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EXERCÍCIOS PROTEGEM CONTRA O ALZHEIMER

Cientistas brasileiros descobrem como a prática de atividades físicas melhora a memória e até ajuda a restaurar as lembranças perdidas por causa da doença.

Exercício protege contra o alzheimer

O exercício físico é considerado pela medicina um remédio natural contra infarto, acidente vascular cerebral, depressão e câncer. Mais recentemente, surgiram evidências dos benefícios para o cérebro, especialmente para conter a perda de memória e o declínio cognitivo que marcam a doença de Alzheimer. Na semana passada, pesquisadores brasileiros confirmaram os efeitos positivos da prática e foram além, mostrando o mecanismo pelo qual exercitar-se regularmente é uma boa forma de prevenção e de tratamento da enfermidade. Em artigo publicado na versão online da revista científica Nature Medicine, a equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro responsável pelo estudo mostrou que a explicação está na irisina, hormônio liberado durante a execução de exercícios. Ela protege o cérebro e restaura a capacidade de memorização perdida com o avanço da doença.

A informação trazida à luz pelos brasileiros é uma peça importante no enorme quebra-cabeça que o Alzheimer ainda representa para a medicina. Ele não tem cura, exame específico de diagnóstico ou um programa bem estabelecido de prevenção. Isso porque, como a maioria das enfermidades neurodegenerativas, sua origem e evolução têm causas complexas e difíceis de serem estudadas com os recursos disponíveis. O problema é que, com o envelhecimento da população, é urgente encontrar meios efetivos de preveni-la e de tratá-la. Hoje, há cerca de 35 milhões de pessoas no mundo com a doença — um milhão no Brasil. Em 2050, serão 135 milhões no planeta, o que a tornará um grande problema de saúde pública.

MENSAGEIRO QUÍMICO

A irisina ficou conhecida em 2012, quando o biólogo americano Bruce Spiegelman, da Universidade Harvard (EUA), a descreveu como um mensageiro químico produzido pelos exercícios. Veio daí a inspiração para o seu nome, o da deusa grega mensageira Íris. O hormônio transforma o tecido adiposo branco, que guarda energia em forma de gordura, em marrom. Este dissipa energia sob a forma de calor.

Sua descrição inspirou os cientistas brasileiros a estudar qual seria seu papel no cérebro. Foram sete anos de pesquisa envolvendo cobaias, amostras de cérebro extraídas de pacientes mortos e do líquido cefalorraquidiano coletadas de portadores. Eles chegaram a conclusões importantes: o exercício físico estimula a produção de irisina diretamente no cérebro, onde ela mantém preservadas as sinapses, os espaços entre os neurônios por onde trafegam os neurotransmissores (substâncias que fazem a comunicação entre as células nervosas). “Além disso, o hormônio provoca reações químicas dentro dos neurônios importantes para a memória”, explica Sérgio Ferreira, um dos autores do estudo. Todas essas funções protegem o cérebro da perda de capacidade de aprender e de armazenar informações e chegam a restaurar o que havia sido perdido.

Os dados podem embasar a criação de remédios contra a doença. Mas falta muito até lá. O próximo passo dos pesquisadores é compreender melhor a função do hormônio no cérebro. Depois, há ainda etapas de pesquisa em laboratório e, por fim, em humanos. Tudo isso levará anos. Porém, a informação de que o exercício pode prevenir e retardar a doença deve servir, já, como mais um estímulo para a sua prática. Não há um tempo estabelecido (as cobaias fizeram uma hora por dia de natação, durante cinco semanas), mas ao menos adotar a velha orientação de caminhadas diárias de 20 minutos, por exemplo, é um bom começo.

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TURBINANDO A FOTOSSÍNTESE

Ao modificarem geneticamente o processo de alimentação das plantas, cientistas americanos se aproximam de uma nova revolução – tornar a colheita de grãos ainda mais produtiva.

Turbinando a fotossíntese

Como o planeta conseguirá alimentar seus 9,8 bilhões de habitantes em 2050? A pergunta, que se refere ao futuro da humanidade, começou a ser respondida na semana passada, quando a revista Science publicou um artigo que mostrava o possível início de uma revolução – um aumento significativo da produtividade das futuras colheitas. Para que se ponha comida na boca de todos daqui a três décadas, a capacidade mundial de produzir alimentos terá de aumentar 60%. É um desafio e tanto. Considerando-se o ritmo atual de crescimento da produtividade agrícola, o planeta não obterá os 60% necessários até 2050. A saída é ampliar ainda mais a produtividade, e a pesquisa publicada na Science pode apontar o caminho revolucionário.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, conseguiu modificar geneticamente um dos processos mais básicos da vida vegetal – a fotossíntese.

Como se aprende nas aulas de biologia, as plantas produzem o próprio alimento através da reação química entre luz, água e gás carbônico que ocorre dentro de suas células. Nesse movimento contínuo de produção de energia, as plantas liberam no meio ambiente oxigênio, essencial para a respiração dos animais. O que poucos lembram é que a fotossíntese é composta de várias etapas, uma das quais se chama fotorrespiração – que, em linhas gerais, regula a temperatura da planta. Algumas espécies apresentam adaptações de metabolismo que praticamente a eliminam, como o milho e a cana-de-açúcar.

No experimento, os cientistas isolaram os genes de espécies de algas, abóboras e da bactéria Escherichia coli e os inseriram em plantas de tabaco, cujo ciclo de vida é mais acelerado e que, por isso, poderiam produzir resultados mais rapidamente. A ideia era que, reduzindo o metabolismo fotorrespiratório, as plantas de tabaco pudessem usar parte da energia para se desenvolver. Depois de duas colheitas, os pesquisadores confirmaram essa hipótese. As plantas de tabaco geneticamente modificadas apresentaram até 40% mais biomassa. Ou seja: cresceram mais que as plantas de tabaco sem modificações genéticas.

“É um avanço significativo”, garante o professor de genética de plantas Carlos Alberto Labate, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo. “O próximo passo será aferir se essa ideia se converterá em aumento de produtividade de grãos”, completa. No processo de fotorrespiração, o tabaco se assemelha a plantas essenciais para a alimentação humana, como a soja, o arroz e o trigo. Se os cientistas conseguirem aplicar a mesma técnica na produção de grãos, isso significará que tais plantas poderão vicejar em áreas de clima mais quente e com menos tecnologia, como o uso de defensivos agrícolas. “Por isso a Revolução Verde não ajudou os fazendeiros africanos”, diz uma das autoras da pesquisa, Amanda Cavanagh. A África tem um quarto dos terrenos aráveis do planeta – em contrapartida, a agricultura representa apenas 15% do PIB da região. A nova técnica seria uma vantagem e tanto na busca da resposta à pergunta sobre como alimentar quase 10 bilhões.

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A APOSENTADORIA DO SUTIÃ

Em busca de mais conforto e do reconhecimento da beleza natural dos seios, cada vez mais mulheres se libertam do acessório – mas enfrentam resistência.

A aposentadoria do sutiã

O sutiã já marcou importantes momentos na história da luta da mulher por seu espaço na sociedade e contra estruturas sociais que as oprimem. Depois de protagonizar a famosa manifestação de feministas contra a objetificação da mulher durante o concurso ”Miss América”, no chamado “Bra Burning” (“Queima dos Sutiãs”), em 1968, mais uma vez a peça surge como símbolo de libertação feminina. Agora a luta é pela abolição do seu uso. Cada vez mais as mulheres desejam tirá-la do corpo para viverem com seus seios da forma como eles são. Esse desejo simboliza uma busca pelo reconhecimento da sua beleza natural e da dessexualização do corpo feminino – que, na visão das militantes, foi levada ao extremo pela indústria do entretenimento. Além disso, representa uma luta pela igualdade de direitos em relação aos homens – que, diferentemente das mulheres, podem andar sem constrangimentos com os mamilos à mostra em alguns ambientes.

Celebridades brasileiras estão aderindo à tendência. É o raso de Cléo Pires, que costuma aparecer com os seios naturais sob as blusas e já se manifestou pelo Instagram sobre o tema. ”Meus seios não são órgãos sexuais. Antes, são órgãos feitos para alimentar um bebê”, disse ela, que criticou a política de censura de algumas redes sociais aos peitos das mulheres. Recentemente o Instagram e o Facebook foram questionados por alguns usuários por não permitirem a exposição de mamilos femininos, diferentemente dos masculinos. Outra personalidade que não vê problema em não usar a peça é Bruna Marquezine. “Amo e acho tão bonito”, disse em resposta a uma fã pelo Twitter. A tendência já é global e também pôde ser vista no tapete vermelho do Globo de Ouro, no domingo 6, nos looks de atrizes como Julia Roberts e Saoirse Ronan.

Em ambientes corporativos, porém, a ausência da peça provoca estranhamento. Além disso, algumas linhas da psicologia e estudos de neurociência afirmam que dessexualizar os seios seria impossível, uma vez que eles estão biologicamente vinculados à reprodução. Durante a amamentação, por exemplo, o cérebro feminino produz um hormônio semelhante ao que une um casal na vida adulta. E o fato das mamas se desenvolverem na puberdade faz com que elas estejam relacionadas com a capacidade de reprodução da mulher.

Uma das razões que incentivam o movimento conhecido como No Bra (“Sem Sutiã”, em inglês) é o benefício que a eliminação da peça pode causar à saúde das mamas. Estudos mostram que, ao contrário do que se pensava antes, sutiãs com arames, plásticos ou bojos podem fazer mal porque comprimem os peitos. Segundo Jean-Denis Rouillon, professor da Universidade de Franche­Comté e um dos poucos estudiosos do tema, o sutiã não evita os efeitos da gravidade no corpo. Rouillon constatou que eles ficam mais firmes quando o acessório não é usado, porque os tecidos e ligamentos têm de trabalhar e não degeneram. Além disso, sem ele a circulação do sangue é melhor e a temperatura das mamas se mantém natural. Pensando nisso, foi criado até um dia para encorajar as mulheres a não tirarem o sutiã do guarda-roupa. O “No BraDay” ocorre no dia 13 de outubro, durante o Outubro Rosa, e visa conscientizar sobre a autoavaliação para a prevenção do câncer de mama. As feministas, no entanto, protestam. Para elas, todo dia é dia da mulher deixar o sutiã em casa e libertar as mamas.

A aposentadoria do sutiã. 2

A aposentadoria do sutiã. 3

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O MURRO ANUNCIA A MORTE

O murro anuncia a morte

O estamento burocrático governamental no Brasil guarda a noção de que tudo se resolve por leis e decretos – nada mais natural. aliás, em uma República que, também ela, nasceu por decretação. No caso específico do crescente número de assassinatos de mulheres praticados por homens, que não aguentam psiquicamente ouvir da companheira “vamos terminar a relação amorosa”, essa tese fica clara. Fez-se a Lei Maria da Penha, criou-se a tipificação penal do feminicídio, e nada está resolvido. Vemos estarrecidos mulheres serem mortas a tiro, estranguladas, defenestradas, queimadas e brutalizadas a marretadas – na rua, em casa, em lojas, em resorts. Nos primeiros quatro dias de 2019, quatro mulheres foram mortas no Rio de Janeiro porque seus parceiros não aceitaram o fim do relacionamento. Em São Paulo, no mesmo período, o número de vítimas foi cinco. Em Goiás, quatro mulheres morreram em quarenta e oito horas. No País inteiro somam-se vinte e um feminicídios nos sete primeiros dias do (velho) ano novo. Na semana passada, um estudo inédito do Ministério da Saúde mostrou que três em cada dez mulheres que são assassinadas no País sofrem sistematicamente espancamentos. Ou seja: o bruto não se faz criminoso de uma hora para a outra, é como se o primeiro murro já anunciasse a morte, próxima ou distante. O estudo ganha relevância ao demonstrar que é bobagem considerar que leis mudam o temperamento de um agressor. O que está em questão é o transtorno da personalidade narcísica, que faz do portador um parceiro que “coisifica” a mulher. A solução está na educação, desde criança: formar indivíduos não hedonistas e não egoístas, aptos a suportarem a frustração amorosa, aprendendo que ciúme é psicopatologia e que ninguém é dono do corpo e da alma de ninguém.

O murro anuncia a morte. 2

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A SINA DAS MENINAS-NOIVAS

O Brasil é o país com o quarto maior número de “casamentos infantis”.

A sina das meninas-noivas

Para dar um fim ao martírio de dividir o mesmo teto com seu pai, cuja rotina incluía bater nos filhos e na mulher depois da lida na roça, Eriane Costa Ribeiro decidiu deixar o inferno familiar aos 12 anos. Acreditava ter algum futuro ao juntar-se com um homem de 38 anos que a assediava no bairro do Rio dos Cachorros, zona rural de São Luís, no Maranhão. A pequena Eriane estava apenas trocando de algoz. Na nova moradia, era espancada pelo companheiro todos os dias, além de cozinhar e limpar a casa. Com ele, teve uma filha. Cansada das agressões, fugiu de casa – sem levar a criança – para se abrigar na residência de um vizinho, que se tornou seu novo companheiro: Raimundo Nonato, de 48 anos. Hoje, aos 17, a adolescente espera o segundo filho e aparenta ter mais de 30 anos. Eriane deixou a escola na meninice e é economicamente dependente de Raimundo Nonato. Ela não sabe a tabuada de cor, mas dá conta de carpir um quintal de 300 metros quadrados e limpar a fossa usada como banheiro. Cozinha, limpa, engoma as camisetas do cônjuge, a quem chama de “senhor”.

Eriane é parte da fotografia triste do Brasil que continua afundado na miséria e no abismo da desigualdade social – e o Maranhão é o epicentro desse drama, com seu alto nível de pobreza e um dos mais elevados índices de “casamentos infantis”, expressão usada para designar casais em que um dos integrantes, ou ambos, não atingiu a maioridade.

O Brasil ocupa a quarta posição entre os países com maior número de casamentos infantis. Ao todo, 3 milhões de brasileiros vivem nessa condição – número inferior apenas ao da Índia (15,5 milhões), de Bangladesh (4,4 milhões) e da Nigéria (3,5 milhões). Em proporção da população, o Brasil fica à frente da Índia. Aqui, a incidência é de 1,4% da população. Na Índia, é de 1,2%. Nas franjas mais jovens, entre 10 e 14 anos, existem hoje 22.849 meninos em “situação de matrimônio”, como dizem os estudiosos do assunto. No caso das meninas, o número salta para 65.709.

Por definição, casamento é a união consensual entre duas pessoas donas de maturidade emocional e física com o desejo mútuo de construir uma família. A teoria parece um conto de fadas diante da realidade das meninas-noivas. As causas estão na gravidez precoce, na baixa escolaridade, na ausência de trabalho, na falta de perspectiva a longo prazo e na fuga de uma família desestruturada. Muitas vezes, todos esses fatores atravessam, juntos e incontornáveis, o destino da mesma garota. As sequelas vão além da perniciosa manutenção do círculo da pobreza. Segundo estudo da Harvard Medical School, as meninas­ noivas têm sete vezes mais riscos de morrer no parto por não terem corpo de adultas; seus bebês têm probabilidade 60% maior de morrer do que a média. As mães precoces também exibem alto índice de depressão, ansiedade e agressividade. ”A menina se vê presa em uma situação da qual não pode sair, por depender do marido para ter um teto e comer. Isso gera revolta. Muitas ficam agressivas e descontam a raiva nos filhos, com falta de paciência ou com violência física”, diz Stephany Mello, psicóloga e assistente social da prefeitura de Codó, uma das cidades mais pobres do Maranhão, onde há dezenas de meninas com menos de18 anos casadas.

No passado, o casamento de homens já na maturidade com meninas mal saídas da infância era uma praxe que contava com o respaldo da Igreja Católica. “O padre orientava o marido a consumar o casamento depois de a menina ter a primeira menstruação”, diz a historiadora Mary Del Priore. A prática acontecia em todas as classes sociais. As monarquias se uniam para manter a nobreza, o poder e a fortuna. A infanta Carlota Joaquina, por exemplo, casou-se aos 10 anos com o futuro rei dom João VI, então com18 anos. Era assim.

Ao longo do tempo, o próprio conceito de infância mudou com o aumento da expectativa de vida – um brasileiro vivia apenas 33 anos no início do século XX. Até a década de 50, ainda se considerava que a vida adulta da menina começava no dia seguinte ao início do ciclo menstrual. A migração da população do campo para a cidade, o surgimento da pílula anticoncepcional e os avanços nos direitos das mulheres mudaram o panorama. Somadas todas as mudanças na sociedade e a despeito dos avanços, é chocante o alto índice de casamentos infantis no Brasil. “Essa prática nociva tem como raiz a desigualdade de gênero”, diz a advogada Paula Tavares, especialista no assunto do Banco Mundial. “Em regiões onde o sexo feminino não tem a oportunidade de contribuir para a família, entrando no mercado de trabalho formal para ajudar com as despesas, as filhas são vistas como um fardo.” Há pais que não relutam em deixar as filhas sair de casa com 11 ou 12 anos para formar família com sujeitos mais velhos. Há os que, ao descobrir que a filha perdeu a virgindade, a expulsam de casa, alimentando o círculo vicioso.

“Os envolvidos em casamentos infantis não percebem a situação como absurda”, diz Alselmo Costa, coordenador da Plan International, uma ONG inglesa presente no Brasil há mais de vinte anos, dedicada aos problemas da infância. Essa constatação é sempre mais comum em regiões paupérrimas. “Na pobreza, o desconhecimento é substituído pela necessidade e pelas falsas ideias.” Em Timbiras, no Maranhão, apesar de não existir em estatísticas oficiais e confiáveis, os pares de idades muito discrepantes são corriqueiros. Timbiras tem IDH de 0,537, igual ao da Síria, país imerso em guerra civil. A maioria dos 28.000 habitantes do município vive em casas erguidas com barro. Banheiros com pia e vaso sanitário são luxo para poucos. A população cava buracos no quintal para as necessidades fisiológicas, o que atrai ratos, insetos e infecções. É preciso percorrer estradas esburacadas e sem segurança para chegar aos colégios de pau a pique, de condições precárias. Eis um terreno perfeitamente propício para a proliferação de relacionamentos tortos. É assim em boa parte das regiões desvalidas do Norte e do Nordeste.

O matrimônio infantil, no entanto, está longe de ser exclusividade dessas regiões. A cidade de São Paulo soma 25.561 casamentos de adolescentes de 15 a 18 anos incompletos em cartório civil. Mas, no entanto, 95% dos casos de casamento infantil no Brasil ocorrem sem registros oficiais. Quando a pobreza não é a mola propulsora dos casamentos infantis, entram em cena os valores religiosos e familiares. “Eu me casei depois de pedir orientação ao meu pastor”, diz a paulistana Daniele de Lima. Ela subiu ao altar grávida, aos 17 anos, após conhecer o companheiro, da mesma idade, pelo aplicativo Tinder. Ambos foram emancipados pelos pais para poder trocar as alianças. Nas grandes capitais, ao contrário do que ocorre nos centros distantes, o matrimônio entre jovens tem alto índice de separação.

Em um daqueles atrasos que se perpetuam sem que ninguém saiba exatamente como nem por quê, o casamento infantil não é ilegal no Brasil. Pela lei, qualquer menina pode se casar depois dos 16 anos desde que tenha autorização dos responsáveis. Em caso de gravidez, as garotas têm o direito de casar-se ainda antes disso: a partir dos 14 anos. “Se elas não têm maturidade para cuidar de si próprias, como vão tomar conta de uma família?”, questiona a deputada carioca Laura Carneiro. Ela é autora de um projeto de lei para retirar do Código Civil a permissão para casamentos abaixo da idade de 16 anos mesmo no caso de gravidez. “Tentei fazer com que esse projeto de lei fosse mais rigoroso, liberando o matrimônio apenas depois dos 18 anos, mas houve muita pressão de bancadas conservadoras no Congresso.” O projeto foi aprovado na Câmara, mas ainda tem de passar pelo Senado.

Ao estipular os 16 anos como idade mínima para casar-se, o legislador brasileiro deixou exposto um total de 3,4 milhões de meninas. O impacto de um matrimônio com tão pouca idade é permanente, mesmo depois do divórcio. O tempo que uma menina-esposa passou distante da escola não volta. As portas para o mercado de trabalho se fecham. Não por acaso, a Organização das Nações Unidas estabelece a idade de 18 anos como a mínima para constituir família. Em 2017, alguns países deram passos civilizatórios importantes ao mudar suas leis e acatar essa recomendação da ONU, caso da Guatemala, El Salvador, Honduras e Trinidad e Tobago. “Quando a mulher não tem perspectiva de estudar, trabalhar, ganhar seu dinheiro e, então, construir um futuro com autonomia, a única forma de se sentir útil é casar e engravidar”, diz Paula Tavares, do Banco Mundial. Sem quebrar esse ciclo, sem interromper os casamentos infantis, o Brasil jamais conseguirá chegar ao futuro.

A sina das meninas-noivas. 2

 

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AS NOVAS PÍLULAS MÁGICAS

Drogas apelidadas de smart drugs por supostamente aumentarem a inteligência ganham cada vez mais adeptos, apesar de pesquisas desmentirem seus efeitos.

As novas pílulas mágicas

Os olhos do advogado Waldemar Ribeiro Chaves – um jovem de ombros largos, queixo quadrado e os bíceps de um halterofilista – deixaram escapar um brilho de entusiasmo logo que ele começou a falar obre o coquetel de comprimido que toma diariamente, quatro vezes ao dia. São ao menos cinco pílulas, além de outros compostos em pó, que ele consome com água antes de iniciar a rotina de trabalho. Pílula para, supostamente, melhorar a memória, afiar o raciocínio ou apurar a concentração: “Sem elas, jamais faria meu trabalho na velocidade em que faço hoje”, contou, enquanto organizava o arsenal (sobre a mesa do escritório, uma sala com janela ampla e vista para a rua bem arborizadas do bairro de Pinheiros, região nobre de São Paulo.

As substâncias consumidas por Ribeiro são chamadas, popularmente, de nootrópico. Nos Estado Unidos, onde viraram febre entre estudantes universitários e empreendedores do Vale do Silício, ganharam um nome mais simpático – smart drugs. Ou drogas para a inteligência. Trata-se de uma cesta de compostos, que variam de suplementos naturais – como ginkgo biloba – a remédio psiquiátricos – como Ritalina e Venvanse. Essas substâncias crescem em popularidade, sob a promessa de melhorar as habilidades cognitivas de quem as usa. Ribeiro carrega as suas a tiracolo, em uma maletinha preta, fechada por zíper. Garante que, para ele, funcionam às mil maravilhas. Seu dia começa com uma dose de cinco nootrópicos, por volta das 8 da manhã. Todos têm nomes curiosos, como Huperzine – para a memória – e Aniracetam – para aguçar a atenção. O coquetel leva ainda uma dose de Noopept, um pó branco supostamente sintetizado na Rússia. É o pacote básico, no qual Ribeiro confia para desempenhar atividades cotidianas. Com ele, sente-se mais produtivo, mais concentrado. Demora mais a se cansar. Nos dias em que precisa frequentar eventos sociais importantes, ele adiciona elementos à mistura. É quando consome 600 miligramas de Fenilpiracetam: “Com ela, eu sinto que absorvo informação e concateno ideias muito rapidamente”, contou. A substância é derivada de uma antiga droga usada para tratar paciente de Alzheimer. “Ela me ajuda a manter conversas interessantes e fazer contatos profissionais. Algo de que um advogado precisa”. A droga integra também seu “pacote pré-balada”, porque o deixa mais desinibido.

Nas ocasiões em que o trabalho do escritório se acumula – coisa rara desde que passou a usar os nootrópicos, ele garantiu -, Ribeiro recorre à lisdexanfetamina, o Venvanse. Uma espécie de estimulante, de venda controlada, a lisdexanfetamina é comumente adotada no tratamento de transtorno de déficit de atenção. Ribeiro nunca foi diagnosticado com o problema. Usa a droga – cuja receita obtém com um amigo psiquiatra – porque ela o ajuda a manter a concentração em atividades maçantes: “Mas eu sou uma pessoa elétrica, e ela me deixa ansioso. Prefiro evitar”. Para o momento em que o remédio lhe causa crise de ansiedade, Ribeiro carrega a solução na valise: uma caixinha de Rivotril.

O termo nootrópicos foi cunhado pelo químico romeno Corneliu Giurgea em 1972, a partir das palavras gregas para “mente” e “dobrar “. Com formação em psicologia, Giurgea tinha especial interesse pela química cerebral. No começo dos anos 60, ele e seus colaboradores criaram um composto a que chamaram piracetam – uma sequência de carbono que, Giurgea acreditava, seria capaz de proteger os neurônios e aprimorar a memória. Ao testar a substância em ratos, o cientista obteve resultados que sugeriam melhora na memória de curto prazo. Mas não soube explicar por quê.

Giurgea morreria em 1995, sem saber exatamente como o piracetam atuava sobre o cérebro: “Mesmo hoje, não é claro qual seu mecanismo de ação”, disse o neurocientista Eric hudler, diretor do Centro de Neurotecnologia da Universidade de Washington. “Acredita- se que ele atua sobre o metabolismo celular, modificando a quantidade de oxigênio consumida pela célula.” As dúvidas não impediram que a fama do piracetam se propagasse.

O composto criado por Giurgea deu origem a uma nova ela e de droga, o racetam. E os efeitos do piracetam sobre o organismo inspiraram o conceito original de nootrópicos: segundo Giurgea, uma substância capaz de aprimorar o funcionamento cerebral sem causar efeito adversos acentuados.

Hoje, o ignificado do termo pode variar conforme o interlocutor: “Considero nootrópicos qualquer substância que melhore meu desempenho cerebral”, contou Ribeiro. A iniciação do advogado nesse universo aconteceu há cerca de seis anos. Recém-formado e ambicioso, Ribeiro tentava conciliar a rotina do escritório às demandas de duas pós-graduações simultâneas. Em pouco tempo, estava esgotado. Foi quando descobriu o Noopept, o nootrópico russo. A compra foi feita pela internet. Ribeiro percebeu resultados depois de duas semanas de uso: “Um dia, notei que tinha passado horas trabalhando sem me cansar, em perder o foco. Era a droga agindo”, lembrou. “Hoje, sinto como se meu cérebro fosse um polvo, cheio de tentáculos”, disse, comprimindo os olhos miúdos à medida que sorria. “Vou pescando as informações do mundo a minha volta, degluto e uso imediatamente.”

Foi entre estudantes universitários e profissionais do mercado financeiro que os nootrópicos primeiros ganharam fama. Eles soavam como soluções ideais para resistir a ambientes hipercompetitivos e com elevada carga de trabalho. Sua popularização contou ainda com o trabalho diligente de gurus do Vale do ilício. O americano David Asprey foi um dos mais notórios. Em 2013, Asprey – um homem de barba cerrada, cabelo e corrido e fala pausada – chamou a atenção das celebridades americanas ao criar o “bulletpro of coffee”. Uma espécie de café turbinado com manteiga clarificada e óleo de coco. Segundo Asprey, a bebida era capaz de fornecer energia, fazer emagrecer e, de quebra, clarear o raciocínio. A atriz Shailene Woodley e o apresentador Jimmy Fallon se tornaram adeptos.

Quem se aventurasse pelo site de Asprey ainda encontraria dicas de exercício para ganhar músculos rapidamente, receitas infalíveis para curar gripe e… texto sobre o nootrópico mais quente do momento. A prey dizia ter começado a usar as substâncias em 1997, enquanto concluía seu MBA na Universidade da Pensilvânia. Desde aquela época, sua droga de predileção é a modafinila – uma substância indicada, oficialmente, para o tratamento de narcolepsia: “Todo mundo no Vale do Silício usa modafinila”, disse Asprey durante uma entrevista em 2013.

A modafinila acabou por se tornar um dos nootrópicos mais populares do mundo. O dado a respeito são espasmos, mas, segundo a Pesquisa global sobre drogas (GDS, na sigla em inglês), a “moda” – como ficou conhecida no meio – foi o nootrópicos cujo consumo mais cresceu entre 2015 e 2017. A pesquisa envolveu 29 mil pessoas em 15 países. Os participantes responderam a um questionário pela internet, anonimamente. Em 2017, 6,6% dessa amostra havia usado algum nootrópico ao menos uma vez durante o ano. E 2,4% haviam recorrido à moda. Entre o brasileiro que participaram da pesquisa, 0,9% consumiram modafinila, ou eu derivados, na esperança de ter ganhos cognitivos.

Boa parte dos nootrópicos pode ser comprada on-line, de sites que vendem o medicamento como se fossem suplementos naturais. É também em sites e fóruns on-line que os interessados encontram instruções para o uso das substâncias. Os mais dedicados concorrem um conjunto dela, e o sites dão instruções para montagem do pacote, ou “stack”, perfeito: “Para montar um stack, a pessoa primeiro tem de determinar que resultados ela quer”, explicou, didático, o publicitário Renan Mota. “E, a partir daí, encontrar um nootrópico base. Ao qual ela se adapte bem.”

Há pouco menos de um ano, Mota se dedica a testar novos nootrópicos e relatar suas experiências em um site. as comunidades de biohacker – como se intitulam pessoas interessadas em usar tecnologia para melhorar o desempenho do corpo -, a página se tornou referência. Ele também mantém um grupo de WhatsApp onde cerca de 100 pessoas – a maioria de São Paulo e do Rio de Janeiro – trocam impressões sobre a droga e suplemento que usam.

Diagnosticado com déficit de atenção e hiperatividade na adolescência, Mota contou que nunca se adaptou aos medicamentos receitados por seus médicos. Já adulto, decidiu experimentar alternativa por conta própria: “Foi pesquisando na internet que descobri o fluoromodafinil”, lembrou. A substância, uma derivação da moda finila, o ajuda a manter a concentração nos dias em que precisa acelerar um trabalho. “Antes do nootrópico, eu sentava diante do computador e sentia uma onda de ansiedade”, contou. Agora, trabalha concentrado até o fim.

Seu stack varia de acordo com a carga de trabalho ou conforme surjam novas substâncias que ele queira testar. Cada teste dura cerca de um mês. Há o temor de que o novo químico cause efeitos colaterais: “Ma eu sempre uso a dosagem mínima, por segurança”, afirmou. Para ele, os nootrópicos viraram uma espécie de moda em ascensão: “O uso dos nootrópicos é uma tendência sem volta”.

A confiança de Mota esbarra na ciência. Ainda há poucas evidências de que as smart drugs tragam benefícios cognitivos. Compostos populares, como o piracetam e o noopept, foram pouco investigados pela ciência – no caso do último, há estudo sugerindo que promova ganho de memória em ratos. Mas nenhuma pesquisa robusta indica efeitos semelhantes em humanos. As mesmas dúvidas se repetem para a modafinila: embora seja eficiente para caso de narcolepsia, não há comprovação de que melhore o raciocínio.

Em 2013, uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia e da Universidade de Chieti-Pescara, na Itália, ministrou doses de modafinila a 26 voluntários saudáveis. Na sequência, pediu que realizassem teste de dificuldade crescente. O objetivo era pôr à prova os efeitos da droga sobre a inteligência fluida, aquela usada na resolução de problemas cotidianos. Os voluntários que usaram moda fini la tiveram resultados semelhantes ao dos participantes que receberam placebo.

O efeito placebo pode explicar também os benefícios sentidos por pessoas saudáveis que recorrem à Ritalina ou ao Venvanse. Indicadas para tratar déficit de atenção, e a droga trabalham de modo a prolongar a permanência de um neurotransmissor chamado dopamina em uma região do cérebro conhecida como fenda sináptica: “Acredita­ se que as pessoas que sofrem de déficit de atenção têm problema na produção desse neurotransmissor”, explicou o professor Mario Louzã, coordenador do Projeto de Déficit de Atenção e Hiperatividade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

Prolongar a permanência da dopamina no cérebro foi a forma encontrada pela ciência de compensar falhas de produção nos indivíduos que apresentam esse transtorno. A substância estabelece conexões com receptores nos neurônios e, em quantidades adequadas, sinaliza ao cérebro que é hora de prestar atenção a um estímulo externo. No caso de pessoas saudáveis, de pouco adianta aumentar, em níveis acima do normal, a quantidade de dopamina disponível: “A quantidade de receptores nos neurônios é limitada”. Sem receptores aos quais se conectar, a dopamina excedente não tem utilidade: “O ganho na atenção, se ocorre, é marginal”, garantiu Louzã. Os efeitos colaterais, por outro lado, podem ser acentuados. Ritalina e Venvanse são consideradas drogas seguras. Mas, como toda droga, têm efeito adverso e contra indicações. Quem a usa sem prescrição médica costuma relatar episódios de ansiedade e taquicardia. No caso da modafinila, segundo a equipe da Universidade da Califórnia, o relato de efeitos adversos são mais raros.

 

Embora os fóruns de internet sejam abundantes em relatos de pessoas que dizem ter se beneficiado com o uso de nootrópico, há também aquele caso em que as substâncias não tiveram efeito algum. Foi assim com o paulistano Marcelo Toledo, diretor de engenharia do Nubank. Bem-humorado e comunicativo, Toledo dá palestras pelo Brasil em que conta os prazeres e dissabores de ocupar posições-chave em startup. Há 18 anos ele trabalha nesse universo, de competição acirrada e mudanças rápidas. Disse que se interessou pelos nootrópicos por simples curiosidade: “Eu costumava ser atleta, nadava. E, como nadador, pesquisava sempre qual a melhor braçada, qual a melhor maneira de me movimentar dentro da água, contou. “Com os nootrópicos, queria descobrir formas de ter um desempenho melhor como empreendedor.”

Sua inspiração nessa busca foi David Asprey, o americano criador do bulletproof coffee: “Eu experimentei a modafinila, o racetam e todas as smart drugs vendidas livremente pela internet”. O resultado foi desapontador. “Não senti sequer efeitos colaterais.”

Toledo, por fim, se tornou um crítico das smart drugs. É da cultura de trabalho excessivo que torna essas substâncias atraentes: “Vejo empreendedores contando como trabalham 18 horas por dia para fazer crescer sua empresa. Trabalhar com afinco é importante. Mas é importante respeitar os limites do corpo”, disse, durante uma conversa rápida por telefone, entre compromissos profissionais. “Não adianta dormir pouco e depois tomar uma pílula para ficar acordado.” Hoje, ele substitui os nootrópicos por idas frequente à academia: “A ideia de que uma pílula pode melhorar   sua performance é muito tentadora”, refletiu. “Mas não adianta. Não existe fórmula mágica.”

As novas pílulas mágicas. 2

OUTROS OLHARES

COMPRATIVISMO

Aumenta o número de brasileiros que compram ou boicotam uma marca em virtude de sua posição sobre questão racial ou política.

Comprativismo

Assim como votar, consumir é um ato político. Igual aos produtos à venda no mercado, candidato    também são negociados – e avaliados – durante a campanha eleitoral. A diferença é a moeda de troca envolvida ao final do processo de escolha: no lugar do real, o voto. Depois das eleições mais conturbadas desde a redemocratização, o Brasil que emergiu das urnas, há duas semanas, é um país cindido. Os eleitores elegeram um presidente que adotou uma retórica hiperbólica e bélica e disparou diatribes contra a minorias enquanto os consumidores preferem a marca que defendam causas sociais, indo de encontro ao país projetado pelo presidente recém-eleito. Ainda durante a campanha, Jair Bolsonaro disse querer ”um Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos      atrás” – aos consumidores daquela época só importava se o produto era bom, e não se a empresa era confiável, ética, inovadora e engajada com questões sócio ambiental. O Brasil retrô ao qual o novo presidente se referiu é a antítese desse consumidor engajado que domina a agenda do século XXI.

A polarização vivida pelo país nas eleições 2018 não é um problema exclusivo do Brasil. É um fenômeno mundial. Ao mesmo tempo que a compra por convicção prevalece globalmente, o mundo tá ficando cada vez mais desconfiado, e o principal alvo é justamente o governo. A constatação é de um conjunto de pesquisas da Edelman, agência global de relações pública. Depois     de estudar o comportamento do consumidor em oito países, a sondagem Edelman Earned Brand 2018 concluiu que duas a cada três pessoas pagam por um produto motivada pelo policiamento    da marca sobre temas da sociedade. Em sua quarta edição, o levantamento foi feito no Brasil, na China, França, Alemanha, Índia, no Japão, Reino Unido e nos Estados Unidos, entre junho e julho deste ano.

Ainda segundo o Earned Brand 2018, 69 % dos brasileiros compram ou boicotam uma marca em    virtude de sua posição sobre uma questão social ou política, revelando um impressionante aumento de 13 pontos em relação ao ano passado.  A média mundial é mais baixa: 64%. Como o Brasil tem seguindo a tendência global, o consumo orientado por um causa domina todas as faixas   etárias, assim como se disseminou entre os diferentes grupos sócio- econômicos.

No Brasil, 5996 entrevistados responderam que as marcas têm ideias melhores que o governo para resolver os problemas; mundialmente, a média é 46%. A crença dos brasileiros quanto à capacidade de as empresas fazerem mais do que o governo, para solucionar questões sociais é mais arraigada aqui do que lá fora: 63% em comparação a 53%.

“Os consumidores estão depositando nas empresas seus desejos de mudança”, disse Marcília Ursini, vice-presidente de Engajamento para Marketing na Edelman. Cada vez mais as companhias estão indo além de seu negócio tradicional para se posicionar sobre questões relevantes para ela e seu público, seja por meio e um posicionamento consistente, seja pela defesa de questões atuais e do ativismo de causa, concluiu.

Em outra enquete, também da Endelman Trust Barometer 2018, mediu o índice de confiança em quatro instituições: governo, empresa, ONGs e mídia. Globalmente, 20 dos 28 países pesquisados, l incluindo o Brasil, foram classificados como desconfiados em relação a suas instituições. O nosso é

O terceiro país com maior queda no índice de confiança, atrás apenas dos Estados Unidos e da Itália – país que, coincidentemente, protagonizaram reviravolta nas últimas eleições e onde as redes sociais amplificaram todo tipo de discurso e foram vitais na disputa. O rol do mais desconfiados estão ainda na África do Sul, Índia e Colômbia. “esta edição do Edelman Trust Barometer, os dados revelam um mundo polarizado em relação ao sentimento de confiança, é um desafio para a organizações navegarem nesse ambiente com realidades tão díspares, avaliou Cristina Chachtitz, líder de Engajamento corporativo na Edelman.

A maioria dos entrevistados – 81% – acredita que no Brasil, o governo é a instituição mais corrompida das quatro pesquisadas …….. quase o dobro da média global. E 41% afirmaram que as empresas estão entre as instituições mais confiáveis ainda que tenha sido registrada uma queda de 4 pontos em relação a 2017.  Tradicionalmente, explicou Chaachtitz, a confiança cai quando as pessoas estão com menos esperança sobre o futuro e aumenta quando elas se sentem mais otimista. No Brasil, o descrédito nas instituições captado pela pesquisa nasceu num ambiente impregnado por uma crise política e econômica e emoldurado por escândalo de corrupção que    vieram à tona com a Operação Lava Jato. O levantamento de dados ocorreu entre outubro e novembro de 2017, pouco antes, portanto, do início do processo eleitoral.

O paulista Fábio Ronnie, de 40 anos está no rol dos brasileiros desconfiados. Morador de Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, ele tentou trocar seu carro, um Duster 2014, da Renault, por um EcoSport 2015 da Ford, em setembro passado. Atraído por um anúncio de uma concessionária multimarcas de sua cidade, que dizia ter “a melhor avaliação do mercado”, Ronnie se animou. A empolgação durou pouco. A concessionária ofereceu um valor 35% abaixo do sugerido na tabela Fipe para carros usados. Indignado, escreveu para o site Reclame AQUI e desancou a multimarcas.

“Acham que meu dinheiro sai da torneira”, escreveu em sua reclamação e concluiu seu texto fazendo uma alusão à corrupção no Brasil: “Depois um lugar desses quer reclamar do país, dos políticos, mas fazem exatamente a mesma coisa”. A chiadeira surtiu efeito. Menos de três horas    depois da queixa ter sido publicada no site, a empresa entrou em contato e sugeriu que seu carro    fosse avaliado por outra concessionária que não a de Guarulhos. O negócio não foi fechado, mas o potencial cliente ficou satisfeito com a agilidade da empresa. Ronnie não só admitiu a possibilidade de voltar a fazer negócios com a concessionária, como reafirmou, nesse episódio, sua convicção de que é mais fácil acreditar numa marca do que num político.

Tamanha descrença na classe política, segundo a professora Áurea Helena Puga, da Fundação     Dom Cabral (FDC), vem do fato de muitos políticos não abraçarem causas. “A maioria deles está legislando em causa própria”, diz ela, comentando que essa falta de compromisso não tem mais espaço no mundo corporativo. A consultora e também professora da instituição Betânia Tanure         completou o raciocínio comentando que a sociedade brasileira precisa amadurecer e perceber que ”o voto deveria ser encarado como um instrumento de apoio ou de agravo, como é o ato de consumir”.

Com o mundo vivendo a era do empoderamento do consumidor, são pessoas como Ronnie que dão as cartas no mundo dos negócios. Com mais informações sobre produtos e serviços, o consumidor do século XXI é um sujeito multicanal, que obriga as empresas a ser bem mais ágeis. Manter uma boa reputação no mercado virou uma obrigação, caso contrário ficará mais difícil   sobreviver – motivo pelo qual a concessionária Honda foi célere em resolver o problema de Ronnie.

Se, no passado, a responsabilidade social de uma empresa era aumentar seus lucros, como pregou o ícone do laissez-faire e Prêmio Nobel de Economia de 1976, Milton Friedman, hoje ser uma marca vendedora não é mais a única variável para garantir o sucesso no mercado. É preciso ser uma marca vencedora, e, para isso, reputação é tudo. Num mundo onde a mudança virou rotina e a reputação um escudo, Friedman foi superado, na prática, pelo megainvestidor Warren Buffett, que, além de ganhar muito dinheiro, sintetizou o momento atual de maneira lapidar: “Perca dinheiro para a empresa, e eu entenderei. Perca um pingo de reputação, e eu serei implacável”. Prestígio virou sinônimo de dividendo, e por isso a reputação passou a ser um ativo cobiçado – a ponto de uma reclamação ter o poder de detonar uma bomba na empresa, obrigando-a promover mudanças radicais. Foi o que ocorreu com a Skol, lembrou o sociólogo e especialista em comportamento de consumidor Fábio Mariano, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). O exemplo é antigo, mas emblemático, para ilustrar as mudanças que vêm ocorrendo no mundo contemporâneo.

Depois de sofrer um massacre nas redes sociais ao veicular uma campanha publicitária sugerindo que as mulheres deixassem o “Não” em casa no Carnaval 2015, a Skol fez um mea-culpa e assumiu seu passado machista por explorar a objetificação feminina na propaganda da cerveja. A empresa foi uma das primeiras marcas a abandonar estereótipos e incorporar uma linguagem inclusiva em sua propaganda: saíram os biquínis e trajes curtos, entraram em cena homens e mulheres de diferentes estilos e cores, casais gays e até pessoas que, durante muito tempo eram consideradas fora dos padrões estéticos exibidos pela publicidade.

“As marcas estão abraçando causas, porque o consumidor está cada vez mais consciente”, comentou Mariano, explicando que a consequência natural será a comunicação da empresa passar por mudanças”, a exemplo do que ocorreu com a Skol. Recalibrar a forma de se comunicar passou a ser fundamental, especialmente para dialogar com o consumidor brasileiro. Como apontou a Edelman, as escolhas baseiam-se na própria identificação – ou não – do consumidor com o posicionamento da marca em relação a temas da sociedade. Em período eleitoral, o risco de misturar política com negócio pode ser explosivo. Mas tudo depende da forma de comunicação.

Às vésperas do pleito, a rede de fast-food Burger King entrou na polarização política sem escolher nenhum dos lados. Optou por defender o voto consciente.  A empresa disseminou um vídeo nas redes sociais contra o voto nulo ou branco e lançou mão de uma urna falsa, instalada em frente à loja da rede na Avenida Paulista, o coração financeiro do país em São Paulo. Os pedestres eram      estimulados a participarem da falsa votação. Quem optasse por votar em branco ganhava um sanduíche recheado apenas de cebola e maionese, em que vinha escrito na embalagem do lanche: “Este é o Whopper em branco, um sanduíche sem ingredientes e escolhidos por outra pessoa. Quando alguém escolhe em seu lugar, não dá para reclamar do resultado”.

O ativismo eleitoral do Burger King não chegou a mudar substancialmente a falta de disposição dos eleitores em optar entre PSL e PT – a soma dos votos nulos e brancos, com as abstenções, contabilizou 42,1 milhões de votos, ou seja, cerca de um terço do total de votos computados. Mas   a estratégia rendeu elogios.  “A empresa fez parte da conversa de uma forma inteligente”, comentou Marília Ursini, da Edelman, chamando a atenção para outras estratégias que não foram tão felizes. Foi o caso do empresário Victor Vicenza, fabricante de calçados de Santa Catarina. O dono e a marca se confundiram ao deixar clara sua preferência por Bolsonaro, e a comunidade LGBTI+ revoltou-se. Clientes famosos, como Pabllo Vittar, anunciaram que não consumiriam mais   as sandálias, botas e sapatos da grife Vitor Vicenza.

“Vemos os partidos políticos, a política e as arenas de debate na sociedade cada vez com menos valor, e os consumidores estão se valendo da forma como ele compram e do poder do dinheiro para conseguir referendar essas posições, analisou Michel Alcoforado, antropólogo sócio fundador da Consumoteca, empresa especializada em consumo e tendências de comportamento do brasileiro. Ele está convencido de que “aplicativos e o movimento que vemos nas redes sociais em que as pessoas deixam de comprar determinados produtos por causa de suas posições políticas e identidades em seus pleitos, vão se fortalecer nos próximos anos. Foi-se o tempo em que vender era apenas um ato unilateral, e são os consumidores que ditam o ritmo da mudança.

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