GESTÃO E CARREIRA

CADA UM POR SI

A crise econômica e a Gig Economy criaram uma legião de trabalhadores sem carteira assinada no Brasil. Embora seja uma oportunidade de gerar renda, a informalidade pode trazer prejuízos para toda a sociedade

A carteira vazia e a incerteza de quando isso mudará compõem um retrato da atual situação de Wanderley Júnior, de 39 anos. Com duas décadas de experiência na área comercial e passagens por empresas como Unilever e Makita, o profissional está desempregado há 14 meses. Sobrevivendo de bicos que faz como marido de aluguel, em que realiza pequenas manutenções em residências, e como assistente de produção de eventos, Wanderley viu seu padrão de vida mudar radicalmente. “Tive de vender meu carro para quitar o financiamento do automóvel, e minha renda diminuiu cerca de 60%”, afirma.

Casos como o de Wanderley, infelizmente, estão se tornando cada vez mais comuns. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), até maio de 2019, assim como o paulistano, outros 40 milhões de brasileiros trabalhavam no mercado informal. O número é 8% maior quando comparado ao mesmo período do ano anterior. O avanço da informalidade é um dos reflexos da crise econômica, que perdura no Brasil desde 2014. “A recessão e o aumento do desemprego fazem com que cresçam os subempregos: trabalhos sem vínculo empregatício cujas principais características são a baixa produtividade e a má remuneração”, afirma Ruy Braga, pesquisador e professor na Universidade de São Paulo. Os dados comprovam essa realidade. Em março, o número de desempregados no Brasil atingiu a marca de 13,4 milhões de pessoas, segundo o IBGE, enquanto a economia do país retraiu cerca de 0,68%.

Nesse cenário, a informalidade muitas vezes é a única opção para os trabalhadores recém-desempregados, incluindo pessoas com experiência e formação superior, como Wanderley, formado em ciências tecnológicas pela Universidade Federal do ABC, de São Paulo. “Na situação em que estou hoje, sinto-me depreciado. Existem muitos profissionais qualificados aceitando cargos inferiores aos que poderiam ocupar para ter estabilidade. O último trabalho que consegui não dava nem sequer para pagar as contas do mês”, diz.

Com a reforma trabalhista, aprovada em 2017, os bicos ganharam respaldo legal. Na nova legislação há a previsão da modalidade de contrato em regime intermitente, pelo qual as empresas podem admitir os trabalhadores por horas, dias ou meses específicos. Embora ofereça a possibilidade de conseguir uma ocupação com o mínimo de estabilidade, especialistas criticam a opção por representar uma precarização das condições de trabalho. De acordo com Bruno Ottoni, pesquisador do Idados e do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a adoção desse novo modelo, contudo, ainda não é expressiva. “A falta de segurança jurídica sobre esse tipo de contrato, já que a legislação é recente e existem muitos pontos que não estão claros, faz com que as empresas se sintam receosas em contratar mediante esse regime”, afirma.

UBERIZAÇÃO E GIG ECONOMY

Além do contexto econômico, o avanço da tecnologia também é um dos responsáveis pelo aumento dos informais. E a tendência de contratação de freelancers por plataformas digitais, como Uber, Ifood e Rappi, ganhou até um nome: Gig Economy, ou economia dos bicos. No Brasil, estima-se que 5,5 milhões de pessoas trabalhem para esses aplicativos de serviços. Se elas fossem reunidas em uma mesma folha de pagamentos, em conjunto, o algoritmo seria o maior empregador do país. “Com o aumento do desemprego, essas ferramentas tornaram-se uma das maneiras que as pessoas encontraram para a criação de renda”, diz o economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria. A estudante de farmácia Renata Meira, de 39 anos, é um desses trabalhadores. Há três meses, a pau- lista largou o emprego fixo em uma agência de aluguel de automóveis para trabalhar como motorista de aplicativos de transporte, como 99 e Lady Driver. Seu objetivo era ter mais flexibilidade. “Como optei por me demitir, estou feliz em ter liberdade”, afirma. Para conseguir obter a mesma renda que possuía com o antigo emprego, cerca de 2.500 reais mensais, Renata afirma trabalhar 10 horas por dia. Embora tenha largado o emprego fixo por vontade própria, a profissional reconhece os desafios, principalmente o assédio ao qual está sujeita sendo mulher e trabalhando nas ruas. Tanto é que a escolha pelo Lady Driver, plataforma de transporte exclusiva para mulheres, não foi à toa. “Sinto-me muito mais segura com essa opção”, diz Renata. Contudo, como atua com outras empresas, que atendem público misto, a profissional teve de recorrer a recursos próprios para se prevenir. “Tenho um grupo no WhatsApp com outras mulheres, no qual trocamos experiências, conversamos sobre nossa rotina e mandamos uma para a outra nossa localização. Funciona como uma rede de proteção”, afirma.

Para os gigantes de tecnologia detentores desses aplicativos, Renata e os outros motoristas são trabalhadores autônomos, que não possuem vínculo empregatício. Além de não estarem sujeitos a nenhuma regulamentação e proteção legal, os profissionais que desenvolvem esse tipo de trabalho deixam de contribuir para a Previdência e de possuir benefícios como FGTS, férias ou décimo terceiro e arcam com todo o custo da atividade que exercem. Segundo Trebor Scholz, professor na The New School, em Nova York, e autor do livro Uberworked and Underpaid (“Uberexplorados e sub-remunerados”, numa tradução livre), esses trabalhos, embora sejam considerados ocupações fáceis e com alto grau de flexibilidade, escondem problemas que não são nítidos. “As tarefas da economia dos bicos são muitas vezes curtas, temporárias, precárias e imprevisíveis, e há pouca esperança de progresso na carreira”, afirma.

Motoristas ouvidos pela reportagem, aliás, afirmam sofrer com problemas de coluna e pressão psicológica pelo estresse no trânsito, além das longas jornadas de trabalho. Por esses motivos, as empresas da chamada Gig Economy estão no centro de uma discussão mundial sobre a responsabilidade dessas companhias milionárias sobre as condições de trabalho da mão de obra que contratam. No dia 8 de maio de 2019, por exemplo, motoristas da Uber fizeram uma paralisação em cidades no mundo todo, demandando direitos como maior garantia de segurança pela companhia e diminuição da taxa de corrida que é descontada pela corporação. “Como podemos falar em ‘compartilhamento’ ou ‘inovação’ quando um terceiro monetiza sobre todas as suas interações para o benefício de um pequeno grupo de acionistas?”, questiona Trebor Scholz em seu livro. No Brasil, o autônomo dessas plataformas não possui direito trabalhista definido. Embora algumas decisões da Justiça do Trabalho tenham determinado que há vínculo empregatício entre motoristas e empresas de aplicativos de serviços, outras vão no caminho oposto. “A tecnologia está levantando questões jurídicas que o direito ainda não está pronto para responder”, diz o advogado Renato Lang. Renan Kalil, procurador do Ministério Público do Trabalho, completa: “Como o Tribunal Superior do Trabalho ainda não julgou nenhum caso sobre os direitos trabalhistas desses profissionais, não há uma decisão final sobre o reconhecimento ou não desse vínculo”. No meio do limbo jurídico, quem sofre são os trabalhadores dessas plataformas, que ficam duplamente desprotegidos — pelas empresas e pelo Estado.

TENDÊNCIA PARA O FUTURO?

Segundo especialistas, se por um lado a informalidade tende a cair com a retomada da economia e a criação de postos de trabalho formais, por outro a nova economia criada pelos aplicativos de serviços veio para ficar. A questão, segundo eles, é a pressão cada vez maior por uma legislação que regulamente essa atividade. “É impossível manter uma jornada de 10 horas por dia ao longo de dez a 20 anos. Chegará uma hora em que será preciso criar parâmetros legais”, afirma Ruy Braga, da USP.

Mas se engana quem acredita que os prejuízos da informalidade estejam restritos aos trabalhadores. Segundo economistas, a dinâmica do PIB, um dos termômetros do crescimento da economia, está mais ligada à população ocupada no trabalho formal do que no informal. Isso acontece porque entre os informais o rendimento médio é menor e, consequentemente, o poder de compra também é. “Se a pessoa possui um salário fixo por mês, ela também consegue se comprometer com dívidas de longo prazo, como o financiamento de um automóvel ou imóvel e empréstimos no banco, o que aquece a economia”, diz Thiago Xavier.

Além disso, com tamanha parcela de trabalhadores que deixam de contribuir com o INSS, a previdência social do país também é afetada. “Todos vão pagar a conta. Os contribuintes terão de arcar com a aposentadoria dos informais, e isso virá de onde?”, questiona Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE. No caso dos aplicativos, em maio deste ano o presidente Jair Bolsonaro assinou o decreto 9.792, que obriga motoristas de plataformas digitais a contribuir com o INSS. De acordo com o texto, eles podem optar por ser microempreendedor ou contribuinte individual.

Por fim, a informalidade também afeta as condições de vida dos cidadãos e aumenta as desigualdades. Por isso, no relatório Trabalho para um futuro mais brilhante, publicado em janeiro deste ano, a Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), recomenda que governos e empresas aumentem os investimentos em ocupações sustentáveis e decentes para diminuir esse processo de precarização. “Os trabalhadores da economia informal frequentemente melhoram sua situação por meio da organização, trabalhando em conjunto com cooperativas e organizações baseadas na comunidade”, afirma o relatório. Trebor Scholz, inclusive, defende a criação de cooperativas que representem os trabalhadores que atuam por aplicativos. Em seu outro livro, Cooperativismo de Plataforma (Editora Elefante, 20 reais), ele defende dez princípios para a existência de uma relação equânime entre empresas e profissionais, entre eles: pagamentos decentes e seguridade de renda, transparência de dados, uma moldura jurídica protetora, rejeição de vigilância excessiva no trabalho e direito de se desconectar.

Um cenário com todos esses direitos, contudo, parece longe de se concretizar. Basta lembrar do episódio recente, no qual um motorista da empresa de entregas rápidas Rappi morreu depois de sofrer um acidente vascular cerebral e ser ignorado pela companhia, em São Paulo. O caso gerou repercussão e fez com que a startup tivesse de prestar esclarecimentos ao Procon do estado. Em nota, a Rappi respondeu que “não contrata entregadores parceiros. Muito pelo contrário, são os entregadores que contratam a Rappi para, por meio da plataforma tecnológica disponibilizada, entrar em contato com os usuários e angariar clientes para sua atividade comercial de motofrentistas”. A empresa ainda informou que, após o incidente, está desenvolvendo um botão de emergência para auxiliar os trabalhadores. Mesmo com essas alegações, o parecer inicial do Procon-SP concluiu que a falta de vínculo não isentava a Rappi da responsabilidade sobre os entregadores que prestam serviços para a empresa. A decisão pode ser encarada como uma pequena vitória, mas o episódio mostra a urgência na criação de mecanismos que protejam os profissionais — e evitem que histórias trágicas como essa se repitam.

DE OLHO NO BOLSO

Como se organizar financeiramente para enfrentar a informalidade

SEM PERDER DE VISTA

O consultor financeiro Mauro Calil orienta ao trabalhador informal que evite parcelar as compras no cartão de crédito e opte por pagar as despesas à vista para não se enrolar.

DENTRO DA LEI

Para o planejador financeiro José Raymundo de Faria Júnior, todo trabalhador autônomo deve contribuir para o INSS, segundo a lei. Ele afirma que a Receita Federal está fiscalizando com mais intensidade quem sonega esse imposto e indica a categoria de Microempreendedor Individual (MEI) como a mais barata para o informal.

RESERVA DE EMERGÊNCIA

Embora difícil em contextos em que o dinheiro não está sobrando, Mauro Calil orienta ao trabalhador que tente economizar o equivalente à de seis a 12 meses de despesas para situações inesperadas. “Isso vai proporcionar tranquilidade. Se houver algum empecilho de saúde, por exemplo, o indivíduo terá um período para se recuperar”, diz.

A ECONOMIA DOS BICOS

Enquanto os empregos formais caíram, os informais cresceram nos últimos anos

QUESTÃO GLOBAL

O trabalho sem vínculo formal é uma realidade em todo o planeta

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 15 – SOGROS CONTROLADORES

Problemas com sogros controladores são mais comuns entre recém-casados, mas com certeza podem ser um fator que se estende além dos primeiros anos de casamento. Quando enfrentamos conflitos entre nosso cônjuge e nossas famílias, é natural querer defender os pais (ou outros parentes) a quem conhecemos por toda a vida. Todos nós deveríamos ter um grande amor e respeito pelos nossos pais. Mas embora você possa frequentemente aceitar de bom grado o conselho de seus pais, uma vez que tenha se casado, sua obrigação principal é para com o seu cônjuge.

Antes de nosso filho mais velho se casar, eu (John) disse a ele: “Addison, não vou lhe dizer o que fazer em nenhuma área a não ser que você peça meu conselho. Não vou mais tomar a iniciativa de direcionar sua vida. Você está estabelecendo sua própria família, e quero lhe dar espaço para aprender e crescer”. Addison expressou sua gratidão por essa postura e me consulta sempre que deseja o meu conselho.

Meu desejo não é controlar meu filho ou moldá-lo, transformando-o em um clone meu. Quero que Addison se torne tudo o que Deus o criou para ser – e meu excesso de envolvimento em seu casamento poderia impedi-lo de assumir seu papel como líder do próprio lar. (Francamente, tenho ficado impressionado com o que ele tem feito com a sua família. É muito melhor do que eu consegui realizar quando tinha a idade dele!)

A Bíblia é clara:

… O homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. Gênesis 2:24, grifo do autor

Deixar seu pai e sua mãe desse modo significa deixar a autoridade da casa de seus pais. Também significa que você deixa qualquer influência pouco saudável que seus pais possam ter sobre você. É importante honrar seus pais, mas você pode honrá-los sem obedecer a eles. Você formou uma nova família com uma nova hierarquia. Seus pais não são mais as suas figuras de autoridade, de modo que eles não devem dirigir sua vida ou seu casamento.

Talvez você tenha de lidar com sogros que tentam se envolver demais no seu casamento. No início do nosso casamento, um de nossos sogros tentou nos manipular e gerar divisão na nossa união. O envolvimento dela estava se tornando destrutivo, e nossas tentativas sutis de tratar do problema não estavam adiantando. Finalmente, nos encontramos com essa pessoa (a quem ambos honramos e amamos) e expressamos nossa posição claramente.

Eu (John) disse: “Você não vai se envolver na maneira como minha casa é conduzida. Este é um lar totalmente novo. Nós honramos você, mas você não vai controlar as decisões nesta casa. Você não vai nos manipular nem conseguir que as coisas sejam do seu jeito”. Tive de usar palavras fortes porque as abordagens mais indiretas haviam falhado. Felizmente, esse parente entendeu o que estava acontecendo, e agora ela ocupa um lugar apropriado e saudável no nosso relacionamento.

Como casais, devemos proteger nossa união contra toda forma de ataque, inclusive dos membros de nossa família. Geralmente esses ataques não são maliciosos e podem parecer inofensivos. Eles frequentemente assumem a forma de pequenas piadas depreciativas, mas essas observações sutis são sempre destrutivas. Quando realizo cerimônias de casamento, olho para todos os amigos e para a família que está presente e digo: “Ai de vocês que falarem contra esta união. Esta é uma união ordenada por Deus. Não ousem tentar manipulá-la ou separá-la. Declarem apenas vida sobre o que Deus estabeleceu hoje”.

Quando Addison se casou, decidimos deliberadamente não fazer com que ele escolhesse entre sua esposa Juli e nós. A verdade é que ele fez sua escolha no dia em que se casou com Juli, e ficamos muito felizes com sua decisão! Nesse contexto da dinâmica familiar, o amor nunca faz as pessoas escolherem. O amor apoia e constrói pontes entre os relacionamentos antigos e os novos.

Amamos Juli e sentimos que ela é muito mais uma filha que uma nora. Essa proximidade só é possível porque respeitamos sua nova família e permitimos que ela e Addison escrevam sua própria história.

EXPECTATIVAS NÃO REALISTAS

Expectativas não realistas estão entre os motivos para o divórcio mais citados nos Estados Unidos.8 Muitos de nós entramos no casamento esperando felicidade eterna, sexo ininterrupto e um relacionamento tranquilo. Não esperamos que o casamento exponha fiel e irredutivelmente nosso egoísmo e nossas inseguranças, nem prevemos as fraquezas e falhas que encontraremos em nossos cônjuges. Nossas expectativas equivocadas podem se tornar uma fonte de amargura e descontentamento, o que invariavelmente nos impedirá de construir uniões segundo o coração de Deus.

Expectativas não realistas são frequentemente alimentadas por comparações feitas de maneira tola. Estamos impregnados de uma cultura guiada pelo entretenimento. Portanto, estamos constantemente tendo oportunidades de comparar nossos casamentos com aqueles que são retratados nas telas. O cinema e a televisão nos oferecem amor sem trabalho, beleza sem sacrifício e confiança sem risco. Eles enfatizam o aspecto romântico do relacionamento sem retratar os momentos menos “hollywoodianos” da vida.

Se já está casado há algum tempo, você percebeu que o casamento é feito de mais do que encontros românticos, compatibilidade perfeita e dias livres de responsabilidade. Casamento é trabalho árduo, e em geral ele é caótico.

Só porque seu casamento é difícil isso não significa que você não deveria estar casado. Os desafios do casamento são bons porque eles o levam a dar mais de si. Eles refinam seu caráter e o tornam mais capaz. Esse relacionamento tem a ver com grandeza, lembra-se? Todos amam a ideia de crescer e amadurecer, até que passam por uma situação que exija amadurecimento.

A questão das expectativas não realistas não tem a ver apenas com a maneira como a mídia retrata o casamento. Também cometemos o erro de comparar nossos casamentos com os de nossos amigos ou vizinhos. Essa é uma péssima ideia. Não há como sabermos o que se passa por trás dos bastidores do relacionamento dessas pessoas. Tudo pode parecer excelente, mas eles podem estar destruindo um ao outro por trás das portas fechadas.

Também é tentador comparar as diferentes fases dentro do nosso relacionamento. Podemos comparar o momento atual – com filhos, fraldas e pouco tempo livre – a como nosso relacionamento era antes de termos filhos. Logicamente, isso não faz sentido algum. Não há como a sua vida ficar exatamente a mesma depois de você ter filhos. Criar filhos envolve muito menos liberdade e muito mais responsabilidade. Ter filhos muda a sua vida de forma inerente, portanto seu relacionamento matrimonial também será diferente. Sabemos que isso não é muito difícil de entender, mas quantas vezes nos vemos fazendo comparações tolas que diminuem ou sugam a alegria e a realização que estão à nossa disposição no presente?

Theodore Roosevelt disse: “A comparação é o ladrão da alegria”. Se quiser encontrar alegria no seu casamento, você precisa parar de comparar seu relacionamento com outros que parecem ser melhores, quer sejam eles os relacionamentos dos seus vizinhos ou os que são retratados em uma tela. Você nunca encontrará alegria na comparação. A alegria não é mesquinha, portanto, não pode ser obtida através da mesquinharia. Ela transcende as circunstâncias, não está confinada aos sentimentos e encontra sua força em uma consciência do quadro maior – a totalidade do plano de Deus para a sua vida.

A alegria é um fruto do Espírito (ver Gálatas 5:22-23), o que significa que ela é recebida de Deus e não das circunstâncias. Ela não pode ser gerada pela vontade humana. Embora a felicidade seja um sentimento afetado pelas lutas temporais, a alegria transcende as dificuldades. Ela se origina na esperança inspirada pela nossa posição em Cristo. Se nos falta alegria em Deus, nos faltará a força que precisamos para viver bem o casamento, porque a alegria Dele é a nossa força (ver Neemias 8:10). Paulo ecoou esse sentimento nas suas palavras à igreja de Filipos:

Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: Alegrem-se! Seja a amabilidade de vocês conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus. Filipenses 4:4-7

Quando você estiver ansioso por causa do seu relacionamento, leve os seus pedidos a Deus com alegres ações de graças. Ele prometeu trocar as suas preocupações pela paz Dele. Essa é uma boa troca!

Expectativas não realistas roubarão sua alegria e, portanto, roubarão de você a força necessária para seu casamento. Não caia nessa armadilha. Identifique quaisquer expectativas que tenham criado fortalezas no seu relacionamento e arrependa-se por permitir que elas tenham precedência sobre a verdade da Palavra de Deus e o Seu plano único para a sua vida.

AGORA É A SUA VEZ

Por favor, dedique algum tempo para conversar com seu cônjuge sobre o conteúdo deste capítulo. Peça ao Espírito Santo para guiar vocês enquanto anotam o que precisa ser eliminado do seu casamento. Algumas das alterações necessárias serão ajustes de atitude e mudanças de comportamento, que Deus os capacitará a fazer pelo poder da Sua graça. Outras, como as maldições hereditárias, devem ser confrontadas em oração.

Não desanime se você descobrir que suas listas de alterações necessárias têm diversas páginas. Esse exercício não tem a ver com o quanto há de “errado” no presente, nem tem a ver com qual dos cônjuges tem mais problemas. Ele tem a ver com as coisas magníficas que podem ser geradas no seu futuro. Tratando desses problemas agora, vocês estão posicionando sua família para escrever uma história brilhante, um legado do Céu revelado na Terra. Queremos que vocês limpem o convés, para poder seguir em frente livres de tudo que poderia impedi-los de receber todo o bem que Deus tem para vocês. Nós construímos a oração abaixo para ajudá-los a começar a andar nesse caminho.

Que este seja um momento sagrado.

Pai, nós Te agradecemos por nos oferecer um novo começo e um novo legado. Ao fazermos um registro das coisas que precisam ser eliminadas do nosso relacionamento, oramos para que uma atmosfera celestial nos cerque.

Nós Te pedimos, Espírito Santo, para nos conduzir e nos instruir.

Oramos para que os anjos de Deus acampem ao nosso redor, prontos para executar vingança sobre o inimigo que tem devastado nossas famílias de geração em geração.

Oramos por grande graça que nos capacite a perdoar e gere transformação.

Oramos pela renovação das nossas mentes de acordo com a Tua Palavra.

Pedimos pela revelação do Teu amor que lança fora todo o medo.

Pedimos restauração da confiança e purificação dos relacionamentos.

Oramos para que Tu tragas unidade onde tem havido divisão.

Pedimos que Tu nos inspires a sonhar de acordo com as Tuas promessas, e não de acordo com qualquer expectativa ímpia.Declaramos libertação em nossa família. Declaramos libertação no nosso casamento e em nossas vidas individualmente, em nome de Jesus Cristo. Declaramos que o Reino de Deus habita dentro de nós. A vontade de Deus será feita no nosso casamento e no nosso lar, assim na Terra como no Céu. No nome poderoso de Jesus, amém

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES

Até algumas décadas atrás era quase impensável aceitar como conceito de família senão aquele que definia um grupo social formado por um casal, ou seja pai, mãe e seus filhos

A Lei do Divórcio, que em 1977 consagrou a dissolução do vínculo matrimonial, mudou também algumas das bases consagradas anteriormente, como o regime de comunhão de bens e a adoção facultativa do nome do marido pela esposa. A consagração da igualdade, o reconhecimento da existência de outras estruturas de convívio, a liberdade de reconhecer filhos nascidos fora do casamento trouxeram profundas e irreversíveis transformações na família, já não identificada pelo casamento, mas pelo vínculo afetivo.

A cada dia surgem, no mundo todo, novas expressões que procuram identificar da melhor forma as famílias resultantes da pluralidade das relações parentais decorrentes de divórcios, novas uniões e separações.

Antigamente, os casais e as famílias geralmente se afastavam definitivamente após o divórcio, reconhecidamente uma ruptura de grandes proporções, mesmo quando havia consenso. Mas hoje existe maior tendência para superar embates pessoais e agregar os membros das famílias em constantes reagrupamentos, tendo em vista a compreensão do papel do outro na vida dos filhos, a necessidade de superar lutos relativos a perdas afetivas e materiais pós- separações e de construir uma vida mais pautada na realidade e na aceitação não preconceituosa. Um passo à frente na construção de lares mais harmoniosos afetivos, dos quais todos precisam.

Um exemplo das dificuldades vivenciadas em outras décadas era a situação que enfrentavam as crianças nascida de pais que não eram oficialmente casados, os solteiros ou desquitados, que chegavam a não ser aceitas em grande escolas e afastadas do convívio de coleguinhas e amigos cujos pais, por um questão de preconceito, não permitia essa aproximação. Temia-se o “mau exemplo”, os “costumes liberais” e outras tantas expressões eram utilizadas para hostilizar e afastar aquelas crianças e jovens cujos pais não seguiam as normas sociais vigentes.

Hoje, 42 anos depois, grande parte da sociedade renovou o conceito tradicional de família, o divórcio ocorre com larga aceitação social e novos casamentos foram criando situações antes raras e até outras inusitadas, pela mudança de costumes e superação de preconceitos.

Foram surgindo novos modelo de família, que inclusive ultrapassa o modelo tradicional do casamento tradicional, para abranger um amplo espectro de possibilidades que vão da união de pessoas de mesmo sexo, pessoas que decidem permanecer sem vínculo matrimonial etc.

A adoção de crianças sem qualquer laço sanguíneo e de filhos vindos de antigas uniões também acabou por se tornar constante: são muitos novos tios, avós, primos que acabam por fazer crescer o núcleo familiar e que se tornam mais evidentes em datas festivas, mas que no dia a dia se adaptam a novas formas de convivência harmoniosa, com mais ou menos facilidade.

As uniões que não têm como objetivo a criação de filhos, como as de mães lésbicas e pais homossexuais, famílias monoparentais criadas a partir do desejo de ter e criar um filho de modo independente, levaram ao surgimento de um quadro que o mundo ocidental e as novas gerações, principalmente, aceitam, mas ainda há pouco entendimento.

Famílias “mosaico” que se formam pela reunião de filhos que cada um traz do casamento anterior são cada dia mais comuns. Mas é importante que cada casal reflita sobre a forma de conduzir essa situação em que, é preciso conviver não apenas com os filhos do parceiro atual, mas com a mãe e o pai dessas crianças, para construir um lar harmonioso.

O tempo sempre ajuda a ajustar comportamentos reativos, comuns nos primeiros tempos de adaptação, quando é preciso receber novos irmãos, que afinal são meros desconhecidos com quem terão que dividir espaço, coisas e atenção. Além disso, há os ciúmes, o apego ao pai ou mãe que não pertence a essa nova família, a saudade de sua vida antiga, a necessidade de se adaptar a novas regras, que podem retardar a assimilação da nova configuração familiar.

Uma questão que está mais próxima das discussões atuais é a dos casais homoafetivos, que cada vez mais optam por criar seus filhos biológicos trazidos de outros casamentos e por adoção.

Nos EUA, país que tem estatísticas sólidas sobre o assunto, mais de 1 milhão de casais gays criam mais de 2 milhões de crianças. E cada vez mais casais gays optam por criar filhos.

No Brasil, onde mais de 60 mil casais gays vivem numa união estável (reconhecida perante a lei em 2011), a história é mais recente e ainda gera muitas dúvidas infundadas. Aliás, foi apenas após 1988, quando entrou em vigor a atual Constituição Federal, que o casamento heterossexual deixou de ser a única forma admissível de formação da família.

Seja qual conformação adote, a família é um núcleo indispensável ao desenvolvimento sadio das crianças: “monoparental”, “mosaico”, formada por casal hetero ou homossexual, sempre que tiver como base os laços afetivos, a vontade de partilhar, o cuidar e o educar, esse núcleo humano será urna família e vai enriquecer e melhorar a qualidade de vida da sociedade como um todo.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos e publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br

OUTROS OLHARES

O PREÇO DA LONGEVIDADE

Entra em fase de testes com humanos a rapamicina, droga que adia o envelhecimento – mas para que viver mais se não frearmos as doenças da idade?

O clássico As Viagens de Gulliver, escrito em 1726 pelo irlandês Jonathan Swif’t (1667-1745), é imediatamente relacionado aos minúsculos moradores de Lilliput, pessoinhas de 15 centímetros de altura – menos conhecidos são os struldbrugs, os imortais habitantes do reino de Luggnagg, levados ao exílio dentro da própria terra justamente por viverem para sempre. O que seria o sonho dos sonhos, a eternidade, constata o médico Lemuel Gulliver, transforma-se em drama. Anota ele ao descrever o difícil cotidiano dos struldbrugs: “O modo de vida em que você pensou é insensato, já que supõe que juventude, saúde e vigor duram para sempre: ninguém é tolo o bastante para contar com isso. Se é assim, como passar uma vida eterna com todas as desvantagens que a velhice traz consigo? Entretanto, todos parecem desejar adiar a morte, por mais tarde que ela venha. É raro ouvir dizer que alguém desejou morrer, a menos que estivesse no auge da dor ou da tortura”.

Ao completarem 80 anos, os struldbrugs perdem os direitos legais. Seus herdeiros tomam posse de seus bens, restando-lhes apenas uma pequena pensão para o sustento. São considerados incapazes de exercer cargo de confiança ou atividade lucrativa. Aos 90, perdem dentes e cabelos; não distinguem mais o sabor das coisas. Aos 200 anos, como a língua do país muda constantemente, os struldbrugs de uma época já não entendem os de outra. Para que, enfim, a imortalidade se ela pode ser apenas o prolongamento de uma vida angustiante? E, no entanto, nós, seres humanos, sempre sonhamos com o elixir da juventude das figuras de Gulliver – desdenhando, tal como no folhetim do século XVIII, dos problemas derivados de uma hipotética imortalidade.

O elixir da hora é a rapamicina, um imunodepressor comumente utilizado contra o processo de rejeição a órgãos transplantados e que se mostrou eficiente no bloqueio de uma enzima que acelera a divisão celular, atalho para o envelhecimento. A rapamicina foi descoberta acidentalmente nos anos 1970, na Ilha de Páscoa, ao verificar-se que evitava casos de tétano em quem andava descalço, apesar das perfurações nos pés- seu nome deriva da denominação aborígine do território chileno, Rapa Nui. Constatou-se, em camundongos, um aumento de até 38% na expectativa de vida. A novidade: a substância entra agora na fase de testes clínicos com mulheres e homens. Há, em todo o mundo, pelo menos 2.000 estudos simultâneos em torno do medicamento, com o envolvimento das grandes companhias farmacêuticas. Talvez seja a mais fascinante corrida médica da atualidade. Imagina-se que a rapamicina possa reduzir o ritmo do crescimento de alguns tipos de câncer e frear distúrbios neurodegenerativos, como o Alzheimer. Ela parece ter um efeito semelhante ao de uma dieta de redução calórica, que já se provou eficaz no aumento da expectativa de vida. A rapamicina atua numa proteína chamada mTOR, que controla parte das respostas do metabolismo a situações de stress. O acúmulo de resíduos e proteínas defeituosas nas células cresce ao longo do tempo e estimula o envelhecimento. A rapamicina age nessa estrutura “defeituosa”. Funciona como um disjuntor, que liga e desliga o mecanismo, embora carregue efeitos colaterais relevantes. “O complicado é encontrar a dosagem ideal”, diz o geneticista Hugo Aguilaniu, presidente do Instituto Serrapilheira. “Uma dose menor não dá resultado, e uma dose muito alta pode desencadear efeitos colaterais graves, incluindo dificuldade de cicatrização, pneumonia, maior vulnerabilidade a infecções bacterianas e câncer. É uma troca muito desvantajosa para alcançar a longevidade.”

Vivemos cada vez mais, e desejamos ainda mais tempo – em 1960, a expectativa de vida no mundo era de 52 anos; hoje é de 72. No Brasil, o salto foi de 54 anos, há seis décadas, para 75 anos. A humanidade ganhou longevidade e, ao que tudo indica, conquistará ainda mais fôlego com compostos como a rapamicina. Mas há um dilema, interessante demais para ser abandonado: de que valerá viver tanto quanto um struldbrug, ansiar pela condição de um personagem como Peter Pan, a inesquecível criação do britânico J.M. Barrie (1860-1937), que não cresce e permanece atrelado à mágica e à ingenuidade da infância, sem problemas de saúde e da mente, se formos incapazes de controlar as doenças do envelhecimento?  Trata-se de uma corrida que traz embutida esperança – a esperança de que, adiando o relógio da morte, seja possível descobrir a cura de alguns males mortais, especialmente os associados ao câncer e à falência do coração. Diz o gerontologista britânico Aubrey de Grey, para quem, numa conhecida provocação, o ser humano que terá 1000 anos já nasceu, está vivíssimo entre nós: “Nosso corpo será tratado pela medicina como a engenharia lida com uma máquina – danificou, reparou”.

GESTÃO E CARREIRA

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

Diante de cada vez mais mudanças impostas às mais diversas frentes de seus negócios, grandes empresas criam uma nova estrutura de controle para colocá-las em prática simultaneamente sem perder o foco

Em fevereiro, a fabricante de cosméticos Avon nomeou uma executiva para ocupar, globalmente, um cargo inédito na companhia: a diretoria de transformação organizacional. Enquanto Kay Nemoto constrói, de Londres, a estratégia para a reestruturação da Avon, imersa na maior crise de sua história, as ações de mudança no Brasil são organizadas por Fabíola Bezerra, diretora executiva do escritório de transformação local. Fabíola construiu sua carreira na Whirlpool, onde exerceu a mesma função durante todo o ano de 2018. Batizado de Inova Avon, o movimento de transformação não é simples: envolveu uma reestruturação de equipes, com a extinção recente de dois dos então cinco cargos de vice-presidente, além da criação de 15 frentes de trabalho em praticamente todas as pontas do negócio. Há tarefas tão distintas quanto redução do número de fornecedores e melhoria do relacionamento com as consultoras e o sistema de vendas online, simultaneamente. Cada projeto é acompanhado em um sistema interno, que mostra aos funcionários envolvidos e à diretoria o estágio de cada um. Se há um problema, o grupo em questão aparece em destaque. E é preciso explicar o porquê. A cada semana, a quarta e a quinta-feira são inteiramente dedicadas às reuniões das frentes de trabalho com o escritório de transformação. Às segundas, o comitê diretivo de transformação, com a presença de José Vicente Marino, presidente da Avon no Brasil, supervisiona o processo e entende seu andamento. “Desse modo, conseguimos ter muitas frentes de mudança em paralelo e ainda assim manter o foco em todas elas com indicadores e resultados”, diz Marino. A companhia, adquirida globalmente pela rival Natura em junho, só deverá iniciar a integração com a nova dona em dezembro, após a aprovação dos órgãos reguladores envolvidos.

Uma pesquisa global da empresa de contratação de altos executivos Russell Reynolds, obtida com exclusividade, e realizada com 3.000 líderes de diversas regiões dos cinco continentes, aponta que a urgência em transformar variados aspectos do negócio ao mesmo tempo é uma preocupação quase onipresente no topo das companhias hoje. Com base em informações da consultoria de estratégia McKinsey, o estudo indica que 80% dos presidentes de empresa entrevistados consideram que seus modelos de negócios estão em risco – e que é preciso mudar. Em outro levantamento global, também da Russell Reynolds, apenas 18% dos respondentes afirmam que a cultura da empresa permite que haja mudança. “A pressão para que os líderes sejam capazes de realizar transformação é cada vez maior por diversos fatores, desde a disrupção tecnológica até a mudança no comportamento do consumidor”, diz Mareio Gadaleta, consultor da área de tecnologia da Russell Reynolds.

Com o objetivo de criar uma governança eficiente para lidar com tantas prioridades simultâneas, algumas empresas têm recorrido à figura de um executivo exclusivamente dedicado. É uma forma de combater dois dos principais entraves identificados em qualquer processo de transformação numa empresa: a inércia e a colaboração ineficiente entre áreas que, mesmo interdependentes, funcionam como silos separados. Assim como a Avon, a operadora americana de logística UPS recorreu a essa solução. Em dezembro de 2017, o executivo Scott Price passou a ocupar a recém-criada área de estratégia e transformação. Foi a primeira contratação de alguém externo à UPS, empresa que tem 112 anos, para a alta liderança. Price fez carreira na fabricante de bebidas Coca-Cola, na empresa de logística DHL e na varejista Walmart, presidindo subsidiárias e liderando programas de crescimento. Sob a gestão do novo executivo, a empresa listou 26 tendências com as quais acredita poder tomar impulso para crescer – entre elas a crescente urbanização e a popularização do comércio eletrônico. Para acompanhar esta última, por exemplo, criou, em semanas, a subsidiária Ware2Go, que conecta pequenas e médias empresas em expansão com dificuldades de armazenamento àquelas que oferecem espaço para estoque. “A base da transformação é a estratégia de negócios, é impossível transformar sem tê­la bem definida”, disse Price em entrevista. Para comandar o conjunto de ações de transformação, um comitê de gestão reúne toda a alta liderança em um encontro mensal, que define o investimento a ser feito em cada projeto. A supervisão, no entanto, é acompanhada com mais rigor: a cada semana, o mesmo grupo analisa as iniciativas de transformação em todos os níveis hierárquicos, sejam eles operacionais ou não operacionais. O investimento da UPS em transformação nos próximos três anos será robusto: 20 bilhões de dólares, envolvendo o aumento da frota aérea em 10% e a automação de centros de distribuição. Para motivar uma mudança de comportamento, incentivos também podem ajudar. Foi o que fez a Avon, que alterou o modelo de recompensa dos empregados. “Passamos a reconhecer, na avaliação dos funcionários, atributos como inovação, agilidade e pioneirismo”, diz Danielle Bibas, vice-presidente de marcas, comunicação e cultura corporativa da Avon. A empresa também reduziu a estrutura hierárquica para ganhar agilidade nas decisões. Além de duas vice-presidências a menos, a Avon passou a ter menos níveis hierárquicos. O mesmo aconteceu em meio às mudanças de gestão na rede de lanchonetes McDonald’s, intensificadas no ano passado, quando a matriz americana anunciou demissões e a dissolução de dois níveis hierárquicos. Nesse caso, a intenção era aproximar a liderança da empresa da realidade das franquias. Em 2017 foram definidos três pilares globais de aceleração de transformações. O primeiro diz respeito ao que foi chamado de “experiência do futuro”, com reforma dos típicos restaurantes para inclusão de totens de atendimento, por exemplo, no lugar dos caixas convencionais. Outro é a digitalização da experiência do consumidor, com o uso da tecnologia para criar um marketing mais personalizado. Por fim, há a intensificação do crescimento do sistema de entregas. Esses pilares influenciaram na criação de outras três diretrizes específicas para a operação no Brasil, mas que conversam com a nova linha global de gestão: modernização dos restaurantes, modernização do serviço e inovação constante de produto. A governança dessa transformação é coordenada pelo próprio Paulo Camargo, presidente no Brasil do McDonald’s, administrado pela master­ franquia Arcos Dourados, dona do braço latino-americano da rede. Como parte do processo, foram unidas num mesmo local as equipes antes espalhadas em três escritórios em São Paulo. “Percebemos que a mudança trouxe agilidade à comunicação e aumento da produtividade”, diz Camargo. Em 2017, ele criou, com os diretores da empresa, um painel de controle para medir indicadores em reuniões mensais batizado de Mc Evolution. Ali é possível acompanhar desde o andamento das vendas até o desempenho operacional. “No último ano, tivemos 6,8% de crescimento em vendas, o dobro do que o setor cresceu em média no Brasil”, afirma Camargo. “Também vimos um aumento na retenção dos funcionários.” O resultado final é o argumento mais poderoso de que o esforço valeu a pena.

O QUE ATRAPALHA A TRANSFORMAÇÃO

Segundo um levantamento global realizado com 1.300 executivos, os principais obstáculos à mudança dizem respeito à cultura da organização e à mentalidade dos gestores

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 14 – MALDIÇÕES FAMILIARES

No início do nosso casamento, sabíamos que Deus queria fazer algo novo em nós e em nossos filhos. Era evidente que havia fortalezas que envolviam a vida de nossos pais e avós: coisas como o alcoolismo, a imoralidade e a feitiçaria haviam atormentado nossa linhagem familiar. Antes que pudéssemos receber um novo legado, tínhamos de confrontar as maldições que haviam atormentado nossas famílias por gerações. Essas coisas só podiam ser combatidas em oração e destruídas pela Palavra de Deus.

As especificidades das maldições familiares são diferentes para cada casal, mas eis um exemplo. Em um capítulo anterior, mencionamos que nosso histórico familiar é muito diferente. Eu (Lisa) estava preocupada em como a família de John reagiria à disfunção gritante na minha família. No nosso jantar de noivado, meu pai estava embriagado e flertou desavergonhadamente com a mãe de John – bem na frente do marido dela! Seus atos estavam focados em ferir minha mãe e não em qualquer intenção real para com a mãe de John. Mais tarde, a mãe de John expressou sua profunda preocupação de que nosso casamento seria a primeira vez em que alguém com um histórico de divórcio na família se uniria ao seu clã puro. Ouvi-a comentar com alguém: “Nunca tivemos divórcios na nossa família antes”.

Pensei: É assim que ela me vê? Será que vou estragar esta linhagem?

Saí do jantar sentindo tanto a dor da minha mãe quanto minha própria vergonha profunda. Era como se houvesse balanças capazes de medir o “bem” e o “mal” da contribuição familiar, o bem estava drasticamente pendendo em favor de John. Eu estava trazendo todo o mal: adultério, divórcio e vícios estavam entre os problemas da minha linhagem familiar.

A reviravolta veio quando percebi que Deus não estava preocupado com o bem de John ou com o meu mal. Ele queria uma linhagem santa.

Ouça, ó filha, considere e incline os seus ouvidos: Esqueça o seu povo e a casa paterna. O rei foi cativado pela sua beleza; honre-o, pois ele é o seu senhor… Os teus filhos ocuparão o trono dos teus pais; por toda a Terra os farás príncipes. Perpetuarei a tua lembrança por todas as gerações; por isso as nações te louvarão para todo o sempre. Salmos 45:10-11, 16-17

Esta passagem é primeiramente uma descrição de Jesus e da Sua Noiva, mas Deus usou-a para pintar uma imagem de Sua promessa para a minha vida, uma promessa que não era limitada pelos erros cometidos por minha família no passado. Quando li as palavras “Ouça, ó filha”, algo em mim se tornou vivo. Deus estava falando comigo como Sua filha! Naquele instante, uma nova compreensão da minha identidade em Cristo foi revelada. Rejeitei as fortalezas do meu passado e abracei uma nova esperança para o futuro da minha família.

Percebi que em vez de serem parecidos com meu pai natural (um homem adúltero, alcoólatra e profundamente destruído), meus filhos herdariam não apenas as características do seu pai terreno (um homem de Deus), mas herdariam ainda mais as características do seu Senhor. Firmei-me na promessa de que meus filhos se tornariam príncipes do Altíssimo.

Ao tratarmos das maldições de nossas famílias, vimos a Palavra de Deus se provar verdadeira. Nossa família floresceu nas promessas que Deus estabeleceu sobre nossas vidas durante aqueles momentos de oração e declaração.

ORAÇÃO PARA QUEBRAR AS MALDIÇÕES FAMILIARES

Gálatas 3:13 diz: “Cristo nos redimiu da maldição da Lei quando Se tornou maldição em nosso lugar…”. Sejam quais forem as maldições que seguiram sua família através das gerações, em Cristo, você não está mais sujeito a elas.

Se você está ciente das maldições presentes em sua linhagem familiar, queremos posicioná-lo a quebrar o que tem limitado e definido seu legado. Esta oração o ajudará a lidar com as fortalezas de satanás com a espada da Palavra de Deus. A libertação das maldições familiares não acontece por acaso; você precisa identificar e atacar os estratagemas de satanás. O alvo dele é impedi-lo de desfrutar a alegria, a paz e a realização que Deus colocou diante de você. Mas por meio da autoridade que agora possui em Cristo, você pode ver seu inimigo ser vencido.

Por favor, separe um momento para fazer uma pausa e ficar a sós antes de prosseguir com esta oração. Se pretende orar agora mesmo, certifique-se de estar sozinho ou apenas com seu cônjuge ou com um amigo próximo ou parceiro de oração. Este é um tempo pessoal e privado, e você precisará fazer suas petições e renúncias em voz alta, bem como dizer suas respostas.

A oração a seguir trata de algumas das maldições específicas que ameaçaram nosso casamento e nossa família. Construímos esta oração combinando versículos, pois a Palavra é a afiada e poderosa Espada de dois gumes do Espírito. Se existem problemas na sua linhagem familiar que não estão incluídos nesta oração, nós o encorajamos a encontrar versículos que tratem desses problemas com a verdade e a promessa de Deus. Crie uma declaração ousada em concordância com a Palavra de Deus e quebre as maldições de sua vida com o poder do nome de Jesus. Incluímos referências para seu estudo posterior no fim da oração.

Querido Pai celestial,

Venho diante de Ti em nome do Teu precioso Filho, Jesus. Entro nas Tuas portas com ações de graças e nos Teus átrios com louvor. Estou maravilhado com Tua graciosa misericórdia e amor por mim, e Te agradeço antecipadamente pela obra poderosa de redenção que realizaste em minha vida.

Agora pretendo fazer uma aliança com o Senhor, o Deus de Israel. Tu és o Senhor, o Deus do Céu e da Terra, o Deus grande e tremendo, que guarda a Sua aliança de amor com aqueles que O amam e obedecem aos Seus mandamentos. Estejam Teus ouvidos atentos e Teus olhos abertos para ouvir a oração do Teu servo. Confesso os meus pecados e os pecados da casa de meu pai, toda transgressão que cometemos contra Ti. Perdoa-nos, pois agimos maliciosamente contra Ti. Mas Tu, Senhor, nosso Deus, és misericordioso e perdoador, embora tenhamos nos rebelado contra Ti e não tenhamos obedecido ao Senhor nosso Deus nem guardado as leis que Ele nos deu através dos Seus servos, os profetas. Nós Te pedimos para circuncidar os nossos corações e retirares o pecado, a vergonha e a acusação do nosso passado.

Confesso e renuncio ao meu pecado e aos pecados de meus antepassados, a todo e qualquer envolvimento com o ocultismo, a feitiçaria ou a adivinhação. (Faça uma pausa aqui, e mantenha-se sensível para acrescentar qualquer coisa que o Espírito Santo traga à sua atenção, para fazer renúncias específicas antes de continuar. Isso pode incluir, mas com certeza não está limitado a astrologia, sessões espíritas, filmes, jogos e livros de terror, etc.). Renuncio ao meu envolvimento com essas coisas e quebro a maldição delas da minha vida e das vidas de meus filhos, dos filhos deles, e dos filhos de seus filhos.

Confesso e renuncio ao meu pecado e/ou aos pecados de meus antepassados na área das drogas e do abuso de álcool. Pai, fecha qualquer porta que isso possa ter aberto na dimensão espiritual para o pecado, o cativeiro ou a opressão. Renuncio ao meu envolvimento com (cite as drogas especificamente pelo nome, se for o caso), e quebro o poder da maldição delas sobre minha vida e sobre a vida de meus filhos, dos filhos deles, e dos filhos de seus filhos. Em nome de Jesus, amém.

Continuaremos a edificar sobre esse princípio tratando das maldições e das amarras da alma relacionadas ao pecado sexual em um capítulo posterior. Por causa da irrevogabilidade da vitória de Jesus na Cruz, você está livre dessas maldições. Você não precisa temê-las nem se preocupar com a possibilidade desses pecados seguirem você ou seus filhos. Você estabeleceu um novo legado para sua família hoje.

Para maiores estudos, veja: Salmos 100:4; 2 Crônicas 29:10-1; Neemias 1:5-7; Daniel 9:8-10; Josué 5:9; Mateus 10:34; Hebreus 4:12; 2 Crônicas 29:5-6.7

OUTROS OLHARES

A BANALIZAÇÃO DA MORTE

A morte é um tabu sempre presente em nossas vidas. Mas os que sonham com a imortalidade podem agora imaginar possibilidades mais concretas, mostradas na ficção científica e que, quem sabe, serão concretizadas pelos avanços da tecnologia

Uma das descobertas mais importantes do homem foi a morte. Nunca saberemos quando ela ocorreu. Foi uma descoberta avassaladora: a morte como algo universal, predestinado. Tudo que vive é um prefácio de uma morte certa, o tempo de vida é muito curto. Uma descoberta traumática. A inescapável mortalidade. O homem é o animal que sabe que será derrotado pela morte.

Com a descoberta da morte, vieram as tentativas de driblá-la. As religiões inventaram a vida após a morte. Ensinaram-nos a não valorizar tanto a vida, para não sofrermos tanto com a perspectiva da morte. “Quem quiser salvar sua vida a perderá”, diz o Evangelho. E sugere que Deus expulsou Adão e Eva do paraíso pois, ao comerem o fruto da Árvore do Conhecimento, poderiam querer se tornar imortais. A promessa da ressurreição da carne é o coroamento da vida eterna para os cristãos. Curiosamente, o Velho Testamento não faz referência, em nenhuma de suas passagens, à vida após a morte.

“O nosso destino é a escuridão”, proclamou Shakespeare na sua peça Antônio e Cleópatra (ato V, cena lI). A morte é um terna sempre presente na literatura e na Filosofia. Há uma longa estirpe de filósofos que se dedicaram a ele, passando por Agostinho, Pascal, Schopenhauer, Kierkegaard e muitos outros. No século passado, Heidegger foi um dos filósofos que mais se preocuparam com esse tema. Para ele, a morte é o Nada, o abismo cardinal, a fonte de toda inquietação humana e do pensamento. Seguindo as pegadas de Heidegger, alguns pensadores existencialistas como Camus e Sartre se debruçaram sobre o significado da morte e da finitude do homem.

O homem do século XXI continua a se debater com o horror absoluto da morte e da extinção de sua espécie. A biologia moderna é a nova narrativa sobre a vida e a morte. A imortalidade da alma é a ancestralidade da vida, sua reprodução indefinida como estratégia para triunfar sobre a morte. O código genético é praticamente o mesmo em todos os seres vivos e é sempre reeditado através das gerações.

Em seu livro mais famoso, O gene egoísta, o zoólogo Richard Dawkins defende que nossos corpos são apenas portadores de genes sobreviventes que, por meio de sucessivas gerações, garantiram otriunfo da vida nos últimos 3,5 bilhões de anos. Todas as espécies que existem são ramificações que surgiram de uma única linhagem primordial. A morte de uma pessoa pode ser um a tragédia individual, mas a espécie humana continuará por mais alguns milhões de anos. Nossa missão, como seres vivos, é transmitir genes.

Mas a biologia não consola ninguém. Quando a questão é a morte de um ser humano, ela serve, no máximo, para que o refrão “e a vida continua” possa ser repetido. A engenharia genética, o transplante de órgãos e até o transplante de cabeças estão a serviço do prolongamento da vida. Mas não nos contentamos com apenas prolongar a vida. Queremos a imortalidade, queremos uma ciência que negue que ela está reservada apenas para os deuses e não para os homens.

Atualmente, alguns gurus do Vale do Silício tentam nos convencer de que é possível fazer uma cópia digitalizada do cérebro das pessoas, com todos os seus circuitos neurais e lembranças. Essa cópia poderia ser enviada para a nuvem, na qual ela duraria indefinidamente. Quem lê esses gurus acaba se convencendo de que a ciência poderá, em breve, burlar a morte. Mas a estratégia para nos convencer de que a ciência poderá lidar com a morte é resultado de uma manobra sutil nas entrelinhas desses textos. Para laicizar a morte, esvaziá-la de todo sentido trágico, é preciso torná-la cada vez mais banal.

O sintoma dessa manobra aparece na ficção científica. Na novela Carbono alterado, livro de estreia de Richard Morgan (que se tornou um seriado de TV), o autor descreve um mundo no qual todas as pessoas têm um “cartucho”, um chip extraordinariamente poderoso que contém uma cópia digitalizada do cérebro. O corpo de uma pessoa pode ser destruído, mas se o cartucho ficar intacto, ele poderá ser implantado em um outro corpo no futuro, que o autor chama de “capa”. Todos passam a vida economizando para comprar uma capa. A única exceção são os católicos, que se recusam a viver novamente e, por isso, assinam um documento registrado no Vaticano para que seus cartuchos não sejam reimplantados.

O cenário descrito por Morgan é bizarro. Nessa sociedade, ninguém teme morrer, pois a morte pode acontecer várias vezes para uma pessoa e ela continuará a viverse o cartucho for reimplantado em outra capa. Uma ameaça de morte não surte efeito. A destruição do corpo e do cartucho não amedronta ninguém. O corpo pode ser substituído por uma nova capa e para o cartucho sempre haverá um backup, que poderia ficar armazenado na nuvem. A morte não é apenas secularizada. Ela é banalizada.

No seriado Westworld há, também, personagens que dizem não temer a morte pois já morreram e voltaram à vida várias vezes. A morte é algo trivial, pois se tornou um problema científico que em breve será solucionado.

Mas o que significa a banalização da morte? Morgan nos fornece a resposta em uma passagem de sua novela, na qual ele afirma: “Mas gente? Pessoas se reproduzem como células cancerosas, são abundantes […) A carne humana é mais barata que uma máquina. É a verdade axiomática de nossos tempos”

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é paulistano, formado em filosofia na USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre filosofia da mente e tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCAR e na PUC-SP.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE VALE NO VALE VALE AQUI?

Área rica, com uma abundância de jovens talentos com ideias disruptivas, no vale do silício existe uma cultura organizacional que serve de exemplo

O Vale do Silício não é um território demarcado no mapa com linhas precisas. Ocupa, na Califórnia, uma área que começa no sul da baía de São Francisco e inclui muitas cidades como: Redwood City, Menlo Park, Palo Alto, Los Altos, Mountain View, Sunnyvale, Cupertino, Santa Clara e San Jose. Nelas estão as maiores (e mais prósperas) empresas desta era de inovação digital. O aparente centro gravitacional de tudo isso é a Universidade de Stanford, em Palo Alto.

Com uma abundância de jovens talentos com ideias disruptivas, lá existe uma cultura organizacional, aparentemente única. Se isso é um fato que pode ser transformado em um protocolo de ação, por que o mesmo sucesso não ocorre em outras áreas no mundo?

Não é por falta de tentativas. Muitas cidades criaram modelos semelhantes com incentivos a startups de tecnologia, mas o resultado ficou longe de ser igual. Segundo o Global Startup Ecosystem Report 2019, elaborado pela Startup Genome, o perfil de hoje coloca o Vale em primeiro lugar seguido, de muito longe, por Nova York, Londres, Pequim, Boston, Tel Aviv e Los Angeles. São Paulo aparece na lista como um ecossistema promissor, mas em uma posição distante das demais.

Todos os indicadores, incluindo o número de empresas e os resultados financeiros do Vale do Silício, destoam de forma significativa de quaisquer outras áreas que, teoricamente, competem pelo primeiro lugar em agrupamento de startups de tecnologia. Pelo que se pode notar, mesmo que sejam replicadas as mesmas condições de apoio técnico e financeiro, pela parte governamental, o resultado não se repete.

O segredo do que se observa hoje, como sucesso alcançado, faz parte de uma cultura organizacional impossível de ser transcrita como um protocolo de uma única empresa, pois é a própria estrutura mental do Vale. Podemos tentar desmembrar em alguns itens:

1. QUALQUER IDEIA DEVE SER VALIDADA: Em uma reunião em 14 de junho/2019, na The Vault, em São Francisco (CA-EUA), com Fernando Figueiredo, brasileiro que é cofounder e CEO da Oaktech, empresa de estratégia global e internacionalização, ficou claro que a cultura aceita qualquer ideia nova desde que possa ser validada. Um exemplo disso é LiLou, o porquinho terapêutico do aeroporto de São Francisco. Alguém teve a coragem de apresentar um projeto que afirmava a importância de um porco circulando pelo aeroporto para acalmar os passageiros nervosos, e o gestor teve a coragem de colocar essa ideia em prática para ser validada. Hoje é um sucesso!

2. DESENVOLVIMENTO DE GRUPOSPARA TROCAS DE IDEIAS: Laís de Oliveira, brasileira que desponta como diretora de Desenvolvimento de Comunidades na Startup Genome (essa mesma que faz o levantamento dos ecossistemas de startups), com sede em São Francisco, nos fala da importância da criação de grupos com origens diversas. As comunidades podem, pela sua miscigenação, gerar ideias novas, parcerias produtivas e, além de tudo, financiamentos mútuos. Os projetos podem se intercambiar – sinergia -, gerando desafios impossíveis de serem alcançados por uma só pessoa: parceria é tudo nesse ambiente.

3. PARA TER ABUNDÂNCIA DEVE-SE COMPARTILHAR: Bruno Solis, da Kong lnc., hoje executivo de Contas para a América Latina com sólida experiência em vendas de sucesso, fala com orgulho dos mais de 600 mil usuários de seu sistema que não pagam um centavo sequer. No entanto, o faturamento da Kong é de vários milhões de dólares. Sua base é oferecer plataformas de código aberto e serviços em nuvem para quem deseja gerenciar, monitorar e escalar interface de programação de aplicativos e microservices. A base do pensamento é que quando você distribui o mercado pagador retorna aceitando o preço da credibilidade alcançada.

4. O TALENTO DEVE SER VALORIZADO: Vinícius Depizzol, brasileiro do estado do Espírito Santo, um dos principais designers no escritório da Microsoft Corporation na Market St., em São Francisco, disse que hoje, na cultura do Vale, há um grande cuidado das empresas para manter seus colaboradores o mais seguros e confortáveis possível. Não é o horário de saída ou entrada no prédio da empresa que vai trazer a solução da demanda. Muitos colaboradores passam mais tempo trabalhando em casa do que na empresa e, com responsabilidade e engajamento, apresentam os resultados em seus devidos prazos.

5. NÃO DISPENSAR O PASSADO POR CONTA DO FUTURO: Com Martin Spier, arquiteto de performance da Netflix, numa conversa no Steins Beer Garden em Cupertino, CA – EUA, sobre cultura organizacional e a liberdade que deve ser colocada à disposição dos colaboradores, foi ressaltado algo muito interessante: a Netflix ainda entrega DVDs mensalmente a 1mlhões de usuários. Como uma empresa que é líder mundial em streaming ainda carrega esse peso? A resposta foi direta: é um mercado de milhões de dólares. Embora a tecnologia esteja à disposição, muitas pessoas, por motivos quaisquer, preferem o velho DVD. A Netflix, que começou dessa forma, não abre mão desses clientes e mantém toda estrutura para atendê-los, mesmo que o retorno não seja o mesmo do modelo atual.

6. PENSAR DIFERENTE SEMPRE: A consultora sobre o ecossistema do Vale, Mariangela Smania, quando conduz o seu treinamento “Path to lnnovation” pelo campus da Universidade de Stanford, reforça a estrutura valiosa do Design Thinking, olhar o todo e os detalhes para inovar. Não basta apenas saber da necessidade e ter a solução, muitas pessoas desenvolveram produtos e serviços fantásticos que não tiveram êxito ou foram ultrapassados rapidamente pela concorrência. O pensamento disruptivo é um talento, mas pode e deve ser replicado com a utilização de técnicas apropriadas. São apenas alguns pontos que podemos extrair da cultura reinante no Vale que, pelo que vemos, apresenta resultados. Este texto trata de um pequeno resumo das principais ideias que nos foi possível colher no mês de junho de 2019, quando estivemos imersos nesse ambiente do Vale do Silício e tivemos a oportunidade de ter encontros- verdadeiras aulas – com muitosexecutivos de várias empresas. Esta coluna retrata um pouco do que pude apreender deles sobre a cultura organizacional do Vale. Não é a chave do segredo, mas uma porta importante que vem dando resultados significativos na inovação de grandes e pequenas empresas.

JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br).Entre seus livros estão Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam Tenha as Soluções, Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional, Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida, e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora)

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONSTRUÇÃO ABSTRATA NA MENTE

Conceitos abstratos são construídos por um conjunto de relações que só fazem sentido quando essa rede está bem trançada. Ela envolve uma série de elementos concretos

A linguagem cumpre um papel fundamental não apenas na comunicação, como na interpretação do ambiente e na identificação das próprias emoções, o que possibilita a formulação consciente de respostas mais apropriadas.

Se, por um lado, a ampliação do vocabulário permite a ampliação da própria consciência e modifica a forma como as pessoas processam suas experiências no mundo, por outro são as próprias experiências que dão sentido à palavra, em uma relação recíproca e interdependente. No entanto, a educação não leva em consideração a forma como a linguagem é compreendida e desenvolvida ao trabalhar uma série de conteúdos que, no decorrer no ensino fundamental, vão ficando cada vez mais abstratos e distantes do universo dos alunos.

As apostilas e livros didáticos esperam que crianças de menos de 10 anos entendam que, na época do descobrimento, havia “características comuns” aos povos indígenas, apesar da “grande diversidade” entre eles, como o fato de não “considerarem a terra uma propriedade particular”. Também devem entender que a “subsistência” era o “produto do trabalho” e não o lucro. Nesse caso, o domínio desses conceitos é um pré-requisito para a compreensão desta pequena parte de um conteúdo, que vai muito além dos fatos citados. O problema é que, em geral, as crianças não têm. Isso não quer dizer que nessa idade não seja possível compreender conceitos complexos: significa que o conteúdo de disciplinas como história, geografia e ciências ainda é totalmente voltado a fatos e pressupõe que os alunos irão, naturalmente, absorver o significado – ou, normalmente, os muitos significados – de um vocabulário abstrato, muitas vezes relacionado a práticas longe da realidade delas. Aprender história sem entender profundamente o sentido de palavras como “subsistência”, “propriedade particular”, “influência” e “diversidade” é como assistir a um filme em baixa resolução e numa língua estrangeira: se tem uma ideia vaga e muitas vezes distorcida do que acontece.

As abstrações, como no caso de “subsistência”, a terra, a plantação, o alimento, os animais – e outros abstratos, como “o lucro, a propriedade, o consumo, o essencial -, estão, por sua vez, ligadas a outros conceitos, em uma série de incontáveis relações. A aprendizagem só ocorre quando o novo elemento é encaixado nessas redes já existentes. Se não é relacionado, não faz sentido, e se não faz sentido, será descartado pelo cérebro.

Essas relações permitem que o novo conceito seja visualizado, ou seja, que o cérebro crie uma imagem mental para ele, o que geralmente ocorre de forma inconsciente. Tanto é que o fato de a mente dar forma a palavras abstratas não era amplamente aceito até recentemente, quando estudos com neuroimagens passaram a amparar essa teoria. Muitas teorias no início do século passado já relacionavam os processos cognitivos às sensações físicas, mas até pouco tempo atrás, a visão mais aceita era de que corpo e mente agiam de forma separada, de que o pensamento envolvia certas partes do cérebro e as percepções envolviam outras. Hoje sabemos que essa divisão não é bem definida.

Temos consciência de uma parte muito pequena – estima-se que 1% – do que se passa em nossa mente. Enquanto esses processos conscientes são lineares, geralmente seguindo – uma sequência lógica, a mente segue vários caminhos paralelos simultaneamente, que caracterizam a forma como as pessoas interpretam e passam por movimentos, imagens e outras percepções.

Investigações neurocientíficas mostram que quando pensamos sobre conceitos amplos – como fracasso, inspiração, ambição, comodismo, rejeição, confiança – ativamos áreas visuais e motoras do cérebro, ou seja, associamos a abstração a elementos concretos. Pode parecer difícil identificar essa relação, por ser inconsciente, mas o mais provável é que o cérebro crie sentido às palavras de forma metafórica.

Quando falamos em afeto, por exemplo, ativamos no cérebro regiões associadas ao conforto e ao calor. Visualizamos o futuro como algo que está à frente; sentimentos negativos são universalmente compreendidos como “para baixo”; descrevemos etapas da vida como caminhos; relações são descritas em termos de percursos e direções. O linguista George Lakoff, autor do termo corporização cognitiva – em bodied cognition -, ampara todo o seu trabalho na ideia de que o pensamento é, necessariamente, metafórico.

Segundo o linguista Benjamin Berger, em seu livro Louder Than Words (Mais alto que palavras), “ações imaginadas, relacionadas metaforicamente às situações, abstratas produzem melhor compreensão dos conceitos expostos”. Juntamente com Nian Liu, em um de seus estudos ele investigou se a mente cria simulações mentais de espaços quando utilizada linguagem abstrata da mesma forma como procede na linguagem concreta, medindo o tempo de resposta dos participantes com relação à locação espacial implicada na frase. Eles encontraram evidências de que mensagens abstratas também acionam simulações mentais, embora precisem de um tempo maior para serem processadas.

A utilização de metáforas e analogias no entendimento de conceitos abstratos, ao descrevê-los em termos mais concretos, está diretamente relacionada à forma corno o cérebro processa a linguagem. Muito mais que um recurso poético ou literário, ensinado de forma isolada, é essencial para se compreender mensagens que dependem de relações com o mundo físico ou que, muitas vezes, estão inconscientemente relacionadas a diferentes sensações e emoções.

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências. Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

UM PORRE DE SOBRIEDADE

Em nome da saúde e do bem-estar, adolescentes e jovens adultos trocam os coquetéis clássicos por drinques preparados sem uma gota de álcool

Em termos de comportamento, o universo dos “baby boomers”, como são chamadas as pessoas nascidas após a II Guerra Mundial, parece outro planeta comparado ao dos millennials, a turma com idade entre 24 e 39 anos. No lugar dos guitar heroes, passaram a brilhar nos palcos os DJs e seus pickups. Saíram de cena os bólidos possantes e motos envenenadas, entraram em campo os aplicativos de transporte e as bicicletas. Os cigarros que compunham um figurino charmoso viraram sinônimo de péssimo gosto. Agora, os mais jovens podem brindar esse fosso geracional com drinques que contenham na receita xaropes, especiarias e energéticos, entre outros ingredientes. Esqueça dry martinis, mojitos e cosmopolitans: a onda virou “encher a cara” à base de misturas sem nenhuma gota de álcool. Sim, isso mesmo. Em vários bares nos Estados Unidos e na Europa, a happy hour já é movida a várias doses de sobriedade.

Chamada de mindful drinking, ou bebendo deforma consciente, em uma tradução livre, a tendência começa a chegar ao Brasil. Em um passado não muito distante, as cartas etílicas dos bons estabelecimentos daqui traziam escondidas uma ou outra opção sem álcool, em geral feitas de forma improvisada para atender um número residual de clientes. O negócio vem mudando a um ritmo veloz. Cada vez mais, os bartenders investem tempo e criatividade no desenvolvimento de drinques sem álcool. Um dos melhores bares de coquetéis de São Paulo, o Guilhotina Bar, oferece hoje quatro opções do tipo e cerca de dez com médio ou baixo teor alcoólico. “A ideia é disponibilizar alternativas para que as pessoas que não queiram ou não possam beber frequentem a casa e tenham a experiência de curtir o clima do bar”, afirma o bartender e proprietário Márcio Silva.

Vários estudos conseguiram quantificar essa mudança de comportamento. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da Nielsen revelou que metade das pessoas com idade entre 21 e 34 anos está tentando beber menos. Na Austrália, a ingestão de álcool atingiu recentemente o seu ponto mais baixo desde o início dos anos 60. O declínio foi causado quase inteiramente pela redução do consumo entre jovens. Na Alemanha e na Inglaterra, países conhecidos pelo alto consumo de cerveja, houve uma diminuição drástica desse hábito no dia a dia dos adolescentes e dos jovens adultos. Por aqui, um levantamento realizado pela empresa de pesquisa de mercado Mintel, em 2018, mostrou que 35% dos millennials limitam a quantidade de álcool ingerida como parte de sua rotina de cuidados com a saúde e 17% trocaram o consumo de bebidas alcoólicas pelo de não alcoólicas. ”Essa geração busca formas diferentes de viver a vida”, entende a psicóloga Ceres Araújo, professora da PUC de São Paulo. “Eles sabem que o álcool faz mal e engorda, e acabam se afastando disso”.

Outra pesquisa da Nielsen ressaltou que 70% dos brasileiros com até 35 anos estabelecem como objetivo de vida ter saúde, e uma das formas de alcançar essa meta é pela mudança de hábitos. No quesito consumo de álcool, isso significa beber menos, sem necessariamente abster-se. O momento de encher o copo fica guardado para festas e ocasiões especiais (às vezes, com algum exagero na data escolhida). De acordo com dados da OrganizaçãoMundial da Saúde, a prática de beber em binge– ou seja, o consumo de pelo menos cinco doses por homens ou quatro por mulheres dentro de um período de duas horas – subiu de 12,7% para 19,4% no Brasil entre 2010 e 2016. No restante do mundo, houve uma redução de 20,5% para 18,2% entre 2000 e 2016. Crescente, o movimento dos drinques sem álcool já provoca mudanças importantes no setor de negócios etílicos. Marcas tradicionais como Heineken e Guinness lançaram recentemente no exterior versões de cerveja sem álcool. A AB InBev, dona da Budweiser e da Brahma, entre outras, assumiu o compromisso de fabricar 20% de seus rótulos com pouco ou nenhum álcool até 2025. Um dos movimentos mais emblemáticos foi protagonizado pela Diageo, a segunda maior empresa de destilados do mundo. Em 2016, a dona do uísque Johnnie Walker comprou a Seedlip, companhia britânica especializada em coquetéis sem álcool. No setor de alimentação, as grandes redes de fast-food tiveram de engolir as mudanças de comportamento e substituíram itens calóricos do cardápio por comidas mais saudáveis. A indústria de bebidas sofre agora pressão semelhante e poderá virar a bola da vez – pelo menos no que depender do gosto dos millennials

GESTÃO E CARREIRA

EXECUÇÃO OU ESTRATÉGIA?

Em muitas empresas, só se pensa no estratégico. Mas nada funciona direito sem pessoas que executem bem. É fundamental um equilíbrio entre as duas funções

Um aspecto da gestão moderna que sempre me preocupou é o endeusamento dos executivos que possuem visão estratégica. Claro que é importante, claro que ter essa habilidade ajuda muito na gestão, mas os líderes que são bons executores também precisam ser igualmente reconhecidos. Como diz o grande consultor indiano Ram Charan, “a melhor estratégia é aquela que é bem executada”.

Sabemos de muitas empresas que possuem um magnífico planejamento estratégico, mas não conseguem colocá-lo em prática, pois tratam a execução como uma disciplina menos importante. O que se ouve é: “O topo faz a estratégia e os ‘lá de baixo’ executam”. Grande erro. O executor é tão valioso quanto o formulador. Eles se complementam e devem ser tratados igualmente, com as mesmas recompensas e reconhecimento.

Existem algumas regras para o processo de execução, as quais reúnem técnicas e comportamentos. Vejamos o que Larry Bossidy e Ram Charan nos indicam em seu livro Execução (Alta Books, 69,90 reais).

1. Conheça bem seu pessoal e seu negócio. Isso parece óbvio, mas não é. Faça as seguintes perguntas: “Qual é o time que vai fazer a execução?” “Será que eu, líder, conheço bem as características de cada um?” “Até que ponto posso desafiá-los?” “Qual o nível de comprometimento de cada um?”

2. Insista no realismo. O bom executor sabe ler nas entrelinhas do plano e sacar sua viabilidade. Essa análise pragmática é fundamental para o sucesso, pois sempre é necessário ter uma dose de realismo para conduzir a execução.

3. Estabeleça metas e prioridades claras e as comunique. As famosas frases “Somos todos adultos” ou “Qualquer criança entende o que precisamos fazer” são inadequadas, desmotivadoras e sem nexo.

4. Trabalhe para concluir o que foi planejado. Não deixe pedaços para serem feitos mais tarde, não pare no meio e não procrastine.

5. Recompense quem faz. Muito cuidado para recompensar aqueles que realmente executaram, que deram o sangue, que fizeram a virada.

6. Amplie o leque de competências do time propondo desafios. Lembre-se de que as pessoas são sempre melhores do que pensam. Portanto, desafie-as, faça com que saiam de sua zona de conforto e cresçam por meio dos desafios.

7. Conheça seus limites. Muitas vezes, não é a equipe que não funciona. É você que está indo além de seus limites e de suas convicções — ou, até, contra seus valores. Por isso, entenda até onde você aguenta. Somos seres humanos com limites que devem ser respeitados.Capriche na execução e você terá a melhor estratégia funcionando

LUIZ CARLOS CABRERA – escreve sobre carreira, é professor na EAESP-FGV e diretor na PMC-Panelli Motta Cabrera & Associados

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 11 – LIMPE O CONVÉS

Limpe o convés: (verbo) Prepare-se para um evento ou objetivo específico lidando antecipadamente com qualquer coisa que possa impedir o progresso

Esse termo náutico originalmente era uma ordem dada a bordo dos navios que se aproximavam de uma batalha. Quando recebiam essa instrução, os marujos sabiam que deviam remover quaisquer ferramentas, cordas ou outros objetos que pudessem impedi-los de se movimentar livremente pela embarcação. Hoje esse termo se aplica a qualquer preparação que nos posicione para agir sem maiores embaraços.

No capítulo anterior, falamos sobre o casamento como um projeto funcional e vivo. O propósito deste capítulo é tratar de quaisquer problemas que possam impedi-lo de avançar e de experimentar a grandeza do casamento. O ato deliberado de limpar o convés de um navio serve para impedir que as cordas se emaranhem umas às outras. Se o convés estiver em desorganizado ou cheio de entulho, é fácil, em tempos difíceis ou em mares revoltos, tropeçar em alguma coisa que você poderia facilmente contornar se estivesse navegando em águas tranquilas.

Amamos a ideia de posicioná-lo para velejar rumo ao seu futuro, levando com você tudo aquilo que lhe sustentará, enquanto ao mesmo tempo lança fora qualquer coisa que possa lhe trazer peso ou deixá-lo ancorado ao passado.

Muitas pessoas não apenas “tropeçaram no convés” e se feriram, como também caíram do barco e se perderam no mar.

O projeto de Deus para o casamento é infalível. No entanto, o casamento parece colocar as falhas de cada um dos cônjuges em evidência como nenhuma outra instituição. Em vez de esperar até estar navegando em uma embarcação que esteja desesperadamente fora da rota – com velas rasgadas, carga perdida, vazamentos no casco e cordas desgastadas – queremos posicioná-lo corretamente para abrir caminho.

Ainda fazendo uso da analogia náutica, a recusa em tratar adequadamente os problemas fundamentais do relacionamento poderia ser comparada a se lançar ao mar com uma rolha tampando um buraco no casco do seu navio. Vai funcionar por algum tempo, mas quando a pressão aumentar, a rolha não irá aguentar.

Não queremos que você tropece ou afunde. Queremos que seu casamento seja uma arca que pode resistir a qualquer tempestade que você encontrar. Enquanto trabalhava no projeto do seu casamento no capítulo anterior, você talvez já tenha reconhecido alguns problemas que precisa tratar antes de poder avançar com aquilo que visualizou. Portanto, vamos procurar cada falha que pode atrapalhá-lo cujas raízes são o egoísmo, o orgulho e a ofensa. Vamos nos libertar de toda maldição que nos acorrenta e de todo medo que nos amarra e deixar que a esperança seja nossa âncora.

NOSSO COMEÇO

Sabemos que limpar o convés é importante porque não foi assim que iniciamos nossa jornada juntos. Não prestamos muita atenção durante o aconselhamento pré-nupcial. Quando nosso conselheiro tentou nos aconselhar sobre como navegar nas águas turbulentas dos conflitos, pensamos: Brigar? Nunca vamos brigar! Deus nos uniu. Este conselho é para pessoas que não estão apaixonadas como nós. Nós não somos essas pessoas. A mão de Deus está sobre nossas vidas.

Depois de apenas algumas semanas de casamento, os problemas começaram. Não demorou muito para entendermos o quanto estávamos errados. Havíamos entrado no casamento enxergando nosso cônjuge como alguém perfeito, mas logo ficamos cada vez mais conscientes de todas as falhas um do outro. Então começamos a trabalhar duro para mudar um ao outro. Em resultado disso, nosso casamento feliz se tornou um campo de batalha entre duas pessoas com muita força de vontade. As fagulhas voavam enquanto ferro tentava afiar ferro.

Ainda não tínhamos a consciência de que nossa união era na verdade fraca e frágil. Sim, estávamos profundamente comprometidos um com o outro, mas cada um de nós valorizava excessivamente o próprio caráter, especificamente nas áreas da paciência e do altruísmo. Tínhamos mais problemas do que gostaríamos de admitir, e até o que era bom precisava ser fortalecido para resistir aos desafios que estavam por vir.

Em vez de permitir que Deus limpasse nosso convés, queríamos apenas limpar um ao outro. O casal que acreditava ser um par perfeito havia acordado do sonho. Ainda fingíamos que tudo estava bem quando íamos à igreja, mas nossa vida doméstica começava a se parecer mais com uma disputa de luta livre.

Durante nosso primeiro ano de casamento, houve um dia em que estávamos envolvidos no que alguns chamariam de “comunhão intensa”. John não queria que eu (Lisa) saísse do quarto, então ele me disse para sentar na nossa cama. Eu queria sair do quarto antes que pudesse dizer qualquer outra coisa da qual me arrependeria logo de manhã. John disse para eu me sentar, e quando eu já estava me levantando para sair, ele tentou fazer com que eu me sentasse na cama para discutirmos as coisas. A combinação do meu movimento levantando e o empurrão de John me fez cair no chão.

Levantei-me e fiquei de pé, segurando um abajur na mão. John olhou para mim incrédulo, com um olhar de terror no rosto.

— O que você vai fazer com isso? — ele perguntou.

— Não sei — resmunguei.

O ridículo daquela cena criou uma oportunidade para nós dois nos acalmarmos e conversarmos sobre o problema, mas a raiz do problema continuou sem solução.

Alguns dias depois desse episódio, eu estava almoçando com uma de minhas amigas. Ela estava casada há mais tempo que eu, e me senti relativamente confortável em me abrir com ela sobre meus problemas matrimoniais. Mas em vez de contar os detalhes do incidente com o abajur, decidi fazer uma abordagem mais sutil. Perguntei de forma casual:

— Você já teve um desentendimento com seu marido e de repente se viu com um abajur nas mãos?

Ela me olhou como se a pergunta fosse absurda:

— Não!

Respondi depressa:

— Nem eu!

Obviamente, eu estava mentindo. Minha amiga provavelmente conseguiu deduzir que a minha pergunta supostamente aleatória era um grito de socorro. Mas a máscara conjugal nos impediu de levar a conversa adiante.

John e eu sentíamos como se não tivéssemos para onde ir. Sérios problemas estavam surgindo em nosso casamento, mas não sabíamos a quem recorrer. Na igreja, escondíamos nossas dificuldades e mascarávamos nossa dor. Sabíamos que o grau de conflito no nosso relacionamento estava aumentando, mas não sabíamos como responder a isso. A vergonha e falta de esperança provenientes da nossa situação fizeram com que as coisas fossem de mal a pior. Consequentemente, a tensão em nossa casa se tornou insuportável.

E então aconteceu. Nosso conflito chegou ao ápice quando eu (John) bati em Lisa. Antes desse incidente, nossas brigas eram físicas – eu já a empurrara uma vez – mas essa foi a primeira vez que dei um tapa nela. Imediatamente, percebi o que havia feito e fiquei completamente horrorizado com meu comportamento e consumido pelo remorso. Lisa revidou e depois se trancou no banheiro. Ambos fomos nos deitar naquela noite sentindo que algo havia se perdido.

Na manhã seguinte, enquanto nós dois nos preparávamos para sair para o trabalho, Lisa estava em silêncio e cada vez mais distante. Parecia que a inviolabilidade e a confiança do nosso relacionamento haviam sido rompidas. Ambos estávamos trabalhando em tempo integral, e à medida que a semana passava, a distância entre nós aumentava. Lisa estava trabalhando com vendas naquela época, e começou intencionalmente a ficar fora até tarde, olhando as vitrines da região para evitar ter contato comigo. Quando finalmente ela voltava para casa, recusava-se a falar ou a jantar comigo e ia direto para a cama ler. Eu estava esperando ansiosamente pelo fim de semana para que pudéssemos finalmente resolver o que havia acontecido.

MEU JURAMENTO

Quando era jovem, eu (Lisa) havia feito um juramento de que se meu futuro marido algum dia me batesse, eu o deixaria. Fui criada em um lar desequilibrado e ficava aterrorizada com a possibilidade de me encontrar em outra situação abusiva. Quando John me bateu, lembrei-me do meu juramento e fui confrontada com uma decisão que poderia transformar minha vida. Será que conseguiria permanecer casada? Será que conseguiria amar e me entregar a um homem que havia me batido?

As pessoas com quem eu trabalhava sabiam que algo estava me perturbando profundamente. Uma de minhas supervisoras supôs o que havia acontecido. Ela me encorajou a deixar John imediatamente, sem conversa. Eu estava esperando o fim de semana chegar para poder trancar John do lado de fora da casa. Além de falar com meus colegas de trabalho, eu estava lendo o livro do Dr. James Dobson O Amor Tem Que Ser Firme, que me inspirou a elevar a situação ao nível de uma crise.

Quando John voltou para casa naquela noite, ele não conseguiu entrar no apartamento. Eu havia trancado a porta por dentro e ele não tinha como entrar. Isso foi antes dos telefones celulares, de modo que ele ficou do lado de fora e chamou: “Lisa, cheguei. Por favor, deixe-me entrar!” Acabei abrindo uma janela para informá-lo de que eu sabia que ele havia chegado, mas que ele precisava encontrar outro lugar para passar a noite. John não conseguia acreditar. Depois de algum tempo, ele percebeu que não entraria em casa, então decidiu passar a noite com um amigo, com o pretexto de orar e jejuar.

Agora que eu tinha a casa toda para mim, decidi ter uma conversa séria com Deus. Creio que minha oração começou mais ou menos assim: “Tudo bem, Deus, tenho algumas sugestões para o Senhor. Enquanto John está fora, ele precisa ter uma revelação do quanto tem sido terrível comigo. Talvez o Senhor possa dar a ele um sonho mau ou assustá-lo com um relâmpago. Apenas não o mate porque ele não tem um seguro de vida muito bom”.

Mas por mais que eu orasse sobre John, a única pessoa a respeito de quem Deus queria falar comigo era eu mesma. Deus não estava interessado em discutir os problemas de John comigo. Ele queria falar sobre como estava o meu coração. Ele me disse: “Lisa, você precisa de uma intervenção sobrenatural no seu casamento. E se quiser uma intervenção sobrenatural no seu casamento, você terá de agir sobrenaturalmente. Isso significa que você deve perdoar mesmo achando que o perdão não é merecido”.

“Lisa”, Deus continuou dizendo, “você está guardando todas as suas mágoas contra o John”.

GUARDANDO MÁGOAS

Quando John e eu brigávamos, não brigávamos apenas sobre o problema imediato. Usávamos a munição acumulada nos nossos meses de casamento para diminuir e desacreditar um ao outro. Um registro sempre crescente de ofensas, condenação e amargura era o fundamento para todos os desentendimentos. Até as discussões menores evoluíam para o que pareciam batalhas de proporções épicas.

Eu, a maior culpada nesses longos conflitos, não estava disposta a perdoar John e suas ofensas passadas. Por causa da mágoa que eu havia trazido para o nosso relacionamento, eu temia a possibilidade de que, se eu cancelasse as dívidas dele, poria em risco minha segurança emocional e física. Mas Deus me disse que embora John estivesse longe de ser perfeito, ele merecia meu perdão.

Continuei tentando dirigir a atenção de Deus novamente para John, mas Ele não estava cooperando. Supliquei “Por que sou sempre eu que tenho de mudar? Espero que o Senhor esteja dizendo a John para fazer o mesmo porque ele não vai mudar a não ser que o Senhor diga a ele para fazer isso”.

Mas em meio a tudo isso, Deus estava revelando a corrupção do meu próprio coração. O orgulho e o egoísmo logo surgiram com suas consequências terríveis. Eu me vi pensando em como as pessoas reagiriam se John e eu não estivéssemos sentados juntos ou de mãos dadas na igreja no domingo. Decidi que permitiria que ele voltasse para casa apenas a tempo de se vestir e me levar para a igreja, para que pudéssemos manter as aparências. Eu não estava preocupada com John ou com nosso relacionamento. Estava preocupada com o que as outras pessoas pensavam a nosso respeito. Meu orgulho estava me impedindo de experimentar o efeito transformador da graça de Deus exatamente onde eu mais precisava dela.

Finalmente me quebrantei e permiti que Deus fizesse Sua vontade no meu coração. Mesmo depois do terrível erro de John, escolhi reconhecer a minha parte no que havia ocorrido. Assim que eu me humilhei, a graça de Deus se manifestou. A humildade sempre abre as comportas da graça:

“Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes.” 1 Pedro 5:5

Ficou evidente para mim que eu não podia mudar John. Só Deus poderia fazer isso. Mas eu podia permitir que Deus mudasse a mim mesma.

Depois daquele fim de semana fora, John voltou para casa um homem diferente. Depois que Deus tratou com ele nos primeiros anos do nosso casamento, ele nunca mais me bateu – e hoje fazem mais de três décadas desde que isso aconteceu. Nossa união foi transformada quando ambos respondemos com humildade diante de Deus e diante um do outro com esperança de uma restauração e reconciliação completas.

MORAL DA HISTÓRIA

Gostaríamos de poder dizer que as feridas daquele período de nossas vidas se curaram da noite para o dia, mas não foi assim. Os dois anos seguintes do nosso casamento continuaram a ser marcados por grandes lutas e dificuldades emocionais enquanto tentávamos aprender a viver juntos de uma maneira que honrava a Deus. Ouvimos todo tipo de conselhos, que variavam desde ambos sermos o chefe até Lisa desaparecer completamente tanto na sua voz quanto no seu papel.

Na nossa imaturidade, frequentemente atacávamos um ao outro verbalmente enquanto Deus estava fazendo uma obra em nossas vidas individuais. Saímos dos nossos quatro primeiros anos de casamento nos sentindo extremamente quebrantados. Em alguns aspectos, vivíamos as consequências dos nossos erros. Havia até mesmo evidências físicas ao nosso redor dos fracassos que vivemos, inclusive uma geladeira amassada e uma janela substituída. Mas Deus não perdeu a esperança em nós. Ele estava redimindo os nossos erros transformando-os em oportunidades de limpar o convés. O que o inimigo havia preparado para destruir nosso casamento, Deus usou como alicerce para o que estava por vir.

Embora sempre tenhamos dito que tivemos dificuldades, nunca entramos em tantos detalhes assim nos nossos ensinamentos. Estamos compartilhando mais informações agora não como uma desculpa para o nosso comportamento, mas para encorajar você a saber que a mudança pode acontecer. Ao mesmo tempo, sabemos que nem todo abuso tem final feliz, e não estamos incentivando nenhuma mulher ou homem a permanecer em uma situação onde eles ou seus filhos não estejam em segurança. Se você está nessa situação, vá para um lugar seguro. Não se envergonhe. Fique em segurança e procure a ajuda que necessitar. Falaremos mais sobre isso em breve.

Durante esses anos desafiadores, nosso casamento parecia completamente destituído de esperança. Trinta anos depois, porém, estamos desfrutando a vida juntos mais do que nunca. Nosso casamento é maravilhoso, o que é verdadeiramente um testemunho do poder de Deus de operar milagres. Isso não quer dizer que não passamos por outros vales ao longo do caminho. Mas de uma coisa sabemos: à medida que escolhemos amar, Deus foi fiel para nos fazer atravessar cada um deles.

Não sabemos como está seu relacionamento hoje, mas podemos lhe garantir que há esperança! Volte seu coração para Deus e permita que Ele trate com você. Você não pode mudar seu cônjuge, mas Ele pode. Entregue a responsabilidade a Ele. Deus começará uma linda mudança se você permitir.

UMA PALAVRA SOBRE ABUSO

Queremos deixar isto claro: marido, nunca é aceitável que você parta para o embate físico com sua esposa. A Bíblia diz que você deve honrá-la como o vaso mais frágil (ver 1 Pedro 3:7). Os ataques emocionais ou até físicos de sua esposa não lhe dão o direito de reagir da mesma maneira. Afaste-se se for preciso. Não reaja fisicamente, ainda que seja apenas em retaliação aos ataques dela, ou você perderá a confiança de sua esposa. Ela não se sentirá mais segura nos seus braços. Se você cometeu abuso contra sua esposa, arrependa-se imediatamente diante de Deus e peça perdão a ela.

Esposa, o desejo natural do seu marido é protegê-la. Deus deu a muitos homens uma força superior com esse propósito específico. Você pode considerar ataques físicos a seu marido como ataques de raiva banais e inofensivos, já que eles não causam danos físicos a ele. Mas para seu marido, seus ataques são devastadores. Certo ou errado, os homens foram feitos para reagir fisicamente quando são atacados. Não queremos provocar ou despertar o pior um no outro; queremos trazer para fora o melhor. Se você cometeu abuso contra seu marido, arrependa-se e pare imediatamente com esse comportamento.

Talvez você tenha crescido dentro de uma cultura familiar violenta. Talvez em sua família o abuso verbal, emocional ou físico fosse algo normal. Queremos que você saiba que essa nunca é uma maneira saudável de resolver os conflitos. O aconselhamento cristão pode lhe dar as ferramentas necessárias para resolver os desafios de sua vida pessoal e familiar de forma saudável. Muitas igrejas oferecem pequenos grupos de estudo sobre esses temas. Jamais sinta vergonha de procurar ajuda profissional e espiritual.

E isso vale tanto para maridos quanto esposas: se seu cônjuge se sente inseguro com relação a você, saia de perto dele e trabalhe para recuperar essa confiança. Não tente forçar uma conversa em qualquer ambiente onde ele ou ela se sinta em risco. Se fizer isso, as coisas só irão piorar, e você provavelmente fará algo que lamentará mais tarde.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS DIMENSÕES DA PAIXÃO

A ideia de se apaixonar provoca desejo e medo. Não é um terreno seguro. Ainda que a paixão seja correspondida, gera fragilidade, pois o objeto de amor pode ou não suprir as expectativas

Há uma supervalorização das ações e significados de tudo que envolve o ser amado. Por isso o medo das pessoas de se verem enredadas nas garras da paixão. Evitar a todo custo relacionar- se por medo da paixão e do amor é um indício de grande bloqueio e revela mecanismos de defesa muito consolidados, provocados geralmente por vivências traumáticas.

Como escreve o psiquiatra Renato Mezan no livro Os Sentidos da Paixão: “A defesa – qualquer defesa – tem a finalidade óbvia: evitar o desprazer. Isso não a impede de gerar, por vezes, um intenso desprazer; mas esse último será sempre fantasiado como um mal menor, se comparado com aquilo que sucederia caso a defesa fosse abandonada. Boa parte do trabalho psicanalítico, aliás, consiste no reexame das fantasias e das angústias que povoam a vida psíquica do paciente”. Entregar-se à paixão é antes de tudo um ato de coragem.

Baixar as defesas que impedem o contato com o outro e o risco da paixão como possível consequência é iniciar uma jornada de heroísmo. O que enfrentaremos nessa empreitada é um mistério. Quando se está aberto à vida e às experiências, estamos sujeitos ao apaixonamento. Esse processo geralmente revela a nossa “sombra”. Sombra é um conceito da psicologia junguiana que designa conteúdos arquetípicos tanto destrutivos como construtivos, que foram recalcados e esquecidos e assim passíveis de projeções. A revelação da nossa sombra e de nossos complexos, através da relação com o outro, pode ser equiparado simbolicamente aos 12 Trabalhos de Hércules, ao enfrentamento da Medusa e das sereias na jornada de Ulisses e seus companheiros ou aos desafios de Psique para reencontrar o amor de Eros. Metáforas da mitologia que podemos considerar como os desafios de viver e amadurecer. Todos os seres assustadores desse caminho estão dentro de todos e podem ser despertados. Não há melhor forma de conhecermos nossas fragilidades psíquicas e inseguranças do que na relação com o outro. Após algum tempo de relação, as idealizações iniciais começam a colapsar e a realidade se apresenta. Se os parceiros avançaram pouco na senda do amadurecimento e autoconhecimento, podem surgir muitos conflitos e o relacionamento pode tornar-se um campo de disputas. Por questões narcísicas arcaicas pode não ser fácil para o indivíduo reconhecer a parte que lhe cabe nos conflitos, gerando mágoa e ressentimento no parceiro. Principalmente se houve interrupções em seu processo de amadurecimento afetivo.

Amar talvez seja a tarefa mais complexa da existência humana. Desde que nascemos, de uma forma ou de outra, estamos nos preparando para amar. “Talvez seja o trabalho para o qual todos os outros trabalhos não sejam mais do que a preparação”, disse o psiquiatra Ronald Laing (1954). O amor diferentemente da paixão exige um grau de maturidade a ponto de se ter condições de considerar o outro e suas necessidades, diferentemente da paixão que é permeada por questões mais narcísicas e autocentradas. Na busca de alcançar a maturidade para que a paixão possa evoluir para um sentimento verdadeiro e compartilhado em que o outro é tão igualmente importante e1n seus desejos e necessidades, existe um árduo caminho.

Esse caminho é descrito por Carl Jung nos estudos alquímicos e o processo de individuação. Transformar nossas mazelas na “pedra filosofal” como desejavam tanto os alquimistas é tarefa nobre. Não alcançaremos o Opus sem antes passar por todos os processos de transformação, tão bem descritos por Edward F. Edinger em seu livro Anatomia da Psique. Nesse livro o autor descreve as etapas do processo alquímico a que são submetidos os materiais e a sua correspondência ao processo de autoconhecimento. Esses processos incluem: submeter-se ao fogo, à água, ao ressecamento, à dissolução para que ocorra a verdadeira transformação do “metal bruto” em “ouro”. Tudo isso simbolicamente pode acontecer quando estamos apaixonados e sujeitos a todas as intempéries que isso significa. Não vamos ganhar os louros sem antes enfrentar nossas batalhas internas.

Neste momento, esse trajeto pode ser feito com muito mais conforto e profundidade se o indivíduo estiver disposto ao processo psicanalítico. A situação transferencial da análise também é de certa forma uma relação amorosa, que pode reproduzir em seu contexto os enfrentamentos reais do paciente em seu cotidiano. A análise se propõe a propiciar local adequado e seguro para que as defesas sejam aos poucos identificadas e afrouxadas, enquanto outros recursos mais saudáveis estão sendo alicerçados no trabalho conjunto com o analista.

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga. Pós-graduada na área Sistêmica- Psicoterapia de Família e Casal pela PUC- SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos Transdisciplinares da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA. Atuou na área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.

OUTROS OLHARES

AMEAÇA DEVASTADORA

Relatório da ONU revela que se o aquecimento global não for contido antes do fim do século, com a proteção de florestas, por exemplo, será mais difícil produzir alimentos para a humanidade

“Dada a causa, a natureza produz o efeito no modo mais breve em que ele pode ser produzido.” A máxima, de autoria do gênio italiano Leonardo da Vinci, que morreu há cinco séculos, caberia bem como epígrafe do novo relatório do IPCC, o órgão da ONU que trata de mudanças climáticas, divulgado na quinta-feira 8. Nele, mais de 100 cientistas de 52 nações fazem um alerta sobre os riscos à produção de alimentos representados pelo aquecimento global – a causa em questão que pode levar a natureza a produzir seus efeitos, danosos, no mais breve período possível. Ao tratar de alimentação, um aspecto pouco observado nas discussões sobre a elevação da temperatura terrestre, o documento do IPCC pode ser classificado – metafórica ou literalmente – como um autêntico soco no estômago.

O estudo foi produzido com o propósito de, mais uma vez, chamar atenção para as providências que têm de ser tomadas a fim de que se cumpram as metas fixadas pelo Acordo de Paris, definidas em 2015, que teve a adesão de 195 países. O tratado estabeleceu um limite de aumento de 1,5 grau na temperatura do planeta até 2100. Mas, para que isso aconteça, cada nação deve adotar medidas capazes de reduzir as emissões de gases do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Para se ter uma ideia da gravidade do problema no que tange aos alimentos, a elevação de 1 grau na temperatura da Terra significará a redução de 7,4% na produção mundial de milho até o fim do século. Diante disso, o relatório do IPCC lista as saídas para evitar o pior. Para começar, será preciso conciliar as atividades agropecuárias que recorrem ao desmatamento com a perspectiva da necessidade de alimentar quase 10 bilhões de pessoas em pouco mais de três décadas (estima-se que essa será a população do globo em 2050). Ao mesmo tempo, as áreas de plantio terão de dividir espaço com a produção de biocombustíveis, como o etanol, para zerar de vez o uso de fósseis como fonte de energia. Em resumo, a forma de conservar e utilizar o solo precisará ser transformada radicalmente para evitar o aumento da temperatura no planeta.

O relatório dividiu a discussão do problema em quatro pilares: a redução do desmatamento de florestas tropicais (para a pecuária e a mine ração, por exemplo), como a Amazônia; a necessidade de investir em reflorestamento, visando à retenção de C0 2 e à segurança hídrica; a produção sustentável de alimentos; e a adoção definitiva, e com urgência, dos biocombustíveis. Em seu documento, o IPCC costurou dados da literatura científica publicados até 2016 – a última data em que se consolidam informações sobre o assunto – e apontou as ameaças para a população de toda a Terra. O estudo não especificou as ações que devam ser adotadas em cada país. Os dados estão postos para que os governos definam o melhor modo de agir, de acordo com a sua realidade.

Segundo o IPCC, as atividades humanas têm algum tipo de impacto sobre mais de 70% da superfície terrestre – são as áreas onde as populações se estabeleceram para produzir comida e encontrar água doce, por exemplo. Cerca de 25% do solo é usado para cultivar alimentos e madeira e gerar energia, o que acaba aumentando em 23% os gases do efeito estufa. A terra é tanto causa como solução para o problema dessas emissões. O sequestro de dióxido de carbono da atmosfera ocorre durante a fotossíntese, na qual os vegetais tiram o C02 do ar e expelem oxigênio. Por isso derrubar florestas para abrir lavouras e pastos reduz a área que auxilia no combate ao aumento da temperatura global. Há aproximadamente 1,4 bilhão de cabeças de gado em todo o mundo, responsáveis por nada menos que 40% da emissão anual de gás metano – que pode causar desequilíbrio no efeito estufa. Ou seja: os animais que alimentam a população também atacam o meio ambiente.

Para a diretora executiva da seção brasileira do World Resources Institute (WRI), instituição americana dedicada ao estudo do clima, Rachel Biderman, o relatório põe em xeque a segurança alimentar da humanidade – e o Brasil está diretamente ligado à questão. “O país é um dos maiores emissores de gases e está caminhando na direção contrária do que foi proposto em 2015, em Paris. O Brasil possui exemplos de produção sustentável, e temos de colaborar mais para resolver o desafio das mudanças climáticas”, afirmou ela.

A controversa posição brasileira no que diz respeito ao meio ambiente tem um sinônimo: Jair Bolsonaro. Ainda quando candidato ao Planalto, ele deu a entender que poderia sair do Acordo de Paris, a exemplo do que fizera o presidente americano Donald Trump. Contudo, nem mesmo a ala ruralista apoiou os planos do então presidenciável, o que o levou, depois de eleito, a manter a Pasta dedicada à área e o compromisso climático assinado quatro anos atrás. Entretanto, os primeiros meses de seu governo foram repletos de decisões equivocadas no setor ambiental. Na sexta-feira 2, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, foi exonerado em consequência das críticas que fizera a Bolsonaro quando ele questionou os números da instituição sobre o desmatamento no Brasil – que revelaram um aumento de 68% na devastação da Floresta Amazônica na primeira quinzena de julho, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O presidente considera que, nesse assunto, o Brasil é vítima de números mentirosos e tem de se defender do interesse internacional na Amazônia. Por sua vez, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recomendou a criação de outro sistema de monitoramento do desmatamento. A revista científica Nature, uma das mais prestigiadas do planeta, citou o episódio do Inpe e defendeu a tese de que os cientistas não trabalham para a esquerda ou para a direita, e sim pela sobrevivência e pela prosperidade da própria humanidade.

O relatório do IPCC também chamou atenção para a emergência da transformação de certos comportamentos. Atualmente, algo entre 25% e 30% dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados. Mudanças nos padrões de consumo contribuíram para que cerca de 2 bilhões de adultos estejam obesos ou com sobrepeso, ao mesmo tempo que 821 milhões de pessoas estão subnutridas. Uma das recomendações do IPCC é adaptar a dieta. De acordo com o órgão, uma alimentação mais equilibrada, saudável e sustentável será essencial.

Segundo o físico brasileiro Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que participou da elaboração do documento, a questão da produção de alimentos é crucial. “O setor da agricultura é responsável por 23% das emissões de gases do efeito estufa. Quando as populações com menor renda, como africanos e asiáticos, puderem consumir carne, a demanda vai aumentar. Precisamos encontrar o equilíbrio”, disse ele.

Desde o período pré-industrial – que vai de 1850 a 1900 – a temperatura nos continentes, onde a maior parte da população da Terra está concentrada, aumentou mais do que a média global. Em terra, os termômetros já ultrapassaram desde então o acréscimo de 1,5 grau, a previsão otimista estabelecida no Acordo de Paris. Quando se considera o planeta como um todo, a elevação da temperatura, no mesmo recorte temporal, foi de 1 grau. Durante a mais recente onda de calor na Europa, Paris atingiu o seu pico em 25 de julho, data em que os termômetros marcaram 41 graus e o governo francês declarou, pela segunda vez em menos de um mês, um alerta vermelho de calor – o nordeste do país estava com máximas previstas de 43 graus.

Ao mesmo tempo que o cenário internacional preocupa, há chance de reverter o caos que se desenha no horizonte. Todavia, para além do esforço político, será preciso investir muito em tecnologia. “Ainda não temos meios técnicos para reduzir a emissão de metano na produção de carne, por exemplo”, explicou Paulo Artaxo.

A ONU reconhece a relevância do papel de comunidades tradicionais e indígenas como aliadas no trabalho da conservação ambiental. No mundo, elas são responsáveis por manter em pé cerca de 40% de todas as áreas protegidas e mais de 65% das terras mais remotas e menos habitadas do planeta. Assim, a parceria entre ciência e tradição pode ser a chave para a contenção de uma resposta que a natureza, tendo como causa a humanidade, pode nos dar muito em breve.

FOME E SEDE

O cenário desolador apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

** Entre 7% e 40% da superfície da Terra Já está degradada. A ação humana é a principal responsável por isso

** No caso do Brasil, 8% do território se encontra atingido por alguma forma de degradação

** A piora do solo deve reduzir a produção global de alimentos em 12% até 2100

** A cada elevação de 1 grau na temperatura do planeta haverá redução de 7,4% na produção de milho, 6% na de trigo, 3,2% na de arroz e 3,1% na de soja ** As áreas secas em todo o mundo devem aumentar 10% antes que o século termine. levando 700 milhões de pessoas a viver em regiões

GESTÃO E CARREIRA

O GUIA DO AUTOCONHECIMENTO – II

PROCURAM-SE LÍDERES MAIS HUMANOS

Por que o autoconhecimento é importante para a boa gestão

Um estudo, divulgado neste ano, em parceria entre a consultoria em desenvolvimento de lideranças Green Peak e a Universidade Cornell, ambas nos Estados Unidos, analisou a experiência, o estilo de gestão e os resultados de 72 executivos de empresas públicas e privadas e revelou o seguinte: os profissionais capazes de construir boas relações com e entre o time entregaram melhores resultados financeiros do que os que eram vistos como tiranos. Entre as explicações dos pesquisadores, a habilidade de compreender como se dá a interação dentro do time e a consciência das potencialidades e fraquezas de cada um (incluindo a si mesmo) permitiria ao líder montar uma equipe equilibrada e produtiva. Além disso, a curiosidade de olhar além das experiências pessoais e de se interessar pela realidade do cliente favoreceria a tomada de decisões assertivas e focadas em resultado.

Nas organizações, espera-se que o líder pratique e propague a cultura criando significados para os subordinados produzirem se sentindo engajados e valorizados em sua individualidade. Ser acessível, saber se comunicar e agir com transparência — inclusive em relação ao que não sabe e precisa de apoio do time —, em vez de distribuir e fiscalizar ordens e processos, são atributos de uma gestão moderna e autoconsciente. Porém, nem sempre há empenho por parte das chefias para olhar além de si mesmo, muito menos admitir a própria vulnerabilidade. Pesquisas mostram que, quanto maior o poder de um gestor, mais ele tende a superestimar suas capacidades (em comparação com a opinião dos subordinados).Ainda assim, o futuro aponta para profissionais conscientes de que o aprimoramento como pessoa é condição para criar e inspirar culturas organizacionais mais saudáveis e estafes mais eficientes. Em escolas de educação executiva de referência no mundo, como Harvard, Stanford e Yale, a arte vem sendo usada há algum tempo como recurso na formação desse tipo de liderança. A ideia não é exatamente usar pintura, escultura, teatro e música de forma lúdica ou para entretenimento, mas como objetos de análise e interpretação para levantar discussões sobre ética, racionalidade, inovação e liberdade. “A arte estimula novas formas de pensar, permite olhar as situações além do óbvio, desenvolver pensamento crítico e resgatar valores humanos, como generosidade, respeito e sensibilidade, tão importantes nos ambientes de trabalho”, explica o professor e pesquisador Ricardo Carvalho, especialista em arte e gestão da Fundação Dom Cabral

ALTO IMPACTO

Saber mais sobre você mesmo faz muita diferença nos assuntos abaixo

VALORES: Entender que há condições inegociáveis e esforços que você não está disposto a fazer quando o assunto é trabalho é um bom ponto de partida para tomar decisões com menos desgaste mental e emocional. O emprego permite trabalhar home office, mas a carga horária inclui fins de semana e feriados? O salário é bom, mas são muitas conduções e horas no trânsito para chegar ao escritório? Com autoconhecimento fica mais fácil dizer “não, obrigado” com convicção e evitar agir levado por motivações de curto prazo.

COMPETÊNCIAS: Após muito tempo numa função ou quando se está operando no piloto automático, é comum achar que você é bom apenas em certas tarefas ou que sabe fazer as coisas de um único jeito. Só que não. Manter o olhar atento e generoso para suas habilidades é uma forma de ampliar a visão que tem de si mesmo e seguir sempre estimulado. Inclua nessa investigação capacidades que tem fora do ambiente de trabalho — muitas delas podem ser empregadas no contexto profissional —, assim como a opinião de terceiros sobre suas qualidades. Aprenda também a separar o que você realmente é do que gostaria de ser — eis uma cilada frequente. Ter essa imagem clara a seu respeito é útil, inclusive na hora de preparar uma descrição realista em um currículo ou entrevista de emprego.

PRODUTIVIDADE: Conhecer sua personalidade e seus interesses é chave para desenhar uma rotina de trabalho fluida e eficiente. Serve, por exemplo, para descobrir se você desempenha com mais disposição e foco de manhã ou à tarde, na tranquilidade do home office ou interagindo no coworking, entre tantas outras escolhas que influenciam diretamente a rotina profissional.

RELAÇÕES: Quem enxerga bem a si mesmo, aceitando e acolhendo as próprias falhas, dúvidas e inseguranças sem cair no excesso de autocrítica, tende a ser mais tolerante com os erros e as inseguranças dos outros. Isso melhora a colaboração na equipe, aumenta o bem-estar e se reflete em resultados positivos. Mas não se trata de forçar o entrosamento ou achar que precisa se dar bem com todos daqui para a frente. Em ambientes com muitas personalidades é normal que nem todos os santos batam. E tudo bem, desde que o esforço seja pela civilidade e pelo respeito.

SAÚDE: Conhecer (e respeitar) os próprios limites, saber dizer não, ajustar expectativas em relação a si mesmo e aos outros. Essas atitudes, que vêm com a maturidade e o autoconhecimento, nem sempre são fáceis de colocar em prática, mas demonstram autocuidado e previnem males tão presentes no cotidiano profissional quanto nocivos para a saúde e a autoestima, como ansiedade, insônia, abuso de medicamentos, depressão e burnout.

VOCÊ SABE QUEM É DE VERDADE?

Reflita sobre as afirmações abaixo e, deixando o julgamento de lado, marque sim (S) ou não (N) de acordo com a percepção que tem de si mesmo. Peça a uma pessoa em quem confia e que considera que o conheça bem para também responder às questões com base na percepção que tem de você (e não dela mesma). Em seguida, compare os resultados. Aproveite as discordâncias para saber mais sobre a imagem e as impressões que vem transmitindo e detectar possíveis fontes de conflito (interno e no ambiente). Você deve usar   as informações como ponto de partida para definir mudanças de comportamento e caminhos para desenvolver o autoconhecimento

  1. Quando erro, sou capaz de reconhecer o erro. S ( ) N ( )
  2. Tenho clareza sobre o que me faz feliz. S ( ) N ( )
  3. Sei o que me faz bem e mal em meu ambiente de trabalho. S ( ) N ( )
  4. Sou flexível e adaptável a mudanças. S ( ) N ( )
  5. Tenho clareza sobre minhas metas pessoais e profissionais. S ( ) N ( )
  6. Reconheço padrões em meu comportamento. S ( ) N ( )
  7. Tenho consciência do impacto de minhas ações nos outros. S ( ) N ( )
  8. Meus valores e crenças orientam minhas atitudes. S ( ) N ( )
  9. Gosto de analisar a situação antes de tomar decisões. S ( ) N ( )
  10. Me relaciono bem com a maioria das pessoas no trabalho. S ( ) N ( )
  11. Sei quais são meus sabotadores de produtividade. S ( ) N ( )
  12. Não tenho dificuldade em pedir ajuda. S ( ) N ( )

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 10ESCREVENDO SUA VISÃO

Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo.Habacuque 2:2, ARA

Mais uma vez, nunca é tarde demais para escrever a visão que você tem para seu casamento. Sinta-se livre para escrevê-la e reescrevê-la até ter algo que seja nítido e fácil de entender. Uma visão clara lhe dará a energia que você precisa para correr até a linha de chegada.

Dedique algum tempo para conversar com seu cônjuge (ou futuro cônjuge) sobre a visão que vocês compartilham para seu casamento. Se você é solteiro, comece a documentar o seu lado da visão agora. Encontre um lugar onde possa sonhar. Seja específico quanto aos seus desejos e expectativas. Determine aquilo do qual não abre mão, e não tenha medo de sonhar grande! Essa visão será a estrela que o guiará nos dias que se seguirão.

O casamento é como uma corrida de longa distância na qual décadas separam a linha de saída e a linha de chegada. Muitos casais sonham em curto prazo. Eles sonham em comprar uma casa e criar uma família, o que são grandes alvos, mas nenhum deles os levará muito longe. Há muito mais. Continue sonhando!

Tenha em mente que você e seu cônjuge estão correndo juntos, e não competindo um com o outro. Você não pode completar sua corrida sozinho, por isso vocês precisam trabalhar como uma equipe. Se tiveram um começo difícil, sintam-se consolados por saber que a maneira como terminarão importa muito mais do que a maneira como vocês começaram. Escrever seu plano é uma maneira de definir sua linha de chegada. Você precisa ter a visão à sua frente, para ter algo em direção ao qual possa correr.

Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará… o justo viverá pela sua fé. Habacuque 2:3-4, ARA

Sua visão inspirada por Deus irá adiante de vocês para forjar um caminho para sua realização. Se mantiverem seus olhos na visão, ela certamente irá se cumprir. Talvez, em alguns momentos, possa parecer que as palavras ditas por Deus não podem ser verdadeiras. O caminho trilhado por vocês pode levá-los a lugares onde não queriam ou esperavam ir. Confiem no processo. Deus sabe o que precisa ser retirado de vocês para que completem a jornada. O poder Daquele que inspirou sua visão os fortalecerá nos momentos de necessidade. Mas vocês precisam manter a visão diante de vocês.

Seu plano deve ser um documento vivo, que respira, que cresce com o tempo. Isso significa que ele deve incluir duas coisas:

UMA DEFINIÇÃO CLARA DO QUE NÃO SE PODE ABRIR MÃO

Certas convicções e compromissos proporcionarão a estrutura necessária para sua visão, coisas como “nosso casamento honrará a Deus” ou “colocaremos as necessidades do outro antes da nossa própria necessidade”. Essas são as coisas que vocês consideram inegociáveis. Elas nunca mudarão e não se deve fazer concessões sobre elas.

ESPAÇO PARA CRESCER

Ter um bom plano não significa ter respostas para todas as perguntas. Ele ajuda a dar clareza, mas somente Deus sabe tudo o que está diante de vocês. No entanto, vocês podem gradualmente descobrir aspectos do plano de Deus através da orientação do Seu Espírito. Com o tempo sua visão deverá se tornar mais clara e definida, adaptando-se para acomodar as vantagens e desafios de cada estação. Essas mudanças podem incluir a quantidade de tempo que investem na criação de seus filhos à medida que crescem ou as maneiras como vocês apoiam a carreira e o chamado um do outro.

EIS CINCO PASSOS PRÁTICOS QUE SUGERIMOS QUE VOCÊS DEEM PARA ESCREVER SEU PLANO DE CASAMENTO:

1. OREM

Peçam a Deus para preencher suas conversas, pensamentos e aspirações com o Seu Espírito.  Peçam a Ele para fornecer a estrutura de esperança que Ele deseja ver preenchida pela fé de vocês.

2. REÚNAM INSPIRAÇÃO

Colecionem versículos, artigos, histórias, fotos, letras de músicas, recortes de revistas e qualquer outra coisa que fale ao coração de vocês.

3. VÃO A UM LUGAR ONDE POSSAM SONHAR

Esse lugar não precisa ser refinado ou caro. Ele pode ser tão simples quanto o restaurante no fim da rua ou o banco do parque no seu bairro.

4. IDENTIFIQUEM SEUS OBJETIVOS

Sonhem grande! Não permitam que as circunstâncias atuais ou o passado limitem vocês.

Os tópicos a serem considerados incluem: finanças, criação de filhos, dinâmica familiar, desenvolvimento pessoal, crescimento espiritual, comunicação, descanso e recreação,     carreiras, responsabilidades domésticas, envolvimento na igreja, comunidade e muito mais.

5. DETERMINEM COMO ALCANÇÁ-LOS

Depois que tiverem estabelecido sua visão, façam uma análise: onde vocês estão agora em relação a onde querem chegar? Avaliem seu estado atual e montem uma estratégia dos padrões, passos ou mudanças que os colocarão – ou os manterão – no seu rumo.

Seu plano abrangerá diferentes estações da vida. Tendo seus objetivos em mente, responda a estas perguntas:

Como será nosso casamento quando estivermos… Casados sem filhos?

Criando nossos filhos? Criando adolescentes? Morando em um ninho vazio? Desfrutando nossos netos?

Em nossa última estação juntos?

Se você é solteiro, está namorando ou é noivo, como você pode se posicionar deliberadamente para ter o casamento que deseja no futuro?

Vocês estabeleceram objetivos quanto a finanças, criação de filhos e muito mais. Eles são objetivos maiores, mas serão sustentados pelos seus padrões, escolhas e hábitos do dia a dia. Pense nestas perguntas:

Como e quando vocês lidarão com seu orçamento mensal? Que tipo de férias vocês terão, e como vocês as planejarão?

Que tipos de atividades e entretenimento vocês desfrutarão juntos? Como você continuará a namorar seu cônjuge?

Como você resolverá as diferenças com seu cônjuge? Como vocês passarão tempo com seus filhos?

Como vocês disciplinarão seus filhos?

Vocês dois querem seguir carreiras fora de casa? Se for esse o caso, isso terá um impacto diferente nas diferentes estações do seu casamento?

Como vocês apoiarão a carreira um do outro ou outros objetivos maiores?

Que tipos de oportunidades educacionais vocês buscarão para si mesmos? E para seus filhos?

Que tipos de oportunidades recreativas estarão disponíveis para seus filhos? Como vocês apoiarão os interesses e talentos deles?

Como vocês investirão no seu bem-estar físico? (Exercício, descanso, nutrição, etc.)

Como vocês investirão no seu bem-estar espiritual?

Como vocês criarão seus filhos no conhecimento de Deus?

Como seu casamento e sua família beneficiarão o mundo que os cerca? (Sua igreja, sua comunidade, seu bairro, seus locais de trabalho, etc.)

Como mencionamos anteriormente, as especificidades do seu plano provavelmente mudarão e evoluirão à medida que vocês amadurecerem em sabedoria e adquirirem experiência. Não há problema algum nisso. Mas é essencial que estabeleçam uma estrutura para o plano de vocês e se comprometam com os padrões e valores que serão o alicerce para o que está por vir.

ESCALANDO O EVEREST

Imagine um casal entrando em um avião. Eles estão empolgados com sua viagem, mas não fazem ideia de para onde estão indo. Tudo que eles sabem é que esse avião os levará para uma grande aventura. Eles supõem que estão indo para um lugar quente, então só estão levando roupas de praia e alguns casacos leves caso esfrie à noite. Depois de muitas horas de voo, eles chegam ao seu destino – e descobrem que aterrissaram no Nepal. O que eles pensavam ser uma excursão tropical acabou sendo uma subida gelada ao Monte Everest. Está claro que eles não estão preparados para empreender uma jornada tão traiçoeira e arriscada, de modo que eles imediatamente voltam para casa.

Muitos encaram o casamento como uma viagem à praia, mas ele é mais parecido com escalar uma montanha: é recompensador e estimulante, mas é preciso trabalhar arduamente. E embora a ilustração possa parecer um pouco absurda, vale considerar que a taxa de mortalidade dos casamentos é vinte e cinco vezes mais alta que a dos alpinistas que escalam o Everest.

Por que os escaladores do Everest são muito mais bem-sucedidos do que os casados? Porque eles têm uma visão para sua jornada e sabem o que esperar. Eles não ficam chocados quando encontram ar rarefeito, temperaturas congelantes e ventos implacáveis. Infelizmente, muitos casamentos fracassam por causa das expectativas não realistas e da falta de visão. Vale a pena dedicar tempo agora para estabelecer seu plano para o futuro.

FAÇA BEM FEITO

À medida que sua história se desenrolar, Deus expandirá a estrutura da sua visão e acrescentará lindos enfeites a ela, mas Ele nunca profanará a vida que você está construindo com o seu cônjuge. As provações podem parecer tentativas de Deus destruir sua história, então você pode ser tentado a atacá-Lo verbalmente em meio à ira ou às frustrações. Mas saiba que Deus não é o autor das suas provações, e Ele faz com que todas as coisas cooperem para o seu bem (ver Romanos 8:28). Sua graça e Seu Espírito nunca o deixarão, e Ele prometeu que nunca permitirá que você passe por uma provação que não possa vencer.

…Deus é fiel; Ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas quando forem tentados, Ele mesmo lhes providenciará um escape, para que o possam suportar. 1 Coríntios 10:13

Talvez você às vezes se sinta como se tudo estivesse desmoronando, mas se você se agarrar à esperança, poderá resistir às tempestades. No fim de tudo, você ouvirá as palavras do Mestre dizendo:

“Muito bem, servo bom e fiel! …” Mateus 25:23

Não é interessante que o Mestre diga “muito bem”, e não “perfeito”? Nenhum de nós faz nada nesta vida com perfeição. Mas podemos ter uma vida e um casamento que sejam muito bem vividos. Isso significa termos casamentos saudáveis e marcados pela humildade, aprendendo com nossos erros e prosseguindo na graça de Deus para receber o Seu melhor. Se você escolher andar nesse caminho, seu casamento fará mais do que simplesmente sobreviver. Ele florescerá. Deus o ajudará.

Desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até ao fim, para completa certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas. Hebreus 6:11-12, ACFDeus quer que você receba as promessas que Ele tem para seu casamento. Reivindique a esperança concedida pelo Espírito Santo. Seja paciente com seu cônjuge e tenha fé naquilo que seu casamento pode se tornar. Você ficará impressionado com o que Deus pode fazer em duas pessoas imperfeitas e através delas. Deus tem paixão por construir casamentos cujas maiores histórias estão relacionadas à maneira como terminam, e não à maneira como começam

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O HOMO DEMENS NA REDE

Usando a inteligência artificial (IA) para colocar o rosto de uma pessoa no corpo de outra, os vídeos deepfake já são uma ameaça a demandar intervenções governamentais

Os vídeos são absolutamente convincentes, num amplo espectro. Estrelas de cinema já tiveram seus rostos adicionados a outros corpos em filmes pornô, políticos foram e ainda são utilizados em filmagens e discursos falsos.

A realidade aumentada, por sua vez, é uma tecnologia que cria um ambiente de imersão, mesclando elementos computacionais e a realidade, onde se realizam atividades. Não é o mesmo que realidade virtual. O jogo Pókemon Go é um exemplo. Após o lançamento, o jogo alcançou rapidamente mais de 100 milhões de downloads!

“O homem é um animal racional”, aprendemos cedo na escola. É o único dotado de logos, segundo Aristóteles. A mítica da nossa racionalidade já foi duramente atingida pelo pensamento freudiano e sua postulação da sexualidade e das determinações inconscientes, e a era da computação lança mais luz sobre a força de captura do desejo que tem a virtualidade em suas muitas formas. Pois o que importa aqui não é o valor da tecnologia, mas seu poder. O de ser usada para afetar e manipular sentimentos e comportamentos.

Analistas têm destacado como a mídia digital vem matando a democracia com seus bots, animadores digitais etc. O debate entre o valor da de1nocracia direta (via mobilização das redes sociais pelos populistas) e democracia representativa seria exaustivo. O que cabe aqui examinar mais uma vez é como o Homo sapiens é igualmente o Homo demens.

Imagens, notícias, afirmações jogadas na rede tornam-se rapidamente “verdades”, independentemente de sua veracidade, por razões de aceitação sem senso crítico por parte do “consumidor usuário” das mesmas. É como um efeito manada. Assim é porque o usuário é capturado a funcionar como consumidor, a partir do seu desejo.

O místico e filósofo Gurdjief apontava que estaríamos todos numa espécie de estado de “adormecimento ” parcial, do qual seria necessário acordar. Nos anos 60 e 70, a psicologia da Gestalt sublinhava o trabalho na condição de Awereness, um aqui e agora pleno. W. Reich examinou a relação entre a neurose e a capacidade de contato. Ou seja, a nossa relação com a realidade e como esta é afetada pelas circunstâncias históricas – a nossa, pessoal, e as da sociedade – são antigas questões. Se o que vem acontecendo na política e na vida pessoal é parâmetro para se avaliar o nosso futuro, então o que temos pela frente é sombrio. A alienação, no sentido mais amplo, é o principal obstáculo à nossa sobrevivência. Sobrevivência como indivíduos.

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano, doutor em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia (HCTE/ UFRJ). Contato: nicolaumalufjr@gmail.com

OUTROS OLHARES

CORTINA DE FUMAÇA

O Brasil discute a regulamentação do cigarro eletrônico, visto como uma epidemia nos Estados Unidos

No ano em que completaria uma década como fumante, a radialista e executiva na área de audiovisual Luísa Campos, de 34 anos, moradora do Rio de Janeiro, descobriu o cigarro eletrônico — por meio da amiga de uma amiga que presenteou esta última com o produto. “Fui olhar aqui no Rio onde eu poderia comprar, não achei nada. Achei na internet”, contou Campos.

Havia vários motivos para a troca do tabaco enrolado em papel — que libera nicotina por meio da combustão e tem milhares de toxinas — pelo vaporizador — que prescinde da combustão para liberar a nicotina, substância responsável tanto pela sensação de prazer e alívio proporcionada pelo cigarro como pela dependência. “O cheiro do cigarro me incomoda muito. Quem fuma tem de fazer algumas adaptações na vida”, disse a radialista.

O outro fator era a saúde. Campos havia fumado por cinco anos, até 2013. Parou e voltou a fumar em 2015. Em janeiro de 2018 aderiu ao cigarro eletrônico como forma de reduzir danos. “Logo que comecei a usar o cigarro eletrônico não usei mais o normal. Foi um meio de parar de fumar quase instantâneo. Não quero dizer que é um milagre. Tenho amigos que não substituíram.”

O cigarro eletrônico, produto que começou a ser comercializado no final da década passada em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, pode funcionar por meio de um vaporizador que libera a nicotina ou do tabaco aquecido, inserido no objeto por meio de cápsulas ou tubos. Números da Public Health England, agência de saúde pública ligada ao governo inglês, mostram que o cigarro eletrônico tem um potencial de danos de 5% em relação ao cigarro comum. Embora não conte com a mesma quantidade de toxinas de um cigarro comum e não precise de combustão, que, no cigarro comum, libera as substâncias tóxicas, sua comercialização é proibida no Brasil desde 2009 — quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um princípio de precaução, uma forma de “garantia contra os riscos potenciais que, de acordo com o estado atual do conhecimento, não podem ser ainda identificados”. Os termos para uma regulamentação do produto serão discutidos em 8 de agosto durante audiência pública em Brasília.

“Considerando que a toxicidade dos cigarros já é tão elevada, é relativamente fácil alguma coisa ser menos tóxica que os cigarros convencionais, mas nem por isso quer dizer que não represente ameaça à saúde humana”, afirmou o médico Alberto José de Araújo, coordenador da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira. “A enorme variedade de sabores, as diferentes composições e emissões tóxicas dos cigarros eletrônicos e aquecidos indicam que uma eventual liberação de sua comercialização deveria ser realizada caso a caso, e não de forma ampla, sem considerar as diversas formulações, tipos e voltagens aplicadas.” Para Araújo, “os benefícios dessa proibição (da Anvisa) foram maiores e mais significativos que os supostos e não comprovados benefícios da liberação desses produtos”.

Ainda assim, o cigarro eletrônico vem sendo utilizado como forma de redução de danos no combate ao tabagismo, ao lado de outras estratégias, como os adesivos que liberam nicotina. Um estudo publicado em 2019 na revista científica The New England Journal of Medicine , realizado por pesquisadores do Reino Unido e dos EUA, mostrou que entre aqueles que utilizaram o cigarro eletrônico como um meio de abandonar o cigarro 18% tiveram sucesso, enquanto entre os que usaram outros métodos para substituir a nicotina, como os adesivos e chicletes, o sucesso foi de 10%. No entanto, 80% dos que utilizaram cigarro eletrônico continuaram a consumi-lo, enquanto apenas 9% daqueles que usaram outros produtos permaneceram com eles. “É uma questão que a literatura médica ainda discute”, disse André Nathan, especialista em tabagismo e médico no Hospital Sírio-Libanês. Segundo o pesquisador, embora o cigarro eletrônico seja “uma via mais limpa” que o cigarro comum, deve-se atentar para seu uso como forma de reduzir danos do tabagismo. “Ainda não temos dados que provem que ele seja efetivo.”

Nos EUA o cigarro eletrônico é hoje considerado uma epidemia entre os jovens. De acordo com um levantamento feito a partir de seis estudos com mais de 91 mil participantes, adolescentes e jovens adultos que usam cigarros eletrônicos têm duas vezes mais chances de fumar cigarros comuns em comparação com aqueles que nunca usaram o produto. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), órgão ligado ao governo americano, mostram que, entre adolescentes em idade escolar, o consumo de cigarros eletrônicos aumentou 900% entre 2011 e 2015. Entre adolescentes no ensino médio, o uso cresceu 78%, de 11,7% para 20,8%, em dois anos. Em 2018, mais de 3,6 milhões de jovens americanos usavam o cigarro eletrônico.

Na Alemanha, pesquisadores também constataram maior incidência no consumo de cigarro convencional entre jovens que experimentaram o cigarro eletrônico. Segundo pesquisa feita com estudantes na faixa dos 12 aos 17 anos, os que experimentaram o cigarro eletrônico tiveram 2,2 vezes mais chances de se tornarem fumantes.

A professora Gisele Birman Tonietto, do Departamento de Química do Centro Técnico Científico da PUC-Rio, vê esse risco para o Brasil, caso a regulamentação do cigarro eletrônico, por exemplo, não atinja a propaganda ao produto, como no caso dos cigarros tradicionais. “O que a gente está vendo no mundo é uma epidemia. O jovem que não fumava está suscetível ao apelo. Nós (brasileiros), que somos referência em antitabagismo, não queremos jogar fora o trabalho (voltado à redução do tabagismo).”

Para a gerente sênior de Relações Científicas da Souza Cruz, Analúcia Saraiva, “o maior risco que o Brasil está assumindo é não regular a categoria”. Ela citou o caso americano como exemplo das consequências da falta de regulamentação. “Quando (a substância) não é regulada, quando não existe, por exemplo, uma idade mínima para adquirir esses produtos, aí sim esse risco (de epidemia) existe”, afirmou. “O vapor do cigarro eletrônico não é um vapor de água. Ele contém nicotina. Se não tiver nicotina, o consumidor não vai migrar para esse produto. O benefício é, justamente, que o fumante deixe de consumir o cigarro tradicional, que traz essa série de substâncias geradas durante a combustão, e migre para um produto de menor risco.”

Na opinião de Fernando Vieira, diretor de assuntos externos da Philip Morris Brasil, é preciso “ter uma regulamentação que não exponha os não fumantes e os menores a esse tipo de produto. A Anvisa, ao regulamentar, pode ser bem proativa nesse sentido”. A Philip Morris anunciou no ano passado que deixará, futuramente, de produzir os cigarros comuns e terá como um de seus focos os cigarros eletrônicos.

Luísa Campos, que fumava de sete a oito cigarros por dia e, sempre que viajava, levava uma mala três vezes maior que a que leva hoje, devido ao cheiro da fumaça do cigarro, pretende, ainda, deixar de fumar. “O ideal é não ter nada que nos amarre. Não podemos negligenciar a questão do cigarro.”

A discussão em torno do uso do cigarro eletrônico como forma de reduzir danos do tabagismo ocorre em um momento em que a redução de danos deixa de ser a diretriz do Ministério da Saúde para o combate ao uso abusivo de drogas e à dependência química, voltando-se, novamente, à busca pela abstinência — por meio da internação.

Para o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com redução de danos desde 1991, a atual política do governo federal é “um retrocesso” que coloca o Brasil em uma situação comparável à de países islâmicos. “Na melhor das hipóteses, 30% (dos dependentes) conseguem realmente largar a droga. A redução de danos entra justamente para esses 70% que não conseguiram a abstinência”, disse. “Quando você coloca um indivíduo num programa de redução de danos a médio prazo, ele consegue a abstinência. A redução de danos não se contrapõe à abstinência. É um jeito de dar mais tempo para a pessoa consegui-la.”

O psicólogo Maurício Cotrim, especialista em dependência química, vê na redução de danos um meio para chegar à abstinência, e não um fim para o combate do uso abusivo de drogas e outras substâncias. “Trabalho buscando a abstinência. Senão ficamos enxugando gelo. Os casos de sucesso que conheço são das pessoas que tentaram a abstinência. Senão vira prorrogação de danos.”

Dependente químico “em eterna recuperação”, Cotrim, filho de pai alcoólatra, experimentou álcool ainda na infância. Foi a porta de entrada para substâncias ilícitas, que usou a partir dos 10 anos. Passou por diversas tentativas de tratamento — inclusive religiosas. “Aos 17, pedi ajuda, fui internado.” Deixou a clínica seis meses depois. Teve recaídas. “Fiquei limpo de vez aos 18 anos.” Mantém-se assim há 24 anos.

GESTÃO E CARREIRA

O GUIA DO AUTOCONHECIMENTO – I

A competência essencial para ser feliz e realizado no trabalho está dentro de você, à espera de ser explorada. Veja por onde começar essa jornada e descubra como ela pode ser transformadora

Muitas qualidades e competências são fundamentais para pavimentar o caminho até o sucesso profissional. Acima de todas, porém, existe uma habilidade da qual as outras dependem para serem colocadas em prática de forma efetiva: o autoconhecimento. Ele é indispensável para o profissional do século 21. De acordo com o relatório mais recente do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho, aptidões como criatividade, colaboração, flexibilidade, pensamento crítico, capacidade de trabalhar sob pressão e resolver problemas complexos serão obrigatórias para evoluir na carreira daqui para a frente. E o autoconhecimento é o ponto de partida para o desenvolvimento dessas e outras soft skills, como são chamadas as habilidades comportamentais. Não que algum dia ele tenha deixado de ser importante. Mas as transformações pelas quais o mundo do trabalho vem passando e as demandas das novas gerações de profissionais — trabalho remoto, freelancer e sem carga horária fixa, por exemplo — cada vez mais vão exigir boa capacidade de gestão de si próprio. “A responsabilidade pelos rumos da carreira está mais do que nunca nas mãos do indivíduo e menos sob responsabilidade da empresa”, afirma Wilma Dal Col, diretora do ManpowerGroup. “Ampliar a visão de si mesmo dentro e fora do ambiente de trabalho permite fazer escolhas mais alinhadas com o que você quer para a vida.”

O problema é que a maioria das pessoas não tem boa percepção de si mesma. Foi o que descobriu a psicóloga organizacional Tasha Eurich no livro “Insight — Por que não nos conhecemos tão bem quanto pensamos e como ter clareza de quem somos ajuda a alcançar o sucesso na vida e no trabalho” (numa tradução livre; ainda sem edição brasileira). Tasha ouviu quase 5.000 pessoas e descobriu que apenas de 10% a 15% acreditam se conhecer bem. Um índice preocupante, já que mais autoconhecimento está associado a índices mais elevados de satisfação no trabalho e nos relacionamentos, produtividade, autoconfiança e felicidade, além de menos estresse, ansiedade e depressão.

AS ETAPAS DA JORNADA

Alguns têm interesse natural por si mesmos e fazem da busca pelo autoconhecimento uma constante na vida. Outros podem ser surpreendidos por alguma situação difícil envolvendo saúde, dinheiro, família ou trabalho que os leve a querer ver sentido e encontrar saídas para o problema. “Ao mesmo tempo, a rotina automatizada, o excesso de estímulos no dia a dia e a ideia de que é preciso acelerar para se adaptar a tantas mudanças não poupa quase ninguém e leva à perda de consciência da própria vida e do que é preciso de fato para se sentir realizado”, afirma Edwiges Parra, psicóloga organizacional, coach executiva e fundadora da Emind Mente Emocional. Resultado: uma multidão de seres desconectados de quem são, do que estão fazendo aqui e do que desejam. Conhecer a si mesmo é uma investigação que tem início, mas nunca acaba. A seguir, mostramos quais são as cinco principais etapas para conhecer a si mesmo.

FAÇA AS PERGUNTAS CERTAS

O primeiro passo para tomar as rédeas de sua vida fazer questionamentos do tipo: “Estou feliz fazendo que faço?”, “Que atenção estou dando à saúde e a meus relacionamentos?”, “O que me dá prazer hoje?”, “Quanto espaço estou reservando para isso no meu dia a dia?” “Preferia estar fazendo outras coisas?”, “O que me deixa desmotivado?” O objetivo é conectar-se, focar o que está acontecendo no presente e detectar possíveis conflito e fontes de insatisfação. Mas vale saber que não é preciso estar passando por uma crise para decidir buscar autoconhecimento — ao contrário, saber mais sobre si mesmo é uma forma de evitar que a crise apareça.

Nesse exercício, a psicóloga Tasha Eurich sugere que evitar se perguntar o porquê — por exemplo, “por que não consigo me dar bem com meu chefe?” ou “por que insisto em procrastinar?” — pode ser produtivo. Ela explica: “Primeiro, porque dificilmente se chega a respostas úteis, já que o mais provável é que, inconscientemente, acabemos ‘inventando’ explicações que no pareçam satisfatórias”, diz. “Além disso, tentar entende os porquês tende a gerar pensamentos ruminativos, que levam mais para o passado do que ajudam a entende o que está ocorrendo no presente. É por isso que pessoas com perfil muito analítico tendem a sofrer mais de ansiedade e depressão.”

PEÇA FEEDBACK

Somos o resultado da soma do que sabemos sobre nós mesmos com a maneira como o mundo (formado por nosso círculo de relações pessoais e profissionais) nos enxerga. Dar ouvidos ao feedback externo, portanto, leva a uma consciência maior de quem somos — afinal, todos temos pontos cegos na personalidade, que dificilmente enxergamos sozinhos. Além disso, o exercício nos torna mais empáticos, ou seja, capazes de compreender o outro e ver as coisas pela perspectiva dele.

Observar nossas reações diante da opinião de terceiros também é parte da autoanálise e geralmente revela bastante sobre nós. Mas é importante acolher a visão do outro e olhar para si mesmo com menos julgamento e mais curiosidade e gentileza, tendo em mente que não é porque você age de determinada maneira hoje, por mais nociva que seja, que precisa ser assim para sempre. “Pensar desse modo diminui o impacto negativo que você gera sobre si mesmo”, diz a coach e psicóloga Edwiges Parra.

DEFINA O QUE PRECISA MUDAR

Com uma visão mais nítida de quem você é, do que deseja e de como vem agindo, é mais fácil definir quais aspectos deveriam ser desenvolvidos ou modificados no comportamento ou na rotina. Nessa fase, prepare-se para analisar hábitos, reações, convicções e modos de realizar suas tarefas. Questionar e se desapegar de atitudes e mentalidades que se tornaram padrões e já não servem a seu momento atual ou à meta que está buscando tem o mesmo efeito de tirar obstáculos do caminho de sua evolução.

Observar se seu “sistema operacional” interno possibilita, por exemplo, perceber se precisa mesmo madrugar para frequentar a academia todo dia (e morrer de sono antes do fim do expediente) ou se dormir mais e malhar à noite não o deixaria mais bem disposto e produtivo. Também ajuda a descobrir se precisa aprender a ouvir mais, se vem guardando boas ideias para você por falta de autoconfiança ou se está deixando de lado a vida social em nome da profissional. Em resumo, se está levando uma vida que faz sentido. Escolha uma meta por vez e trabalhe nela, celebrando seus avanços e avaliando o impacto real na rotina, em vez de querer mudar a vida inteira de uma vez — e acabar se frustrando e voltando à estaca zero.

ESCOLHA SEUS RECURSOS

A busca por autoconhecimento é pessoal e intransferível, mas contar com ajuda profissional durante o percurso, em vez de dar esse mergulho por conta própria (ou com auxílio de livros e aplicativos apenas), faz diferença. É mais ou menos como aprender a tocar um instrumento: você até pode conseguir sozinho, mas talvez demore mais e deixe de absorver lições importantes de quem tem mais experiência do que você no assunto.

Seu perfil e suas metas individuais devem orientar quais estratégias e ferramentas usar para descobrir mais sobre si mesmo. O coaching é uma alternativa quando o foco das mudanças é a carreira. Se a queixa for uma rotina desorganizada e improdutiva, dificuldade para se adaptar a mudanças no trabalho — como explorar com mais profundidade seus talentos ou organizar a vida financeira —, cliente e coach podem trabalhar juntos para detectar possíveis obstáculos, traçar metas e avaliar sua evolução ao longo das sessões (de dez a 15, em média).

É certo que não dá para evitar que dramas da vida pessoal afetem o dia a dia profissional e vice-versa, mas, quando os conflitos internos têm mais a ver com questões emocionais e me- nos com a performance no trabalho, o melhor é considerar a psicoterapia. Os prejuízos emocionais (tristeza, impaciência) e cognitivos (falta de foco, lapsos de memória) desencadeados por uma separação ou uma doença na família impactam a rotina no escritório, mas devem ser tratados no consultório do psicólogo ou psiquiatra. Questões como assédio e bullying também são caso de psicoterapia.

Meditar, praticar esportes, manter um hobby ou atividade que tragam prazer, e cuidar das relações próximas são estratégias que, além de aliviar tensões do dia a dia, favorecem a conexão consigo mesmo e com os outros e ajudam a compreender nossos padrões de pensamento e de comportamento.

REPITA O CICLO

O processo de autoconhecimento é uma investigação permanente. “O tempo e as experiências transformam nosso comportamento, necessidades e anseios, de modo que é importante revisitar nossas reflexões de tempos em tempos e nunca perder o interesse em nós mesmos”, destaca Rafael Nunes, psicólogo, coach de carreira e líder de inteligência emocional na escola Conquer. Mudanças de cargo ou função no trabalho, assim como novos ciclos na vida pessoal tornam ainda mais importante voltar a se perguntar se você está satisfeito onde se encontra ou se é hora de refazer a rota.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 9 – O RESTAURANTE CHINÊS

Quando nos casamos, tínhamos um lugar especial aonde íamos para conversar sobre o nosso futuro. Era um pequeno restaurante chinês não muito longe do nosso apartamento. Havíamos terminado a faculdade há pouco tempo, e nosso orçamento era tão apertado que dividíamos um único prato de “frango mu shu” com uma panqueca extra e molho extra. Era um ambiente tranquilo e humilde, apesar de estrangeiro, que encorajava um jovem casal a ousar sonhar com terras e esperanças distantes enquanto tomavam chá.

Naquela época não sabíamos muito, mas tínhamos certeza de uma coisa: queríamos servir a Deus juntos com todo o nosso coração, nossa mente e nossa força. Desejávamos apaixonadamente viver bem e cuidar bem de nossa família. Posso dizer que não sabíamos ao certo para onde iriamos ou onde nossa vida terminaria, mas sabíamos o quanto queríamos viajar. Queríamos viver de tal maneira que Deus pudesse estabelecer um novo legado através de nós.

Eu (John) venho de um ótimo contexto familiar. Meus pais estão casados há mais de sessenta e cinco anos. Meu pai amou e supriu fielmente nossa família, e minha mãe é uma dona de casa clássica. Meus pais serviram de modelo para mim em relação a coisas maravilhosas, tanto no que diz respeito ao casamento quanto à vida, e serei eternamente grato pelo exemplo deles.

Eu (Lisa) venho de uma dinâmica familiar muito diferente. Os pais de John parecem perfeitos quando comparados à minha família, que foi arruinada por alcoolismo, adultério, comportamento abusivo, traição, ganância, perda e divórcio. Quando John e eu começamos nossa vida juntos, ficou óbvio que eu não tinha nenhuma compreensão prática do que era uma família saudável; mas eu tinha um anseio desesperado por fazer parte de uma família assim.

Enquanto conversávamos naquele restaurante chinês, sabíamos que queríamos ter um tipo de casamento diferente. Embora tivéssemos um respeito absoluto pela maneira como os pais de John conduziram seu casamento, aquele não era o modelo certo para nós. Ambos sabíamos que havia mais no casamento do que havíamos visto; havia um chamado divino sobre a própria instituição do casamento. O casamento não se resumia apenas a ficarmos juntos até o fim de nossas vidas; ele dizia respeito a construir um legado eterno através da nossa união. É claro que isso incluiria nossos filhos e os filhos de nossos filhos, mas também incluiria impactar inúmeras outras vidas.

Começamos a pintar uma visão para o nosso casamento. Fazíamos perguntas um ao outro, estabelecíamos parâmetros e sonhávamos tão grande quanto possível. Concordamos que nosso objetivo principal era servir a Deus juntos e honrá-lo com nossas escolhas. Tudo o mais teria de passar por esse filtro.

Ao longo de trinta e dois anos de casamento, passamos por estações nos quais o único motivo pelo qual escolhemos ficar juntos foi nosso compromisso de honrar a Deus. Houve um período em que eu (Lisa) não sentia amor algum por John, e John chegou a me dizer que não sentia amor por mim. Ele se lançou em uma agenda de viagens intensa enquanto eu ficava para trás, em casa, com nossos filhos pequenos.

Para ser sincera, eu não via esperança para o amor no futuro. Minha alma estava marcada por um período no qual fui muito ferida. Eu me sentia completamente abandonada tanto emocional quanto fisicamente. Se tivesse considerado o divórcio uma opção, eu teria tomado esse caminho com satisfação. Eu não tinha uma visão para o futuro do nosso casamento, apenas uma sombra desbotada do que ele poderia ter sido. A certa altura, cheguei a pensar: Deus, vou ficar neste casamento desde que Tu me prometas que não terei de viver com John no Céu. Eu me sentia muito só, e é difícil para as esposas de pastores compartilharem sua dor com qualquer pessoa.

Eu (John) também lutava naquela época contra a falta de esperança. Sentia que nada que eu fizesse estaria certo aos olhos da Lisa, e acreditava estar certo nesse pensamento devido à falta de respeito e às palavras duras que ela me dizia. Estávamos afundando rapidamente, e nenhum de nós via qualquer possibilidade do amor, do respeito e do carinho serem restaurados.

A dor emocional e espiritual daquele período parecia insuportável. Era terrível, mas foi apenas uma estação, e as estações mudam. O tempo do choro pode durar por uma noite muito longa, mas temos a promessa de Deus de que a alegria vem pela manhã (ver Salmos 30:5). Olhando para trás, aquele período parece surreal, como se tivesse acontecido com outro casal. Pela graça de Deus, permanecemos fieis ao nosso objetivo de honrar a Deus. Através do arrependimento genuíno pelo nosso egoísmo aliado à obediência à visão de Deus, vimos nosso casamento e nosso amor crescerem até se tornarem extremamente fortes.

Uma das forças motrizes que nos mantiveram seguindo em frente ao longo daquela estação difícil foi nossa visão de vida. Nós não a víamos como um período de setenta ou oitenta anos; nós a víamos através de uma perspectiva eterna. Setenta ou oitenta anos não passam de um piscar de olhos se comparados à eternidade. A Bíblia ensina que o que fazemos com a Cruz determina onde passaremos a eternidade; entretanto, a maneira como vivemos como crentes determina como passaremos a eternidade. Paulo escreve:

… Preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor… Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas, quer sejam más. 2 Coríntios 5:8, 10

Está claro que Paulo não está escrevendo sobre os incrédulos, pois quando os incrédulos estão ausentes do corpo, eles não estão na presença do Senhor. Ele está se dirigindo àqueles que entraram para a família de Deus por meio da graça salvadora de Jesus Cristo. Compareceremos perante Ele e prestaremos contas sobre as decisões que tomamos e a maneira como vivemos como crentes. O julgamento presidido por Cristo resultará em diferentes recompensas eternas ou perdas eternas, que irão variar desde termos o trabalho da nossa vida totalmente queimado pelo fogo até sermos eternamente recompensados por ele ou até mesmo reinarmos ao lado Dele por toda a eternidade. O conhecimento dessa doutrina fundamental nos manteve no caminho certo. Nenhum de nós queria prestar contas diante do trono de Jesus por ter profanado a Sua arte, que é a união do casamento. (Para saber mais sobre o Tribunal de Cristo, leia o livro de John Movido pela Eternidade.)

Depois do objetivo de honrar a Deus, nosso segundo alvo era estar mais apaixonados um pelo outro no fim de nossa jornada do que estávamos no começo. Esse objetivo nos compeliu a passarmos pelos tempos difíceis e amarmos um ao outro, mesmo quando não sentíamos vontade. C. S. Lewis escreveu:

O amor… é uma profunda unidade, mantida pela vontade e fortalecida deliberadamente pelo hábito, reforçada pela graça (nos casamentos cristãos) com a qual ambos os parceiros pedem e recebem de Deus. Assim, eles podem ter esse amor um pelo outro mesmo nos momentos em que não gostam um do outro.

Definitivamente houve momentos em que não gostávamos um do outro. Mas Deus nos deu graça para navegarmos por esses momentos difíceis, e Ele fará o mesmo por você. Gostamos um do outro e amamos mais um ao outro hoje do que no dia do nosso casamento – essa é a verdade! E esperamos crescer mais em amor a cada década que passa.

DEUS ESTÁ ANOTANDO TUDO

Enquanto escrevíamos nossos sonhos em guardanapos de restaurante, conversávamos sobre como criaríamos os filhos que não tínhamos. Discutíamos sobre como lidaríamos com a disciplina, as concessões, as tarefas e a divisão dos quartos. Falávamos sobre nosso legado e o impacto que nossas decisões teriam sobre nossos filhos e netos. Era importante para nós transmitir-lhes uma herança espiritual e financeira (ver Provérbios 13:22).

Imaginávamos nossa futura casa. Não era importante para nós ter uma casa grande ou elegante; queríamos que a nossa casa fosse aconchegante e calorosa, um lugar onde as pessoas se sentissem seguras assim que entrassem. Queríamos que ela fosse um lugar divertido aonde nossos filhos quisessem levar seus amigos.

Conversávamos ainda sobre o que acreditávamos que Deus havia nos chamado para fazer e sobre como nossos chamados afetariam a dinâmica do nosso casamento. Discutíamos os papéis desempenhados pelas mulheres e pelos homens. Determinávamos como administraríamos nosso dinheiro e ficaríamos livres de dívidas. Conversávamos sem parar até que olhávamos para o que tínhamos em nossas mãos e descobríamos que os rabiscos nos guardanapos haviam se transformado em projetos provisórios da vida que queríamos construir.

Gostamos de pensar que enquanto fazíamos nossos planos em pedaços de papel, Deus também estava escrevendo.

Depois, aqueles que temiam o SENHOR conversaram uns com os outros, e o SENHOR os ouviu com atenção. Foi escrito um livro como memorial na Sua presença acerca dos que temiam o SENHOR e honravam o Seu nome. Malaquias 3:16

Houve muitas coisas sobre as quais falávamos naqueles primeiros dias das quais Deus Se lembrou, mesmo quando já as havíamos esquecido, e Ele fez com que elas se realizassem. Deus registra as conversas que ocorrem entre aqueles que O temem. Enquanto você faz planos para um casamento que honra ao Autor da vida, o Céu toma nota.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 8 – CRENDO NO MELHOR

… Eu sou Deus… e não há nenhum como Eu. Desde o início faço conhecido o fim…Isaías 46:9-10

Parece falta de originalidade escrever que “não há outro como o nosso Deus”, mas frequentemente esquecemos o poder e a verdade dessa afirmação. Como filhos de Deus, somos convidados a nos tornarmos como Ele e a assumirmos Sua natureza. Pela fé, podemos nos tornar futuros formadores, moldando nossas vidas, nossos filhos e nossos casamentos declarando o fim desde o começo.

Procuramos deixar claro desde o começo que felizes para sempre não é algo que encontramos ao acaso; é algo que construímos deliberadamente. A próxima pergunta óbvia é: “Como construir meu final feliz?” Talvez você já tenha lido estes versículos muitas vezes, mas leia-os novamente:

Ora a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos… Pela fé entendemos que o universo foi formado pela Palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi efeito do que é visível. Hebreus 11:1, 3

Nosso objetivo é construir um felizes para sempre que ainda não existe, e a fé é o material de construção do que ainda não é realidade.

Deus acreditou em nós antes que fizéssemos qualquer coisa que fosse digna de crédito. Ele tem uma grande fé em você porque Ele tem uma grande fé em Si mesmo. Ele sabe que o poder Dele pode realizar qualquer coisa em sua vida. A única coisa que nos impedirá de desfrutarmos o poder engrandecedor de Deus é a incredulidade, que em última análise tem suas raízes no orgulho.

O orgulho se manifesta como arrogância ou extrema confiança na nossa própria capacidade. Também há uma forma mais sutil de orgulho, que se disfarça de autodepreciação. Em qualquer uma dessas formas, ele é uma recusa em abraçar tudo o que o poder magnífico de Deus comprou para nós através da obra consumada de Cristo na Cruz. Jesus morreu para tornar você extraordinário. “Podemos nos contentar”, escreveu C. S. Lewis, “em permanecer o que chamamos de ‘pessoas comuns’; mas Ele está determinado a colocar em prática um plano bem diferente. Recuar diante desse plano não é humildade; é preguiça e covardia. Submeter-se a ele não é arrogância ou megalomania; é obediência”.3 Abraçamos a vida fantástica que Deus nos oferece fazendo com que nossas opiniões estejam à altura da Sua provisão.

Você acredita que é digno de um grande casamento? Talvez algum dos seguintes pensamentos esteja assolando sua mente:

Tenho bagagem demais.

Não venho de uma boa família. Meus pais não venceram na vida. Já cometi erros demais.

Preciso me contentar simplesmente em sobreviver.

Caso não tenha notado, Deus ama um desafio. Mas a falta de fé limitará o alcance do poder Dele em nossas vidas. Ter uma revelação da Sua grandeza nos inspira a sermos confiantes Nele, enquanto ao mesmo tempo nos mantém humildes. A humildade abre a porta para o melhor de Deus em nossa vida. Isaías 55:8-9 declara:

“Pois os Meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os Meus caminhos”, declara o SENHOR. “Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os Meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os Meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos”.

Você deve aceitar que Deus é mais inteligente, mais perspicaz e mais capaz do que você. “Em Deus”, escreveu Lewis, “você encontra algo que em todos os aspectos é imensuravelmente superior a você”.4 Se deseja ter acesso aos materiais essenciais para construir um grande casamento, você precisa acreditar nisso.

Não importa qual achemos que seja o potencial do nosso casamento, Deus tem um sonho imensamente maior. Ele não apenas pensou muito a respeito dele, como também fez grandes planos.

“Porque sou Eu que conheço os planos que tenho para vocês”, diz o SENHOR, “planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro”. Jeremias 29:11

Essa promessa nos apresenta duas escolhas: crer que essa afirmação é verdadeira e abraçar a visão de Deus para o nosso casamento ou presumir que Ele é um mentiroso. Quando Deus olha para o futuro da sua união, Ele vê a expressão do Seu Filho. A única maneira dessa visão se concretizar é receber a Sua graça (capacitação) através da humildade e da fé. Embora felizes para sempre seja algo que planejamos, não é algo limitado pela nossa própria força. É uma expressão do amor de Deus consumado pelo Seu Espírito operando por meio de nós.

Talvez você esteja pensando: Tenho certeza de que Deus desistiu do meu casamento. Não existe esperança para nós. Não temos quaisquer perspectivas para o futuro. Perdemos aquele sentimento de amor.

É possível que você se sinta assim porque agiu com base em suas próprias forças? Troque seus esforços e sonhos para seu casamento pelos sonhos de Deus. À medida que você confiar o seu casamento a Ele, Ele pegará seus sonhos, os encherá de vida, e plantará uma versão celestial dentro do seu coração.

Isso significa, maridos, que Ele os capacitará a amar suas esposas assim como Cristo ama a Igreja, abandonando todo egocentrismo. Esposas, da mesma forma Ele capacitará vocês a respeitarem seus maridos. Desse modo, ambos estarão preparados para crescer até a grandeza do casamento.

A Bíblia deixa claro que sem fé é impossível agradar a Deus (ver Hebreus 11:6). Por que Deus ama tanto a fé? Porque por meio da fé Nele recebemos poder para nos tornarmos como Ele, e não existe uma existência melhor do que uma vida semelhante a Deus. Ele tem prazer no seu prazer – e não estamos falando de uma felicidade passageira. O que estamos descrevendo é alegria, satisfação e realização duradouras. Deus quer o melhor Dele para seu casamento, e o melhor Dele só pode ser alcançado em uma união que encontra sua essência Nele.

O PROJETO

Fé e esperança geralmente são confundidas como sendo a mesma coisa, mas elas são diferentes. Se a fé é o material com o qual se constrói um grande casamento, a esperança é o projeto. Em outras palavras, a esperança é como um molde, e a fé é o que o preenche. Sem esperança, a fé é uma substância sem forma, praticamente tão útil quanto materiais de construção sem um projeto.

Você deve se lembrar de que Deus escolheu Abraão a dedo como aquele que receberia uma aliança com um objetivo específico: que Abraão instruísse seus descendentes nos caminhos do Senhor. Abraão não tinha filhos quando Deus o chamou para entrar nessa promessa, mas o Senhor lhe garantiu que ele seria o pai de uma grande nação.

Abraão era um homem de uma fé extraordinária, uma fé que a Bíblia descreve assim: “… não duvidou nem foi incrédulo em relação à promessa de Deus” (Romanos 4:20). E, no entanto, em Gênesis 15, vemos que ele lutou contra o desânimo antes de entrar na dimensão da fé.

… O SENHOR falou a Abrão numa visão: “Não tenha medo, Abrão! Eu sou o seu escudo; grande será a sua recompensa!” Mas Abrão perguntou: “Ó Soberano SENHOR, que me darás, se continuo sem filhos e o herdeiro do que possuo é Eliezer de Damasco?” E acrescentou: “Tu não me deste filho algum! Um servo da minha casa será o meu herdeiro!”

Então o SENHOR deu-lhe a seguinte resposta: “Seu herdeiro não será esse. Um filho gerado por você mesmo será o seu herdeiro”.

Levando-o para fora da tenda, disse-lhe: “Olhe para o céu e conte as estrelas, se é que pode contá-las”. E prosseguiu: “Assim será a sua descendência”.

Abrão creu no SENHOR, e isso lhe foi creditado como justiça. Gênesis 15:1-6

Talvez esperássemos que Deus desse a Abraão uma nova medida de fé. Mas em vez disso, Ele deu à fé de Abraão uma visão à qual se agarrar. Isso fortaleceu a fé dele dando uma base para a sua esperança. Deus convidou Abraão a sair de sua tenda para contar as estrelas. O céu noturno pintava um projeto estelar para sua fé enquanto as inumeráveis estrelas acima dele se transformavam nos rostos de filhos na tela da sua mente. Em vez de simplesmente dizer a Abraão que seus descendentes seriam incontáveis como as estrelas, Deus deu ao seu destino uma ilustração constante, vibrante e física. Através desse processo celestial no qual algo não apenas foi mostrado a Abraão, mas também dito, a visão de Deus foi impressa na imaginação dele.

Do mesmo modo, Deus quer usar sua imaginação para transmitir a visão que Ele tem para o seu casamento, pois onde há visão há esperança. Foi por isso que Paulo nos encorajou a expulsarmos qualquer imaginação que se levanta contra o conhecimento de Deus (ver 2 Coríntios 10:4-5). Você precisa proteger a tela de sua mente porque ela determinará a natureza e o valor dos seus atos. Pense na sua imaginação como uma prancheta de desenho para a esperança.

Deus prometeu nos encher de esperança, mas como podemos ter acesso a ela? É na oração que Seu Espírito gera em nossos espíritos a esperança superior:

[Oro para] Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança Nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo. Romanos 15:13

Deus é a nossa fonte de esperança. Se pedirmos, Ele nos encherá de alegria e paz, que é o que todos nós queremos para nossos casamentos. À medida que formos a Ele em humildade, transbordaremos de esperança pelo poder do Seu Espírito. Que promessa!

Provérbios 29:18 nos diz que sem visão pereceremos. Realmente, os casamentos sem uma visão dada por Deus são destituídos de vida. Então nós o desafiamos a sonhar grande! À medida que você se prepara para escrever seus sonhos e objetivos, ore para que Deus desperte o seu coração para o plano Dele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

4 ATITUDES DOS CASAIS FELIZES

Ao contrário do que prega o imaginário popular, a vida a dois não é um desses presentes do universo que, uma vez alcançado, está garantido por tempo infinito. Mesmo com muito amor envolvido é preciso investimento emocional e requer o compromisso consciente de fazer dar certo. Alguns comportamentos facilitam muito essa tarefa

Manter uma relação longa e estável é uma tarefa trabalhosa. “É preciso tempo e esforço para compreender e apreciar a pessoa ao nosso lado”, deixa claro o psicólogo John Gottman, um dos maiores pesquisadores das relações amorosas no mundo. Professor emérito da Universidade de Washington, coordenou uma equipe que entrevistou casais ao longo de vários experimentos, alguns deles filmados. A análise dessas interações resultou em modelos, escalas e fórmulas para apontar fatores relacionados à estabilidade conjugal, o que valeu o popular apelido de love lab (laboratório do amor) ao Laboratório de Pesquisa Familiar liderado por Gottman. De acordo com o psicólogo, conflitos são inerentes a todo relacionamento. O que conta é a maneira de lidar com eles. “Um dos principais determinantes da felicidade em uma relação é a capacidade que ambos têm de reparar e sair de estados negativos”, diz. A seguir, algumas sugestões de Gottman em prol de uma melhor convivência e do fortalecimento do respeito e cumplicidade.

1. PEQUENOS GESTOS

Gottman constatou que casais felizes demonstram, em média, uma proporção de cinco interações positivas para cada negativa. “Isso praticamente saltou das páginas de análise de dados”, diz, explicando que essa relação é recorrente em relacionamentos, incluindo aqueles em que os envolvidos são bastante independentes, distantes ou críticos. Interações favoráveis podem ser gestos simples: “Um sorriso, um aceno de cabeça ou apenas um som para mostrar que está ouvindo a pessoa amada”, sugere o pesquisador. Também é importante estar atento ao hábito de agradecer pelas delicadezas, seja uma carona, um copo de água ou uma massagem nos pés. Em geral expressamos gratidão em relação a pessoas de quem somos socialmente distantes, mas às vezes deixamos de lado esse comportamento com aqueles com quem temos maior proximidade. Vale lembrar que gentilezas, nas atitudes ou palavras, favorecem a sensação de bem-estar.

2. O ENCONTRO NO MEIO DO CAMINHO

O psicólogo evoca o “equilíbrio de Nash”, conceito utilizado para compreender a lógica dos processos de decisão e ajudar a resolver conflitos de interesse na economia, na ciência política e na sociologia. Por muito tempo, foi amplamente aceita a ideia de que as negociações eram, em sua maioria, situações de soma zero, ou seja, para um ganhar o outro teria de perder. Nos anos 50, porém, o matemático John Nash provou, usando a teoria dos jogos, que havia outra proposta: em um contexto em que nenhum jogador pode melhorar a sua situação dada a estratégia seguida pelo jogador adversário, a melhor estratégia é não investir no prêmio maior. O princípio, também conhecido como equilíbrio cooperativo, rendeu a Nash um Prêmio Nobel em 1994. No campo dos relacionamentos, esse equilíbrio pode ser traduzido por cooperar para encontrar soluções parcialmente vantajosas para ambos e não apenas para uma das partes. Em outras palavras, quando na maioria das vezes os interesses do casal se sobrepõem aos individuais, os dois tendem a ficar mais satisfeitos.

3. OLHAR E ESCUTAR

“Buscamos chamar a atenção e o interesse da pessoa amada o tempo todo”, diz Gottman. Em sua pesquisa, ele descobriu que os casais felizes percebem essas investidas e retribuem em 86% das vezes. Os que se divorciam respondem apenas 33% do tempo nos sete primeiros anos de convivência. “É o momento em que optamos por ouvir nosso par desabafar sobre um dia ruim em vez voltar a atenção para a televisão”, exemplifica a psicóloga Dana R. Baerger, professora assistente de psiquiatria clínica e ciências comportamentais na Escola Feinberg de Medicina da Universidade Northwestern. “Temos a escolha, em qualquer interação, de nos conectarmos com nosso parceiro ou não. A constância da segunda opção pode, ao longo do tempo, corroer lentamente o relacionamento, mesmo sem haver um conflito claro.”

4. VALORIZAÇÃO DE ASPECTOS POSITIVOS

A observação de casais em suas casas revela que os indivíduos que se concentram nos aspectos desfavoráveis não conseguem enxergar ações positivas do companheiro. Uma característica nítida dos casais felizes é que procuram relevar os aborrecimentos e focar o lado agradável da relação. Não se trata de negar o que não está bem, mas sim de não dar espaço excessivo ao que incomoda e colocar de lado as experiências satisfatórias. “Se um dos dois acorda irritadiço em uma manhã de domingo, por exemplo, isso não é motivo suficiente para estragar toda a programação do dia, o que seria pouco vantajoso para ambos”, comenta Gottman. Ele alerta também para o risco de guardar mágoas e usar o ressentimento para ferir ao outro e a si mesmo. Em seus estudos, o psicólogo constata que os casais mais satisfeitos são aqueles em que ambos se esforçam para cuidar emocionalmente do parceiro.

OUTROS OLHARES

TECNOLOGIA DE VESTIR

Como os novos dispositivos “wearables” estão revolucionando a forma de se relacionar com o mundo e o próprio corpo

Pessoas que caminham pelas ruas e aparentam estar falando sozinhas, mas na verdade estão se comunicando com outras por meio dos óculos escuros. Crianças que parecem estar brincando no condomínio do prédio sem a supervisão de um adulto na realidade estão sendo atentamente monitoradas pelos pais por meio de seus relógios. Roupas que aparentemente estão apenas cobrindo a pele, mas fazem muito mais do que proteger o corpo e embelezar o usuário: monitoram a saúde e emitem alertas quando o nível de estresse está acima do normal. Esses itens lembram cenas de filme futurista, porém já fazem parte do dia a dia de muita gente e protagonizam o início de mais uma revolução tecnológica e comportamental. Os novos “wearables”, dispositivos tecnológicos de vestir, estão dominando o investimento em pesquisas das empresas e chegando com tudo no mercado. Apenas no Brasil, no primeiro trimestre de 2019, o número de vendas desses dispositivos cresceu 51,6% em relação ao mesmo período do ano passado. E as expectativas são bastante otimistas: estima-se que até o final do ano a alta deve ser de 91,3%. Os dados são de uma pesquisa realizada recentemente pelo IDC Tracker Brazil.

MUDANÇA DE HÁBITOS

Enquanto esses aparelhos estão trazendo bons retornos financeiros para as empresas pioneiras, do outro lado dessa cadeia estão os usuários cujos hábitos de vida já estão sendo transformados. É o caso da administradora de empresas Daniela Cuqui. Ela comprou para a filha Lorenza, de 8 anos, um relógio que se conecta com seu smartphone. Com um só aparelhinho, ela eliminou diversas preocupações. O objeto possui função GPS, então ela sempre sabe onde a filha está e ainda recebe um alerta se ela sair da área demarcada. E o melhor: o dispositivo está sempre preso ao seu pulso. “Dei um celular há um tempo para ela, mas ela tinha de ficar carregando e acabava esquecendo. Então comprei uma bolsinha para ela carregar o celular, mas também acabava deixando o acessório esquecido em um canto. Agora não tem como esquecer, e se ela tirar do braço eu também recebo um aviso no celular”, diz Daniela. Além de mostrar a localização da filha, o aparelho, que leva um chip próprio de uma operadora de telefonia, recebe e faz ligações para números previamente autorizados e ainda conta com botão SOS. Uma mão na roda para a mãe que trabalha e não tem como acompanhar a menina o dia todo. Além de Lorenza, sua filha mais velha, de 23 anos, seu marido, sua mãe, que mora sozinha, e suas irmãs também usam relógios inteligentes. “É uma segurança, nossa família toda está conectada. Todo mundo fica mais tranquilo porque sabe que todos estão bem”, diz ela.

Outro entusiasta dessa nova tecnologia é o advogado Flávio Schmidt, de 43 anos. Ele sempre viaja a trabalho para a Europa e para os Estados Unidos e aproveita a oportunidade para voltar com o que há de mais novo na área. Uma de suas mais recentes aquisições foram óculos que funcionam como fones de ouvido. Além de proteger os olhos, o item permite que ele ande de moto e faça exercícios sem se preocupar em carregar muitos objetos. Conectado ao smartphone via bluetooth, o equipamento é utilizado para ouvir músicas e fazer ligações por meio de comandos de voz e botões presos nas próprias hastes. “Parece uma trilha sonora, porque consigo ouvir o que as pessoas estão falando com som ao fundo. A gente tem a impressão de que a vida vira um filme”, diz ele. “Também é mais seguro, porque escutar o que se passa ao meu redor é fundamental para quem gosta de passear de moto”. Apesar de adorar os novos lançamentos, ele não os adquire no Brasil, mas apenas quando viaja. Devido aos altos impostos, os dispositivos chegam muito caros no País.

Esse é um dos motivos que faz com que muitos desses aparelhos, que já fazem parte da vida das pessoas em outros países, levem um tempo para chegar por aqui. Mas existem outros. “Muitos dos ‘wearables’ estão em fase de teste e só passam a ser exportados quando realmente são aceitos pelos usuários”, diz Edney Souza, Diretor Acadêmico da Digital House. Os relógios que monitoram a saúde são um exemplo disso. Após serem vendidos com sucesso para o mercado no exterior, eles chegaram com tudo no Brasil, e com diversas marcas. Além de já incentivarem os usuários a terem hábitos mais saudáveis, como caminhar e se movimentar, eles prometem vir com funções ainda mais aprimoradas. “Os pesquisadores estão conduzindo estudos em que os dados de batimento cardíaco coletados estão sendo aceitos como eletrocardiograma para identificar quem tem mais risco de problemas no coração. Em um futuro muito próximo, teremos menos pessoas falecendo em decorrência de um infarte”, diz Edney.

Marina Toeters, designer e pesquisadora em tecnologia fashion, organizou o livro “Unfolding Fashion Tech: Pioneers of Bright Future”, que reuniu 50 projetos na área, tanto em fase de protótipo quanto já disponíveis no mercado. De acordo com ela, as principais dificuldades para comercializar esses produtos são a aceitação do público e o preço de venda. Marina desenvolveu uma blusa que, por meio de finos sensores acoplados à blusa, coletam dados como batimento cardíaco e movimentos do usuário. “Eles ajudam as pessoas a se preocuparem mais com sua saúde e a relaxarem, enquanto podem continuar fazendo suas atividades”, afirma ela. O protótipo está sendo negociado com uma marca e deve chegar ao mercado em cerca de um ano. A ideia é produzir um volume de três mil unidades ao mês.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O “AZAR” DE ADOECER

A má sorte pode ser levada em conta quando se estuda a incidência de câncer na população? Por incrível que possa parecer, um grupo de respeitados cientistas acredita que sim

Ao longo dos anos, o acaso tem desafiado a ciência. Recentemente, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins e da Escola de Saúde Pública Bloomberg, nos Estados Unidos, fizeram uma afirmação polêmica. Claro, há fatores ambientais a serem levados em conta, hábitos de risco, influência da alimentação e do sedentarismo e aspectos genéticos e biológicos. Mas, segundo os cientistas, a ocorrência da maior parte dos tipos de câncer pode ser atribuída, pelo menos em parte, à “má sorte”. Em um artigo publicado no periódico científico Science, estudiosos afirmaram acreditar que a explicação para esse fator aleatório está na maneira como os tecidos do corpo se regeneram.

A pesquisa revela que dois terços de todos os tipos de câncer analisados são originados por mutações genéticas e a explicação para essa alteração pode estar na maneira como as células se regeneram. O estudo que levou a essa conclusão tem o objetivo de explicar a razão de alguns tecidos do corpo serem mais vulneráveis ao câncer do que outros.

Células mais antigas e desgastadas são constantemente substituídas por células-tronco, que se dividem para formar novas estruturas celulares. Mas em cada divisão há o risco de que ocorra uma mutação anômala, que aumenta o perigo de aparecer um câncer. O ritmo dessa renovação varia de acordo com a região do corpo, sendo mais rápida no intestino e mais lenta no cérebro, por exemplo. Os pesquisadores compararam o número de vezes que essas células se dividem em 31 tecidos do corpo durante a vida média de uma pessoa com o índice de incidência de câncer nessas partes do corpo e concluíram que dois terços dos tipos de câncer seriam causados pelo “azar” de células-tronco em processo de divisão sofrerem mutações imprevisíveis. Apesar da observação, cientistas de todo o mundo ressaltam que um estilo de vida saudável aumenta muito as chances de uma pessoa não desenvolver a doença. Ou seja, favorece “a sorte” de se manter saudável.

MELHORES AMULETOS

Para a psicanálise não existe acaso – pelo menos não da maneira como estamos acostumados a considerar essa ideia. Sigmund Freud postula que somos conduzidos por nossos desejos inconscientes sem nos darmos conta deles. E, não raro, nos sentimos completamente à mercê das situações, imersos em certo grau de alienação. Porém, por meio da análise ou do próprio processo de amadurecimento, tendemos a nos apropriar de nossa história, nos tornando mais autônomos tanto para fazer escolhas e arcar com os resultados delas, quanto para aceitar, sem grande sofrimento, que não é possível ter tudo sob nosso controle. E não se trata de abrir mão dos próprios desejos porque não podemos dominar as consequências – pelo contrário.

A capacidade de receber de bom grado os benefícios que a vida oferece – sem desvalorizar “a medalha de bronze porque não é de ouro” – costuma perpetuar a sensação de satisfação. Nesse sentido, uma das maneiras mais eficientes de atrair a sorte está na escolha no nível racional, na opinião do psicólogo inglês Richard Wiseman. Professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, ele trabalhou como ilusionista na época da graduação e, mais tarde, conduziu um complexo estudo sobre os mecanismos possivelmente relacionados à sorte. Segundo Wiseman, desenvolver conscientemente o hábito de nos atermos àquilo que nos faz bem, sem nos apegarmos excessivamente ao que provoca dor e desconforto. Para o psicólogo, o empenho em ser saudável e a confiança de que merecemos essa oportunidade são bons amuletos contra o “azar” da doença.

OUTROS OLHARES

A EDUCAÇÃO VEGANA

O pioneirismo das escolas brasileiras em trabalhar o tema “veganismo”, com base em Filosofia, e as vertentes por detrás desse movimento

Definimos no Brasil a educação vegana como uma ação direta pedagógica crítica e autocrítica, cuja missão é levar a teoria dos direitos animais e todo o debate ético animalista, assim como sua aplicação, prática, o modo de vida vegano ao conhecimento de toda a população.

Para entendermos essa questão, é preciso dizer que tudo isso teve início em 1944, em Londres, quando um grupo de dissidentes da Vegetarian Society, funda a Vegan Society e cunha o termo “vegan” para se referir à pessoa que busca no seu dia a dia abolir tudo que advém do uso e da exploração dos animais não humanos. Essa ideologia passou a se chamar “veganism” (veganismo).

Nesses 75 anos de existência, o veganismo adquiriu uma solida fundamentação filosófica. As bases teóricas desse modo de vida tiveram seu início – poderíamos dizer – com o surgimento do Grupo de Oxford. Assim foi chamado, informalmente, o grupo de estudiosos de diversos campos que levantaram, na década de 1970, na Inglaterra, uma série de questionamentos críticos aos mais diversos usos que os humanos fazem dos animais não humanos, em especial para experimentação científica e para alimentação. Inspirados na obra de Ruth Harrison, “Animal Machines” de 1964, os membros do Grupo de Oxford começam a editar argumentos filosóficos em defesa da expansão do círculo moral para além da espécie humana.

As obras pioneiras foram, do casal Stanley e Rosalind Godlovitch e John Harris, chamada Animals, men, and Morals (1971); de Rosalind Godlovitch, Animais and Morais (1971); de Peter Singer, Animal Liberation (1973); de Richard Ryder, Victims of Science (1975); de Tom Regan, “The moral basis of vegetarianism” (é um ensaio, 1975); de Andrew Linzey, Animais Rights: a christian perspective (1976); de Tom Regan e Peter Singer, Animal Rights and Human Obligations (1976); de Stephen Clark, The moral status of animais (1977); de Michael Fox e Richard Knowles, On the fifth day: animal Rights and human ethics (1978); de Peter Singer, Practical Ethics (1979); de David Paterson e Richard Ryder, Animais Rights: a symposium (1979). Nesse mesmo período, importantes revistas acadêmicas dedicaram edições à questão do status moral dos animais não humanos: Ethics (jan/1978), Philosophy (out/1978), Inquiry (verão de 1979) e Etyka (1980).

A partir daí, durante as décadas de 1980 e 1990, a literatura sobre essa temática aumentou assustadoramente. Dentro das mais diversas correntes éticas tivemos o surgimento de filósofos escrevendo defesas da ampliação do círculo moral para incluir os animais não humanos, como pessoas, como sujeitos de suas vidas, como indivíduos conscientes de seus prazeres e sofrimentos. Filósofos utilitaristas, neokantianos, eticistas das virtudes neoaristotélicos, eticistas do cuidado, entre outras vertentes.

Diferentemente do que ocorre nos EUA e na Europa, onde a educação vegana é apenas uma frase dita em panfletos de ativistas veganos, no Brasil, de modo pioneiro, a educação vegana foi aplicada em diversas escolas. O Brasil é o único país do mundo onde professores de Filosofia, Biologia, Educação Física, Física, Matemática, Sociologia introduziram em sala de aula as questões éticas levantadas pelos filósofos animalistas. Porém, são nas aulas de Filosofia, nas quais a temática é mais desenvolvida, devido ao fato de terem sido os filósofos que a elaboraram. Isso facilita ao professor de filosofia, pois tanto no currículo escolar oriundo dos PCNs quanto no livro didático, ele encontra os principais tópicos que levam a esse debate ético contemporâneo.

Nas aulas de Filosofia no ensino médio brasileiro, nas escolas onde a temática foi trabalhada, o professor de Filosofia, ou “educador vegano” como também é chamado, pode desenvolver os debates no campo ético por três vias: primeira, por temas (conceitos); segunda, pela História da Filosofia (em ordem cronológica ou não) e, terceira, por autores (escolhendo quais pensadores apresentar).

A educação vegana demonstrará que a tradicional visão de que o humano é o único animal que pensa, que raciocina, que tem linguagem articulada, que usa instrumentos para modificar seu ambiente, que tem alma, que tem senso de justiça, que produz cultura; não se sustenta mais. Não só pelo recurso aos avançados estudos da Etologia Cognitiva pós-darwiniana, mas pelo debate ético realizado na História da Filosofia desde os gregos. As teses especistas, ou seja, as teses advindas da ideologia que defende a suposta superioridade dos animais humanos sobre os não humanos, comum em pensadores como Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes e Kant, serão contrapostas por vozes dissidentes do mesmo período. Por exemplo, o especismo da teoria cartesiana do “animal machine”, será contraposta pela belíssima defesa da senciência animal na “Apologia de Raymond Sebond” de Montaigne e pelas repostas de Voltaire a Descartes no Dicionário Filosófico e no Filósofo Ignorante.

Se o professor de filosofia ou educador vegano escolher ministrar suas aulas pela via temática/conceitual, podemos usar como exemplo, a questão da senciência. A senciência é o critério moral que iguala todos os animais. Para os animais que ainda não temos certeza se são sencientes, concedemos­ lhe o benefício da dúvida. Negar que os animais não humanos têm consciência da dor e do prazer, é negar a animalidade que nos configura. Em sala de aula, a senciência pode ser discutida a partir de vários filósofos e cientistas como: Pitágoras, Teofrasto, Plutarco, Montaigne, Voltaire, Primatt, Bentham, Nietzsche, Darwin, Peter Singer, Tom Regan, Bernard Rollin, Steve Sapontzis, Evelyn Pluhar, James Rachel e Antônio Damásio.

Se a forma da aula for escolhida pela via da História da Filosofia, sabemos que em todo livro didático de filosofia, temos um capítulo dedicado à Filosofia da Ciência. A partir da perspectiva da educação vegana, a problemática da experimentação animal é colocada tendo como objetivo refletir sobre os alcances e limites das ciências. Aristóteles herdou do pai que era médico na corte macedônica o fascínio pelas pesquisas zoológicas. O educador vegano não ignora o fato de que o Estagirita era um vivissector e anatomista, foto comprovado pelos detalhes com que descreve as composições dos animais em seus tratados biológicos. Em seu longo tratado, História Animalium, encontramos as bases do que denominamos hoje de Psicologia Comparada, assim como, da Etologia Cognitiva. E como falar da experimentação animal sem passar pelo “pai” da filosofia moderna: René Descartes? As aulas podem ser ilustradas com um ótimo recurso cinematográfico que é o documentário chamado “Não matarás: os homens e os animais nos bastidores da ciência’: que conta com a participação de dois importantes filósofos dos direitos animais: a brasileira Sônia Felipe e o estadunidense Tom Regan.

A educação vegana pode ser desenvolvida nas aulas de filosofia pela terceira via, a apresentação de alguns filósofos. Devido ao pouco tempo de aula de filosofia nas escolas, infelizmente, a escolha acaba privilegiando uns e deixando outros de fora, o que não quer dizer que não podem ser citados, indicados como leitura extraclasse. A escolha normalmente é feita tendo em mente os filósofos da chamada Ética Animal ou dos Direitos Animais. Por exemplo, Peter Singer, autor de duas obras fundamentais dentro da perspectiva utilitarista, que são: Libertação Animal e Ética Prática. Singer desenvolveu o “princípio da igual consideração de interesses semelhantes’: cuja base é o critério da senciência. Se um animal não humano tem os mesmos interesses básicos que o animal humano, esses interesses não podem ser negligenciados apenas por que ele não pertencer a minha espécie. Isso seria especismo, um preconceito baseado na formatação biológica do indivíduo, como é o caso do racismo e do sexismo.

Ainda nessa terceira via, a educação vegana pode ser trabalhada pela perspectiva dos direitos. Nesse caso, o filósofo mais conhecido é Tom Regan. Regan é um conhecido deontologista neokantiano, e a sua teoria dos direitos animais foi estruturada em sua obra magna: The Case for Animal Rights. Regan se funda em Kant e na Declaração dos Direitos Humanos para propor que todos os animais sencientes devem ter direitos morais básicos. Devem ser reconhecidos como pessoas que são sujeitos – de ­ suas – vidas e devem ser respeitados por isso.

E por fim, ainda nessa terceira via, os pensadores neoaristotélicos também podem ser usados para que os alunos vejam a amplitude de perspectivas em defesa da expansão do círculo moral humano. Os filósofos mais conhecidos nessa linha de pensamento são: Stephen Clark, Rosalind Hursthouse, Martha Nussbaum, Daniel Dombrowski e Bernard Rollin. Esses pensadores vão resgatar conceitos aristotélicos como eudaimonia, aretê e telos. A educação vegana a partir dessa perspectiva tem como foco a formação do caráter moral humano. Mesmo que nas escolas, contraditoriamente, encontramos uma barreira à formação de uma segunda natureza moralmente excelente, ou seja, um habitus que nos possibilite buscar a realização de nosso telos eudaimônico sem com isso, impedir que o mesmo seja alcançado pelas outras espécies animais; é nesse ambiente que a educação vegana acredita, através de uma ação direta pedagógica, que as virtudes fundamentais para o viver uma vida boa, como: prudência, temperança, coragem, justiça, fidelidade, veracidade, amabilidade, simplicidade, responsabilidade e compaixão, devem ser introduzidas e trabalhadas.

Educação vegana é um outro olhar sobre nossas relações com os animais não humanos e com o meio ambiente que nos circunda, cuja base, é o diálogo crítico com toda a milenar História da Filosofia. Educação vegana é a prática da criticidade que caracteriza a Filosofia.

GESTÃO E CARREIRA

VOANDO ALTO

A MaxMilhas, que surgiu em 2013 e hoje tem 400 funcionários, desenvolve os empregados para o futuro

Encontrar uma maneira de economizar nas viagens foi o que levou o mineiro Max Oliveira a criar, em 2013, a MaxMilhas, que conecta consumidores que estão em busca de uma passagem aérea mais barata a pessoas que querem vender suas milhas e faturar uma grana extra. A ideia fez sucesso e, até hoje, a empresa já negociou 40 bilhões em milhas e emitiu 4 milhões de passagens — o que representa 160.000 voltas ao mundo em milhagem aérea. Para dar conta da demanda, a empresa aumentou o quadro. Nos últimos três anos, dobrou o número de empregados e, atualmente, 400 funcionários trabalham juntos no escritório da startup, em Belo Horizonte.

DENTRO DE CASA

Encontrar gestores com a cara da MaxMilhas era um desafio. Por isso, a empresa criou um programa de desenvolvimento de líderes. Com duas turmas por ano e aberto para qualquer funcionário com mais de seis meses de casa, o projeto dura 12 meses e foca habilidades comportamentais

A REGRA É CLARA

Os pré-requisitos para conquistar cada um dos cargos da startup estão estampados na parede. Duas vezes ao ano, todos recebem feedbacks do RH. Em 2019, 75 pessoas mudaram de cargo ou tiveram aumento de salário.

DIVERSIDADE

Apesar de não possuir políticas formais de inclusão, a empresa tem diversidade: 52% do quadro não se considera branco; 51% são mulheres (elas compõem 43% da liderança) e 11% se declaram LBGTI+ (há três transexuais).

TODOS JUNTOS

Nas datas de alta demanda por passagens de avião, como Black Friday e o dia mundial das milhas, todas as áreas ajudam a equipe de atendimento, que tem 200 pessoas. Até Max, o fundador, emite passagens.

ENTREVISTA COMPLETA

Na hora de contratar, a empresa checa não apenas a capacidade técnica, mas os valores do candidato — para verificar o alinhamento com a cultura. Há perguntas sobre racismo, privilégios e trabalho em equipe. Os que são aprovados passam para uma segunda fase, na qual desenvolvem um case que depois é apresentado aos gestores. Por fim, o time com o qual o candidato vai trabalhar valida, ou não, a contratação. O processo leva cerca de 15 dias.

CENÁRIO

O escritório é aberto e sem distinção de hierarquia. A decoração foi pensada para ajudar os funcionários a lembrar que estão numa empresa de viagem: Há um por – do – sol na recepção, uma sala de reunião que imita uma pista de pouso e nuvens no teto do andar principal.

NO RITMO

A pedido dos empregados, a MaxMilhas fez uma parceria com o lá da favelinha, grupo de dança que dá aulas semanais a um grupo de 20 funcionários — que até já realizou apresentações na empresa.

TROCA-TROCA

Uma vez a cada quatro meses, os funcionários trabalham na área de atendimento durante 4 horas. A ideia é estimular a troca de experiências, ampliando a noção de negócio. Desse projeto também saem inovações e melhorias em processos.

PENSANDO NO FUTURO

Além do curso voltado para a preparação de líderes, a empresa tem outro programa com foco no desenvolvimento de habilidades que serão importantes para o crescimento dentro da MaxMilhas, como resiliência e empatia. a participação é voluntária, mas 270 funcionários já passaram pelo treinamento, que é trimestral e dura 3 horas.

FOCO NA FORMAÇÃO

A MaxMilhas oferece aulas de inglês e espanhol para todos os funcionários e arca com 50% do custo. Além disso, a companhia subsidia um valor correspondente a até 20% do salário do empregado para outros cursos que auxiliem na carreira. Até dois funcionários do mesmo time podem estudar ou participar de eventos ao mesmo tempo. A aprovação fica por conta do gestor.

VAGAS

Cerca de 50 vagas até o fim do ano

COMPETÊNCIAS

A MaxMilhas busca profissionais colaborativos e que sejam capazes de se colocar no lugar do outro. Ter espírito empreendedor é importante, assim como disposição para aprender e evoluir

SITE PAR A ENVIO DE CURRÍCULO

maxmilhas.com.br/trabalhe-conosco

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 7 – FILHOS DE DEUS

Foi o Eterno que fez o casamento, não você. Seu Espírito permeia até os menores detalhes dessa união. E o que ele espera do casamento? Ora, filhos de Deus. Malaquias 2:15, A Mensagem, grifo do autor

“Filhos de Deus…”. É isso que Deus espera do casamento. Mas será que significa que Ele espera que tenhamos mais bebês para povoarem a Terra? Sim e não.

A passagem de Malaquias 2:15 não diz que Deus quer que o casamento produza filhos. Diz que Ele deseja que o casamento produza filhos de Deus. Deus deseja filhos – de qualquer idade – que O glorifiquem e andem nos Seus caminhos. Lembre-se de que somos Seus embaixadores. Seu objetivo é se revelar a nós e por meio de nós.

O Breve Catecismo de Westminster diz: “O objetivo principal do homem é glorificar a Deus, e desfrutá-Lo para sempre”. Amamos isso! Glorificar não é uma palavra usada por nós em nossa linguagem diária; devido ao seu uso frequente na Bíblia ela é vista como algo espiritual e distante. Mas glorificar significa simplesmente tornar Deus conhecido. O desejo de Deus é ser conhecido através das nossas vidas, casamentos e legados. E não existe catalisador como o casamento para nos transformar em filhos de Deus.

Mesmo se você nunca criar um filho, Deus quer usar seu casamento para transformar você em um filho de Deus. Ele quer refiná-lo, transformando-o em um agente da Sua glória, e moldá-lo à semelhança de seu Pai. Compartilhar sua vida com outra pessoa cria muitas oportunidades para nos tornarmos mais semelhantes a Deus. Descobrimos que, com muita frequência, um caráter temente a Deus não é desenvolvido em meio a oceanos de bênção. Ele é forjado na fornalha do fogo matrimonial.

Eu (John) assemelho o casamento a uma fornalha e nossas vidas a uma liga, ou mistura, de metal precioso. O que uma fornalha ardente faz com uma liga? Expõe suas impurezas. Minha aliança de casamento pode parecer ser feita de ouro puro, mas aproximadamente cinquenta por cento dela é composta de outras substâncias. Se eu colocasse minha aliança dentro de uma fornalha, essas impurezas seriam expostas. Do mesmo modo, os desafios que encontramos no casamento – desde os desentendimentos triviais até os momentos extremamente difíceis – revelarão impurezas em nossas vidas. (Algumas impurezas precisam de mais calor do que outras para serem reveladas.)

Quando o casamento revela implacavelmente nossas imperfeições, é fácil culpar nossos cônjuges. Afinal, nada disso acontecia antes de nos casarmos. Quando percebermos que estamos nos sentindo frustrados porque nossos cônjuges estão agravando nossas “fraquezas”, devemos agradecer a Deus porque o casamento está nos tornando mais semelhantes a Jesus. Não é esse o objetivo final?

ENCONTRANDO PROPÓSITO NOS TEMPOS DIFÍCEIS

Sabemos que nossa analogia com a fornalha não é empolgante, mas a jornada para um final feliz está longe de ser um conto de fadas. Às vezes a sua história pode parecer mais com uma escalada ao Monte Everest do que com a cena final de um conto de fadas.

Aqueles que desbravam as ladeiras cobertas de neve dos Himalaias para fazer a rigorosa e desafiadora jornada até o pico do Everest, devem fazer isso tendo duas coisas em mente. Primeiramente, devem saber que o empreendimento testará os limites de sua capacidade física e emocional. Esses homens e mulheres ousados não conhecem todas as particularidades dos perigos iminentes, mas sabem que desafios virão. Em segundo lugar, eles precisam se lembrar do seu objetivo: subir a montanha mais alta do mundo. Para eles, a vitória é claramente alcançada quando se atinge 29.029 pés acima do nível do mar. Sem a consciência desse objetivo, esses viajantes desistiriam rapidamente assim que encontrassem seu primeiro grande obstáculo.

O mesmo se aplica ao casamento. Se reconhecermos que os desafios são parte inerente da construção das nossas histórias, então não seremos esmagados quando nossas capacidades emocionais, físicas e espirituais forem testadas. Se começarmos – e construirmos – tendo o fim em mente, não desistiremos quando encontrarmos grandes problemas.

Ao ensinar sobre maturidade espiritual, Jesus disse que tribulação e perseguição viriam sobre aqueles que creem na Palavra de Deus (ver Marcos 4:17). No original grego, essas palavras são thlipsis e diogmos. Thlipsis é “transtorno que inflige sofrimento, opressão, aflição, tribulação”.1 Diogmos é “um programa ou processo projetado para perturbar e oprimir alguém”.2 Nenhum dos dois parece ser divertido, mas essas forças facilitam o nosso crescimento em Deus. Paulo repetiu as palavras de Jesus:

Também nos gloriamos nas tribulações [thlipsis], porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou Seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele nos concedeu. Romanos 5:3-5

Paulo escreveu que devemos nos gloriar, ou seja, que devemos nos alegrar nas tribulações. Por quê? As tribulações geram uma oportunidade de desenvolvermos um caráter aprovado. Os problemas nos posicionam para nos tornarmos mais semelhantes a Deus. E podemos ter esperança no conhecimento de que Deus nos ama e quer sempre o melhor para nós – a ponto de nos ter dado Seu Espírito para encher nossos corações de amor, mesmo em meio às nossas maiores lutas.

A Bíblia também deixa claro que Deus não é o autor dos nossos problemas. Satanás é aquele que está por trás da tribulação e da perseguição (ver Marcos 4:15 e Tiago 1:12-13), mas Deus usa os estratagemas do inimigo contra ele. Nas mãos do grande Redentor, o que se destina a nos afastar de Deus se torna um instrumento para nos tornar mais semelhantes a Ele.

Lembre-se de que o inimigo odeia o casamento e tudo o que ele representa. Ele fará tudo que estiver ao alcance dele para dividir nossas uniões e perturbá-las com tribulações aparentemente insuportáveis. Ter uma visão para as nossas uniões – e a fé de que Deus nos fará atravessar as dificuldades – nos dá o poder da esperança para resistir aos ataques do inimigo. Deus não quer que meramente sobrevivamos aos ataques contra o nosso casamento. Ele quer que nos tornemos mais fortes por meio deles. A chave é lembrar por que estamos lutando (o propósito de Deus), contra quem estamos lutando (satanás), e quem está do nosso lado (o Espírito de Deus). Nossa fé e esperança realmente são fortalecidas através dos desafios – desde que não desistamos antes que Ele possa completar Sua obra em nós.

O “FELIZES PARA SEMPRE” DE JESUS

Jesus sofreu mais profundamente do que qualquer outro ser humano. Ele, o Deus perfeito, tornou-se como nós para sofrer a dor e a humilhação de uma morte injusta. Ele abriu o caminho para sermos reconciliados com Deus, mas a maior parte da humanidade ainda O rejeita.

Como Jesus foi capaz de suportar tamanha dor e rejeição? A resposta é simples, mas tremendamente profunda: Ele nunca perdeu de vista Seu “felizes para sempre”. No Seu exemplo, encontramos um modelo para escrevermos nossas histórias:

Mantenham os olhos em Jesus, que começou e terminou a corrida de que participamos. Observem como Ele fez. Porque Ele jamais perdeu o alvo de vista – aquele fim jubiloso com Deus. Ele foi capaz de vencer tudo pelo caminho: a Cruz, a vergonha, tudo mesmo. Hebreus 12:2, A Mensagem

Jesus resistiu porque sabia para onde estava indo. Ele olhou através do sofrimento e viu a promessa.

A Bíblia Nova Versão Internacional traduz esse versículo do seguinte modo:

… Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que Lhe fora proposta, suportou a Cruz…. Hebreus 12:1-2, grifo do autor

Captou a ideia? “A alegria que Lhe fora proposta.” Jesus estava entusiasmado com a ideia de suportar a Cruz? Absolutamente não. Ele estava tão angustiado que passou a noite anterior à Sua execução suplicando ao Pai por um caminho alternativo. Mas Jesus tinha algo que falta em muitos casamentos. Ele tinha uma visão extraordinária. Ele podia ver além das circunstâncias ao Seu redor e visualizar o poder e a promessa que viriam através das Suas escolhas. E a atenção de Jesus estava voltada para que? Encontramos a resposta em Efésios 5:

Cristo amou a igreja e entregou-Se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a Palavra, e para apresentá-la a Si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. v. 25-27, grifo do autor

Somos o final feliz de Jesus. Nós fomos a alegria que estava diante Dele. Jesus suportou a Cruz para que Ele pudesse ser reconciliado conosco, Sua Noiva. A Igreja agora pode abraçá-Lo sem se sentir envergonhada por sua antiga condição miserável, pois Nele temos uma nova identidade. Esse é o tipo de perseverança, misericórdia e amor incondicional que deveria estar presente em nossos casamentos. Mas é preciso ter uma visão – uma esperança do que o casamento poderá ser – para nos sustentar em meio aos desafios.

O escritor de Hebreus continua com esta exortação:

Cruz. Quando sua fidelidade ao seu cônjuge estiver enfraquecendo, lembre a si mesmo da fidelidade de Jesus a você. Lembre-se de tudo o que Ele suportou para Se reconciliar com você. O exemplo Dele injetará adrenalina em sua alma!

Quando se sentirem cansados no caminho da fé, lembrem-se da história Dele, da longa lista de hostilidade que Ele enfrentou. Será como uma injeção de adrenalina na alma! Hebreus 12:3, A Mensagem

Todos nós nos sentimos fracos em nossa fé de tempos em tempos. É por isso que o escritor de Hebreus diz quando e não se vocês se sentirem cansados no caminho da fé. Um grande casamento requer uma grande fé, porque é a raiz de toda fidelidade. Quando seu casamento estiver tendo dificuldades, lembre- se do que Cristo suportou. Releia a história Dele. As suas dificuldades momentâneas, por mais dolorosas que sejam, não são nada se comparadas à Cruz. Quando sua fidelidade ao seu cônjuge estiver enfraquecendo, lembre a si mesmo da fidelidade de Jesus a você. Lembre-se de tudo o que Ele suportou para Se reconciliar com você. O exemplo Dele injetará adrenalina em sua alma!

OUTROS OLHARES

CONHECER PARA RESPEITAR

Um grande desafio para banir a desigualdade e a discriminação do cotidiano escolar

Nas considerações de Paulo Freire, “você, eu, um sem-número de educadores sabemos, que a educação não é a chave das transformações do mundo, mas sabemos também que as mudanças do mundo são um quefazer educativo em si mesmas. Sabemos que a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa. Sua força reside exatamente na sua fraqueza. Cabe a nós pôr sua força a serviço de nossos sonhos.”

Faz-se necessário compreender a educação como transformação social, oportunizar aos nossos al unos desde a educação infantil serem sujeitos construtores da própria história. A escola deve educar para a vida desde bem cedo, daí a importância de se trabalhar na escola questões como: a desigualdade social, a discriminação racial e a diversidade cultural; oportunizando aos alunos a quebra de paradigmas desde cedo, reconstruindo valores e verdades a respeito do outro, respeitando as diferenças sociais, culturais e raciais no seu cotidiano.

É imprescindível, a escola atual, trabalhar de maneira eficaz a matriz africana no seu currículo. Pois a História africana, sua formação e delineamento da identidade cultural afro-brasileira, é de suma importância no cenário educacional, pois será interpretando e recriando as práticas de outras culturas, que os alunos irão ter possibilidades de conhecer e assim respeitar o outro.

Herdeiros de uma escola que sempre privilegiou, em grande parte de sua trajetória, conteúdos eurocêntricos, vivemos hoje a urgência de rever conteúdos e temas formativos em nossos bancos escolares. Dessa maneira, conhecer e refletir sobre os costumes e tradições, as práticas e as representações culturais, a mitologia e a religião, a linguagem e as escritas, a resistência e as lutas, a memória e a história do povo africano; assim ensinar, aprender, refletir e debater sobre as identidades, é um exercício fundamental para o combate à intolerância, à discriminação, à xenofobia, ao racismo.

A importância de se discutir tais questões no âmbito da educação é atestada pela amplitude e incidência de crimes e violência no Brasil. Estes ocorrem no contexto de uma história e uma cultura que favorece a violências de todo tipo. Tratar a discussão sobre a cultura afro-brasileira, como matéria/disciplina, significa dar um passo importante para reduzir as desigualdades e a violência que marcam nosso país e o cotidiano escolar. A luta contra o preconceito é tanto política quanto acadêmica.

Para a Unesco, debater essas questões em sala de aula é fundamental, é primordial que ensinem aos estudantes que todas as pessoas são iguais, independentemente da cultura ou até mesmo de sua cor. Um dos compromissos dos países-membros da Organização das Nações Unidas é garantir o cumprimento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada pelo Brasil e todos os outros Estados – membros da ONU em 2015. Entre os 17 objetivos globais da agenda, está a garantia de ambientes de aprendizagem seguros e não violentos, inclusivos e eficazes, e a promoção da educação para a igualdade e os direitos humanos.

A Carta Magna Brasileira prevê, no Art. 3.0, inciso IV, que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, dentre outros, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Prevê, ainda, em seu Art. 206, no que tange ao direito à educação:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino.

Neste sentido, a política de educacional é imprescindível, é na educação básica que as crianças podem tornar-se seres mais esclarecidos e livres para entender o mundo, sem imposições. Para o alcance dessas propostas, é necessário, implementar a educação sobre os temas dos direitos humanos e da diversidade na formação inicial e continuada, oferecida por faculdades e universidades; disponibilizar material didático-pedagógico para auxiliar os profissionais de educação na abordagem destes temas; e realizar pesquisas para o monitoramento e avaliação desse trabalho. Penso que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) [BRASIL, 1997] são propostas do Ministério da Educação e do Desporto (MEC), datadas de 1997, 1998 e 1999, para a abordagem curricular da educação básica, com o objetivo de serem um referencial comum para a educação de todos os Estados do Brasil, não é suficiente, pois muitos professores têm tido dificuldades em aplicar as sugestões apresentadas por eles, o trabalho interdisciplinar ainda é um desafio no cotidiano escolar, sendo necessário políticas educacionais que atendam a regionalidade de cada lugar no Brasil. Desse modo, verifica-se que a Nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de 1997, enfatizam a ideia de diversidade cultural, múltiplos olhares sobre a cultura e a História do patrimônio material e imaterial do Brasil. Nos permitindo, como professores ampliar estes temas, incorporando leituras críticas de textos em sala de aulas, resgates de lendas e tradições regionais, pesquisas de fontes históricas, estudo de textos literários, possibilitar discussões a respeito da diversidade cultural, narrativas cotidianas. Mas isso só será viável pedagogicamente, se Escola, Docentes e Alunos estiverem abertos para a realidade da comunidade escolar, pelo saber adquirido a partir das vivências e tradições da mesma.

Quando a escola aborda a questão racial, cultura afro-brasileira, numa perspectiva plural, ela mostra ao aluno que tudo o que existe na nossa sociedade são construções culturais, e que elas mudam ao longo do tempo. Dar essa perspectiva histórica ao aluno, de que nem sempre foi assim e nem sempre vai ser assim, faz com que eles reflitam e aí, sim, se tem um ganho progressivo de liberdade, de autonomia, que são características importantes. Nesta perspectiva, os PCN’s oportunizam à escola refletir sobre o seu currículo, sobre as necessidades de sua comunidade escolar quanto à realidade de diversificar as práticas pedagógicas, pois rompem a limitação da atuação dos educadores em relação às atividades formais e ampliam um leque de possibilidades para a formação do (a) educando (a).

A escola pode e deve contribuir na construção de princípios de igualdade e justiça, culminando assim no desenvolvimento de uma cultura democrática e participativa. Se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, é sem dúvida na escola que iremos reverter o quadro desolador de desigualdade. E atitudes preconceituosas e discriminatórias somente podem ser mudadas por meio da educação – em todos os níveis e modalidades – em direitos humanos e de respeito à diversidade humana, em todas suas manifestações.

O currículo escolar também é uma outra ação necessária, pois deveriam dar maior ênfase ao cotidiano escolar, permitir estudos de Histórias regionais, locais, que incentivassem a formação de uma identidade cultural e consequentemente nacional; dar ênfase as tradições, valores, memórias, vivências e uma nova percepção do tempo e do espaço. Levar esta discussão para o universo escolar é abrir-se para uma educação que vai além da reprodução de valores, é entender que se deve educar para a crítica às reproduções culturais, tornar prioridade nas políticas curriculares. Os professores podem oportunizar, por meio de atividades pedagógicas, a busca pelas raízes culturais junto aos alunos, através de projetos pedagógicos que trabalhem educação e cultura. No que se refere à contribuição africana é evidente, principalmente, na culinária, dança, religião, música e língua. Deste intercâmbio cultural formou-se a cultura afro-brasileira, sendo visível à influência africana em todos os aspectos da sociedade brasileira, em diálogo com valores humanos de várias etnias e grupos sociais, imprimimos valores civilizatórios de matriz africana à nossa brasilidade que é plural. É imprescindível trabalhar esses temas no cenário educacional, iniciando desde a educação infantil até ao Ensino Médio; além do Ensino superior. Para assim edificarmos valores essenciais para a vida e na vida! E assim, estarmos contribuindo por uma educação crítico social no cumprimento das leis: 10.639/03 e 11.645/08.

É cumprir nosso papel social, enquanto professores, fortalecendo nossa identidade social, para que nossos alunos conheçam e reconheçam o espaço em que vivem, proporcionando mudanças no seu modo de entender a si mesmo, entender os outros, as relações sociais e a própria História; entendendo que saber sua história é saber narrar a si mesmo e ao outro; é ser sujeito de sua própria história, um agente ativo na sociedade, um sujeito capaz de pensar e transformar, exercendo sua plena cidadania. A ideia de educação deve estar intimamente ligada às de cultura, liberdade, democracia e cidadania.

É importante refletir esta questão, como a Cultura se traduz em experiências escolares? Qual a imagem que os alunos têm de si mesmos, de seu lugar, de seu país, do mundo em que vivem? É preciso, enquanto professores, buscarmos esse olhar, essa identidade, esse sujeito capaz de transformar a sua realidade a partir do conhecimento obtido. Oportunizar ao aluno a busca de suas raízes, em relembrar coisas do passado, seja na família ou comunidade, na cidade ou região, tornando a história viva; tornando-se sujeitos de sua própria História, sendo capaz de transformá-la de maneira crítica e consciente, propiciando a sociedade cidadãos críticos, transformadores e sensíveis ao meio em que vivem.

A cultura é plural, implica sujeitos, valores, manifestações artístico-culturais e materiais, imaginário social, identidade, conhecimento, relações de poder, religião, etc. ; possibilitando assim várias possibilidades de projetos interdisciplinares, girando em torno de grandes temas, como: Identidade e Pluralidade; Cultura de massa e Consumo; Patrimônio e Herança Cultural; Cultura e Cidadania. Todos estes temas estão interligados, valorizando a cultura no cenário educacional. Assim sendo, a cultura configura um mundo de símbolos, que atribui significados e delimita a forma como se lê, se sente, se vive; definindo a maneira de ser e de agir do indivíduo.

Nessa perspectiva, o ensino­ aprendizagem oportuniza um espaço – tempo de reflexão crítica acerca da realidade social e, sobretudo, referência para o processo de construção das identidades destes sujeitos e de seus grupos a qual pertence, o que é determinante na construção da leitura de mundo deste aluno. Para uma boa prática, é necessário conhecer e fortalecer a identidade social, possibilitando ao aluno conhecer e reconhecer o espaço onde vivem, pertencer e se apropriar do mesmo no decorrer da sua História, promovendo a troca de significados e vivencias. Incentivar a diversidade cultural, o conhecimento e respeito a cultura do outro, fortalecer a memória e novos saberes, conhecer tradições e o lugar em que vive. Conhecer para respeitar! Aprender a ser, só é possível quando existem trocas de saberes, partilha de experiências e situações instigadoras. Assim, vamos gerar cidadãos capazes de mudar e transformar o lugar em que vivem, sem precisar mudar de lugar.

A História das populações indígenas e afro brasileira, é de suma importância de ser compreendida e vivida na atualidade; como meio de conscientização e valorização do passado dos povos indígenas e africanos, oportunizando ao aluno a reflexão e o respeito às diferenças culturais em nosso país. A promulgação da Lei 10.639/03, alterando a LDB, estabeleceu a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino da educação básica, oportunizando a visibilidade e o reconhecimento da cultura e memória do povo africano e suas experiências, na sociedade brasileira ao longo da História. A mesma lei foi novamente alterada pela de n. 11.645/08, com a inclusão da temática indígena nas escolas, em uma abordagem que possibilita ao aluno dos ensinos fundamental, médio e superior, ter uma visão crítica à imagem dos povos indígenas, sua diversidade étnico-cultural, sua história e presença na atualidade.

Desta forma, a escola deve reconhecer e valorizar a história e a cultura africana, a afro-brasileira e a indígena, que são imprescindíveis para o ensino da diversidade cultural no Brasil. Trata-se de um momento em que a educação brasileira busca valorizar devidamente a história e a cultura de seu povo afrodescendente e indígena, buscando assim desconstruir paradigmas racistas e eurocêntricos da memória e História desses povos, que devem ser reconhecidos e respeitados. A escola deve educar para a vida e na vida, desde bem cedo, entendendo a sociedade como um espaço de realizações instigando no aluno a formação de uma consciência crítica e cidadã. Para isso, será necessário, que a escola tenha clareza de seu currículo, de sua proposta pedagógica, de seu sistema de avaliação no processo de ensino e de aprendizagem, na ação educativa; discutindo-a, e colocando como perspectiva a possibilidade de mudar essa realidade, repensar a formação de homens capazes de transformar, caracterizada pela ação transformadora do mundo.

Compreender que o homem é um ser histórico, capaz de construir sua história participando ativamente com os outros no mundo. Uma educação transformadora, é capaz de promover mudanças por meio da leitura do espaço; o qual traz em si todas as marcas da vida dos homens, construído cotidianamente e que expressa tanto as nossas utopias, como os limites que nos são postos; é oportunizar a reflexão sobre o papel de sujeitos de nossa História, mobilizando para os caminhos de acesso ao conhecimento, associada a cultura, leitura crítica da realidade, desafiando-nos para que percebamos que o mundo pode ser mudado, transformado, reinventado.

A escola tem como desafio nos dias atuais, a formação do cidadão, para que este tenha conscientemente participação social, política e atitudes críticas diante da realidade que vive, oportunizando uma atuação e transformação da realidade histórica na qual está inserido. É imprescindível, que a sociedade e o Estado, percebam e assumam que a escola é uma instituição social plural, que se educa para a vida e para a cidadania. Se fazendo necessário, repensar o significado da transformação social no cenário educacional e assim buscar para o nosso país. Assim, um dos desafios da educação é inspirar, criar e recriar possibilidades de lutas contra o preconceito, a violência, a alienação, o autoritarismo, enfim uma nova ressignificação da atuação pedagógica para aceitar e incluir as diferenças do outro, das nossas próprias diferenças e assumir uma postura diante das diferenças produzidas ao longo da História da Humanidade.

GESTÃO E CARREIRA

LÁ DE CASA

O home office é uma alternativa para conciliar maternidade e carreira. Mas tocar os negócios da sala de jantar requer cuidados específicos

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Trabalhar em casa era algo que não passava pela cabeça de Nathana Lacerda, de 34 anos. Fundadora, há 15 anos, da Sigma Six, empresa especializada em construção de imagem e reputação, de segunda a sexta ela se arrumava para ir até a sede do escritório, a 15 minutos de sua casa, no bairro Padre Bento, em Itu, a 100 quilômetros de São Paulo. Lá, passava de 7 a 9 horas diárias. “Nunca havia pensado em home office, achava que isso era para quem estava começando”, diz Nathana. Mas tudo mudou há dois anos, quando ela deu à luz a seu primeiro filho, Bento. Após a maternidade, a empreendedora se deu conta de que sua antiga rotina não funcionava. “Vivia correndo para cima e para baixo, era um caos”, diz. Da desorganização surgiu a necessidade de otimizar o tempo, e Nathana chegou à conclusão de que trabalhar remotamente diminuiria a correria. “Percebi que poderia fazer meu trabalho de qualquer lugar.” Mas o começo não foi fácil. No primeiro dia, ela chorou muito. “Era como se estivesse abrindo mão de minha segurança. Ir para um local trabalhar gera uma sensação de estabilidade.” Nos dias seguintes, porém, notou que antes vivia em um ritmo impossível de aguentar por muito tempo. “Perdia horas e energia nos deslocamentos. Hoje, almoço com calma, ao lado do meu filho. Com o pai e a mãe mais tempo em casa, Bento está mais tranquilo. E a mudança de comportamento dele me ajudou a entender que tomei a decisão certa.”

Assim como Nathana, muitas mães encontram no home office uma solução possível para conciliar a carreira e o cuidado com os filhos. Tanto que uma pesquisa feita pelas autoras Patrícia Travassos e Ana Claudia Konichi para o livro Minha Mãe É um Negócio (Saraiva, 29,90 reais) mostra que 58% das mães tocam suas empresas de dentro de casa. “O home office é o trabalho em domicílio moderno, que sempre existiu. Trabalhar de casa tem sido uma estratégia para mulheres com filhos pequenos e vontade de exercer de uma forma específica sua maternidade”, aponta Bárbara Castro, socióloga e professora da Unicamp. “Além disso, é preciso levar em conta o preço alto dos berçários e escolas e a ausência de universalidade de creches públicas para deixar a criança. Estar em casa é uma maneira de conseguir prover cuidado, já que o Estado não o faz e os serviços privados não cabem no orçamento.”

PÉS NO CHÃO

Mas é preciso tomar cuidado com a glamourização desse estilo de trabalho. É comum que a mulher que faz home office se sinta sobrecarregada, somando funções domésticas às atribuições profissionais. Isso porque, na cultura brasileira, ainda se acredita que cuidar da casa seja uma função feminina. “A inclusão das mulheres no mercado de trabalho ficou mais forte a partir da segunda metade do século passado. Entretanto, as tarefas de cuidado nunca foram redistribuídas. E, mesmo trabalhando, as mulheres continuavam com a responsabilidade do cuidado de filhos, idosos e casa, enquanto homens permaneciam na posição de provedores oficiais, sem responsabilidades domésticas”, explica Regina Madalozzo, professora e pesquisadora do Insper. Tanto é que as mulheres trabalham 20,9 horas por semana em afazeres domésticos e no cuidado de pessoas, quase o dobro das 10,8 horas dedicadas pelos homens. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2017 (Pnad Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018.

E no home office isso fica evidente. A socióloga Bárbara Castro fez uma pesquisa qualitativa com cerca de 70 pessoas que trabalham em casa, entre homens e mulheres, e constatou que o comportamento é bem diferente entre os dois sexos. “Elas ficam no centro da casa, geralmente na mesa de jantar, acordando mais cedo para se concentrar, observando o cuidado da babá quando podem ter uma, tendo o trabalho muito interrompido e acabam se sentindo improdutivas. Já os homens trabalham em escritório com porta fechada, para que ninguém os interrompa, e se sentem mais produtivos do que na empresa”, explica a pesquisadora.

Para que o trabalho de casa realmente funcione e seja prazeroso, compartilhar as tarefas com o companheiro ou companheira é fundamental. E atenção: não se trata de ajuda, mas de divisão real de tempo e responsabilidades. “O caminho é se posicionar. Deixar claro o que espera, mostrar quando está trabalhando em algo e não pode ser interrompida”, diz Nathana, que criou uma rotina para o home office funcionar. Ela acorda antes das 6 horas para resolver questões estratégicas e poder ficar com o filho quando ele se levanta — cuida dele das 7h30 às 13 horas. À tarde, Bento fica com os avós, e Nathana pode fazer reuniões e atender os clientes. Às 19 horas, ela busca o pequeno. “O grande desafio é manter o foco, mas me sinto muito produtiva, mesmo que trabalhe menos horas”, diz.

Outro desafio do home office é lidar com o isolamento de ficar em casa por muito tempo. Quem sentiu isso na pele foi Débora Emm, de 35 anos, criadora da empresa Inesplorato, que promove curadoria de conhecimento. Há quatro anos, quando sua companhia já estava sólida, Débora resolveu que era hora de se tornar mãe. Nasceu Adélia. Durante seis meses após dar à luz, a empreendedora ficou afastada da rotina profissional, já que a empresa de seis sócios e 22 funcionários conseguia operar sem sua presença. Aos poucos, Débora retomou a rotina. Mas não mais em São Paulo, onde morava antes da maternidade, e sim em Aruã, perto de Mogi das Cruzes, cidade do interior paulista que fica a cerca de 100 quilômetros da capital. “Sentia falta da troca que o escritório promove e, por isso, uma vez por semana vou até São Paulo”, diz. Com a viagem, Débora se sente mais produtiva e feliz.

Em casa, ela criou um espaço dedicado ao trabalho. Embora não tenha portas ou paredes, o local é respeitado por sua filha. “Ela sabe que ali existe uma barreira para não atrapalhar minha concentração. Quando me proponho a trabalhar, fico imersa, e nenhum barulho me distrai. Acho muito interessante que minha filha observe meu dia a dia e eu o dela. Ela sabe o que significa trabalho e como conviver com isso”, afirma Débora.

E AS EMPRESAS?

Existe uma triste estatística no Brasil: após dois anos de retorno da licença-maternidade, 48% das mulheres são demitidas, de acordo com uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas, que aponta ainda que a maior parte dos desligamentos ocorre sem justa causa. “Não é à toa que uma mulher no ambiente formal de trabalho se sente com medo no minuto em que se descobre grávida. Ela sabe que naquele momento o risco de ser desligada por qualquer motivo aumenta. Também sabe que, ao tentar retornar ao mercado de trabalho, encontrará dificuldade e que jamais vai competir em condições iguais fora do período considerado de risco”, diz Vivian Abukater, sócia da Maternativa, rede cujo objetivo é transformar a relação entre mães e mercado de trabalho. Ela própria foi vítima de uma demissão quando retornou de sua licença-maternidade em uma multinacional.

Por isso, muitas optam por empreender — não por vontade própria, mas como alternativa. “Boa parte das companhias não está preparada para acolher mães. E, assim, grandes talentos são perdidos, pois várias têm filho quando estão no auge de suas carreiras”, diz Luciana Cattony, da consultoria Maternidade nas Empresas. Algumas companhias, no entanto, começam a entender essa questão e passam a criar ambientes mais amigáveis às mães e que estimulem o desenvolvimento de suas funcionárias. “Já identificamos no mercado empresas que têm equidade de gênero como um valor, um contexto que facilita abordarmos a maternidade”, diz Luciana.

Ao pensar em políticas para mulheres que recentemente se tornaram mães, é necessário prover flexibilidade e acolhimento. “No grupo de países que mais incentivam a participação feminina no mercado após a maternidade, há adoção de iniciativas como licença parental mais longa (licença para o pai e a mãe, com obrigatoriedade de divisão do período entre ambos) e remunerada, jornada flexível e possibilidade de trabalho remoto”, afirma Regina Madalozzo. Creches, pré-escolas e escolas em horário integral também fazem parte do pacote.

No fundo, o que falta para que as mães optem por trabalhar como preferirem é um olhar mais receptivo, como resume Luciana: “Em um mundo regido pelo valor humano, onde se pedem ambientes acolhedores e líderes mais empáticos, não faz sentido ter de escolher entre carreira e filhos”.

MÃES EMPRESÁRIAS

Mulheres com filhos encontraram no empreendedorismo uma oportunidade para se recolocar no mercado de trabalho

***Entre os novos empreendedores — aqueles que têm negócios com até 3,5 anos

—, a maioria é mulher. Elas têm 15,4% dos empreendimentos. Os homens têm 12,6%.

***O número de mulheres que abrem empresa motivadas por uma necessidade é maior do que o de homens. Entre as novas empresárias, 48% o fazem porque precisam. Já entre os homens esse número cai para 37%.

***Apesar de elas serem mais escolarizadas, ainda ganham menos: 73% recebem até três salários mínimos, ante 59% do universo masculino.

Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2016, realizada pela parceria entre Sebrae e IBQP, e Consultoria Maternidade nas empresas

FAZENDO DAR CERTO

Rita Monte, criadora do Coaching em Grupo para Mães (CGM), dá dicas sobre home office

TEÇA SUA REDE DE APOIO

É fundamental se cercar de pessoas que possam compartilhar responsabilidades sobre a criação dos pequenos.

INVISTA EM UM COWORKING FAMILIAR

Ou coloque a criança em uma creche ou um espaço de brincar por um período. O tempo da criança é caótico. Não ache que você vai conseguir ficar com seu filho e trabalhar no mesmo ambiente.

MAXIMIZE SUA PRODUTIVIDADE

Aquele tempo de 8 horas não vai acontecer. Organize seu fluxo de trabalho para ser concentrado e intenso em 3 horas. A gente produz muito mais em pouco tempo.

PRATIQUE O AUTOCUIDADO

Para ser produtiva, você precisa de sono e lazer. Cuidar-se significa ouvir as próprias necessidades. Aprenda a dizer não aos filhos, parceiros e chefes para dizer sim às suas próprias vontades.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 6 – COMECE COM O FIM EM MENTE

Você já percebeu que a maioria dos filmes e livros românticos só se concentra no início de uma história de amor? Pense no seu filme romântico clássico favorito. (Sabemos que isso pode ser mais fácil para alguns de vocês do que para outros.) Qual é o enredo da história? Ela é marcada pela tensão emocional expressa na primeira dança romântica entre o casal? Você fica com os olhos colados na tela enquanto o filme o instiga com voltas que impedem que os pombinhos apaixonados desfrutem o tão esperado primeiro beijo? Certamente, existem adversidades temporárias – um rival, uma discussão intensa, ou um trauma inesperado – mas todos nós sabemos como tudo acabará no fim. Apesar dos problemas que ameaçavam mantê-los separados, os pombinhos sonhadores encontram uma maneira de vencer e a história se encerra com “E viveram felizes para sempre”.

Sabemos que eles viveram felizes para sempre, mas como? Um início maravilhoso é a parte mais fácil. O trabalho árduo é construir o meio e o fim da história.

É evidente que a nossa cultura tem uma obsessão distorcida sobre a maneira como as histórias de amor devem começar. Um casal pode passar horas incontáveis planejando seu casamento, mas muito pouco tempo se preparando para os anos que virão após a cerimônia. Uma noiva pode passar muitas horas procurando o vestido perfeito, enquanto dedica apenas algumas horas ao aconselhamento pré-nupcial. Consequentemente, o casal está extremamente despreparado quando o conto de fadas se desvanece e eles se veem navegando em um relacionamento real com problemas muito reais.

O dia do casamento foi feito para ser um dia cheio de esperança, beleza e celebração. Entretanto, a esperança e a beleza de longo prazo em um relacionamento se concretizam melhor quando os casais planejam seus finais felizes com o mesmo fervor que celebram seus começos. Ser felizes para sempre não é algo que acontece por acaso; é um propósito que buscamos determinadamente e construímos cuidadosamente.

Olhe em volta e localize um objeto de beleza, um objeto habilmente fabricado pela engenhosidade humana. Talvez seja uma casa, um carro ou até a cadeira onde você está sentado. Seja o que for, é uma obra artesanal realizada com extrema habilidade. O que você talvez não perceba é que esse objeto, na verdade, foi construído duas vezes: uma quando foi projetado criativamente na mente do desenhista e outra quando foi efetivamente construído. O projeto cognitivo sempre precede a construção material. A primeira montagem requer uma visão clara do resultado pretendido; a segunda emprega materiais e trabalho para realizá-lo. Tudo que construímos, quer seja tão simples como um sanduíche ou tão complexo quanto um arranha-céu, primeiro é imaginado antes de poder se materializar.

Nem sequer passaria por sua mente construir uma casa sem um projeto. Seria um verdadeiro caos! Toda linda casa começa com um projeto habilmente calculado. A casa só pode ser construída depois que o plano é esboçado, empregando-se muito trabalho árduo e os materiais corretos.

Os projetos e plantas baixas também são essenciais para determinar o custo da construção. Você se sentiria confortável construindo uma casa sem saber primeiro quanto ela lhe custaria? Jesus fez esta pergunta quando nos ensinou como deveríamos edificar nossas vidas:

Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completa-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de termina-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: “Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar”. Lucas 14:28-30

As mesmas regras que se aplicam à construção de um prédio também sem aplicam à construção de um casamento. E então, que tipo de casamento você está construindo? Você calculou o custo e está disposto a assumir o que a construção desse casamento exigirá de você?

Deus não quer que nossos casamentos terminem em dor ou vergonha. Ele não quer que desistamos antes que eles estejam concluídos. Quer o seu casamento esteja apenas começando ou esteja passando por dificuldades há anos, nunca é tarde demais para abraçar o plano de Deus. Somente Nele descobrimos a visão, as ferramentas e o poder necessários para construir casamentos que reflitam Sua grandeza. A incrível verdade é que Deus deseja que você tenha um final feliz – a construção concluída de Sua obra prima – ainda mais do que você.

Este capítulo contém verdades que o ajudarão a se preparar para planejar bem e, depois, viver bem a sua história. Compartilharemos o que fizemos no início do nosso casamento que estabeleceu um fundamento sólido capaz de resistir às tempestades da vida. E vamos equipar e comissionar vocês para criarem um plano que os leve a serem felizes para sempre. Começaremos com princípios e terminaremos com a parte prática. Este capítulo não é apenas para os recém-casados ou para os que ainda não se casaram. Veteranos no casamento, vocês também podem se beneficiar olhando o seu relacionamento sob uma nova ótica. Isso aconteceu conosco!

DEUS COMEÇA COM O FIM EM MENTE

É tolice entrar em um relacionamento de aliança sem primeiro perguntar: “Por que estamos fazendo isto e para onde estamos indo?” Toda aliança deveria ter uma visão correspondente. Veja o caso de Deus, por exemplo. Ele tinha um propósito específico em mente quando optou por fazer uma aliança com Abraão.

Por que você acha que Deus escolheu Abraão para ser o pai do Seu povo escolhido? Sempre que fazemos essa pergunta, a resposta mais comum é: “Porque Abraão tinha uma grande fé”. Embora a fé seja essencial para sermos parceiros no plano de Deus, não foi por isso que Deus escolheu Abraão. Deus o escolheu porque sabia que ele ensinaria seus descendentes a seguirem o Senhor:

Pois eu o escolhi, para que ordene aos seus filhos e aos seus descendentes que se conservem no caminho do SENHOR, fazendo o que é justo e direito, para que o SENHOR faça vir a Abraão o que lhe prometeu. Gênesis 18:19, grifo do autor

Quando Deus escolheu esse nômade sem filhos, Ele olhou além de Abraão e viu sua linhagem. Era crucial para Deus que Abraão “ordenasse a seus filhos que se conservassem no caminho do SENHOR”, porque Deus queria tecer Sua história de redenção por meio da linhagem familiar de Abraão. Ele sabia que Abraão e Sara cometeriam erros, mas também sabia que eles tinham a matéria prima certa. Sempre que Deus estabelece uma aliança conosco, Ele está pensando em termos de gerações, porque Ele já visitou o amanhã e sabe o que precisa acontecer hoje para que cheguemos até lá.

A aliança que Deus fez com Abraão se ampliou até alcançar também as nossas vidas. Por meio da fé, Abraão foi transformado de um homem sem filhos em um homem com descendentes tão numerosos quanto as estrelas. O homem que um dia fora um andarilho sem nação se tornou o pai na fé de todas as nações.

…Abraão será o pai de uma nação grande e poderosa, e por meio dele todas as nações da Terra serão abençoadas. Gênesis 18:18

Nossas vidas podem parecer diferentes da de Abraão, mas o princípio é o mesmo: Deus procura pessoas que permitam intencionalmente que Sua aliança se propague por meio delas. Sua história não se resume a apenas você e o seu cônjuge.

Só o Céu revelará o tamanho do impacto que a aliança de Deus expressa através do seu relacionamento com Ele terá. Ele deseja alcançar cada vida que passar através de você (seu legado) e toda vida que estiver dentro da sua esfera de influência. Isso significa que você precisa abraçar uma visão que não termine com você nem esteja confinada à sua compreensão limitada. A intenção de Deus com a sua história sempre incluirá as gerações que estão por vir.