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O PERIGO DOS REMÉDIOS FALSOS

Cerca de10% dos fármacos vendidos em países pobres e em desenvolvimento, como o Brasil, são adulterados, segundo a OMS. O uso desses medicamentos provoca sérios danos à saúde.

O perigo dos remédios falsos

Um em cada dez medicamentos comercializados em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento é de qualidade inferior ou falsificado. É o que aponta o relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre os fármacos mais adulterados estão os de combate à malária e os antibióticos.

O número é alarmante e chama atenção para um mercado clandestino que cresce e movimenta cerca de US$ 30 bilhões por ano no mundo. No Brasil, as apreensões de remédios irregulares pela Policia Federal são frequentes, mas nenhum órgão envolvido na questão, incluindo aqui a própria PF e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sabem dizer qual o tamanho do problema A única referência que se tem por aqui vem de um relatório da OMS de 2015. Segundo a entidade, 19 % dos produtos farmacêuticos vendidos no País são ilegais: ou são falsos ou adulterados, ou seja, ineficazes, ou roubados, o que na maioria dos casos quer dizer que podem ter sido violados ou estão com validade vencida, por exemplo,

O uso de produtos assim agrava doenças e pode levar à morte. De acordo com a OMS, 72 mil mortes de crianças por pneumonia podem ser atribuídas ao uso de antibióticos com atividade reduzida, total que sobe para 169 mil mortes se os remédios forem inócuos. Além disso, alguns componentes adulterados podem provocar alergias graves. ”Criminosos utilizam corantes como o iodo para amarelar os remédios”, afirma Anthony Wong, diretor médico do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo. ‘Isso é extremamente tóxico.”

Depois de anos de atrasos, em 2016 foi sancionada no Brasil urna nova lei de rastreabilidade de remédios, permitindo o acompanhamento pela Anvisa do caminho das medicações de sua fabricação até o consumidor. A legislação estabeleceu o prazo de quatro anos e oito meses para inicio do programa a partir de sua regulamentação, ocorrida só em agosto de 2017. “Há muita demora nesses prazos de adequação”, critica José Luís Miranda, coordenador da assessoria técnica do Conselho Federal de Farmácia. “O sistema atual é sujeito a fraudes e permite um número alto de falsificação”, lamenta.

O perigo dos remédios falsos2

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SEU MASCOTE NA ERA DIGITAL

Aplicativos que facilitam a rotina de quem tem pet chegam para disputar um mercado de R$19 bilhões.

Seu mascote na era digital

Com uma população de cães domésticos estimada em 52 milhões, o Brasil é hoje o terceiro maior mercado de produtos pet do mundo, atrás dos Estados Unidos e do Remo Unido. O faturamento do setor em 2016 foi de R$18,9 bilhões – o que equivale a um gasto médio de R$300 por mês para cada mascote, segundo a Abinpet (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação). Até bem pouco tempo, as compras se limitavam às lojas físicas especializadas – que entre 2014 e 2016 cresceram 80% apenas na cidade de São Paulo, saltando de 726 para 1298 estabelecimentos. Apesar das cifras que movimenta, o segmento demorou para entrar na era digital. Exceto as grandes redes, com seus próprios sites, há no País mais de 50 mil pet shops que não contam com estrutura de venda ou entrega em domicílio.

Foi de olho nessa oportunidade que o libanês radicado no Brasil Rabih Hanna investiu na criação do Dot Pet, uma plataforma recém-lançada que conecta o dono do animal a praticamente tudo o que o pet precisa. É possível comprar ração, medicamento, roupas, brinquedos, agendar banho e tosa, vacinação, consulta no veterinário e aulas com o adestrador. “Eles podem colocar seus produtos e serviços na nossa plataforma digital”, diz Hanna.

A fotógrafa Leda Rodrigues já descobriu a comodidade dos sites para cuidar de Prince, border collie de 4 anos. “Compro quase tudo pela internet. É muito mais prático: pesquiso preço, pago com cartão e recebo em casa, sem ter que sair para fazer as compras”, afirma.

 TRADUTOR DE LATIDOS

Enquanto o comércio eletrônico para pets avança, os aficionados por tecnologia começam a descobrir aplicativos para smartphones que facilitam a rotina de quem tem animal doméstico, caso do Pet Phone e do MyPets – PetManager. Ambos foram criados para organizar informações sobre os bichos de estimação, permitindo armazenar dados sobre medicações e consultas realizadas, salvar os números de telefones de veterinários e até alertas para vacinas. Para tornar ainda mais divertida a interação com os bichos, há aplicativos com funções que vão desde o mapeamento dos passeios diários, como faz o MapMyDogWalk (gratuito para IOS e Android) até a “tradução” dos latidos, uma brincadeira proposta pelo app Tradutor de Cães, disponível para IOS e também gratuito. É o app do au au.

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TREINO INTENSO CONTROLA PARKINSON

Pela primeira vez, a ciência mostra que caminhar em ritmo forte retarda a progressão da doença

Treino intenso controla Parkinson

Trinta minutos por dia, quatro vezes por semana, em alta intensidade. Caminhar assim, cotidianamente, retarda a progressão da doença de Parkinson em pessoas que receberam o diagnóstico há menos de cinco anos e que ainda não usam medicação. A notícia de que esse tipo de exercício pode quase ser equiparado a um remédio preventivo foi anunciada por pesquisadores da Northwestem University e Colorado University (EUA). Foi o primeiro estudo clínico do gênero.

Os cientistas queriam saber se as evidências de benefícios dessa atividade encontradas em alguns estudos com animais seriam observadas em humanos. Além disso, o grupo desejava descobrir a intensidade e a periodicidade que de fato trariam resultados. Até então, as informações oriundas das pesquisas em cobaias eram insuficientes para obter um padrão de efetividade.

Com indicadores positivos obtidos na primeira fase dos estudos. os especialistas seguiram para a segunda etapa. Os pacientes foram divididos em três grupos. Os dois primeiros treinaram quatro vezes por semana, mas em intensidades distintas. Uma parte treinou em ritmo moderado, com a frequência cardíaca entre 60% e 65% da máxima. A outra, em ritmo intenso. com a frequência cardíaca entre 80% e 85% da máxima. O restante seguiu com sua rotina, mesmo que isso implicasse sedentarismo.

Seis meses depois, os únicos que não apresentaram qualquer declínio associado à doença, como perda de equilíbrio e dificuldades na coordenação motora, foram os indivíduos submetidos ao regime de treino intenso. Uma das hipóteses para o efeito é a de que a boa oxigenação proporcionada pelo exercício ajude a impedir a deterioração de neurônios. “Acredito que o treinamento aeróbico intenso beneficiará inclusive pacientes em estado mais avançado da enfermidade”, disse Margaret Schenkmann, responsável pelo estudo.

 OUTROS EXERCICIOS QUE AJUDAM

DANÇA – Ajuda a manter ou retarda a perda progressiva da coordenação motora. As mais elaboradas, como o tango, têm maior eficácia

BOXE – Treina a coordenação motora e melhora a força muscular

PILATES – Aumenta o tônus muscular e eleva o poder de concentração, muitas vezes prejudicado

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UMA ZONA NEBULOSA PARA CRIANCAS

Vídeos de influenciadores mirins para promover bonecas viralizam junto ao público infantil e alertam para a falta de controle sobre a publicidade no YouTube.

Uma zona nebulosa para as crianças

Praticamente desconhecida até o começo de 2017, a boneca L.O.L se tornou o brinquedo mais vendido nos Estados Unidos no ano passado – e a febre chegou ao Brasil no último Natal As L.O.L. são bonecas de apenas sete centímetros vendidas dentro de bolas coloridas. Alguns pais ficaram revoltados – e não apenas pelo preço, que pode chegar a R$ 160 por aqui. O motivo de preocupação é que as bonecas se tornaram populares graças a 06 vídeos divulgados no YouTube, feitos por influenciadores mirins que seguem um mesmo roteiro, desembrulhando as várias camadas de embalagem até chegar ao brinquedo. A prática é conhecida pelo termo em inglês “unboxing” e ocupa uma área cinzenta em que o entretenimento se confunde com publicidade.

Enquanto as regras que determinam o que pode ou não ser usado como propaganda para crianças são reguladas de forma rígida em outras plataformas, no YouTube a situação é nebulosa. Em teoria, não existe na lei distinção entre internet, TV ou rádio. “Qualquer espécie de publicidade, seja qual for o meio que a veicule, inclusive plataformas digitais, deve seguir as recomendações da ética publicitária”, diz Gilberto C. Leifert, Presidente do Conar, por meio de nota. Mas no caso dos vídeos de ‘unboxing”, a situação raramente é muito clara. “Há contratos publicitários, mas a relação comercial é velada”, diz Renato Godoy, assessor de assuntos governamentais do Instituto Alana, responsável por programas como Criança e Consumo. Nessa discussão, as críticas não são dirigidas aos youtubers mirins, mas às empresas. “Multas vezes, elas se valem da vulnerabilidade do público e do emissário”, afirma Godoy.

Evitar que os pequenos sejam contaminados pela necessidade de consumir é uma tarefa que exige dos pais um monitoramento maior dos hábitos digitais de seus filhos. “Precisamos, de tempos em tempos, ficar Junto com as crianças para entender o que as fascina no YouTube”, diz Fernanda Furia, mestre em psicologia de crianças e adolescentes e fundadora da consultoria Playground da inovação. E, segundo a psicóloga, é importante ajudar as crianças mais velhas a desenvolver uma inteligência emocional digital, ou seja, entender sobre os próprios hábitos tecnológicos e comportamentos nas redes sociais”. afirma

FENOMENO DIGITAL

O YouTube oferece uma liberdade aos pequenos que poucas vezes eles têm longe da tela do computador. Falar para a câmera e participar desse universo também é importante para o desenvolvimento delas no momento atual. “Essa maneira de se expressar favorece a sociabilidade da criança na internet. “É um processo natural”, afirma Godoy.

O caso específico das bonecas L.O.L é bastante expressivo porque elas são ótimas representantes da cultura do “unboxing”. Elas podem até ser pequenas, mas o tamanho não importa para as crianças. Oque vale é a experiência de abrir cada uma das sete camadas que cobrem o brinquedo, revelando pequenas surpresas, roupas e adesivos para a boneca “Eu amo puxar cada zíper das camadas, o suspense de abrir a minha própria L.O.L. e colecionar, mas também é muito legal ver os vídeos e acompanhar a surpresa e a empolgação de quem está abrindo. “Isso tudo me diverte multo”, diz Luiza Sorrentino, do canal Crescendo com Luluca. Seu vídeo da boneca L.O.L. Já teve 788 mil visualizações – o que confirma o fenómeno “Unboxing”.

 Uma zona nebulosa para as crianças2

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SOBRE MULHERES E PORCOS

Na contramão da campanha das americanas que estimula mulheres a denunciarem casos de assédio sexual, francesas assinam manifesto que minimiza a luta das vítimas pelo fim da violência machista.

Sobre mulheres e porcos

De um lado, Oprah Winfrey, apresentadora de televisão, americana, negra. A mulher mais rica dos Estados Unidos. Ao ganhar o prêmio Cecil B. De Mille, concedido ás mais importantes figuras da indústria do audiovisual dos Estados Unidos, durante o Globo de Ouro, fez um discurso firme e inflamado pelos direitos das mulheres. “O que eu sei, com certeza, é que falar sua verdade é a ferramenta mais poderosa que todos nós temos. E eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e compartilhar suas histórias pessoais.” Oprah fala das mulheres do movimento Times Up, um fundo que pretende ajudar vítimas de assédio sexual e violência machista. Do outro, Catherine Deneuve, atriz, encabeçando um manifesto de 100 mulheres francesas questionando o uso do termo assédio pelo movimento americano, minimizando as violências sofridas pelas várias vítimas que vieram à imprensa para dar relatos sobre abusos sofridos em postos de trabalho em Hollywood. “Defendemos uma liberdade [dos homens] de importunar”, diz, em certo trecho da carta. Diante da leviandade com que tratamos casos sérios das denúncias feitas, na tentativa de diminuir um movimento que ajuda várias pessoas e dá força para que outras não tenham medo de se esconder, apanhou. E perdeu feio.

São discursos diferentes que partem de realidades antagônicas. Se as artistas francesas nunca passaram por situações de assédio, não cabe a elas dizer a uma mulher se pode ou não sentir-se ofendida com uma investida de um homem mais poderoso que ela no ambiente de trabalho – basicamente o foco do movimento Time’s Up. “Quando as americanas denunciam situações graves, não é só importunação, é um episódio que leva à interdição do trabalho e das expressões pessoais”, afirma Leila Linhares Barsted, fundadora e coordenadora executiva da ONG CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação). Leila, que participou da elaboração do texto da Lei Maria da Penha, explica as diferenças nas realidades dos dois grupos que precisam ser levadas em consideração. “Aparentemente, as francesas estão em posições de maior poder e podem reagir de forma mais contundente. Mas isso não é uma realidade em países como os Estados Unidos ou o Brasil, onde mulheres que denunciam abusos são demitidas ou constrangidas”, diz. Para Juliana de Faria, fundadora da ONG Think Olga e criadora das campanhas “Chega de Fiu e “Meu Primeiro Assédio”, essas mulheres são influentes e querem manter o status quo do qual desfrutam. “Tudo bem ter um direcionamento pessoal, mas não é certo colocar como parâmetro para todas”, diz. “Elas estão romantizando um cenário que, para outras pessoas, é de violência”.

Para o psicólogo Carlos Eduardo Zuma, um dos fundadores do Instituto Noos, que atua na prevenção da violência de gênero, o lado bom desse manifesto é suscitar a discussão sobre o que é uma investida, uma paquera, e qual a diferença disso para o assédio. “Assediar é quando alguém usa do seu poder, seja financeiro, profissional, ou de qualquer outro tipo, para obter alguma satisfação sexual”, afirma.  Cabe à mulher dizer se o que acontece a ela é ofensivo ou não. Se uma funcionária convive com um chefe que toca seu joelho, tenta roubar beijos, fala de coisas intimas e envia mensagens com conotação sexual –  situações nas quais, para as francesas, não há nada de errado – e vê nisso um constrangimento, há assédio. “Não significa radicalizar nem entrar em um puritanismo, muito menos colocar a sexualidade como algo ruim”, afirma Zuma. “Tem a ver com como cada uma se sente em determinada situação.”

 “COISAS SANTAS”

No Brasil, o Código Penal não tipifica cantadas ou outras situações em que popularmente se usa o termo assédio. Há a importunação ofensiva ao pudor, que é uma contravenção penal, e o crime de estupro. Se usado o poder ou prestigio para essa aproximação, vira assédio sexual. De outra maneira, não, segundo a promotora de Justiça Gabriela Mansur, especialista em violência contra mulher. Talvez por isso, o uso do termo dê brecha para uma discussão como a que está acontecendo agora. De qualquer maneira, ainda que não esteja incluída em nossa legislação, há um consenso entre especialistas de que, se há constrangimento, os limites do que seria paquera ou brincadeira foram ultrapassados. Gabriela salienta ainda que, dentro do próprio feminismo, é saudável que existam opiniões diferentes. “O problema é quando, como no caso do manifesto das francesas, se critica uma luta legitima e que ajuda muitas pessoas, que levou muito tempo para se configurar e ter a visibilidade de hoje”, diz. “Esse tipo de posicionamento reforça a ideia de que mulheres competem e dá força aos homens para continuarem assediando sem se importarem com o bem-estar alheio.” As críticas à Deneuve e as outras signatárias da carta foram várias, mundo afora, inclusive na própria França. Entre as poucas vozes que as apoiaram está a do ex-ministro italiano Silvio Berlusconi, envolvido em uma série de escândalos sexuais na Itália e condenado por corrupção. Para ele, Deneuve, no manifesto, disse “coisas santas”.

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INSULINA CONTRA O ALZHEIMER

Remédios que equilibram a taxa do hormônio protegem o cérebro da degeneração causada pela doença.

Insulina contra o Alzheymer

Há cerca de 46 milhões de pessoas com Alzheimer. Em 2050, segundo a Organização Mundial de Saúde, serão 131 milhões. Caracterizada pela perda progressiva da memória, a doença representa uma bomba­ relógio contra a qual a medicina ainda não encontrou um método de desarme. Na semana passada, uma notícia vinda da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, trouxe otimismo em relação ao benefício de uma estratégia a princípio inusitada: o uso de um remédio contra a diabetes. O liraglutide, integrante de uma nova classe de antidiabéticos, protegeu o cérebro da degeneração típica da doença. “Finalmente encontramos algo que realmente funciona”, disse Christian Holscher, coordenador do trabalho. A pesquisa usou cobaias. Ao final, os animais tratados com o liraglutide apresentaram, por um lado, níveis elevados de substâncias protetoras dos neurônios.  Por outro, redução da inflamação e da quantidade das placas amiloides (acúmulo de proteínas sobre as células nervosas que contribui para sua morte).

O que mais entusiasma em relação ao achado de Christian é que ele confirma patologicamente evidências clínicas de eficácia obtidas anteriormente. Há em andamento pelo menos quatro estudos em humanos sobreo impacto de drogas da classe do liraglutide em pacientes com Alzheimer. Todos demonstram bons resultados. Faltava, no entanto, um exame detalhado em laboratório, das mudanças provocadas nos neurônios pelas drogas. A análise das células nervosas extraídas das cobaias possibilitou que os cientistas enxergassem as alterações com clareza.

Os benefícios se devem a uma razão. As drogas estabilizam a taxa de insulina, hormônio que abre a porta das células para a entrada da glicose presente no sangue – o açúcar é o combustível para que elas funcionem. Nos diabéticos, a insulina não é fabricada ou atua de maneira precária. No cérebro de pessoas com Alzheimer, mesmo os não diabéticos, ela também tem sua ação prejudicada. Para agravar o problema, além de ficarem sem glicose suficiente, os neurônios são privados de uma substância importante para seu crescimento. já que o hormônio também desempenha essa função. “Sem insulina, as células nervosas começam a falhar”, diz Holscher. “Ficam mais vulneráveis e cedo ou tarde morrerão.”

 DIABETES TIPO 3

A conexão entre o Alzheimer e a diabetes vem sendo estudada mais intensamente nos últimos anos, até pela urgência em entender melhor o que está por trás da doença neurodegenerativa.  A associação entre as duas enfermidades levou, inclusive, à nomeação de um terceiro tipo de diabetes, o 3. Até recentemente. falava-se no 1, autoimune (o sistema de defesa ataca as células produtoras do hormônio), e no 2, associado à obesidade. O que os cientistas chamam agora de tipo 3 está relacionado à degeneração cerebral. “Há muito a se saber sobre os mecanismos pelos quais a insulina participa da saúde dos neurônios”, disse Na Zhao, da Clínica Mayo (EUA), que estuda o tema. Semanas atrás, o cientista Andrew McGovem, da Universidade de Surrey, na Inglaterra, publicou artigo no qual alertava para a necessidade de aprofundar as investigações. “A diabete tipo 3 é mais comum do que pensávamos. Diagnosticá-la e tratá-la trará benefícios para o controle das doenças neurodegenerativas”, afirmou. O trabalho de seu colega inglês Holscher mostra que eles estão no caminho certo.

POR QUE A DROGA FUNCIONA

DIABETES

  • O liraglutide integra classe recente de remédios que mantém estável o nível de insulina
  • O hormônio é responsável por permitir a entrada, nas células. da glicose em circulação no sangue. Sem ela, as células não têm combustível para funcionar
  • Nos diabéticos. o hormônio ou não é produzido ou não atua da maneira adequada

 ALZHEIMER

  • Além de assegurar combustível aos neurônios, a insulina funciona como um fator de crescimento que mantêm as células nervosas saudáveis
  • Porém, sua atuação encontra­ se prejudicada no cérebro de pacientes com Alzheimer
  • Isso contribui para acelerar a morte neuronal
  • Ao estabilizar a taxa de insulina disponível, as medicações ajudam a proteger o cérebro dos efeitos da enfermidade

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O VALE DO SILÍCIO CHINÊS

A história de Shenzhen, a vila de pescadores que se transformou em uma metrópole de 12,5 milhões de habitantes, com PIB igual ao da Irlanda e que lidera a inovação no país asiático.

O vale do silício chinês

Há 20 anos, o jovem Hu Chao deixava seu vilarejo na provinda de Henan, no norte da China – como milhões ainda fazem – em busca de uma vida melhor no Sul, mais abastado. Mudou-se para Shenzhen, cidade portuária. Era a primeira Zona Econômica Especial (ZEE) do país. Hoje é um dos símbolos das reformas e da abertura econômica promovidas em 1978 pelo então presidente Deng Xiaoping. O aniversário de quatro décadas tem sido alardeado pelo governo chinês, que acaba de anunciar novas reformas rumo ao que o presidente Xi Jinping chamou de “nova era” do socialismo com características chinesas, pouco antes de inaugurar seu segundo mandato consecutivo e de receber o aval constitucional para ficar no comando da segunda maior economia do mundo pelo resto da vida. O fluxo de trabalhadores do Norte e do resto da China atrás de empregos em Shenzhen foi imenso nesses anos. A vila de pescadores, com cerca de 22 mil habitantes até 1970, viu sua população dar um salto para quase 2,5 milhões de pessoas quando Hu nela chegou. Hoje são 12,5 milhões – o equivalente à população do Grande Rio. O ritmo de crescimento da cidade, não apenas populacional, parece não ter limite. Shenzhen pisou no acelerador nos últimos anos e registrou uma das maiores taxas de crescimento da China: 8,8% no ano passado, quando seu Produto Interno Bruto (PIB) ultrapassou os US$ 338 bilhões, deixando para trás Cantão e Cingapura, vizinhos com quem compete – ao que tudo indica, será  maior do que Hong Kong até 20 25, Trata-se de mais ou menos o mesmo  tamanho da economia da Irlanda. que bateu os US$ 339 bilhões. Depois de décadas crescendo na casa dos dois dígitos, a China como um todo vem pisando no freio. A meta oficial está mantida em uma expansão de 6,5% ao ano – o novo normal, como vem insistindo o Partido Comunista, para evitar o nervosismo dos mercados. Estes, por sua vez, temem que o país já não tenha o mesmo fôlego de antes. A ideia é correr menos e garantir um crescimento mais sustentável. Um dos motivos para o ritmo mais acelerado de Shenzhen são os gastos com pesquisa e desenvolvimento, os mais elevados da China, que atingiram 4,3% de seu PIB somente no ano passado. Com o foco em inovação, a antiga vila – da qual existem poucos vestígios – se transformou em um hub tecnológico que ficou conhecido mundo afora como o Vale do Silício da China.

Hu ainda lembra quando o bairro de Huaqiangbei, onde está a famosa rua dos eletrônicos, tinha apenas uma fábrica, a Huaqian. Depois dela, vieram as outras que fizeram dali o maior fabricante de eletrônicos da Ásia. Pântanos e áreas rurais inteiras ganharam novas formas. Deram lugar a arranha-céus monumentais, muitos assinados por arquitetos de renome internacional e um punhado deles listado no ranking dos mais altos da China e do mundo. Hu, mais do que ninguém, acompanhou o fenômeno da construção d vi] nesse mercado que é hoje o que mais se valoriza no país. Foi esse o setor que abriu as portas da cidade para ele e permitiu que Hu tivesse um padrão de vida muito superior à média dos chineses. Sua história se mistura com a trajetória de Shenzhen. De família pobre, desembarcou ali para trabalhar como vendedor dos imóveis que saíam do papel rapidamente, a prova do enriquecimento da cidade que se tornou uma das joias do Vale do Rio da Pérola. Não havia corretores profissionais em Shenzhen quando chegou. Lembra que o metro quadrado no bairro de Nanshan, considerado nobre, custava 4 mil yuans (RS 2.200). Agora, sai a nada menos que 120 mil yuans (R$ 67.000), uma diferença de 2.900 %. Tanta gente fez fortuna com a especulação imobiliária que o governo local impôs barreiras para quem quiser comprar mais de um imóvel. Os preços são tão proibitivos, segundo Christopher Balding, professor da Escola de Negócios de Shenzhen da Universidade de Pequim, que quem tem dinheiro prefere comprar fora da cidade ou do pais.

Homem de visão. Hu soube ganhar dinheiro, mas não revela quanto lucrou. Apenas sorri e diz ter uma vida confortável, o que suas roupas de marca e seus músculos trabalhados em academia –    um hábito recente entre os chineses – parecem confirmar. Empresário, sócio de uma empresa de exportação, hoje entra e sai de Shenzhen quando quer. Viaja para o exterior sempre que dá vontade e quando o trabalho permite.

Como a maioria dos ”shenzhenianos”, Hu não é daqui. Essa é uma particularidade da cidade, uma das raríssimas da China que não usam as palavras ” local” ou ”forasteiro” (“bendiren” e “waidiren”, em chinês, respectivamente) “É uma cidade de migrantes, com gente de todas as partes da China. Por questões profissionais e pessoais, muitos vêm e vão. Muitos fazem fortuna aqui”, disse. Mas todos se sentem filhos de Shenzhen, sejam eles nascidos na China ou não. “Não há aquela competição que vemos pelo resto do país, em que alguém vai te dizer: ‘É muito bom, não é? Foi um local que fez’. Aqui, você se sente acolhido”, disse o empresário brasileiro Alessandro Nicolau, morador de Shenzhen há uma década. Muitas nacionalidades se misturam ao sotaque da cidade, que embora esteja na província de Guangdong, onde se fala o cantonês, usa mais o mandarim e o inglês como idioma franco. “Você vem para Shenzhen, você é de Shenzhen”, diz o cartaz logo no aeroporto.

A rua dos eletrônicos é um dos redutos dos rostos estrangeiros, uma longa avenida de pedestres cercada de prédios por onde clientes e engenheiros do mundo inteiro passam apressados, dividindo o espaço com os policiais que fazem a vigilância do local de bermudas, para enfrentar o clima quase tropical, montados em seus segways – veículo individual com uma pequena prancha para os pés e duas rodas paralelas. O entra e sai é contínuo. Centenas de pequenas lojas com tudo o que se pode imaginar, de led a pequenos aparelhos, e componentes eletrônicos, compartilham a área com estúdios e fábricas. A diversidade é tamanha que deu fama a Scotty, um americano que ficou conhecido por viajar até Shenzhen para provar que poderia montar seu próprio iPhone 6S com a ajuda dos vendedores de peças e com os engenheiros de plantão no mercado local. Ele conta a experiência em um vídeo em seu canal de Youtube. “Visitar Shenzhen, é como visitar o futuro”, disse. Sua história é vista com motivo de orgulho para os shenzhenianos. É esse espírito que faz da cidade uma Meca para aqueles que tem uma ideia na cabeça. Foi assim que se tomou também o berço chinês de um novo conceito de profissionais, originado nos Estados Unidos: os makers. Inicialmente eram apenas diletantes que faziam do ócio criativo a desculpa para criar. Mas se tornaram homens de negócios, categoria tão apreciada na China, que vê nesses inventores de engenhocas do século XXI o futuro.

“Isto aqui é o paraíso dos engenheiros. Temos capital, temos todos os equipamentos e o espaço para produzir”, afirmou Saw Yee Ping, jornalista de Hong Kong, que trabalha com a conexão entre makers, clientes e o mercado para a Hong Kong Innovation Services (HKIS), uma estação de makers que conta com o apoio integral do governo chinês. “Sou uma superconectora”, disse ela, pouco antes de exibir o imenso peixe-robô de design coreano, de utilidade duvidosa, que custa USS 80 mil a unidade.

Do outro lado da rua, os concorrentes da empresa Trouble Makers criaram outro espaço criativo para quem desembarca em Shenzhen atrás de um sonho. “Tudo é possível”, disse Henk Werner, o dono do lugar. Jovens chineses e de outros países se instalam ali pelo tempo que for necessário. Não tem dinheiro? Sem problemas, porque não é necessário pagar aluguel nem luz para montar seu estúdio. Há apenas o compromisso de que, se o protótipo for para a fábrica e encontrar o cliente, o dono da ideia paga 15% de seus ganhos para a Trouble Makers. Henk disse que precisa que 20 startups funcionem ali por três meses para que seu negócio gire. O americano David Henning saiu de Atlanta, sua cidade natal, quatro anos atrás. Trabalhava com Hot Rods, carros antigos ‘turbinados”. Foi parar na China por gostar de viajar. Ia passar três semanas. Acabou pedindo demissão do emprego e hoje é sócio do ex-chefe, que continua nos Estados Unidos. Ele não é engenheiro de formação, mas usa sua capacidade de desenvolver os motores e alterações nos automóveis para criar outras coisas na Trouble Makers. Tem 11 projetos em andamento, entre eles uma churrasqueira a carvão controlada pelo telefone celular – acessório mais útil aos americanos que preparam churrasco com cozimento de até dez horas, do que aos brasileiros. Por meio dos makers, o governo de Xi Jinping pretende dar o grande salto tecnológico da “nova era”. Seu habitat são essas estações de makers, às vezes andares inteiros de um prédio, subdividas em pequenas salas, com uma área comum descontraída e com cantinas, cafés, varandas, mesas de sinuca e pingue­ pongue, onde essas cabeças que não param de criar se encontram para trocar experiências e fazer seu “guanxi” (ou rede de contatos, uma das primeiras palavras que quem quer entrar no mundo dos negócios chinês deve aprender. Muitas delas contam com algum tipo de subsídio do Estado. E esses endereços são muito valorizados hoje”, destacou Hu.

A cidade está na rota dos farejadores de novidades de sites de compras como a americana Amazon ou a chinesa Taobao. Os olheiros dessas companhias vão atrás de gadget. ou boas ideias com potencial para incrementar suas vendas on-line. Encontram fabricantes, pedem uma “adaptação” aqui ou ali para agradar aos clientes e até se oferecem para fazer embalagens mais apropriadas ou atraentes. É exatamente isso o que querem os makers: que seus produtos sejam descobertos. Muita gente vive de fazer essa ponte entre eles e o mundo exterior.

Isso porque nem tudo o que é feito ali oferece a desejada qualidade internacional. Há muitos produtos falsificados, os chamados copycat. Empresas de dentro e fora da China recorrem à variedade dos componentes disponíveis em Shenzhen e à mão de obra especializada para montar telefones, caixas e outros produtos exatamente como os de marcas conhecidas, porém bem mais baratos. Há até eufemismos usados por quem é da área para evitar a palavra ”cópia”. São os acréscimos mínimos” ou os “produtos ligeiramente mais evoluídos.

Isso explica por que empresas grandes ou pequenas guardam a sete chaves os segredos de seus negócios. Nas graúdas, os funcionários não podem frequentar as fábricas com seus telefones ou suas câmeras. Shenzhen é o quartel-general de algumas das principais empresas de tecnologia da China, como a BYD, a maior fabricantes de baterias recarregáveis do mundo, que lançou um carro elétrico hibrido em 2011; ou a Huawei, uma das maiores fabricantes de equipamentos de comunicação; e a Tencent, a gigante da internet, que produz games, aplicativos on-line e software, além de ser dona do WeChat (um cruzamento de  WhatsApp e Facebook anabolizado), que tem nada menos que 900 milhões de usuários ativos. Também estão baseadas em Shenzhen a ZTE, a gigante das comunicações, e a DJI, maior fabricante global de drones civis.