GESTÃO E CARREIRA

As feras da Savana do Silício

AS FERAS DA SAVANA DO SILÍCIO

Novos negócios em alguns países africanos chamam a atenção de investidores e gigantes de tecnologia. Todos vão à caça de ideias para enfrentar grandes problemas (e algumas servem para o Brasil).

 Pela Rodovia Mombasa, uma das principais do Leste Africano, os carros avançam devagar. O trânsito é lento o tempo todo. Perto da Land Rover blindada, transporte-padrão dos estrangeiros que vêm trabalhar no Quênia, segue um matatu, ônibus multicolorido que roda sobre velhos chassis de caminhão. A estrada corta a capital, Nairóbi. Vacas e cabras pastam no acostamento largo de terra batida e o esgoto segue a céu aberto por longos trechos. Muita gente caminha ao longo da estrada e o comércio de rua oferece quase tudo, de sofás, camas e fogões a lápides de cemitério. Alguns comerciantes, a pé, arriscam-se pelos vãos do trânsito para incentivar a compra. Gritam em swahili (o idioma oficial do país, junto com o inglês) ou em algum dos 43 dialetos locais. Conforme o carro se aproxima de um bairro elevado no centro da cidade, a paisagem começa a mudar.

A Land Rover avança por Upper Hill, onde se vê menos gente caminhando, mais árvores e muito mais obras em andamento. A área já foi mais residencial e abrigou principalmente brancos, executivos expatriados e diplomatas. Agora, o bairro se transforma. Operários e máquinas de construtoras chinesas duplicam vias e levantam novos edifícios comerciais. A demanda por espaço multiplicou por seis o preço do metro quadrado na área desde 2010. Upper Hill vem acomodando escritórios de companhias estrangeiras, investidores e pequenas empresas de base tecnológica. É o bairro da moda para quenianos e estrangeiros bem formados que querem criar novos negócios. Em comum, tentam resolver problemas locais – e enriquecer ao fazer isso. Tudo bem pedagógico para quem vive no Brasil. Os problemas e as oportunidades soam familiares: territórios extensos e pouco povoados, que exigem investimento em cobertura de telecomunicações e internet; lacunas sérias e potencial imenso para inovações em transporte, energia, saneamento, habitação, agronegócio; grande população jovem, pobre e mal instruída, porém culturalmente inventiva, receptiva a tecnologia e ansiosa por consumir. Para completar, o Quênia, especificamente, passa por um período que combina instabilidade política (emperrada por defeitos velhos) e efervescência empreendedora (acelerada por ideias novas). Quem chega do Brasil pode se sentir meio em casa.

No sexto andar de um desses novos edifícios envidraçados, o Senteu Plaza, fica o iHub, mistura de coworking e incubadora. É peça-chave para Nairóbi merecer o apelido de Savana do Silício. Tem fama de ambiente de inovação mais produtivo da África. Em sete anos de existência, abrigou 170 startups e gerou uma rede que conecta 17 mil profissionais. Começou em 2010, como projeto social de um grupo de jovens quenianos que queriam um espaço para trabalhar e discutir ideias. Operou graças a doações de fundações e empresários, como o francês Pierre Omidyar, fundador do eBay. Nessa fase, o iHub ajudava a treinar programadores e oferecia gratuitamente espaço a quem precisasse de internet rápida para montar seu negócio (sem fins lucrativos, o espaço também havia acumulado dívidas e gerado acusações de gestão ruim contra seus administradores). Em dezembro de 2017, o perfil mudou.

O iHub recebeu aporte de US$ 2 milhões da Invested Development, gestora de recursos dos Estados Unidos que investe exclusivamente em projetos de países em desenvolvimento, e tornou-se ele próprio um negócio com fins lucrativos.

Com o novo estatuto, seus gestores esperam acelerar a linha de produção de startups. “Estávamos recebendo mais de 200 pedidos por mês de gente querendo usar o espaço. Não dava para atender todo mundo apenas com doações”, diz Njoki Gichinga, diretora de parcerias do iHub, enquanto mostra as novas instalações. A infraestrutura para as empresas incubadas se espalha por 7 mil metros quadrados recém-inaugurados, decorados com tubulação hidráulica e elétrica expostas, paredes de tijolo aparente e luminárias em diferentes alturas. “Agora, temos estrutura muito melhor e condições de cumprir nossa missão – ser um polo de tecnologia para a África, reunindo gente com diferentes perfis, do mundo todo”, diz Njoki.

A comunidade de profissionais ligados à inovação ganha força em vários países africanos. Os setores em que trabalham seguem uma dinâmica particular, na contramão dos negócios tradicionais no continente. Nos últimos anos, caiu o fluxo de capital estrangeiro para a África. Isso ocorreu, entre outros motivos, por causa do fim do ciclo de valorização das mercadorias básicas, por volta de 2010 (o Quênia, por exemplo, exporta muito café e petróleo) e pela desaceleração da economia da China – um fenômeno que também afetou o Brasil. A comunidade tem outra história para contar, bem mais interessante.

Conforme secou o dinheiro para setores tradicionais, fluiu o investimento para nichos criativos. Só em 2016, startups africanas levantaram US$ 367 milhões, na estimativa da gestora Partech Ventures – valor quase dez vezes superior ao registrado quatro anos antes. O simples surgimento desse tipo de estimativa mostra uma mudança no jeito de avaliar a região. “Há tanta dificuldade [na África] de as pessoas terem acesso a serviços básicos, a produtividade é tão baixa, que as possibilidades de melhoria são inúmeras”, diz Miguel Granier, diretor-geral do Invested Development, o fundo que apostou no iHub e colocou US$ 20 milhões no continente. “Nos negócios, esses desafios se traduzem em ganhos exponenciais. Os riscos são altos, mas as perspectivas de lucro, gigantescas.”

Se os valores envolvidos parecem pequenos para os padrões do Vale do Silício, bastam para fazer florescer startups em países pobres. África do Sul e Nigéria, as maiores economias da África subsaariana, também têm cena empreendedora vibrante e costumam abocanhar, junto com o Quênia, as maiores fatias de capital vindo de fora do continente (numa rodada de investimento em 2015, a empresa de varejo online e de entregas Jumia, fundada na Nigéria por Tunde Kehinde e Raphael Afaedor, foi avaliada em mais de US$ 1 bilhão e tornou-se o primeiro unicórnio da África, bem antes de o Brasil ter o seu, o aplicativo de táxis 99). O exemplo do iHub fez surgir incubadoras em outras cidades quenianas, como a SwahiliBox, em Mombasa, e a Dlab Hub, em Eldoret. Unem-se a um ecossistema que inclui Wennovation e Co-Creation Hub, em Lagos, na Nigéria, blueMoon, em Adis-Abeba, na Etiópia, e Bandwidth Barn, na Cidade do Cabo, África do Sul. Não se trata de euforia local. Há consistência, percebida mundo afora.

Em dezembro, durante um encontro em Adis-Abeba, na Etiópia, Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou as inovações que vêm da África e ressaltou a importância de cultivar as iniciativas na região. “Além de ser uma oportunidade sem paralelo para a geração de empregos aos mais jovens, a inovação é uma forma eficiente de reduzir o hiato de infraestrutura do continente”, disse Christine. Ela destacou que a tecnologia “molda a África de agora” e que, com os investimentos corretos, “poderá ser a ferramenta mais poderosa para fortalecer a África do futuro”.

O FMI acompanha o Banco Mundial, que escolheu startups como um meio relativamente barato de fomentar o desenvolvimento na região. Em dezembro, por meio do infoDev, um programa que visa organizar e expandir negócios locais ligados à tecnologia, o banco selecionou 20 empresas (de 900 inscritas) para receber até US$ 1,5 milhão em investimentos de um grupo de sete fundos. “O total de inscrições e a qualidade dos casos apresentados são uma mostra de como as startups africanas podem ser competitivas e importantes para o crescimento da economia”, disse Klaus Tilmes, diretor de mercado e competitividade do Banco Mundial, durante a premiação. Destacaram-se fintechs, agritechs e empresas dedicadas a saúde e transportes. Uma nova rodada do infoDev deve acontecer em breve.

É preciso sempre dosar as expectativas, ao avaliar bons momentos em países subdesenvolvidos. Essas nações, com instituições e economias frágeis, costumam cambalear. No caso da África, estamos tratando do continente mais pobre do mundo, acossado por doença, violência, radicalismo e instabilidade política. Entre quenianos, há um debate público bem vivo – será que o ímpeto inovador pode perder o fôlego? É bem possível, dado o histórico de vaivéns comum em países emergentes. Basta lembrar a diferença entre o Brasil eufórico dos anos 2000 e a crise atual. Mas, por enquanto, os quenianos podem celebrar. O país avança há três anos seguidos no ranking Doing Business, do Banco Mundial, que mede a facilidade para fazer negócios. Depois de perder posições, entre 2008 e 2013, o Quênia voltou a avançar e subiu da 129ª para a 80ª posição (ultrapassando o Brasil, que está em 125º). O bom momento, por enquanto, faz as histórias inspiradoras proliferarem mais rapidamente que as previsões pessimistas.

Casos de diferentes dimensões agitam a cena local. No ano passado, após receber investimento de US$ 4 milhões, a BRCK, do engenheiro e empreendedor Erik Hersman, lançou um roteador wi-fi à prova d’água e que se alimenta de energia solar. O equipamento ultrarresistente, projetado para uso em localidades isoladas na África, oferece até cem conexões de internet e consegue sustentar streaming de vídeo para 50 dispositivos no entorno. Sua em- presa já havia lançado um kit educativo que inclui tablets resistentes e com baixo consumo de energia. Os produtos receberam cobertura elogiosa da mídia, na Europa e nos Estados Unidos. Hersman é um dos integrantes da turma original de criadores do iHub e passou a infância entre Quênia e Sudão. Subindo os degraus da pirâmide de investimentos, encontram-se casos como o da plataforma B2B de comércio de alimentos Twiga Foods, criada por Peter Njonjo, que captou US$ 10,3 milhões em 2017, e o da M-Kopa Solar, que no ano passado foi apontada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, como uma das 50 startups mais inovadoras do mundo. A empresa criou um dispositivo de fornecimento pré-pago de energia solar, com manutenção baratíssima, após captar US$ 33 milhões em investimento, em 2015. A M-Kopa foi fundada por três executivos – os ingleses Chad Larson e Nick Hughes, com o canadense Jesse Moore – que haviam trabalhado por anos no Quênia, com telecomunicações e finanças, e decidiram empreender. Se o Quênia dispara startups em série, na Nigéria parece haver outra gigante em gestação, no rastro do unicórnio Jumia.

Trata-se da empresa de e-commerce Fashpa, fundada pela ex-executiva Honey Ogundeyi. Depois de viver anos na Europa, onde trabalhou em companhias como McKinsey, Ericsson e Google, Honey decidiu criar algo que ela mesma gostaria de ter encontrado quando voltou à Nigéria, em 2015 – um canal para compra de roupas online. Partiu de uma ideia simples e a incrementou, com análise de dados detalhada de suas potenciais consumidoras. Em vez de simples- mente revender peças, a Fashpa reuniu artesãs para fabricá-las, depois que Honey descobriu que valeria a pena trabalhar com design exclusivo e inspirado em peças tradicionais. “Logo, logo, teremos mais um unicórnio”, anuncia ela em seu blog, acompanhado por centenas de africanas.

As oportunidades vistas pelos empreendedores nativos não escapam do radar de companhias globais. Elas veem na África duas possibilidades atraentes – a primeira, a expansão de negócios num ritmo impensável em mercados maduros e mesmo na China (a África abriga seis das 12 economias que mais cresceram no mundo de 2014 a 2017, segundo o Banco Mundial); a segunda, um campo de testes de condições extremas para experimentar produtos e serviços.

Por isso o governo chinês apresentou no ano passado uma estratégia de investimento de US$ 60 bilhões no continente. Em 2017, a China superou os Estados Unidos como maior investidor na África, pelos cálculos do jornal britânico Financial Times. Apenas uma fração desse dinheiro vai para empreendimentos de base tecnológica. Mesmo assim, a dinâmica desses negócios parece ser mais benéfica aos africanos do que se pensava anteriormente. A consultoria McKinsey fez uma pesquisa de campo, no ano passado, em oito países africanos. Avaliou a atuação de companhias chinesas de diversos setores, como as fabricantes de equipamentos de telecomunicações Huawei e de celulares Tecno. Concluiu que, na maioria dos casos, elas geram empregos de boa qualidade para africanos, inclusive em cargos de gestão, e que há transferência de tecnologia. Trata-se de uma versão distinta da apresentada pelos que viam o avanço da China apenas como uma nova onda colonialista.

Os mesmos fatores que atraem os chineses levam Microsoft, IBM, Google e Facebook, entre outras, a ter planos ambiciosos por lá. As quatro ajudaram o iHub no início e continuam a fazer parte do ecossistema – mas agora como parceiras de negócios em vez de doadoras. “Elas usam o iHub para prospectar novas oportunidades ou profissionais capacitados para alguns de seus empreendimentos pelo continente”, diz Njoki. Mark Zuckerberg visitou o espaço de co-working em 2016, ainda nas antigas instalações. Saiu de lá falando bem. “É inspirador ver como os engenheiros estão conseguindo criar soluções para ajudar a comunidade”, disse. Em outra parada, na Nigéria, país mais populoso da África, concluiu: “É aqui que o futuro será construído”.

O discurso tem tido resultados práticos. No ano passado, a Microsoft apresentou seu projeto de abrir, em 2018, seus dois primeiros data centers no continente, na Cidade do Cabo e em Johannesburgo, na África do Sul. Facebook e Google anunciaram planos independentes para instalar redes de fibra ótica – respectivamente, 800 quilômetros em Uganda, em parceria com as operadoras locais Airtel e BCS, e mil quilômetros em Gana (o Google já havia instalado outros mil quilômetros em Uganda). As duas empresas avaliam estratégias mais mirabolantes de oferecer cobertura de internet a grandes áreas com custo menor – já falaram em usar drones e balões. Enquanto avaliam essas possibilidades, porém, movimentam-se de forma pragmática, conectando cidades importantes com a boa e velha fibra ótica.

Ao mesmo tempo, a IBM cria um banco de dados sem igual a respeito de uso da água e recursos naturais por tribos no norte do Quênia. O trabalho é conduzido a partir de um centro de inovação em Nairóbi, com coordenação do cientista Jonathan Lenchner, que se instalou na cidade em 2016. Ele foi um dos responsáveis pelas demonstrações públicas da capacidade da inteligência artificial Watson e continua a usar IA em seu trabalho na África. Sua equipe em Nairóbi inclui a engenheira americana Aysha Walcott-Bryant. Parte da rotina dela é sair a campo em busca de dados sobre malária. “O maior desafio é convencer enfermeiras, agentes de saúde pública e a população em geral sobre a importância de preservar informações”, diz Aysha. “Ainda não há aplicação comercial para o que fazemos aqui”, diz Lenchner. “Mas a partir desse trabalho temos subsídios para muitas inovações.” Outra equipe, num centro de inovação similar, em Johannesburgo, África do Sul, estuda políticas de saúde e urbanismo. Os laboratórios da IBM na África produziram, em poucos anos, 22 patentes.

É nas micro finanças, porém, que a África subsaariana se mostra o maior front de experiências do mundo. A região abriga um décimo do total global de assinantes de telefonia móvel e segue com a maior taxa de crescimento no mundo, 6,5% ao ano, segundo a consultoria GSMA. Até 2020, haverá quase 1 bilhão de telefones, metade deles smartphones. O acesso a redes 4G, hoje ainda raro, deverá chegar a quase metade da população. A difusão de serviços móveis tem efeitos mensuráveis em bem-estar e crescimento econômico. Com 250 mil habitantes, Kawangware forma uma das maiores favelas de Nairóbi. As habitações são erguidas com placas de ferro, papelão ou barro. Não há rede de esgoto e o índice de violência é altíssimo. Os desafios para tocar um negócio ali são imensos. Mãe solteira, com duas filhas, Edi Mgaiga, de 33 anos, herdou do pai uma barraca, uma duka, em uma esquina. As dukas, geralmente informais, vendem frutas, vegetais, peixe seco, sabão em barra e arroz à comunidade local. Até pouco tempo, todo dia, antes de abrir a barraca, Edi tinha de fazer longas caminhadas até um kaskazi (espécie de atacadão) para comprar as mercadorias. Voltava com quilos de produtos nas costas, sob o risco de ser assaltada. “A violência é muito complicada por aqui”, conta Edi. “Tinha medo de pedir para minhas filhas fazerem isso. Mas o tempo que gastava para ir e vir do kaskazi era um tempo que eu deixava de vender. Ganhava menos.”

Recentemente, Edi descobriu o Kionect, um sistema que permite a pequenos comerciantes pedir e pagar por pedidos de produtos usando o celular. Agora, logo pela manhã, ela aciona o aplicativo, escolhe o que vai querer e em 20 minutos recebe um motoqueiro com suas mercadorias. “Estou achando uma maravilha”, diz Edi. Criado por iniciativa da Mastercard em parceria com uma startup especializada em micro finanças, a Musoni, o Kionect já atende a mais de mil dukas das regiões mais pobres de Nairóbi. “Foi um grande desafio desenvolver um produto viável economicamente e que pudesse ao mesmo tempo atender a população mais carente do país”, afirma Michael Elliott, vice-presidente da Mastercard para inclusão financeira. “Mas com essa experiência abrimos oportunidades para oferecer esse tipo de solução a vários outros mercados emergentes.” Iniciativas como o Kionect ajudam a fazer do Quênia uma referência mundial em meios de pagamento digitais. O caminho começou a ser traçado em 2007, quando a Safaricom, subsidiária da Vodafone e maior operadora do Quênia, lançou o M-Pesa. O serviço foi o primeiro do mundo a oferecer a comerciantes e clientes a possibilidade de pagar contas usando um aparelho de telefone, e contribuiu de forma decisiva para a inclusão financeira do país. Um estudo do MIT apontou que, simplesmente por ter acesso ao M-Pesa, 2% dos domicílios quenianos foram retirados da pobreza entre 2008 e 2014. Também graças ao M-Pesa o Quênia surgiu pela primeira vez no mapa das grandes empresas de tecnologia, e a África passou a se destacar como um bom destino para investimentos no setor. A alta conectividade (mesmo que por redes 2G e 3G) desempenha hoje um papel fundamental no desenvolvimento social e econômico da África e é a principal plataforma para inovação em vários países. Não se pode dizer quanto vai durar bom momento, mas há algo em construção – multiplica-se rapidamente o número de ícones locais do empreendedorismo. “A inovação vem do conhecimento, geralmente é um processo que pode ser construído sobre experiências anteriores”, diz Kamal Bhattacharya CIO da operadora queniana Safaricom. Atual presidente do conselho de administração do iHub e mentor de várias startups africanas, Bhattacharya conta que ele próprio passou de incrédulo a entusiasta do movimento de inovação. “No começo, quando vi aqueles jovens em pufes coloridos, tomando café gratuito e discutindo aleatoriamente um monte de ideias, duvidei do que estava acontecendo”, diz. “Hoje, posso afirmar: não há time mais engajado para promover mudanças.”

Da varanda do iHub, Njoki aponta para a vista. “Não é bom estar aqui?”, pergunta. Ela mesma res- ponde: “Os ventos estão favoráveis. Havia espaço para evoluir e estamos abraçando essa possibilidade com todas as nossas forças”.

 As feras da Savana do Silício3

 

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

Influência do ambiente sobre a percepção

INFLUÊNCIA DO AMBIENTE SOBRE A PERCEPÇÃO

Psicólogos da Universidade Yale tentam descobrir como características dos lugares que frequentamos nos afetam; cientistas já constataram, por exemplo, que cômodos abafados e lotados costumam deixar as pessoas mais tensas.

 Muitos pesquisadores costumam torcer o nariz para assuntos como canais energéticos e cristais. Alguns chegam a admitir que embora não endossem essas práticas, preferem aguardar comprovações para se pronunciarem. Há, porém, prática não comprovada cientificamente – pelo menos por enquanto que desafiam os estudiosos. É o caso, por exemplo, do feng shui, a antiga arte chinesa da ambientação, baseada na crença de que o espaço, a distância e a disposição dos objetos podem afetar as emoções e a sensação de bem-estar. Pessoalmente, a ideia faz sentido para muita gente que se sente mais equilibrada psicologicamente em alguns espaços que em outros, embora não saiba por quê. Alguns pesquisadores já admitem a conexão entre o espaço físico, o pensamento e a emoção, considerando que nossos vínculos, muitas vezes, se misturam à percepção da geografia espacial.

Dois psicólogos da Universidade Yale, nos Estados Unidos, decidiram explorar o poder dessa habilidade em laboratório, para verificar se a influência emocional de um espaço ordenado e aberto é diferente do efeito causado por um ambiente fechado e apertado. Lawrence E. Williams e John A. Bargh investigaram o tema em uma série de experimentos. As pesquisas começaram com o chamado estímulo subliminar, usado para criar uma atitude ou sensação inconsciente. Foi empregada uma técnica simples e eficaz: as pessoas deviam dispor dois pontos em um gráfico, como em um pedaço de papel diagramado. Em alguns casos, as marcações estavam bem próximas, enquanto em outros os pontos apareciam em lugares distantes. Sabe-se que o exercício estimula a percepção inconsciente de espaço congestionado ou amplo.

Em seguida, os pesquisadores testaram os voluntários de outras formas. Em um dos procedimentos, por exemplo, os participantes deviam ler um trecho embaraçoso de um livro e, logo após, eram indagados se a passagem era agradável ou divertida e se gostariam de ler mais sobre o gênero. Williams e Bargh queriam determinar se o senso de distância ou liberdade psicológica podia anular o desconforto emocional. Foi exatamente isso que ocorreu. Os voluntários estimulados pelo ambiente espaçoso se mostraram menos perturbados pela experiência embaraçosa, considerando-a mais agradável do que aqueles que tiveram percepção mais opressiva do mundo.

Os psicólogos realizaram outra versão do mesmo experimento, na qual o trecho do livro era extremamente violento e não embaraçoso. Os resultados foram similares. Os participantes estimulados pelo espaço fechado consideraram os eventos violentos muito mais repugnantes, assim como achamos um acidente aéreo em nossa vizinhança mais perturbador que outro que ocorre a milhares de quilômetros de nós. Williams e Bargh acreditam que essa tendência está ligada às conexões do cérebro entre distância e segurança, um hábito mental que provavelmente evoluiu para ajudar nossos ancestrais a sobreviver em condições precárias.

COMIDA CALÓRICA

Os psicólogos também tentaram explorar mais diretamente a relação entre distância psicológica e perigo real. Os participantes deviam avaliar a quantidade de calorias contidas em alimentos saudáveis e em junk food. Os estudiosos conjeturaram que as calorias da batata frita e do chocolate seriam avaliadas como uma ameaça à saúde, diferentemente das calorias contidas no arroz integral e no iogurte; raciocinaram ainda que as pessoas estimuladas pelo espaço fechado seriam mais sensíveis à ameaça. A pesquisa confirmou essas expectativas: participantes levados a se sentir confinados e em espaços abarrotados avaliaram que havia mais calorias na junk food do que as estimuladas a se sentir livres e em espaços abertos. Quanto à comida saudável, a percepção dos dois grupos foi idêntica.

Publicada na Psychological Science, a pesquisa pareceu convincente. Mas Williams e Bargh decidiram realizar mais um experimento que abordasse diretamente a questão da segurança pessoal. Os pesquisadores perguntaram aos voluntários sobre a força de seus vínculos emocionais com os pais, irmãos e a cidade natal, verificando que os expostos a maior distância psicológica relataram elos frouxos com esses importantes esteios emocionais. Ou seja: a proximidade física revelou também maior ligação emocional. O notável é que tudo se dá de forma inconsciente: a distância espacial entre dois objetos arbitrários tem, aparentemente, força suficiente para ativar um símbolo abstrato de proximidade e segurança no cérebro, que, por sua vez, tem energia suficiente para moldar nossas respostas ao mundo.

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 300

GESTÃO E CARREIRA

A revolução na educação executiva

A REVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO EXECUTIVA

Escolas de negócio tradicionais viram seus currículos do avesso para se manter relevantes em um mundo onde já é possível aprender (quase) tudo pela internet. Enquanto isso, as nascidas na era digital crescem e multiplicam seus lucros – e discípulos. Aonde vai dar a nova corrida pelo conhecimento.

Na era pré-smartphone – e lá se vai pouco mais de uma década –, tudo parecia mais fácil. A estrada rumo ao topo da pirâmide era sinalizada por meia dúzia de escolas de grife, cursos de línguas estrangeiras e temporadas no exterior. Para um trainee, a diferença entre o descarte do currículo e um telefonema do RH para a ambicionada entrevista poderia estar no inglês fluente e na chancela de “uma boa faculdade”. A fim de escapar do cruel funil das empresas, pais aconselhavam filhos a prestar concursos públicos (garantia de estabilidade) ou a se tornar profissionais liberais (garantia de prestígio). Sonhos de consumo, medicina, engenharia e direito garantiam status ad infinitum. Para quem se decidia por carreiras executivas, por vocação ou falta de alternativa, a saída era chegar “por baixo” à selva corporativa, coma certeza de que a promoção dependeria de outros fatores. Para a diretoria, um diploma de MBA sempre contou pontos decisivos. Melhor ainda se viesse com o brasão das top 10 do ranking do Financial Times. Harvard e Insead arrancavam suspiros de pares, recrutadores e chefias. Estudantes não tinham dúvida alguma sobre o retorno sobre o investimento, de tempo e dinheiro, a curto, médio e longo prazos. Conquistas escolares, portanto, exerciam efeito calmante na trajetória profissional, sustentavam cargos e mantinham a ordem e o progresso do lucrativo mercado de educação executiva.

Grosso modo, esse roteiro funcionou por décadas como o alarme do bedel (ok, vale um Google aqui). Agora, contudo, despontam inequívocos sinais de esgotamento. Em um momento de previsões nefastas sobre o futuro do trabalho e o progressivo desaparecimento dos empregos (800 milhões até 2030, segundo os cálculos da McKinsey) e de profissões tal qual as conhecemos hoje por conta do avanço da tecnologia, as garantias simplesmente aca-ba-ram. Para escolas, estudantes e empresas. A estrada deixou de ser linear e cedeu lugar ao sinuoso espectro das angústias. O escritor Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, capturou esse novo estado de ânimo: “Nem todos vão conseguir se reinventar. Até 2050 veremos o surgimento de uma nova classe, a dos inúteis”, escreveu, em artigo publicado no The Guardian e lido por milhões de usuários únicos na internet. Em um país como o Brasil, em que a taxa média de desemprego anual atingiu 12,7%, a maior da série histórica do IBGE, as apocalípticas palavras de Yuval atingem volume mais alto. O fantasma não é só o desemprego – e sim a completa inutilidade. E ronda cada escalão da vida corporativa. “O problema é que o modelo de educação tradicional foi construído segundo a lógica industrial. E isso não funciona mais”, pondera Pascal Finette, chefe do programa de empreendedorismo e inovação aberta da Singularity University (SU)

A SU foi fundada há dez anos, por Peter Diamandis e Ray Kurzweil, no auge da crise financeira internacional, e logo se tornou referência no ensino de inovação e tecnologia. Instalada no Vale do Silício, tem como investidores empresas como Google, Cisco e Nokia. O indiano Salim Ismail, ex-CEO da SU, ajudou a fazer a fama internacional da escola ao escrever o best-seller Organizações Exponenciais, em 2014. O lançamento foi sucedido por um boom de popularidade. No livro, ele fala sobre a competição entre empresas em um mundo que muda em altíssima velocidade – e em que concorrentes (leia se startups) podem devorar uma corporação antes mesmo desta se dar conta da existência deles. Sua mensagem central, de tom otimista, é que uma empresa pode multiplicar seu crescimento por dez com mudanças de gestão e tecnologia. Por isso, precisam de líderes que saibam fazê-las. No campus da SU, os alunos aprendem a pensar exponencialmente

em soluções para os grandes problemas da humanidade – e não necessariamente nos consumidores dos produtos da sua empresa. É com essa proposta, humanista, mas de forte viés tecnológico, focada em cursos curtos e corpo docente que muda a cada temporada, que a SU tem atraído a elite corporativa global para o seu campus, instalado numa base de pesquisa da Nasa. Dezenas de brasileiros, a exemplo de Rodrigo Galvão, presidente da Oracle no Brasil, e Paula Bellizia, da Microsoft, já foram para lá ao custo de pequenas fortunas. Uma semana sai por US$ 14,5 mil. Os brasileiros, aliás, têm se tornado público cativo e, hoje, respondem por cerca de 20% da clientela. Não à toa, atraiu a atenção de grupos como HSM (o braço de educação executiva da Anima) e Mirach, de Porto Alegre, fundado por um dos embaixadores da SU, Francisco Milagres. Juntos, eles vão realizar o SU Global Summit, em São Paulo, em abril deste ano. O evento consumiu US$ 1 milhão em investimentos. “A Singularity é uma escola muito especial. Atrai os líderes porque tem um propósito claro: usar a tecnologia para gerar impacto na vida de milhões de pessoas”, diz o CEO da HSM, Guilherme Soárez, fazendo coro ao que é frequentemente dito por Diamandis.

No Brasil, a SU conta com seis embaixadores, em São Paulo, Recife, Brasília, Porto Alegre, Uberlândia e Belo Horizonte. “Durante uma semana, aprendi mais do que em um ano inteiro”, diz Conrado Schlochauer, ex-aluno da escola e, agora, o seu embaixador paulista. Por lá, as disciplinas que pautam o programa acadêmico são bem diferentes das encontradas nas tradicionais escolas de negócio: neurociências, genética, inteligência artificial, cyber segurança. Ex-CEO do LinkedIn no Brasil, Osvaldo Barbosa diz ter voltado da SU com a cabeça bem mais aberta. “Saí com conhecimentos sobre aspectos do setor de tecnologia que nunca tinha reparado antes, ainda que tenha dedicado toda a minha carreira à área”, afirma ele, que voltou ao Brasil para estruturar um fundo de investimento em startups. A Singularity também subverte a ideia clássica que temos a respeito de um professor, e recruta biomédicos, hackers, gerontologistas e astronautas, com uma quedinha por empreendedores. Todos são entusiastas do que vem por aí, desde que façamos a nossa parte. Em um trecho do documentário The University, que conta a história da escola, o ex-astronauta e professor de robótica da SU, Dan Barry, diz: “Você está preocupado, achando que os robôs vão dominar o mundo? Se você sair da sala e trancá-los, 99% deles não vão conseguir sair. Vão bater na porta até ficar sem bateria”. Mas alerta. “Não se esqueça de que eles têm potencial.” O lançamento dos cursos da SU no Brasil, no fim do ano passado, foi feito à boca pequena, mas lotou o auditório da IBM em uma noite quente de dezembro, em São Paulo. Na plateia, formada pela “galera exponencial” de potenciais interessados, como diziam os organizadores, estava o executivo Jean Saghaard, 44 anos, que há um ano procura recolocação. Com experiência no mercado financeiro e no de educação, além de um MBA da HEC, de Paris, na bagagem, Jean explica o que o atraiu. “A Singularity goza das mesmas vantagens de uma startup. Foi criada com um modelo voltado para o futuro. Nas escolas tradicionais, a inovação acaba sendo incremental. O currículo não muda na velocidade necessária. Por isso, fico muito mais tentado a estudar lá que reprisar um MBA”, afirma Jean. Ele acabou de fazer um curso de Digital Product Leadership, com a duração de dois meses, no Tera, uma edtech (como são chamadas as novas startups de educação) com um cardápio de cursos inteiramente voltado para novas habilidades digitais. Fundada pelo empreendedor Leandro Herrera, 32 anos, a Tera aposta em um novo modelo para ensinar “habilidades do século 21” para seus alunos. Um dos mais populares é o Boot Camp, em que o aluno desenvolve competências em pouco tempo e de forma bastante pragmática: o formato atende quem tem por objetivo encontrar emprego em novas carreiras. Dois exemplos: cientista de dados e designer de experiência do usuário (UX). “Você não vai achar um programador com MBA em negócios. Um MBA para designer UX faz zero diferença. O mercado de tecnologia não olha para títulos, e sim para capacidade de entrega”, diz Herrera, que fundou há pouco mais de um ano a escola, que está, segundo ele, em franca expansão. Na mesma praia está a Gama Academy, de Guilherme Junqueira, 29 anos. Sua startup só atua sob demanda de empresas que não estão conseguindo encontrar os profissionais certos no mercado. “O mundo andou mais rápido que as escolas normais, e as empresas não conseguem achar pessoas com o perfil que precisam. É aí que eu entro”, diz Junqueira. Depois de ser reconhecido como o melhor professor da pós-graduação do Insper, uma das escolas de negócio mais prestigiadas do Brasil, Liao Yu Chieh, 41 anos, também decidiu fundar a sua própria edtech, a Idea9, plataforma de treinamento corporativo. Funciona como um Netflix empresarial. A diferença é que tanto empresas quanto alunos pagam pelo acesso aos conteúdos. “Vi que existia um gap no mercado para habilidades específicas, e que as universidades não teriam condições de oferecer os cursos na velocidade que os executivos precisam”, diz Liao, que já colocou módulos inteiros no WhatsApp.

Uma outra modalidade de ensino que tem crescido substancialmente são os MOOCs, ou massive open online courses (veja quadro na pág. 64). Nesse caso, os cursos são oferecidos em plataformas online, de forma gratuita ou a baixo custo. É o caso da Coursera, da edX (fruto de uma parceria entre MIT e Harvard) e da Udacity. Navegar pelo menu de ofertas dessas plataformas é uma experiência interessante. Os temas que desfilam na tela são bitcoin, python, ciências de dados… Destaque para uma diferença fundamental: é o próprio aluno quem monta o roteiro de aprendizado, e não a escola. “O objetivo é oferecer flexibilidade e personalização”, diz o CEO da edX, Anant Agarwal. Ao final, o aluno não recebe um só diploma, válido para a vida inteira, e sim um “nanodegree”. A intenção é que os estudantes colecionem tantos micro certificados quanto forem necessários ao longo de sua carreira.

Responsabilizar os alunos, e não somente os professores, pelo aprendizado, é a pegada da Hyper Island, da Suécia (veja entrevista exclusiva com a CEO, Sofia Wingren, na pág. 70), que ganhou o honroso apelido de Harvard Digital. Aqui, contudo, o foco não são habilidades técnicas, e sim os chamados soft skills, como a capacidade de adaptação mencionada por Finette no início desta reportagem. A Hyper chegou ao Brasil há quatro anos. Não tem sede física (exceto na Suécia, Reino Unido e Cingapura), professores fixos ou grades curriculares. Oferece workshops, consultoria e as chamadas máster classes, que duram não mais de três dias e têm por público-alvo executivos de alto escalão de diferentes indústrias. Seus instrutores não são celebridades do mundo acadêmico. Podem muito bem ser mágicos, performers e até crianças. As aulas são sempre diferentes, uma “experiência”. “Nós entendemos que 50% do conhecimento está entre os próprios alunos. E os ensinamos a fazer as perguntas certas”, diz a guatemalteca Nathalie Trutmann, diretora-executiva da Hyper Island para a América Latina. Apesar da curta duração, os cursos de três dias chegam a custar mais de US$ 3mil. “A experiência que oferecemos é um produto de luxo”, diz Nathalie, que tem em sua lista de clientes empresas como Itaú, Bayer, Gerdau e Philips. Dona ela mesma de um MBA no Insead, Nathalie explica que os executivos chegam pautados pela urgência da “transformação digital”. “O C-Level vem até nós em busca da realidade prática, e não de teoria”, diz. A abordagem tem dado certo: só no ano passado, a escola viu o interesse dos brasileiros dobrar. Mais de 2 mil executivos passaram por seus treinamentos. Entre eles, Enzo Devoto, vice-presidente de marketing para a América Latina da Unilever, entusiasta do método. “A Hyper é o melhor parceiro para te ajudar a hackear o seu negócio e ter sucesso em um mundo volátil”, diz Enzo, usando um verbo moderninho. Faz alusão à sigla VUCA, usada para descrever a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) dos tempos atuais.

Assim como a Hyper Island, a Berlin School of Creative Leadership começou fazendo sucesso entre a turma da economia criativa antes de conquistar alunos de outras indústrias. No Brasil desde o início de 2017, a escola alemã foi fundada em 2006 por um grupo de executivos que se diziam cansados da “tirania da mediocridade”. Entre eles, o publicitário Michael Conrad. Neste ano, a escola deve colocar em prática o conceito de Co-Teaching, em que empreendedores digitais trocam conhecimento com profissionais criativos. “Aprender é um processo de interação”, afirma a CEO, Susann Schronen. O MBA da Berlin School custa ¤ 55 mil.

Um ativo importante embutido no preço de todas essas escolas é a potencial rede de contatos formada pelo aluno durante as “experiências”. Não importa apenas o que você está aprendendo, mas com quem está aprendendo. Uma grande sacada é misturar profissionais de diferentes indústrias, até então acostumados a conviver somente em seus silos. Ao colocá-los em um mesmo barco para viver experiências “memoráveis”, são construídos laços profissionais mais fortes. Com todo mundo junto e misturado, forma-se uma comunidade que, em certa medida, aplaca a angústia trazida pelo VUCA.

A startup Knowledge Exchange Sessions (KES) foi idealizada justamente para tocar nesse nervo, explicam os sócios-fundadores Maria Juliana Giraldo e Ricardo Al Makul, ambos sem experiência prévia em educação, mas muita em marketing. “A essência da nossa proposta é a troca de conhecimento entre os próprios alunos”, afirma Maria, enquanto celebra o terceiro ano de vida da empresa. “Até ontem, isso era um ppt”, brinca, em meio a dezenas de executivos, de CEOs a conselheiros de empresas, que pagaram R$ 22 mil (combo válido para duas pessoas) pelo “trek” de seis palestras, incluindo a de Finette. No terraço, enquanto esperam que o guru comece a falar sobre startups, eles trocam cartões e aproveitam a farta mesa do café da manhã. Garçons servem espumante; à mesa, há frutas, doces, diversos tipos de pães e até um panetone gigante, intocado. Além das palestras com “figurões digitais”, o cardápio inclui viagens para o Vale do Silício e Tel-Aviv, ao custo de US$ 6 mil per capita. “Estamos dando certo porque não ficamos presos aos modelos engessados das escolas de negócios”, diz Makul. No começo deste mês, mais um grupo partiu rumo ao Vale – entre eles, Arthur Grynbaum, CEO de O Boticário. Um alto executivo que preferiu não se identificar baixou a voz e cochichou para a reportagem: “Se eu não aprender nada, pelo menos aumento as chances de emprego”.

 A revolução da educação executiva 2

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 Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Na cabeça de quem voltou da morte

EQM – NA CABEÇA DE QUEM VOLTOU DA MORTE  

O fenômeno fascina leigos com relatos da visão do próprio corpo observado do teto, imagens de túneis que levam à luz e o encontro com parentes e amigos já falecidos. Para psicólogos, médicos e neurocientistas, esse estado de consciência tão específico, relatado por pessoas em todo o planeta, pode revelar informações importantes sobre o funcionamento do cérebro e da mente.

Em 1943, Georgie Ritchie escreveu o livro Voltar do amanhã (Nórdica, 1980), no qual conta que, quando era um jovem soldado, foi convocado para se apresentar num batalhão cuja sede ficava no meio do deserto. Durante vários dias foi açoitado por uma tempestade de areia e contraiu pneumonia, numa época em que ainda não havia antibióticos. Após um período de febre intensa e violentas dores no peito, foi declarado morto e colocado num pequeno cubículo, envolvido por lençóis. Um enfermeiro, porém, convenceu o médico de plantão a aplicar uma injeção de adrenalina no coração do jovem soldado. Depois de ter estado “morto” durante nove minutos, Ritchie recobrou a consciência, para grande espanto de todos, e confessou que durante esse tempo viveu uma experiência intensa, da qual se lembrava perfeitamente bem.

No início ele evitava falar sobre o assunto, pois temia a opinião alheia. Mais tarde escreveu o livro sobre o que lhe aconteceu naqueles nove minutos. Posteriormente, formou-se em medicina e fez residência em psiquiatria. Tornou-se professor e passou a evocar sua experiência durante as aulas. Um desses futuros médicos, Raymond Moody, ficou de tal forma intrigado com o relato de Ritchie que começou a pesquisar o que poderia se passar com os pacientes durante situações críticas. Em 1975, Moody publicou A vida depois da vida (Butterfly Editora, 2004), na qual cunhou o termo near death experience – em português, experiência de quase morte (EQM).

Depois do relato de Moody, numerosos casos de EQM foram descritos na literatura médica. O cardiologista holandês Pin van Lommel, autor de Consciousness beyond life: the science of the near-death experience (Harper, 2010), publicou em 2001 na revista The Lancet uma série de 344 casos de EQM num estudo prospectivo em hospitais da Holanda. Van Lommel e sua equipe revisaram os prontuários e ouviram o relato desses pacientes. Foram analisados o tempo de parada cardiorrespiratória (PCR), as drogas utilizadas na reanimação e o resultado dos exames realizados no período de reanimação.

Ao publicar seu primeiro livro, em 1975, Moody descreveu os elementos característicos das EQMs, enfatizando que a maior parte das pessoas experimenta apenas alguns deles. Cada EQM é uma experiência única, vivida de forma coerente, e não como uma série de elementos distintos. A ordem em que as vivências são citadas pode variar. Há trabalhos comparativos entre os elementos descritos antes e depois de 1975. Esses estudos procuraram averiguar se a enorme publicidade dada ao livro de Moody teria influenciado o conteúdo dos relatos de EQM. Autores concluíram que os relatos são semelhantes, exceto talvez a referência ao túnel, menos frequentemente citado antes de 1975. Mas as EQMs e seus efeitos sobre as pessoas que a vivenciaram parecem ser os mesmos no mundo inteiro. Algumas poucas diferenças podem ser atribuídas à cultura. Um estudo transcultural mostra que alguns elementos, como o filme da vida do sujeito e a experiência do túnel, são menos comumente relatados pelas populações indígenas da América do Norte, da Austrália e das ilhas do Pacífico Sul.

POR QUE ISSO ACONTECE?

Várias hipóteses têm sido aventadas para explicar o fenômeno. Em 2001, o doutor em medicina Sam Parnia e seus colaboradores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, realizaram estudo prospectivo de EQMs ocorridas durante PCR. Durante um ano, eles entrevistaram sobreviventes das unidades coronariana e de emergência do Hospital Geral de Southampton. Dos 63 pacientes ouvidos, apenas sete (11%) do total relataram alguma memória do momento da reanimação, dos quais quatro preencheram os critérios para EQM (6,3%), e a citaram como agradável. Embora o estudo de Parnia não obtivesse um número de pacientes com EQM suficiente para comparações estatísticas, houve uma pequena diferença entre os grupos quanto aos níveis médios de sódio e potássio, pressão parcial de CO2 (pCO2) ou medicamentos administrados durante a parada cardíaca. Curiosamente, pessoas que passaram por EQMs tiveram pressão parcial de oxigênio no sangue arterial (pO2) duas vezes mais elevada do que no grupo de controle.

No amplo trabalho prospectivo realizado por Van Lommel, também em 2001, foram analisados 344 pacientes em dez hospitais da Holanda. Todos estiveram clinicamente mortos e foram submetidos à ressuscitação cardiorrespiratória (RCR) bem-sucedida. Do total, 62 (18%) relataram alguma recordação durante o tempo de morte clínica, 21 (6%) tiveram uma EQM superficial e 41 (12%), EQM significativa. Entre estes últimos, 23 (7%) relataram EQM profunda ou muito profunda. Van Lommel não conseguiu associar nenhuma causa psicológica, neurofisiológica ou farmacológica para explicar a experiência.

Em pesquisa publicada em 2003, o pesquisador da Universidade de Michigan Bruce Greyson, autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs, entrevistou pacientes nos primeiros seis dias de internação na unidade de tratamento cardíaco e na unidade semi-intensiva de cardiologia do Hospital da Universidade da Virgínia. Dos 1.595 incluídos na amostra, 27 (2%) preencheram os critérios para a EQM. Daqueles que relataram EQM, 41% tiveram parada cardíaca, 26%, infarto do miocárdio, 22%, angina instável e 11%, outros diagnósticos cardíacos. Dos 105 com parada cardíaca, 10% tiveram EQM; outros 81 (5%) descreveram EQM que ocorreram durante um episódio anterior que envolveu risco de vida. Greyson não encontrou nenhuma correlação entre várias medidas médicas, incluindo proximidade objetiva da morte (por exemplo, perda de sinais vitais), índice de prognóstico coronariano e classificação da função cardíaca com a incidência de EQMs. No entanto, os pacientes internados com parada cardíaca relataram, de forma enfática, mais EQMs (10%) do que os pacientes internados com outros diagnósticos cardíacos (3%).

A alteração de oxigênio e gás carbônico ocorrida durante a parada cardíaca em pacientes que tiveram EQM foi pesquisada por Klemenc-Ketis e colaboradores da Universidade de Maribor, na Eslovênia, em 2010. Eles pesquisaram medidas de pressão parcial de CO2 exalado no final da expiração (petCO2), pCO2, pO2 e níveis de sódio e de potássio séricos. Pacientes com petCO2 e pCO2 mais elevados relataram significativamente mais EQM. As pontuações das EQMs também foram positivamente correlacionadas com os níveis de pCO2 e potássio sérico. Os pacientes com pO2 mais baixo tiveram mais EQM, porém a diferença não foi expressiva.

Citado por Van Lommel, um dos mais emblemáticos casos de EQM se refere a uma jovem mulher que, operada de um aneurisma cerebral, teve uma EQM profunda na cirurgia. Durante o procedimento, seu corpo foi resfriado e foi realizada circulação extracorpórea. Ela estava sob efeito de anestesia geral, os olhos estavam cobertos por bandagens para evitar ressecamento e foram colocados tampões nos ouvidos. Apesar de não ter nenhuma atividade elétrica cortical e no tronco encefálico, a paciente passou por uma profunda EQM. Ela se surpreendeu ao ver que um médico tentava realizar algum procedimento na região de sua virilha direita e o ouviu dizer ao neurocirurgião que “não estava conseguindo…”. Seu interlocutor sugeriu então que ele que fosse para o outro lado da mesa cirúrgica. Tratava-se da canalização da artéria femoral para realizar a circulação extracorpórea. A moça havia sido informada de que sua cabeça seria aberta com uma serra, mas o que viu na mão do médico foi um objeto parecido com sua escova de dentes elétrica. Ela descreveu inúmeras situações ocorridas na sala de cirurgia – as quais, estando ela anestesiada, com o corpo resfriado, o coração parado e o cérebro inativado, jamais poderiam ter sido percebidas. A equipe cirúrgica confirmou todos os relatos, embora nenhum profissional conseguisse explicar como a jovem pôde ter acesso a todas essas informações.

A mais abrangente pesquisa sobre EQM realizada até o momento foi o estudo multicêntrico dirigido por Sam Parnia, diretor do The Human Consciousness Project, da Universidade de Southampton, o AWARE (Awareness during Resuscitation), concluído em 2008 e publicado em 2014. Durante quatro anos foram entrevistados 2.060 sobreviventes de parada cardíaca em 15 hospitais dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Todos foram submetidos a testes específicos com o propósito de identificar a incidência e a validade de relatos de consciência durante parada cardíaca. Para avaliar a precisão das alegações de percepção visual durante a parada cardíaca, cada hospital instalou entre 50 e 100 prateleiras em áreas onde a ressuscitação de paradas cardíacas era considerada provável de ocorrer. Cada prateleira continha uma imagem apenas visível acima dela. Estas imagens foram instaladas para permitir a avaliação de relatos de consciência visual.

Entre as 2.060 pessoas, 140 sobreviventes fizeram as entrevistas da fase 1, enquanto 101 dos 140 pacientes completaram a etapa 2. Do total, 46% relataram memórias com sete temas cognitivos principais: medo; animais/ plantas; luz brilhante; violência/perseguição; déjà-vu; família; recordações de eventos pós-parada cardíaca. Apenas 9% tiveram EQM e 2% descreveram a recordação explícita de ver e ouvir eventos reais relacionados à sua ressuscitação. Entre os que apresentaram EQM não houve registro de pacientes que contaram ter visto os alvos colocados nas prateleiras. O argumento para a não visualização desses objetos é que 78% das paradas cardíacas ocorreram em locais onde não havia prateleiras com alvos previamente colocados.

Os autores do estudo concluíram que os sobreviventes de parada cardíaca vivenciaram ampla gama de memórias após PCR, incluindo experiências assustadoras e persecutórias, e que tiveram momentos em que acreditavam estar conscientes. Os pesquisadores reconhecem, porém, que outros estudos são necessários para delinear o papel explícito e implícito da parada cardíaca e seu impacto na ocorrência de eventuais transtornos de estresse pós-traumático (TEPT) entre os sobreviventes.

PESSOAS CEGAS

Os doutores em psicologia Sharon Cooper, professora da Universidade de Nova York, e o professor Kennety Ring, da Universidade de Connecticut, cofundador e ex-presidente da Associação Internacional para Estudos de Quase-Morte, analisaram vários casos de pessoas cegas que relataram o fenômeno. Um dos casos é o de Vicki Umipeg, uma mulher de 43 anos, moradora do estado de Washington, que teve duas EQMs. A primeira, quando ela tinha 12 anos de idade, ocorreu em 12 de fevereiro de 1962, quando teve uma crise de apendicite e peritonite. A segunda foi quase exatamente uma década depois, na noite de 2 de fevereiro de 1973, quando foi gravemente ferida num acidente de automóvel.

Vicki nasceu prematura, com apenas 1,5 kg, na 22a semana de gestação. Como era comum ocorrer com crianças prematuras na metade do século 20, foi colocada numa incubadora para administração de oxigênio, mas houve falha na regulagem da quantidade de oxigênio e Vicki recebeu uma dose excessiva, que provocou lesão definitiva nos nervos ópticos dos dois olhos. Em razão disso, ela nunca teve experiência visual durante toda a sua vida.

Das duas EQMs, a mais vívida e detalhada foi a ocorrida aos 22 anos. No início de 1973, Vicki, trabalhava eventualmente como cantora em uma casa noturna em Seattle. Uma noite, após a apresentação, ela não conseguiu chamar um taxi para levá-la para casa. A única opção era aceitar carona do casal de patrões, embora ambos estivessem embriagados. Na viagem ocorreu um sério acidente e Vicki foi jogada para fora do veículo. Sofreu fratura de crânio e concussão cerebral, lesões no pescoço e nas costas e quebrou uma perna.

Vicki lembra-se claramente dos segundos que antecederam o acidente, mas tem lembranças nebulosas de ter estado “fora do corpo” – foi quando diz ter visto, de vislumbre, o veículo amassado. Foi nesse momento que ela afirma ter tido a sensação de que se encontrava num corpo não físico “como se fosse feito de luz”. Ela não se recorda da sua ida para o hospital na ambulância, mas, quando chegou à sala de emergência, recobrou a consciência e estava no teto do cômodo, assistindo a um médico e a uma mulher (ela não soube especificar se era médica ou enfermeira) trabalhando em seu corpo. Ela ouvia a conversa entre eles, que comentavam a ocorrência de um possível dano do tímpano e falavam do receio de que, além de cega, ela se tornasse surda. Vicki tentou desesperadamente se comunicar com eles dizendo que estava bem, mas obviamente não obteve resposta. Ela estava consciente de ver o próprio corpo abaixo dela.

Ela primeiro percebeu uma imagem muito fraca de si mesma deitada na maca de metal e estava segura de que fosse ela, embora tenha levado um momento para registrar esse fato com certeza. Em seu relato diz: “Sabia que era eu… Eu era muito magra, na época. Era muito alta e magra. E eu reconheci que era um corpo, mas nem sabia que era o meu, inicialmente. Quando eu percebi, estava no teto e pensei: ‘Isso é meio estranho. O que estou fazendo aqui em cima? ’. Em seguida pensei: “Bem, este deve ser eu, será que estou morta”? ’. Só vi esse corpo brevemente, sabia que era o meu porque eu estava fora dele. Eu estava longe dele”.

Ela relata que depois disso se viu subindo pelo teto do hospital até que alcançou do telhado do edifício. Desfrutou da vista panorâmica e sentiu-se inundada por uma intensa sensação de alegria, liberdade e movimento. Em seguida se deu conta de que ouvia uma música harmoniosa, bastante agradável, “semelhante ao som de sinos ao vento” e percebeu que estava sendo sugada pela cabeça para dentro de um túnel. “O lugar era escuro, mas estava ciente de que me movia em direção a uma luz”, diz.

Quando alcançou a abertura do túnel, a música que tinha ouvido antes se transformara em hino (semelhante ao que ela escutou anos mais tarde, na EQM posterior). Então ela “rolou para fora” e deu-se conta de que estava deitada na grama. Estava rodeada por árvores e flores e grande número de pessoas, em um lugar de intensa luz, que podia sentir tão bem quanto ver. Até as pessoas que ela viu eram brilhantes. “A luz transmitia paz, amor e era como se isso viesse do ambiente, dos pássaros e das árvores.”

Vicki então tomou consciência da presença de pessoas que ela havia conhecido em vida e a estavam acolhendo naquele lugar. Havia cinco pessoas já falecidas que ela conhecera. Diane e Debby eram colegas cegas da escola, com 6 e 11 anos, respectivamente, na época de sua morte. Além de cegas, ambas tinham um retardo mental profundo, mas agora pareciam brilhantes, belas, saudáveis – e muito vivas. E já não eram crianças. Vicki distinguiu ainda um casal de cuidadores seus na infância, o senhor e senhora Zilk. Finalmente, Vicki viu sua avó, que se aproximou para abraçá-la. Vicki disse que, nesses encontros, nenhuma palavra foi dita: mas tinha consciência dos sentimentos de amor e bem-estar. No meio desse arrebatamento, ela de repente foi dominada por uma sensação de conhecimento total. “Tive a impressão de que sabia tudo e de que tudo fazia sentido. Eu só sabia que este era o lugar onde eu iria encontrar as respostas para todas as perguntas sobre a vida, sobre os planetas, sobre Deus e sobre tudo… Era como se o lugar fosse o próprio conhecimento.”

Ela relata que, em dado momento, se viu na presença de um “ser de luz”, profundamente amoroso, que lhe mostrou uma espécie de filme de toda a sua vida e a advertiu de que ela deveria voltar. “Em seguida, fui conduzida de volta ao meu corpo, que estava terrivelmente doloroso, muito pesado, e me lembro que eu me senti muito mal.”.

O ponto mais discutível na EQM de Vicki e de todos os pacientes cegos de nascença é a questão de como alguém que nunca teve experiência da visão possa, de repente, ver – e compreender o que está vendo. O cego de nascença tem a experiência das formas (pois pode tocar), do olfato, da audição e das palavras, mas nunca viu absolutamente nada. E nem sequer tem a experiência do que significa ver. Em última análise, pode-se perguntar como uma pessoa em coma devido a graves lesões cerebrais, cega desde o nascimento, pode ter visões tão nítidas, algumas das quais puderam ser comprovadas. O que se sabe com certeza é que os relatos de pessoas cegas que passaram por EQM constituem um desafio para a ciência e nos obriga a repensar o que sabemos sobre consciência e cérebro.

CASOS DE EPILEPSIA

Pacientes com epilepsia do lobo temporal têm sido objeto de estudo por apresentarem manifestações críticas parecidas com as descritas em EQM. Os doutores em psicologia e neurociência Willoughby B. Britton e Richard R. Bootzim, da Universidade do Arizona, analisaram 43 pacientes com epilepsia temporal, dos quais 23 apresentaram EQM com pontuação mínima na escala de Greyson.

Um trabalho publicado na Nature por Olaf Blanke, diretor do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Instituto Cérebro-Mente, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, teve grande repercussão nos meios científicos e na mídia em geral. Ele descreveu o caso de uma paciente epiléptica que, após estimulação elétrica do córtex do giro angular, viveu a sensação de sair do corpo. Como ela se viu no teto do centro cirúrgico, mas teve uma visão deformada de suas pernas, o fenômeno é chamado pelos especialistas de “incompleto”.

Em outro artigo, Blanke propôs uma nova explicação neurológica para esse fenômeno. O pesquisador descreveu seis pacientes, três com relatos de saídas do corpo atípicas e incompletas, que não tiveram percepção “a partir do teto” de elementos verificáveis concernentes a eles mesmos ou ao ambiente. Quatro deles relataram ter tido a visão de seu próprio duplo a partir do seu corpo. Blanke considerou a de corporação como “uma ilusão causada pela disfunção temporária ou lesão no lobo temporal e ou parietal”.

O pesquisador Michael Persinger, que realizou grande número de experimentos de estimulação magnética transcraniana, afirma ter desencadeado fenômenos psíquicos causados pelo bloqueio ou pela estimulação de campos eletromagnéticos do cérebro. Os fenômenos são episódios próximos do sonho, semimísticos, com luz ou música e sensação da presença de outros seres. Essas informações guardam alguma semelhança com as descrições de uma EQM. Por outro lado, o trabalho de Persinger não foi corroborado por experimentos semelhantes realizados na Suécia, onde os pacientes nem sequer sabiam que seriam estimulados.

SOB EFEITO DE DROGAS

Apesar de intensos esforços de cientistas, nenhum estudo esclarece completamente ainda como um indivíduo é capaz de manter a consciência de forma aguda ou mais alerta em uma situação de quase morte. Mas algumas situações são capazes de provocar experiências parecidas, como o aumento de concentração sanguínea de CO2 (hipercapnia) e a hipóxia cerebral por baixa perfusão sanguínea resultante da aceleração rápida de pilotos de avião, bem como a hiperventilação seguida por manobra de Valsava (diminuição do fluxo sanguíneo venoso para o coração, o que faz com que os batimentos sejam acelerados e a pressão arterial se eleve de modo a não faltar sangue e oxigênio para o cérebro; para pessoas saudáveis e treinadas, essa manobra não traz nenhuma consequência prejudicial).

O efeito foi constatado também após a ingestão de algumas drogas, como ketamina. O papel das endorfinas, das encefalinas e da serotonina também tem sido mencionado, da mesma forma que experiências fora do corpo foram relatadas com o uso de LSD, psilocarpina e mescalina. Essas vivências induzidas podem consistir em períodos de inconsciência, sensação de estar fora si, flash ou luzes e recordações de cenas do passado. Tais lembranças, no entanto, consistem em fragmentos e memórias aleatórias, e não em uma revisão panorâmica da própria vida relatada durante a EQM. Por outro lado, a transformação pessoal do modo de vida e a perda do medo da morte raramente ocorrem nas situações induzidas. É sabido que drogas de fato podem produzir efeitos alucinógenos e sensações muito parecidas com as descrições de pessoas que tiveram EQM. É o caso do LSD e da dimetiltriptamina (DMT), porém, no caso desta última, os efeitos são muito breves porque é rapidamente decomposta pelo organismo.

Pim van Lommel enfatiza que é muito provável que o DMT naturalmente produzido pelo corpo pode ter papel importante na experiência de consciência ampliada durante EQM. Sua liberação, provocada ou estimulada por acontecimentos dos quais temos consciência, reduziria as inibições naturais de nosso organismo e proporcionaria a ampliação da consciência – como se ela fosse capaz de bloquear ou interromper a interface entre consciência e corpo (e cérebro). O autor salienta que o zinco é indispensável à síntese da serotonina e outras substâncias do mesmo tipo, como o DMT, por exemplo. Com o avançar da idade, a taxa desse metal no organismo diminui – o que talvez ajude a explicar o fato de que a taxa de EQM diminui com a idade. Tudo indica, no entanto, que algum outro mecanismo neurofisiológico desconhecido e neuro-humoral, no nível subcelular do cérebro, pode exercer papel importante em situações críticas, como a morte clínica.

Com a falta de evidências ou outra teoria sobre EQM, a ideia até agora assumida – mas nunca comprovada – de que a consciência e as memórias estão localizadas no cérebro deve ser discutida. Como poderia uma consciência claramente fora do corpo ser experimentada no momento em que o cérebro já não funciona durante um período de morte clínica, sem registro de atividade elétrica no cérebro? Por outro lado, durante parada cardíaca, o eletroencefalograma (EEG) torna-se isoelétrico, na maioria dos casos, após dez segundos do início da síncope. Além disso, pessoas cegas descreveram a percepção visual durante experiências fora do corpo no momento dessa vivência. As EQMs vão ao limite das ideias médicas a respeito da consciência e da relação mente-cérebro. Alguns autores, entretanto, admitem que as experiências de quase morte podem ocorrer em decorrência do estado de mudança da consciência, no qual a identidade, a cognição e a emoção funcionam independentemente do corpo inconsciente, mas retêm a possibilidade de percepção não sensorial. Qualquer que seja a explicação para os relatos de EQM, o fato é que os conhecimentos atuais excluem a possibilidade de formular uma teoria integrada para explicar esse fenômeno, o que deve servir de motivação e estímulo para novas pesquisas.

O QUE É EQM?

Uma experiência de quase morte (EQM) é a lembrança (recontada) de todas as impressões experimentadas durante um estado de consciência particular, marcada por elementos específicos como visão de túnel, luz, filme da própria vida, personagens mortos ou associados ao momento da reanimação. Segundo o médico Pim van Lommel, esse estado mental pode se produzir durante uma parada cardíaca, o chamado período de morte clínica, mas também durante uma doença grave ou mesmo sem causa médica aparente. A experiência provoca quase sempre mudanças essenciais e duráveis na atitude da pessoa em relação à vida, incluindo a perda do medo da morte.

Trata-se de uma vivência altamente subjetiva e pessoal, mas fatores individuais, culturais e religiosos determinam a maneira como esses fenômenos são descritos e interpretados. Uma criança provavelmente não empregaria as mesmas palavras que um adulto, e o testemunho de um cristão certamente é diferente do de um budista ou de um agnóstico.

“As experiências de quase morte são eventos psicológicos profundos, contendo elementos transcendentais e místicos, que se produzem geralmente nos indivíduos próximos da morte ou em situação de dano físico ou emocional grave”, diz o psiquiatra Bruce Greyson, pesquisador da Universidade de Michigan e autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs.

MEMÓRIAS DO OUTRO LADO

Na cabeça de quem voltou da morte3

Moody e outros autores destacam pontos em comum encontrados nos relatos de pessoas que passaram por essa situação.

  • Apesar de os pacientes estarem em situação de doença grave ou acidente, a sensação emocional prevalente é de bem-estar, paz e alegria.
  • A atividade mental se torna mais aguçada; a lembrança é clara e as pessoas têm a convicção de que ela é até mais real do que as vividas no estado de vigília.
  • Ainda assim, apresentam dificuldade para explicar a vivência e relatam que não conseguem expressar com palavras a amplitude do que viveram.
  • Pessoas se referem à sensação de viver experiências fora do corpo (EFCs) como se observassem “de fora de si” eventos que transcorreram próximos a elas ou em um local distante
  • Muitos falam de ter, em algum momento, passado por uma região de escuridão ou por um túnel sem luz.
  • É frequente citarem que, após essa travessia pela escuridão, veem um cenário de grande beleza.
  • Geralmente, em algum momento da experiência encontram parentes e amigos já falecidos.
  • Fazem referência a uma luz extraordinariamente brilhante que, no entanto, não ofusca a visão, às vezes percebida como um “ser de luz” que emana aceitação, amor incondicional e pode comunicar-se telepaticamente – Pacientes costumam se lembrar de ver e reviver acontecimentos importantes e incidentais de sua vida como se fosse um filme.
  • Em dado momento da vivência, percebem que chegaram a uma espécie de fronteira além da qual não podem ir.
  • Têm a sensação de ter “retornado” ao corpo físico de forma involuntária, algo muitas vezes vivido com desagrado, dada a paz que sentiam antes.

FELIPE LEAL é psiquiatra, mestrando em antropologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

MATEUS SILVESTRIN é psicólogo, mestrado em neurociência e cognição pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

RAQUEL GIACÓIA LEAL é psiquiatra do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise (Nesme).

EDSON AMÂNCIO é neurocirurgião, pós-graduado pela Unifesp. Os autores agradecem ao físico teórico Carlos de Moura Ribeiro Mendes as inúmeras sugestões e o entusiasmo com esta publicação.

GESTÃO E CARREIRA

A farsa do expediente

A FARSA DO EXPEDIENTE

Mostre ao chefe: Trabalhar menos horas por dia pode ser mais produtivo.

Em vez do clássico expediente de trabalho de oito horas, que tal reduzi-lo para três? Parece sonho de preguiçosos, mas tem respaldo científico: estudo da consultoria britânica Vouchercloud, que avaliou o desempenho de quase 2 mil funcionários de vários setores, constatou que, em média, os pesquisados trabalham realmente apenas duas horas e 53 minutos por dia. O restante do expediente se escoa em outras atividades não relacionadas ao trabalho, como checar redes sociais, tomar lanchinhos ou socializar. A neurociência explica o fato: nosso cérebro não consegue manter o foco em alguma tarefa por muito tempo. A maioria de nós mal resiste durante minutos. O problema se agrava ao longo do dia. Conforme se aproxima o fim do expediente, declina o poder de concentração.

O estudo põe em dúvida o que diz a sabedoria convencional sobre jornadas longas e a tentativa de evitar qualquer distração (que, normalmente, fracassa). A intensidade da dedicação deve ser administrada com critério: pessoas mais produtivas não necessariamente se dedicam o tempo todo, sem interrupções, mas sim se concentram na tarefa por um tempo e depois se permitem uma pausa planejada, conforme constataram os autores. Eles sugerem redução de expediente como um caminho possível para melhores resultados. A Amazon avalia isso. A empresa começou uma experiência com algumas dezenas de funcionários: permite jornadas de cinco horas durante quatro dias por semana e folgas às sextas-feiras. Os resultados dessa experiência permanecem em sigilo.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Onde não moram as lembranças

ONDE NÃO MORAM AS LEMBRANÇAS

Não basta usar drogas para apagar lembranças dolorosas, como durante muito tempo cientistas acreditaram, pois elas persistem profundamente no interior de células cerebrais; a constatação abre novas perspectivas para a compreensão do Alzheimer.

Apesar de abstratas, intangíveis e muitas vezes pouco consistentes, nossas memórias têm uma sólida base biológica. Segundo a neurociência clássica, elas se formam quando células cerebrais enviam às suas vizinhas, sinais de comunicação química através das sinapses (espaços entre as células), ou para entroncamentos que as conectam. Toda vez que uma memória é ativada, a conexão é fortalecida. A noção de que sinapses armazenam memórias dominou a ciência por mais de um século, mas um novo estudo realizado por especialistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles pode derrubar essa interpretação ao sugerir que memórias talvez residam no interior de células do cérebro. Se for corroborado, esse trabalho pode ter implicações – para o bem e para o mal – no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático, condição marcada por memórias dolorosamente vívidas e intrusivas. Há mais de uma década cientistas começaram a examinar a droga propranolol para o tratamento do distúrbio. Acreditava-se que ela impedisse a formação de memórias ao bloquear a produção de proteínas necessárias ao armazenamento de longo prazo. Infelizmente a pesquisa logo deparou com um problema: a não ser que fosse ministrado imediatamente após o evento traumático, o procedimento era totalmente ineficaz.

Ultimamente, pesquisadores têm trabalhado em uma solução alternativa: evidências sugerem que, quando alguém ativa uma memória, a conexão não só é fortalecida como também se torna temporariamente suscetível a mudanças, um processo chamado reconsolidação da memória. Ministrar propranolol (acompanhado de terapia, e talvez estimulação elétrica e até outras drogas) durante essa “janela” pode permitir que cientistas bloqueiem a reconsolidação, apagando ou eliminando a sinapse no local.  A possibilidade de eliminar lembranças chamou a atenção de David Glanzman, neurobiólogo da Universidade da Califórnia que começou a estudar o processo em Aplysia, um molusco parecido com uma lesma-do-mar utilizado comumente em pesquisas neurocientíficas. Ele e sua equipe aplicaram leves choques elétricos nos animais, criando uma memória do evento expressada como novas sinapses no cérebro. Em seguida, transferiram neurônios do molusco para uma placa de Petri e ativaram quimicamente a lembrança dos choques, ministrando, em seguida, uma dose de propranolol.

De início, a droga pareceu confirmar pesquisas anteriores ao neutralizar a conexão sináptica, mas, quando as células foram expostas a um lembrete dos choques, a memória voltou com força total em 48 horas. “Ela foi completamente restabelecida; isso parece significar que a memória não estava armazenada na sinapse”, diz Glanzman. Os resultados foram divulgados recentemente na publicação científica eLife, de acesso aberto. Se a memória não está localizada na sinapse, então onde está? Quando os neurocientistas investigaram mais de perto as células cerebrais, descobriram que mesmo quando a sinapse era apagada mudanças moleculares e químicas persistiam após o disparo inicial dentro da própria célula. O traço mnêmico, ou engram, podia ser preservado por essas alterações permanentes. Alternativamente, ele podia ser codificado em modificações no DNA da célula responsáveis pelo modo como genes específicos são expressos. Glanzman e outros favorecem esse raciocínio.

O neurocientista alemão Eric R. Kandel, ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2000 por seu trabalho sobre memória e atualmente na Universidade Colúmbia, adverte que os resultados do estudo foram observados nas primeiras 48 horas após o tratamento, um período em que a consolidação ainda é sensível. Embora preliminares, os resultados sugerem que, para pessoas com estresse pós-traumático, simplesmente tomar certos medicamentos muito provavelmente não elimina memórias dolorosas – até por- que, ainda que o fato em si fique esmaecido na lembrança, as emoções (ou afetos, como dizem os psicanalistas) ligadas à situação que causou sofrimento – bem como seus efeitos – permanecerão até que haja elaboração.

“Se tivessem me perguntado há dois anos se seria possível tratar o estresse pós-traumático com um bloqueio medicamentoso, eu teria dito sim, mas agora não penso mais assim”, admite Glanzman. Segundo ele, a constatação de que as memórias persistem profundamente no interior de células oferece novos caminhos para estudar e compreender transtornos ligados à memória, como a doença de Alzheimer.

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 300

GESTÃO E CARREIRA

Tuas ideias n]ao correspondem aos fatos

SUAS IDEIAS NÃO CORRESPONDEM AOS FATOS?

A dificuldade em ler corretamente o cenário e ficar preso no autoengano pode prejudicar sua trajetória profissional. Aprenda como se proteger desse problema.

“Mentir para os outros é exceção. A principal mentira é aquela que contamos para nós mesmos!” A frase é do filósofo alemão Friedrich Nietzsche e está nas pequenas distorções da realidade que aparecem em todos os momentos desde adiantar o relógio para acordar mais cedo até adiar por mais um dia o começo de uma dieta ou o término de um relacionamento. Mas viver “negando as aparências e disfarçando as evidências”, como diz a música sertaneja, pode ser muito danoso para a vida profissional. É o que mostra o resultado de uma pesquisa da consultoria Leadership IQ, feita durante quatro anos com 1085 conselheiros de 286 empresas, que descobriu que23% dos CEOs demitidos perderam o emprego por que negavam a realidade. Esses executivos sentiam dificuldade em perceber os fatores negativos das companhias que lideravam, o que prejudicava a tomada de decisões. Alguns deles, segundo os pesquisadores, também omitiam os acontecimentos ruins.

Esse comportamento está associado ao autoengano, quando nos forçamos a fechar os olhos para o que está acontecendo ao nosso redor ou quando mentimos para nós mesmos. ” O enganador embarca nas próprias mentiras, deixa se levar por elas de modo gradual e crescente e, enfim, passa a acreditar nelas com toda a inocência e boa-fé deste mundo”, escreveu o economista Eduardo Giannetti no livro Autoengano (Companhia das Letras, 256 páginas). Não se trata de um ato deliberado. Uma pessoa que está passando por isso fica cega. E ninguém está livre de enfrentar a situação.

EVITAR A DOR

O erro em ler o cenário acontece porque queremos fugir da dor que um problema ou um rompimento vai causar. É um mecanismo de defesa: ignoramos os sinais do que vai acontecer se as consequências forem negativas. Mas nem todo mundo faz isso da mesma forma. Segundo Roberto Ayimer, professor na Fundação Dom Cabral e consultor de desenvolvimento humano, do Rio de Janeiro, as pessoas reagem normalmente de três maneiras: com a negação dos fatos desagradáveis, que consiste em esconder de si mesmo a realidade; com a minimização, que diminui o problema achando que é algo passageiro; e com a projeção do mal, ou seja, a transferência de responsabilidades para outras pessoas, passando a culpa do problema ao chefe, aos colegas ou até ao mercado.

Flavia Gamonar, de 33anos, acreditou que o problema que estava vivendo não fosse tão ruim assim. Especializada em marketing, a paulista trabalhou como gerente da área numa empresa de tecnologia – e tinha uma trajetória em ascensão. Mas, quando a companhia foi comprada, a sobreposição de funções apareceu. “Vi pessoas novas chegando e fazendo meu trabalho. De repente, o CEO parou de responder aos meus e-mails e eu mudava de chefe toda semana. Apesar de todos os indícios, acreditava que nada ameaçaria meu emprego”, diz Flávia. Ela ignorou até os sinais do próprio corpo: acordou um dia sem a capacidade de interpretar textos por causa do estresse e ficou afastada durante dez dias. Duas semanas depois de retornar ao trabalho, recebeu uma carta, uma medalha e um crachá de cor diferente: tinha acabado de completar quatro anos de companhia A felicidade pelo reconhecimento mal durou 24 horas: no dia seguinte, foi demitida. “Sentia o clima pesado, sabia que tinha algo errado, mas preferi esconder de mim mesma. Fiquei chocada com o desligamento”, afirma Flavia. Desempregada, seu comportamento não mudou rapidamente. “Acreditava que apareceria uma vaga do céu. Mandava um ou outro currículo para alguém e achava que tinha feito a minha parte. Demorei seis meses para entender que dependia de mim”, diz. Ela acionou contatos, começou a escrever sobre o assunto nas redes sociais e conseguiu se recolocar. “Quando voltei a trabalhar, entendi que uma nova demissão poderia vir e que era necessário fazer a leitura do ambiente e ter um plano B”, afirma. Os textos que postava em suas redes começaram a fazer tanto sucesso que, de plano B, viraram plano A. Hoje, Flavia tem o segundo perfil mais seguido do Brasil no LinkedIn, com 700000 inscrições, e dedica-se ao doutorado em mídia e tecnologia e à carreira de docente na ESPM.

APRENDER COM OS ERROS

Essa falha em ler a realidade não surge de uma hora para a outra – é uma crença que nós sedimentamos ao longo de nossas trajetórias. “Quando o ser humano tem sucesso na repetição de determinada atividade, ele passa a realizar aquele comportamento de forma automática, esperando um resultado especifico”, afirma Guy Cliquet, coordenador de pós-graduação lato sensu do Insper, de São Paulo. E se, no passado, a pessoa teve sorte deque tudo desse certo, apesar das más noticias, pode ser que, agora, acredite que basta ignorar os problemas para conquistar seus objetivos. Só que Isso é péssimo para a carreira – e para os negócios das companhias.  “A falha é parar de questionar suas decisões e escolher uma opção baseada apenas nas experiências anteriores. Tal atitude aumenta a chance de autoengano”, diz Guy. O importante é perceber que se está trilhando um caminho irreal e corrigir a rota.

Foi o que fez Eduardo Fregonesi, de 39anos, CEO da Synapcom, empresa de serviços de gestão de e-commerce, de São Paulo, que usou sua experiência de autoengano para se tornar um líder melhor. Durante sete anos, ele investiu numa marca de roupas. Apesar dos resultados negativos, colocava mais dinheiro, abria novas frentes do negócio, fazia reestruturações, acreditava numa mudança milagrosa de mercado. Mas as coisas não iam para a frente. Até que não havia mais nada a fazer a não ser encerrar as operações. “Essa situação fez com que eu aprendesse a separar a resiliência da teimosia. Eu era tão apegado ao negócio que fiquei cego para os fatos. Ser otimista e acreditar na empresa é muito bom, mas só quando os números comprovam essa percepção, diz Eduardo. “Aprendi que é preciso sempre estudar o cenário e me cercar de pessoas que saibam mais do que eu sobre determinadas áreas. Ninguém precisa fazer tudo, mas precisa saber escolher os profissionais certos.”

DE OLHO NOS SINAIS

Esse comportamento está associado até mesmo ao nível de engajamento que um profissional tem dentro de uma companhia. Quando o nível é baixo, o problema pode ser o fato de a pessoa desconfiar de tudo e todos. Mas, às vezes, o nível de confiança é perigosamente alto demais. Foi o caso de Léo Alves, de 40 anos. Coordenador de remuneração da Odebrecht durante oito anos, ele viu a companhia inundar as manchetes dos jornais com informações sobre o envolvimento da empreiteira em grandes esquemas de corrupção. Mas Léo não acreditava que aquilo fosse verdade – nem mesmo depois da prisão do presidente Marcelo Odebrecht em junho de 2015. Do episódio em que os funcionários se reuniram na frente da empresa usando uma camiseta com a frase “Somos todos Odebrecht”, ele só não participou porque estava viajando. Foi sua terapeuta que o alertou para o autoengano. Mas levou um tempo até o profissional reconhecer que estava mentindo para si mesmo. Apenas em agosto de 2016 Léo pedi demissão e passou a se dedicar a uma formação de coach. “É um processo doloroso. Quando você percebe que está racionalizando os fatos, se sente traído por si mesmo”, afirma.

Para não cair nessa armadilha, é importante ficar aberto aos sinais internos e externos. Conversar com pessoas da área e de fora dela, com históricos diferentes, é fundamental. Afinal, como escreveu Eduardo Giannetti, “o autoengano não é a ignorância simples de não saber e reconhecer que não sabe. Ele é a pretensão ilusória e infundada do autoconhecimento”. Contra esse veneno, só o questionamento constante e o conhecimento de si próprio podem servir de antídotos.

Tuas ideias n]ao correspondem aos fatos2

AJUSTE DE FOCOS

As atitudes para passar a enxergar a realidade como ela é

DIVERSIFIQUE SUA REDE DE CONTATOS – Quanto mais visões diferentes, menos iscos de você se fechar em uma bolha e parar de enxergar o ambiente e o que acontece ao seu redor.

FIQUE ATENTO AOS FATOS – Pessoas que estão se auto enganando tendem a distorcer ou a inventar razões para legitimar seus pensamentos. Observe a situação como ela realmente é. A tendência de quem está nessa situação é racionalizar os problemas e os comportamentos equivocados.

LIDE COM OS PROBLEMAS IMEDIATAMENTE – Procrastinar decisões ou conversas difíceis porque elas são desagradáveis só aumentarão o problema e seus impactos.

CERQUE-SE DE CRÍTICOS – É muito comum, principalmente na liderança, que os profissionais busquem se rodear dos que concordam com sua forma de pensar. Quando não há ninguém questionando suas decisões, fica mais fácil cair no autoengano.

PENSE À LONGO PRAZO – Quem está num ciclo de autoengano tem tendência a olhar para o curto prazo e esperar mudanças milagrosas. Analise os fatos e pense em quais podem ser as consequências para o futuro se o cenário se mantiver exatamente assim.

 

Fonte: Revista Você S.A – Edição 238