PSICOLOGIA ANALÍTICA

VOCÊ ESTÁ MESMO NO COMANDO DA SUA VIDA?

Cientistas pesquisam como nossas decisões são controladas por aspectos físicos e psíquicos dos quais nem sempre temos consciência. A neurobiologia pode ajudar a entender como escolhemos nosso destino.

Você está mesmo no comando da sua vida

Em um canto remoto do Universo, em um pequeno planeta azul gravitando em torno de um sol monótono, nos distritos exteriores da Via Láctea, organismos surgiram da lama e do lodo   primordial em uma longa luta pela sobrevivência. Apesar de todas as evidências desfavoráveis, essas criaturas bípedes se consideram extremamente privilegiadas, ocupando um lugar privilegiado em um cosmos de um trilhão de trilhões de estrelas. Vaidosos, muitos desses seres incorrem no ledo engano de acreditar que somente eles podem escapar da lei de ferro da causa e efeito que rege tudo. E pensam que podem agir assim por se valer de algo que chamam de livre-arbítrio, essa capacidade de tomar decisões. Mas será que somos mesmo tão livres em nossas escolhas?

A questão não é meramente uma ironia filosófica, mas nos diz respeito como poucas outras da metafísica. Trata-se, na verdade, do alicerce das noções de sociedade, responsabilidade, reconhecimento e culpa. Em última análise, diz respeito ao grau de controle que exercemos sobre nossa vida.

Pense numa situação prática. Imagine que você vive com alguém amoroso, encantador e está satisfeito com sua vida afetiva. Ou, pelo menos, era o que pensava até encontrar, casualmente, um estranho que lhe desperta grande atração e deixa sua vida de cabeça para baixo. Vocês conversam por horas no telefone, compartilham segredos mais íntimos e iniciam um jogo de sedução. Por outro lado, você percebe perfeitamente que tudo isso é errado do ponto de vista ético e pode causar estragos na vida de várias pessoas. Além disso, não há nenhuma garantia de um futuro feliz e produtivo se continuar essa história. No entanto, algo em você anseia por mudança.

Até que ponto de fato há interesse em resolver a situação? Esse tipo de escolha nos confronta com valores e desejos. Em princípio, você acha que pode terminar tudo. Mas, apesar de diversas tentativas, de alguma forma nunca consegue. Por que será?

Embora a filosofia tenha trazido grandes contribuições para o debate sobre o livre-arbítrio, podemos focar nas respostas – ainda que parciais – da psicologia, da física e da neurobiologia sobre esse antigo enigma.

 TONS DE LIBERDADE

Recentemente, participei de um júri no Tribunal Distrital dos Estados Unidos, em Los Angeles. O réu era um membro de uma gangue de rua que contrabandeava e traficava drogas. Ele era acusado de assassinar um colega de quarto com dois tiros na cabeça. Enquanto a cena do crime era discutida com parentes e membros atuais e passados da gangue (alguns algemados e vestidos com macacão laranja de prisioneiro), eu pensava sobre as forças individuais e sociais que moldaram aquele rapaz, sentado na cadeira do réu. Alguma vez ele teve escolha?  A educação violenta que recebeu o transformou em assassino? Felizmente, o júri não foi chamado para responder a esses questionamentos complexos ou determinar a punição. Tivemos apenas de decidir, mesmo com alguma dúvida, se acreditávamos que ele seria culpado da acusação:  atirar em certa pessoa num determinado lugar e numa ocasião específica. Foi o que fizemos. De acordo com o que alguns chamam de livre-arbítrio, um conceito articulado por René Descartes no século 17, somos livres se, em circunstâncias idênticas, podemos agir de formas diferentes. Condições análogas se referem   não só a fatos externos, mas também a estados mentais. Assim, a mente pode escolher com autonomia, permitindo que a consciência expresse seus desejos, assim como um motorista que guia um carro pode optar por qual estrada prefere ir. Esse é um dos pontos de vista mais aceitos pelo senso comum.

Agora, compare essa forte noção de liberdade com uma concepção mais pragmática chamada “compatibilismo”, a visão dominante em alguns círculos biológicos, psicológicos, jurídicos e médicos. Segundo essa ideia, somos livres se podemos seguir nossos próprios desejos e preferências. Por exemplo, um fumante de longo prazo que tenta parar, mas reincide, não é livre – seu desejo é frustrado pela dependência. Segundo essa definição, poucos de nós somos totalmente livres.

São raras as pessoas “autônomas” que me vêm à mente: Mahatma Gandhi, com sua força de aço, deixava de comer por semanas a fio por um propósito ético elevado. Também o monge budista Thich Quang Duc, que cometeu autoimolação para protestar contra o regime repressivo no sul do Vietnã, em 1963. A natureza calma e deliberada de seu ato heroico, capturada por fotografia, é assombrosa.  Enquanto queima até a morte, Duc permanece na posição de lótus meditativo, sem mover um músculo ou emitir qualquer som, enquanto as chamas o consomem. Para o resto de nós que, muitas vezes, luta para não comer a sobremesa, a liberdade é sempre uma questão de grau, e não um bem absoluto que temos ou não.

UNIVERSO MECÂNICO

O direito penal reconhece casos de responsabilidade diminuída. O marido que bate no amante de sua mulher até a morte durante um ataque cego de fúria depois de pegar o casal em flagrante é considerado menos culpado do que se tivesse premeditado uma vingança semanas mais tarde. O norueguês Anders Breivik, que disparou a sangue-frio contra mais de 60 pessoas, em julho de 2011, foi diagnosticado como esquizofrênico paranoico. Considerado um criminoso insano, será confinado em uma instituição psiquiátrica. A sociedade contemporânea e o sistema judicial são construídos a partir dessa noção pragmática e psicológica de liberdade. Mas é possível ir mais fundo e investigar as causas por trás de ações tradicionalmente consideradas “livres”.

Em 1687, o célebre físico e matemático inglês Isaac Newton publicou a obra Principia, com três volumes, na qual enunciou a lei da gravitação universal e as três leis do movimento. A segunda lei de Newton relaciona a força trazida a um sistema (por exemplo, uma bola de bilhar rolando sobre o feltro verde da mesa) à sua aceleração. Esse postulado tem consequências profundas, pois implica que posições e velocidade de todos os componentes que constituem uma entidade, em qualquer momento particular, juntamente com a força entre eles, determinam inalteravelmente o destino dessa unidade – isto é, sua futura localização e velocidade.

Essa é a essência do determinismo. A massa, a localização e a velocidade dos planetas (que viajam em suas órbitas ao redor do Sol) estabelecem onde estarão em mil, um milhão ou bilhão de anos a partir de hoje, contanto que todas as forças que agem sobre eles sejam devidamente contabilizadas. Uma vez em movimento, o Universo segue seu curso inexorável, como um relógio.

O caos determinístico, porém, é um grande choque contra essa noção de que o futuro pode ser previsto com precisão. O meteorologista Edward Lorenz, morto em 2008, deparou com esse complexo sistema enquanto resolvia três equações matemáticas simples que caracterizam o movimento da atmosfera. A solução prevista pelo programa de computador variava muito quando inseria valores iniciais que diferiam em pequenas quantidades. Essa é a marca do caos: irregularidades infinitesimais em pontos de partida das equações conduzem a resultados radicalmente diferentes. Em 1972, Lorenz cunhou o termo “efeito borboleta” para designar essa extrema sensibilidade às condições iniciais: o bater de asas de uma borboleta cria ondulações quase imperceptíveis na atmosfera que, finalmente, alteram o caminho de um tornado em outro lugar. Extraordinariamente, essa dependência sensível às condições iniciais foi encontrada nas engrenagens celestes, o resumo do universo mecânico. Planetas movem-se majestosamente, impulsionados pela rotação inicial da nuvem que formou o sistema solar. Foi uma incrível surpresa descobrir, por meio da modelagem computacional, na década de 90, que Plutão tem uma órbita caótica, com um tempo de divergência de milhões de anos. Astrônomos não podem afirmar se o planeta estará desse ou do outro lado do Sol (em relação à posição da Terra) daqui a 10 milhões de anos! Se a incerteza vale para um objeto com uma composição interna relativamente simples, que se move no vácuo do espaço sob uma única força, a gravitacional, imagine tentar prever o destino (influenciado por fatores incalculáveis) de uma pessoa ou de uma minúscula célula nervosa.

ORIGENS DA INCERTEZA

No entanto, o caos não invalida a lei natural de causa e efeito. Ele continua a reinar. Físicos planetários podem ter dúvidas sobre onde Plutão estará em algumas eras, mas têm certeza de que sua órbita será completamente dependente da gravidade para sempre. O que se rompe no caos não é a cadeia de ação e reação, mas a previsibilidade. O Universo é um relógio gigantesco, mesmo que não tenhamos certeza para onde os minutos e as horas vão apontar daqui a uma semana.

O golpe mortal contra a teoria de Newton foi o célebre princípio da incerteza da mecânica quântica, formulado por Werner Heisenberg em 1927. O enunciado impõe restrições à precisão com que se podem efetuar medidas simultâneas de uma classe de pares de observáveis em nível subatômico. Basicamente, ele afirma que qualquer partícula, por exemplo um fóton de luz ou um eletro, não pode ter posição e impulso definidos ao mesmo tempo. Se a velocidade é precisa, a posição é correspondentemente mal definida, e vice-versa. O princípio da incerteza de Heisenberg é uma ruptura radical com a física clássica, substituindo a certeza dogmática pela ambiguidade.

Considere um experimento em que há 90% de probabilidade de um elétron estar aqui e 10% lá. Se a experiência for repetida mil vezes, em aproximadamente 900 a partícula estará numa posição e 100 noutra. O resultado estatístico, porém, não estabelece onde o elétron estará na próxima verificação. Albert Einstein nunca pôde se reconciliar com esse aspecto aleatório da natureza. Foi nesse contexto que disse “Deus não joga dados”.

O Universo tem um caráter irredutível, aleatório. Se fosse um relógio, suas engrenagens, molas e alavancas não seriam fabricadas na Suíça, pois não seguem um caminho definido. O determinismo físico foi substituído pelo determinismo das probabilidades. Nada mais é certo.

Mas espere! Há sérias objeções. Não há dúvida de que o mundo macroscópico da experiência humana é construído sobre o mundo quântico microscópico. No entanto, isso não implica que objetos do cotidiano, como os carros, herdam todas as propriedades misteriosas da mecânica quântica. Quando estaciono meu mini conversível vermelho, sua velocidade é zero em relação ao solo. Ele é extremamente pesado em comparação com um elétron, portanto a imprecisão associada à sua posição é, para todos os efeitos, nula.

Automóveis têm estruturas internas relativamente simples. Já o cérebro de abelhas, cães beagles e meninos, é extremamente diferente: os componentes que o constituem têm um caráter frenético. A aleatoriedade é evidente em todos as regiões do sistema nervoso, desde neurônios sensoriais receptores de imagens e aromas até células neurais motoras que controlam os músculos do corpo. Não podemos descartar a possibilidade de que a indeterminação quântica também leva à indefinição comportamental.

A aleatoriedade pode desempenhar um papel funcional. Uma mosca perseguida por um predador que faz uma virada de voo abrupta e repentina tem mais chances de ver a luz do dia por mais tempo do que um inseto mais previsível. É provável que a evolução favoreça circuitos que exploram a aleatoriedade quântica para certos atos ou decisões – e tanto a mecânica quântica quanto o caos determinístico levam a resultados imprevisíveis.

DE PRONTIDÃO

Deixe-me voltar a terra firme e falar sobre um experimento clássico que convenceu muita gente de que o livre-arbítrio é uma ilusão. O estudo foi feito no início de 1980 pelo neuropsicólogo Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia em São Francisco.

O cérebro e o mar têm algo em comum: ambos são incessantemente agitados.  Um eletroencefalograma (EGG) permite visualizar esse alvoroço por meio das pequenas flutuações do potencial elétrico (de alguns milésimos de volts) na parte de fora do couro cabeludo. Assim como um sismógrafo, o traçado do EGG se move freneticamente, registrando tremores invisíveis do córtex. Sempre que a pessoa testada está prestes a mover um membro, um potencial elétrico (ou de prontidão, como os cientistas chamam) aumenta. O fenômeno precede o início real do movimento por um ou mais segundos.

Intuitivamente, acreditamos numa certa sequência de eventos que leva a um ato voluntário. Quando decidimos levantar uma das mãos, o cérebro comunica essa intenção aos neurônios responsáveis pelo planejamento e execução dos movimentos relacionados. Essas células neurais transmitem os comandos apropriados para as motoras, que por sua vez contraem os músculos do braço. Libet, porém, não se convenceu desse processo. Não seria mais provável que o cérebro agisse ao mesmo tempo que a mente? Ou até mesmo antes?

O neuropsicólogo decidiu determinar o momento em que acontece um evento mental, quando uma pessoa toma uma decisão deliberada, e compará-lo com o tempo de um evento físico, o início do potencial de prontidão após a decisão. Ele projetou numa tela um ponto de luz brilhante que girava em círculo, como a ponta do ponteiro dos minutos do relógio. Um grupo de voluntários, submetidos a um exame de EGG com eletrodos, deveria flexionar o pulso espontânea e deliberadamente. Os participantes agiram no momento em que prestaram atenção à posição da luz, quando se tornaram conscientes da necessidade de fazer algo.

Os resultados foram inequívocos e reforçados por experiências posteriores. O início do potencial de prontidão antecede a decisão consciente de agir por meio segundo ou mais. O cérebro age antes de a mente decidir! A descoberta é uma completa inversão da intuição profundamente arraigada da causação mental.

DECISÃO CONSCIENTE

Se quiser, pode tentar repetir a experiência: flexione os pulsos. Você experimenta três sentimentos relacionados (mas diferentes): o planejamento para se mover (intenção), sua disposição (um sentimento que os especialistas chamam “de autoria”) e a sensação provocada pelo movimento em si. Mas se um amigo dobra sua mão você vivencia somente o movimento, ou seja, não se sente responsável pela ação. Essa ideia, não raro, é negligenciada nos debates sobre livre-arbítrio: o nexo mente-corpo cria uma experiência específica e consciente de “eu quis isso” ou “sou o autor dessa ação”.

O psicólogo Daniel Wegner, pesquisador da Universidade Harvard, é um dos pioneiros dos estudos modernos da volição. Em um experimento, ele pediu a uma voluntária que usasse luvas e ficasse na frente de um espelho, com os braços pendentes. Um membro do laboratório, vestido de forma idêntica, se posicionou atrás dela, estendendo seus braços sobre as axilas da moça, de modo que quando ela olhasse sua imagem refletida tivesse a impressão de que as mãos eram suas. Os dois usavam fones de ouvido, por meio dos quais Wegner emitia instruções, como “bater palmas” ou “estalar os dedos da mão esquerda”. A voluntária deveria informar em que medida acreditava que as ações das mãos do assistente do laboratório eram dela. Quando ouvia as coordenadas do psicólogo antes que as mãos alheias se levantassem, relatava maior sensação de ter desejado realizar a ação, em comparação com os momentos em que as instruções de Wegner vinham depois.

Diversos neurocirurgiões, acostumados a sondar o tecido cerebral com breves pulsos de corrente elétrica, sublinham a veracidade da sensação de intenção. Em um experimento, o cirurgião ltzhak Fried, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, estimulou a área motora suplementar (situada no córtex cerebral e próxima ao córtex motor primário), desencadeando a necessidade de movimentar um membro. O neurocientista cognitivo Michel Desmurget, do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica, e a neuropsicóloga Angela Sirigu, do Instituto de Ciência Cognitiva, na França, descobriram algo semelhante ao estimular o córtex parietal posterior, uma área responsável por transformar informações visuais em comandos motores. “Senti que queria mover um dos pés, mas não sei explicar o motivo”, disse um dos voluntários. “Fiquei com vontade de rolar a língua pela boca”, acrescentou outro. O sentimento surgiu sem que houvesse sugestão do examinador. Com isso, aprendi duas lições. Primeira: uma concepção mais pragmática sobre o livre-arbítrio. Eu me esforço para viver o mais livre possível de restrições.  A única exceção se refere ao controle deliberado e consciente que me imponho, geralmente motivado por preocupações éticas, como não ferir os outros e tentar deixar o planeta melhor do que encontrei.  Outras considerações incluem vida familiar, saúde, estabilidade financeira e consciência. Segunda: tento entender melhor minhas motivações inconscientes, desejos e medos. Procuro refletir mais profundamente sobre minhas próprias ações e emoções do que quando era mais jovem.

O que proponho não é nenhuma novidade. São lições que homens sábios de diversas culturas ensinam há milênios. Os gregos antigos tinham o aforismo seauton gnothi (conhece-te a ti mesmo) inscrito acima da entrada do Templo de Apolo, em Delfos. Os jesuítas mantêm a tradição espiritual de aproximadamente 500 anos, segundo a qual é imprescindível examinar a consciência duas vezes ao dia. Os budistas examinam seus atos quando se sentam para meditar e, a partir daí, refazem o compromisso pessoa de renunciar ao que faz mal e se aproximar daquilo que realmente querem para si. Esse interrogatório interno constante aguça a sensibilidade para nossas ações, vontades e motivações. A atitude permite não só nos compreendermos melhor, mas também vi­ vermos mais harmoniosamente conosco e com nossas metas de longo prazo.

INTERDEPENDÊNCIA:

o termo “efeito borboleta” foi cunhado por Edward Lorenz, em 1972, para designar a extrema sensibilidade às ligações que os seres e os fenômenos têm uns com os outros: o bater de asas cria ondulações quase imperceptíveis na atmosfera que, finalmente, alteram o caminho de um tornado em outro lugar do planeta

Você está mesmo no comando de sua vida2 

CHRISTOF KOCH – é diretor científico do Instituto Allen de Ciências do Cérebro, em Seattle, e professor de biologia comportamental cognitiva do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Adaptado de Consciência: confissões de um reducionista romântico, por Christof Koch. © Instituto de Tecnologia de Massachusetts, 2012. Todos os direitos reservados.

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OUTROS OLHARES

A DOR DE 540 MILHÕES

Esse é número estimado de pessoas no mundo afetadas por problemas lombares. E o pior: uma em cada três recebe o tratamento errado.

A dor de 540 milhões

Considerada uma das condições mais incapacitantes, a dor lombar pode ser ainda pior quando os sintomas são negligenciados. É o que aponta o estudo publicado recentemente pela revista científica “The Lancet”, segundo o qual 540 milhões de indivíduos sofrem com dor nas costas – e a maioria dos pacientes recebem tratamento errado. A pesquisa foi conduzida por cientistas de 12 países e revelou que taxa de incapacidade causada pela dor lombar aumentou 50% desde a década de1990.

Não existe um fator especifico que desencadeia o problema, considerado mais um sintoma do que uma doença Emoções como estresse e ansiedade podem hipersensibilizar o sistema de alarme da dor e isso faz com que a percepção de desconforto e incapacidade seja exacerbada em pacientes com lombalgia, que atinge principalmente os adultos. “A chave para o tratamento é uma conversa profunda”, diz Lucíola Menezes Costa, doutora em fisioterapia e líder da pesquisa no Brasil pela Unicid. Um dos erros mais comuns, segundo ela, é solicitar de forma excessiva exames por imagens, que não vão mudar a conduta terapêutica do doente. Os cuidados que ele terá não serão alterados pelo resultado. Além disso, faltam medidas eficientes para investigar os sintomas e o uso de opioides (drogas que atuam no sistema nervoso central para aliviar dores fortes) e cirurgias cresce desenfreadamente. “Precisamos desafiar o paciente a uma nova educação. A intervenção cirúrgica não pode ser a primeira opção”, afirma. Para a especialista, porém, o poder de escolha sobre como lidar com a dor muitas vezes não é acertado com o paciente.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a dor nas costas é a maior causa de afastamento do trabalho em pessoas com menos de 45 anos. O estudo publicado na semana passada mostrou que a maioria das crises de dor lombar é de curta duração. Porém, quando acontecem de maneira recorrente, um terço dos pacientes terá dor novamente em menos de um ano – condição que pode ser classificada como duradoura. Os pesquisadores também chamaram atenção para os sistemas públicos de saúde, que deveriam oferecer terapias mais eficazes e acessíveis à população. Com isso, o prognóstico e a eficácia nos tratamentos seria muito mais eficiente. Segundo o estudo, o descanso é frequentemente recomendado em países de menor poder aquisitivo, onde os recursos para melhorar a ergonomia nos locais de trabalho são escassos.

TRATAMENTOS PARA DOR NAS COSTAS

ADEQUADOS:

>> Sessões de fisioterapia acompanhadas de um profissional capacitado.

>> Técnicas que movimentem o corpo como bicicleta, natação, esteira, pilates e caminhadas.

>> Conversa aprofundada com médico para diminuir a ansiedade e crenças negativas que existem em cima dos sintomas.

INADEQUADOS:

>> Massagem usada de forma isolada.

>> Equipamentos de eletroterapia (frequentemente usados).

>> Uso excessivo de medicamentos à base de opioides.

>> Cirurgias indicadas de forma abusiva.

GESTÃO E CARREIRA

ALPINISTAS CORPORATIVOS

Moda entre as empresas, o montanhismo se torna uma arma para mapear o perfil comportamental de profissionais e identificar quem são os futuros líderes.

Alpinistas corporativos

De tempos em tempos, as empresas elegem um novo tema para explorar em programas e treinamentos. Depois da onda dos escapes games, jogos de fuga e estratégia, o queridinho da vez é o montanhismo. O esporte, que vem ganhando a atenção dos arrojados donos de startups aos executivos de multinacionais, é a analogia perfeita para quem deseja “escalar negócios”. Existem inúmeros paralelos possíveis: enquanto o guia de expedição orienta com sabedoria, o líder conduz com inteligência; enquanto o montanhista calcula riscos, o funcionário planeja metas; enquanto a escalada pede força, a carreira exige resiliência. E, sem espírito de equipe, ninguém chega ao topo, nem da montanha nem da empresa.

Apesar de os críticos considerarem as escaladas apenas mais um dos modismos corporativos e defenderem que logo serão substituídas por outra tendência qualquer, a verdade é que elas se tomaram uma febre ao redor do mundo. Ambientes desafiadores, como montanhas, oferecem uma oportunidade real de aprendizado.

“A medida que caminham e escalam, os participantes de uma expedição compreendem a importância de ser socialmente inteligentes, de se adaptar às mudanças de condições, de construir a confiança e de manter uma visão holística”, diz Christopher Maxwell, Ph.D. em liderança.

Durante 15 anos, Christopher foi professor na Wharton School, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e dirigiu um programa experimental de desenvolvimento de liderança em que levava gestores para os mais altos picos do mundo. No final de 2016, ele publicou o livro Lead Like a Guide (sem tradução no Brasil), no qual relata sua experiência na área e mostra o que guias de montanhas têm a ensinar aos executivos. A obra fez barulho entre os empresários.

Do lançamento do livro para cá, houve um boom de interesse sobre o assunto, inclusive no Brasil. Segundo consultorias de aventura ouvidas, a procura pelo esporte aplicado com viés empresarial cresceu até 600% nos últimos dois anos.

Companhias de diferentes portes e setores têm promovido o alpinismo entre seus times, tanto para motivá-los com insights fora do ambiente de trabalho quanto para mapear perfis. “O pico de interesse ocorreu durante a crise, comas organizações buscando novas maneiras de promover o crescimento e aumentar a eficiência”, diz Carlos Eduardo Santalena, que alcançou o cume do Monte Everest, maior montanha do mundo, aos 24 anos e hoje é sócio da Grade 6, de Campinas (SP), que promove viagens turísticas e corporativas para destinos famosos pela altitude.

EXPERIMENTO TRAIÇOEIRO

No fundo, o objetivo das empresas é que as expedições sejam um grande laboratório comportamental. Quem as promove quer provocar as reações. Durante a atividade, limites físicos e mentais são testados. Há situações adversas, corno o frio e a chuva, e é necessário cozinhar e dormir em barracas ao lado de pessoas com as quais se tem pouca – ou nenhuma – intimidade. Ou seja, desestabiliza-se o profissional.

O RH, claro, fica atento às atitudes. A escalada revela, entre outros aspectos, quem são os estrategistas e quem são os executores. E diz muito sobre o estilo de gestão, revelando se o chefe é motivador, técnico ou visionário, se delega e se é capaz de ceder espaço para outro profissional. ”Tira-se proveito do clima informal para aplicar testes, criar situações adversas e plantar imprevistos que exijam atenção, colaboração e solução de problemas. A ideia é saber como cada um reage”, diz Renata Perrone, sócia da consultoria de recrutamento e desenvolvimento De Bernt Entschev, do Rio de Janeiro.

Diferentemente dos escape games, que ficaram famosos nos processos de seleção, o montanhismo não costuma ser aplicado para recrutar talentos, e sim para treinar e desenvolver. Isso acontece devido ao alto custo da atividade – roteiros que envolvem longas distâncias e imersão na montanha chegam a 7500 reais por cabeça.

Por causa disso e dos elevados preços das passagens aéreas no Brasil a preferência das empresas costuma ser os destinos localizados num raio de até 100 quilômetros da sede. O percurso e o modelo da aventura são definidos por consultores especializados, levando em consideração faixa etária, preparo físico do grupo e, sobretudo, objetivo da escalada. ”Se há uma rixa entre as áreas de marketing e financeiro, por exemplo, focamos a prática na resolução desse problema. Identificamos os líderes de cada grupo e os colocamos para trabalhar lado a lado”, diz Marco Santos, diretor e guia da Terra Trekking, especializada em treinamento outdoor, de Itabira(MG).

Na multinacional francesa de artigos esportivos Decathlon, que conta hoje com 1500 funcionários no Brasil o montanhismo é usado tanto par integrar a equipe quanto para promover a estratégia de negócio. Na loja de Florianópolis, quinto maior faturamento no país, a última escalada foi em dezembro, durante o processo de integração: 12 profissionais fizeram a trilha do Santinho, na Praia de Moçambique, em Florianópolis.

“O intuito era apresentar os novos empregados e, ao mesmo tempo, melhorar o diálogo entre o time. A trilha é um bom lugar para trabalhar a comunicação clara”, diz Cauã Guzmán, diretor da unidade. Já na unidade da Marginal Tietê, de São Paulo, a escalada é utilizada como uma espécie de reunião de estratégia e inclui desde gerentes até o CEO. A mais recente, em outubro, levou 51 pessoas par Juquitiba, no interior de São Paulo.

DO JEITO CERTO

Via de regra, quando a organização decide promover uma expedição, profissional pode se recusar a participar. Segundo as empresas, no entanto, isso é raro e o número de inscritos em geral ultrapassa o de vagas, o que as obriga a adotar critério de desempate. A saúde é um deles só viaja quem estiver apto.

Se a pessoa se sente vulnerável, o RH precisa ter maturidade para entender a questão. Não se pode obrigá-la e muito menos preteri-la por causa de sua recusa.

Passageira ou não, eficaz ou não, o fato é que a onda do montanhismo tomou conta do mundo corporativo. E, para que traga benefícios (em vez de prejuízos) aos empregados, precisa ser executada com responsabilidade. “Há pontos importantes na hora de desenhar uma expedição: ela precisa ser desafiadora, mas também criar oportunidades de discussão. Se a expedição for bem planejada, e liderada por guias especializados de montanha, ajudará os indivíduos a ser profissionais e líderes melhores”, diz Christopher Maxwell.

Na Tenco, que gerencia shoppings em oito estados e possui 778 trabalhadores, os próprios executivos são os guias. Administrada pela família Gribel, cujos membros são alpinistas desde a década de 90, a companhia levou, nos últimos dois anos, 40 pessoas para subir o Monte Roraima e a Chapada Diamantina. “Uma expedição bem-feita ensina espírito de equipe, respeito às diferenças, persistência, coragem e criatividade”, diz Adriana Gribel, vice-presidente da Tenco, de Minas Gerais, e alpinista nas horas vagas – ela já escalou os sete cumes mais altos do Brasil. “Quando voltam da montanha, os funcionários passam a ser porta-vozes desses valores e sua performance na empresa melhora.”

Aurélio Pedro de Resende Neto, de 37 anos, de São Paulo, é um exemplo. Onze meses após passar oito dias na Chapada Diamantina e percorrer 100 quilômetros, o advogado foi promovido a um cargo de gerência na Tenco e recebeu aumento de 15%. “Mudei a maneira de pensar e de agir. Percebi a importância de reconhecer limitações e passei a ter mais disciplina. Na montanha, bastava um atraso e todos corriam o risco de dormir na floresta sem segurança alguma”, diz.

Mas o que acontece quando alguém do time tem um desempenho pífio durante a escalada? Consultores afirmam que é obrigação das empresas trabalhar as fragilidades dos profissionais. ”Ao vivenciar as fraquezas, o empregado pode refletir sobre elas e colocar em prática ações para combatê-las”, afirma Renata, da De Bernt Entschev. Ela diz, ainda, que, em tempos de inovação, o erro perdeu a pecha de vilão, A reflexão sobre o fracasso, inclusive emocional, é essencial para o surgimento de novas ideias.

Quando convidou, no final do ano passado, 35 de seus 70 funcionários para uma escalada de 5 horas na Pedra Grande, em Atibaia (SP), a Planetun, empresa paulistana de serviços e soluções para o mercado automotivo e de seguros, tinha ciência de que limitações viriam à tona. Henrique Mazieiro, sócio fundador, é praticante do montanhismo há seis anos e já escalou picos como o Kilimanjaro, na Tanzânia, e o Monte Elbrus, na Rússia – considerado o mais alto da Europa. “Notei o interesse dos times em minhas histórias e, como sabíamos que a experiência traria lições importantes, decidimos levá-los”, diz o executivo, de São Paulo, que deixa claro: aceitar um desafio sabendo dos próprios limites demonstra vontade de sair da zona de conforto. “Isso, por si só, já valoriza o passe profissional”

VERSÃO LIGHT

Na rabeira do montanhismo, outras modalidades do esporte (mais acessíveis e menos arriscadas) também vêm ganhando espaço nas empresas. Uma delas é o trekking de regularidade, também conhecido como enduro a pé. Nele, cada membro da equipe tem uma missão no grupo, que deve chegar ao destino por meio de trilhas num prazo estabelecido e tendo como base apenas instrumentos de navegação tradicionais, como GPS, mapas e bússola. O celular não é permitido.

A multinacional francesa do ramo de bebidas alcoólicas Pernod Ricard e a gigante automotiva Mercedes-Benz são algumas das organizações que já promovem a prática entre seus contratados. Na Mercedes, o interesse pela atividade surgiu após a necessidade de mudar a mentalidade dentro da companha. “As equipes precisaram repensar a forma como estavam se comunicando, dando e recebendo feedbacks, relacionando-se entre si e, principalmente, liderando’, afirma Ana Paula Desiderio, diretora de recursos humanos da Mercedes-Benz, de São Bernardo do Campo (SP).

Por lá, a prática, diferente das imersões nas montanhas, acontece em ambientes controlados, como em hotéis-fazenda em meio à natureza que se encontram no máximo a 3 horas de distância do escritório. Não há acampamento, mas plantamos elementos-surpresa para dificultar o percurso e forçar os colaboradores a desenvolver flexibilidade, agilidade e resistência, competências essenciais hoje na empresa”, diz Ana Paula.

Diante desse cenário, cabe ao profissional aproveitar a chance de repensar suas habilidades. Já para as empresas o desafio é realizar avaliações acuradas para não prejudicar o funcionário, um efeito rebote ao qual devem estar atentas. Afinal, o objetivo é chegar ao topo juntos.

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LIÇÕES DO MONTANHISMO

Veja sete ensinamentos que a prática pode promover para os profissionais:

1 – Autoconfiança – escaladas ajudam o cérebro a agir rapidamente em situações inesperadas e melhoram a auto–confiança do indivíduo, que passa a calcular melhor os riscos e as consequências de suas decisões.

2 –  Aceitar limitações – subidas trazem a seguinte reflexão: estou realmente preparado para o desafio? Tal como numa empresa, na montanha é preciso conhecer os próprios limites e, se necessário, recuar.

3 – Humildade – experiência não é garantia de assertividade. Para chegar ao topo, é preciso estar aberto à novas ideias e ouvir a opinião dos demais.

4 – Metas tangíveis – o cume não é algo utópico: alcança-lo é possível, mas, assim como na vida corporativa. Os caminhos precisam ser viáveis, o que exige planejamento realista.

5 – Persistência – expedições podem apresentar trechos íngremes, baixas temperaturas, ar rarefeito e adversidades que exigem força, resiliência e persistência. Se falhar, estude o erro, refaça os planos e tente outra vez.

6 – Senso de coletividade – o trabalho em conjunto garante a sobrevivência da equipe e facilita a chegada ao cume. As dificuldades parecem, menores quando alguém ao lado está disposto a ajudar.

7 – Boas Ideias – criatividade é fundamental para contornar dificuldades numa expedição, como um rio caudaloso que surge no meio do caminho. Numa empresa boas ideias salvam negócios.

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Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 7-14

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Advertências contra os Escândalos

 

O nosso Salvador fala aqui de ofensas, ou escândalos:

I – Em geral (v. 7). Tendo mencionado o fato de escandalizar os pequeninos, Ele aproveita para falar de forma mais geral sobre os escândalos. Um escândalo é algo:

1. Que provoca a culpa, que através da sedução ou da intimidação tende a atrair os homens, desviando-os daquilo que é bom para aquilo que é mau.

2. Que causa sofrimento, que entristece o coração do justo. Agora, em relação aos escândalos, Cristo aqui lhes diz:

(1). Que eles ocorreriam com certeza: “Porque é mister que venham escândalos”. Quando temos a certeza de que há perigo, devemos estar melhor armados. Não que a Palavra de Cristo necessite que qualquer homem escandalize, mas esta é uma predição sobre um aspecto das causas; considerando a astúcia e a malícia de Satanás, a fraqueza e a depravação dos corações dos homens, e a loucura que é encontrada ali, é moralmente impossível que não haja escândalos. E Deus determinou permiti-los para fins sábios e santos, para que tanto aqueles que são perfeitos como aqueles que não o são possam ser manifestos. Veja 1 Coríntios 11.19; Daniel 11.3. Informados com antecedência de que haverá sedutores, tentadores, perseguidores e muitos maus exemplos, estejamos vigilantes (cap. 24.24; Atos 20.29,30).

(2). Que eles seriam coisas deploráveis, e a consequência deles, fatal. Aqui está um desgosto anexado aos escândalos:

[1]. Uma desgraça para o descuidado e desprotegido, que sofre a ofensa: ”Ai do mundo, por causa dos escândalos!” As obstruções e oposições à fé e à santidade em todos os lugares são a perdição e a fonte de corrupção da humanidade, e a ruína de milhares de pessoas. Este mundo presente é um mundo maligno, e está repleto de escândalos, pecados, laços e tristezas; viajamos por uma estrada perigosa, cheia de pedras de tropeço, precipícios, e falsos guias: ”Ai do mundo”. Quanto àqueles a quem Deus escolheu e chamou do mundo, e livrou dele, eles são preservados pelo poder de Deus do dano desses escândalos, são ajudados a superar todas essas pedras de tropeço. “Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Salmos 119.165).

[2]. Uma desgraça para o ímpio, que intencionalmente participa ou gera o escândalo: “Mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” Embora seja mister que os escândalos venham, não haverá desculpa para aqueles que escandalizarem. Note que, embora Deus tenha feito os pecados dos pecadores servirem ao seu propósito, isto não lhes salvará da sua ira; e a culpa será depositada na porta daqueles que motivarem o escândalo, embora eles também se enquadrem na desgraça daqueles que o sofrem. Aqueles que de alguma forma atrapalham a salvação de outros acharão a sua própria condenação a mais intolerável, como Jeroboão, que pecou “e fez Israel pecar”. Esta desgraça é a moral daquela lei judicial (Êxodo 21.33,34-22.6), de que aquele que abriu a cova, e acendeu o fogo, foi responsabilizado por todo o dano que se seguiu. A geração anticristã, por meio da qual veio o grande escândalo, se enquadrará nessa desgraça por seu engano para com os pecadores (2 Tessalonicenses 2.11,12), e suas perseguições aos santos (Apocalipse 17.1,2,6), porque o Deus justo ajustará contas com aqueles que destruírem os interesses eternos de almas preciosas, e os interesses temporais de santos preciosos. Precioso aos olhos do Senhor é o sangue dos santos; e os homens prestarão contas, não só pelas coisas que fizeram, mas pelos frutos de suas ações, pelo mal que foi feito por eles.

I – Em particular, Cristo aqui fala dos escândalos gerados:

1. Por nós a nós mesmos, que é expresso pela nossa mão ou pé nos escandalizando; nesse caso, a mão ou o pé deve ser “cortado e lançado fora” (vv. 8 ,9). O Senhor Jesus Cristo havia mencionado essas palavras anteriormente (cap. 5.29,30), onde Ele se refere especialmente às transgressões do sétimo mandamento; aqui, o assunto é tomado de um modo mais geral. Aquelas palavras duras de Cristo são desagradáveis para a carne e o sangue, precisam ser repetidas para nós várias vezes, e ainda assim é pouco. Considere então:

(1) O que é que está aqui imposto. Devemos nos livrar de um “olho”, ou uma “mão”, ou um “pé”, isto é, aquilo, seja lá o que for, que nos for caro, quando isso inevitavelmente gerar uma ocasião de pecado para nós. Note que:

[1]. Muitas tentações para pecar surgem de dentro de nós mesmos; os nossos próprios olhos e mãos nos escandalizam; se jamais houvesse um demônio para nos tentar, de­ veríamos nos afastar da nossa própria concupiscência. As coisas que em si são boas, e podem ser usadas como instrumentos do bem, até mesmo estas, através das corrupções dos nossos corações, mostram-se como laços para nós, nos inclinam a pecar, e nos prejudicam em nossa obediência.

[2]. Nesse caso, devemos, tão legitimamente quanto pudermos, nos desfazer daquilo que não pudermos manter sem ficarmos emaranhados no pecado. Em primeiro lugar, é certo que a concupiscência interior deve ser mortificada, embora seja cara para nós como um olho, ou uma mão. “Crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5.24). O corpo do pecado deve ser destruído; as inclinações e apetites corruptos devem ser identificados e eliminados; a amada concupiscência, que tem sido colocada debaixo da língua como uma doce guloseima, deve ser abandonada com repulsa. Em segundo lugar, as ocasiões externas do pecado de­ vem ser evitadas, embora, desse modo, coloquemos uma violência muito grande sobre nós mesmos, como seria cortar uma mão, ou arrancar um olho. Quando Abraão saiu de sua terra natal, por medo de se envolver com a idolatria que havia ali, e quando Moisés saiu da corte de Faraó, por medo de se misturar com os prazeres pecaminosos que havia ali, uma mão foi cortada. Não devemos considerar nada caro demais ou valorizado demais para dele nos livrarmos, a fim de que possamos manter uma boa consciência.

(2). Sobre que incentivo ou persuasão isso é exigido:

“Melhor te é entrar na vida coxo ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno”. O argumento é tomado do estado futuro, do céu e do inferno; daí são extraídos os dissuasivos mais convincentes contra o pecado. O argumento é o mesmo do apóstolo (Romanos 8.13).

[1]. Se vivermos segundo a carne, morreremos. Tendo dois olhos, todas as transgressões feitas no corpo do pecado geram a corrupção, como no caso de Adonias. Não é possível escusar o pecado como uma inclinação natural ou inata. Todo aquele que permanecer no pecado será lançado no fogo do inferno.

[2]. Se nós, através do Espirita, mortificarmos as obras da carne, viveremos. Isto se explica por entrarmos na vida coxos, isto é, o corpo do pecado estar coxo; e é melhor ficarmos coxos enquanto estivermos neste mundo. É desejável que a mão direita do velho homem seja cortada, e seu olho direito seja arrancado, com suas políticas principais arruinadas e seus poderes destruídos. Mas ainda há um olho e uma mão sobrando, com os quais haverá luta. Aqueles que são de Cristo pregaram a carne na cruz, mas ela ainda não está morta; sua vida é prolongada, mas o seu domínio foi tirado (Daniel 7.12), e o ferimento mortal lhe foi conferido, e não poderá ser curado.

2. Com relação aos escândalos causados por nós aos outros, especialmente aos pequeninos de Cristo, do que somos aqui convocados a dar atenção, de acordo com o que Ele havia dito (v. 6). Considere:

(1).  A própria advertência: “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos”. Isto foi dito aos discípulos. Da mesma forma que Cristo irá se indignar com os inimigos de sua igreja, se eles fizerem alguma injustiça com qual­ quer dos seus membros, mesmo o menor, Ele irá se in­ dignar com os grandes da igreja, se eles desprezarem os pequeninos dela. Em outras palavras: “Vocês que estão disputando quem será o maior, tomem cuidado para que, nesta disputa, vocês não desprezem os pequeninos do reino”. Também podemos entender essas palavras literalmente, como se o Senhor estivesse falando das crianças pequenas (vv. 2,4). A semente infantil dos crentes fiéis pertence à família de Cristo, e não deve ser desprezada. Ou figuradamente: estes pequeninos são crentes verdadeiros, porém fracos em sua condição exterior, ou na estrutura de seu espirita; são como crianças peque­ nas, os cordeiros do rebanho de Cristo.

[1]. Não devemos desprezá-los, nem pensar mal deles, como cordeiros desprezados (Jó 12.5). Não devemos caçoar de suas fraquezas, nem olhar para eles com desprezo, nem agirmos com escárnio ou desdém em relação a eles, como se não nos importássemos com o que lhes aconteceu. Não devemos dizer: “Embora eles sejam o­ fendidos, e entristecidos, e tropecem, o que nos importa?” Nem devemos tomar a menor atitude que os faça ficar em dificuldades e perplexos. Este desprezo pelos pequeninos é contra o que somos grandemente advertidos (Romanos 14.3,10,15,20,21). Não devemos impor nada sobre a consciência dos outros, nem traze-los à sujeição das nossas vontades, como aqueles que dizem às almas dos homens: “Inclinem-se, para que possamos passar por cima de vocês”. Deve-se algum respeito à consciência de todo homem que parece ser consciencioso.

[2]. Devemos prestar atenção para não os desprezarmos; devemos ter medo do pecado, e ter muito cuidado com o que dizemos e fazemos, para que inadvertidamente não escandalizemos os pequeninos de Cristo, para que não os desprezemos, sem termos ciência disso. Houve aqueles que os odiavam, e os lançavam fora, e ainda diziam: “Que o Senhor seja glorificado”. Devemos temer o castigo: “Preste atenção para não desprezá-los, por­ que isto será arriscado para você”.

(2).  As razões para reforçar o cuidado. Não devemos olhar para esses pequeninos como desprezíveis, porque, na verdade, eles são dignos de consideração. Não deixe que a terra despreze aqueles a quem o céu respeita; não os olhemos com algum tipo de falta de respeito, mas consideremo-los como os favoritos do céu. Para provar que os pequeninos que creem em Cristo são dignos de res­ peito, considere:

[1]. A ministração dos anjos bons sobres eles: “Os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus”. Isto Cristo nos diz, e podemos confiar em sua Palavra. Ele veio dos céus, e nos faz saber o que é feito ali pela multidão de anjos. Duas coisas que ele nos faz saber sobre eles:

Em primeiro lugar, que os anjos são deles. Os anjos de Deus são deles; porque tudo o que é de Deus é nosso, se formos de Cristo (1 Coríntios 3.22). Os anjos são deles; porque eles têm uma ordem para servirem em favor desses pequeninos (Hebreus 1.14), armar suas tentas ao redor deles, e segurá-los em seus braços. Alguns têm imaginado que todo santo em particular tem um anjo da guarda. Mas por que de veríamos supor isso, quando sabemos que todo santo em particular, quando há necessidade, é guardado por anjos? Isto é particularmente aplicado aqui aos pequeninos, porque eles são muito desprezados e muito expostos. Eles podem contar pouco consigo mesmos, mas podem olhar, pela fé, para as hostes celestes, e chamá-las de suas. Enquanto os grandes do mundo têm homens honoráveis e guardas para o seu séquito, os pequeninos da igreja são servidos por anjos gloriosos, que anunciam não só o valor deles, mas o perigo que correm aqueles que desprezam e abusam deles. É ruim ser inimigo daqueles que são assim protegidos; e é bom termos a Deus como o nosso Deus, porque assim podemos considerar os seus anjos como sendo os nossos anjos.

Em segundo lugar, eles sempre veem a face do Pai que está nos céus. Isto indica:

1. A felicidade e a honra contínua dos anjos. A felicidade do céu consiste na visão de Deus, vê-lo face a face como Ele é, contemplando a sua beleza; os anjos possuem esse privilégio de uma forma ininterrupta. Quando eles estão nos ministrando na terra, mesmo nesses momentos, por contemplação, veem a face de Deus, porque estão cheios de olhos por dentro. Mesmo enquanto falava com Zacarias, Gabriel estava na presença de Deus (Apocalipse 4.8; Lucas 1.19). A expressão sugere, como alguns pensam, a dignidade e a honra especiais dos anjos dos pequeninos; os primeiros-ministros de estado são mencionados como aqueles que veem a face do rei (Ester 1.14). É como se os anjos mais fortes fossem encarregados dos santos mais fracos.

2. A sua contínua prontidão para ministrar aos santos. Eles contemplam a face de Deus, esperando receber ordens dele quanto ao que fazer para o bem dos santos. Como os olhos dos ser­ vos estão fixados na mão de seu senhor, prontos para ir e vir ao menor gesto, assim os olhos dos anjos estão volta­ dos à face de Deus, esperando as intimações da sua vontade, que estes mensageiros alados voam rapidamente para cumprir. Eles correm e tornam, à semelhança dos relâmpagos (Ezequiel 1.14). Se quisermos contemplar a face de Deus em glória no porvir, como fazem os anjos (Lucas 20.36), devemos então contemplar a face de Deus agora, com prontidão para cumprir o nosso dever, como eles o fazem (Atos 9.6).

O plano misericordioso de Cristo com relação a eles (v. 11): “Porque o Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido”. Esta é uma razão, em primeiro lugar, porque os anjos dos pequeninos têm tal responsabilidade com relação a eles, e os servem; os anjos agem de acordo com o plano que Cristo tem para os salvar. A ministração dos anjos é baseada na mediação de Cristo; através dele, os anjos recebem missões relativas a nós. E quando eles celebraram a boa vontade de Deus em relação aos homens, a isso juntaram a sua própria boa vontade. Em segundo lugar, porque eles não devem ser desprezados; porque Cristo veio para salvá-los, para salvar aqueles que se tinham perdido, os pequeninos que estão perdidos aos seus próprios olhos (Isaias 66.3), que trazem a incerteza dentro de si mesmos. Ou, antes, os filhos dos homens. Considere:

1. As nossas almas são, por natureza, almas perdidas. São como um viajante que está perdido, que está fora do seu caminho, como um prisioneiro condenado que está perdido. Deus perdeu o serviço do homem caído, perdeu a honra que Ele deveria ter tido da parte desse homem.

2. A missão de Cristo no mundo é salvar o que se tinha perdido, nos trazer à obediência, nos restaurar ao nosso trabalho, restabelecer os nossos privilégios, e assim nos colocar no caminho correto que nos leva ao nosso final grandioso; salvar aqueles que es­ tão espiritualmente perdidos, não deixando que permaneçam assim eternamente.

3. Esta é uma boa razão para que os crentes menores e mais fracos não devam ser desprezados ou escandalizados. Se Cristo os valoriza dessa maneira, não os desvalorizemos. Se Ele renunciou tanto a si mesmo pela salvação deles, com certeza devemos renunciar a nós mesmos em benefício de sua edificação e consolação. Veja a urgência desse argumento (Romanos 14.15; 1 Coríntios 8.11,12). Se Cristo entrou no mundo para salvar as almas, e o seu coração está tão empenhado nessa obra, Ele severamente ajustará contas com aqueles que a obstruem e a prejudicam, atrapalhando o progresso daqueles que estão voltando suas faces ao céu, e assim frustram o seu grande plano.

[3]. A terna consideração que o nosso Pai celestial tem por esses pequeninos, e a sua preocupação pelo seu bem-estar. Isto é ilustrado por uma comparação (vv. 12-14). Observe a progressão do argumento: os anjos de Deus são seus servos, o Filho de Deus é o seu Salvador, e, para completar a sua honra, o próprio Deus é o seu amigo. “Ninguém as arrebatará das minhas mãos” (João 10.28).

Aqui temos, em primeiro lugar, a comparação (vv. 12,13). O proprietário que tinha perdido uma de suas cem ovelhas não faz pouco caso disso, mas diligentemente a busca, fica grandemente feliz quando a encontra, e tem nisso uma alegria considerável e comovente, superior à alegria que sente pelas noventa e nove que não se perderam. O medo que ele teve de perder aquela ovelha, e a surpresa ao encontrá-la, são somados à alegria. Então, isso é aplicável:

1. Ao estado do homem caído em geral; ele está desviado como uma ovelha perdida. Os anjos que ficaram eram como as noventa e nove que nunca se desviaram; o homem perdido é procurado nas montanhas que Cristo, em grande fadiga, atravessou em busca dele, e assim foi encontrado. Este é um motivo de alegria. No céu, há uma alegria maior pelos pecadores que retornam do que pelos anjos que ali permanecem.

2. A crentes em particular, que são escandalizados e tirados de seu caminho por pedras de tropeço que são colocadas diante deles, ou pelos estratagemas daqueles que os atraem para fora do caminho. Então, embora apenas uma das cem ovelhas tenha se desviado do caminho – algo que acontece facilmente com elas -. esta única ovelha deveria ser protegida com muito cuidado. Ela foi recebida com muito prazer; portanto, o mal que aconteceria com ela, sem dúvida alguma, seria contado com muito desgosto. Se há alegria no céu por um desses pequeninos que foi encontrado, há ira no céu quando alguém os escandaliza. Note que Deus, de forma misericordiosa, está preocupado não só com o seu rebanho em geral, mas com cada cordeiro, ou ovelha, que lhe pertence. Embora elas sejam muitas, Ele pode sentir facilmente a falta de uma delas, porque Ele é o grande Pastor, e não a perderá facilmente, porque Ele é o bom Pastor e conhece particularmente o seu rebanho mais que qualquer outro. Ele chama as suas ovelhas pelo nome (João 10.3). Veja uma exposição completa dessa parábola (Ezequiel 34.2,10,16,19).

Em segundo lugar, a aplicação dessa comparação (v. 14): “Não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca”. Mas é sugerido do que expressado. Não é a sua vontade que qualquer se perca, mas:

1. É a sua vontade que esses pequeninos sejam salvos; é a vontade expressa pelo seu plano, e o seu deleite. Ele planejou, e colocou o seu coração nisso, e Ele o realizará. A sua vontade é que todos façam o que puderem para que o seu plano seja divulgado, e que nada o atrapalhe.

2. Esse cuidado se estende a cada membro do rebanho em particular, até mesmo àquele que é aparentemente o mais insignificante. Pensamos que se apenas um ou dois forem escandalizados, e caírem em uma armadilha, não terá muita importância, e que não precisaremos nos importar com isso; mas os pensamentos de amor e ternura de Deus estão acima dos nossos.

3. Fica a sugestão de que aqueles que fazem qualquer coisa pela qual qualquer um desses pequeninos é colocado em perigo de perecer, contradizem a vontade de Deus, e o provocam grandemente. E embora eles não possam prevalecer nesse ponto, terão que prestar contas por isso àquele que, em seus santos, como em outras coisas, é zeloso quanto à sua honra, e não suportará tê-la menosprezada (veja Isaias 3.15). “Que tendes vós que afligir o meu povo?” (Salmos 76.8,9).

Observe como Cristo se dirigiu a Deus (v. 19): “Meu Pai que está nos céus”. Ele também chama Deus Pai de “vosso Pai, que está nos céus” (v. 14). O Senhor assim sugere que Ele não se envergonha de chamar os seus pobres discípulos de irmãos. Pois Ele e os discípulos não têm um só Pai? “Subo para meu Pai e vosso Pai” (João 20.17); portanto, Deus Pai é nosso Pai porque é Pai do Senhor Jesus. Isto sugere, da mesma forma, a base da segurança de seus pequeninos: que Deus é o Pai deles, e assim está sempre disposto a socorrê-los. Um pai cuida de todos os seus filhos, mas é particularmente carinhoso com os pequeninos (Genesis 33.13). Ele é o seu Pai nos céus, um lugar de perspectiva. Portanto, Ele vê todos os insultos que são lançados contra eles. Esse também é um lugar de poder; portanto, Ele pode vingá-los. Isso conforta os pequeninos que são ofendidos: a sua testemunha está nos céus (Jó 16.19), o seu juiz está ali (Salmos 68.5).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O COMPLEXO DE ÉDIPO NA MODERNIDADE

O Complexo de Édipo e outras essências psicanalítica frente à nova estrutura familiar.

O complexo de Édipo na modernidade

Na opinião de Ana Maria Bittencourt, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), do ponto de vista psicanalítico, um dos problemas da atualidade acerca dos conceitos freudianos reside no estabelecimento do Complexo de Édipo e na interdição da sexualidade da criança diante das recentes modificações da estrutura familiar. Ela cita como exemplo a clássica imagem do menino apaixonado pela mãe. “Se não existe um homem que diga, ‘sua mãe é minha mulher, você não vai realizar o ato incestuoso com ela’. Se não houver a presença deste terceiro, a criança pode criar a fantasia de que todos os desejos dela podem ser realizados. Logo, tem que haver aquela pessoa que vai interditar”, explica.

Júnia Vilhena, professora do Departamento de Psicologia da PUC- Rio, também lembra que o Complexo de Édipo deve ser entendido como uma interdição que algum agente provoca na relação mãe e filho, algo que rompa a simbiose entre bebê e mãe. Segundo ela, que é também Coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPES) da PUC Rio, o papel de agente interditor pode ser desempenhado por pessoas variadas, ou até mesmo instituições. Como exemplo, ela afirma que “essa função pode ser exercida por uma vizinha, um terceiro elemento que desempenha a função de interditor, pode ser um homem ou até o trabalho”.

HOMOSSEXUALIDADE

Um exemplo claro do quão diferente é a conjuntura histórica que se apresenta à psicanálise hoje, se comparada àquela de Freud, é a polêmica em torno do direito de casais de homossexuais de adotar uma criança. Como ocorreria o processo de identificação com um pai ou uma mãe que tenha desejo por um objeto do mesmo sexo? De que maneira a sexualidade deste indivíduo seria influenciada?

Para Ana Maria Bittencourt, em primeiro lugar, deve-se chamar a atenção para o fato de que a psicanálise não trabalha com o genérico. “Dito isto, é possível que, na singularidade de um determinado casal homossexual, um funcione como aquele que vai se oferecer àquele bebê como o objeto de desejo incestuoso – que vai pegar no colo, dar banho, mamadeira – e o outro vai funcionar como o interditor”, afirma. E conclui: “Eu acho que, de fato, ainda não há tempo de observação para que se possa responder a essa questão”.

Segundo Sara Menezes Cortez, psicanalista da Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro (Aperj Rio 4), a interdição ocorre de formas distintas nas diferentes estruturas sociais. No caso de uma mãe solteira, por exemplo, o Édipo vai se construir na “figura masculina que ela tem dentro dela, no pai, no avô. E no caso de um casal de lésbicas, a construção do Édipo vai se dar na pessoa que desempenha a figura masculina’. Ela ressalta que muito mais do que na pessoa, em si, essas construções se dão na função exercida.

Na opinião da psicanalista e professora da UFRJ, Marci Dória, a reflexão sobre os casais homo parentais passa necessariamente pela compreensão de que todo ser humano, independente da sua anatomia, tem uma possibilidade bissexual intrínseca que pode ser exercida, condição muitas vezes explorada por crianças de ambos os sexos – o que ocorreria em um contexto em que pesam as leis civilizatórias, os costumes, de cada cultura. “Quando você transgride muito uma certa lei organizadora, de um certo caminho civilizatório, as consequências podem ser muito grandes, como um pai que tem relação sexual com uma filha ou uma mãe que tem relações sexuais com um filho”, exemplifica. Nesse sentido, a transgressão ocorreria também em casais heterossexuais e não apenas em casais homo parentais. Deve-se analisar, por exemplo, se o casal está bem estruturado, psiquicamente organizado, se ele sabe lidar com as diferenças e se ele não determina que a criança tem que ser como ele é. “Não acho que a questão esteja na homo parentalidade, mas na maneira como cada um é estruturado. É uma questão de como se lida com a diferença, com a alteridade, com o reconhecimento de que o outro é diferente de você, mesmo que seja um filho que nasceu de você”, defende.

Ela ressalta, entretanto, que não se trata de diminuir a complexidade da questão. “Há consequências? É lógico que sim. Provavelmente em uma sociedade onde o mais natural – se é que a gente pode falar em naturalidade, pois desde que o homem entra na civilização a natureza dele tem a ver com tradição, valores e leis civilizatórias – tudo que foge disso gera um questionamento, causa uma polêmica e o indivíduo terá que fazer um esforço para dar um sentido à situação, para se referir àquilo, àquela situação, de uma certa maneira’.

Embora a questão da interdição, do conflito, seja uma realidade na cultura e, portanto, atual, Celmy Correa, membro efetivo da SBPRJ e psicanalista de criança, lembra que o conceito de Complexo de Édipo é datado, uma vez que foi descrito por Freud com base na família burguesa do século 19. Ela afirma que para o Édipo, e de forma geral para a psicanálise, os conflitos de ambivalência são muito importantes na medida em que são questões humanas.

Se por um lado as novas organizações familiares modificam a forma de manifestação do Édipo e alteram de certa maneira alguns conflitos humanos, por outro, é preciso ressaltar que não existem estudos que demonstrem modificações na sexualidade, agora entendida como manifestação das opções sexuais, em crianças criadas em diferentes formas familiares. “Não necessariamente uma criança criada por esse casal homo genérico terá sua sexualidade comprometida, ou será pervertida”, afirma.

A suposição de que a criança criada por casais homossexuais pode apresentar alterações sexuais é inclusive um grande preconceito que afeta ainda mais os casais homossexuais masculinos, explica Júnia Vilhena. “A homossexualidade feminina é muita mais permitida do que a masculina, é mais fácil para um casal de lésbicas adotar uma criança do que para um casal de homens. Isto porque se faz muita frequentemente uma associação da homossexualidade masculina com a pedofilia”, diz.

As próprias motivações das escolhas como objeto de seu desejo por uma pessoa do mesmo sexo ou uma do outro sexo devem ser questionadas. “Essa é uma questão que a psicanálise ainda não conseguiu responder de maneira satisfatória, inclusive em função do preconceito calcado no medo que rodos nós temos de tomar contato com a nossa própria condição bissexual e, portanto, de tomar contato com fantasias e desejos homossexuais que todos nós podemos ter”, defende Ana Maria Bittencourt.

A analista defende que “a psicanálise precisa levar em conta esse preconceito na hora de refletir sobre as possíveis influências dessas novas configurações na subjetividade de uma criança para poder responder se determinadas patologias serão provocadas pelo fato de haver um casal homossexual ou o quanto isso pode se dever a pressão que tal união pode sofrer dentro de uma sociedade onde ele está inserido”, defende. Bittencourt acrescenta, ainda, que “a repressão faz com que nós alijemos os homossexuais, pois eles são uma ameaça ao tradicional. Eles representam algo que quebrou com a nossa tradição, com a família constituída por pai, mãe e filho”. E pontua: “a homossexualidade não é uma categoria e não se pode patologizá-la”.

 OUTRAS FORMAÇÕES

Se falta perspectiva histórica para analisar os possíveis efeitos da união entre homossexuais e o desenvolvimento da sexualidade do indivíduo neste contexto, outras estruturas familiares bem distintas daquelas encontradas nos pacientes analisados por Freud já se consolidaram – mas nem por isso são plenamente compreendidas. Filhos de pais separados, de pais e mães solteiros, bebês de proveta: hoje se apresenta à psicanálise uma vasta gama de novas considerações vinculares que ela se vê obrigada a levar em consideração.

Na opinião de Júnia Vilhena, os novos laços que começam a ser tecidos na contemporaneidade interferem de maneira importante na organização familiar. Um exemplo bem peculiar das novas categorias de parentesco seria o “ex-irmão”, que surgiria quando um casal que já possuía filhos com outras pessoas se une. Essas crianças, embora não tenham relações consanguíneas, acabam se tornando irmãos postiços e, quando ocorre uma separação elas, viram “ex-irmãos”. A rígida fronteira do incesto, nesse caso, torna-se menos precisa ao passo que existem envolvimentos afetivos, mas não ligação de sangue. A questão na realidade é tão singular que Celmy Correa lembra que em culturas descritas por antropólogos “o incesto entre mãe e filho, pai e filha, não é considerado incesto, ele é permitido. Em muitos casos, o que é barrado é a relação, por exemplo, com o irmão da mãe, ou o tio, ou um avô – dependendo de toda a mitologia que estrutura aquela cultura, que a organiza. Dessa forma, diferentes culturas podem apresentar uma situação edípica aparentemente distinta da nossa cultura ocidental, da organização burguesa”.

Quanto à incerteza que paira sobre o grau de influência dessas transformações, a psicanalista de crianças e adolescentes da SBPRJ Teresa Mancini concorda que ainda é necessário observar melhor as novas organizações da família. Entretanto, ela acredita que “a constituição da identidade se fará de uma maneira mais fácil dentro de uma estrutura familiar harmônica. Harmônica no sentido de ter um casal, ter pai e mãe com papéis definidos, ter uma relação afetiva bem vivida, onde a criança tenha o lugar de filho, o pai lugar de pai e a mãe lugar de mãe”. Para Mancini, essa estrutura, de certa maneira “tradicional”, acabaria favorecendo o desenvolvimento da identidade, agindo como um elemento facilitador.

Quanto às diferenciações de classe social, é interessante observar que determinadas situações podem ser bem características e dessa maneira podem manter alguma ligação com o conceito de sexualidade infantil. Sara Menezes Cortez considera que é possível identificar, nos extremos sociais – em famílias muito ricas ou muito pobres -, uma dificuldade na constituição da subjetividade infantil por conta dos longos períodos em que as crianças muitas vezes permanecem afastadas dos pais. Cortez considera também que situações como o abandono podem facilitar uma identificação por parte da criança com figuras como traficantes, por conta da falta de pais exercendo os seus papéis na construção de sua subjetividade. Os traficantes, no caso, passam a exercer para a criança o papel do pai, e uma das razões para que isso aconteça, de acordo com a especialista, é a proteção que esse traficante acaba, em alguns casos, dando às crianças. Teresa Mancini, por sua vez, considera que realmente haja muitas vezes, por parte de crianças, a identificação paterna em traficantes, mas ela acredita que esta situação é decorrente não de uma razão social, mas sim de um contexto familiar no qual a criança está inserida.

Na opinião de Marci Doria, se a princípio não se pode negar que mudanças na estrutura familiar ocorreram, não se pode afirmar também se o foi para melhor ou pior. Ela questiona inclusive a suposição de que, antes, as famílias eram mais estáveis. ”Às vezes, havia urna mãe profundamente infeliz naquela relação, totalmente amargurada e que amargurava os filhos. Ou um pai que escava em casa, mas que na verdade era muito ausente, que tinha outras famílias escondidas ou outras relações”, defende a especialista.

Doria chama a atenção, ainda, para alguns excessos que ocorreram com a consolidação da psicologia infantil, no processo de reconheci­ mento da criança enquanto sujeito. “A psicologia começou a dizer que se masturbar era normal e que isso fazia parte da descoberta do prazer do próprio órgão, das fantasias, do lidar com o próprio corpo e isso não seria algo a ser punido. No entanto, a partir daí, muitos pais acharam que tinham que ensinar o filho a se masturbar, por exemplo. Nessas circunstâncias é criado um excesso em função de um certo caráter incestuoso, algo complicado – bem diference do indivíduo descobrir as expressões do seu corpo”, explica.

A professora acrescenta que as crianças devem ser ouvidas, mas em alguns momentos criaram-se situações às vezes absurdas em que os adultos não assumiriam mais certas decisões. “Como a criança pode resolver onde é que ela quer escudar ou se ela pode parar de estudar? Os pais delegaram as decisões e as consequências das decisões para os filhos, que, por sua vez, não podem arcar com certas decisões ou consequências. Então, ocorrem determinados excessos e se começa a viver numa espécie de civilização paranoica, em que não se pode fazer nada”.

RELAÇÕES OBJETAIS

A despeito das modificações sofridas pela sociedade e dos desafios decorrentes que se impõem à psicanálise, na opinião de Ana Maria Bittencourt, os conceitos fundamentais de Freud sobre a sexualidade infantil não se modificaram. ”As postulações freudianas de que existe uma sexualidade infantil, de que o recalque desta sexualidade ocupa um lugar inconsciente e essa sexualidade recalcada produz sintomas não sofreram mudanças conceituais”, afirma.

Segundo a especialista, mesmo levando-se em consideração as diferenças entre as várias correntes psicanalíticas que se desenvolveram desde Freud, existe um ponto que as une: o trabalho com o inconsciente. “Faz parte da sexualidade infantil ter o desejo incestuoso, e esse ponto fundamental não mudou. Eu não conheço uma corrente que o negue, pois negar essa questão é negar a existência do inconsciente”, pontua.

Entretanto, se por um lado pode-se afirmar que a teoria se manteve, por outro, não se pode negar que ela sofreu acréscimos importantes. “A psicopatologia tem a ver com toda uma história e, evidentemente, a cultura em que estamos inseridos produz determinados sintomas que antes não eram expressos com tanta abundância quanto outros. Exemplos são os problemas das adições, dos distúrbios alimentares, das doenças psicossomáticas”, diz

Tais patologias, conforme explica Bittencourt, diferem das situações neuróticas à medida que se caracterizam por uma pobreza de processos simbólicos. Ela cita como exemplo o caso de jovens levados ao consultório por suas mães em função de uma bulimia e que não necessariamente, têm um sofrimento psíquico.  “Esse indivíduo tem uma queixa apenas de que vomita e de que isso é muito desconfortável para ele. Essa situação muda um pouco a técnica, pois o analista tem que partir do princípio de que neste tipo de patologia não necessariamente se está trabalhando com um recalcado. Pode-se estar diante de um outro tipo de defesa, com outro tipo de explicação para a formação desse sintoma – o que pode ter relação, por exemplo, com o que certos autores consideram como sendo falhas ambientais. Ou seja, são doenças que não são produzidas por um recalque da sexualidade, mas por uma falta da capacidade que a pessoa tem de ter uma experiência psíquica do que está se passando. A experiência passa direto para o corpo. O corpo fala de algo de que o psiquismo não consegue expressar de outro modo”, afirma. Para ela, estas seriam as “doenças da contemporaneidade” ou “patologias do vazio”. “O tipo de cultura narcísica em que estamos inseridos, com essa valorização do corpo, com essa hiper­sexualização presente das crianças, com essa sociedade muito consumista, que dá a objetos valores muito grandes, favorece que este tipo de patologia floresça mais hoje, possivelmente, do que naquela época de Freud”, diz.

A tentativa de dar conta de tais quadros, tendo em vista possíveis falhas ambientais, deu origem justamente à teoria das relações de objeto, que para muitos – entre eles Bittencourt – seria um desenvolvimento das teorias freudianas. “Winnicott, principalmente, foi um dos autores que partiram da compreensão de que existem determinados sintomas que não mais são devido a um conflito intrapsíquico relacionado às pulsões sexuais, aos recalques e a uma instância superegóica. O sintoma neurótico se daria no fundo por um conflito entre a sexualidade e uma instância censora que vai dizer que aquele desejo sexual é proibido”, destaca a psicanalista.

Bittencourt explica que, em síntese, os teóricos das relações de objeto propõem que determinadas formações sintomáticas vão se dever a uma falha ambiental, ou seja, a uma falha do objeto, do outro, em poder funcionar como um esquema de proteção às pulsões. “Digamos assim: é suposto que a esse objeto, a mãe, por exemplo, caiba ter uma função de proteger o eu infantil de um excesso pulsional. Então, se o objeto falha em atender a essa necessidade de proteção, aquela excitação que o eu infantil experimentou torna-se uma condição traumática. Há uma necessidade de que o objeto funcione com essa função de acolhimento, de dar um envolvimento àquele eu infantil para que ele não se transborde em uma excitação excessiva”, resume.

A psicanalista acrescenta, ainda, que tais teóricos propuseram um tipo de abordagem, uma técnica, uma prática clínica que supre essa limitação daquele paciente de estabelecer a neurose de transferência. “Eles acharam que esse trabalho daria conta de cercas patologias que Freud, com os instrumentais de que ele possuía na época, acreditou que não poderia abranger”, pontua. Ela acrescenta ainda que “o fato de uma pessoa ter tido falhas no ambiente precoce não significa que ela não tenha problemas relacionados à sexualidade. E os dois níveis de situação podem aparecer no material de uma determinada sessão psicanalítica”.

SEXUALIDADE HOJE

Na opinião de Marci Doria, ocorreu uma cerra ampliação conceitual do conceito de sexualidade. “Isso ampliou toda discussão e base teórica sobre o assumo, o que certamente implicou numa melhora de atendimento. Hoje já se sabe uma série de mecanismos relacionados ao desenvolvimento de psicoses que afetam o nosso relacionamento com o outro. Isto certamente torna melhor a nossa escuta e abre a possibilidade de operar analiticamente com pacientes muito mais graves. Antigamente não se tinha isso. Além disso, a psicanálise atualmente não seria só para ricos, já que existe uma série de trabalhos sociais que visam a levá-la a diversas comunidades carentes”, destaca.

Para Doria, as mudanças no que diz respeito à sexualidade infantil foram fundamentalmente técnicas e, nesse sentido, o psicanalista deve ver o que está disponível em cada paciente em termos de recursos, vocabulário, formas de dar sentido ao que está se passando. “É necessário verificar o universo cultural e os valores de cada pessoa porque aquele valor teve certamente algum efeito na vida dela. Cada pessoa tem um inconsciente, mas ele se dá de forma singular. Não é o conceito que muda, mas o modo de operá-lo. Tudo dependerá do objeto com o qual se lida e o jeito de lidar com ele. No tratamento de crianças, por exemplo, é comum a utilização de jogos e de brincadeiras de mãe e filho, enquanto que em adultos são utilizados psicodramas”, argumenta.

A ORIGEM

Apesar dos muitos direcionamentos que a pesquisa do inconsciente dinâmico tomou, na opinião de José Candido Bastos, membro da SBPRJ, o pilar central do qual saem todas as teorias é o de Freud. “Foi dito por muita gente que havia um inconsciente, mas que não haveria formas de explorá-lo e Freud, indiscutivelmente, foi a primeira pessoa do mundo a descobrir uma forma de explorar esse inconsciente”, afirma.

Dentre as contribuições dos diversos autores para o desenvolvimento da psicanálise, o estudioso destaca os esforços despendidos na tentativa de compreender o universo infantil. “Todas os teóricos que vieram depois trataram diretamente de crianças, como Melanie Klein, Winicott entre outros. Eles tiveram esse relacionamento e tentaram compreender o mundo infantil e como ele era estruturado. E descreveram isso de uma forma muito mais detalhada, muito mais aprofundada do que Freud”, afirma.

Entretanto, ele salienta que isto diminui de maneira alguma a importância do “pai” da psicanálise na contemporaneidade. “O trabalho fundamental do analista é trabalhar com o inconsciente dinâmico. Este trabalho tem tido a possibilidade de mudanças muito fecundas, muito eficientes, mas sempre apoiados naquela base sólida que Freud estabeleceu e que realmente ainda é válida até hoje”, ressalta Bastos.

Na opinião de Luiz Antônio Telles de Miranda, membro da Aperj Rio 4, muitas vezes ocorre um certo reducionismo dos autores pós-freudianos ao pensamento de Freud, quando, na verdade, eles seriam independentes. “Eu creio que o grande enriquecimento da técnica para nós, como analistas, é justamente diferenciar muitíssimo bem o que os teóricos das relações de objeto entendem que é o psiquismo, o porquê do adoecer. E mesmo dentro dos teóricos das relações de objeto, pode-se perceber, por exemplo, que Winnicott pensa diference de um Kohut, que pensam diferente do Ferenczi”, defende. Ele acrescenta que “nada disso pertence à teoria Freudiana, mas pode nos ajudar a trabalhar o complexo de Édipo, que é o que Freud propõe”.

Um ponto que diferenciaria os teóricos da relações de objeto da teoria freudiana, no ponto de vista do estudioso, é que Freud por exemplo, faz um psiquismo fundado e angústia e resolvida em princípio de prazer “O fundador das teorias das relações de objeto, que na minha opinião é Ferenczi, era um contemporâneo e um discípulo de Freud mas tinha uma compreensão diferente do adoecer psíquico e cria uma estrutura do psiquismo diferente. Se ele cria uma estrutura do psiquismo diferente, mudam a técnica, os objetivos e as indicações”, destaca Telles de Miranda. E conclui: “a teoria do Freud ser sempre a teoria do Freud, pois ele funda psiquismo de uma única maneira. Parece-me que ela continua viva”.

NEUROCIÊNCIA: CASAMENTO POSSÍVEL

De acordo com José Candido Bascos, a relação estabelecida entre a psicanálise e a neurociência é um processo controvertido. “Entre os analistas alguns acham que a neurociência não traz nenhuma contribuição para a psicanálise, alguns dizem até que seria um elemento que facilita uma destruição da análise, uma destruição do valor da psicanálise”, afirma.

Ele, entretanto, discorda dessa posição. “Na minha opinião, e na de um número cada vez maior de pessoas ligadas à nossa ciência, é evidente que essas descobertas trazem esclarecimento sobre alguma coisa que nós afiançávamos, que nós afirmávamos de uma maneira empírica e que com essas pesquisas científicas agora podem ser provadas com roda a tecnologia moderna – uma tecnologia que não pode ser negada e que, já em sua época, Freud imaginava que pudesse haver no futuro. Tanto assim, que em determinados trabalhos ele afirma:·’isso será esclarecido no futuro’. São vários os trabalhos em que ele faz essa referência e essa suposição”, ressalta o especialista.

Bastos cita como exemplo de aproximação entre as postulações freudianas e as recentes descobertas da neurociência sobre a questão do esquecimento de todos os fatos ocorridos até os cinco anos de idade. Esta questão é particular­ mente importante na medida em que é nesta fase da vida que ocorre a formação do inconsciente dinâmico, que vai dar matiz, colorido, forma à toda a vida futura.

“Freud afirmava isso, mas sem nenhuma comprovação. A neurociência moderna, por sua vez, explica que a criança não é capaz de registrar na memória aqueles acontecimentos, pois o aparelho de memorização, que é o hipocampo, ainda não está mielinizado, ou seja, não está pronto para memorizar”, afirma o psicanalista. Ele explica ainda que, depois dos cinco ou seis anos, a criança começa a possuir as características necessárias para registrar a memória. “E aí se passa a uma outra memória, a evocável. E não mais aquela memória que dinamicamente é importante, mas não pode ser evocada”, pontua.

Outro exemplo de uma possível colaboração entre as ciências, de acordo com Bastos, são os trabalhos desenvolvidos por Eric Kandell sobre a classificação das memórias. “Kandell divide as memórias em Declarativas (explícitas) e Procedurais (implícitas). As primeiras registram todos os fatos e eventos ocorridos e estão mediadas pelo córtex pré-frontal. Esta seria a área correspondente ao consciente e pré-consciente na visão de Freud”, explica o psicanalista.

A memória procedural (implícita), por sua vez, segundo a descrição de Kandell, seria composta por quatro elementos: o primeiro ligado à conduta, o segundo à parte de reconhecimento de estímulos ligados ao neocórtex, o terceiro ligado ao condicionamento clássico, que daria as respostas emocionais e as reações músculo esqueléticas, e um último componente que seria o do aprendizado automático.

“Todos esses elementos estariam contidos no que Freud chamou de inconsciente dinâmico, que nunca chega diretamente ao consciente, mas que continua mostrando sua existência, estabelecendo uma maneira de ser, um comportamento que se repete por toda a vida – e que como consequência aparece na situação analítica. Situação em que o paciente não se lembra de nada do que foi vivido e esquecido, mas age em função disco”, pontua Bastos.

Segundo ele, era este inconsciente que Freud explorava com a psicanálise e que a neurociência tenta localizar anatômica e funcionalmente, o que seria um encontro entre as duas ciências. “Na memória procedural (implícita) temos um exemplo biológico de um componente da vida mental inconsciente”, afirma Bastos, citando Kandell. “A ciência está se rejuvenescendo, com isso criando coisas muito novas e que mostram que muito do que Freud disse pode ser comprovado cientificamente”, conclui.

OUTROS OLHARES

A HERANÇA DO RACISMO

Meio século após a morte de Martin Luther King, o mundo ainda vive mergulhado em discursos de ódio contra a população negra.

A herança do racismo

Em 1963, o pastor afro-americano Martin Luther King fez um discurso histórico contra o racismo na Marcha de Washington. “Eu tenho um sonho”, disse ele. Ganhador do Nobel da Paz de 1964, o líder político foi assassinado em 4 de abril de 1968. Meio século após sua morte, o sonho de Luther King ainda se mantém, assim como o ódio que ele combateu. Provas disso são os discursos de supremacistas brancos nos Estados Unidos e na Europa, carregados de xenofobia e preconceitos raciais

“É evidente que houve evolução no que diz respeito aos direitos civis de forma que a população negra pudesse alcançar espaços de poder que antes eram inalcançáveis. Mas isso ficou muito longe de representar uma superação do racismo”, diz o professor Tiago Vinícius dos Santos, doutor em direitos humanos pela Universidade de São Paulo (USP). Ele cita como exemplo a eleição de Barack Obama nos Unidos. Ao alcançar o poder máximo no país, o ex-presidente deixou a impressão de que não era mais necessário discutir o racismo. “Há uma tentativa de excluir, de uma vez por todas o debate racial das políticas públicas”, afirma. Durante a era Obama, os insultos raciais tomaram uma proporção muito maior do que no período pré direitos civis. A ideia equivocada de que os EUA superaram a discriminação ficou evidente com o fortalecimento de discursos como o de Donald Trump. O confronto entre supremacistas brancos e militantes do movimento negro em Charlottesville, no ano passado, é um exemplo de como o atual presidente dos EUA lida com questões raciais. Trump em nenhum momento condenou os supremacistas e manteve a ideia de que houve violência das duas partes. “O grande problema é ter na presidência alguém que vai legitimar o lado mais horrível da história, algo que não pode acontecer novamente”, diz Santos.

Os discursos de ódio racial não se limitam aos EUA. Em vários países da Europa, a direita radical avança atacando imigrantes, apontados como vilões durante muitas campanhas eleitorais de partidos nacionalistas, que acusam os estrangeiros de tirar emprego das populações locais. O fenômeno das fake news está diretamente ligado a isso. Nos tempos atuais, a pregação racista só mudou de plataforma, passando da televisão para a internet. É o que afirma Virgílio Pedri Rigonatti no recém-lançado “Cravo Vermelho, livro que narra os acontecimentos que marcaram os anos 60. Ele lembra, por exemplo, de ver na TV marchas lideradas por Luther King e de, ao mesmo tempo, acompanhar a Ku Klux Klan no noticiário. “O assassinato foi um balde de água fria nos jovens”, diz o escritor.

ONTEM E HOJE

“Uma figura emblemática que ultrapassa os limites dos Estados Unidos.” É assim que o pró-reitor de assuntos comunitários da UFABC Almeida, doutor em sociologia pela USP define Luther King. Para o especialista, desde o surgimento do líder americano, o racismo foi mudando de face ao longo dos anos. “O racismo é a última fronteira do ódio e, de tempos em tempos, ele aparece mostrando sua fúria”, afirma Almeida, citando a tentativa de Israel de expulsar imigrantes africanos, em março. As investidas contra os imigrantes só acabaram com a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU), na semana passada. “Então não aprendemos nada com a história? Segundo o professor Almeida é importante considerar que o racismo é estruturante na sociedade brasileira e no mundo. E que, para resolver essa questão, é funda primeiro, reconhecer que ela existe.

 

Fonte: Revista Isto É – Edição 2520

GESTÃO E CARREIRA

MERITISSIMO ROBÔ

Meritíssimo robô

Cerca de 1050 advogados têm usado um robô para escrever as petições e dar entrada nos processos de clientes que pagaram mais ICMS nas contas de luz e querem pleitear uma restituição do governo. O Eli, de Enhanced Legal lntelligence, foi lançado no final do ano passado pela Tikal Tech, que desenvolve sistemas de inteligência artificial após seu CEO perceber a oportunidade de mercado.”[O ICMS] é uma causa que, se não tivesse essa automação, não valeria a pena para os advogados, pois os valores são baixos e o trabalho muito cansativo, já que envolve levantar faturas de luz de vários anos, diz Derek Oedenkoven, CEO da empresa. O empreendedor, entretanto, não acredita que as máquinas sejam uma ameaça significativa aos profissionais de direito. “Muitos casos judiciais são repetitivos, mas outros são totalmente novos, o que demanda uma capacidade intelectual dos advogados para a defesa de novas teses”, afirma. A inteligência artificial vai resolver os processos que são mecânicos e tomam tempo,”

 

Fonte: Revista Você SA – Edição 237