OUTROS OLHARES

A EXPLOSÃO VEGANA

Mais de sete milhões de brasileiros declaram-se adeptos do veganismo: não consomem qualquer produto proveniente ou testado em animais. E esse público — assim como o mercado formado em torno dele — só deve crescer.

A explosão vegana

Virou uma febre nos restaurantes, em lojas de roupas modernas, de acessórios e até em fast foods. Propagandear que os produtos são veganos parece dizer ao cliente que ele está dentro do que há de mais contemporâneo em saúde e comportamento. Assim, a explosão vegana tomou conta do mundo. Só no Brasil são sete milhões de pessoas que se consideram adeptas do estilo de vida que deixa de fora o consumo de artigos provenientes ou testado em animais. Entre eles, alimentos, bolsas e produtos de beleza. Hoje são mais de 240 restaurantes vegetarianos e veganos pelo país. A mais famosa cadeia de fast food do mundo, o Mc Donalds, entrou na onda e produz sanduíches para o nicho.

E há espaço para mais crescimento. De acordo com pesquisa feita pelo Ibope, 55% dos 2 mil entrevistados afirmaram que consumiriam mais produtos veganos se eles estivessem com rótulos bem informativos e 60% os comprariam se custassem o mesmo preço dos comuns. Em geral, eles são mais caros.

Ser vegano, na verdade, significa estar no alto de uma pirâmide que tem como base o vegetarianismo, a dieta que exclui o consumo de carne. No segundo patamar, estão os ovolactovegetarianos. Além de vegetais, eles se alimentam de ovos, leites e derivados. No terceiro ficam os chamados vegetarianos estritos, que não consomem nenhum alimento de origem animal incluindo mel, ovo e laticínios. Os veganos estão no topo e recusam, além da alimentação, todo produto que utiliza produtos feitos a partir de ou testados em animais

O que embala a escalada dos veganos é a disseminação da cultura que busca melhor qualidade de vida, incluindo no conceito o cuidado com a saúde de forma mais natural e o respeito ao meio ambiente e aos animais. “É uma mudança de dentro para fora”, diz a vegana Anna Karine Fukamizu. “Primeiro vem a informação e depois você muda seu comportamento”, completa. Barbara, filha de Anna, foi quem convenceu a mãe a adotar a filosofia de vida, há seis anos. Desde então, elas deixaram de comer produtos derivados ou testados de animais. Usam roupas de algodão e pasta de dente natural. A estudante Victoria Mayer foi outra que cortou ovos, leites e derivados e parou com carnes. “Não acho certo o maltrato aos animais.” Ela também só adquire produtos veganos.

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MERCADO EM ASCENSÃO

O aumento dos adeptos faz crescer o mercado. A Curaprox, por exemplo, especializada em produtos de limpeza bucal, lançou uma linha de pastas de dente vegana. Na composição, nenhum produto químico ou de origem ou testados em animais. “Os veganos podem usar sem medo”, afirma Hugo Lewzoy, CEO da marca. De acordo com o executivo, o creme dental possui uma enzima chamada glicose oxidase. Ela potencializaria a ação protetora da própria saliva, evitando a necessidade de antibactericidas químicos. Além disso, ela conteria extratos de ervas com propriedades regenerativas dos tecidos. O produto custa R$ 79.

Outra empresa é a Biozenthi, presente no Brasil, na Austrália, na Colômbia, no Equador e preparando-se para entrar no mercado espanhol. Ela fabrica cosméticos, artigos para cabelo e de higiene pessoal veganos. “Usamos cera de carnaúba para fazer batom, por exemplo”, explica Márcio Accordi, proprietário da companhia.

Assim como em relação ao vegetarianismo, há polêmica envolvendo a exclusão de alimentos de origem animal na dieta vegana. Médicos, nutricionistas e adeptos sabem que falta ao organismo de um vegano a vitamina B12, necessária para o bom funcionamento do sistema nervoso. “Mas mesmo quem não é vegano tem deficiência da vitamina. Normalmente, ela falta em 60% dos veganos e em 40% dos não veganos”, afirma a nutricionista Astrid Pfeiffer. Vegetariana há 14 anos, ela entrou para o veganismo há 6 meses. O prato perfeito para um vegano consiste em uma base de carboidrato (cereal integral, arroz integral, quinoa, trigo, cevada), leguminosas (feijões, lentinha, ervilha, grão de bico) e salada com muitas folhas verdes. “Conseguimos encontrar todos os nutrientes em uma refeição equilibrada”, diz Astrid. O médico Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, discorda. “É importante respeitar a liberdade de escolha individual de cada pessoa. Entretanto, do ponto de vista médico e nutricional, o que recomendamos é que, ao fazer qualquer opção alimentar restritiva, o indivíduo cheque como está sua saúde e tenha um acompanhamento regular para que todos os nutrientes necessários para mantê-la sejam contemplados na alimentação”, afirma. Ao que tudo indica, a discussão, iniciada com o vegetarianismo, se prolongará

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GESTÃO E CARREIRA

TUDO NO APLICATIVO

Os brasileiros que ganham dinheiro com aplicativos já são 5,5 milhões. Por trás dos apps estão empresas bilionárias que mudam a forma como trabalhamos, compramos, nos locomovemos e nos divertimos. O que ganhamos, e o que perdemos, com essa revolução?

Tudo no aplicativo

Não é preciso ser viciado em tecnologia para sua rotina caber num aplicativo de smartphone. Uma carona de carro ou um aluguel de patinete pode levá-lo ao trabalho enquanto um passeador busca seu pet para uma volta pelo bairro. Na hora do almoço, um motoboy entrega a refeição para dar tempo de você cortar o cabelo antes de voltar ao escritório, serviço também agendado pelo aplicativo. À noite, uma aula de inglês contratada pelo aplicativo e, depois, um jantar entregue em casa, onde as compras do supermercado estão à sua espera. Estamos em 2019, e os apps estão por toda parte. Cerca de 125 milhões de brasileiros têm acesso a internet e há 220 milhões de smartphones em circulação no país. Se a onipresença das plataformas digitais na rotina de uma parcela cada vez mais relevante da população não é novidade, seu poderio econômico nunca foi tão significativo, e tão disseminado. Em 2018, só nas regiões metropolitanas, 18 milhões de brasileiros usaram regularmente aplicativos para ganhar algum dinheiro, segundo levantamento inédito realizado pelo instituto de pesquisas Locomotiva. No país, quase 45 milhões de pessoas já usaram aplicativos para obter renda. A conta inclui os 5.5 milhões cadastrados como prestadores de serviços em plataformas como Uber, 99, iFood e Rappi, mas também os milhões de pessoas que usam as redes sociais Facebook e Instagram ou o aplicativo de mensagens WhatsApp para a prestação de serviços.

Os aplicativos são, claro, um fenômeno global. No mundo, apps de transporte e de entrega de comida deverão passar dos 130 bilhões de dólares em faturamento em 2023, segundo estimativa do site de estatísticas Statista. Em ambos, a China é a líder do mercado, seguida pela União Europeia e pelos Estados Unidos. No Brasil, as ferramentas de delivery de comida cresceram 20% em número de usuários no último ano, acima da média global, de 12%. O Brasil virou um dos terrenos mais férteis para a popularização dos apps por uma conjunção de fatores econômicos e sociais. A recessão que assola o país desde 2014 e a taxa de desemprego elevada levaram as pessoas a procurar serviços mais baratos e também a buscar novas formas de trabalho. Soma-se a esse cenário a ascensão das classes C, D e E, que passaram a consumir pela internet e, sobretudo, pelo celular. De 2010 a 2018, a penetração de smartphones na classe C passou de 42% para77%; entre as classes D e E, de 13% para 49%. É uma enorme fatia da população que vê no aparelho uma oportunidade de melhorar de vida, seja dirigindo um Uber, seja oferecendo doces e salgados pela internet. As operadoras, por sua vez, lançaram planos de internet cada vez mais baratos para fisgar esses consumidores/empreendedores – já é possível ter acesso à rede a 2 reais por dia. “É uma nova forma de conexão entre oferta e demanda, feita por meio dos aplicativos e com internautas nas duas pontas”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

A economia dos aplicativos começou a tomar corpo no Brasil em 2014. Meses antes da Copa do Mundo, chegou ao país a americana Uber; que prometia viagens baratas com motoristas não profissionais. Hoje, cinco anos depois, usar apps de transporte é um ato rotineiro para mais de 20 milhões de brasileiros. O Brasil é o segundo maior mercado da Uber no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com cerca de 600.000 motoristas. A empresa adotou inovações para o país, como o pagamento em dinheiro, que atinge um público sem conta em banco. A democratização do serviço é um fenômeno global: dados mundiais da pesquisa da Statista, referentes a 2018, mostram que, entre os usuários de aplicativos de  transporte, cerca de 60% têm renda média e baixa. “Onde mais crescemos é na periferia dos grandes centros, regiões em que fica mais evidente a falta de transporte adequado”, diz Saulo Passos, diretor de comunicação da Uber para a América Latina. A Uber e sua concorrente, a 99, acabaram sofrendo as dores dos pioneiros ao mostrar as oportunidades de uma economia voltada para os apps. “Os motoristas mal estavam acostumados a usar o celular, e muito menos para trabalhar”, diz Davi Miyake, gerente de operações da 99.

Com os apps de transporte, os brasileiros passaram a conhecer uma nova organização econômica, que se vale de avaliações dos usuários para construir uma base de confiança entre quem oferece e quem usa o serviço. É uma organização que mostrou que o futuro poderia se inspirar aos ideais libertários para tirar o governo e o poder público de cena. A lógica vai sendo, pouco a pouco, replicada para dezenas de negócios, e deve continuar ganhando força. “Antes os usuários dependiam da regulação do governo para saber se um serviço era bom ou não”, afirma o professor Sunil Johal, especialista em regulação e políticas públicas para economia compartilhada na Universidade de Toronto, no Canadá. Para Eduardo Baer, presidente da startup DogHero, esse é o grande valor da economia compartilhada. “Nas grandes cidades, as pessoas se tornam anônimas e preferem confiar em grandes empresas. Mas, com a informação que esses aplicativos criam, voltamos a saber quem presta um bom serviço”, afirma. A DogHero oferece serviços de hospedagem e caminhada de cachorros. Criada em 2014, tem 18.500 anfitriões e passeadores cadastrados para servir 800.000 cachorros, em 750 cidades da Argentina, do Brasil e do México. Para que um passeador ou um anfitrião entrem na plataforma, devem passar por treinamentos on-line que mostram, por exemplo, sintomas que indicam que o pet deve ser levado ao veterinário. A revolução dos apps não deve parar em seu labrador de estimação. “O capitalismo de multidão só tende a crescer nos próximos 20 anos. Devemos ver mais progressos em áreas como saúde e até energia, com as pessoas podendo comprar eletricidade de seus vizinhos”, diz Arun Sundararajan, professor na Universidade de Nova York e autor do livro Economia Compartilhada: o Fim do Emprego e a Ascensão do Capitalismo de Multidão.

As dez maiores plataformas de produtos e serviços em atuação no Brasil já passaram faz tempo da fase de startup que cabe em meia dúzia de mesas de um coworking. O ano de 2019, aliás, tem sido visto como um marco da maturidade dessas companhias mundo afora. A empresa americana de mobilidade urbana Lyft abriu o capital no mês passado e está avaliada em cerca de 24 bilhões de dólares. A Uber planeja sua própria abertura, projetando um valor de mercado de 120 bilhões de dólares. Do outro lado do mundo, um aplicativo como o Meituan Dian ping, da China, realiza 178 serviços por segundo, como pedidos de comida, compra de ingressos e reserva em hotéis. Considerada a “Amazon dos serviços”, a chinesa acumula 400 milhões de usuários pagantes em 2018 e um valor de mercado de 297 bilhões de dólares (mais da metade do valor do Facebook). O interesse dos investidores se repete em aplicativos brasileiros. Em janeiro do ano passado, a 99 foi adquirida pelo gigante chinês de mobilidade Didi Chuxing numa transação estimada em 1 bilhão de dólares. Em novembro do mesmo ano, uma rodada de 500 milhões de dólares recebida pelo app de entregas iFood foi o maior investimento sem aquisição já visto na América Latina. Aplicativos que ligam produtos e serviços dominaram seis dos dez maiores investimentos na América Latina de 2012 a 2018. O aumento de liquidez permite que os aplicativos consigam investir em sua expansão e deixem a busca do lucro para o futuro – bem para o futuro, só pensaremos em oportunidades futuras de lucro depois de satisfazer consumidores, restaurantes e entregadores”, diz Jason Droege, diretor da Uber Everything, divisão de novos negócios da Uber. O mercado de aplicativos coloca frente a frente empresas brasileiras e estrangeiras. Entre os brasileiros, nenhuma companhia tem números tão impressionantes quanto a Movile, que já conta com 2.300 funcionários. A empresa foi criada na virada do milênio, com mensagens de texto. Seu ecossistema de aplicativos já atingiu mais de 350 milhões de usuários. Com taxa de crescimento anual de 60%, planeja chegar a 1 bilhão de usuários até o fim de 2020. Uma de suas maiores apostas para atingir a meta é o iFood, pioneiro na transformação de pedidos telefônicos em pedidos digitais. Criado em 2011, o app foi comprado pela Movile em 2014. O iFood faz 17,4 milhões de entregas mensais para 12,6 milhões de consumidores. Eles se conectam a 66.000 restaurantes em mais de 500 cidades brasileiras por meio de 120.000 entregadores. O iFood cresce no pique de 3 dígitos por ano. Sua maior concorrente é a colombiana Rappi, que tem 60.000 entregadores no mundo e cresce cerca de 30% ao mês no Brasil. Esse mercado ainda pode crescer muitas vezes e temos o potencial de estar entre as maiores empresas de delivery do mundo”, diz Carlos Moyses, presidente do iFood. A empresa está investindo até na entrega por drone, a ser implementada quando conversas regulatórias avançarem, o computador vai decidir sua próxima refeição”, diz Fabrício Biais, fundador da Movile. Talvez nenhum dos grandes aplicativos em atuação no país seja tão brasileiro quanto o GetNinjas, ferramenta que conecta prestadores de serviços a potenciais clientes. São mais de 200 tipos de serviço de mais de 500.000 prestadores – que incluem advogados, designers, churrasqueiros, chaveiros, encanadores, e por aí vai. O aplicativo nasceu no Brasil em 2011, para formalizar os bicos, e hoje opera também no México. O fundador, o engenheiro Eduardo Chatellier, criou o GetNinjas ao ter problemas para achar um pintor no mar de classificados da internet. Na plataforma, os próprios prestadores de serviços estabelecem um preço e negociam diretamente com o cliente, e o GetNinjas cobra uma taxa que vai de 1 a 8 reais. Em 2018, os serviços contratados pela plataforma movimentaram 300 milhões de reais. Parte desse montante veio do casal Tatiana Dias Moura e Felipe Rodrigues de Oliveira, que entraram no GetNinjas pouco depois de abrir seu negócio de conserto de celulares, a FixOnline, em 2017. A empresa que começou num quarto enquanto Oliveira estava desempregado, tem hoje 11 funcionários e fatura cerca de 110.000 reais por mês. O casal abriu uma loja física em Perdizes, em São Paulo, mas só 10% dos atendimentos vêm do balcão. “Ajudamos o profissional autônomo a se enxergar como realmente é: um microempreendedor”, diz Chatellier.

O estímulo ao empreendedorismo é um fator em comum entre as diversas grandes empresas de aplicativos do país. Os apps de entregas Uber Eats e Rappi, por exemplo, estão investindo em restaurantes que operam a portas fechadas e atendem apenas a pedidos por aplicativo. A ideia seduziu a empreendedora Matilde Arruda em outubro de 2018. quando ela ainda trabalhava com os pais em uma rede de temakerias. Com início em dezembro, os dois restaurantes do Sushi Plus em São Paulo atendem apenas pelo Uber Eats e recebem 16.000 pedidos por mês, com tíquete médio de 24 a 30 reais. Matilde diz ter investido cerca de 150.000 reais para iniciar o negócio, um terço do que gastaria montando um restaurante tradicional. Estabelecimentos com histórico também resolveram investir em parcerias com aplicativos. A rede de empanadas La Guapa, comandada pelos empreendedores Benny Goldenberg e Paola Carosella, planeja para o meio do ano a abertura de uma cozinha exclusiva para o Rappi. Ela se juntará a cinco lojas de rua em São Paulo, com 90 funcionários e 85.000 empanadas vendidas por mês. Entregas em domicílio representam de 25% a 30% dos pedidos no LaGuapa, proporção que deverá chegar a 50% com a nova unidade. “Hoje, damos prioridade aos clientes que estão no restaurante nos horários de pico e, às vezes, tenho de desligar o aplicativo. Isso não vai mais acontecer”, afirma Goldenberg. A plataforma de comércio eletrônico Mercado Livre tem 296.000 vendedores que utilizam o site como principal fonte de renda, segundo a empresa. “Criamos ferramentas para que o pequeno varejista brigue de igual para igual com as lojas oficiais”, diz Julia Rueff, diretora de marketplace do Mercado Livre. A economia puxada por aplicativos serve de ponto de partida para um ciclo virtuoso que acaba por transformar diversos setores. Um exemplo está no transporte. O país gasta o equivalente a 12.7% do produto interno bruto na cadeia de armazenamento e transporte de itens. A startup Loggi criada em 2013, mira esse gargalo. O aplicativo conecta empresas donas de cargas a uma frota de 17.000 moto- fretistas e motoristas de vans e cresceu 275% em um ano, para 3 milhões de entregas em fevereiro. A expectativa é fazer 5 milhões de entregas por dia até 2023. A vertical mais recente da Loggi é a de entregas para restaurantes e supermercados. “O futuro da logística está na integração entre os varejos físicos e on-line”, diz o fundador, o francês Fabien Mendez.

Assim como Mendez está ajudando a mudar o mercado de entregas, outros aplicativos atuam para transformar seus setores para além dos olhos do consumidor. É uma revolução silenciosa. O crescimento do site de hospedagens Airbnb, por exemplo, não mudou apenas o mercado de hotelaria, mas levou à criação de novas companhias. Elas realizam check-in, checkout e gerenciamento de chaves e podem ficar responsáveis por trocar as toalhas e as roupas de cama para os hóspedes. Um exemplo é a Luckey Homes, empresa francesa adquirida pela plataforma em dezembro por valor não revelado. Criada em 2015, a startup gerencia propriedades do Airbnb em mais de 20 cidades francesas. Segundo Leo Tristão, diretor-geral do Airbnb no Brasil, o próximo passo é mudar a forma como os empreendimentos são construí dos. “As incorporadoras já estão desenvolvendo imóveis pensado em compartilhamento”, afirma Tristão. O iFood criou há dois ano o iFoodShop, marketplace que une 150 fornecedores de 15.000 ingredientes e embalagens a 55.000 restaurantes cadastrados. Pelo volume agregado de compras, o uso do iFoodShop gera uma economia de 20% aos estabelecimentos. “Queremos revolucionar o mercado de alimentação, e isso não se restringe ao delivery para os consumidores” diz o presidente Carlos Moyses. A locadoras de veículos, que inicialmente viam Uber e 99 como inimigos, descobriram novas oportunidades. Os aplicativos trouxeram um novo perfil de cliente: os próprios motoristas. “Quando esse serviço chegou ao Brasil, havia muitos motoristas sem dinheiro para financiar um carro próprio. Foi aí que ganhamos”, diz Jamyl Jarris, diretor executivo da locadora Movida. Os motoristas de aplicativo representam cerca de 10% dos carros alugados na empresa. O setor de locação movimentou, em 2018, quase 14 bilhões de reais no Brasil. A Movida criou recentemente um cartão para que o motorista sem capital inicial possa pagar a locação depois de usar o carro, com o rendimento das próprias corridas, enquanto a mineira Localiza Hertz, líder do setor, criou um aplicativo exclusivamente para os motoristas, facilitando a locação dos carros da rede. Na Grande São Paulo, a Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo (Amasp) estima que 60% da frota que serve os aplicativos seja alugada, sendo 85% vindos de locadoras. “Os outros 15% são, principalmente, motoristas que viram empresários e conseguem comprar uma frota própria e alugar para colegas”, diz Eduardo Lima de Souza, presidente da Amasp.

Uma das grandes perguntas em aberto é se estamos vivendo uma bolha de euforia que, no limite, vai estourar, deixando prestadores de serviços e consumidores na mão. O risco existe, e é mensurável. Há no planeta mais de 1 trilhão de dólares aplicados em negócios de altíssimo risco, que têm em comum o fato de não gerar um centavo de lucro. É o que acontece com quase todas as empresas citadas nesta reportagem, que dependem de aportes para continuar investindo em marketing e em promoções. Categorias mais organizadas, como a dos taxistas, alertam para o risco de, uma vez monopolistas, essas empresas aumentarem os preços.

Também há uma discussão crescente sobre as responsabilidades trabalhistas dos apps. Os empreendedores têm, até aqui, um histórico de bons resultados para apresentar. Criada em 2015, por exemplo, a Singu oferece agendamento com 3.000 manicures, pedicures, massagistas e esteticistas, um mercado eminentemente informal. Os salões de beleza não são obrigados a contratar profissionais pelo regime em carteira desde 2016, com a Lei do Salão Parceiro. “O trabalhador brasileiro já percebeu que ser empregado pela CLT não vale a pena, por causa do alto volume de impostos. Ele prefere atuar como autônomo em plataformas como Uber, Singu e Rappi”, afirma Tallis Gomes, fundador da Singu. Para ele, a vantagem da plataforma é ajudar o profissional a ganhar mais, já que fica com 35% da receita, enquanto há salões que embolsam até 70%.

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Atuar como autônomo também tem suas desvantagens, evidentemente. De acordo com uma pesquisa que Renan Kalil, pesquisador da Universidade de São Paulo, realizou com motoristas da Uber na capital paulista, 53% deles trabalham mais de 10 horas por dia e 68% dirigem mais de cinco dias na semana. O objetivo é gerar renda para pagar suas despesas imediatas, ou seja, conseguir um mínimo para sobreviver. Nesse sentido, já que na maioria das vezes não se trata de um trabalho para obtenção de renda extra, será que essas pessoas podem ser consideradas funcionárias da Uber? A companhia, como as demais de mobilidade, diz que não. Contudo, autoridades ao redor do mundo têm visto o fenômeno de forma distinta. O Reino Unido decidiu que os motoristas da Uber compõem uma categoria intermediária entre empregado e autônomo. Em janeiro, a Uber e sua concorrente Cabify anunciaram o fim das operações em Barcelona, na Espanha, pelo que consideram regulações excessivas. Nos Estados Unidos, a Uber processou neste ano a prefeitura de Nova York por causa de regulações. Em 2017, a empresa chegou a ser proibida de operar em Londres. Assim como ocorre no exterior, o Brasil também se vê em meio a esse debate. Auditores fiscais do trabalho autuaram, em meados do ano passado, empresas como a Rappido, que pertence à Movile. No fim de 2017, a Loggi também foi autuada. Recentemente, o Ministério Público do Trabalho divulgou um estudo apontando a possibilidade de reconhecimento de vínculo entre trabalhadores e plataformas, criando uma nova categoria para classificar esses profissionais que atendem aos aplicativos.

Se há um ponto positivo nessa nova relação de trabalho é o fato de que motoristas e outros prestadores de serviços têm a chance de contribuir para a Previdência – seja pagando por conta própria, seja tornando-se um microempreendedor individual (MEI). Em 2018, o setor de entrega rápida (motoboys) ganhou 44.000 novos cadastros de pessoa jurídica, um crescimento de 148% em comparação com 2017.lsso é reflexo justamente do avanço dos aplicativos que passaram a exigir que os profissionais fossem formalizados. Também é possível notar o crescimento expressivo em atividades de transporte de passageiros, como taxistas e motoristas de aplicativos como Uber e 99. Foram18.000 novos taxistas que se tornaram microempreendedores individuais, representando um aumento de 42% em relação a 2017, de acordo com dados exclusivos da companhia MEI Fácil. Segundo o Instituto Locomotiva, sete entre dez trabalhadores que geram alguma renda com aplicativo nas regiões metropolitanas não têm emprego com carteira assinada, e 67% são das classes C, D e E (enquanto só 7% são da classe A). “Por um lado, os governos não devem inibir plataformas que empoderam as pessoas. Por outro lado, plataformas como Uber e Lyft não permitem que seus motoristas definam preços nem tomem decisões de marketing. É nessa fatia que os governos deveriam atuar para evitar um aumento das desigualdades”, diz Sundararajan, da Universidade de Nova York. É uma realidade nova, que colocará empresas, prestadores de serviços, consumidores e governos diante de questões novas. Como mostra a próxima reportagem, a realidade insiste em se adiantar às regulações. Em muito pouco tempo, separar a economia dos aplicativos do restante da sociedade será simplesmente impossível. Para um país com 13milhões de desempregados e com uma economia que insiste em não decolar, uma coisa é certa: quanto mais inovação, melhor.

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OUTROS OLHARES

JOGOS DE AZAR ON-LINE

A venda de “itens” em games do tipo loot box (caixa de recompensa) pede levar ao vício, o que já desperta preocupação mundo afora – em especial, por causa das crianças.

Jogos de azar on-line

Há cerca de um ano, o web-designer Diego Turco, de 32 anos, que vive em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, percebeu que tem problemas com jogo. Seu vicio consiste em abrir compulsivamente no smartphone o game finlandês de estratégia Clash Royale, e, entre as partidas, sacar várias vezes o cartão de crédito para comprar as chamadas loot boxes (caixas de recompensa) – baús virtuais que trazem, eventualmente, itens capazes de garantir vantagens na disputa. O problema: como em um jogo de azar, poucas vezes a caixa contém algo que realmente ajuda. Os valores são variados – 8 reais em média. Ao dedicar horas ao game, Turco já investiu 1.100 reais na brincadeira. “Os gastos que teria saindo de casa para me divertir eu converto em compras no jogo”, admite ele.

O Clash Royale não é o único nem foi o primeiro game do gênero loot box. A modalidade se popularizou no Ocidente em 2010 com o Trom Fortress. Sua estratégia: é possível baixá-lo gratuitamente no celular, mas o jogador gasta dinheiro para tentar adquirir “recompensas” nas “caixas”. O problema não está na compra, e sim no fato de não ser possível saber o que se ganhará com a despesa efetuada. Em uma tradução para o mundo real, esse tipo de game virtual funciona exatamente como os caça-níqueis. E, como eles, pode viciar. “Hoje tenho noção de que uma sensação incontrolável me coloca em um círculo vicioso com o objetivo de conquistar os prêmios”. diz Diogo Turco. “Sofro até ataques de arritmia cardíaca ao jogar. Preciso abrir baús em horas determinadas para ver se vem o item que quero”, relata. O vício de Turco – e de milhões de jogadores mundo afora – garante ao mercado de loot boxes um ganho extraordinário: avalia-se que gire em torno de 30 bilhões de dólares por ano.

A vocação viciante desse gênero de jogo está longe de ser mera impressão. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo governo australiano, que analisou o perfil psicológico de 7.000 praticantes, concluiu que as loot boxes têm as mesmas características das roletas, por exemplo. Segundo o estudo, o hábito de jogar tais games pode levar ao vício e ser “uma droga de entrada para o mundo das apostas“.

Há uma agravante. Enquanto nos cassinos só são permitidos adultos, o universo dos games é também povoado por crianças. Um caso emblemático ocorreu em 2018 no País de Gales – e disparou o alarme da comunidade europeia. O garotinho Jayden-Lee, de 10 anos, gastou o equivalente a 6.000 reais com extras do game americano Fortuite, que conta com 200 milhões de adeptos. Evidentemente, o dinheiro não era dele: saiu do cartão de crédito da mãe. Cleo Ducket, portadora de sequelas de poliomielite – ela anda de cadeira de rodas. Cleo zerou sua conta bancária para cobrir a fatura e precarizou seus cuidados com a saúde. A história de Jayden-Lee causou comoção e foi uma das motivações para que o Fórum Europeu dos Reguladores de Jogo publicasse, em outubro, uma declaração assinada por quinze países que exige análise urgente do problema. Duas nações europeias, a Bélgica e a Holanda, baniram tal tipo de jogo.

Em tese, pela classificação etária, crianças não poderiam comprar as loot boxes. Entretanto, é comum que elas mintam a idade – e assim mirem na jogatina. Por causa disso, em fevereiro passado, os Estados Unidos – onde o fortíssimo lobby da indústria de videogames atua desde 2017 pela não regulamentação dos jogos – decidiram, por meio do FTC, órgão dedicado à proteção ao consumidor, abrir uma investigação sobre a prática. Em uma decisão preliminar, definiu-se que caberá às desenvolvedoras a incumbência de checar – não se sabe ao certo como – a idade dos clientes. Se uma criança mentir e não for detectada, a responsabilidade será da empresa. No Brasil, ainda não há discussão avançada em torno do tema. Contudo, como grande parte dos games é produzida na Europa e nos EUA, espera­ se que as normas firmadas por lá sejam adotadas também aqui.

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GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ PERGUNTA, O ROBÔ RESPONDE

KLM, CNN e Sephora já estão usando o recurso

Você pergunta, o robô responde

O diálogo da imagem foi inventado, mas a possibilidade de trocar mensagens e pedir informações a um robô é real e cresce em progressão geométrica. Hoje, gigantes do mundo corporativo, como a aérea KLM, a rede de notícias CNN e a companhia de produtos de beleza Sephora, só para citar alguns exemplos, já usam essas máquinas dotadas de inteligência artificial, chamadas de chatbots, para interagir com os consumidores. Nesses casos, elas ajudam na venda de passagens aéreas, oferecem notícias, ou mesmo, orientam, passo a passo, como usar determinado tipo de maquiagem.

O potencial desses robôs começa a despontar. Em abril, por exemplo, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, anunciou a liberação de sua plataforma de mensagens, o Messenger, para a criação dos chatbots. A ideia é que o serviço reine entre os bots, assim como a App Store domina os aplicativos. Ou seja, que se transforme em um berçário, um novo ecossistema para o uso (e o abuso) dos desenvolvedores de robôs de bate-papo. “Eu nunca conheci ninguém que gostasse de ligar ou instalar um app para interagir com uma empresa”, disse Zuckerberg. “Então, nós gostaríamos de mostrar uma forma mais interessante de fazer isso.” Detalhe: dois meses depois, em junho, a empresa divulgou uma nota comemorando a conquista de 1 bilhão de usuários no Messenger. Ou seja, se a moda dos robôs pega ali…

Há mais. Segundo o instituto de pesquisa eMarketer, 2,19 bilhões de pessoas vão usar serviços de troca de mensagens em 2019, o que representará 68,2% dos usuários de internet móvel em todo o mundo. Se os consumidores estão mergulhando nos ambientes fechados dos messengers, é esperado que as empresas trilhem o mesmo caminho. Daí o interesse das companhias pelos robôs falastrões: de abril para cá, 18 mil bots foram lançados somente no Messenger, segundo informações do Facebook. Entre as marcas que aderiram à onda está justamente a KLM. Ela criou um serviço que ajuda na reserva de passagens, indica quando o check-in é aberto ou se há atraso nos voos. Tudo a partir de mensagens de texto, direto no Messenger, sem a necessidade de instalar um aplicativo. Para participar da “conversa”, basta adicionar a empresa entre os contatos, como se faz com um amigo qualquer.

No caso da rede de televisão americana CNN, assim como no do jornal The Wall Street Journal, o objetivo dos bots é interagir de forma proativa com os leitores. Ambos os veículos criaram programas que enviam as notícias do dia para a telinha de bate-papo do Messenger. A qualquer momento o leitor recebe sugestões em uma lista de assuntos e escolhe se quer acessar algum deles. Se nenhum interessar, contudo, a pessoa pode digitar o tema sobre o qual quer ler.

O Brasil também já tem seus robôs em ação. Um deles é a Meeka, criada pelo Mecasei.com, site que auxilia noivos a organizar casamentos. Também via Messenger, o sistema ajuda a controlar os gastos, a fechar a lista de presentes e a encontrar os fornecedores para a festa. Ainda em fase de teste, outro robô brasileiro disponível para um papo é o Bigode, gatinho simpático criado pela startup paulista Calamar para ajudar na venda de passagens de ônibus.

Para uma empresa, a vantagem de usar o bot em vez do aplicativo é diminuir o número de passos para chegar até o consumidor. Enquanto o aplicativo exige que o usuário vá até uma loja para fazer o download, o bot pode ser “chamado” para uma conversa no programa de bate-papo, seja ele o Messenger, o Telegram, o Skype, o WeChat, ou mesmo um SMS convencional. O WhatsApp, que também pertence ao Facebook, está fora da lista. Zuckerberg e sua turma ainda não liberaram o uso de robôs nessa plataforma. Considerando que este é o serviço de mensagens mais popular do mundo, é de se supor que a demora tenha uma boa – e rentável – justificativa.

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UMA NOVIDADE DE 50 ANOS
O uso de robôs no relacionamento com seres humanos não é novo. A primeira experiência do tipo aconteceu em 1966, quando o laboratório de inteligência artificial do MIT desenvolveu o Elisa. O programa usava um sistema de inteligência artificial primitiva para responder perguntas abertas feitas por pessoas, o que criava uma impressão de conversa entre as partes. De lá para cá muita coisa mudou. E alguns fatores foram determinantes para garantir que agora a tecnologia realmente deslanchasse: a familiaridade dos consumidores com os serviços de mensagens, o amadurecimento da própria inteligência artificial, o avanço do reconhecimento de linguagens pelas máquinas e a popularização da computação em nuvem. Se antes era necessário comprar servidores e se debruçar sobre bits para colocar um robô no ar, hoje sequer é preciso programar. Basta contratar o serviço, plugar e sair usando.

Facebook, Microsoft e IBM estão entre as empresas que fornecem “motores” de bots. Com isso, Microsoft e Facebook querem dominar o mercado de robôs para, entre outros benefícios, garantir território nesse novo mundo. Assim, podem tentar diminuir a desvantagem competitiva em relação à Apple e ao Google, que detêm o controle dos sistemas operacionais móveis. Na IBM, o protagonista desta tarefa é o Watson, a plataforma de computação cognitiva criada em 2007. Dentro dela há o Watson Developer Cloud, uma espécie de prateleira virtual onde os desenvolvedores encontram peças avulsas para criar suas próprias máquinas. “Dependendo da complexidade, é possível criar um bot em apenas um dia sem pagar nada por isso”, diz Thiago Rotta, arquiteto líder de soluções para IBM Watson no Brasil.

Além de mais fácil de usar, a inteligência artificial também tem aumentado o realismo dos robôs. “Há 50 anos a tecnologia era bem simples, com perguntas abertas e respostas genéricas”, diz Richard Chaves, diretor de inovação e novas tecnologias da Microsoft. Segundo ele, hoje as simulações são quase um teste de Turing, criado para medir a capacidade de uma máquina de se comportar como um ser humano. Um exemplo marcante desse realismo na empresa de Bill Gates é a Xiaoice, robô chinesa que tem mais de 20 milhões de “amigos”. Eles interagem com ela em média 60 vezes por mês. É um bot de bate-papo da rede social Weibo, espécie de Twitter asiático, com 700 milhões de usuários.

Segundo a Microsoft, a Xiaoice é capaz de contextualizar uma conversa com assuntos da atualidade como celebridades, esportes ou finanças, e ainda conta piadas e recita poesias. As pessoas falam com ela sobre assuntos corriqueiros ou discutem problemas pessoais. O espantoso é que, não raro, os humanos encerram a conversa com a máquina usando a frase “I love you”. Tamanha popularidade, e carinho, fez com que Xiaoice fosse escolhida como o perfil mais influente da rede social chinesa por vários meses seguidos.

No Ocidente, outro experimento parecido da Microsoft ganhou fama, mas por conta de um tropeço robótico. Em março deste ano, a empresa apresentou a Tay, um robô de inteligência artificial com a missão de conversar de forma descontraída com os usuários do Twitter e aprender a falar como os jovens. Deu certo. Aliás, deu tão certo que virou um problema. Tay aprendeu a interagir com as provocações dos internautas. Ela se tornou machista, racista, grosseira – e nazista. Em menos de 24 horas, seus tuítes mudaram de “humanos são superlegais” para “Hitler estava certo”. O chatbot foi tirado do ar e a empresa desculpou-se com os consumidores. “Para a Microsoft, foi um grande aprendizado. Poderia dizer que é um ótimo caso de machine learning, pois ela reproduziu o que as pessoas ensinaram”, diz Chaves. A questão é o que ensinaram.

ADEUS APPS?
Somente no primeiro trimestre de 2016, 17,2 bilhões de aplicativos foram baixados nas lojas da Apple e do Google, segundo estudo divulgado pela Sensor Tower. O número representa um aumento de 8,2% sobre o mesmo período do ano passado. É ingênuo dizer que os chatbots ameaçam o mundo dos apps. “Os bots não são uma ameaça aos aplicativos, pelo contrário, são tecnologias complementares”, diz Samuel Rodrigues, analista da consultoria IDC. Mas não há como negar que os robôs mudarão a forma como as empresas criam suas pontes com os consumidores, ainda que, para determinados fins, como jogos, edição de fotos e de vídeo, o app continue sendo a plataforma mais indicada.

Seja como for, projetar o que aconteceu no mundo dos aplicativos para os bots é inevitável. Assim como existem a App Store e a Play Store para vender aplicativos, já foi criada uma loja para distribuir bots. A Kik (bots.kik.com) se auto intitula uma bot shop. Nela são oferecidos robôs subdivididos em quatro categorias: entretenimento, notícias, lifestyle e games. Em meados de julho havia 88 robôs, entre eles alguns de grandes empresas. A varejista H&M tem um bot consultor de moda, que sugere peças para combinar com looks indicados pelo usuário. O já citado robô da Sephora dá dicas de maquiagem, e o do The Weather Channel informa a previsão do tempo.

QUER TECLAR?
É curioso imaginar que, com os bots, a comunicação por texto tenha ganhado novo fôlego, num momento em que vídeos e fotos dominam as redes sociais. Mas a escolha foi consciente. “É difícil reproduzir a voz humana de forma realista e com emoções usando um robô. As pessoas se sentem mal quando percebem que estão conversando com uma máquina, por isso o texto é a comunicação mais indicada nos chatbots”, diz Thiago Christof, sócio- fundador da Calamar, startup 100% voltada à produção de chatbots.

Como as experiências do mercado com essa tecnologia estão começando, os caminhos para tirar o máximo proveito dos robôs ainda estão sendo desbravados. Assim como os sites que surgiram nos primórdios da internet pareciam a reprodução de um folder impresso na web, os chatbots ainda reproduzem a experiência de uso dos aplicativos. “As empresas vão descobrir na prática a melhor forma de usar a nova interface”, diz Christof.

No horizonte próximo, as principais oportunidades que aparecem para o uso de robôs estão nas aplicações de atendimento ao cliente. É possível colocar um bot para receber um pedido de delivery, por exemplo. No caso de uma pizza, a empresa terá de inserir no sistema os sabores que oferece, os tamanhos e seus respectivos preços. “Se o cliente escrever ‘quero uma de mozarela’, a inteligência artificial vai reconhecer e replicar: ‘Entendi, você quer uma pizza de mozarela. Pequena, média ou grande?’”, diz Chaves, da Microsoft.

Além de atender milhares de consumidores ao mesmo tempo, e isso a qualquer hora do dia, os chatbots têm a vantagem de acrescentar uma camada a mais de inteligência no sistema, analisando o histórico de pedidos de um cliente durante uma conversa. Com isso, podem sugerir um serviço adicional ou um produto de forma mais assertiva, baseados no perfil e nos costumes daquele consumidor. “Cerca de 70% dos contatos em um call center são para fazer os mesmos tipos de perguntas. Se as empresas delegarem aos bots esse tipo de atendimento, elas deixarão a comunicação humana disponível para interações mais complexas”, afirma Christof. “Há um ganho na agilidade do atendimento e na redução de despesas”, acredita o fundador da Calamar.

No que diz respeito à privacidade, há uma preocupação, especialmente das empresas donas dos serviços de mensagens em garantir que os robôs não sejam invasivos. No Facebook, antes de entrar no ar, o bot passa por um teste minucioso. Qualquer dúvida ou receio em relação a uma funcionalidade basta para que o projeto seja bloqueado. Na hora de iniciar uma conversa, nada de invadir o espaço do usuário. O Facebook segue uma regra segundo a qual a iniciativa de começar uma conversa seja sempre do usuário. Após o primeiro contato, a empresa passa a ter a possibilidade de mandar notificações, sugerindo serviços ou passando informações relevantes. Mas se o consumidor decidir que não quer mais ser abordado, basta um clique para “por fim à relação”. A vantagem, nesse caso, é que ninguém vai chorar. Ou melhor, a não ser os seguidores da “amada” Xiaoice, a robozinha chinesa.

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ESTE É PRA CASAR
Antecipar problemas e deixar os noivos seguros é a principal missão da Meeka, bot criado pela startup brasileira Mecasei.com para ajudar na organização de casamentos. Com aparência divertida, a robozinha carrega internamente o Watson, a plataforma de computação cognitiva da IBM. O bot está disponível no Messenger desde junho, e é capaz de responder a perguntas como “quais fornecedores ainda precisam ser pagos” ou “quantos convidados já confirmaram presença”. “O Watson faz o trabalho de traduzir dados como planilhas, formulários e relatórios em textos, e quando alguém pergunta algo para a Meeka, ela dá a resposta como se fosse uma pessoa, simulando um diálogo real”, diz Marcio Acorci, cofundador da Mecasei.com. Feliz com os resultados dos primeiros meses de uso, o Mecasei.com tem planos mais ambiciosos para seu robô. “Neste momento estamos ensinando o bot a falar, o próximo passo é ensiná-lo a vender”, diz Acorci.

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BUTIQUE DE ROBÔS
O fenômeno dos bots é recente, mas há no Brasil uma empresa 100% dedicada a desenvolver essa tecnologia. É a Calamar, startup criada em São Carlos, um polo tecnológico no interior de São Paulo. A empresa iniciou seus trabalhos no início deste ano e, em julho, colocou no ar uma primeira versão – ainda em beta – do bot. Batizado de Bigode, o robô auxilia as pessoas na venda de passagens de ônibus. Além dele, a empresa tem outros dez projetos em desenvolvimento, a maior parte voltada para atendimentos em call center. “A demanda é grande nessa área”, diz Thiago Christof, cofundador da Calamar. A turma da empresa fez todo o desenvolvimento da inteligência artificial e do reconhecimento de diálogos. Como são ferramentas muito customizadas, os preços para adquirir um bot podem variar, mas com R$ 10 mil já é possível encomendar um deles.

OUTROS OLHARES

QUANTO VALE A VIDA?

O total de ações judiciais pedindo remédios e tratamentos ao Estado e às operadoras de saúde aumenta mais de 100% em nove anos. Sem preparo técnico, os juízes tornam-se os responsáveis por decidir quem tem direito ao que há de mais moderno na medicina. Os dados esquentam a discussão sobre o polêmico processo de judicialização da saúde que toma conta do País

Quanto vale a vida

O título desta reportagem é uma pergunta sem resposta. No campo moral, a vida é o maior valor da humanidade e, por isso, não tem preço. No entanto, descendo da escala ética para a crueza de uma realidade em que o dinheiro é escasso, ela pode ser precificada e algumas acabam valendo mais do que outras. É o que acontece quando um cidadão entra com uma ação na Justiça para que tenha direito a um remédio ou a um tratamento importante para sua saúde ou evitar sua morte. Em geral, as decisões dos juízes são favoráveis aos pacientes, o que é ótimo para eles. No âmbito da saúde coletiva, porém, é um desastre. Afinal, a pessoa que obteve na Justiça uma vitória individual de alguma forma conseguiu fazer com que a sua vida valha mais do que a de alguém nas mesmas condições de saúde, mas que não consegue pagar um advogado ou sequer tem a informação de que isto pode ser feito. O paciente vitorioso tem culpa de sê-lo? Não. Segundo a Constituição, todos têm direito à saúde e o que ele fez foi acionar a Justiça para se assegurar deste direito. Não há culpa nestas situações, há sim uma desigualdade no tratamento que pode ser condenável, se analisada do ponto de vista coletivo, ou aceita se considerada pelo aspecto individual e legal. Este é o principal dilema trazido pela crescente judicialização da saúde, um fenômeno mundial que, no Brasil, alcança patamares impressionantes.

Segundo pesquisa recente solicitada pelo Conselho Nacional de Justiça ao Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), entre 2008 e 2017 houve um aumento de 130% no número anual de processos judiciais envolvendo questões de saúde na primeira instância. No mesmo período, o número de processos em geral cresceu 50%. Ou seja, menos do que a metade do que as demandas por saúde. “Em 75% dos casos os juízes dão ganho de causa aos pacientes, independentemente de as ações serem contra o Estado ou contra seguradoras privadas de saúde”, explica Paulo Furquim, do Centro de Regulação e Democracia, do Insper, e responsável pelo estudo. Estes números dão a exata dimensão do que está acontecendo hoje na gestão da saúde no Brasil: os magistrados, e não os médicos, arbitram quem deve receber um tratamento. Aqui, novamente, não há culpa dos juízes. Eles trabalham para julgar e decidir. No entanto, falta a eles preparo técnico para tomar decisões sobre problemas específicos e por diversas vezes polêmicos até entre a comunidade médica. Se acertam em milhares de casos, concedendo o que é demandado porque realmente precisa ser ofertado, eles também erram, e muito. “Eles não tornam explícitas as informações técnicas nas quais baseiam suas sentenças”, afirma Furquim. “É preciso facilitar o treinamento dos juízes.” O órgão técnico existente com essa finalidade é o Núcleo de Apoio Técnico do Poder Judiciário. No entanto, por causa da enorme demanda, é cada vez mais difícil dar conta de tantos processos.

Um caso emblemático de decisão equivocada foi a determinação, pela Justiça, do fornecimento pela Universidade de São Paulo (USP) de cápsulas de fosfoetanolamina. Trata-se de um produto sem eficácia comprovada contra o câncer que havia sido pesquisado na instituição e que despertou em muitos a esperança de cura. Cerca de 13 mil processos judiciais foram abertos contra a USP em 2015 pedindo as tais cápsulas. Como muitos ganharam liminares favoráveis, a USP teve produzir e dar a substância, apesar de não haver prova científica de benefício.

Em compensação, há centenas de doentes, em especial portadores de doenças raras, que não têm outra saída a não ser a judicialização. Há no Brasil 13 milhões de portadores de enfermidades do gênero. “Essas doenças são tratadas com drogas órfãs, únicas para cada tipo de patologia”, explica Antoine Daher, presidente da Casa Hunter, entidade de apoio a pacientes com enfermidades raras. Apenas 3% delas têm tratamento, normalmente com medicações de alto custo. Alto mesmo. Tome-se o exemplo da Atrofia Muscular Espinhal (AME), doença neuromuscular caracterizada por perda dos neurônios motores da medula espinhal e do tronco cerebral, o que leva à fraqueza muscular progressiva e atrofia. Recentemente, surgiu a primeira e única medicação para a enfermidade, o Spinraza. Porém, cada dose custa R$ 365 mil. O paciente tem que usar seis doses no primeiro ano e três nos anos seguintes.

Quanto vale a vida. 2

Como uma família pode bancar isso sozinha? Praticamente impossível. Por isso, elas recorrem à Justiça. E há alguém capaz de dizer que se trata de uma medicação cara demais e que, portanto, aquele doente não possui direito à única chance de vida que tem? Impossível também. A vida de Gian Lucca Trevellin, seis anos, acometido pela AME, não vale o preço? Vale, claro. E a Justiça entendeu isso, concedendo à família o direito ao tratamento. Mesmo assim, isso não quis dizer que tudo correria sem pedras no caminho. “Em fevereiro de 2017 conseguimos decisão judicial favorável para que meu filho tomasse o Spinraza. Mas só recebemos o medicamento em março de 2018. Nesse período, 70 crianças morreram em decorrência da doença”, contou Renato Trevellin, pai de Gian Lucca e presidente da Associação Unidos pela Cura da AME. Hoje há cem pessoas recebendo a droga no País.

Outro exemplo de que a judicialização se mostra o único caminho é o fornecimento do remédio Soliris, indicado para a enfermidade rara chamada Hemoglobinúria Paroxística Noturna, que afeta o sistema sanguíneo. O tratamento custa quase R$ 2 milhões por ano. Mais de 300 pessoas conseguiram o remédio, gerando um custo para o Estado de R$ 700 milhões por ano. “É um caso legítimo porque se trata da vida de pessoas. Mas esse dinheiro sai de outros programas públicos, como vacinação e saúde da família, relevantes para uma quantidade maior de pessoas”, afirma o economista Furquim, do Insper. Só em 2017, o Ministério da Saúde destinou R$ 1,02 bilhão para compra de remédios e tratamentos exigidos por demandas judiciais.
Sem dúvida, é muito dinheiro em um país onde o cobertor para ações sociais é historicamente pequeno para o tanto de gente que deve cobrir. O ex-secretário de saúde de São Paulo, David Uip, por exemplo, quando no exercício do cargo viu-se rotineiramente diante de sentenças judiciais justas que não tinha como cumprir na prática por falta de recursos. Mas também deparou-se com pedidos absurdos cedidos pela Justiça, como o fornecimento pelo Estado de sabonetes a remédio para cachorro, além de esquemas de fraude. Mas, nos casos de necessidade real, como gestor que era, lutava diariamente para resolver o dilema ético que povoa principalmente a mente de quem determina para onde vai o dinheiro: afinal, quanto vale a vida? Quem morre para que outros sobrevivam?

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GESTÃO E CARREIRA

FUNCIONÁRIO “TÓXICO” É UMA DROGA

Agressivo e crítico, ele sabota a equipe e gera prejuízos milionários.

Funcionário tóxico é uma droga

Muita gente já trabalhou com pessoas agressivas ou mal-humoradas, que tratam a todos com desrespeito e, pior, acabam “contaminando” os humores da equipe, até mesmo dos mais cordiais, que também passam a adotar esta atitude como forma de defesa ou revide. É o fenômeno chamado de “comportamento tóxico”, que inclui falta de diálogo, críticas azedas e públicas a alguma proposta do colega ou omissão de informações apenas para sabotar o progresso profissional de alguém que julga concorrente. E não se trata apenas de um problema psicológico de relações humanas: o funcionário tóxico é fonte de perdas financeiras significativas. Estudo da School of Management da Universidade de Buffalo, em Nova York, publicado pelo Journal of Applied Psychology, revela que esse comportamento, ao provocar problemas de saúde, alta rotatividade e baixo desempenho na equipe, gera perdas de quase US$ 6 bilhões anuais à economia americana.

Os autores realizaram duas pesquisas envolvendo 182 funcionários de 25 departamentos de dois bancos, para verificar o grau de “contaminação” do comportamento tóxico. Na primeira, consideraram fatores como sentimentos de vitimização e justiça interpessoal e, na segunda, os níveis de falta de engajamento moral e social e a sensação de falta de recursos para cumprir suas tarefas. Uma das conclusões principais do estudo: quando alguém se sente tratado de forma desrespeitosa, sua tendência é tornar-se mais egoísta e fechado em si mesmo, em consequência de uma percepção de injustiça. “Agora é minha vez de dar o troco”, pensaria a pessoa nessa situação, tornando o comportamento tóxico uma espécie de regra do jogo do ambiente de trabalho. Outra consequência nefasta é a do esgotamento emocional, que afeta diretamente a produtividade.

Uma das soluções para evitar esses problemas, segundo recomendam os autores, é tentar recrutar funcionários que já apresentem altos valores morais. Esse tipo de personalidade funciona como uma espécie de antídoto, que torna a pessoa menos suscetível ao comportamento tóxico e evita que este se propague pela empresa. Outra opção de “tratamento” é enfatizar os valores morais da organização, oferecendo treinamento sobre ética e criando um ambiente que ressalte esses valores – até mesmo a colocação de cartazes com mensagens no ambiente de trabalho pode contribuir para influenciar positivamente o comportamento da equipe.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA AULA SOBRE PERVERSÃO

Filme embasado em fatos reais sobre adolescente de aparência delicada, que pratica atos cruéis, dirigido por Luís Ortega e produzido por Pedro Almodóvar, questiona o estereótipo do bandido.

Uma aula sobre perversão

Sabe aqueles exemplos que professores buscam para falarem sala de aula sobre estruturas psíquicas? Pois bem, o filme O Anjo oferece uma ideia bastante clara do comportamento perverso. Os cachos louros, traços delicados, rosto angelical e corpo esguio fizeram com que, no início da década de 70, o jovem Carlos Robledo Puch fosse chamado por esse apelido. Preso há 45 anos (o período mais longo de detenção já registrado na história da Argentina), Puch confessou ter cometido, ainda na adolescência, 11 assassinatos, mais de 40 roubos e vários sequestros. Um recorte da história de sua adolescência conturbada é apresentado no filme dirigido por Luís Ortega e produzido por Pedro Almodóvar.

O jovem sem limites, interpretado por Lorenzo Ferro (chamado de Carlos no filme), apresenta o que a psicanálise considera um exemplo de perversão, uma estrutura psíquica caracterizada por mecanismos de recusa da castração. Ou seja, a pessoa com traços predominantemente perversos não se incomoda com noções de certo ou errado. Já nos primeiros minutos do filme, ao invadir calmamente uma casa, o personagem esclarece que é ladrão: “Sempre fui ladrão”. E, como tal, ele rouba sem culpa nenhuma – tanto objetos quanto vidas.

Em seu texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Sigmund Freud escreveu: “As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada da criança”. E mais adiante afirma: “Todos os psiconeuróticos são pessoas de inclinações perversas fortemente acentuadas, mas recalcadas e tornadas inconscientes no curso do seu desenvolvimento. Por isso suas fantasias inconscientes exibem um conteúdo idêntico ao das ações documentadas nos perversos”.

Na perversão, o desejo aparece como vontade de satisfação, isento de qualquer culpa. O perverso sabe o que quer e isso é a base da sua convicção de que pode “pegar o que quiser”, pois tudo está a seu alcance. Arrogância, inibições, recriminações, autoacusações e frustrações que angustiam o sujeito neurótico simplesmente não o atingem. Aliás, o perverso não se penaliza com o sofrimento alheio. Sem empatia, não compreende a dor do outro, que lhe parece estranha, desprezível. É assim que o personagem Carlos se mostra: sem limites, sem compaixão, sem culpa. Um rosto angelical, uma mente cruel.

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