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A QUEDA DA APPLE

Devido à diminuição de interesse por iPhones, a fabricante reduziu sua expectativa financeira. Nos últimos três meses, a marca perdeu na bolsa o equivalente ao valor do Facebook.

A queda da aple

Em 2013, 1.500 clientes formaram fila em frente à loja da Apple na Quinta Avenida, em Nova York, à espera do iPhone SS. A cena se repetiu ao redor do mundo, em que pese o fato deque o produto ficaria disponível logo para vendas on-line. “É obviamente um culto”, chegou a analisar a historiadora Erica Robles-Anderson, pesquisadora de fenômenos tecnológicos da Universidade de Nova York, ao observar os então apelidados de applemaníacos. Se a Apple instigou a idolatria, sobretudo depois do lançamento do iPhone, em 2007, é certo que agora a companhia americana tem perdido devotos.

Um dos sinais mais evidentes veio no último dia 2, quando o CEO Tim Cook anunciou a acionistas que, pela primeira vez desde 2002, a empresa não atingirá sua meta de faturamento. A receita, a ser divulgada nas próximas semanas, deve ficar 10% menor. A estimativa era que a companhia faturasse 93 bilhões de dólares no último trimestre. Cook baixou a expectativa para 84 bilhões, justificando-se: “Não previmos a magnitude da desaceleração econômica, particularmente na China. As vendas de iPhones foram menores”. Como resultado, registrou-se queda nas ações. Nos últimos três meses, porém, o valor de mercado da Apple já vinha caindo. Saiu de mais de 1 trilhão de dólares e ficou na casa dos 670 bilhões – perda equivalente ao valor de um Facebook inteiro.

A explicação do CEO, contudo, não convenceu. No país asiático, que é o maior mercado de celulares do planeta, a Apple aparece apenas em quinto lugar entre as maiores fabricantes de smartphones, atrás de marcas locais como a Huawei. Faz anos que o gigante tenta se firmar em solo chinês, sem sucesso. Na verdade, a razão da crise é outra: os clientes não cultuam mais a Apple como antes. Segundo a consultoria Bay Street, em 2015 os consumidores mudavam de modelo a cada dois anos. Agora, o ritmo é de três em três – e tende a aumentar. Em 2002, na última crise da Apple, Steve Jobs (1955-2011) disse: “Temos produtos novos e maravilhosos em desenvolvimento”. Desta vez, Cook não teve o que oferecer.

A queda da aple. 2

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ÂNGULO PERFEITO

Tendência no Brasil, a cirurgia no queixo deixa o rosto com aparência mais fina. É popular entre as mulheres que buscam a foto perfeita para as redes sociais.

Ângulo perfeito

Na era das selfies e dos filtros digitais, que, como num passe de mágica, deixam a pele brilhante, o nariz mais fino e até alteram as proporções do rosto, a vontade de imitar na vida real os resultados vistos na tela leva as mulheres a buscar a aparência perfeita nos consultórios dos cirurgiões plásticos. Depois de operações para alterar o formato do nariz ou para reduzir as bochechas, o desejo de uma face harmônica e simétrica chega ao queixo. A região, agora, virou protagonista. A mentoplastia, nome técnico que se dá ao procedimento, remodela o mento para deixar a face proporcional. “As pacientes chegam descontentes com o formato arredondado do rosto. O procedimento o deixa mais fino e alongado”, diz Eduardo Kanashiro, cirurgião plástico da Clínica Due. Vê-se o resultado da mentoplastia em mulheres lindas, que aparentemente nada teriam a corrigir e que agora desfilam com um rosto mais comprido. A lista já é robusta: começa com a cantora brasileira Anitta e passa pela americana Taylor Swift. Ainda que a busca seja majoritariamente feminina, a mudança é almejada também pelos homens, só que com efeito contrário. Eles querem rosto mais quadrado ou um “superqueixo”, atributo associado a força, masculinidade e confiança. No Brasil, os queixos mais pedidos pelas brasileiras ao cirurgião são o da cantora Selena Gomez e o da atriz global Bruna Marquezine. Aqui, aliás, estima-se entre os especialistas que a procura por esse tipo de procedimento tenha aumentado 70% no último ano. Diz o cirurgião Níveo Steffen, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica: “É importante que o planejamento esteja de acordo com a estética do próprio paciente e não seja apenas baseado em seus desejos e sonhos”.

A operação consiste em aumentar ou reduzir o queixo, a depender do biotipo de cada um. O procedimento é simples. Feito com anestesia local, tem duração de trinta minutos. Na técnica mais popular, insere-se uma prótese de silicone na base do queixo. O resultado é uma projeção que varia de 3 a 9 milímetros. Como em qualquer cirurgia, também existe algum risco. O local é rico em nervos motores e sensitivos. Pode ocorrer uma lesão em estruturas do nervo da face, resultando em perda de sensibilidade e até dos movimentos da região.

Já há procedimentos minimamente invasivos capazes de alterar o formato e o tamanho do queixo sem o uso de bisturi. Nesse caso, pode ser efetuado um enxerto de gordura retirada do próprio paciente, com resultados permanentes. Além disso, é possível também fazer aplicação de ácido hialurônico. Presente no organismo, o com­ posto é uma molécula que preserva a elasticidade da pele. A versão sintética, produzida em laboratório, é muito semelhante à natural. Seu efeito, no entanto, mostra-se temporário – dura, em média, um ano.

Não é exagero dizer que os cirurgiões fazem cálculos de trigonometria para alterar o mento e chegar ao novo contorno facial. Desde a Grécia antiga, um poderoso conceito fez nascer obras­ primas da pintura, da arquitetura e da música – o de harmonia. Platão, o primeiro filósofo a tratar do assunto, dizia que “o belo é tudo aquilo em que as partes se agrupam de modo coerente para compor a harmonia do conjunto”. Na mentoplastia, tem-se como objetivo equilibrar os traços da fisionomia do paciente, mantendo suas características individuais. A proporção mais importante a estabelecer é a do nariz em relação ao queixo, ou vice­ versa. O queixo faz parte do terço inferior da face. O nariz, do terço médio. É importante que toda as três partes tenham medidas semelhantes para que haja uma proporção adequada. Por isso, frequentemente, o cirurgião recomenda a associação da mentoplastia com a rinoplastia, visando a um melhor equilíbrio estético do rosto.

Para os gregos, a ideia de equilíbrio era matemática. Eles caminhavam pelas leis da chamada razão áurea – quando a perfeição estética está na relação geométrica. Enquanto os antigos utilizavam réguas para definir proporções estéticas, hoje se usam bisturis e agulhas. Segundo uma pesquisa da Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva, em 2017, 55¾ dos cirurgiões plásticos disseram que suas pacientes optaram pela operação para sair melhor nas selfies. Seja para alcançar a proporção grega ou para ficar belo nas redes sociais, a busca pela beleza natural, mesmo que com estratégias artificiais, só aumenta – e tudo indica que chegou para ficar.

Ângulo perfeito. 2

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EXERCÍCIOS PROTEGEM CONTRA O ALZHEIMER

Cientistas brasileiros descobrem como a prática de atividades físicas melhora a memória e até ajuda a restaurar as lembranças perdidas por causa da doença.

Exercício protege contra o alzheimer

O exercício físico é considerado pela medicina um remédio natural contra infarto, acidente vascular cerebral, depressão e câncer. Mais recentemente, surgiram evidências dos benefícios para o cérebro, especialmente para conter a perda de memória e o declínio cognitivo que marcam a doença de Alzheimer. Na semana passada, pesquisadores brasileiros confirmaram os efeitos positivos da prática e foram além, mostrando o mecanismo pelo qual exercitar-se regularmente é uma boa forma de prevenção e de tratamento da enfermidade. Em artigo publicado na versão online da revista científica Nature Medicine, a equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro responsável pelo estudo mostrou que a explicação está na irisina, hormônio liberado durante a execução de exercícios. Ela protege o cérebro e restaura a capacidade de memorização perdida com o avanço da doença.

A informação trazida à luz pelos brasileiros é uma peça importante no enorme quebra-cabeça que o Alzheimer ainda representa para a medicina. Ele não tem cura, exame específico de diagnóstico ou um programa bem estabelecido de prevenção. Isso porque, como a maioria das enfermidades neurodegenerativas, sua origem e evolução têm causas complexas e difíceis de serem estudadas com os recursos disponíveis. O problema é que, com o envelhecimento da população, é urgente encontrar meios efetivos de preveni-la e de tratá-la. Hoje, há cerca de 35 milhões de pessoas no mundo com a doença — um milhão no Brasil. Em 2050, serão 135 milhões no planeta, o que a tornará um grande problema de saúde pública.

MENSAGEIRO QUÍMICO

A irisina ficou conhecida em 2012, quando o biólogo americano Bruce Spiegelman, da Universidade Harvard (EUA), a descreveu como um mensageiro químico produzido pelos exercícios. Veio daí a inspiração para o seu nome, o da deusa grega mensageira Íris. O hormônio transforma o tecido adiposo branco, que guarda energia em forma de gordura, em marrom. Este dissipa energia sob a forma de calor.

Sua descrição inspirou os cientistas brasileiros a estudar qual seria seu papel no cérebro. Foram sete anos de pesquisa envolvendo cobaias, amostras de cérebro extraídas de pacientes mortos e do líquido cefalorraquidiano coletadas de portadores. Eles chegaram a conclusões importantes: o exercício físico estimula a produção de irisina diretamente no cérebro, onde ela mantém preservadas as sinapses, os espaços entre os neurônios por onde trafegam os neurotransmissores (substâncias que fazem a comunicação entre as células nervosas). “Além disso, o hormônio provoca reações químicas dentro dos neurônios importantes para a memória”, explica Sérgio Ferreira, um dos autores do estudo. Todas essas funções protegem o cérebro da perda de capacidade de aprender e de armazenar informações e chegam a restaurar o que havia sido perdido.

Os dados podem embasar a criação de remédios contra a doença. Mas falta muito até lá. O próximo passo dos pesquisadores é compreender melhor a função do hormônio no cérebro. Depois, há ainda etapas de pesquisa em laboratório e, por fim, em humanos. Tudo isso levará anos. Porém, a informação de que o exercício pode prevenir e retardar a doença deve servir, já, como mais um estímulo para a sua prática. Não há um tempo estabelecido (as cobaias fizeram uma hora por dia de natação, durante cinco semanas), mas ao menos adotar a velha orientação de caminhadas diárias de 20 minutos, por exemplo, é um bom começo.

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TURBINANDO A FOTOSSÍNTESE

Ao modificarem geneticamente o processo de alimentação das plantas, cientistas americanos se aproximam de uma nova revolução – tornar a colheita de grãos ainda mais produtiva.

Turbinando a fotossíntese

Como o planeta conseguirá alimentar seus 9,8 bilhões de habitantes em 2050? A pergunta, que se refere ao futuro da humanidade, começou a ser respondida na semana passada, quando a revista Science publicou um artigo que mostrava o possível início de uma revolução – um aumento significativo da produtividade das futuras colheitas. Para que se ponha comida na boca de todos daqui a três décadas, a capacidade mundial de produzir alimentos terá de aumentar 60%. É um desafio e tanto. Considerando-se o ritmo atual de crescimento da produtividade agrícola, o planeta não obterá os 60% necessários até 2050. A saída é ampliar ainda mais a produtividade, e a pesquisa publicada na Science pode apontar o caminho revolucionário.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, conseguiu modificar geneticamente um dos processos mais básicos da vida vegetal – a fotossíntese.

Como se aprende nas aulas de biologia, as plantas produzem o próprio alimento através da reação química entre luz, água e gás carbônico que ocorre dentro de suas células. Nesse movimento contínuo de produção de energia, as plantas liberam no meio ambiente oxigênio, essencial para a respiração dos animais. O que poucos lembram é que a fotossíntese é composta de várias etapas, uma das quais se chama fotorrespiração – que, em linhas gerais, regula a temperatura da planta. Algumas espécies apresentam adaptações de metabolismo que praticamente a eliminam, como o milho e a cana-de-açúcar.

No experimento, os cientistas isolaram os genes de espécies de algas, abóboras e da bactéria Escherichia coli e os inseriram em plantas de tabaco, cujo ciclo de vida é mais acelerado e que, por isso, poderiam produzir resultados mais rapidamente. A ideia era que, reduzindo o metabolismo fotorrespiratório, as plantas de tabaco pudessem usar parte da energia para se desenvolver. Depois de duas colheitas, os pesquisadores confirmaram essa hipótese. As plantas de tabaco geneticamente modificadas apresentaram até 40% mais biomassa. Ou seja: cresceram mais que as plantas de tabaco sem modificações genéticas.

“É um avanço significativo”, garante o professor de genética de plantas Carlos Alberto Labate, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo. “O próximo passo será aferir se essa ideia se converterá em aumento de produtividade de grãos”, completa. No processo de fotorrespiração, o tabaco se assemelha a plantas essenciais para a alimentação humana, como a soja, o arroz e o trigo. Se os cientistas conseguirem aplicar a mesma técnica na produção de grãos, isso significará que tais plantas poderão vicejar em áreas de clima mais quente e com menos tecnologia, como o uso de defensivos agrícolas. “Por isso a Revolução Verde não ajudou os fazendeiros africanos”, diz uma das autoras da pesquisa, Amanda Cavanagh. A África tem um quarto dos terrenos aráveis do planeta – em contrapartida, a agricultura representa apenas 15% do PIB da região. A nova técnica seria uma vantagem e tanto na busca da resposta à pergunta sobre como alimentar quase 10 bilhões.

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A APOSENTADORIA DO SUTIÃ

Em busca de mais conforto e do reconhecimento da beleza natural dos seios, cada vez mais mulheres se libertam do acessório – mas enfrentam resistência.

A aposentadoria do sutiã

O sutiã já marcou importantes momentos na história da luta da mulher por seu espaço na sociedade e contra estruturas sociais que as oprimem. Depois de protagonizar a famosa manifestação de feministas contra a objetificação da mulher durante o concurso ”Miss América”, no chamado “Bra Burning” (“Queima dos Sutiãs”), em 1968, mais uma vez a peça surge como símbolo de libertação feminina. Agora a luta é pela abolição do seu uso. Cada vez mais as mulheres desejam tirá-la do corpo para viverem com seus seios da forma como eles são. Esse desejo simboliza uma busca pelo reconhecimento da sua beleza natural e da dessexualização do corpo feminino – que, na visão das militantes, foi levada ao extremo pela indústria do entretenimento. Além disso, representa uma luta pela igualdade de direitos em relação aos homens – que, diferentemente das mulheres, podem andar sem constrangimentos com os mamilos à mostra em alguns ambientes.

Celebridades brasileiras estão aderindo à tendência. É o raso de Cléo Pires, que costuma aparecer com os seios naturais sob as blusas e já se manifestou pelo Instagram sobre o tema. ”Meus seios não são órgãos sexuais. Antes, são órgãos feitos para alimentar um bebê”, disse ela, que criticou a política de censura de algumas redes sociais aos peitos das mulheres. Recentemente o Instagram e o Facebook foram questionados por alguns usuários por não permitirem a exposição de mamilos femininos, diferentemente dos masculinos. Outra personalidade que não vê problema em não usar a peça é Bruna Marquezine. “Amo e acho tão bonito”, disse em resposta a uma fã pelo Twitter. A tendência já é global e também pôde ser vista no tapete vermelho do Globo de Ouro, no domingo 6, nos looks de atrizes como Julia Roberts e Saoirse Ronan.

Em ambientes corporativos, porém, a ausência da peça provoca estranhamento. Além disso, algumas linhas da psicologia e estudos de neurociência afirmam que dessexualizar os seios seria impossível, uma vez que eles estão biologicamente vinculados à reprodução. Durante a amamentação, por exemplo, o cérebro feminino produz um hormônio semelhante ao que une um casal na vida adulta. E o fato das mamas se desenvolverem na puberdade faz com que elas estejam relacionadas com a capacidade de reprodução da mulher.

Uma das razões que incentivam o movimento conhecido como No Bra (“Sem Sutiã”, em inglês) é o benefício que a eliminação da peça pode causar à saúde das mamas. Estudos mostram que, ao contrário do que se pensava antes, sutiãs com arames, plásticos ou bojos podem fazer mal porque comprimem os peitos. Segundo Jean-Denis Rouillon, professor da Universidade de Franche­Comté e um dos poucos estudiosos do tema, o sutiã não evita os efeitos da gravidade no corpo. Rouillon constatou que eles ficam mais firmes quando o acessório não é usado, porque os tecidos e ligamentos têm de trabalhar e não degeneram. Além disso, sem ele a circulação do sangue é melhor e a temperatura das mamas se mantém natural. Pensando nisso, foi criado até um dia para encorajar as mulheres a não tirarem o sutiã do guarda-roupa. O “No BraDay” ocorre no dia 13 de outubro, durante o Outubro Rosa, e visa conscientizar sobre a autoavaliação para a prevenção do câncer de mama. As feministas, no entanto, protestam. Para elas, todo dia é dia da mulher deixar o sutiã em casa e libertar as mamas.

A aposentadoria do sutiã. 2

A aposentadoria do sutiã. 3

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O MURRO ANUNCIA A MORTE

O murro anuncia a morte

O estamento burocrático governamental no Brasil guarda a noção de que tudo se resolve por leis e decretos – nada mais natural. aliás, em uma República que, também ela, nasceu por decretação. No caso específico do crescente número de assassinatos de mulheres praticados por homens, que não aguentam psiquicamente ouvir da companheira “vamos terminar a relação amorosa”, essa tese fica clara. Fez-se a Lei Maria da Penha, criou-se a tipificação penal do feminicídio, e nada está resolvido. Vemos estarrecidos mulheres serem mortas a tiro, estranguladas, defenestradas, queimadas e brutalizadas a marretadas – na rua, em casa, em lojas, em resorts. Nos primeiros quatro dias de 2019, quatro mulheres foram mortas no Rio de Janeiro porque seus parceiros não aceitaram o fim do relacionamento. Em São Paulo, no mesmo período, o número de vítimas foi cinco. Em Goiás, quatro mulheres morreram em quarenta e oito horas. No País inteiro somam-se vinte e um feminicídios nos sete primeiros dias do (velho) ano novo. Na semana passada, um estudo inédito do Ministério da Saúde mostrou que três em cada dez mulheres que são assassinadas no País sofrem sistematicamente espancamentos. Ou seja: o bruto não se faz criminoso de uma hora para a outra, é como se o primeiro murro já anunciasse a morte, próxima ou distante. O estudo ganha relevância ao demonstrar que é bobagem considerar que leis mudam o temperamento de um agressor. O que está em questão é o transtorno da personalidade narcísica, que faz do portador um parceiro que “coisifica” a mulher. A solução está na educação, desde criança: formar indivíduos não hedonistas e não egoístas, aptos a suportarem a frustração amorosa, aprendendo que ciúme é psicopatologia e que ninguém é dono do corpo e da alma de ninguém.

O murro anuncia a morte. 2

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A SINA DAS MENINAS-NOIVAS

O Brasil é o país com o quarto maior número de “casamentos infantis”.

A sina das meninas-noivas

Para dar um fim ao martírio de dividir o mesmo teto com seu pai, cuja rotina incluía bater nos filhos e na mulher depois da lida na roça, Eriane Costa Ribeiro decidiu deixar o inferno familiar aos 12 anos. Acreditava ter algum futuro ao juntar-se com um homem de 38 anos que a assediava no bairro do Rio dos Cachorros, zona rural de São Luís, no Maranhão. A pequena Eriane estava apenas trocando de algoz. Na nova moradia, era espancada pelo companheiro todos os dias, além de cozinhar e limpar a casa. Com ele, teve uma filha. Cansada das agressões, fugiu de casa – sem levar a criança – para se abrigar na residência de um vizinho, que se tornou seu novo companheiro: Raimundo Nonato, de 48 anos. Hoje, aos 17, a adolescente espera o segundo filho e aparenta ter mais de 30 anos. Eriane deixou a escola na meninice e é economicamente dependente de Raimundo Nonato. Ela não sabe a tabuada de cor, mas dá conta de carpir um quintal de 300 metros quadrados e limpar a fossa usada como banheiro. Cozinha, limpa, engoma as camisetas do cônjuge, a quem chama de “senhor”.

Eriane é parte da fotografia triste do Brasil que continua afundado na miséria e no abismo da desigualdade social – e o Maranhão é o epicentro desse drama, com seu alto nível de pobreza e um dos mais elevados índices de “casamentos infantis”, expressão usada para designar casais em que um dos integrantes, ou ambos, não atingiu a maioridade.

O Brasil ocupa a quarta posição entre os países com maior número de casamentos infantis. Ao todo, 3 milhões de brasileiros vivem nessa condição – número inferior apenas ao da Índia (15,5 milhões), de Bangladesh (4,4 milhões) e da Nigéria (3,5 milhões). Em proporção da população, o Brasil fica à frente da Índia. Aqui, a incidência é de 1,4% da população. Na Índia, é de 1,2%. Nas franjas mais jovens, entre 10 e 14 anos, existem hoje 22.849 meninos em “situação de matrimônio”, como dizem os estudiosos do assunto. No caso das meninas, o número salta para 65.709.

Por definição, casamento é a união consensual entre duas pessoas donas de maturidade emocional e física com o desejo mútuo de construir uma família. A teoria parece um conto de fadas diante da realidade das meninas-noivas. As causas estão na gravidez precoce, na baixa escolaridade, na ausência de trabalho, na falta de perspectiva a longo prazo e na fuga de uma família desestruturada. Muitas vezes, todos esses fatores atravessam, juntos e incontornáveis, o destino da mesma garota. As sequelas vão além da perniciosa manutenção do círculo da pobreza. Segundo estudo da Harvard Medical School, as meninas­ noivas têm sete vezes mais riscos de morrer no parto por não terem corpo de adultas; seus bebês têm probabilidade 60% maior de morrer do que a média. As mães precoces também exibem alto índice de depressão, ansiedade e agressividade. ”A menina se vê presa em uma situação da qual não pode sair, por depender do marido para ter um teto e comer. Isso gera revolta. Muitas ficam agressivas e descontam a raiva nos filhos, com falta de paciência ou com violência física”, diz Stephany Mello, psicóloga e assistente social da prefeitura de Codó, uma das cidades mais pobres do Maranhão, onde há dezenas de meninas com menos de18 anos casadas.

No passado, o casamento de homens já na maturidade com meninas mal saídas da infância era uma praxe que contava com o respaldo da Igreja Católica. “O padre orientava o marido a consumar o casamento depois de a menina ter a primeira menstruação”, diz a historiadora Mary Del Priore. A prática acontecia em todas as classes sociais. As monarquias se uniam para manter a nobreza, o poder e a fortuna. A infanta Carlota Joaquina, por exemplo, casou-se aos 10 anos com o futuro rei dom João VI, então com18 anos. Era assim.

Ao longo do tempo, o próprio conceito de infância mudou com o aumento da expectativa de vida – um brasileiro vivia apenas 33 anos no início do século XX. Até a década de 50, ainda se considerava que a vida adulta da menina começava no dia seguinte ao início do ciclo menstrual. A migração da população do campo para a cidade, o surgimento da pílula anticoncepcional e os avanços nos direitos das mulheres mudaram o panorama. Somadas todas as mudanças na sociedade e a despeito dos avanços, é chocante o alto índice de casamentos infantis no Brasil. “Essa prática nociva tem como raiz a desigualdade de gênero”, diz a advogada Paula Tavares, especialista no assunto do Banco Mundial. “Em regiões onde o sexo feminino não tem a oportunidade de contribuir para a família, entrando no mercado de trabalho formal para ajudar com as despesas, as filhas são vistas como um fardo.” Há pais que não relutam em deixar as filhas sair de casa com 11 ou 12 anos para formar família com sujeitos mais velhos. Há os que, ao descobrir que a filha perdeu a virgindade, a expulsam de casa, alimentando o círculo vicioso.

“Os envolvidos em casamentos infantis não percebem a situação como absurda”, diz Alselmo Costa, coordenador da Plan International, uma ONG inglesa presente no Brasil há mais de vinte anos, dedicada aos problemas da infância. Essa constatação é sempre mais comum em regiões paupérrimas. “Na pobreza, o desconhecimento é substituído pela necessidade e pelas falsas ideias.” Em Timbiras, no Maranhão, apesar de não existir em estatísticas oficiais e confiáveis, os pares de idades muito discrepantes são corriqueiros. Timbiras tem IDH de 0,537, igual ao da Síria, país imerso em guerra civil. A maioria dos 28.000 habitantes do município vive em casas erguidas com barro. Banheiros com pia e vaso sanitário são luxo para poucos. A população cava buracos no quintal para as necessidades fisiológicas, o que atrai ratos, insetos e infecções. É preciso percorrer estradas esburacadas e sem segurança para chegar aos colégios de pau a pique, de condições precárias. Eis um terreno perfeitamente propício para a proliferação de relacionamentos tortos. É assim em boa parte das regiões desvalidas do Norte e do Nordeste.

O matrimônio infantil, no entanto, está longe de ser exclusividade dessas regiões. A cidade de São Paulo soma 25.561 casamentos de adolescentes de 15 a 18 anos incompletos em cartório civil. Mas, no entanto, 95% dos casos de casamento infantil no Brasil ocorrem sem registros oficiais. Quando a pobreza não é a mola propulsora dos casamentos infantis, entram em cena os valores religiosos e familiares. “Eu me casei depois de pedir orientação ao meu pastor”, diz a paulistana Daniele de Lima. Ela subiu ao altar grávida, aos 17 anos, após conhecer o companheiro, da mesma idade, pelo aplicativo Tinder. Ambos foram emancipados pelos pais para poder trocar as alianças. Nas grandes capitais, ao contrário do que ocorre nos centros distantes, o matrimônio entre jovens tem alto índice de separação.

Em um daqueles atrasos que se perpetuam sem que ninguém saiba exatamente como nem por quê, o casamento infantil não é ilegal no Brasil. Pela lei, qualquer menina pode se casar depois dos 16 anos desde que tenha autorização dos responsáveis. Em caso de gravidez, as garotas têm o direito de casar-se ainda antes disso: a partir dos 14 anos. “Se elas não têm maturidade para cuidar de si próprias, como vão tomar conta de uma família?”, questiona a deputada carioca Laura Carneiro. Ela é autora de um projeto de lei para retirar do Código Civil a permissão para casamentos abaixo da idade de 16 anos mesmo no caso de gravidez. “Tentei fazer com que esse projeto de lei fosse mais rigoroso, liberando o matrimônio apenas depois dos 18 anos, mas houve muita pressão de bancadas conservadoras no Congresso.” O projeto foi aprovado na Câmara, mas ainda tem de passar pelo Senado.

Ao estipular os 16 anos como idade mínima para casar-se, o legislador brasileiro deixou exposto um total de 3,4 milhões de meninas. O impacto de um matrimônio com tão pouca idade é permanente, mesmo depois do divórcio. O tempo que uma menina-esposa passou distante da escola não volta. As portas para o mercado de trabalho se fecham. Não por acaso, a Organização das Nações Unidas estabelece a idade de 18 anos como a mínima para constituir família. Em 2017, alguns países deram passos civilizatórios importantes ao mudar suas leis e acatar essa recomendação da ONU, caso da Guatemala, El Salvador, Honduras e Trinidad e Tobago. “Quando a mulher não tem perspectiva de estudar, trabalhar, ganhar seu dinheiro e, então, construir um futuro com autonomia, a única forma de se sentir útil é casar e engravidar”, diz Paula Tavares, do Banco Mundial. Sem quebrar esse ciclo, sem interromper os casamentos infantis, o Brasil jamais conseguirá chegar ao futuro.

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