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O INFERNO CHEGOU

O calor extremo que castiga o Hemisfério Norte pode servir para transformar em cinzas os argumentos de quem nega os perigos das mudanças climáticas.

O inferno chegou

Nada como saber de antemão quando uma mudança com potencial catastrófico vai acontecer para poder, se possível, evitá-la ou, ao menos, preparar-se adequadamente. Os cientistas que, desde 1990, alertam para os riscos do aquecimento global causado pela ação humana tentam fazer exatamente isso: convencer governantes de todo o planeta a adotar medidas para enfrentar ou amenizar o fenômeno. O problema das previsões, e que os argumentos para agir não são palpáveis para a maioria da população (e dos políticos que dependem do seu voto) enquanto não se tornam realidade. Aproveitando-se disso, os céticos do aquecimento global dizem, jocosamente, que as previsões sobre as mudanças climáticas de longo prazo são tão críveis quanto as que afirmam que vai chover no fim de semana, mas faz um sol de rachar. Recorrer a esse sofisma pode ficar mais difícil depois do atual verão no Hemisfério Norte – que vem batendo sucessivos recordes de temperatura em diferentes regiões, muitas vezes com resultados desastrosos.

Na Finlândia, os habitantes de Sodankyla, localizada a menos de 100 quilômetros do Círculo Polar Ártico, experimentaram neste ano um dia de verão com características tropicais: 32 graus, mais que o dobro do esperado. No Japão, 65 pessoas, em sua maioria idosos, não resistiram ao verão mais quente da história do país e morreram. Na Grécia, 91 pessoas perderam a vida em incêndios causa­ dos pela combinação de calor intenso, vegetação seca e ventos fortes. Há dezesseis dias, foram registradas temperaturas próximas a 50 graus no sul da Califórnia, nos Estados Unidos, e a temporada de incêndios florestais, própria desta estação, está se provando mais longa que o normal. Os alemães também enfrentaram, neste ano, o mês de abril mais quente da história de seu país. Com os termômetros marcando mais de 40 graus, nem os peixes dos rios Reno e Elba resistiram ao fenômeno – milhares morreram por causa da falta de oxigênio provocada pelo aquecimento da água. Os meteorologistas preveem que a temperatura na Península Ibérica será, neste mês, a mais alta já registrada na Europa continental, batendo o recorde de 48 graus, observado em 1977, em Atenas, na Grécia. Até o que era quente se tornou ainda mais infernal –   no início de julho fez 51,3 graus à sombra no Deserto do Saara, a temperatura mais elevada já medida pelos termômetros na África.

Não é possível afirmar que cada um dos eventos acima foi ou é causado diretamente pelo aquecimento global. Há inúmeros fatores regionais que podem tê-los influenciado. O que está claro é que situações climáticas extremas como essas vêm se tornando mais frequentes – e isso não acontece por acaso. A explicação se encontra na emissão dos gases do efeito estufa, que contribuíram para o aumento de mais de 1 grau na média da temperatura na Terra desde o século XIX. Segundo um estudo divulgado na quarta-feira lº pela Sociedade Americana de Meteorologia, 2017 foi o ano mais quente de que se tem registro sem influência do El Nino, fenômeno natural que começa com o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e tem impacto global no clima. E quais foram os anos mais quentes com El Nino? Aqueles imediatamente anteriores: 2016 e 2015. “As temperaturas que estamos experimentando podem não ser ainda o ‘novo normal’, mas podem vir a ser em algumas décadas”, avisou Stephen Belcher, cientista-chefe do serviço nacional de meteorologia britânico.

A janela de oportunidade para combater as causas das alterações climáticas está se fechando. “Muitos cientistas dizem que temos apenas vinte anos para mudar nosso comportamento e partir para um mundo com balanço zero nas emissões de carbono na atmosfera. Isso significa que a cada ano que passa perdemos 4% dessa margem de segurança”, diz o ecólogo Daniel Nepstad, diretor do Earth Innovation Institute, ONG com sede na Califórnia. Se outros efeitos já visíveis do aquecimento global – como a retração do gelo marítimo do Ártico, o aumento do nível dos mares, o encolhimento das geleiras e a morte de corais – não foram ainda suficientes para persuadir políticos e outras personalidades influentes que negam a ação do homem nas mudanças climáticas, quem sabe a atual onda de calor cumpra esse papel. O presidente americano Donald Trump, que tirou seu país de um acordo internacional de redução de emissões, deveria ser o primeiro a cair na real. O problema, como observou o jornal britânico TheGuardian em editorial, é que é mais fácil mudar o clima do que as opiniões de Trump.

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AS ENGRENAGENS DO ESTADO

 Exibido pela primeira vez na 23ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, em abril deste ano, Auto de Resistência continua a fazer carreira nos cinemas do país ao mesmo tempo que chega às plataformas de streaming. É um caso clássico de filme-denúncia, jogando luzes sobre o elevado número de homicídios praticados pela polícia contra civis no Rio de Janeiro.

As engrenagens do estado

O título se refere às situações em que essas mortes são justificadas pelos policiais como ação em legítima defesa. Não é, contudo, o que transparece nos casos reconstituídos e nos julgamentos acompanhados pela equipe de Natasha Neri e Lula Carvalho, que assinam a direção do filme. As versões conflitantes de policiais e de testemunhas, bem como provas documentais, apontando um outro cenário.

Auto de resistência apresenta mães que lutam para provar a inocência de seus filhos e mostra debates entre os integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito formada, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, para apurar o alto índice de mortes praticadas por policiais. “Registramos processos sociais complexos que revelam as engrenagens do Estado em ação”, dizem os diretores. “O veredito final está nas mãos da sociedade.”

 As engrenagens do estado.2

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UMA POTENCIA AGRÍCOLA ONDE FALTA COMIDA

A pobreza extrema cresce 128% em três anos e recoloca o País no Mapa da Fome das Nações Unidas. O que alimenta cerca de 11,7 milhões de brasileiros por dia é insuficiente para atender às necessidades básicas de nutrição e saúde.

Uma potencia agricola onde falta comida

Quando a Constituição de um país determina que não pode haver desigualdade e que nenhum cidadão deve levar uma vida indigna, é muito provável que já exista gente demais nessas condições. No Brasil de hoje, uma em cada vinte pessoas termina o dia sem ter conseguido comer o mínimo necessário. Vão dormir com fome e acordar sem qualquer esperança de uma refeição satisfatória. Esse cenário assustador devolve o Brasil ao Mapa da Fome, elaborado desde 1990 pela FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. A entidade faz análises por países e regiões, propondo soluções ao problema da insegurança alimentar. Desde 2014, o Brasil estava fora desse mapa. A fome foi vencida com muito esforço, graças a uma combinação de programas sociais e de uma economia em forte expansão. O resultado permitiu que menos de 5% da população ficasse abaixo da linha da extrema miséria. Dados recentes divulgados pelas ONGs ActionAld Brasil e Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), a partir de índices do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indicam que a fome voltou a crescer, atingindo 11,7 milhões de brasileiros, o que perfaz 5,6 % da população.

Para entender onde o Brasil fracassou após tantos avanços e o que deve ser feito daqui para frente é preciso colocar os olhos sobrea recessão econômica que se arrasta desde 2014 e os subsequentes cortes nos programas sociais do governo em decorrência da Emenda do Teto de Gastos, que congelou o orçamento público por 20 anos. Analistas das áreas de saúde pública e de assistência social alertam que só um grande conjunto de medidas integradoras pode amenizar o quadro até a economia recomeçar a andar direito. Mesmo depois da retomada, seria preciso continuar, já que a desigualdade não se resolveria sem políticas públicas consistentes e de longo prazo.

“Uma economia voltada para o rentismo não resolverá”, afirma a antropóloga Maria Emília Pacheco, integrante da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Segundo dados do Governo Federal, o Bolsa Família beneficia hoje, 137 milhões de famílias em todos os municípios brasileiros. Mas, além do auxílio direto, que este ano foi reajustado acima da inflação acumulada de julho de 2016 a março de 2018, houve enfraquecimento de iniciativas como o Programa Merenda Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), voltados para pequenos produtores rurais de municípios do interior do Brasil. Os cortes afetam diretamente a renda dessas famílias.

O PAA encolheu de RS839 milhões em 2012 para RS 150 milhões em 20 17. Como resultado, sobra alimento que ninguém compra. Um efeito disso foi sentido durante a Greve dos Caminhoneiros, em maio, com a elevação de preços dos alimentos mesmo em municípios de produção agrícola voltada ao consumo direto. Além desses prejuízos, a preocupação de Maria Emília é que essa discussão não entrou de vez na agenda dos presidenciáveis.

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DESAMPARADOS

O perfil estatístico do pobre, de acordo com os dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e da Síntese dos Indicadores Sociais (SIS 2017), ambos do IBGE, indica que dois tipos de brasileiros em idade ativa estão mais sujeitos à falta crônica de alimentos. A mais emblemática é a mulher preta ou parda, entre 30 e 40 anos, com alguns filhos, moradora da zona rural de um estado do Norte ou Nordeste e cujo marido foi procurar em prego em uma grande cidade, deixando-a desamparada.

O outro é o homem ou mulher, chefe de família residente em cidade grande que convive com a falta crônica de emprego. Estes, e principalmente seus filhos, são as grandes vítimas desse quadro.

Desde o a no passado a FAO lança alertas sobre a delicada situação brasileira. Se mantidos, os programas sociais poderiam praticamente erradicar a fome até 2030, conforme anunciou a organização em outubro. Essa é uma meta da ONU. No curto prazo, contudo, os resultados da crise no País são doença e morte. A Fundação Abrinq estimou que a desnutrição infantil crônica e severa deva atingir 17,6% das crianças brasileiras. Iniciativas solidárias têm sido empreendidas para impedir que o número cresça. Após uma década, a Campanha Natal sem Fome foi reativada pela ONG Ação da Cidadania para atender as novas levas de necessitados, arrecadando 900 toneladas de alimentos. A ONG foi criada em 1993, pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, para combater a fome e a miséria.

“Precisamos de ações agudas. Uma criança sem comida em poucos dias está em sérios riscos”, diz o epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Maurício Barreto. Para ele, a solução está na volta da manutenção das redes de suporte social em conjunto com avanços na economia. A ausência de qualquer um desses componentes resultará em fracasso e contribuiria para tornar o problema cada vez maior. Transformar o mundo não é algo simplório. Mesmo uma recuperação econômica não resolveria, dado os fatores de desigualdade da sociedade brasileira. Sem contar que é um erro acreditar que proteção social é coisa de país pobre”, disse Barreto, citando os países ricos da Europa Ocidental.

 HISTÓRIA E LITERATURA

Ainda que o Brasil seja uma potência agrícola, com safras recordes ano a ano, a fome é uma velha conhecida da história e da literatura nacionais. A terra do “dar- se- à nela tudo”, citada numa carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, de Portugal, logo no Descobrimento, era uma miragem. Por aqui, fome e a miséria geraram revoltas, como a de Canudos, relatada em “Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha, e êxodos coletivos e familiares, como os descritos em “O Quinze” (1930), de Rachel de Queiroz, e “Vidas Secas”(1938), de Graciliano Ramos. Duas grandes estiagens no Nordeste, entre 1877 e 1917, causaram 600 mil mortes e surgimento das primeiras grandes migrações internas. O assunto foi tratado com metodologia em “Geografia da Fome” (1946), do médico e dentista social Josué de Castro, que considerava o problema uma praga social criada pelo homem e “a mais trágica expressão do subdesenvolvimento”.

O diretor-geral da FAO José Graziano, ex-coordenador do Programa Fome Zero e ex-ministro extraordinário para o Combate à Fome, defende a adoção de um firme programa de segurança alimentar no Brasil como forma de minimizar um problema que pode ser considerado tanto crônico como estrutural. Ainda mais na nação que fez a revolução da agricultura tropical, capaz de permitir a adaptação de culturas e climas temperados ao calor do Cerrado e da Amazônia, e se tornou um dos maiores exportadores de commodities agrícolas. Com a expectativa de que os ganhos de produtividade façam com que até 2027 o País alcance safras de 300 milhões de toneladas de grãos, saber que quase 12 milhões passam fome enquanto cresce a obesidade infantil nas camadas média e alta da pirâmide social é de uma incongruência ilógica. Graziano escreveu um artigo publicado no jornal “Valor Econômico”, no qual afirma que os governos, principalmente da América Latina, não podem se dar ao luxo de esperar pelo próximo ciclo de expansão global para lidar adequadamente com a fome e a desnutrição. “Seria apenas uma agenda de boas intenções, não fosse esse também um teste de sobrevivência da democracia e das lideranças da região”.

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LUXO NO LIXO

Para continuar vendendo seus produtos a preços estratosféricos, grifes voltadas para clientes de alto poder aquisitivo destroem mercadorias caríssimas que encalharam nas prateleiras.

Luxo no lixo

A prática parece estúpida, mas é corriqueira no mercado de alto luxo. Itens que não encontram compradores acabam no lixo, são destruídos ou incinerados. É literalmente, uma queima total e não no sentido em que o termo aparece nas liquidações. Para a indústria que fabrica joias, relógios, perfumes e roupas exclusivas, reduzir preços é heresia. Na semana passada, a grife britânica Burberry, ícone de luxo cuja fundação remonta 1856, anunciou ter queimado, em apenas um ano, o equivalente em produtos a 28 milhões de libras, cerca de R$141 milhões. Os dados constam do relatório anual da Burberry, relativo a 2017. Não foi a primeira vez. Nos últimos cinco anos, a marca incinerou aproximadamente 90 milhões de libras esterlinas, algo próximo de RS 446 milhões. Os produtos, segundo a grife, haviam sido produzidos em quantidades muito acima do que o mercado era capaz de absorver. Ou seja, encalharam.

“Uma das características da marca de luxo é a exclusividade. O conceito de escassez planejada da oferta explica essa necessidade que marcas como a Burberry têm de manter o preço”, diz Amnon Armoni, especialista em luxo e professor do MBA em Gestão Estratégica de Negócios da FAAP, em São Paulo. Para ele, marcas que atuam nesse segmento não podem correr o risco de perder relevância – o que ocorreria no caso de desequilíbrio da oferta em relação à demanda.

Embora tenha um alto custo tanto financeiro quanto ambiental, a destruição do excedente não gera prejuízo. Pelo contrário. Segundo Armoni, os acionistas são extremamente sensíveis aos resultados e ao valor da marca. “É preciso garantir o lucro, crescer, obter dividendos”, afirma. Ainda assim, ele acredita que tornar pública a informação sobrea destruição de mercadorias pode ser prejudicial para a imagem da grife. “Foi bizarro” diz Armoni. “Se a Burberry decidiu divulgar esse procedimento para chamar atenção. o tiro saiu pela culatra. Como sera a percepção dos consumidores daqui em diante?”, questiona. Em pronunciamento à imprensa, representantes da Burberry afirmaram que a incineração não deteriora o meio ambiente: “A energia gerada a partir dessa queima é armazenada, então o processo não polui”.

Para o professor do Instituto de Energia e Meio Ambiente da USP, Pedro Roberto Jacobi, a incineração é uma ação cada vez mais combatida, e o fato de a prática ser recorrente por parte das grifes “representa uma aberração do ponto de vista ambiental mas, principalmente, social. É uma atitude escandalosa e a melhor maneira de combater esse absurdo é boicotar seus produtos”, afirma Jacobi.

“ABSURDO”

Uma alternativa bem mais sustentável seria doar os produtos excedentes pelas instituições filantrópicas, que poderiam leiloá-los e destinar os recursos obtidos para causas sociais e humanitárias. Patrocinar programas de combate à pobreza extrema, a fome e a destruição ambiental seria bem mais interessante que destruir objetos que empregaram não apenas recursos naturais valiosos como o trabalho de centenas de pessoas. Em um mundo marcado pela crescente concentração de renda e onde cada vez mais se questiona a ostentação e o desperdício, destruir parte dos estoques para garantir mais lucros é um convite a críticas. “Um absurdo”, afirma Katherine Braun, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e especialista em moda. Ela relembra que o grupo Richemont, proprietário das marcas Montblanc e Cartier, “redirecionou” cerca de 500 milhões de euros R$ 2,1 bilhões) em estoque excedente nos últimos dois anos. Nesse caso, parte dos itens foi reciclado, mas muito do material acabou destruído. Não é de estranhar que o bilionário sul-africano Johann Rupert, principal acionista do grupo Richemont tenha declarado. anos atrás, que a desigualdade social o perturba a ponto de ele não dormir tranquilo. Suas práticas comerciais são mesmo capazes de tirar o sono de qualquer um.

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TREMOR SEM FIM?

A doença de Parkinson ainda é considerada incurável. Pesquisadores procuram ao menos, atenuar seus sintomas por meio da terapia genética, de transplantes celulares e do marca-passo cerebral.

Tremor sem fim

Atlanta, 9 de julho de 1996. Solenemente, Cassius Clay acende a pira olímpica na abertura dos XXVI Jogos de Verão. Mas a mão do antigo campeão mundial de box treme. O mundo é testemunha de um mal que Clay – mais conhecido como Muhammad Ali – compartilha com pelo menos outras 4 milhões de pessoas hoje no mundo. Estamos falando de uma doença cujos sintomas o médico e farmacêutico James Parkinson (1755 – 1824) descreveu pela primeira vez em 1817. Devido ao acentuado tremor de seus pacientes, ele a denominou shaking palsy, ou seja, “paralisia agitante”. Uma designação errônea, já que ela não causa paralisia e nem vem obrigatoriamente acompanhada de tremores. Na verdade, seu principal sintoma é um crescente e generalizado empobrecimento dos movimentos. Parkinson ainda não sabia nada sobre suas causas – e recomendava sangria e aplicação de ventosas.

Se diagnosticada a tempo, a doença pode ser bem controlada com medicamentos em seu estágio inicial. Em um tratamento ideal é possível atenuar os sintomas durante oito a 15 anos – e a expectativa de vida dos afetados permanece quase normal. No entanto, o diagnóstico quase nunca é feito em seu início, pois a doença começa com sintomas pouco específicos, como tensões musculares em um dos ombros ou braços, o que faz as pessoas visitar primeiro o ortopedista, e não o neurologista. Antes dos primeiros distúrbios de movimento, são frequentes cansaço, depressão ou crises repentinas de suor.

Muitas vezes, nada acontece durante anos – podem se passar de nove a 12 anos até a doença se manifestar completamente. Mas, pouco a pouco fica cada vez mais difícil lidar com objetos cujo manejo exige habilidade motora tina, como enfiar linha na agulha. Também o ato de escrever é afetado e a letra dos pacientes vai se tomando menor e de difícil leitura. Por fim, as atividades cotidianas se tomam obstáculos quase intransponíveis, escovar os dentes, pentear os cabelos, amarrar os sapatos, abotoar a camisa. A longo prazo, os doentes precisam de acompanhamento e sua qualidade de vida diminui sensivelmente.

Às dificuldades motoras somam-se problemas psíquicos, assim como os movimentos, os processos mentais ficam mais lentos. O fluxo de pensamentos se torna vagaroso, a fala soa arrastada e baixa. Cerca de um em cada dois pacientes é depressivo ou tem distúrbios de ansiedade, além disso, um em cada três sofre crises de demência.

Depois do mal de Alzheimer, Parkinson é a doença neurodegenerativa mais comum do mundo ocidental: aproximadamente 4 milhões de pessoas são afetadas no mundo todo, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar de também existirem parkinsonianos de 30 a 40anos, a doença é típica da velhice e atinge principalmente homens. Cerca de 1% das pessoas com mais de 60anos tem Parkinson e tal probabilidade aumenta l% a cada década de vida. Com expectativa de vida crescente e taxa de natalidade progressivamente menor, haverá no futuro cada vez mais doentes. Crianças nascidas hoje devem viver em média 90 anos, e calcula-se que cerca de 7,5% delas terão a doença até chegar a essa idade. Nesse cenário, a pesquisa médica tem sido cada vez mais desafiada a descobrir as causas do mal e desenvolver tratamentos efetivos. Apesar de progressos significativos já terem sido alcançados nos últimos anos, as causas da doença permanecem obscuras.

Desde os anos 60 sabe-se que as células nervosas do mesencéfalo se atrofiam com a doença. Os mais afetados por essa perda são os gânglios basais, situados abaixo do telencéfalo, responsáveis pelo controle da execução de movimentos automáticos. Ao escorregarmos em uma casca de banana, quase sempre um rápido movimento de equilíbrio – coordenado inconscientemente pelos gânglios basais – nos protege da queda. Se, por outro lado, quiséssemos controlar tudo conscientemente pelo telencéfalo, o processo levaria muito mais tempo – nós cairíamos muito mais vezes de cara no chão.

Entre os gânglios basais encontra-se a substância negra, que deve seu nome à grande concentração de pigmentos escuros, a melanina. Suas células nervosas altamente especializadas, que perfazem aproximadamente 1% do volume cerebral, produzem a dopamina – uma das mais importantes substâncias transmissoras do cérebro. Responsável principalmente pela regulação de todos os movimentos corporais, esse neurotransmissor atua como inibidor e também como ativador sobre outras áreas menos importantes como por exemplo o corpo estriado, que repassa os sinais para o telencéfalo. Pacientes com Parkinson perdem entre 20 e 25 mil dessas células nervosas dopaminérgicas.

Na ausência de dopamina o controle de estímulos no mesencéfalo não funciona corretamente. O paciente fica rígido, só consegue controlar seus movimentos com dificuldade e caminhar se transforma em um esforço quase insuperável. Sequer passar por locais estreitos, fica paralisado de repente – os clínicos denominam esse temido fenômeno de freezing.

 COMANDANTE INVISÍVEL

O tálamo, uma área de conexão do mesencéfalo, também depende da dopamina. Em estado saudável, ali aparentemente reina o caos – os neurônios trabalham desordenadamente. Porém, se o nível dopaminérgico cai, as células nervosas reagem de forma peculiar, sincronizam suas atividades – como sob ordens de um comandante invisível – e passam a trabalhar sincronicamente. Como consequência, os dedos, as mãos ou as pernas começam a tremer. Médicos descobriram tal fenômeno quando extraíram por engano parte do tálamo de um paciente: após a operação, o tremor em estado de descanso desapareceu.

Na maioria dos casos não é possível encontrar o causador da atrofia neuronal. Apenas em raras ocasiões pode-se rastrear uma meningite ou um tumor que sufoca a substância negra. Esses poucos casos são facilmente revelados por tomografia computadorizada ou ressonância magnética; nos pacientes típicos de Parkinson, no entanto, as imagens cerebrais raramente apresentam anomalia. Os casos da doença que atinge frequentemente boxeadores como Muhammad Ali, cujos cérebros foram constantemente expostos a golpes, também são considerados exceções. Outros fatores de risco possíveis são substâncias nocivas ao ambiente como pesticidas e metais pesados.

Entre 5% e 10% dos pacientes têm um defeito genético. Nesse caso, o mal se manifesta bem cedo. Se a doença afeta algum parente próximo, o risco é dobrado. Até agora foram identificados nove lócus gênicos envolvidos no surgimento da doença de Parkinson. Pelo menos quatro desses genes participam da produção de proteínas dentro da célula. Por esse motivo, vários neurologistas partem do princípio de que a doença tem como base uma sobrecarga dos neurônios com suas próprias proteínas. Se elas não podem mais ser eliminadas nem transformadas, a célula literalmente é sufocada pelos produtos de seu próprio metabolismo. Um outro gene controla a produção de energia pelas mitocôndrias. Se essas “usinas elétricas” das células deixam de funcionar, vários processos produtivos se paralisam – entre eles, a produção de dopamina.

O estudo das bases genéticas modificou nossa visão do problema, de um lado, percebemos que a doença de Parkinson não pode ser atribuída a uma causa apenas, e de outro, abrem-se novas possibilidades de diagnóstico. Cientistas esperam que, no futuro, a doença possa ser reconhecida precocemente por meio de um teste genético. Já se fala em tratamentos baseados em engenharia genética, mas até agora nenhum deles saiu da fase experimental. O plano é inserir genes no mesencéfalo do paciente através de vírus especialmente manipulados. Lá, os genes devem, por exemplo, ativar determinadas enzimas que liberam ou transportam dopamina. Os primeiros testes com animais já tiveram bons resultados – possivelmente este será um caminho pelo qual os sintomas da doença poderão ser atenuados ainda mais drasticamente.

Os pesquisadores estão introduzindo fatores neurotróficos – compostos que promovem o crescimento e a diferenciação neuronal – no cérebro. Esses agentes não só aliviam os sintomas como prometem proteger os neurônios dos danos e recuperar os que já foram prejudicados. Uma linha de pesquisa em animais sugere que uma família de proteínas chamada fator neurotrófico derivado de células gliais (GDNF; do inglês gliaI cell – derived neurotrophic factor) pode aumentar a sobrevivência de neurônios dopaminérgicos lesionados e reduzir drasticamente os sintomas parkinsonianos. Em macacos, essa substância conseguiu estimular a regeneração celular e interromper o declínio da formação de novos neurônios.

Em 2002, Stephen Gill e seus colegas já arriscaram testá-la em seres humanos no Hospital Frenchay, em Bristol, Inglaterra: o grupo administrou o GDNF por um cateter diretamente no corpo estriado, principal receptor dos gânglios de base da dopamina secretada pelos neurônios da substância negra, de cinco pacientes com Parkinson em estágio avançado. E vejam só: os sintomas realmente recuaram e a produção de dopamina aumentou. Em um dos pacientes, hoje falecido, os médicos comprovaram, até mesmo novos axônios neuronais. Mas muitos cientistas ainda mantêm- se reservados em seus prognósticos sobre a terapia genética. Ainda há poucos experimentos para avaliar sua efetividade e seus riscos.

Sendo assim, por enquanto, entre os métodos à escolha figuram apenas os medicamentos clássicos, entre os quais, no entanto, não há nenhum capaz de realmente curar a doença. O tratamento dos sintomas, porém, melhorou muito nos últimos 30 anos. O desenvolvimento da, L- Dopa, um estágio preliminar da dopamina que se transforma em dopamina no cérebro, foi o avanço mais revolucionário. Contrariamente à dopamina pura, a L- Dopa atravessa a barreira hematoencefálica – um revestimento de pouca permeabilidade dos vasos cerebrais que impede a penetração de substâncias nocivas no sensível órgão. Por isso, a L-Dopa pode ser simplesmente tomada na forma de comprimido.

Os primeiros resultados da L- Dopa impressionam: o medicamento devolve a autonomia de movimentos aos pacientes e lhes possibilita voltar a viver ativamente. No entanto, após alguns anos de tratamento, fica cada vez mais difícil calcular a quantidade ideal de L- Dopa, pois os receptores dopaminérgicos da região neuronal visada, o corpo estriado, tornam-se extremamente sensíveis com a evolução da doença. Apenas poucos neurônios dopaminérgicos continuam disponíveis para equilibrar as variações do nível de dopamina. Quando há uma overdose de L – Dopa, os movimentos se tornam exagerados e incontroláveis – a chamada discinesia. Por outro lado, uma dose menor que a necessária leva a um bloqueio completo. Muitos pacientes acham tal alternância entre essas fases “on” e “off” mais estressante que os sintomas originais da doença.

Uma alternativa são as substâncias da classe das agonistas da dopamina que imitam a sua função. Anualmente há uma enorme variedade de substâncias desse tipo no mercado. Mesmo que não tenham efeito tão forte quanto a, L – Dopa no início, a longo prazo, elas se mostram eficientes, são mais fáceis de dosar e a inutilizavam. Desde metade dos anos 90, surgiram opções mais elegantes. Veio da França a estimulação cerebral profunda, os cirurgiões implantam um eletrodo em um dos dois alvos dos gânglios de base – os gânglios basais ou o núcleo subtalâmico – ligado a um dispositivo que gera impulsos, implantado no tórax. Dessa forma a atividade do tálamo deve ser interrompida por meio de pequenos choques dirigidos.

A operação é extremamente complicada e demanda um trabalho de precisão milimétrica. O eletrodo não pode atingir um vaso em hipótese alguma. Há a ameaça de hemorragias cerebrais – que teriam como consequência uma paralisia ou um derrame. Felizmente, tais complicações raramente surgem. Como o cérebro não tem receptores de dor, os cirurgiões realizam a intervenção com o paciente em estado consciente. Uma vantagem decisiva, pois assim os médicos podem lhe lazer perguntas ou pedir que conte uma história durante a operação – e ter assim certeza de que não estão prejudicando nenhuma área cerebral importante. Por fim, o eletrodo é conectado a um marca-passo através de um cabo invisível sob a pele. O dispositivo normalmente emite impulsos de 90 microssegundos e 3 volts até 185 vezes por segundo. A caixinha, do tamanho de um maço de cigarros, é colocada sob a clavícula ou a pele da barriga, a troca de bateria a cada três a seis anos se dá sem complicações.

Se a operação for bem-sucedida, o paciente vive uma mudança impressionante que chega a lembrar um filme de ficção científica, um assistente opera um controle remoto e o paciente, que antes mal conseguia se movimentar, perde a rigidez e atravessa a sala lepidamente.

O procedimento parece muito promissor, o efeito da estimulação no núcleo subtalâmico se mantém estável por anos, de forma que a dose dos medicamentos muitas vezes pode ser reduzida pela metade. Porém, a estimulação permanente afeta também as áreas cerebrais vizinhas podendo causar sensação de surdez, distúrbios de fala ou problemas de equilíbrio. Portanto, cientistas trabalham para criar um marca-passo que trabalhe de forma mais cuidadosa, supervisionando o tálamo permanentemente e só o estimulando quando necessário.

TRATAMENTO DE LONGO PRAZO

O objetivo das pesquisas continua a ser o tratamento das causas da doença. A solução mais próxima parece ser a simples substituição das células atrofiadas. No entanto, as primeiras tentativas com células da medula supra- renal do próprio paciente não tiveram o resultado desejado, nem mesmo a implantação de tecidos de cérebros de suínos.

Até hoje quase todas as tentativas de curar a doença de Parkinson através do transplante celular fracassaram. Além da rejeição ao tecido estranho, o principal problema é a transferência do número correto de células. Em alguns casos de sucesso, o efeito placebo parece ter tido um papel importante: Cynthia McRae da Universidade de Denver fez seus pacientes acreditarem que havia implantado neles novas células nervosas. Um ano após essa operação fictícia ela ainda pôde observar uma melhora significante dos sintomas. Pesquisadores coordenados por Fabrízio Benedeni da Universidade de Turim injetaram uma solução com sal de cozinha em pacientes com Parkinson. Após o procedimento, seus movimentos musculares melhoraram e até mesmo a atividade de alguns neurônios aumentou significativamente.

Esperançosa parece ser a implantação de células epiteliais pigmentares capazes de produzir L-Dopa. Elas são encontradas na retina de fetos abonados e podem ser facilmente reproduzidas em cultura. Ligadas aos chamado msicrocamer, esferas de proteína microscópicas, o sistema imunológico quase não percebe as células implantadas, o que diminui o risco de rejeição. Com a retina de um único prematuro podem ser tratados 200 pacientes de Parkinson. Depois do sucesso de um estudo piloto com seis pessoas, o procedimento está sendo testado em 50 pacientes nos Estados Unidos.

Além disso, os médicos depositam grandes esperanças nas células-tronco que conseguem se transformar em diferentes tipos de células com funções específicas. Essas desejadas multifuncionais existem não apenas em embriões, mas também no organismo adulto. Uma grande reserva fica na chamada zona subventricular do mesencéfalo onde se formam novas células nervosas a fim de manter a plasticidade do cérebro. Principalmente o hipocampo, indispensável para a função da memória, responde pelo acréscimo regular de novas células.

A chamada célula C representa um estágio intermediário entre as células nervosas e as células-tronco. O grupo de trabalho de Marburg liderado por Günter Hoglinger e Wolfgang Oertel conseguiu demonstrar que o crescimento dessas células reage à dopamina. Se a produção de dopamina é interrompida em ratos, são produzidas menos células C. Como a dopamina nos seres humanos também estimula a divisão das células-tronco, forma-se um ciclo vicioso nos pacientes de Parkinson: devido à perda das células produtoras de dopamina, seu cérebro torna-se incapaz de substituir as células nervosas atrofiadas.

Pesquisadores coordenados por Jun Takahashi da Universidade de Kyoto, no Japão, tentam transformar células-tronco embrionárias através de processos de crescimento naturais em neurônios dopaminérgicos para só então transplantá-los. No início deste ano eles conseguiram o primeiro resultado positivo com macacos. Porém, antes que o tratamento de Parkinson com células-tronco embrionárias possa se aproximar de um estágio tecnicamente factível, há ainda várias perguntas a serem respondidas.

Está claro que todos esses casos tratam de possibilidades futuras. E não apenas o tratamento médico, mas também o ambiente em que vive o paciente têm um papel importante para o desenvolvimento da doença. Estar cercado de cuidados pode muitas vezes reduzir espantosamente os sintomas psíquicos, enquanto a fisioterapia regular estimula a capacidade de movimentação.

Muitos doentes revelam-se grandes inventores quando se trata de administrar sua rotina. Eles ouvem música em um walkman para falar mais alto e claramente; desenhos no tapete os ajudam a se concentrar em seu caminho. Hoje, a indústria oferece sistemas ópticos para reduzir o grande risco de quedas, integrado em óculos especiais, o sistema denominado “Park Aid projeta desenhos gráficos no campo de visão do paciente a fim de facilitar a sua orientação espacial. E IBM desenvolveu um mouse especial que possibilita aos pacientes trabalhar ao computador sem tremores.

O grupo coordenado por Alfons Schnitzler, da Universidade de Dusseldorf, também trabalha com técnicas de vídeo. Para facilitar o controle de sintomas, os pesquisadores instalaram câmeras nos apartamentos de cem pacientes. O que à primeira vista lembra um Big Brother possibilita a observação do ambiente caseiro, os pacientes apresentam sua mobilidade quatro vezes ao dia, o que faz com que o médico possa decidir a distância se os seus sintomas se modificaram. Se for este o caso, então a dose de medicamentos provavelmente precisa ser readequada. O ajuste leva normalmente duas semanas na clínica, o que aumenta consideravelmente os custos. No entanto, um estudo de controle ainda precisa comprovar o quanto este método realmente funciona.

Por fim, fica a pergunta sobre o que as pessoas saudáveis podem fazer para evitar o mal. Como no caso da maioria das doenças, movimentação corporal não faz mal algum – a não ser que se trate de boxe. Pelo menos para homens, o grupo de trabalho de Alberto Aschiero, da Escola de Saúde Pública de Harvard, em Boston, pôde comprovar em 2005 que a atividade esportiva reduz pela metade o risco do surgimento da doença. Em que se baseia tal proteção, ainda não está claro. Talvez o esporte eleve o nível de dopamina – um efeito que também foi atribuído à nicotina recentemente. Nancy Pedersen, do Instituto Karolinska, de Estocolmo, também pôde comprovar em 2004 aquilo que pesquisadores da Universidade de Magdeburg, coordenados por Wiebke Hellenbrand, descobriram em 1997, amantes do cigarro aparentemente são vítimas menos frequentes da pérfida paralisia agitante. Os fumantes teriam então nova desculpa.

 

OUTROS OLHARES

O DEFICIENTE ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Lei brasileira de inclusão apresenta problemas por integrar, na mesma legislação, indivíduos com deficiência física e mental.

O Deficiente estatudo da pessoa com deficiência

Em 6 de julho de 2015 foi instituída a Lei nº 13.146, que passa a se chamar Lei Brasileira de Inclusão. A ideia do legislador era “assegurar e promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania”, conforme o seu art. 1°.

Com respeito às opiniões divergentes, essa lei apresenta problemas insuperáveis por incluir, na mesma legislação, indivíduos com deficiência física e mental.

Do ponto de vista médico, não há qualquer possiblidade de equipará-los, colocando-os em uma mesma categoria, uma vez que os transtornos mentais estão relacionados à capacidade de entendimento e de determinação do agente, enquanto as outras deficiências são de natureza eminentemente física ou relacionadas ao comprometimento da sensopercepção.

Para ficar apenas no que interessa à psiquiatria forense, é preciso lembrar que muitos doentes mentais precisam ser interditados, pois a interdição, que tem suas origens na Lei das Doze Tábuas, foi por milênios aperfeiçoada para proteger o indivíduo incapaz de gerir a sua pessoa e de administrar os seus bens. E quem elaborou o Estatuto da Pessoa com Deficiência viu a interdição como um castigo ao interdito, ao passo que é exatamente o contrário, ou seja, um remédio jurídico-social, o qual, como qualquer fármaco, se bem administrado, é medida salutar e necessária. O grande e incompreensível problema da lei em comento está no Capítulo II art. 6°, que estabelece: “A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa” (ou seja, não existe mais interdição total).

Afeta sim, é impossível o esquizofrênico grave, o encefalopata maior, o demente senil, o sequelado grave de acidente vascular cerebral, o alcoolista crônico, o toxicômano grave, o enfermo de mal de Pick, o que está há longo tempo em estado comatoso etc. ter capacidade mental para praticar qualquer ato civil, seja lá qual for. Devem ser protegidos pela lei, pois são totalmente incapazes. Sem a proteção legal, ficam vulneráveis e expostos a toda a sorte de desgraça física, patrimonial, social, pessoal e tudo mais.

Os problemas dessa Lei nº13.146/2015 não param aí. Apenas para citar mais um: o art. 84, § 2°, diz respeito à tomada de decisão apoiada, quando a pessoa com deficiência elege pelo menos dois indivíduos para lhe prestar apoio na tomada de decisão sobre atos da vida civil (art. 1.783-A do Código Civil).

Imagine o leitor um indivíduo limítrofe intelectualmente – ingênuo, sugestionável e com diminuição da inteligência -, sem o pai, a mãe morreu e não tem irmãos ou parentes, na posse da legítima herança. Não estaria correndo o risco de apontar dois espertalhões, dentre tantos que não minguam em qualquer sociedade, que estão sempre prontos para “ajudar”? E como ficam os psicopatas e fronteiriços de todo o gênero? Parece que o legislador que elaborou a referida Lei nº 13.146/2015 foi deficiente em compreender que a interdição total, como dito, não é um castigo, mas a necessária proteção jurídico-social para alguns que possuem transtornos intelectuais.

Se essa lei, com todo respeito, caolha para a psiquiatria forense, não for rapidamente revista, vamos assistir a inúmeras injustiças e práticas condenáveis recaírem naqueles que mais precisam de proteção social e legal.

 

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

OUTROS OLHARES

A CIÊNCIA DA PERSUASÃO

A psicologia social identificou os princípios básicos que levam uma pessoa a dizer “sim”.

A ciência da persuasão

Olá, espero que esteja gostando da matéria. Por ora, eu gostaria de apresentar algo que pode ser de extrema importância pessoal para você. Você já foi induzido a dizer sim? Já se sentiu forçado a comprar algo que não queria ou a contribuir com alguma causa suspeita? Alguma vez já desejou entender porque agiu desse jeito, para que, no futuro pudesse resistir a esses ardis? Sim? Então este artigo é perfeito. Ele contém informações de grande valor sobre as mais poderosas pressões psicológicas que fazem você responder sim a pedidos. E é repleto de pesquisas NOVAS e APRIMORADAS que mostram exatamente como e por que essas técnicas funcionam. Então não perca tempo, apenas relaxe e acesse as informações – que, no fundo, você já concordou que quer.

O estudo científico do processo de influência social tem mais de 50 anos, tendo começado de modo mais sério com os programas de propaganda, informes públicos e de persuasão da Segunda Guerra Mundial. Desde aquela época, inúmeros cientistas sociais investigaram os meios pelos quais uma pessoa pode influenciar as atitudes e ações de outra. Participei nos últimos 30 anos dessa empreitada, concentrando-me em especial nos principais fatores que causam uma forma específica de mudança de comportamento – a concordância com uma solicitação. Seis inclinações básicas do comportamento humano atuam para gerar uma resposta positiva, reciprocidade, coerência, validação social, gostar (de alguém), autoridade e escassez. Pelo fato de essas inclinações ajudarem a orientar nossas transações comerciais, nossa participação social e nossas relações pessoais, o conhecimento das regras da persuasão pode efetivamente ser pensado como algo que aumenta nosso poder enquanto cidadãos.

RECIPROCIDADE

Quando a organização dos Veteranos Americanos Incapacitados envia por mala-direta pedidos de contribuição, a requisição é atendida em apenas 18% dos casos. No entanto, quando a correspondência inclui um conjunto gratuito de etiquetas personalizadas de endereço, a aceitação praticamente dobra, chegando a 35%. Para entender o efeito desse presente não solicitado, devemos reconhecer o alcance e a força de uma regra elementar da conduta humana, o código de reciprocidade.

Todas as sociedades endossam normas que obrigam os indivíduos a retribuir de algum modo àquilo que recebem. Pressões da seleção evolutiva provavelmente fixaram esse comportamento em animais sociais, como é o nosso caso. A exigência de reciprocidade explica em parte o grande aumento de doações feitas ao grupo de veteranos. Receber um presente não solicitado – e talvez até mesmo não desejado – convenceu um número significativo de doadores a retribuir o favor. Organizações beneficentes não estão sozinhas na utilização dessa abordagem, pelo contrário, supermercados oferecem degustações grátis, dedetizadores fornecem orçamentos sem compromisso, academias de ginástica propõem aulas-teste. Desse modo, os clientes são expostos aos produtos e serviços, mas também obrigados a retribuir. Mas os consumidores não são os únicos sob a influência da reciprocidade. Indústrias farmacêuticas gastam milhões de dólares por ano para financiar pesquisas e para oferecer presentes a médicos – atividades que podem influenciar indiretamente as descobertas dos pesquisadores e as recomendações dos médicos. Estudo de 1989 publicado no New England Journal of Medicine descobriu que apenas 37% dos pesquisadores que haviam publicado conclusões críticas sobre a segurança dos bloqueadores de canais de cálcio já tinham recebido financiamentos de indústrias farmacêuticas. Todavia, entre aqueles cujas conclusões atestavam a segurança do remédio, o número de pesquisadores que tinham recebido viagens gratuitas, financiamento para pesquisa ou emprego disparava – para 100%.

A reciprocidade envolve mais que presentes e favores; ela também se aplica a concessões que as pessoas fazem umas às outras. Suponha, por exemplo, que você recuse meu pedido principal, e eu então lhe proponha algo mais simples. É muito provável que você retribua com uma concessão de sua parte: a concordância com a minha segunda proposta. Em meados dos anos 70, meus colegas e eu realizamos uma experiência que ilustra com clareza a dinâmica das concessões recíprocas. Nós abordávamos uma amostra aleatória de passantes na rua e perguntávamos se eles se ofereceriam como voluntários para ciceronear jovens infratores em um passeio ao zoológico. Como era de esperar, pouquíssimos concordaram – apenas 17%.

No entanto, em outra amostra aleatória de passantes, começamos com um pedido ainda maior: trabalhar, sem remuneração, como conselheiro no centro de detenção juvenil, duas horas por semana pelos próximos dois anos. Todo mundo dessa segunda amostra rejeitou esse pedido excessivo. Nesse ponto, oferecíamos a eles uma concessão. “Se não podem fazer isso, perguntávamos, vocês poderiam ciceronear um grupo de jovens infratores em um passeio ao zoológico” Nossa concessão estimulou fortemente a retribuição. Comparado ao pedido direto para acompanhar os jovens ao zoológico, o nível de aceitação praticamente triplicou, chegando a 50%.

COERÊNCIA

Em 1998 Gordon Sinclair, proprietário de um famoso restaurante em Chicago, lutava contra um problema que aflige todos os restaurantes.  Os clientes com frequência reservavam mesas e não compareciam nem ligavam para desmarcar. Sinclair resolveu o problema pedindo que a recepcionista mudasse duas palavras do que ela dizia aos fregueses que solicitavam reservas. A mudança fez com que os casos de pessoas que não apareciam nem ligavam para desmarcar a reserva imediatamente despencassem de 30% para 10%.

As duas palavras surtiram efeito porque elas mobilizavam a força de outra forte motivação humana, o desejo de ser, e de parecer, coerente. A recepcionista simplesmente mudou seu pedido de ‘Por favor, ligue se você tiver de mudar seus planos” para ‘Você pode, por favor, ligar se tiver de mudar seus planos? Nesse momento ela fazia, de modo cortês, uma pausa, e aguardava a resposta. A espera era fundamental porque induzia os clientes a preencher a pausa com um compromisso público. E compromissos públicos, mesmo aqueles aparentemente banais, determinam as ações futuras.

Em outro exemplo, a equipe de Joseph Schwarzwald, da Universidade Bar-llan, em Israel, praticamente dobrou as contribuições em dinheiro para deficientes físicos em determinados bairros. O principal fator, duas semanas antes de solicitar as contribuições, eles colheram assinaturas entre os moradores para um abaixo-assinado em apoio aos deficientes, o que fez com que eles assumissem um compromisso público com aquela causa.

VALIDAÇÃO SOCIAL

Em uma manhã fria de inverno no final dos anos 60, um homem parou numa movimentada calçada na cidade de Nova York e fitou o céu por 60 segundos, sem nenhum motivo especial. Fez isso como parte de um experimento realizado pelos psicólogos Stanley Milgram, Leonard Bickman e Lawrence Berkowitz, da Universidade da Cidade de Nova York, planejado para descobrir que efeito essa ação teria sobre os passantes. A maioria simplesmente se desviava ou esbarrava nele, 4% se juntavam ao homem olhando para cima. O experimento foi então repetido com uma pequena modificação. Com a mudança, um grande número de pedestres foi induzido a parar, aglomerar-se e olhar para o alto.

Essa única alteração incorporava o fenômeno da validação social. Um dos modos fundamentais de decidirmos o que fazer numa determinada situação é olhar o que os outros estão fazendo ou fizeram naquela circunstância. Se muitos optaram por uma certa ideia, tendemos a segui-la, porque vemos a ideia como sendo mais correta, mais válida.

Milgram, Bickman e Berkowitz introduziram a influência da validação social em seu experimento simplesmente fazendo com que cinco homens, em vez de apenas um, fitassem coisa alguma. Com mais pessoas no grupo inicial olhando para cima, a porcentagem de nova-iorquinos que fizeram o mesmo mais que quadruplicou, chegando a 18%. Grupos iniciais com mais pessoas olhando para o alto causaram uma reação ainda maior: um grupo inicial de 15 pessoas fez com que 40% dos passantes se juntassem a eles, praticamente parando o trânsito em menos de um minuto.

Aproveitando-se da validação social, aqueles que nos pedem algo podem estimular nosso consentimento demonstrando (ou simplesmente insinuando) que outras pessoas como nós já consentiram. Por exemplo, um estudo descobriu que, quando um arrecadador de doações mostrava aos moradores uma lista de vizinhos que haviam feito doações para uma instituição de caridade local, o número de contribuições aumentava significativamente; quanto maior a lista, maior o efeito. Por essa razão os publicitários se desdobram para nos informar que seu produto é o que mais vende ou cresce entre os seus similares, e os comerciais de televisão retratam multidões correndo às lojas para comprar o produto anunciado.

No entanto, são menos óbvias as circunstâncias sob as quais a validação social sai pela culatra, produzindo o oposto da intenção de quem pedia algo. Um exemplo é a compreensível, mas potencialmente equivocada, tendência de especialistas em saúde a chamar a atenção para um problema caracterizando-o como lamentavelmente frequente. Campanhas de conscientização apontam que o consumo de álcool e drogas é muito elevado, que os índices de suicídio entre adolescentes é alarmante e que quem polui está destruindo o ambiente. Independente do fato de essas afirmações serem não só verdadeiras como bem-intencionadas, os criadores dessas campanhas não perceberam algo básico sobre o processo de aquiescência. Na frase “Veja quantas pessoas estão fazendo essa coisa indesejável” esconde-se a mensagem poderosa e corrosiva “Veja quantas pessoas estão fazendo essa coisa indesejável”. Pesquisas mostram que, como resultado, muitos desses programas têm um “efeito bumerangue”, aumentando ainda mais o comportamento que se queria evitar.

Foi o caso de um programa de prevenção de suicídios dirigido a adolescentes de Nova Jersey, que os informava sobre o alto número de suicídios entre jovens. O pesquisador da área de saúde David Shaffer e seus colegas da Universidade Columbia descobriram que os adolescentes participantes se tornavam significativamente mais inclinados a ver o suicídio como uma solução potencial de seus problemas. As campanhas mais eficazes são as que retratam, de forma franca, a atitude indesejada como sendo nociva, independente do fato de que relativamente poucos indivíduos a praticam.

GOSTAR

“Afinidade”, “empatia” e “afeição” descrevem um sentimento de conexão entre as pessoas. Mas a singela palavra “gostar” é a que expressa de modo mais completo o conceito, tendo por isso se tornado a definição corrente na literatura das ciências sociais. As pessoas preferem dizer sim àqueles de quem gostam. Pensemos no sucesso mundial da Tuppeware Corporation e seu programa de “festas em casa”. No encontro de demonstração em casa, a estratégia é fazer os consumidores comprarem de alguém de quem eles gostam, o anfitrião, em vez de comprarem de um desconhecido. O efeito sobre as vendas foi tão positivo que, segundo dados da corporação, a cada dois segundos tem início uma “festa” da Tuppeware em algum lugar do mundo. Na verdade, atualmente 75 % de todas as “festas” da Tuppeware acontecem fora dos Estados Unidos, em países onde os laços sociais do grupo são muito mais importantes que nos Estados Unidos.

É claro que a maioria das transações comerciais se dão fora da casa de amigos. Nessas circunstâncias – muito mais comuns -, aqueles que querem se valer da força do gostar utilizam táticas centradas em certos fatores que, segundo pesquisas, efetivamente podem funcionar.

A atração física pode ser um desses instrumentos. Em um estudo de 1993 conduzido por Peter H. Reingen, da Universidade Estadual do Arizona, e Jerome B. Kernan, da Universidade George Mason, os arrecadadores mais bonitos da Associação Americana do Coração conseguiram quase o dobro de doações (42% contra 23%) que os outros arrecadadores. Nos anos 70, Michael G. Efran e. W. J. Patterson, da Universidade de Toronto, descobriram que, nas eleições federais canadenses, os eleitores davam muito mais votos a candidatos fisicamente atraentes. Mesmo assim, esses eleitores insistiam que suas escolhas não eram influenciadas por algo tão fútil como a aparência.

A similaridade também pode facilitar a criação de empatia. Em geral, vendedores procuram, ou simplesmente inventam, uma conexão entre eles e seus clientes: “Ah, você tá brincando, você é de Minneapolis? Eu estudei em Minneapolis!”. Arrecadadores de doações fazem o mesmo, com bons resultados. Em 1994, os psicólogos R. Kelly Aune e Michael D. Basil, da Universidade de Denver, publicaram uma pesquisa em que arrecadadores correram um campus solicitando contribuições para uma instituição de caridade. Quando a frase “Eu também sou estudante” era acrescentada às solicitações, o número de doações mais que dobrava.

Elogios também incentivam o gostar, e vendedores que trabalham cm contato direto com os clientes treinam a lisonja. Na verdade, mesmo a adulação forçada pode funcionar. Pesquisas da Universidade da Carolina do Norte em Chappel Hill descobriram que elogios, tanto faz se falsos ou sinceros, produzem empatia pelo bajulador.

A cooperação é outro fator que produz ações e sentimentos positivos. Vendedores, por exemplo, empenham-se em se mostrar como parceiros cooperativos aos possíveis fregueses. Gerentes de revendedoras de carros costumam assumir o papel de vilões, para que o vendedor possa “lutar” pelo cliente. Essa manobra naturalmente estabelece uma forma de o cliente gostar do vendedor, o que estimula as vendas.

AUTORIDADE

Retomemos o caso do homem que usava a validação social para conseguir que um grande número de passantes parasse e fitasse o céu. Ele poderia conseguir o efeito oposto e colocar estranhos em movimento ao arrogar-se o papel de autoridade. Em 1995, Monroe Lefkowitz, Robert R. Blake e Jane S. Mouton, pesquisadores da Universidade do Texas em Austin, descobriram que um homem podia, mudando apenas uma coisa, aumentar em 350% o número de pedestres que o seguiam quando ele atravessava a rua com o sinal fechado. Em vez de estar vestido casualmente, ele trajava sinais de autoridade, terno e gravata.

Quem se gaba demais de sua experiência, habilidade ou reputação científica pode estar tentando se aproveitar do poder da autoridade. “Bebês são nosso negócio, nosso único negócio”, “Quatro de cada cinco médicos recomendam”, e por aí vai. (A biografia do autor serve, em parte, para isso.) Não há nada de errado com tais afirmações quando elas são verdadeiras, porque em geral nós queremos a opinião de pessoas que realmente são autoridades. Suas opiniões nos ajudam a escolher de forma rápida e acertada.

O problema é quando nos impingem afirmações falsas. Se deixamos de pensar como em geral ocorre quando nos deparamos com símbolos de autoridade, podemos ser facilmente manipulados por falsos especialistas – aquelas que apenas afetam ar de legitimidade. Aquele texano de terno e gravata atravessando a rua de modo irresponsável não era mais autoridade em cruzar ruas que o resto dos pedestres que, não obstante, o seguiram. Na década de 70, uma campanha publicitária de tremendo sucesso mostrava o ator Robert Young apregoando os benefícios à saúde do consumo de café descafeinado. Aparentemente, Young podia apresentar com legitimidade essa opinião médica porque, na época, ele vivia o papel do médico mais famoso do país. O fato de o dr. Marcus Welby ser apenas um personagem de um programa de TV era menos importante que a aparência de autoridade.

ESCASSEZ

Quando trabalhava na Universidade Estadual da Flórida, nos anos70, o psicólogo Stephen West após colher as opiniões dos estudantes sobre a cozinha do refeitório, reparou num fato estranho: a avaliação da comida havia subido significativamente em relação à semana anterior, apesar de não ter havido nenhuma mudança no cardápio, na qualidade da comida ou na preparação das refeições. Na verdade, a mudança foi causada pela notícia de que, devido a um incêndio, o refeitório ficaria interditado por várias semanas.

Essa história põe em relevo o efeito da percepção da escassez sobre o julgamento humano. Há muitos indícios que mostram que produtos e oportunidades se tornam mais desejados por nós à medida que eles ficam menos disponíveis. É por esse motivo que publicitários apregoam os benefícios das características exclusivas dos produtos que oferecem. E é por essa razão também que eles sempre realizam promoções do tipo “por tempo limitado”, ou nos põem para competir uns com os outros através de campanhas baseadas em “estoque limitado”.

Menos conhecido é o fato de que a escassez afeta não apenas o valor das mercadorias, mas também o das informações. Informações exclusivas têm maior poder de persuasão. Tomemos como exemplo os dados usados na dissertação de um ex-orientando meu, Amram Knishinsky, dono de uma empresa que importava carne bovina para os Estados Unidos e a revendia para supermercados. Para verificar os efeitos da escassez e da exclusividade sobre a aquiescência, ele instruiu seus operadores de telemarketing a ligar para uma amostra aleatória de clientes e fazer a oferta padrão de venda de carne. Knishinsky também orientou seus vendedores a fazerem o mesmo com uma segunda amostra aleatória de clientes, mas acrescentando que haveria falta de carne bovina australiana devido a fatores climáticos, o que era verdade. A informação extra de que haveria falta de carne bovina, mais que dobrou as vendas.

Por último, ele determinou que sua equipe ligasse para uma terceira amostra de cliente e lhes dissesse que (1) era iminente a falta de came bovina australiana e que (2) essa informação fora obtida de fontes exclusivas da empresa no instituto meteorológico nacional australiano. Esses clientes aumentaram seus pedidos em mais de 600%. Eles foram influenciados pelo temor de dois tipos de escassez: não apenas havia pouca carne, mas a própria informação de que a carne era escassa era, ela mesma, escassa.

SABER É PODER

É digno de nota que muitos dos dados apresentados neste artigo foram tirados de estudos sobre as técnicas dos profissionais da persuasão – especialistas em marketing, publicitários, vendedores, arrecadadores de contribuições e aqueles cujo bem-estar financeiro depende de sua habilidade de fazer com que os outros digam sim. Uma espécie de seleção natural age sobre essas pessoas, uma vez que aqueles que utilizam táticas ineficientes vão logo à falência. Por outro lado, aqueles que usam táticas que funcionam bem sobrevivem, crescem e disseminam essas estratégias vencedoras. Desse modo, com o passar do tempo, os princípios mais eficientes de influência social podem ser vistos nos repertórios das profissões tradicionais de persuasão. Meu próprio trabalho aponta que esses princípios incorporam as seis inclinações humanas básicas examinadas neste artigo, reciprocidade, coerência, validação social, gostar (de alguém), autoridade e escassez.

De um ponto de vista evolutivo, cada um dos comportamentos apresentados teria sido, aparentemente, selecionado para animais que, como nós mesmos, precisam encontrar os melhores modos de sobreviver vivendo em grupos sociais. E, com efeito, na imensa maioria das vezes esses princípios nos orientam de maneira correta. Em geral, faz todo sentido retribuir favores, agir com coerência, imitar pessoas com quem nos identificamos, dar preferência aos pedidos daqueles de quem gostamos, prestar atenção à autoridade legítima e valorizar recursos escassos. Assim, pessoas influentes que usam esses princípios nos fazem um verdadeiro favor. Se uma agência de publicidade, por exemplo, centrasse sua campanha de remédios para dor de cabeça em dados científicos baseados em verdadeiras autoridades da área médica, em benefício de seus consumidores, todas as pessoas corretas ganhariam com isso – a agência, o fabricante e o público. O que não seria o caso se a agência, não vendo nenhum mérito cientifico no analgésico, introduzisse clandestinamente o princípio da autoridade por meio de anúncios que mostrassem atores vestidos com jalecos brancos.

Será que estamos condenados a ser manipulados por esses princípios? Não. Ao compreendermos as técnicas de persuasão, podemos começar a reconhecer essas estratégias e, desse modo, analisar criticamente os pedidos e ofertas. Nossa obrigação é fazer com que os profissionais da persuasão prestem contas pelo uso daqueles seis poderosos motivadores, comprando seus produtos e serviços, apoiando suas propostas políticas ou fazendo doações apenas quando eles agirem de modo sincero.

Se, ao lidarmos com esses mestres das artes persuasivas, fizermos essa distinção vital, será pouco provável que consintamos com o engodo. Em vez disso, daremos a nós mesmos uma opção muito melhor: dizer um sim bem fundamentado. Além disso, ao aplicarmos a mesma distinção a nossas próprias tentativas de influenciar os outros, nós podemos legitimamente mobilizar aqueles seis princípios. Ao tentar persuadir mostrando a existência de verdadeiro domínio do assunto, validação social crescente, compromissos pertinentes ou reais oportunidades de cooperação, entre outras coisas, atendemos aos interesses de ambas as partes e, no processo, aprimoramos a qualidade do tecido social.

 

Bem, é claro que alguém com a sua inteligência compreende o bem que este artigo pode fazer. E como você parece ser uma pessoa tão, mas tão bondosa que faz questão de dividir estas importantes informações com outros, permita-me fazer-lhe um pedido. Você por acaso compraria esta edição da revista para dez amigos? Bem, se não pode fazer isso, poderia pelo menos mostrar para um único amigo? Espere, não responda ainda. Por eu gostar de você do fundo do coração, vou incluir – sem nenhum custo extra – um conjunto de referências que você pode consultar para saber mais sobre este assunto tão pouco conhecido.

Como é, você declara a sua disposição de ajudar?… Por favor, reconheça que estou fazendo uma pausa bastante cortês aqui. Mas enquanto eu espero, quero que saiba que muitos outros como você certamente darão seu consentimento. Por sinal, que linda camisa você está usando!  

A ciência da persuasão.2                                                  

INFLUÊENCIA SEM FRONTEIRAS

Será que os seis fatores básicos da influência social funcionam de modo similar entre as fronteiras nacionais? Sim, mas com pequenas diferenças. Afinal, os cidadãos do planeta são seres humanos, portanto suscetíveis às tendências básicas que caracterizam todos os membros da nossa espécie. No entanto, normas culturais, tradições e experiências podem alterar o peso desempenhado por cada um dos fatores.

Examinemos os resultados de um relatório publicado em 2000 por Michael M. Morris, Joel M. Podolny e Sheira Ariel, da Universidade Stanford. Eles estudaram os funcionários do Citibank, uma corporação financeira multinacional. Os pesquisadores selecionaram quatro sociedades para ser investigadas: os Estados Unidos, a China, a Espanha e a Alemanha. Eles pesquisaram as filiais do Citibank em cada país e mediram a disposição dos funcionários de atender voluntariamente o pedido de ajuda de um colega para executar uma tarefa. Embora fatores diferentes pudessem influir, o principal motivo que fazia com que funcionários se sentissem obrigados a atender ao pedido variava de país para país. Cada um desses motivos incorporava um princípio diferente da influência social.

Os funcionários americanos adotavam uma postura baseada na reciprocidade ao decidirem se atenderiam ao pedido. Eles se perguntavam: “O que essa pessoa fez por mim recentemente?”, e sentiam-se obrigados a ajudar se eles devessem a ela algum favor. Os funcionários chineses reagiam basicamente à autoridade, na forma de lealdade aos ocupantes das posições hierárquicas mais elevadas em seu pequeno grupo. Eles se perguntavam: “Essa pessoa que está pedindo é ligada a alguém de minha equipe, em especial a algum superior?”.  Se a resposta fosse afirmativa, eles se sentiam obrigados a prestar auxílio.

Os funcionários do Citibank espanhol baseavam a decisão de atender ao pedido sobretudo no gostar/amizade. Dispunham-se a ajudar seguindo regras de amizade que incentivam a lealdade aos amigos, independentemente de sua posição ou status. Eles se perguntavam: “A pessoa que está pedindo é ligada a meus amigos?”. Caso a resposta fosse positiva, era muito provável que eles atendessem ao pedido.

Os funcionários alemães eram movidos pela coerência. Oferecendo ajuda para que fossem coerentes com as regras da organização. Eles decidiam se iriam atender ou não ao pedido perguntando: “De acordo com os regulamentos e categorias oficiais, devo atender esse pedido?”. Se sim, eles se sentiam efetivamente obrigados a consentir no pedido.

Em suma, apesar de todas as sociedades humanas aparentemente agirem sob o mesmo conjunto de regras, os pesos relativos de cada uma dessas regras podem variar de uma cultura para outra. Pedidos persuasivos dirigidos a públicos de diferentes culturas devem levar em conta essas diferenças.

 

ROBERT B. CIALDINI – é professor de psicologia da Universidade Estadual do Arizona. Seu livro Influence, resultado de três anos de pesquisa sobre os motivos que levam as pessoas a atender pedidos do dia-a-dia, já teve inúmeras edições e foi traduzido em nove idiomas. Seu profundo interesse pelos mistérios da influência deve-se ao fato de ter crescido em uma família italiana, num bairro predominantemente polonês de uma cidade de tradição alemã (Milwauke), localizada em um estado rural.