PSICOLOGIA ANALÍTICA

PENSAMENTO ELETRONICO

PENSAMENTO ELETRÔNICO

Novos programas altamente sofisticados se inspiram em redes neurais humanas; pesquisadores questionam se algum dia as máquinas realmente serão capazes de raciocinar.

Quanto tempo você leva para somar 3.456.732 mais 2.245.678? Dez segundos? Nada mau – para um humano. Um computador médio, hoje, pode realizar o cálculo em 0,000000018 segundo. E quanto à sua memória? Você consegue lembrar uma lista de compra de sete itens? Talvez 20? Isso não se compara aos 125 milhões que o computador memoriza.

Por outro lado, computadores têm problemas com rostos, que nós, humanos, reconhecemos imediatamente. As máquinas não possuem criatividade para ideias inovadoras nem sentimentos ou lembranças afetivas da juventude. No entanto, avanços tecnológicos recentes estão diminuindo a diferença entre o cérebro humano e os circuitos. Na Universidade Stanford, bioengenheiros estão reproduzindo complicado processamento paralelo das redes neurais em microchips. No Instituto de Neurociências em La Jolla, Califórnia, pesquisadores construíram um robô, o Darwin VII, com uma câmera e um conjunto de mandíbulas de metal para poder interagir com o ambiente e aprender, como fazem os animais jovens. O cérebro de ratos e macacos serviu de modelo para fazer o sistema operacional do robô.

Esses projetos levantam uma questão natural: se o processamento de computadores, com o tempo, será capaz de imitar as redes neurais da Natureza, poderá o frio silício algum dia “pensar” de verdade? E como iremos julgar se ele o faz ou não? Há mais de 50 anos o matemático e filósofo britânico Alan Turing (1912-1954) inventou uma estratégia engenhosa para lidar com essa questão. A busca por essa possibilidade ensinou bastante à ciência sobre como projetar uma inteligência artificial, ao mesmo tempo que tornou mais clara a cognição humana.

Então, o que é exatamente essa capacidade elusiva que chamamos de “raciocínio”? As pessoas com frequência usam a palavra para descrever processos que envolvem consciência, entendimento e criatividade; termos que não se aplicam aos computadores – atualmente vistos como meros seguidores de instruções fornecidas por sua programação.

Em 1950, quando os microchips de silício ainda não existiam, Turing percebeu que, conforme os computadores ficassem mais espertos, a questão da inteligência artificial iria acabar surgindo. No artigo “Máquinas computacionais e inteligência”, Turing substituiu a pergunta “As máquinas podem pensar?” por “Pode uma máquina – um computador – passar no jogo da imitação?”. Isto é, pode dialogar de forma tão natural a ponto de fazer com que uma pessoa pense que seu interlocutor é humano?

Turing tirou essa ideia de um jogo no qual um dos participantes chamado de entrevistador, precisa determinar, fazendo uma série de perguntas, se uma pessoa em outra sala é homem ou mulher. Turing substituiu a pessoa na outra sala por um computador. Para passar no teste de Turing, a máquina precisaria responder qualquer pergunta do entrevistador com a competência linguística e a sofisticação de um ser humano. Ao final de seu artigo, o matemático previu que em 50 anos – ou seja, hoje – seríamos capazes de construir computadores tão bons na imitação que um entrevistador médio teria apenas 70% de chances de identificar se estava falando com um pessoa ou com uma máquina.

Até agora a previsão não se realizou. Nenhum computador pode, na verdade, passar no teste d Turing. Então, por que algo que é tão fácil para pessoas é um obstáculo tão difícil para máquinas. Para passar no teste, as máquinas teriam de demonstrar tantos tipos de competências quanto um ser humano médio possui. Mas computadores têm o que chamamos de design restrito. Sua programação permite que realize m um trabalho específico, e eles têm a base de conhecimento relevante apena para aquela tarefa. Para passar no teste de Turing o computador também precisa ter um excelente domínio da linguagem, com todas as suas peculiaridades e estranhezas. Para isso, é crucial levar e conta o contexto no qual as frases são ditas. Mas os computadores não conseguem reconhecê-lo com facilidade. A palavra ”banco”, por exemplo, pode significar um “assento” ou uma “instituição financeira” dependendo da situação em que é usada. O que torna o contexto tão importante é o fato de ele fornecer um conhecimento prévio. Como, por exemplo, se quem está fazendo a pergunta é um adulto ou uma criança, um especialista ou um leigo. Isso é útil porque reduz a quantidade de potência computacional necessária. A lógica não é suficiente para responder de forma correta questões como “Onde está o nariz de Sue, quando Sue está na casa dela?”. É preciso saber que o nariz costuma estar grudado no rosto do dono. Dizer ao computador para responder com “na casa” é insuficiente para tal pergunta. O computador pode usar a fórmula para responder do mesmo modo a pergunta “Onde está a mochila de Sue quando Sue está na casa dela?”. A resposta apropriada nesse caso seria “não sei”. A situação ficaria ainda mais complicada se Sue tivesse passado por uma cirurgia no nariz recentemente. Aqui, a resposta correta seria outra pergunta: “De que parte do nariz de Sue você está falando?”. Tentar desenvolver um software que considere cada possibilidade rapidamente leva ao que os cientistas da computação chamam de “explosão combinatória”.

O teste de Turing não deixa de ter seus críticos, no entanto. O filósofo Ned Block, da Universidade de Nova York, defende que esse jogo apenas avalia se um computador se comporta ou não de maneira idêntica a um ser humano (estamos falando apenas do comportamento verbal e cognitivo, claro). Imagine que seja possível programar um computador com todas as conversas de certa duração finita. Quando o entrevistador faz uma pergunta Q, o computador procura a conversa na qual Q ocorreu e então digita a resposta que se seguiu, A. Diante da pergunta seguinte, P, o computador procura então pela sequência, Q, A, P e digita a resposta que se seguiu nessa conversa, B. Tal computador, Block diz, teria a inteligência de uma torradeira, mas seria capaz de passar no teste de Turing.

Uma resposta ao desafio de Block é que esse problema também se aplica aos seres humanos. Deixando de lado as características físicas, toda a evidência que temos para dizer se um ser humano é capaz de pensar é o comportamento que seu pensa­ mento produz. E isso significa que nunca sabemos de fato se o nosso interlocutor está tendo uma conversa no real sentido do termo. Os filósofos chamam isso de problema das “outras mentes”.

CARACTERES CHINESES

Uma linha semelhante de discussão – o “argumento da sala chinesa” – foi desenvolvida pelo filósofo John Searle, da Universidade da Califórnia Berkeley, para mostrar que um computador pode passar no teste de Turing sem nem sequer entender o significado de qualquer das palavras que ele usa. Para ilustrar, Searle pede que imaginemos um programa para simular o entendimento da língua chinesa.

Agora suponha que você é um processador dentro do computador, trancado em uma sala (o gabinete do computador) cheia de cestos que contêm símbolos chineses (caracteres que irão aparecer na tela). Você não sabe chinês, mas recebeu um livro (software) que lhe diz como manipular os símbolos. As regras do livro não dizem o que os símbolos significam, no entanto. Quando os caracteres chineses são enviados para a sala (entrada de dados), seu trabalho é passar símbolos de volta para fora da sala (saída de dados). Para essa tarefa, você tem um conjunto extra de regras, que correspondem ao programa de simulação projetado para passar no teste de Turing. Sem que você saiba, os símbolos que entram na sala são perguntas, e aqueles que você envia para fora são respostas que perfeitamente imitam as que um falante de chinês pode dar; então, de fora da sala vai parecer que você entende chinês. Tal computador passaria no teste de Turing, mas não iria pensar de verdade.

Os computadores poderão algum dia entender o que os símbolos significam? O cientista da computação Stevan Harnad, da Universidade de Southampton, Inglaterra, acredita que sim, mas, como as pessoas, as máquinas antes de mais nada teriam de captar abstrações seu contexto, aprendendo como elas se relacionam com o mundo real externo. Aprendemos o significado de palavras por meio da ligação causal entre nós e o objeto que o símbolo representa. Entendemos a palavra “árvore” porque tivemos experiências com árvores. Harnad acredita que, para um computador compreender o significado dos símbolos que manipula, ele precisa ser equipado com um aparato sensório – uma câmera, por exemplo – de forma que possa realmente ver os objetos representados pelos símbolos. Um projeto como o pequeno Darwin VII é um passo nessa direção.

Nesse espírito, Harnad propõe uma avaliação revisada, a qual chama de teste de Turing robótico. Para merecer o rótulo de “pensante “, uma máquina deve passar no teste de Turing e estar ligada ao mundo externo. Esse acréscimo captura uma das próprias observações do matemático britânico: uma máquina deve poder “vagar pelo interior” de forma a ser capaz de “ter a chance de descobrir coisas por si mesma”. O equipamento sensório imaginado por Harnad pode proporcionar a um cientista da computação uma forma de fornecer ao computador o contexto e o conhecimento prévio necessários para passar no teste de Turing. Em vez de exigir que todos os dados relevantes sejam inseridos por força bruta, o robô aprende o que precisa saber interagindo com seu próprio ambiente.

A dúvida que fica é se o acesso sensório ao mundo externo irá, por fim, suprir um computador com entendimento verdadeiro. Mas antes que possamos responder essa questão, precisamos esperar até que uma máquina realmente passe no teste robótico sugerido por Harnad. Enquanto isso, o modelo de inteligência proposto por Turing continua a proporcionar uma importante estratégia de pesquisa para a IA.  De acordo com o filósofo James H. Moor, da Faculdade de Dartmouth, a principal força do teste é a visão que ele oferece – a de “construir uma inteligência sofisticada geral que aprende”. Isso estabelece uma meta valiosa para IAs não importando se a máquina que passa no teste de Turing é capaz de pensar como nós, com entendimento e consciência.

O CÉREBRO POR TRÁS DAS MÁQUINAS

Criado por vários amigos da família, Alan Turing (1912-1954) era uma criança brilhante e solitário. Seu intelecto independente não se encaixava nas expectativas dos professores; ele estava nos últimos lugares da classe em várias disciplinas. Compreende-se, então, que o adulto Turing tenha criado uma forma de reconhecer Inteligência – do tipo artificial – com o teste que leva o seu nome. De acordo com ele, um computador pode “pensar” se puder enganar um ser humano, levando-o a acreditar que sua conversa escrita é produzida por uma pessoa, não por uma máquina.

Quando tinha 23 anos, impressionou os colegas na Universidade de Cambridge inventando a caracterização matemática de uma máquina que iria se tornar uma das contribuições mais importantes da história da computação. A teórica máquina de Turing pode computar respostas para um problema matemático baseado num programa. Ela consiste em um dispositivo de entrada de dados, um conjunto de estados internos que correspondem a um programa e a um dispositivo de saída. Qualquer computador moderno, em essência, é uma máquina de Turing.

Sua invenção também o qualificou de maneira única para trabalhar em outra charada. Em 1938 o governo britânico o contratou para ajudar a decifrar o código da máquina Enigma alemã, que codificava mensagens secretas. Turing ajudou a desenvolver um aparelho que realmente decifrou os códigos do Enigma e, mais tarde, também aqueles da marinha alemã. A Bomba, como foi apropriadamente chamado o decodificador, era baseada em parte no conceito da máquina de Turing.

O matemat1co teve de fazer um juramento de sigilo sobre seu trabalho para o governo, um fator que pode tê-lo isolado ainda mais. Talvez a pressão resultante tenha se acrescentado ao stress que Turing sofreu quando foi julgado com homossexual e forçado a suportar injeções de estrogênio como forma de terapia. Ele se suicidou em 1954, aos 41 anos O acontecimento foi imprevisto até para aqueles que o conheciam bem. Turing sempre deu a impressão aos amigos de que estava satisfeito com a vida. Ele deixou o mundo sem nenhuma explicação nem pedido de ajuda; apenas uma maçã meio comida misturada com cianeto encontrada ao lado da cama provava ocorrido. Sua morte inesperada ilustra que os seres humanos podem ser enganados de muitas formas – felicidade também pode ser imitada de maneira bem-sucedida.

YVONNE RALLEY – Professora-assistente do departamento de filosofia da Faculdade Felician, em Lodi, Nova Jersey.

 

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

De bem com seu cérebro

DE BEM COM SEU CÉREBRO

Neurociência oferece informações preciosas sobre nove atitudes fundamentais para melhorar – e, sobretudo, manter o raciocínio e a memória ágeis por mais tempo.

Até recentemente, os estudos neuro científicos se concentraram principalmente em doenças e causas variadas de infelicidade e mal­ estar. Nos últimos anos, no entanto, uma bem-vinda extensão do enfoque levou pesquisadores a se interessar também pelo que é saudável: as maneiras de manter o cérebro funcionando com saúde, da melhor forma possível; a satisfação e as formas de alcançá-la; os mecanismos do prazer, da felicidade e seus efeitos benéficos sobre o sistema nervoso. Mais do que a ausência de mal-estar, o bem­ estar envolve um conjunto de sensações de satisfação, prazer, motivação, auto­estima, força física, relacionamento sociais benéficos, alguma independência e autonomia sobre a própria vida.

Ao começar a compreender esses processos, a neurociência hoje oferece informações preciosas sobre fatores mais importantes para encontrarmos paz e felicidade com o cérebro que temos – e, sobretudo, para mantê-las. O desafio mental constante, por exemplo, ajuda a desenvolver novas conexões neuronais e a reforçar as que estão fracas, diminuindo o risco de surgirem doenças neurológicas degenerativas ou, pelo menos, aumentar nossas chances de amenizá-las ou retardar seu aparecimento. Se por um lado é verdade que o bem-estar depende do cérebro, por outro só nos sentimos bem quando esse órgão recebe informações do corpo de que também este está em boas condições. O sistema interoceptivo – que leva informações à ínsula, região do córtex que monitora o estado fisiológico do corpo e suas expressões emocionais de prazer, surpresa, medo, alegria – dedica­ se exatamente a essa tarefa. Embora o cérebro represente apenas 2% da massa corporal, ele consome 20% da energia necessária ao longo do dia, trazida pelo sangue. O fluxo sanguíneo intenso e constante é crítico: uma redução de apenas l % é suficiente para provocar mal-estar e até desmaio. Alguns dos principais fatores de risco de acidentes vasculares são evitáveis, como o fumo, a hipertensão, o sedentarismo e o consumo excessivo de álcool. Nunca a frase “corpo são, mente sã” pareceu tão embasada cientificamente: cuidar da saúde física, de fato, faz bem à cabeça – e em médio e longo prazo significa investir na futura saúde mental. A seguir, oito atitudes que, comprovadamente, fazem bem à saúde mental e neurológica. Seu cérebro agradece a leitura.

OUVINDO EMOÇÕES

O que sentimos é resultado da capacidade do cérebro de alterar a si mesmo e ao corpo em resposta às mais variadas situações ou, às vezes, à simples visão ou memória de uma pessoa, animal ou objeto. A primeira consequência dessa transformação (de expressão, comportamento, temperatura, funcionamento de órgãos etc.) é que ficamos mais aptos a lidar com as variadas situações. Outra consequência é que as mudanças corporais nos permitem reconhecer emoções, como se fossem assinaturas.

Uma das descobertas surpreendentes da neurociência é que as emoções são fundamentais para tornarmos boas decisões. Ao contrário do que diz o senso comum, emoções não são ilógicas, o oposto da racionalidade, e sim a demonstração mais rápida da lógica fundamental do cérebro de cada um, provocadas no corpo com base nas experiências anteriores daquela pessoa. Como as estruturas cerebrais envolvidas, no sistema límbico, têm acesso privilegiado à memória de situações anteriores similares, uma resposta emocional pode ser oferecida em cada caso bem antes que elaborações racionais tenham tempo de acontecer.

Rápidas e personalizadas, as emoções representam a primeira “opinião” do cérebro sobre qualquer assunto e, desde o começo, direcionam comportamentos, fazendo-nos preferir um ou outro curso de ação, mesmo que ainda não saibamos explicar por quê. Essa rapidez, sempre baseada no “banco de dados” disponível na memória, torna possível resolver em tempo hábil questões simples que seriam proibitivamente demoradas caso todas as variáveis envolvidas fossem processadas pela razão.

PRAZER FAZ BEM

Temos no cérebro uma estrutura de cerca de 1 centímetro de diâmetro, chamada núcleo accumbens, com poderes particularmente interessantes: ela nos permite sentir prazer. Quanto mais intensa for sua ativação, maior é a sensação alcançada, que vai da leve satisfação à franca euforia. Ativar esse processo é algo simples e ao nosso alcance, que podemos fazer várias vezes por dia. Basta fazer algo que o cérebro considere que deu certo: resolver mentalmente um problema, concluir um trabalho, passar de fase no videogame, beijar pessoas amadas, comer algo de que gostamos ou ouvir uma boa música. Ao reconhecer que fomos bem-sucedidos em algo, que atendemos às expectativas ou admitirmos que somos interessantes por alguma razão, o córtex cerebral providencia uma dose de dopamina para o núcleo accumbens. Quanto mais o núcleo recebe esse neuro­transmissor, mais ativo ele fica e mais prazer nos proporciona. Os mecanismos que promovem essa sensação, porém, ainda são um mistério para a ciência. Esse prazer com o que fazemos cor retamente – proporcionado pelo accumbens e estruturas associadas a ele que formam o sistema de recompensa do cérebro – é a base neurológica da satisfação e da autoestima.

É a motivação que nos impulsiona às mais diversas realizações, quando o sistema de recompensa é precocemente ativado – e antevemos um resultado positivo. O otimismo funciona de maneira semelhante: ter atitude e expectativas positivas em relação à vida favorece a ativação antecipada do sistema de recompensa, aumenta a satisfação com os feitos alcançados, suas chances de faze r algo realmente dar certo, faz você lidar melhor com situações negativas e até melhora a resistência a doenças.

HORA DE RIR, HORA DE CHORAR

Em linhas gerais, podemos dizer que felicidade é o estado do cérebro que vê tudo dando certo: emoções positivas inibem o córtex cingulado anterior (uma espécie de centro de alarme cerebral), e provoca maior atividade elétrica no lado esquerdo do córtex frontal. sorriso, expressão mais evidente do bem-estar, aparece quando as regiões do córtex que cuida de programas motores fazem músculo zigomático e levar cantos da boca, e o orbicular dos olhos apertar levemente pálpebras; o músculo corrugado da testa (que eleva as sobrancelhas em situações de medo o espanto), relaxa. Além disso, acionado o córtex órbita-frontal que registra quando algo de bom acontece – como, por exemplo a causa do sorriso. O gesto genuíno de sorrir coincide com aumento da atividade da região frontal esquerda, associada a felicidade.

O sorriso ainda tem a vantagem de ser contagioso. Ver alguém sorrir ativa as mesmas áreas do cérebro acionadas quando nós mesmos sorrimos, incluindo as regiões corticais motoras e córtex da ínsula anterior, responsáveis pelas sensações subjetiva do corpo, como o bem-estar associado ao sorriso.

Apesar dos benefícios cerebrais da alegria, ela deve ter hora – da mesma forma que a triste uma emoção também importante e útil. Em algumas situações e tremas, como a perda de pessoas queridas, a tristeza profunda é única resposta razoável de um cérebro saudável. A depressão, ao contrário, é um estado tristeza não justificada. Com ela, também existe o estado felicidade e motivação desmedidas, exageradas, que não reflete a realidade da vida: é a euforia (mania), condição que à primeira vista parece bênção, mas rapidamente se torna maldição – e que a neurociência começa a entender como um estado de ativação exagerada do sistema de recompensa típico de transtorno bipolar.

O DESAFIO DE LIDAR COM O STRESS

Muitos dos transtornos que afligem o cérebro, como depressão e a mania, podem ser disparados em períodos de stress intenso. Isso não significa, no entanto, que o stress, por si só seja sempre um vilão. É fundamental que possamos identificar situações ameaçadoras e reagir elas de forma condizente. O stress agudo tem efeitos benéficos sobre a memória e a resposta imunológica. A resposta imediata a ele é altamente desejável, pois nos permite resolver as mais diferentes situações. O cérebro, porém, não apenas responde, mas também antecipa possíveis situações estressantes. Algumas preocupações são saudáveis, embora deflagrem uma espécie de stress antecipado, chamada de ansiedade, que pode ser percebido como indesejável. Em doses saudáveis, no entanto, essa habilidade de “preocupar-se “evita que nos coloquemos em situações problemáticas, o que é favorável – desde que nas horas certas.

A ansiedade crônica, porém, diminui a qualidade de vida ao fazer com que o cérebro “crie” seu próprio stress crônico, apontado pela neurociência hoje como o vilão da história. Por meio da produção sustentada de doses maciças de hormônios glicocorticoides no sangue, que agem diretamente sobre neurônios do cérebro, levan­do-os à morte, a resposta de stress prolongada e exagerada acaba por tomar ruim para corpo e cérebro tudo o que inicialmente era bom.

A FORÇA DOS EXERCÍCIOS

Boa a parte dos problemas de saúde mental dos idosos é causada ou agravada pela má saúde física. A troca de massa muscular por gordura, a tendência ao sedentarismo e à hipertensão comprometem o desempenho cardiovascular, o que aumenta a possibilidades de ocorrência de micro derrames e acidentes vasculares – sobretudo por causa do acúmulo de placas ateroscleróticas nas artérias, com o passar do tempo.

O exercício físico intenso também é um dos melhores estabilizadores de humor que a neurociência moderna conhece.

No final dos anos 90, a neurociência descobriu que a ação antidepressiva e estabilizadora do humor do exercício físico está relacionada a uma ação surpreendente do corpo sobre o cérebro: a capacidade de fazer com que aumente a produção de neurônios novos no hipocampo e no sistema de recompensa.

Hoje se sabe que o hipocampo, conhecido por seu papel na formação de novas memórias, também atua como a origem de um sistema de alarme que nos lembra de tarefas a cumprir e gera a ansiedade que nos chama a atenção para os deveres. Como os neurônios novos no hipocampo têm ação inibitória, funcionam como um freio que mantém sob controle a percepção do stress e a resposta a ele. Disfunções nesse sistema, como a perda do controle inibitório interno do hipocampo, causam ansiedade e aumentam a resposta ao stress.

Aqui está a importância dos ansiolíticos, substâncias capazes de aumentar diretamente a inibição dentro do hipocampo e, portanto, conter a resposta ao stress. E aqui está, também, o local de ação de todos os tratamentos com efeitos antidepressivos – incluindo o exercício físico. Os efeitos se dão através da produção de um fator de crescimento, chamado BDN F, em resposta a antidepressivos, lítio, eletrochoque – e exercício físico.

Contar com maior quantidade de neurônios no hipocampo antes de ocorrerem situações estressantes também confere uma grande vantagem ao cérebro: ele responderá de forma mais adequada (e saudável) em situações de stress crônico. O aumento de células neurais a cada dia pode até dobrar se acrescentamos o exercício físico à rotina.

DORMIR BEM E BASTANTE

O sono é fundamental para o bem-estar: é nesse momento em parar de funcionar, o cérebro descansa, reorganiza as memórias do dia – e se prepara para lidar de maneira saudável com o stress do dia seguinte. Durante a fase sem sonhos de cada noite ocorre o único período do dia em que o sistema nervoso simpático, responsável pela resposta ao stress de disponibilização de energia para a ação, é totalmente desligado. Em seu lugar, o sistema parassimpático reina sozinho sobre o corpo, permitindo que ele reduza o metabolismo e reponha suas reservas energéticas.

Já falta de sono é por si só um stress: a insônia leva à liberação de altos níveis de cortisol no sangue, o que desencadeia alterações no comportamento. Pesquisas realizadas com ratos impossibilitados de dormir mostram, por exemplo, que os animais se tornam mais agressivos. Longos períodos de vigília prejudicam a memória e a cognição.

Além disso, a relação entre o sono e a regulação da resposta ao stress faz com que a falta de sono leve a problemas de saúde associados ao stress crônico. Um estudo recente mostrou que, entre pessoas que dormem seis horas e meia por noite, aquelas com o sono fragmentado, que acordam várias vezes durante a noite, têm níveis mais altos de gordura e cortisol no sangue, e pressão arterial elevada. O problema se agrava porque a ansiedade associada ao próprio stress crônico pode levara insônia e fragmentação do sono – o que agrava a resposta crônica de stress, e toma o adormecimento ainda mais difícil. Outro estudo mostrou que a falta de sono é duplamente maléfica à capacidade do cérebro de regular a resposta ao stress, pois não só reduz a produção de neurônios novos no hipocampo como ainda aumenta a morte dos neurônios que já estão lá.

ALIMENTO PARA PENSAR MELHOR

O que comemos pode influir na maneira como raciocinamos? Pesquisas mostram que sim, já que o cérebro é o órgão mais exigente do corpo – e tem algumas necessidades dietéticas específicas. Não é de estranhar, por tanto, que mantê-lo adequadamente alimentado favoreça mecanismos cognitivos e mnemônicos. Uma providência que pode contribuir, logo cedo, para a acuidade das funções cognitivas é tomar café da manhã. Estudos revelam que deixar de lado a primeira refeição do dia reduz o desempenho intelectual.

Pesquisa desenvolvida pela nutricionista Barbara Stewart ­ Knox, professora da Universidade de Ulster, Reino Unido, e publicada em 2003, mostrou que crianças que tomam o café da manhã com bebidas gasosas e petiscos açucarados tiveram desempenho similar 20 de pessoas com 70 anos em estes de memória e atenção.

Segundo a pesquisadora, a ingestão de torradas aumentou a pontuação das crianças numa variedade de testes cognitivas, mas quando os exercícios ficaram mais complexos, os voluntários que tornaram, no café matinal, cereais com alto teor de proteínas obtiveram melhores resultados.

A despeito da polêmica que o consumo de ovos tem despertado, estudos recentes indicam que a omelete é uma escolha inteligente para o almoço se feito praticamente sem gordura, acompanhado de salada. O ovo é rico em colina, substância usada pelo organismo para produzir o neurotransmissor acetilcolina. Pesquisadores da Universidade de Boston, Estados Unidos, constataram que, quando ad­ ministrado em adultos jovens, o fármaco escopolamina, que bloqueia os receptores de acetilcolina no cérebro, reduz significativamente a capacidade de memorização de pares de palavras. Baixos níveis do neurotransmissor também estão associados à doença de Alzheimer; alguns estudos sugerem que o aumento dessa substância na dieta pode diminuir o ritmo da perda de memória relacionada à idade.

Para manter os níveis de glicose em alta, convém fazer um lanche no meio da tarde. Só tenha o cuidado de evitar asco­ midas calóricas com baixo valor nutritivo e, particularmente, guloseimas altamente processadas, como bolos, massas doces e salgadas e biscoito, que contêm ácidos graxos trans. Elas não provocam apenas acúmulo de quilos. Há três anos, durante o congresso anual da Sociedade de Neurociência em San Diego, Califórnia, foi relatado que ratos e camundongos criados com junk food para roedores tiveram dificuldade de encontrar saída em labirintos e levaram mais tempo para lembrar soluções de problemas que já tinham resolvido. Quando esses animais receberam uma droga para reduzir os níveis de triglicerídeos, seu desempenho nas tarefas de memorização melhorou.

 RECEBER E OFERECER CARINHO

O carinho tem um enorme impacto sobre o cérebro. Esse tipo particular de toque, compressão moderada e movimento lento sobre a pele, é detectado por fibras nervosas especiais, que levam a informação à ínsula. A partir daí os efeitos são distribuídos pelo cérebro: o hipotálamo diminui os níveis corporais de hormônios do stress, o lorns coeruleus reduz sua atividade e a quantidade de noradrenalina – neurotransmissor que ativa os sistemas de alerta e vigília – que ele libera sobre o cérebro. Os músculos relaxam e, ao sentir o corpo menos tenso, o cérebro também “relaxa”. Com menos stress para corpo e cérebro, aumenta a sensação de bem-estar. Com o tempo, os neurônios do hipocampo são mantidos mais saudáveis, já que sua atrofia ao longo dos anos adultos é diretamente relacionada ao stress –  incluindo a solidão.

Do ponto de vista evolutivo, a expressão física do afeto aproxima as pessoas e leva à formação de vínculos sociais e afetivos. Um simples abraço pode ser suficiente, por exemplo, para fazer o cérebro aumentar a liberação de ocitocina, hormônio que facilita a aproximação entre pessoas. Além de ter efeito tranquilizante sobre o cérebro, reduzindo o nível de alerta e ansiedade, a ocitocina reduz medos e fobias, nos torna mais confiantes, e ainda oferece uma sensação de bem-estar ao estimular o sistema de recompensa.

Ao ser acariciado o bebê reconhece a presença de um outro que o aquece, protege e alimenta. Nessa fase, o afeto “ensina” o cérebro a formar uma resposta saudável a stress. Também na vida adulta, o toque delicado é uma maneira poderosa de regular ansiedade respostas exageradas ao stress de maneira geral. Mais curioso, contudo, é que o carinho se “propaga” de uma geração para a outra. Se a criança é tratada com carinho desde o nascimento, seu cérebro alcançará uma melhor “regulagem” do sistema de resposta ao stress, o que lhe dará mais chances de se tomar mais resistente a situações que causam medo e ansiedade. E também mais possibilidades de desenvolver relacionamentos amorosos no futuro.

SOLIDÃO QUE FAZ ADOECER

Para seres sociais, como nós, ter companhia é mais do que um desejo: é uma necessidade, fundamental para o bem-estar. Curiosamente, essa necessidade não se dá tanto pela possibilidade de recebermos afeto efetivamente, e sim por sabermos que os outros estão lá, disponíveis e ao nosso alcance, mesmo que seja apenas para nos ouvir e oferecer um ombro amigo em tempos difíceis. Por isso, o isolamento prolongado costuma provocar sofrimento psíquico – e faz o corpo adoecer.

Estudos revelam que pessoas que cultivam relacionamentos conjugais harmoniosos e/ou têm amigo s íntimos adoecem menos e vivem mais do que as que têm poucos relacionamentos afetivos. O impacto positivo direto dos relacionamentos sobre o bem-estar pode estar na regulação da resposta ao stress crônico. Se considerarmos que o próprio isolamento é para o cérebro uma fonte de stress, fica fácil entender por que as pessoas socialmente isoladas têm o sistema nervoso simpático – aquele que dispara a resposta ao stress – cronicamente hiperativo. Como a resposta crônica e intensa a vivências estressantes provoca hipertensão e leva à formação de placas nas artérias, essas pessoas têm de duas a cinco vezes mais riscos de sofrer de doenças cardíacas. No que talvez seja a descoberta da neurociência de maior impacto social da década, hoje sabemos como o contato social, na forma de abraços, beijos e carinhos, garante ao cérebro que você não está sozinho no mundo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

suicídio simulação

SUICÍDIO: A SOLIDÃO DA PASSAGEM

Apesar de a morte ser um dos principais medos do ser humano, morrem hoje mais pessoas por suicídio do que nas guerras e as tentativas chegam a 10 milhões.

Tabu profundo, aquilo que ninguém quer lembrar. Desejo de não mais desejar, dilema de toda a vida. Algumas pessoas não pensam nisso e outras evitam pensar. Quantas pensam todo dia? Por tristeza, vergonha, dor, ódio, culpa ou ansiedade, a cada ano 1 milhão de pessoas em todo o planeta tiram voluntariamente a própria vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número anual de tentativas fracassadas de suicídio chegue a 10 milhões. Eis aí, a final, um comportamento tipicamente humano?

Talvez. Muitos animais são capazes de expressar tristeza, mas em geral lutam arduamente para permanecerem vivos. Dessa regra não escapa nem mesmo o lemingue, roedor do Ártico que ficou famoso em filmes de Walt Disney – como o documentário de 1958, ‘White Wildmess, sem título em português, mas que poderia ser imensidão branca – pela suposta propensão ao suicídio em massa. Na verdade, o comportamento de lançar-se coletivamente de altas falésias é um desafortunado acidente migratório na história natural da espécie, fruto de superpopulação e desconhecimento da rota. Com seres humanos não é tão simples. Morre mais gente por suicídio do que nas guerras. Uns porque almejam o paraíso pós-morte e outros porque não suportam o inferno da vida. Na maior parte dos casos, por uma angústia insuportável de existir. O que há de errado conosco?

Se nascemos e morremos sós, nada lembramos do parto, pois nessa hora a consciência está em fase de formação. Entretanto, na porta de saída, temos encontro marcado com a suprema solidão. Quando partimos rumo ao desconhecido, esperar uma vida nova causa menos ansiedade do que encarar o vazio de frente. Com ou sem expectativa de continuação, o temor da morte é o maior de todos os medos. Por isso, mesmo no sofrimento mais atroz, grande parte das pessoas se agarra à vida com unhas e dentes. O que faz o suicida é o sofrimento psíquico. No momento derradeiro, prestes a cometer o ato, pior do que estar sozinho é não ter nem a si mesmo por perto. O suicídio é uma opção, e o tratamento também. Há 100 anos, usava-se ó pio para amortecer o desespero. Atualmente, os antidepressivos se baseiam no aumento direto ou indireto dos níveis de neurotransmissores como a serotonina. Eficaz no início, a terapia farmacológica frequentemente esbarra no problema da tolerância. Doses cada vez maiores podem ser necessárias para manter um estado que não chega a ser de felicidade, mas de conformação. Nos quadros de extrema depressão, por vezes apenas a eletroconvulsoterapia consegue retirar o paciente do mundo em que tudo é triste, doloroso e frustrante.

Mas existe outro caminho, difícil e precioso, que precisa ser trilhado bem antes do precipício. Com disciplina e coragem, voltar-se para dentro. Nutrir a mente integrada ao corpo, enraizar-se no real, mergulhar no infinito íntimo e celebrar o mistério último. Cantar, dançar, meditar e criar. Sem pressa de chegar, sorver a emoção de viajar. Acompanhar-se integralmente na passagem, na presença completa de si. Deve ser melhor assim.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O cerbro do psicopata

O LOCAL DO CRIME – O CÉREBRO DO PSICOPATA

Lesões cerebrais graves ocorridas na infância podem provocar comportamento agressivo; mas é a combinação de fatores neurológicos e psicossociais que costuma ser perigosa.

Por que uma pessoa mata outra por algumas centenas de reais? O que leva pais a maltratar o próprio filho? Por que um adolescente estraga seu futuro ao agredir outro mais fraco até a invalidez, numa briga entre torcidas rivais? Noticias sobre assassinatos, maus-tratos e abuso sexual veiculadas diariamente pela mídia provocam horror e despertam questionamentos.

Quando crimes são cometidos por criminosos recorrentes que já passaram anos na prisão por delito semelhante, a opinião pública costuma reagir com mais perplexidade ainda. Será que os infratores não conseguiriam se comportar de outra maneira, mesmo que quisessem? E o que os transformou em violentos crônicos? É possível que,

Quando crianças, em vez de acolhimento e compreensão só tenham experimentado crueldade? Ou a agressividade está “em seu cérebro”?

No intuito de responder a essas e outras questões, nos últimos anos pesquisadores realizaram vários estudos longitudinais – nos quais psicólogos, psiquiatras e neurologistas acompanharam voluntários durante um longo período, desde a infância ou início da adolescência até a idade adulta. Em um trabalho, publicado por nosso grupo, apresentamos mais detalhadamente as raízes psicológicas da violência física e avaliamos resultados colhidos em vários países. Foram analisados desde brigas com socos ou pontapés, mas sem maiores consequências, até embates que provocaram lesões corporais graves e homicídios.

Concluímos que o comportamento violento nunca pode ser atribuído a uma única causa – tendência inata, patologia, ambiente desfavorável ou, experiências dolorosas. É preciso considerar a combinação de fatores de risco que se reforçam e se influenciam mutuamente. Essa descoberta traz também uma boa notícia: aparentemente, uma única variável que reforce a tendência à violência ode ser compensada por outros mecanismos positivos. Um dos maiores estudos longitudinais teve início em 1972, na Nova Zelândia. Uma equipe de psicólogos de vários países acompanha, há 34 anos, o destino de aproximadamente mil pessoas nascidas no mesmo ano na cidade de Dunedin. Os pesquisadores Terrie Moffitt e Avshalom Caspi, do inglês College de Londres, concentraram seus estudos principalmente em formas de comportamento, anti-social acompanhadas de violência física. O pequeno grupo de violentos crônicos do sexo · masculino que se revelam logo cedo apresenta características como baixa tolerância à frustração, dificuldade de em aprender regras sociais, problemas de concentração, capacidade reduzida de compreensão dos sentimentos das outras pessoas e inteligência defasada.

Entretanto, o que mais se destaca é a falta de contenção psíquica, que os faz passar do sentimento ao ato quase imediatamente. Os impulsos agressivos são deflagrados pelas emoções; ao menor sinal de provocação ficam furiosos e não conseguem medir as consequências de seus atos. Alguns relatam, por exemplo, que se sentiram ameaçados ao serem encarados por alguém –  e por isso, tiveram, de se defender. Posteriormente, muitas vezes se arrependem. Esses delinquentes crônicos costumam assumir posição de liderança em seu grupo – e sentem-se valorizados com isso, o que alimenta um círculo vicioso.

Segundo as observações, dois grupos podem ser diferenciados no maior deles, a incidência de atitudes agressivas aumenta em ritmo acelerado quando os jovens têm entre 13 e 15 anos. Nos adolescentes em geral essas tendências regridem. Uma pequena parte dos voluntários, porém, logo na infância – às vezes já por volta dos 5 anos – apresenta comportamento anti-social, que permanecem até a idade adulta. Esse grupo formado quase exclusivamente por meninos.

De fato, as pesquisas revelam que o sexo masculino é o mais importante “fator de risco” para a violência. Como comprovam estatísticas criminais no mundo inteiro, adolescentes e adultos jovens do sexo masculino são responsáveis pela maioria dos assassinatos, lesões corporais graves ou casos de violência sexual.

Esse dado, entretanto, não significa que as mulheres sejam menos agressivas. Homens tendem à violência física direta, enquanto elas recorrem à agressão dissimulada, superando de longe os garotos ao engendrar intrigas e realizar pressões psicológicas. No caso das meninas, os distúrbios de comportamento social surgem principalmente na puberdade. Aos 17 ou 18 anos, em geral eles desaparecem, provavelmente em razão das alterações hormonais típicas dessa fase.

As causas das diferenças entre homens e mulheres são variadas. Papéis sociais aprendidos por cada sexo têm sua importância. Ainda é comum ouvir, por exemplo: “Meninas não batem!”, mas: “Meninos têm de saber se defender!”. Além disso, estratégias de agressão indireta exigem “inteligência social” relativamente alta, que se desenvolve antes e mais rapidamente nas meninas. Diferenças neuropsicológicas também exercem influência nas manifestações de agressividade de ambos os sexos.

Criminosos com diversas passagens pela polícia, em geral, são pessoas com dificuldades para controlar impulsos agressivos. A análise de questionários preparados por uma equipe coordenada pelo psicólogo e neurologista Ernest S. Barrat, respondidos em 1999 por presidiários no estado americano do Texas, mostrou que os detentos frequentemente, provocavam briga com outros presos – apesar de terem de pagar por isso com condições de prisão muito mais severas. Quando os pesquisadores lhes perguntavam por que mantinham comportamentos que os prejudicavam, eles não encontravam explicação. Muitos reconheciam as desvantagens e já tinham tomado a decisão de agir com maior controle em situações semelhantes, mas nem eles mesmos acreditavam que conseguiriam se controlar.

COMO UM DEFEITO

A impulsividade de criminosos violentos crônicos parece ter como base uma predisposição cerebral. Neurologistas compararam a anatomia do cérebro desses homens à de cidadãos comuns e descobriram nas primeiras alterações fisiológicas na região frontal, mais exatamente no córtex pré-frontal e no sistema límbico.

Essas áreas estão ligadas ao surgimento, decodificação e controle das emoções. Efeitos inibidores sobre partes do sistema límbico, principalmente o hipotálamo e a amígdala, de onde vêm os impulsos agressivos são atribuídos a áreas do córtex pré-frontal. Esse pressuposto é base da ”hipótese do cérebro frontal”, segundo a qual as raízes psicobiológicas do comportamento anti-social podem ser compreendidas como um “defeito” na regulação do córtex e do sistema límbico.

Vários estudos apoiam essa interpretação. O pesquisador Jordan Grafman e seus colegas do Instituto Nacional de Saúde em Bethesda, Estados Unidos, examinaram veteranos da guerra do Vietnã que sofreram ferimentos na região do córtex pré-frontal: os ex-soldados tinham clara tendência à agressividade. É preciso considerar, porém, que esses ex combatentes viveram situações traumáticas durante o conflito, o que provavelmente também influi no funcionamento psíquico. No entanto, pacientes adultos com lesões frontais que não viveram experiências especialmente perturbadoras também costumam se comportar de forma inadequada e impulsiva, apresentando sintomas de distúrbio de personalidade anti-social. Em ambos os casos, porém, não houve nenhum indício direto de violência física fora do comum.

A situação é diferente quando o cérebro frontal já é afetado na infância. Pesquisadores coordenados pelo neurologista António Damásio, do Centro Médico da Universidade de Iowa, observaram consequências dramáticas nesse tipo de caso. Num deles, cirurgiões retiraram um tumor do cérebro frontal direito de um bebê de aproximadamente 3 meses. Quando o menino tinha 9 anos começaram a surgir problemas: era muito difícil motivá-lo na escola; ele permanecia isolado e passava o seu tempo livre exclusivamente diante da televisão ou ouvindo música. Em algumas ocasiões, ficava inexplicavelmente furioso, ameaçava e chegava a agredir fisicamente as pessoas. Interessante notar que ele cresceu em ambiente acolhedor, com pais amorosos e irmãos cujo desenvolvimento foi considerado normal.

Não se sabe se a hipótese sobre a anatomia cerebral também vale para o sexo feminino. Mulheres violentas são mais raras e, portanto, menos estudadas. De maneira geral, entre elas parece não haver conexão entre um volume reduzido da área pré-frontal e tendências patológicas, como comprovadamente existe na população masculina. Ao que tudo indica, as mulheres possuem, por natureza, controle mais efetivo dos impulsos, que falha apenas quando a função cortical é lesionada de forma prematura e maciça. Damásio descreve o caso de uma menina atropelada aos 15 meses que sofreu grave traumatismo neurológico. Até os 3 anos ela se desenvolveu normalmente. Nessa fase surgiram as primeiras demonstrações de comportamento anômalo. Os pais perceberam que a filha não tinha reação alguma a eventuais repreensões e até a punições. Mais tarde, ela passou a não respeitar nenhuma regra, na escola brigava frequentemente com professores e colegas, mentia e cometia delitos como roubo. A jovem chamava a atenção principalmente por atacar os outros. Nenhum de seus irmãos apresentava problemas de comportamento.

Outras observações que corroboram a hipótese do cérebro frontal foram feitas pelo neurologista Adrian Rainer, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles. Ele coordenou um estudo com assassinos condenados.

Recorrendo a procedimentos de imageamento como a tomografia por emissão de pósitrons (PET), os pesquisadores constataram em muitos voluntários uma atividade metabólica nas regiões frontais do cérebro mais baixa do que a encontrada na população em geral. A segunda etapa da análise, porém, demonstrou que isso só era válido para criminosos que haviam matado por afeto, ou seja, por impulso e com forte motivação emocional. Em detentos que haviam planejado o assassinato longamente, a sangue frio, o cérebro frontal parecia funcionar normalmente.

Esse resultado é plausível: por consequência de déficits no controle das emoções, criminosos impulsivos agem sem premeditação, ignorando até mesmo os riscos de serem descobertos. Já o homicida detalhista e frio precisa de um cérebro frontal intacto, pois arquitetar o crime a longo prazo demanda complexos processos de decisão. Criminosos que agem sem piedade raramente demonstram arrependimento. Para o criminoso que planeja o ato, a prioridade é não ser apanhado – o sujeito impulsivo nem pensa nisso. O estudo neurológico de criminosos violentos não descobertos é uma nova e polêmica área de pesquisa – e não apenas pela dificuldade metodológica de encontrar psicopatas em liberdade. Para obter informações confiáveis sobre seus delitos, os pesquisadores tiveram de lhes assegurar sigilo absoluto. Sendo assim, depois de passarem pelos exames tomo gráficos, os homicidas voltaram para casa, em liberdade.

PSICOPATAS MAL SUCEDIDOS

Há pouco tempo, Adrian Rainer comparou dois grupos de pessoas com distúrbio de personalidade anti-social que haviam cometido crimes graves. Integrantes de apenas um dos grupos tinham sido condenados. O pesquisador denominou os que não haviam sido descobertos como “psicopatas bem-sucedidos “, os condenados, “psicopatas malsucedidos”.

Os estudos de Rainer levaram a resultados interessantes: ao comparar a anatomia cerebral de ambos os grupos, apenas nos “malsucedidos” foi encontrada, de fato, redução significativa do volume da substância cinzenta no córtex pré-frontal. Entre os criminosos em liberdade, ela estava dentro dos padrões de normalidade.

A agressividade crônica grave, portanto, não está automaticamente relacionada a defeito no córtex pré-frontal. Parece haver pessoas que cometem atos de grande violência regularmente, apesar de seu cérebro frontal estar completamente intacto. Sendo assim, distúrbios no córtex pré-frontal estão mais relacionados ao risco de o indivíduo ser preso do que propriamente à violência potencial.

O córtex pré-frontal é apenas um dos vários centros neurológicos que compõem uma complexa rede de regulação do equilíbrio das emoções, incluindo os impulsos agressivos. Outros estudos feitos por Rainer com o mesmo grupo de criminosos indicam a participação de estruturas límbicas, como o hipocampo, na conduta psicótica: nos “criminosos malsucedidos”, o hipocampo de ambos os hemisférios cerebrais tinha tamanho diferente – assimetria que os pesquisadores associam a distúrbios surgidos no estágio inicial do desenvolvimento.

Possivelmente, essas alterações enfraqueceram a interação entre o hipocampo e a amígdala, de forma que informações relativas à emoção são processadas de maneira irregular. Se o córtex pré-frontal também falha como instância controladora, parece compreensível que surjam comportamentos verbais e físicos inadequados.

No caso dos “psicopatas bem-sucedidos” há fundamentos completamente diferentes envolvidos nas ações violentas, pois as pessoas que têm o controle de impulsos intacto cometem delitos conscientemente, de maneira calculada. Isso não comprova que esses criminosos não sofram de outras alterações cerebrais. Para tanto seria necessário examinar, por exemplo, o papel da amígdala, assim como da parte do sistema límbico que funciona como “sistema de recompensa”. As falhas no funcionamento dessas estruturas podem ser responsáveis pelo comportamento psicopata (isento de culpa e compaixão pelo sofrimento alheio), segundo outros pesquisadores, como Richard Blair, do Instituto Nacional de Saúde Mental em Bethesda.

As alterações no cérebro de criminosos podem ocorrer em nível neuroquímico. Atualmente, diversos estudos comprovam que um baixo nível de serotonina, que funciona como calmante e redutor do medo, está vinculado a comportamentos anti sociais e impulsivos. Tal associação não ocorre apenas em criminosos, mas na população de maneira geral. Porém, mais uma vez, apenas nos homens.

O hormônio sexual masculino também tem sua importância: diversos estudos do psicólogo James Dabbs, da Universidade do Estado da Geórgia, indicam a presença de níveis bastante altos de testosterona em criminosos impulsivos. Tais desvios do nível de hormônios ou das substâncias transmissoras podem ser hereditários ou surgir por influência do ambiente. Há, por exemplo, indícios de que experiências de negligência e maus-tratos na infância reduzem permanentemente os níveis de serotonina. Pesquisadores que estudam a plasticidade do cérebro, entretanto, cogitam a possibilidade de reparações, ainda que parciais, desse comprometimento.

Pelo menos entre os homens, fatores biológicos, como disposição genética e déficits orgânicos e neuroquímicos, aumentam comprovadamente o risco de comportamento violento. No entanto – com exceção de lesões graves ocorridas na infância, –  eles não levam obrigatoriamente a tal atitude. A combinação entre fatores de risco psicossociais de gravidade semelhante é que costuma ser perigosa. Isso pôde ser percebido por pesquisadores em diversos estudos. Entre esses fatores incluem-se a qualidade do relacionamento inicial entre mãe e bebê, eventuais maus-tratos e abusos sofridos na infância, negligência dos pais, rupturas e conflitos constantes na família, criminalidade de adultos próximos e pobreza extrema. O estudo de todos esses fatores é complexo, pois a maioria deles não pode ser considerada independentemente das alterações anátomo-fisiológicas.

Logo após o nascimento, já ocorre comunicação emocional íntima entre o bebê e a pessoa que desempenha a função materna (não necessariamente a mãe), conforme demonstraram vários especialistas, como o psicanalista inglês Donald Winnicott. Dificuldades no processo de interação, principalmente nos dois primeiros anos de vida, podem contribuir para a configuração de distúrbios de desenvolvimento – incluindo dificuldade de controlar os próprios impulsos, falta de empatia e capacidade reduzida de solução de conflitos.

Além disso, experiências vividas pelos pais em sua infância exercem influência sobre sua competência educativa. Enquanto alguns se apegam às próprias dores e reproduzem os modelos de abandono e agressividade que viveram quando crianças, outros se permitem reelaborar as próprias carências com generosidade, oferecendo aos filhos acolhimento amoroso e continente – assim, interrompem o ciclo vicioso de violência física e psicológica. Por outro lado, parece que, se a criança tem uma constituição cognitiva e emocional sólida, as influências negativas do ambiente em que ela vive podem ser parcialmente compensadas.

Atualmente, não se sabe por que muitos conseguem compensar até mesmo as piores experiências da infância ou lesões cerebrais, como se “consertassem” a si mesmos, enquanto tantos outros simplesmente não conseguem fazê-lo.

Essa situação leva a reflexões, pois até que ponto se pode responsabilizar um ser humano por sua constituição genética, seu desenvolvimento cerebral, sua infância traumática ou seu ambiente social com poucas oportunidades? Não teríamos de pensar assim também em relação à tendência à violência resultante de tais fatores?

Com isso, surge a pergunta: a responsabilidade sobre os próprios atos pode ser totalmente imputada a uma pessoa? Faz sentido conjecturar que um criminoso poderia ter optado contra a violência se de fato quisesse ou se tivesse tido oportunidades diferentes? A suposição de que ele seria capaz de tal escolha, apesar de todo s os condicionamentos psicobiológicos e sociais, causa grande polêmica entre psicanalistas, psicólogos, médicos, criminalistas e filósofos.

Ao mesmo tempo, não é tolerável assistir a atos criminosos impassivelmente. Afinal, se tomarmos o homem como refém de sua própria história, de sua anatomia e de seu funcionamento cerebral, correremos o risco de adotar uma postura permissiva diante da violência. Talvez, para protegermos o coletivo, seja necessário perseverarmos na prevenção – que consiste em dissuasão, acompanhamento psicoterapêutico e, em muitos casos, em reclusão.

Eticamente não se pode apoiar a ideia de simplesmente afastar do convívio social as pessoas com comportamento anormal – pois, estatisticamente, a maioria delas não se torna delinquente. Adotando essa postura, corre-se ainda o risco de disseminar a intolerância diante da diversidade. Há, porém, a possibilidade de investigação precoce dos fatores de risco – psí­quicos, físicos e sociais. Nesse terreno ainda há muito a fazer nos próximos anos, pois hoje, com todo o conhecimento e tecnologia disponíveis, nem sempre é possível diferenciar com precisão as brigas comuns de crianças pequenas de comportamentos que prenunciam tendência à violência.

IMPULSO ASSASSINO                           

O Brasil ocupa lugar de destaque entre os países mais violentos do mundo, considerando também àqueles com histórico recente de guerras (como Eslovênia, Croácia, Irlanda do Norte e Israel). As estatísticas confirmam que, em cada 100 assassinatos cometidos em território brasileiro, somente duas pessoas são presas. Nos Estados Unidos a média chega a 90%. Grande parte dos assassinos age por impulso. A maioria dessas pessoas é considerada “normal” até que cometem algum crime, num ato impulsivo. “A pessoa tem razões subjetivas que, num dado momento, lhe parecem justificadas. Muitos toma consciência da gravidade e da irreversibilidade do ato só depois d cometê-lo”, observa o psiquiatra Elias Abdalla Filho, membro da diretoria do Departamento de Psiquiatria Forense da Associação Brasileiro de Psiquiatria.

TESTOSTERONA ACUMULADA

O hormônio sexual ultrapassa a barreira hematoencefálica, se conecta a receptores no hipotálamo e na amígdala. Nos homens, a testosterona aumenta no início de competições esportivas. No vencedor, ela continua a alta por algum tempo após o final; já no perdedor, sua concentração cai rapidamente. Assim, é possível considerar que a concorrência e conflitos constantes podem alterar o nível de testosterona permanentemente.

NO BANCO DOS RÉUS

A tendência à violência impulsiva, aparentemente, se deve muitas vezes, pelo menos nos homens, a alterações no córtex pré-frontal. Este, normalmente inibe os impulsos agressivos que surgem nos centros das emoções do sistema límbico (seta azul). Por isso, segundo a “hipótese do cérebro frontal”, na região orbitofrontal do córtex está uma das principais causas da predisposição à violência. Lesões no hipocampo também podem afetar o processamento e o julgamento de informações emocionais. Alguns pesquisadores; por sua vez, supõem que as causas da violência estão relaciona das a um mau funcionamento da amígdala. Isso explicaria o destemor, a falta de empatia e a ausência de sentimento de culpa característicos de criminosos violentos. Alterações na quantidade de neurotransmissores já bastam para tirar dos eixos o controle dos impulsos e das emoções. Um papel importante é exercido, por exemplo, pela serotonina: ela é sintetizada nos núcleos dorsais da rafe. Partindo de lá, ela chega a inúmeras estruturas cerebrais (setas vermelhas), onde participa da transmissão de estímulos às sinapses.

A quantidade de serotonina no cérebro pode ser medida, por exemplo, pela concentração de um dos produtos de sua composição, o ácido hidroxiindoleacético(5-HIAA), no líquido cefalorraquidiano. Baixo nível da substância está relacionado a comportamentos anti sociais. No entanto, ainda não está claro se o efeito não é apenas indireto: uma pessoa que, devido à falta do neurotransmissor, sofre de ansiedade e se sente ameaçada, provavelmente tende à “agressão reativa”. Como se sente atacada, agride para se defender. Uma variante do gene triptofano hidroxilase, necessário para a síntese de serotonina, também pode estar ligada agressividade exagerada.

  PREVENÇÃO POSSÍVEL                        

Poucos podem afirmar, com sinceridade, que jamais tiveram impulso de matar outra pessoa. Felizmente, a maioria não passa ao ato. A prevenção pode ter início na infância, com precauções c;1parentemente simples: cuidado, atenção e ajuda profissional. Esses são os ingredientes usados para acalmar crianças entre 9 e 11 anos com características violentas, segundo a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Maria Abigail de Souza, coordenadora da pesquisa ” Intervenção psicoterapêutica em crianças agressivas no ambiente escolar”. O estudo, iniciado em 1998 e publicado no ano seguinte, mostra que, uma vez recebida a atenção desejada, os meninos tendem a se acalmar, deixando de oferecer perigo.

Ela entrevistou dezenas de dependentes químicos de 18 a 30 anos e constatou que, quando eram crianças, sofreram abusos verbais e físicos até dos próprios pais. “A criminalidade está intimamente ligada ao ambiente social, não é apenas resultado de possível carga genética”, acredita a psicóloga. Desde 1991, a pesquisadora utiliza técnicas de psicodiagnóstico – teste de Rorschach e entrevistas – no acompanhamento de crianças de comunidades carentes de São Paulo, com o objetivo de identificar os riscos aos quais estão submetidas e contorná-los por meio de atendimento psicológico.

“O trabalho é de prevenção e assistência a crianças agressivas de 8 a 12 anos, com boa capacidade intelectual e cognitiva, matriculadas em escolas públicas.” A escolha desse perfil é resultado de conclusões do estudo com dependentes químicos. Muitos deles apresentavam, na infância, as características das crianças atendidas atualmente. Pobreza, entretanto, não é fator determinante para deflagrar a violência. Segundo estimativa de pedagogos e professores, 5% dos alunos de escolas particulares do Rio de Janeiro e São Paulo têm comportamento agressivo com colegas e funcionários.

” Classe social e ambiente não são fatores determinantes para o crime. Rica ou pobre, a criança que não sente o afeto dos pais, em geral tem mais propensão à agressividade “, diz Maria Abigail. Dados de 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram ser pequena a participação de menores de 18 anos em crimes graves em São Paulo. Esses jovens respondem por apenas 1% dos homicídios dolosos (com intenção).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Psicologia da arquitetura

PSICOLOGIA DA ARQUITETURA

 Estruturas, cores, variações de luminosidade e peças de decoração influenciam estados de humor; especialistas tentam desvendar a maneira como o cérebro processa estímulos ambientais para criar espaços mais confortáveis.

Durante muitos anos, prevaleceu a ideia de que arquitetos, em geral, não planejam casas para que as pessoas se sintam bem dentro delas. Realmente, vários designers nos anos 70 viam seus projetos mais como uma obra de arte, guiando-se por prioridades estéticas. Não era esperado que os futuros moradores interferissem no processo de criação. Essa visão, entretanto, tem se modificado. A pergunta sobre o que torna um espaço realmente aconchegante, porém, ainda não foi totalmente respondida. No início dos anos 80, a psicologia da arquitetura dava seus primeiros passos, mas sabia-se muito pouco sobre como os ambientes influenciavam as pessoas. Nos anos 90, resultado da doutrina chinesa do feng shui, misturada às ideias new-age chamaram a atenção de muita gente: mesas de jantar quadradas foram substituídas por redondas, plantas com folhas pontiagudas foram banidas dos corredores, e irregularidades na planta das casas terminaram resolvidas com espelhos. Foi nessa época, também que as paredes ganharam cores.

No Brasil, embora os conhecimentos de psicologia ainda sejam pouco aplicados à arquitetura e apareçam de forma fragmentada, os olhares se tornaram mais apurados para identificar como prédios e ambientes podem ser mais adequados às necessidades humanas. Segundo o psicólogo Cary W. Evans, da Universidade de Cornell, em Ithaca, Estados Unidos, o homem moderno, habitante das grandes cidades, passa mais de 90% da vida em prédios. Com base nos conhecimentos da psicologia ambiental, Evans e sua colega, Janetta Mitchel McCoy, definiram cinco dimensões arquitetônicas que podem influenciar o bem-estar de uma pessoa: estimulação, coerência, affordance, controle e repouso. As denominações parecem abstratas, mas por trás delas há conceitos bastante compreensíveis.

A estimulação refere-se ao quão enfadonho ou instigante um ambiente pode parecer, considerando que a maioria funciona melhor em locais sem grandes excessos. Parece óbvio que uma arquitetura carregada de elementos, como cores gritantes e estampas chamativas causem desconforto; mas há outros fatores a ser considerados, como a proteção contra ruídos externos e a existência de espaço livre suficiente para cada morador, já que o grande número de interações sociais também provoca estimulação em excesso – e desconforto.

A socióloga Wendy C. Regoeczi, da Universidade Estadual de Cleveland, em Ohio, observou, em 2003, que a proximidade espacial não leva as pessoas a um convívio mais íntimo, mas sim à retração ou a comportamentos agressivos, e esse efeito pode ser mais pronunciado quando há alta concentração habitacional por metro quadrado.

A segunda dimensão, a coerência, reflete-se principalmente na divisão de uma construção e determina o quão facilmente nos orientamos nela. Grandes prédios onde as pessoas se perdem nos corredores são exemplos de uma arquitetura incoerente; nesse caso a solução é simples: basta adotar sistemas indicadores de caminhos. Já a luminosidade de um prédio, garantida pelas janelas que possibilitem a visão de pontos de referência externos é vantajosa. A affordance é a qualidade de um ambiente que permite aos frequentadores realizar ações com mais ou menos facilidade. Naturalmente, seu grau depende do estilo de vida dos interessados. Por exemplo, desníveis e escadas podem ser um problema para famílias com crianças pequenas, pessoas com dificuldade de locomoção ou idosos.

SEM PROTEÇÃO

O controle trata da possibilidade de modificar o espaço de forma flexível. A impossibilidade de os funcionários de uma empresa determinarem a temperatura ou a iluminação em seu local de trabalho, eleva o nível de stress. O mesmo ocorre quando não há possibilidade de isolamento (ou ao contrário, a rotina é excessivamente solitária) seja no escritório ou na própria casa, pois privacidade e interação social bem dosadas contribuem para sensação de controle sobre o meio. Um dos elementos de design mais importantes nas casas é a hierarquia espacial de intimidade; idealmente, deve haver ambientes nos quais as pessoas possam ficar sozinhas, sem serem perturbadas. Móveis que podem ser rearranjados também favorecem a sensação de controle.

“A arquitetura atual raramente satis­ faz a necessidade humana de proteção”, critica o pesquisador Riklef Rambow, do Instituto de Arquitetura e Psicologia Ambiental, em Berlim. “Hoje em dia, a proximidade dos prédios, grandes janelas frontais e cômodos de vidro estão na moda. Muitos arquitetos parecem não considerar o fato de ser desagradável quando o vizinho nos observa enquanto comemos, e ainda examina se estamos usando meias iguais”. Mesas de trabalho costumam ser posicionadas para fornecer boa visão do local e das pessoas que entram no espaço – cumprindo assim uma típica regra do feng shui. Em geral, o que nos parece espacialmente agradável satisfaz instintos humanos básicos. ”É o caso da preferência da maioria das pessoas por se sentar com as costas para a parede, que corresponde à necessidade de controle territorial”, comenta a psicóloga habitacional, Antje Flade.

Segundo Evans e McCoy, acrescentar ao ambiente objetos que remetam a elementos da natureza – como lareira, fonte de água, aquário, flores ou janela com vista para um jardim – serve ao repouso. O efeito tranquilizante desse tipo de elemento já foi comprovado. Em 1984, o diretor da Universidade de Delawar, Newark, Estados Unidos, Roger S. Ulrich, comprovou em um estudo que pacientes hospitalizados que podiam ver um parque de suas camas se recuperavam mais rapidamente e precisavam de menos analgésicos. Já os que olhavam para fachadas de casas se mostravam mais agitados e desestimulados.

Mas o que fazer se a vista da janela só dá para ruas e paredes? O pesquisador Yannick Joye, da Universidade Livre de Bruxelas, afirma que plantas, fotos de paisagens e até protetores de tela com motivos da Natureza favorecem o bem-estar. Essa influência sobre o desempenho intelectual foi mensurada. Em 2003, pesquisadoras japonesas da Universidade Doshisha, em Kyoto, submeteram 140 voluntários a um teste de criatividade e notaram que os que obtinham melhor desempenho intelectual eram os que podiam ver plantas ou tinham um vaso de plantas diante da mesa de trabalho.

Nos manuais de decoração é comum ler que “vermelho estimula o apetite”, laranja tem efeito energizante”, “verde acalma”, “amarelo provoca alegria”. É consenso que reagimos intuitivamente às cores e não é à toa que, na arquitetura, o jogo de tons e luzes é tão importante. Fazer afirmações sobre o efeito psicológico que exercem sobre as pessoas, porém, é um pouco mais complexo.

Por um lado, existem preferências relacionadas às culturas, pois as cores têm conteúdos simbólicos diferentes em cada cultura. Enquanto nos países ocidentais o preto é a cor do luto, na China, por exemplo, é o branco que simboliza a morte. Nesse país, o amarelo é a cor da realeza e da divindade, enquanto na Alemanha os marginalizados muitas vezes eram obrigados a usar amarelo (essa era a cor dos lenços de cabeça de prostitutas na Hamburgo medieval, e da estrela de Davi pregada à roupa dos judeus durante o regime nazista).

Nos anos 80, a psicóloga e socióloga Eva Heller realizou, na Alemanha, uma pesquisa com mais de 1.800 pessoas de diferentes faixas etárias, criando uma espécie de “instantâneo de ideias” associadas a determinadas cores. Aproximadamente 44% dos entrevistados vinculavam conforto à cor marrom; o mesmo porcentual classificou a cor como “fora de moda”. Independente das preferências culturais ou modismos, experiências pessoais também influenciam a forma como cada um percebe a cor: É comum as pessoas notarem, por exemplo, que o laranja parece “alegre”, pois os ônibus escolares da sua infância eram exatamente do mesmo tom, ou “odeiam o verde oliva” porque lembra um período de ditadura militar e repressão.

Assim, não surpreende que estudos sobre a influência das cores cheguem a resultados conflitantes. Várias pesquisas têm falhas metodológicas – por exemplo, quando tons de brilho e saturação claramente diferentes eram comparados entre si. Os pesquisadores Patrícia Valdez e Albert Mehrabian, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, realizaram em 1994 um experimento convincente sobre as emoções despertadas pelas cores. Eles testaram dez comprimentos de ondas, variando o brilho e o grau de saturação. Em uma ampla área percebeu-se que quanto mais clara uma cor, mais impressões positivas ela despertava. Quanto mais intensa e escura, mais crescia a tensão.

E, surpreendentemente, não foram as ondas vermelhas, mas sim as verdes amareladas que provocaram maior agitação nos observadores.

Resultados obtidos em um estudo sobreo efeito das cores sobre o espaço, feito por Heiko Hecht e Susanne Marschall, da Universidade de Mainz, corroboram as conclusões da pesquisa americana. O ponto de partida foi uma cena do filme de Ingmar Bergman, Gritos e sussurros, de 1972, que ocorre em grande parte em uma sala decorada de vermelho-sangue. Mas será que é realmente essa cor que causa no espectador sensações desconfortáveis de estreitamento espacial?

Os pesquisadores trocaram o vermelho por um amarelo com o mesmo grau de brilho e saturação. Os sujeitos que observaram a imagem tingida com a nova coloração perceberam as distâncias entre as pessoas, exatamente da mesma forma que os participantes aos quais foi apresentada a cena original. Numa comparação direta, eles também utilizaram mais frequentem ente os predicados “quente”, “agradável” e “calmante” para o quarto vermelho; já o amarelo foi classificado como “frio”, “desagradável” e “negativo”.

Em seus últimos experimentos, Hecht testou a percepção espacial associada à claridade dos tons de cor de paredes e tetos. Os voluntários olhavam para um ambiente simulado, no qual a altura e a largura, assim com a cor de paredes, teto e chão variava. Resultado surpreendente: o contraste entre o teto e a parede não teve nenhum efeito direto sobre a avaliação da altura do ambiente. Somente a clareza foi decisiva: quanto mais claro o teto, mais alto ele parecia; quanto mais suave o tom das paredes, maior a sala “ficava”.

Um dado curioso: tetos altos facilitam voos intelectuais e sob eles as pessoas têm mais ideias “livres “. Isso foi comprovado em 2007 por Joan Meyers-Levy e Rui Zhu, da Universidade de Minnesota, em Minneapolis. Os participantes da pesquisa deviam criar novas palavras por meio do rearranjo das letras. Um grupo ficava em uma sala com três metros de altura, e o outro, em um ambiente com dois metros. Os voluntários das salas mais altas montaram as palavras mais rapidamente. Além disso, comparados aos da outra equipe, eles assinalaram com maior frequência, em um questionário, os itens em que se referiam às sensações de liberdade.

MAIS LUZ, MAIS PRAZER

Assim como a cor, as condições de iluminação também exercem influência mensurável sobre as pessoas. Vários estudos comprovam que ambientes claros com muita luz natural têm efeitos positivos. Os resultados foram fornecidos por pesquisas nas quais foram comparadas intensidade de luz natural em escritórios panorâmicos, onde normalmente, apenas uma parte dos lugares está perto das janelas. Em 2007, por exemplo, os pesquisadores da Universidade Gazi, em Ankara, entrevistaram aproximadamente 100 profissionais que trabalhavam em escritórios panorâmicos: quem ficava sentado mais distante das janelas mostrou-se bem menos satisfeito e fez pior avaliação das condições de trabalho de maneira geral.

Se é possível que as lâmpadas compensem a falta de luz natural, é questionável: as características da luz artificial ainda estão muito distantes das da luz solar e, acima de tudo, elas não alcançam o grau de luminosidade adequado. Sob o ponto de vista das psicólogas Shelley McColl e Jennifer Veitch, da Universidade McGill em Montreal, essas lâmpadas não são superiores a outras fontes de luz artificial no que diz respeito aos efeitos sobre o desempenho intelectual ou a saúde.

O pesquisador lgor Knez, do Instituto Real de Tecnologia da Suécia, trabalhou nos últimos anos em vários estudos, com os efeitos da luz artificial. Ele de parou com um quadro diferenciado: a preferência individual por uma luz mais quente (avermelhada) ou uma mais fria (azulada) parece estar relacionada à idade e, talvez, ao sexo. Pessoas mais idosas sentiam-se melhor com uma iluminação mais fria, ao contrário dos jovens, e em especial as mulheres. Sob condições que as pessoas consideravam mais confortáveis, o humor e o desempenho intelectual melhoravam significativamente. Ou seja: para ter melhores condições de trabalho e produzir mais, sem tanto desgaste, cada pessoa deveria ter a possibilidade de escolher a fonte de luz, natural ou artificial, que mais o agrade e determinar o grau de luminosidade que prefere.

Apesar desses estudos isolados, o que se vê é que a maioria dos locais de trabalho ainda não é organizada com o objetivo de proporcionar bem-estar a seus ocupantes. Cabe a cada um, portanto, observar a si mesmo e usar criatividade para personalizar os espaços onde passa tantas horas de seu dia. Talvez um conselho do arquiteto alemão Günter Behnisch, nesse caso, seja bem-vindo: “Se quer conforto, arrume um gato, ou melhor, dois de uma vez!”. Por quê? Ainda não há comprovação científica, mas qualquer um que os observe é obrigado a reconhecer: em qualquer residência, esses bichinhos sempre encontram um lugar agradável e adequado para uma soneca restauradora.

O BENEFÍCIO DAS PAREDES ALTAS

Nos últimos anos, escritórios panorâmicos e lofts tornaram­ se cada vez mais frequentes. Eles deviam tornar os espaços multifuncionais, mais amplos e flexíveis. Além disso, nos ambientes de trabalho, a ausência de paredes deveria facilitar a comunicação entre os funcionários. O que os estudos mostram, porém, é que nesses ambientes as pessoas se distraem com mais frequência e sofrem mais com interrupções e ruídos das conversas de outras pessoas, toque de telefones e pelo ir e vir geral. Em 2002, pesquisadores da Universidade Calgary, no Canadá, detectaram altas taxas de stress entre empregados que haviam sido transferidos de um escritório convencional para um ambiente sem divisórias. Segundo um estudo australiano, a satisfação e o desempenho diminuem principalmente entre as pessoas que precisam realizar tarefas complexas, que exigem concentração. Já as meias-paredes ajudam a reduzir as interrupções, mas não as eliminam. De qualquer forma, quanto mais altas as paredes, mas satisfeitos se mostram os funcionários.

 CONCEITOS-CHAVE

A psicologia ambiental lida com a interação entre o homem e seu ambiente natural e com comportamentos sustentáveis. Como um ramo dessa área surgiu, na década de 60, a psicologia da arquitetura, que estuda a vivência em ambientes construídos (salas, prédios e cidades).

O psicólogo americano, Gary W. Evans, afirma que moradores das grandes cidades passam, em geral, mais de 90% da vida dentro de casas e prédios. Usando elementos da psicologia ambiental, ele definiu cinco dimensões arquitetônicas que podem influenciar o bem-estar: estimulação, coerência, affordance, controle e repouso.

Pesquisas indicam que profissionais produzem mais e melhor quando podem escolher a fonte de luz que mais as agrada (natural ou artificial) e determinar o grau de luminosidade que preferem.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A agitação dos sentimentos

A AGITAÇÃO DOS SENTIMENTOS

 É comum que, em suas obras, autores apresentem personagens e até mesmo sociedades fictícias em que as emoções foram banidas em nome dos benefícios   da racionalização e da ordem. No cinema, por exemplo, o garotinho-androide David, interpretado por Haley Joel Osment, de A.I. – Inteligência Artificial, o robô­ mordomo Andrew, vivido por Robin Williams em O homem Bicentenário, e os replicantes de Blade Runner têm na “humanização” seu trunfo e perdição os sentimentos representam uma espécie de infração que os Jaz cultivar desejos e enfrentar a dor do sentir. Já Dr. Spock, do clássico seriado Jornada nas estrelas, parece conviver bem com o excesso de lógica, muito raramente contaminado por uma nesga de afetividade. Talvez, no caso do tripulante da Enterprise, a maior rebeldia não seja exatamente dele, mas esteja na história do encontro de seus pais, um vulcano e uma terráquea que, a despeito do abismo entre ambos, os dois têm um filho juntos. Nos episódios, com frequência ele se espanta com as reações emocionais humanas e se pergunta o que de fato significam.

E certamente ele não é o único. Definida pelo Dicionário Houaiss da língua portuguesa como “agitação de sentimentos”, na vida real a emoção tem sido estudada por filósofos, psicólogos e neurocientistas. Falar delas, entretanto, não é fácil. Como escreveu Fernando Pessoa, em Caracterização individual dos heterônimos, “toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois não se dá nela. Toda a emoção verdadeira tem, portanto, uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente”. Mas é esse desafio que tomam para si os autores dos artigos sobre o tema no especial deste mês.

Vale ressaltar que não há emoções “boas” ou “más” em essência, embora seja comum o uso do termo “positivo” para designar sentimentos prazerosos como alegria e bom humor e “negativo” para raiva, tristeza ou nojo. O certo é que o efeito que causam em nós depende fundamentalmente da forma como lidamos com o que sentimos. E, quaisquer que sejam as formas como as denominamos, o que seria de nós, humanos, sem as emoções? Não falo nem de sua importância para a sobrevivência da espécie. Mas de algo até bem mais superficial. A final, que graça teria a vida sem o frio na barriga do susto, sem a explosão de alegria que sentimos ao receber aquele tão almejado “sim”, sem a possibilidade de nos comovermos com a dor de quem amamos ou de nos emocionarmos com as desventuras da protagonista no escuro do cinema? Por vetes, podemos até considerar que, talvez, não nos emocionarmos nos pouparia de muitos contratempos. Mas certamente a vida seria bem menos interessante…

GESTÃO E CARREIRA

homem-de-negocios

NEGÓCIO FECHADO

Aprenda a aperfeiçoar sua habilidade de negociação e consiga melhores resultados mesmo durante a crise econômica.

No ano passado, empregados e empreendedores tiveram de se virar para fazer boas entregas. Com a crise e menos recursos disponíveis, essa tarefa não foi fácil. Foi preciso desenvolver, na prática, a habilidade de negociação – para definir prioridades com a chefia, convencer a equipe a trabalhar com prazos menores e persuadir parceiros da necessidade de reduzir preços.

Melhorar essa habilidade é possível.

Mas, antes de tudo, é preciso entender que uma boa negociação não se limita a ganhar ou perder. Negociar bem consiste, na verdade, em chegar a um acordo que seja interessante para as duas partes – o famoso ganha-ganha, uma teoria defendida por um dos nomes mais representativos das táticas de negociação nas empresas, o antropólogo americano William Ury. Autor de Como chegar mais com você mesmo, fundador do programa de negociação da Escola de Direito de Harvard e responsável por intermediaçôes difíceis- como a saída de Abílio Diniz da presidência do Grupo Pão de Açúcar -, ele defende que negociar é desenvolver qualquer comunicação Interpessoal de mão dupla, na tentativa de chegar a um acordo”. Isso é importante não por bondade, mas porque um pacto que não satisfaça às duas partes não se sustenta.

“Atender aos dois lados não significa que devo ter a mesma coisa que você, e sim que teremos nossos interesses atendidos”, diz Simone Simon, autora do livro Faça Ser Fácil, e professora na Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo.

Limites e necessidades

Claro que há negociações e negociações. Uma pechincha com o feirante é um acordo pontual em que um dos lados vai ganhar. Mas, no mundo corporativo, é importante buscar uma relação que beneficie a todos, em maior ou menor grau. “Em uma crise, as pessoas tendem a defender apenas sua parte, mas temos de sair do paradigma de querer ganhar a qualquer custo, diz Eliana Outra, master coach do International Coach Federation, do Rio de Janeiro.

Antes de iniciar a negociação, estabeleça quais são seus limites para ver até onde é possível fazer concessões e ter a noção exata sobre sua margem de manobra, o que ajuda a criar uma argumentação mais convincente. Além disso, fique atento aos limites do parceiro para notar até onde dá para pressionar. “Negociadores amadores começam pelo objeto da negociação; negociadores profissionais começam pelo relacionamento”, diz Simone.

E lembre-se de que uma proposta recusada não significa, necessariamente, o término da negociação. A questão não é que o outro lado não queira fazer negócio, mas sim, que aquela pessoa tem outras necessidades. Para entender as prioridades de seu interlocutor, procure desenvolver laços de credibilidade. Segundo uma pesquisa feita por Simone com 664 alunos do curso de MBA da FGV (com cargos que vão de coordenação a presidência), 67% dos entrevistados acreditam que os acordos foram melhores quando feitos com pessoas em quem confiavam. “Com uma confiança desenvolvida, você consegue encarar a negativa de maneira racional e tenta construir uma resposta positiva” diz Simone.

Foi por entender as necessidades do outro lado que Rogério Oliveira, de 41anos, diretor comercial da Frooty, fabricante de produtos à base de açaí, de São Paulo, conseguiu pensar em boas soluções para melhorar a visibilidadedos produtos nos principais pontos de venda. “A rentabilidade é o mais importante para os varejistas, então notei que tinha de criar um plano para mostrar a eles os ganhos que teriam se abrissem mais fileiras para nossa marca”, diz Rogério. Seguindo essa lógica, ele ainda conseguiu convencer os clientes da necessidade de reajustar o preço dos produtos por causa da diminuição da produção de açaí no país. “Por mais que o mercado mostre que a inflação existe e que

ninguém está subindo o preço para ter lucro, mas para não sofrer prejuízo, o comprador poderia não aceitar o reajuste “, afirma Rogério. Com essas estratégias, a empresa conseguiu crescer 32% no ultimo ano.

Atenção aos sinais

O que o executivo fez foi uma boa leitura do ambiente em que estava inserido. Essa habilidade é mais um pilar para negociações bem sucedidas. “Se você apresenta a ideia e o outro tem uma expressão facial diferente, já dá para perceber se poderá continuar naquela linha ou não “, diz Tatiane Nascimento, especialista em desenvolvimento, de São Paulo. Para isso, vale ser curioso, fazer perguntas específicas e ouvir as necessidades alheias – desde que essa escuta seja atenta. “Ouça mais do que fale”, diz Gabriel Almeida, gerente da Talentos, consultoria de recrutamento, de São Paulo. Essa estratégia aumenta o grau de empatia porque ajuda a encontrar os pontos que você e seu interlocutor teem em comum. Ter essa postura em momentos de crise, quando todos estamos pressionados e receosos em perder, é essencial. Caso contrário, a negociação pode travar porque você enxerga o outro como oponente, e não como parceiro.

É preciso, ainda, ter controle emocional. Não vale entrar em uma negociação acreditando totalmente que o resultado será positivo ou negativo, o que pode embaçar seu raciocínio. E, se acontecer algum descontrole, pense sobre o que o levou a perder as estribeiras. “Anote como se sentiu para entender o porquê e, assim, impeder que aquilo ocorra de novo”, diz Gabriel. Outro erro a ser evitado é levar o resultado de um acordo para o lado pessoal. “Não há o que negociar se não há um impasse, por isso é preciso saber separar as pessoas do problema”, diz Simone.

Uma situação em que é importante unir empatia e inteligência emocional é durante uma demissão – principalmente quando você é o mensageiro da má notícia. Ricardo Blandy, de 34 anos, vice-presidente da Nexsteppe, empresa que comercializa sementes de sorgo, de Campinas, passou por isso ao ter de cortar 35% da equipe no ano passado. “Eu me coloquei no lugar dos funcionários, porque foi muito difícil demitir por causa da crise”, diz. “Traçamos uma estratégia para não deixar as pessoas na mão, com auxílio para recolocação e manutenção de beneficios, como plano de saude.” Assim, embora a situação tenha sido difícil, o executivo conseguiu manter o controle e a serenidade. “Esses profissionais fizeram muito pela empresa”, afirma. Ricardo ainda teve de negociar o valor do aluguel do escritório da companhia. “Expliquei a situação e passamos para um contrato mais barato, diz. Com esses acordos, a companhia prevê um aumento de 20% a 50%nas vendas em 2017, e novas contratações. Uma prova de que, negociando, é Possível passar bem pela crise.

 

AS VANTAGENS DE NEGOCIAR

Mais espaços: os profissionais que negociam são bem vistos pelos empregadores como capazes de solucionar situaçõesdifíceis e ganham mais atenção do mercado.

Todos saem ganhando: Quando você escuta o outro lado e promove um crescimento colaborativo, tem a chance de conseguir resultados superiors ao esperado.

Parcerias de longo prazo: Estar aberto a ouvir e interpretar os sinais alheios aumenta a simpatia dos outros em relação a você e cria parcerias duradouras.

Diminui as despesas:  Ao renegociar o aluguel e os custos com fornecedores, os gastos da empresa podem diminuir consideravelmente – algo essencial na crise.

Raciocínio mais rápido: Pensar em soluções para transformer o não” em “sim” amplia sua capacidade de raciocínio e sua flexibilidade.