O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A VERDADEIRA LIBERDADE

Uma das melhores maneiras de compartilhar o evangelho com os homens e as mulheres de hoje é apresentá-lo em termos de liberdade. Existem pelo menos três argumentos que podem ser usados nessa abordagem.
Primeiro, a liberdade é um assunto extremamente atraente. A revolta mundial contra a autoridade, iniciada na década de sessenta, é vista como sinônimo de uma busca mundial por liberdade. Muita gente é obcecada com a liberdade e passa a vida inteira a persegui-la. Para alguns, é uma questão de libertação nacional, emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, trata-se de direitos civis, e assim protestam contra discriminação racial, religiosa ou étnica e exigem a proteção de opiniões das minorias. E ainda há outros cuja preocupação é a busca por liberdade económica, libertação da fome, da pobreza e do desemprego. Ao mesmo tempo, todos nós nos preocupamos com a nossa liberdade pessoal. Até aqueles que lutam mais ardentemente pelos outros tipos de liberdade aqui mencionadas (nacional, civil e económica) geralmente sabem que eles mesmos não são livres. Eles nem sempre conseguem dar um nome às tiranias que os oprimem. Todavia, sentem-se frustrados, não-realizados e sem liberdade.
Numa entrevista com o consagradíssimo novelista John Fowles, publicada sob o título “Uma Espécie de Exílio em Lyme Regis”, Daniel Halpern perguntou-lhe: “Existe algum retrato específico do mundo que você gostaria de desenvolver em sua obra? Alguma coisa que continua sendo importante para você?” “Sim”, respondeu John Fowles. “Liberdade. Como alcançar a liberdade. Isto me obceca.
Todos os meus livros falam sobre isso.”
Segundo, liberdade é uma tremenda palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. “O Espírito do Senhor está sobre mim”, declarou ele, aplicando a si mesmo uma profecia do Antigo Testamento, “pelo que me ungiu para evangelizar nos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” Quer Jesus estivesse se referindo aos pobres, cativos, cegos e oprimidos no sentido material ou espiritual, quer nos dois sentidos (esta questão continua se constituindo em veemente debate), as boas novas por ele proclamadas foram certamente de “liberdade” ou “libertação”. Mais tarde, em seu ministério público, ele acrescentou a promessa: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. E daí o apóstolo Paulo tornou-se o defensor da liberdade cristã e escreveu: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão”. Para aqueles que consideram “salvação” um jargão religioso e desprovido de sentido, ou mesmo algo embaraçoso, “liberdade” é um excelente substituto. Ser salvo por Jesus Cristo é ser libertado.
Terceiro, liberdade é uma palavra muito mal interpretada. Mesmo aqueles que falam mais alto e há mais tempo acerca da liberdade nem sempre param antes para definir de que é que estão falando. Um bom exemplo é o do orador marxista que, plantado numa esquina, discursava com eloquência sobre a liberdade que todos haveríamos de desfrutar depois da revolução. “Quando nós conseguirmos a liberdade”, exclamava ele, “todos vocês poderão fumar cigarros como aquele ali”, disse, apontando para um opulento cidadão que ia passando.
“Eu prefiro meu cigarro de palha”, gritou um gozador.
“Quando formos libertados”, continuou o marxista, ignorando a interrupção e esquentando mais o assunto, “todos vocês poderão andar num carro daqueles”, e apontou para um suntuoso Mercedes que ia passando.
“Eu prefiro minha bicicleta”, gritou o perturbador. E assim o diálogo continuou, até que o marxista, não suportando mais as gozações, voltou-se para o homem e disse: “Quando formos livres, você só fará aquilo que lhe mandarem!”
O aspecto negativo: libertação de
Mas, então, o que é liberdade? Uma verdadeira definição tem que começar com o lado negativo. Temos que identificar as forças que nos tiranizam e que, portanto, inibem a nossa liberdade. Somente então conseguiremos compreender como é que Cristo pode nos libertar.
Primeiro, Jesus Cristo nos oferece libertação da culpa. Nós deveríamos ser gratos pela reação generalizada contra a insistência de Freud de que os sentimentos de culpa são sintomas patológicos de doença mental. Alguns deles com certeza o são, especialmente em certos tipos de enfermidade depressiva; mas nem toda culpa é falsa. Pelo contrário, cresce cada vez mais o número de psicólogos e psicoterapeutas contemporâneos que, mesmo não professando a fé cristã, nos dizem que precisamos levar a sério as nossas responsabilidades. O falecido Dr. Hobart Mowrer, da Universidade de Illinois, por exemplo, entendia a vida humana em termos contratuais e via o “pecado” como uma quebra de contrato que deve receber uma reparação. A Bíblia certamente sempre enfatizou, tanto as nossas obrigações como seres humanos, como a nossa falha ao deixarmos de cumpri-las. Nós, em particular, temos buscado afirmação colocando-nos contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do nosso próximo. Usando uma linguagem cristã bem direta, nós, além de pecadores, somos também pecadores culpados, e a nossa consciência nos diz isso. Conforme uma das piadas de Mark Twain, “o homem é o único animal que fica envergonhado – ou que precisa fazê-lo”.
Agora, ninguém que não tenha sido perdoado é livre. Se cu não tivesse certeza da misericórdia e do perdão de Deus, não conseguiria olhar ninguém nos olhos, e muito menos a Deus (o que é mais importante). Eu iria querer fugir e esconder-me, como fizeram Adão e Eva no Jardim do Éden. Afinal, foi no Éden, e não em Watergate, que inventaram pela primeira vez o estratagema chamado “esconder”. Eu com certeza não seria livre. Um pouco antes de morrer, em 1988, em um momento de surpreendente sinceridade na televisão, Marghanita Laski, uma das mais conhecidas humanistas e novelistas seculares, declarou: “O que eu mais invejo em vocês, cristãos, é o perdão que vocês têm. Mu não tenho ninguém para me perdoar.”
“Mas”, como os cristãos bem que gostariam de gritar de cima dos telhados, fazendo eco ao salmista penitente, “em Deus está o perdão”, pois ele, em seu amor por pecadores como nós, veio participar do nosso mundo na pessoa de seu Filho. Tendo vivido uma vida de perfeita retidão, ele, na sua morte, identificou-se com os injustos. Levou o nosso pecado, a nossa culpa, a nossa morte em nosso lugar, a fim de que fôssemos perdoados.
A liberdade, portanto, começa com o perdão. Lembro-me de um estudante de uma universidade no norte da Inglaterra, que havia sido criado no espiritismo, mas fora levado por um colega a uma reunião cristã, onde ouviu o evangelho. No fim-de-semana seguinte começou uma intensa batalha pela sua alma, até que (como ele escreveria mais tarde) ele gritou em desespero para que Jesus Cristo o salvasse. Então, continuou ele, “Jesus realmente veio a mim. Eu senti um amor verdadeiro, real – nem dá para descrever. Era pura beleza e serenidade. E apesar do fato de que eu nada sabia acerca de salvação e pecado, e nem mesmo sabia o que significava isso, eu simplesmente soube que estava perdoado… Eu estava incrivelmente feliz!”
Segundo, Jesus Cristo nos oferece libertação do nosso ego. Certa vez, conversando com uns crentes judeus, Jesus lhes disse: “Se vós permanecerdes nas minhas palavras, sois verdadeiramente meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
Na mesma hora eles ficaram indignados. Como é que ele ousava dizer que eles precisavam de algum tipo de libertação? “Somos descendência de Abraão”, eles retrucaram, “e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?”
Jesus replicou: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado.”
Portanto, se a culpa é o primeiro tipo de escravidão do qual precisamos ser libertados, o segundo é o pecado. E o que significa isto? Assim como “salvação”, “pecado” é uma palavra que pertence ao vocabulário tradicional cristão. “Eu não sou pecador”, diz a maioria das pessoas, pois elas parecem associar pecado com crimes específicos e sensacionais, como matar, adulterar ou roubar. Mas “pecado” tem uma conotação muito mais ampla do que isso. Eu mesmo me recordo de quão revelador foi para mim descobrir, especialmente através dos ensinamentos de William Temple, que o que a Bíblia quer dizer com “pecado” é, antes de tudo, egocentrismo. Afinal, os dois grandes mandamentos de Deus são, primeiro, que o amemos com todo o nosso ser; e, segundo, que amemos o nosso próximo como a nós mesmos. Pecado é, portanto, inverter essa ordem. É colocar a nós mesmos em primeiro lugar, virtualmente proclamando nossa própria autonomia, depois o nosso próximo, segundo a nossa conveniência, e depois, então, Deus, em algum lugarzinho lá nos bastidores.
O egocentrismo é um fenômeno presente em toda a experiência humana. Isto se evidencia na rica variedade de palavras da nossa língua que incluem o componente “ego” ou “auto”. Quantas delas carregam em si um sentido pejorativo ou negativo? Egoísmo, egolatria, autoafirmação, autoacusação, autoagressão, auto piedade, autocomiseração, autodestruição, autoindulgência, auto¬promoção, autopunição, autossuficiência…
Além do mais, nosso egocentrismo é de uma tirania terrível. Malcolm Muggeridge costumava falar e escrever a respeito do “calabouçozinho escuro que é o meu próprio eu”. E que escuridão tem esse calabouço! Deixar-se absorver nos próprios interesses e ambições egoístas, sem qualquer consideração pela glória de Deus ou pelo bem-estar dos outros, é estar confinado na mais intrincada e insalubre das prisões.
Mas Jesus Cristo, que ressurgiu dentre os mortos e está vivo, pode nos libertar. Nós podemos conhecer “o poder da sua ressurreição”. Ou, colocando a mesma verdade em outras palavras, o Jesus que vive pode, através do seu Espírito, impregnar a nossa personalidade e virar-nos do avesso. Não que nós sejamos perfeitos, é claro; só que, pelo poder do seu Espírito que habita em nós, pelo menos já começamos a experimentar uma transformação do eu para o não-eu. Nossa personalidade, antes fechada em si mesma, começa a abrir-se para Cristo, assim como uma flor se abre para o sol nascente.
Em terceiro lugar, Jesus Cristo nos oferece libertação do medo. O velho mundo para o qual ele veio vivia atemorizado pelos poderes que, conforme se acreditava, habitavam as estrelas. Ainda hoje a religião tradicional de povos tribais primitivos é assombrada por espíritos malignos que precisam ser aplacados. A vida de homens e mulheres de hoje é igualmente atormentada pelo medo, desde os medos comuns que sempre afligiram os seres humanos — medo da doença, do luto, da velhice e da morte — até o medo do desconhecido, do oculto e da extinção nuclear. A maioria de nós também já sofreu algumas vezes de medos irracionais, e é impressionante ver quanta gente educada alimenta medos supersticiosos. Batem três vezes na madeira, cruzam os dedos, carregam amuletos e recusam-se a sentar na poltrona de número 13 porque dá azar… É por isso que em muitos hotéis nos Estados Unidos não existe o décimo-terceiro andar. Ao subir no elevador, se você observar o painel iluminado, verá que os números pulam de 10, 11, 12 para 14. As pessoas são tão supersticiosas para dormir no andar número 13 que não se dão conta de que aquele continua sendo o décimo-terceiro andar, mesmo que o tenham denominado de décimo-quarto! Já na Inglaterra, de acordo com uma recente pesquisa de opiniões, embora nove décimos da população ainda acredite em algum tipo de Deus, o número de adultos que leem o seu horóscopo toda semana é o dobro dos que leem a Bíblia.
Todo medo traz consigo uma dose de paralisia. Ninguém que tenha medo é livre. Além do mais, o medo é como o fungo: cresce mais rapidamente no escuro. É essencial, portanto, trazer à luz os nossos medos e olhar para eles, especialmente à luz da vitória e supremacia de Jesus Cristo. Afinal de contas, aquele que morreu e ressuscitou foi também exaltado à mão direita de Deus Pai, e tudo foi posto “debaixo de seus pés”. Portanto, onde estão as coisas que antes temíamos? Elas estão debaixo dos pés de Cristo, o Cristo triunfante! Quando nós as enxergamos ali, então o poder que elas tinham de nos aterrorizar é destruído.
Medo e liberdade são mutuamente incompatíveis. Para mim, isso foi bem ilustrado certa vez por um jovem palestrante africano. Tínhamos andado discutindo sobre a necessidade de os cristãos se interessarem mais pela História Natural como sendo criação de Deus. “Antes de me tornar um cristão”, disse ele, “eu tinha medo de muitas coisas — principalmente de cobra. Mas agora acho difícil matar uma cobra, pois gosto de ficar olhando para elas. Graças a Deus, agora sou livre de verdade.”

O aspecto positivo: liberdade para
Até aqui nós estabelecemos uma relação entre as tiranias que impedem a nossa libertação e os três principais eventos da experiência de Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e exaltação. Há libertação da culpa porque ele morreu por nós; libertação do ego porque podemos viver na força da sua ressurreição; e libertação do medo porque ele reina, com todas as coisas debaixo de seus pés.
É, no entanto, um equívoco muito sério definir liberdade em termos inteiramente negativos, embora o dicionário cometa este engano. Segundo o dicionário, liberdade é “supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, amoral”, enquanto que livre é aquele “que pode dispor de sua pessoa; que não está sujeito a algum senhor (por oposição a servil, escravo). Que não está privado de sua liberdade física; que não está prisioneiro; solto”. Mas tudo que é negativo tem o seu lado positivo. O verdadeiro grito de liberdade clama não somente por resgate de alguma tirania, mas também por liberdade para viver uma vida plena e significativa. Quando um país é libertado de um regime colonialista, torna-se livre para descobrir e desenvolver sua própria identidade nacional. Quando a imprensa é libertada do controle e da censura do governo, torna-se livre para publicar a verdade. E uma minoria racial, quando é libertada da discriminação, fica livre para desfrutar de respeito e dignidade própria. Afinal de contas, quando um país não é livre, o que lhe é negado é o direito de ser nação; quando não há liberdade de imprensa, o que se lhe nega é a verdade; e quando uma minoria não é livre, o que lhe é negado é o respeito próprio.
Qual é, então, a liberdade positiva dos seres humanos? Em 1970 Michael Ramsey pregou na Universidade de Cambridge uma série de quatro sermões, que foram posteriormente publicados sob o título A Liberdade, a Fé e o Futuro. No primeiro ele apresentou a questão: “Nós sabemos de que queremos libertar os homens. Será que sabemos para que queremos libertá-los?” E passou a responder a sua própria pergunta. Nossa luta por aquelas liberdades “que mais sensivelmente agitam nossos senti¬mentos” (por exemplo, ser libertos da perseguição, da prisão arbitrária, da fome e da pobreza destruidoras) deveria sempre se situar “no contexto da questão mais radical e revolucionária, isto é, que o homem seja liberto do seu ego e para a glória de Deus.”
A questão que precisamos perseguir é esta: para que é que Cristo nos liberta? Eis aqui o princípio: a verdadeira liberdade é a liberdade para sermos nós mesmos, tal como Deus nos criou e como ele tencionava que nós fôssemos. E como se pode aplicar este princípio?
Vamos começar com o próprio Deus. Você já pensou no fato de que Deus é o único ser que goza de perfeita liberdade? Até se poderia argumentar que Deus não é livre. Afinal, o certo é que a liberdade dele não é absoluta, no sentido de poder fazer absolutamente qualquer coisa. A Escritura nos diz que ele não pode mentir, tentar ou ser tentado, nem pode tolerar o mal. Não obstante, a liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que ele queira. A liberdade de Deus é liberdade para ser sempre inteiramente ele mesmo. Deus nada tem de arbitrário, taciturno, inconstante ou imprevisível. Ele é constante, estável, imutável. De fato, a coisa principal que a Escritura nos diz que ele “não pode” fazer (não pode porque nunca o fará) é contradizer-se. “Ele não pode negar-se a si mesmo.” Fazê-lo seria, não liberdade, mas autodestruição. A liberdade de Deus reside no fato de ser ele mesmo, assim como ele é.
E o que acontece com Deus, o Criador, também acontece com todas as coisas e seres criados. Liberdade absoluta, liberdade ilimitada, é pura ilusão. Se isso é impossível para Deus (como de fato o é), mais impossível ainda é para a criação de Deus. A liberdade de Deus é liberdade para ser ele mesmo; nossa liberdade é liberdade para sermos nós mesmos. A liberdade de toda criatura é limitada pela natureza que Deus lhe deu.
O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem o se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigênio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade. Suponhamos que você tenha em casa um peixe tropical. Ele vive, não num desses tanques retangulares arejados e modernos, mas num daqueles velhos aquários redondos e antiquados. E lá está o seu peixinho, nadando de um lado para outro no seu bendito aquário, até que, quando a sua frustração se torna insuportável, ele decide apostar na liberdade e salta para fora do seu confinamento. Se por acaso ele conseguir pular dentro de uma poça no seu jardim, aumentará sua liberdade. Continua sendo água, só que ali tem ainda mais água para ele nadar. Agora, se ele aterrissar no carpete ou no cimento, aí a sua tentativa de escapar acabará dando, não em liberdade, mas em morte.
E os seres humanos? Se os peixes foram feitos para a água, os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como humanos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. “Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda”, disse Mário para Morris. “Nós necessitamos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar.” E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia “tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele”.
Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e morremos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: “Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo.” Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.
O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente auto doador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verdadeira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor.
A verdadeira liberdade é, pois, exatamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a responsabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente em amor a Deus e aos outros.
Mas a mente secular não consegue captar este paradoxo cristão da liberdade através do amor. Por exemplo, a novelista francesa Françoise Sagan deu uma entrevista pouco antes de completar cinquenta anos, em 1985. Ela disse que estava perfeitamente satisfeita com sua vida e que nada tinha a lamentar.
“Você teve a liberdade que queria?”
“Sim”, disse ela, esclarecendo sua declaração: “Naturalmente, eu sempre era menos livre quando estava apaixonada por alguém…, Mas não se vive apaixonada o tempo todo. A não ser por esse tempo… Sou livre, sim.”
A implicação é clara: o amor inibe a liberdade. Quanto mais se ama, menos livre se é, e vice-versa. Presume-se, portanto, que para ser completamente livre é preciso evitar as complicações do amor, ou seja, o jeito é desistir completamente de amar.
Mas Jesus ensinou exatamente o contrário em um de seus epigramas favoritos, que ele parece ter citado em diferentes formas e contextos. “Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á”, disse ele; “e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á.” Eu achava que Jesus estivesse se referindo a mártires que dão a vida por ele. E o princípio que ele estava enunciando certamente inclui a estes. Mas a “vida” de que ele está falando, que tanto pode ser salva como perdida, não é a nossa existência física (zoe), mas a nossa alma ou ego (psyche) usada não poucas vezes em lugar do reflexivo referente à primeira pessoa (“me/mim”). Poderíamos então parafrasear o epigrama de Jesus nos seguintes termos: “Se você insiste em apegar-se a si mesmo e em viver para si mesmo, recusando-se a desligar-se do seu eu, você está perdido. Mas se estiver disposto a doar-se em amor, então, no momento do completo abandono, quando você pensar que tudo está perdido, acontecerá o milagre e você encontrará a si e à sua liberdade.” Só o serviço sacrificial, o dar-se a si mesmo em amor a Deus e aos outros, é que é a perfeita liberdade.
A verdadeira liberdade, portanto, combina o negativo (libertação de) com o positivo (liberdade para). Ou, dito de uma outra forma, ela concilia a libertação da tirania com a liberdade submetida à autoridade. Jesus ilustra isto num dos seus mais conhecidos convites:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Existem aqui, na verdade, dois convites, ligados a uma única promessa. A promessa é “descanso”, que parece abranger a ideia de libertação. “Eu vos aliviarei”, diz Jesus (versículo 28). E acrescenta: “Achareis descanso para as vossas almas” (versículo 29). Mas a quem ele promete descanso? Primeiro, àqueles que vêm a ele “cansados e sobrecarregados”, pois ele tira os seus fardos e os liberta. Depois, ele dá descanso àqueles que tomam sobre si o seu jugo e aprendem dele. Assim, o verdadeiro descanso se encontra em Jesus Cristo, nosso Salvador, que nos liberta da tirania da culpa, do ego e do medo, e em Jesus Cristo, nosso Senhor, quando nos submetemos a sua autoridade e ensino. Afinal, o seu jugo é suave, o seu fardo é leve e ele mesmo é “manso e humilde de coração”.

 

 

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GESTÃO E CARREIRA

robos

SEU COLEGA É UM ROBO

Pesquisas mostram que quase 50% dos empregos existentes hoje devem ser ocupados por inteligências artificiais nos próximos 20 anos. Conheça as profissões em que isso já é realidade

A inteligência das máquinas estará em pé de igualdade com a dos humanos até 2050.Essa previsão perturbadora foi feita por especialistas da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, com base em pesquisas recentes sobre o futuro do trabalho realizadas pelos professores Fei-Fei Li e Vivek Vadhwa. Embora ainda exista um longo caminho pela frente – atualmente, só 5% das atividades podem ser inteiramente substituídas por tecnologia -, a Quarta Revolução Industrial, como os economistas denominam essa fase de convergência do mundo real com o virtual, está em andamento e tende a ser rápida: a consultoria americana McKinsey calcula que 60% das funções já poderiam ter pelo menos um terço de suas atividades automatizadas. E um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que examinou 700 profissões, concluiu que quase metade dos empregos nos Estados Unidos (47%) deve ser informatizada nos próximos 20 anos. Postos nas áreas de transporte, logística e apoio administrativo, por exemplo, correm alto risco de automação. Ocupações mais operacionais dentro da indústria também são altamente suscetíveis.A tendência é que os trabalhadores menos qualificados se movam para tarefas resistentes à informatização, ou seja, trabalhos que exijam inteligência criativa e social. Para isso, haverá a necessidade de uma mudança na educação e de aumento da capacitação”, diz Carl Benedikt Frey, um dos responsáveis pela pesquisa. Grande parte dessa transformação já começou a acontecer. Prova disso é que, enquanto a produção industrial americana está em seu ponto mais alto, o volume de empregos no setor é menor do que na década de 40 e os salários para os funcionários de chão de fábrica estão praticamente estagnados desde 1970. Segundo análises do Fundo Monetário Internacional, o progresso tecnológico tem contribuído para o aumento da desigualdade nas últimas décadas.

Mas não são só as profissões braçais ou manuais que estão ameaçadas. Processos inteligentes também serão assumidos por robôs. ” Estamos evoluindo para uma computação cognitiva, menos programática, na qual o sistema pode aprender por si mesmo e abocanhar novas áreas”, diz Cezar Taurion, especialista em TI e CEO da Litteris Consulting, do Rio de Janeiro. Nas instituições bancárias, a inteligência artificial auxilia na extração e no estudo de imagens em caixas eletrônicos, detectando atitudes suspeitas; no setor de seguros, analisa fotos de veículos acidentados, identificando as partes afetadas e o grau de dano; na área militar, está presente em drones armados que tomam decisões sobre efetuar ataques. “Essa evolução vai continuar a substituir diversas funçôes exercidas por pessoas. Tudo o que puder ser automatizado será”, afirma Cezar. Segundo a consultoria PwC, que analisou 150 inovaçôes na pesquisa As Tendências dos Avanços da Tecnologia, inteligência artificial, realidade aumentada, drones, internet das coisas, robôs, realidade virtual e impressão 3D são aquelas que mais vão afetar os negócios até 2020.

Essas notícias, no entanto, não são necessariamente ruins. O desafio será reformular o papel do trabalhador e das carreiras e preparar os profissionais humanos para atuar ao lado das inteligências artificiais, numa relação de complementaridade. Conheça a seguir as profissões de nível superior em que já é possível ter robôs como colegas na cadeira ao lado.

RECURSOS HUMANOS

Bots, sistemas robóticos que percorrem a internet em busca de informação, já estão na área de RH, na qual têm se destacado no recrutamento. No Brasil, o site Vagas Online colocou a serviço dos usuários um robô que inscreve o candidato toda vez que aparece uma oportunidade com seu perfil. O sistema avalia as competências dele, principais conhecimentos e habilidades e, com base nisso, passa a inscrevê-lo nos anúncios compatíveis com suas competências.

FINANÇAS

Clientes das corretoras brasileiras Magnetis Investimentos e Rico já contam com a tecnologia do robô advisor, que atua como consultor de investimentos. Com intervenção humana mínima, a carteira recomendada pelos robôs é resultado de uma série incontável de combinações de dados sobre o desempenho dos ativos com o perfil do investidor, o risco e o tempo que ele está disposto a esperar até realizer sua meta financeira. Experts em matemática e finanças de algumas das maiores universidades do mundo, como MIT e Stanford, programaram o robô, capaz de gerar opçôes personalizadas, com base nas informaçôes preenchidas pelo próprio usuário. Além de realizar um trabalho eficaz e sem conflito de interesses, o robô consegue substituir um grande número de consultores humanos.

 ARQUITETURA

O emprego de alguns arquitetos pode estar em risco com a evolução dos robôs e de softwares como Designed Exterior Studio, Chief Architect, Floorplanner.com, Trimble SketchUp e Sweet Home 30, que ajudam leigos a projetar suas casas. A ferramenta Ply Gern, por exemplo, permite aos interessados escolher um modelo de imóvel virtual e customizer o projeto, fazendo até mudanças estruturais.

Os sistemas possibilitam ao usuário calcular o material necessário para a construção de cada ambiente, além de mapear em detalhes os processos de execução, de forma que os pedreiros consigam compreender o passo a passo, sem a necessidade de um arquiteto.

 ENFERMAGEM

Na área de saude, os enfermeiros já contam com a concorrência dos robôs Hospi-Rimo. Em hospitais de países como Japão e Estados Unidos, esses equipamentos memorizam o mapa dos corredores e quartos e conseguem se deslocar usando um Sistema de rodas: eles buscam remédios e levam aos pacientes na hora exata em que devem ser medicados.

 DIREITO

A fase de pesquisa e coleta de documentos é uma das mais demoradas de uma ação judicial. Mas esse trabalho começa a ser realizado por inteligências artificiais. A Totvs, empresa de software de gestão, fornece um robô jurídico que faz pesquisa de antecedentes, checagem de prazos e contato com as partes envolvidas. A tecnologia também afeta advogados experientes, especializados em fazer a previsão do resultado de processos. Um modelo estatístico com base em algoritmos, criado pela Michigan State University e SouthTexas Collegeof Law, mostrou-se capaz de acertar as decisões de 70%dos casos da Suprema Corte dos Estados Unidos.

 JORNALISMO E PUBLICIDADE

A área de comunicação é uma das mais afetadas pela invasão dos robôs. Milhares de empresas já adotam a compra automatizada de anúncios: em vez de publicitários escolherem os veículos de comunicação mais adequados a uma peça publicitária, os robôs de marketing realizam o trabalho usando um banco de dados que cruza informações sobre o perfil da audiência dos veículos. No jornalismo, há robôs que buscam informações na rede e estruturam textos simplescom base em algoritmos. O canal Ten Big, da emissora americana de televisão Fox, utiliza um software da Universidade de Northwestern para realizar coberturas esportivas pela internet e produzir textos curtos com os resultados das partidas e as principais jogadas. Com isso, os jornalistas são direcionados para coberturas mais complexas.

 MEDICINA

Na área de saude já há robôs que fazem diagnósticos mais velozes e precisos. Um deles é o Watson, da IBM. Ele analisa exames de ressonância magnética e elabora tratamentos personalizados para combater o câncer, por exemplo. No mundo, 20 instituições o utilizam. Na América Latina, o laboratório Fleury Medicina e Saúde conta com o Watson for Genomics, que decifra códigos do genoma humano e ajuda na tomada de decisão médica em casos de doenças crônicas, por exemplo. No Brasil, a robô Laura detecta precocemente casos de sepse, infecção generalizada que mata cerca de 250000 pessoas por ano no país. “O diagnóstico precoce é essencial nesses casos e Laura identifica um paciente em risco em menos de 4 segundos”, diz Jacson Fressatto, especialista em TI que criou a tecnologia após perder a filha, Laura, por sepse. A robô Laura já é utilizada no Hospital Nossa Senhora das Graças, de Curitiba, e o criador pretende instalar a tecnologia em 2600 hospitais filantrópicos do Brasil nos próximos anos.

EDUCAÇÃO

Nas últimas décadas, o trabalho dos professores vem passando por mudanças drásticas, como a digitalização de ferramentas pedagógicas. E há estudos de universidades americanas sugerindo que os algoritmos que personalizam a aprendizagem podem ser mais eficazes do que um professor humano. No Brasil, há algumas iniciativas em andamento, como o robô NAO, que ensina geometria em escolas públicas e particulares de São Carlos (SP). O equipamento foi desenvolvido pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (lCMC), da USP. Apesar de não visar à substituição dos professores, o projeto reforça o potencial do ingresso dos robôs na educação.

 SEGURANÇA E RESGATE

As cenas de filmes como Robocop, em que humanoides ficam responsáveis pela segurança, não estão

tão distantes da realidade. O Exército dos Estados Unidos, por exemplo, já recorre aos robôs Maars (Modular Advanced Armed Robotic System), desenvolvidos pela empresa americana Foster Miller, em zonas de conflito, como o Iraque. Equipados com GPS, eles têm capacidade para abrir fogo e para arrastar corpos feridos. Já o robô Saffir atua como bombeiro nos navios da Marinha americana e é responsável por apagar qualquer sinal de incêndio.

FARMÁCIA

A tecnologia intitulada Robotic Pharmacy Dispensing começou a substituir a presença de farmacéuticos no UCSF Medical Center, nos Estados Unidos, que conta com farmácias robotizadas em dois de seus hospitais. Os computadores recebem os pedidos médicos e os robôs preparam, empacotam e distribuem as doses de medicamentos de cada paciente –          e, assim, eliminam a chance de erro humano. Enquanto isso, no Brasil, hospitais como Sírio-Libanês e Albert Einstein, ambos em São Paulo, adotaram tecnologia similar à dos Estados Unidos e já contam com farmácias com processos robotizados que reduzem a necessidade de farmacêuticos e funcionários. A ideia é agilizar processos, aumentar a segurança dos pacientes e também diminuir o desperdício.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O PARADOXO HUMANO

Duas vezes no Antigo Testamento levanta-se a ques­tão “O que é o homem?” (isto é, “O que significa ser humano?”), e duas vezes ela é respondida. E em ambas as ocasiões a indagação expressa surpresa, c até incredulidade, pelo fato de Deus prestar tanta atenção a sua criatura humana. Afinal de contas, nós somos insignificantes em comparação com a vastidão do universo, como também impuros em contraste com o brilho das estrelas — não passamos de “insetos” e “vermes”.

Há pelo menos três razões principais para a importância desta questão.

Pessoalmente falando, perguntar “O que é o homem?” é uma outra forma de indagar “Quem sou eu?”. Só assim nós podemos dar uma resposta ao antigo adágio grego gnothi seauton, “conhece-te a ti mesmo”, e à preocupação moderna ocidental com a descoberta de nosso próprio eu. Não existe área mais importante a ser buscada ou pesquisada do que a nossa identidade pessoal. Afinal, enquanto não nos encontrarmos a nós mesmos, nós nem podemos des­cobrir plenamente qualquer outra coisa, nem podemos crescer em maturidade pessoal. O clamor universal é “Quem sou eu?” e “Será que eu valho alguma coisa?”

Conta-se que certo dia Arthur Schopenhauer, o filósofo do pessimismo, estava sentado no Tiergarten, em Frank­furt, meio desgrenhado e maltrapilho, quando o guarda do parque, confundindo-o com um vagabundo, perguntou-lhe rudemente: “Quem é você?” A esta indagação, o filósofo replicou amargamente: “Por Deus, como eu gostaria de saber!”

Profissionalmente, qualquer que seja o nosso trabalho, nós sempre estamos de alguma forma servindo às pessoas. Os médicos e enfermeiras têm seus pacientes, os profes­sores têm alunos, os advogados e assistentes sociais têm clientes, os parlamentares têm seus constituintes e os negociantes, os seus fregueses. A maneira como tratamos as pessoas em nosso trabalho depende quase inteiramente de como nós as vemos.

Politicamente, pode-se argumentar que a natureza dos seres humanos tem sido um dos principais pontos de dis­cussão entre as visões rivais de Jesus e Marx. Será que os seres humanos têm um valor absoluto, em virtude do qual devem ser respeitados, ou seu valor só tem relação com o Estado, por cuja causa eles devem ser explorados? Ou, mais simplesmente: as pessoas são servas da institui­ção, ou é a instituição que é serva das pessoas? Como escreveu John S. Whale, “as ideologias … são na verdade antropologias”; elas são diferentes doutrinas acerca do homem.

A crítica cristã às respostas contemporâneas para a questão “O que é o homem?” é que elas tendem a ser, ou ingênuas demais em seu otimismo, ou negativas demais em seu pessimismo acerca da condição humana. Os humanistas seculares são geralmente otimistas. Embora creiam que o homo sapiens nada mais é que o produto de um processo de evolução ocorrido ao acaso, eles no entanto acreditam que os seres humanos continuam a evoluir, têm potencial ilimitado e algum dia assumirão o controle total de seu próprio desenvolvimento. Mas esses otimistas não levam suficientemente a sério a queda do ser humano para a perversidade moral e o egocentrismo, o que constante­mente tem retardado o progresso, levando à desilusão os reformadores sociais.

Os existencialistas, por outro lado, tendem a ser extremamente pessimistas. Já que não há Deus, dizem eles, tam­bém não há mais valores, ideais ou padrões — o que, no mínimo, tem sua lógica. E embora nós precisemos encon­trar de alguma forma a coragem para ser, nossa existência não tem nem significado nem propósito. No final das contas, tudo é um absurdo. Mas tais pessimistas não

levam em consideração o amor, a alegria, a beleza, a verdade, a esperança, o heroísmo e o sacrifício próprio que têm en­riquecido a história humana.

O que necessitamos, pois, (citando novamente J. S. Whale), não é “nem o otimismo fácil dos humanistas, nem o obscuro pessimismo dos cínicos, mas o realismo radical da Bíblia”.

Nossa dignidade humana

O valor intrínseco dos seres humanos é afirmado desde o primeiro capítulo da Bíblia.

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra.

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E Deus os abençoou, e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra.

Há muito tempo persiste o debate acerca do que sig­nifica a “imagem” ou “semelhança” divina nos seres humanos, e onde jaz sua superioridade. Keith Thomas juntou uma porção de ideias exóticas em seu livro Man and the Natural World (O Homem e o Mundo Natural). Ele destaca, por exemplo, que o ser humano foi descrito por Aristóteles como um animal político, por Thomas Willis como um animal que ri, por Benjamin Franklin como um animal que faz ferramentas, por Edmund Burke como um animal religioso e pelo gourmet James Boswell como um animal que cozinha. Outros autores têm se concen­trado em alguma característica física do ser humano. Platão explorou muito a nossa postura ereta, concluindo que os animais olham para baixo, mas só os seres humanos olham para o céu, enquanto Aristóteles acrescentou a peculiari­dade de que só os seres humanos não conseguem agitar as orelhas. Um médico escocês mostrou-se profundamente impressionado com os nossos intestinos, ou seja, com suas “sinuosas circunvoluções, curvas e reviravoltas”, ao passo que em fins do século XVIII Uvedale Price chamou atenção para o nosso nariz: “Creio que o homem é o único animal que tem uma acentuada protuberância bem no meio da face.”

Os estudiosos que conhecem bem o antigo Egito e a Assíria antiga, no entanto, salientam que nessas culturas o rei ou imperador era tido como a “imagem” de Deus, a quem representava aqui na terra, e que os reis mandavam erigir imagens suas em suas províncias para simbolizar a extensão de sua autoridade. Foi dentro desse contexto que Deus, o Criador, confiou uma espécie de responsabi­lidade real (ou pelo menos vice-real) a todos os seres humanos, designando-os para “dominarem” sobre a terra e suas criaturas e “coroando-os”, para isso, de “glória e honra”.

No decorrer da narrativa de Gênesis 1 fica claro que é a imagem ou semelhança divina que distingue os humanos (o clímax da criação) dos animais (cuja criação é registrada antes). Implica-se uma continuidade entre humanos e ani­mais. Eles compartilham, por exemplo, “o fôlego da vida” e a responsabilidade de reproduzir-se. Mas havia também entre eles uma radical descontinuidade, ao se dizer que os seres humanos são “como Deus”. Essa ênfase na distinção singular entre humanos e animais repete-se constantemen­te por toda a Escritura, sob dois diferentes tipos de argu­mento. Deveríamos nos envergonhar, tanto quando os seres humanos comportam-se como animais, baixando ao nível destes, como quando os animais se comportam como seres humanos, agindo muito melhor pelo instinto do que nós pela capacidade de escolher. Um exemplo do primeiro caso é que homens e mulheres não devem ser “embrutecidos e ignorantes”, comportando-se “como um irracional”, ou então “como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos

são dominados”. Como exem­plo do segundo caso, nós somos repreendidos pelo fato de bois e jumentos reconhecerem os seus donos muito melhor do que nós, e porque as aves de migração, ao deixarem suas casas, retornam muito mais facilmente do que nós, e as formigas são muito mais trabalhadoras e previdentes do que nós.

Voltando aos primeiros capítulos de Génesis, todas as maneiras de Deus lidar com Adão e Eva pressupõem a unicidade destes entre as criaturas de Deus. A forma como Deus se dirige a eles pressupõe que eles o compreendem. Ele lhes diz que frutos podem comer e quais não podem comer, certo de que eles são capazes de discernir entre uma permissão e uma proibição e escolher entre as duas. Ele plantou o jardim e depois colocou Adão ali “para o cultivar e guardar”, iniciando assim entre eles uma parceria cons­ciente e responsável no cultivo do solo. Criou-os macho e fêmea, declarou que a solidão não era uma coisa boa, instituiu o matrimônio para a realização do amor dos dois e abençoou sua união. Além disso, ele “passeava no jardim pela viração do dia”, deliciando-se com a sua companhia, e sentiu falta dos dois quando se esconderam dele. Portanto, não é de admirar que estes cinco privilégios (compreensão, escolha moral, criatividade, amor e comunhão com Deus) sejam todos regularmente mencionados nas Escrituras e continuem a ser reconhecidos no mundo contemporâneo como constitutivos da distinção singular da nossa “huma­nidade”.

Para começar, existe a nossa racionalidade autoconsciente. Não se trata apenas de sermos capazes de pensar e raciocinar — afinal de contas, poderíamos dizer, os computadores também fazem isso. Eles são capazes de realizar os cálculos mais fantásticos, e muito mais rápido do que nós. Além disso, têm um tipo de memória (podem arquivar informações) e um tipo de linguagem (podem comunicar seus achados). Mas ainda existe (graças a Deus!) uma coisa que eles não podem fazer: eles não podem gerar pensamentos novos; só podem “pensar” aquilo para o qual foram programados. Os seres humanos, contudo, são pensadores originais. E mais do que isso. Nós podemos fazer aquilo que nós (autor e leitor) estamos fazendo neste exato momento: podemos nos colocar fora de nós mesmos e olhar para o nosso interior, avaliar-nos, indagar-nos quem e o que somos. Somos autoconscientes e temos autocrítica. Além disso, vivemos inquirindo, incansavel­mente, acerca do universo. Está certo que, como disse a outro um certo cientista, “astronomicamente falando, o homem é infinitamente pequeno”. “É verdade”, respondeu seu colega; “só que, astronomicamente falando, o homem é que é o astrônomo.”

A seguir vem a nossa capacidade de fazer opções morais. O ser humano é um ser moral. Embora nossa consciência reflita nossa formação e cultura (sendo, portanto, falível), ela no entanto permanece alerta dentro de nós, como uma sentinela, advertindo-nos de que há uma diferença entre o certo e o errado. Ela é mais do que uma voz interior. Representa uma ordem moral fora e acima de nós, diante da qual nós sentimos uma obrigação, de tal forma que temos um estranho impulso para fazer o que percebemos ser direito, bem como sentimentos de culpa quando fazemos o que é errado. Todo o nosso vocabulário moral (ordens e proibições, valores e opções, obrigação, consciência, li­berdade e vontade, certo e errado, culpa e vergonha) não tem o menor sentido para os animais. É verdade que podemos treinar um cachorro para que ele saiba o que pode fazer e o que é proibido. E aí, quando ele desobedece e, instin­tivamente, se afasta de nós, todo encolhidinho, pode-se até dizer que ele parece “sentir-se culpado”. Mas ele não tem a mínima noção de culpa — a única coisa que sabe é que vai apanhar.

Em terceiro lugar, vem o nosso poder de criatividade artística. Deus não só nos chama para uma mordomia res­ponsável em relação ao meio ambiente, e a uma parceria com ele mesmo no que tange ao domínio e exploração da natureza para o bem comum; ele nos deu também, através da ciência e da arte, habilidades inovadoras para fazê-lo. Somos “criaturas criativas”. Isto é, como criaturas, nós dependemos do nosso Criador. Porém, tendo sido criados à semelhança do nosso Criador, ele nos deu o desejo e a capacidade de sermos também criadores. Portanto, nós dançamos, escrevemos poemas e fazemos música. Podemos apreciar o que agrada aos olhos, ao ouvido e ao nosso toque.

Depois vem a nossa capacidade para relacionamentos de amor. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem … Criou Deus, pois, o homem à sua imagem … macho e fêmea os criou.”

Embora devamos cuidar para não deduzir deste texto mais do que realmente ele diz, certamente é legítimo dizer que a pluralidade intrínseca do Criador (“Façamos o ho­mem”) foi expressa na pluralidade das suas criaturas (“ma­cho e fêmea os criou”). Ela tornou-se ainda mais clara quando Jesus orou por seu próprio povo, “a fim de que todos sejam um, como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti”. E esta unidade de amor é uma peculiaridade do ser humano. E claro que todos os animais se acasalam, muitos deles estabelecem fortes laços entre o casal, a maioria cuida dos seus filhotes e alguns deles são gregários. Mas o amor que une entre si os seres humanos é mais do que um instinto, mais do que um distúrbio das glândulas endócrinas. Ele tem inspirado a maior das artes, o maior dos heroísmos, a mais profunda das devoções. O próprio Deus é amor, e nossas experiências de amor são um reflexo essencial da nossa semelhança com ele.

Em quinto lugar, temos a nossa insaciável sede de Deus. Todo ser humano tem consciência de uma realidade pessoal suprema, a quem nós procuramos, e que sabemos que somente na relação com ele é que podemos nos realizar como seres humanos. Mesmo quando estamos fugindo de Deus, sabemos instintivamente que não existe para nós outro lugar de repouso, nem outro lar. Sem ele nós estamos perdidos, a vida não passa de refugo. Nossa maior nobreza reside na nossa capacidade criada de conhecer a Deus, de nos relacionarmos pessoalmente com ele, amá-lo e adorá-lo. Na verdade, nós só somos plena e verdadeiramente humanos quando dobramos os nossos joelhos diante do nosso Criador.

E nestas coisas, pois, que jaz a nossa humanidade distintiva: em nossas capacidades dadas por Deus para pensar, escolher, criar, amar e adorar. “No animal”, pelo contrário, escreveu Emil Brunner, “não vemos o menor indício de tendência de buscar a verdade por amor à verdade, de moldar a beleza por amor à beleza, de pro­mover a justiça por amor à justiça, de reverenciar o Santo por amor da sua santidade… O animal nada co­nhece ‘acima’ de sua esfera imediata de existência, nada pelo qual medir ou testar sua existência… A diferença entre animais e seres humanos abrange toda uma di­mensão de existência.”

Não é de admirar que Shakespeare tenha feito Hamlet irromper em seu elogio: “Que obra de arte é o homem! Quão nobre em raciocínio! Quão infinito em suas faculdades! Quão semelhante aos anjos na ação! No entendimento, quão semelhante a Deus! Oh, a beleza do mundo! O protótipo dos animais!”

Como eu gostaria de poder parar aqui e que pudéssemos passar o resto de nossas vidas resplandescendo na mais pura auto-estima! Mas eis que existe um outro lado, mais escuro, do nosso ser, do qual mal temos consciência e para o qual o próprio Jesus chamou atenção.

Nossa depravação humana

Eis aqui algumas palavras de Jesus:

Convocando ele de novo a multidão, disse-lhes: Ouvi-me todos e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina… Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostitui­ção, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem. Jesus não pregou a bondade fundamental da natureza humana. Ele certamente acreditava na verdade veterotes­tamentária,  de que o ser humano,  tanto homem como mulher, foi criado à imagem de Deus; mas também acre­ditava que essa imagem havia sido maculada. Ele pregou o valor dos seres humanos, inclusive dedicando-se a servir a eles. Mas também ensinou que não valemos nada. Ele não negou que somos capazes de dar “coisas boas” aos outros, mas também acrescentou que, mesmo que façamos o bem, nem por isso deixamos de ser “maus”. E nos versículos citados acima ele fez importantes declarações sobre a extensão, a natureza, a origem e o efeito do mal nos seres humanos.

Primeiro, ele ensinou sobre o alcance universal da maldade humana. Ele não estava descrevendo o segmento criminoso da sociedade, nem algum indivíduo ou grupo particularmente corrupto. Pelo contrário, ele estava con­versando com refinados, “justos” e religiosos fariseus, e então generalizou, falando sobre “um homem” e “homens”. De fato, geralmente são as pessoas mais honestas que têm a mais profunda consciência de sua própria degradação. Tomemos como exemplo Dag Hammarskjöld, Secretário Geral das Nações Unidas de 1953 a 1961. Ele foi um servidor público profundamente comprometido, a quem W. H. Auden descreveu como sendo “um homem bom, grande e louvá­vel”. Mesmo assim, a visão que ele tinha quanto a si mesmo era muito diferente. Em sua coleção de obras autobiográ­ficas, intitulada Markings, ele escreveu sobre “essa per­versa contraposição do mal em nossa natureza”, que nos leva a fazer até do nosso serviço aos outros “o fundamento para a nossa própria auto-estima e preservação da nossa vida”,

Em segundo lugar, Jesus ensinou sobre a natureza ego­cêntrica da maldade humana. Em Marcos 7 ele enumerou treze exemplos. O que há de comum entre todos eles é que cada um é uma afirmação do ego, seja contra o nosso próximo (inclusive homicídio, adultério, furto, falso tes­temunho e cobiça – violações da segunda metade dos Dez Mandamentos), seja contra Deus (sendo que “orgulho e insensatez” são claramente definidos no Antigo Testamen­to como negação da soberania de Deus e até da sua própria existência). Jesus resumiu os Dez Mandamentos em termos de amor a Deus e amor ao próximo, e todo pecado é uma forma de revolta egoísta contra a autoridade de Deus ou contra o bem-estar do nosso próximo.

Terceiro, Jesus ensinou que a maldade do homem é de origem interna. Sua fonte se encontra, não em um ambiente ruim, nem em uma educação falha (se bem que ambos possam exercer uma forte influência sobre jovens impres­sionáveis), mas, sim, em nosso “coração”, nossa natureza herdada e pervertida. Quase se poderia dizer que Jesus nos introduziu ao freudianismo antes mesmo de Freud. Pelo menos aquilo que ele chama de “coração” é, em termos aproximados, equivalente ao que Freud chama de “incons­ciente”. Isso nos faz lembrar um poço bem profundo. A espessa camada de lama que jaz no fundo geralmente não se vê, e muito menos se suspeita. Mas quando as águas do poço são agitadas pelos ventos da emoção violenta, a imundície mais fétida e nojenta sai borbulhando das pro­fundezas e irrompe na superfície: ódio, raiva, lascívia, crueldade, ciúmes e revolta. Em nossos momentos mais sensíveis nós somos atormentados pela nossa potencialidade para o mal. E de nada adiantam tratamentos superficiais.

Em quarto lugar, Jesus falou do efeito contaminador da maldade humana. “Todos estes males vêm de dentro”, disse ele, “e contaminam o homem”. Para os fariseus, a con­taminação era algo muito mais exterior e cerimonial; eles se preocupavam com alimentos limpos, mãos limpas e vasilhas limpas. Mas Jesus insistiu em dizer que a con­taminação é algo moral, que vem de dentro. O que nos torna impuros aos olhos de Deus não é o alimento que entra em nós (que vai para o nosso estômago), mas o mal que sai de nós (que sai do nosso coração).

Todas as pessoas que já conseguiram ver, ao menos de relance, a santidade de Deus, foram incapazes de suportar essa visão, de tão chocadas que ficaram diante da sua própria e contrastante impureza. Moisés escondeu o rosto, com medo de olhar para Deus. Isaías gritou, horrorizado, chorando sua própria impureza e perdição.

Ezequiel ficou ofuscado, quase cego, ao ver a glória de Deus, e caiu de rosto em terra. Quanto a nós, mesmo que nunca tenhamos tido, como esses homens, sequer uma visão momentânea do esplendor do Deus Todo-poderoso, sabemos muito bem que não temos condições de entrar em sua presença, seja agora ou na eternidade.

Ao dizermos isso, nós não estamos esquecendo a nossa dignidade humana, com a qual se começou este capítulo. Devemos, no entanto, fazer jus à avaliação do próprio Jesus sobre a maldade da nossa condição como seres humanos. Ela é universal (em todo ser humano, sem exceção), egocêntrica (uma revolta contra Deus e contra o próximo), íntima (brota do nosso coração, de nossa natureza caída) e aviltante (torna-nos impuros e, portanto, indignos diante de Deus). Nós, que fomos criados por Deus e como Deus, somos desqualificados a viver com Deus.

O paradoxo da condição humana

Eis aqui, pois, o paradoxo da nossa condição humana: nossa dignidade e nossa depravação. Nós somos igualmente ca­pazes do mais sublime gesto de nobreza e da mais vil cruel­dade. Num momento podemos comportar-nos como Deus, a cuja imagem fomos criados, para logo depois agirmos como animais, dos quais deveríamos diferir completamen­te. Foram os seres humanos que inventaram os hospitais para cuidar dos doentes, universidades onde se cultiva a sabedoria, assembleias e congressos para o governo justo dos povos, e igrejas onde adorar a Deus. Mas foram eles também que inventaram as câmaras de tortura, os campos de concentração e os arsenais nucleares. Estranho e in­crível paradoxo! Nobre e ignóbil, racional e irracional, moral e imoral, divino e animal! Como diz C. S. Lewis através de Aslam, o homem “descende de Adão e Eva. É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também ver­gonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra”. No que se refere ao paradoxo humano, não conheço descrição mais eloquente do que a feita por Richard Holloway na Conferência de Re­novação Católica em Loughborough, em abril de 1978:

Este é o meu conflito… Sou cinza e pó, frágil e incons­tante, um conjunto de reações comportamentais prede­terminadas… crivado de temores, acossado de necessi­dades… o requinte do pó e ao pó retornarei… Todavia, existe em mim algo mais… Posso ser pó, mas sou pó que se inquieta, pó que sonha, pó que tem estranhas premonições de transfiguração, de uma glória por vir, de um destino preparado, de uma herança que um dia há de ser minha… Assim, minha vida se estende numa penosa dialética entre cinzas e glória, entre fraqueza e transfiguração. Eu sou um mistério para mim mesmo, um incômodo enigma… Sou essa estranha dualidade de pó e glória.

Diante do horror de sua própria dicotomia, certas pes­soas são suficientemente tolas para imaginar que são capazes de depurar a si mesmas, banindo o mal e liberando o bem que há nelas. A clássica expressão, tanto da nossa ambivalência humana como das nossas esperanças de salvar a nós mesmos, foi expressa por Robert Louis Stevenson em seu famoso conto O Estranho Caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde (1886). Henry Jekyll era um rico e respeitável médico, dado à religião e à filantropia. Mas ele tinha consciência de que sua personalidade tinha um outro lado, mais obscuro, de forma que ele estava “comprometido com uma profunda duplicidade de vida”. Ele descobriu que “o homem não é verdadeiramente um, mas verdadeiramente dois”. Então começou a sonhar que poderia resolver o problema da sua dualidade se conseguisse “isolar em iden­tidades diferentes” cada um de seus “lados”, de maneira que o justo fosse para um lado e o injusto para o outro. Assim, ele inventou uma droga que lhe possibilitava as­sumir o corpo deformado e a personalidade malvada de Mr. Hyde, seu alter ego, através do qual ele dava vasão a suas paixões — ódio, violência, blasfêmia e até homicídio.

No começo Jekyll tinha pleno controle de suas trans­formações, e se vangloriava de que poderia livrar-se de­finitivamente de Hyde quando bem entendesse. Pouco a pouco, porém, Hyde foi superando Jekyll, até que este começou a transformar-se involuntariamente em Hyde, e só com muito esforço conseguia voltar a viver como Jekyll. “Aos poucos fui perdendo o controle do meu ego original e melhor, e lentamente fui me incorporando ao meu segun­do e pior.” Finalmente, um pouco antes de sua revelação e prisão, ele se suicidou.

A verdade é que todo Jekyll tem um Hyde, que ele é incapaz de controlar e que ameaça subjugá-lo. De fato, o constante paradoxo da nossa condição humana derrama muita luz sobre a nossa vida privada, como também sobre a nossa vida pública. Vejamos um exemplo de cada um dos casos.

Comecemos com redenção pessoal. Já que o mal está tão profundamente enraizado dentro de nós, é impossível salvar-nos a nós mesmos. Assim, nossa necessidade mais urgente é a redenção, ou, digamos assim, um novo começo na vida que nos ofereça uma purificação da poluição do pecado e também um novo coração, e mesmo uma nova criatura, com novas perspectivas, novas ambições e novas forças. E, já que fomos criados à imagem de Deus, tal redenção é possível. Nenhum ser humano é írredimível. Afinal de contas, Deus, através de Jesus Cristo, veio em busca de nós, e nos procurou diligentemente a ponto de sofrer a agonia da cruz, onde tomou o nosso lugar, carregou o nosso pecado e morreu a nossa morte, a fim de que fôssemos perdoados. Depois ele ressuscitou, subiu aos céus e enviou o Espírito Santo, que é capaz de penetrar em nossa per­sonalidade e transformar-nos a partir do nosso interior. Se existe para a raça humana notícia melhor do que esta, eu pelo menos nunca ouvi.

O segundo exemplo que eu quero dar quanto ao paradoxo da nossa situação humana tem a ver com o progresso social.

O fato de homens e mulheres (até mesmo as pessoas mais corruptas) conservarem vestígios da imagem divina em que foram criados é evidente. Por isso é que, de uma maneira geral, todos os seres humanos preferem a justiça à injus­tiça, a liberdade à opressão, o amor ao ódio e a paz à violência. Este fato de observação cotidiana gera em nós esperanças de mudança social. A maioria das pessoas alimenta visões de um mundo melhor. O fato complemen­tar, no entanto, é que os seres humanos são “retorcidos de egocentrismo” (como Michael Ramsey costumava de­finir o pecado original), e isto impõe limites às nossas expectativas. Os seguidores de Jesus são realistas, não utópicos. É possível melhorar a sociedade — e o registro histórico da influência do cristianismo na sociedade tem sido impressionante. Mas a sociedade perfeita, na qual só “habitará a justiça”, ainda aguarda a volta de Jesus Cristo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Somos o que pensamos

SOMOS O QUE SENTIMOS OU SENTIMOS O QUE SOMOS?

 Talvez um pouco dos dois… Podemos pensar em emoções como “estados internos” que resultam da maneira como percebemos nós mesmos e o mundo -, mas nem sempre é possível observá-los e medi-los. O curioso é que emergem o tempo todo, desde a mais tenra idade, de forma mais ou menos intensa.  Às vezes nos invadem como uma torrente; em outras ocasiões se instalam de forma lenta, quase sub-reptícia, tomando conta de nossos gestos, expressões, palavras e pensamentos, desencadeando círculos viciosos que costumam trazer problemas quando não são interrompidos. Deflagrada a primeira emoção, em algumas situações é preciso certa dose de empenho para não deixarmos que se alastre de maneira desmedida como se peças enfileiradas de um jogo de dominó empurrassem umas às outras, até que todas estivessem caídas…

E se, por um lado, a ausência de sentimentos remete à ideia de transtornos mentais graves – como a esquizofrenia ou a alexitimia, caracterizadas, cada uma a seu modo, pela impossibilidade de o paciente expressar afeto, pelo menos convencionalmente -, por outro, o turbilhão emotivo provoca intenso desconforto psíquico e, não raro, problemas práticos. Não por acaso, com frequência as pessoas que procuram ajuda de analistas ou psicoterapeutas se queixam da dificuldade de equilibrar emoções e buscam maneiras mais saudáveis de lidar com o que sentem.

Alguns pesquisadores faze m distinção entre as palavras sentimentos e emoções, mas nos textos do especial, nas páginas a seguir, os autores optam por recorrer aos termos como sinônimos e, em respeito a eles, mantemos a terminologia.

 O JOGO DAS EMOÇÕES

Alegria, tristeza, indignação, raiva, medo… O que sentimos influi em nossos pensamentos e ações. Ou seriam resultado do que vivemos e pensamos? A forma como os afetos surgem, suas funções e influências sobre o corpo ainda intrigam pesquisadores.

Você já contou alguma vez quantos estados emotivos experimenta no decorrer de um único dia? Antes mesmo de sair do quarto se alegra ao perceber que o céu está claro e o sol brilha lá fora. Pouco depois, irrita-se com o metrô que acabou de perder ou com o trânsito congestionado. Invejoso, espia o belo celular da moça que caminha ao seu lado ou sente medo do pitbull que um homem leva preso à coleira. No momento seguinte, irrita-se novamente ao lembrar da longa lista de pendências no trabalho que terá de cumprir sozinho porque seu assistente acabou de entrar de férias e ainda não foi designado outro profissional para ajudá-lo; ou fica constrangido ao dar-se conta de que ontem esqueceu o aniversário de um grande amigo.

Algumas emoções nos absorvem completamente, outras ressoam discretamente; algumas são terríveis, outras muito boas – mas todas vão e vêm sem que, na maioria das vezes, possamos influenciá-las. Pelo me­ os é o que nos parece. Em muitas ocasiões as pessoas não conseguem em mesmo indicar motivos para que determinado sentimento surja, uns têm dificuldade em perceber que se passa consigo mesmas.

Afinal, o que acontece conosco, com nosso corpo e nossos sentimentos, quando nos apaixonamos, nos irritamos profundamente, choramos de tristeza ou somos inundados por ondas de alegria?

As emoções foram ignoradas durante muito tempo por filósofos e pesquisadores das ciências naturais em favor da razão ou do pensamento lógico. Elas eram consideradas processos menos importantes, “animalescos ” e até mesmo fatores de distúrbio. Isso se modificou apenas no final do século XIX – com o surgimento da primeira teoria das emoções, desenvolvida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e pelo dinamarquês Carl Lange (1834-1900). Trabalhando de forma independente, os dois pesquisadores postularam que a característica central das emoções, ou seja, de nossa experiência subjetiva particular, está vinculada aos processos fisiológicos.

Segundo a teoria James-Lange, os sentimentos resultam da percepção do estado de nosso próprio corpo: são simplesmente aquilo que experimentamos quando esse estado se altera de vido a acontecimentos do meio ambiente. Assim, por estranho que possa parecer, eles postulam que não choramos porque estamos tristes, mas ficamos tristes porque choramos! Nesse sentido, principalmente Lange, que era fisiologista de formação, considerava que até reações físicas, como a dilatação dos vasos sanguíneos, fossem emoções. No entanto, ele reconhecia que, sem a vivência atrelada, as manifestações corporais permaneciam frias e insípidas.

SENTIR PARA PENSAR

A teoria James-Lange, no entanto, tem um problema: muitas vezes nosso estado físico não se altera, mas experimentamos, mesmo assim, diversos sentimentos – e isso frequentemente depende apenas do que pensamos, seja na pessoa que amamos, seja no trabalho extenuante. Essa observação levou psicólogos a formular uma tese contrária. Segundo ela, nossas emoções guiam-se pelo conteúdo de nossos pensamentos.

Vamos supor que você está na fila do caixa de um supermercado. De repente, é empurrado pela pessoa de trás e esbarra em uma senhora à sua frente. Apesar de você não ter sido o autor do empurrão, a mulher lança lhe um olhar indignado – o que inevitavelmente lhe desperta sentimentos: sente-se mal, fica sem graça e talvez irritado com quem esbarrou em você. Mas, se acredita que poderia ter evitado a situação s tivesse prestado mais atenção, então provavelmente vai sentir vergonha e querer se desculpar.

ESPIÃO E ADRENALINA

Já em 1962, os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer compro­ varam por meio de um experimento clássico que os pensamentos desempenham um importante papel no surgimento de emoções. Eles deram aos participantes da pesquisa um coquetel de adrenalina sem que soubessem – os voluntários foram levados a acreditar que se tratava de uma bebida rica em vitaminas cujo efeito seria estudado em um teste de visão. Mesmo assim, a bebida deixou as pessoas fisicamente agitadas. Em seguida, todos foram levados, um de cada vez, a uma sala de espera onde se encontrava um “cúmplice” dos coordenadores do experimento, que se comportava de forma bastante animada. Para alguns ele contava uma piada depois da outra, para outros se mostrava extremamente irritado pela longa espera. Entrevistas feitas posteriormente mostraram que os participantes interpretaram a sua própria agitação física como sinal de alegria ou de irritação – sempre de acordo com a atitude do homem que lhes fizera companhia.

Já outros sujeitos, aos quais foi explicado que estavam tomando adrenalina e os seus efeitos, pouco foram afetados pelas emoções representadas pelo “espião”. Ao que tudo indica, portanto, estímulos internos, assim como a atribuição de sentidos a eles, representam fatores importantes, que influem diretamente sobre a forma como vivemos experiências emocionais e as interpretamos. Conhecer como funcionamos e nos observarmos, portanto, pode fazer toda a diferença em nossa vida diária.

As teorias cognitivas das emoções apostam na lógica dos pensamentos para explicar e fundamentar acontecimentos emocionais. No entanto, hoje se sabe que emoções podem surgir independentemente do que pensamos. Isso foi comprovado, por exemplo, pelo neurobiólogo Joseph LeDoux, da Universidade de Nova York. Ele demonstrou em animais que estímulos de medo são processados de forma extremamente rápida através de um caminho cerebral percorrido pelo sinal que passa ao largo do córtex cerebral – a sede da consciência. Esse atalho possibilita uma reação ágil em caso de emergência, como cheiro de queimado ou visão de algo perigoso.

As duas clássicas teorias das emoções – a “centrada no físico”, de James e Lange, assim como a cognitiva, de Schachter e Singer – são parciais e não dão conta da questão. Hoje, psicólogos partem de um modelo de emoções com vários componentes. Ele inclui pelo menos as seguintes características:

  1. típicas alterações fisiológicas, como coração acelerado, suor ou inquietação motora;
  2. comportamentos específicos, como a mímica corporal;
  3. a vivência subjetiva de perceber como é estar em um determinado estado emocional;
  4. pensa­ mentos associados a essa experiência;
  5. existência de “objeto intencional”, ao qual se refere a emoção. É comum que se recorra também a “checagens avaliadoras”: entre outras coisas, primeiramente, deve ser avaliada a novidade de um evento, pois tudo o que ainda não conhecemos pode se tornar potencialmente perigos o. Em seguida, coloca -se a questão: se esse acontecimento deve ser considerado positivo (agradável, útil) ou negativo (temerário, doloroso, desagradável). A isso se segue o julgamento, quando é considerado se a situação se ajusta aos objetivos da pessoa, se é possível influenciá-la posteriormente, e se ela “se adequa ao conceito que temos de nós e às normas sociais.

Inúmeras combinações dessas características determinam a enorme extensão de nossos sentimentos. Segundo o psicólogo de Genebra, Klaus Scherer, que nos últimos anos tem estudado o tema, no final das contas surge o que ele chama de “um complexo modelo processual das emoções ” que, resumido em linha s gerais, seria assim: quando ocorre um novo evento –  digamos, a primeira parada de mãos que você consegue realizar na vida –  inicialmente apenas a sua excitação interna cresce.  Se o julgamento a seguir lhe diz que essa sensação é agradável, você fica positivamente surpreso; se ainda perceber que o evento se ajusta bem aos seus objetivos e contribui para melhorar sua autoimagem, esse sentimento acaba se transformando em orgulho.

Do ponto de vista da psicologia evolutiva, as emoções podem ser classificadas em quatro níveis: pré-emoções, emoções básicas, emoções cognitivas primárias e secundárias. As primeiras são formas prévias de emoções nas quais já está presente a maioria de seus aspectos, começando pela excitação fisiológica, passando pela rápida avaliação da situação, a mímica, a sensação subjetiva apropriada e a orientação interativa. Elas, no entanto, ainda permanecem genéricas e não estão clara e intencionalmente voltadas para um objeto. Uma situação parece positiva ou negativa sem que tenha sido analisada em detalhes. Nesse nível, portanto, existem apenas duas possibilidades: bem-estar ou desconforto. Essas pré-emoções simples, positivas ou negativas, se expressam em emoções básicas universais. O psicólogo Paul Ekman, professor da Universidade de São Francisco, demonstrou em estudos pioneiros que a expressão facial emocional é idêntica em todas as culturas.

ORGULHO OU VERGONHA?

Ainda há controvérsias sobre quantas emoções básicas existem exatamente, mas vamos partir, inicialmente, de quatro: medo, felicidade, tristeza e raiva. Elas caracterizam nossas reações a desafios fundamentais da vida (perigo, auto eficácia, separação ou perda e expectativas frustradas) e podem ser encontradas em todas as culturas humanas. As chamadas emoções básicas independem do processo mental consciente, possibilitando, assim, um rápido direcionamento da atenção. Antes mesmo de sabermos se o homem que se aproxima de nós numa rua deserta, à noite, é um inofensivo transeunte ou um possível agressor, já reagimos a ele. O estímulo memorizado como perigoso desencadeia uma reação ancestral – e sentimos medo. Ao lado desse processamento rápido dos estímulos visuais, existe um outro mais lento e consciente no córtex visual, que permite uma representação mais exata do objeto – o ladrão ou o estudante que passa indiferente, rumo ao ponto de ônibus. A constatação de que de fato se trata de um criminoso gera confirmação da impressão inicial, assim com o reconhecer que o rapaz não oferece ameaça provoca relaxamento do primeiro impulso inconsciente de medo. Por sorte, porém, quando isso se dá a maior ia de nós já apertou o passo ou entrou em um prédio ou restaurante, em busca de proteção.

Nos níveis seguintes, os pensamentos passam a ter importância cada vez maior. Quando surge a emoção cognitiva primária adiciona-se uma típica certeza que define decisivamente o que sentimos: enquanto a emoção básica de medo surge só porque algo é considerado assustador, a emoção cognitiva primária inclui a certeza de que há situações perigosas por princípio. Estamos, portanto, falando do sentimento de ameaça, ao qual se chega de forma consciente, após avaliação mais acurada. No caso da emoção básica felicidade, por exemplo, uma das emoções cognitivas primárias seria a satisfação – como quando uma pessoa percebe, por exemplo, que uma conversa com o chefe está correndo de forma positiva e que ela pode alimentar esperanças de um aumento de salário.

A emoção cognitiva secundária diferencia-se pelo fato de que, nesse caso, o que está em jogo não é apenas uma convicção, mas toda uma teoria sobre as relações sociais. Uma manifestação do medo como emoção cognitiva secundária, por exemplo, seria o ciúme, ou seja, o temor de uma ameaçadora perda do parceiro. Ao mesmo tempo, insinua­ se uma “mini teoria” sobre expectativas e normas sociais – por exemplo, sobre como a pessoa imagina sua relação com o parceiro ou o seu futuro a dois. Isso de pende, porém, da base cultural e das experiências pessoais.

Assim, vergonha e orgulho, por exemplo, têm valores diferentes em uma sociedade ou outra, tanto no que diz respeito aos motivos quanto ao julgamento de comportamentos. No ocidente são mais valorizados a independência e o desempenho pessoal; já entre os orientais a capacidade de conviver harmoniosamente em grupo e a humildade são consideradas qualidades nobres.

Imagine que um menino de 1O anos toca com destreza uma sonata para piano de Fréderic Chopin. Depois da apresentação, a mãe elogia-o efusivamente, o que deixa o filho orgulhoso de seu desempenho. A mesma situação, em outra cultura: uma mãe chinesa provavelmente diria ao filho que ele ainda precisaria treinar muito e que cometera alguns erros. A criança, então, tenderia a sentir-se envergonhada. Apesar do mesmo desempenho, o julgamento seria diferente -e, com isso, a reação emocional também. Por outro lado, em algumas sociedades existem sentimentos que nós não conhecemos: o amae dos japoneses, por exemplo, descreve uma profunda gratidão pelo apoio de uma instituição ou pessoa de que dependemos no passado. Nas línguas ocidentais não há sequer tradução para essa palavra.

 MARCADORES SOMÁTICOS

O fato é que emoções cumprem funções de grande importância. Podemos citar quatro delas:

  1. possibilita avaliarmos os estímulos do ambiente (nós sentimos aquilo que achamos de uma ou outra situação) de maneira extremamente rápida;
  2. prepara-nos e motiva-nos para ações (quando sentimos medo, com pulso acelerado e músculos retesados é mais fácil fugir);
  3. são formas de expressão típicas que indicam aos outros as próprias intenções (quando alguém sorri para nós, automaticamente supomos que tem uma postura amigável);
  4. ajuda no controle das relações sociais. O último aspecto é muito importante porque favorece a convivência: emoções complexas como amor, inveja e ciúme impõem regras e limites no contato com os outros. Quando, por exemplo, nos sentimos atraídos por uma pessoa e nos questionamos se esse sentimento é amor ou não, começamos, em nossa vivência emocional, a ponderar os desejos e convicções do outro e a compará-los com os nossos. O que sentimos funciona como uma espécie de “filtro” para lidarmos com os estímulos tanto internos quanto externos. Emoções complexas impõem limites e, por meio delas, avaliamos situações, regulamos, motivamos e coordenamos comportamentos. Isso se mostra indispensável no dia-a-dia, pois um processamento emocional prejudicado pode nos causar muitos problemas. Quanto mais é possível perceber o que sentimos – e suportá-lo respeitando os nossos limites e os dos outros – mais fácil fica manter o equilíbrio e nos cuidar.

Os neurobiólogos Hanna e Antônio Damásio, assim como o pesquisador Antoine Bechara, todos da Universidade de Iowa, demonstraram na década de 90 que a decisão humana, o planejamento de longo prazo e a consequente concretização de planos estão atrelados ao sistema de avaliação emocional. Apesar da memória e da fala intactas e do bom nível de inteligência, alguns pacientes com problemas neurológicos sistematicamente fazem escolhas equivocadas e não conseguem se comportar de acordo com suas percepções racionais. Nesse caso fica claro que a avaliação emocional no córtex pré-frontal do lobo frontal é crucial: se ela falha devido a algum distúrbio, as pessoas afetadas tomam decisões insensatas. Falta-lhes a memória emocional necessária de situações anteriores semelhantes, o que constitui nosso patrimônio emocional.

Damásio havia tornado esse conceito popular há alguns anos como “teoria dos marcadores somáticos”, segundo a qual todas as experiências de um indivíduo são assinaladas afetivamente. Assim, quando uma pessoa precisa decidir, faz uma rápida avaliação inconsciente da situação. Pessoas com um córtex pré-frontal lesionado, no entanto, não conseguem resgatar as marcas anteriores, sendo consequentemente obrigadas a reavaliar toda situação desde o início. É como se nunca aprendessem com suas escolhas, como se cada vez fosse a primeira.

Outros processos cognitivos são também fortemente dependentes de processos emocionais. Podemos, por exemplo, lembrar melhor de eventos associados a alguma emoção que de conteúdos matemáticos abstratos (a não ser que eles nos provoquem grande alegria ou irritação). O aprendizado é quase sempre mais fácil quando nos encontramos bem emocionalmente ou estamos afetivamente ligados àquele que nos ensina. Por outro lado, sentimentos negativos duradouros decorrentes de distúrbios afetivos como a depressão ou o estado de excitação exagerada (mania), assim como suas fases intermediárias alternantes, afetam a sensibilidade geral – e a capacidade cognitiva, que também se apresenta de maneira deprimida ou excitada.

O fato é que as emoções são indispensáveis para a interação e ação interpessoal: sem elas, os fundamentos para uma rotina bem-sucedida deixariam de existir. Além disso, as emoções estão intimamente ligadas aos processos cognitivos – elas são essenciais para a capacidade de aprendizagem implícita e inconsciente, assim como para as decisões sensatas. Em outras palavras: nossos sentimentos definem essencialmente quem somos e o que fazemos.

INFLUÊNCIAS SOBRE O CORPO

Emoções e sistema imunológico são bastante ligados. Quando se puxa um dos fios, todo conjunto se movimenta. Todavia, nem sempre está claro o que é causa e o que é efeito. Sabe-se que infecções causadas por vírus e bactérias influenciam a atividade cerebral, de maneira direta ou por meio de resposta imunológica, e podem desencadear distúrbios psíquicos. Isso ocorre porque o sistema imunológico opera como uma rede descentralizada, respondendo automaticamente a qualquer agente que invada ou perturbe o funcionamento do organismo. As células imunológicas reproduzidas na medula óssea, linfonodos, baço e timo se comunicam entre si por meio de pequenas proteínas chamadas citocinas.

Esses mensageiros químicos também podem mandar sinais ao cérebro, pela corrente sanguínea ou por via nervosa, como nervo vago, que os envia ao núcleo solitário.

e possível ignorar

É POSSÍVEL IGNORAR

Os sentimentos podem ser inconscientes? Certamente! O fenômeno das emoções latentes foi descrito pela primeira vez por Sigmund Freud (1856-1939). Em estudos dos anos 90, o psiquiatra Daniel Weinberger, na época na Universidade Stanford, observou que certas pessoas, que ele designou como repressers (repressoras), apesar de apresentarem todos os sinais físicos do medo, diziam, no mesmo instante em que se encontravam nesse estado, estar completamente calmas. Aparentemente, reconhecer e experienciar o sentimento não “combinava” com a imagem que tinham de si. Se a repressão é suficientemente forte, as pessoas não desenvolvem a consciência de determinada emoção, a ponto de desconhecerem, por exemplo, que estão com medo, mesmo estando trêmulas e suando frio.

FUNCIONAMENTO DOS CIRCUÍTOS AFETIVOS

O sistema nervoso central desperta, regula e integra respostas emocionais. O córtex cerebral está envolvido na identificação, avaliação e tomada de decisões com base em dados sensoriais. Os pensamentos, expectativas e percepções desempenham papéis importantes para manter e dissolver afetos. A formação reticular, uma rede de células neurais alerta o córtex para informações sensoriais. Os dados a respeito de eventos despertadores de emoção são filtrados por esse sistema. A formação reticular desperta a tenção do córtex.

O sistema límbico, um grupo de circuitos inter-relacionados desempenha papel regulatório nas emoções e motivações. Embora as funções precisas de cada estrutura ainda não sejam claras, é certo que a informação sensorial passa pelo sistema límbico em sua trajetória para o córtex. Esse emite mensagens para outras áreas cerebrais. O hipotálamo, uma estrutura límbica responsável pela ativação do sistema nervoso simpático durante emergências está envolvido em situações de medo, raiva, fome, sede e atração sexual.

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CONCEITOS-CHAVE

  • O que sentimos combina vários aspectos: excitação física, avaliação mental, expressão e vivência subjetiva. As emoções não se contrapõem ao processamento mental de estímulos do ambiente, mas o complementam no dia-a-dia.
  • A primeira teoria das emoções, desenvolvida independentemente, pelos psicólogos William James (1842- 1910), nos Estados Unidos, e Carl Lange (1834-1900), na Dinamarca, sustenta que a característica central da experiência subjetiva particular é ligada aos processos fisiológicos.
  • Pesquisas realizadas há mais de 40 anos mostraram, porém, que os

pensamentos também desempenham um importante papel no surgimento de emoções. As pré-emoções e emoções básicas, assim como as cognitivas primárias e secundárias podem ser diferenciadas de acordo com o seu grau de complexidade.

FONTE: Albert Newen & Alexandra Zinck – Revista Mente e Cérebro

GESTÃO E CARREIRA

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PROFISSAO: CAÇA-TALENTOS

Não, não se trata de Headhunters, mas de uma nova função que vem surgindo dentro da área de Recursos Humanos – a Gerência de Captação ou Aquisição de Talentos.

Em uma época de disputa acirrada por gente, as empresas estão cada vez mais preocupadas em estabelecer processos eficientes de identificação de profissionais com perfis adequados aos seus negócios. Algumas já criaram um cargo ou até uma área específica para cuidar do assunto, o chamado setor de talent acquisition – de nominação que no Brasil vem sendo traduzida como “aquisição de talentos” ou “captação de talentos”. “Parte do antigo RH está ganhando vida própria como uma espécie de consultoria interna que cuida das contratações”, explica Juliana Nunes, diretora da consultoria Asap. A gerente de captação de talentos da Monsanto, Patrícia Prieto, que ocupou o mesmo cargo no Google, considera que o grande atrativo da função é a possibilidade de estar focada na missão de trazer profissionais diferenciados. Psicóloga com carreira desenvolvida sempre em R H, ela diz que a mais relevante das diversas estratégias que utiliza no cotidiano é sua rede de contatos. “Conhecer pessoas bem situadas em diferentes setores facilita muito o trânsito quando se está. à procura de perfis profissionais interessantes”, diz. A função de gerente de captação de talentos é nova na Monsanto e nasceu por necessidades diversas. Numa empresa de biotecnologia, o número de cargos técnicos que exigem conhecimentos específicos é grande, o que obriga uma seleção cheia de critérios objetivos. Os cargos gerenciais, por sua vez, podem ser ocupados por profissionais de diferentes áreas e formações, o que dificulta o encontro da pessoa certa. A nova função também precisa buscar perfis que contribuam para promover a diversidade de formações e experiências. “Queremos pessoas capazes de trazer diferentes visões para o negócio. Temos muitas possibilidades de carreira aqui entro também para quem vem de outra indústria”, afirma Patrícia, há quase um ano no cargo. Com essa missão, ela liderou um projeto voltado a alunos do Instituto Tecnológico de Aero­ náutica (ITA) – público que, a princípio, parece não ter muitas afinidades com as áreas de atuação da Monsanto. Dos alunos que participaram do programa, quatro foram selecionados e permaneceram na empresa por dois meses. “Eram jovens curiosos e capaz es de fazer perguntas que nunca haviam nos ocorrido. A experiência foi rica para ambas as partes e acredito que trará bons frutos no futuro”, diz Patrícia, que faz frequentes visitas e mantém contato com universidades de ponta – aqui e lá fora – para se aproximar de novas fontes de informação.

No organograma da Monsanto, a gerência de captação de talentos e a gerência de desenvolvimento organizacional são dois cargos abaixo da diretoria de RH. Embora haja uma troca constante de informações entre as duas gerências, a primeira tem a atribuição de identificar e trazer profissionais e a segunda de cuidar deles a partir daí. Com essa divisão de tarefas, o trabalho de Patrícia tem como principal objetivo o preenchimento imediato e qualificado de cargos que se tornam vagos pelos mais diversos motivos, como a promoção de um executivo ou a perda de uma peça-chave da companhia para um concorrente.

O PERFIL DO CAÇADOR

Encontrados com mais frequência em multinacionais, a headhunter Laís Passarelli, diretora da Passarelli Consultores, conta que aumentou no último ano a demanda por profissionais para ocupar cargos de talent acquisition no Brasil. “Estamos em meio a dois processos do gênero”, afirma Laís. A ideia é que a estrutura funcione como um serviço compartilhado pelos diversos setores da empresa, para ser acionado sempre que surgir a necessidade de contratação. “Essa centralização faz a interface com o mercado e ocorre de forma mais padronizada e organizada”, acrescenta. Para isso, o perfil desse profissional exige uma boa mobilidade entre os colaboradores, trânsito livre entre os gestores e acesso às informações, como as avaliações de desempenho, além de saber antecipar movimentos. “Quem trabalha em captação de talentos tem que ser como um bom enxadrista, capaz de prever o que vai acontecer e de antecipar­ se aos lances dos adversários”, diz Juliana Nunes, da Asap. Dependendo do nível do cargo em aberto e da capacidade da estrutura, o processo de contratação pode ser integralmente conduzido na própria empresa ou repassado a uma consultoria. No momento em que uma posição se torna disponível, cabe ao profissional de aquisição de talentos apresentar o mais rápido possível opções externa s. Em decorrência disso, um dos procedimentos sistemáticos do profissional é estabelecer contato e acompanhar a trajetória dos funcionários que merecem permanecer ” no radar”, mesmo que não haja uma oportunidade imediata na empresa. O trabalho de aquisição de talentos tem também a função de demonstrar agilidade na reposição de cargos estratégicos, com impacto na reputação corporativa e no clima organizacional. “Como o mercado é muito dinâmico, estamos o tempo todo preocupados em identificar onde estão as lacunas de sucessão que podem surgir em decorrência das constantes movimentações. Esses pontos críticos se tornam a prioridade da estratégia de captação de talentos”, diz Elisa Furusho, diretora de RH da Microsoft do Brasil. Uma lacuna pode se referir, por exemplo, ao cargo ocupado hoje por um executivo cujo desenvolvimento da carreira indica uma promoção dentro de um ou dois anos. “Se não houver ninguém pronto para substituí-lo nesse momento, é preciso mapear alternativas internas e externas e acompanhá-las daí em diante”, afirma Elisa.

QUASE UM HEADHUNTER

Para ocupar o cargo de gerente de aquisição e desenvolvimento de talentos, a Microsoft contratou recentemente o executivo Alcino Therezo Jr., psicólogo com MBA em RH, área em que atua desde o início da carreira. “Meu trabalho tem muitas semelhanças com o de um headhunter, com a diferença essencial de que minhas prospecções são mais de longo prazo”, diz. Enquanto um headhunter só costuma entrar em contato com um profissional quando o está considerando para um cargo em aberto, o profissional de captação de talentos pode se aproximar apenas para mapear uma possibilidade para o futuro.

“O trabalho de captação de talentos precisa ser mais prospectivo e menos reativo”, diz Therezo Jr. O perfil da Microsoft no Brasil contribui para criar o ambiente perfeito para um trabalho mais personalizado de captação de talentos. Uma vez que a empresa atua no país apenas nas áreas de vendas e marketing, o volume de contratações é relativamente baixo –  no ano passado foram aproximadamente 60, incluindo reposições e novas vagas. Cada contratação tem grande importância estratégica e envolve profissionais em estágios avançados na carreira. “A seleção na Microsoft é muito rígida e inclui pelo menos cinco entrevistas com os principais executivos da empresa. Quanto mais alternativas próximas do ideal tivermos ao iniciar o processo, maior a possibilidade de encontrar a pessoa certa”, diz Therezo Jr.

Isso não acontece, por exemplo, no Santander.  Com cerca de 50.000 funcionários no país e um grande volume de contratações, o trabalho interno de captação de talentos tem a função de estabelecer os critérios que deverão ser seguidos pelas consultorias parceiras. “Houve um período em que o banco tentou internalizar o procedimento de contratação, mas isso causou um grande inchaço na estrutura”, descreve a gestora de RH, Paula Giannetti. “Hoje, contratamos os serviços de diversas consultorias que, ao receberem o perfil, apresentam os candidatos.” A área de recrutamento do banco soma 17 funcionários, ante 36 do período em que conduzia integralmente os processos.

A estrutura interna do departamento de RH do Santander reflete essa segmentação, com a divisão em três núcleos – o de cargos de entrada, o de cargos padrões e o de cargos específicos. Neste último, se concentram as contratações com maior valor estratégico, por envolver atividades com poucos profissionais disponíveis, como trader de mesa proprietária. O núcleo de cargos específicos lida com aproximadamente 300 contratações por ano, entre as cerca de 5.000 realizadas pelo banco como um todo.

GESTÃO E CARREIRA

Estress no trabalho 1

STRESS: GUERRA DE NERVOS NO TRABALHO

Frustração, irritação, uso de drogas e passividade durante o tempo livre podem ser sinal de stress ocupacional; as consequências para a saúde se tornam mais dramáticas com o envelhecimento

O stress no trabalho é uma das principais causas de absenteísmo e acidentes. Estudo feito pelo governo britânico em 2000 estimou em cerca de 40 milhões as faltas ao trabalho, em apenas um ano, devido a distúrbios relacionados ao stress. Nos Estados Unidos, esse número chega a 550 milhões de faltas por ano. O médico americano Martin Moore-Ede, um dos maiores especialistas do mundo em fadiga laboral, calculou, em 1993, o custo mundial dos acidentes − na indústria, no trânsito e no campo − em cerca de 60 milhões de dólares por ano. Mais do que um tema de segurança ocupacional, o stress é, portanto, uma fonte importante de prejuízos econômicos. A situação tem se agravado nas últimas décadas devido à crescente precarização das relações de trabalho, ao ritmo acelerado das grandes cidades, à pressão por eficiência, ao ambiente cada vez mais competitivo e ao medo do desemprego.
No entanto, alguns dados enganam. Embora diversos indicadores sugiram que a prevalência de doenças ocupacionais venha caindo nos últimos anos, isso não deve ser tomado como sinal de melhora da saúde da população economicamente ativa. O que as estatísticas não mostram é que o número de doenças crônicas e degenerativas nos idosos aumenta dramaticamente, até por causa do envelhecimento populacional. Ao que tudo indica, os jovens conseguem lidar razoavelmente bem com os fatores estressores no ambiente de trabalho. É mais tarde, porém, quando o indivíduo já está aposentado, que os prejuízos para a saúde se tornam perceptíveis.

LUGAR-COMUM
A frase “Estou estressado” já virou lugar-comum. Entretanto, não há consenso sobre a definição de stress ocupacional. Segundo o Instituto de Saúde e Segurança Ocupacional dos Estados Unidos, “o stress ocupacional é uma resposta física e emocional nociva que ocorre quando as exigências do trabalho superam as habilidades, os recursos e as necessidades do trabalhador”. Para o departamento de emprego e assistência social da União Européia trata-se “de uma reação cognitiva, comportamental e fisiológica a aspectos aversivos e perniciosos do ambiente e da organização do trabalho. É um estado caracterizado por altos níveis de alerta, angústia e frustração por não se conseguir lidar com o problema”.
De certa forma, todas as definições contemplam a variedade de aspectos dessa complexa questão. Para simplificar, porém, podemos entender o stress como um desgaste físico e principalmente psíquico. A pessoa estressada sente que algo de si está sendo consumido. As fontes desse desgaste, que alguns chamam de fatores estressores, são variadas e podem ser divididas em três domínios: o do conteúdo do trabalho, o da função que o indivíduo ocupa e o das condições ambientais e organizacionais do trabalho.

Assim como as fontes do stress no trabalho podem ser muitas, as respostas dos indivíduos também não são poucas e podem ser observadas em três níveis: fisiológico/somático, emocional e comportamental (ver tabela 2). No primeiro nível destacam-se as alterações mais óbvias, como problemas cardíacos, distúrbios do sono e facilidade de contrair infecções. No nível emocional são marcantes os sentimentos de decepção e frustração, que geralmente evoluem para uma condição de monotonia e saturação que pode se tornar intolerável. Do ponto de vista comportamental, o aumento do consumo de álcool, tabaco e outras drogas, lícitas e ilícitas, pode ocorrer com certa frequência. Outro traço comum da pessoa estressada é o comportamento passivo durante o tempo livre.
Os primeiros estudos sobre stress no trabalho, realizados na década de 50, viam o indivíduo passivamente exposto aos desgastes. Novos modelos propostos na década de 80, no entanto, mudaram esse conceito, entendendo que o ser humano lida ativamente com as situações estressantes, o que implica uma avaliação do próprio indivíduo, que pode ser dividida em primária e secundária.

CHANCES DE SUPERAÇÃO
A avaliação primária tem como referência a percepção da situação como ameaçadora e prejudicial. Quando a realidade representa uma ameaça para alcançar objetivos pessoais (ter de abrir mão de um curso, por exemplo) ou uma perda (como a redução do tempo livre), a reação de stress é evocada sempre que as possibilidades de superação da situação forem críticas ou improváveis. Isso só é possível com base numa avaliação secundária, que leva em conta a experiência individual, o conhecimento e a capacidade disponíveis, assim como no apoio externo − e tem referência, portanto, nas chances percebidas pela própria pessoa de conseguir superar os desgastes em curto, médio ou longo prazo.

A forma como situações estressantes são superadas não depende apenas das possibilidades objetivas de ação, mas é influenciada também pelo estilo pessoal de reação ao stress e pelas experiências vividas por cada pessoa. A ação pode visar a modificação da situação desencadeadora (por exemplo, reduzir a pressão de prazos por meio de um planejamento realista do tempo), o aumento do próprio esforço, da intensidade ou da duração do trabalho (reduzir as pausas, fazer horas extras), repensar o fluxo de trabalho e organizá-lo de forma mais eficiente (manter todas as informações necessárias disponíveis e fáceis de encontrar) e corrigir metas e objetivos (fazer o melhor possível, sem ser perfeccionista). Além disso, a experiência do stress também pode ser amenizada por meio de uma reavaliação da situação desgastante que relativiza os parâmetros em questão (“Os outros também cometem erros”). Dentre todas essas possibilidades, sabemos que os indivíduos sob maior risco de viver experiências altamente estressantes são aqueles com ambição e engajamento excessivos, prontidão exagerada para trabalhar até o esgotamento, grande busca por perfeição, baixa capacidade de distanciamento dos problemas do trabalho, tendência marcante à resignação em caso de falha, assim como dificuldade de pedir ajuda.
Se o stress for compreendido como um desequilíbrio entre as demandas do trabalho e a capacidade de superação do indivíduo, as medidas de redução desse mal deviam, via de regra, basear-se, por um lado, nas causas do desgaste e, por outro, em alterações comportamentais. Esse último inclui o desenvolvimento de competências adequadas por meio de treinamento, aprimoramento e motivação do indivíduo, bem como da melhoria de suas habilidades sociais e de resolução de conflitos. Da mesma forma, as competências individuais de superação podem ser positivamente influenciadas por mudanças no estilo de vida (por exemplo, alimentar-se de forma saudável, dormir o suficiente e alternar momentos de tensão e relaxamento). As iniciativas de promoção da saúde dentro das empresas devem ter como objetivo a integração das intervenções aqui descritas, baseadas tanto no comportamento quanto nas relações. Hoje está claro que as intervenções podem ser tanto corretivas nos locais de trabalho, quanto preventivas para evitar ameaças conhecidas, além de prospectivas, no que diz respeito a segurança, manutenção e promoção da saúde.

TABELA 1 – AS ORIGENS DO DESGASTE

CONTEÚDO DO TRABALHO
– Alto grau de qualificação exigido dos funcionários
– Forte pressão por prazos e ritmo acelerado de trabalho
– Grande número de informações complexas a processar
– Gerenciamento confuso ou contraditório
– Interrupções constantes e não previstas do fluxo do trabalho
– Possibilidades limitadas para tomar decisões próprias
– Falta de autonomia para planejar as próprias atividades e controlar seus resultados

FUNÇÃO OU CARGO 
– Grande responsabilidade para com pessoas e/ou valores
– Forte competição entre os funcionários
– Pouco reconhecimento pelo trabalho realizado
– Conflitos com superiores e/ou colegas de trabalho
– Pouco apoio social ou assistencial
– Mudanças estruturais na empresa, principalmente quando acompanhadas de redução de vagas
– Informação insuficiente sobre as modificações planejadas

AMBIENTE E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
– Ambientes ruidosos
– Iluminação inadequada
– Temperaturas muito altas ou muito baixas
– Vibrações mecânicas constantes ou intermitentes
– Substâncias químicas perigosas
– Espaço muito reduzido
– Trabalho individual isolado
– Trabalho em turno e/ou noturno

TABELA 2 – A RESPOSTA AO STRESS

FISIOLÓGICAS / SOMÁTICAS
Reações agudas, de curto prazo: aumento da frequência cardíaca, aumento da pressão arterial, tensão muscular, imunidade debilitada
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: dores psicossomáticas, hipertensão, insônia, problemas de pele, obesidade etc.

EMOCIONAIS
Reações agudas, de curto prazo: irritação, decepção, frustração, medo, cansaço, monotonia, saturação
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: resignação, insatisfação, estados depressivos, medo do fracasso, incapacidade de se desligar do trabalho

COMPORTAMENTAIS INDIVIDUAIS
Reações agudas, de curto prazo: eficiência inconstante, erros frequentes, abandono de ações de controle das atividades
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: consumo exagerado de nicotina, álcool e medicamentos, aumento das faltas, intensificação de comportamento passivo no tempo livre

COMPORTAMENTAIS SOCIAIS
Reações agudas, de curto prazo: conflitos, brigas, agressões
Reações crônicas, de médio ou longo prazo: isolamento

 

Fonte: Anna-Marie Metz e Heinz-Jürgen Rothe – Revista Mente e Cérebro

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

EVANGELISMO E AÇÃO SOCIAL

Eu mudo, agora, da polarização entre o conservador e o radical, para a do estruturado e o não-estruturado. As estruturas seculares estão desmoronando em todos os lugares. Há uma rebelião mundial contra formas institucionais rígidas e um sentimento universal à procura de liberdade e flexibilidade. A igreja cristã, considerada em muitas partes do mundo como uma das principais estruturas do tradicionalismo, não pode escapar a este desafio de nossos tempos. Além disso, o desafio vem tanto de dentro como de fora. Muitos jovens crentes estão requerendo um novo e não-estruturado tipo de cristianismo, despojado dos obstáculos eclesiásticos que tem sido herdado do passado.

Permita-me classificar as três expressões principais desta onda.

Referem-se à igreja e seu ministério, à direção de cultos públicos, e ao relacionamento com os outros crentes. É perigoso generalizar.

Todavia, alguém pode dizer, em primeiro lugar, que muitos estão procurando igrejas que não tenham cerimônia fixa. Grupos de crentes estão, agora, libertando-se em muitas partes do mundo, libertando-se da tradição e fazendo as coisas à sua maneira.

Em segundo lugar, há um desejo por cultos informais, nos quais o ministro não mais domina, mas onde a participação da congregação é incentivada, onde o órgão é substituído pelo violão e uma liturgia antiga, pela linguagem de hoje, onde há mais liberdade e menos formalidade, mais espontaneidade e menos rigidez.

Em terceiro lugar, há uma rejeição de denominacionalismo e uma nova ênfase bastante corrente em cortar os laços que os prendem ao passado e mesmo a outras igrejas do presente. Eles querem chamar-se “crentes”, mas sem qualquer rótulo denominacional.

Sem dúvida, estas três exigências têm alguma lógica. Elas são fortemente sentidas e poderosamente manifestadas. Não podemos simplesmente considerá-las como irresponsabilidades loucas do jovem. Há uma ampla busca para o livre, o flexível, o espontâneo, o não-estruturado. A geração dos crentes mais velhos e tradicionais precisa entender isso, ser solidária e acompanhar, na medida do possível, o que está acontecendo.  Todos nós concordamos em que o Espírito Santo pode ser (e às vezes tem sido) aprisionado em nossas estruturas e sufocado por nossas formalidades.  Contudo, há algo a ser dito em relação ao outro extremo. Liberdade não é sinônimo de anarquia.

Que argumento pode ser apresentado, então, em favor de alguns tipos de cerimônias e estruturas?

Primeiro: uma igreja estruturada.

Os crentes pertencem a diferentes origens denominacionais e apreciam tradições diferentes.

Contudo, a maioria (talvez todos nós) concorda em que o Fundador da Igreja tencionou que ela tivesse uma estrutura visível.

Verdadeiramente, a Igreja tem o seu aspecto invisível, em que somente, “o Senhor conhece os que são seus”, (II Tm. 2:19).  Mas não podemos refugiar-nos na doutrina da invisibilidade da Igreja verdadeira para negar que Jesus Cristo tinha em mente que seu povo fosse visto e conhecido como tal. Ele mesmo insistiu no batismo como a cerimônia de iniciação na sua Igreja, e batismo é um ato visível e público. Ele também instituiu sua ceia como a refeição da comunhão cristã, pela qual a Igreja identifica a si mesma e exercita disciplina sobre os membros.

Além disto, Ele consagrou pastores para alimentar o seu rebanho.

Portanto, sempre que você tiver batismo, a ceia do Senhor e um pastorado, ou, em termos tradicionais, um ministério e ordenanças, você tem estrutura. Pode ser que seja mais simples e mais flexível do que em muitas denominações históricas, mas continua uma estrutura clara e definida. De mais a mais, seu valor pode ser fortemente discutido em termos de ter-se um ministério e ordenanças que sejam reciprocamente reconhecidos pelas diferentes igrejas.

Segundo: adoração formal.

Em particular, sou completamente a favor da adoração espontânea, exuberante, alegre e barulhenta do jovem, ainda que, algumas vezes, possa ser doloroso, como experimentei uma vez, em Beirute, quando o meu ouvido direito estava a apenas algumas polegadas do trombone.  Alguns de nossos cultos são por demais formais, sérios e maçantes. Ao mesmo tempo, em algumas reuniões modernas, a quase total noção de reverência perturba-me. Parece que alguns acham que a principal evidência da presença do Espírito Santo é o barulho.

Temos nos esquecido de que uma pomba é tanto um emblema do Espírito quanto o vento e o fogo? Quando Ele visita o seu povo em poder, às vezes, traz quietude, silêncio, reverência e temor. Sua voz mansa e delicada é ouvida. Homens curvam-se maravilhados diante da majestade do Deus vivo e o adoram: “O Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra!”. Eu não estou sugerindo que reverência e formalidades sigam sempre juntas, pois reuniões informais podem também ser reverentes, ao passo que cultos formais podem ter seriedade e beleza sem ter uma verdadeira reverência espiritual. Mas onde seriedade e reverência são encontradas em conjunto, a adoração oferecida é bastante agradável a Deus.

Terceiro: um princípio de conexão.

A maioria de nós desejaria insistir em, pelo menos, um certo grau de independência para a igreja local que, em conformidade com o Novo Testamento, é uma manifestação local e visível da Igreja universal. E a igreja local (não apenas a igreja universal), é chamada o templo de Deus e o corpo de Cristo: a igreja local: (I Coríntios 3:16; 12:27) e a igreja universal: (Efésios 2:19-22; 4:14-16). Contudo, é possível levar este princípio da autonomia da igreja local longe demais e, virtualmente, ignorar todos os crentes do passado e do presente. Quando isto acontece, a igreja local tem-se tornado tão auto-suficiente que menospreza a Igreja de Deus no tempo e no espaço. Precisamos, portanto, lembrar-nos de certas verdades bíblicas que o povo cristão (especialmente o jovem) tende a esquecer. Estão eles interessados somente no presente? Estão eles, a geração de agora, fazendo eco ao famoso dito de Henry Ford que “história – discurso insincero”? Às vezes parece que sim. Mas, em que tipo de Deus crêm eles? Pois o Deus da Bíblia é o Deus da história, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, de Moisés e dos profetas, dos apóstolos e da Igreja apostólica, que cumpre seus propósitos através dos séculos. Se Deus é o Senhor da história, como podemos nós ignorá-la ou não nos interessar por ela? Ele é, também, o Deus de toda a igreja. A unidade da Igreja é derivada da unidade de Deus. E porque há um só Pai, há uma só família, e um só Senhor, há uma só fé, uma só esperança e um só batismo; e porque há um só Espírito, há somente um corpo: (Efésios 4:4-6).  Portanto, toda a questão do relacionamento com outros crentes é controversa e complicada, e certamente as Escrituras não nos dão autoridade para procurar ou assegurar unidade sem verdade. Mas não nos dá, tampouco, autoridade para buscar a verdade sem unidade.  Independência é conveniente. Mas também o é a comunhão na fé comum que professamos.

Mais uma vez meu argumento é que não polarizemos nesta questão.

Há um lugar necessário na Igreja de Cristo, tanto para o estruturado como para o não-estruturado, tanto para o formal como para o informal, tanto para o sério como para o espontâneo, tanto para a independência como para a comunhão.

A igreja primitiva apresenta-nos um exemplo saudável neste assunto.  Lemos que imediatamente depois do dia de Pentecostes, os crentes cheios do Espírito Santo estavam “unânimes todos os dias no Templo, partindo o pão em casa”, (Atos 2:46). Assim, eles não rejeitaram imediatamente a igreja institucional. Eles procuraram reformá-la em conformidade com o Evangelho.  E eles simplesmente complementavam as reuniões formais de oração do Templo com reuniões em suas próprias casas. Parece-me que cada congregação deveria incluir no programa tanto cultos mais formais na igreja quanto reuniões informais de comunhão nos lares. Os mais antigos membros tradicionais da igreja, que amam a liturgia, precisam experimentar a liberdade do culto no lar, ao passo que os mais novos, que amam o barulho e a espontaneidade, precisam experimentar a seriedade e reverência dos cultos formais da igreja. A combinação é muito saudável!

A Quarta polarização desnecessária diz respeito às nossas responsabilidades evangelísticas e sociais. Tem sido sempre uma característica dos evangélicos ocupar-se com evangelismo. Tanto assim que não é raro encontrarmo-nos com uma confusão de termos, como se “evangélico” e “evangelístico” significassem a mesma coisa. Na nossa ênfase evangélica em evangelismo, temos compreensivelmente reagido contra o tão falado “evangelho social” que substitui salvação individual por melhoramento social e, apesar do notável testemunho da ação social dos evangélicos do século dezenove, nós mesmos temos suspeitado de qualquer envolvimento deste tipo. Ou, se temos sido ativos socialmente, temos tido a tendência de concentrar-nos nas obras de filantropia (cuidando dos acidentes de uma sociedade doente) e tomado cuidado para evitar política (as causas de uma sociedade doente).

Algumas vezes, a polarização na igreja tem parecido ser completa, com alguns exclusivamente preocupados com evangelismo e outros com ações político-sociais. Como um exemplo para o primeiro, tomarei alguns grupos do tão falado “Povo de Jesus”. Ora, estou muito longe de querer ser crítico de todo o movimento. Contudo, uma das minhas inúmeras hesitações diz respeito às comunidades de Jesus que parecem ter rejeitado a sociedade e se retirado para a comunhão individual, fazendo cultos evangelísticos ocasionais, no mundo fora da comunidade. Vernon Wishart, um ministro da Igreja Unida do Canadá, escreveu sobre o Povo de Jesus em novembro de 1972, num artigo da revista “Observer”, órgão oficial da sua igreja. Ele descreveu o movimento como “uma reação ao profundo mal-estar cultural e social” e uma tentativa para “vencer uma depressão do espírito humano” causada pela tecnocracia materialista. Mostrou-se admirador do genuíno zelo cristão por eles manifestado: “Como crentes primitivos, eles simplesmente vivem de uma maneira amorosa, estudando as Escrituras, partindo o pão juntos e compartilhando os recursos’. E ele reconheceu que o intenso relacionamento pessoal deles com Jesus, e de um para com o outro era um antídoto à despersonalização da sociedade moderna. Ao mesmo tempo, ele viu este perigo: “Voltar-se para Jesus pode ser uma tentativa desesperada de desviar- se do mundo no qual ele encarnou. Como as drogas, a religião de Jesus pode ser uma fuga de nossa tecnocultura”. Nesta última frase, Vernon Wishart colocou o dedo no problema principal: Se Jesus amou o mundo de tal maneira que entrou nele através da encarnação, como podem seus seguidores proclamar que amam o mundo procurando escapar dele? Sir Frederick Catherwood escreveu: “Procurar melhorar a sociedade não é mundanismo, mas amor.

Lavar as mãos da sociedade não é amor, mas mundanismo” (Is  Revolution Charnge?, editado por Brian Griffths, IVP, 1972, p. 35).

A polarização oposta parece ter sido evidente na Assembléia da Comissão do Conselho Mundial de Igrejas sobre Missão e Evangelismo Mundial, realizada em Bangkok, em janeiro de 1973. Por ter sido intitulada “Salvação hoje”, muitos tiveram a esperança de que uma definição nova de salvação surgiria, quer seria tanto fiel às Escrituras como relevante para o mundo moderno. Porém, ficamos decepcionados: Os documentos preparatórios e a própria conferência tentaram redefinir salvação em termos quase inteiramente sociais, econômicos e políticos. É verdade que houve referências à salvação pessoal do pecado e que o propósito da convocação para uma moratória de dez anos no envio de dinheiro e pessoal missionário para as igrejas do Terceiro Mundo foi ajudá-las a tornarem-se auto- suficientes.

Contudo, a impressão geral de Bangkoki é que o labor missionário e evangelístico estão sem apoio nos círculos ecumênicos, ao passo que a missão real da igreja, segundo o Conselho Mundial de Igrejas, é identificar-se com os atuais movimentos de libertação: “Nos vemos as lutas por justiça econômica, liberdade política e renovação cultural como os elementos da libertação total do mundo, através da missão de Deus “(Bangkok Assembly 1973, p. 89).

Destes dois extremos, a falha característica dos evangélicos encontra-se mais na primeira que na Segunda polarização. Nós certamente não estamos confundindo justiça com salvação, mas temos frequentemente falado e nos comportado como se pensássemos que nossa única responsabilidade cristã para com uma sociedade não convertida fosse evangelismo, a proclamação das boas-novas de salvação. Nos últimos anos, contudo, tem havido bons sinais de mudança. Temos ficado desiludidos com a mentalidade da “tentativa abandonada” com a tendência de escolher não participar da responsabilidade social e com a tradicional obsessão fundamentalista da “micro-ética” (a proibição de coisas mínimas) e a negligência correspondente da “macro- ética” (os grandes problemas de raça, violência, pobreza, poluição, justiça e liberdade). Tem havido também, um recente reconhecimento dos princípios bíblicos para a ação social cristã, tanto teológica quanto ética.

Teologicamente, tem havido um redescobrimento da doutrina da criação. Tendemos a ter uma boa doutrina da redenção e uma péssima doutrina da criação. Naturalmente, temos tido uma reverência de lábios à verdade de que Deus é o Criador de todas as coisas, mas, aparentemente, temos estado cegos para as implicações disto. Nosso Deus tem sido por demais “religioso”, como se o seu principal interesse fosse cultos de adoração e oração frequentados por membros de igrejas. Não me entenda mal: Deus tem prazer nas orações e louvores do seu povo. Mas, agora, começamos a vê-lo, também (como a Bíblia sempre o retratou), como o Criador, que está interessado tanto pelo mundo secular quanto pela Igreja, que ama a todos os  homens e não somente os crentes, e que tem interesse na vida como um todo,  e não meramente na religião.

Eticamente, há um redescobrimento da responsabilidade do amor pelo próximo, que é o seguinte mandamento: “Amar nosso próximo como amamos a nós mesmos”. O que isto significa na prática será determinado pela definição das Escrituras sobre “o nosso próximo”. O nosso próximo é uma pessoa, um ser humano, criado por Deus. E Deus não o criou como uma alma sem corpo (para que pudéssemos amar somente sua alma), nem como um corpo sem alma (para que pudéssemos preocupar-nos exclusivamente com seu bem-estar físico), em tampouco um corpo-alma em isolamento (para que pudéssemos preocupar-nos com ele somente como um indivíduo, sem nos preocupar com a sociedade em que ele vive). Não!

Deus fez o homem um ser espiritual, físico e social. Como ser humano, o nosso próximo pode ser definido como “um corpo-alma em sociedade”.

Portanto, a obrigação de amar o nosso próximo nunca pode ser reduzida para somente uma parte dele. Se amamos nosso próximo como Deus criou (o que é mandamento para nós), então, inevitavelmente, estaremos preocupados com o seu bem-estar total, e bem-estar do seu corpo, da sua alma e da sua sociedade. Martin Luther King expressou isto muito bem:

“Religião trata tanto com o Céu como com a terra… Qualquer religião que professar estar preocupada com as almas dos homens e não está preocupada com a pobreza que os predestina à morte, com as condições econômicas que os estrangula e com as condições sociais que os tornam paralíticos, é uma religião seca como poeira” (My life wih Martin Luther King Jr. Por Coretta King, Hodder 1970, p. 127). Eu acho que deveríamos adicionar que “uma religião seca como poeira”, é na realidade, uma religião falsa.

É verdade que o Senhor Jesus ressurrecto deixou a Grande Comissão para a sua Igreja: pregar, evangelizar e fazer discípulos. E esta comissão é ainda a obrigação da Igreja. Mas a comissão não invalida o mandamento, como se “amarás o teu próximo” tivesse sido substituído por “pregarás o Evangelho”. Nem tampouco reinterpretar amor ao próximo em termos exclusivamente evangelísticos. Ao contrário, enriquece o mandamento amar o nosso próximo, ao adicionar uma dimensão nova e cristã, nomeadamente a responsabilidade de fazer Cristo conhecido para esse nosso próximo.

Ao rogar que deveríamos evitar a escolha mais do que ingênua entre evangelismo e ação social, eu não estou supondo que cada crente deva estar igualmente envolvido em ambos. Isto seria impossível. Além disso, devemos reconhecer que Deus chama pessoas diferentes e as dota com dons apropriados à sua chamada. Certamente cada crente tem a responsabilidade de amar e servir o próximo à medida que as oportunidades se manifestam, mas isto não o inibirá de concentrar-se – conforme sua vocação e dons – em alguma incumbência particular, seja alimentando o pobre, assistindo ao enfermo, dando testemunho pessoal, evangelizando no lar, participando na política local ou nacional, no serviço comunitário, nas relações raciais, no ensino ou em outras boas obras.

Embora cada crente, individualmente, deva descobrir como Deus o tem chamado e dotado, aventuro-me a sugerir que a igreja evangélica local, como um todo, deve preocupar-se com a comunidade secular local como um todo.  Uma vez que isto seja aceito, em princípio. Crentes individuais, que compartilham as mesmas preocupações, seriam incentivados a juntar-se em “grupos de ação e estudo”. Não para ação sem estudo prévio, nem para estudo sem ação consequente, mas para ambos. Tais grupos, com responsabilidade, considerariam em oração um problema particular, com a intenção de agir atacando o problema. Um grupo poderia estar preocupado com o evangelismo num novo conjunto habitacional, no qual (até onde é conhecido) não mora nenhum crente, ou com uma seção particular da comunidade local – uma república para estudantes, uma prisão, estudantes recém-formados etc. Um outro grupo poderia dedicar-se aos problemas dos imigrantes e das relações raciais, de uma favela de área e de habitações deficientes, de um asilo para velhos desamparados ou de um hospital; de pessoas idosas que têm pensão, mas se sentem sós, de uma clínica local de aborto, ou de uma casa de prostituição. A possível lista é quase interminável. Mas se os membros de uma congregação local fossem compartilhar as responsabilidades evangelísticas e sociais da igreja em conformidade com seus interesses, chamadas e dons, muito trabalho construtivo poderia certamente ser feito na comunidade.

Eu não conheço qualquer outra declaração de nossa dupla responsabilidade cristã, social e evangelística, melhor do que aquela feita pelo Dr. W.A. Visser: “Eu creio”, disse ele, “que com respeito à grande tensão entre a interpretação vertical do Evangelho como essencialmente preocupada  com o ato da salvação de Deus na vida dos indivíduos e a interpretação horizontal disto, como principalmente preocupada com as relações humanas  no mundo, devo fugir daquele movimento oscilatório mais do que primitivo  de ir de um extremo para o ouro. Um cristianismo que tem perdido sua dimensão vertical tem perdido seu sal e é, não somente insípido em si mesmo, mas sem qualquer valor para o mundo.

Mas um cristianismo que usaria a preocupação vertical como um meio para escapar de sua responsabilidade pela vida comum do homem é uma negação do amor de Deus pelo mundo, manifestado em Cristo. Deve tornar-se claro que membros de igreja que de fato negam suas responsabilidades com o necessitado em qualquer parte do mundo são tão culpados de heresias quanto todos os que negam este ou aquele artigo da Fé”. O meu argumento neste livreto tem sido a favor de um cristianismo bíblico equilibrado, no qual se evitam as polaridades comuns do mundo cristão – e especialmente do mundo evangélico.

Precisamos enfatizar, tanto o intelecto como o emocional, lembrando  que nada coloca o coração em fogo como a verdade; tanto o conservador  como o radical, resolvido a conservar as Escrituras, mas a avaliar a cultura em  conformidade com a Bíblia; tanto o estruturado como o não-estruturado, pois  um pode completar o outro; e tanto o evangelístico como o social, pois  nenhum deles pode ser um substituto, uma capa ou uma desculpa para o  outro, desde que cada um sustente a si próprio como uma expressão, para o  qual Deus, o Senhor, ainda chama o seu povo. Em pelo menos nestas quatro áreas (que não são as únicas), temos uma boa autoridade bíblica para substituir um excessivo e ingênuo “um-ou” por um maduro “ambos-e”. Coloquemos, pois, nossos pés com confiança nos dois polos, simultaneamente. Não nos permitamos polarizar!