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SOLDADO OU CIDADÃO?

Rigor e disciplina dos colégios militares atingem bons resultados, mas a um custo alto e sob sérias criticas sobre qual é o legítimo papel da educação.

Soldado ou cidadão.

A militarização de escolas públicas, apresentada como alternativa para conter a indisciplina e, indiretamente, melhorar a aprendizagem, está no centro do debate educacional. A proposta foi bandeira da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 e se tornou uma das prioridades do presidente para a área da educação. Tanto que o tema ganhou uma subsecretaria no Ministério da Educação (MEC) e foi objeto de um decreto publicado no “Diário Oficial” já no segundo dia de governo.

A intenção do MEC é ganhar, voluntariamente, a adesão de estados e municípios ao modelo, mediante a oferta de recursos para a implantação de escolas em que militares e educadores compartilhem a gestão.

O Distrito Federal será o campo do projeto- piloto do governo federal. Em março, o MEC anunciou que vai destinar R$10 milhões para  criação de 36 escolas públicas militarizadas no DF, que se somam a outras quatro que já adotam o modelo desde o início do ano letivo de 2019. A meta do governo do Distrito Federal é chegar ao fim de 2019 com 40 escolas cívico-militares, o que corresponde a cerca de 6% da rede, composta por 693 unidades de ensino.

Outros estados também anunciaram que pretendem implantar ou ampliar a oferta de ensino em escolas militarizadas, entre eles Rio de Janeiro, Roraima e Sergipe. Na Bahia, escolas de cinco redes municipais aderiram ao modelo, por meio de convênio entre a União dos Municípios da Bahia (UPB) e o Comando da Polícia Militar do estado.

As estimativas dão conta deque já existem cerca de 120 escolas públicas militarizadas em pelo menos 17 estados. A maior parte delas está em Goiás, que concentra 60 unidades. A meta anunciada por Bolsonaro durante a campanha é instalar pelo menos uma unidade deste tipo em cada unidade da federação.

Embora a proposta esteja ganhando mais e mais visibilidade, ao mesmo tempo ela desperta dúvida e controvérsia, em função de seus fundamentos: a tese que sustenta o modelo de escolas cívico militares é a de que a divisão de responsabilidades da gestão entre militares (cuidando da administração e da disciplina) e os educadores, responsabilizando-se pelas questões pedagógicas, promove a pacificação das escolas, estimulando, de maneira indireta, a melhoria da aprendizagem.

COLÉGIOS MILITARES X ESCOIAS MILITARIZADAS

As escolas públicas militarizadas são diferentes dos colégios militares, pertencentes ao Exército. Ao todo, existem 13 colégios militares do Exército no país. Como define o Regulamento dos Colégios Mílítares, trata-se de ‘organizações militares que funcionam como estabelecimentos de ensino de educação básica”. Também segundo o documento, têm o objetivo de capacitar os alunos para ingressar em estabelecimentos de ensino militares, como as escolas de cadete.

Do ponto de vista pedagógico, o currículo é orientado por valores e tradições do Exército, tendo como meta possibilitar que o aluno incorpore valores familiares e patrióticos, bem como formar jovens autônomos e criativos. Também existem escolas militares geridas pelo Corpo de Bombeiros ou pela Polícia Militar nos estados, com finalidades e objetivos semelhantes.

As escolas públicas militarizadas possuem uma natureza diferente, pois estão sob a responsabilidade das secretarias estaduais ou municipais de educação e, normalmente, funcionam num sistema da gestão compartilhada entre militares e educadores.

O principal argumento para incorporar militares à gestão de escolas públicas é a pacificação do ambiente escolar que estaria tomado pela violência, prejudicando o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos.

A VIOLÊNCIA NA ESCOLA

No entanto, se, por um lado, existem evidências de que as agressões e atos de violência presentes em diversas escolas criam um ambiente prejudicial ao desenvolvimento e à aprendizagem, por outro, a questão que surge é se a militarização configura-se como uma alternativa capaz de solucionar os conflitos que perpassam o ambiente escolar.

Análise da organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que em 55 países participantes do Pisa, em 2009, o desempenho dos estudantes tende a ser melhor onde o clima na sala de aula é mais propício à aprendizagem. De acordo com a organização, o clima escolar é uma das poucas características que apresentam associação significativa com o desempenho.

No que diz respeito à incidência de violência na escola, segundo pesquisa coordenada pela socióloga Minam Abramovay, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (fiacso) divulgada em 2016, 70% dos alunos de escolas públicas nas capitais investigadas afirmaram que houve violência na escola nos últimos 12 meses.

O estudo – que envolveu 6.709 estudantes, de 12 a 29 anos, em sete capitais (Maceió, Fortaleza, Vitória, Salvador, São Luís, Belém e Belo Horizonte) também revela que 42% dos entrevistados sofreram violência verbal ou física na escola e que 25% das ocorrências se dão na sala de aula.

Os tipos de violência mais comuns são discriminação, ameaças e xingamentos, muitas vezes com a roupagem de brincadeira. Agressões físicas e homicídios, caracterizados na literatura como violência dura, são mais raros.

“Concordamos que os professores não podem ensinar e os alunos não podem aprender em um ambiente permissivo, com altos níveis de incivilidades, disrupção, indisciplina. Contudo, em nome da busca pela disciplina, está sendo proposta como alternativa a adoção de um ambiente militarizado coercitivo, que traz consigo a violência simbólica”, questiona Telma Vinha, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela também é  uma das coordenadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), que reúne pesquisadores da Unicamp e Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A questão levantada por Teima é umas das que estão no centro do debate e gerou reações como a Carta de Princípios sobre as escolas cívico-militares, assinada por 14 grupos de pesquisa ligados à Associação de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia.

Entre os pontos destacados na Carta estão risco de a forte hierarquia e o controle disciplinar, típicos das estruturas militares, instaurarem um ambiente baseado em ordens e imposições, ao invés de fomentar a educação em valores – ou seja, estimulando a convivência respeitosa entre as pessoas, a formação de indivíduos autônomos, capazes de reflexão, crítica e escolha de valores em meio à diversidade.

BOA RECEPTIVIDADE

Um argumento que pesa a favor da militarização são bons resultados alcançados pelas escolas que seguem o modelo. Esse é, segundo gestores, o principal fator que o torna bem aceito entre as famílias e comunidades no entorno das escolas. “Temos 60 escolas funcionando no modelo cívico- militar em Goiás e pretendemos levá-lo a outras 32 escolas. A proposta é muito bem aceita pelos pais e pela comunidade”, defende a secretária de Educação de Goiás, Fátima Gavioli.

Outro ponto que atrai a simpatia das famílias e comunidades é a mudança que o modelo militar opera no clima escolar. Esta é a opinião de Antônio Carvalho da Silva Neto, prefeito de Araci, município do semiárido baiano, que introduziu o modelo na maior escolada rede municipal este ano.

“A presença dos militares na escola permite a retomada de valores e comportamentos que estavam abandonados, como o respeito ao professor, cantar o hino nacional e mais disposição dos alunos para acompanhar as aulas afirma o prefeito, que também é vice- presidente da UPB. “Como a escola passa a ser organizada, os professores têm tempo e condições de dar aula.

No Distrito Federal, também é boa a aceitação das comunidades onde as quatro primeiras escolas militarizadas foram implantadas, afirma Mauro Oliveira, assessor especial da Secretaria de Educação do Distrito Federal, responsável pelo projeto, “Foram realizadas consultas e em todas elas a aceitação foi grande, tanto por parte dos pais, quanto dos professores, “afirma ele.

Ao boa recepção, na opinião dele, estaria ligada ao fato de que essas escolas representam uma opção para família, que querem que seus filhos estudem num ambiente organizado e favorável à aprendizagem, mas não contam com as mesmas opções disponíveis para quem pode pagar as mensalidades de um colégio privado.

Em contrapartida, o Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) divulgou nota contrária à medida, classificada como uma “maquiagem dos reais problemas da educação” e defende que o ideal seria criar mecanismos para atender todos os alunos de maneira democrática, sem concentrar recursos e investimentos em determinadas unidades da rede.

As quatro escolas militarizadas do Distrito Federal localizam-se em regiões vulneráveis e marcadas pela criminalidade, um dos pré-requisitos para a instalação das escolas cívico-militares: Cidade Estrutural, Recanto das Emas, Ceilândia e Sobradinho. Além disso, têm índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) abaixo da média.

Em 2017, nos anos finais do ensino fundamental, o ldeb do Distrito Federal foi 4,9 (inferior à meta prevista, 5,3). O ldeb da escola de Ceilândia incluída no projeto foi 3,1, e o da unidade da Cidade Estrutural, 4,1.

O BOM DESEMPENHO EM QUESTÃO

Além da participação do ambiente escolar, uma das expectativas envolvidas nos projetos de militarização de escolas públicas é melhorar a aprendizagem e o desempenho dos alunos, refletido em indicadores como o ldeb.

Nesse sentido, o desempenho dos colégios militares nas avaliações oficiais funciona como um espelho: considerando todo o país, em 2017, o ldeb dos colégios militares no ensino fundamental foi de 6,5, ao passo que nas escolas públicas a média foi de 4,1.

Em Goiás, onde as escolas cívico-militares existem desde 1999, os bons resultados no ldeb também servem como argumento em defesa do modelo. O Colégio Militar Dr. Cezar Toledo teve o melhor ldeb do estado em 2017, 7,5, no 9º ano, bem acima da média nacional (4,7)e da média das escolas privadas (6,4). O bom desempenho se repete no ensino médio – 6,5 contra uma média nacional de 3,8.

No entanto, segundo analistas e pesquisadores, resultados como esses não podem ser interpretados de maneira isolada, já que o bom ou mau desempenho dos estudantes está associado a um conjunto de variáveis – entre elas, as condições e infraestrutura ofertadas, o que está diretamente relacionado com os investimentos. E neste quesito, os colégios militares estão em vantagem em relação às escolas públicas.

“Historicamente, os colégios militares possuem uma condição diferenciada das demais escolas públicas. São escolas que recebem investimentos bastante superiores às escolas públicas, atendem a dependentes de militares e destinam uma parte das vagas a processos seletivos para a comunidade”, contextualiza Denise Carreira, coordenadora institucional da organização Ação Educativa.

Dados oficiais indicam que um aluno de colégio militar custa três vezes mais do que um estudante de escola pública: segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), um aluno de escola pública custa cerca de R$6mil ao ano, ante R$19 mil nos colégios militares.

FATORES EXTERNOS E EVIDÊNCIAS

Outro aspecto relevante na análise do desempenho dos alunos dos colégios de modelo militar é o perfil do estudante. No caso dos colégios militares do Exército, geralmente os alunos são escolhidos por meio de processos, até mais concorridos que vestibulares: em algumas escolas, pode chegar a 270 candidatos por vaga. Por isso, tendem a atrair candidatos de nível socioeconômico mais alto, com mais condições de se preparar para as provas.

‘Embora alguns optem por sorteio ao invés de processo seletivo, os colégios militares atraem um público menos marcado pelas desigualdades sociais do que aquele presente na maior parte das escolas públicas brasileiras,’ complementa Denise.

Paralelamente, estudos nacionais e internacionais apontam que os resultados obtidos por alunos e escolas não podem ser interpretados de maneira isolada, pois dependem de um conjunto de fatores. Entre eles, as condições socioeconômicas são um parâmetro fundamental: desde o renomado Relatório Coleman, publicado nos Estados Unidos na década de1960, pesquisas evidenciam a associação entre fatores extraescolares, sobretudo as características socioeconômicas e culturais dos alunos, e o acesso à educação e os resultados.

No Brasil, pesquisas como as desenvolvidas por José Francisco Soares, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atestam que a melhoria da estruturada escola pode impactar positivamente o desempenho dos alunos. Aspectos como equipamentos, segurança, limpeza, qualidade das salas e do prédio, além da seleção de alunos, podem contribuir para ganhos do desenvolvimento cognitivo dos alunos.

Nessa direção, Denise Carreira, relativiza os resultados obtidos pelas escolas militares. “Se todas as escolas públicas recebessem o investimento financeiro que as escolas militares recebem, seria uma outra realidade.” Outro  parâmetro importante a  ser considerado, quando se trata de políticas públicas, são as evidências sobre seus impactos e resultados. “Não é apenas uma questão de investimento, se determinada ação é viável ou não financeiramente. É preciso ter um diagnóstico claro do problema e saber se a estratégia escolhida é, de fato, a melhor para solucioná-lo”, analisa Davi Saad, diretor- presidente do Instituto Natura.

Nessa medida, ele argumenta que, tendo em vista a melhoria da aprendizagem, os programas de educação integral que vêm sendo implementados com sucesso em diversas partes do país poderiam ser mais efetivos.

EDUCAÇÃO PARA QUÊ?

A legislação educacional brasileira é outro aspecto que tem orientado o debate sobre as escolas cívico-militares. Um argumento usado por críticos do modelo é o de que ele contraria a legislação educacional brasileira. A Constituição, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional(LDB), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o Plano Nacional de Educação(PNE), enfim, os principais instrumentos legais que norteiam a educação brasileira preconizam que a educação deve promover sujeitos autônomos e críticos.

O modelo militar vai justamente contra essa concepção de educação, ancorada na legislação brasileira. Ao mesmo tempo, contraria o sentido do que é educação, na visão de estudiosos como Vítor Paro, professor titular aposentado da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

‘A educação não é transmissão de cultura, como se acredita no senso comum. Educação é a apropriação de conhecimentos, porque o indivíduo só aprende se tiver vontade e decide aprender”, analisa Paro. O desafio que se coloca para a escola, portanto, é propiciar condições para que a criança e o jovem queiram aprender. ‘Numa escola onde os estudantes querem e gostam de aprender não existe violência nem preguiça. É preciso levar o educando a querer aprender.’

Esta é a chave para a educação em valores, segundo as pesquisas e os estudos realizados no Brasil e em outras partes do mundo. “Educar é diferente de treinar define Maria Suzana Menin, professora titular aposentada da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisadora­ colaboradora da Fundação Carlos Chagas(FCC).

Coordenadora de diversas pesquisas sobre educação moral em escolas públicas, Suzana enfatiza que, muitas vezes, existe uma confusão entre a educação em valores e a educação moral, tratada como disciplina e obediência.

Segundo ela, o caminho pela disciplina, pela hierarquia, até pode levar uma pessoa a obedecer a uma ordem. “Mas nada garante que os valores envolvidos naquela ordem serão interiorizados pela pessoa, que ela se tornará consciente deles e passará a agir daquela maneira porque entende a importância daquilo.

Em outras palavras, é diferente um estudante compreender que não pode agredir um colega negro porque respeita as diferenças e não cometer a agressão por medo de ser punido.

“A função da escola pública é formar cidadãos. A deles a da escola militarizada confunde os fins da educação definidos na legislação brasileira. A lei prevê a formação de um cidadão solidário, respeitoso e não de um cidadão que obedece ordem”, afirma Suzana.

CUIDAR DA CONVIVÊNCIA

Em outras palavras, a militarização das escolas não se configura, necessariamente, como o único caminho para difundir valores morais e para a instauração de uma convivência respeitosa no ambiente escolar.

Outra via é o desenvolvimento de ações que permitam trabalhar e vivenciar, no cotidiano da escola, as dimensões. Para isso, as questões morais têm de ser tratadas como parte do currículo. de modo que professores e demais educadores, juntamente com os estudantes, criem estratégias para prevenir a violência na escola. É assim que ocorrem em países como a Finlândia, onde o modelo de escola é baseado na autonomia de professores e alunos, ou na Espanha, onde, desde 2007, todas as escolas desenvolvem um plano de convivência, baseado em diagnóstico e com ações voltadas para a resolução de conflitos.

Nessa direção, Poços de Caldas está implantando um Plano de Convivência Ética nas escolas da rede municipal, como parte do currículo. A iniciativa é considerada pioneira no país.

“A convivência respeitosa é um conteúdo tão importante quanto os outros”, analisa a secretária de Educação de Poços de Caldas, Flávia Vivaldi. Daí a formulação do plano, resultado de um processo de elaboração coletiva que já dura dois anos e envolve uma rotina de formações e o engajamento de professores e equipe técnica das escolas.

Partindo de um diagnóstico da situação das escolas, estão sendo traçadas ações e atividades para cada urna delas, além de mecanismos de monitoramento. “Como envolve toda a rede, não é um processo simples, da noite para o dia.”

Na visão da secretária, a segurança é necessária nas escolas, mas não é o suficiente para qualificar as relações na escola, chave para enfrentar e prevenir a violência “Escola é espaço de trabalhar com as diferenças e não apenas com a hierarquia e obediência”, defende.

Soldado ou cidadão. 2

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CARROS AUTÔNOMOS ATROPELAM MAIS PESSOAS NEGRAS DO QUE BRANCAS

Carros autônomos atropelas mais pessoas negras do que brancas

A lista de preocupações sobre carros autônomos ficou mais longa. Além de se preocuparem com sua segurança e como poderiam piorar o tráfego, também precisamos nos preocupar em como poderiam prejudicar pessoas de cor. Se você é uma pessoa com pele escura, pode ser mais provável que seja atingido por um carro autônomo, de acordo com um novo estudo do Georgia Institute of Technology. Isso porque os veículos automatizados podem ser melhores na detecção de pedestres com tons de pele mais claros.

Os autores do estudo começaram com uma pergunta simples: com que precisão os modelos de detecção de objetos de última geração, como aqueles usados por carros autônomos, percebem pessoas de grupos demográficos diferentes? Para descobrir, eles analisaram um grande conjunto de imagens contendo pedestres. Eles dividiram as pessoas usando a escala de Fitzpatricj, um sistema para classificar os tons de pele humanos do claro ao escuro.

Os pesquisadores então analisaram quantas vezes os modelos detectaram corretamente a presença de pessoas no grupo de pele clara versus a frequência com que acertaram as pessoas no grupo de pele escura. O resultado? A detecção foi cinco pontos percentuais menos precisos, em média, para o grupo de pele escura. Essa disparidade persistiu mesmo quando os pesquisadores controlavam variáveis como a hora do dia em imagens ou a visão ocasionalmente obstruída de pedestres. Os estudos prosseguem.

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O CIENTISTA POP DA INTERNET

Hábil para explicar questões complicadas e disposto a encarar qualquer polêmica, o doutor Pirula virou uma celebridade no YouTube.

O cientista pop da internet

A paixão por crocodilos e dinossauros rendeu ao paulistano Paulo Pedrosa, o Pirula (apelido de faculdade), um doutorado em zoologia pela Universidade de São Paulo. Mas, ao criar um canal no YouTube, há oito anos, ele resolveu ampliar os horizontes e tratar de ciência em geral, o que o pôs em contato direto com outro tipo de ser com o qual se deve tomar cuidado: os contestadores de fatos científicos que fazem e acontecem nas redes sociais. Didático nas explicações e disposto a encarar qualquer polêmica, Pirula virou fenômeno da internet: seu canal conta com mais de 780.000 inscritos e 80 milhões de visualizações. Preocupado com os rumos da ciência diante da disseminação de pensamentos retrógrados, Pirula – que, em lugar da idade, prefere revelar que é “velho o suficiente para ter conhecido o Balão Mágico” – lançou no mês passado, em parceria com Reinaldo José Lopes, seu primeiro livro, Darwin sem Frescura (HarperCollins). A seguir, trechos de sua entrevista.

QUEM TEM MEDO DE DARWIN?

“Percebo nas pessoas um preconceito contra a ideia da evolução das espécies, um receio de que isso vá contra aquilo em que acreditam, as histórias que estão na Bíblia. No entanto, a ideia de que uma espécie pode se transformar em outra já era discutida uns sessenta anos antes de Darwin, e é sobejamente aceita. A única inovação dele foi a teoria da seleção natural – a sobrevivência do mais apto, daquele que consegue aguentar o tranco das mudanças no ambiente. Através da ideia da seleção conseguimos entender como as espécies se desenvolveram até chegar ao que são hoje, inclusive em termos de hábitos, de comportamentos.”

A EVOLUÇÃO DA MORAL

“Podemos dizer que a própria noção de certo e errado tem, em algum grau, um componente inato. Ao contrário do que imaginamos, quando nascemos nosso cérebro não é uma tábula rasa, sem informação alguma. A gente já vem, por assim dizer, com certos aplicativos instalados, mas vazios – como um WhatsApp sem nenhum contato. Esses aplicativos são componentes genéticos que podem ser transmitidos entre gerações, uma determinada combinação de genes que influencia uma índole ou comportamento, por exemplo. Fatores externos como a cultura, a criação e as experiências vão moldar o funcionamento do aplicativo, mas o instinto para agir de tal maneira já estava lá, selecionado ao longo da evolução da espécie.”

O GENE INTERESSEIRO

“Valores como altruísmo e justiça também estão embutidos na seleção natural, na lei da sobrevivência do mais apto. O ser humano sobrevive melhor em comunidade, mas precisa agir de maneira agradável para que o ambiente seja saudável e as pessoas não queiram matar umas às outras. Somos predispostos a ter algum nível de altruísmo e a aprovar essa conduta nos demais porque entendemos que esse comportamento gera uma vantagem para o grupo. É claro que a atitude egoísta, que produz vantagem imediata, também está presente, mas, se ela fosse predominante, a sociedade entraria em colapso. No fim das contas, a tendência é a natureza selecionar um pouco de cada: prevalece quem é bonzinho, mas não é trouxa.”

HOMOSSEXUALIDADE FAZ PARTE

“Os dados de que dispomos indicam que a tendência à homossexualidade é determinada principalmente por um pacote de genes. Nas famílias em que esse código está presente, as mulheres têm mais filhos. Ou seja: é possível que a fertilidade e a tendência à homossexualidade estejam embrulhadas em um mesmo pacote genético. Sendo assim, não há risco para a população passar o conjunto de genes adiante, mesmo com menor chance de reprodução em uma pequena parcela, pois a alta fertilidade compensa. Sabe-se que a tendência ao comportamento homossexual se mantém fixa entre 4% e 10% da população. Esse número nunca aumentou. Nunca houve uma ‘epidemia gay’, como dizem uns tantos preconceituosos.

A CIÊNCIA PEDE SOCORRO

“Venho notando sinais de crise na ciência. É preocupante. Um deles é a distância que nós, cientistas, pusemos entre nós e a sociedade. A maioria ficou por muitos anos encastelada na academia, e, agora que a disseminação do conhecimento faz com que seja confrontada, não sabe lidar com o grande público. Outra questão é a escassez de verbas, e também nela atribuo uma parcela de responsabilidade aos próprios pesquisadores, que sempre trabalharam como se não tivessem de prestar contas. Incluo também a alta carga de trabalho institucional e a falta de incentivo à divulgação científica. O terceiro ponto da crise é o avanço da tecnologia, que permite que a informação seja disseminada antes que algum agente, como a imprensa, atue para entregar a novidade mastigadinha, fácil de ser entendida. Qualquer um pode ligar uma câmera, falar uma bobagem e em duas horas atingir 20 milhões de pessoas.”

JOGADOR EM VÁRIOS TIMES

“Comparado com quem está no poder em Brasília, sou praticamente o Che Guevara. Mas na verdade eu me considero um progressista, no sentido de acreditar que, é preciso respeitar as vontades das pessoas, desde que não prejudiquem ninguém, e rejeito qualquer tipo de autoritarismo. Ao mesmo tempo, defendo o investimento privado nas universidades, porque, para mim, não há alternativa, a fonte secou. No entanto, para meus colegas da USP, que não aceitam bem a ideia, isso faz de mim um coxinha. Apesar de lutar contra o conservadorismo de Estado, na vida pessoal sou bastante conservador. Não uso drogas e não incentivo ninguém a usar, não recomendaria à minha mulher que fizesse um aborto e sou mais permissivo em relação a porte de armas do que as pessoas imaginam.”

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PERIGO NA TORNEIRA

Perigo na torneira

A água das torneiras das principais capitais e de muitas outras cidades brasileiras está cheia de agrotóxicos. Pelo menos uma em cada quatro metrópoles do Brasil enfrentaram problemas de água contaminada por pesticidas entre 2014 e 2017. Os números são de um estudo coordenado pela ONG Repórter Brasil e pela Agência Pública. No período destacado, as empresas de abastecimento de 1.396 cidades detectaram todos os 27 tipos de pesticidas que são obrigados por lei a testar. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas.

São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas estão entre os locais com contaminação múltipla. Para o diagnóstico, foram utilizados dados do Ministério da Saúde, obtidos em investigação conjunta entre as empresas e a organização suíça Public Eye. A falta de monitoramento é um dos problemas. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes nas suas redes de abastecimento entre 2014 e 2017. Os testes comprovam que milhares de pessoas estão correndo risco ao beber um copo d’ água contaminada direto de suas torneiras de casa.

Perigo na torneira. 2

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O CORAÇÃO HUMANO EM 3D

“Já não há dúvidas de que no futuro órgãos necessários serão impressos em 3D, totalmente personalizados para cada paciente” Declaração da Universidade de Tel-Aviv.

O coração humano em 3D

Mede três centímetros de altura uma das maiores e mais novas revoluções da medicina. Foi anunciada na semana passada pela revista científica “Advanced Science” e pode num futuro de dez anos (intervalo de tempo que para a ciência é um piscar de olhos) facilitar essencialmente o procedimento de transplantes de órgãos. Trata-se de um coração desenvolvido por pesquisadores israelenses a partir de células adiposas humanas e por meio da tecnologia de uma impressora 3D. Principal coordenador do estudo, o professor Tal Dvir, da Universidade de Tel-Aviv, explica que foi realizada uma “pequena biópsia” do tecido adiposo (gordura) de um paciente. O segundo passo consistiu na reprogramação genética das células desse tecido para que elas se tornassem células-mães capazes de originar qualquer órgão. Em seguida ocorreu uma nova programação, como se tal célula ficasse exclusivamente com a missão de se reproduzir no formato e com as funções do coração humano. Finalmente, o órgão nasceu numa impressora 3D. É um importante, mas primeiro avanço, e, portanto, é natural que tenha de ser aprimorado, sobretudo em sua força de bombeamento de sangue para que possa atingir o patamar das condições cardíacas normais.

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GÊMEOS ENTRE O CÉU E A TERRA

A Nasa fez uma experiência com dois irmãos idênticos: um foi para o espaço, o outro ficou na Terra. Depois de quase um ano, observaram-se diferenças surpreendentes entre eles.

Gêmeos entre o céu e a terra

“A imaginação é mais importante que o conhecimento. Pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo.” A máxima do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) pode ser aplicada, sem esforço, para descrevera própria genialidade. Afinal, suas teorias eram de tal modo criativas, inusitadas, desconcertantes que, na impossibilidade de então comprová-las na prática, ele recorria a alegorias para torná-las compreensíveis – os famosos Gedankenexperiment. Tome-se o caso da Teoria da Relatividade, que, entre outras conclusões, trouxe a ideia de que tempo e espaço fazem parte da mesma equação, são flexíveis e também – com o perdão da redundância – relativos. Uma das formas utilizadas por Einstein para ilustrar o conceito foi o Paradoxo dos Gêmeos. Nele, imaginam­se gêmeos idênticos na seguinte situação: um é enviado ao cosmo, viajando próximo da velocidade da luz, enquanto o outro fica na Terra. O que aconteceria a ambos? Pela distorção do espaço­ tempo, o gêmeo cosmonauta envelheceria bem menos. Pois bem: no último dia 11, a Nasa divulgou, na revista científica americana Science, um estudo que lembra o Paradoxo dos Gêmeos.

Os personagens, agora reais, do experimento foram os americanos Mark e Scott Kelly, gêmeos idênticos nascidos em 21 de fevereiro de 1964, cinco anos antes de Neil Armstrong tornar-se o primeiro homem a pisar na Lua. Os irmãos cresceram no Estado de Nova Jérsey, ambos com o sonho de aventurar-se no espaço – como Armstrong. Formaram-se em engenharia, ingressaram na Aeronáutica e, após missões militares, candidataram-se ao trabalho na Nasa, sendo aprovados no mesmo ano, 1996, para a carreira de astronauta. Mark, porém, aposentou-se precocemente, em 2011, devido a uma tragédia: sua mulher, a deputada democrata Gabrielle Giffords, foi alvo de um atentado sórdido, e ele largou tudo para se dedicar ao seu restabelecimento. Scott, entretanto, continuou na profissão. Os caminhos diferentes seguidos por eles a partir daí deram abertura para uma experiência inédita, realizada entre 2015 e 2016: enviar ao cosmo um gêmeo (Scott) enquanto seu irmão (Mark) ficava por aqui, na Terra. Assim, Scott foi para a Estação Espacial Internacional e permaneceu lá durante 340 dias (um recorde para um astronauta da Nasa) enquanto Mark continuou sua vida normal no planeta. Cientistas de doze universidades americanas debruçaram-se sobre os resultados do estudo Em comparação com o corpo de Mark, o de Scott experimentou um grande número de mudanças em razão de sua permanência no espaço. Seu sistema imunológico produziu novos mecanismos de defesa e ele ganhou 5 centímetros de altura. No entanto, seu desempenho físico decaiu – mesmo com a exigência de duas horas de exercícios diários na estação espacial, enquanto Mark não seguia uma rotina similar e tinha uma dieta irregular. Em decorrência da falta de gravidade na estação espacial, Scott teve o organismo fragilizado: partes do globo ocular inflamaram-se, os ossos se tornaram 10% mais finos e músculos se atrofiaram. Já seu cérebro demonstrou boa performance: Scott levou vantagem em testes de atenção em relação a Mark.

Na pesquisa, detectaram-se ainda alterações nos genes. Uma delas, de teor surpreendente: houve um prolongamento dos telômeros, partes do DNA que protegem o organismo do envelhecimento. No espaço, esses trechos se alongaram, o que retardou a deterioração do corpo. Diferentemente do que prevê o Paradoxo dos Gêmeos na hipótese criada por Einstein, isso não ocorreu por causa de alguma distorção no espaço-tempo – Scott, claro, não viajou à velocidade da luz -, e sim por prováveis efeitos da radiação dos raios cósmicos. “Mesmo depois de estar aqui por quase um ano, não me sinto normal”, declarou Scott em 2017, após seu retorno ao solo terrestre. O corpo do astronauta começou a se adaptar ao planeta cerca de um mês depois do regresso – lentamente. Durante algum tempo, Scott relatou, por exemplo, que sentia as “pernas bambas, as juntas doendo e a pele queimando”. “O fato de que Scott e Mark são gêmeos idênticos realmente eliminou alternativas do motivo de terem surgido diferenças entre os organismos deles no período da experiência”, afirma a bióloga Susan Bailey, da Universidade do Colorado, que participou do estudo. ”Podemos dizer que as alterações em Scott se deram em razão do voo espacial, “completa ela.

Desde o início da exploração espacial o próprio cosmo serve de principal laboratório para a preparação das missões. Em 1967, os soviéticos puseram em órbita a primeira nave Soyuz tripulada, na tentativa de descobrir se seria possível realizar o que hoje é um feito corriqueiro: acoplar a nave a outro módulo em pleno espaço. O experimento culminou em tragédia: ao entrar na atmosfera, o paraquedas da nave não se abriu e ela se chocou contra o solo, matando o cosmonauta Vladimir Komarov. Contudo, somente porque houve tentativas como essa – e outras, bem-sucedidas – é que hoje se tem o conhecimento necessário para realizar missões regulares em direção à estação espacial.

Um dos principais objetivos da pesquisa com os gêmeos foi fornecer informações que possam ajudar outros astronautas. Para combater, por exemplo, a deterioração de ossos e músculos, podem ser desenvolvidos exercícios físicos e até mesmo medicamentos capazes de reduzir tais efeitos provocados por uma eventual longa estada fora de órbita. Já as transformações genéticas e do sistema imunológico podem vir a orientar quais tipos de vacina devem ser tomados antes do embarque para uma jornada nas estrelas.

Para além dessa proposta de buscar mitigar efeitos físicos da permanência no cosmo, será     preciso atentar ainda para as consequências psíquicas decorrentes de viagens dessa natureza. No fim do primeiro dia de exploração da Lua, o astronauta americano James Irwin (1930 – 1991), por exemplo, integrante da Apollo 15, avisou no rádio de comunicações que estaria tendo visões epifânicas enquanto caminhava no satélite (ele foi o oitavo homem a realizar tal proeza). Ao retornar à Terra, em 1971, Irwin pôs de lado a ciência e se dedicou a fundar uma seita, que tentou encontrar destroços da Arca de Noé. Preparar os astronautas, física e psiquicamente, para longas estadas sem gravidade será fundamental para o êxito de um dos mais ambiciosos projetos humanos: enviar uma primeira missão tripulada a Marte, algo que a Nasa planeja fazer até os anos 2030.

Gêmeos entre o céu e a terra. 2 

SEM O PESO DO MUNDO

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Gêmeos entre o céu e a terra. 3

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CONSTRUTOR DE OSSOS

A aprovação de um novo medicamento nos Estados Unidos é a esperança para os 200 milhões de pessoas em todo o mundo portadoras de osteoporose.

Construtor de ossos

A osteoporose é silenciosa. Não há dor nem sintomas – até que os ossos se tornam tão frágeis que podem partir-se como gravetos. A doença afeta 200 milhões de pessoas no mundo, 10 milhões só no Brasil. O pesadelo assombra principalmente as mulheres que já passaram pela menopausa. Uma em cada três mulheres com mais de 50 anos tem a doença. Entre os homens da mesma faixa etária, um em cada cinco é afetado. Os medicamentos tradicionais atuam de duas maneiras distintas, uma ou outra, separadamente: ou diminuem o ritmo de perda dos ossos ou estimulam a formação de massa óssea. A boa notícia é que, depois de quase vinte anos sem novidades, deu-se um salto na semana passada.

Na terça-feira 9, a FDA, órgão americano que regula os medicamentos, concedeu o aval para a comercialização do romosozumabe. Desenvolvida pelos laboratórios Amgen e UCB, a substância é o primeiro remédio que funde as duas funções terapêuticas: desacelera a degradação e, ao mesmo tempo, aumenta a massa óssea. Esse ineditismo só foi possível a partir do entendimento de uma mutação genética rara que deixa seus portadores com ossos tão densos que nunca se quebram.

A droga é indicada para os casos mais severos: mulheres na pós-menopausa com alto risco de fraturas. A molécula atua bloqueando os efeitos da esclerostina, uma proteína que impede o crescimento excessivo dos ossos. O romosozumabe reduz o risco de fratura vertebral em 48% e nos quadris em 38%, em comparação com a terapia-padrão. Nos estudos clínicos da nova droga, os pacientes apresentaram um aumento de 15% na densidade da coluna. Diz Charlles Heldan de Moura Castro, presidente da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo: “É um ganho comparável àquele do início da adolescência”. O tratamento consiste em doze doses do remédio, uma por mês. Os efeitos adversos incluem dores nas articulações e na cabeça e aumento no risco cardiovascular. Nos EUA, uma dose custa o equivalente a 7.300 reais. No Brasil, o medicamento só deve ser aprovado em 2020.

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