embuste e um texto fidedigno são colocados lado a lado, o primeiro tende a reluzir mais que o segundo. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) publicaram em março, na revista científica Science, uma análise de126.000 mensagens divulgadas no Twitter entre 2006 e 2017 por mais de 3 milhões de pessoas. A conclusão: a probabilidade de as fake news serem compartilhadas é 70% maior que a de uma notícia verdadeira. Não é difícil entender o porquê. “Vende-se um sonho de resposta rápida a pacientes de uma doença de tratamento demorado”, diz a dermatologista Íris Florio. Na página Bruno Gagliasso Amor e Fé, por exemplo, afirmava­ se que médicos cubanos haviam descoberto como acabar com o vitiligo com uma receita simples.

A adesão às inverdades médicas on-line guarda semelhança com algo notório quando os temas são política ou moral. “As pessoas tendem a acreditar no que reforça seus medos e suas ideias preconcebidas”, observa a pediatra Nina Shapiro, pesquisadora da Universidade da Califórnia, autora de Hype, livro a respeito de mitos difundidos entre pacientes, sem tradução para o português. “Para piorar, muitas fake news sobre saúde partem de algum fator verdadeiro, que se torna perigoso ao ser exagerado.”

Tome -se a patacoada segundo a qual a vacina contra sarampo, rubéola e caxumba provoca autismo. Duas décadas atrás, a prestigiada revista Lancet publicou artigo do então médico inglês Andrew Wakefield com dados de uma pesquisa com doze crianças que tinham traços da patologia. Em comum, anunciou o pesquisador, elas carregavam no corpo vestígios do vírus do sarampo – causado, supostamente, pela vacina. Bastou a afirmação espalhar-se para cair a imunização de crianças contra o sarampo em diversos países. Mais de vinte estudos científicos foram publicados desde então, todos desmentindo a relação da vacina com o autismo, mas o estrago continua. Passados dez anos, após a descoberta de um erro do estudo – nenhum dos menores tinha, na verdade, vestígio de sarampo -, a Lancet se retratou sobre a pesquisa, cujo conteúdo, ressaltou, era “totalmente falso”. Wakefield perdeu o registro profissional, mas o mito reverbera até hoje.

E chegou ao Brasil, que já foi exemplo mundial pela sua capacidade de fazer campanhas de vacinação em massa bem-sucedidas. Graças a essa competência, o país livrou-se da febre amarela urbana em 1942, da varíola em 1971, do tétano neonatal em 2003 e, mais recentemente, da rubéola. A poliomielite, que causa a paralisia infantil, está eliminada do Brasil desde 1989. Hoje em dia, porém, em parte por causa da disseminação de fake news que dizem que vacina faz mal e outras tolices, o Brasil está deixando de ser exemplo e, pior, está lidando com a possibilidade da volta de algumas doenças – inclusive da poliomielite. Segundo alerta feito pelo governo na terça-feira 3, cidades com cobertura vacinai abaixo de 95% estão em risco – na Bahia, por exemplo, em 15% das cidades a taxa é de apenas 50%. No início do ano, a campanha de vacinação contra a febre amarela em São Paulo começou como um fracasso. De acordo com os cálculos do infectologista David Uip, secretário de Saúde de São Paulo na época, a boataria digital foi um dos principais motivos para que até abril, no auge da transmissão, a dose tenha sido distribuída a apenas 5 milhões dos 9 milhões de pessoas pretendidas pelo governo. Quem compartilha essas irresponsabilidades faz vítimas como Amanda Canabarro, de 29 anos, hoje estudante de nutrição, que se submeteu a várias receitas espalhadas pela internet para tentar curar um câncer de mama descoberto quando tinha 27 anos. Chegou a tomar 3 litros de suco de graviola religiosamente todos os dias, mas nada reduziu o tamanho do tumor, então com 6,7 centímetros. Hoje, graças ao tratamento correto, seu tumor tem poucos milímetros. A advogada Krishna Caron, de 41anos, fiou-se em uma prescrição furadíssima encontrada no Google: consumir gotas de azeite com canela antes das refeições para emagrecer. “Não deu certo, e só perdi peso quando busquei uma nutricionista”, diz.

Essa crise de comunicação na saúde pública tem um importante ponto cego: as mensagens que se alastram por WhatsApp, no qual é impossível medir o tamanho dos boatos. Por isso o aplicativo é conhecido no meio digital como dark social (rede social escura). Para minimizar o problema, o WhatsApp anunciou um teste: o destinatário é informado se o texto que recebeu foi escrito por seu remetente ou está sendo apenas encaminhado. É um tímido paliativo, como tem acontecido com medidas adotadas pelo Facebook e pelo Google, pois as mentiras não deixam de circular nem são rastreadas. ”As iniciativas são positivas, mas, na prática, o número de notícias verificadas a cada dia não faz nem cócegas perto de tudo que é falso”, pondera o pesquisador Pablo Ortellado, da Universidade de São Paulo, referência acadêmica do país no tema.

O único remédio realmente eficaz contra esse mal é o acesso a dados confiáveis. Assustada com o número de pacientes que apresentavam dúvidas baseadas em aberrações lidas na web, a psicóloga Luciana Holtz, presidente do instituto Oncoguia, criou uma força-tarefa para combater a ignorância. O projeto Rede Causadores Oncoguia foi lançado em dezembro passado e já tem 33 pacientes treinados. A estudante Sonia Niara, de 27 anos, que lutou contra um linfoma há seis anos, é uma das “influenciadoras” autorizadas pelos especialistas da ONG a difundir fatos confiáveis e desmentir rumores a respeito da doença. Em vídeos divulgados no YouTube e nos textos de seu blog, a jovem fala de autoestima a cuidados na alimentação. “Quando recebemos o diagnóstico, queremos saber duas coisas: como é o tratamento e qual a chance de cura. Estou aqui para oferecer respostas certeiras.” Há alguns espaços para enviar dúvidas específicas. Nada, é claro, substitui a conversa entre médico e paciente. Também é preciso atentar para o veículo que está difundindo a informação. Num ambiente conectado, no entanto, a responsabilidade é sempre coletiva. Se o Google ou o Facebook ainda não conseguiram enfrentar a praga das fake news, os usuários da rede que as compartilham também estão ajudando a manter o problema. Estudo realizado pelo Instituto Reuters, da Universidade de Oxford, em dezembro de 2016, mostrou que 60% dos entrevistados compartilham notícias pelas redes sociais depois de ler apenas a manchete. Agir assim hoje em dia é correr o risco de fazer mal à saúde de alguém.

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