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PARECE LOJA, MAS É BANCO

Varejistas transformam subsidiárias financeiras em instituições independentes para aumentar a oferta de crédito.

Parece loja mas é banco

O ambiente de uma loja de qualquer grande rede de varejo não se parece em nada com a frieza controlada de uma agência bancária. Em vez de oferecer mercadorias organizadas por cores e atendentes que sorriem, os bancos se protegem dos clientes com portas giratórias, seguranças armados e filas intermináveis para quem quer apenas deixar as contas em dia. Apesar das diferenças, quem pisa em estabelecimentos da Renner ou da Riachuelo, duas das maiores varejistas do País, estão, sem perceber, entrando em instituições financeiras. Nessas lojas é possível fazer cartões de crédito, contratar seguros e até contrair empréstimos. Embora a prática de disponibilizar seus balcões para vender produtos financeiros não seja nova, o varejo resolveu ir além. As empresas estão, legalmente, se transformando em bancos para ocupar espaço nos meios físico e digital. Além de encorpar os ganhos, a prática garante a fidelidade da clientela.

Em junho passado, a Renner obteve permissão do Banco Central (BC) para transformar sua subsidiária financeira em uma instituição independente, a Realiza. “Ela foi criada a partir de uma plataforma aberta, para abrigar serviços de parceiros”, diz Laurence Gomes, diretor financeiro e de relações com investidores da Renner. Um dos objetivos é tornar os processos mais ágeis. “Já estamos emitindo cartões por meio do nosso aplicativo, e conseguimos aprovar o crédito em quatro minutos”, diz Gomes. No ano passado, o plástico com bandeira própria representou 44,2% das vendas e 19,7% na geração de caixa, e a Renner quer aumentar esse percentual.

O exemplo da Renner estimulou a concorrência. Em novembro passado, a Riachuelo, controlada pelo grupo Guararapes, informou o mercado que aguarda autorização do BC para transformar a Midway, sua financeira, em um banco completo. O crescimento orgânico da operação incentivou a decisão. Até o terceiro trimestre de 2018, a receita com empréstimo pessoal da Riachuelo havia crescido 69,7% na comparação anual e somava R$ 466,6 milhões. Com esse incremento, os serviços financeiros responderam por 47% da geração de caixa do grupo nos nove primeiros meses de 2018. Até setembro do ano passado, somente os cartões da própria loja responderam por 45% das vendas. “Essa operação ainda têm um fôlego de crescimento bastante interessante ao longo de 2019”, afirmou Tulio Queiroz, diretor financeiro da companhia durante teleconferência com analistas em novembro do ano passado.

Ao transformar uma financeira em banco, as empresas ficam aptas para incrementar a captação de recursos para além do modelo antigo, ligado a fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) ao abrir mais opções para atrair recursos de investidores. “Essas instituições podem passar a emitir CDBs e Letras de Crédito Imobiliário e Agrícola”, diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos. No varejo, a mudança reflete no aumento da fidelidade. “A tendência é que uma pessoa física tenha um relacionamento muito maior e duradouro com um banco do que com uma financeira”, afirma. Para os investidores, a vantagem é a maior transparência na análise dos resultados. “Com a separação das atividades de varejo e finanças, é possível precificar melhor o negócio”, diz Nicolas Takeo, analista da Socopa. Com essa abertura para inovações nas operações financeiras, as varejistas podem concorrer com as fintechs na avaliação de Carlos Netto, presidente da empresa de tecnologia Matera. “Essas empresas têm um canal de distribuição já formado, o que as coloca com uma vantagem no segmento financeiro”.

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SAÚDE É O QUE INTERESSA

Saúde é o que interessa

As mudanças nos hábitos de consumo fazem com que marcas consagradas busquem alternativas mais saudáveis para continuarem relevantes nas gôndolas dos supermercados. Isso é o que aponta o relatório Eat, Drink & Be Healthy, elaborado pela Kantar Worldpanel, que analisa oito mercados globais – Brasil, China, Espanha, Estados Unidos, França, México, Portugal e Reino Unido. De acordo com o levantamento, o lanche saudável está em alta, mesmo com as pessoas se alimentando cada vez menos em casa. A fruta fresca, por exemplo, aumentou sua presença na mesa dos consumidores, enquanto que o café da manhã segue como a principal refeição feita nos lares mundialmente. No Brasil, o pão é o tipo de petisco preferido para 30% das pessoas no meio das tardes, diferentemente de países como China, Espanha, México e Reino Unido, onde as frutas já são privilegiadas, o que confirma que a procura por produtos saudáveis é uma tendência sem volta no mundo.

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TODO MUNDO AGORA DANÇA

Com produção profissional e intensa estratégia de marketing, os canais no YouTube que ensinam coreografias que vão do funk aos ritmos latinos alcançam milhões de seguidores.

Todo mundo agora dança

Nunca tanta gente esteve tão preparada para dançar como no último carnaval. Muito dos passinhos sincronizados que se viu nas ruas foi resultado de aulas de coreografia exibidas no Youtube e vistas por milhões de fãs. “Vivemos o melhor momento da dança”, diz Fabio Duarte, cofundador da FitDance, uma das empresas que está por trás da moda e que, com um modelo de negócios de alta potência, ajudou a torná-la onipresente em todo o País. Criada em 2014, a companhia foi inspirada na Zumba, um programa de fitness colombiano que estourou em 2006 com a mistura de dança e exercícios ao som de muita música latina. As aulas de zumba chegaram a mais de 150 países.

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Versão brasileira criada por dois irmãos, a FitDance compõe a maior parte de seu repertório com funks cariocas — o que significa muito rebolado. A empresa está crescendo a um ritmo acelerado, triplicou seu lucro em 2018 e espera dobrá-lo em 2019. De acordo com os sócios, seu programa consiste principalmente em qualificar instrutores e estes, credenciados como “instrutores FitDance”, pagam mensalidades de R$ 70 para poderem dar aulas usando o nome do método. “O coração da empresa são as aulas presenciais. O Youtube é só uma plataforma de marketing”, diz Fabio Duarte. De “só uma plataforma” o canal da companhia não tem nada. Atualmente são 9,7 milhões de inscritos que acompanham as coreografias postadas — para se ter ideia, a cantora Anitta tem apenas 1,5 milhão a mais. O valor da empresa não é revelado, mas certamente está na casa dos milhões. Além do império no Youtube, ela está presente em mais de 15 mil academias no Brasil e na Argentina e se prepara para chegar nos EUA, na Espanha e na Índia.

Não é de agora que o País se joga nas coreografias individuais. Nos anos 1990, a moda surgiu com tudo com o grupo É o Tchan, quando Carla Perez e Jacaré colocaram o País inteiro para dançar. Depois surgiram grupos de lambaeróbica que coreografavam as músicas, como Filhos do Sol e Swing do Bixo. Com o passar dos anos, no entanto, o pagode baiano desacelerou, principalmente em São Paulo. A dança recuperou o ritmo com a Zumba, que até hoje atrai milhares para a academia. Outro que contribuiu foi o professor Daniel Saboya, o primeiro a postar no Youtube vídeos com coreografias gravados com uma qualidade profissional. Ele começou em 2012, virou febre nesse promissor mercado virtual e recentemente até se lançou como cantor. Com 13 milhões de seguidores na internet, é atualmente procurado por artistas que querem lançar músicas. Mas nem sempre foi assim. “No começo nós tínhamos muitos vídeos bloqueados porque as pessoas os encaravam como pirataria”, diz Saboya. Quando criou o canal, as gravadoras não permitiam que ele usasse as faixas dos artistas, devido aos direitos autorais. Com o crescimento, a rota mudou de direção e ele passou a ser procurado pelos cantores. “A Lexa foi uma das primeiras que bateu o pé e pediu à gravadora para liberar sua música”, diz ele. A partir daí, seu canal virou um aliado na divulgação dos lançamentos dos artistas e também sua principal fonte de renda. Para coreografar uma música e postá-la, ele cobra em torno de R$ 10 mil.

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O NEGÓCIO É FAZER CARÃO

O professor Justin Neto também não fica para trás no assunto coreografia e é conhecido como o queridinho das celebridades. Diferentemente dos outros, no entanto, ele não utiliza as redes sociais para ensinar as danças, mas apenas para divulgar seu trabalho. Com 727 mil seguidores no Instagram, está sempre viajando pelo Brasil para dar aulas. É recorrente a participação de famosos como Dani Calabresa, Claudia Leitte e Juliana Paes. A marca de Justin é justamente ensinar suas alunas a fazer “carão”, ou seja, a colocarem atitudes nas poses, como fazem as modelos, para se sentirem com a autoestima lá em cima. Entre suas alunas, estão mulheres que recorreram à dança para recuperar o amor próprio após traumas como separações.

Outro canal que faz sucesso nas redes é o Mete Dança. Criado há cerca de dois anos, possui um número bem menor de seguidores em comparação aos outros, mas estão no auge do crescimento. No ano passado, a audiência dobrou e o faturamento quintuplicou. Com 745 mil inscritos, o pacote para montar uma coreografia e postar no canal sai em torno de R$ 5 mil. Idealizado pelo empresário baiano Danilo Alencar, que já agenciou bandas de “arrochadeira”, um estilo musical baiano, o canal conta com parcerias com dançarinos que coreografam as músicas e com uma produtora de vídeos. A monetização também ocorre por meio da divulgação de bandas e contratos publicitários. Enquanto a população se diverte, os empresários faturam.

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EMAGRECER NA FACA

O Brasil já é o segundo país que mais realiza a cirurgia bariátrica, nome do procedimento que reduz o tamanho do estômago. E concorre para se tornar o primeiro do mundo. Por quê?

Emagrecer na faca

Passado o Carnaval, voltemos à dura realidade. De cada 100 brasileiros, cinquenta estão fora do peso – ou melhor, acima do peso. Levam no corpo cerca de 15 quilos a mais, tomando-se como referência uma pessoa com 1,70 metro de altura. Desses cinquenta, dezesseis estão empenhados numa guerra contra a balança, mas não conseguem voltar à forma nem mudar seus hábitos alimentares. E, ainda dentro dos cinquenta, há 32 milhões de brasileiros que vivem uma situação dramática em termos de peso – são obesos, com pelo menos 30 quilos extras. Por desajustes biológicos, propensão genética ou maus hábitos alimentares, esses homens e mulheres tentam de tudo na academia e à beira da mesa, e, no entanto, nunca obtêm êxito em melhorar a silhueta e a própria saúde. O que fazer?

A alternativa, que ganha cada vez mais tração na sociedade brasileira, é a cirurgia bariátrica, nome esquisito para um procedimento que consiste na redução da dimensão do estômago e do intestino e vem sendo adotado desde o início da década de 90. É uma saída radical. Nos últimos anos, com o avanço das técnicas de operação e o desenvolvimento de medicamentos que permitem uma convivência mais saudável com o novo corpo, deu-se uma explosão de busca pela cirurgia bariátrica. Em apenas cinco anos, a procura pelo procedimento aumentou 47%, de acordo com as estatísticas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. É um crescimento superior ao de cirurgias mais simples, como a extração de vesícula (subiu 38%) ou de tireoide (6%).

Com esse salto, o Brasil pulou para o topo do ranking mundial da redução de estômago – perdendo apenas para os Estados Unidos, o império mundial da obesidade. O país, no entanto, não é o segundo lugar em obesidade no mundo – ocupa o quinto posto, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. Mas o cenário nacional vem piorando em ritmo acelerado. Em 1980, apenas 7% da população brasileira era obesa. Em 2015, eram 18% – um aumento semelhante ao observado nos Estados Unidos. Mas, considerando-se apenas a última década, a taxa de obesidade no Brasil cresceu em ritmo superior ao da taxa americana. A continuar assim, estima-se que em cerca de dez anos os brasileiros possam estar tão obesos quanto os americanos.

Por quê? Porque, além de questões biológicas ou genéticas, estamos comendo mais em resposta aos apelos de uma indústria que incentiva o consumo de alimentos hipercalóricos, vende porções de fast- food cada vez mais robustas e espalha máquinas automáticas de alimentos em todos os cantos. O mecanismo da obesidade é comparável ao vício porque envolve o sistema cerebral de recompensa. Por isso tudo, a cirurgia bariátrica tem virado uma preferência nacional – que vai aumentar ainda mais. Em uma decisão recente, o Conselho Federal de Medicina ampliou a indicação do procedimento. Antes, a bariátrica era recomendada apenas a adultos com obesidade mórbida – ou seja, com índice de massa corporal, o IMC, acima de 40.

Agora, é indicada também para adolescentes e, para aqueles com IMC a partir de 30 e com diabetes descontrolado.

“Quanto antes for feita a cirurgia, melhor”, diz Almino Ramos, presidente da Federação Internacional para Cirurgia de Obesidade e Transtornos Metabólicos. “O cálculo é simples: quanto mais tempo uma pessoa se mantiver obesa, menor será seu tempo de vida.” Os quilos a mais ainda na juventude provocam aumento da pressão arterial e alterações importantes na estrutura do coração. É um perigo. Adultos com obesidade grave desde a infância vivem até dez anos menos do que quem manteve a linha. O desequilíbrio prematuro faz aumentar em três vezes o risco de diabetes do tipo 2. “Somente 10% das pessoas conseguem perder muito peso e manter essa condição por mais de cinco anos só com estilo de vida”, diz o endocrinologista Walmir Coutinho.

Atualmente, há 5 milhões de brasileiros elegíveis para emagrecer na faca. Repetindo: 5 milhões. As mulheres adultas, com idade de 25 a 35 anos, são as que mais recorrem ao tratamento – elas são 70% dos pacientes. Há poucos meses, a consultora de telemarketing Sarah Cortez de Sousa, 34 anos e 105 quilos, submeteu-se à bariátrica em um hospital de São Paulo. O procedimento foi feito a partir de cinco microcortes na região abdominal com menos de 1 centímetro cada um. Por eles entraram pinças, um grampeador de titânio e uma micro­ câmera. Controlados por um cirurgião, os instrumentos passaram por uma camada de 8 centímetros de gordura, até chegar ao estômago. O órgão foi então grampeado e passou a ter 10% de seu tamanho original. Em oito meses, ela perdeu 43 quilos.

O Brasil também é um dos campeões mundiais em outra área da medicina – a das cirurgias plásticas, quase sempre atreladas a preocupações estéticas, sobretudo com a redução da gordura corporal aparente. Não se pode comparar a plástica com a bariátrica, que invariavelmente nasce de um problema de saúde, e não de um padrão de beleza. Há, no entanto, uma ponte de comunicação entre as duas práticas. Em um país tropical, mais da rua do que da casa, o culto ao corpo faz diferença. Os gordos sofrem preconceito, os mais magros ganham elogios – é o que se vê desde cedo. “O bullying pode fazer inclusive com que a pessoa coma até como forma de automutilação”, diz a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do núcleo de obesidade e cirurgia bariátrica do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Por tudo isso, somado ao aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas, a bariátrica só cresce. Quando foi criada, na década de 80, apresentava um índice de mortalidade de 1,5%. Hoje, ele caiu para 0,1%. As operações duravam três horas. Hoje, apenas uma. O paciente tinha alta cinco dias depois. Agora, deixa o hospital em 24 horas.

Há dois tipos mais comuns de cirurgia bariátrica. A de Sarah, que perdeu 43 quilos em oito meses, é a mais frequente. Chamada de by-pass gástrico, caracteriza­ se pela redução do estômago por meio de grampeamento do órgão. A segunda variante é a gastrectomia vertical, que reduz o estômago para aproximadamente um terço do tamanho original. Essa técnica é recomendada para pessoas que precisam perder menos peso. Independentemente do tipo de operação, o paciente consegue seu objetivo, emagrecer, e porque perde a fome radicalmente – a quantidade de comida consumida cai a um quarto, em média, por falta de espaço de armazenamento. É esse o grande trunfo da bariátrica: reduzir a vontade de comer.

O momento pós-cirúrgico é um dos maiores desafios. Mesmo com a fome suprimida, não é simples habituar-se a pouca comida. Na primeira semana, somente líquidos são permitidos, e em quantidade pífia. Os operados consomem 50 mililitros de água (o equivalente a um copinho de café) a cada 15 minutos. Na segunda semana, a alimentação é cremosa. Na terceira, permite-se a textura de purê, mais consistente. Só a partir da quarta semana alguns alimentos são introduzidos na dieta sólida. Para o resto da vida os pacientes devem repor nutrientes, como vitaminas, sais minerais e proteínas.

Quatro meses depois da cirurgia, perdem-se, em média, 20% do peso total. O objetivo da operação é ficar com 40% a menos dos quilos originais em dois anos. “A cirurgia bariátrica não se resume ao emagrecimento, no entanto. Ela deflagra uma sinfonia de reações”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, o cirurgião Caetano Marchesini. Ao mexer na arquitetura do intestino e do estômago, a orquestra hormonal desregulada se rearranja. É como se redefinisse o ponto de ajuste, o pontapé inicial para o corpo voltar a funcionar – a tal da nova chance. Após a cirurgia, pelo menos dez hormônios produzidos sobretudo pelo estômago e intestino e relacionados à obesidade são alterados de modo a promover o emagrecimento. E o caso do freio na grelina (composto responsável pela sensação de fome), da leptina (substância da saciedade) e da dopamina (ligada ao bem-estar). O impacto da cirurgia nas doenças associadas ao excesso de peso é brutal. “Na primeira semana, a pressão arterial já está controlada e o diabetes também”, diz Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Cirurgia Metabólica do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo. A longo prazo, o risco de derrame cai 80%, o de apneia do sono, 85%. Os níveis de colesterol baixam 70%.

Apesar dos avanços técnicos e das facilidades, a cirurgia está longe de ser uma intervenção simples. Seu impacto biológico e comportamental é enorme, tanto que se recomenda, em alguns casos, acompanhamento psicológico. Em outras palavras, a silhueta muda, mas a cabeça também.

Há relatos de abuso de álcool. Um grupo de trabalho da Universidade Pittsburgh, nos Estados Unidos, acompanhou homens e mulheres em dez hospitais ao longo de sete anos após a cirurgia bariátrica. Resultado: antes do procedimento, 7% abusavam de álcool. Depois da cirurgia, o índice saltou para 16%. Algumas hipóteses foram consideradas para esse aumento de consumo. A alteração fisiológica na absorção pelo intestino das bebidas e alimentos leva mais rapidamente à sensação de entorpecimento, com poucos goles. “Uma segunda possibilidade é o aumento do risco de substituição da fonte de prazer: da comida para o álcool”, diz Maurício Serpa, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP.

Ao lado dos desafios psicológicos, há também vantagens psicológicas. A melhora na autoestima é uma delas. Quem se submete à cirurgia bariátrica tem maior probabilidade de mudar o status de relacionamento, de acordo com um estudo sueco publicado na JAMA Surgery. Segundo os resultados, há um aumento de 15% no índice de divórcios entre os pacientes casados. Entre os solteiros, verificou-se um aumento de 21% no índice de casamentos ou de novos relacionamentos nos primeiros quatro anos depois de submetidos ao método. A cirurgia emagrecedora muda o corpo e a mente, e os depoimentos das pessoas que já se submeteram ao procedimento são um testemunho disso. Nos primeiros dias, os pacientes escondem a cirurgia, mas depois, com a redução do peso, passam a celebrá-la como uma vitória pessoal que antes soava inalcançável. É uma reviravolta extraordinária, como mostra exemplo radical – e assustador – de dom Sancho (932 – 966), rei da Península Ibérica.

O monarca tinha problema com sua circunferência exagerada, que o impedia de andar a cavalo, atividade fundamental naqueles tempos medievais. As limitações o fizeram perder o trono. Acompanhado pela avó, desesperado, ciente de que não conseguia fechar a boca, dom Sancho viajou para Córdoba, na Espanha, para ser tratado por um famoso médico de origem judaica. A solução dada pelo especialista foi aterradora: suturar os lábios do rei, deixando apenas espaço para a entrada de um canudo, pelo qual passou a se alimentar de uma dieta líquida. Sancho sofreu com dores lancinantes, mas meses depois, perdera metade de seu peso. E assim, podendo se movimentar como os outros monarcas de seu tempo, recuperou, a galope, o cetro perdido.

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A SEGUNDA CURA DA AIDS

Cientistas anunciam que mais um paciente, de Londres, está livre do HIV.

A segunda cura da aids

Pesquisadores da University College of London, na Inglaterra, anunciaram na semana passada uma notícia alentadora na luta contra a Aids. Em um artigo publicado na revista científica Nature, eles descreveram o caso da segunda pessoa no mundo curada da doença. O “paciente de Londres”, como ele foi chamado, já que não teve sua identidade revelada, junta-se agora ao americano Timothy Brown, o primeiro a ter sua cura anunciada, em 2008. Ele ficou conhecido como o “paciente de Berlim”, uma vez que foi tratado por médicos alemães da capital germânica depois de ter sido diagnosticado com HIV em 1995, quando estudava no país europeu.

Os dois passaram pelo mesmo procedimento: um transplante de medula óssea, indicado para pacientes com tumor de células sanguíneas. Além de Aids, Timothy tinha leucemia mielóide aguda e o paciente de Londres, linfoma de Hodgkin. Eles não melhoravam mesmo com as sessões de quimioterapia.

Há duas modalidades de transplante de medula óssea (o órgão que produz as células do sangue). A primeira é tirar e recolocar as próprias células do doente depois de passarem por modificações. A segunda é receber uma doação de uma pessoa saudável. Os dois passaram pela última opção. A diferença em relação a outros transplantes do gênero é que as células que Timothy e a pessoa de Londres receberam tinham uma mutação genética rara que torna o indivíduo imune ao HIV, o vírus responsável pela Aids. Chamada de “delta 32”, a alteração impede a fabricação, pelo gene CCR5, da proteína que permite que o vírus se ligue aos linfócitos-T, as células de defesa que o HIV invade e destrói.

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ESPERANÇA PARA TODOS

Timothy e o paciente de Londres não tomaram mais antiretrovirais após os transplantes e não apresentam sinais do vírus. A divulgação da notícia do segundo caso na Nature e em uma apresentação do pesquisador Ravindra Gupta, líder do trabalho, inspirou mais uma vez a esperança de que o caminho aberto pelos dois estudos leve também à cura os 35 milhões de soropositivos existentes no mundo hoje. Porém, é consenso que isso não está garantido e que ainda serão necessárias diversas experiências até que a cura para todos seja alcançada.

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MEDO E MODERNIDADE LÍQUIDA

Durante a maior parte de nossa vida estamos submetidos a algum sofrimento e o tempo todo tememos a dor e o desconforto emocional que podem advir das ameaças permanentes; liberdade e segurança são e sempre serão inconciliáveis

Medo e modernidade líquida

Parece que medo e modernidade são irmãos gêmeos, até siameses, de um tipo que nenhum cirurgião, ainda que hábil e equipado com a última palavra em tecnologia, poderia separar sem colocar em risco a sobrevivência de ambos. Existem, e sempre existiram em todas as épocas, três razões para ter medo. Uma delas era (e continuará a ser) a ignorância: não saber o que vai acontecer em seguida, o quanto somos vulneráveis a infortúnios, que tipo de infortúnios serão esses e de onde provêm. A segunda era (e continuará a ser) a impotência: suspeita-se que não há nada ou quase nada a fazer para evitar um infortúnio ou se desviar dele, quando vier. A terceira era (e continuará a ser) a humilhação, ou um derivado das outras duas: a ameaça apavorante a nossa autoestima e autoconfiança quando se revela que não fizemos tudo que poderia ser feito, que nossa própria desatenção aos sinais, nossa indevida procrastinação, preguiça ou falta de vontade são em grande parte responsáveis pela devastação causada pelo infortúnio.

Como é totalmente improvável que se venha a atingir o conhecimento pleno do que está porvir, e como as ferramentas disponíveis para prevenir essa chegada dificilmente podem ser consideradas seguras, certo grau de ignorância e impotência tende a acompanhar os seres humanos em todos os seus empreendimentos. Falando claramente, o medo veio para ficar. Os seres humanos sabem disso desde os tempos imemoriais. A visão do medo como perturbação temporária – a ser afastada do caminho e eliminada de uma vez por todas pelas tropas avançadas da razão-foi apenas um episódio singular, mais ou menos curto, no segmento moderno da história humana. Esse episódio, como você observou, agora está quase encerrado.

Sigmund Freud escreveu em 1929, e ninguém o contradisse seriamente desde então: “Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso do contraste, e muito pouco de determinado estado de coisas”. Em O mal-estar na civilização, ele citou a advertência de Goethe, de que “nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias lindos”, em apoio a sua própria opinião, apenas com a ligeira ressalva de que isso talvez fosse “um exagero”. Enquanto o sofrimento pode ser uma condição duradoura e ininterrupta, a felicidade, esse “prazer intenso”, só pode ser uma experiência momentânea, transitória – vivida num flash, quando o sofrimento é interrompido. “A infelicidade”, sugere Freud, “é muito menos difícil de experimentar.”

A maior parte do tempo, então, nós sofremos, e o tempo todo tememos o sofrimento que pode advir das ameaças permanentes pairando sobre nosso bem-estar. Há três direções das quais tememos que o sofrimento advenha: do poder superior da natureza, da fragilidade de nossos corpos e dos outros seres humanos. Dado que acreditamos mais na possibilidade de reformar e aperfeiçoar as relações humanas que em subjugar a natureza e por fim a fraqueza do corpo humano, temos medo da inadequação das regras que ajustam as relações mútuas dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade. Sendo o sofrimento, ou o horror que ele provoca, um acessório per­ manente da vida , não admira que o “processo da civilização ” (essa longa e talvez interminável marcha em direção a um modo de ser e estar num mundo mais hospitaleiro e menos perigoso) se concentre em localizar e bloquear essas três fontes da infelicidade humana.

A guerra declarada ao desconforto humano em todas as suas variedades é travada em três frentes. Enquanto muitas batalhas vitoriosas têm se dado nas duas primeiras frentes, e um número crescente de forças inimigas esteja sendo desarmado e posto fora de ação, na terceira linha de batalha o destino da guerra continua indefinido, e não parece que as hostilidades irão chegar ao fim. Para libertar os seres humanos de seus medos, a sociedade deve impor restrições a seus membros, enquanto, para continuar em sua busca da felicidade, homens e mulheres precisam rebelar-se contra essas restrições. A terceira das três fontes do sofrimento humano não pode ser eliminada por decreto. A interface entre a busca da felicidade individual e as inelutáveis condições da vida em comum será sempre um local de conflito. Os impulsos instintivos dos seres humanos tendem a se chocar com as demandas de uma civilização inclinada a enfrentar e vencer as causas do sofrimento humano.

Por esse motivo, a civilização, insiste Freud, é uma permuta: para ganhar alguma coisa dela, os seres humanos devem dar algo em troca. Tanto o que se ganha quanto o que se dá é muito valorizado e desejado; cada fórmula de troca, portanto, não passa de um acordo temporário, produto de um compromisso jamais satisfatório para nenhum dos dois lados desse antagonismo sempre latente. A hostilidade terminaria se desejos individuais e demandas sociais pudessem ser atendidos simultaneamente.

Mas não é assim. A liberdade de agir de acordo com suas compulsões, inclinações, impulsos e desejos, bem como as restrições impostas a ela por motivos de segurança, são altamente necessárias para uma vida satisfatória – na verdade, suportável e sustentável; segurança sem liberdade equivale a escravidão, enquanto liberdade sem segurança significaria caos, desorientação, eterna incerteza e, em última instância, incapacidade de agir tendo em vista um propósito. Liberdade e segurança são e sempre serão mutuamente inconciliáveis. Tendo insinuado isso, Freud chegou à conclusão de que os desconfortos e aflições psicológicos surgem sobretudo quando se cede muito da liberdade em troca de uma melhoria (parcial) da segurança. A liberdade truncada e restrita é a principal baixa do “processo civilizador”, a maior e mais generalizada insatisfação, endêmica em uma vida civilizada. Foi esse o veredicto pronunciado por Freud em 1929. Imagino se ele emergiria intacto caso Freud o elaborasse hoje, mais de oitenta anos depois. Duvido. Embora suas premissas se mantivessem (as demandas da vida civilizada e também o equipamento instintivo humano, transmitido pela evolução da espécie, têm permanecido fixos por muito tempo, e presume-se que sejam imunes aos caprichos da história), o veredicto provavelmente seria invertido.

Sim, Freud repetiria que a civilização é uma questão de permuta: você ganha alguma coisa, porém cede outra. Mas ele poderia ter situado as raízes dos desconfortos psicológicos e dos descontentamentos que ele engendra no lado oposto do espectro de valor. Poderia ter concluído que, no período atual, a insatisfação dos seres humanos com a situação geral provém sobretudo de ceder muita segurança em troca de uma expansão sem precedentes dos domínios da liberdade.

Freud escrevia em alemão. Para traduzir o significado do conceito que ele usou, Sicherheit, são necessárias três palavras: certeza, segurança e proteção. A Sicherheit que em grande parte cedemos contém: a certeza sobre o que o futuro vai trazer e os efeitos (se é que haverá algum) que nossas ações irão produzir; a segurança em nossa posição socialmente atribuída e em nossas tarefas existenciais; e a proteção contra os ataques a nossos corpos e suas extensões, nossas posses. Abdicar da Sicherheit resulta na Unsicherheit, condição que não se submete tão facilmente a dissecação e a investigação anatômica. As três partes constituintes contribuem para sofrimentos, ansiedades e medos, e é difícil apontar as verdadeiras causas do desconforto vivenciado.

A ansiedade pode ser imputada à causa errada, circunstância a que os políticos atuais em busca de apoio eleitoral podem recorrer, e com frequência o fazem, em benefício próprio – mesmo que não necessariamente em proveito dos eleitores. Claro, eles preferem atribuir o sofrimento de seus eleitores a causas que podem combater, e ser vistos combatendo (como quando propõem endurecer a política de imigração e de asilo ou a deportação de estrangeiros indesejáveis), a admitir a verdadeira origem da incerteza, que nunca tiveram a capacidade ou a disposição de enfrentar nem uma esperança realista de vencer: a instabilidade no emprego; a flexibilidade dos mercados de trabalho; a ameaça de redundância; a expectativa de redução do orçamento familiar; um nível incontrolável de dívida; uma renovada preocupação com as garantias para a velhice; ou a fragilidade geral dos vínculos e parcerias humanos. Viver em condições de incerteza prolongada e em aparência incurável provoca duas sensações humilhantes: ignorância (não saber o que o futuro trata) e impotência (ser incapaz de influenciar em seu curso). Elas são humilhantes de verdade. Em nossa sociedade altamente individualizada, em que se presume que cada indivíduo seja responsável por seu próprio destino na vida, essas condições implicam a inadequação do sofredor para tarefas que outras pessoas, mais exitosas, parecem desempenhar graças à maior capacidade e ao maior esforço. Inadequação sugere inferioridade, e ser inferior, ser visto como tal, é um golpe doloroso contra a autoestima, a dignidade pessoal e a coragem da autoafirmação. A depressão é agora a doença psicológica mais comum. Ela atormenta um número crescente de pessoas que receberam a designação coletiva de “precariado”, expressão cunhada a partir do conceito de “precariedade”, denotando a incerteza existencial.

Uma centena de anos atrás, a história humana era representada como um relato do progresso da liberdade. Isso implicava, como outros relatos populares, que a história fosse guiada na mesma e inalterada direção. As recentes reviravoltas na disposição do público sugerem outra coisa. O “progresso histórico” parece lembrar mais um pêndulo que uma linha reta. No tempo em que Freud escrevia, a queixa comum era um déficit de liberdade. Seus contemporâneos estavam preparados para abrir mão de grande parte de sua segurança em troca da retirada das restrições impostas a sua liberdade. E acabaram conseguindo isso. Agora, porém, multiplicam-se os sinais de que cada vez mais pessoas não se preocupariam em abrir mão de uma parte de sua liberdade em troca de se emancipar do espectro assustador da insegurança existencial. Estaremos testemunhando outro giro do pêndulo? Se isso está acontecendo, que consequências pode produzir? O medo é parte da condição humana. Podemos até eliminar, uma a uma, as ameaças causadoras do medo (Sigmund Freud definiu a civilização como um arranjo das questões humanas inclinado a fazer exatamente isso: limitar e por vezes eliminar as ameaças de danos causadas pela aleatoriedade da natureza, pelas fraquezas do corpo e pela inimizade do próximo). Mas até agora nossa capacidade não está nem perto de eliminar a “mãe de todos os medos”, o “medo dos medos”, aquele medo-mestre exalado pela consciência de nossa mortalidade e da impossibilidade de escapar da morte. Podemos viver hoje numa “cultura do medo”, mas nosso conhecimento da inevitabilidade da morte é a razão básica de termos uma cultura, é a fonte e o motor principal da cultura de toda e qualquer cultura. Esta pode ser definida como um esforço permanente, sempre incompleto e em princípio interminável para tornar suportável a vida mortal. Ou podemos tentar avançar mais um passo e concluir que é nosso conhecimento da mortalidade e, portanto, nosso eterno medo da morte, que torna humano nosso modo de ser e estar no mundo, que faz de nós seres humanos.

A cultura é o sedimento da tentativa de tomar suportável a vida com a consciência da mortalidade. Se por algum motivo nos tornássemos imortais, como algumas vezes (tolamente) sonhamos, a cultura interromperia seu curso, como descobriu Joseph Cartaphilus, de Esmirna, personagem de Jorge Luís Borges, que procurava infatigavelmente a Cidade dos Imortais, ou Daniel 25, clonado e destinado a ser eternamente reclonado, o herói de A possibilidade de uma ilha, de Michel Houellebecq. Como Cartaphilus testemunhou: tendo percebido sua própria imortalidade, e sabendo que, “num espaço de tempo infinitamente longo, todas as coisas acontecem a todos os homens”, pelo mesmo motivo, seria “impossível que a Odisseia não fosse composta ao menos uma vez”, e então Homero deveria reverter ao estágio de troglodita. E, como Daniel 25 descobriu, uma vez eliminada a expectativa do fim dos tempos e assegurada a infinitude do ser, “o simples fato de existir já era um infortúnio”, e a tentação de abrir mão voluntariamente do direito de continuar a ser reclonado e partir para “o nada absoluto, a simples ausência de conteúdo” se tornava algo impossível de resistir.

Foi o conhecimento de que tinham da morte, da brevidade inegociável do tempo, da possibilidade de as visões permanecerem irrealizadas, de os projetos não serem concluídos e as coisas não feitas que instigaram os seres humanos à ação e fizeram sua imaginação voar. Foi esse conhecimento que tornou a criação cultural uma necessidade e transformou os seres humanos em criaturas da cultura. Desde os primórdios da cultura, e através de sua longa história, seu motor tem sido a necessidade de preencher o abismo que separa transitoriedade e eterno, finitude e infinito, vida mortal e imortalidade, ou o ímpeto de construir uma ponte que permita a passagem de uma extremidade à outra, ou o impulso de capacitar os mortais para imprimir na eternidade sua presença contínua, nela deixando a marca de nossa visita, ainda que breve.

Nada disso significa, evidentemente, que as fontes do medo, o lugar que ele ocupa na fórmula da vida e os focos das respostas que ele evoca sejam imutáveis. Pelo contrário, cada tipo de sociedade e cada era histórica têm seus próprios medos – específicos em relação à época e à sociedade. Embora seja bastante desaconselhável imaginar a possibilidade de uma alternativa “livre do medo”, é fundamental expor as características distintivas do medo específico de nossa época e sociedade em favor da clareza de nosso propósito e do realismo de nossas propostas.

Quando tinham sede, nossos ancestrais tomavam sua dose diária de água em riachos, rios e fontes – e às vezes em poças – próximos. Nós compramos uma garrafa de plástico cheia de água numa loja vizinha e a levamos conosco o dia inteiro, a todos os lugares, bebendo um gole de vez em quando. Ora, essa é uma “diferença que faz diferença”. Disparidade semelhante aparta os medos contemporâneos daqueles de nossos ancestrais. Em ambos os casos, o que faz a diferença é sua comercialização. O medo, tal como a água, foi transformado em mercadoria de consumo e submetido à lógica e às regras do mercado. Além disso, o medo tem sido uma mercadoria política, uma moeda usada na condução do jogo do poder. O volume e a intensidade do medo nas sociedades humanas não refletem mais a gravidade objetiva ou a iminência de ameaça; são, em vez disso, subprodutos da totalidade das ofertas de mercado e da magnitude da promoção (ou propaganda) comercial.

Vejamos em primeiro lugar os usos comerciais do medo. Sabe-se muito bem que a lógica de marketing de uma economia “desenvolvida” (compulsiva, obsessiva e viciosamente em desenvolvimento) não é governada pelo compromisso de satisfazer necessidades existentes, mas de expandir as necessidades até o nível da oferta e suplementá-las com desejos só de longe relacionados a necessidades, embora correlacionados às técnicas de tentação e sedução do marketing. Este dedica-se à descoberta ou à invenção de perguntas cujas respostas os produtos recém-apresentados parecem oferecer, e então a induzir o maior número possível de potenciais clientes a fazer essa pergunta com frequência cada vez maior.

Como todas as outras, a necessidade de proteção contra ameaças tende a ser amplificada e adquire um ímpeto auto propelente e auto acelerante. Uma vez no jogo da proteção contra o perigo, nenhuma das defesas já adquiridas parece suficiente, e está assegurado o potencial de sedução e tentação das “novas e aperfeiçoadas” engenhocas e geringonças. Por outro lado, quanto mais profundo o engajamento em defesas que sempre se reforçam e se enrijecem, mais profundo e agudo é o medo da ameaça: a imagem desta última cresce em horripilância e capacidade de aterrorizar proporcionalmente a intensificação das preocupações com segurança e a visibilidade e intrusividade das medidas para garanti-la. De fato, se estabelece um círculo vicioso, ou um raro caso de moto – perpétuo “autossustentável”, que não precisa mais receber energia de fora, extraindo-a de seu próprio impulso. As obsessões com segurança só inexauríveis e insaciáveis, uma vez deixadas à solta, não há como pará-las. São auto propelentes e auto exacerbantes; quando ganham novo impulso, não precisam mais do reforço de fatores externos – produzem, numa escala sempre crescente, suas próprias razões, explicações e justificativas. A febre acesa e aquecida pela introdução, o fortalecimento, a utilização e o enrijecimento das “medidas de segurança” torna-se o único reforço necessário para que medos, ansiedades e tensões de insegurança e incerteza se autorreproduzam, cresçam e proliferem. Radicais que sejam, os estratagemas e dispositivos planejados, obtidos e postos a funcionar para fins de segurança dificilmente se mostrarão radicais o bastante para acalmar os medos – não por muito tempo, de qualquer modo. Qualquer um deles pode ser ultrapassado, abandonado e tornado obsoleto em função de conspiradores traiçoeiros que aprendem a contorná-los ou ignorá-los, superando assim cada obstáculo erguido em seu caminho. Moazzam Begg, islamita britânico preso em janeiro de 2002 e solto sem acusações após três anos nas prisões de Bagram e da baía de Guantánamo, assinala corretamente em seu livro Enemy combatant (2006) que o efeito geral de uma vida levada sob alertas de segurança incessantes – beligerância, justificativas para tortura, prisão arbitrária e terror- é “ter tornado o mundo muito pior”. E, acrescentaria eu, nem um pouco mais seguro. Sem dúvida alguma, o mundo se sente bem menos seguro hoje que uma ou duas décadas atrás. E como se o principal efeito das profusas e custosas medidas extraordinárias de segurança tomadas no último decênio fosse um aprofundamento da sensação de perigo, da densidade dos riscos e da insegurança. Disseminar as sementes do medo resulta em grandes colheitas em matéria de política e comércio. O fascínio de uma safra opulenta inspira os que estão em busca de ganhos políticos e comerciais a forçar continuamente a abertura de novas terras para plantar o medo.

Em suma, talvez o efeito mais pernicioso, seminal e prolongado da obsessão com segurança (o “dano colateral” que ela produz) seja solapar a confiança mútua, plantar e cultivar a suspeita recíproca. Com a falta de confiança, traçam-se fronteiras; com a suspeita, elas são fortificadas, ocasionando prejuízos mútuos, e transformadas em linhas de frente. Um déficit de confiança leva a uma quebra da comunicação; com a retração da comunicação e a falta de interesse em sua renovação, o “estranhamento” dos estrangeiros tende a se aprofundar e adquirir tons cada vez mais sombrios e sinistros, o que por sua vez os desqualifica ainda mais como potenciais parceiros de um diálogo e na negociação de um modo de coexistência mutuamente seguro e agradável.

O tratamento dos estrangeiros como simples “problema de segurança” é subjacente a uma das causas do verdadeiro “moto-perpétuo” nos padrões de interação humana. A desconfiança em relação aos estrangeiros e a tendência a estereotipar todos eles, ou algumas categorias selecionadas, como bombas-relógios prontas a explodir crescem em intensidade a partir de uma lógica e, de um ímpeto próprios, sem necessidade de apresentar novas provas de sua adequação nem estímulos adicionais provenientes de atos de hostilidade por parte do pretenso adversário (ou seja, eles mesmos produzem provas e estímulos em pro­ fusão). Em geral, o principal efeito da obsessão com a segurança é o rápido crescimento (e não a redução) da sensação de insegurança, com todos os acessórios de pânico, ansiedade, hostilidade, agressão, mais o esvaziamento ou supressão dos impulsos morais.

Tudo isso não significa que a segurança e a ética sejam inconciliáveis e devam permanecer as­ sim. Apenas assinala as armadilhas que a obsessão com segurança tende a espalhar pela estrada que leva a uma coexistência pacífica, mutuamente lucrativa e segura (na verdade, uma cooperação) de etnias, credos e culturas em nosso globalizado mundo de diásporas. Com o aprofundamento e a consolidação das diferenças humanas em quase todos os ambientes e vizinhanças, um diálogo respeitoso e simpático entre as diásporas se torna condição cada vez mais importante, na verdade crucial, para a sobrevivência planetária comum. No entanto, por infortúnio, pelos motivos que tentei relacionar, ele está cada vez mais difícil de atingir e de defender das contingências presentes e futuras. Ser difícil, contudo, significa apenas uma coisa: a necessidade de muita boa vontade, dedicação, disposição para o acordo, respeito mútuo e aversão a todas as formas de humilhação humana; e, evidentemente, a firme determinação de restaurar o equilíbrio perdido entre o valor da segurança e o da adequação ética. Cumpridas todas essas condições, e só dessa maneira, o diálogo e o acordo (a “fusão de horizontes” de Hans Gadamer) podem (apenas podem), por sua vez, se transformar no novo “moto-perpétuo” predominante nos padrões de coexistência humana. Essa mudança não fará vítimas, só beneficiários. Isso me leva a trazer a nossa consideração mais um estímulo que alimenta, exacerba e intensifica as obsessões com segurança, ao mesmo tempo que torna as nuvens do medo ainda mais densas e sombrias: a necessidade de legitimação do Estado na era da globalização. A incerteza e a vulnerabilidade humanas são os alicerces de todo poder político: é desses acessórios gêmeos da condição humana, amplamente abominados, embora constantes, assim como do medo e da ansiedade que eles tendem a gerar, que o Estado moderno prometeu proteger seus súditos; e é sobretudo a partir dessa promessa que ele extrai sua razão de ser, assim como a obediência e o apoio eleitoral de seus cidadãos.

Numa sociedade moderna “normal”, a vulnerabilidade e a insegurança existencial, assim como a necessidade de viver e agir em condições de incerteza profunda e desesperadora, são garantidas pela exposição das ocupações da vida às forças do mercado, sabidamente voláteis e imprevisíveis. Com exceção da tarefa de criar e proteger as condições legais para o exercício das liberdades de mercado, não há necessidade de que o poder político contribua para a produção de incerteza e o consequente estado de insegurança existencial. Os caprichos do mercado são suficientes para erodir os alicerces da segurança existencial e manter pairando sobre a maioria dos membros da sociedade o espectro da degradação, humilhação e exclusão sociais.

Ao exigir de seus súditos obediência e observância à lei, o Estado pode basear sua legitimidade na promessa de reduzir a amplitude da vulnerabilidade e da fragilidade que caracterizam a atual condição de seus cidadãos: limitar os danos e prejuízos produzidos pelo livre jogo das forças do mercado, blindar os vulneráveis em relação aos infortúnios dolorosos e garantir os inseguros contra os riscos que a livre competição produz. Esse tipo de legitimação encontrou sua expressão máxima na auto definição da moderna forma de governança como um “État-providence”, uma comunidade que toma para si mesma, para sua administração e seu gerenciamento, a obrigação e a promessa que costumavam ser atribuídas à divina Providência – proteger os fiéis das inclementes vicissitudes do destino, ajudá-los na ocorrência de infortúnios pessoais e prestar-lhes socorro em suas aflições.

Essa fórmula de poder político (sua missão, tarefa e função) está recuando para o passado. Instituições do “Estado previdenciário”, voltadas para encarnar e substituir as práticas correspondentes da divina Providência, um pouco menos abrangentes, além de frustrantes e confusamente irregulares, agora são esfaceladas, desmontadas ou eliminadas, enquanto se removem as restrições antes impostas às atividades comerciais e ao livre jogo da competição do mercado e suas consequências. As funções protetoras do Estado estão limitadas e “enxugadas”, reduzidas à cobertura de uma pequena minoria dos não empregáveis e dos inválidos, embora mesmo essa minoria tenda a ser reclassificada, passo a passo, de preocupação em termos de proteção social para uma questão de lei e ordem.

A incapacidade de o indivíduo se engajar no jogo do mercado segundo suas regras estatutárias, usando seus próprios recursos e por sua própria conta e risco, tende a ser cada vez mais criminalizada, reclassificada como sintoma de intenção criminosa ou pelo menos de potencial para o crime. O Estado lava as mãos quanto à vulnerabilidade e à incerteza provenientes da lógica (da falta de logica) do livre mercado. A deletéria fragilidade da condição social agora é redefinida como assunto privado – uma questão com que os indivíduos devem lidar e se confrontar usando seus próprios recursos. Como disse Ulrich Beck, agora se espera que os indivíduos procurem soluções biográficas para contradições sistêmicas.

Essas novas tendências têm um efeito colateral: solapam os alicerces sobre os quais o poder de Estado se sustentou durante a maior parte da era moderna, quando afirmava desempenhar papel crucial na luta contra a vulnerabilidade e a incerteza que assolavam seus súditos. O crescimento da apatia política, a perda do interesse e do compromisso políticos (“não há mais salvação pela sociedade”, como Peter Drucker proclamou, numa expressão famosa}, e uma ampla retirada da população no que se refere a participar da política institucionalizada são testemunhos do esfacelamento dos alicerces remanescentes do poder de Estado.

Suspendendo a antiga interferência programática sobre a incerteza e insegurança existenciais produzidas pelo mercado, e proclamando, pelo contrário, que eliminar uma a uma as restrições residuais a atividades lucrativas é a principal tarefa de todo poder político que cuide do bem­ estar de seus súditos, o Estado contemporâneo precisa procurar outras variedades, não econômicas, de vulnerabilidade e incerteza para sustentar sua legitimidade. Essa alternativa parece se situar (em primeiro lugar e de modo mais espetacular, embora absolutamente não exclusivo, no caso do governo dos Estados Unidos) na questão da segurança pessoal: os medos atuais ou previstos, abertos ou ocultos, reais ou supostos, de ameaças aos corpos, propriedades e hábitats humanos, quer venham de dietas ou estilos de vida pandêmicos e nocivos à saúde, quer de atividades criminosas, de condutas antissociais da “subclasse” ou, mais recentemente, do terrorismo global.

Ao contrário da insegurança existencial proveniente do mercado, evidente demais para ser questionada e negada a sério, além de abundante e óbvia demais para permitir uma acomodação, essa insegurança alternativa, destinada a restaurar o monopólio perdido do Estado sobre as oportunidades de redenção, deve ser artificialmente alimentada; ou pelo menos altamente dramatizada, a fim de inspirar um volume suficiente de medo e ao mesmo tempo superar, ofuscar e relegar a posição secundária a insegurança economicamente gerada, sobre a qual a administração do Estado quase nada pode fazer, sendo seu maior desejo não fazer nada. Em oposição ao caso das ameaças à subsistência e ao bem-estar geradas pelo mercado, a gravidade e a extensão dos perigos à segurança pessoal devem ser apresentadas com as cores mais sombrias, de tal modo que a não materialização das ameaças divulgadas e dos infortúnios e sofrimentos previstos (com efeito, qualquer coisa que represente menos que os desastres prenunciados) possa ser aplaudida como uma grande vitória da razão governamental sobre o destino hostil, como resultado da vigilância, do cuidado e da boa vontade louváveis dos órgãos do Estado.

Há uma condição de alerta permanente: perigos que se diz estar à espreita bem ali na esquina, fluindo e vazando de acampamentos terroristas disfarçados em escolas e congregações religiosas islâmicas; de subúrbios habitados por imigrantes; de ruas perigosas infestadas de membros da subclasse; de “distritos turbulentos”, incuravelmente contaminados pela violência; de áreas de acesso proibido em grandes cidades. Perigos representados por pedófilos e outros delinquentes sexuais à solta, mendigos agressivos, gangues juvenis sedentas de sangue, vagabundos e stalkers (os caminhantes furtivos). As razões para ter medo são muitas. Já que é impossível calcular seu verdadeiro número e intensidade a partir da limitada perspectiva da experiência pessoal, acrescenta-se outra razão, possivelmente mais poderosa, para ter medo: não há como saber onde e quando as palavras de advertência irão se fazer carne.

Medo e modernidade líquida. 2.jpg ZVGMUNT BAUMAN – é sociólogo, professor emérito das universidades de Varsóvia e Leeds. Criador do conceito de “liquidez contemporânea”, tem mais de 30 livros publicados no Brasil pela Zahar. Este texto foi publicado originalmente em seu livro mais recente, Cegueira moral – A perda da sensibilidade na modernidade líquida (Zahar, 2014), escrito em parceria com o filósofo Leonidas Donskis, e reproduzido com autorização da editora e do autor.

 

OUTROS OLHARES

DOAÇÃO NÃO É PUNIÇÃO

Para acabar com a fila do transplante, um deputado do PSL, o partido do presidente Bolsonaro, propõe a retirada compulsória de órgãos de pessoas mortas em confronto com a polícia. É mais uma aberração feita na onda de retrocessos que varre o País.

Doação não é punição

O Brasil tem cerca de 40 mil pessoas esperando por um órgão na fila de transplantes. É muita gente aguardando por uma chance de vida que só pode ser dada voluntariamente pela família de um doador. Trata-se de um gesto de amor, uma baliza que de certa forma dá a medida do grau de solidariedade de um povo. Há anos as pessoas envolvidas no assunto — profissionais de saúde e pacientes — mobilizam-se para que o número de doações cresça, baseados em um trabalho de informação e de criação de empatia da sociedade com as pessoas que aguardam por um coração, um fígado, um rim. Um esforço para conscientização colocado agora em risco por causa de um projeto de lei apresentado à Câmara dos Deputados pelo deputado Daniel Silveira (PSL/RJ).

A proposta prevê que todo brasileiro morto em confronto com agentes de segurança, portando armas no momento da morte, deve ceder compulsoriamente seus órgãos para que sejam utilizados em transplantes. Por agentes de segurança compreende-se policiais militares, civis e federais, agentes penitenciários e da Força Nacional de Segurança, guardas civis e integrantes das Forças Armadas que estiverem participando de missões de garantia da lei e da ordem em estado sob intervenção federal.

Doação não é punição. 2

SEM DIREITOS

Daniel Silveira é policial militar. Ficou conhecido nacionalmente em outubro do ano passado quando quebrou a placa de rua, no Rio de Janeiro, que levava o nome da ex-vereadora Marielle Franco (Psol), assassinada há um ano junto com o motorista Anderson Gomes. Quando quebrou a placa, ele estava acompanhado de Rodrigo Amorim, então candidato e hoje empossado deputado estadual do Rio de Janeiro.

O projeto da doação compulsória foi o primeiro que ele apresentou, logo no início do ano legislativo. O deputado não consultou nem um especialista no assunto para formular a proposta, baseando-se apenas em suas convicções. A principal delas: para Daniel, criminosos não são seres humanos. “São lixos orgânicos”, considera. A partir da premissa, o deputado defende que nem eles nem seus familiares — os únicos responsáveis pela autorização de doação — têm o direito de dispor do corpo da maneira que desejarem, como acontece com os outros brasileiros, os “cidadãos de bem”, como classifica o parlamentar.

Seu raciocínio é simples: de um lado, há demanda por órgãos. De outro, há sobra de oferta — e de órgãos de boa qualidade, segundo ele. “Bandido tem saúde boa”, assegura. Dessa maneira, sua proposta resolveria a questão matemática do problema, não havendo mais déficit de oferta e, além disso, o indivíduo morto em confronto acertaria sua conta com a sociedade. “É uma forma de fazer com que eles paguem a dívida moral que têm com os cidadãos de bem”, defende.

Em um projeto só, o deputado consegue ferir alguns dos princípios que definem humanidade e civilização. Entre eles, a não violação de corpos e a não separação dos indivíduos em categorias que os classifiquem como humanos, sub-humanos ou nem isso. Lixos, como diz. Judeus e homossexuais eram assim considerados pelo regime nazista.

Não se sabe a aceitação da ideia pelos colegas congressistas de Daniel. No entanto, a onda de retrocesso cultural que tomou boa parte do País sugere que o projeto tem até chances de seguir adiante, embora não resista à uma análise jurídica mais profunda. “É totalmente inconstitucional”, afirma o advogado criminalista Roberto Parentoni, presidente do Instituto Brasileiro do Direito de Defesa. “O Estado não pode violar o corpo de um cidadão.” O advogado criminalista Roberto Podval compartilha da opinião. “O projeto fere as garantias individuais na medida em que dá ao Estado o direito de dispor do corpo de alguém, ainda que morto”, explica.

O projeto pegou de surpresa os especialistas brasileiros em transplante. Presidida pelo cirurgião Paulo Pego Fernandes, a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos posicionou-se contrariamente à proposta. “É estapafúrdia”, considera o representante da entidade à qual o deputado Daniel acha que está ajudando. Não percebe que cometeu um erro básico: doação não é punição. Doar é um ato de amor.

Doação não é punição. 3

O SANGUE DE CHE

Crueldade não tem ideologia. Um dos ícones da esquerda mais festejados da história, o médico Che Guevara foi acusado de tirar sangue de seus prisioneiros antes de executá-los. A denúncia consta em um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos produzido em 1967. As vítimas eram cubanos condenados à morte e presos no presídio de La Cabaña. Segundo o relato, de cada um eram extraídos 3 litros de sangue. O material teria sido vendido ao Vietnã do Norte, comunista como Cuba, então em guerra contra o Vietnã do Sul, capitalista como os Estados Unidos.